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20/05/2004 - Guitarra = Piano!

A guitarra pode solar e acompanhar ao mesmo tempo, como o piano? E ainda fazer o baixo
simultaneamente?

Como assim? A guitarra pode solar e acompanhar ao mesmo tempo, como o piano? E ainda
fazer o baixo simultaneamente? Sim, e é assim que pensam os adeptos do fingerstyle, o estilo dos
guitarristas que fazem uma abordagem pianística da guitarra e que não tocam com a palheta, e sim
com os dedos.

Os precursores mais notáveis deste estilo foram George Van Eps (também pioneiro da
guitarra de sete cordas) e Barney Kessel. Mas quem explorou muito o fingerstyle e ficou
fortemente associado a ele foi o grande mestre Joe Pass.
Ele gravou, a partir de 1974, uma série de discos chamada “Virtuoso”, formada por cinco CDs
(quatro em estúdio e um ao vivo) onde toca guitarra solo, sem nenhum outro músico.
Esses discos elevaram definitivamente a guitarra à condição de instrumento solista, na
acepção mais completa da palavra. Já haviam sido lançados, até então, muitos discos de piano solo,
em que o pianista fazia a sua leitura de algum standard, tocando a melodia, a harmonia e o baixo
simultaneamente, e ainda improvisando e se acompanhando ao mesmo tempo. Mas o “Virtuoso
n.1” é, senão o primeiro (Van Eps lançou “My Guitar” em 1966), o mais conhecido disco
inteiramente de guitarra solo, onde o mestre mostrou todo o potencial polifônico da guitarra.

Com o tempo o estilo foi se desenvolvendo mais, principalmente graças à grande contribuição
do incrível Lenny Breau (que assinou a coluna “Fingerstyle Jazz” da Guitar Player americana de
1981 até sua morte precoce no final de 1984), seguido do ultravirtuoso inglês Martin Taylor e do
mestre Tuck Andress.

A idéia do fingerstyle é que, se tocar utilizando ao menos os dedos p, i, m e a da mão direita


(Lenny Breau usava fluidamente o mindinho), é possível sincronizar a melodia com o
acompanhamento e, com um pouco mais de estudo, com o baixo também.
Para isso é necessário pensar como um pianista, que precisa concatenar esses três itens o
tempo todo, podendo tocar um ou dois deles por vez ou os três itens simultaneamente. E isso não
apenas ao executar a melodia, ao improvisar também.
Aliás, o desafio de tocar o baixo junto com o solo motivou o excepcional Charlie Hunter a
unir os dois instrumentos, tocando uma guitarra de 8 cordas em que as três cordas superiores são de
baixo mesmo.

No fingerstyle há três categorias básicas:

1. Bloco, onde melodia e harmonia coincidem constantemente e quase não há baixo;


2. Melodia e apoio (sem baixo), onde a divisão da harmonia independe da melodia (como no
piano) e
3. Arranjo completo, com melodia, acompanhamento e baixo independentes (a especialidade
de Martin Taylor).

Veja alguns exemplos práticos:

O Ex. 01 mostra o começo de “Tune Up”, de Miles Davis. Repare que há três vozes
independentes (melodia, acompanhamento e baixo), que podem coincidir ou não.

Exemplo 01:
E como a MPB casa muito bem com o fingerstyle, o Ex. 02 mostra os primeiros compassos de
A Felicidade de Tom Jobim, com bastante movimentação na voz do baixo, sincopas na melodia e
contratempos na harmonia.

Exemplo 02:

20/05/2004 - Tortura Chinesa (Exercícios para a independência dos dedos)

Não há aluno de violão ou guitarra que não tenha praticado alguma vez o velho e clássico
exercício “1,2,3,4”, que consiste em tocar essa seqüência dos dedos, uma vez em cada corda,
começando pela 6a corda, indo até a 1a e voltando. Há 24 variações do famoso “1,2,3,4” , por
exemplo, “1,2,4,3”, “3,1,2,4” ou 4,2,1,3”.

Mas o que vamos mostrar aqui é uma variante do tradicional “1,2,3,4” bem mais difícil, ideal
para desenvolver a independência e a força dos dedos.

A ideia é simples: em lugar de tocar –em qualquer combinação – os quatro dedos, vamos
deixar “presos” (isto é, pressionando a corda ) dois desses quatro dedos e movimentar os dois dedos
restantes.

Por exemplo, podemos prender na quarta corda os dedos 1 e 3 e tocar “2,4”, começando na 6a
corda, chegando à 1a e voltando, sempre mantendo os dedos 1 e 3 presos, sem levantá-los ou tirá-
los da 4a corda..
Repare que quando você tocar o dedo 2 na 4a corda não vai sair a nota certa porque há um
outro dedo na frente dela (o dedo 3 preso), o que faz com que som do exercício fique estranho, mas
é só ao passar por essa corda. Assim, quando os dedos 2 e 4 passarem pela 4a corda, onde estão
presos os dedos 1 e 3, toque normalmente, ignorando os dedos presos.

Dependendo de quais dedos ficam presos, pode haver combinações onde, ao passar pela corda
onde estão esses dedos, todas as notas soarão corretamente ou, pelo contrário, as duas notas dessa
corda não vão soar.
Por exemplo: se prender os dedos 1 e 2 e tocar “3, 4”, todas as notas vão soar corretamente.
Se prender — na 4a corda — os dedos 3 e 4 e praticar “1, 2”, não vão sair as duas notas da 4a corda,
porque há dedos na frente delas.

Veja na prática: No Ex. 1 você deve prender o dedo 1 na quina casa da 4a corda e o dedo 2
na sexta casa da mesma corda e, sem deixar de apertar essas duas notas (e sem tocá-las), pratique
“3, 4” na sequência tradicional: uma vez em cada corda, começando pela 6a corda, indo até a 1a e
voltando. Você pode seguir as mesmas indicações, porém invertendo os dedos que se movimentam,
ou seja, tocar “4, 3” no lugar de “3,4” (Ex. 2)

Exemplo 01:

Exemplo 02:

No Ex. 3, prenda o dedo 2 na casa 6 da 4a corda e o dedo 4 na casa 8 da mesma corda . A


seguir — mantendo os dedos 2 e 4 presos — toque “1,3” uma vez em cada corda, começando pela
6a corda, chegando à primeira e voltando.

Exemplo 3:
E por último, no Ex. 04, pressione a quinta casa da 4a corda com o dedo 1 e a sétima casa da
4a corda com dedo 3 e, mais uma vez, sem tirar os dedos 1 e 3 da casa onde estão, toque “4,2” uma
vez em cada corda, da 6a corda até a 1a e voltando.

Exemplo 4:

Há muitos exercícios nessa linha, com combinações descendentes ou prendendo somente um


dos quatro dedos. O objetivo é obter a independência de cada dedo em relação aos outros e, assim,
conseguir mais força, velocidade e precisão. Não é lá um exercício dos mais divertidos, mas dá
muito resultado!

25/05/2004 - O Violão de João Bosco

O homem é mineiro, branco e ainda por cima, neto de libaneses, mas tem um balanço
inconfundível e -às vezes- inacreditável...

O Violão de João Bosco:


(Esta lição foi originalmente publicada na revista Guitar Player de 09/03)

O homem é mineiro, branco, neto de libaneses, mas tem um balanço inconfundível, arrasador
e muitas vezes, inacreditável. Uma "pegada" única, dificílima de imitar. Estamos falando de João
Bosco, quem, além de grande violonista, é um dos maiores compositores da música brasileira.

Bosco é o típico instrumentista com estilo próprio, aquele músico que basta ouvir algumas
notas para reconhecê-lo. E esse seu estilo é caracterizado por alguns interessantes recursos que ele
sabe utilizar muito bem:

1. Os acentos. Eles ficam mais evidentes nos sambas e com eles João consegue uma grande
variação de dinámica e um notável colorido rítmico.
2. As "entrelinhas", que são aqueles ruídos que ele coloca de propósito, criando um ótimo
efeito percussivo (este ítem é a especialidade de outro grande fera, o Lenine)
3. A independência dos dedos da mão direita. Ao acompanhar, João Bosco separa o polegar
dos dedos i, m, e a. Esse recurso lhe permite tocar linhas de baixo sincronizadas com figuras
rítmicas complexas.
4. A distribuição dos acordes. João costuma tocar acordes muito "violonísticos", aqueles
acordes construídos com distribuições que aproveitam bastante as cordas soltas e funcionam
apenas no violão.

A sua batida de samba é lendária, tanto pelo suingue quanto pelos andamentos rápidos em que
consegue tocar, mas ele é muito bom também em outros estilos, principalmente o bolero, ritmo de
muitas das suas composições de sucesso como “Papel Marchê”, “Jade”, “Corsário” e “Quando o
Amor Acontece”.

Os exemplos de batidas apresentados aqui foram extraídos da versão solo e ao vivo de


Corsário, um bolero tocado com uma divisão rítmica muito suingada e original, diferente da divisão
básica do estilo.

O Ex.01 mostra a batida básica. A cifra desses acordes sempre gera controvérsias pois são
distribuições raras e, como dissemos antes, muito violonísticas.
Repare que as notas "Re", "La" e "Re" do quarto tempo do primeiro e segundo compassos são
tocadas com ligado. Para isso, toque as três notas na quinta corda, percutindo (com o polegar)
somente a primeira das três.
O Ex. 02 e o Ex. 04 mostram variações dessa batida. E o Ex. 03 é uma ótima amostra do uso
das cordas soltas.

João Bosco, como todo músico intuitivo, nunca toca duas vezes do mesmo jeito uma música.
Por isso, há versões de Corsário em que, em lugar de tocar "Re", "La", "Re" , ele toca "Sol", "Mi",
"Sol" na sexta corda.

Partitura 01: