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Sentença.
Coisa julgada.
Homologação de
sentença estrangeira
e ação rescisória
Sentença. Coisa julgada. Homologação de
sentença estrangeira e ação rescisória

Introdução

Ultrapassada a fase instrutória, o processo se encaminhará para a fase final, em


primeira instância, onde o juiz proferirá sentença de mérito, esgotando sua atividade
jurisdicional. É bem verdade que a sentença não põe fim ao processo, considerando
que recursos poderão ser interpostos, mas esgota a atividade jurisdicional em pri-
meiro grau de jurisdição. Por essa razão, o estudo da sentença, enquanto principal
ato do juiz de primeiro grau, se reveste de grande importância, pois a parte somente
poderá recorrer de forma segura se compreender os requisitos da sentença e também
as regras concernentes à obrigatoriedade de fundamentação aprofundada.
Neste último capítulo, abordaremos a sentença em sua extensão, além dos
fenômenos processuais que dela decorrem, tais como a coisa julgada e a ação res-
cisória. São temas fundamentais no processo civil constitucionalizado, abordados
de forma detalhada no CPC/2015.
Abordaremos, ainda, a sentença estrangeira e a possibilidade de sua eficácia no
território nacional. O tema é interessante e integra o denominado direito proces-
sual internacional.

OBJETIVOS
•  Estudar o conceito de sentença e sua classificação no processo civil.
•  Compreender a exigência de fundamentação estruturada da sentença.
•  Analisar as diversas espécies de sentença e sua eficácia.
•  Entender o fenômeno da coisa julgada.
•  Estudar o procedimento da homologação de sentença estrangeira bem como seus requisitos.
•  Estudar as hipóteses de cabimento da ação rescisória e seu respectivo procedimento.

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Sentença: conceito

O CPC/2015 conceitua sentença como o pronunciamento por meio do qual


o juiz põe fim à fase cognitiva do procedimento comum, com fundamento nos
arts. 485 ou 487, bem como extingue a execução (art. 203, §1º). Embora haja cla-
ra orientação no sentido de que não é aconselhável ao legislador elaborar concei-
tos, não há dúvidas de que a definição de sentença exposto no referido dispositivo
legal muito contribui para a compreensão desse importante ato processual do juiz.
É sabido que a sentença não põe fim ao processo. Publicada a decisão, as par-
tes poderão interpor alguns recursos, o que submeterá a sentença ao duplo grau
de jurisdição, podendo inclusive ser reformada. Todavia, compreender a sentença
como meio através do qual o juiz põe fim à fase cognitiva nos permite apreender
de forma correta sua função na etapa decisória.
Conforme visto anteriormente, a sentença poderá ter como fundamento uma
das hipóteses do art. 485 (sem resolução do mérito) ou uma das hipóteses do art.
487 (com resolução do mérito). A literatura processual denomina como sentença
terminativa (ou processual) aquela que extingue o processo sem resolução de mé-
rito e sentença definitiva, aquela em que o juiz resolve o mérito.
Bem entendido o conceito de sentença, passemos ao estudo de sua estrutura.

Elementos da sentença

São elementos da sentença, de acordo com o art. 489 do CPC, o relatório, os


fundamentos e o dispositivo. No relatório da sentença (art. 489, I), o juiz retratará
tudo que foi realizado no processo. Nele deverá conter o nome das partes, a identi-
ficação do caso, com resumo da pretensão do autor e da defesa do réu, o registro de
eventuais incidentes processuais e dos principais atos ocorridos no processo.
A principal finalidade dessa parte da sentença é permitir ao juiz inventariar
tudo que ocorreu no processo, de modo a evitar que algum detalhe fique fora
de sua apreciação. Embora o seu conteúdo seja meramente descritivo, o relató-
rio é um elemento essencial da sentença e será nula a sentença que não o tiver.
Entretanto, é dispensado em sede de Juizado Especial Cível, conforme se depreen-
de do art. 38 da Lei nº 9.099/1995.
O segundo e principal elemento da sentença são os fundamentos da decisão.
O art. 93, IX, da CF/1988 dispõe que todos os julgamentos do Poder Judiciário
devem ser fundamentados sob pena de nulidade. Trata-se, portanto, do dever de

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motivar insculpido no texto constitucional. Entretanto, apesar da obrigatoriedade
de fundamentar de forma adequada a decisão judicial, não eram raros os casos
em que o julgador utilizava como fundamento transcrição de julgados do próprio
tribunal ou de tribunais superiores, inviabilizando a adequada compreensão das
partes acerca das razões que o levaram a decidir num sentido ou noutro.
É nesse contexto que o CPC/2015 estabeleceu, de forma peremptória e conclu-
siva, o que será considerado como fundamento adequado de uma decisão. Segundo
a redação do art. 489, §1º, não se considera fundamentada a decisão que:

I – se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem explicar


sua relação com a causa ou a questão decidida;
II – empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo concreto de
sua incidência no caso;
III – invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão;
IV – não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese,
infirmar a conclusão adotada pelo julgador;
V – se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus
fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta
àqueles fundamentos;
VI – deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela
parte, sem demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação
do entendimento.

Assim, o Código exige que o julgador profira decisão com fundamentação es-
truturada, sendo vedado, portanto, reproduzir decisões modelo, transcrever prece-
dentes dos tribunais superiores sem a devida análise qualitativa, deixar de apreciar
todos os argumentos deduzidos no processo ou até mesmo contrariar, sem a devida
justificativa, súmula ou precedente judicial invocado pela parte. O Código especi-
fica, ainda, que nos casos em que houver colisão de normas, o juiz deve justificar os
critérios que utilizou para efetivar a ponderação entre ambas (art. 489, §2º).
É certo que o volume de trabalho do Poder Judiciário, em muitos casos, foi
determinante para que decisões padronizadas ou mesmo com fundamentação es-
correita e simplificada se tornassem rotina, de maneira a permitir que os conflitos
fossem administrados de forma mais célere e racional. Contudo, em nenhuma

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hipótese, estratégias para administrar melhor a prestação da Justiça podem servir
como justificativa para desconsiderar o dever de fundamentar.
No sistema de precedente judicial organizado pelo CPC/2015, onde as de-
cisões judiciais servirão como parâmetro para a criação de direitos em muitos
casos, a legitimidade do Poder Judiciário, para tanto, se encontra na fundamen-
tação das decisões e na participação dos sujeitos processuais na construção da
decisão. Dessa forma, não há como dar legitimidade a uma decisão judicial,
enquanto precedente judicial, se esta é fundamentada de forma superficial ou
obscura sobre a justificação do julgador acerca dos critérios utilizados para se
alcançar aquele entendimento.
Para compreender melhor essa exigência do Código, suponha que o autor
pretenda obter uma indenização por ato ilícito e o réu alega que tal indenização
é indevida por contrariar texto de lei e precedentes judiciais dos tribunais supe-
riores. O juiz, ao sentenciar, deverá, em sua fundamentação, apontar com clareza
as razões pelas quais acolheu a pretensão do autor, como também apontar quais
foram as razões que motivaram o afastamento da aplicação do texto de lei e dos
precedentes judiciais mencionados pelo réu. Essa é a fundamentação exigida pelo
art. 489, §1º, do CPC. Será nula a decisão que descumprir tal preceito. A juris-
prudência sobre o tema ainda não está uníssona acerca da extensão e alcance da
norma, mas não há duvida de que tal regramento seja digno de aplausos.

Anexo 1

Ementa: APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL. AÇÃO


INDENIZATÓRIA. DEMANDA REPETITIVA. SISTEMA DE PONTUAÇÃO
CREDIT SCORING. LEGALIDADE. PARADIGMAS DO STJ. TEMA 710.
SÚMULA 550. EFEITOS ERGA OMNES. APLICAÇÃO DA TESE. ARTS.
332 E 1.040, III, DO NOVO CPC. LEI DO CADASTRO POSITIVO.
DADOS EXCESSIVOS E/OU SENSÍVEIS. TEMA 915 STJ. EXIBIÇÃO DE
INFORMAÇÕES. INOCUIDADE. CADASTRO. EXCLUSÃO INVIÁVEL.
RECUSA DE CRÉDITO AUSENTE. REQUISITOS CUMULATIVOS.
DANO MORAL NÃO CONFIGURADO. DISTINGUISHING. AUSÊNCIA.
MÉRITO. PREQUESTIONAMENTO. ART. 489, §1º, DO NOVO CPC.
SEMINÁRIO ENFAM. 1. A controvérsia sobre a ferramenta credit scoring, cre-
dit score ou crediscore aporta ao Judiciário às dezenas de milhares, traduzindo
demanda repetitiva, cuja apreciação desafia solução diferente da que é empregada

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para processos de condão individual. 2. O STJ, nos paradigmas REsp 1.419.697/
RS e REsp 1.457.199/RS (Tema 710), e na Súmula 550, definiu que o método de
avaliação de risco de concessão de crédito foi considerado lícito, autorizado pelos
arts. 5º, IV, e 7º, I, da Lei 12.414/11, desde que respeitados os limites estabele-
cidos pelo sistema de proteção do consumidor. Inaplicáveis o art. 43 do Código
de Defesa do Consumidor e o art. 4º da Lei 12.414/2011, não se tratando de um
banco de dados. O dano moral só é cabível ante recusa de crédito comprovada,
oriunda de baixa pontuação causada por informação excessiva ou sensível, sendo
os requisitos cumulativos. 3. As decisões do STJ valem para todas as empresas que
exploram o método porque os dois precedentes, um deles extraído de demanda
coletiva de consumo, reúnem os dois polos que comercializam a ferramenta. O
Novo CPC, em seus arts. 332 e 1.040, III, determina a aplicação, em primeiro e
segundo graus, das teses firmadas pelos tribunais superiores. 4. Informações sensí-
veis não são aquelas que a parte, subjetivamente, considera. Prendem-se à origem
social e étnica, à saúde, à informação genética, à orientação sexual e às convicções
políticas, religiosas e filosóficas. Informações excessivas são as que não se vinculam
à análise de risco de crédito ao consumidor, como a opção por determinada agre-
miação carnavalesca ou de futebol. Nenhum desses valores foi trazido aos autos
como tendo sido burilado pela ferramenta, menos ainda considerado, para efeito
de aferição negativa de escore e, em especial, como motivador para recusa de crédi-
to. 5. Sem a recusa de crédito comprovada, não há razão para concitar a parte ré a
apresentar documentos, informações ou dados, pelo menos com respeito à preten-
são de reparo moral. Sobre a pretensão pura de exibir, em sentido similar o Tema
915-STJ. 6. A questão posta nos autos é a mesma pacificada pela jurisprudência de
âmbito federal, sem precisar distinção, afastamento, retificação ou complemento.
Para o distinguishing a parte deveria provar que houve recusa de crédito por nota
baixa nascida de uso de dados incorretos. Sem isso, inócuo o pedido de informações
sobre os dados coletados. Não sendo a ferramenta equivalente a banco de dados,
descabe falar-se também em exclusão cadastral. 7. A hipótese é eminentemente de
direito. O que sobejaria para prova, a par de que deveria vir acompanhada com a
inicial, era alegação que tinha como premissa a ilicitude do sistema de pontuação e,
secundariamente, a recusa em fornecer elementos para aferição do escore conferi-
do à parte demandante. Tais pontos foram afastados pelos paradigmas do Superior
Tribunal de Justiça e pela fundamentação. Correta a decisão, ausente cerceamento
de defesa. 8. Mesmo sob a égide do novo texto de processo pátrio, não é preciso
mencionar item por item, ponto por ponto, os tópicos vertidos pelas partes, já que

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o juiz continua sendo o destinatário da prova, a teor dos arts. 139, e seguintes, c/c
369, e seguintes, do CPC/2015. O art. 489, §1º, do novo digesto processual não
exige que o juiz esmiúce todos os argumentos quando não são eles relevantes para
o deslinde da controvérsia. Nesse sentido Enunciados Aprovados em Seminário
realizado pela Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados
(ENFAM). APELO DESPROVIDO. (Apelação Cível Nº 70073357790, Sexta
Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Jerson Moacir Gubert, Julgado
em 13/04/2017).

AGRAVO DE INSTRUMENTO. TUTELA DE URGÊNCIA.


INDEFERIMENTO. DECISÃO INTERLOCUTÓRIA. AUSÊNCIA DE
FUNDAMENTAÇÃO. NULIDADE RECONHECIDA. POSTERIOR
DECISÃO PROFERIDA EM ATENDIMENTO AO DECISUM QUE
DEFERIU EFEITO SUSPENSIVO. PERDA DO OBJETO. RECURSO
PREJUDICADO. 1. No caso dos autos, o Juízo a quo não apresentou fundamen-
tação acerca dos motivos de fato e de direito a justificar o decisum, mormente os
pressupostos legais para o deferimento, ou não, da tutela de urgência pretendida
pela autora, nos termos do artigo 300 do Código de Processo Civil. Doutrina.
2. Lembre-se que com o advento do Novo Código de Processo Civil constatou-
-se que o legislador buscou conferir maior efetividade ao disposto no artigo 93,
inciso IX, da Constituição Federal, segundo o qual todas as decisões dos órgãos
do Poder Judiciário devem ser fundamentadas. 3. Para tanto, dispôs no artigo
489, §1º, do CPC/2015, de forma exemplificativa, situações em que qualquer
decisão judicial não será considerada fundamentada, dentre as quais quando o
julgador "empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo
concreto de sua incidência no caso" (inciso II) ou "invocar motivos que se presta-
riam a justificar qualquer outra decisão" (inciso III). Com isso, o legislador tentou
evitar a indesejada motivação genérica. Doutrina. 4. Dessa forma, analisando a
decisão agravada, constata-se que ao dispor que "não vislumbro a presença dos
requisitos previstos no art. 300, do CPC", o Juízo a quo acabou por indeferir a
tutela de urgência perquirida, mas sem apresentar qualquer fundamentação hábil
a justificar o decisum proferido, violando, assim, os princípios da ampla defesa
e do contraditório. 5. Assim, impõe-se o reconhecimento da nulidade do referi-
do decisum, por ausência de fundamentação, restando prejudicadas as alegações
apresentadas no agravo. Precedentes do TJRJ. 6. Não obstante o acima exposto,
após proferida decisão determinando que outra seja feita, o juízo a quo proferiu

capítulo 5 • 117
decisão suprindo a ausência de fundamentação acima reconhecida e que serviu
de embasamento para a decisão mencionada deste Relator. 7. Dessa forma, ante a
prolação de nova decisão, devidamente fundamentada, resta configurada a perda
superveniente do objeto do agravo de instrumento interposto. 8. Em que pese a
agravante ter apresentado outros fundamentos, a análise resta prejudicada ante a
fundamentação apresentada pela nova decisão do Juízo a quo, salientando-se que
eventual insurgência contra o decisum posteriormente proferido, deverá ser objeto
de novo recurso, com apresentação de "exposição do fato e do direito" bem como
das "razões do pedido de reforma ou de invalidação da decisão e o próprio pedido"
(CPC, art.1016, II e III) a ensejar a sua reforma e/ou invalidação. 9. Ex officio
anula-se a decisão agravada, restando prejudicado o agravo de instrumento por
perda superveniente do objeto. (0057947-51.2016.8.19.0000 - AGRAVO DE
INSTRUMENTO - Des(a). JOSÉ CARLOS PAES – Julgamento: 01/02/2017 –
DÉCIMA QUARTA CÂMARA CÍVEL – TJRJ).

AGRAVO DE INSTRUMENTO. TUTELA DE URGÊNCIA.


INDEFERIMENTO. DECISÃO INTERLOCUTÓRIA. AUSÊNCIA DE
FUNDAMENTAÇÃO. NULIDADE RECONHECIDA. POSTERIOR
DECISÃO PROFERIDA EM ATENDIMENTO AO DECISUM QUE
DEFERIU EFEITO SUSPENSIVO. PERDA DO OBJETO. RECURSO
PREJUDICADO. 1. No caso dos autos, o Juízo a quo não apresentou fundamen-
tação acerca dos motivos de fato e de direito a justificar o decisum, mormente os
pressupostos legais para o deferimento, ou não, da tutela de urgência pretendida
pela autora, nos termos do artigo 300 do Código de Processo Civil. Doutrina.
2. Lembre-se que com o advento do Novo Código de Processo Civil constatou-
-se que o legislador buscou conferir maior efetividade ao disposto no artigo 93,
inciso IX, da Constituição Federal, segundo o qual todas as decisões dos órgãos
do Poder Judiciário devem ser fundamentadas. 3. Para tanto, dispôs no artigo
489, §1º, do CPC/2015, de forma exemplificativa, situações em que qualquer
decisão judicial não será considerada fundamentada, dentre as quais quando o
julgador "empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo
concreto de sua incidência no caso" (inciso II) ou "invocar motivos que se presta-
riam a justificar qualquer outra decisão" (inciso III). Com isso, o legislador tentou
evitar a indesejada motivação genérica. Doutrina. 4. Dessa forma, analisando a
decisão agravada, constata-se que ao dispor que "não vislumbro a presença dos
requisitos previstos no art. 300, do CPC", o Juízo a quo acabou por indeferir a

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tutela de urgência perquirida, mas sem apresentar qualquer fundamentação hábil
a justificar o decisum proferido, violando, assim, os princípios da ampla defesa
e do contraditório. 5. Assim, impõe-se o reconhecimento da nulidade do referi-
do decisum, por ausência de fundamentação, restando prejudicadas as alegações
apresentadas no agravo. Precedentes do TJRJ. 6. Não obstante o acima exposto,
após proferida decisão determinando que outra seja feita, o juízo a quo proferiu
decisão suprindo a ausência de fundamentação acima reconhecida e que serviu
de embasamento para a decisão mencionada deste Relator. 7. Dessa forma, ante a
prolação de nova decisão, devidamente fundamentada, resta configurada a perda
superveniente do objeto do agravo de instrumento interposto. 8. Em que pese a
agravante ter apresentado outros fundamentos, a análise resta prejudicada ante a
fundamentação apresentada pela nova decisão do Juízo a quo, salientando-se que
eventual insurgência contra o decisum posteriormente proferido, deverá ser objeto
de novo recurso, com apresentação de "exposição do fato e do direito" bem como
das "razões do pedido de reforma ou de invalidação da decisão e o próprio pedido"
(CPC, art.1016, II e III) a ensejar a sua reforma e/ou invalidação. 9. Ex officio
anula-se a decisão agravada, restando prejudicado o agravo de instrumento por
perda superveniente do objeto. (0057947-51.2016.8.19.0000 - AGRAVO DE
INSTRUMENTO - Des(a). JOSÉ CARLOS PAES - Julgamento: 01/02/2017 -
DÉCIMA QUARTA CÂMARA CÍVEL – TJRJ).

Por fim, na parte dispositiva da sentença, o juiz resolverá a questão principal


submetida para a apreciação. É na parte dispositiva que o juiz determinará, com
todas as especificações, a obrigação que deverá ser cumprida pelo réu, nos casos de
procedência do pedido, ou declarará improcedente o pedido. Trata-se de elemento
de fundamental importância, pois sobre ele incidirá os efeitos da coisa julgada ma-
terial. Por exemplo, se o juiz condenar o réu, na parte dispositiva, a pagar a quantia
de R$ 100.000,00, com atualização desde a citação (mas o correto seria desde a
ocorrência do fato), prevalece o critério fixado pelo juiz se a parte não interpuser
o recurso cabível.
O art. 492 do CPC regulamenta o princípio da adstrição (ou correlação) no
sentido de impedir que o juiz profira sentença diversa da pretensão formulada pelo
autor. Assim, se o autor pretende revisão do auxílio-doença, o juiz não poderá jul-
gar procedente o pedido para determinar a aposentadoria por invalidez. Se assim o
fizer, a sentença será declarada nula em razão da violação do princípio da adstrição.

capítulo 5 • 119
Finalizando, o art. 489, §3º, do CPC determina que a decisão judicial, em-
bora tenha três elementos distintos (relatório, fundamentação e voto), deve ser
interpretada a partir da conjugação entre todos os seus elementos, observando-se
o princípio da boa-fé. A norma não admite incoerência, por exemplo, entre rela-
tório, fundamentação e a parte dispositiva.

Elementos da sentença

Apreciação de novos fatos na decisão e a possibilidade de modificação da sentença

Após a fase saneadora, o processo avança para a fase decisória onde o juiz apre-
ciará o mérito da demanda acolhendo ou rejeitando a pretensão do autor. Nessa
fase, o processo se encontra maduro para julgamento, com os fatos controvertidos
claramente definidos e com as respectivas provas produzidas. Entretanto, há certas
circunstâncias em que, após a propositura da demanda, fatos novos, que influen-
ciarão no julgamento do mérito, surgem (constitutivo, modificativos e extintivos)
antes mesmo de o juiz proferir sentença (art. 493). Nesses casos, caberá ao juiz, de
ofício ou a requerimento das partes, considerá-los antes de proferir sentença. É o

capítulo 5 • 120
que ocorre quando, na fase decisória, o réu consegue juntar aos autos o recibo que
comprova o pagamento da dívida. Cuida-se de regra que atende aos princípios da
economia processual e da solução integral do mérito (art. 4º).
Após a publicação da sentença, esta não mais poderá ser alterada pelo juiz.
Mesmo nos casos em que o julgador perceba, após a publicação, que aplicou mal
o direito ao caso concreto, nada poderá fazer se a parte interessada não interpuser
o recurso cabível. Porém, o juiz poderá alterar a decisão proferida nas hipóteses
mencionadas no art. 494 do CPC.
A sentença poderá ser alterada, de ofício ou a requerimento das partes, nos
casos em que houver necessidade de se corrigir inexatidões materiais ou erro de
cálculo (art. 494, I), ou através de embargos de declaração (art. 1.022).

Classificação das sentenças

O exercício do direito de ação permite ao autor formular em juízo pretensão


que tenha como objetivo: a) eliminar a incerteza sobre determinada relação jurídi-
ca (ação declaratória); b) criar, modificar ou extinguir uma relação jurídica (ação
constitutiva); ou mesmo c) condenar o réu ao cumprimento de determinada obri-
gação (ação condenatória). Como consequência, a sentença que julgar procedente
o pedido formulado pelo autor terá o mesmo conteúdo (art. 490). Considerando
essa premissa, a pretensão declaratória será acolhida por uma sentença declaratória
e assim sucessivamente.
Essa classificação trinária não é unívoca na doutrina. Há setores da doutrina
que defendem a classificação da sentença em cinco espécies: declaratória, consti-
tutiva, condenatória, executiva lato sensu e mandamental. Para essa corrente dou-
trinária, a sentença executiva é aquela que se realiza através dos meios de execução
direitos e adequados à tutela específica. Podemos citar como exemplo as sentenças
que determinam o despejo ou mesmo uma obrigação de fazer. Já a sentença man-
damental é aquela que se caracteriza por uma ordem. O juiz não condena, ordena.
Essa ordem tem como principal escopo coagir o réu (MARINONI, 2015, p. 469).
Podemos citar como exemplo o mandado de reintegração de posse expedido em
favor do demandante.
Embora essa corrente doutrinária tenha sua importância no desenvolvimento
do estudo acerca do conteúdo e da eficácia da sentença, nos parece mais adequa-
do compreender que a eficácia executiva e a mandamental sejam desdobramen-
tos ou varáveis da própria sentença condenatória. Ao se pensar a temática dessa

capítulo 5 • 121
perspectiva, a classificação trinária parece ter maior alcance, do ponto de vista
teórico e prático, na prestação da tutela jurisdicional adequada. Passemos, então,
ao estudo de cada uma delas.

Sentença declaratória

Segundo art. 19, I, do CPC, o interesse do autor pode limitar-se à declaração acerca
da existência ou inexistência de uma relação jurídica. Para tanto, deverá o autor promo-
ver a respectiva ação meramente declaratória nos termos do art. 20 do CPC.
O referido dispositivo legal utiliza a expressão meramente declaratória, pois
toda e qualquer sentença possui sua carga declaratória. Nos casos em que o de-
mandante pleiteia a condenação do réu ao pagamento de determinada quantia, o
juiz ao acolher o pedido, declarará a existência do direito afirmado e, num segun-
do momento, condenará o réu a pagar a referida quantia. Essa foi a intenção do
Código ao utilizar a expressão meramente declaratória, ou seja, o autor pretende
tão somente uma declaração judicial acerca da existência ou inexistência de uma
relação jurídica ou sobre seu modo de ser.
Pelo seu próprio conteúdo, a sentença declaratória terá efeito imediato dis-
pensando procedimento executivo. Suponha que determinado cidadão recebeu
uma fatura de um cartão de crédito que nem ao menos solicitou. Embora tenha
ocorrido ilícito, o cidadão pretende tão somente a declaração judicial acerca da
inexistência de relação jurídica com a administradora de cartão de crédito. Nesse
caso, após o trânsito em julgado da sentença declaratória, não haverá mais dúvida
acerca da inexistência de relação jurídica.
Há uma hipótese em que a sentença declaratória será executada: nos casos
em que o juiz fixar honorários sucumbenciais em favor do advogado autor. Nesse
caso, a sentença declaratória será executada para o cumprimento da obrigação de
pagar (honorários de advogado).

Sentença constitutiva

A sentença constitutiva é aquela que cria, extingue ou modifica uma relação jurí-
dica. O divórcio judicial constitui exemplo claro dessa espécie de sentença. Quando o
juiz decreta o divórcio está extinguindo uma relação jurídica, qual seja o vínculo con-
jugal. A sentença que determina a dissolução de uma sociedade empresária ou mesmo
a sentença de interdição (art. 747) é um exemplo claro de sentença constitutiva.

capítulo 5 • 122
O provimento constitutivo pode ser positivo ou negativo (desconstitutiva).
Para Marinoni, Arenhart e Mitidiero (2015), a sentença que decreta o estado de
interdito é positiva ao “criar” o mencionado estado. Por sua vez, a sentença que
decreta o divórcio seria constitutiva negativa ou desconstitutiva, pois desconstitui
o vínculo conjugal.
Por fim, registra-se que a sentença constitutiva também possui eficácia imediata
dispensando procedimento executivo. Transitado em julgado a sentença que decreta
o divórcio, a parte promoverá de imediato a averbação no respectivo cartório.

Sentença condenatória

A sentença condenatória tem como característica principal a condenação


do réu ao cumprimento de uma obrigação. Através dela, o juiz impõe a referida
obrigação que, no caso de descumprimento, ensejará procedimento executivo
de cumprimento de sentença, com seus atos executivos próprios em razão da
obrigação fixada.
A condenação do réu fixada na sentença poderá determinar variadas espécies
de obrigações em desfavor do réu. Poderá fixar a obrigação de pagar dinheiro,
obrigação de fazer ou não fazer, obrigação de entrega de coisa, ou até mesmo
obrigação de emitir declaração de vontade. Em atenção às características dessas
obrigações, elas serão abordadas separadamente.

Sentença que condena em obrigação de pagar

Quando a pretensão do autor tem como escopo a condenação do réu em uma


obrigação de pagar, o juiz, ao julgá-la procedente, determinará o seu devido pagamen-
to fixando na sentença, de forma precisa, o valor e sua forma de atualização. O art.
491 do CPC dispõe que a sentença, nas obrigações de pagar, definirá, desde logo, a
extensão da obrigação, o índice de correção monetária, a taxa de juros, o termo inicial
de ambos e a periodicidade da capitalização dos juros, se for à hipótese.
Embora não conste na redação do referido dispositivo, o juiz deverá, também,
fixar a condenação ao pagamento das despesas (art. 82, §2º) e honorários advoca-
tícios (art. 85). No que tange aos honorários do advogado, se a sentença for omissa
em relação aos honorários e não forem opostos embargos de declaração para suprir
a referida omissão, o advogado deverá ingressar com uma ação autônoma para que
estes sejam fixados (art. 85, §18º).

capítulo 5 • 123
O Código admite que o autor formule pedido genérico quando não lhe for
possível determinar sua extensão (art. 324, §1º). Entretanto, o juiz, mesmo nesses
casos, deverá sentenciar, observando os critérios do art. 491 do CPC, ou seja,
fixando de forma precisa o seu valor, sendo-lhe vedado proferir sentença ilíquida.
A obrigatoriedade não se aplica, por evidente, nos casos em que: a) não é possível
determinar o montante devido (art. 491, I) ou b) a apuração do valor depende da
produção de prova de realização demorada ou dispendiosa, devendo ser registrado
tal fato na sentença. Nessas hipóteses, o valor devido será apurado em liquidação
de sentença (art. 509).
Dispõe o Código, por fim, que a sentença que condenar o réu a pagar pres-
tação em dinheiro valerá como título constitutivo de hipoteca judiciária (art.
495). O autor poderá apresentar cópia da sentença no respectivo registro de
imóveis, para constituição da garantia, tornando-se credor hipotecário com di-
reito de preferência nos casos de concurso de credores na penhora do imóvel. O
registro poderá ocorrer mesmo antes do trânsito em julgado, conforme disposto
no art. 495, §1º do CPC.
Para se compreender em que consiste essa medida, suponha-se que A ajuizou
uma ação de indenização por ato ilícito em face da Empresa B, pleiteando indeni-
zação pelos danos sofridos e o pagamento de pensão vitalícia em razão da sua in-
capacidade permanente para o trabalho. Os pedidos foram julgados procedentes,
sendo a ré condenada ao pagamento de prestação mensal vitalícia, em dinheiro,
no valor de R$ 3.500,00.
Todavia, inúmeros fatos podem ocorrer ao longo do cumprimento dessa obri-
gação pecuniária mensal, podendo a empresa falir, encerrar irregularmente suas
atividades ou mesmo parar de efetuar o pagamento. Nesses casos, o credor poderá
obter a penhora do imóvel hipotecado como forma de garantia do pagamento da
obrigação. Porém, se sobrevier a reforma ou a invalidação da sentença, o credor
responderá por perdas e danos, independentemente de culpa, nos termos do art.
495, §5º, do CPC.
Por fim, a hipoteca judiciária poderá ser utilizada também nos casos de conversão
de obrigação de fazer ou entrega de coisa em obrigação pecuniária (art. 495).

Sentença que condena em obrigação de fazer ou não fazer

A pretensão autoral poderá limitar-se à condenação do réu em uma obrigação


de fazer ou de não fazer. O juiz, ao sentenciar, nesses casos, concederá a tutela

capítulo 5 • 124
específica para que o réu cumpra a obrigação nos termos formulado pelo autor.
Denomina-se tutela específica porque se buscará, com a sentença, alcançar exata-
mente aquilo que o autor pretende em sua vida de relação.
Assim, se o autor pretende que determinado pedreiro termine a construção
de sua churrasqueira, a tutela específica consistirá exatamente na condenação do
réu em fazê-lo. Por essa razão, o juiz não poderá converter automaticamente, sem
o devido cuidado, a obrigação de fazer em perdas e danos (art. 499). Para a ob-
tenção do cumprimento da tutela específica, o juiz fixará multa (astreintes) como
medida coercitiva cujo principal escopo é forçar o devedor a cumprir a obrigação,
conforme determina o art. 537 do CPC.
O juiz poderá, também, determinar providências que asseguram a obtenção
da tutela pelo resultado prático equivalente. Em alguns casos, o juiz, ao verificar
que a tutela específica pretendida pelo autor não obterá a eficácia necessária, de-
terminará outras providências que possam alcançar o resultado prático equivalente
pretendido pelo autor.
É o que ocorre quando o autor pretende obter tutela específica para que o réu
seja condenado a promover a transferência da propriedade de um veículo junto
ao DETRAN e o juiz, verificando a conduta desidiosa do réu, acolhe o pedido
do autor e determina a expedição de ofício ao DETRAN para que promova a
transferência. Não houve, nesse caso, violação ao princípio da adstrição (art. 492),
mas tão somente aplicação do caput do art. 497 do CPC no sentido de determinar
providências que assegurem o resultado prático equivalente.
O Superior Tribunal de Justiça, ainda na vigência do CPC/1973, reforçou esse
entendimento em diversos precedentes. Os fundamentos determinantes podem
ser extraídos da emanta a seguir:

PROCESSUAL CIVIL. ADMINISTRATIVO. RECURSO ESPECIAL. ADOÇÃO DE MEDIDA


NECESSÁRIA À EFETIVAÇÃO DA TUTELA ESPECÍFICA OU À OBTENÇÃO DO
RESULTADO PRÁTICO EQUIVALENTE. ART. 461, §5º. DO CPC. BLOQUEIO DE
VERBAS PÚBLICAS. POSSIBILIDADE CONFERIDA AO JULGADOR, DE OFÍCIO
OU A REQUERIMENTO DA PARTE. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. ACÓRDÃO
SUBMETIDO AO RITO DO ART. 543-C DO CPC E DA RESOLUÇÃO 08/2008 DO STJ.

capítulo 5 • 125
1. Tratando-se de fornecimento de medicamentos, cabe ao Juiz adotar medidas eficazes à
efetivação de suas decisões, podendo, se necessário, determinar até mesmo o sequestro
de valores do devedor (bloqueio), segundo o seu prudente arbítrio, e sempre com
adequada fundamentação.
2. Recurso Especial provido. Acórdão submetido ao regime do art. 543-C do CPC e da
Resolução 08/2008 do STJ. (REsp 1069810/RS).

A tutela específica poderá ser convertida em perdas e danos nas hipóteses le-
gais. O art. 499 dispõe que a obrigação somente será convertida em perdas e danos
se o autor requerer ou se impossível a concretização da tutela específica ou mesmo
a obtenção do resultado do prático equivalente. A conversão, na segunda hipótese,
somente poderá ser efetivada após a manifestação das partes, em atenção ao prin-
cípio do contraditório qualificado (art. 10). Nessa situação, a conversão não afasta
a incidência da multa fixada até então, que poderá ser executada em conjunto com
a obrigação de pagar.

Sentença que condena em obrigação de entrega de coisa

A obrigação de entrega de coisa não demanda mais detalhamentos. Proferida


a sentença que determina a entrega de determinada coisa, o juiz fixará prazo para
que a obrigação seja cumprida. Considerando que se trata de uma modalidade de
tutela específica, o juiz fixará prazo suficiente para se alcançar o cumprimento da
obrigação (art. 498).
Quando a obrigação tiver como objeto entrega de coisa determinada pelo
gênero (por exemplo, peixes) ou pela quantidade (um caminhão de melancias),
o autor deverá individualizá-la na petição inicial, se a escolha do gênero ou
da quantidade lhe couber. Se a escolha couber ao réu, o juiz fixará prazo para
sua individualização.

capítulo 5 • 126
Caso haja a impossibilidade no cumprimento de entrega da coisa, em razão
do deterioramento ou de força maior, o juiz poderá converter em perdas e danos,
fixando a respectiva obrigação de pagar.

Sentença que condena em obrigação de emitir declaração de vontade

Na vida de relação há situações em que uma pessoa depende de ato de outra


pessoa para concretizar a quitação de determinado negócio jurídico. É o que
ocorre quando um imóvel financiado foi adquirido através de contrato de gaveta
e o adquirente, após a quitação, pretende obter junto ao banco financiador uma
declaração de quitação, para registrar o imóvel em seu nome, mas depende do
comparecimento da pessoa que figura como comprador no contrato de finan-
ciamento originário.
Se o comprador originário comparecer voluntariamente o problema estará
resolvido. Se o comprador se negar a comparecer ou emitir a correspondente de-
claração, o adquirente que quitou o imóvel necessitará de uma tutela específica
para obter judicialmente a emissão da declaração de vontade. É para essa fina-
lidade que o Código dispõe sobre o respectivo pedido de emissão de declaração
de vontade que, se julgado procedente, ensejará uma sentença com o mesmo
conteúdo e eficácia.
Segundo o art. 501 do CPC, na ação que tenha por objeto a emissão
de declaração de vontade, a sentença de procedência transitada em julga-
do produzirá todos os efeitos da declaração não emitida. Essa modalidade
de tutela específica dispensa fixação de multa ou medidas de apoio, pois a
própria sentença teria eficácia plena para se atingir a declaração de vontade
perseguida pelo autor.
Assim, a negativa do comprador originário em nada prejudicará o au-
tor, que obterá a declaração de vontade através da sentença proferida, que
viabilizará a declaração de quitação do crédito e a respectiva averbação no
registro de imóveis.

capítulo 5 • 127
Remessa necessária

Publicada a sentença, a parte sucumbente poderá interpor recurso de apela-


ção, no prazo de quinze dias, objetivando a reapreciação do julgado. O recurso
interposto pela parte, nessa hipótese, será voluntário. Por sua vez, há casos em que
a reapreciação do julgado será obrigatória, independentemente de recurso inter-
posto pela parte. Trata-se da denominada remessa necessária, nos casos em que
a sentença proferida contrariar os interesses da Fazenda Pública1. Essa regra tem

1 O STJ limitou a aplicação da regra em algumas hipóteses em relação ao INSS, conforme ementa: EXECUÇÃO
DE SENTENÇA. DUPLO GRAU OBRIGATÓRIO. AUTARQUIA. DESCABIMENTO. A Corte Especial decidiu, por
maioria, que a sentença que julgar improcedentes os embargos à execução de título judicial opostos pela autarquia,
no caso o INSS, não está sujeita ao reexame necessário (art. 475, II, CPC). EREsp 226.387-RS, Rel. originário Min.
Garcia Vieira, Rel. para acórdão Min. Fontes de Alencar, julgado em 7/3/2001.

capítulo 5 • 128
como escopo garantir mais controle sobre as decisões contrárias à Fazenda Pública
em razão do interesse público envolvido.
Segundo a redação do art. 496, está sujeita à remessa necessária a sentença: a)
proferida contra a União, os estados, o Distrito Federal, os municípios e suas res-
pectivas autarquias e fundações de direito público ou a que b) julgar procedentes,
no todo ou em parte, os embargos à execução fiscal. Em ambos os casos, os interes-
ses da Fazenda Pública foram contrariados e a sentença somente terá eficácia após
a sua revisão em segunda instância.
As providências cabíveis para a remessa necessária terão início após o esgo-
tamento do prazo para interposição voluntária do recurso de apelação (art. 496,
§1º). A regra se justifica à medida que, se a Fazenda Pública recorrer voluntaria-
mente, a remessa necessária será dispensada. Assim, se a Fazenda Pública estadual
for condenada a pagar a quantia de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais) e in-
terpor recurso de apelação para apontar o erro de julgamento do juiz, a remessa
necessária será dispensada considerando que o próprio recurso interposto provo-
cará a revisão do julgamento contrário ao ente estadual. Todavia, se a procurador
do estado não interpor recurso de apelação voluntariamente o juiz sentenciante
deverá encaminhar os autos ao respectivo tribunal o qual está vinculado sob pena
de nulidade do próprio julgado (art. 496, §2º).
Nos termos do art. 496, §3º, do CPC, a remessa necessária não será cabível
se a condenação ou proveito econômico perseguido no processo for inferior a: a)
1.000 (mil) salários mínimos para a União e as respectivas autarquias e funda-
ções de direito público; b) 500 (quinhentos) salários mínimos para os Estados,
o Distrito Federal, as respectivas autarquias e fundações de direito público e os
Municípios que constituam capitais dos Estados e c) 100 (cem) salários míni-
mos para todos os demais Municípios e respectivas autarquias e fundações de
direito público2.
A remessa necessária não será cabível, similarmente, se a sentença em desfavor
da Fazenda Pública estiver fundamentada em precedentes judiciais do próprio tri-
bunal ou de tribunais superiores. Nessa hipótese, o critério que excepciona a regra
do caput do art. 496 do CPC independe do valor da condenação. O Código optou
por fortalecer o sistema de precedentes judiciais mesmo quando for contrário aos
interesses da Fazenda Pública.

2  Em conformidade com a Súmula nº 490 do STJ, a referida dispensa não se aplica às sentenças ilíquidas. Embora
a súmula tenha sido editada sob a égide do CPC/1973, sua orientação é perfeitamente aplicável às dispensas do
art. 496 do CPC/2015.

capítulo 5 • 129
Recebida a remessa necessária no respectivo tribunal, o relator poderá julgar
monocraticamente em conformidade com a súmula 253 do STJ. É comum, na
prática forense, a confirmação da sentença em reexame necessário, mas se faz ne-
cessário destacar que o tribunal poderá reapreciar todas as questões de fato e de
direito debatidas na demanda, podendo, inclusive, reformar ou invalidar a deci-
são judicial. Os precedentes judiciais do TJRJ, transcritos a seguir, evidenciam
essa assertiva:

Direito Administrativo. Município de Valença. Pagamento de horas extras. Limite legal.


Repercussão na gratificação natalina. Contribuição previdenciária. Apelação parcialmente
provida, com reforma parcial da sentença no reexame necessário. Correção de ofício. 1.
A Administração Pública está jungida ao princípio da legalidade (art. 37 caput CF). 2.
Se a legislação municipal veda a prestação do serviço por mais de duas horas diárias
além da jornada de trabalho, esse é o limite a ser pago pelo Poder Público. 3. Eventual
excesso, caso, efetivamente, se verifique, deve ser objeto ou de tutela inibitória ou de
outra pretensão de natureza compensatória, mas não cria o direito ao recebimento do
excedente além do limite legal. 4. A legislação municipal é ainda clara no sentido de
que as horas extras integram a remuneração e, portanto, deve o décimo terceiro salário,
correspondente à remuneração de dezembro, ser pago com sua inclusão. 5. Se as horas
extras não irão integrar os proventos, não cabe descontar a contribuição previdenciária.
6. A sucumbência é recíproca. 7. Adequação do dispositivo quanto à correção monetária
e aos juros de mora ao decidido pelo STF no bojo das ADIs 4.357 e 4.425. 8. Apelação
a que se dá parcial provimento, reformando-se ainda em parte a sentença no reexame
necessário e de ofício. (0007157-70.2013.8.19.0064 – APELAÇÃO – Des(a).
HORÁCIO DOS SANTOS RIBEIRO NETO – Julgamento: 18/04/2017 – DÉCIMA
QUINTA CÂMARA CÍVEL).

REEXAME NECESSÁRIO. DIREITO ADMINISTRATIVO. AÇÃO DE COBRANÇA.


POLICIAL MILITAR REFORMADO. FÉRIAS E LICENÇA-PRÊMIO NÃO USUFRUÍDAS
NA ATIVA. INDENIZAÇÃO DEVIDA. ART. 7º, XVII, DA CRFB/88 E ART. 65, DA LEI Nº
443/81. VEDAÇÃO AO ENRIQUECIMENTO ILÍCITO (ART. 884, DO CC). DEVER DE
PAGAMENTO DO TERÇO CONSTITUCIONAL DE FÉRIAS (ANO 2012). REFORMA
PARCIAL DA SENTENÇA.

capítulo 5 • 130
A CRFB/88 prevê o direito a férias anuais, com acréscimo de um terço do salário, no art.
7º, XVII; e o art. 65, do Estatuto da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, estabelece
o direito à licença especial, após dez anos de serviço ininterrupto. Réu que não indica
qualquer fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor, na forma do art.
375, II, do CPC/2015. Por outro lado, informa que a licença especial não foi contada em
dobro para fins de aposentadoria, hipótese de cabimento da indenização em pecúnia, de
modo a evitar o enriquecimento sem causa do Poder Público. Sentença correta quanto
à fluência da correção monetária a partir da data limite em que poderiam ter sido fruídas
as férias e a licença especial, de modo a compensar a perda inflacionária da moeda, na
forma da Lei nº 9.494/97 (art. 1º-F, com a redação dada pela Lei nº 11.960/09), até que
a Suprema Corte decida, em sede de repercussão geral, acerca do regime de atualização
monetária e juros moratórios incidente sobre dívidas da Fazenda Pública (RE nº 870.947/
SE). Honorários advocatícios que deverão ser fixados quando da liquidação do julgado,
em consonância com a sentença (art. 85, §4º, II, do CPC/2015). Dever de pagamento
pelo Estado réu do terço constitucional de férias relativamente ao ano de 2012.
SENTENÇA PARCIALMENTE REFORMADA EM REEXAME NECESSÁRIO. (0097371-
68.2014.8.19.0001 – REMESSA NECESSARIA – Relatora Des(a). MARIA HELENA
PINTO MACHADO MARTINS – Julgamento: 15/03/2017 – QUARTA CÂMARA CÍVEL).

A remessa necessária permite a ampla revisão do julgado, tanto em intensi-


dade quanto em extensão, assegurando uma análise acurada nas causas em que a
Fazenda Pública for condenada.

Homologação de sentença estrangeira

O aumento considerável do número de pessoas circulando pelo mundo, agra-


vado pela ampliação do consumo através da rede mundial de computadores e
pelo próprio aprofundamento da globalização, contribuiu para o estabelecendo de
relações jurídicas para além das fronteiras nacionais. Um cidadão brasileiro pode
contratar um serviço de uma empresa chinesa ou mesmo adquirir um veículo em
uma viagem de turismo em Paris.
Por essa razão, os conflitos decorrentes dessas relações jurídicas podem ser
solucionados tanto pela justiça brasileira ou pela justiça estrangeira, conforme dis-
põe os arts. 22 e 23 do CPC (competência internacional concorrente). Assim, se

capítulo 5 • 131
um consumidor brasileiro sofre um ilícito em determinada relação de consumo
com uma empresa italiana poderá ingressar a respectiva ação na Justiça italiana.
Por outro lado, um menor brasileiro poderá ajuizar uma ação de alimentos, na
Alemanha, em face do seu pai e ter sua pretensão acolhida pelo juízo alemão.
A sentença estrangeira, entretanto, não produz efeitos imediatamente no
Brasil. A sentença italiana que condena a empresa prestadora de serviços ou mes-
mo a sentença condenatória alemã, embora trate de direitos de cidadãos brasileiros
não terá eficácia no território brasileiro. Para que a sentença estrangeira produza
efeitos no Brasil se faz necessário homologar a referida decisão perante o Poder
Judiciário Brasileiro.
Cuida-se, portanto, do procedimento de homologação de sentença estrangei-
ra, que tem como objetivo promover o transporte de sua eficácia para o território
brasileira. Homologada a sentença pelo Superior Tribunal de Justiça esta terá os
mesmos efeitos que a sentença proferida por juiz brasileiro.

Sentença estrangeira passível de homologação no Brasil

Segundo dispõe o art. 961 do CPC, a decisão estrangeira somente terá eficácia
no Brasil após a sua homologação ou a concessão do exequatur às cartas rogatórias.
Neste contexto, a decisão judicial definitiva como também a decisão não judicial,
mas que equivale à decisão judicial no Brasil poderá ser devidamente homologado
através deste procedimento. Assim, tanto a sentença de um juiz norte-americano
como um ato de um rei, em países monárquicos em que o rei possui alguns poderes
jurisdicionais, poderão, por sua natureza jurisdicional, ser homologado no Brasil.
A homologação de sentença estrangeira poderá ser dispensada em alguns casos.
O art. 961, §5º do CPC dispensa a homologação de sentença estrangeira nos casos
de divórcio consensual. Dispensa-se, similarmente, a homologação de sentença ar-
bitral estrangeira quando estiver em conformidade com tratados internacionais com
eficácia no ordenamento interno, de acordo com o art. 34 da Lei nº 9.307/1996. Se
a sentença estrangeira arbitral não estiver em conformidade com a mencionada regra
deverá ser submetida ao procedimento de homologação de sentença estrangeira.
Não se homologará sentença estrangeira nos casos de competência exclusiva do
Brasil (art. 964). A regra, de certo modo, é desnecessária, uma vez que se uma sen-
tença estrangeira tratar de temas cuja competência é exclusiva da Justiça brasileira
(art. 23) haverá incompetência absoluta, que constitui vício insanável.

capítulo 5 • 132
A decisão estrangeira concessiva de tutela de urgência poderá de igual modo, ser
executada no Brasil. O procedimento, nesse caso específico, será realizado mediante
carta rogatória, nos termos do art. 962 do CPC.

Requisitos

No procedimento de homologação de sentença estrangeira o Superior


Tribunal de Justiça não reapreciará o mérito da decisão. A competência deste
tribunal superior consiste, tão somente, no exercício do juízo de delibação, ou
seja, a verificação da existência ou não dos requisitos elencados no art. 15 da Lei de
Introdução às Normas do Direito Brasileiro e no art. 963 do CPC. O art. 963 re-
produz os requisitos o art. 15 da LINDB e amplia, em alguma medida seu alcance.
Segundo o art. 963 do CPC constituem requisitos indispensáveis à homo-
logação: a) ser proferida por autoridade competente; b) ser precedida de citação
regular, ainda que verificada a revelia; c) ser eficaz no país em que foi proferida; d)
não ofender a coisa julgada brasileira; e) estar acompanhada de tradução oficial,
salvo disposição que a dispense prevista em tratado e f ) não conter manifesta
ofensa à ordem pública.
A atividade cognitiva do Superior Tribunal de Justiça se limita, como foi dito,
a verificação da existência dos requisitos acima. Se estiverem presentes os requisi-
tos mencionados a ação de homologação será julgada procedente e passará irradiar
seus efeitos no Brasil, ou improcedente se algum deles não estiver presente.
Por fim, importa destacar a peculiaridade do requisito elencado ano art. 963,
VI, do CPC. Não se homologará a sentença estrangeira se esta contemplar matéria
que ofende a ordem jurídica brasileira. Assim, não se homologa sentença estran-
geira que acolhe pedido do autor no sentido de pôr fim a própria vida, pois não há
legislação compatível com essa pretensão no direito posto.

Procedimento

O procedimento da ação de homologação de sentença estrangeira é regulado


pelo Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, com redação dada pela
Emenda Regimental nº 18 de 17 de dezembro de 2014. A resolução reproduz as
normas do art. 960 e seguintes do CPC, quanto ao cabimento da homologação
de sentença estrangeira, e dispõe sobre o procedimento da ação de homologação.

capítulo 5 • 133
Compete ao presidente do tribunal homologar a sentença estrangeira, confor-
me disposto no art. 216-A do RISTJ. Contudo, se a parte ré contestar a ação de
homologação, a competência será direcionada para um dos órgãos fracionários do
tribunal, em atenção ao disposto no art. 216-K do RISTJ.
Antes de avançarmos no estudo do procedimento, convém analisar quem tem
legitimidade para propor a ação de homologação. A legitimidade para ajuiza-
mento da ação de homologação de sentença estrangeira não guarda relação com a
legitimidade do processo oriundo do Estado estrangeiro.
Para exemplificar, suponha que um laboratório farmacêutico foi condenado
a abster-se de comercializar determinada substância química prejudicial aos pa-
cientes com hipertensão. A ação foi ajuizada na Espanha e o tribunal espanhol
julgou procedente o pedido formulado por um determinado órgão público. Após
ter ciência dessa condenação transitada em julgado na Espanha, a Associação de
Hipertensos Brasileira ingressa com ação de homologação de sentença estrangei-
ra em face da filial do laboratório no Brasil com o objetivo de transpor para o
território nacional os efeitos da sentença europeia. Comprovada a existência dos
requisitos em juízo de delibação, a sentença estrangeira produzirá efeitos no Brasil
para determinar a interrupção da comercialização da mesma substância química.
Assim, a legitimidade decorre do justificado interesse do autor em ver a sentença
estrangeira homologada no Brasil, ainda que não tenha figurado como parte no
Estado estrangeiro.
Após a verificação dos requisitos necessários para a homologação, o presidente
do tribunal admitirá a petição inicial (art. 216-C do RISTJ) e determinará a
citação do interessado para apresentar contestação no prazo de quinze dias. Se a
petição não estiver fundamentada de forma adequada, o presidente determinará,
em prazo previamente assinalado, a emenda da inicial (art. 216-E do RISTJ).
Providenciada a emenda, o procedimento seguirá com a citação do réu. Caso a
irregularidade não seja cumprida no prazo assinalado, a petição será arquivada
pelo presidente (art. 216-E, § único, do RISTJ).
A parte interessada será citada para contestar no prazo de quinze dias (art.
216-H do RISTJ). O réu poderá a) permanecer inerte ou b) contestar a ação.
Permanecendo inerte, o presidente decretará sua revelia, nomeará curador espe-
cial nos termos do art. 216-I do RISTJ e encaminhará os autos para vista do
Ministério Público (art. 216-L RISTJ). Em seguida, os autos serão encaminhados
ao presidente, que proferirá decisão acolhendo o pedido ou rejeitando-o, nos casos
em que os requisitos não estejam presentes.

capítulo 5 • 134
Sendo contestada a ação, serão admitidas réplica e tréplica, no prazo de cin-
co dias, nos termos do art. 216-J do RISTJ, e em seguida o presidente deter-
minará a distribuição do processo para Corte Especial, sendo nomeado relator
para dar andamento ao processo e providenciar a instrução da causa (art. 216-K
do RISTJ). Concluída a fase instrutória, o relator colocará o processo em pauta
para julgamento.
Homologada a sentença estrangeira, pelo presidente ou pela Corte Especial,
a parte interessada poderá interpor recurso de agravo contra a decisão homo-
logatória (art. 216-M do RISTJ). Após o trânsito em julgado, será expedida a
competente carta de sentença para viabilizar sua execução perante o Juízo Federal
competente (art. 216-N do RISTJ).
O procedimento de homologação de sentença estrangeira é cindido, caben-
do ao STJ homologar a sentença alienígena e ao Juízo Federal a execução, inde-
pendentemente da matéria que compõe seu objeto. O procedimento pode ser
visualizado da seguinte forma:

Coisa julgada

A coisa julgada tem como principal finalidade garantir a segurança jurídica


no Estado Democrático de Direito. É nesse contexto que a Constituição Federal
assegura, em seu art. 5º, XXXVI, que a lei, em nenhuma hipótese, prejudicará a
coisa julgada. Não se concebe um Estado em que os conflitos sociais e jurídicos
perdurem infinitamente. Por essa razão, o fenômeno da coisa julgada, enquanto
direito fundamental, tem como foco principal estabilizar a decisão judicial que

capítulo 5 • 135
resolveu determinado conflito, após propiciar o pleno exercício do contraditório e
da ampla defesa no decorrer da atividade judicial.

Coisa julgada formal e material

Em harmonia com art. 502 do CPC, denomina-se coisa julgada material a


autoridade que torna imutável e indiscutível a decisão de mérito não mais sujeita
a recurso. O que foi decidido na sentença de mérito, em que se operou a coisa
julgada material, não poderá mais ser discutido no processo em que foi proferida
a decisão nem em qualquer outro processo. Por exemplo, a rescisão contratual
declarada por sentença, após o trânsito em julgado e o estabelecimento da coisa
julgada, não mais poderá ser discutida em nenhum outro processo, salvo nas hi-
póteses de ação rescisória, o que será abordado adiante.
Diversamente, a coisa julgada formal corresponde à impossibilidade de se dis-
cutir a matéria no mesmo processo em que foi proferida, podendo ser discutida
em outro processo. É correto afirmar que, quando o juiz julga o mérito de uma
causa, acolhendo ou não o pedido do autor, ocorrerá a coisa julgada material e
formal. Assim, não mais poderá o autor reabrir a discussão sobre o tema, seja no
mesmo processo, seja em outro processo.
Entretanto, a decisão que extinguir o processo sem resolução do mérito, fun-
damentada em uma das hipóteses do art. 485 do CPC, fará somente coisa julgada
formal, podendo a parte renovar a discussão em outro processo, conforme inter-
pretação literal do art. 486 do CPC. O ajuizamento da nova demanda somente
não será admissível se ocorrer a perempção (art. 486, §3º).

Limites subjetivos e objetivos da coisa julgada

Ocorrendo a coisa julgada, se faz indispensável identificar seus limites. Os


limites subjetivos da coisa julgada estão relacionados com as pessoas que serão
afetadas por ela. Em conformidade com art. 506 do CPC, a sentença faz coisa
julgada entre as partes, não prejudicando terceiros. Assim, se A ingressa com uma
ação em face de B discutindo a propriedade de um veículo, a coisa julgada, nesse
caso, alcançará somente A e B. Entretanto, se C ajuizar uma ação em face de B
discutindo a propriedade do mesmo veículo, este último não poderá alegar como
defesa processual a coisa julgada (art. 337, VII), pois os limites da coisa julgada no
processo anterior não alcançaram C.

capítulo 5 • 136
A regra não se aplica nas hipóteses de alienação de bem litigioso. Segundo
redação do art. 109, §3º, do CPC, os efeitos da sentença proferida entre as partes
originárias se estendem ao adquirente e ao cessionário.
Os limites objetivos da coisa julgada correspondem ao tratamento da questão
principal expressamente decidida na sentença de mérito. É nessa circunstância
que a sentença de mérito tem força de lei, nos termos do art. 503 do CPC. Se
for proposta uma ação pleiteando a rescisão contratual por inadimplemento e o
juiz acolher o pedido do autor, os limites da coisa julgada englobarão a questão
principal debatida (rescisão contratual), não mais podendo ser discutida em outro
processo. Todavia, poderá o autor propor nova demanda para pleitear indenização
pelo inadimplemento, uma vez que tal pretensão não foi alcançada pelos limites
objetivos da coisa julgada. Em outras palavras, o pedido do autor não poderá ser
reformulado em outra demanda.
É na parte dispositiva da sentença, em regra, que se reconhece o limite obje-
tivo da coisa julgada. Por esse motivo, o art. 504 do CPC estatui que não fazem
coisa julgada os motivos, ainda que importantes, para determinar o alcance da
parte dispositiva da sentença (art. 504, I) e a verdade dos fatos, estabelecida como
fundamento da sentença (art. 504, II).

Extensão da coisa julgada às questões prejudiciais

Em alguns casos, a resolução da questão principal dependerá da resolução


da questão prejudicial decidida em juízo. Com efeito, para se decidir sobre se é
cabível a reintegração de posse, o juiz deverá, antes de resolver o mérito, apreciar
a questão prejudicial alegada, caracterizada pela suposta existência de contrato de
locação. A questão principal (reintegração de posse) dependerá da resolução da
questão prejudicial (existência de contrato de locação). Entretanto, na vigência do
CPC/1973, a questão prejudicial decidida não era acobertada pela coisa julgada,
podendo a mesma ser renovada em outro processo, salvo nos casos em que a parte
promovesse ação declaratória incidental.
O Código de Processo Civil avançou consideravelmente neste aspecto ao ad-
mitir a incidência da coisa julgada sobre a questão prejudicial decidida, propician-
do a solução integral do mérito (art. 6º). Consoante dispõe o art. 503, §1º, do
CPC, a questão prejudicial decidida expressamente fará coisa julgada quando: a)
dessa resolução depender o julgamento do mérito; b) a seu respeito tiver havido
contraditório prévio e efetivo, não aplicando no caso de revelia; e c) o juízo tiver

capítulo 5 • 137
competência em razão da matéria e da pessoa para resolvê-la como questão prin-
cipal. Preenchidos os requisitos legais, o julgamento da questão prejudicial fará
coisa julgada material.
A questão prejudicial não será acobertada pela coisa julgada nos casos em que
houver restrições probatórias ou limitações à cognição que inviabilizem a análise
aprofundada da questão prejudicial. Em tais casos, a questão prejudicial não fará
coisa julgada, podendo ser discutida em um novo processo (art. 503, §2º).

Preclusão e eficácia preclusiva da coisa julgada

O art. 507 do CPC veda à parte discutir, no curso do processo, as questões já


decididas anteriormente – cuida-se da preclusão (que poderá ser lógica, temporal
ou consumativa). A restrição aplica-se tanto às partes como ao juiz. A preclusão é
a perda do direito de se praticar um ato dentro do processo e poderá ocorrer em
vários momentos do processo. A principal finalidade da preclusão é assegurar a
marcha processual contínua e para a frente, pois, sendo praticado ou não o ato, o
processo avançará para a etapa seguinte.
Diversamente, a coisa julgada é um direito fundamental que tem como obje-
tivo primordial estabilizar as questões principais decididas pelo Poder Judiciário e
garantir a segurança jurídica.
Por outro lado, a eficácia preclusiva da coisa julgada (art. 508) é o fenômeno
processual que consiste em considerar, após o trânsito julgado, deduzida e repelida
toda sorte de alegações que as partes poderiam citar, mas que, por algum motivo,
não citaram. Assim, não poderá a parte autora, que teve sua pretensão indenizató-
ria julgada improcedente, renovar a demanda com novas alegações, que poderiam
ter sido articuladas no processo anterior, para tentar obter resultado positivo.

Relação jurídica de trato sucessivo

O Código deu tratamento diferenciado às relações de trato sucessivo. São as


obrigações que se renovam sucessivamente ao longo do tempo, tal como ocorre
nas prestações alimentícias. O art. 505 do CPC diz que é vedado ao juiz decidir
novamente questões já decididas. Contudo, a regra não se aplicará aos casos que
tenham como objeto relação jurídicas de trato continuado e nos quais sobrevier
modificação no estado de fato e de direito. Nessas hipóteses, a parte poderá pedir
a revisão do que foi estatuído na sentença (art. 505, I).

capítulo 5 • 138
É o que ocorre comumente nas sentenças que fixam alimentos. Havendo au-
mento das necessidades do alimentando ou redução da possibilidade, o interessa-
do poderá pedir a revisão do percentual estabelecido, mesmo após o trânsito em
julgado. É a própria natureza da obrigação, por ser sucessiva, que autoriza o afas-
tamento da incidência da coisa julgada. Enquanto a obrigação perdurar, poderá
ser revista nos termos do art. 505, I, do CPC.

Coisa julgada no processo coletivo

No processo coletivo, a coisa julgada é sensivelmente remodelada. A sentença


coletiva, por vezes, afeta o interesse de diversas pessoas, quer integrem a relação
jurídica processual, quer não. Isso ocorre porque a sentença genérica tem como
objeto os direitos coletivos, difusos ou individuais homogêneos.
A coisa julgada no processo coletivo tem regime próprio e ocorrerá de acordo
com o direito tutelado e com o resultado obtido com o processo. O art. 103 do
Código de Defesa do Consumidor apresenta três regras para a incidência da coisa
julgada. Ocorrerá a coisa julgada: a) erga omnes, nas ações coletivas, exceto se o
pedido for julgado improcedente por insuficiência de provas, hipótese em que
qualquer legitimado poderá intentar outra ação, com idêntico fundamento, va-
lendo-se de nova prova (art. 103, I); b) ultra partes, mas limitadamente ao grupo,
categoria ou classe, salvo improcedência por insuficiência de provas (art. 103, II);
e c) erga omnes, apenas no caso de procedência do pedido, para beneficiar todas as
vítimas e seus sucessores.
Em observância à própria dimensão do processo coletivo e à extensão de pes-
soas afetadas pela sentença coletiva, a coisa julgada, em regra, somente incidirá se
for procedente ou improcedente, com base em provas que não deixam dúvidas so-
bre a questão debatida. Nas demais hipóteses, a ação coletiva poderá ser renovada
por outro legitimado.

Ação rescisória

A coisa julgada torna indiscutível e imutável a questão principal, decidida


na sentença de mérito. Até mesmos os vícios sanáveis são suplantados pela coisa
julgada. Porém, há vícios, considerados insanáveis pelo Código, que permanecem
mesmo após a ocorrência da coisa julgada. Nesses casos, caberá ação rescisória com

capítulo 5 • 139
o objetivo de afastar o manto da coisa julgada e possibilitar o novo julgamento da
causa ou mesmo remover o vício insanável.
A ação rescisória deve ser proposta no prazo de 2 (dois) anos, contados a partir
do trânsito em julgado da última decisão proferida no processo (art. 975). A regra
reproduziu, na integralidade, o verbete da Súmula nº 410 do Superior Tribunal de
Justiça. A definição clara acerca do momento em que o prazo decadencial se iniciará
é relevante, pois eliminou diversas dúvidas práticas sobre o ajuizamento da ação
rescisória. Por exemplo, é cabível ação rescisória contra sentença de primeiro grau?
A resposta positiva se impõe, devendo a parte interessada propor a ação rescisória no
prazo de 2 anos, contados a partir do trânsito em julgado da sentença.

Natureza jurídica

A ação rescisória é uma ação autônoma de impugnação de decisão judicial,


que tem como objeto o afastamento da coisa julgada nos casos em que ocorreu
um dos vícios elencados no art. 966 do CPC. É uma ação originária, que tem seu
início na segunda instância e acarretará reapreciação, em profundidade, da decisão
que se busca rescindir.
A ação rescisória não se confunde com recurso. O recurso é interposto na
mesma relação jurídica processual. Diversamente, a ação rescisória iniciará uma
nova relação processual, não se confundindo com recurso. O recurso é interposto
antes do trânsito em julgado. A ação rescisória terá cabimento no dia seguinte a
trânsito julgado.
Compreendida a finalidade da ação rescisória em nosso ordenamento jurídico,
passemos à análise de seu procedimento.

Ação rescisória e ação anulatória

Antes de analisar o procedimento da ação rescisória, convém diferenciá-la da


ação anulatória.
A ação rescisória será sempre cabível para afastar vício insanável de decisão de
mérito proferida por juiz ou colegiado. A ação anulatória, por sua vez, é cabível
para impugnar vícios decorrentes de atos unilaterais de vontade (confissão, renún-
cia, entre outros), como também sentença homologatória de atos praticados na
fase de conhecimento ou na execução.

capítulo 5 • 140
Embora ambas tenham natureza de ação autônoma de impugnação de decisão
judicial, não há dúvidas acerca do objeto de uma e de outra, conforme disposto
no art. 966, §4º, do CPC.

Cabimento

A coisa julgada é um direito fundamental e seu afastamento somente pode


ser autorizado em hipóteses restritas. Por esse fundamento, é cabível ação resci-
sória, observando o rol taxativo do art. 966 do CPC. Será cabível ação rescisória
quando: a) se verificar que foi proferida por força de prevaricação, concussão ou
corrupção do juiz; b) for proferida por juiz impedido ou por juízo absolutamente
incompetente; c) resultar de dolo ou coação da parte vencedora em detrimento da
parte vencida ou, ainda, de simulação ou colusão entre as partes, a fim de fraudar a
lei; d) ofender a coisa julgada; e) violar manifestamente norma jurídica; f ) for fun-
dada em prova cuja falsidade tenha sido apurada em processo criminal ou venha a
ser demonstrada na própria ação rescisória; g) obtiver o autor, posteriormente ao
trânsito em julgado, prova nova cuja existência ignorava ou de que não pôde fazer
uso, capaz, por si só, de lhe assegurar pronunciamento favorável; e h) for fundada
em erro de fato verificável do exame dos autos.
O art. 966, VII, estatuiu o entendimento consolidado do Superior Tribunal
de Justiça acerca do início da contagem do prazo para ajuizamento da ação resci-
sória nas hipóteses em que a referida ação tenha como objeto a alegação acerca da
existência de prova nova. Nesse caso, o termo inicial do prazo para o ajuizamento
da ação rescisória será a data da descoberta da prova nova, observado o prazo de
cinco anos do trânsito em julgada da decisão rescindente (art. 975, §2º). O trata-
mento legislativo do tema contribuiu para se definir com clareza o termo inicial
do prazo decadencial para ajuizamento da ação rescisória, bem como estabeleceu
um limite temporal para o ajuizamento da ação.
O CPC/2015 trouxe uma inovação sem precedentes no CPC/1973: a possi-
bilidade de se propor ação rescisória contra decisão terminativa ou sem resolução
de mérito. Em verdade, não se admitia ação rescisória contra sentença que não
resolve o mérito, considerando que o autor poderá renovar a demanda nos termos
do art. 486 do CPC.
Entretanto, há contextos em que a parte autora não terá mais condições de
ajuizar nova demanda ou mesmo interpor recurso contra decisão processual pro-
ferida em razão de algum impedimento. Basta pensar na hipótese de ocorrência

capítulo 5 • 141
de prescrição: a parte autora não terá mais condições de ajuizar a nova demanda.
Para esse caso específico, deverá a parte interessada propor ação rescisória, em face
de uma sentença sem resolução do mérito (art. 966, §2º), como única medida
aplicável à hipótese.
Admite a ação rescisória em face de decisão interlocutória quando esta cui-
dar do mérito da demanda. Cuida-se das hipóteses de julgamento antecipado
parcial do mérito, regulado no art. 356 do CPC. Ocorrendo algum dos vícios
do art. 966 do CPC na sentença parcial, a parte interessada poderá ajuizar a
respectiva ação rescisória.
A ação rescisória não é cabível nos juizados especiais cíveis estaduais, confor-
me dispõe o art. 59 da Lei nº 9.099/95. Não se compreende a restrição, pois todas
as hipóteses do art. 966 do CPC são perfeitamente passíveis de ocorrer em sede de
juizado especial. Caso haja a ocorrência de um vício insanável em decisão judicial
proferida em sede de juizados especiais, a parte poderá buscar a declaração da sua
invalidação a partir de ação de nulidade.

Procedimento

O procedimento da ação rescisória, por se tratar de ação autônoma, se aproxi-


ma, sobremaneira, do procedimento comum regulado no art. 318 e nos seguintes
do CPC. Merecerão destaque, todavia, os atos processuais específicos dessa moda-
lidade de ação autônoma de impugnação.

Legitimidade

A ação rescisória poderá ser proposta por quem foi parte no processo que ori-
ginou a decisão que se pretende rescindir ou por seus sucessores (art. 966, I); pelo
terceiro juridicamente interessando (art. 966, II); pelo Ministério Público (art.
966, III); por aquele que não foi ouvido no processo em que era obrigatória a sua
intervenção (art. 966, IV).
O Ministério Público terá legitimidade nos casos específicos definidos pelo
Código. O art. 279 do CPC estatui que o processo é nulo quando o membro do
Ministério Público não for intimado para acompanhar o processo em que deva in-
tervir. Assim, a sentença, transitada em julgado, proferida num processo em que não
houve intervenção ministerial obrigatória, deverá ser rescindida (art. 966, III, “a”).

capítulo 5 • 142
O órgão ministerial será legitimado, ainda, para propor ação rescisória quando
a decisão rescindenda resultar de colusão ou fraude à lei (art. 966, III, “b”). Essa
hipótese ocorre nos casos em que as partes se utilizam do processo para obter
vantagem indevida. É o que ocorre quando A e B litigam sobre a propriedade de
um imóvel que sabidamente pertence a C. As partes, nesse caso, pretendem obter
indevidamente sentença judicial em favor de um dos fraudadores. Ainda que o
Ministério Público não integre a lide, poderá, como fiscal da lei, ajuizar a respecti-
va ação rescisória. Por fim, o órgão ministerial terá legitimidade para ajuizar a ação
rescisória nos casos em que a lei exige sua atuação (art. 966, III, “c”).
O CPC admite a propositura de ação rescisória por terreiros nas situações em
que sua intervenção era obrigatória no processo que originou a decisão que se pre-
tende rescindir. É o que sucede nos casos em que a lei exige a formação de litiscon-
sórcio necessário e um dos litisconsortes não foi incluído na demanda originária.

Petição inicial

A petição inicial (art. 968) da ação rescisória observará os requisitos do art.


319 do CPC. Conquanto, o Código exige requisitos específicos em relação à peti-
ção inicial da ação rescisória. Ao elaborar a petição inicial, o autor deverá cumular
o pedido de rescisão, se for o caso, com o de novo julgamento (art. 968, I) e depo-
sitar a importância de 5% do valor da causa (art. 968, II).
Passemos à análise de cada um desses requisitos específicos.

Pedido rescindente e pedido rescisório

A ação rescisória, por sua natureza, tem dois objetos distintos. O primeiro
pedido formulado pelo autor é a rescisão do julgado. Rescindir, do latim rescin-
dere, significa “rasgar”. Por essa razão, o autor deve formular primeiramente o
pedido de rescisão da coisa julgada estabelecida na decisão que se pretende rever.
O tribunal não poderá reapreciar o julgado sem antes rescindir a coisa julgada
que o acoberta.
O pedido rescisório, referente ao novo julgamento, também deverá ser formu-
lado nos casos em que for cabível. Evidentemente, não são em todas as ações res-
cisórias que o autor deverá formular pedido rescisório. Deverá fazê-lo tão somente
nas hipóteses em que há a necessidade de um novo julgamento da causa.

capítulo 5 • 143
Por exemplo: a ação rescisória proferida contra uma decisão proferida por
juiz incompetente ou impedido. Nesse contexto, o autor da ação rescisória deverá
cumular, obrigatoriamente, pedido rescindente (afastamento da barreira da coisa
julgada) e pedido rescisório (novo julgamento por competente ou imparcial).
O mesmo não ocorre quando a ação rescisória tem como fundamento o art.
966, IV, do CPC. Nessa situação, o autor pretende ver declarada a nulidade da
segunda coisa julgada, considerando que já havia coisa julgada anteriormente so-
bre o mesmo tema. O acolhimento do pedido rescindente, com o afastamento
da segunda coisa julgada, por si só, sanará o vício, assegurando a prevalência da
primeira coisa julgada. Não haverá, portanto, necessidade de novo julgamento, o
que dispensa a cumulação de pedidos.

Depósito

Para evitar que a ação rescisória seja utilizada indevidamente ou mesmo de


forma protelatória, o Código exige que o autor deposite a quantia correspondente
a 5% do valor da causa, devidamente atualizado.
O Código estabeleceu um teto em relação a essa exigência quando o valor
do depósito exceder 1.000 (mil) salários mínimos (art. 968, §2º). A exigência
do depósito também será dispensada quando a parte autora for União, estados,
municípios, Ministério Público, órgãos públicos e nos casos em que o autor for
beneficiário da gratuidade da Justiça (art. 968, §1º).
O depósito tem como função primeira coibir o manejo indevido da ação res-
cisória. Desse modo, se a ação rescisória for inadmitida ou julgada improcedente
por unanimidade, o depósito será convertido em multa (art. 968, II) e revertido
em favor do réu da ação rescisória (art. 974, § único).

Indeferimento da inicial e improcedência liminar do pedido

A petição inicial poderá ser indeferida, nas hipóteses do art. 330 do CPC,
resguardado o direito à emenda da inicial. A segunda causa de indeferimento da
petição inicial da ação rescisória decorre da ausência do depósito mencionado,
conforme disposto no art. 968, §3º, do CPC.
O tribunal poderá também julgar improcedente o pedido via liminar, nos
termos do art. 332 do CPC. A regra do art. 968, §4º, do CPC, dispensa maiores
detalhes, considerando que foi abordada no capítulo 1 desta obra.

capítulo 5 • 144
Competência

Definir a competência para o ajuizamento da ação rescisória nem sempre é


tarefa fácil. Em regra, a ação rescisória será proposta perante os tribunais onde
ocorreu o trânsito em julgado, observando seus respectivos regimentos internos.
Entretanto, em se tratando da competência do STF e do STJ para julgamen-
to da ação rescisória, se faz necessário abordar o tema com maior atenção. Os
tribunais têm competência para julgar ação rescisória proposta contra decisões
monocráticas ou acórdãos que tenham enfrentado o mérito do recurso interposto.
Nos casos em que o recurso não é conhecido (inadmitido), a competência é do
tribunal local.
Para compreender adequadamente a situação exposta, pense na hipótese de
recurso extraordinário interposto contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado
de São Paulo. Se o recurso extraordinário for admitido e o mérito julgado, a com-
petência para julgamento da ação rescisória será do STF. Mas, se o recurso ex-
traordinário não for sequer admitido, a competência para o ajuizamento da ação
rescisória será do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.
A Súmula nº 249 do STF serve como orientação segura nesse aspecto: “É
competente o Supremo Tribunal Federal para ação rescisória quando, embora não
tendo conhecido do recurso extraordinário, ou havendo negado provimento ao
agravo, tiver apreciado a questão federal controvertida”.
É nesse contexto que o Código dispôs sobre alguns casos de incompetência
para julgamento da ação rescisória. Assim, segundo o art. 968, §5º, do CPC,
reconhecida a incompetência do tribunal para julgar a ação rescisória, o autor de-
verá ser intimado para emendar a petição inicial. A referida regra será aplicada nos
casos em que a) a decisão rescindenda for sem resolução do mérito e as hipóteses
não se enquadrem nos casos do art. 966, §2º, do CPC ou b) quando tiver sido
substituída por decisão posterior.
Efetuada a emenda e assegurado o direito de complementar os fundamentos
da defesa, os autos da ação rescisória serão encaminhados ao tribunal competente.
Trata-se de regra que valoriza a solução integral do mérito e maior aproveitamento
dos atos processuais.

capítulo 5 • 145
Tutela provisória

A distribuição da ação rescisória não impede a execução da sentença rescin-


denda (art. 969). Por esse motivo, nos casos em que a execução possa acarretar
danos irreparáveis ou de difícil reparação, a parte autora deverá requerer a conces-
são de tutela provisória nos termos do art. 300 do CPC, solicitando ao tribunal a
suspensão da execução da decisão exequenda.
A tutela provisória, nesse caso, terá como foco principal e exclusivo a suspen-
são dos atos executivos.

Resposta do réu

Admitida a petição inicial, o relator determinará a citação do réu (art. 970).


No respectivo mandado de citação o relator fixará o prazo para contestar a deman-
da, que nunca será inferior a 15 dias nem superior a 30 dias. O referido prazo será
fixado em razão da complexidade da causa e do número de réus. Considerando a
discricionariedade na fixação do prazo, não se aplica, em sede de ação rescisória, a
regra de prazo do art. 229 do CPC.
O réu poderá apresentar todas as modalidades de defesa admitida no proce-
dimento comum. Poderá apresentar defesa direta de mérito, defesas indiretas de
mérito (art. 350) ou mesmo defesas processuais (art. 337). Admitem-se, também,
exceção de impedimento e suspeição, e até mesmo reconvir.
A ausência de contestação ensejará a aplicação da revelia, nos termos do art.
344 do CPC.

Julgamento

Aplicar-se-á as regras do procedimento comum no processamento da ação res-


cisória (art. 970). Desse modo, ofertada a contestação, o autor será intimado para
se manifestar em réplica (art. 351). Se os fatos alegados dependerem de produção
de provas, o relator poderá determinar a sua produção ou delegar ao juiz ou órgão
que proferiu a decisão rescidenda sua produção. Ocorrendo a segunda hipótese, o
relator deverá fixar o prazo de um a três meses para a devolução dos autos com a
respectiva prova produzida (art. 972).

capítulo 5 • 146
Concluída a instrução da causa, o relator abrirá prazo para alegações finais, no
prazo de dez dias sucessivos (art. 973), e em seguida solicitará designação de sessão
de julgamento para apreciação da causa pelo colegiado.
O julgamento da ação rescisória é bifásico. Na primeira fase, o tribunal verifi-
cará se há, em verdade, fundamento para rescisão do julgado (juízo rescindente).
Nessa fase, será apreciado se ocorreu uma das hipóteses do art. 966 do CPC.
Sendo reconhecido o direito à rescisão, o tribunal adentrará na segunda fase, ou
seja, o novo julgamento (juízo rescisório), se for o caso, ou determinará o retorno
ao juízo que proferiu a decisão rescidenda para novo julgamento da causa.
Julgado procedente o pedido, o autor levantará o valor depositado previa-
mente. Se o pedido for julgado improcedente, por unanimidade, o depósito será
revertido em favor do réu. Se o pedido for julgado improcedente por maioria, o
autor poderá levantar a quantia depositada.
Publicada a decisão, a parte poderá, se pretender, interpor recurso contra a
decisão proferida.

Recursos cabíveis

A ação rescisória, por se tratar de ação originária, terá seu início no tribunal.
Essa especificidade reduz, consideravelmente, as opções de recursos disponíveis às
partes. Se a petição inicial for indeferida ou a rescisória for julgada improcedente
liminarmente, a parte autora poderá interpor agravo interno, nos termos do art.
1.021 do CPC, que será julgada pelo mesmo órgão competente para apreciar a
ação rescisória.
Contra a decisão que julgar o mérito da ação rescisória, caberão embargos
de declaração (art. 1.022), se for o caso, ou recurso extraordinário, para o STF, e
recurso especial, para o STJ. Se a ação rescisória foi proposta perante o STJ, caberá
tão somente recurso extraordinário.

Rescisória da rescisória

Admite-se ação rescisória proposta contra decisão proferida no julgamento de


ação rescisória. Não se trata de ficção jurídica, podendo ser verificada a hipótese
na prática forense.

capítulo 5 • 147
Por exemplo: se advir, do julgamento da ação rescisória, com fundamento na
corrupção do juiz (art. 966, I), um dos vícios do art. 966 do CPC, como a partici-
pação no julgamento de um desembargador impedido, a parte sucumbente poderá
propor nova ação rescisória, com fundamento no art. 966, II, do CPC.

Conclusão

No presente capítulo, estudamos alguns dos principais institutos do direito


processual civil. A sentença, como ato que esgota a atividade do juiz de primeiro
grau, é tema recorrente no direito processual e sua adequada compreensão é im-
prescindível. Por essa razão, buscamos detalhar o tratamento do tema de modo a
possibilitar ao leitor uma visão mais ampla desse importante ato processual.
Num segundo momento, o capítulo abordou a coisa julgada e seus desdobra-
mentos no processo civil. A coisa julgada, enquanto direito fundamental, garante
a sustentabilidade do Estado Democrático de Direito e seu estudo é premissa para
compreensão adequada da tutela jurisdicional prestada pelo Poder Judiciário.
Por fim, estudamos a ação rescisória, como meio correto para afastamento da
coisa julgada eivada de vício insanável. Diante de seu potencial cognitivo, que per-
mite a rescisão da coisa julgada, se faz necessário conhecer sua natureza jurídica,
bem como os principais atos processuais a ela vinculados.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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CÂMARA, Alexandre. Lições de direito processual civil. 24. ed. Rio de Janeiro: Editora Atlas, 2013,
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São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. v. 2.
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WAMBIER, Luiz Rodrigues; TALAMINI, Eduardo. Curso avançado de processo civil. São Paulo:
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