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Table of Contents

Folha de rosto
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Epílogo
Agradecimentos
Sobre a autora
Créditos: Star Books Digital
A coisa mais difícil, e mais maravilhosa, é abrir mão da
perfeição e trabalhar em ser você mesmo.
ANNA QUINDLEN

Este livro é dedicado a todos os leitores que me inspiraram, me apoiaram,


amaram meus livros e me fizeram querer melhorar.
E a todos os que acreditam merecer… amor, perdão, sucesso, amizade ou
felicidade.
Vocês merecem.
1

Nathan Ellison Raymond Dunkle não tinha uma folga.


Saiu correndo do laboratório, atrasado de novo, com a cabeça
cheia depois do intenso brainstorming para tentar descobrir uma
fórmula revolucionária que transformasse a propulsão avançada.
Guiou seu Tesla em meio ao emaranhado de carros no centro da
cidade e tentou não entrar em pânico. Aquele evento poderia ser
um marco em sua vida, e ele se recusava a perdê-lo. E se sua
futura mulher estivesse naquele momento conhecendo outros
homens porque ele tinha ficado preso no trabalho? De novo.
Ned controlou a impaciência e avançou mais alguns
centímetros. Estava cansado de ter sua vida social girando em
torno do colega de laboratório, Wayne, e do irmão, Connor. Desde
que saíra da Nasa para se dedicar a levar a iniciativa privada para o
ramo das viagens espaciais, seus dias tinham virado uma longa
série de fórmulas e pesquisas. As viagens de fim de semana com
os amigos para jogar golfe acabaram. A vida amorosa, que sempre
fora devagar, voltou à estaca zero. Três meses antes, havia
comemorado o aniversário de trinta e dois anos e se dera conta de
que não tinha ninguém para convidar. Um bolinho surgiu no
laboratório, Wayne cantarolou alguns versos de “Parabéns a você”,
e depois eles voltaram ao trabalho.
Patético.
Foi então que decidiu mudar.
Ned cruzou a divisa da cidade, que dava boas-vindas a quem
chegava a Verily, e esquadrinhou a rua atrás de uma vaga. As lojas
iluminadas ao longo da calçada com vista para o rio Hudson
exalavam um charme pitoresco que acolhia os visitantes. Connor
riu quando soube do evento de speed dating, já que nunca
acreditou em sossegar com uma única mulher. Tantos anos
observando o irmão engatar um relacionamento casual no outro
deixavam Ned deprimido. O negócio todo de caçar por caçar
parecia simplesmente… vazio demais.
Ned sentia vontade de se conectar de verdade com uma
mulher, alguém com quem pudesse dividir a vida. Não tinha o
menor interesse em ir de bar em bar nem de cama em cama.
Sentia falta de tudo o que um casamento representava: conforto,
sexo e companheirismo. Quando Ned tomava decisões, dedicava
seu tempo e sua energia a cumprir os passos necessários para
alcançar o objetivo, e esta nova ideia não seria exceção. Depois de
seis semanas de pesquisa intensa, ele estava pronto.
Estacionou numa vaga e desligou o motor. Tirou uma latinha de
balas de menta do porta-luvas e pôs uma na boca. Depois limpou
as mãos na calça cáqui. Droga. Tinha esquecido de trocar de
jaleco, e a mancha do café derramado de manhã estava bem no
meio do peito. Cuspiu no dedo e tentou esfregar o tecido, mas o
borrão marrom só piorou. Será que deveria ficar sem jaleco?
Começou a tirá-lo, mas notou a camisa de algodão amarrotada por
baixo. Não, melhor não. Que se dane. Ele não queria mesmo uma
mulher que só se importasse com roupas ou aparência.
Ajeitou os óculos no nariz e se olhou no retrovisor lateral. O
bronzeado saudável que tentara conseguir com um produto tinha
dado muito errado. Droga de bronzeador. A temporada de golfe
ainda não tinha começado, e sua pele branca o deixara em pânico
pela manhã. Ele sabia que as mulheres gostavam de um visual
mais praiano, então comprou um autobronzeador na hora do
almoço e aplicou no trabalho mesmo. Seguiu as instruções com
atenção, mas, em vez de um tom moreno, tinha ficado cor de
cenoura. Ned esfregou o rosto freneticamente, tentando espalhar
um pouco mais a cor. Não estava tão mau. Wayne tinha dado uma
olhada em Ned depois do almoço e, quando pressionado, disse que
estava o.k. Claro, o colega estava enrolado com os testes de
velocidade, então talvez não tenha prestado muita atenção.
Segurando um resmungo, saiu do carro e se dirigiu a um
restaurante chamado Cosmos. Pelo menos o evento não era num
bar. Apressou o passo, tropeçou na calçada desnivelada e
finalmente chegou ao destino. Recebeu um golpe de ar aquecido,
com os perfumes deliciosos de alho, tomate e pão recém-saído do
forno. A decoração do restaurante era de bom gosto, nas cores da
Toscana, e as mesas do salão principal recebiam uma iluminação
suave. Em cima de cada uma havia um cronômetro, e as pessoas
conversavam umas com as outras, com drinques e petiscos nas
mãos.
Ned congelou.
Lutou para controlar a vontade de dar as costas e ir embora,
mas não era um fracassado e não pretendia começar a ser. Ele
tinha se preparado para aquilo. Era o seu momento.
“Posso ajudar?”
Abaixou o olhar e viu uma moça jovem sorrindo para ele, com
uma prancheta nas mãos. “Sim, sou Ned Dunkle. Me inscrevi no
evento de hoje.”
“Claro.” Ela riscou o nome e entregou um pedaço de papel.
“Bem-vindo ao evento de speed dating da Kinnections. Ainda dá
tempo de pegar um drinque no bar. Aqui está seu número. Você vai
começar pela mesa nove. Cinco minutos em cada mesa, no
máximo. Aqui tem uma lista de todos os participantes. Se gostar de
alguém, é só anotar o nome, que no final nós vamos apresentar as
pessoas que se interessaram umas pelas outras.”
“Ótimo.” Ned pegou o papel com a mão suada e abriu caminho
até o bar. Risos e conversas animadas pairavam no ar, junto com o
cheiro almiscarado de perfume e de alguma coisa mais forte. Será
que vinha dele? Abaixou a cabeça discretamente e fungou. Era
mesmo, tinha exagerado na colônia. O perfume parecera agradável
em casa, mas agora sentia-se afogado pelas notas de pinheiro e
madeira que o rótulo prometia. Bom, tudo bem. Ninguém ia notar.
Deu uma olhada ao redor e entrou no clima. Foi quando a viu.
Perfeição.
A mulher atravessou o salão praticamente cintilando de energia
e elegância. Parando aqui e ali para falar com várias pessoas, ela
atraía a atenção tanto de homens quanto de mulheres. Os olhos
dourados cor de uísque dominavam seu rosto, e os cabelos
grossos, em ondas cor de caramelo, caíam abaixo do ombro. O
terninho rosa combinava com as unhas. Mas o que chamou mesmo
a atenção dele foram os sapatos. Salto alto, peep toe, rosa com
cristais. Em um dos dedos do pé, um anel prateado destacava
ainda mais as unhas pintadas de rosa-chiclete.
Era claramente o tipo de mulher que conseguia o homem que
quisesse, que tinha controle sobre sua sexualidade e dava as cartas
nos relacionamentos. Aquela risada rouca fez as orelhas de Ned
vibrarem e o deixou com frio na barriga. Era um som cheio de vida,
que anunciava diversão. Ele sentiu uma onda de desejo e precisou
segurar o riso. Até parece, vai. Não nesta encarnação. De qualquer
forma, se a mulher estivesse participando daquele evento de speed
dating, teria a oportunidade de conhecê-la e conversar com ela por
cinco minutos. Só isso já faria a noite toda valer a pena.
Não que ele estivesse em busca de uma mulher que fosse
somente bonita. Essa era uma lição que ele já tinha aprendido e
não precisava repetir. Não nesta encarnação.
Uma campainha tocou, e todo mundo correu para as mesas.
Hora do show.
Ele se dirigiu à número nove e se ajeitou na cadeira, com um
vinho de que não gostava, mas que tinha parecido um pedido mais
fácil para fazer ao barman. O drinque que costumava beber levava
tempo demais para explicar. Uma loira mignon se sentou na outra
cadeira da mesa, deu uma olhada nele e se encolheu um pouco.
Ned teve de se segurar para não esfregar o rosto e deixar o laranja
ainda mais óbvio.
O timer tocou.
“Oi, eu sou a Naomi.”
Ele respirou fundo. “Oi, Naomi. Meu nome é Ned.”
“Oi, Ned. Então, você trabalha em quê?”
“Hum, sou engenheiro aeroespacial.”
“Ah, de avião? Você tem um avião?”
Ele sacudiu a cabeça. “Não, foguetes.”
Ela arregalou os olhos, empolgada. “Você tem um foguete de
verdade?”
“Não, não. Trabalho com foguetes. Quer dizer, trabalho com
protótipos. Faço pesquisa. Não tenho um foguete.”
“Ah.” Ela pareceu decepcionada. “Gosto de viajar. E um jatinho?
Você tem um jatinho?”
Ele tentou se concentrar, mas a conversa estava tomando um
rumo estranho, e ainda não tinha passado nem um minuto. “Ah,
não, desculpe. Tenho um carro.”
Ela se animou. “Adoro carrões. Lamborghinis, Ferraris,
Hummers. Você viu aquele filme Velozes e furiosos? Tinha uns
carros incríveis.”
“Não, pulei esse.”
“Tá sentindo esse cheiro?” Ela franziu o nariz e deu uma olhada
ao redor. “É colônia?”
“Acho que alguém deve ter exagerado.”
“Argh, odeio quando isso acontece.”
“Eu também.”
Infelizmente, ela voltou à conversa bizarra original. “O carro diz
muito sobre um homem. As pessoas ficam falando o tempo todo
daquela bobagem de horóscopo, mas não percebem que é a
escolha do carro que de fato define uma pessoa.”
“Acho que não tinha me dado conta disso.”
“Que tipo de carro você tem, Ned?”
“Um Tesla. Recebeu o prêmio de carro mais seguro dos Estados
Unidos e não emite nenhum poluente. É o máximo em eficiência e
controle de custos.”
Ela suspirou. “Tenho um Mitsubishi Eclipse conversível
vermelho-cereja. Não acho que consiga namorar ou respeitar um
homem que dirige um carro econômico. Simplesmente não teria a
compatibilidade de energias que é necessária numa relação, em
especial na cama.” Ela deu um sorriso luminoso. “Mas foi um prazer
te conhecer, mesmo assim.”
Trim.
Já um pouco nervoso, Ned se levantou e foi na direção da mesa
seguinte. Uma morena alta de óculos o estudou atentamente e
esperou o cronômetro começar. “Meu nome é Sandra. Sou
professora do ensino fundamental, divorciada, não tenho filhos e
moro sozinha.”
Ned relaxou quando ela fez a pausa. Podia dar conta daquilo.
Uma conversa inteligente e direta para descobrir se havia alguma
química ou conexão. “Oi, sou o Ned. Trabalho como engenheiro e
nunca me casei.”
“Você tem problemas?”
Ele riu, divertindo-se com o senso de humor dela, mas logo
percebeu que falava seríssimo. “Ah, sim. Provavelmente. Todo
mundo tem problemas, não?”
“Eu não. Tem uma mancha na sua camisa.”
Ele passou a mão no tecido e cobriu a marca com o braço.
“Desculpe. Saí apressado do laboratório e estava atrasado.”
Ela apontou um dedo para ele. “Você é viciado em trabalho.”
Ned se ajeitou na cadeira. “Realmente trabalho demais, mas
estou tentando mudar isso. Você… você gosta do seu trabalho?”
“Na verdade, não. As mudanças no currículo estragaram tudo.
Os alunos do sexto ano são cheios de hormônios e impossíveis de
controlar. E estão querendo tirar todos os nossos benefícios.”
“Sinto muito. Você pensa em mudar de carreira?”
“Com essa economia?” Ela o encarou como se o jaleco que ele
vestia estivesse pegando fogo. “De jeito nenhum. Tenho que
aguentar, então fiz um planejamento para ter o mínimo de conflito.
Engravidar em mais ou menos dezoito meses, para poder estender
a licença para um ano. Ter o segundo filho exatos catorze meses
depois, de modo que as idades sejam próximas. Mas não quero
lidar com workaholics. Meu pai era assim, e o casamento com a
minha mãe terminou em divórcio. Você sempre foi egoísta?”
“Oi? Não, se tivesse uma família, não trabalharia tanto. Deixa
eu perguntar uma coisa…”
“Desculpe, mas não vou correr riscos com você. Acho que
nosso tempo acabou.”
Trim.
Na mesa onze, ele derrubou o coquetel da moça e manchou o
bonito vestido vermelho dela. Na doze, conheceu uma modelo que
o despachou na mesma hora, não sem antes dar uma lição sobre
os perigos do câncer de pele para quem pega sol. O vinho ruim
tinha acabado, mas não havia tempo para pedir outro, porque
aqueles cinco minutos se arrastavam infinitamente e emendavam
uma conversa horrorosa na outra.
Na mesa quinze, enfim, ele se deu bem.
Debra tinha um sorriso doce, cabelos longos ruivos e a pele
branca como leite. Ele se apresentou. “É um prazer conhecer você,
Ned. É tão difícil conhecer pessoas hoje em dia que ficamos reféns
de maneiras bem constrangedoras de fazer isso.”
Os ombros dele relaxaram um pouco. “É, concordo. Mas fico
surpreso em ouvir que você tenha dificuldades nessa área.”
Ela riu e abaixou a cabeça. “Obrigada. Bom, em vez de
perguntar um bando de perguntas nada a ver durante cinco
minutos, inventei um jeito mais divertido de saber que tipo de
personalidade a gente tem.”
“Muito criativa.” Ele já tinha lido sobre o assunto na revista
Cosmopolitan e também já tinha feito dúzias de testes sobre o tipo
de homem que as mulheres procuram. Sentiu a pele coçar de
excitação. “Manda ver.”
“Maravilha!” Ela sacou uma pilha de cartões e olhou para ele
com uma expressão divertida. “Primeira pergunta: a que tipo de
programa você me levaria num encontro, se quisesse me
impressionar?”
Ótimo. Ele sabia aquilo de cor. Tentou não deixar o triunfo
transparecer. “Levaria você à biblioteca pública de Nova York, em
Manhattan, para descobrir que tipo de livro você gosta. Depois
faríamos um piquenique no parque.”
A decepção nos olhos dela era óbvia. “Ah. A entrada da
biblioteca é grátis, Ned. E piqueniques são baratos. Nada de
limusine? Nem uma peça da Broadway? E o restaurante rotatório
no alto do Marriott Marquis? Você tem medo de gastar dinheiro
com mulheres?”
Do que ela estava falando? A Cosmopolitan sempre dizia que os
homens tinham que ser românticos. Únicos. Que dinheiro não
impressionava, mas atenção e originalidade, sim. “Desculpe, não
sei no que estava pensando. Qual é a próxima pergunta?”
Ela se endireitou na cadeira e passou para o cartão seguinte.
“Se você tivesse que elogiar alguma coisa em mim, o que seria?”
Essa ele sabia! A Marie Claire sempre falava disso. “Seu
sorriso.”
Ela deixou o queixo cair. “Tá de brincadeira comigo? Então
malho o dia inteiro pra você elogiar os meus dentes?”
Com os ouvidos zunindo, ele piscou algumas vezes,
completamente confuso. Aquilo não podia estar acontecendo. Da
última vez que seguiu o conselho de Connor e elogiou o corpo de
uma mulher, levou um drinque no meio da cara. “Não achei que as
mulheres gostassem que os homens fizessem isso.”
Ela revirou os olhos. “Isso é ridículo, a gente vive pra isso.”
Ned registrou a informação para voltar a fazer comentários
sobre corpos. “Tenho direito a mais uma tentativa?”
“A última. A mais importante. Se a gente brigasse, como você
pediria desculpas?”
Até que enfim. Não tinha a menor chance de ele errar desta
vez. “Eu reconheceria que estava errado e prometeria me esforçar
para resolver aquele problema, para que não se repetisse mais.”
Olá, revista Self. Boa comunicação e um pedido de desculpas
verbal era a prioridade número um das mulheres.
Debra enfiou os cartões na bolsa e olhou para ele. “Por que
diabos eu me importaria com as suas desculpas? Ações falam mais
alto que palavras. Quero joias. Desculpe, Ned, mas você não
combina comigo.”
Trim.
Quando chegou à mesa vinte, ele já estava magoado, cansado,
com sede e decepcionado. A maioria se importava com aparências
e dinheiro e parecia estar em busca de um “homem-objeto”,
enquanto tudo o que Ned procurava era um relacionamento sério,
para deixar todas aquelas bobagens para trás. Mas, a despeito das
semanas gastas lendo revistas femininas, tinha falhado em todas
as sessões de cinco minutos.
Por fim, chegou à última. A mulher parecia simpática, mas ele
já tinha se enganado antes. E não o faria novamente. Desta vez,
conduziria a conversa do seu jeito.
“Oi, eu sou a Bernadette.”
Ele se inclinou para a frente, pôs os cotovelos na mesa e
apertou os olhos. “Olá, meu nome é Ned. Quando você vai estar
pronta para casar e ter filhos?”
A mulher deu um pulo para trás. Parecia chocada, mas ele
podia apostar que era só cena. Não tinha encontrado ainda uma
mulher que não tivesse um plano parecido naquela noite. “Hum,
não tenho certeza. Quero me apaixonar pela pessoa certa.
Casamento e filhos podem vir depois.”
É, boa resposta. Ned se interessou mais. “Quanto tempo? Um
mês? Dois? Você já passou dos trinta, e as estatísticas mostram
que, quando seus óvulos chegam aos trinta e cinco anos, sua
fertilidade começa a cair, e as chances de ter um bebê saudável
diminuem em quarenta por cento.”
Teria sido aquilo um gemido? Ele estava simplesmente citando
estatísticas que lera em revistas como Glamour ou Self. O lábio
inferior dela começou a tremer, mas a moça estava prestando
atenção nele. “Tenho vinte e nove ainda”, a mulher murmurou.
“Bem à beira do precipício. Eu repensaria os planos se quisesse
ter pelo menos dois filhos. Você quer ter filhos, não quer?”
Outro gemido contido. “Quero, sempre sonhei em ter filhos.”
Até que enfim. Uma mulher que sabia o que queria. Ele
relaxou. “Eu também. Acho que temos crenças parecidas. A noite
foi difícil até agora, mas fico feliz por ter te conhecido, afinal. Acho
que o certo seria esperar até terminar, mas, já que correu tão bem,
que tal sairmos para jantar na sexta?”
Trim.
A mulher levou a mão trêmula à boca. Ela piscou depressa.
Eram lágrimas nos seus olhos? O que estava acontecendo?
Ele abriu a boca para perguntar, mas um vulto cor-de-rosa
apareceu no seu campo de visão.
A mulher dos sonhos.
Era ainda mais deslumbrante de perto. Os lábios tinham
somente um toque de brilho, e as narinas dele identificaram um
aroma de sândalo e canela. Ela pôs uma das mãos no braço de
Bernadette e cochichou qualquer coisa ao seu ouvido. Bernadette
assentiu, enxugou os olhos e ficou de pé. A mulher dos sonhos
passou as mãos nas costas dela, apontou na direção oposta e
observou enquanto a moça se afastava.
“Ei, a gente tava marcando um encontro.”
A mulher dos sonhos se virou e o encarou.
Ned congelou. Aqueles olhos de mel pareciam sugá-lo. Ficou
sem ar, hipnotizado pelo calor e pela fúria que emanavam em
ondas do corpo dela. Sem hesitar, a mulher pousou as palmas das
mãos na mesa e se debruçou sobre ele.
“Quero falar com você.”
Ele se animou. “Ótimo. O timer tá ligado?”
“Esquece o timer. Preciso terminar umas coisas e depois quero
conversar. Vou me encontrar com você no café aqui ao lado em dez
minutos.”
Não podia ser. Estava interessada nele? Estranho, ela parecia
intensa demais para estar simplesmente o convidando para sair,
mas ele seria capaz de ir a qualquer lugar com aquela mulher.
Talvez a noite horrível ainda fosse acabar bem. “Não preciso
preencher uma ficha primeiro?”
Seria possível que ela parecesse ainda mais zangada? A
expressão em seu rosto o fascinava, os ângulos acentuados e a
pele macia. Era engraçado, se você pegasse cada um dos traços
em separado, parecia que o rosto era grande demais para o corpo,
mas, juntando tudo, ela tinha cara de estrela de cinema. Tipo a
Julia Roberts. Uma estrutura longilínea, maçãs do rosto marcadas e
altas, sobrancelhas grossas, olhos grandes. “Tenho certeza que não
precisamos de ficha nenhuma. Vejo você no café.”
Ela se afastou, rodopiou sobre os saltos altos e desapareceu na
multidão.
Ned jogou fora a lista de participantes. A não ser por
Bernadette, a noite tinha sido um fracasso. Mas esse encontro com
a mulher dos sonhos era tudo o que ele desejara. Quem precisava
de relacionamento sério quando podia ter uma noite perfeita com
aquela mulher? Ele só teria o tempo exato de chupar mais uma
balinha de menta e esfregar outra vez um lenço de papel no rosto
para ver se conseguia amenizar o laranja.
Ned se dirigiu ao café.
2

Kennedy deu um gole no café e estudou o desastre ambulante


do outro lado da mesa.
Levou um tempo até conseguir acalmar a cliente, mas acabou
convencendo a pobre Bernadette de que o homem estava
brincando. Em seguida, apresentou-a a Brian, que tinha ficado de
olho nela a noite inteira. Eventos de speed dating eram… delicados.
Alguns clientes adoravam o ritmo acelerado e as decisões mais
rápidas ainda. Muitos curtiam o estresse e a adrenalina e
conseguiam deixar uma ótima primeira impressão.
Outros fracassavam.
Como aquele cara.
Não teve pressa, deixou que ele esperasse um pouco. Ele
provavelmente achava que teria alguma chance com ela, mas a
intenção de Kennedy era outra. Como responsável pelos
recrutamentos e transformações de estilo na agência de
relacionamentos Kinnections, já tinha lidado com vários tipos de
homens e dominava a delicada arte da paciência. Ela os ajudava a
encontrar o amor verdadeiro, usando uma combinação de
motivação, empatia e técnicas de psicologia comportamental.
No entanto, aquele palhaço tinha quebrado todas as regras, e
ela não o deixaria voltar à sociedade sem antes tentar proteger as
próximas mulheres. As luzes fortes do café enfatizavam o tom
berrante da pele dele. Meu Deus, era quase um Doritos de carne e
osso. O homem aguardou pacientemente até que ela terminasse de
falar, e Kennedy notou quando ele pegou um punhado de
guardanapos para limpar a mesa de fórmica branca antes de apoiar
os cotovelos ali. Ótimo, mais um maluco por limpeza no mundo.
“Como é o seu nome?”, perguntou.
“Ned.”
“Oi, Ned, meu nome é Kennedy. Posso fazer uma pergunta?”
“Claro.”
“O que você esperava da noite de hoje?”
Ele piscou por trás dos óculos de armação grossa preta. Em
geral, ela adorava armações pretas estilosas, de marca, mas
aquelas eram um erro. Grandes demais, quadradas, cobriam o
rosto todo e engoliam os olhos. “Não entendi. Estou tentando
encontrar a mulher certa pra mim.”
“Sei. Você normalmente se aproxima de mulheres
desconhecidas e dispara as mesmas perguntas que fez para a
Bernadette?”
Ele arqueou a monocelha de um jeito que dava medo. Kennedy
sentiu os dedos coçarem de vontade de ter uma pinça por perto.
“Estava começando a conhecê-la. Achei que tivéssemos uma
conexão.”
Ela bateu com uma das unhas na caneca lascada. “Você achou
que tivessem uma conexão? Você a insultou, destruiu sua
confiança e acendeu nela a chama do medo de ficar sozinha e sem
filhos para o resto da vida. Honestamente, acha que isso é
sucesso?”
Ele recostou na cadeira e sacudiu a cabeça, confuso. “Não, não
tive essa intenção. Só fui direto.”
“Idade e peso são assuntos que nunca devem ser discutidos.
São o cálice sagrado do silêncio, Ned. Você não sabe disso?”
Ele passou os dedos nos cabelos. As mechas despenteadas
chegavam quase aos ombros e cobriam boa parte do rosto.
Kennedy imaginou se ele já tinha ido a um cabeleireiro na vida.
Estava sem corte e sem nenhuma tentativa de estilo. Ele lhe
lembrava um cão pastor malcuidado. “Claro, claro que sei disso.
Esqueci completamente porque fiquei chateado. Passei por vinte
sessões de tortura com mulheres que só estavam preocupadas com
dinheiro, lugares onde ter um encontro e quantos aviões eu tinha.”
“Você tem um avião?”
“Não tenho, essa é a questão! Achei que o objetivo disso tudo
fosse encontrar uma mulher que tivesse crenças parecidas com as
minhas, mas elas só querem falar de dinheiro!”
Kennedy o estudou com mais atenção. Ele parecia realmente
chateado, e ela não sentiu as vibrações estranhas que estava
esperando. As mãos alaranjadas agarravam a caneca de café em
busca de conforto. O jaleco branco de laboratório parecia ridículo
combinado com a calça saída diretamente dos anos 80. O tecido
cáqui brilhante, o corte largo nos quadris, sem bolsos nem um
formato definido. A mancha grande e borrada de café no meio do
peito lembrava um daqueles comerciais de sabão em pó. O homem
precisava de um balde de Vanish.
Mas foram as canetas presas no bolso que o entregaram.
Ah, que nerd. Muito nerd. Dos óculos às roupas à conversa sem
jeito, era como se ele gritasse “me ajuda”. Será que era para valer?
Ficou curiosa. “O que você está procurando? Sexo? Alguns
encontros?”
O homem endireitou os ombros. Um fio solto balançava na
costura do jaleco. “Quero encontrar uma esposa.”
“Por quê?”
Ele não titubeou. Encarou-a com uma franqueza que a
surpreendeu. “Estou cansado de viver sozinho. Na última década,
minha carreira tem vindo em primeiro lugar. Não estou interessado
em passar de mulher em mulher e nenhuma querer algo sério.
Quero formar uma família. Ter uma companheira. Será que é pedir
demais?”
Pousou o café na mesa e flexionou os dedos. Ela notou que as
unhas estavam roídas até o toco. Quase dava para ver as ondas de
frustração que ele emanava. Era raro ver um homem tão focado
em se casar. Em condições normais, faria a dança da vitória e
imediatamente fecharia um contrato com ele na Kinnections. Pena
que ele não fazia ideia disso. Talvez só precisasse de alguns
conselhos.
“Não tem nada de errado com esse objetivo, mas as pessoas
precisam praticar um pouco antes. Um flerte. Uma conversa toma
lá dá cá, que crie confiança. Essas coisas levam a um primeiro
encontro de verdade.”
“Eu sei. Eu me preparei.”
Ela arqueou uma sobrancelha. “Você tá laranja, cara.”
“Tentei usar um bronzeador pra dar um ar de praia. Achei que
as mulheres fossem gostar.”
“Você tá com uma mancha de café na camisa, veio de jaleco,
não corta o cabelo desde o ano 2000, e sinto como se estivesse
sendo arrastada pra floresta e enterrada embaixo dos pinheiros pra
morrer. Esse cheiro é da sua colônia?”
Ele desanimou e começou a cutucar a unha. “Já está provado
que as mulheres são suscetíveis ao poder emocional dos aromas.
Uma caminhada na natureza desperta sensações de felicidade.”
“Não quando você usa meio vidro. Minha sensação é muito
mais parecida com uma corrida terrível pela floresta, fugindo de um
urso-pardo assassino.”
“Eu exagerei. Tive que trabalhar até tarde. Além do mais, não
quero uma mulher que dê importância a roupas ou aparência.”
Kennedy suspirou. “Roupas são importantes. Uma primeira
impressão dá a oportunidade de mostrar à outra pessoa que você
se importa. Não precisa vestir Calvin Klein, mas roupas limpas e
bem passadas com certeza aumentam as chances de conhecer a
pessoa certa.”
“Eu tentei.” Os olhos dele brilharam “Quer jantar comigo na
sexta à noite?”
“Não.”
“Você não me chamou aqui pra sair comigo, né? Você queria
era me dar um esporro.”
Ela disfarçou uma risada. Era uma pena. Um homem com boas
intenções vale ouro, principalmente quando quer encontrar um
amor de verdade, em vez de esconder-se atrás de sexo casual e de
alguns bons momentos.
A não ser que…
A ideia nasceu, brotou e floresceu em rosas abertas. A não ser
que ela cuidasse dele. Ensinasse como interagir com as mulheres.
Fizesse uma transformação de estilo. Mostrasse como transformar
uma conversa em um encontro de verdade, em vez de ficar
nadando sozinho em águas infestadas de tubarões. Uma onda de
excitação tomou conta de Kennedy, algo que não sentia havia
muito tempo. Possibilidade.
Estava louca para transformá-lo.
Era boa demais em seu trabalho e tinha no currículo vários
casais formados para reforçar sua confiança. Nos últimos tempos,
estava um tanto em crise. Nada mais a animava. Seus próprios
encontros eram banais e só levavam a uma sequência infinita de
decepções. Os amantes que levava para a cama a satisfaziam por
uma ou duas horas, mas, sob a luz cruel do dia, não sentia a
menor necessidade de mantê-los por perto. A carreira era
satisfatória, mas ultimamente não vinha fazendo nada de
espetacular. Estava empacada, enquanto todo mundo ao seu redor
parecia estar seguindo adiante em ritmo acelerado. A maioria dos
amigos próximos estava comprometida ou envolvida em
relacionamentos sólidos. Em geral, adorava a ideia dos encontros e
se sentia atraída pelas possibilidades que eles traziam, mas
recentemente andava estressada e vinha passando a maior parte
do tempo na Kinnections ou com algumas poucas amigas.
Aquele homem era um desafio.
Kennedy trocou a marcha e entrou no modo “negócios”.
Primeiro, precisava de mais informações antes de se comprometer.
Ele continuava totalmente colado na cadeira, sem movimentos de
tensão ou impaciência. Com certeza era um piloto de escrivaninha
experiente. “Como é seu nome completo?”
“Nathan Ellison Raymond Dunkle.”
Incrível. Aquilo só melhorava. “Nossa, que comprido, Ned.”
O rosto dele continuou impassível. “Eu sei. Se minha mãe ainda
estivesse viva, a gente poderia sentar para conversar sobre as
intenções dela.”
“Você já reparou que, se puser um R no meio do seu apelido,
vira NERD?”
A monocelha levantou de novo. “Se você se acha esperta, vou
ser obrigado a dizer que os garotos do colégio também
descobriram isso com facilidade. Você vai ter que se esforçar mais
pra me impressionar.”
Kennedy reprimiu um sorriso. Bom. Ele tinha algum senso de
humor enterrado embaixo de toda aquela inteligência. É impossível
ensinar essa característica a alguém, ou a pessoa tem ou não tem.
Definitivamente, ali havia material bruto para ser esculpido e
polido. “Touché. E você faz o quê?”
“Sou engenheiro aeroespacial.”
Ela levou o dedo aos lábios e admirou o cenário que se
desdobrava à sua frente. Podia ser ainda melhor? “Você constrói
foguetes.”
Deu para notar que ele estava ficando impaciente, mas mesmo
assim se manteve imóvel. “Sim, é o que faz um engenheiro
aeroespacial. Mas não saímos por aí dizendo isso. Está fora de
moda.”
O olhar dela recaiu sobre as canetas dentro do bolso do jaleco.
“Me desculpe.”
A postura dele mudou e ele olhou para ela como se suspeitasse
de alguma coisa. “O que você quer? Já pedi desculpas pela
maneira como falei com a Bernadette. Você não está interessada
em sair comigo. Por que ainda estou aqui?”
Kennedy se esforçou para não lamber os beiços e pedir uma
porção de chantili. Um cientista espacial nerd e rico que quer se
casar e encontrar a parceira ideal. Aquilo era seu canto do cisne,
sua Eliza Doolittle, um feito que a consagraria, o desafio de uma
vida.
“Tenho uma proposta para fazer.”
“Que tipo de proposta?”
Ela sorriu. “Uma que vai mudar a sua vida. Vou dar tudo o que
você sempre quis. Vou encontrar a mulher dos seus sonhos. Tudo o
que você tem que fazer é me escutar.”
Ele piscou. Ponderou. E se inclinou para a frente.
Estava ouvindo.
Parou de roer as unhas e a estudou com um olhar afiado.
“Como? Quem é você?”
“Kennedy Ashe. Junto com duas sócias, sou dona da agência de
relacionamentos Kinnections. Nós organizamos o evento de speed
dating para os nossos clientes hoje à noite, mas também estamos
querendo expandir. Nosso foco é aproximar casais interessados em
relacionamentos sérios. Nossas estatísticas são bem
impressionantes, e posso levantar bastante informação para você
conhecer nosso trabalho. Você parece gostar de números.
Resultados. Certo?”
O panorama pareceu convincente. Ele ajeitou os óculos no
nariz. “Você organizou o evento? Você é uma vendedora.”
“Recrutadora. Tenho uma proposta pra você, Ned. Quero ajudar
você a encontrar uma esposa.”
A decepção apareceu no rosto dele. Ela notou que seus ombros
murcharam. “Entendi. Você quer que eu contrate a sua agência.
Quanto?”
A agitação tomou conta de Kennedy. O olhar dele, desconfiado
e acusador, só confirmava sua inteligência. Aquilo seria divertido.
“Ah, você acha que sou uma espécie de cafetina, não acha? Que
vou pedir um depósito polpudo, prometer mundos e fundos e
sumir, certo?”
“Isso passou pela minha cabeça.”
“Eu ficaria decepcionada se não passasse. Acho que posso te
ajudar. Meu papel principal na Kinnections é cuidar dos clientes e
dar a eles as ferramentas para conhecer e se relacionar com o sexo
oposto. As pessoas têm problemas. O mundo é duro,
principalmente no que diz respeito a conhecer gente. Às vezes, as
pessoas precisam aprender a superar algumas de suas barreiras
sociais para conseguir mostrar o que têm de melhor.”
Ele soltou um riso de deboche. “Ah, entendi. Você quer que eu
minta e finja ser outra pessoa para conquistar a garota. Isso nunca
vai dar certo.”
“Por que não?”
“Porque vai ser uma miragem. Não vou conseguir mudar quem
eu sou por dentro. Não quero.”
“Nem eu. Olha, se você não permitir que as mulheres vejam
você como de fato é, nunca vai conhecer a companheira dos
sonhos. Não vou mudar quem você é. Não tem necessidade disso.
Mas vou mexer em algumas coisas simples e superficiais para que
você tenha mais oportunidades. As primeiras impressões são
fundamentais. Estou falando de um pouco de verniz. Um polimento
na capacidade de conversar socialmente. Faz sentido?”
Ele coçou a cabeça. O cabelo desarrumado se repartiu e depois
caiu ao redor do rosto como uma cortina. “E o que você ganha com
isso?”
“Satisfação profissional. Se eu for bem-sucedida, talvez atraia
mais negócios para a Kinnections. E uma oportunidade de ajudar
alguém. É isso.”
“Quanto?”
“O pagamento inicial é de mil dólares. Inclui aconselhamento,
transformações de estilo e dois encontros.”
“E se eu concordar?”
Ela sentiu que Ned estava se entregando, mas era preciso
garantir que seria nos termos dela. Ele era um projeto que exigiria
todo o seu tempo e sua energia. “Se você concordar, vou encontrar
seu par perfeito. Mas você tem que se deixar completamente nas
minhas mãos.”
“Qual é a duração do contrato?”
“Um ano. Claro que, se você não vir resultados ou não estiver
satisfeito, pode nos deixar a qualquer momento, pagando apenas o
depósito inicial. Vem tudo explicado no contrato.”
“Como começamos?”
Ela pegou o celular. “Me dá seu e-mail, assim posso te mandar
o contrato, além de outras informações. Quando você tiver tomado
uma decisão, é só me avisar. Daí marcamos a consulta inicial e
vamos em frente.”
Ele ditou o e-mail. As unhas dela batiam no vidro enquanto
digitava.
“Por que eu?”
Kennedy levantou os olhos. A pergunta direta a atingiu fundo, e
ela se emocionou. Já não era difícil o bastante sair por aí
sucessivas vezes e sempre falhar? Acreditar que realmente existe
alguém perfeito para você? Aquele homem de roupas largas, óculos
grandes demais e pele laranja queria acreditar. Seria o maior teste
dela e a confirmação de sua crença em finais felizes.
Ao menos para algumas pessoas.
Sua voz vibrou com determinação. “Porque acredito que haja
uma pessoa certa pra cada um. E quero ajudar você a encontrá-la.”
Sem mexer um músculo, ele a encarou longamente e avaliou
seu rosto. Em seguida, acenou com a cabeça. “O.k.”
“Dá uma olhada no contrato. Se concordar com os termos, me
liga para marcarmos uma consulta formal esta semana ainda.
Estou muito animada pra trabalhar com você.” Deu o último gole
no café e estendeu a mão para pegar o dinheiro na bolsa.
Ele segurou seu pulso. “Pode deixar comigo.”
A pegada era firme. Ela esperava mãos macias e úmidas, mas
descobriu que eram firmes e deliciosamente quentes. Tirou logo a
mão. “Obrigada. Vou esperar pela sua ligação.”
Kennedy escorregou do banco e saiu do café. No caminho até o
carro, sentiu seus passos leves, e a brisa fresca de março pareceu
repleta de possibilidades.
3

Kennedy levantou os olhos quando as duas amigas e sócias


entraram correndo no escritório. “O que houve? Os relatórios de
lucros do trimestre chegaram?”
Kate parecia prestes a explodir de entusiasmo. “Melhor.”
“A Arilyn finalmente levou o cara da FedEx pra cama?”
Arilyn sacudiu o cabelo ruivo que chegava à cintura, fingindo
levar aquilo a sério. “Os documentos dele são muito menores do
que os do homem com quem estou saindo, muito obrigada.”
Kennedy riu. “Conta.”
Kate bateu palmas. “A Jane e o Tim vão se casar!”
Kennedy pulou da cadeira e abraçou as amigas, aos gritos. Jane
era uma cliente da Kinnections que teve dificuldade para encontrar
o parceiro certo. As três tinham trabalhado juntas para aumentar a
confiança dela, melhorar sua aparência e encontrar um par
adequado. E, claro, quando o irmão mais velho de Jane, Slade,
ameaçou acusar a empresa de fraude, num esforço para proteger a
irmã, Kate o convenceu a juntar-se também a elas, como cliente. A
ideia era provar que a agência era séria.
Ela conseguiu. No processo, os dois se apaixonaram e depois
ficaram noivos. Com a irmã também feliz, aquilo tornava o
casamento ainda mais especial. Claro, não era nada mau que Kate,
sócia principal e fundadora da Kinnections, tivesse um dom especial
que a permitia reconhecer quando havia uma conexão verdadeira
entre duas pessoas. Por causa dessa habilidade única, ela sabia
que Slade era sua alma gêmea, assim como Jane era a de Tim.
Ken fez uma pausa no meio do abraço. “Será que a gente pode
usar isso nos anúncios? Ia ser incrível. Irmão e irmã encontraram
seus pares graças à Kinnections. Casamento em dobro. Encontre
também o seu par!”
Kate e Arilyn olharam para ela e depois sacudiram a cabeça.
“Claro que não. Essa comemoração é privada”, alertou Kate.
“Evidente que vamos contar como estatística, dois casamentos a
mais. Estamos atingindo números altíssimos, você deveria ficar
feliz.”
Ken fez um biquinho. O truque sempre funcionava com os
homens. Eles diziam que era sexy e irresistível. “Eu não diria
nomes. Estamos perdendo uma fortuna e a chance de acabar com
aquele reality show ridículo do canal Bravo. Quem precisa de um
milionário quando pode encontrar o amor logo ao lado?”
Arilyn bufou de leve. “Nem pensar. E você precisa de outro
truque. Esse biquinho já tá passado. Talvez uma mordidinha? É o
que fazem em todos os romances eróticos.”
Ken revirou os olhos. “Não sou um clichê, A., e esse truque
nunca falhou comigo. Tá bom, esquece o anúncio. Mesmo assim,
estou muito feliz por você e pela Jane.”
Kate sorriu. “Vamos beber alguma coisa? Só as garotas? No
Mugs?”
“Claro. Que tal sexta? Arranca a Genevieve daquele cara pra
gente fazer uma comemoração completa. Não acredito que temos
três noivados no nosso grupo.” Ken sentiu um nó estranho no
estômago, mas ignorou a sensação. Não estava mesmo interessada
em casamento. Ela se entediava com facilidade e, até onde sabia,
nenhum homem seria capaz de amarrá-la. Mas suas amigas
mereciam cada momento de felicidade, e não havia a menor
possibilidade de não as apoiar.
“Combinado.” Kate reparou no terninho Chanel preto que Ken
usava. “Você tem cliente marcado?”
Um calafrio de excitação percorreu o corpo de Kennedy. “Tenho,
deve chegar a qualquer momento. Vai ser um desafio e tanto. Vou
cuidar dele eu mesma.”
Kate esticou o pescoço. “Hum, já tem um tempo que você não
pega um cliente novo, principalmente homens. É gato?”
Kennedy sorriu. “Não. É um desastre. Não é ótimo?”
Arilyn, terapeuta e especialista em computadores da
Kinnections, suspirou. “Vou liberar minha agenda.”
“Vou precisar de todas vocês desta vez.”
“Como ele é?”
Kennedy estava quase pulando de entusiasmo. “Só tenho três
palavras pra vocês. My. Fair. Lady.”
Kate riu. “Não é possível!”
Até Arilyn deixou o ar meditativo de lado para perguntar: “Ruim
tipo o quê? Nível máximo de desleixo?”.
“Imagina só. Totalmente nerd. Óculos fundo de garrafa. Cabelo
desgrenhado. Roupas maltrapilhas. E a pele laranja de
autobronzeador que deu errado.”
Kate parecia avaliar os itens da lista com satisfação. “Mas só a
aparência?”
“Muito pior. Ele falou pra Bernadette no speed dating que ela já
tinha quase trinta e que os óvulos dela estavam envelhecendo.
Depois a convidou pra sair.”
Arilyn se encolheu. “Pobre Bernadette. Ela chorou?”
“Quase, mas consegui dar um jeito. Levei o sr. Nerd até o café
pra dar um toque nele, mas descobri que o cara não tinha ideia do
que estava acontecendo. Quer encontrar uma esposa e não sabe
como fazer isso. Eu tinha que pegar esse caso.”
“O que você vai fazer primeiro?”, perguntou Kate. “Cabelo,
certo? Um bom corte conserta tudo.”
Arilyn balançou a cabeça. “Não dá pra fazer nada se a pele
estiver laranja. Estamos falando de cor de abóbora?”
A campainha tocou. As três se viraram para olhar.
Ned estava de pé na entrada. Jaleco de laboratório, duas
canetas no bolso e calça larga de tweed. Os sapatos de sola grossa
quase pareciam ortopédicos. Também tinha feito algo estranho no
cabelo. Em vez de cair sobre o rosto, agora estava penteado para
trás, com um quilo de gel segurando um moicano meia-boca.
Kennedy se perguntou se um furacão de categoria cinco
conseguiria tirar uma mecha do lugar.
“Olá.” Ele fez uma pausa, esperando que elas falassem, mas foi
preciso um minuto até conseguirem absorver o corte de cabelo.
“Sou o Ned.”
Kate quebrou o silêncio mortal e entrou no modo anfitriã.
“Bem-vindo à Kinnections, Ned. É um prazer ter você aqui. Meu
nome é Kate, sou sócia da Kennedy.”
Arilyn sacudiu a cabeça e saiu do transe. “E eu sou a Arilyn.
Faço a parte de terapia e cuido da programação dos computadores.
Prazer.”
Ele levou a mão à cabeça para conferir, mas o cabelo não tinha
se mexido nem um centímetro, claro. “Obrigado.”
Kennedy limpou a garganta. “Penteado novo?”
Ned deu um sorriso pela metade. “É, você disse que estava
desarrumado, então achei melhor ajeitar. Gostou?”
Ela trocou um olhar com as amigas. “Não, mas a gente vai
consertar.”
Sem desfazer o sorriso, Kate cochichou entre os dentes:
“Vamos começar pelo cabelo”.
Arilyn se enfiou na roda. “Sério? O cara tá completamente
laranja. Ele precisa ir na Ming.”
Kate estremeceu. “Meu Deus, tem certeza? Tá tão ruim assim?
Se a gente usar a Ming de primeira, pode ser que ele nunca mais
volte.”
Kennedy suspirou. “Não temos escolha, o pigmento tá
totalmente desbotado.”
Arilyn fungou. “Que cheiro é esse? Parece que estou me
afogando no mar.”
Kennedy baixou a voz. “Da última vez, era um cheiro
almiscarado. Ele não faz ideia da quantidade de colônia que deve
usar.”
“Ei, eu estou bem aqui. Dá pra ouvir tudo o que vocês estão
falando, por mais que achem que estão cochichando”, disse Ned,
irritado.
Arilyn estalou a língua. “Desculpa, Ned. A gente só quer o seu
melhor.”
Kate concordou. “A Kennedy vai cuidar muito bem de você, e a
gente vai estar aqui caso precise de alguma coisa.”
“Vamos para o consultório”, disse Ken. “A gente se vê mais
tarde, meninas.”
Elas deram um tchau animado, e Kennedy guiou Ned até a sala
roxa. Os arquivos, o contrato e as anotações já estavam prontos
em cima da mesinha, organizados num fichário de couro. As
poltronas roxas e macias combinavam com o tapete fofo, com o
aroma amadeirado e com as aquarelas na parede cor de creme.
Um fio de água borbulhante corria por um jardim de pedras, um
fundo relaxante para compartilhar sonhos e desejos. A sala tinha
sido projetada para inspirar abertura e confiança, um paraíso de
Feng Shui criado por Arilyn, cujo amor por ioga, meditação e pelas
coisas místicas do universo ajudava a balancear o hábito
workaholic de Kate e a tendência de Kennedy a fazer cena para
aumentar a clientela.
Ela sinalizou para Ned sentar. “Por que não fica à vontade?
Analisei as respostas do seu questionário, mas o primeiro passo é
termos uma conversa confidencial, pra que eu possa ter uma ideia
da mulher que vai combinar com você. Depois podemos decidir o
que vai funcionar melhor.”
“Nada de speed dating.”
Ela sorriu. “Concordo. Mas temos milhares de opções.” Ned se
encostou nas almofadas roxas. “Trouxe uma água pra você. Ou
prefere café? Ou chá?”
“Não, água tá bom, obrigado.”
Ken cruzou as pernas e deu uma olhada nos papéis. “Por que
não começamos com o seu trabalho? Você tem um currículo
impressionante. Nasa?”
“Trabalhei lá por uns anos. Depois fui para o setor privado. A
Sector Space X é uma empresa jovem, com foco num nicho
especial do mercado, naves espaciais para civis. No momento,
estou estudando a propulsão avançada.”
“O que faz o foguete levantar, certo?”
“Correto. Claro, o novo motor Vortex usa um gel propulsor, o
que é muito fascinante, mas estou analisando um método mais
eficiente, apesar de controverso.”
Kennedy quis perguntar mais detalhes do trabalho dele, mas
não era o objetivo da reunião. Ela sempre se interessara por
mecânica, embora não tivesse o menor talento para o ofício. Toda
vez que tentava ver como alguma coisa funcionava, era aí mesmo
que o negócio quebrava. Ainda assim, havia um toque sexy num
homem que entendia dessas coisas, e ela precisava que Ned logo
de cara revelasse mais esse lado, para atrair as mulheres. Fez uma
anotação.
“Você tem o corpo perfeito. Malha com frequência?”
Kennedy parou com a caneta no ar. “Você acabou de fazer um
comentário sobre o meu corpo?”
Ned franziu a testa. “Não quero que se ofenda, só quis fazer
um elogio.”
O aspecto positivo do comentário tinha se perdido no meio da
completa grosseria. Ela se inclinou para a frente e lançou um olhar
ameaçador. “Regra número um: não é permitido perguntar,
comentar ou expressar qualquer opinião sobre nenhuma parte do
corpo de uma mulher. Compreendido?”
“Por quê?”
“As mulheres são muito sensíveis à possibilidade de ser tratadas
como objeto. Muitas de nós têm problemas de autoestima, e não
queremos ser lembradas das nossas fraquezas.”
Ned passou os dedos pelos cabelos, mas eles ficaram presos no
gel nojento. “Droga, foi isso que a Cosmopolitan disse! Sempre
segui ao pé da letra, até aquela moça no speed dating dizer que as
mulheres adoram ouvir comentários sobre o corpo. Disse que não
se matava na academia pra ouvir elogios sobre o seu sorriso.”
Kennedy disfarçou um suspiro. Coitado. Sinais sociais confusos
podem despedaçar um homem, principalmente alguém como ele.
“A Cosmopolitan está certa. Essa mulher é uma exceção.”
“Não sei, não. Meu irmão diz que as mulheres adoram quando
os homens prestam atenção no corpo delas. Que se você elogiar o
peito, a bunda ou a boca, é certo que vai conseguir atenção.”
Kennedy sentiu o corpo tenso, conforme as memórias
começaram a voltar. Ela escondida junto dos armários, com medo
de passar pelo corredor onde ele a esperava. As risadas e os
insultos de “gorda” que ecoavam no ouvido durante a noite. Por
causa do excesso de peso, tinha os seios maiores do que a maioria
das meninas, e aqueles olhares imundos e mãos-bobas ainda
conseguiam enojá-la. Firme, lembrou a si mesma que aquilo era
passado e respirou fundo. Este homem não fazia mesmo ideia de
como falar com as mulheres, e era ali que ela começaria o
trabalho. Podia apostar que ninguém jamais tinha tentado educá-
lo.
“O seu irmão está enganado, Ned. Muito enganado. A melhor
maneira de deixar uma mulher contente é dizer que ela é
inteligente. Elogiar seu senso de humor. O brilho nos olhos ou a
doçura do sorriso. A delicadeza de um gesto. Queremos que nos
valorizem por outras coisas que não o corpo. Só assim sentimos
segurança para dar abertura.”
Ned parecia observá-la com uma atenção ardente, que irradiava
através das lentes grossas dos óculos e perfurava a alma de
Kennedy. Uma imagem de Clark Kent passou por sua mente. Nerd,
desajeitado, socialmente inadequado, mas ardente por dentro. Ela
sabia que daria conta. Sentia que, no fundo, havia um grande
potencial nele, que ela estava louca para descobrir. Mas nada
aconteceria se ele não quisesse mudar, a começar por aprender
como tratar as mulheres. Aguardou a resposta e sentiu que aquele
seria um momento decisivo.
“Eu compreendo. Faz sentido. É o que diz o consenso das
revistas.”
“Revistas?”
“É. Quando decidi que estava na hora de levar um
relacionamento a sério, estudei todos os aspectos culturais, para
ter uma ideia do que as mulheres querem e esperam de um
homem.”
Kennedy arregalou os olhos. “Então você leu a Cosmopolitan. E
o que mais?”
Ele foi contando nos dedos. “ Marie Claire, Self, Glamour, Oprah
e Men’s Health. Li todas as reportagens e fiz todos os testes. É por
isso que estou tão frustrado. As reações que recebo não seguem
nenhum padrão.”
Caramba, será que ela já tinha conhecido um homem que
tivesse se esforçado tanto para arranjar uma esposa? Seu coração
ficou mais mole. Era preciso dar crédito a ele. O cara podia ter feito
uma confusão danada, mas tinha boas intenções. “É por isso que
estou aqui. Vou ajudar você a entender. Vamos falar da sua família.
Seu irmão é casado?”
“Ah, não, ele não tem o menor interesse em relacionamentos
sérios. Diz que tem mulher demais por aí pra ficar com uma só.”
Ah, não. Um irmão mais velho dando maus conselhos era um
pesadelo. “Entendi. Vocês dois são próximos?”
“Sim, a gente mora junto agora. Ele me criou depois que nossa
mãe se mandou. Nosso pai ficou arrasado demais para dar conta
da gente, então meu irmão assumiu.” Kennedy reparou que ele
narrava os fatos com calma, como se estivesse fazendo uma
apresentação em PowerPoint. Sentiu um aperto no coração. Podia
apostar que a inteligência sempre o distinguira da maioria, e que
uma mãe amorosa teria ajudado.
“Sinto muito.”
Ned encolheu os ombros. “Não precisa. A gente se virou bem.
Podia ter sido muito pior.”
Ele tinha razão. Muitos homens enterravam o passado ou o
usavam para justificar o mau comportamento. Ned aceitara as
circunstâncias e seguira em frente. Kennedy sentiu admiração. Sim,
ele tinha caráter. E com isso ela poderia trabalhar.
“E que tal seus relacionamentos anteriores?”
Ele se encolheu. “Não tenho muito o que dizer. Me formei cedo,
fui selecionado pra Nasa e trabalhei sem parar por vários anos. Saí
com algumas mulheres aqui e ali, mas raramente passei do terceiro
encontro. A maioria ficava entediada com a minha carreira depois
que descobria que eu não era astronauta. E, agora que voltei pra
Nova York, levei um tempo até me ambientar. Mudei pra casa do
meu irmão e mergulhei num projeto novo, então ainda não tive
oportunidade de conhecer ninguém.”
Ken se segurou para não perguntar sobre seu passado sexual,
mas acabou riscando o item da lista. Seria íntimo demais, por
enquanto. Não achava que Ned fosse virgem, mas soava como se
suas experiências na cama fossem, digamos, limitadas.
“Não sou virgem.”
Kennedy já não se lembrava mais da última vez em que tinha
ficado vermelha, mas jurou que não seria a primeira. “Não
perguntei.”
O homem retorceu os lábios num sorriso autodepreciativo. “Deu
pra ouvir os seus pensamentos em alto e bom som. Já tive
experiências sexuais. Que nunca deram em nada, porque os estilos
de vida não combinavam. Se eu sentisse que tinha uma deficiência
nesse departamento, daria um jeito de resolver.”
Kennedy ficou tensa. Era raro escutar um homem falar de sexo
com tanta honestidade, sem se colocar na defensiva. Podia apostar
que ele estaria aberto a todo tipo de sugestão, com um objetivo
simples: dar prazer a uma mulher. Do mesmo jeito que encarava o
trabalho e a vida, a cama seria apenas mais um obstáculo a
superar. Anotou qualquer coisa no bloco e limpou a garganta.
“Entendido. Vamos falar um pouco sobre as mulheres. Fiz
alguns comentários sobre a suas respostas na pesquisa. Você não
parece muito exigente. Está aberto a outras etnias? Faixas etárias?
Históricos? Com que tipo de mulher você se vê no futuro?”
“Qualquer uma.”
Kennedy o encarou. Já tinha aconselhado centenas de homens
e sabia que sempre havia uma lista. Um tipo. Alguém para evitar a
qualquer custo. “Você está disposto a sair com qualquer uma?
Deve ter alguma qualidade que você procura numa esposa.”
Ned cutucou as unhas, mas pareceu se controlar, porque logo
pousou as mãos sobre os braços da poltrona. “Claro. Posso
desperdiçar o seu tempo fazendo uma lista de qualidades que todo
mundo sonha encontrar numa alma gêmea. Generosidade, humor,
boa aparência, inteligência, química sexual. Mas não significa nada
até que eu a conheça, não é? Se eu gostar dela, estou disposto a
relevar. Quero ter com quem dividir a vida e criar uma família.
Então, minha resposta é essa. Estou aberto a qualquer uma. Só
preciso encontrá-la.”
O mais estranho era que aquilo fazia todo sentido. Com aquele
homem, não haveria espaço para jogos ou suposições. Direto,
honesto, convicto. Kennedy só tinha que encontrar uma mulher
que tivesse essas mesmas qualidades, ou que fosse o completo
oposto. Talvez se desse bem com tipos parecidos com ele, ou então
precisasse do equilíbrio da contradição.
Com certeza um coquetel. Pequeno, talvez quatro ou cinco
mulheres de todos os tipos, um caldeirão em que ele pudesse
mergulhar. Mas nada disso funcionaria antes de uma mudança
significativa na aparência.
Ken sorriu. “Acho que essa foi uma resposta excelente.”
“Então por que você está com essa cara? Estou ficando
nervoso.”
Ela riu. “Disse que não vou tentar mudar quem você é, mas
preciso dar uma polida na superfície. Nas próximas duas semanas,
vou colar em você. Vamos nos encontrar todos os dias depois do
seu trabalho e nos fins de semana também. Quando eu achar que
você está pronto, vamos agendar os primeiros encontros. Parece
bom?”
Ele baixou a monocelha. “O que é que você vai fazer comigo?”
Kennedy sentiu as palmas das mãos literalmente coçarem, o
que era um indicativo de sucesso. Baixou a voz.
“Tudo.”
Aquela voz rouca e sexy quase fez Ned saltar na cadeira. Era
como veludo e cascalho ao mesmo tempo. A palavra penetrou em
seu cérebro, despertando um leque de imagens deliciosas.
É. Ela realmente era uma distração.
Imaginava que Kennedy gostasse de flertar, mas duvidava que
tivesse se dado conta do que fizera com ele. É provável que o visse
como uma ameba numa experiência científica. A saia lápis preta
destacava os músculos torneados das pernas, bronzeadas num tom
dourado. O blazer ajustado marcava os seios fartos e os oferecia
como um presente. Hoje, usava uma tornozeleira de prata com
pingentes. Conforme balançava a perna, eles tilintavam e
chamavam a atenção para a sandália plataforma de tirinhas, que
mulher nenhuma deveria usar no frio de março. Um calor natural
irradiava de seu corpo e, embora ela soubesse exatamente como
usá-lo, Ned percebeu que, na maior parte do tempo, não tinha
consciência de como era atraente. Alguma coisa parecia contê-la,
como se, no fundo, ela escondesse um grande segredo. Seria
interessante explorar esses limites e descobri-la por dentro. Mas
isso não aconteceria nesta encarnação.
Ela já estava olhando de novo para os papéis sobre a mesa,
alheia ao que sua voz rouca poderia fazer com um homem. “Vamos
falar dos seus interesses fora do trabalho. Você joga golfe.”
Kennedy pronunciou a palavra com desdém. Ele estava louco
para mostrar a emoção sutil e o desafio mental do esporte, mas
era óbvio que ela preferia beisebol ou futebol. “É, jogo, sim.”
Seu olhar foi parar no tecido do jaleco de laboratório, para ter
uma ideia dos bíceps de Ned. Podia não ser um corpo perfeito, mas
não era flácido. Ele se alimentava bem, jogava golfe e mantinha
uma rotina de abdominais para ficar em forma. Sentiu a irritação
borbulhar. Qual seria a sensação de ser o objeto de desejo de
Kennedy? Aqueles olhos lindos o faziam pensar numa leoa elegante
e forte, puro ouro com um toque de âmbar. Podia apostar que
ficavam doces e calmos quando ardiam de desejo. Talvez ela
mordesse o lábio e fizesse biquinho, até porque já tinha uma
curvinha na boca. Era provável que tivesse aprendido técnicas para
obter exatamente as respostas que queria de um homem. Estava
muito fora do alcance dele, então Ned se ajeitou na cadeira e
tentou retomar o foco. Golfe.
“Golfe é bom. Algo mais?”
Ele endireitou os ombros. “Livros.”
Kennedy anotou qualquer coisa. “Ler é definitivamente um bom
hábito. Quais foram os últimos três livros que você leu?”
“Kama Sutra. Os desejos da Bela Adormecida. Cinquenta tons
de cinza.”
Ela parou de escrever. Abriu a boca, e a língua deslizou pelo
lábio inferior. Agora sim ele finalmente tinha arrancado uma reação
feminina. Ned conteve o dilúvio de satisfação. Kennedy era a sua
consultora de relacionamentos, dedicada a encontrar uma alma
gêmea para ele. Não havia razão para estragar tudo, partindo para
cima como um moleque. Mesmo assim, gostou de ver que as
pupilas dela se dilataram enquanto processava a resposta.
“Interessante. Mais pesquisa?”
“É, pesquisa.” Quando conseguisse levar uma mulher para a
cama, queria garantir que ela tivesse motivos para ficar. Parte dos
esforços em compreender as mulheres incluía uma variedade de
romances eróticos e manuais práticos, para garantir o vigor e as
técnicas sexuais. A consultora recobrou a postura profissional e
juntou as mãos, tocando um dedo indicador no outro. As unhas
estavam pintadas de roxo. Um anel de prata com entalhes brilhou
sob a luz. Ned se perguntou se ela teria um parceiro. Ou vários.
“Gostaria de mudar seu nome para Nate.”
Ele fez uma pausa antes de responder. “Meu nome é Nathaniel.
Meu apelido é Ned.”
Ela pareceu escolher as palavras com cuidado. “Ned evoca certa
imagem. Quero que você pense nisso como uma reinvenção. Já
que seu nome de batismo é tão bonito, acho que deveria usar Nate
como apelido.”
Ele avaliou a sugestão. Sempre preferira o nome verdadeiro,
mas os garotos na escola não o deixaram usá-lo. Eles adoravam
torturá-lo, chamando-o de Ned, o Nerd. Nunca pensara em retomar
o nome de batismo e voltar a usá-lo depois da escola. Assentiu.
“Boa ideia. Vamos de Nate, então.”
Ela sorriu. Tinha o dente da frente ligeiramente torto, o que só
a deixava ainda mais atraente e destacava os lábios rosados e
sensuais. Era tão… cheia de personalidade. “Maravilha. Acho que já
terminei a parte das perguntas, então posso começar a trabalhar
em alguns possíveis pares. Gostaria de marcar para amanhã, às
seis. Quero que me encontre neste endereço.” Entregou um cartão
de visitas. Trazia impressos um endereço, um número de telefone e
a palavra MING.
“Quem é Ming?”
“Uma pessoa que faz milagres. Sei que você tem uma rotina
intensa, mas preciso que tenha tempo para mim nas próximas duas
semanas, depois do trabalho.”
Será que ele seria capaz? Entregar-se nas mãos de uma
estranha e confiar que ela encontrasse a felicidade para ele?
Sim. Não tinha chegado até ali para desistir. Se mantivesse o
foco, sabia que valeria a pena.
“O.k.”
Ken abriu um sorriso, e ele jurou que faria qualquer coisa para
vê-lo de novo. Com certeza era uma bruxa, com poder para
enfeitiçá-lo com um simples gesto ou expressão facial. “Ótimo.
Confia em mim que vou te levar até o final.”
A insinuação quase o fez gemer. Mas não se entregaria logo no
primeiro round. Baixou a voz e fingiu estar com tudo sob controle.
“Estou ansioso pra começarmos, Kennedy.”
Notou uma centelha de desconforto nos olhos dela, antes que
reassumisse a postura profissional de sócia da agência. Nate
suspeitava que havia muito mais sob aquela superfície. E queria
descobrir o que aquelas camadas escondiam. Talvez até pudesse
mostrar àquela linda mulher muito mais do que ela esperava.
Talvez.
Ficou de pé. “Nos vemos amanhã, às seis.”
Foi embora sem olhar para trás, imaginando como aquilo tudo
poderia terminar.
4

Nate olhou para a porta vermelha com desconfiança, mas sua


acompanhante não lhe deu tempo para pensar. Simplesmente o
empurrou até entrarem numa sala de espera vazia. A iluminação
era fraca e havia apenas um grande balcão. Nada de revistas,
água, balinhas. Quando soube que iria a um spa, pensou que um
pouco de mimo não seria má ideia. Imagens de toalhas quentes,
massagens perfumadas e belas mulheres acariciando seus pés
vieram à cabeça. Mas aquilo ali era uma espelunca.
A localização, nos limites de Verily, no alto de uma ladeira
íngreme, não parecia ter movimento de pedestres nem de carros.
Era só um prédio malcuidado com uma porta vermelha brilhante.
Como aquele lugar atraía clientes?
Kennedy fez sinal para que ele sentasse, enquanto foi até o
balcão. Em vez de recebê-la com um sorriso, a mulher franziu a
testa e respondeu qualquer coisa com um forte sotaque chinês.
Kennedy escutou, balançou a cabeça e basicamente tentou agradá-
la. Que tipo de estabelecimento era aquele? Se este era o tipo de
empresa que a Kinnections recomendava, talvez Nate tivesse
cometido um erro terrível.
Kennedy fez uma reverência discreta e voltou. Uma camada de
suor cobria sua testa. “Graças a Deus. Ming vai atender a gente.”
“Quem é essa pessoa? O atendimento aqui é péssimo. O lugar
é horrível. Eles parecem grosseiros. A gente devia ir embora.”
Ela baixou a voz e sibilou, feroz: “Não faça comentários
negativos. Uma reclamação, e a gente vai ser posto na rua. Ming é
a melhor, e ela vai fazer você voltar ao normal. Melhor que o
normal, na verdade. Você nunca mais vai ser o mesmo”.
Nate ficou mais ansioso. Ajeitou o jaleco e reparou numa
mancha nova de mostarda na lapela, resultado do almoço comido
na escrivaninha. De novo. Tinha sido um inferno conseguir sair na
hora, mas estava animado para iniciar a jornada em busca da
futura esposa. Quem poderia imaginar que tudo começaria numa
masmorra xexelenta com uma mulher chamada Ming?
“O que é que ela vai fazer comigo?”
Kennedy apontou um dedo para ele. “O que quiser. Você tem
que seguir todas as instruções dela. É muito importante.”
“Não sou idiota.”
“Não, mas você gosta de discutir, e isso seria motivo pra botar a
gente pra fora.”
Nate não teve tempo de responder. A porta atrás do balcão se
abriu sem fazer barulho. Ele teve a impressão de ver um elfo
vestindo quimono, envolto em sombras. Um dedo comprido e
magro apareceu na abertura e fez sinal para ele se aproximar.
“Vai”, cochichou Kennedy.
Caramba, como podia estar com medo? Uma senhorinha não
seria capaz de machucá-lo, e, se não gostasse de qualquer coisa,
poderia simplesmente ir embora, não importava o que Kennedy
dissesse. Endireitou a postura e atravessou a porta.
Ela o guiou por um corredor escuro. A mulher pequenina
andava rápido como um raio, quase flutuando acima do chão,
enquanto os dois iam se embrenhando num labirinto de
corredores. Nate teve vontade de jogar migalhas no chão ou de
fazer uma marca na parede para garantir que encontraria o
caminho de volta, mas não teve tempo. Tropeçou duas vezes, na
tentativa de acompanhar o ritmo. Por fim, ela parou e entrou por
uma porta sem identificação.
Uma mesa de mármore longa e plana ocupava o centro da sala.
Havia toalhas espalhadas ao redor e um chuveiro luxuoso no canto,
num boxe de vidro aberto para a sala. As paredes eram brancas,
imaculadas, com quase nenhuma decoração, a não ser por
algumas poucas prateleiras que exibiam uma coleção de garrafas
de vidro. Uma música suave saía dos alto-falantes. Ele identificou
uma flauta, pássaros e o som de água corrente. O ar era úmido e
cheirava a sabonete, com um toque de lavanda. Ming se dirigiu até
uma bancada de bambu, onde havia uma pia grande e branca, e
começou a se preparar. Nate observou enquanto ela se
movimentava, ocupada como um médico preparando injeções,
alinhando recipientes e derramando líquidos dentro deles. Enfim,
virou-se e olhou para ele.
“Você, tira roupa.”
“O quê?”
A cabeça da mulher não batia nem na altura do peito dele. Os
pés descalços despontavam debaixo do quimono branco, que
parecia engoli-la inteira. O cabelo preto era bem curto e os olhos
negros refletiam impaciência e controle. “Eu disse tira roupa.
Depois deita na mesa.”
Nate agarrou o jaleco e engoliu o pânico. Nu? Na frente dela?
De jeito nenhum. “É… Posso ficar com a camiseta e a cueca? Não
me sinto muito confortável tirando a roupa toda.”
Ela respondeu com uma cusparada. A expressão era de nojo.
“Bebezão, você? Não fica nu na frente de velhas? Tem medo do
quê?”
Nate recuou. “Não estou com medo! Só não acho que é
necessário.”
Ming deu um passo à frente e sacudiu o dedo no ar. “Você,
laranja. Você parece cenoura. Vou dar jeito nisso, mas você me
obedece. Agora tira roupa e deita na mesa, de bruços.”
As palavras de Kennedy ecoaram na cabeça de Nate. Aquilo era
o primeiro teste. Como é que ele não haveria de passar? E estava
mesmo laranja. Até Wayne tinha comentado hoje cedo que ele
deveria fazer alguma coisa, porque aquela cor estava atrapalhando
sua concentração. Nate achou que uma hora desbotaria, mas,
depois de quatro dias, nada havia mudado. Será que estava
mesmo nervoso com a possibilidade de ficar nu na frente de uma
profissional? Não, recusava-se a perder a primeira batalha agindo
como um bebê. As mulheres faziam coisas como aquela o tempo
todo, certo?
“Muito bem.” Tirou a roupa toda, dobrou-a cuidadosamente e
guardou numa prateleira vazia. Deitou de barriga para baixo sobre
a mesa lisa e fria. Apoiou a cabeça num travesseiro, virou-a para a
direita, fechou os olhos e tentou não pensar na bunda virada para
cima, bem à vista de Ming.
Esperou um pouco, respirando e ouvindo a flauta, e começou a
relaxar. O vapor começou a preencher a sala e a abrir seus poros.
Talvez aquilo não fosse tão ruim. Andava mesmo precisando de
uma massagem no pescoço e nas costas. As longas horas sentado
na mesma posição o deixavam cheio de nós. Talvez conseguisse
até tirar uma soneca. Imaginou que…
“Aaaaah!”
Sentiu um líquido frio cair sobre as costas e escorrer pelas
nádegas. Antes que pudesse compreender, milhares de cerdas
rígidas começaram a esfregar sua pele, num vaivém brusco, que
provocava uma mistura de coceira e dor. Nate conseguiu virar para
trás e protestar. “Isso dói!”
“Fica quieto.”
Ele engoliu em seco. Ming esfregou com mais força, sem ligar
para os resmungos do cliente conforme ela trabalhava sobre cada
centímetro de pele, começando pelas solas dos pés e percorrendo
bunda, costas, ombros e até axilas. A pele pinicava e ardia, e as
minúsculas esferas de gel provocavam uma abrasão que ele jurava
que o marcaria por toda a vida. Meu Deus, ia ficar com cicatrizes!
Ming não fazia a menor ideia do que estava fazendo e parecia até
mesmo dar umas risadas ameaçadoras nas poucas ocasiões em
que ele tentava se desvencilhar das escovas infernais.
A tortura durou uma eternidade, até que ela resmungou
qualquer coisa e finalmente parou. Nate deitou a cabeça na mesa,
ofegante. Certo, tinha conseguido. O laranja já devia ter saído.
Talvez pudesse usar aquele chuveiro maravilhoso para se recuperar.
O pior com certeza tinha passado. Ouviu alguns estalos, o arrastar
de metais, e estava prestes a erguer a cabeça para ver o que
estava acontecendo quando o jato o atingiu.
Um jato gelado de congelar os ossos, para ser mais preciso.
“Merda!” Deu um pulo, mas Ming o empurrou de volta para a
mesa com as mãos fortes. O jato não era um chuveirinho delicado.
Era mais tipo um extintor de incêndio cheio de cubos de gelo,
ligado na potência máxima. Nate gemeu baixinho, disfarçando com
um suspiro. Foi quando se deu conta de que seria uma noite longa.
Ela lavou seu corpo inteiro, sem descuidar de nenhum pedacinho,
sem dar nenhum alívio na pressão intensa do jato d’água.
Quando terminou, ele estava trôpego. Precisava sair dali. Ir
embora, ligar para o órgão de defesa do consumidor e acusar
aquela mulher de agressão. Pensou em todas as formas de
vingança que poderia usar contra Ming, enquanto ela mexia em
alguma coisa lá atrás. Prendeu a respiração.
Ah. Um filete de óleo morno e cheiroso, derramado sobre as
costas dele, ao longo de toda a espinha. Paraíso. Talvez valesse a
pena sofrer para finalmente chegar à parte boa. Nate imaginou
dedos fortes e ágeis trabalhando sobre os nós da lombar e do
pescoço e…
Com um grito selvagem de guerra, dezenas de quilos de carne
caíram sobre ele. Horrorizado, deu-se conta de que Ming tinha
pulado em suas costas e estava pisando ali com os pés descalços.
“O que você tá fazendo?”, gritou, mas ela ignorou e continuou
fazendo uma coreografia enlouquecida, pressionando os dedos e as
solas dos pés sobre a pele sensibilizada das costas recém-
esfoliadas. Ela subia e descia pelo corpo do cliente, pisando forte
com os calcanhares certeiros, torcendo-os com precisão em cima
de nós nos músculos, até ele morder o lábio para não gritar de
pavor. Nate mordeu a língua e, em silêncio, amaldiçoou-a e aos
seus filhos, desejou vingança e implorou por clemência. Jurou que
ela não o venceria, não o derrotaria. Sobreviveria com a cabeça
erguida e depois ainda haveria de rir dela, por achar que podia
destruí-lo.
Conforme os segundos foram se transformando em minutos,
Nate entrou em um estado de torpor. Por fim, ela saltou
graciosamente de cima dele, ajeitou o quimono e se inclinou para
falar. O sorriso brilhante lembrava o do Coringa do Batman antes
de atacar. “Agora vira.”
Ele sacudiu a cabeça, que parecia bamba sobre o pescoço
quase quebrado. “Não, nada de virar.”
Ming cacarejou de novo, com o mesmo brilho selvagem nos
olhos escuros, enchendo-o de medo. “Bebezão, você. Conserto
você. Agora faço a frente.”
“Não.”
Os lábios dela se esticaram, e Ming cuspiu qualquer coisa em
chinês.
“Tudo bem! Mas juro que se você me fizer sofrer de novo, não
vou dar gorjeta.”
Ela o ajudou a se virar. Nate olhou para o teto, com suas partes
mais sensíveis à mostra, pronto para ser torturado, e rezou para
que terminasse logo.
O tempo passou sem que ele percebesse. Quando Ming saltou
em sua barriga, ficou grato por ela ignorar o pênis, já que
provavelmente nunca mais seria capaz de uma ereção depois do
tratamento. Quando foi informado de que haveria mais uma rodada
de cada lado, Nate desistiu. Perdeu a consciência em algum
momento durante o segundo round.
Depois de lidar com o corpo, Ming foi até a cabeceira da mesa e
começou a trabalhar no rosto dele. Ao menos ali ela não poderia
pisar. Ainda assim, seus dedos firmes não deixaram nenhum
centímetro ileso, até as bochechas e os maxilares começarem a
doer.
Nate estava exausto quando ela finalmente permitiu que se
levantasse. Sentia-se vulnerável, desamparado e fraco como um
gatinho recém-nascido. Precisou se apoiar um pouco nela enquanto
caminhava até o chuveiro. Ming abriu a torneira de água quente,
uma benção, suave e reconfortante, e lhe ofereceu um sabonete
almiscarado que fazia muita espuma e o envolveu em bolhas. Ficou
um bom tempo no banho e depois se enxugou com uma toalha
felpuda. A mulher se aproximou e o embrulhou num roupão de
algodão egípcio, amarrou a faixa com cuidado e apontou para um
banco. Nate chegou a se encolher quando ela pegou uma escova,
mas tudo o que Ming fez foi pentear para trás as longas mechas do
seu cabelo, em movimentos que massageavam o couro cabeludo.
Ele se entregou e relaxou. A música o embalou, e ninguém disse
nada. Quando enfim abriu os olhos, o rosto da profissional estava
bem em frente ao seu. Ela sorriu, mas desta vez não pareceu
malvada.
“Bom menino, você.” Apertou as bochechas dele. “Nada de
laranja mais. Senta aqui um pouco e sai quando tiver pronto.”
Ela pousou a escova na mesa e saiu.
Antes de se permitir mais um minuto de torpor, Nate teve mais
um pensamento.
Ming obviamente tinha ganhado a luta.
Nate deu uma mordida no cheesebúrguer e admitiu que o Mugs
poderia se tornar seu novo lugar favorito. O bar-restaurante era
informal, tinha um charme rústico graças às divisórias de madeira,
que contrastavam com um bar bem moderno. O salão de bilhar
anexo tinha mesas, dardos e vários outros jogos divertidos. A carta
de cervejas era bem impressionante para uma cidade pitoresca,
onde chai lattes e qualquer coisa orgânica eram sempre os mais
pedidos. Ele mergulhou uma batatinha numa piscina de ketchup e
saboreou a delícia salgada.
Depois da consulta com Ming, bastou uma olhada no rosto de
Nate para Kennedy anunciar que precisavam de comida. Ele a
seguiu até Verily sem protestar e, depois de uma cerveja artesanal
gelada e um pouco de carne vermelha, a estranha sensação de
calor finalmente se dissipou.
“Por que você pediu um pano com álcool para passar na mesa?
Você não confia na limpeza daqui?”, perguntou Kennedy.
Ele manteve o foco no hambúrguer. “As garçonetes ficam muito
ocupadas e não vão buscar um pano limpo. A comida cai do prato,
e, sem pensar, você pega de volta, come e acaba contaminado por
uma bactéria.”
“Você tem mesmo uma carteirinha do fã-clube da limpeza, não
tem? É grave?”
“Não sou tipo o Jack Nicholson em Melhor é impossível, se é
isso que te preocupa. Apenas gosto de seguir boas práticas de
higiene em banheiros e restaurantes públicos.” Decidiu mudar de
assunto, em vez de ficar discutindo seus problemas. “Aquela
mulher era um horror. Algum cliente já processou vocês por causa
dela?”
Ken deu um sorriso disfarçado. “Todos ficam com medo demais
pra processar. Além disso, Ming é a melhor. Olha pra você. Nem um
tiquinho de laranja, e a sua pele está praticamente brilhando de
tão saudável. Aposto que seus músculos também estão relaxados
que nem macarrão.”
“Nem tanto.” Baixou a cabeça para evitar que ela visse a
mentira em seus olhos. “Mas pelo menos pareço normal de novo.”
Os dois comeram em silêncio por alguns instantes, mas um
rugido vindo do lado de fora fez alguns fregueses levantarem o
olhar. “Parece que vem uma tempestade por aí.”
“É, já faz um tempo que não chove.”
Uma gota de ketchup caiu na calça dele, para combinar com a
mancha de mostarda na lapela. Nate soltou uns palavrões,
reclamou que era desastrado e pegou alguns guardanapos.
Kennedy ficou empurrando uma folha de alface de um lado para o
outro no prato. “Qual é o problema?”
“Nenhum.” Mas ela parecia mal-humorada. Era estranho,
porque estava ótima até o hambúrguer dele chegar. Como sempre,
Nate abriu a boca e seus pensamentos escaparam. “Por que você
pediu isso?”
Ela revirou os olhos. “Porque é saudável.”
“Na realidade, fibras demais podem desregular seu sistema
digestivo. Quer uma mordida do meu hambúrguer?” Os olhos de
Kennedy se acenderam de desejo. Nate se endireitou no assento.
Diabo, a mulher era poderosa. Imaginou o que aconteceria se ela
algum dia olhasse para ele daquele jeito. Até parece. “Você pode
estar precisando de uma proteína.”
Os dedos dela apertaram o garfo com força. Deu um gole na
água com limão. “Aqui tem proteína. Atum.” Nate examinou a
montanha de alface e conseguiu encontrar alguns pedacinhos
secos de peixe espalhados. “E nada de maionese?”
O olhar dela se apagou um pouco.
“Você não come carne vermelha? Ou tem alergia a glúten ou
algo do tipo?”
Kennedy enfiou uma folha na boca e mastigou. Nate teve pena.
Sua vitalidade habitual parecia ter se apagado no instante em que
se viu cercada de comida. Como se as escolhas saudáveis
sugassem toda sua alegria. “Não. Sigo uma alimentação
balanceada para garantir a melhor nutrição. Por favor, não me diz
que você come sempre assim.”
Ele terminou o hambúrguer e deu um gole de cerveja. “Não.
Não me importo de comer coisas saudáveis, desde que eu possa
me permitir alguns vícios. Tento evitar fast-food, mas, como sou
um péssimo cozinheiro, acabo comendo bastante na rua. Você não
precisa de dieta.”
Um som estranho saiu dos lábios dela. “Não estou de dieta.”
Uma informação crucial dançava ao redor da consciência de
Nate. Algo que ajudaria a decifrar um pouco do mistério que era
aquela mulher. “Ótimo. Seu corpo é incrível.”
Uma sombra tomou conta do rosto dela, como se tivesse
capturado sua luz interior por alguns instantes. “Obrigada.”
Nate percebeu que Kennedy não acreditava naquilo. Em
nenhuma palavra. E havia algo maior ali, por baixo, enterrado tão
profundamente que ele se perguntou se alguém já teria
descoberto. Tal qual uma equação de física, ela implorava para ser
solucionada, e ele desejava ser capaz de fazê-lo. Claro, esse era o
motivo de ele ser péssimo nos relacionamentos. Não tinha filtros
sociais e não seguia regras. Cavava até encontrar petróleo, até o
ponto em que a pessoa ficava tão zangada que se mandava. É. Ele
era bom nisso.
“Você nunca relaxa e come alguma coisa que não seja
saudável?”
Ela entreabriu os lábios carnudos e o interrompeu. “Por que não
deixamos as batatas fritas de lado e falamos de você? Agora que
você já tá com uma cor normal de novo, temos que praticar um
pouco de conversação social.”
“Não tem nada de errado em ir direto ao coração de alguém.
Assim não se perde tempo.” O cabelo úmido insistia em escorregar
sobre o rosto de Nate, então ele tirou um elástico do bolso e fez
um rabo de cavalo.
“A confiança inicial é construída no primeiro diálogo. Mencionar
sexo ou partes do corpo, fazer julgamentos sobre a idade de ter
filhos, o medo de se comprometer ou a carreira vai estragar tudo.”
Ele franziu a testa. “Então o que sobra pra falar?”
Kennedy sorriu. Nate percebeu um pedacinho verde de alface
preso no dente da frente. O batom tinha saído no guardanapo.
Uma vibração intensa emanava em ondas. Ela vestia uma camisa
preta de renda, uma saia vermelha e scarpins da mesma cor.
Quando tirou o paletó vermelho, ele reparou no bracelete dourado
no alto do braço, o tipo de acessório que uma escrava usaria.
Também notou o sutiã de renda combinando com a blusa.
Lembrava-se de ter lido uma história em que o herói chupava os
mamilos da heroína por uma hora, até ela gozar. Nate se perguntou
se algum dos parceiros daquela mulher já teria feito alguma coisa
assim tão especial. Será que era ávida, barulhenta, ativa? Se os
dois ficassem juntos, ele se esforçaria para afastar todos os
pensamentos de Kennedy, até que ela só conseguisse gemer e
sussurrar seu nome.
Sua calça ficou apertada a ponto de doer. Calma, cara. Isso
nunca vai acontecer, não nesta encarnação. Era melhor se
acostumar com a ideia. E parar de ler aquelas porcarias de livros.
“Tem um milhão de assuntos pra escolher”, Kennedy
respondeu. “Vamos praticar agora. Finge que você acabou de me
conhecer e nós decidimos sair pra jantar. O que você diria?”
“Você tá com um pedacinho de alface preso no dente.”
Ela ficou pálida, passou a língua sobre os dentes e tentou
limpar. “Saiu?”
Caramba, ela era gostosa. “Saiu. Saiu, sim.”
“Certo, é disso que estou falando. É claro que você vai avisar se
uma mulher tiver alguma coisa nela que seja constrangedora, mas
precisa ter mais sutileza. Passa o guardanapo de leve na boca. Dá
um sorriso discreto e toca seu dente com o dedo.”
Nate revirou os olhos. “Ótimo. Mas se eu tiver alguma coisa no
dente, ou papel higiênico colado no sapato, não precisa perder
tempo. Me fala logo.”
“Anotado. Você não vai comer essas batatinhas?”
“Não, pode pegar.” Ele empurrou o prato para o outro lado da
mesa. “Tem só três. Aproveita um pouco a vida.”
Kennedy se encolheu na cadeira, como se estivesse prestes a
tomar a maior decisão da vida. Depois, pegou as três batatas e
começou a mordiscar. O sal parecia deixá-la contente. Uma aura de
satisfação a envolveu. Entregar-se aos desejos parecia agradá-la.
Nate poderia elencar mais uma dúzia de coisas que desejaria fazer
para que aquele mesmo olhar surgisse no rosto dela, mas se
deteve antes de começar a pensar. Afinal, ela já tinha abertamente
recusado um convite para sair com ele. Como é que sexo poderia
suscitar qualquer outra resposta?
“Obrigada”, disse, apontando para as batatas. “Vamos voltar
para o faz de conta. A gente finalmente se sentou e fez o pedido.
Agora é a hora de conversar.”
Ela sugou a batatinha como se quisesse aproveitar cada gota
de sal do pobre tubérculo assassinado. Infelizmente, a combinação
da língua rosada de Ken, do dente um pouco torto e dos dedos
longos imprimiu outra imagem no cérebro de Nate. O que havia de
errado com ele? Precisava transar bem rápido, ou acabaria se
humilhando na frente dela. “Ah, você mora por aqui?”
“Manhattan. E você?”
“Westchester. E… Você tem algum hobby?”
Ela saboreou a batatinha com mais vontade. “Sim, malho três
vezes por semana. E você?”
“Gosto de jogar golfe.”
“Ah, nunca joguei golfe.”
Ele endireitou a postura. “É um esporte com um equilíbrio
perfeito entre habilidade e desafio. O movimento do corpo é a
chave do sucesso, mas tudo pode ser ajustado e adequado às
particularidades de cada um. Tiger Woods passou mais de um ano
reprogramando o swing pra se transformar em outro tipo de
golfista. Imagina só a emoção de ver a bola cruzando o céu e
aterrissando no lugar certinho do campo! É emocionante, não
acha?”
Ela terminou as batatas e mexeu a bebida com o canudo. “Pra
falar a verdade, não acho.”
Nate arregalou os olhos. “Não estou gostando desta conversa.
Acho melhor simplesmente admitirmos que este relacionamento
não tem futuro.”
“Viu? Taí!” Ela deu um pulo na cadeira e apontou o dedo
indicador para ele. “É aí que a coisa não engrena. Nate Dunkle,
você é um conversador egoísta!”
Ele ajeitou os óculos no nariz. “O quê? Eu fiz perguntas. Ela é
que não se interessou por mim! Morreu de tédio com a minha
explicação sobre golfe.”
“E eu também. Isso não quer dizer que não combinamos. Você
é que não quer se dar ao trabalho de ir mais fundo. Você precisa
deixar o ego de lado e focar a atenção nela.”
A irritação de Nate era bem evidente. “Você fala como se eu
fosse um babaca. Eu vou fundo. Sempre marco muitos pontos nos
testes da Cosmopolitan!”
Kennedy bufou. “Esses testes são armados, não dão um
resultado confiável. Se uma mulher não concorda com o que você
diz nos primeiros cinco minutos, você imediatamente conclui que
não serve para um relacionamento de longo prazo. Ela não gosta
de golfe. Grande coisa. Que tal perguntar do que ela gosta e por
quê? Você não gosta de fazer descobertas no seu trabalho? É a
mesma coisa com as pessoas. Elas são quebra-cabeças, feitas de
várias pecinhas que você precisa estudar e compreender. Se elas
não se encaixam na sua ideia de como uma esposa deve ser, são
descartadas com muita facilidade, e você ainda vai se arrepender
disso, pode apostar.” Alguma coisa brilhou nos olhos de Ken. Uma
lembrança, talvez? Será que estava falando de si?
“Tá bom, vamos começar de novo. Mas, desta vez, seja você
mesma. Não finja ser outra pessoa.”
“Não acho que…”
“Eu acho.” Nate a estudou por um instante. Observou a testa
larga, as ondas de cabelo cor de mel que caíam sobre os ombros.
O rosto era uma coleção de ângulos interessantes que o fascinava.
As pupilas estavam dilatadas, como se o olhar dele fosse uma
carícia verdadeira, e a cor tinha passado para um uísque escuro. “O
que fez você entrar no ramo de consultoria de relacionamentos?”
Ele aguardou. Depois de algum tempo, Ken deu um gole na
água e começou a falar. “Kate e Arilyn eram as minhas duas
melhores amigas na faculdade. Depois da formatura, cada uma
seguiu um caminho, mas uma noite ficamos bêbadas e tivemos a
ideia de abrir nossa própria agência de relacionamentos. Kate é a
diretora-geral, Arilyn cuida dos aconselhamentos e da tecnologia, e
eu sou responsável pelo recrutamento e os eventos.”
“A maioria das ideias de bêbado é esquecida no dia seguinte.”
A lembrança fez surgir um sorriso. “Mas a nossa, não. Curamos
a ressaca e começamos a pesquisar logo em seguida.”
“Espertas. Abrir uma pequena empresa não é fácil hoje em dia.
Está dando certo?”
“Sim. Nossas estatísticas de casamentos estão subindo a cada
dia e a gente tá finalmente começando a ter lucro.”
Nate sorriu ao reconhecer o orgulho na voz dela. Era uma
mulher de fibra. Poucas teriam a mesma coragem, e menos ainda
seriam bem-sucedidas. “Por que Verily?”
“A gente não queria competir com as grandes agências de
Manhattan. Verily é diferente, tem o charme de cidade pequena e
não deixa de ser cosmopolita. E a gente tem um nicho demográfico
muito específico, dos vinte e cinco aos quarenta anos.”
“Interessante. Isso não limita demais a base de clientes?”
“Não, foi uma decisão arriscada, mas a gente queria ter um
foco. Estudamos esse mercado e fomos conquistando uma clientela
de elite.”
“Só de milionários?”
Ken revirou os olhos. “Você também? Todo mundo assiste a
esse programa de TV? Não, desde que você esteja feliz no trabalho
e tenha um objetivo, nós aceitamos. Dinheiro não é o foco. O amor,
sim.”
Nate adorou ver como ela se iluminava quando falava da
Kinnections. Gostava de mulheres confiantes. Kennedy não só
amava seu trabalho, como também tinha motivações nobres. Ela
acreditava que podia fazer do mundo um lugar melhor. Um clichê,
talvez. Mas muito sexy.
“Alguma vez você já teve um cliente como eu? Com quem você
trabalhasse tão de perto?”
“Não, é a minha primeira vez.”
Kennedy o encarou e houve um momento de desconforto no ar.
A mão dela tremeu um pouquinho segurando o copo, mas logo se
estabilizou.
A raiva que Nate sentiu da resposta o pegou de surpresa.
Estava sentado em frente a uma bela mulher, inteligente,
engraçada e totalmente fora do alcance. As palavras escaparam da
boca.
“Por quê? Porque ficou com pena de mim?”
Kennedy estremeceu com a acusação velada. Estudou-o com
atenção, os olhos castanhos pegando fogo por trás dos óculos
ridículos. Uma mancha de mostarda bem marcada na lapela. No
bolso, dois lápis perfeitamente apontados, um caderninho e uma
calculadora, numa óbvia mistura de The Big Bang Theory e A
vingança dos nerds. Ele ficou sentado, parado, esperando uma
resposta.
Várias emoções estranhas a invadiram. Que esquisito. O jeito
como Nate a encarava e o olhar inquisitivo imploravam para que
ela falasse a verdade. Poderia tirar várias respostas genéricas da
manga e nunca entregar o jogo. Mas alguma coisa estava
diferente, e a pergunta merecia honestidade. Kennedy se esforçou
para não pegar pesado. “Não, claro que não.”
“Mentira.” Ele se inclinou para a frente, com um toque de
masculinidade que ela ainda não tinha visto. “Sou só um projetinho
pra te tirar do tédio, Kennedy? Uma transformação de estilo
especial tipo A bela e a fera? Tenho que dar graças a Deus por
você ter me escolhido, calar a boca e dançar conforme a música?”
“Não!” O sangue de Ken esquentou, e ela mal conseguia ficar
sentada na cadeira. “Não acredito que você faz tão pouco caso
desse processo todo.”
“Não sou um processo.”
“Eu sei!”
“Pare de dar respostas padronizadas e fale a verdade. Por que
eu?”
“Porque eu precisava acreditar em alguém!”
Nate abriu a boca, e ela notou que seus olhos estavam
pegando fogo. Sentiu-se sufocada, como se ele a tivesse
embrulhado bem apertado com sua energia. Tentou desviar o olhar
e interromper toda aquela intensidade, mas ele não deixou. Pelo
contrário. Deslizou a mão por cima da mesa e entrelaçou os dedos
nos dela.
“Obrigado por me contar.”
O polegar dele pressionou sua palma da mão. O pulso acelerou,
ao mesmo tempo que o corpo parecia amolecer. Ken sacudiu a
cabeça e tentou entender o que era aquela reação, mas a
garçonete chegou, pôs a conta na mesa e, graças a Deus, ele
soltou a mão.
“Tenho que ir”, ela disse.
“É, eu também. Te acompanho até o carro.” Nate deixou o
dinheiro em cima da mesa e cortou o protesto antes mesmo que
começasse. Ken deixou que ele pagasse mais uma vez, e, em
seguida, saíram pela porta lateral em direção ao estacionamento.
Chovia torrencialmente e o céu escuro se iluminava com rasgos
de relâmpagos. Ela olhou para os sapatos de salto e segurou um
gemido. Que ótimo. Adeus, sapatos de marca. Quando chegasse ao
carro, já estariam imprestáveis de tanta lama.
Nate ficou de pé ao lado dela, na faixa de calçada coberta pelo
toldo. “Melhor esperar um pouco”, gritou, mais alto do que a
tempestade. “Você vai ficar encharcada, a gente tá sem guarda-
chuva.”
Uma enxurrada caiu pela calha e respingou no rosto de Ken. Ela
gritou e deu um pulo para trás, mas Nate foi rápido em puxá-la
para mais perto da porta, bloqueando boa parte da chuva com o
próprio corpo. Ela sentiu as costas pressionadas contra a parede de
tijolos. A chuva caía pesada sobre o toldo, e Kennedy começou a
tremer de frio. Nate abriu o jaleco com rapidez e o passou em volta
dela, agarrando as mangas pela frente e apertando Ken junto ao
peito. O calor delicioso daquele corpo a abraçou, e ela relaxou
encostada nele.
“Melhor?”
“Muito, obrigada.”
“Não estou vendo nada. Que droga de óculos.” Tirou-os do
rosto e guardou no bolso. “Tenho certeza que vai passar logo.
Nunca fica forte assim por muito tempo.”
“É possível.”
Hoje ele não estava usando perfume de eucalipto, nem de mar.
Ao contrário, seu cheiro naturalmente másculo subiu até as narinas
de Ken e aguçou os sentidos. Sabonete, chuva e um toque de
alguma especiaria. Cravo? Levantou o queixo para dar os parabéns
por ele ter se livrado da colônia, mas congelou.
Os olhos não eram castanhos, como imaginara, mas sim de um
profundo verde-musgo, com nuances douradas. Por causa do
cabelo preso para trás, pôde reparar nas linhas marcantes do rosto,
dispostas numa simetria quase bela, que ela ignorara até então. Os
lábios tinham a forma perfeita, o de cima um pouco mais fino e o
de baixo cheio e sensual. A boca toda parecia macia. Ela imaginou
qual seria a sensação de sentir os lábios dele nos seus.
“Ken?”
O nome saiu daqueles lábios num rugido rouco. Ela piscou e
tentou recuperar o chão, surpresa por ser chamada de uma
maneira tão íntima, mas sem saber ao certo se estava incomodada.
“Sim?”
“E a gente?”
O cérebro dela disparou. Tentou quebrar aquela química
estranha, mas Nate levou as mãos ao seu rosto ao mesmo tempo
que uma trovoada sacudiu o chão, fazendo os corpos dos dois se
encostarem. Ele a envolveu com uma presença discreta e intensa,
que exigia resposta. De imediato, seu corpo se acendeu e pediu
mais. Ficou molhada entre as pernas, os mamilos enrijeceram, e,
durante aqueles poucos segundos, ficou totalmente excitada pelo
nerd que construía foguetes.
“Não existe ‘a gente’. Sou sua consultora de relacionamentos.”
O gostinho de vitória do discurso bem-intencionado durou
pouco. Nate passou os polegares pelo contorno do seu queixo e em
seguida começou a desenhar o traçado da sua boca. O olhar
intenso e fascinado a intrigava. Será que algum homem já tinha
olhado para ela assim tão… faminto? Como se desejasse se
alimentar dela por horas sem fim? Sentiu um arrepio.
“Eliza e o professor Higgins terminaram juntos no filme.”
Do que ele estava falando? O coração de Ken começou a bater
tão alto que ela conseguia ouvi-lo mesmo com a tempestade. Ah,
My Fair Lady. “Você viu esse filme?”
Nate sorriu de canto. “Claro. Assisti a um bando de filmes de
mulherzinha e musicais clássicos para estudar a mente feminina e
aquilo que ela acha romântico.”
Que diabos, o cara parecia um personagem de filme. Passou a
língua pelos lábios secos e percebeu que os olhos dele tinham se
iluminado. Ai, não. “Eles eram péssimos um para o outro. Ele não a
respeitava o bastante.”
“Respeitava, sim. Quando ela o fez perceber que aquilo podia
dar certo, ele se rendeu. Se apaixonou por ela de primeira. Só não
se deu conta.”
Ai, ela estava encrencada. Lutou para recuperar a sanidade,
mas o polegar dele encostou nos seus lábios agora úmidos e
escorregou para dentro só um pouquinho, o suficiente para tocar
na ponta da língua. O movimento foi tão sensual que ela não se
lembrou de nenhuma resposta esperta para dar. Ken era boa de
flerte, já tinha namorado homens de vários tipos e conhecia todas
as manobras para bloquear um beijo ou um toque indesejado.
Ainda assim, ali estava, do lado de fora do Mugs, agindo como uma
virgem indefesa, esperando que ele fizesse algo que ela não
queria.
“Ken?”
“O quê?”
“Quero beijar você.”
“Acho que não é uma boa ideia.”
“Concordo.” Nate baixou a cabeça, e ela pôde sentir o hálito
dele tocando seus lábios. “Mas não me importo.”
O beijo derrubou todas as barreiras, mas sem violência,
urgência ou paixão descontrolada. Ele simplesmente tomou posse
da boca de Ken, sem hesitar. Suas mãos grandes envolveram o
rosto dela, e a língua deslizou para dentro como se aquele fosse o
seu lugar. Os lábios macios se fundiram com os dela e sorveram
sua essência, saboreando cada movimento suave, explorando cada
cantinho e aproveitando todo o prazer. Ken gemeu com o golpe
sensual e quis mais. Os dedos dele se enfiaram por seus cabelos,
fazendo com que ela se inclinasse ainda mais, enquanto ele bebia,
provava, exigia e dava. Sua cabeça começou a girar, os joelhos
ficaram fracos e, naquele momento único, Kennedy caiu por
completo no feitiço dele.
Nate se afastou devagar e mordiscou o lábio inferior dela, antes
de se distanciar de vez.
Kennedy agarrou os braços dele. Uau.
Apenas… uau.
A maioria dos homens teria ido com tudo e se aproveitado de
sua fraqueza temporária para tirar vantagem. Nate esperou com
paciência até que ela se recuperasse. Estudou seu rosto, como se
quisesse memorizar cada traço e ângulo, e mais uma vez ela teve a
sensação de ser enrolada num casulo de calor e segurança. “Você
tá bem?”
“Tô. Isso foi um erro.”
“A gente aprende muito com os erros. Podemos tentar de
novo?”
Ela deu uma risada contida. O que restava do nevoeiro se
dissipou, e a chuva tinha quase parado. Kennedy teve que buscar
forças lá no fundo para se recompor. Lutou contra a vontade de
baixar a cabeça e, em vez disso, olhou nos olhos ardentes dele.
“Não. Não saio com clientes.”
“Eu largo a Kinnections.”
“De jeito nenhum. Você não quer ficar comigo, Nate. Não quero
me amarrar com ninguém pra sempre. Não estou procurando um
marido, nem segurança, nem filhos, por enquanto. Só quero o
presente.”
“Gosto do presente.”
Um sorriso genuíno fez os lábios dela se curvarem. Fazia muito,
muito tempo que não gostava de verdade de um homem. Tinha se
esquecido de como era gostoso. “Não. É comum a gente misturar
as coisas nesse negócio de consultoria, mas não vou permitir que
aconteça de novo. A gente se deixou levar por um impulso, mas já
passou. E vou encontrar uma esposa pra você. Alguém que você
possa amar pra sempre. Alguém perfeito.”
Nate pareceu analisar as palavras dela, separando-as,
estudando-as, para depois encaixá-las de novo no quebra-cabeça.
Por fim, deu um passo para trás e assentiu. “Não vou insistir.
Respeito sua decisão. Mas não vou me desculpar.”
“Ótimo, não quero desculpas mesmo.” O calor ressurgiu entre
eles, mas desta vez ela estava preparada para ignorar. “A chuva
parou. Melhor ir andando. Não vai esquecer que você tem que me
encontrar no salão amanhã. Às seis em ponto. Mandei o endereço
por e-mail.”
“Tá bom, boa noite.”
Ele deu a deixa, e ela aproveitou. Quando chegou ao carro e
girou a chave na ignição, olhou para trás, e Nate já tinha ido.
Seguiu o caminho curto até em casa e finalmente entrou no
apartamento. O silêncio acalmou seus nervos abalados, e ela foi de
cômodo em cômodo acendendo todas as luzes para que não
ficasse um vestígio sequer de escuridão. Tirou os sapatos de salto
e enterrou os pés no carpete fofinho. O piso de madeira maciça
estava na moda, mas Ken não tinha filhos nem animais de
estimação, e gostava da sensação do chão acolchoado sob os pés
descalços. A cor, um creme meio baunilha, combinava com as
paredes e contrastava com os móveis azuis acinzentados. Sempre
gostara de ambientes clean, com poucos móveis, e tinha escolhido
as mesas modernas de cerejeira e vidro para contrabalançar as
aquarelas de cores vivas das paredes.
Pegou um copo e encheu de água, direto da geladeira de aço
inox. Gostava de cozinhar quando tinha tempo, e as bancadas de
granito cinza, os armários sob medida e o bar de vinhos antigo
refletiam a imagem e a mulher que sempre quisera ser. Bela.
Inteligente. No controle.
Kennedy bebeu a água e pensou em Nate. Grande erro. Podia
ter sido o melhor beijo da sua vida, mas tinha ultrapassado alguns
limites imperdoáveis. Engraçado: já tinha namorado vários homens,
dormido com muitos deles, e nunca tivera a impressão de que
qualquer um deles a enxergara tão claramente. A maneira como
Nate olhava para ela, com os olhos fixos sem piscar, era um alerta
sobre suas intenções. Seu beijo não lhe permitiu esconder nada,
como uma força incontrolável pedindo que ela se rendesse. Ele a
devorou com o olhar e a engoliu por inteiro. O maior perigo de
Nate estava na sua habilidade de enxergar a verdade por baixo do
verniz superficial.
Sentiu um arrepio. Tolice, claro. Ele não tinha descoberto nada
que ela não queria que soubesse. Afinal, tinha passado a vida toda
se moldando na pessoa que sempre sonhara em ser. Como se
atraído por um poder maior, o olhar dela se encontrou com seu
duplo no espelho antigo de prata. Ken o comprara para decorar a
casa, mas era seu inimigo. Uma lembrança. Um aviso.
“Ei, gorducha.” O murmúrio arrastado fez seu estômago revirar
e gelou seu sangue. Ela olhou ao redor, pelos corredores vazios,
mas não havia ninguém. Tentou dar alguns passos para trás, mas a
voz voltou, mais dura e má. “Se você fugir agora, vou te encontrar
depois. E vai ser pior.”
Jurou que não ia chorar nem demonstrar medo. Com o coração
aos pulos, foi até a escada.
Ele cheirava mal, a cigarros e bebida. Era um aluno do último
ano, sempre levava suspensão, e parecia que sempre conseguia
encontrá-la. “Tenho que ir para o escritório. Estão me esperando.”
A voz dela saiu trêmula, e ele sorriu ironicamente. “Vem cá.
Não vai demorar. Hummm, você se arrumou pra mim? Ou tá
mostrando as tetas por aí pra tentar pegar um garoto?”
Lágrimas começaram a queimar sua garganta. Desajeitada,
agarrou a blusa nova, que tinha juntado dinheiro para comprar.
Sempre adorara roupas e se debruçava sobre as revistas de moda,
marcando as preferidas. Quando viu a blusa no shopping, imaginou
como ficaria num modelo tão feminino e delicado. Preta, de renda,
bem comprida para esconder a barriga — achou que fosse ficar
sexy. Agora via a maneira como ele olhava para os seus seios e
odiava. A boca começou a tremer. “Me deixa em paz.”
“Me mostra os peitos, e eu deixo.”
Foi tomada por uma onda de terror. Virou-se para correr, mas
ele agarrou seu pulso e torceu com força. Sentiu o hálito podre
que vinha da boca dele. “Estou tentando te ajudar, gorducha. Você
não vai conseguir um namorado assim, gorda e feia. Mas os caras
gostam de peito e bunda. Quanto mais você mostrar os seus, mais
eles vão gostar de você.” A outra mão foi até o colo dela, para
tentar puxar o decote para baixo. A humilhação era insuportável,
os dedos estavam frios, como cobras escorregadias sobre a pele
dela. Ken engoliu as lágrimas e o empurrou com força.
“Não encosta em mim!” Ele agarrou um dos seios e apertou
com tanta força que a fez chorar, mas ela conseguiu se soltar e dar
um passo para trás. A risada dele ecoou nos seus ouvidos
enquanto ela corria para o banheiro das meninas, encolhida para
esconder o busto.
“A gente se vê por aí, gorducha. Vou estar te esperando…”
Kennedy estremeceu e, com cuidado, levou a mão ao rosto,
para lembrar a si mesma de que já era adulta. Ele a torturou
durante o ano inteiro, até que ela começou a vomitar todas as
manhãs, imaginando o que ele poderia tentar fazer. A pressão, o
bullying e os insultos não eram nada comparados ao silêncio mortal
do vão das escadas, fosse depois das aulas, no intervalo ou na
hora do almoço. Depois, ele começou a esperar em frente à escola,
e não havia mais lugares seguros. Ninguém jamais a ajudou.
Foi forçada a se humilhar diante dele milhares de vezes, sob a
ameaça de que tudo ficaria ainda pior se não fizesse exatamente o
que ele queria. Então obedecia. Mas de nada adiantou.
As coisas pioraram do mesmo jeito.
Quanto tempo levou até perceber que estava perdendo peso
porque tinha parado de comer? A comida tinha sido sempre um
conforto, mas agora era o inimigo, a arma usada contra ela. Nunca
antes tinha tido vontade de emagrecer. Mas, aos poucos, a comida
foi se tornando algo que levaria a mais abusos e torturas, então foi
fácil parar de comer.
Ela se agarrou à dor do vazio no corpo até que se tornasse a
única sensação com a qual se sentia confortável. Talvez ficasse
invisível ou se transformasse num vislumbre do que já tinha sido,
enfim a salvo do garoto e da turma dele.
A mãe de Kennedy comemorou o emagrecimento da filha, os
dezoito quilos a menos. Foi isso que mais a magoou, perceber que
a própria mãe agora queria exibi-la em eventos de caridade e às
amigas da sociedade, quando antes fingia que nem tinha uma filha.
Sempre que o pai tentava fazer com que se alimentasse, a mãe
fazia um gesto de “deixa pra lá”. Ela chegou mesmo a encorajar a
dieta do jejum, insistindo que todas as mulheres faziam aquilo
porque sabiam que o corpo feminino era sua arma mais poderosa.
Não o cérebro.
Tirou a mão do rosto. Kennedy deu as costas para o espelho e
tentou espantar as reminiscências do passado. Detestava pensar
naquilo, embora sua terapeuta sempre a lembrasse de que as
cicatrizes eram sinais de batalhas ganhas. Mesmo as feridas que
não se viam na pele. De repente, o silêncio se tornou ensurdecedor
e repleto de sussurros. Pegou o controle remoto, ligou a televisão e
aumentou o volume. Chega. Tinha se esforçado para encontrar um
equilíbrio saudável e aprender a apreciar o corpo que agora se
orgulhava de ter. Levou anos lutando contra os demônios, até
conseguir se enxergar de verdade no espelho, em vez da imagem
distorcida de uma jovem acima do peso. No entanto, os espelhos
ainda eram assombrações que às vezes gritavam e gozavam dela.
Nunca podia prever quando a mulher no espelho apareceria
desfigurada. Gorda. Sozinha.
O zumbido do programa de entrevistas teve um efeito
calmante. Kennedy terminou de beber a água e trocou de roupa,
vestindo o pijama favorito, um cor-de-rosa de algodão. Deitou a
cabeça num dos travesseiros fofos, fechou os olhos e dormiu com
as luzes acesas e a televisão ligada.
A última imagem foi a do rosto de Nate, quando ele se curvou
para beijá-la.
5

Nate entrou na sala e assimilou o cenário. Garrafas de cerveja


sobre as mesas. Um filme pornô na televisão. Embalagens de
batata frita e salgadinho de cebola abertas em cima do sofá, em
meio a montes de farelos. O irmão jogado no sofá, com os pés
para cima, uma das mãos enfiada dentro da cueca, fazendo um
carinho nas partes baixas.
“Oi, cara. E aí?”
Nate respondeu com um aceno de cabeça e começou a arrumar
a sala de imediato. Enrolou os sacos de salgadinhos e fechou com
um clipe. Catou as garrafas vazias e as jogou no cesto do lixo
reciclável. “Nada. Botou o lixo lá fora, pra coleta de amanhã?”
“Não, esqueci. Por que você chegou tão tarde? Pegou alguém?”
Connor moveu as sobrancelhas para cima e para baixo, no estilo
Groucho Marx. Normalmente Nate daria uma risada. Hoje sentiu
uma ponta de irritação.
“Fui encontrar a consultora de relacionamentos. Me inscrevi na
Kinnections, lembra?”
“Gata?”
É. Nate deu de ombros. “Nada de especial. Olha, vou chegar
tarde a semana toda. Você consegue cuidar do lixo de manhã e
fazer umas compras? A gente tá sem nada em casa.”
“Claro, cara, pode deixar.” Uma loira de seios fartos gemeu e
balançou os quadris na tela. Nate achou desagradável. Por que é
que as atitudes do irmão pareciam ficar piores com a idade? Tinha
sido descolado na escola. Aceitável na universidade. Mas agora,
aos trinta e seis anos, parecia… deprimente. “Quer ver o filme
comigo?”
“Não, valeu. Estou morto.”
O irmão tirou a mão de dentro da cueca e se arrastou para fora
do sofá. Eles sempre brincavam sobre Connor ter ficado com todos
os bons genes da família no que tocava à aparência, enquanto
Nate havia herdado a inteligência. Tinha um metro e oitenta, mas
Connor era bem mais alto e mais musculoso também. Mantinha o
cabelo aloirado comprido e encorajava Nate a fazer o mesmo,
dizendo que as mulheres achavam aquilo sexy. Ele tinha a visão
perfeita e ainda por cima herdara os grandes olhos cor de avelã da
mãe, assim como os longos cílios. Desgraçado. Largara a faculdade
para trabalhar com construção civil e ganhava razoavelmente bem,
a não ser nos meses de inverno, quando as oportunidades
rareavam. “Você tá diferente. Ah, é o laranja, você não tá mais
laranja.”
“É, fiz uma esfoliação pra tirar tudo.”
“Que zoado, cara. Cuidado pra não perder a macheza.”
“Era um spa muito másculo.” Concentrou-se em programar a
cafeteira para ligar exatamente às quinze para as seis da manhã e
ignorou os olhares do irmão. Connor sempre percebia quando ele
mentia.
“Olha, Ned, tem alguma grana que você possa me emprestar
esta semana? Os caras querem sair pra tomar uma cerveja
amanhã, e eu tô liso.”
Franziu a testa. “Mas acabei de te emprestar na semana
passada.”
Connor fez um gesto com a mão no ar. “É, eu sei, vou resolver
isso logo. Peguei outra obra, então vou ter um trabalho extra.
Também decidi me candidatar à vaga de supervisor. Sou eu quem
tá lá há mais tempo. O que você acha?”
Nate levantou os olhos das porções perfeitas de pó de café que
estava medindo. “Claro que você tem que tentar. Vai se sair bem
na administração.”
O irmão se iluminou, e mais uma vez Nate notou a culpa que
sentia sempre que pensava nos sacrifícios que Connor tinha feito
por ele. A faculdade era cara, mesmo com as bolsas, e, depois que
os pais praticamente os deixaram órfãos, Con trabalhou em três
empregos para ajudar Nate a completar os estudos.
“É, concordo. As entrevistas começam na semana que vem.
Mas acabei ficando sem nada depois da despedida de solteiro do
Stan. Pena que você não foi, as strippers eram muito gostosas.”
“É, uma pena.”
“Acho que levar as pessoas até Marte é mais importante, né?”
Ele sorriu e virou a cerveja toda em um longo gole. “Você vai me
ajudar, não vai?”
“Claro.” Pegou a carteira, tirou algumas notas e as jogou sobre
a mesa. “Olha, mudei meu nome para Nate. Nada mais de me
chamar de Ned.”
Connor riu. “Por que você fez isso? Todo mundo te conhece
como Ned.”
“Digamos que estou virando a página. Tô fazendo alguns
ajustes pra conseguir encontrar uma esposa.”
“Pooorra, cara, não entendo por que você tá tão preocupado
com essa ideia de casamento. O que vale é comer gostoso a
mulher, depois partir pra outra. Tá me ouvindo?”
Será que o irmão tinha ficado ainda mais grosseiro ou era ele
que estava cansado? “Me chama de Nate, tá legal?”
“Beleza, como você preferir. Só toma cuidado com esse negócio
de agência de relacionamento.”
“Tá tudo sob controle. Vou deitar.”
“Boa noite.”
Nate saiu da cozinha. Quando o irmão o convidou para
morarem juntos, ele achou que seria divertido. Gostava da
companhia de Connor e se sentia em débito com ele. O irmão era
simplesmente seu herói. Qualquer outro adolescente mal-
humorado teria deixado o irmão mais novo de lado e seguido em
frente com a vida. Connor, não. Ele o levava de carro para os
clubes de matemática e ciência que frequentava depois da aula.
Protegeu-o das hordas de valentões loucos para lhe dar uma surra.
Ficava sentado em silêncio ao lado da cama enquanto Nate
chorava, porque a dor de perder a mãe era demais para suportar, e
o silêncio do pai cortava o coração.
Mas agora eram adultos. Queria ter uma vida própria. Uma
esposa. Filhos. Um cachorro. Amava o irmão, mas já era hora de
ele se mandar dali. Os dez meses planejados tinham virado um
ano, e Connor não dava sinais de que estivesse procurando um
lugar para viver. O porto seguro de Nate tinha se transformado
numa república, em que ele era faxineiro, cozinheiro e conselheiro
de Connor e de sua equipe de obras. Precisava conversar com ele
em breve. Se estava mesmo levando a sério o plano de arranjar
uma mulher, não podia levá-la para um lugar como aquele. Já era
hora de o irmão arrumar uma casa e se mudar. Seria bom para os
dois.
Nate marchou até o quarto, tirou as roupas e se preparou para
ir para a cama. Quando finalmente deitou sobre os lençóis brancos
e recém-trocados, pensou em Kennedy. Pensou naquele beijo
gostoso, de abalar as estruturas, do qual ele se lembraria para o
resto da vida. Sua boca tinha gosto de sal, pimenta e pecado.
Nunca desejara tanto uma mulher e seria capaz de vender a
patente de suas pesquisas para a China em troca de uma chance
de beijá-la mais uma vez.
Ficou olhando para o teto. O melhor é que ela havia retribuído
o beijo. De alguma forma, tinha conseguido atraí-la, e, naquele
instante, ela foi dele. Mas era hora de se afastar da beira do
abismo, antes que o plano todo desmoronasse. Queria uma mulher
para um relacionamento sério e não tinha as habilidades
necessárias para escalar paredes de segurança máxima,
estrategicamente construídas para manter à distância homens com
muito mais experiência do que ele. Se ela quisesse, ele morreria
tentando conquistá-la. Mas não queria. E burro era uma coisa que
Nate não era.
Era preciso ser muito, muito idiota para achar que Kennedy
Ashe poderia querer ficar com ele para sempre. Era bonita demais.
Perfeita demais. Uma combinação mortal.
Demorou um bom tempo até o sono chegar.
“De. Jeito. Nenhum.”
Kennedy trocou um olhar com o cabeleireiro. O homem
arqueou uma sobrancelha e crispou os lábios, contrariado. Benny
tinha um ego enorme, merecido, e a ideia de que Nate não queria
seguir suas instruções o insultava de diversas maneiras. Alto e
magro, tinha o cabelo escuro perfeitamente cortado, com toques
de vermelho para dar profundidade, e um brilhante cintilando na
orelha esquerda. Sempre vestia preto e fazia as unhas; o nariz era
comprido e um pouco adunco, o que tornava ainda mais fácil
empiná-lo quando alguém lhe desagradava. Como agora. Ela
pousou as mãos nos ombros de Nate, cobertos pela capa de
plástico, e o olhou nos olhos pelo espelho. “Qual é o problema, de
verdade?”
“Você tá brincando? Quer fazer luzes no meu cabelo? Depilar
minha cara? Deixa eu repetir. De. Jeito. Nenhum. Vou embora.”
Benny jogou as mãos para o alto. Falava com sotaque britânico,
embora Kennedy soubesse que era do Bronx. “Não posso trabalhar
nestas circunstâncias. Sou um artista. Recebo seus clientes como
um favor para você, mas não vou me deixar insultar.”
“Olha, amigo, leio a Glamour, e eles sempre deixam bem claro
que luzes têm que ser retocadas a cada duas semanas. Tenho
certeza que não vou ficar vindo toda hora no salão, então é melhor
repensar esse plano.”
Benny bufou. Depois, concordou, num tom ressentido. “Ele está
certo. Não vou fazer luzes em alguém que não vai manter a
coloração.”
Nate se empertigou e fez um movimento como se fosse sair da
cadeira. “Exato. Quem é o especialista agora? Vou me mandar
daqui.”
Benny curvou os lábios com desdém.
“Nate, por favor, escuta.” Kennedy pousou a mão no braço dele,
segurando-o de leve. Imediatamente, recebeu toda a atenção de
Nate. “Benny vai dar um polimento na sua aparência para
aumentar sua confiança natural. Parte do motivo pelo qual você
não tem chance com muitas mulheres é porque ainda não se
dedicou a construir uma boa primeira impressão. Prometo que não
vai ser nenhuma mudança radical.”
“Você quer tosar meu cabelo.”
“Finge que está na hora de trocar o pelo e pronto, vamos
acabar com isso”, respondeu o cabeleireiro, debochado.
“Benny!”
Benny olhou para as unhas, já cansado daquele episódio. Nate
fechou a cara e cruzou os braços sobre o tronco. Kennedy suspirou
em silêncio. Droga. Lidar com a aparência de um homem era
sempre delicado, principalmente com os que precisavam de mais
mudanças. Tinha os dedos coçando de vontade de revelar aquilo
que sabia que estava escondido ali: um charme nerd que intrigaria
as mulheres e atrairia o amor até ele.
Nate levantou a monocelha. “Então isso é uma via de mão
única? Por que você não acredita quando digo que estou bem do
jeito que sou? Me recuso a virar um manequim de vitrine.”
Ken mordeu o lábio para não rir. Benny revirou os olhos. “Até
parece”, comentou baixinho.
Nate virou a cabeça. “Eu escutei isso.”
“Olha, tudo bem. Se você fizer isso por mim, faço uma coisa
pra você também.”
Benny olhou, interessado. “Nossa, quem diria, querida.”
Kennedy revirou os olhos. “Relaxa, Benny, não vou pra cama
com ele. Mas, Nate, você pode me pedir alguma coisa que me tire
da minha zona de conforto. Mesmo sendo um cliente, não costumo
pedir que façam coisas que eu não esteja disposta a fazer. Pode
escolher.”
Ele se fez de desinteressado. “Você já é bonita.”
Kennedy gostou da massagem no ego. “Obrigada. Olha, você
não vai ter essa oportunidade de novo. Escolhe alguma coisa, que
eu faço. A oferta expira em um minuto.”
“Deixa eu te ensinar a jogar golfe.”
Ela estremeceu. Não, aquilo não ia dar certo. Deixar-se arrastar
por um gramado infinito para bater numa bola e depois ter que
andar mais doze quilômetros só para bater de novo não estava na
sua lista de desejos. As roupas que usavam, pior ainda. Aquelas
camisas de gola medonhas e as calças xadrez de pescar siri. Uma
noite dessas na TV, lembrava de ter visto um golfista vestindo
bermuda cor de abóbora, sem um pingo de ironia. Que pesadelo.
Sem falar na chatice dos papos intermináveis sobre handicaps e
tacadas. “Que tal a gente pôr o favor na conta por enquanto? Daí
você pode pensar com calma e escolher algo que realmente queira.
Tudo bem?” Fez seu melhor biquinho e ainda estreitou os olhos. Só
uma vez um homem tinha dito “não” depois desse truque em
particular. Sabia que as estatísticas estavam do seu lado.
Ele fez cara de teimoso. “Não. Golfe. E não só uma vez. Preciso
de algumas sessões para poder te ensinar direito.”
Ken estremeceu. Analisou as opções para ver se encontrava
uma saída. Não achou nenhuma. Poderia ameaçá-lo, mas ele
voltaria a recusar o corte de cabelo, e, sem uma boa mudança no
visual, ela também estaria enrascada. “Tá bom, você venceu. Mas
nada mais de reclamar e dificultar o trabalho do Benny. Você vai
obedecer. Combinado?”
“Combinado.”
“Benny?”
O cabeleireiro passou os dedos pelas mechas desalinhadas de
Nate com uma expressão de nojo no rosto. “Combinado. Isto aqui
está horrendo demais pra não fazer nada.”
“Obrigada.”
Ela checou algumas mensagens no telefone e esperou,
enquanto Benny preparava uma hidratação e começava a trabalhar.
Kennedy bebericou um café, respondeu a e-mails e tentou ignorar
os resmungos e grunhidos quando Benny esfregou a mistura no
couro cabeludo do cliente. O cabeleireiro pegou uma navalha na
gaveta e cobriu o rosto de Nate com uma toalha quente. De
repente, Benny deu um grito.
“Meu Deus, eu sou um gênio. Este homem precisa de uma
barba.”
Kennedy chegou mais perto. A voz de Nate saiu abafada pela
toalha. “O quê?”
“Você acha que vai ficar bom?”
Benny pôs um dedo no queixo e avaliou. “Olha, é um risco.
Mas, se eu fizer tudo certinho, ele pode ser minha obra-prima.”
“Então sou uma porra de um Frankenstein agora? Me tira
daqui.”
“Shh”, disse Benny.
“Mas que droga é essa? Faço a barba todos os dias e agora isso
é um problema?”
“Shh”, repetiu Kennedy. “Deixa ele pensar.”
Benny enfim assentiu. “Acho que vale a pena. Mas tem que ser
delicada. Vou definir o desenho, e ele tem que prometer que vai
manter exatamente igual. Quando a barba crescer, tem que ficar
no formato certo, senão vai acabar parecendo um traficante em fim
de carreira.”
Nate arrancou a toalha do rosto. “Traficante? Nada de barba,
sou um engenheiro aeroespacial.”
Benny inclinou a cabeça. “Hum, tô cuidando de um astronauta,
é? Nada mau.”
“Engenheiro aeroespacial.”
“Shh”, Kennedy e Benny disseram em uníssono.
Benny apontou a navalha como um aviso. Nate se ajeitou na
cadeira. Kennedy voltou ao trabalho, satisfeita em deixar Benny
fazer sua mágica em paz.
“O que você tá botando nos meus olhos?” Kennedy apertou os
lábios. Benny não respondeu, simplesmente aplicou a cera quente
na monocelha bizarra. “Isso é quente e grudento. O que é que tá
havendo?”
“Para de reclamar.”
Kennedy segurou o riso e respondeu. “Benny precisa dar uma
limpada nas suas sobrancelhas.”
“São sobrancelhas normais, pelo amor de Deus. O que é que
você vai fazer com elas?”
Benny pressionou a faixa de tecido sobre a cera. E puxou em
seguida, de uma vez só.
“Merda!”
“Deixa de ser chorão. As mulheres encaram dores muito piores
todos os dias. Agora aguenta aí que ainda não terminei.”
“Você arrancou os pelos da minha cara. Eu sou homem!”
“Um homem peludo. Você precisa se depilar com frequência.”
“Vai se foder.”
Kennedy segurou o espanto. Interessante. Nate quase nunca
falava palavrão. A dor extrema abalava seus limites sociais.
Perguntou-se o que mais teria o mesmo efeito, mas afastou o
pensamento imediatamente.
Uma hora depois, Ben revelou a versão acabada, mantendo
Nate de costas, para que não pudesse espiar seu reflexo. Ao fitar o
novo e melhorado Nate Dunkle, Kennedy sentiu um arrepio
estranho na espinha.
Agora, sim.
De Frankenstein ele não tinha nada. O cabelo castanho opaco
agora brilhava com saúde e viço, em tons levemente dourados que
realçavam o verde-musgo dos olhos. O corte bem-feito dava um
pouco de movimento na frente, uma franja que quase tocava nas
sobrancelhas. Atrás, tinha camadas raspadas com a navalha, que
definiam bem a forma da cabeça e ainda davam um ar de bad boy.
Os traços do rosto finalmente apareceram, e ela reconheceu que
era mesmo um crime cobri-los com todo aquele cabelo. Imaginou
como a barba por fazer, quando crescesse um pouco, cairia bem no
queixo marcado e daria um toque extra no look. Sentiu o estômago
dar uma cambalhota, uma só.
“Você tá me olhando de um jeito estranho. Tá tão ruim assim?”
Kennedy sorriu. “Você tá incrível, vira pra ver.”
A cadeira girou. Ele abriu bem os olhos para analisar o novo
corte. Os dois ficaram à espera de um comentário. Kennedy já
estava se acostumando aos silêncios de Nate e respeitava o modo
como o cérebro dele processava cada detalhe do mundo ao redor.
“Nada mau.”
Benny fungou. “Até parece. Sou um gênio. A gente devia ter
feito isso num reality show. Eu ia ficar famoso.”
“Até parece”, Nate resmungou.
Kennedy lançou um olhar para ele pelo espelho e abraçou
Benny. “Você é mesmo um gênio, obrigada.”
“Por você, meu amor, faço qualquer coisa. Ele precisa hidratar
toda semana e voltar aqui também uma vez por semana, até eu ter
certeza de que consegue deixar a barba do jeito certo. Você já
pensou em fazer laser nas costas dele?”
“Ei, Ben, você leu uma reportagem na Esquire este mês dizendo
que usar um brilhante na orelha esquerda dá um ar de desespero?
Você tem notado algum efeito quando sai à noite?”
Benny levantou o nariz adunco, fazendo a pose clássica de
desprezo. “Deixa de ser micha má e se manda daqui.”
“Deixa de ser o quê? Micha? Mixa? Que porra é essa?”
“Uma bicha masculina. Você não sabe de tudo? Aprenda as
gírias também, ora.”
Nate abriu a boca, chocado. “Essa palavra não existe. Não está
no dicionário.”
“Se você levar a vida seguindo o que tá no dicionário, vai
perder muita coisa. Acorda.”
“Devo estar em algum tipo de País das Maravilhas movido a
ácido. Posso dar conta da minha própria barba.”
Benny baixou a voz. “Mexeu comigo uma vez, meu querido
engenheiro aeroespacial, vai ter a vida inteira pra se arrepender.”
“Certo, vá em frente. Pode vir.”
Ken se meteu entre os dois. “Chega de fazer amizade! Vamos
embora.” Rabiscou a assinatura no recibo que saiu da máquina de
cartão, pegou a máscara de hidratação e saiu com Nate dali.
“De onde você tira essa gente? Primeiro a Ming, agora o Benny.
Quem é o próximo, o assassino do Massacre da serra elétrica pra
me ensinar truques de socialização?”
Ela segurou mais uma risada e se dirigiu para o carro. “Não,
isso é com a Kinnections. O próximo passo é a academia. Tenho
um plano. Você vai me encontrar lá na quarta à noite. Eu te mando
o endereço por mensagem.”
A cara dele era de decepção. “Engraçado. De repente, ter os
pelos arrancados do rosto pareceu mais divertido.”
“Não seja tão dramático. Esse é o seu carro?” Deu uma olhada
no moderníssimo Tesla preto e marcou alguns pontos extras a favor
dele. “Legal.”
Nate quase explodiu de orgulho. “Obrigado. Totalmente movido
a bateria elétrica e com zero emissão de carbono.”
Ken abriu um sorriso. “E é bem sexy também. Então, nos
vemos amanhã?”
“Pra onde você vai?”
Ela franziu a sobrancelha. “Pra casa.”
“A noite tá tão bonita, você me torturou por horas a fio, acho
que mereço uma compensação.” Kennedy pulou do meio-fio. De
jeito nenhum passaria por outro beijo roubado. O primeiro quase
tinha acabado com ela. Nate riu. “Relaxa, não vou te atacar. A
gente vai tomar um sorvete.” Segurou na mão dela e a guiou pela
calçada.
Kennedy ficou parada por um momento, em choque. “Sorvete?
Mas ainda estamos em março. Sorvete é uma das coisas mais
engordativas do mundo. De jeito nenhum. Estou fazendo a maior
força para evitar laticínios.”
“E você provavelmente tá infeliz por causa disso. Estamos na
última semana de março, então já é oficialmente primavera. Tomar
sorvete sozinha pode ser um crime, mas você está indo comigo.
Pode considerar como um favor, você vai cuidar de mim. Me ver
tomar sorvete e garantir que eu não faça nenhuma besteira.”
Uma dúzia de protestos passou pela cabeça de Ken, mas Nate
não lhe deu tempo para externá-los. O sol pendia suspenso sobre o
rio Hudson, preso entre o dia e a noite, cobrindo o mundo com
aquela luz rosada que cintilava na água. Os saltos dela batiam na
calçada e marcavam o ritmo da caminhada que ele liderava rumo à
Main Street. As lojas começavam a acender as luzes prateadas e
exibiam com orgulho seus produtos, de peças de cerâmica e
esculturas a uma variedade de cafés que prometiam pães frescos,
tortas, bolos e cafés gourmet. Kennedy relaxou e acenou para
Julia, a bibliotecária, conversou por alguns segundos com o velho
Charlie, que se sentava no mesmo banco todos os dias às cinco da
tarde, até o amigo Frank sair do trabalho e os dois irem ao Mugs
para um brinde diário com cerveja light. Emma parou-os para dar a
Kennedy um petisco especial, sem glúten, para que o cachorro de
Kate, Robert, pudesse experimentar e ajudar a testar os novos
sabores da Barking Dog Bakery. Nate parecia confortável ao lado
dela enquanto as duas conversavam. Emma lançou um olhar
curioso. Kennedy tentou soltar a mão, mas ele manteve a pegada
firme, então ela desistiu. Quando havia sido a última vez que
passeara de mãos dadas com um homem? Os dedos dele eram
quentes e fortes, e era gostoso poder fingir por alguns instantes
que ela também tinha um relacionamento normal, como todo
mundo.
Um grupo de garotos passou voando por eles em cima de
skates, seguidos por meninas risonhas. De repente, percebeu que
ele parecia conhecer bem a cidade.
“Não sabia que você estava tão familiarizado com Verily.”
“Não estou.”
Kennedy virou a cabeça. O perfil dele era marcante e gracioso
sob o sol que se punha, mesmo com aqueles óculos horrendos.
“Então como é que você sabe que tem uma sorveteria aberta
agora?”
“Uma cidadezinha pitoresca, artística, na beira do rio, em Nova
York. Você tá brincando? Sempre tem uma sorveteria na rua
principal.”
Ela balançou a cabeça. “Você ainda nem jantou.”
“Sou rebelde.”
Kennedy sorriu.
Chegaram ao pequeno café, Xpressions, que se orgulhava das
delícias gourmet e do sorvete artesanal repleto de calorias,
gorduras e maravilhas. Nate não teve pressa para escolher o sabor,
pedindo para provar framboesa e chocolate trufado. Ela pensou em
pedir um frozen yogurt zero gordura, mas era patético demais. Ele
se virou com um olhar sério. “Se fosse você, qual escolheria?”
Kennedy sentiu uma pontada de mau humor. “Não faz o menor
sentido pedir sorvete de fruta.”
Nate mordiscou a colherzinha de plástico. “Ótima teoria. Duas
bolas, por favor. Chocolate trufado e manteiga de amendoim.”
O estômago dela deu um grunhido. Tentou lembrar a si mesma
que tinha em casa, esperando por ela, uma porção perfeitamente
equilibrada de salmão e vagem no vapor. “Manteiga de amendoim
também é muito gorduroso. Você acabou de escolher os dois piores
sabores para garantir artérias entupidas.”
Nate abriu a boca, fingindo horror. “Pior que floresta negra ou
flocos?”
“Tudo bem, é você quem vai morrer.”
“Ah, e pode botar numa dessas casquinhas artesanais, por
favor. Tem certeza que não quer nada? Tem frozen yogurt…”
Ken olhou para ele. “Não, obrigada.”
O rosto de Nate relaxou e assumiu ares contentes de criança
enquanto atacava a casquinha de sorvete, com um monte de
guardanapos enrolados na base. “Vamos sentar um pouco.”
“Tenho que ir pra casa.”
“Só um minuto.”
Ela bufou, mas se deixou guiar até o banco perto do parque de
cães. Sentados debaixo de um olmo retorcido, observaram os
cachorros brincarem. Um homem abraçou a amada e roubou um
beijo junto a um portão de ferro. Ken relaxou. Fazia muito tempo
que não saía para dar uma volta. Era gostoso simplesmente poder
sentar e apreciar a paisagem de Verily.
“Amo Nova York. Sempre me impressiona como você pode
escalar montanhas, andar a cavalo e assistir a uma peça na
Broadway, tudo a menos de uma hora de distância. Você morou a
vida toda em Verily?”
“Não, estudamos na NYU e morávamos em Manhattan. Aí
Arilyn, Kate e eu viemos passar um fim de semana e nos
apaixonamos. Decidimos abrir a Kinnections e mudar pra cá. E
você?”
Nate foi falando entre uma lambida e outra. “Acabei indo pra
Califórnia, para o Dryden Flight Research Center. Meu objetivo
sempre foi a Nasa, só não sabia pra qual base iam me mandar, mas
sou um cara dos números. Sempre fui fascinado por física e o
desafio de tratar os dados e as equações pra aumentar a eficiência.
Meus professores não conseguiam me acompanhar, e foi só uma
questão de tempo até a Nasa me procurar. Quando houve o
desmonte, o setor privado explodiu. Pude voltar pra Nova York e
ter o prazer de trabalhar pra um bilionário recluso que quer mexer
com viagens espaciais. Mas, pode acreditar, os astronautas e os
pilotos ficam com toda a glória. E com as garotas também.”
Ela flagrou quando um filete de sorvete derretido pingou no
jaleco impecável e disfarçou uma risada. Nate baixou o olhar e
xingou baixinho. “Merda, estava quase conseguindo encerrar o dia
sem manchas. Tô ficando sem roupa. Aqui, segura pra mim.”
Largou a casquinha na mão dela e tentou enxugar a lambança
com os guardanapos. Kennedy ficou encarando o sorvete lindo,
cheiroso, derretendo em sua mão. Gotas de chocolate trufado
despontavam na parte de baixo. Um pedaço de manteiga de
amendoim gritava o nome dela. Estava quase perdendo o controle
quando um gemido de Nate a pegou de surpresa.
“O que houve?”
“Dor de estômago”.
Kennedy ergueu uma sobrancelha. “Jura? Olha pra esse
monstro. Eu te falei que era melhor jantar antes.”
“Você tem que terminar pra mim.”
O coração dela começou a bater mais forte e as palmas das
mãos ficaram suadas. “Não! Não posso comer isso. Vou perder
cinco anos de vida e engordar cinco quilos.”
“Não seja tão dramática. Me recuso a desperdiçar um bom
sorvete. Já tomei quase tudo, toma só um pouco pra eu não me
sentir culpado.”
“Mas eu…”
“Arrancaram a metade superior do meu rosto hoje. Toma logo
esse sorvete, Kennedy.”
“Ai, meu Deus, tudo bem.” A primeira lambida disparou um
discreto calafrio de prazer, que foi se replicando por todos os
nervos do corpo. “Isso é ridículo, também não jantei ainda.”
“Ótimo, então a gente vai passar mal junto.”
A segunda lambida quase causou uma parada cardíaca. A
terceira acabou com tudo.
Ela ficou tão feliz.
Deixou escapar um gemido, mas não se importou. Atacou a
casquinha com mais entusiasmo. Afinal, estava fazendo um favor
para Nate. “Então, se você estuda propulsão, está na verdade
lidando com velocidade. A ideia é manipular a fórmula pra alcançar
mais eficiência?”
Nate recuou e olhou espantado para ela. Um alarme soou no
cérebro de Ken, mas foi silenciado pelo nível de açúcar. Ele falou
bem devagar, como se estivesse tentando escolher as palavras,
mas seu olhar a desmontou em pedacinhos, analisando cada um
deles. “Sim, mas tudo funciona junto. Pra mudar a velocidade, você
precisa encontrar o equilíbrio certo entre o impulso e a propulsão.
A equação de empuxo depende do fluxo de massa do motor e da
velocidade resultante.”
“Entendi. Você acha que foguetes químicos são os mais
eficientes?”
Meu Deus, a manteiga de amendoim tocou no pedaço de trufa
e explodiu em sua boca como um orgasmo duplo. Ela cruzou as
pernas e apertou com força, tentando manter o controle.
Nate limpou a garganta. “Não, acredito que o melhor é uma
solução mecânica, com uma fonte externa de energia elétrica
acelerando o propulsor que gera o empuxo. Mas, se fizer uma
descoberta importante na minha pesquisa, tanto a equação quanto
a maneira como se usa a fórmula vão mudar, o que vai nos dar
outra opção.” Ele pareceu notar o entusiasmo de Kennedy com o
sorvete e sorriu. “É muito bom, né?”
“É, muito bom.”
“Teu queixo tá sujo. Não se mexe.” Nate pegou o guardanapo e
limpou a boca de Ken, o queixo e o pescoço. Ela passou a língua
várias vezes em volta do cone, até chegar à parte crocante. Deu
uma mordida. O biscoito fresco, ainda morno, era divino. Só mais
uma dentada e jogaria o resto fora. Já tinha comido o bastante
para deixá-lo feliz.
“Engraçado, o jeito como se parte a equação em pedacinhos”,
ela comentou, mastigando. “É a mesma coisa com as pessoas.
Você segue um impulso, gera energia e acaba provocando uma
mudança na vida. Mas, se você for muito impulsivo, a energia pode
ser demais e virar um desastre completo. O negócio é encontrar o
equilíbrio, acho.”
“Só que se você ficar estagnado, não seguir impulso nenhum, o
foguete não dispara nunca.”
Ken comeu o resto do cone e o açúcar correu em suas veias,
proporcionando um calor de felicidade. “É, acho que você tem
razão. A não ser que esteja muito bem onde está, porque, aí, quem
precisa de foguete, certo?”
De repente, ela levantou os olhos e o encontrou mais perto do
que esperava. Ele tinha deslizado pelo banco até encostar o ombro
no dela. Com os olhos, estudava sua boca, acariciava seu rosto. Por
causa do novo corte, mechas de cabelo cobriam sua testa, dando
uma vontade enorme de passar os dedos, ajeitá-las para trás. A
sensação boa causada pelo sorvete passou e foi substituída por
uma corrente elétrica baseada simplesmente em sexo. Sexo
quente, safado, sem limites nem barreiras.
“Ken?”
“Sim?” A resposta saiu quase um gemido.
Os cães latiram. O barulho metálico do portão abrindo e
fechando pairava no ar. O vento despenteou mechas do cabelo dela
e as soprou com força. Ken sentiu cheiro de hortelã, sabonete e
chocolate concentrado. Tudo borrado, esmaecido como um filme
antigo. Nada mais tinha importância, a não ser a boca dele,
descendo devagar até a sua.
“Me promete uma coisa.”
O corpo dela vibrava baixinho, pronto para começar a diversão.
Seu âmago desejava sentir as mãos dele sobre a sua pele nua, a
língua de novo em sua boca, a voz sussurrando seu nome tão
suavemente, de um jeito que ela jamais ouvira antes.
“O quê?”, perguntou baixinho.
Nate ajeitou o cabelo dela para trás, com uma gentileza que
contrastava com o desejo que exibia nos olhos.
“Que você sempre vai tomar soverte. É uma coisa bonita de se
ver.”
Ken prendeu a respiração. Aguardou.
Ele travou a mandíbula, resmungou algo inaudível e se levantou
do banco. “Vamos lá, deixa eu te acompanhar até o seu carro.”
Desta vez, não segurou na mão dela. Contrariada, mas
determinada a não demonstrar, Kennedy não se deixou pensar no
toque ou no beijo que não aconteceu. Os dois caminharam em
silêncio até o carro.
“Boa noite, Ken. Vai com cuidado.”
Ele desapareceu rua abaixo, e ela se recusou a olhar para trás.
Terminantemente.
6

Kennedy estudou o cliente conforme ele atravessava o


ambiente. Tinha mandado uma mensagem pedindo que a
encontrasse na academia Tuck-N-Pack, mas foi necessária alguma
insistência até ele concordar. Parece que malhar não era a dele. A
camiseta e o short eram as roupas mais normais que ela já tinha
visto em Nate. As pernas eram bonitas e a altura de um metro e
oitenta não era demais para a estrutura do corpo. Os ombros e os
bíceps eram bem torneados. Seria o golfe a razão para aqueles
braços? Não, impossível. Era o esporte mais fracote do mundo, não
valia de nada. Mas é incrível como a figura toda tinha mudado só
com um corte de cabelo, a barba bem cuidada e um tom de pele
normal. Sua criação estava começando a florescer.
Kennedy tinha se revirado a noite toda pensando naquele
quase beijo e por fim chegara a uma conclusão. A partir dali, o
relacionamento seria estritamente profissional. Nada de sorvetes,
mãos dadas ou confissões. Era supernormal começar a desenvolver
uma ligação quando se trabalhava tão perto. Arilyn tivera
problemas com esses limites várias vezes; Kate ia se casar com um
dos clientes, pelo amor de Deus; e agora era a vez dela. Mas
quando a manhã chegou, Ken saiu da cama depois de uma noite
insone e assumiu um compromisso. Nada de distrações.
Nate parou e olhou para ela por cima da armação grossa dos
óculos, desconfiado. “Oi.”
“Oi. Tudo bem no trabalho?”
“Wayne teve um bloqueio, então ajudei a encontrar uma saída.”
“Seu colega de laboratório?”
“É. Odeio esses lugares. Que idiota escolhe um nome como
Tuck-N-Pack?”
“Acho que soa bem. Você parece meio mal-humorado.”
Ele lançou um olhar zangado. Kennedy segurou um sorriso. Seu
cientista estava uma graça, as sobrancelhas recém-depiladas
franzidas e a mandíbula travada. “Vamos acabar logo com isso.
Qual é a programação? Ferro? Bicicleta? Esteira? Ou você quer
simplesmente sentar nas minhas costas enquanto faço cem
flexões?”
“Hoje não. Você tem ótimos bíceps. E pernas. Você corre?”
“Não. É de jogar golfe.”
Ela riu. “Tá bom, sei. Hoje vamos fazer uma aula que vai testar
seus limites. Já dançou alguma vez?”
Algo semelhante ao horror brilhou nos olhos dele. “Você já
jogou golfe alguma vez?”
“Acho que não. Um homem que sabe dançar fica confortável
com seu corpo. A dança dá graça, ritmo e certa sensualidade. Você
vive praticamente só dentro da sua cabeça. Tá faltando uma
conexão com a sua verdadeira forma física, e acho que isso pode
resolver. É um bom exercício também.”
Os óculos escorregaram alguns centímetros no nariz e ele os
empurrou para cima. “Que aula é essa?”
Ela girou sobre os saltos e se dirigiu à porta de vidro jateado
nos fundos. Pôs a mão na maçaneta. “Zumba.” Com um sorriso no
rosto, abriu a porta e entrou.
Nate congelou onde estava e viu a porta bater. Kennedy
esperou, mas ele continuou parado, recusando-se a andar. Ela
conteve um suspiro e abriu uma fresta para chamá-lo. “Nate, pode
confiar em mim.”
Ele esperou um instante. Dois. Depois começou a ir embora.
Kennedy deu um pulo e entrou na frente. “Tem algum problema?”
Nate baixou a voz e sussurrou, zangado. “Você sabe como eram
as aulas de educação física pra mim? Ainda tenho pesadelos com
isso! E agora você quer me humilhar na frente de outro grupo.
Tropeçar de um lado para o outro, ouvindo uma música horrível,
obedecendo uma animadora de torcida, não é exatamente minha
ideia de um bom exercício.”
Kennedy recuou. Meu Deus, não tinha imaginado que isso trazia
lembranças ruins do tempo do colégio. Parecia que eles tinham
passado pelas mesmas provações na adolescência, e foram anos
até que ela tivesse a coragem de entrar numa academia de cabeça
erguida e treinar sem medo de ouvir as musiquinhas provocando a
“gorducha”. Segurou a mão dele e apertou de leve. “Nunca faria
nada pra te humilhar. Nunca. Tudo o que faço tem um propósito
maior, que é encontrar uma esposa pra você, Nate. A sua mulher.
Trago todos os meus clientes aqui nesta academia, e ninguém
nunca ficou julgando nenhum deles. Só tenta manter a cabeça
aberta. Por favor.”
Prendeu a respiração e esperou que ele tomasse uma decisão.
Ken sentiu um calor estranho por todo o corpo enquanto ele
estudava intensamente cada centímetro do rosto dela, como se
estivesse tentando descobrir o que escondia por trás. Aquele olhar
tinha um jeito de fazer com que ela se sentisse a pessoa mais
importante do mundo.
“Tem certeza que zumba vai me ajudar a encontrar uma mulher
pra casar?”
“É uma peça importante no quebra-cabeças. Cada degrau vai te
deixando mais perto.”
Nate apertou a mão dela. Engraçado, era como se as mãos se
encaixassem perfeitamente. Quase como se já se conhecessem. Ela
ficou nervosa e puxou a mão, apressada. Negócios. Só negócios.
“Tudo bem. Vou tentar.”
Ela mal conteve a empolgação. “Obrigada. Você não vai se
arrepender.”
“Não acredito em você, mas vou tentar”, resmungou.
Ela o arrastou para dentro do estúdio antes que tivesse tempo
de mudar de ideia.
O ar estava frio lá dentro, Ken imediatamente sentiu os pelos
dos braços e das pernas arrepiarem. A sala estava só meio cheia, e
ela o conduziu até o canto do fundo. Havia televisões grandes, para
que a instrutora pudesse ser vista de todos os ângulos, e a maioria
dos alunos ainda estava se aquecendo com alongamentos leves.
Nate cruzou os braços sobre o peito e analisou a sala com desdém.
Ela chegou mais perto. “Primeiro, ninguém tá olhando pra você.
Ninguém liga! Tenta se soltar uma vez na vida, não fica tentando
controlar o resultado. Não racionaliza demais os movimentos. Tenta
se divertir, passar uma hora longe de tudo.”
Ele permaneceu parado, mas a morena empertigada pulou no
meio da sala e perguntou pelo microfone: “Todo mundo pronto pra
dançar ZUMBA?”.
A turma respondeu em uníssono. “Sim!”
“Então vamos lá, pessoal!”
A música ressoou das paredes e do teto, envolvendo-os em um
ritmo latino que acelerava o coração e aquecia o sangue. Kennedy
se concentrou na instrutora, apreciando os passos para trás e para
a frente do aquecimento, enquanto observava Nate no espelho
com discrição. Ele deu alguns passos para a frente e para trás, o
nariz franzido de tanta concentração. Ela sabia que seria um
grande teste, que ele provavelmente não pegaria o ritmo e os
passos, mas era importante se forçar a ir além das barreiras de
controle que ele mesmo erguera. Nenhuma mulher ia querer um
perfeccionista como parceiro, ou alguém cheio de julgamentos. Ela
tinha que alcançar além daqueles esquemas mentais rígidos para
deixá-lo mais em contato com os sentimentos.
Do aquecimento, passaram a um hip-hop mais arrebatador.
Kennedy errava muitos dos passos, mas compensava com
entusiasmo e o balanço dos quadris. Outra olhada no espelho
revelou o brilho de suor na testa de Nate, os óculos escorregando
pelo nariz e a careta de frustração. Ela quase pôde ver a fumaça
saindo da cabeça de seu cliente, de tanto que ele tentava imitar o
ritmo rápido da professora. Assim que pegava um passo, ela
trocava para outro que parecia não ter nenhuma conexão com o
anterior. Era exatamente o que Kennedy queria que ele vivenciasse.
“Vamos mexer esses quadris, gente! Um, dois, três. Desliza no
quatro. Quebra e requebra, isso mesmo, vamos lá!”
Com quarenta minutos de aula, Nate Ellison Raymond Dunkle
se entregou.
Foi um momento fascinante de se observar. Kennedy
reconheceu o instante exato em que ele se rendeu. Por mais que
tentasse, a dança parecia escapar dele, sempre um passo adiante,
deixando apenas o ritmo da música, o cheiro do suor e as batidas
dos pés no piso de madeira. As luzes rodavam e criavam uma
silhueta esverdeada ao redor de Nate.
Kennedy se orgulhava de saber domar a espécie masculina.
Arilyn normalmente ajudava a mirar no obstáculo que sua presa
precisava superar, a fim de despi-la de seus limites. Kennedy não
tinha nenhum treinamento formal como terapeuta, mas gostava de
testemunhar o crescimento das pessoas. Deus sabe como tinha
lidado com toneladas de ansiedade no passado. Ainda assim, a dor
ajudava o crescimento do homem. E o crescimento ajudava a
encontrar o amor. Ficar estagnado e medroso só bloqueava as boas
vibrações num relacionamento saudável.
Pelo menos era nisso que ela sempre acreditara.
Ele parou de dançar. Ficou olhando o movimento dos corpos
que iam e vinham, alguns no ritmo, outros não. Kennedy não
interrompeu a coreografia. Aquela era a jornada dele, a escolha
dele. A única coisa que ela podia fazer era indicar o caminho. Virou,
agachou, depois deu um giro e fez um movimento de quadril que a
fez sentir-se poderosa e provocante. Mais uma vez. E outra.
Nate apertou os olhos, estudou o ambiente e fez a única coisa
que ela jurara que não seria capaz.
Ele dançou.
Girou, abaixou, rodou e rebolou. O medo de parecer idiota, de
não conseguir copiar os movimentos exatos, o terror das aulas de
educação física, tudo pareceu sumir. Errou a maioria dos passos,
mas não parou. Desistiu e se entregou, e seu corpo tomou conta.
Ken não conseguia desviar os olhos do reflexo dele no espelho.
A camiseta subiu um pouco, e ela teve uma rápida amostra do
abdômen bem definido. A falta de jogo de cintura inata havia se
transformado num movimento de graça quase poética, os pés
deslizando pelo chão, os quadris requebrando com uma força que a
deixava um tanto sem ar. Como uma lagarta que começava a
ganhar asas de borboleta, naquele momento ele resolveu
mergulhar e conseguiu. Uma energia quase sexual irradiava em
ondas, misturada ao ritmo visceral, transformando-o em um
homem claramente poderoso. Durante um segundo, Ken ficou sem
ar e sentiu a pele arder. Durante um segundo, sentiu-se toda
atraída por ele.
A música mudou, ficou mais devagar. A professora desacelerou
o ritmo, com passadas suaves e movimentos simples de braço. O
momento rapidamente desapareceu, e Kennedy ficou com aquela
sensação de ter tido um sonho esquisito. A aula terminou, e os
alunos começaram a beber água, conversar e falar com a
professora. Ela armou um sorriso orgulhoso e foi até seu cliente,
que estava suando em bicas.
“O que achou?”
Ele ajeitou a roupa, deu um gole na água e estudou Ken por
cima dos óculos. “Por favor, me diz que foi só esta vez.”
Ela fez que não com a cabeça. “A gente tem aula de zumba às
segundas, quartas e quintas. Você vai gostar mais da próxima.”
“Acho que prefiro ir de novo ao Benny ou à Ming.” O olhar dele
era penetrante. “Você tortura todos os seus clientes da Kinnections
antes de conseguir o final feliz?”
Ken riu. “Amor e relacionamentos exigem trabalho. Sempre
dizemos que se você aprender a fazer o trabalho logo, vira um
hábito e leva naturalmente a um relacionamento bem-sucedido.”
Ele avaliou as palavras e inclinou a cabeça. “Você segue seus
próprios conselhos?”
A pergunta a pegou despreparada, mas ela tratou de se
recuperar logo. “Sigo. Também já fiz o trabalho duro. Acho que foi
isso que me ajudou a estabelecer relacionamentos melhores.”
Nate assentiu. “Quando foi o último?”
“Último o quê?”
“Relacionamento sério.”
A irritação eriçou seus nervos. Ela forçou um sorriso. “Ah, não
foi há muito tempo. Mas estou pronta e aberta para o próximo que
vier.”
“Você falou que não era de relacionamentos sérios.”
Ela deu um longo gole na água para não ter que responder. Ele
não se importou em esperar, o olhar aguardando pela verdade. “O
que é sério varia muito de pessoa pra pessoa. Pra você, é
casamento. Pra mim, são alguns meses.”
Os alunos conversavam, arrastando colchonetes para a próxima
aula, mas mesmo assim a voz chegou aos ouvidos dela, baixa
como uma carícia: “Talvez você mereça mais”.
Ken abriu a boca para responder, mas uma voz feminina doce
os interrompeu. “Oi. Queria te dar as boas-vindas à zumba. É tão
bom ver um homem aqui. A maioria não encara, não.”
Kennedy observou o rabo de cavalo alto, o umbigo à mostra e o
olhar interessado. Uau. A mulher parecia mesmo atraída por ele,
analisando Nate de cima a baixo. Carne nova era sempre bem-
vinda na academia. Nate não se mexeu. Não reagiu. Kennedy
limpou a garganta e esbarrou no ombro dele. Aquela era a
oportunidade perfeita para ver como ele lidava com uma
aproximação inesperada. Ao menos devia ter aprendido algumas
lições depois do desastre no speed dating e do tempo convivendo
com Ken. “Hum, Nate, vou ali e já volto.”
Afastou-se para dar um pouco de privacidade aos dois.
Começou a mexer no iPhone. Vamos lá, cara, você consegue. Fala.
Diz alguma coisa. Não, melhor, diz alguma coisa que não seja
idiota.
“Prazer. Meu nome é Nate.”
Kennedy respirou aliviada. Perfeito. Talvez devesse treiná-lo
para ser direto logo de saída. Nada de cantadas péssimas, nem
comentários sobre o físico, nem pegadinhas. Só informação direta.
“Heidi. Nunca te vi aqui na academia. Primeira vez?”
“É, eu jogo golfe, mas pensei que podia experimentar algo
diferente. Olha, você tem um belo…”
Kennedy agarrou o celular com força.
“… sorriso.”
Ufa! Ele tinha escutado! Talvez aquilo fosse mais fácil do que
pensara. Será que estava pronto para o teste? Ainda era preciso
melhorar o guarda-roupa dele e, claro, marcar as sessões com
Arilyn e Kate, mas ela sempre deixava isso para o fim. Começava a
achar que um coquetel daria certo com ele. Teria várias opções.
“Obrigada. Vou tomar um shake na lanchonete. Quer ir
comigo?”
“Claro.” Nate deu uma olhada para Kennedy, e ela respondeu
com um discreto sinal para ir em frente. Ele assentiu e começou a
andar. As vozes deles atravessavam a sala. “Você faz o quê, Heidi?”
“Estudo. Faço um curso técnico de manicure.”
“Tem que fazer aula pra aprender a pintar unhas?”
Heidi fez uma pausa e virou a cabeça. “Unha é coisa séria. Por
quê? Você faz o quê? Constrói foguetes?”
Ele ficou tenso. Kennedy estremeceu. Não, não, não…
“Na verdade, sou engenheiro aeroespacial. Não se usa mais
esse termo, construtor de foguetes.”
Ela inclinou a cabeça. “Tá falando sério, cara?”
Nate a encarou daquele jeito. O olhar repleto de escárnio e
julgamento. “Claro. Olha, não acho que isso vá dar certo entre a
gente, não para um relacionamento sério, mas tô totalmente
aberto a um caso mais descompromissado. O que você acha?”
Ah, merda.
Heidi ficou de boca aberta. “Você é um babaca.” Foi embora, o
rabo de cavalo balançando, e desapareceu pela porta de vidro
jateado.
Nate piscou. As linhas do rosto estavam marcadas pela
surpresa. Virou-se para Kennedy com as palmas das mãos para o
alto. “O que eu fiz de errado?”
Certo, nada de coquetel. Não por enquanto, pelo menos. Por
que cargas d’água ele tinha que enveredar pelo assunto da carreira
da mulher? Ter um trabalho, levando em conta as condições da
economia do país, já era um bom motivo de orgulho. Como ele
ousava julgar as escolhas de alguém só porque era bem-sucedido?
Ficou completamente decepcionada. Foi marchando e apontou o
dedo para o peito dele. O cheiro de suor masculino, algodão e um
toque de almíscar não passou despercebido por suas narinas.
“Coisas demais para comentar em poucos minutos.”
“Fui honesto e direto. As mulheres gostam disso, certo? Não
quis rejeitar a moça, só achei melhor deixar claro que sabia que
aquilo não ia dar em casamento.”
“Não quero ouvir isso agora. Vem comigo.”
Ela o guiou na direção da escada dos fundos. “Aonde a gente
vai?”
“Vai sair pela porta lateral. Acho melhor evitar a lanchonete até
a Heidi se acalmar, não acha?”
Nate não respondeu, e eles saíram na noite fresca. Ken foi
caminhando para dissipar a irritação e entrou no café onde eles
tinham conversado pela primeira vez. Sentada no banco vermelho,
pediu uma xícara de café preto.
“E o senhor?”, perguntou a garçonete.
“Vocês servem doses de humildade? Algo me diz que vou
precisar.”
“Desculpe?”
Ele agitou uma das mãos no ar. “Nada, não. Chá com limão, por
favor. E um paninho com álcool.”
A garçonete olhou bem para ele. “É brincadeira, né?”
“Não.” Ela revirou os olhos, mas voltou com o pano, e ele
limpou a mesa com capricho. “A quantidade de germes nos
estabelecimentos de comida é assustadora. Você sabia que muitos
restaurantes usam só um pano molhado para limpar as mesas
entre um cliente e outro? Sem sabão nem desinfetante.”
Kennedy estava quase cuspindo de ódio quando começou a
falar. “Deve ser legal julgar as pessoas que estão tentando
descobrir o que querem fazer na vida.”
Ele piscou. “O quê?”
“Acha que uma manicure não é do seu nível?”
Ele chegou a recuar, tamanho o golpe. “Não é nada disso.
Posso não saber nada do assunto, mas tenho certeza de que é
preciso algum estudo. Ela disse que estava fazendo um curso. É
um trabalho honesto. Não foi esse o meu problema.”
“Então qual foi?”
“Connor diz que as mulheres do ramo da beleza são infiéis. Não
posso me casar com alguém que não vai ser fiel.”
Ken espalmou as mãos na mesa e se inclinou. “Espera. Seu
irmão acha que todas as mulheres que trabalham com estética ou
cabelo sempre vão trair?”
“Acha.”
“Pelo amor de Deus, por quê?”
A garçonete pôs as bebidas em cima da mesa. Nate parou um
instante para examinar a borda da xícara atrás de algum resquício
de batom, até que se sentiu seguro o bastante para dar o primeiro
gole. “Ele teve uma namorada que trabalhava num salão. Ela foi
infiel e partiu o coração dele. Mais tarde, ele descobriu que todas
as mulheres que trabalhavam lá tinham dado força a ela pra chifrá-
lo. Nunca o vi tão arrasado por causa de uma mulher. Depois disso,
ele nunca mais quis saber de relacionamentos sérios. Connor
sempre me avisou para nunca me envolver com ninguém que
trabalhasse nessa área.”
Ela ficou tão frustrada que parecia soltar fumaça pelas orelhas.
Abriu a boca, fechou, sacudiu a cabeça e tentou novamente. “Seu
irmão teve uma péssima experiência com uma mulher específica
— não com todo mundo que trabalha com estética. Como você se
sentiria se eu dissesse que um construtor de foguetes…”
“Engenheiro aeroespacial.”
“… que um engenheiro aeroespacial me traiu e que agora
nunca mais nem falo com ninguém da área? Ou um professor de
física? Como você se sentiria se fosse julgado de primeira, sem ter
a oportunidade de mostrar quem é de verdade?”
Kennedy imaginou o cérebro dele trabalhando para processar a
informação. “Não ia gostar.”
“Exato. Não se deve punir um grupo inteiro pelas atitudes de
uma só pessoa.”
“Concordo. É só que…”, interrompeu a fala e bebeu um pouco
de chá. Ela esperou, sentindo que havia algo maior ali, por trás das
palavras não ditas.
“O quê?”
“Não quero magoar meu irmão. Se chegasse em casa com uma
esteticista, era bem provável que isso trouxesse lembranças ruins.”
“Talvez ele tenha que trabalhar isso. Você não pode deixar que
as questões do seu irmão te afastem de oportunidades que podem
ser boas pra você. Não é justo com nenhum dos dois.”
“Pode ser.”
Nate tomou o chá e ficou pensativo. Enquanto ele mexia o
líquido na caneca, ela observava o rosto dele, os traços harmônicos
e os olhos sérios. Era um bom momento para se afastar um pouco,
em parte para fazer valer a decisão de se manter a certa distância.
Agora Kennedy já tinha descoberto os verdadeiros motivos dele e,
embora isso não justificasse o que fizera, ela o compreendia
melhor. O homem precisava de um choque de socialização, e ela
sabia exatamente como tratar disso. Por enquanto, o melhor era ir
embora. Pagar pelo café, dar boa-noite e ir para casa. Eles se
encontrariam para uma nova rodada à luz do dia, com as barreiras
refeitas.
Ah, droga. Dava para ver a dor nos olhos dele. O coração dela
não se aguentava. “Quantos anos você tinha quando sua mãe foi
embora?”, perguntou.
A maioria das pessoas não responderia. Nate simplesmente
disse a verdade. “Dez. Sabia que ela estava infeliz, porque chorava
muito e brigava com meu pai. Ele era empreiteiro, como o meu
irmão, então a gente não tinha muito dinheiro. Minha mãe gostava
de coisas boas. Roupas, joias, festas. Tentava arrastar meu pai pra
sair, mas ele só queria ficar em casa vendo TV.” Encolheu os
ombros como se não importasse. Kennedy soube que não era bem
assim. “Acordei um dia e ela estava com as malas prontas.
Preparou o café da manhã pra mim e disse que ia viajar por um
tempo. Me deu um beijo na testa. Eu estava mal-humorado, então
resmunguei qualquer coisa e fui pra escola. Nunca mais a vi.”
Ela sentiu um aperto no estômago. Não entendia como havia
tanta crueldade no mundo, nem por que tantas coisas ruins
aconteciam com pessoas tão boas. “Você não se culpa por isso,
né?”
“Não, ela já estava pronta pra ir embora há muito tempo. Só
me arrependo de não ter dito nada sensível ou importante quando
pude. A última lembrança que tenho dela é dos ovos com bacon na
frigideira, a mala preta no chão e minha irritação em ter que
encarar mais um dia péssimo de escola, enquanto ela ia se divertir.”
“Seu pai não lidou nada bem com isso, imagino…”
“Ele entrou em crise. Ficou mais introspectivo, mais amargo e
se esqueceu completamente dos filhos. A gente quase nunca o
via.”
“É”, disse ela, gentil. “Isso é bem péssimo.”
Nate armou um leve sorriso. “Que bom que a Arilyn é que é a
terapeuta.”
“Bom mesmo. Você já pensou em tentar encontrar sua mãe?”
“Não tenho vontade. Connor e eu não precisamos de mais
ninguém. É por isso que ele sempre me aconselha a não me
apaixonar por uma mulher bonita. Vapt-vupt, entra e sai, ele diz.
Ele tem medo que eu me amarre e termine com alguém como a
nossa mãe.”
As pontas soltas de repente começaram a se juntar, revelando
um padrão que fazia sentido. Kennedy ignorou o aperto na
garganta e a vontade súbita de se abrir. A solidão dele emanava
em ondas, mas a força que vinha lá de dentro a tocou
profundamente. Quase como se sua alma gêmea estivesse sentada
ali na frente, esperando que ela pegasse na sua mão e dissesse
que ia ficar tudo bem.
De repente, sentiu medo, como um soco no estômago que a
deixou sem fôlego. No que estava pensando? O que estava
fazendo? Ele tinha razão. Aquilo era com Arilyn, e ela não tinha o
direito de forçá-lo a se abrir, se não tinha a menor intenção de
ajudar ou aplacar sua dor. Começou a entrar em pânico. O ar na
lanchonete ficou abafado, denso.
Ela precisava ir embora.
“Nate, sinto muito, mas esqueci completamente que tinha que
encontrar a Kate. Agora vi que tô atrasada.”
“Tudo bem, vai lá.” Nate ficou sentado onde estava, os olhos
baixos e as mãos agarradas à xícara fumegante.
Ela ficou de pé, pegou a bolsa e hesitou. “Você merece alguém
que seja bonita por dentro e por fora. Prometo que vou encontrá-la
pra você.”
Kennedy saiu apressada pela porta. Dentro de sua cabeça,
rugindo em seus ouvidos, uma palavra se repetia como um mantra.
Covarde.
Nate fez uma pausa e apreciou o momento. Era o primeiro
grande sinal de que a primavera tinha enfim chegado, e o ar tinha
cheiro de promessas. A brisa trazia o pio alegre dos passarinhos e
as árvores começavam a dar brotos, depois de passar todo o mês
de março completamente nuas. O campo oeste do Westchester
Country Club era um de seus favoritos. Projetado por Walter Travis,
o campo de par 71 oferecia diversos percursos que variavam em
dificuldade. Os pontos cegos entre as árvores eram um desafio
para qualquer golfista, e quatro dos buracos eram da categoria
mais difícil do ranking da federação.
As colinas arredondadas se estendiam diante dele com
perfeição. Alguns poucos carrinhos de golfe estavam estacionados,
mas, como era uma manhã de dia de semana, quase todas as
pessoas estavam trabalhando, sentadas atrás de suas mesas,
olhando pela janela e desejando estar livre em outro lugar.
Quando aceitou o emprego na Sector Space X, insistiu em ter
as manhãs de quarta-feira livres exatamente para isso. Não era do
tipo que batia ponto e, dependendo do projeto ou de como
estivesse sua cabeça, poderia ficar horas a fio sem ir ao banheiro
ou sequer levantar da cadeira. No final, tudo se equilibrava, e a
empresa concordou sem problemas. As manhãs de quarta eram
dele.
E do golfe.
Nate não se lembrava de quando descobrira seu profundo amor
e respeito pelo esporte. Connor sempre tinha preferido
modalidades que exigiam mais do físico, e ele não conhecia
ninguém que pudesse apresentá-lo ao golfe. Tinha assistido a
alguns torneios na televisão e, quando estava na faculdade, foi
com outros caras a um par 3 para dar umas tacadas e aprender o
básico da mecânica. Não precisou muito para ficar viciado, dedicar
seu tempo livre a ler sobre a arte do swing perfeito e descobrir
como poderia usar seus conhecimentos de física para aprender o
movimento ideal. Passou horas às voltas com simuladores no
computador, calculando fórmulas para descobrir qual swing casaria
melhor com seu tipo físico. Tornou-se quase uma obsessão tentar
compreender a dinâmica única de cada pessoa para atingir o ponto
ideal e dominar o jogo num nível quase profissional.
Tratava-se de um esporte de ciência, sorte e habilidade. Tudo
nele era elegante, da beleza e da graça da bola riscando o ar ao
cenário exuberante ao redor. Era um esporte que valorizava a
disciplina, o treino e a precisão. Cada vez que jogava, descobria um
novo elemento que deveria aprender, dominar ou admirar.
Mal podia esperar para levar Kennedy ali.
A imagem dela dançava na sua frente. Ela entendia de ciência.
Não parecia entediada e realmente compreendia a filosofia básica.
Havia certa profundidade por trás daquele rosto lindo, e ele
desejou ter permissão para ir mais fundo.
Fora preciso ter força de vontade digna de um santo para não
beijá-la na outra noite. O rosto dela refletia uma mulher bela, feliz
e aberta, que o retorcia por dentro e desafiava seu cérebro. Por um
doce segundo, parecera interessada de verdade na conversa e,
melhor ainda, nele. Ela abrira um pouco a boca, a respiração saíra
mais apressada e o corpo ficara mais relaxado. Deu para sentir o
cheiro da sua excitação, aquele perfume almiscarado delicioso,
exótico, que deixou o sangue dele fervendo de vontade de arrastá-
la para o quarto e explorar cada centímetro quente e molhado do
seu corpo nu. Nate tinha medo de que pudesse morrer se não
tivesse mais uma chance de deslizar a língua por entre os lábios de
Ken. Mesmo assim, conteve-se, ciente de que ela não estava
interessada em mais do que um beijo roubado, e de que ele
precisava se concentrar no jogo.
Na noite anterior, contara a ela coisas que nunca tinha
confessado a ninguém. Era engraçado, cada vez que se viam
pareciam ficar mais próximos, como se estivessem aos poucos
sendo envolvidos por uma delicada teia de aranha. Mas ele
duvidava de que teria outra oportunidade. Kennedy tinha saído
correndo, tal qual uma celebridade flagrada pelos paparazzi, sem
olhar para trás. Tinha que se concentrar, porque acreditava que o
irmão estava certo em pelo menos uma coisa.
Mulheres bonitas como Kennedy Ashe nunca ficariam satisfeitas
com ele. Não no longo prazo.
Nate segurou um suspiro tristonho e voltou sua atenção para o
jogo. Sentia falta de seu grupo regular, mas eles tinham transferido
as partidas para as terças à tarde, e ele não pôde continuar. Ainda
assim, apreciava o silêncio meditativo, o sol e as pancadas na bola.
Pôs-se em posição no tee, deu algumas tacadas no ar para testar o
swing, calculou o ângulo da colina, a inclinação do chão e analisou
a distância. Usou um taco iron 8 para a tacada de approach, e a
batida do metal foi límpida e clara. A bola voou numa trajetória
perfeita e aterrissou a alguns centímetros do buraco. Bastou um
putt perfeito para botar a danada no lugar.
Nate tinha dispensado a ajuda de um caddy por hoje, então ele
mesmo juntou os tacos e foi caminhando para o segundo tee.
Perdido em seus pensamentos, de repente se deu conta de que
uma bola de golfe vinha pelo ar, na direção de sua cabeça. A voz o
alcançou com alguns segundos de atraso.
“Porra! Foda! Quer dizer, fore! Ah, esquece, cara, sai da frente!”
Nate se abaixou bem a tempo. Um garoto mais novo veio
correndo e parou ao lado dele. Com uma expressão de revolta e
confusão no rosto, observou a bola rolar para um dos obstáculos e
parar no banco de areia, bem longe do objetivo.
Nate balançou a cabeça. “Que azar. Sinto muito.”
O homem olhou para a colina, na direção da bola soterrada.
“Espero que não tenha atrapalhado seu jogo. Olha, até que foi uma
tacada decente, né? Chegou perto do buraco.”
Nate riu, mas se deu conta de que o cara não estava brincando.
“Não, não. Foi uma tacada horrível. Você saiu totalmente do green
e entrou num outro fairway. Você tá no primeiro buraco, né? Então
seu objetivo era lá.” Apontou na direção oposta.
Os ombros do outro afundaram. “É, acho que isso nunca vai dar
certo. Obrigado, cara.” Começou a se afastar, mas algo em sua
frustração chamou a atenção de Nate. Uma tatuagem interessante
serpenteava pelo pescoço, chegando até a orelha. O cara era do
tipo que, ele imaginava, poderia atrair Kennedy: estiloso e ousado,
de um jeito que não se poderia ensinar. Apenas ser.
Nate afastou os pensamentos depressivos. “Ei. Você precisa de
ajuda? Pode me acompanhar por alguns buracos, e vou dando
umas dicas.”
O cara parou e virou. “Não, uma coisa que aprendi é que as
pessoas aqui levam o golfe a sério. Não quero que você estrague
seu dia me ensinando o nível básico. Queria mesmo fazer umas
aulas, mas minha agenda é insana. Achei que pudesse tentar um
método de imersão, mas não tá funcionando.”
Nate sorriu. Gostava da confiança, da disposição de se passar
por idiota em busca do conhecimento. A maioria dos homens tinha
o ego grande demais para entrar num campo de golfe sem ter
aprendido a jogar. Em especial o campo oeste, que obviamente
estava além das habilidades do cara. “Não, tá devagar hoje, estou
à toa. Não me importo.”
Ele o encarou com os olhos azuis esbugalhados. Nate sentiu
que estava sendo estudado com cuidado, de um jeito inédito.
“Tudo bem, se você tem certeza…”
“Vai buscar seus tacos, que eu te espero aqui.”
“Que tacos? Só trouxe este.”
Nate deu uma gargalhada, daquelas que saem do fundo da
barriga. Esperou que o cara não achasse que estava rindo dele,
mas logo, dado o ridículo da situação, ele acabou rindo junto. “É,
eu sei. Que merda.”
“A gente usa os meus. Meu nome é Nate.”
“Wolfe.” O aperto de mão era firme. “Obrigado.”
“Sem problema. Não se pode perder a chance de formar um
novo golfista. Alguma razão em particular pra você começar a
jogar?” Nate recomeçou a caminhar na direção do buraco seguinte,
os tacos confortavelmente pendurados no ombro, o rosto um
pouco inclinado para aproveitar o sol.
Wolfe foi atrás. “Trabalho num hotel e tô tentando fechar um
negócio importante. O cara tem vários clientes que vêm a Nova
York pra passar temporadas longas, de algumas semanas, e tô
tentando tirá-lo do Waldorf. O único problema é que ele é
obcecado por golfe. Joga sempre aqui no clube e só faz negócios
no campo. Não tô conseguindo marcar uma reunião nem agendar
uma conference call. Então achei que essa era a única maneira, vir
até ele. Aprender a jogar, dar um jeito de ser convidado para o
grupo dele e me virar.”
Nate sacudiu a cabeça. “Não quero jogar água fria, mas as
coisas não funcionam assim. Ninguém chega no campo, joga umas
rodadas e fecha um negócio. Isso é coisa de filme.”
“Sério?”
Nate riu de novo. Caramba, o cara era engraçado. “Se você
jogar mal ou não souber as regras, vai insultá-lo. Meu conselho é
ter umas aulas, aprender um pouco do jogo e só então se
aproximar.”
“Bom, só tem um problema.”
“Qual?”
“Tenho que fechar esse negócio daqui a poucas semanas.”
Nate pôs os tacos no chão e coçou o rosto. Deixar crescer
aquela barba malfeita era irritante. “Acho que você tá ferrado. A
não ser que tenha aula todo dia. Aí pode ser.”
Wolfe gemeu. “Trabalho dia e noite. Posso ter algumas aulas,
com certeza, mas preciso de um método rápido. Não tem nenhum
livro tipo Golfe para leigos ou Aprender a jogar em quinze dias?”
“Não.”
“Você é um cara direto, hein?”
“Sou.”
Wolfe abriu um sorriso. “Melhor. Já tive minha parcela de
enrolação nesta vida.”
“Acredito. Qual é o hotel?”
“Purity.”
“Ah, verdade, vocês tão inaugurando em Manhattan. Lugar
bacana. Não me admira que você precise jogar. A maioria dos
executivos de hotelaria joga golfe.”
“Sempre fui mais dos video games. O que você faz?”
“Trabalho numa pequena empresa que está tentando levar as
pessoas ao espaço. Estudo mecânica de propulsão, estou atrás de
um jeito mais barato de levar a gente pra Marte.”
“Engenheiro aeroespacial, é? Que bacana.”
De repente, Nate percebeu que aquele seria um bom dia. “É.
Escuta, pode ser que eu consiga te ajudar. Deixa eu estudar sua
postura natural e tirar umas medidas. Tô trabalhando num
programa amador que usa a física pra calcular uma sequência e
melhorar as habilidades mais rápido. Vou precisar fazer uns vídeos,
tudo bem?”
Wolfe o estudou mais uma vez, e Nate aguardou. Havia algo de
sombrio no homem, mas seus instintos diziam para ajudá-lo.
Precisava mesmo expandir seus horizontes para além da turma do
trabalho e do irmão. Mergulhar num projeto especial poderia ser o
que precisava para tirar da cabeça uma certa consultora de
relacionamentos muito sexy.
“Tem certeza que não vou tomar muito do seu tempo?”
“Tenho.”
“Então vamos lá. Agradeço muito.”
“De nada.”
Sorriram um para o outro e começaram os trabalhos.
7

Kennedy se sentou no banco, pegou a margarita sem açúcar da


mesa e a virou. A tequila a ajudaria a esquecer as preocupações do
dia, entre elas a contagem de calorias. Desde o episódio do
sorvete, vinha caprichando no iogurte grego e no peito de peru, e
não tinha comido nenhum carboidrato nas últimas quarenta e oito
horas.
Talvez por isso estivesse tão mal-humorada.
“Outra vez de dieta, querida?” Do outro lado da mesa, Kate
lançou um olhar compreensivo para a amiga. As mais próximas de
Kennedy sabiam que a luta com a comida nunca terminava,
embora hoje já fosse capaz de manter um equilíbrio saudável na
maior parte do tempo. Tinha sempre muito cuidado com a
alimentação, mas conseguia se controlar para não pirar por causa
das calorias diárias ou porque tinha faltado à academia. Encarava a
anorexia da mesma forma que tratam o alcoolismo. Considerava-se
sempre em recuperação, nunca completamente curada. Uma
imagem distorcida no espelho podia ser o bastante para levá-la de
volta ao jejum, mas, por enquanto, não tinha nenhuma crise havia
cinco anos. Era estranho, sentia-se tão mais relaxada quando
estava perto de Nate. Depois das batatas e do sorvete, não foi para
casa atrás de punição. Pelo contrário, tinha ficado mais feliz e
satisfeita.
Mas a velha ansiedade tinha voltado a dar as caras, e
prometera a si mesma que seria mais rígida do que nunca com o
que iria ingerir.
Devolveu o olhar de Kate. “Sempre na batalha contra meus
inimigos, os carboidratos.”
“Faça o que fizer, mas, por favor, não corte o chocolate. Da
última vez que você fez isso, a Arilyn quase pediu demissão.”
Arilyn riu. O som tilintante ecoou como sinos de igreja. “Não
tenho medo da Kennedy.”
“Se você continuar a usar essas roupas pra sair na sexta-feira,
é melhor ficar com medo, sim. Como é que você vai arrumar um
homem interessante vestida com calça de ioga?”
Arilyn pareceu um pouco orgulhosa e muito satisfeita. “Não
preciso arrumar ninguém. Nós voltamos.”
Kate mordeu o lábio. A preocupação era nítida em seu rosto.
“Que ótimo. Mas me diz… Ele concordou em ficar só com você?”
Arilyn encolheu os ombros e deu um gole no martíni. “A gente
não discutiu isso, não exatamente, mas tá implícito.”
Kennedy pôs a mão no queixo. “Minha querida, usar a palavra
implícito quando se fala de sexo não faz sentido nenhum. Sexo tem
que ser explícito, tudo às claras.”
Arilyn franziu o rosto delicado, o que era raro. Havia muito
tempo que Kennedy queria fazer umas mudanças no visual dela,
mas nunca tinha conseguido. O passado de professora de ioga e
meditação a mantinha firme no estilo algodão orgânico,
maquiagem e produtos ecológicos e uma tendência a atenuar
todos os seus atributos naturais femininos. “Acho que você é que
está sendo explícita demais…”
Kate riu. “Olha, a gente só tá preocupada. Da última vez que o
flagrou com uma aluna, você caiu em depressão. A gente quer te
ver feliz.”
“Eu tô feliz. É complicado. Ele decidiu mergulhar
profundamente na meditação e descobriu que não consegue viver
sem mim. Não vai mais aprontar.”
Kennedy controlou a vontade de ir até o estúdio de ioga
daquele idiota e aplicar uns bons golpes de kick boxing bem na
cara dele. Em vez disso, apagou a raiva com álcool. “Como é
possível que você nunca tenha apresentado ele pra gente?”
Arilyn se ajeitou no banco. “Não gostamos de expor nosso
relacionamento em público. Pelo menos não por enquanto.”
Kate e Kennedy se entreolharam e fizeram aquele tipo de
transmissão de pensamento que as amigas fazem. Sem dizer uma
palavra, as duas concordaram que ele magoaria Arilyn de novo, e
que então cuidariam de machucá-lo também. Combinaram que
tinham que apoiar a amiga e jogar o jogo do faz de conta com
entusiasmo. “A gente entende. Parece um bom plano, pode contar
com a gente para o que der e vier”, disse Kate.
“Comigo também.”
Arilyn se acalmou. “Obrigada. Agora conta pra gente do seu
pupilo. Deu certo com a Ming, o Benny arrasou no corte também.
Você não disse que ia levá-lo pra academia?”
Ela tirou o guarda-chuvinha do copo e o girou. “Falei e fiz.
Zumbei com ele.”
Kate arregalou os olhos. “Não. Você não fez isso.”
“Fiz, sim.”
Arilyn caiu na gargalhada. “Ai, meu Deus, isso deve ter sido
melhor que a sessão de hot ioga do Slade. Você é maravilhosa.”
Kennedy fez uma reverência. “Obrigada. Nate tinha que vencer
alguns obstáculos em relação ao corpo. Ele vive praticamente
dentro da própria cabeça, só maquinando as coisas.”
“Hum, sei. Tem certeza que ele não é uma versão masculina
sua?”, provocou Arilyn.
“Engraçadinha. Não tem nada de errado em ser perfeccionista.
Vou manter as aulas por mais algumas semanas.”
“Então, você já tratou da pele, do cabelo, do exercício. O
próximo é o guarda-roupa, certo?”, perguntou Kate.
“Vou precisar adiantar a sessão de dramatização. Ele tem
tendência a ir pra cima e acaba afastando as pessoas. Vocês me
ajudam? Talvez a gente possa marcar de se encontrar num bar e
fazer algumas encenações de um primeiro encontro.”
Kate se animou. “Adoro fazer isso! Posso ser a chata
insuportável desta vez?”
Kennedy revirou os olhos. “Como você preferir.”
“Tá satisfeita com o progresso dele por enquanto?”
Ela desviou o olhar para não encarar Arilyn. “Claro. Tem muito
material ali debaixo, que ninguém chega a ver. Acho que vai estar
pronto pra um primeiro coquetel em uma ou duas semanas.”
“Você gosta dele.”
As palavras de Kate soaram como uma acusação. Kennedy
tentou manter o tom de voz relaxado. “Ele é um cara legal. Por que
não gostaria?”
“Não, não, não foi isso que eu disse. Quando você fala dele, faz
uma cara diferente. Você tá a fim do cientista nerd?”
“Não!” Ela deu mais um gole e terminou o drinque, rezando
para não ter ficado vermelha. Meu Deus, ela nunca ficava
vermelha, nem mesmo quando fazia sexo por telefone. “Nem vem
pra cima de mim com essa bruxaria. Você tem é que arrumar um
casal novo pra cuidar e me deixar em paz.”
Arilyn abriu a boca. “Você gosta mesmo dele! Suas bochechas
estão coradas!”
Kennedy levantou a cabeça e riu, debochada. “Até parece. É o
álcool, tá quente aqui. Que horas a Genevieve e a Jane vão
chegar?”
“E ainda muda de assunto!” Kate bateu palminhas de emoção.
“Do que você tem tanto medo? Adoro nerds. Pode ser bom pra
você.”
Kennedy se esquivou. “Posso saber como é que ele poderia ser
bom pra mim?”
Mais uma vez, as amigas trocaram olhares de transmissão de
pensamento. “Faz muito tempo que você não gosta de alguém de
verdade, Ken”, explicou Kate, carinhosamente. “Você arruma um
cara na sexta, outro no sábado, mas continua insatisfeita.”
“O sexo é ótimo.”
“A gente não tá falando de sexo”, corrigiu Arilyn. “É uma
questão de conexão. E o Mark? Ele parecia cumprir todos os seus
requisitos.”
“Ele tinha o péssimo hábito de cheirar as cuecas e as meias
antes de vestir.”
“Isso é coisa de homem. E o Sam?”
Kennedy pressentiu que a conversa se encaminhava para um
interrogatório e levantou a cabeça. “O Sam tinha os pés mais
horrorosos do mundo. Quando a gente ia pra cama, se aquele
dedão bizarro encostava em mim, eu tinha vontade de dar um
chilique.”
Kate enterrou o rosto nas mãos. “Você só pode estar brincando.
E o Tim?”
“Era totalmente obcecado com o sobrenatural. Assistia a todas
as séries de fantasmas, e o objetivo profissional dele era ser
investigador paranormal.”
Arilyn assentiu. “Bom, esse eu concordo que era esquisito. Mas
o que a gente tá tentando mostrar é que você sempre dá um jeito
de ver um defeito. Lá pelo quarto encontro, você já tem uma lista
de motivos pra deixar de sair com o cara.”
Kennedy mostrou a língua para a amiga. Malditos genes
conselheiros. Sabia que elas estavam certas, mas não tinha a
menor ideia do que fazer a respeito. Sempre faltava alguma coisa.
Se um homem tentasse se aproximar demais, ela erguia uma
parede que nem uma explosão nuclear seria capaz de derrubar. Era
mais fácil se concentrar no lado físico: as sensações, o orgasmo,
algumas boas risadas. Qualquer coisa mais profunda não parecia
funcionar.
“O que isso tem a ver com o cientista?”, perguntou.
Kate a encarou. “Não tenho certeza. Mas, se alguma coisa nele
chama a sua atenção, vai em frente. Você não tem nada a perder.”
A imagem daquele primeiro beijo, quente e doce, passou pela
cabeça dela. Meu Deus, será que deveria contar? Não, aquilo
nunca mais se repetiria, e as amigas iam ficar obcecadas e levá-la
à loucura. Não contar não significava mentir. Era só uma forma de
se proteger de uma sessão de tortura digna de prisioneiros de
guerra. Kennedy enxugou o que restava do drinque e sacudiu a
cabeça. “Ele é um cliente, gente. Não me envolvo com clientes.
Nós decidimos que esta seria nossa regra número um, dois e três,
se quiséssemos ter sucesso com a Kinnections.”
Kate abriu um sorriso luminoso. O cabelo loiro claro brilhava
como uma auréola ao redor de sua cabeça. “Quebrei essas regras
e, olha, ainda bem.”
“O Slade é diferente. Você sentiu o toque quando encostou nele
e, por isso, já sabia que era o seu par. O Nate precisa de uma
profissional que o oriente e ajude a encontrar a parceira. Se eu
ceder a este impulso, ele pode acabar ficando magoado e desistir
da Kinnections.”
“Ah, você se sente atraída por ele.”
Kennedy ignorou o comentário presunçoso de Arilyn e
simplesmente abanou a mão no ar. “Olha, admito que ele me
intriga. Mas é porque é um desafio. As emoções se confundem em
muitos desses casos, tipo terapeuta e paciente. Ou um professor
de ioga e a aluna.”
Arilyn a fulminou com os olhos.
Kate se manifestou. “Bom, moral da história, a gente tá aqui
para o que você precisar. E vamos ficar do seu lado se você mudar
de ideia.”
A irritação de Kennedy imediatamente se dissipou e foi
substituída pelo doce sabor da amizade verdadeira. “Amo vocês.
Obrigada. E prometo que amanhã vou comer um pouco de pão.”
“Graças a Deus.”
Elas pediram mais uma rodada e jogaram uma partida de
dardos. Quando voltaram para a mesa, Genevieve e Jane tinham
acabado de entrar e vinham serpenteando pela multidão para
chegar até elas. Genevieve era uma das melhores amigas de Kate,
mas todas foram se aproximando, com o passar dos anos, e hoje
eram um grupo unido. Noiva de um médico bonitão que também
era seu chefe no Westchester Medical Center, ela era residente de
cirurgia. Kate se preocupava com a perda de peso e a constante
exaustão da amiga, que trabalhava sem parar e ainda estava
planejando um casamento. Mignon e normalmente cheia de
energia, ela parecia um pouco apagada hoje. O cabelo castanho
estava preso para trás num rabo de cavalo, e ela vestia uma
camisa preta simples, calça social e sapatilhas. Kate teve uma
premonição estranha quando reparou nos olhos azuis desanimados
de Genevieve, em seu sorriso cansado e na cintura minúscula. Algo
estava errado ali. Ela dava os mesmos sinais que Kennedy conhecia
tão bem. Combater os demônios interiores roubava toda a luz e a
força de vontade de uma pessoa. Fez uma anotação mental para
tentar conversar com ela em particular.
Jane era irmã de Slade e tinha conhecido o noivo pela
Kinnections. Kennedy se orgulhava do casal formado por elas e da
felicidade serena no rosto da jovem. Sempre soube que Jane era
uma bela mulher que só precisava melhorar a confiança para
desabrochar. A transformação acontecera por dentro e por fora.
Com o aconselhamento de Arilyn, a paciência de Kate e as suas
próprias habilidades para mudar o visual dos clientes, Jane tinha
sido capaz de encontrar o amor.
Kennedy costumava se lembrar de outros finais felizes quando
estava deitada à noite na cama, sem conseguir dormir. Seu
trabalho ajudava os outros. Os anos de tortura e infelicidade
tinham valido a pena. Quem sabe um dia ela mesma não
encontraria sua própria porção de felicidade no amor.
A imagem da boca de Nate aproximando-se da dela passou
rapidamente pela cabeça.
Ela afastou o pensamento.
“Como vão os planos, moças? Já estamos com tudo em cima
pras superfestas de noivado?”, perguntou Ken.
Gen suspirou. “Devia ter contratado uma cerimonialista, mas o
David diz que é melhor controlar todos os detalhes, pra garantir
que fique tudo perfeito. A grande novidade é que decidi que vou
mudar de casa.”
Ken reparou na maneira como ela olhou para as amigas,
nervosa, esperando alguma reação. Kate soltou um gemido triste.
“Nããããão! Vou morrer de saudade da minha vizinha… Quem vai te
alimentar e garantir tuas doses de cafeína?”
Gen sorriu. “Também vou morrer de saudade, mas o David
acha que é a melhor coisa a fazer. Bobagem continuar vivendo com
a mala nas costas, quando a casa dele é tão maior e mais perto do
hospital. Acho que vou alugar. Não quero me desfazer dela.”
Ken se lembrou de Nate e Connor. A ideia tinha vindo devagar,
mas crescera até ficar do tamanho do pé de feijão do João da
história. Nate precisava mesmo de um lugar só dele para poder
cultivar um relacionamento íntimo e sério. De algum jeito, tinha
que convencer um dos dois, Nate ou Connor, a se mudar. Quem
sabe não pudesse oferecer a casa de Gen? Com algumas poucas
mudanças e móveis mais masculinos, poderia dar certo.
“Olha, Gen, sei de alguém que talvez queira alugar por um
tempo.”
“Ótimo. Vou fazer uma cópia da chave, daí você me fala quando
a pessoa pode ir visitar.”
“Combinado.”
Algumas horas se passaram. Ken foi relaxando sob o efeito do
álcool, da conversa boa e de algumas gargalhadas daquelas de
doer a barriga. Honestamente, as amigas eram o melhor remédio
para qualquer um dos desafios da vida. Quem precisava de
homens, afinal de contas? Eram bons na hora do orgasmo, mas
depois as coisas azedavam rápido.
O barulho no bar aumentou quando chegou uma turma de
universitários gritando e bebendo cerveja em quantidades
cavalares. “Tô ficando velha. Tá barulhento demais aqui. Vamos
embora?”
Gen deu um soluço. “Não, ainda é cedo. Que tal a gente ir até a
minha casa? Ken, você pode tirar umas fotos com o celular pra
mostrar para o seu amigo.”
“Pra mim tá ótimo. Vamos lá, meninas. Pé na estrada.”
Elas saíram do Mugs e começaram a caminhar. Mesmo depois
das onze, a noite ainda estava animada. Luzes piscavam nas lojas e
a música vazava pelas portas abertas dos cafés, indo do rock
pesado ao clássico relaxante, de acordo com o público. A lua cheia
brilhava no céu, gorda e alaranjada, como se tivesse saído
diretamente de uma ilustração de livro infantil. Casais de mãos
dadas comiam doces enquanto passeavam pela cidade, e grupos
relaxavam nos terraços, fumando e tomando vinho.
Ken trançou o braço com o de Kate, para evitar que uma das
duas tropeçasse com os saltos altos. Jane, Arilyn e Gen iam rindo e
cantando uma música pop qualquer fora do tom. Chegaram afinal à
casa de Gen e entraram sala adentro. O espaço era pequeno, mas
as linhas simples e clean davam a impressão de ser maior. As
paredes acetinadas tinham toques ousados de azul-marinho e
amarelo-ouro. Um tapete de cordas trançadas cobria o piso de
madeira e guiava o caminho da sala de estar à cozinha, onde havia
uma mesa de pinho, uma ilha de trabalho e uma bancada. Ken
bateu umas fotos, enquanto Gen abriu uma garrafa de vinho. A
casa tinha bastante personalidade, sem ser feminina demais, dos
degraus desalinhados que levavam ao sótão aberto, até a banheira
antiga no banheiro e as grandes janelas sextavadas cobertas com
venezianas. Agora ela só precisava convencer Nate de que era hora
de romper a parceria com o irmão.
Gen passou os copos. “Olha, Kate, tô com aqueles livros pra te
devolver. Vivo esquecendo de entregar.” Foi até a estante no canto
da sala e pegou uma pilha. “Aquele sobre a gagueira é incrível,
ajudou muito uma das minhas pacientes.”
“Ah, que bom, mas pode ficar. Tenho tantos livros que já nem
cabem mais nas minhas estantes”, respondeu Kate.
“O David não quer que eu leve muita coisa. Diz que só tenho
porcaria.”
“Tudo bem, sem problema.” Kate pegou a pilha, mas logo
deixou os livros caírem no chão. “Ai, droga, levei outro choque
desse negócio.”
“Que negócio?” Ken se aproximou e pegou um livro roxo de
capa de pano. Pequeno e quadrado, tinha bordado na frente o
título O livro dos feitiços.
Kate se iluminou e esfregou as mãos. “Juro que esse livro é
encantado. Achei que você fosse emprestar pra Izzy.”
O rosto de Gen ficou tristonho. “Não. Pensei em fazer uma
graça com ela, talvez preparar um feitiço juntas só de brincadeira,
mas a gente brigou mais uma vez, e agora ela nem tá falando
comigo. Espero que vá à festa de noivado.”
“Sinto muito, querida. Sua irmã tá passando por um período
muito difícil, mas ela tem que encontrar a saída por conta própria.
Tenho certeza que não vai perder a festa. Vai passar”, disse Kate.
Kennedy abriu o livro. O cheiro era de mofo. Folheou as
páginas. “Meu Deus, é mesmo um feitiço de amor. Um cântico para
a mãe Terra. Incrível.”
Arilyn bufou. “Feitiços são só maneiras fantasiosas de tentar
controlar nosso futuro, que usamos quando nos sentimos perdidos
e desorientados.”
“Eu te desafio a tentar fazer um”, provocou Ken.
Arilyn olhou para ela como se a amiga tivesse ficado louca. “O
quê? Não preciso de um feitiço de amor, estou perfeitamente
satisfeita com meu relacionamento atual. Gen, Jane e Kate estão
noivas. Você, minha querida, é a única aqui que precisa encontrar o
príncipe encantado.”
Jane riu. “Lembra quando a gente era mais nova e fazia aquele
lance da brincadeira do copo? A gente sempre fazia umas
mandingas pra tentar chamar celebridades mortas.” Fingiu um
arrepio. “Essas coisas me dão medo. Fico apavorada.”
Gen deu de ombros. “Se não estivesse noiva, tentaria. Vai lá,
Ken. Eu te desafio.”
Ken empurrou o livro para o outro lado da mesa. “Acho que o
amor verdadeiro danificou os neurônios de vocês.”
“Ah, vamos lá. A gente nunca mais faz nada louco.”
Kate riu. “Lembra de quando a gente fumou aquele baseado da
minha mãe, assistindo a Como eliminar seu chefe?”
Arilyn soluçou. “Aquilo foi maravilhoso. Metade da noite é só
uma lembrança fora de foco.”
“Ei, vocês nem me convidaram”, reclamou Gen, indignada.
“Você estava no trabalho”, explicou Kate. “Além do mais, é
ilegal. A gente pode se arriscar, mas você não. Não somos
médicas.”
“Bom, tudo bem, vamos compensar o erro. Vamos fazer alguma
coisa hoje.”
Kate riu. “Tipo o quê? Tô fora das drogas, tô dando um tempo
na vida de fora da lei. Já estamos bebendo. Também não é como
se fôssemos sair peladas pelas ruas de Verily”.
“Olha que essa não é uma má ideia”, resmungou Ken.
“Nem pensar.”
“Vamos fazer um feitiço juntas!”, gritou Gen.
Kate cobriu a boca com as mãos. Fechou os olhos. Depois
confessou. “Eu fiz.”
Ken arregalou os olhos. “Fez o quê?”
“O feitiço. Fiz o feitiço de amor.”
“Antes do Slade?”
Kate assentiu. “Foi. Não acho que acabar ficando com o Slade
tenha qualquer coisa a ver, mas foi um pouco estranho. Então não
vou fazer de novo.”
Jane riu. “Nem eu. Sou louca pelo Tim, não quero estragar
tudo.”
Gen agitou as mãos no ar. “Também tô feliz, mas eu faço.
Arilyn? Ken? Vocês topam?”
“Você quer fazer isso aqui?”, Ken perguntou. “Agora?”
“Claro. Lê aí e diz o que é preciso.”
Arilyn mordiscou o lábio inferior. “Não sei… Realmente não
acredito em coisas ocultas, feitiços ou entidades.”
“Vai, A., por favor. Por mim?”
Arilyn reparou na animação de Gen para fazer uma bobagem
“de garotas” e acabou concordando. “Tá bom, eu topo.”
“Oba! O que a gente tem que fazer?”
Kennedy folheou as páginas. “Precisamos de dois pedaços de
papel para fazer uma lista de tudo o que desejamos na nossa alma
gêmea. Daí queimamos uma e, quando formos pra casa,
escondemos a outra debaixo do colchão.” Ela fez uma pausa para
ler o resto do livro. “Depois cantamos qualquer coisa para a mãe
Terra.” Recitou as palavras.
“Não soa mal”, comentou Arilyn. “Parece mais uma benção,
dando graças à Terra. Isso eu posso fazer.”
Gen levantou-se correndo e desapareceu no corredor. Voltou
com papel, canetas e uma vela. “Kate, você pode pegar uma
panela na cozinha?”
Jane riu. “Vocês são loucas.”
Gen distribuiu as folhas e as canetas. “Agora todo mundo lista
as qualidades.”
Kennedy acrescentou: “Diz pra não pensar muito. Pra confiar no
instinto e escrever o que vier do coração”.
Baixou a cabeça e escreveu a primeira. O que queria na alma
gêmea? Do que precisava? Com a ajuda das margaritas, que
suspendiam as barreiras, e o conforto de ter as amigas ao redor,
tentou não racionalizar ou ponderar demais. Escreveu as
qualidades do homem que sempre sonhara encontrar. Qualidades
que nenhum homem realmente teria, claro. Mas jogou limpo e não
tentou desviar das instruções. Afinal, aquela era a principal regra
em qualquer brincadeira entre amigas. Respeitar o jogo, por mais
bobo que pudesse parecer.
Depois que preencheram as folhas de papel, Kate acendeu a
vela e a colocou dentro da panela de aço. “O.k., Ken, pode ler o
cântico. Depois vamos queimar os papéis.”
Ela recitou as frases curtas, acompanhada por Arilyn e Gen. As
chamas consumiram as folhas até que ficou só um pedacinho de
fuligem. Pequenas fagulhas voaram da panela conforme o fogo ia
apagando. As amigas ficaram em silêncio até o fim.
Ken esticou o dedo mindinho. “Juramento de dedinho que
vamos todas guardar a outra folha de papel embaixo do colchão
quando chegarmos em casa.”
“Juramento de dedinho”, repetiu Arilyn, em tom solene.
“Juramento de dedinho”, concordou Gen.
Ken baixou a mão. Elas se entreolharam, como se naquele
instante quase se arrependessem de uma ação tão irresponsável e
juvenil quanto um feitiço de amor.
Quase.
Em seguida, Ken caiu na gargalhada. Todo mundo a
acompanhou até as lágrimas rolarem, e Gen jurou que tinha feito
xixi nas calças.
Um feitiço de amor.
Fala sério.

“Você tá esquisito, cara.”


Nate olhou para o irmão. Ele estava cercado por dois amigos do
trabalho, completamente bêbados. Connor virou a terceira cerveja
e o estudou. Nate tentou ser paciente e respondeu. “Esquisito
como?”
“Você cortou o cabelo. As garotas gostam de cabelo de
roqueiro. Agora você tá normal.”
“Normal é bom.”
“Pode ser. E por que você tá com essa barba por fazer? Podia
ter pegado meu barbeador emprestado.”
Nate deu um gole na cerveja, secou a mesa e olhou para os
pretzels na cumbuca de madeira, avaliando se deveria ou não
pegar um. Nunca comia esses petiscos em porções coletivas. Muita
gente não lavava as mãos regularmente e contaminava tudo com
germes. “Tô deixando crescer um cavanhaque. É de propósito.”
O irmão ficou preocupado. “Você não tá ficando afeminado,
não, né, cara? Metrossexual, essas coisas?”
“Não. Só quero mudar o visual antes do coquetel.”
“Tudo bem. Ir pra academia é maneiro, pelo menos. Você tá
pegando peso?”
Evitou o olhar do irmão. “Tô.” Não. Fiquei dançando que nem
uma garota para despertar minha deusa interior. Humilhação pura.
“Ótimo, academias são ótimas pra conhecer mulheres. Alguma
em vista?”
“Em breve.”
A garçonete veio até a mesa. “Mais uma rodada?”
Connor esticou o braço e pôs uma das mãos na curva do
quadril dela, sobre a calça jeans. “Claro, meu amor, pode trazer
direto. Mas também vem sempre aqui falar com a gente. Fazia
tempo que eu não via um rosto tão lindo. Você me faz querer ser
um homem melhor.”
O quê? Aquilo nem fazia sentido. Será que era tirado de Jerry
Maguire ou algum outro filme água com açúcar? Nate esperou que
ela fizesse uma careta de nojo por causa da cantada péssima. Ao
contrário, ela ficou radiante e piscou. “É parte do meu trabalho,
querido. É só garantir que as gorjetas continuem vindo, também.”
Connor riu e recostou na cadeira. “Safadinha. Talvez eu tenha
que te chamar pra sair comigo.”
Nate ficou irritado. Como é que o irmão se dava bem com
aquelas bobagens? Se fosse ele, arrumaria um olho roxo ou um
processo por assédio sexual. Kennedy o mataria se chegasse em
alguém daquele jeito. Seriam os bares? Será que nesses locais já
era esperado que o nível das interações sociais caísse?
Decidiu perguntar. “Ei, alguma vez você já levou um fora?”
O irmão bufou. “Claro que não. Já falei, Ned… Quer dizer,
Nate… Basta elogiar a beleza delas e ser direto. As mulheres
odeiam flertes pomposos, caras muito cuidadosos ou que têm
medo de tomar uma atitude. Entendeu?”
Não. “É, entendi.”
Jerry brindou, batendo com a garrafa na de Connor. “Gostei de
te encontrar aqui, Ned. Tá dando um tempo nos foguetes pra cair
na farra com o seu irmão?”
Connor o cutucou no braço. “Chama ele de Nate.”
“O.k. Olha, soube que você se candidatou à vaga de supervisor.
É isso mesmo?”
Connor encolheu os ombros. “Já tô lá há bastante tempo,
organizo bem os trabalhos e lido bem com os caras. Por que não?”
Os olhos castanhos de Jerry estavam vermelhos, e a risada,
meio mole. Nate não sabia bem se gostava do cara, mas ele era
amigo e colega de Connor havia anos. “Não, por nada, é que o Ed
também vai tentar a promoção, então não sei se vale a pena.”
O irmão ficou tenso. Primeiro o olhar foi de decepção, mas logo
outro sentimento pareceu tomar o lugar. Algo que fez Nate prender
a respiração.
Sentimento de inferioridade.
“Ah, não sabia que o Ed queria a promoção. Talvez seja melhor
eu desistir.”
Jerry lhe deu um tapinha nas costas. “É, ele já levou essa, cara.
Os mestres de obra gostam dele, e ele fez faculdade de
administração. Talvez seja melhor você nem perder seu tempo.”
“E por que seria perda de tempo?”, perguntou Nate. “O Connor
tem tanta chance quanto o Ed.”
O irmão estava olhando para a garrafa, pensativo. “Não, o Jerry
tá certo. Não tem necessidade de eu passar por isso quando a
coisa já tá decidida. Provavelmente seriam muitas horas extras e
uma tonelada de responsabilidades. Quem é que precisa disso?”
“Exato”, concordou Jerry. “Você já ganhou aquela gatinha, Con?
Quando é que vai aprender a dividir e não ficar com todas as
mulheres pra você?”
“É parte do meu charme”, brincou Connor, sem muita
convicção, antes de ficar em silêncio, olhando para a cerveja. Nate
percebeu a mudança no clima, uma sombra que tomou conta do
irmão, tal qual um espírito das trevas decidido a atormentar. Era
engraçado, o irmão sempre agira como se gostasse da vida simples
que levava. Recusara-se a completar a faculdade, afirmando que só
havia espaço para um cérebro na família. Desde quando eles
haviam estabelecido aqueles estereótipos? Fazia tanto tempo que
já era quase da natureza dele. Nate chegava a se lembrar da mãe
dizendo que ele tinha o cérebro, e o irmão, a beleza. Quem era ela
para julgá-los? Tinha ido embora cuidar da própria vida e não sabia
nada a respeito dos filhos.
Parecia que toda a confiança de Connor era dirigida somente às
mulheres. Talvez Nate pudesse ajudar a corrigir isso. Ele falou.
“Promete que você vai manter a candidatura para supervisor de
qualquer jeito? Esquece isso de competição.”
O irmão deu de ombros. “Por que se preocupar? Não perca seu
tempo.”
“Tô falando sério. Já te vi na obra. Você sabe como lidar com a
equipe, entende dos prazos e é esperto.”
Connor passou os olhos ao redor do bar. Havia uma centelha de
ressentimento em seu olhar. “Não, não sou. E não quero mais falar
nisso.”
“Você acha que dá conta, não acha?” Nate quis desafiá-lo.
“Acho. Mas o Ed gosta de vestir aqueles ternos chiques e ir nas
reuniões com os gerentes. Ele faz parte do clube. Tem um diploma.
Fala bonito que nem você. Não sou da mesma categoria, cara.”
Hora de mostrar as armas. “Con. Me faz um favorzão?”
O irmão se exaltou. “Nem vem, nem vem pedir favorzão pra
isso!”
“Claro que sim, não tem regra. Você tem que fazer.”
“É igual quando as garotas fazem juramento de dedinho.”
Nate sorriu. “Isso mesmo. Você tem que fazer o favorzão ou
vou te chamar de mariquinhas pelo resto da vida.”
Connor olhou para ele com raiva. “Essa é a coisa mais imbecil
que já ouvi.”
Nate bebeu a cerveja. “Que seja. Se você quer fingir que não tá
com medo de correr atrás de um puta emprego, vai lá. Maricas.”
“Porra! Tá bom, vou manter a candidatura. Mas chega de
favorzão depois desse.”
Nate segurou uma risada de satisfação. Tinha pegado o irmão
de jeito. Os dois eram viciados no programa Apenas um Show, do
Cartoon Network, e conheciam todos os episódios de cor. Quando
um dos personagens dizia ao outro que precisava de um favorzão,
era irrecusável. Se você não topasse, era chamado de mariquinhas
pelo resto da vida.
Ainda se lembrava de quando o irmão o fizera dirigir nu em
pelo ao redor do quarteirão, para provar que ninguém prestava
atenção na estrada. É. Nessa ele provou que Connor estava errado,
principalmente quando a polícia bateu na porta, respondendo a
uma chamada de emergência que tinha passado a placa do carro.
Filho da mãe.
O irmão estava zangado, mas Nate sabia lidar com aquilo.
Relaxou e bebeu sua cerveja.
8

“Prontas, meninas?”
Elas estavam sentadas nos bancos do Purple Haze, em Verily. O
bar era uma mistura da informalidade do Mugs com a elegância do
restaurante Cosmos. Decorado em vários tons de roxo, dos
assentos de tecido às paredes, tinha muito vidro, espelhos e luzes,
que davam um clima moderno. Monitores de computador dividiam
as paredes com as telas grandes de televisão e atraíam um público
mais ligado em tecnologia, que queria tomar uns drinques sem se
afastar demais do seu ambiente. Era bem popular depois do
horário de trabalho, mas costumava ficar vazio nas noites de terça,
o que o tornava o lugar perfeito para o exercício que queriam fazer.
Kennedy esperou as amigas responderem. Aquele era um
exercício ousado, que nunca tinham feito antes, e ela teve medo de
que pudessem recusar. Kate e Arilyn se entreolharam e assentiram
com segurança.
“Normalmente, não usaria essas táticas, mas, depois do que
você contou, eu topo”, disse Arilyn.
Kate suspirou. “Quando ouvi a história da pobre Bernadette
sendo confrontada por estar quase nos trinta, tive vontade de dar
na cabeça dele eu mesma.” Ela sorriu com maldade. “Mas isso aqui
vai ser muito melhor.”
Kennedy riu. “Lembrem-se, vamos começar devagar,
acompanhando o raciocínio dele. A gente não quer apavorar o cara,
só levar a um ponto em que ele comece a pensar antes de falar.
Ele tem um bom coração. O problema é que ouviu muitos
conselhos ruins sobre como lidar com as mulheres, e precisamos
consertar isso. Ninguém nunca se deu ao trabalho de mostrar como
se faz. Mas ele tem um ótimo senso de humor, é inteligente e bem-
sucedido. E agora também tem uma aparência condizente.”
Naquele momento, Nate entrou pela porta, estudou o ambiente
e, ao ver Kennedy do outro lado do salão, traçou uma reta. Ken
sentiu o coração bater um pouco mais rápido, e, por mais que não
quisesse, seu estômago deu pelo menos uma cambalhota. A barba
crescida estava no ponto de fazer uma mulher desejar tocá-la,
tracejar com os dedos as linhas dos lábios grossos e olhar
profundamente em seus olhos. Se pudesse vê-los por trás daqueles
óculos. Fez uma nota mental para se lembrar dos passos a seguir:
lentes de contato e um guarda-roupa decente. Ele vestia o de
sempre: jaleco de laboratório, calça barata e brilhante e sapatos
ortopédicos. Será que tinha um problema nos pés que ela
desconhecia? E, como sempre, tinha uma trilha de manchinhas de
café na camisa. Mas não desviou o olhar uma só vez enquanto
cruzava o salão na direção delas. “Oi.”
Ela teve vontade de rir das poucas palavras, mas se segurou.
“Oi.”
“Desculpem, não tive tempo de me trocar. Prazer em ver vocês
de novo. Kate. Arilyn.”
Kate falou primeiro. “Espero que esteja gostando da experiência
com a Kinnections. A Kennedy é mestre em transformar os clientes
e dar confiança a eles.”
“É. Ela também seria ótima torturando prisioneiros de guerra
para arrancar confissões.”
Kennedy se inflou de orgulho com o elogio às avessas.
“Por acaso você tem tido alguma dificuldade no caminho até o
amor verdadeiro?”, perguntou Arilyn. “Nós podemos marcar uma
sessão a qualquer momento pra te ajudar a derrubar alguma
barreira.”
“Não, obrigado. Depois que uma chinesinha partiu meu corpo
em dois, um cabeleireiro mal-humorado me atacou com tesouras e
perdi meu rebolado numa aula de zumba, acho que já deu. O que
temos pra hoje?”
Kate riu. Kennedy sacudiu a cabeça. “Não seja tão dramático,
correu tudo muito bem até agora. Vamos fazer umas encenações.
Parece que uma das suas limitações é a parte das conversas.”
“Foi o que me disseram.”
“Vamos repassar alguns tópicos que podem aparecer em
primeiros encontros, pra você saber como lidar com vários tipos de
mulheres e de interações.”
“E pensar que faltei no exame de próstata pra vir aqui.”
“Por que não começamos a aquecer com uma rodada de
perguntas rápidas?”
Kate bateu palmas. “Adoro esse jogo. É tipo um programa de
auditório, só que melhor!”
Nate inclinou a cabeça e pensou. Ela podia apostar que o
cliente tinha achado que se daria bem no jogo rápido, porque
provavelmente era o rei do conhecimento inútil. Disfarçou um
risinho. Ele logo perceberia o quão diferente aquilo era.
“Como funciona?”
“A gente descreve uns cenários, e você dá uma resposta rápida.
A ideia é treinar seus reflexos para lidar com as situações da
maneira certa, sem ter que pensar muito. Pra começar, vou pegar
um drinque pra você.”
“Um Darth Maultini, por favor.”
Elas pararam e olharam para ele. “Um o quê?”
Ele fez cara de sofrimento. “Uma dose de vermute doce, uma
de vodca, uma de uísque, duas de suco de romã com cereja e duas
rodelas de limão esticadas em volta do copo.”
Kennedy ficou boquiaberta. “Você só pode estar brincando
comigo. Que tal uma cerveja?”
Kate riu. “Não, vou lembrar, não se preocupe. Fã de Star Wars,
né?”
“Um pouco.”
Kate foi pedir o drinque, enquanto Ken pescou a coleira de
dentro da bolsa. “Agora põe isso no pescoço e vamos começar.”
“Que diabo é isso?”
Kennedy arregalou os olhos do jeito inocente que deixava os
homens loucos. “Um aparelho que vai ler suas respostas e lançar
estímulos sensoriais para corrigir o comportamento.”
Nate deu um passo para trás, como se ela estivesse entregando
uma cobra. “É uma coleira. Uma coleira de cachorro.”
Arilyn entrou na conversa, com uma voz melódica capaz de
hipnotizar as presas. “Não, claro que não é uma coleira. Pensa
nisso mais como uma faixa com um minicomputador que grava
suas reações e analisa seu comportamento.”
Ele passou a mão no cabelo e deu uma meia risada. “Ah, vocês
são muito boas nisso. Brilhantes, pra falar a verdade. Mas isso aí é
uma coleira de cachorro, das que dão choque. Vocês podem dourar
a pílula o quanto quiserem, mas não vou botar isso no pescoço.”
Kate deslizou o martíni turbinado na direção dele, por cima do
balcão do bar. “O caminho até o amor verdadeiro não é fácil. Você
não me parece um cara que desiste das coisas. E pode não ter
gostado do que a Ken fez com você, mas pare um instante e
pense. Os passos que deu até agora têm funcionado, não têm? Já
se sente melhor com você mesmo? Acha que cresceu como pessoa
e está mais perto de encontrar sua alma gêmea?”
Kennedy e as amigas se entreolharam. Céus, elas eram incríveis
juntas. Cada uma com suas qualidades e energias, trabalhando
juntas para encurralar a presa no canto. Elas esperaram. Ele ficou
imóvel e as estudou, analisando cada passo e as armas de cada
uma. Vários minutos se passaram.
“Tudo bem.”
Kennedy não hesitou. Passou a coleira de couro em volta do
pescoço dele, fechou a fivela e ajeitou a camisa para cobri-la quase
completamente. Não havia motivo para assustá-lo ainda mais
explicando o que aconteceria. O elemento surpresa era a chave, e,
se ela contasse muito, Nate iria embora sem olhar para trás.
“E agora?”, ele perguntou.
“Relaxa, a gente vai começar devagar. Eu primeiro. Você acha
que essa calça me deixa gorda?”
Ele ficou pálido e engasgou com o drinque. “É esse tipo de
pergunta? Você tá de brincadeira? Você tá armando pra eu me
ferrar.”
Kate estalou a língua. “Nate, essa foi a mais fácil do mundo.
Simplesmente diz que não. Não, não te deixa gorda. Não, a
maquiagem tá perfeita. Não, os sapatos estão ótimos. Não, a culpa
é minha, não sua. Entendeu?”
Ele se recuperou do engasgo, limpou a boca e respirou fundo.
Kennedy quase teve pena, mas sabia que aquilo era necessário
para que progredisse. Pôs o dedo no botão escondido dentro da
bolsa. “Preparado?”
“Sim, vamos lá.”
Kennedy foi disparando as perguntas, uma atrás da outra. “Fico
gorda com essa calça?”
“Não.”
“Quer que eu pague a conta desta vez?”
“Não.”
“Você é gay?”
“Não.”
“Você tá só a fim de sexo casual?”
“Não.”
“Você tem algum problema que eu deva saber logo?”
“Não.”
“Você me acha atraente?”
“Acho.”
Ela sorriu e fez um sinal com os polegares para cima. Nate
soltou o ar que vinha prendendo, deu mais um gole, relaxou os
ombros. “Ótimo aquecimento. Agora vamos complicar as coisas.
Kate, é com você.”
“Sou a sua garçonete gostosa. Acabei de vir até sua mesa e
anotei o pedido. Agora me passa sua melhor cantada.”
“Olha, vê se vem aqui com mais frequência. Faz tempo que não
vejo um rosto tão bonito. Você me dá vontade de querer ser um
homem melhor.”
Kennedy mal conseguiu segurar o vômito ao ouvir isso.
E apertou o botão.
Nate deu um pulo e levantou do banco. O choque o atingiu no
pescoço, e ela imaginou pequenas centelhas de energia descendo
pelo corpo dele, como se a dor o fizesse ter foco. Ele levou os
dedos à garganta e esfregou a pele. Apertou os olhos, zangado.
“O que foi isso?”, sibilou. “Doeu!”
“Honestamente, Nate, essa foi uma das piores cantadas que já
ouvi.”
“Bem cafona”, concordou Kate.
“Você me eletrocutou!” Ele pronunciou as palavras com espanto
genuíno.
Ken agitou a mão no ar. “É só uma técnica de correção de
comportamento. Uma vibração de leve pra te lembrar quando você
sair da linha.”
“Vocês são loucas. Que tipo de agência é essa?”
Arilyn lamentou. “A gente sente muito, Nate, mas isso é mesmo
para o seu bem. Por que a gente não tenta de novo?”
Ele olhou bem para as três, tentando compreender como
aquelas mulheres lindas tinham acabado de lhe aplicar um choque
elétrico e, mesmo assim, conseguiam parecer completamente
inocentes. “Você não vai querer desistir agora que tá ficando
interessante, né?”, perguntou Kennedy.
Nate pôs a mão na coleira e apertou os olhos. “Meu irmão usou
essa cantada ontem à noite e a mulher adorou. Vocês têm certeza
de que sabem o que estão fazendo?”
Kate suspirou, irritada. “Ela é uma exceção. As mulheres
odeiam essas coisas. O seu irmão é o Brad Pitt, por acaso? Ou de
repente ela já o conhecia e achou que fosse uma piada.”
Nate esfregou a testa. “Que Pitt, que nada. Ela achou
engraçado.”
“Esquece o que o Connor faz e diz. Você precisa ter uma
abordagem diferente, ou vai ser massacrado.”
“O.k. Vamos começar de novo.”
As duas trocaram olhares. Kennedy assentiu. Kate tomou as
rédeas mais uma vez.
“Imagine seu primeiro encontro. Depois de jantar, ela debruça
na mesa e pergunta o que mais tem no menu. O que você
responde?”
Ele piscou. “Sobremesa.”
Ela apertou o botão.
Nate se contorceu e disse um palavrão baixinho. “O que foi?”
“Assim parece que você quer levá-la pra cama. Não é legal.”
“Eu quis dizer sobremesa, pelo amor de Deus, e não sexo.”
“Soou meio esquisito pra mim. A sua resposta deveria ter sido
‘o que você quiser’. Ela estava perguntando qual seria o próximo
passo com você, não no cardápio.”
“Isso é idiotice! Por que ela falaria de comida se não era pra
falar de comida?”
Kennedy deu de ombros. “As mulheres são complexas.”
Arilyn entrou na conversa. “Limpe sua mente e imagine uma
tela em branco infinita.”
A irritação masculina típica era visível nele, mas Nate sentou e
encarou Kate. “Mais uma vez.”
Kate se ajeitou no banco. “Duas mulheres estão conversando
com você, juntas. Você está atraído por uma das amigas e não pela
outra. O que você faz?”
“Me viro para a mulher que me interessa e peço o telefone
dela.”
Ken apertou o botão.
Ele reagiu com um tapa no pescoço. “Mas que diabos fiz de
errado agora?”
Arilyn olhou para ele com pena. “Nunca, nunca peça o telefone
de uma mulher na frente de uma amiga. Isso tem que ser feito em
particular. Você pode se meter numa situação muito
constrangedora se aquela para quem você pedir o telefone não
gostar de você, mas a outra, sim. Depois, a que você gostou vai se
sentir mal pela amiga e a outra vai te odiar, você só tem a perder.”
“Vou embora.”
Nate começou a desabotoar a coleira. Kennedy chegou perto e
segurou nas mãos dele. “Sei que isso parece muito confuso, mas a
gente só queria te mostrar alguns cenários possíveis. As
encenações de verdade começam agora e são muito mais
importantes.”
“De que tipo de encenação vocês estão falando?”
“Kate vai ser a primeira. Ela vai fingir que é uma desconhecida
num bar, e você vai lá falar com ela. A conversa vai progredir e nós
vamos poder analisar como vocês interagem.”
Ele deu um suspiro contrariado, mas desistiu de tirar a coleira.
“Ela vai me julgar na primeira coisa que eu falar? Sou péssimo com
isso.”
“Não, você só tem que dizer ‘oi’, ela não vai ser hostil. O
exercício é sobre o fluxo da boa conversa, não sobre cantada. Se
tem uma coisa que ensino como regra básica dos primeiros
encontros, é essa. Cumprimenta, diz o seu nome e pergunta como
ela está. Simples. Não é astrofísica.”
“Há-há.”
“Arilyn e eu vamos observar do outro lado do bar.”
“Ótimo. Me sinto como se estivesse no The Voice, mas, em vez
de não virarem a cadeira, levo um choque.”
“Boa sorte.”
Elas se afastaram um pouco. Kennedy teve que lhe dar algum
crédito. A maioria dos homens não lidaria bem com a pressão das
encenações, e, embora o rosto de Nate fosse pura infelicidade, ele
mergulhou fundo no desafio.
“Oi. Meu nome é Nate, tudo bem com você?”
Kate girou no banco e deu um sorriso sedutor. Tinha
incorporado a personagem. Aquela mulher queria sexo quente,
uma noite para esquecer dos problemas, e não tinha intenção
alguma de se amarrar num relacionamento sério. Kate estava
praticamente ronronando, enquanto o acariciava com o olhar,
analisando todo o corpo dele. Ela era o perfeito clichê de mulher a
que poucos homens resistiam.
Incluindo Nate.
“Oi, querido”, murmurou ela. “Meu nome é Wanda. E o meu dia
péssimo acaba de ficar bem melhor.”
“O meu também.” Sentou-se ao lado dela, sentindo um pico de
confiança em resposta ao flerte óbvio de Kate. “Você vem sempre
aqui?”
Kennedy estremeceu, mas relevou. Péssima fala, mas não era
nenhum escândalo.
“Venho, toda noite. Como é que nunca te vi por aqui?” Kate
jogou o cabelo para o lado e arrastou um dedo pelo braço dele.
Inclinou-se, e Kennedy soube que ele estava vendo um bom
pedaço de decote.
Nate limpou a garganta. “Acabei de me mudar pra cidade.
Então, Wanda, o que você faz?”
Hum, ele gostava de focar na carreira. “Sou garçonete.”
Kennedy prendeu a respiração.
“É um trabalho duro. Não me admira que tenha tido um dia
difícil.”
Ela respirou aliviada. Ótima recuperação. Sem julgamentos ou
cortes abruptos. Provavelmente Connor não tinha nenhuma má
experiência com garçonetes.
“É verdade. Horas de pé com estes saltos.” Kate dobrou a perna
e o olhar de Nate foi direto aos sapatos muito sensuais. “Tô
precisando muito relaxar. Deitar. Sair daqui, de repente. O que você
acha?”
O rosto de Kate gritava por sexo. Nate arregalou os olhos como
se tivesse acertado na loteria. Kennedy aguardou, na expectativa
de ouvir uma resposta certa.
Mas não teve a oportunidade.
“Bom, eu diria que a gente devia se conhecer um pouco melhor
antes. Ver se combina. Mas por que não? Vamos lá. Minha casa é
aqui perto.”
Ah, sim. Sempre pensando com a cabeça de baixo.
Zap!
“Filha da mãe! Ela é que deu em cima de mim!”
Kennedy lançou um sorriso de encorajamento para ele. “Você
estava indo muito bem até aquele momento exato. Só se esqueceu
do objetivo. Você quer conhecer sua esposa, não arrumar uma
noite de sexo sem importância.”
“Não tem nada de errado em fazer sexo sem compromisso se
as duas partes concordarem. Desde que sou criança o Connor me
fala isso.”
“Você não pode perder o objetivo de vista. Um caso sem
compromisso ou uma noite de sexo vai atrapalhar seu jogo, e
ninguém quer namorar um pegador inveterado. Você quer
encontrar uma garota bacana, certo?”
“Pelo amor de Deus, não sou um pegador inveterado. Esse é o
comportamento normal de vocês quando fazem uma consultoria?
Deveria ser proibido.” Nate parecia prestes a explodir de novo, mas
Kate encostou no braço dele e cochichou qualquer coisa. Alguns
instantes depois, ele assentiu de leve. Encarou Kennedy mais uma
vez, sentou-se de volta e se concentrou em Kate.
“Essa passou perto”, Arilyn comentou, baixinho.
“É, mas acho que agora ele entendeu. Vai encarar isso como
um desafio e vai se recusar a perder.”
“Então, o que me diz, garotão? Quer ir embora daqui?”
Kennedy tentou não rir da voz sedutora que Kate fazia, e teve
certeza de que a amiga estava se divertindo horrores com a
personagem. Ela normalmente interpretava a vizinha bonitinha e
legal.
“Na verdade, você parece uma mulher fascinante. A gente
podia se conhecer melhor primeiro. Me conta um pouco sobre
você.”
Kennedy sorriu. Bom.
Kate fez beicinho. “Tudo bem, acho que a gente pode conversar
mais uns minutinhos. Bom, sou mãe solteira, trabalho no Mugs e tô
tentando terminar meus estudos.”
“O que você está estudando?”
“Massagem terapêutica.” Ela piscou algumas vezes. “Quer ser
um dos meus clientes de teste?”
Ele não mordeu a isca desta vez. “Sabe que acabei de ler um
artigo comentando o crescimento do mercado de massagem?
Parece que a demanda aumentou bastante. Os especialistas vêm
dizendo que as pessoas têm que seguir carreiras que possam dar
empregos depois da formatura, então você tomou uma decisão
correta.”
Kennedy se inflou de orgulho. Arilyn fez um sinal positivo com o
polegar.
“É bom conhecer um homem que enfim compreende isso.
Quero poder sustentar minha filha.”
“Quantos anos ela tem?”
“Doze. Linda e superinteligente. Espero que se saia melhor do
que a mãe.”
Kate deu um toque de amargura às palavras, para ver qual
seria a reação dele.
Nate ficou sério. “Me parece que você a está ensinando a ser
independente e seguir suas paixões. Teria orgulho de ter uma mãe
como você.”
Kennedy sentiu a garganta apertar de emoção. Kate ficou
surpresa, mas em seguida sentiu os olhos se encherem de água.
Ela apertou a mão de Nate. “Obrigada. Gostei mesmo de você. Mas
vamos pra minha casa, que eu te mostro o quanto.”
“O.k.”
Kennedy fechou os olhos e apertou o botão.
“Ai! O que fiz agora?”
Ela balançou a cabeça, decepcionada. “Nada de sexo, Nate.
Você não passou mais do que alguns minutos com ela. Isso é o
suficiente pra saber se ela vale um relacionamento de longo prazo?
Sexo é coisa séria e não deve ser decidido baseado em impulsos.”
Ele esfregou o pescoço e resmungou um palavrão baixinho.
“Gostei dela, tá bom? E não tem nada de errado em querer sexo!”
Arilyn sorriu, compreensiva. “Nós entendemos. Mas na
Kinnections tentamos fazer com que os clientes encarem o sexo
como um momento crucial. Que tenham vários encontros e um
relacionamento monogâmico antes de começarem a atividade
sexual.”
Nate pareceu irritado com as duas. “Então vocês tinham que ter
me dito isso, pra eu saber as regras!” Bebeu o que restava do
drinque. “Vamos lá, vamos acabar com isso.”
“Hum, acho que minha parte já terminou”, disse Kate. “Arilyn,
sua vez.”
Nate acompanhou com os olhos enquanto ela se sentava no
banco, como se ele fosse um atacante prestes a chutar para o gol.
Kennedy se perguntou se aquilo tinha sido uma má ideia. Ele
apreciava a competição e gostava de ganhar. Agora, via a coleira
como algo a derrotar, e Arilyn era o que estava no caminho. Kate
assumiu o lugar ao lado de Kennedy e olhou para ela com
preocupação.
Arilyn virou de costas e aguardou. Estava prestes a apresentar
seu cliente a mais um estereótipo feminino: louca para se
comprometer, apaixonar-se hoje mesmo e viver feliz para sempre.
Nate se aproximou.
“Oi. Meu nome é Nate. Tudo bem com você?”
Arilyn virou e abriu um sorriso. “Oi, Nate. Sou a Wanda. Prazer.
O que traz você aqui no meio da semana? Dia difícil no trabalho?
Você mora por aqui? O que você faz?”
Jogou as perguntas em cima dele de propósito, para deixá-lo
tonto. Nate lidou bem com o questionário e respondeu com calma.
“Precisava relaxar um pouco, tomar um drinque. Sou engenheiro
aeroespacial e acabei de me mudar para Verily.”
Arilyn turbinou a costumeira aura calma. “Uau, isso é incrível.
Tenho uma padaria na cidade e trabalho o dia todo, então disse a
mim mesma: ‘Wanda, você precisa sair mais e se divertir’. Então
vim até aqui e encontrei você!”
Ele não titubeou e manteve a atenção para não falhar no
objetivo. “Concordo com você sobre o trabalho. Atualmente sou
pesquisador numa empresa que está tentando pôr o setor privado
na corrida espacial, e às vezes é difícil me lembrar de sair e
relaxar.”
Kate parecia impressionada, mas Arilyn não tinha terminado.
“Você é casado? Tem filhos? Estou mesmo querendo sossegar e
ter filhos, e fiquei impressionada com a sua carreira! Quero dizer,
tantos homens hoje em dia querem ‘se descobrir’, não ligam para o
dinheiro e só querem sugar a sociedade. Olha, geralmente não sou
tão direta, mas gostei de você. Quer sair pra jantar? Quero
conhecer um parceiro sério, que esteja farto de ciscar por aí e
queira se casar logo. Tenho a impressão de que você também se
sente assim, Nate. Então, o que você acha?”
Ele tinha gotas de suor na testa. Kennedy se debruçou no bar.
Aquilo era o sonho dele realizado, uma mulher para levar a sério e
começar a falar de casamento logo de saída. Ela instruíra Arilyn a
lhe oferecer a mulher dos sonhos, para ver como ele reagiria. De
testa franzida, ele parecia desesperado para encontrar a
abordagem correta e evitar o choque. Ela pôs a mão no botão.
“Claro, eu ia gostar de sair pra jantar.” A voz dele saiu tensa. “E,
sim, também estou em busca de um relacionamento sério.”
Ken deixou o controle cair no colo.
“Que maravilha! Que alívio. Senti uma conexão imediata entre a
gente e acredito que, por ser um homem de negócios, vai me
entender muito bem.”
“Por que acha isso?”, perguntou ele.
“Bom, quando tiver bebês, pretendo voltar logo ao trabalho e
contratar uma babá. Minha cadeia de padarias é tudo pra mim, e
não sinto a obrigação de abrir mão de nada. Quero ter tudo ao
mesmo tempo, Nate. Com sorte, ao seu lado.” Arilyn pronunciou as
últimas palavras com um sorriso confiante, certa de que Nate
concordaria com ela.
Mas outras palavras jorraram de dentro dele. “Não acho que a
mulher deva voltar correndo ao trabalho depois de ter filhos, nem
gosto da ideia de ter uma babá. Você vai ter que parar de trabalhar
e ficar em casa com eles, claro. É a única maneira correta de criar
filhos.”
Kate abriu a boca. Arilyn arregalou os olhos.
E Kennedy apertou o botão.
“Filha da mãe!” Ele pulou no banco e deu um tapa na nuca.
Fechou os punhos e cerrou os dentes. “O que eu tinha que dizer
agora? Fui muito bem nesse cenário!”
Kennedy suspirou. “Por que diabos você acha que as mulheres
têm que parar de trabalhar para serem mães? Nunca ouviu falar
em equilíbrio?”
“Connor me explicou que, se as mulheres continuam a
trabalhar, acabam tendo casos e destruindo a família. Os filhos são
os que mais sofrem. Com toda certeza, não quero esse tipo de vida
para os meus filhos. Não depois de ter visto o que a minha própria
mãe fez com a gente.”
Ela sentiu a tristeza invadir seu coração. As amigas ficaram
quietas, refletindo sobre o que ele dissera. Arilyn foi quem falou, a
voz calma e carinhosa. “Compreendo por que você pensa isso. Mas
nem todas as mulheres têm casos ou vão embora. É exatamente
este o ponto da sua busca. Você quer encontrar mulheres que
tenham ideais similares aos seus, mas, se você se fechar para as
possibilidades, pode acabar perdendo a melhor opção. O amor
pode mudar as pessoas, fazer com que elas abram mão de certas
coisas.”
Nate estava tenso. “Por que perder tempo atrás da mulher
errada?”
“Porque a mulher errada pode acabar sendo o seu amor
verdadeiro”, respondeu Kate. “Aconteceu comigo. Quando conheci
meu noivo, Slade, achei que ele fosse totalmente errado pra mim.
Éramos opostos e tínhamos filosofias de vida diferentes. Mas nos
apaixonamos. Mudamos, crescemos. Se eu tivesse ficado presa ao
homem ideal que tinha na cabeça, teria perdido a melhor coisa que
já aconteceu na minha vida.”
Kennedy sentiu um desejo puro e simples tomar conta de todo
o seu corpo. Respirou com calma, tentando superar a súbita
vontade de experimentar o que Kate tinha: um amor verdadeiro.
Amor real. Cheio de confusões e trabalho duro, mas que valia cada
instante. Desviou o olhar e se concentrou no botão da coleira,
tentando se recompor. O que havia de errado com ela? Nunca tinha
sentido um desejo tão primitivo de se jogar num relacionamento,
sob qualquer circunstância. A longa fila de homens que deixara
para trás era feita de fantasmas que assombravam seu futuro,
lembrando-a de que nunca ficaria satisfeita.
“Eu compreendo.”
Arilyn escorregou do banco e deu um abraço nele. “Este foi um
grande momento, Nate. Obrigada por se abrir com a gente.”
Ela teve a impressão de que o rosto dele ficara um tanto
vermelho. “Claro. Já terminamos?”
“Não”, respondeu Kate. “Falta a Kennedy.”
Ken levantou a cabeça.
Os olhos dele encontraram os dela. Aqueles olhos verdes que
ardiam como uma fogueira de promessas… Se ela tivesse a
coragem de aceitar. O pensamento estranho atravessou a cabeça
de Kennedy, mas era bizarro demais para analisar, então ela foi
andando devagar e ocupou o banco junto ao bar.
“Posso saber quem está com o controle da coleira?”
“Kate. Ela é justa.”
“E o que devo esperar de você?”
Kennedy sorriu de leve. Ele tinha dispensado a colônia terrível e
seu cheiro natural a envolveu, numa onda de especiarias, sabonete
e limão. “Tudo o que você detesta.”
Nate sorriu de volta e abaixou a voz. “Manda ver.”
Ela ficou toda arrepiada. Apertou as coxas para conter a dor
latejante que sentiu de repente, conforme a excitação e o desafio
despertavam todas as suas terminações nervosas. Seu corpo
começou a vibrar, e ela se preparou para a batalha mental que
estava prestes a encarar da mesma forma que faria se Nate tivesse
acabado de arrancar suas roupas, deitado seu corpo sobre o bar e
a feito gozar com a língua, as mãos e os dentes.
“Se continuar me olhando desse jeito, você vai acabar levando
mais do que pode aguentar.”
Ela estremeceu ao ouvir as palavras. “Vamos lá.”
Ele grunhiu alguma coisa que ela não entendeu.
“O.k., vocês podem começar.”
A voz de Kate interrompeu o transe dos dois. Kennedy virou de
costas e esperou até ouvi-lo falar.
“Oi. Meu nome é Nate. Tudo bem com você?”
“Oi, Nate. Meu nome é Wanda. E aí?”
Ele se apoiou confortavelmente no balcão. “Vim só relaxar
depois de um dia estressante de trabalho. E você?”
“Mesma coisa.”
“Você trabalha em quê?”
“Faço transformações de estilo numa agência de
relacionamentos.”
Ele nem piscou. “Aposto que encontra um monte de gente
interessante. As agências de relacionamento estão crescendo
bastante. Você é esperta de ter investido na área.”
Ken abriu um sorriso reluzente. “Obrigada. Adoro meu trabalho.
É a minha vida. Não desistiria dele por nada.”
Nate posicionou o corpo de maneira que suas pernas
entrelaçaram o banco dela. Era uma posição de poder, que forçava
Ken a chegar mais perto. Fascinada e com um sorriso no rosto, ela
aguardou que ele se aproximasse. Reparou na curva perfeita dos
lábios dele. “Nada? Nem por amor?”, provocou Nate.
Kennedy achou que ele fosse levar um choque por causa da
pergunta, mas não veio nada. “Quem me amar de verdade nunca
vai me pedir isso.”
“É, tem razão. O que gosta de fazer no seu tempo livre,
Wanda?”
“Atividades físicas. Escalada, caiaque, caminhada. Odeio
esportes parados.”
“Tipo o quê?”
“Tipo golfe. Golfe é um saco.”
O músculo junto do olho dele se contraiu, mas logo parou. “Mas
você já tentou jogar golfe? Pode ser que goste.”
“Duvido. Não gosto de homens chatos.”
“E qual é o tipo de homem que você considera chato?”
Ela deu um sorriso doce. “Você sabe, os caras mais nerds.
Engenheiros, contadores, carreiras que envolvam ciência ou
números. Argh. Gosto dos tipos mais apaixonados, artísticos,
criativos. Um ator inquieto, um escritor intenso ou um professor de
ioga inspirado. Você trabalha em quê, Nate?”
O olhar dele destruiu todas as barreiras dela. “Sou engenheiro
aeroespacial. Adoro jogar golfe. Não sei escrever bem, nem
entendo de arte, sou péssimo dançando zumba. Mas acho que
você é uma mulher incrível e quero muito poder te conhecer
melhor. Aceita jantar comigo?”
Kennedy sentiu uma tontura repentina. Apoiou-se no balcão do
bar para recuperar o equilíbrio, mas ele rapidamente chegou mais
perto e segurou seu braço com uma pegada forte. Ela cerrou os
lábios e foi firme. “Somos completamente opostos. Acho que não
vai rolar nada entre a gente. Mas obrigada pelo papo.”
Ele deu uma risada que veio borbulhando de dentro do peito.
“Tenho uma proposta. Você me responde uma pergunta. Se
acertar, vai ser a prova de que a gente tem que pelo menos ir
jantar. Se errar, vou me afastar educadamente e agradecer pela
atenção dispensada.”
Mais uma vez, Ken ficou à espera do choque que não veio.
Droga, Kate. Intrigada, estudou-o através dos cílios. “Que
pergunta?”
“Você tem que concordar primeiro. Se acertar, a gente vai
jantar. Combinado?”
“E se eu mentir e disser que não sei a resposta?”
Ele se aproximou e assoprou a resposta baixinho perto do
ouvido dela. “Você não vai fazer isso. Confio em você.”
O tom íntimo a fez estremecer. O hálito quente e doce soprou
de leve os cabelos na têmpora dela. “O.k. Faz sua pergunta.”
“Sou um físico que trabalha numa pesquisa avançada de
propulsão para foguetes. Muitas das minhas teorias e descobertas
se baseiam na terceira lei de Newton.”
Ela fingiu estar entediada. “E…”
“Qual é a principal suposição da lei de Newton?”
Num sopro, ela sentiu como se o ar tivesse saído todo de seus
pulmões. Ficou em choque, sem conseguir falar. Abriu a boca e se
deu conta de que devia estar parecendo ridícula. Fechou a boca
imediatamente. “Você não pode me fazer essa pergunta.”
“Por que não?”, provocou ele.
“Porque… porque é impossível. Uma consultora de
relacionamentos não sabe nada de ciência, física e essas coisas.
Pergunta outra coisa.”
“Mas foi essa a pergunta que a gente concordou que você
responderia”, insistiu ele. “Se você não souber a resposta, eu
compreendo. Mas não esquece, confio em você e acredito que vai
me dizer a verdade.”
Ken o fulminou com os olhos por deixá-la numa posição tão
delicada. Pelo amor de Deus, como é que ele poderia ter percebido
algo que ninguém sabia a seu respeito? Que debaixo daquelas
roupas femininas, de todo o flerte e das tiradas sarcásticas, havia
uma nerd escondida? Claro, eles tinham trocado um ou outro
comentário sobre velocidade enquanto tomavam sorvete, mas
agora era diferente. Naquela ocasião, tinha se distraído, deixando-
se levar pela euforia do açúcar, mas agora estava sóbria e segura.
O olhar dele a desafiava, como se a obrigasse a reconhecer que
sabia de coisas que não deveria saber. Coisas que ela negava. Era o
passado que voltava para assombrá-la. Todos aqueles anos
trancada no quarto, sozinha, tinham-na transformado numa leitora
voraz. A retidão da matemática e da ciência saciava sua sede por
respostas e alimentava seu cérebro. Mais recentemente, no
entanto, tivera o cuidado de se certificar de que tudo aquilo fosse
substituído por sapatos Manolo Blahnik e a mais recente coleção de
bolsas de luxo.
Ela ia mentir. Ele nunca saberia. Que diabos, aquilo era ridículo,
e Kate já deveria ter apertado o botão muito tempo atrás. Ela
mexeu as mandíbulas. Abriu a boca. Falou.
“Em cada interação, há um par de forças que age sobre os
objetos em questão. O tamanho da força sobre o primeiro objeto é
igual ao tamanho da força sobre o segundo objeto. A direção da
força sobre o primeiro objeto é oposta à direção da força sobre o
segundo objeto. As forças vêm sempre em pares. Por isso, a lei de
Newton afirma que para toda ação há uma reação igual que ocorre
na direção oposta.”
Os olhos dele se iluminaram com o triunfo. Kennedy ficou
parada, apavorada e, ao mesmo tempo, incapaz de desviar o olhar.
Ele encerrou a cena: pegou na mão dela e a beijou. “Obrigada,
Wanda. Agora vou ter o prazer de levar você pra jantar.”
“Eu… eu…”
“Isso foi inacreditável!”, gritou Kate. Veio correndo até eles,
praticamente aos pulos. “Não acredito. Você prestou atenção no
que a gente disse e seguiu à risca. Ficou focado, livre de
preconceitos, engraçado, inteligente. Kennedy, isso não foi uma
vitória?”
Ela forçou um sorriso sem jeito. “É, foi ótimo mesmo.”
Arilyn se aproximou. “Que maravilha assistir a isso. Mal posso
esperar pelo coquetel que a Ken vai organizar pra você. Tenho
certeza de que vai se surpreender com o número de mulheres que
vão se interessar por você, e vice-versa. Obrigada por abrir sua
cabeça. E pedimos desculpas pela coleira.”
Nate sorriu. “Sem problema. Acho que precisava mesmo de um
tratamento de choque.”
Kate riu e pôs as mãos nos ombros dos dois. “Acho que… ai!”
Com um grito agudo, a amiga desmontou no chão. Nate
empurrou o banco para trás e se ajoelhou. “Você tá bem?”
Os olhos azuis de Kate se arregalaram com o susto. Ah, não.
Ela devia ter tropeçado nos saltos bizarros que Kennedy insistira
para que comprasse. Ken abaixou-se também e ficaram todos em
volta de Kate. “Desculpa, Kate, não devia ter insistido nesses
sapatos. Eles são armadilhas ambulantes. Vem cá, me deixa te
ajudar.”
“Não! Ai, quer dizer, não, obrigada. Eu tô bem!” Apoiou-se nas
próprias mãos e ficou de pé. “Hum, desculpa, gente, tinha
esquecido que tenho um compromisso importante e preciso ir.
Arilyn, vem comigo até a porta?”
Arilyn olhou para a amiga, confusa. “Claro. Tem certeza de que
você está bem? Parece que levou um choque. Por acaso a coleira
deu um defeito ou qualquer coisa assim?”
“Eu t-tô bem.” A risada dela saiu alta e um tanto louca. “Fiquem
aqui e terminem tudo. A gente se vê amanhã. Ótimo exercício,
Nate.”
Kate foi embora do restaurante, apressada. Arilyn acenou para
se despedir e foi atrás.
“Esquisito”, comentou Kennedy. “Devem ser os planos do
casamento. Deixam qualquer uma doida.”
“Aposto que sim.”
Eles se entreolharam. O som distante do tilintar de taças e de
conversas encheu o espaço entre os dois. Ondas de calor
irradiavam em volta deles, tentando atraí-la. “Você foi bem.”
“Você me deve um jantar.”
O coração de Ken parou de bater, mas logo em seguida
acelerou tão rápido que ecoou dentro dos ouvidos. “Não, a Wanda
te deve um jantar. Era uma encenação.”
“Você sabia a terceira lei de Newton.”
Ela começou a ficar aborrecida. “E daí? Todo mundo aprende
isso na escola. Grande coisa. Simplesmente me lembrei.”
“Você mente sobre si mesma, Kennedy. Finge ser quem não é,
porque acha que vai ser mais fácil viver assim. Acha que está se
protegendo.”
O aborrecimento virou irritação. “Ah, então quer dizer que
agora você é um especialista em Kennedy Ashe? Só porque é meu
cliente, não tem o direito de se meter na minha vida pessoal. Alto
lá. Meu trabalho é encontrar uma mulher pra você, e é isso que
vou fazer.”
“E se já tiver encontrado?”
A pergunta implodiu as defesas dela, sem deixar pedra sobre
pedra. Kennedy não conseguia respirar ou falar e, pela primeira vez
na vida, sentiu-se prestes a ter um ataque de pânico. Sacudiu a
cabeça e confrontou as palavras dele. “Não faça isso. Você só vai
acabar se machucando, tá entendendo?”
A frustração era visível nos olhos e no rosto dele. Nate pareceu
escolher as palavras com cuidado, como se tivesse chegado a uma
encruzilhada e precisasse tomar uma decisão. “E se eu acreditar no
risco? E se achar que ela vale a pena?”
Devagar, o pânico começou a se esvair e foi substituído por
uma percepção amarga e uma tristeza com as quais ela não queria
lidar. Que diabos, Kennedy não fazia ideia de como lidar com
aquilo. De maneira bizarra, Nate tinha conseguido passar por todas
as barreiras que ela construíra e tocar numa parte que ela nem
sequer sabia que tinha. No entanto, Ken tinha consciência de que
era tudo ilusão. Prometera dar a felicidade a ele, mas não seria
com ela. Nate merecia uma mulher que pensasse como ele, para
sossegar, ter filhos e envelhecer junto. Alguém sem questões
malucas. Ken, não. Ela era reluzente por fora, mas por dentro era
um horror, e jamais seria capaz de dar a Nate o que ele queria. A
punição que precisava encarar na vida era o constante desejo de ir
em frente, em busca de algo que não estaria lá, paz e estabilidade
ao lado do único homem que não parecia ser capaz de encontrar.
Não, ela não seria boa para ele, e tinha que protegê-lo de uma
fraqueza temporária causada pela atração física e pelo sexo.
Seu coração endureceu. Fez questão de falar com uma voz
firme e fria. “Ela não vale a pena, Nate. Nem nunca vai valer. Não
com você.”
Ele deu um passo para trás. Endireitou os ombros. Assentiu.
“Entendi.” Disfarçou a mágoa, mas Ken sabia que seu comentário
tinha sido certeiro e pungente. “Qual o próximo passo?”
“Sábado. No shopping. Te encontro às dez?”
Ela desejou que o olhar de Nate não queimasse tanto, nem a
despisse, nem fosse capaz de desmascará-la. Kennedy se esforçou
para manter o sorriso brilhante firme no rosto. Um silêncio pesado
pairou entre eles, repleto de palavras não ditas. “Tudo bem.” E ele
foi embora sem dizer mais nada.
Kennedy passou os braços em volta do corpo para se aquecer,
repetindo para si mesma que tinha feito o melhor para os dois.
9

“Odeio shoppings.”
Kennedy deu uma olhada nele. Nate estava definitivamente de
mau humor. Por que os homens nunca ficavam animados para
comprar roupas novas e melhorar o visual? Talvez fosse um tipo de
gene que a população masculina não tinha. Sentia pena deles, de
verdade. “Pode se animar um pouco. A gente tem um plano a
cumprir, e não vou arrastar você por mil lojas. Temos que passar
primeiro na ótica.”
Ela caminhou decidida até o oculista e se dirigiu à mulher na
recepção. “A dra. Murphy está um pouco atrasada. Vocês podem
sentar, por favor.”
“Claro.” Kennedy acompanhou Nate até a sala de espera, mas
ele não sentou. Ficou andando em círculos na frente dela. “Gente,
exagerou no café hoje?”
“Não gosto de oftalmologistas.”
Ela riu, mas logo percebeu que ele estava falando sério. Os
olhos tinham um brilho de pânico, que se via mesmo por trás da
armação grossa dos óculos. “Ela não vai te machucar. Só quero ter
certeza de que vamos escolher as lentes de contato certas.”
“Nada de lentes.”
Ken o estudou. O cavanhaque marcava o desenho do queixo e
destacava o lábio superior. As sobrancelhas agora estavam
perfeitamente separadas e a onda suave do cabelo revelava um
toque de loiro que aquecia seu tom de pele. Mas a grande
mudança seriam os óculos, e por isso ela precisava entender o que
o preocupava. “Por que não?”
Seu maxilar ficou tenso. “Não gosto.”
Ela foi paciente. “Por quê?”
Nate se aproximou e sibilou algumas palavras. “Não gosto de
ter nada nos meus olhos, o.k.? Não vou enfiar o dedo no meu
globo ocular. Pode esquecer. Vamos embora daqui.”
Ela segurou um sorriso. “Eu te entendo. Todo mundo tem um
ponto fraco. Comigo é o ginecologista. Vejo aqueles estribos e
tremo toda.”
“Informação demais, Ken.”
Ela riu. “Desculpa. Olha, pelo menos faz o exame, depois a
gente conversa. Não quero forçar você a fazer algo que odeia, mas
hoje em dia existem muitos tipos de lentes. Promete que vai
tentar? Se você odiar, a gente compra armações novas e esquece o
assunto.”
Ele soltou um suspiro exasperado. “Tudo bem. Mas não vou
gostar.”
“Nate Dunkle?”
Ele fez uma cara feia para Ken e seguiu a médica até a sala. O
exame foi rápido, e eles foram conduzidos até o balcão, para
experimentar algumas lentes. Uma mulher bonita de jaleco branco
preparou alguns materiais. Seus olhos eram de um verde azulado
exuberante, que contrastava dramaticamente com o cabelo preto.
Ela se apresentou como Tracey e começou seu discurso sobre
lentes de contato, o tipo que a médica recomendara e como usá-lo.
“Quais as estatísticas de lesões oculares causadas por lentes de
contato?”, perguntou Nate.
“Hum, não tenho certeza, mas contanto que você siga as
instruções de cuidado, são muito baixas.”
“Quão baixas?”
Kennedy deslizou a mão sobre o balcão e apertou a dele. Com
força. “Nate, a maior parte das pessoas usa. Experimenta.”
Tracey pareceu perceber o medo dele e abriu um grande
sorriso. “Você vai ficar ótimo. Sua armação atual está um pouco
ultrapassada.”
“Quantos casos existem de lentes que arranharam a córnea de
uma pessoa e causaram cegueira?”
Tracey piscou. “Hum, tenho certeza de que posso descobrir
para você se pesquisar no Google.”
Kennedy apertou sua mão de novo. “Só experimenta. Agora.”
Ele murmurou algo entre dentes e pegou as lentes. Tracey
orientou sobre como colocá-las, até ambas estarem em seus olhos.
Nate piscou loucamente, olhando para o espelho. “O que está
achando? Você ficou ótimo”, exclamou Tracey.
Ele levou um tempo para responder. “Não é ruim. Na verdade,
não dá nem pra sentir.”
A moça se animou. “Viu, eu te disse. Por que não fica com elas
por hoje, e, se funcionar, a gente faz uma encomenda para três
meses?”
Nate continuou olhando para o espelho, como se fascinado pela
tecnologia. “Droga, está tudo tão nítido. Estou vendo melhor do
que com os óculos.”
Tracey assentiu com entusiasmo. “A armação na verdade limita
o seu campo de visão. Estou muito feliz que tenha gostado. Você
está ótimo.”
Kennedy sufocou o riso. A mulher gostava muito daquela
palavra: ótimo. Mas, que inferno. Ela parecia encantada por Nate.
Outra boa oportunidade para ver se ele tinha aprendido alguma
lição. “Também acho!”, balbuciou. “Espera só até as mulheres
darem uma olhadinha em você.”
Tracey parecia confusa. “Vocês não são casados?”
“Não, Nate é solteiro e desimpedido.”
Tracey aguçou o olhar. Observou os cabelos de Nate, seu rosto
e os olhos novos. Kennedy notou que ela estremeceu ao notar as
roupas, mas foi capaz de ignorar isso por ora. “Ótimo. Bom, Nate,
ficaria feliz em te dar meu telefone, e você pode me ligar a
qualquer momento se quiser perguntar alguma coisa.”
Ele estava tão intrigado com o próprio reflexo que não
respondeu. Kennedy o cutucou de novo. Mais forte. “Ah! É, parece
bom. Acho que também fazem lentes coloridas, né? Gostei da sua.”
Tracey balançou a cabeça. “Ah, não estou de lente; meus olhos
são assim mesmo.”
“Você tem olhos lindos”, ofereceu Kennedy.
“Não, é lente. Dá pra ver a linha em volta da pupila. A cor do
seu olho é marrom.”
Tracey parou de sorrir. “Você deve estar enganado.”
Ah, não.
“Não, não estou. Assim como tá na cara que seu cabelo não é
preto, dá pra ver a raiz. Por que você mudou? Gosto de cabelos e
olhos castanhos.”
Tracey ficou imóvel. Sua voz pareceu gelar o ambiente. “Vou
tirar sua notinha, sr. Dunkle. Se tiver algum problema, pode ligar
para o atendimento ao cliente.” Ela se afastou, o cabelo balançando
atrás de si, e Kennedy escondeu o rosto nas mãos e gemeu.
“O quê? O que foi que eu falei?”
Kennedy se perguntou se outra sessão de coleira com voltagem
maior faria alguma diferença. “Você quebrou a regra fundamental.
De novo. Achei que lia a Cosmopolitan!”
“E leio. Não falei uma palavra sobre o corpo dela. Nem do peso,
nem da idade. Fiz um elogio.”
Ela baixou a voz em um sussurro. “Um elogio bem às avessas.
Você falou da raiz do cabelo dela. E a chamou de mentirosa. Bom
jeito de conseguir um primeiro encontro.”
O cérebro dele trabalhou por um instante. Por fim, Nate
suspirou. “Merda, é verdade. Desculpa, estava distraído por
enxergar tão bem. É intrigante como o mundo está nítido.”
“Deixa pra lá. Vamos sair daqui e arrumar umas roupas novas.”
Ken evitou lojas com música alta e roupas de adolescentes, e
começou na J.Crew. Caminhava por entre as multidões de sábado
com a facilidade de uma especialista. Nate ia tropeçando atrás,
tentando acompanhar, murmurando “Desculpa” para um grupo de
pessoas antes de chegar ao seu destino. A descarga de adrenalina
fez o sangue de Kennedy fervilhar, e ela precisou respirar fundo
para manter a calma. Deus, adorava fazer compras. Ficava agitada
com tudo que envolvesse compras. As possibilidades ilimitadas de
promoções, visuais novos, confiança e esperança. E sapatos. Ai, os
sapatos…
“Ken?”
“Sim?”
“Estou com medo. Você está com uma cara muito estranha.”
Ela revirou os olhos. “Espera aqui.” Foi até o caixa e voltou com
uma fita métrica. “Preciso das suas medidas. Abre os braços e fica
quieto.”
Ele a observou como se Ken tivesse pedido para tirar a roupa e
dançar na esquina da Times Square. “Eu digo o meu tamanho.”
Kennedy empunhava a fita como se fosse uma arma. “Já sei
que você veste o tamanho errado. Suas calças são grandes demais
para você.”
“Como é que é?”
Ela engoliu outra risada. Do seu próprio modo, Nate era muito
engraçado. “Não na virilha. Na cintura.” As palavras escaparam de
sua boca, e ela automaticamente baixou os olhos. Parou de rir.
De repente, imaginou-o pelado. Calma! Fantasiar sobre seu
engenheiro aeroespacial estava fora de cogitação. “Abre os braços.”
Desta vez, Nate obedeceu. E manteve os olhos cravados nos
dela o tempo todo. Engolindo-a. Lambendo-a por inteiro. Os dedos
de Ken tremiam de leve quando passou a fita em torno da cintura.
O aroma distinto atingiu suas narinas, e ela lutou contra o impulso
de enterrar o rosto em seu peito e respirar fundo. Os músculos
dele estremeceram sob seu toque, enrijecendo-se. Kennedy tentou
respirar e manter a calma. O que estava acontecendo? Nunca tinha
se sentido atraída por um cliente com tanta intensidade na vida
— muito menos um homem como ele. “Setenta e seis centímetros.”
Sua voz saiu rouca. Ela ficou de pé.
Por que nunca tinha imaginado que Nate pudesse ser
musculoso? Talvez fossem as roupas mal ajustadas. Seu peito era
bem largo, e, sob o tecido de algodão, ela podia sentir uma firmeza
deliciosa que estava louca para provar. Que tipo de amante ele
seria? Concentrado e sério? Convencional? Ou tão empenhado no
prazer da mulher que nada mais importava?
Um tremor percorreu sua coluna. “Um metro”, guinchou.
Ele a fitou, sem piscar, uma chama de pura luxúria masculina
brilhando nos olhos esverdeados. “Deve ser a zumba fazendo
efeito.”
Ken afastou o olhar e deslizou a fita ao redor do pescoço.
Engolindo em seco, conseguiu tocar as duas pontas. Em seguida,
olhou para cima.
Os lábios de Nate eram o sonho de qualquer mulher. Cheios,
desenhados, com a barba por fazer envolvendo-os como um
presente de Natal só para ela. As feições exibiam novas linhas,
agora que a armação desajeitada tinha sumido. As maçãs do rosto
marcadas e uma mandíbula forte davam um ar durão pelo qual ela
sempre tivera um fraco. Seus ombros e bíceps de repente pareciam
enormes e musculosos, com potência suficiente para levantá-la e
abraçá-la contra a parede enquanto ele a penetrava e…
Ai, Deus, ela tinha que seguir em frente, ou ia perder o
controle.
“Pronto, terminamos.” Soltou a fita métrica e se afastou. Mas
Nate não desviou o olhar, e ela ficou esperando que ele dissesse
alguma coisa, qualquer coisa para quebrar a tensão sexual que
zumbia ao seu redor como o toque de Kate.
“Acho que não.” Ele esboçou um sorriso. “Ainda não
terminamos.”
Isso não teve nada de tímido, cientista nerd. Era testosterona
pura, um macho rugindo pronto para reivindicar sua fêmea. Na
semana anterior, ele tinha se rendido e ido embora, deixando-a
sozinha, frustrada e triste, mas segura de que tinha tomado a
decisão certa. Eles nunca poderiam ser um casal. No entanto, aqui
estava ele, com a confiança restaurada, lançando aquele olhar
faminto na direção de Ken como se ela fosse um pirulito que ele
estava louco para enfiar na boca. Nate não era tão manso quanto
ela pensara inicialmente.
Optou por ignorar as palavras e torceu para que as coisas
voltassem ao normal. “Já volto.”
Ela inspirou fundo várias vezes a caminho do caixa e acalmou o
coração disparado. Tempo para reorganizar suas intenções e
pensar na futura esposa do seu cliente. Que não era ela. Kennedy
voltou com um plano de guerra, na cabeça e no coração. Sem mais
drama. Eles não dariam em nada de bom.
“Deixa eu te explicar as regras. Vou te passando as roupas, e,
quando tivermos o suficiente, vamos para o provador. Sem
perguntas, chororô nem reclamações. Você vai experimentar tudo,
e, se odiar, a gente conversa.”
“E se…”
“Sem perguntas. Vamos começar.”
Ela atacou a primeira arara. Os dedos voando pelos cabides,
puxando, testando, avaliando. Falou consigo mesma em voz baixa,
completamente absorvida pela tarefa, e foi enfiando vários itens
nas mãos de Nate, um após o outro.
“Essa camisa é uma fortuna!” Nate tentou mostrar a etiqueta de
preço, mas ela ignorou, recusando-se a interromper o ritmo.
“Compro isso no Target pela metade do preço.”
“Seu salário tem cinco dígitos?”
“Tem.”
“Então você pode comprar essa camisa.”
“Mas…”
“Sem conversa.”
Pôde sentir a frustração emanando dele, mas ignorou,
determinada. Passaram do casual ao social, até que as cores, os
padrões e as texturas a cercaram num brilho confortável que a fez
lembrar do baseado que fumara com Kate e Arilyn. Por fim, mal
conseguia ver o rosto de Nate espreitando por trás da pilha de
roupas. “Vamos fazer uma pausa.”
“Você é louca. Pense nas crianças famintas na África. Os
trabalhadores das fábricas na China. As demissões em massa no
nosso país.”
Ela arqueou uma sobrancelha. “A economia está precisando
desesperadamente que os americanos gastem com produtos e
serviços. Só estou tentando cumprir meu dever patriótico aqui.
Vamos para o provador.” Kennedy o direcionou para a cabine da
frente e sentou no banco diante da porta. “Quero ver tudo. Não tire
nada da ordem, escolhi as calças combinando com as camisas.
Pendurei na ordem certinha pra você experimentar.”
“Estes jeans custam mais do que o meu carro!”
“Então você tá precisando trocar de carro. E para de
dramalhão… O Tesla vale muito mais do que essa calça. Fecha a
porta, Nate.”
Ele olhou feio para Kennedy e fechou a porta. Ela abafou uma
risada. Nate levou um bom tempo para sair. Morrendo de raiva,
parou na frente do espelho com uma expressão mal-humorada que
rivalizava com o beicinho dela. Ken assimilou a transformação
completa que vinha esperando.
Ele estava uma delícia.
O brim escuro envolvia sua bunda como uma amante
apaixonada. Ele era esguio e forte, e, embora não fosse muito alto,
sua postura era poderosa. Não tinha os ombros caídos nem a
cabeça baixa. Ficou de pé na frente do espelho cheio de confiança.
Era difícil ensinar esse misterioso ar de sexualidade masculina, e
aquele homem na verdade sempre possuíra essa qualidade. Ela
estava só escondida por roupas ruins e óculos.
A camisa de botão preta era justa, com um bordado na frente e
punhos grandes. O peito e os ombros recheavam os vincos muito
bem, um convite para as mulheres abrirem um ou dois botões
depressa, para ver o que havia por baixo.
Pois é.
Nate Ellison Raymond Dunkle tinha chegado.
“Nunca usei nada assim antes. É meio estranho. Pareço um
idiota?”
“Não. Você tá ótimo.” Olhou feio para o reflexo dela no espelho,
por ter usado o elogio de Tracey. “Tá confortável nessas roupas?”
“Acho que sim.” Ele puxou os punhos e virou de lado. “A calça
não tá apertada demais?”
Ela sorriu. “Não.”
Nate revirou os olhos. “Hum, Connor disse que eu tinha uma
bunda mirrada e devia esconder em roupas maiores.”
“Connor estava errado.”
Ele se virou diante das palavras suaves. Ken limpou a garganta
e mudou de assunto. “Falando no seu irmão, queria discutir uma
possibilidade com você.” Sua abordagem tinha que ser impecável,
ou ele ficaria na defensiva. “Sei que faz tempo que vocês moram
juntos, e acho isso ótimo. Sempre quis ter uma irmã. Mas também
sei como morar com alguém pode afetar um namoro novo. Você
quer encontrar sua esposa. Ela quer ter certeza de que você está
determinado a ter um compromisso sério. Se tiver a impressão de
que você gosta de viver num apartamento de solteiro com seu
irmão mais velho, pode ficar assustada.”
Nate assentiu. “O que você sugere?”
“Minha amiga Genevieve tem uma casinha linda em Verily. O
aluguel é bem barato. Ela acabou de ir morar com o noivo, mas
não quer vender a casa agora. Disse que está disposta a alugar
para Connor.”
Ken prendeu a respiração. Ele ficou quieto, o cérebro
obviamente analisando a sugestão. Imaginou-o sondando os
pontos fracos e fortes, os problemas e a solução adequada. Então
balançou a cabeça. “Não vai dar certo. Connor iria odiar Verily.
Trabalha com construção, e a obra fica perto do nosso
apartamento. Vai ao bar da esquina toda sexta e sábado à noite.
Tem uma rotina e está feliz. Por isso estou com dificuldade em
colocá-lo pra fora.”
Ah, então ele queria Connor fora de casa. Isso ajudava sua
estratégia de maneira geral. “Entendi. E se você se mudar para
Verily?”
O olhar de Nate saltou para o dela. “Para perto de você?”
Ela assentiu. “A maioria dos coquetéis que organizo para os
clientes são pela região. Não fica tão longe assim do seu trabalho.
E você vai ter a privacidade de que precisa para começar um
relacionamento sério.”
Nate estudou seu rosto por um tempo. Kennedy tentou não se
mexer no banco. Droga, o olhar dele parecia uma mira laser,
deixando-a sem ter onde se esconder. “Tudo bem.”
“O quê?”
Ele sorriu. “Eu topo. Obrigado pela oferta.”
“De nada.” A conexão entre os dois se acendeu, pegou fogo e
chiou. Por que a franqueza dele tinha se tornado tão sexy? “Agora
experimenta a próxima roupa.”
Eles penduraram as compras e seguiram para a Brooks
Brothers. O estilista confirmou as medidas e trouxe uma série de
ternos. Nate resmungou sem parar. “Não preciso de ternos, Ken.
Uso jaleco no escritório, e sempre derrubo comida na roupa.”
“Todo homem precisa de dois ternos de grife no armário.”
“Nada de rosa. Connor nunca mais vai me deixar em paz.”
“Por mim, tudo bem.” Ela acenou para o vendedor, que parecia
desapontado, mas escolheu uma gravata vermelha brilhante para
combinar com o terno cinza-escuro clássico de três botões.
“Gosto do trespassado. Usam isso nos filmes de máfia.”
Ela revirou os olhos e dispensou a peça com um gesto. O
vendedor concordou em voz alta e depositou de volta na prateleira.
“Nada de trespassado. Vai engolir você. Melhor seguir com um
corte europeu.”
“O corpo é meu ou não é?”
“Sei como vestir você melhor.”
O vendedor riu. “Há quanto tempo vocês são casados?”
Ela congelou. Ergueu o rosto. O olhar dele se fixou nela,
silenciando-a. “Não o suficiente”, respondeu Nate.
O vendedor sorriu. “Isso é bom. Confie na sua esposa. Vamos
tentar o azul-marinho.”
Nate entrou no provador, e ela continuava sem fala. Alguns
momentos depois, ele saiu e pôs-se no pedestal na frente dos três
espelhos de corpo inteiro. “Que tal?”
Ken sentiu um calor repentino.
Nate Dunkle estava lindo.
O terno azul-escuro de risca de giz tinha um corte esbelto e
acentuava a força e a graciosidade do corpo. A gravata vermelha
dava um toque de estilo, e a camisa branca estava impecável e
realçava o brilho do tom de pele agora normal. Ele era uma delícia
pura, embalada para presente para a sortuda para quem Ken
estava prestes a apresentá-lo.
“Perfeito. Você está… perfeito.”
O vendedor mexeu no tecido, sorrindo para o espelho. Nate
fitou o reflexo e encontrou o olhar de Kennedy no espelho.
“Vamos levar”, disse ele.
Desceu do pedestal e entrou no provador, fechando a porta
atrás de si. Ken soltou um suspiro e cerrou os punhos. A
transformação estava completa. Ele estava pronto para encontrar a
mulher dos seus sonhos.
Ignorou a estranha pontada de dor no coração e a tomou por
indigestão. Nate estava certo. Saladas demais.
Obrigou-o a entrar na loja de sapatos, onde comprou três pares
para ele e um para si. Nate ergueu as sacolas e soltou um gemido.
“Estou faminto. E exausto. Este monte de sacolas está deixando
meus braços doloridos. A gente pode comer agora?”
Kennedy soltou uma risada. “Você é um fraco, jogador de golfe.
As mulheres fazem isso por horas sem uma pausa nem um gole de
água.”
“Eu me rendo. Que tal uma pizza?”
“Que tal a delicatéssen? Posso pedir uma coisa saudável.”
“Fechado.”
Eles fizeram o pedido, arrumaram uma mesa na praça de
alimentação e começaram a comer. Primeiro, Nate espalhou um
monte de guardanapos na mesa de fórmica branca antes de
descansar os cotovelos na beirada. No canto, havia um grupo de
adolescentes tatuados, com maquiagem pesada e vários piercings,
dando-lhes ar de rebeldes. Ou talvez fossem os descolados de
hoje. Graças a Deus, não estava mais no colégio. “Você vivia no
shopping na época da escola?”, perguntou Nate, dando uma
mordida no sanduíche de rosbife.
Ken deu de ombros e beliscou o rocambole de peito de peru
perfeitamente enrolado. Estava de saco cheio de carne magra.
Olhou para o sanduíche de Nate com inveja. Talvez um picles
ajudasse a animar suas papilas gustativas. “Não é o que a maioria
dos adolescentes fazia?”
“Não. Fui uma vez, numa sexta à noite, e tentei me enturmar.
Apanhei no estacionamento. Depois roubaram o video game que
eu tinha ficado meses economizando pra comprar.”
Kennedy ergueu os olhos. Ele contou a história sem emoção,
como se citasse um livro, mas algo profundo dentro dela surgiu da
escuridão, tentando vir à tona. “Você sofria bullying na escola?”
“Sofria.” Ele mordeu uma batata frita. “Não ponho a culpa
neles. Pulei uma série, então era mais jovem e muito menor que a
maioria. Os professores me amavam e sempre me usavam de
exemplo pra turma. E eu era um desastre social ambulante. Sem a
proteção de Connor, algo ruim podia ter acontecido. Criança é um
bicho muito perverso.”
Ei, gorducha. É só ser boazinha com a gente, que a gente vai
ser bom pra você também. Entendeu?
Ken deixou o picles cair. Limpou as mãos úmidas na calça jeans.
“É verdade.”
Ele apontou para o peito de peru pela metade. “Como você
consegue comer isso sem pão? Aqui, pega o resto do meu. E umas
batatas.” Empurrou a bandeja na direção dela. A comida ficou ali,
em seu campo de visão, provocando-a, lembrando-a de novo e de
novo que se não continuasse magra, as pessoas não iriam gostar
dela. Lembrando-a de todas as vezes em que se olhou no espelho
e odiou a pessoa que olhava de volta. Presa em um corpo que
desprezava e uma mente que gritava por socorro.
A raiva se acumulou até transbordar pela boca. “Pare de ficar
empurrando esse monte de porcaria pra cima de mim”, chiou. “Só
porque você pode comer qualquer coisa não significa que o resto
de nós também pode.”
Nate franziu a testa. “Não entendi. Você parecia querer. Não faz
mal comer umas porcarias de vez em quando, Ken. Seu corpo é
perfeito.”
“Não sou perfeita!”, ela exclamou. “Quer saber o que eu estava
fazendo enquanto as crianças passeavam no shopping? Estava em
casa, me empanturrando de pizza, refrigerante, batata frita e tudo
que coubesse na minha boca. Passar pelo drive-thru pra mim
significava dois Big Macs, batata frita tamanho grande e um milk-
shake. E eu ainda queria mais. Não fazia compras no shopping
porque precisava de loja de tamanhos especiais, porque as roupas
das lojas normais não serviam em mim. Eles me ridicularizavam,
me torturavam, me humilhavam, me lembravam todos os dias que
eu era feia. Gorda.” Suas mãos tremiam de raiva, mas as palavras
voavam da boca como vômito, escuras e feias. “Resolvi esse
problema muito rápido. Decidi parar de comer. Passei fome, perdi
dezoito quilos e ganhei um monte de amigos. Os meninos me
achavam bonita. Ficou tudo ótimo. Até que eu percebi que tinha
perdido tanto peso que minhas costelas estavam aparecendo, que
minha menstruação tinha parado, que eu estava desaparecendo
como sempre quis.” Exausta pelo discurso emotivo, Kennedy
piscava furiosamente para manter os olhos secos. “Levei muito
tempo pra sair do fundo do poço. Fiz terapia, aprendi a comer e a
malhar, a manter o equilíbrio. Agora, posso olhar no espelho de
novo. Lembrar que sou uma mulher bem-sucedida, saudável. Mas
não esqueci. Às vezes a comida me leva de volta pro inferno. E
com certeza não sou perfeita.”
A plena compreensão do que tinha acabado de fazer a atingiu
como um golpe de caratê na cabeça. Meu Deus, o que havia
acontecido? Tinha acabado de derramar o veneno de sua alma em
cima de um cliente na praça de alimentação do shopping. Como ele
iria continuar trabalhando com ela? Como iria respeitá-la diante de
tal admissão? Agora Nate sabia que ela era um embuste — uma
miragem no mundo dos impecáveis e maravilhosos. A humilhação a
sufocou, mas Ken levantou a cabeça e o fitou nos olhos.
Orgulho.
Aqueles olhos verde-musgo profundos estavam cheios de uma
ferocidade que a deixou imóvel. Ele estendeu a mão sobre a mesa
e segurou a dela. Os dedos quentes e fortes se entrelaçaram com
os seus num sinal de amizade. Apoio. E algo mais. Algo profundo e
belo e tão frágil que ela prendeu a respiração, com medo de que
aquilo desaparecesse numa nuvem de fumaça.
“Desculpa. Não sabia. Vejo você se iluminar quando se solta um
pouco, e acho que merece ser feliz. Mas entendo.” Ele se
aproximou. “Eu sei, porque passei por isso. Você lutou, sobreviveu
e floresceu. Você deu ao mundo um grande ‘foda-se’ e não deixou
eles destruírem quem você era. Isso é perfeição, Kennedy.
Perfeição pura.”
Ela piscou, incapaz de afastar o olhar do dele. O toque de sua
pele a fez desejar mais. O polegar esfregou um ponto sensível no
pulso, massageando, pressionando. Suas unhas se cravaram
gentilmente na palma da mão de Nate, e ela deixou escapar da
garganta um som baixo, um leve gemido de necessidade e desejo
que nunca tinha experimentado antes. Precisou de toda a força
para não levantar, caminhar até ele e sentar em seu colo. Puxar
sua boca para si e enfim reivindicar o que queria, sentir seu sabor
e essência na língua. Enchendo o corpo dela.
Um barulho alto de uma bandeja caindo no chão quebrou o
feitiço.
Kennedy recuou e soltou a mão. Passou os minutos seguintes
arrumando seu lixo e fechando a garrafinha d’água. Jogou o lixo
fora. Nate não se moveu, só ficou ali sentado, olhando para ela
como se não soubesse o que dizer. Um silêncio constrangedor caiu
entre os dois.
“Acho que o dia foi um sucesso”, disse ela, animada. “Pronto
pra ir?”
“Ainda não.” Seus olhos brilhavam com um propósito. “Vamos
deixar as sacolas no carro primeiro.”
“E depois?”
Ele sorriu lentamente. “Minha vez de cobrar meu favor.”
Nate a levou para o simulador de computador e rezou para
conseguir se concentrar. Por mais que odiasse shoppings, este
tinha um enorme parque de diversões interno, com montanha-
russa, video games, pista de boliche e um simulador de golfe de
último tipo. Era raro usar aquilo, mas não queria arrastar Kennedy
para um campo de verdade sem antes ensinar o básico e ter uma
ideia do seu swing.
Em geral, o golfe acalmava sua cabeça quando estava se
sentindo sobrecarregado e precisando desesperadamente de uma
distração. Era o que Kennedy precisava agora. A humilhação em
seu rosto depois da confissão abalou o autocontrole de Nate,
deixando-o ávido por abraçá-la e fazê-la se sentir segura. Sua
coragem e mais pura força de vontade eram de tirar o fôlego, mas
a verdade e a vulnerabilidade o destruíram.
Estava louco por ela.
Um suspiro alto chegou aos seus ouvidos. Ken moveu os
quadris, mudando o peso de perna. As sandálias pretas de salto
expunham unhas vermelhas, com tirinhas de strass envolvendo os
pés. O famoso anel de dedo do pé reluziu, desafiando-o a fazer
algo ousado. “A gente tem mesmo que fazer isso agora? Tá lotado
aqui.”
Ele a empurrou gentilmente para a frente da fila. “Preciso ver a
sua habilidade com o swing pra te ajudar a desenvolver o
movimento quando a gente chegar no campo. Vai ser uma ótima
avaliação.”
“Tá parecendo trabalho, e não diversão. Por que me torturar
com uma coisa que odeio?”
Ele sorriu, divertido. “A vingança é um prato que se come frio.”
Entraram na sala. Ken avaliou a imensa tela na parede mais
distante, a fileira de tacos pendurados na lateral e o computador à
sua frente. “Eba. Uma sala escura e abafada pra eu tacar uma bola
numa tela falsa de cinema. Mal posso esperar.”
Nate ignorou a provocação e escolheu um campo para
principiantes na tela. “O que foi que você me falou nas nossas
sessões? Manter a mente aberta. Confiar em si mesmo. Estar
disposto a ultrapassar os limites.”
Ela bufou. “Tá. O que esse negócio faz, então?”
“Quando os jogadores querem analisar e aperfeiçoar o swing,
podem usar a avaliação do computador. Ele calcula velocidade,
ângulo, distância, rotação, trajetória e por aí vai. A bola e a tela
têm radares e sensores de luz.”
“Hum, mais avançado que um Wii, hein?”
“Muito.” Experimentou alguns tacos, pegou um e entregou a
ela. “Vamos usar este aqui. Dá uma sentida no peso dele e depois
experimenta fazer um swing.”
Ela segurou o taco, levantou atrás da cabeça e girou à sua
frente. “Pronto. Posso fazer a coisa de verdade agora?”
“Não. Preciso te ensinar a postura certa e como segurar o taco
direito. Vem cá.”
Ken se aproximou, e Nate ficou atrás dela. Puxando-a para
junto de si, passou os braços ao redor de sua cintura e entrelaçou
os dedos nos dela. O corpo de Kennedy ficou tenso. “O que você tá
fazendo?”
“Tentando mostrar o jeito certo de acertar a bola.” Ken se
mexeu, e ele reprimiu um gemido. A curva exuberante da bunda
estava levemente pressionada contra seu pau. O aroma dela o
envolvia, um toque de tangerina e sândalo de dar água na boca. O
cabelo roçava sua bochecha. Nate tentou parar de pensar no
próprio corpo e se concentrou em sequências matemáticas até
conseguir pensar direito novamente. “As mãos ficam uma em cima
da outra. Indicadores apontando pra baixo. Segura um pouco mais
pra baixo no taco.”
Ele ajustou a posição das mãos e ergueu os braços de Ken
atrás da cabeça. “Parece esquisito”, comentou ela.
“No começo é assim. Sobe o taco até aqui. Agora empina o
quadril pra trás. O impulso vem do quadril e das pernas.” As coxas
cobertas pela calça jeans deslizaram junto ao corpo de Nate,
arrancando um gemido de seus lábios.
“O que foi?”
“Nada. Agora o movimento completo. Gruda os olhos na bola e
faz o swing de novo.” Ela fez. “Você tirou o olho da bola.”
“Tirei nada!”
“Você acha que não, mas tirou. Todo mundo que tá começando
erra nisso. Qual é a melhor coisa que você já viu na vida?”
“O quê?”
Nate soltou um suspiro impaciente. “Uma imagem. Uma foto.
Qual foi a coisa mais intrigante que você já viu, da qual não
conseguia desviar o olhar?”
Kennedy corou. “Minha prima me mostrou uma revista Playgirl
uma vez. Nunca tinha visto um homem pelado antes.”
Nate apontou com o indicador. “Essa bola é o seu primeiro
homem pelado. Entendeu?”
Ela riu. “Essa bola ou essas bolas?”
“Se concentra.”
“Desculpa.”
“Agora tenta de novo.” Ele a fez praticar algumas vezes até ter
certeza de que tinha aprendido a segurar o taco, manter a postura
e não tirar o olho da bola. “Ótimo. Agora vamos tentar com o
simulador. Vai até a plataforma e se prepara.”
“Aquela coisa imitando grama ali?”
“É. Relaxa, respira e se concentra na bola.”
Ken murmurou alguma coisa em voz baixa, mas obedeceu.
Empinou o quadril, ajustou a postura e olhou para a bola. Nate se
perguntou com qual homem pelado ela estava fantasiando. A ideia
o irritou imensamente, então afastou o pensamento.
Ela fez o swing.
A bola bateu na tela com uma trajetória boa. Ken ficou
observando enquanto a bola voava em direção ao fairway,
pendendo um pouco para a esquerda, mas pousando numa posição
perfeita para, na próxima tacada, conseguir chegar ao green. Ela
franziu a testa. “Foi bom? Como é que caiu tão longe do buraco?”
“Foi excelente para um primeiro swing. Tudo bem que você
pendeu um pouco pra esquerda, então a gente tem que consertar
isso. A velocidade foi meio baixa. Trajetória decente. Agora você vai
bater pra alcançar o green.” Ele a ensinou a mudar a postura e o
swing, depois recuou.
Com os olhos grudados no imaginário homem pelado, Ken
mordeu o lábio inferior e ergueu o taco. Então bateu na bola.
Ela caiu no green a poucos centímetros do buraco. “Eba! Isso
foi bom, não foi? Agora só tenho que empurrar pra dentro.”
“A gente chama isso de putt. Hum, você corrigiu a curva da
trajetória, mesmo com o dog leg do campo.”
“Dog o quê?”
“Dog leg é quando o trajeto até o buraco não é reto. Nunca vi
um iniciante acertar. Consegue matar essa?”
Ela ergueu o queixo. “Claro. Gosto de golfe em miniatura. É
divertido tentar passar o moinho de vento e o chafariz.”
Nate revirou os olhos e pegou um putter na prateleira. “Aqui,
tenta este taco.”
Ken se posicionou e fez um putt perfeito. “Eba, ganhei?”
“Não tem ganhador aqui. É um jogo de quantas tacadas você
precisa para enfiar a bola no buraco. Suas estatísticas são
impressionantes. Vamos fazer de novo.”
Eles completaram o campo de nove buracos. Nate foi
computando os números, vendo-os melhorar a cada buraco. Tentou
ajeitar os óculos no nariz, mas lembrou que estava de lente.
Estranho. Era quase como se ela tivesse um swing nato. O que era
impossível, claro. Talvez um pouco de sorte de principiante? Mas o
computador não mentia.
“Nate? A gente pode ir embora agora?”
“Já vai.” A batida perfeita do taco na bola era um dom desejado
pela maioria dos golfistas, mas que muitos nunca alcançavam. A
forma como ela pegava o taco ainda era horrível. Mas o que
aconteceria se usasse mais força e praticasse mais? Iria melhorar
ou piorar? Nate procurou o lápis para fazer uns cálculos rápidos,
mas não havia nada no bolso do jaleco.
“Nate, cansei de jogar golfe. Quero ir embora.”
Ele despertou do devaneio. “Certo. Escuta, alguma chance de
você tirar a quarta-feira e me encontrar no campo de golfe? Queria
te levar a um campo de verdade.”
Kennedy estreitou o olhar, desconfiada. “Quantas sessões eu
tenho que fazer até a gente ficar quite?”
“Três vezes no campo. A gente pode ir num sábado ou domingo
de manhã, se você preferir.”
“Quarta tá bom. Posso mudar meus compromissos.”
“Excelente.”
“Você tem roupas de golfe decentes?”, perguntou ela. “Não
compramos nada hoje.”
“Na verdade, meu guarda-roupa de golfe é de altíssima
qualidade, só roupa de marca.”
Ela se animou. “Legal. Sempre quis usar o vestidinho de tênis
que vive esquecido no meu armário.”
Nate a seguiu, tentando não gemer. Ótimo. Ver a saia curta
subir toda vez que ela se inclinasse para uma tacada no mínimo iria
matá-lo. Kennedy estava procurando a alma gêmea dele. Gamar
nela não iria ajudar ninguém. Os dois tinham uma bagagem
semelhante e se entendiam num nível diferente. E ele queria
transar com ela.
Muito.
Isso não significava que dariam um bom par ou que ela
estivesse interessada em algo mais. Sim, ele podia jurar que, em
algumas situações, ela também tinha sentido a conexão entre os
dois e teve vontade de beijá-lo. Mas os momentos logo se esvaíam,
e Kennedy não era do tipo que seguia um impulso caso ele
afetasse sua carreira. Ele precisava se concentrar no plano original
de encontrar uma mulher adequada. Uma que quisesse sossegar,
dividir a vida com ele e amar quem ele era — nerd e tudo. Uma
que ficasse e não se sentisse tentada pelo primeiro bonitão que
aparecesse.
“Tudo bem?”, perguntou ela.
Ele forçou um sorriso. “Tudo. Na verdade, tudo ótimo.”
A risada de Ken acalmou sua alma enquanto saíam.
“Você vai se mudar?”
Nate fez uma careta e manteve a cabeça baixa, passando uma
fita para fechar a caixa e identificando-a com um marcador preto.
“Avisei ontem. Arrumei uma casa pequena para alugar em Verily,
perto da Kinnections. Acho que nós dois precisamos de um pouco
de privacidade.”
“Não me importo que você traga mulher aqui, cara.” Connor
andou de um lado para o outro pelo quarto bagunçado. “O que
você quer que eu faça? Não consigo bancar este aluguel sozinho.”
“Não se preocupa, eu pago. Não é justo eu te deixar na mão de
uma hora pra outra.”
“Sou capaz de me sustentar.”
O ressentimento na voz do irmão fez Nate erguer o rosto. “Sei
disso. Não tem nada a ver com você. Só não quero que minha
futura esposa pense que sou um baderneiro que gosta de sair com
o irmão e encher a cara.”
“É, te ensinei direitinho. Cadê seus óculos? Você fica cego sem
eles.”
“Estou de lente.”
Connor levou um susto. “Você pôs uma coisa no olho?
Caramba, está levando a sério mesmo esse negócio de
transformação. A lente não irrita o globo ocular?”
Nate tentou não estremecer com a ideia. Malditos irmãos mais
velhos. “Não. E cala a boca, ou vou acabar desistindo. Não sinto
nada.”
“Ótimo. Escuta, Ned…”
“Nate.”
“Desculpa. Estou preocupado com você. Acho que você está se
concentrando muito nessa coisa de uma mulher só, e pode acabar
sendo uma decepção muito grande. Por que você não pega leve
por um tempo? Leva umas mulheres pra cama. Aposto que
consegue muita coisa boa com esse visual novo.”
Nate estudou o irmão. Em geral, Connor fazia o tipo
descontraído, que não esquentava a cabeça e só queria saber de
sexo. Mas hoje, por trás das palavras, havia algo mais sombrio. Ele
simplesmente parecia infeliz. Nate abrandou o tom de voz. “Você
não cansa de só transar? Não quer mais da vida? Mais de…
qualquer coisa?”
O irmão levou um susto. “Quem iria querer mais do que uma
boa transa?”
“Nem todas as mulheres são como a mamãe.”
Connor parou de andar de um lado para o outro. Seu rosto
ficou vermelho. “Não fala da mamãe. Você nem sabe o que
aconteceu.”
“Ela abandonou a gente. Não significa que toda mulher vai
fazer isso.”
A raiva se aplacou, mas o que ficou era só uma sombra do
irmão que ele conhecia. O que estava acontecendo? Olhos
castanhos vazios o fitavam, sem expressão. “Sim. Significa, sim.”
“Esquece.” Nate agarrou a última caixa e passou a fita. Sabia
por experiência própria que Connor era bem versado no discurso
do “formar família e ter filhos”. Ele citava os erros de seus próprios
pais, as estatísticas de divórcio e o impulso biológico inato da
espécie masculina para procurar muitos parceiros. Deprimente. O
irmão tinha razão em muitas coisas. Analisados de forma racional,
amor e casamento eram conceitos que não tinham o menor sentido
lógico; as taxas de fracasso eram muito maiores que as de sucesso.
No entanto, ali estava ele, um cientista que dedicara a vida a
análises racionais, louco para arriscar a sorte, enquanto Connor se
recusava a se magoar de novo. “O caminhão vem esta semana.
Deixei bastante comida na despensa. Você vai ter uma boa folga
até começar a receber pelo trabalho novo.”
“Não preciso da sua caridade, cara.”
“Não tô fazendo caridade.” Depositou a última caixa no alto da
pilha e enxugou a testa. “Você bancou a minha faculdade e me deu
tudo que eu precisava. Deixa eu pagar o aluguel por um tempo.
Que merda, quando você virar supervisor, vou te fazer me pagar
um bife num restaurante.”
Connor abriu um leve sorriso. “Pode ser de costela?”
“Filé-mignon no Delmonico’s. No mínimo.”
O irmão grunhiu. “Tanto faz. Quer sair hoje à noite? A gente
pode encontrar o Jerry no bar, tomar umas e depois ver True
Blood.”
“Não posso. Vou encontrar a Kennedy na academia.”
“De novo? Que história é essa de malhar tanto? Tem certeza
que não tá pegando?”
Nate reprimiu a raiva diante das palavras grosseiras de Connor.
“Tenho. Ela tá só me ajudando a encontrar o melhor em mim. Vou
conhecer um grupo de mulheres num coquetel, na semana que
vem, e ela quer ter certeza de que estou preparado.”
“Preparado? Te preparei muito bem, cara. Meus conselhos são
os melhores.”
“Talvez pra você”, murmurou. A memória dos choques da
coleira no bar ainda o fazia se contorcer. Aquilo é que era terapia
pesada. “Quero mais do que um caso de uma noite só. Quero uma
coisa de verdade. É pedir muito?”
Connor virou as costas. “Cê que sabe. É você que vai se
afundar.”
A porta bateu atrás dele.
Nate soltou um gemido. Droga. Não queria magoar Connor nem
o insultar. Só precisava ser ele mesmo e deixar de ser uma cópia
do irmão. A culpa consumiu suas entranhas, mas logo ouviu a
porta de fora se fechar e soube que o irmão tinha saído.
Provavelmente tinha ido ao bar da esquina, afogar as mágoas e
falar mal do ingrato irmão mais novo.
Nate olhou para o relógio. Tinha pouco tempo até a hora de
encontrar Kennedy para a aula de zumba. Teria que fazer as pazes
com Connor depois. Talvez levar o irmão para jantar e passar um
tempo com ele. Vestiu uma calça de moletom e uma camiseta e
calçou os tênis. Em seguida, olhou para o espelho.
Engraçado, parecia… normal. Até quase atraente. Seus olhos
tinham ficado mais interessantes sem os aros grossos, e o
cavanhaque que tinha desprezado e queria raspar caíra muito bem.
Entrara na rotina de puxar um pouco de peso depois da aula de
zumba, enquanto Kennedy acompanhava o treino, e os músculos
que ostentava já pareciam um pouco mais fortes e definidos.
Havia sido oficialmente considerado socialmente aceitável. O
grande coquetel estava marcado para sexta à noite. Todas as três
mulheres da Kinnections o tinham declarado pronto para passar de
nível.
Agora bastava não trocar os pés pelas mãos como um Fred
Flintstone, e a vida seria perfeita.
Pegou o casaco e saiu pela porta. Devia ter vergonha de
desejar que Kennedy Ashe fosse sua Wilma, pronta para aceitá-lo e
amá-lo, mesmo com todas as suas falhas visíveis.
Eles não viviam na idade da pedra. E havia muito tempo que
aquele desenho animado não passava mais na televisão.
Nate ignorou a dor no coração e disse a si mesmo que estava
ansioso pelo coquetel.
10

Nate observou avidamente enquanto Kennedy saltava do carro,


o vestido para jogar tênis curto balançando na brisa da primavera.
Achou que ela mandaria uma mensagem se desculpando, em vez
de aparecer numa manhã, no meio da semana, no campo de golfe.
Seus quadris rebolaram com um atrevimento inato, próprio do seu
corpo, e ela parou na frente dele. As unhas vermelhas criavam um
contraste sensual com o vestido branco.
“Achei que você não vinha.”
Ela arqueou uma sobrancelha dourada. “Não quebro minhas
promessas. Estou pronta para jogar golfe.”
Nate quase riu do desdém com que ela pronunciou a palavra.
Ficou animado e, de repente, estava ansioso pelas horas que
estavam por vir. Que idiota.
“Tô ajudando outra pessoa com o swing, mas ele tá atrasado.
Depois alcança a gente. Vamos para o campo.”
Ele pegou os tacos, levou-a até o carrinho e dirigiu até o
primeiro tee. Os pinheiros e abetos se emaranhavam em meio a
acres de um verde reluzente, sob um céu limpo. O ar tinha uma
pitada de frio, mas o sol estava forte e alegre. A voz abafada de
Ken flutuou no vento. “É tão bonito. E silencioso.”
“No meio da semana é sempre melhor. A gente pode relaxar e
jogar um pouco. Nada sério.”
“Você já pensou em virar profissional?”
Ele negou com a cabeça e baixou os tacos. “Não, não me
interessa. Mas gosto de ajudar os outros, e estou sempre tentando
diminuir o número de tacadas. É um desafio mental, mas também
é uma coisa que me relaxa. Aqui, limpo a cabeça.”
Kennedy respirou fundo e sorriu. “É, acho que sei o que você
quer dizer. Estou sempre focada na minha próxima tarefa. Mesmo
sozinha, esqueço o que é só ser.”
“Deve ser difícil tentar trazer o amor para o mundo.”
Ela franziu a testa. “Tá zombando de mim?”
“Não. Acho que você se dedica a um poder maior do que eu e
os meus foguetes. Ajudo as pessoas a irem para o espaço. Você
ajuda as pessoas a encontrarem o amor.”
Ela recuou, surpresa. E os lindos olhos cor de uísque se
suavizaram. “Obrigada.”
“De nada. Lembra da pegada que eu falei?”
“Assim?”
Ele levou alguns minutos repassando os princípios e as regras
do jogo. “Este taco é para a tacada de approach. Sabe onde está o
alvo?”
“Ah, posso mandar a bola para aquela praia bonita lá?”
“Não, aquilo é um perigo. Areia. Se for bonito, evite a todo
custo.” Ele apontou para a direita. “Lá, tá vendo a bandeira?”
“Aquilo fica a um milhão de quilômetros!”
“Você não vai chegar na primeira tacada. Mira naquela direção
e vai se aproximando aos poucos. Cada tacada é um passo. Agora
quero me concentrar no seu swing natural. A gente aprendeu
muito com o simulador, mas aqui é diferente. Lembra de não tirar
os olhos da bola.”
“Olá, Channing Tatum pelado.”
“Obrigado pela imagem. Acabei de vomitar um pouco.”
A risadinha o divertiu mais que irritou. Ken ergueu os braços
atrás da cabeça, girou o corpo com elegância e impulsionou o taco
para a frente, completando um belo arco.
A bola voou numa rotação perfeita e caiu na beirada do fairway.
Muito perto do green.
Como ela conseguiu fazer isso?
“Ai, droga, que horrível! Falei que ia ser um desastre.”
“Ken, foi uma tacada muito boa. A maioria dos homens para
quem dou aula não consegue fazer isso nem com semanas de
treino. Você andou praticando?”
Ela bufou. “Com o quê? Escuta, a gente precisa falar de uma
coisa séria. Achei que você tinha dito que suas roupas de golfe
eram de marca. Quando você vai começar a me ouvir quando o
assunto é o seu guarda-roupa?”
Nate ignorou, estudou a tacada e fez alguns cálculos em
silêncio. Como Ken conseguiu pegar na bola em cheio na primeira
tentativa? O swing dela era fora de série. Desta vez, achou um
lápis no bolso, pegou a cartela de pontuação e rabiscou umas
contas. Ela continuava com uma ligeira tendência para a esquerda,
mas aquilo era fácil de ajustar.
“Terra para Nate.”
“Oi?”
“Essa bermuda laranja. Isso é um crime contra a natureza. Está
assustando os passarinhos.”
Ele ergueu o rosto, fazendo cara feia. “Tá de brincadeira? Essa
bermuda é da coleção do Rickie Fowler. Custa uma fortuna.”
“Ricky quem?”
“Um dos melhores golfistas do mundo.”
Kennedy revirou os olhos. “Pelo amor de Deus, por que ele
desenha roupas se joga golfe? Jogadores de golfe têm o pior senso
de moda do mundo. Você não pode usar isso de novo.”
“Tá bom.”
“Sua vez, certo?”
“É.” Ele acalmou a mente e a respiração, e deu sua tacada de
approach. Droga, ia acabar ficando uma tacada acima do par, se
não consertasse a jogada no próximo swing. A bola por pouco não
caiu no obstáculo e aterrissou no rough, perto da de Kennedy.
“Eba, você mandou bem. Legal, estamos juntos.”
“Vamos.”
Eles seguiram até o próximo buraco. Desta vez, Nate estudou a
forma como ela posicionou o corpo. O movimento com que girava o
taco era lindo, um arco gracioso até tocar a bola. Em geral, as
mulheres quase nunca tinham força suficiente para levar a bola
longe, muito menos conseguiam manter os olhos tão fixos no alvo.
A tacada cortou o ar e a bola caiu bem ao lado do buraco.
Não. Podia. Ser.
Ele esbugalhou os olhos. Ken fez um beicinho capaz de rivalizar
com qualquer estrela de cinema. “Ahhh, errei.”
Nate se virou para ela, espantado. “Errou? Você vai encaçapar
na próxima tacada. Conseguiu um par três.”
“Isso é bom?”
“É quase impossível para um iniciante. Pelo menos é o que eu
achava.”
Ela abriu um sorriso imenso e fez uma dancinha. A saia girou,
revelando coxas bronzeadas e musculosas e uma bunda linda. As
meias brancas e o tênis lhe davam um ar juvenil. Os seios cheios
apertados contra o vestido balançavam ao ritmo da comemoração.
Ele praguejou em voz baixa e mordeu a língua de propósito. A dor
súbita o trouxe de volta a si.
Havia alguma coisa estranha. O que ela tinha que a maioria das
pessoas que jogavam golfe pela primeira vez não possuíam? Como
conseguia preparar a tacada com tanta perfeição, sem tensionar o
corpo, e mandar a bola tão longe? “Sua vez!”, cantarolou ela.
“Tá bom.” Dessa vez, a bola fez um arco curto, bem longe do
green, e caiu na armadilha de areia.
“Ah, que droga. Isso é ruim, né?”
Nate sentiu a raiva borbulhando lá dentro. “É, bem ruim. Sua
vez. Usa o putter.”
“Legal, gosto mais do pauzinho curto.” Ela deu uma reboladinha
e, com uma tacada delicada, matou a bola. “Eba, consegui!”
“Que bom pra você.”
“Como você vai sair daquele tanque de areia?”
“Olhe e aprenda.” Em geral, era um mestre em armadilhas de
areia, mas desta vez precisou de duas tacadas para sair. Quando
finalmente matou a bola, começou a se perguntar se aquilo era
uma pegadinha.
O pesadelo continuou. Nate testemunhava Kennedy matar cada
buraco sem dificuldade, o swing sempre preciso, o par sempre
perfeito, enquanto ele lutava com o próprio jogo. Ela foi ficando
cada vez mais confiante, e ele cada vez mais irritado por estar com
uma ereção imensa dentro da cueca e uma dor de cabeça.
Na metade do jogo, Nate não aguentava mais.
“Acho melhor parar. É sua primeira vez num campo de verdade,
não quero que fique cansada”, anunciou.
“Boa ideia. Ei, não foi tão ruim quanto achei que seria. Acho
que posso repetir.”
“Genial”, comentou Nate, mal-humorado.
Eles entraram no carrinho e deixaram o campo. Nate pensou
em voltar dali a uma hora e terminar o jogo. A tensão sexual devia
ter mexido com ele. Mandou uma mensagem rápida para Wolfe
dizendo que eles teriam que remarcar a aula daquela semana e
decidiu ir para o trabalho mais cedo.
“Nate?”
“O quê?”
“Você sempre quis ser engenheiro aeroespacial?”
A mudança de assunto o trouxe de volta ao presente. “Não.
Queria ser super-herói. Sempre achei que podia melhorar muito a
caverna do Batman e que o Batmóvel precisava de uns ajustes.”
Aquilo lhe rendeu outra rodada de risos roucos. “Aposto que
sempre foi inteligente.”
“É. Ficava entediado muito rápido na escola, então eles me
pularam de ano. E quando apresentaram conceitos matemáticos
mais sofisticados, claro que entendi exatamente o que queriam
dizer. Nunca tive dificuldade e estudava fórmulas no tempo livre.
Então, em vez de virar o próximo Batman, decidi ajudar a levar o
homem ao espaço. Com o desmonte do programa da Nasa, passei
para o setor privado, que queria abrir o turismo espacial para todo
mundo. Bilionários começaram a montar as próprias empresas, e
voltei para Nova York.”
“Connor morava aqui?”
“Morava, minha família é da região de Westchester, então era
uma oportunidade de morarmos no mesmo estado. Sentia saudade
do meu irmão. É a única família que me resta.”
Ela assentiu. “Sempre quis ter irmãos. Por isso sou tão próxima
de Kate e de Arilyn. Nos conhecemos na faculdade, ficamos amigas
e hoje elas são a minha família.”
“E os seus pais?”
O rosto de Ken ficou sombrio, apagando por um instante a
alegria de seu sucesso no jogo. “Não nos falamos muito. É melhor
assim.” Ele assentiu e não fez mais perguntas. O ronco suave do
motor do carrinho interrompeu o silêncio. “Sei que você estuda
propulsão, mas o que exatamente está tentando descobrir? Você
foi contratado para construir um foguete específico?”
“Não. Estamos procurando maneiras mais eficientes de criar
naves espaciais. Estou trabalhando numas fórmulas novas pra
desafiar as ideias atuais. Uma coisa chamada equação de empuxo.”
“A equação de empuxo depende do fluxo de massa que passa
pelo motor e da velocidade de arranque, certo?”
Nate estreitou os olhos. Kennedy parecia alguém que tinha
acabado de dizer que gostava de vermelho. “Trocou a Vogue pela
Science Today?”, perguntou, casualmente. Estava com medo de
assustá-la depois do que tinha acontecido na outra noite, mas,
meu Deus, aquela mulher estava tentando matá-lo.
“Pesquisei sua empresa na internet para juntar alguma
informação sobre o seu trabalho.”
O coração dele parou. Não havia ninguém no mundo que
jamais se importara o suficiente para descobrir o que ele fazia o dia
todo. Sua garganta ficou seca. “Por quê?”
“Queria ter uma ideia de quem você era. Para achar a mulher
certa, claro. A carreira é uma parte importante da sua vida e das
expectativas para a sua futura esposa.”
Ele afastou a estranha mistura de emoções que o atravessou.
“Sou só o nerd atrás do bloquinho de anotações.”
“Nate?”
Ele parou o carrinho na área principal. “O quê?”
“Nerds são subestimados.”
A conexão entre os dois o atingiu feito um soco, deixando-o
sem ar. Filha da mãe. Toda vez que tentava se controlar, ela o
nocauteava em cheio. Estava com uma expressão gentil,
encarando-o como se o desejasse, mas não desejasse desejá-lo. A
cabeça de Nate girava, e seu pau doía. De repente, não se
importava mais com certo, errado ou racionalidade. Aproximou-se,
inspirou o perfume inebriante e segurou o rosto dela com ambas as
mãos.
“Você não pode falar isso e achar que não vou te beijar, Ken.”
Cobriu os lábios dela com os seus, e Kennedy soltou aquele
gemido abafado que ele podia apostar ser o som que ela fazia
quando tinha um orgasmo. Ela entreabriu os lábios, e ele enfiou a
língua bem fundo, mergulhando em sua essência, entrando e
saindo como desejava fazer entre suas coxas. O sol batia, os
pássaros cantavam, bolas de golfe voavam, pessoas conversavam,
e nada mais importava, só o toque, o gosto e o cheiro dela.
Ela o beijou de volta. Acariciou sua língua com a dela. Retribuiu
tudo.
Mas logo recuou, os olhos arregalados. O lábio inferior estava
ligeiramente inchado e brilhando com a umidade. “Não faça isso.”
Nate quis rir da reprimenda, mas estava excitado demais.
“Desculpa. Mas não me arrependo.”
“Estou organizando um coquetel, droga. Na esperança de
encontrar uma esposa pra você. Vamos fingir que isso nunca
aconteceu, porque eu te juro, Nate, nunca mais vai acontecer.
Entendido?”
Os olhos cor de âmbar brilharam com uma ira e uma paixão
que ele estava louco para compreender, mas fez a coisa certa e
assentiu. “Entendido.”
Kennedy saltou do carrinho num borrão de tecido branco e pele
nua. “Vejo você na sexta. No coquetel.”
Nate não respondeu. Só ficou assistindo-a se afastar,
perguntando-se se já havia encontrado alguém como ela.
Naquela sexta, Nate entrou no restaurante Cosmos pronto para
enfrentar um pelotão de fuzilamento.
O pequeno grupo de mulheres estava reunido no canto,
bebendo vinho e conversando como se fossem amigas, e não
adversárias prestes a competir pela atenção dele. Não que Nate se
sentisse como um prêmio. Na verdade, seu estômago embrulhava
diante da ideia de ter que conduzir uma conversa segura e
interessante com estranhas e, em seguida, escolher uma com
quem sair. Só podia estar louco quando concordou com aquilo. Seu
olhar se voltou para o objeto de seus pensamentos, sonhos e,
ultimamente, fantasias. Vestia um paletó de tweed amarelo que
parecia feito sob medida e uma microssaia que era realçada pelas
sandálias amarelas combinando. A tornozeleira de ouro piscou para
ele, e o cabelo exuberante escorria em mexas loiras e marrons. Ela
caminhava pelo salão como um vaga-lume: brilhante, rápida e
impossível de ignorar.
Desde o dia em que tinham jogado golfe, Nate se concentrara
no evento iminente e canalizara a energia para o futuro real. Com
uma mulher com quem se casaria, teria filhos e amaria até que a
morte os separasse. Sua cabeça agora estava decidida a seguir
apenas uma regra: Kennedy Ashe era só a sua consultora de
relacionamentos.
Se ao menos ele conseguisse fazer a cabeça de baixo obedecer
essa regra também…
Nate se aproximou dela. “Oi.”
Ken sorriu. “Tudo bem?”
“Tudo zen.”
Ela riu. O som profundo e rouco o acariciou em todos os
lugares e provocou uma explosão de calor. “Não vai amarelar
agora, hein! Essas mulheres foram escolhidas a dedo. São
simpáticas e estão morrendo de curiosidade para conhecer você.
Vou te apresentar para todo mundo primeiro, depois, acompanho
cada uma delas para uma mesa privada, assim vocês conversam
sozinhos. Você tá ótimo.”
“Obrigado.” A calça cinza-escuro e a camisa de seda tinham
uma elegância simples que o agradava. E os sapatos eram o
máximo. Nunca tinha considerado couro italiano grande coisa, mas
agora não sabia se jamais conseguiria usar outro par. “Você
também.”
Ela abriu a boca para responder, mas um cara grande a
arrebatou num abraço apertado. Ele desceu as mãos
desavergonhadamente até a bunda de Ken. Um impulso violento
surgiu dentro de Nate feito um motor de carro velho que se recusa
a pegar, e foi preciso um esforço tremendo para não arrancar as
mãos do sujeito dali.
“Oi, gata. Que horas você termina? Quer tomar alguma coisa
depois?”
Ela respondeu com um olhar sedutor e balançou a cabeça.
“Desculpa, hoje não posso.”
“Muito trabalho e nenhuma diversão, e a mulher acaba ficando
insatisfeita, Ken.”
“Fale por você, Ron.”
Ele abriu um sorriso imenso que irritou Nate. “Tô na cozinha.
Se quiser fazer uma pausa, dá uma passada lá.” Deu uma
piscadinha. “Prometo não encher sua roupa bonita de massa de
pão desta vez.”
“Promessas, promessas”, cantarolou ela. O sujeito saiu com
uma cara idiota de cafajeste e foi abrindo caminho entre as
pessoas. Com sua altura e peso, não tinha dificuldade em se mover
na multidão, mas estava claro que era um bronco egocêntrico. Sem
dúvida, um valentão na época do colégio. Ken afastou os olhos das
costas dele e voltou a si. “Certo, pronto para conhecer as
meninas?”
“Quem era?”, perguntou Nate.
Ela piscou, confusa. “Ron? Ah, trabalha na cozinha. A gente faz
muitos coquetéis aqui.”
Nate manteve a calma. “Não gostei do jeito como ele falou com
você.”
Seus olhos dourados se arregalaram de espanto. “Ele é
inofensivo. Trata todas as mulheres assim. Parece alguém que você
conhece?”
A carapuça serviu direitinho. Nate mudou o peso de perna.
Lembrou de todos os comentários terríveis que já tinha feito sem
pensar. Quantas vezes tratara as mulheres como objeto sob a
orientação equivocada do irmão? Mas Connor não tinha culpa. Nate
nunca parara para refletir sobre como as pessoas gostariam de ser
tratadas. Talvez fosse tão egoísta quanto o irmão.
“Você não merece homem nenhum te depreciando, Kennedy.
Nem eu.”
Sua expressão se suavizou e, de repente, era como se eles
estivessem sozinhos numa bolha quente e à deriva. “Então ainda
bem que tenho meu aparelhinho de choque.”
Sorriram um para o outro, e ele esqueceu das mulheres à sua
espera, uma das quais poderia ser sua futura esposa. Será que ela
também tinha esquecido?
Ken pareceu pressentir seus pensamentos e balançou a cabeça.
“Já pedi seu Darth Maultini. As mulheres que você vai conhecer
hoje são Mary, Sue, Vera e Sally. São todas profissionais com
diploma universitário e bom senso de humor. Duas delas gostam de
golfe. Uma entende de física. Não se preocupe com qualidades ou
desvantagens agora. Basta conversar, se divertir e ver se percebe
alguma conexão. Lembra das regras?”
“Não falar de idade nem partes do corpo, não perguntar sobre
o futuro nem julgar antes de uma conversa mais longa.”
“Excelente. Pronto?”
Ele fitou a mulher que queria e mentiu.
“Pronto. Vamos.”
Nate respirou fundo e se embrenhou na multidão.
***
Kennedy ficou no canto do salão, acompanhando, mas também
dando a Nate a privacidade e o apoio de que precisava. Por
enquanto, tudo bem. Todo mundo parecia estar se divertindo, e ele
já estava no terceiro encontro privado. Ela percebeu que Mary era
a melhor opção e torcia para que Nate concordasse. Engraçado,
nunca teve tanta dificuldade em organizar um coquetel. Toda vez
que filtrava as opções, alguma coisa na mulher a incomodava. No
mínimo estava concentrada demais no êxito, por causa do
treinamento intenso das últimas semanas. Ia ser bom para os dois.
Estavam provavelmente ficando grudados demais, o que provocava
sentimentos estranhos. Impulsos sexuais, por exemplo.
Um arrepio correu sua pele. Quando Ron foi embora, ela notou
o lampejo primitivo do temperamento masculino nos intensos olhos
verdes de Nate. Quase como se estivesse com ciúmes e não tivesse
gostado de ver Ron tocá-la. Mas o que mais a perturbara fora a sua
própria reação. Kennedy gostou. A ideia de Nate tentando lhe dar
uma lição e se concentrando com tanta ferocidade no prazer dela a
acendeu como um dos foguetes com que ele trabalhava. E a
imagem do cientista racional perdendo a paciência a deixou
completamente excitada.
Talvez fosse hora de se concentrar na própria vida amorosa. Ou
na ausência dela. Uma noite com Ron iria acalmar sua sede, mas
ela precisava de um encontro de verdade, com possibilidades.
Quando fora a última vez em que experimentara aquela pequena
chama de antecipação por um homem? Não havia nada tão
emocionante quanto a primeira chama da atração sexual, o
primeiro beijo, a energia de cair na cama e esperar por… mais.
Deu um gole no pinot noir e observou Nate. Estava se saindo
bem. Quando entrou no restaurante, as mulheres se animaram,
apreciando-o avidamente. Nate era a sua My Fair Lady perfeita:
transformado, evoluído e pronto para encontrar o amor. Movia-se
com uma graça predatória, o olhar fixo em cada uma das mulheres
com quem conversava, como se ela fosse o seu universo e ele não
precisasse ir mais a lugar nenhum.
Os encontros individuais foram melhores ainda. Linguagem
corporal expansiva, e ele estava obviamente usando frases
completas, e não respondendo com monossílabos. Sue aproximou
a cadeira um pouco e jogou o cabelo de lado, enrolando um
cachinho no dedo, num flerte evidente de uma mulher que quer
pegar um homem. Nate também parecia impressionado com ela.
Em nenhum momento desviou a atenção. Ela ria e tocava seu
braço. Ele parecia gostar.
Kennedy estalou a língua e considerou o par. Sue adorava golfe,
e o pai era cientista, então os dois tinham uma base forte de
interesses comuns. Ainda assim, ela tinha um jeito meio recatado,
além de às vezes poder ser meio esnobe. Perguntou-se se bastaria
um carinho da língua de Nate para ela pular fora. Ou se talvez
condenasse o comportamento questionável do irmão dele. Mary
tinha um lado transgressor que traria um equilíbrio melhor a Nate.
Talvez devesse sussurrar sua opinião no ouvido dele. Ninguém
saberia.
Kennedy congelou na cadeira. O que estava pensando? Regra
fundamental da consultoria de relacionamentos: oferecer as
possibilidades e deixar os clientes escolherem. De repente, a voz
assustadora dos filmes Jogos mortais surgiu na sua cabeça. “Faça
sua escolha.” Nunca devia ter visto aquela maldita maratona da
meia-noite.
Nate levantou, sorrindo, e acompanhou Sue de volta ao grupo.
As mulheres pareceram fazer uma piadinha, e todo mundo riu, e
então Mary enfim foi escoltada para a mesa reservada. Kennedy
repassou suas mensagens no celular, tomou um gole do vinho e
esperou a mágica acontecer entre os dois. Sempre tivera ótimo
instinto, e estudara Nate mais do que qualquer outro cliente. Mary
era a escolha certa.
Quando ele terminou as conversas individuais, Kennedy
caminhou até o grupo. Ela falou um pouco com as mulheres,
assegurou-as de que Nate ficara impressionado com todas e as
acompanhou até a porta do restaurante. Ninguém precisava ficar
esperando ali pela decisão dele. Constrangedor. Kennedy pediu
outra bebida e sentou com Nate num canto aconchegante.
“Como foi?”, perguntou.
“Bom.” Ele franziu a testa. “Muito bom. Acho que não errei
nenhuma vez. E gostei delas. Todas do meu tipo.”
“Que bom! Teve alguma com quem você sentiu uma conexão
especial? Pra gente marcar um encontro?”
“Teve. Sue.”
Ela fez uma pausa. “E a Mary?”
“A Mary também é legal. Mas queria sair com a Sue.”
Ela engoliu a objeção. “Maravilhoso. Que bom que você sentiu
uma conexão. Posso marcar alguma coisa neste fim de semana.
Você escolhe o lugar. Nada de evento de trabalho ou de levar a
garota pra sua casa. Tem que ser um lugar reservado o suficiente
para vocês se conhecerem. E também nada esquisito, tipo boliche.”
“Tá com medo que eu marque uma sessão de golfe à meia-
noite?”
“Talvez.”
Ele sorriu. Seu olhar foi atraído pela curva exuberante do lábio
inferior de Ken. Ela reprimiu o impulso de tocar seu cavanhaque.
Lembrou-se da aspereza deliciosa contra o rosto quando ele a
beijou. Lembrou-se da força da sua língua, a pressão de seus
lábios, e o sabor da fome masculina crua. Nate franziu a testa,
fingindo pensar seriamente no assunto. “Sue adora golfe, então
talvez não se importe.”
“Nate.”
“Tô brincando. Dou conta de um encontro. E as outras?”
“Vou deixar claro que você está aberto a sair com uma delas, se
não der certo com a Sue, e confirmar como ficou impressionado
com todas. Também vou redobrar meus esforços para encontrar
um par para cada uma.”
“Essa parte é difícil, né? Como consegue não ferir os
sentimentos delas?”
Ken deu de ombros. “Sou boa no que faço. Já fui rejeitada
tantas vezes que isso se tornou meu mantra e minha cruz. Tenho o
cuidado de ter clientes confiantes e de deixar claro que acredito
neles. Tudo o que fazemos na Kinnections gira em torno de ajudar
as pessoas a lidarem com a rejeição de uma forma saudável, sem
deixar isso destruí-las.”
Nate sorriu. “O que você sabe de rejeição? Não imagino um
homem vivo que pudesse rejeitar você.”
Sentiu uma pontada de dor. Ignorou. “Você não me conhecia há
dez anos.”
Um dedo gentil levantou seu queixo. Assustada, Ken fitou as
profundezas infinitas dos olhos de Nate. “Não preciso. Aposto que
era tão bonita quanto agora. Só não sabia.”
Ken ardeu de vontade de se aproximar e deixar-se abraçar.
Quando havia sido a última vez em que um homem a consolara
sem segundas intenções? Em vez disso, cerrou os punhos e forçou
um sorriso. “Amanhã de manhã, entro em contato com Sue, e você
pode marcar seu encontro.”
“Legal. Tenho que ir. Prometi tomar uma cerveja com Connor e
já estou atrasado.” Nate fez uma pausa. “Obrigado por tudo. Sue
parece uma mulher incrível.”
Ela o viu recuar e manteve o sorriso animado colado no rosto, a
imagem perfeita de uma consultora equilibrada e destinada ao
sucesso. E se perguntou por que seu coração não parecia
concordar.
11

Kennedy estava sentada em sua sala, divagando.


O protetor de tela piscou na sua frente com o alegre logotipo
roxo e prata da Kinnections. À sua direita, havia uma pilha imensa
de pastas com nomes e possibilidades infinitas de casais. Em geral,
entregava-se com gosto ao trabalho, a jornada de polir e
aperfeiçoar cada cliente até alcançar seu potencial máximo era
uma felicidade sem fim. Em vez disso, examinou as unhas e se
perguntou para onde Nate levaria Sue hoje.
Era o quarto encontro dos dois em apenas duas semanas.
O primeiro foi um jantar íntimo. Sue não mediu elogios para
Nate. Como era educado. Encantador. Engraçado. Inteligente.
O segundo foi uma partida de golfe. Kennedy tinha ficado
furiosa quando ligou para ele e ouviu a notícia, mas Nate jurou que
Sue tinha pedido para ir, e foi num domingo à tarde, então não
contava como um encontro de verdade. Só uma daquelas saídas
meia-boca que os homens arrumavam para testar as águas. Ela
relevou, porque Sue estava animada e tinha tomado a iniciativa.
O terceiro foi um almoço. Nate a levou para a beira do rio, onde
eles alimentaram os patos e se fartaram de frutos do mar. Ken o
elogiou pela originalidade e a capacidade de criar intimidade sem
forçar demais. Mas o quarto encontro era coisa séria. Em geral, era
um divisor de águas, o momento em que o relacionamento virava
namoro ou acabava de vez.
Para onde iria levá-la hoje? Estavam caminhando para algo
mais físico? Kennedy estava feliz pelos dois, de verdade, mas se
recusava a ver Nate magoar-se por ter ido rápido demais. A última
vez em que fora à aula de zumba, notou que o cavanhaque dele
estava perfeitamente aparado. Ele admitiu que tinha ido ao Benny
por conta própria, e, em vez de deixá-la extasiada, a revelação só a
irritou. Sentia-se de fora. Excluída. Descartada feito um lenço
usado, amassado e jogado no lixo sem nem um adeus. Nate parou
de encher o saco dela com convites para jogar golfe às quartas ou
pedindo conselhos. Imaginou que agora fosse Sue quem soubesse
tudo sobre ele. E isso era uma coisa boa. Ótima.
Pra valer.
Enfiou a mão na gaveta da escrivaninha e tirou uma garrafinha
de bebida roubada de algum hotel. Rum. Boa escolha. Abriu a
tampa, inclinou-se e deu um longo gole.
Kate entrou na sala.
A amiga avaliou a cena à sua frente, fechou a porta e se deixou
cair na cadeira. Em seguida, estendeu a mão. “Quero o Bailey’s.”
“Não sei se ainda tenho.”
“Procura direito.”
Apertou a garrafa entre os dedos por um instante e jogou para
a amiga. Kate deu um gole delicado. “Qual é o problema?”,
perguntou Ken, notando a tensão no rosto da outra.
“Cliente idiota. Casamento me deixando maluca. Preocupada
com a Gen. Robert tá com outra infecção urinária, mas tá bem,
Slade vai ficar com ele em casa hoje. O coelhinho roxo de pelúcia
dele tá desfiando, então Slade teve que passar em tudo o que foi
pet shop pra encontrar outro igualzinho. O coitado não dorme sem
ele.”
Slade tinha caído de amores por Robert, o cachorro paraplégico
que Kate tinha resgatado, e eles acabaram virando uma família.
“Quem? Robert ou Slade?”
“Os dois. Um não dorme se o outro não estiver feliz.”
“Entendi.” Kennedy suspirou. “Você sabe que posso ajudar com
o casamento. Planejo tudinho pra você, amiga, então não se
preocupa.”
“Eu sei, são só umas coisinhas irritantes, e Gen anda meio
esquisita.”
“É, queria falar com ela, mas não estou tendo tempo. Tem
alguma coisa acontecendo.”
“Ela põe a culpa no trabalho e na festa de noivado, mas acho
que pode estar abraçando coisas demais. Ir morar com David e
mudar a vida toda de uma hora para a outra? Ela costumava tomar
um café comigo, mas agora a gente não se vê mais. Me sinto
afastada.”
“A gente precisa dar um jeito de sentar sozinhas com ela. Num
lugar tranquilo. Talvez ela se abra.”
“Talvez.” Kate deu outro gole e se recostou na cadeira. Seus
olhos azuis brilhavam com uma estranha intensidade. “E você?
Como está?”
“De mau humor.”
“Comeu alguma coisa?”
“Iogurte e frutas. Mas estou querendo almoçar um wrap com
batata-doce frita. Vai me fazer feliz.”
“E o Nate? Como anda?”
Kennedy hesitou. “Bem. Está saindo com a Sue.”
“Entendi. Você devia estar empolgada. Pulando de alegria. Ele
está feliz?”
A pergunta de Kate a deixou com uma pontada de irritação.
“Eles acabaram de se conhecer, então a gente não sabe o que vai
acontecer. Só não sei se ela é a pessoa certa pra ele.”
“Hum.”
Kennedy se debruçou na mesa. “O que você quer insinuar com
esse tom?”
“Nada. Por que não acha que ela seja a pessoa certa pra ele?”
“Acho ela rígida demais, e Nate não vai se sentir confortável pra
ser ele mesmo. A gente pode ter trabalhado a aparência física e as
habilidades sociais, mas ele tem uma personalidade única e não
devia mudar só porque ela não gosta disso.”
Kate apertou os lábios. “Hum.”
“Por que você continua dizendo isso?”
“Parece que você quer protegê-lo. Sente alguma coisa por
Nate?”
Kennedy cuspiu o gole de bebida e teve um ataque de tosse.
Em seguida, enxugou os olhos. “Tá maluca? Claro que não sinto
nada por ele. Nate é meu cliente. É só que trabalhei muito nele, e
não quero que dê errado.”
“Quantas vezes já discutimos isso? Nossos clientes vão se
machucar, porque o amor é uma coisa dolorosa. Tudo o que a
gente pode fazer é preparar as pessoas e colocá-las na direção
certa. Ele pode precisar de um coração partido antes de encontrar
a alma gêmea.”
“Não sob a minha guarda”, murmurou ela.
“Passei na casa nova dele. Ele parecia feliz e bem instalado.”
Ken sentiu a curiosidade correr seu corpo. “Ele ficou surpreso
de te ver?”
“Falei que morava na mesma rua e avisei que, qualquer coisa,
era só dizer.”
“Ele fez alguma mudança na casa?”
Kate ponderou a pergunta. “Não, deixou a decoração
igualzinha, mas tem um monte de livros. Material de golfe.
Computadores. Ah, e trocou a TV e o aparelho de som, claro,
porque é do sexo masculino.”
“Típico. Você não notou nada de feminino na casa, notou?
Algum indício de que ele tenha levado Sue pra lá? Porque isso é
contra as regras que passei pra ele.”
Kate lançou um olhar estranho na direção dela. “Qual foi a
última vez que você saiu com alguém, Ken?”
Deu de ombros. “Uma semana. Talvez mais. Acho que um mês
agora.”
“Sabe por quê?”
Kennedy arregalou os olhos. “Tá substituindo a Arilyn, hoje?
Nossa, pra que pegar no meu pé agora? Andei ocupada.”
Kate esticou as pernas e cruzou os tornozelos. “Mentira. Não
lembro a última vez em que você não saiu com ninguém no fim de
semana. Você fica louca se não tiver um homem te pegando, mas
parece que tá concentrando toda a sua energia no Cientista
Construtor de Foguetes.”
“Engenheiro aeroespacial.”
Kate levantou uma sobrancelha. “Quer ele pra você?”
“Não! De jeito nenhum. Andei meio deprê, mas agora já
superei. Acho que você tem razão, tô há muito tempo sem um
homem. Preciso focar na minha vida amorosa agora, dar uma
agitada nas coisas.”
Um sorrisinho presunçoso brincou nos lábios da amiga. Como
se soubesse de um segredo delicioso, mas estivesse guardando-o
para si. “Com certeza.”
Kennedy cruzou os braços na frente do peito. “Por que isso
agora? Você sabe de alguma coisa, e é melhor falar logo.”
Kate terminou o Bailey’s e levantou. “Não sei do que você tá
falando. Vou chamar Gen para um café esta semana. Você devia vir
também.” Sua mão parou na maçaneta, e ela olhou para trás.
“Faça o que te fizer feliz. Você merece.”
Kennedy ficou encarando a porta fechada. Que diabos foi
aquilo? Ela estava feliz. Fazia tudo e qualquer coisa para ficar feliz.
Sabia que merecia a felicidade; era a regra número um da terapia.
Acreditar que você merece coisas boas e que elas vão acontecer.
Ela acreditava.
Ken pegou o iPhone e repassou a lista de contatos. Hora de se
reconectar com o mundo dos seres sexuados e ficar ainda mais
feliz. Leu um nome e pensou um pouco. Talvez. Derek era gostoso,
e ela o conhecera quando tinha ido representar a Kinnections numa
grande feira. Era um executivo poderoso, gostava de curtir a vida e
parecera interessado. Os dois tinham conversado, flertado e
trocado telefones, mas ela nunca fizera nada. Tinha ficado ocupada
demais.
Não mais.
Clicou no ícone de mensagens e mandou um SMS pra ele.
Nossa, adorava a era tecnológica. Nada de telefonemas
desconfortáveis e de ficar tentando interpretar o tom de voz do
outro. Bastava um “Topa fazer alguma coisa?”, e trocar umas
informações rápidas.
A resposta não demorou pra chegar. Em questão de quinze
minutos, arrumou um encontro para aquela noite.
Era oficial.
Estava de volta à ativa.
Nate acompanhou Sue para dentro de casa, perguntando-se
por que seu cérebro estava gritando que aquilo não era boa ideia.
O jantar tinha sido bom. Claro que ele derramou pinot noir na
camisa J.Crew novinha, mas ela resolveu pedir uma garrafa, e ele
não quis dizer que preferia cerveja artesanal ou um drinque
esquisito de martíni. Sue avaliou o cardápio como uma especialista,
pedindo um vinho para combinar com cada prato, o que foi muito
elegante. A conversa fluiu com naturalidade. A formação científica
do pai a ajudava a entender muito bem o trabalho de Nate, e,
embora ela não parecesse muito interessada, pelo menos captava
as nuances. Também adorava golfe. Era boa, apesar de um pouco
rígida e muito presa às regras, sem apreciar os toques de graça e
beleza que faziam o jogo ficar interessante. Seu swing era
tecnicamente perfeito, mas sem a capacidade natural e a
exuberância que Kennedy tinha exibido.
Não que estivesse pensando em Kennedy.
Sue estava disponível. Deixara claro que estava procurando um
relacionamento sério e que estava interessada em casar, ter filhos,
sossegar. Respeitava a carreira dele e concordava que um dos pais
tinha que parar de trabalhar para criar os filhos. Ele, claro, tinha
mudado de ideia sobre o assunto desde que entrara para a
Kinnections. Afinal, Kennedy provavelmente seria uma mãe incrível
sem nunca desistir da carreira. Outra opinião ridícula de Connor
que tinha se entranhado na sua psique. Lembrou-se de parar de
pensar em Kennedy e se concentrar em Sue. Ela votava no Partido
Republicano, acreditava em obras de caridade e era sem dúvida
uma intelectual.
Sue percorreu com os olhos o pequeno e charmoso espaço, e
uma ruga surgiu em sua testa. “Bonitinho”, disse, animada,
andando de um cômodo a outro. “Mas é temporário, correto? Você
acabou de sair da casa do seu irmão, então isto aqui é um período
de transição. Correto?”
O hábito de usar a palavra correto como uma pergunta o
irritava um pouco. Mas era muito melhor do que gírias ou
palavrões. Ele foi até a cozinha para preparar um café. “É, decidi
que precisava de um pouco de espaço. Estou feliz aqui por
enquanto.”
“Mas na hora de comprar uma casa, você pensa em Manhattan?
Verily é bem simpática, mas o centro tem mais opções de cultura e
as melhores escolas.”
“Talvez.” Sempre achara que iria morar no centro, mas nos
últimos tempos tinha se habituado à pequena cidade às margens
do rio. Melhor deixar suas opções em aberto, principalmente
porque Sue tinha fortes qualidades de liderança e gostava de
seguir com um plano. Ele notou que, fosse uma partida de golfe,
um jantar ou um telefonema, ela gostava de planejar. Ótimo,
porque ele também.
Ela deu uma risada irônica e sentou no sofá azul-claro.
“Desculpa, tenho a tendência de correr mais que as pernas. Juro
que não sou o tipo de mulher que congelou os óvulos e já está
escolhendo o enxoval.”
Ele relaxou, apertou o botão na cafeteira e sorriu. “Tudo bem.
Também sou um pouco obsessivo. Os iguais se reconhecem.” Ele
sentou ao lado dela, deixando uma distância respeitável entre os
dois. Tinham se beijado algumas vezes, mas foram beijos contidos,
mais explorações do tipo “posso continuar sem levar um tapa”. O
abraço não fora enlouquecido ou apaixonado, mas tinha sido bem
agradável. Com os cabelos castanhos encaracolados, a estrutura
pequena e os olhos escuros e sérios, Sue era interessante, sabia se
arrumar e podia ser considerada um par e tanto para alguém como
ele.
Nate se perguntou por que não parava de listar seus atributos
como um site de relacionamentos.
“Obrigada mais uma vez pelo jantar”, disse ela, baixinho. “Me
diverti muito. Faz tempo que não fico à vontade com um homem.
Sinto que você me entende de verdade e me respeita.”
“Claro. Foi ótimo.”
“Sei que é um pouco cedo, mas queria perguntar se você iria
comigo a um baile de caridade no fim de semana que vem. Meu
pai faz muito trabalho de pesquisa, como você, e o baile vai ser no
Museu de História Natural. O que você acha?”
A ideia de vestir roupa de gala, ter que participar de conversas
empoladas e passar uma noite interminável à base de salgadinhos
secos de caranguejo passou por sua cabeça. Mas era o que ele
queria, não era? A coisa real. Festas e eventos sociais com uma
namorada eram parte do pacote. “Claro. Parece divertido.”
Ela abriu um sorriso feliz e deslizou um centímetro na direção
dele. “Vai ser, se você puder ir.” Tocou seu braço. “Estou muito feliz
de ter te conhecido.”
“Eu também.”
Sue ergueu a cabeça de leve. Seus lábios eram bonitos, cheios
e delineados, só com uma sombra de batom. Até seu cheiro era
sutil, um toque de lavanda emanando da pele. “Quer um café?”,
perguntou.
Um sorriso tocou seus lábios. “Agora não, Nate. Me beija.”
Ah. Dã. Que erro! Kennedy teria dado um bom choque nele.
Afastou os pensamentos e obedeceu. Seus lábios cobriram os dela
gentilmente. Desta vez, ela abriu a boca e o convidou para mais.
Todos os livros que tinha estudado, os romances eróticos que tivera
o cuidado de ler e os testes e artigos da Cosmopolitan que
devorara se resumiam a isso. Hora de partir pra cima.
Aceitou o convite e deslizou a língua em sua boca. Sue pousou
as mãos nos ombros dele e o beijou de volta. Beijava bem, a língua
movendo-se como a dele, a pressão dos lábios não muito forte,
nem muito fraca, e os dedos de alguma forma massageavam sua
pele suavemente, sem machucar. Beijou-a por um tempo, então
recuou devagar.
Ela sorriu para ele. “Vamos para o quarto.”
O quê?
Nate olhou para Sue. Não era cedo demais? Bastavam quatro
encontros para a primeira transa? Espera um pouco, quem se
importa? Uma mulher atraente, inteligente, solteira e que gostava
dele queria fazer sexo. Droga, fazia muito tempo que não ouvia
aquelas palavras. Isso era o máximo.
“Acha que não tem problema a gente dormir junto no quarto
encontro?”
Ela piscou. Seu sorriso desapareceu. “Como assim?”
“Bem, quando assinei o contrato com a Kinnections, me
disseram nada de sexo até o relacionamento estar completamente
solidificado e decidirmos ser exclusivos.”
Sue abriu um meio sorriso e deu um tapinha em seu ombro.
“Acho que é exatamente nesse caminho que estamos seguindo. E
não vou contar pra Kinnections se você também não contar.” Deu
uma piscadinha.
“Não tenho certeza se estou pronto para me comprometer por
inteiro no quarto encontro. Você não vai estar limitando suas
opções?”
Seus olhos castanhos brilharam de irritação. “Não. Mas parece
que você está me dizendo que prefere esperar para ver se aparece
alguém melhor.”
Ops. Definitivamente um choque duplo. “Não, desculpa, não foi
isso que quis dizer. Só não queria quebrar o contrato.”
“Não ligo para o contrato, Nate. Qual é o problema aqui? Não
se sente atraído por mim?”
O suor surgiu em gotas na testa dele. Lutou contra o impulso
de enxugar. “Me sinto muito atraído por você. Você é linda.”
Ela suspirou. “Ótimo. Então acho que não tem mais o que
conversar, concorda?”
“Concordo.”
“Vamos para o quarto.”
Merda. Qual o problema dele? Claro que o beijo provocara um
leve arrepio, mas o pau estava murcho feito uma panqueca, e esse
tipo de pressão definitivamente não estava ajudando as coisas lá
em baixo. Talvez o quinto encontro fosse o empurrãozinho de que
precisava. Talvez…
Ela deu um grito.
Nate pulou do sofá, pronto para pedir desculpas, mas notou
que Sue estava apontando para a janela da frente. “Tem alguém lá
fora!”
Olhou pela janela e viu o rosto do irmão pressionado contra o
vidro, exibindo um enorme sorriso.
Graças a Deus.
Abriu a porta e o puxou para dentro. “Connor! Cara, que
surpresa! Bem-vindo, bem-vindo, entra.”
O irmão o encarou, boquiaberto com a saudação entusiasmada.
Sue se empertigou no sofá e forçou um sorriso educado ao se
levantar. Connor respondeu com um sorriso tímido. “Desculpa, não
sabia que você estava num encontro. Pensei em tomar uma
cerveja, já que Jerry me deu bolo. Espero não ter estragado nada.”
Ele se virou para Sue com um olhar cafajeste que a maioria das
mulheres na verdade achava atraente. “Muito prazer. Sou o irmão
mais velho de Nate, Connor.”
Ela ofereceu a mão, que Connor segurou e apertou animado.
“Prazer. Que surpresa agradável.”
A expressão no rosto dela dizia que a surpresa não tinha nada
de agradável, mas a moça era mais que educada. Nate se
perguntou por que ficara tão aliviado que o irmão tivesse
atrapalhado sua única chance de dormir com alguém. Talvez
estivesse sentindo necessidade de conversar com Arilyn. “Ei, legal a
sua casa. Um pouco feminina, mas decente. Então, meu amor,
como vocês se conheceram? Naquela maluquice de consultoria de
relacionamento?”
“Er… correto.”
“Acho que vou acabar tendo que experimentar isso, se for pra
arrumar uma beldade que nem você.” Connor caminhou de um
cômodo ao outro, pegou uma Sam Adams na geladeira e abriu.
Nate percebeu que sua companhia examinou as botas de
construção, a calça jeans gasta e a camiseta. Os músculos do
irmão eram evidentes, e o cabelo loiro desgrenhado dava um ar
meio roqueiro que nunca deixou a desejar, mas Sue torceu o nariz
como se tivesse cheirado algo podre.
E, naquele momento, Nate não gostou mais dela.
“Nate falou que trabalha com foguetes? Que ele veio da Nasa?
O cara é um partidão.”
“É mesmo. E você, Connor, trabalha com o quê?”
“Trabalho no ramo de construção. Sabe o prédio novo do
tribunal de justiça em Westchester? Fui chefe da equipe.”
“Legal. É ótimo ver dois irmãos assim tão… próximos.”
Connor riu e apertou o ombro de Nate. “Tudo o que ele sabe
aprendeu comigo, querida. Se é que você me entende.” Deu uma
piscadinha animada.
Sue ficou boquiaberta, horrorizada.
Nate sufocou um gemido e disse adeus à possibilidade de
qualquer encontro sexual próximo. “Sue, quer que eu te
acompanhe lá fora?”
A abordagem direta não foi boa ideia. A temperatura caiu
alguns graus sob o olhar gélido que ela lançou. “Claro. Não quero
interromper o seu tempo com a família. Falo com você amanhã?”
“É, eu ligo.”
“Certo. Prazer, Connor.”
“É todo meu, querida.”
Os ombros dela ficaram tensos ao sair. Nate fechou a porta
atrás de si e encarou o irmão. Connor deu outro gole na cerveja,
limpou a boca e sorriu. “Traçou?”
Não conseguiu conter a risada. O irmão era um clichê machista
ambulante e jamais mudaria. Que droga. Sangue era sangue, e
qualquer um que julgasse outra pessoa tão depressa não era
alguém com quem ele quisesse dormir. Connor tinha um coração
do tamanho do mundo.
“Tracei nada…”
Connor fez uma pausa. “Desculpa, cara. Estraguei tudo?”
Nate negou com a cabeça. “Não. Vamos para o Mugs. Acho que
você vai gostar de lá.”
Sorriram um para o outro e saíram.
12

Kennedy cruzou as pernas e notou os olhos do homem diante


dela se demorarem na barra da sua minissaia. Ótimo. Seu corpo
estava de volta à ativa e pronto para a guerra. Talvez resolvesse
transar hoje.
Um prêmio por ter evitado carboidratos a semana toda.
Tinha se arrumado com cuidado, ciente de que havia uma
tênue fronteira entre a sensualidade e a vulgaridade. A saia preta
talvez fosse curta e justa demais, mas a blusa vermelha Donna
Karan tinha mangas boca de sino e um decote discreto. Os saltos
vermelhos faziam o estilo “venha me pegar, se tiver coragem”. O
jogo de “mostra e esconde” era um clássico, e ela sempre ganhava.
Sempre.
Derek deslizou outra bebida ao longo do bar na direção dela.
Um magnata do setor imobiliário, já tinha feito algumas ligações e
lidava com todos à sua volta com muita desenvoltura. Usava o
cabelo bem curto, vestia um terno de três peças feito sob medida
e, neste momento, fitava-a com olhos azuis sedentos. O instinto de
tubarão e a boa aparência a divertiram, e Ken estava torcendo para
que uma conversa mais longa provasse que eles tinham algo em
comum.
“Então, como é que vai a sua cota de casamentos?” Ele deu um
gole no martíni, e lançou um olhar divertido. “Fazendo dinheiro?”
Ken escancarou um sorriso. Jamais toleraria alfinetadas na
carreira que tanto adorava. “E a bolha imobiliária anda te tratando
bem, gato?”
Ele riu. “Gosto de um desafio.” Seus olhos brilhavam. “Você
não?”
“Sempre. Por isso que vou contra a corrente todos os dias.
Encontrar amor nesta época e competir pau a pau com as
estatísticas de divórcio me faz lembrar que tenho que ser corajosa.”
“Interessante, essa teoria. Mas ainda não entendi por que você
decidiu ficar em Verily. Com todo o movimento e a grana que rolam
em Manhattan…”
Ela balançou o pé ao ritmo da música ensurdecedora. “Gosto do
clima de cidade pequena. E somos mais bem-sucedidas com nosso
nicho aqui.”
“O dia que quiser subir na vida, fala comigo. Essa beleza toda
merece uma cobertura no Upper East Side. Não um casebre no
Hudson.”
Tentou se concentrar no elogio e ignorar a crítica às suas
escolhas. Não conseguiu. “Você mal passou pela porta. Quem é
você para julgar?”
Derek se inclinou sobre ela, as narinas dilatando-se
ligeiramente. “Pretendo ver muito mais do que a varanda da frente.
A menos que você queira conhecer meu apartamento novo? Tem
uma banheira que você iria adorar.”
“Atrevido, não?”
Ele deu outro gole. “Não, só maduro. Faz tempo que não
conheço uma mulher que me intrigue tanto. Daríamos uma ótima
dupla.”
É verdade. Combinavam bastante bem. Derek parecia uma
versão masculina dela. Centrado na carreira e direto, obviamente
vivia na quinta marcha e adorava coisas bonitas. Disse-lhe várias
vezes o quanto ela o agradava, sem nunca fazê-la sentir-se um
objeto. Seu charme era potente.
Era muito diferente de Nate.
Como se o tivesse conjurado com os pensamentos, Nate entrou
no Mugs com um homem grande ao seu lado. O que estava
fazendo? Não tinha um encontro com Sue hoje? Observou-o
escolher uma mesa e o imaginou pedindo um Darth Maultini. E
depois tendo que explicar exatamente como preparar o drinque.
Ah, só podia ser o irmão dele. Mais alto e maior, usando roupas
casuais, o cabelo comprido, mas, pelas feições marcadas e
angulares, só podia ser parente.
A risada de Derek chamou sua atenção novamente. “Qualquer
outra mulher que conheço teria dado um pulo com o comentário.
Você vai me fazer suar, não vai, meu amor?”
Ela abriu um sorriso. “Como disse Thomas Paine, ‘o que
obtemos barato demais, valorizamos muito pouco; é somente a
estima que dá a qualquer coisa o seu valor’.”
“Eu me rendo. Com esse corpo e esse cérebro? Sou seu.”
Esperou a pontada de felicidade que sempre experimentava
quando conseguia encantar um homem. A conversa preliminar
perfeita em geral deixava seu corpo vivo e pronto. Em vez disso,
não sentia nada em seu íntimo, e os mamilos continuavam
inabaláveis. Uma de suas principais questões sempre foi a emoção
de fisgar a atenção masculina. Havia feito terapia e sabia que isso
tinha origem no seu passado, quando estava sempre buscando a
aprovação do sexo oposto. Quando perdeu peso, foi como se
tivesse caído numa loja de doces, e se entregar ao prazer era um
jeito fácil de esquecer os outros problemas. Homens bonitos e
prazer físico. Tem coisa melhor que isso?
Mas hoje ela simplesmente não estava no clima.
Seu olhar recaiu de novo na mesa de Nate. As bebidas tinham
chegado, e os dois estavam absortos numa conversa. Nate jogou a
cabeça para trás e riu. Connor sorriu.
“Kennedy?”
Ela deu um pulo. “Oi?”
“Tenho que atender essa ligação, só uns minutinhos. Tudo
bem?”
“Claro. Espero aqui.”
Derek saiu do bar com o celular no ouvido, latindo instruções
para o assistente ou o sócio. Bem, seria ridículo não ir até lá, dizer
“oi”. Se apresentar a Connor. Não ia levar mais que um minuto.
Pegou a bebida, desceu do banco e caminhou até a mesa deles.
“Oi.”
Nate olhou para cima. Seus olhos se iluminaram enquanto
admirava a presença dela, mas era mais que um elogio. Ele parecia
enxergar lá dentro, além da forma física da qual ela tinha tanto
orgulho. “Oi.”
“Achei que você tinha um encontro com a Sue.”
“E tive. Está com as meninas?”, perguntou.
“Não, num encontro.”
Os lábios de Nate se contraíram. “Ah. Que bom. Este é meu
irmão, Connor. Connor, esta é Kennedy, da Kinnections. Minha
consultora de relacionamentos.”
Connor estendeu a mão. “Não brinca. Não sabia que
consultoras eram que nem bombeiros.”
“Bombeiros?”, perguntou ela.
“Meu amor, você é tão quente que precisa de um extintor de
incêndio pra trabalhar.”
Nate fez uma careta.
Kennedy estudou o irmão e fez a única coisa que podia sob as
circunstâncias.
Riu. “Acho que é a pior cantada de todos os tempos. Por favor,
me diz que isso nunca deu certo.”
Connor se inflou de orgulho masculino. “Não, mas você é a
primeira consultora de relacionamentos que conheço.” Ele deu uma
piscadinha. “Tinha que dar o meu melhor.”
“Bom saber. Muito prazer, Connor. Nate fala muito bem de você.
Disse que trabalha no ramo de construção.”
“É, acabamos de terminar um trabalho em Westchester. Pode
ser que o próximo seja em Tarrytown.”
“O prédio do governo?”
Ele ficou todo bobo. “Esse mesmo, acabamos de entregar.”
“A arquitetura é linda. Mas a área sempre tem inundação. Você
tem que fazer alguma coisa de especial nesse tipo de prédio para
proteger do fluxo de água?”
“Na verdade, a gente fez a fundação com vários sistemas de
drenagem e depois construiu um equipamento especial embaixo,
pra suportar a pressão. É uma técnica nova que estão usando nos
trabalhos maiores.”
“Interessante, sempre quis saber sobre isso. Já ouviu falar do
projeto pra salvar Veneza?”
“Claro. Chama Projeto Moisés. Os caras tão trabalhando dia e
noite e devem levar ainda uns cinco anos pra terminar. Estão
construindo uma parede especial que vai liberar a pressão da água
quando ela entra. Pouca gente sabe disso. Ei, por que não senta
com a gente?”
“Ela tá num encontro.”
A voz de Nate saiu ríspida e implacável. Ela olhou para a porta
e viu Derek andando de um lado para o outro, o telefone ainda
colado no rosto. “Ele tá numa ligação. Vou ficar só um pouquinho,
se não for atrapalhar.”
“A gente estava só falando besteira.” Connor deslizou no banco
para abrir espaço para Kennedy. “Como é que você não está
dormindo com Nate?”
Nate cuspiu o gole de Darth Maultini. “Connor!”
“Sério, cara, você é um partidão. Sem brincadeira, não entendo.
Você gasta todo esse tempo na academia fazendo o Nate malhar,
reforma o guarda-roupa do cara, enfia um negócio no olho dele pra
ele ficar bonitão, e não tá pegando?”
Ah, a franqueza dos irmãos Dunkle era demais. “A gente passa
mesmo bastante tempo na academia. Nate falou como está bem
nas aulas?”
“De levantamento de peso”, interrompeu Nate. “Aula de
levantamento de peso.”
Kennedy ignorou o olhar intenso que Nate lançou em sua
direção e tentou não rir. “Isso, isso mesmo, aula de levantamento
de peso. Ele é a estrela da turma.”
“Do jeitinho que eu ensinei.”
“Pois é, mas como ele é meu cliente, não posso ‘pegar’.”
Connor fez que sim com a cabeça. “Faz sentido. Então, tive
uma ótima ideia. Em vez de tocar uma agência de relacionamentos
pra casar os clientes, por que você não abre uma agência de
encontros de uma noite só? Vai facilitar muito a vida pra quem
quer arrumar uma noitada.”
Nate gemeu e pegou o copo. “Que coisa mais imbecil.”
“Na verdade, a ideia do Connor é brilhante. Vai render uma
nota. Basta mudar a descrição pra bordel. Ou agência de
acompanhantes de alta classe. Aí meu nome vai aparecer em tudo
o que é jornal, minha vida vai ser adaptada pra um filme pra
televisão e vou ter que usar toda a minha fortuna pra pagar a
fiança. Valeu pela ideia.”
Nate riu, e Connor balançou a cabeça. “Você é osso duro de
roer, hein, meu amor. Talvez eu devesse te deixar arrumar um par
pra mim.”
“Só se você estiver aberto para o amor.”
“Isso é miragem. Uma noite perfeita de prazer é um objetivo
mais realista.”
“Na verdade, isso é que é a miragem”, discordou ela. “A
escuridão esconde muito. Ninguém precisa revelar segredos, fazer
besteira nem lidar com hálito matinal. A luz do dia é que é a parte
mais difícil. A parte realista.”
Nate ficou tenso. Seu olhar cravou no dela e, de repente, Ken
sentiu a respiração ficar ofegante, o coração bater acelerado e o
tempo parar. Deus, aqueles olhos eram fogo puro e queimavam,
prendendo-a sob seu olhar, forçando-a a reconhecer que havia
alguma coisa entre eles. As palavras pairaram no ar, pesadas e
cheias de promessa. O que estava fazendo? O que tinha dito?
Connor limpou a garganta, como se soubesse que tinha
interrompido algo grande. “Profundo, isso. Então, que tal largar
esse encontro e dar uma passada rápida em Paradise City?”
“Onde é isso?”
Ele baixou a voz. “Na minha casa, gata. O que acha?”
Nate esfregou a testa como se sentisse uma dor profunda.
Kennedy deu uma gargalhada divertida. Aquilo só melhorava.
“Horrível, simplesmente horrível. Por mais que adore Axl Rose, vou
recusar.” Derek entrou pela porta, seu olhar percorreu o bar. “Tenho
que ir. Ele voltou.” Ela saiu da mesa. “Prazer, Connor. Nate, amanhã
eu falo contigo.”
“Certo. Tchau.”
Kennedy se afastou e se perguntou por que se sentia mais viva
depois de uma conversa de dois minutos com Nate do que durante
todo o encontro com o homem que podia acabar levando para a
cama.
Merda.
Nate terminou a bebida e tentou ouvir a história comprida do
irmão sobre a traição da ex de Jerry. Não devia ter vindo ao Mugs.
Como é que ia saber que ela ia estar num encontro? E não
qualquer encontro, também. Mas um cara que combinava
perfeitamente com ela. Parecia um modelo masculino exibindo
aquelas roupas; era mais alto que ela e estava com as mãos na sua
coxa como se tivesse o direito de tocá-la ali.
Imbecil.
Fechou a cara, bebeu e ficou imaginando o murro que daria na
cara do sr. Bonitão. A reação violenta veio de um lugar sombrio e
profundo que Nate não conhecia. Eles estavam conversando no
bar, claramente envolvidos numa troca verbal sedutora que o fazia
se contorcer por dentro. Podia apostar que aquele cara nunca tinha
tropeçado nas palavras, nem dito coisas idiotas, nem deixado cair
comida na roupa. Podia apostar também que nunca tinha levado
choque de uma coleira de cachorro.
Sentiu a depressão esmagá-lo. Devia ter dormido com Sue.
Quem se importa se ela não gostava do seu irmão? Bastava ele
abrir a boca, e a maioria das mulheres saía correndo. Sue iria se
acostumar com o jeito dele e acabar amando-o, e Nate teria um
orgasmo e estaria feliz, em vez de sexualmente frustrado e muito
infeliz.
Droga.
O cara a puxou para fora do banco, pegou suas mãos e a levou
para os fundos. Ótimo. No mínimo iriam se pegar um pouco antes
do grand finale na casa dele. Ou dela. A imagem do beijo que
compartilharam na chuva surgiu na mente de Nate. Achara o
momento sensual, apaixonado e bonito. Mas claro que não
significara nada para ela. A fila andou, e ela já estava substituindo
a memória por outra. Que idiota ele era. Correr atrás de alguém do
calibre de Kennedy só ia dar em fracasso.
Estava cansado. Ia ligar pra ela de manhã e marcar outro
encontro. Mary era a sua segunda opção e parecia uma boa
escolha. Desta vez, iria ser mais aberto e menos opinativo. Desta
vez, não iria recusar sexo.
Ficou ali sentado, esperando Connor terminar o último capítulo
de como mulheres bonitas não valiam nada e iam acabar fazendo
seu coração em pedacinhos. “Tudo bem, cara? Você tá estranho.”
Talvez tenha sido o terceiro drinque. Tinha dias em que Nate
não aguentava o tranco. “Tenho que ir ao banheiro. Depois acho
que a gente pode ir embora.”
Abriu caminho por entre a multidão, fez o que tinha que fazer e
começou a voltar para encontrar o irmão. Mas logo parou. Será que
Kennedy ainda estava lá fora? Ele era tão idiota a ponto de precisar
vê-la beijando outro cara com os próprios olhos? Era. Talvez o seu
cérebro e o seu pau finalmente registrassem a imagem, e ele
parasse de fantasiar.
Resmungando consigo mesmo, foi até a porta dos fundos e
saiu. A pequena varanda estava escura e silenciosa. Já tinha ido.
Provavelmente estava em casa com ele agora, tirando a roupa e
pulando na cama. Desgraçado.
“Para.”
O sussurro baixinho flutuou na brisa. Nate parou e inclinou a
cabeça, tentando ouvir. O murmúrio de vozes vinha da lateral do
prédio, escondido por um arbusto grande. Uma risada. Merda, a
última coisa que queria era interromper algo mais picante. Jamais
se recuperaria.
“Não se faça de santinha. A menos que goste disso. Passou a
noite toda se insinuando.”
“Tira as mãos de mim.”
Ouviu o barulho de um corpo batendo contra a parede. “Tudo
bem, a gente pode pegar pesado. Abre a blusa. Me mostra os
peitos.”
Um gemido.
“Eu sei que você quer.” Um barulho de tecido rasgando. “Peito
bonito, gostosa. Delícia.”
“Para.”
O sussurro estava repleto de agonia, e não de prazer.
Nate se moveu.
Em segundos, arrancou o cara de cima dela. Ele cambaleou pra
trás e sacudiu a cabeça. “Qual é, cara? Tá interrompendo a gente.”
Nate olhou para Kennedy. Estava encostada na parede, as mãos
segurando a blusa rasgada. Os lábios pareciam ter beijado muito.
Estava ofegante, como que excitada. Então viu os olhos dela.
Vazios.
Ela o encarou de volta como se estivesse em outro lugar, num
lugar em que não queria estar, presa em seu próprio inferno. Meu
Deus, o que tinha acontecido? Conteve a raiva crescente e prestes
a estourar e se concentrou nela. “Você está bem, Ken?”, perguntou,
com gentileza. Levou alguns segundos, mas o olhar dela finalmente
clareou. Kennedy piscou, como se emergindo de um sono
profundo.
“O quê?”
Nate se aproximou e tocou seu rosto. A mão dele tremia ao
analisar a posição defensiva. “Esse cara te machucou?”
O babaca interrompeu, numa voz de puro desgosto: “Pelo amor
de Deus, a gente estava só se divertindo aqui, Lancelot. Você
estragou um bom momento”.
Nate não tirou os olhos dela, só continuou acariciando seu
rosto. “Quer que eu dê uma surra nele? Chame a polícia? Fala
comigo, Ken.”
Sua voz saiu rouca. “Não. Só quero ir embora. Quero… ir
embora.”
“Com ele?”
“Não!” Seu corpo explodiu em pequenas convulsões que
rasgaram o coração de Nate em pedaços.
“Shhh, está tudo bem. Pode deixar.” Passou o braço em volta
dela e a conduziu.
“Ah, nada disso.” O desgraçado parou na frente deles, um
sorrisinho nos lábios. Era uns bons centímetros mais alto que Nate,
e tinha ombros mais largos. “Eu levo ela pra casa. Não fiz nada de
errado. E que história é essa de me tratar como se eu fosse um
tarado desprezível? Não me envergonhe, Kennedy. Fala pra esse
cara que a gente tava só brincando.”
Viu a humilhação brilhar nos olhos dela, mas foi a segunda
emoção em seu rosto — medo — que o ajudou a decidir a sair no
braço com o filho da mãe se fosse preciso. “Deixa pra lá, as coisas
saíram um pouco de controle. Nate, pode me levar em casa?”
“Ah, meu bem, não faz assim. Vamos conversar. Não vamos
estragar uma noite tão boa.”
Derek deu um passo para a frente, e ela se encolheu. Nate se
posicionou entre os dois e estendeu a mão. “O negócio é o
seguinte. Vai embora e nunca mais fala com ela de novo. Vou levar
Kennedy pra casa. Entendido?”
O filho da mãe escarneceu. “Acho que não. Eu cuido da minha
vida e dos meus encontros.”
Nate estava tentando manter a calma, de verdade, mas a fúria
que havia se acumulado numa bola fria de chumbo nas suas
entranhas explodiu em suas veias. “Última chance. Ou vou te enfiar
porrada.”
O babaca riu. “Você e que exército?” Ele arregaçou as mangas
da camisa de marca e veio para cima de Nate, lentamente. “Sabe
de uma coisa? Isso vai ser divertido. Faz tempo que não dou uma
lição em ninguém.”
“Também acho. Hora de te ensinar que quando uma mulher diz
não, é não.”
“Nate!” O grito de espanto de Kennedy acalmou sua alma. “Por
favor, vamos embora. Não quero que você se machuque.”
“Fica aqui, Ken. Já volto.”
“Mas…”
O filho da mãe veio para cima dele com um golpe patético e um
gancho de direita desleixado. Nate se esquivou para a esquerda e
acertou um soco. Um ponto. O babaca piscou, o olho inchado,
soltou um palavrão e se encheu de confiança. “Você vai pagar por
isso.”
Com um suspiro entediado, Nate imaginou que o próximo
ataque do cara seria um golpe vindo de baixo e um chute nos
joelhos. Tão anos 1990. Ele compensou com um drible para o lado
e vários socos rápidos no queixo. Um osso quebrado. Mais um
ponto.
O babaca caiu, mas levantou. Com um palavrão pesado, partiu
com tudo. Nate deu uma rasteira no tornozelo da frente e acertou
um soco em cheio com a esquerda.
Nocaute.
Deixou o outro sangrando no chão perto dos arbustos. Kennedy
assistia com os olhos arregalados. Ele tirou o casaco, passou por
cima dos ombros dela e abotoou sobre a blusa rasgada. “Vamos.
Está tudo bem.”
“Não quero entrar. Não assim.”
Ele assentiu. “Eu sei. Vou levar você pela lateral, a gente vai
andando.”
Ken não respondeu. Ele a abraçou apertado para mantê-la
aquecida, e os dois caminharam pelas ruas de Verily em direção à
casa dele. Desta vez, ela foi de cabeça baixa, em vez de admirar a
paisagem e os sons da noite movimentada, e ele apressou o passo.
Ela não fez perguntas quando Nate a levou até o sofá da sala, nem
quando botou uma panela com água para ferver e fazer um chá.
Ele logo mandou uma mensagem para o irmão, avisando que tinha
ido embora e voltado para casa e prometendo falar com ele de
novo no dia seguinte. Ela ficou sentada, docilmente, olhando para
a parede. Ele a deixou sozinha com seus pensamentos.
Mas a raiva estava queimando.
Acalmou a cabeça e a fúria servindo a água numa caneca
amarela que Genevieve tinha deixado para trás e mergulhando o
saquinho de camomila com mel e baunilha. Quando o chá ficou de
uma cor bonita e forte, usou uma colherinha para tirar o saquinho.
Não se preocupou com leite, mel, nem limão, pressentindo que ela
tomaria o chá como tomava café — puro. Limpou as gotas em volta
da caneca, pegou um porta-copos e levou para a sala.
“Beba isso.”
Ela pegou a caneca no automático. “Não gosto de chá.”
“Eu sei. Mas vai te acalmar.”
Deu um golinho no líquido fumegante. Nate esperou. Ela
ergueu a cabeça e assentiu. “É bom.”
“Quer um biscoito? Tenho uns Stella D’Oros na despensa.”
“Não, obrigada.” Ela bebeu um pouco mais. “Como foi o seu
encontro?”
Nate sentou no sofá ao seu lado, quase da mesma forma como
se posicionara algumas horas antes, com Sue. Agora, estava tudo
diferente. “Nada bom. Ela não gostou de Connor. Acho que não
posso mais sair com ela.”
Ken estudou a caneca por um tempo. “Estava com medo que
ela fosse certinha demais. Desculpa. Quem sabe a Mary?”
“Quem sabe.”
“Gostei do seu irmão. Precisa treinar um pouco o que dizer e o
que não dizer na frente das pessoas, mas é um cara pé no chão. E
tomou conta de você. Apoia quem ama. Gosto disso.”
Santo Deus, ele precisava de ajuda. Era louco por Ken. Alguém
podia enfiar uma faca nele e acabar logo com isso? Nate engoliu
em seco, por cima do nó se formando na garganta. “É. Ele é muito
legal depois que você conhece melhor. Acho que seu encontro
também não deu muito certo, né?”
Ela bufou uma risada. “Acho que não. Você acabou com ele.”
“Acho que sim.”
“Não tinha ideia de que você sabia lutar daquele jeito. Parecia
um Bruce Lee ou alguém do Clube da luta.”
Nate tentou conter o sorriso. “Não… não dei aqueles gemidos
esquisitos. É fácil. Altura e força é só uma parte do sucesso. É uma
questão de cabeça, agilidade e planejamento. Connor me ensinou
o básico pra eu me defender. Um dia cheguei em casa com um
braço quebrado, e, depois que ele me levou para o hospital, foi
comigo direto pra academia. Me mostrou como chutar e como usar
minhas habilidades naturais pra lutar. Depois disso, estudei tudo
sobre artes marciais e boxe e aperfeiçoei o processo.”
“Você sempre me surpreende, Nate Dunkle.”
“Você também, Kennedy Ashe.”
Ela ergueu o rosto, assustada. Deve ter visto algo apavorante
nos olhos dele, porque abaixou a cabeça e se ocupou em terminar
o chá e pousar a caneca com cuidado no porta-copos. “Melhor eu
ir. Obrigada por me ajudar.”
“O que aconteceu?”
Ela ficou imóvel. Cerrou os dedos antes de relaxá-los
deliberadamente. Sua voz vacilou só um pouquinho antes de ela se
recuperar, mas ele percebeu. “Só um beijo que saiu de controle.
Morri de vergonha de você ter visto aquilo. Melhor esquecer a
história toda.”
“Você falou não de modo muito claro. Por que a vergonha?”
O primeiro sinal de fúria surgiu. Ela ergueu o queixo como se
estivesse tentando reunir forças e recuperar a postura de durona.
“Porque, em geral, eu teria dado conta sozinha. Também aprendi a
me virar com a vida. Alguma coisa me assustou e eu… eu… entrei
em pânico. Odeio que você tenha tido que se envolver.”
“Ele quase te machucou. Se encontrar com o cara de novo,
mato.”
Ken ficou boquiaberta. Seus lábios eram macios e úmidos,
lembrando uma fruta madura antes da primeira mordida. Ela
parecia surpresa com a violência das palavras, mas isso era outra
parte de si que Nate mantinha escondida. Anos de bullying e
rejeição tinham deixado cicatrizes. Aprendera a compartimentar,
usando a lógica e a razão para manter uma luz na sua vida. Mas se
alguém pusesse a mão na mulher dele, pagaria por isso.
Na mulher dele? O que estava acontecendo?
Respirou fundo. Seu corpo estava em estado de alerta por
causa da adrenalina, o que em geral era convertido em excitação
sexual. Básico. Não que ele precisasse de muito para chegar a esse
estado quando estava na presença de Kennedy. A noite fora um
viveiro de emoções, e seu pau estava só respondendo ao turbilhão
de acontecimentos.
“Não fala assim. Ele me disse uma coisa. Idiota, eu sei, mas
despertou uma memória que eu queria esquecer.”
Nate concluiu que ela não ia contar que memória era essa, mas
não tinha problema. Só não queria que Kennedy passasse a noite
sozinha. Não com os monstros do passado à solta. “Dorme aqui.
Comigo.”
“Ah, não posso…”
“Não comigo, claro. Sei que você não está interessada. Eu fico
no sofá. Tira umas horas, descansa, e amanhã a gente esquece,
o.k.?”
Ela hesitou, mas o lampejo de alívio nos olhos cor de âmbar
resolveu a questão para ele. De jeito nenhum iria mandá-la de
volta para uma casa vazia. Talvez não pudesse abraçá-la, deslizar
por entre suas coxas e prometer matar seus dragões. Mas podia
muito bem mantê-la segura.
“Tem certeza?”
Nate não respondeu. Foi até o armário do corredor, pegou um
lençol e um travesseiro reserva e jogou no sofá. “Tenho. Já pra
cama, Ken. Tem camiseta limpa na gaveta de cima. Qualquer coisa,
tô aqui fora.”
Ela o encarou por um longo tempo. Seus cílios estavam mais
longos, escuros e grossos. Baixou o olhar, como se ainda estivesse
pensando em manter o orgulho e voltar para casa. Por fim,
levantou e foi até o quarto. A submissão dela partiu o coração de
Nate, mas ele não tinha dúvidas de que a fera voltaria a rugir na
primeira luz do dia.
Suavemente, a porta se fechou atrás de Ken.
Nate afundou no sofá e deixou o rosto cair nas mãos. Não ia
conseguir dormir hoje. A agitação percorria seu corpo feito uma
correnteza forte. Quase nunca tinha a oportunidade de cuidar de
alguém. Era a sua chance de ser seu amigo e de apoiá-la, e não ia
estragar tudo pensando em sexo, nem desejando que acontecesse
entre os dois uma coisa que era impossível. No dia seguinte, ela
voltaria a sair com babacas, mas agora, só por um tempinho, Ken
pertencia a ele. Dormindo no quarto dele, a cabeça no travesseiro
dele, o cheiro inundando os lençóis.
Era o bastante.
Recompôs-se. Guardou a caneca de chá, apagou as luzes e
deitou no sofá para ficar de vigia.
Ia ser uma longa noite.
Kennedy deitou nos lençóis de algodão confortáveis e olhou
para o teto. As luzes estavam todas acesas, e ela sabia que Nate
estava logo ali, do outro lado da porta, mas as palavras
continuavam dançando em seu cérebro.
Me mostra os peitos.
Seu corpo tremia, mas sua mente estava furiosa com a
fraqueza. Só palavras na boca de um idiota exaltado pelos
hormônios. Ridículo voltar ao passado. O pior foi o jeito como ela
apagou, impotente para lutar ou processar a cena. O que teria
acontecido se Nate não tivesse interrompido? Arrepios percorreram
seus braços, e ela puxou o edredom até o queixo, num esforço
para se aquecer. Era raro errar com homens, e, no entanto, tinha
se enganado terrivelmente com Derek. Mulheres não têm uma
segunda chance.
Não tinha aprendido a lição anos antes?
Às vezes, os sons eram o que mais a assombrava — os dedos
rasgando suas roupas, as vozes rindo. A humilhação incapacitante
da impotência enquanto seu corpo era explorado como se nem
sequer pertencesse a ela. Lembrou de ver, depois, seus livros de
matemática e de ciências espalhados pelo chão. De pegá-los um
por um, desejando não ser inteligente, desejando ser bonita, tão
bonita e magra que seria poderosa.
Um gemido ficou preso na garganta. As luzes não estavam
ajudando. Precisava apagar a memória, esquecer os fantasmas, e
só tinha um jeito de fazê-lo.
Kennedy levantou da cama e abriu a porta.
“Nate?”
“Tô aqui.” Ele sentou, levantou o lençol e a chamou para sentar
ao seu lado. Ela mergulhou em busca de consolo, as pernas nuas
tremendo debaixo da camiseta. Sentiu-se envolvida por um calor
maravilhoso quando ele a puxou para junto de seu peito, abriu os
braços e a segurou bem apertado.
A doçura do toque a acordou do entorpecimento, e Ken relaxou
contra ele, os músculos derretendo contra o peito rígido, dentro
daqueles bíceps fortes, as coxas poderosas embaixo dela. Nate
murmurou palavras gentis em seus ouvidos e descansou o queixo
no alto da sua cabeça. Ali, na escuridão, sentiu-se segura. Na
escuridão, com ele, se abriu e dividiu seu passado.
“Tinha um menino na escola. Ele ficava me esperando no
corredor e dizia coisas. Coisas sexuais. Me chamava de gorda e
dizia que tinha que aprender sobre sexo ou nunca ia ter um
namorado, que meninas gordas e inteligentes sempre acabavam
sozinhas. Morria de medo dele, mas ninguém nunca me ajudou.
Achavam engraçado. Várias vezes, os outros meninos se juntavam
e riam quando eu tentava fugir.”
O corpo de Nate se enrijeceu, mas continuou acariciando seus
cabelos, e ela falou contra o peito dele, no escuro.
“Ele… ele me fazia mostrar os seios. Me dizia que se eu não
fizesse, ia chamar os amigos e eles não iam ser bonzinhos comigo.
Eu estava com medo. Não sabia nunca quando ele ia aparecer nem
onde. Ele só ficava lá, com aquele sorrisinho, um olhar doente, e
repetindo ‘Me mostra os peitos’. No início, recusei, mas ele me
ameaçou. Disse que ia chamar a gangue pra brincar comigo. Então,
acabei obedecendo, Nate, obedeci, porque não sabia mais o que
fazer, e aí ele ia parar de me encher o saco por um tempo.”
Ela parou para tomar fôlego e se recompor.
“Um dia, ele me seguiu depois da escola e me empurrou pra
um beco. Achei que ia ser o de sempre, mas tinham mais dois
meninos lá. Eles me cercaram. Puxaram a minha camisa, me
falaram pra mostrar os seios. Chorei, mas eles não ligaram, e
rasgaram minha camisa, meu sutiã e me tocaram. Riram da minha
barriga gorda. Disseram que gordas tinham que ser boas de
boquete, porque é assim que conseguem fazer os homens
gostarem delas. Me jogaram no chão e me tocaram em vários
lugares, mas eu resisti, e aí alguém viu tudo, entrou no beco e
correu atrás deles.”
Seu coração batia acelerado, e o suor encharcava a pele,
embora ela tremesse e se enterrasse um pouco mais no peito dele
em busca de calor. “Odiei aqueles garotos por me fazerem sentir
medo. Por roubarem meu corpo, minha sanidade, meu ser. Contei
pra minha mãe e fui pra polícia. Fiz queixa na escola. Depois disso,
parei de comer. Decidi que se fosse magra e bonita, teria poder.
Fiquei doente, e, no final das contas, eles ganharam. Mas eles não
ganham mais. Fiquei forte e saudável, e tenho meu corpo de novo,
nos meus termos.”
“Eles não ganharam”, murmurou Nate. “Nunca. Minha doce e
corajosa menina.” Apertou sua têmpora com um beijo, segurando-a
com tanta força que ela sabia que nada poderia atingi-la com ele
ali. Quanto tempo tinha se passado desde que um homem a
consolara? A apoiara? Nunca. Ela usava os homens pela
companhia, pelo sexo, pela distração. Jamais tinha contado a
verdade sobre seu passado pra ninguém, tirando Kate, Arilyn e a
psicóloga. Elas a mantiveram sã, mas agora Ken tinha quebrado a
regra fundamental, e Nate estava no círculo íntimo.
“Fecho os olhos e vejo tudo de novo e de novo. Preciso tirar
isso da minha cabeça. Não vou deixar aqueles meninos ganharem
hoje. Me ajuda.”
“Como, linda? Como?”
“Faz amor comigo?”
O silêncio pulsava como se fosse um ser vivo, a pergunta
pairando sobre eles numa grande bolha, aguardando a resposta.
Ela sabia que ia para o inferno, sabia que tinha pedido uma coisa
egoísta, horrível e errada, mas seu corpo já estava vivo, exigindo
que saciasse a sede primitiva de ser tomada por este homem, que
rugia em sua alma. Uma noite. Só uma noite com seu cientista, e
ela o deixaria seguir adiante.
“Tem certeza?” Nate a forçou a erguer o rosto e olhar para ele,
enfiando os dedos em seu couro cabeludo numa pressão deliciosa.
“Não sou um santo, Ken. Faz muito, muito tempo que quero você,
mas você não tem que me prometer sexo pra conseguir o que
deseja. Vou te abraçar e te beijar e te manter segura, e, amanhã
de manhã, você pode ir pra casa. Não me oferece nada só porque
está se sentindo culpada.”
Dessa vez, ela ficou com raiva. “Como se atreve a me acusar de
oferecer sexo por pena!”, exclamou. “Se você tivesse de coleira
agora, levaria dois choques! Quero você, Nate Dunkle. Quero
substituir essas memórias horríveis com algo bom, seguro e doce.
E sei que isso é uma maluquice, que sou sua consultora de
relacionamentos, e essa é a pior coisa que posso pedir, mas não tô
nem aí. Então basta dizer sim ou não, tá legal?”
“Sim.”
Ele grudou a boca na dela.
Kennedy nem entendeu o que estava acontecendo. Nate
simplesmente assumiu o controle, possuiu sua boca e enterrou as
mãos no seu cabelo para mantê-la no lugar. A língua acariciou seus
lábios até ela abri-los e oferecer o que ele queria. Ele mergulhou
fundo, e ela gemeu sob a habilidade de seus dentes, lábios e
língua. Usando a sucção perfeita, ele se embriagou e exigiu e
ofereceu, até a cabeça dela girar e Ken estar molhada entre as
pernas. O sabor e o aroma dele inundavam seus sentidos, e ela se
entregou, já enfeitiçada e não vendo motivo para se conter. Nate a
beijou sem parar, indo devagar, aprendendo todos os segredos de
sua boca. Ela se arqueou para mais e se agarrou aos seus ombros,
mas ele não acelerou o ritmo, como se ela fosse um experimento
científico que queria estudar e aprender, não importa quantas
horas isso levasse.
Por fim, Nate levantou a cabeça. Kennedy tinha as pálpebras
pesadas ao abrir os olhos. Seu corpo inteiro pulsava de
necessidade, desde os mamilos contraídos até o ponto encharcado
entre suas coxas.
“Quero te foder, Ken. Devagar e com força, de tantos jeitos que
não vai sobrar nenhuma parte do seu corpo que não terei usado e
dado prazer. Não vai pensando que isso vai ser uma rapidinha cheia
de beijinhos e bons modos. Esperei demais. Entendeu?”
Uau, quem diria que o cientista sabia falar sacanagem? O calor
borbulhou nas veias de Ken, e sua boca ficou seca. “Entendi.”
“Ótimo.” Sem mais uma palavra, ele a levantou do sofá e
caminhou até o quarto, deitando-a na cama. Tirou depressa a
camiseta que ela vestia, e seu olhar devorou a pele nua sob o
conjunto preto de calcinha e sutiã, enquanto ele permanecia de pé
ao lado da cama como um guerreiro prestes a reivindicar seus
despojos. O silêncio só aumentou a excitação de Ken, o jeito como
Nate assimilava cada centímetro, sondando, os olhos verde-musgo
cheios de intenções para o corpo dela. Estremeceu com a
antecipação. Estava acostumada a ser agressiva, a exigir o que
bem entendesse e a orientar os amantes do jeito que gostava.
Desta vez, percebeu que ele estava no comando.
E adorou.
“Você merece orgasmos múltiplos todos os dias, linda. O corpo
feminino é projetado para o prazer de uma maneira que o
masculino nunca vai alcançar.” Enquanto falava, deslizou a palma
da mão pela barriga dela, por entre as coxas trêmulas, as
panturrilhas. Parou para brincar com a correntinha de prata ainda
no tornozelo de Ken, fazendo um círculo frouxo com os dedos e
dobrando o joelho dela. “Tantas zonas erógenas que os homens
ignoram na busca pelo orgasmo. Devia ser um crime pular essas
preliminares. Cada passo leva a uma explosão mais intensa.”
Ele não a tinha sequer tocado, e ela já estava ofegante. Seus
mamilos se apertavam contra a renda do sutiã, pedindo para ser
chupados. Nate era como uma espécie de mago do sexo.
Permitiu que abrisse suas pernas, esperando por alguma ação
preliminar, mas ele levou ambas as mãos ao pé dela e segurou com
firmeza. “O pé, por exemplo. Tem certos pontos de pressão que
estimulam a excitação sexual.” Usando os polegares, apertou,
esfregou e girou os dedos nas solas sensíveis, mantendo a pressão
forte o suficiente para não fazer cócegas. Inclinando a cabeça,
mordiscou os dedos, a língua atacando a pele macia até arrancar
um gemido dos lábios de Ken. Tão bom. Como nunca imaginou
antes que uma massagem no pé podia deixá-la tão excitada?
Sempre pensou nisso como algo relaxante, tipo um spa, mas os
arrepios subiam por suas pernas numa conexão direta com seu
sexo. “Tá gostando?” A voz estava rouca de desejo. “Preciso que
você diga o que gosta e o que não gosta.”
“Tô. Muito.”
“Ótimo.” Ele continuou por um tempo, até seus músculos
cederem e ela afundar profundamente no colchão. Nate soltou seu
pé com carinho, tirou a camisa e a cueca, e ficou de pé diante dela,
nu.
Minha nossa.
“Hum, Nate?”
“O quê?”
“Você é muito… bem-dotado.”
Ele sorriu. Um sorriso totalmente masculino, sedutor e do tipo
“contrai os dedos dos pés e se entrega agora”. “Pra te dar mais
prazer, querida.”
“Ou me matar.”
“Vou tomar o cuidado de deixar você pronta primeiro.” Seus
olhos brilhavam. “Três orgasmos pra começar devem resolver.”
“O… o quê?”
“Shhh. Estou ocupado.” Ele abriu suas pernas e ajoelhou na
cama entre elas. Kennedy suspirou de prazer, pronta para ser
violada, mas Nate abaixou a cabeça e começou a mordiscar o
joelho.
“Hum, um pouco mais pra cima, por favor.”
Um beliscão forte na bunda calou sua boca. Sentiu uma onda
quente percorrer sua pele. “Outra zona extremamente
negligenciada. A parte de trás do joelho, e, claro, a parte interna
da coxa. Vamos ver qual você prefere.”
Kennedy arfou quando os dedos dele tocaram e acariciaram sua
pele, enquanto ele lambia e arranhava com dentes afiados a curva
volumosa logo abaixo da bunda. Seu clitóris pulsava como louco,
pedindo mais, e pequenas faíscas atravessaram seu corpo,
firmemente conectadas a cada movimento da língua e dos dedos
dele.
“Hum, interessante, você parece favorecer o lado direito. Vou
ter que lembrar disso.”
Se estivesse com seus lápis e canetas no bolso, será que ia
pegar papel e fazer anotações? E como isso podia ser a coisa mais
sexy que ela já tinha experimentado na vida?
“Nate, por favor, preciso…”
“Seguindo em frente. O monte púbico.” Apertou o nariz contra a
carne dela e inspirou fundo. Ela ergueu os quadris, implorando por
mais, e a excitação molhou a renda delicada da calcinha. Depilava-
se sempre, e o toque da barba na pele suave e inchada fez com
que ela agarrasse os lençóis e quase implorasse por misericórdia.
Quase. Ele não estava nem na metade do que pretendia com seu
corpo e já a deixara mais excitada do que qualquer penetração
total tinha sido capaz. “Você tem um cheiro tão bom. Um gostinho
ao mesmo tempo de especiarias, almíscar e mel.” Num gesto
gracioso, ele a libertou da calcinha molhada e baixou a cabeça de
novo. “Adoro essa pele lisa aqui, me dá acesso completo a todas as
partes deliciosas da sua anatomia.” Ele esfregou o rosto e a
acariciou, mas sem nunca chegar às partes mais sensíveis e
essenciais que clamavam por atenção. “As carícias aqui avisam seu
corpo para pedir mais, o que aumenta sua lubrificação, ah, assim.
Você está tão linda, molhada e inchada.”
O falatório educativo sobre o corpo feminino a estava deixando
louca de desejo. Parece que a raiva e a excitação despertavam nele
o uso de palavrões, outra parte secreta do seu amante que ela
estava adorando descobrir. “Ah, droga, dá pra começar logo?”
Ele fez um barulhinho com a língua contra o púbis dela que
quase provocou um miniorgasmo. Quase. “Claro, a gente ainda vai
voltar às partes mais importantes.” Enfiou a língua no umbigo e
mordiscou a barriga. Deslizou as mãos por suas costas e
desabotoou o sutiã com uma delas. Os seios de Ken se libertaram,
e o ar frio fez os mamilos ficarem rígidos. Ela se contorceu,
tentando chegar mais perto, louca para sentir a língua dele nela.
Nate acariciou seu colo com os cílios, em vários beijos de
borboleta, e a barba arranhou os seios. “Os seios normalmente são
a primeira coisa que os homens buscam, mas tem muito mais do
que só os mamilos. As auréolas, por exemplo. As suas são lindas.
Se eu passar os dentes bem devagar aqui, mas não tocar o
mamilo, qual é a sensação?”
Ela gemeu, presa entre o céu e o inferno e um orgasmo
iminente. “Dói um pouco, mas é tão bom. Mais.”
Nate obedeceu, repetindo o tratamento no outro seio. Evitando
com cuidado tocá-la com a língua, usou os dentes para puxar e
esticar o mamilo, enquanto a mão massageava e acariciava. Ken se
afogou na sensação de ser o tema de seu estudo e se perguntou
se iria morrer antes mesmo de ele entrar nela. “Tão bonita e
responsiva. Quero passar horas chupando e lambendo seus seios
até você gozar só com isso. Mas não temos tempo agora.”
Kennedy choramingou. Tentou mexer as pernas para se
esfregar contra a coxa dele, em busca de alívio, mas Nate a
prendeu aberta sob seu peso, sem lhe dar o que queria. “Ah, os
mamilos. Sonhei com os seus por tanto tempo, imaginei a cor e a
textura, mas eles deixam as minhas fantasias no chinelo.” Ele
apertou e deslizou o polegar sobre a pontinha dolorida. Ela saltou,
e os olhos de Nate se estreitaram de luxúria e satisfação.
“Perfeitos. Vermelho-escuro igual cereja madura. Será que você
tem gostinho azedo ou doce? Alguns homens usam grampos pra
diminuir o fluxo sanguíneo e deixar o mamilo mais sensível, mas
basta beliscar com cuidado e fazer bastante carinho, e a gente não
precisa de acessórios. Deixa eu te mostrar.”
Ah, e ele mostrou. Brincou com a língua e lambeu, enquanto
beliscava com pressão suficiente para mantê-la no limite entre a
dor e o prazer. Kennedy se limitou a grunhir e a gemer por mais,
até que ele acabou cedendo e subiu um pouco mais em seu corpo.
“A nuca. De novo, uma região extremamente subutilizada. Mas
as mulheres podem sentir um toque aqui ressoar por todos os
centímetros do corpo, num raio que dispara direto para o clitóris.
Aposto que você vai preferir o lado direito de novo.” Usou os
dentes e a língua, e encontrou o ponto certo. Como prometido,
pequenas convulsões de prazer a percorreram e se concentraram
no botão pulsante de nervos entre suas coxas.
“Por favor, ai, por favor, já terminou? Preciso tanto de você.”
“Eu avisei, Ken. Não vou correr quando tenho você nua e
aberta sob mim. Última zona. Os lábios. Abre a boca pra mim.”
Ela obedeceu, e ele a tomou num beijo profundo e sombrio, a
língua entrando e saindo à medida que despojava sua boca de
qualquer inocência. Imprensada contra o colchão, com os ossos
amolecidos, Kennedy se rendeu a toda e qualquer coisa que ele
quisesse.
Nate desceu por seu corpo e usou os polegares para abri-la.
Seu olhar ardeu faminto, enquanto estudava cada centímetro da
vagina, então soprou de leve sobre os lábios abertos.
“Nate!”
“O primeiro orgasmo em geral vem do estímulo do clitóris.
Vamos ver o que a gente consegue fazer antes de você explodir.” E
enfim sua boca a tocou, lambendo-a e dando-lhe beijos cheios.
Kennedy gritou e se remexeu loucamente contra a pressão que
tanto desejava, só mais uma carícia e ela iria…
Seus dentes arranharam de leve o pontinho inchado e ele
chupou.
Kennedy gozou forte, rápido e com violência. Foi tomada por
espasmos e gritou com o prazer que irradiava sem parar. O alívio
inundou seu corpo em ondas, e ele não interrompeu a pressão
maravilhosa dos lábios. Quando ela começava a relaxar, ele a trazia
de volta para outro orgasmo.
Quando ela se recuperou, Nate a estava observando,
assimilando sua expressão com aqueles olhos intensos que
rompiam as antigas barreiras e mergulhavam fundo. Kennedy
estava entregue demais para se esconder, um langor delicioso
invadindo seus ossos e deixando-a mole. A risada baixa que ele
soltou deu a entender que ainda não tinha acabado.
“Você acabou comigo. Você goza com a mesma energia com
que faz tudo na vida — com total entrega e sem barreiras. Vou ter
que fazer isso várias vezes por dia. Gostou?”
A voz veio num sussurro. “Gostei.”
“Ótimo. Agora para o ponto G.”
Ela não teve tempo de protestar nem de recusar. Ele curvou os
dedos e enfiou, entrando e saindo até alcançar algo que explodiu
em rios de fogo.
“Ah!”
“Bem aqui.” Nate sorriu com uma satisfação feroz e deu início a
um movimento enlouquecedor dos dedos, dentro e fora do corpo
dela. Kennedy tentou mantê-lo mais profundo, mas ele seguiu com
o ritmo constante até os músculos dela se apertarem e se
contraírem ao máximo. Ela ofegava em busca de ar e de uma nova
e inacreditável onda de alívio. “Ah, você está tão perto, uma
delícia. Goza pra mim de novo, isso, assim.”
Ela gozou de novo, com um longo gemido.
Kennedy fechou os olhos e murmurou, exausta: “Chega. Não
aguento mais, chega”.
Outra risadinha grave. Um barulho de plástico se rasgando. E
um pau enorme e latejante apontando para ela. “Agora você tá
pronta.”
Encheu-a sem hesitação, entrando centímetro por centímetro
até estar enterrado até as bolas. Kennedy jogou a cabeça para trás
e para a frente, diante da sensação de estar tão plena, não tinha
espaço para respirar, não tinha espaço para lutar nem para guardar
nada para si. Mas ele não se importava. Ela tentou afastá-lo, mas
Nate segurou seus pulsos acima da cabeça com uma das mãos.
“Abra os olhos e olhe pra mim, Ken.”
Ela obedeceu.
Todo o seu corpo pressionava cada centímetro dela. Estava
presa sob ele, impotente diante da sua força, do seu pau, do olhar
ardente que exigia que ela entregasse tudo, naquele momento,
bem ali.
“Esta noite você é minha.”
Ele se moveu. Para a frente e para trás, reafirmando sua
declaração com o domínio físico e a ânsia de erradicar todas as
lembranças da mente dela, deixando apenas a sensação de como
Nate a penetrava, de corpo e alma. Como se tivesse percebido que
ela precisava ser segurada, não soltou seus pulsos, e ela se
contorceu loucamente, exigindo mais. Um gemido irrompeu dos
lábios dele. Nate acelerou o ritmo, o pau entrando e saindo,
enquanto ele se esfregava contra seu clitóris até a tensão se
romper e explodir.
Gritou o nome dela e derramou seu sêmen, os quadris ainda se
movendo com vigor, espremendo a última gota de prazer de cada
um deles. Por fim, caiu em cima dela e soltou seus pulsos. Kennedy
tentou se lembrar de como respirar, enquanto ouvia o coração dele
pulsando contra seu ouvido. Nate tinha a pele quente e
ligeiramente úmida, e o cheiro masculino de sexo invadiu as
narinas dela.
Ele saiu devagar, mas sem nunca deixar de tocá-la, rolando
para o lado sem desentrelaçar as pernas. Os minutos se passaram.
Os dois aos poucos foram recuperando o fôlego. Kennedy se
perguntou se estava morta, depois se deu conta de que não estava
nem aí.
Ele deu um beijo em sua testa. “Descansa um pouco. A gente
tá só começando.”
Meu Deus.
Nate Ellison Raymond Dunkle era um mestre.
***
Kennedy enterrou o rosto no travesseiro macio e suspirou. Que
sonho perfeito. Deitada de bruços, flexionou a perna, e a dorzinha
sutil nos músculos a fez sorrir. Engraçado, parecia até que tinha
transado na noite passada. Muito. A dor entre suas coxas pulsava e
pedia por algo para preenchê-la. Ainda estava de noite, e se sentia
tão cansada e feliz, não queria abrir os olhos e deixar a realidade
atrapalhar. Uma estranha sensação de realização percorria suas
veias, e não tinha por que se preocupar com isso agora. Ia só
voltar a dormir e…
Minha nossa.
Uma língua subiu pela parte de trás das coxas, e mãos gentis,
mas firmes, abriram suas pernas. O corpo acordou e entrou em
modo de “quero mais”, desejando que o beijo molhado e
provocante continuasse. As mãos subiram até a bunda e
apertaram, abrindo-a e fazendo uma massagem profunda, e a
língua continuou com seus movimentos, aproximando-se do ponto
úmido e latejante que implorava por alívio. Ken mordeu o lábio e
gemeu contra o travesseiro. Ah, por favor, não quero acordar tão
cedo, ah, por favor, por favor…
Dentes a morderam com força junto à curva da bunda.
A dor aguda a despertou. Ela resistiu, mas a pontada brutal de
prazer lhe roubou o fôlego.
“Que tal? Forte demais?”
A voz rouca de Nate atingiu seus ouvidos. Imagens nítidas do
que tinham feito juntos lhe vieram à cabeça, e, de repente,
Kennedy estava bem acordada. “Dói. Mas depois é bom. O que
você tá fazendo?”
“Tudo. Ignorei a parte de trás do seu corpo, e isso é um crime.
Sabia que tinha deixado passar outra zona erógena.”
Não podia acreditar. Isso era… impossível. “Você não tomou
Viagra nem nada assim, tomou?”
Ele riu baixinho, e a vibração contra sua pele provocou outro
arrepio. “Tenho você. Não preciso de remédio. Estudei princípios
tântricos que ensinam controle. Um pouco de sadomasoquismo.
Várias posições para garantir estimulação completa.”
Ele fez algo tão erótico e devasso com sua bunda, que ela
gemeu. Em geral, odiava que os homens olhassem para essa parte
do corpo. Era a única parte da sua anatomia que achava grande
demais, não importava o quanto malhasse. “Fico mais à vontade de
barriga pra cima.”
“Eu não. Segura a cabeceira.”
A ordem a fez tremer nas bases, mas Ken obedeceu. “Nate,
acho que não aguento outro orgasmo.”
Mais uma risada divertida. Aqueles dedos perversos entraram
nela, esticando-a e provocando-a. “Mentirosa. Amo a sua bunda.
Firme, cheia e linda. Quero experimentar uma coisa. Me diz se não
gostar.”
“Eu… opa!”
Enquanto os dedos brincavam entre as pernas dela, ele deu um
tapa em sua bunda com a palma da outra mão aberta. O som
ecoou pelo quarto. Ela estremeceu, mas sentiu arrepios de calor se
espalhando de sua bunda até o clitóris. “Continuo ou paro?”
Ela rangeu os dentes e disse a verdade. “Continua.”
“Merda, mal dá pra ver a marca da minha mão, preciso de
mais.” Nate deu mais alguns tapas firmes, em seguida tirou os
dedos para acariciar a pele vermelha. O misto de dor, prazer e
excitação varavam o corpo de Ken, deixando-a louca. “Tão bonito.
Nunca curti muito esse negócio de dominação, mas ia adorar te
amarrar e te dar prazer até você implorar.”
Ela gemeu. “Tô implorando agora. Não aguento mais.”
“Suas costas são tão lindas. A curva suave da sua coluna, as
covinhas acima da bunda.” Ele correu a língua para cima e para
baixo, mordiscando a espinha, continuando a esfregar, apertar e
provocar. De repente, deitou-se completamente em cima dela, o
peito contra suas costas, a ereção junto da sua entrada. A
respiração quente chegou ao ouvido dela, enquanto ele puxava seu
cabelo para o lado. Acariciou com a língua a curva delicada da
orelha, beliscou o lóbulo, e levou as mãos aos seios. Kennedy
estava presa, impotente, esperando pelo próximo movimento dele,
e percebeu, naquele momento, que Nate tinha mais poder sobre
ela do que qualquer homem antes. Sua mente rodava, seu corpo
clamava por alívio, e ainda assim ele a forçava a ir além dos seus
limites, o pau pulsante entrando milímetros precisos e depois
parando.
“Quero você de novo.”
“Sim!”
“O quanto você quer isto?”
Um gemido escapou de seus lábios. “Faço qualquer coisa. Por
favor.”
“Até jogar mais golfe?”
“Filho da mãe.”
Saiu de dentro dela e mordeu seu ombro. Todo o corpo de
Kennedy tremeu. “Tá bom! Eu jogo golfe com você, prometo.”
“Muito bem. Solta a cabeceira e fica de joelhos.”
Ela se posicionou como ele pediu e ouviu o barulho da
camisinha sendo colocada. Nate entrou com movimentos lentos e
deliberados até estar inteiro dentro dela. Encheu-a por completo,
fazendo-a perder o fôlego, e Kennedy mexeu os quadris,
desesperada para que ele se movesse. O gemido que ouviu lhe deu
uma onda de satisfação. “Você vai me matar.”
“Ótimo. Pode continuar, por favor?”
“Atrevida. Li na Cosmopolitan que, com você de quatro, tenho
mais chance de acertar seu ponto G a cada movimento.”
Ken arqueou as costas e tentou forçá-lo a fazer alguma coisa.
Seu membro pulsava dentro dela, disparando circuitos elétricos em
várias terminações nervosas. “Ótima ideia. Pode começar a hora
que quiser.”
A risada que ele deu fez com que ela ficasse com um mal
pressentimento. “Ainda não. Preciso estimular você direito antes.”
“Confia em mim, tô estimulada.”
Ele se moveu para a frente e para trás uns mínimos
centímetros, só para dar um gostinho, enquanto acariciava as
costas dela com as mãos e a abraçava para brincar com os
mamilos. Com pequenos puxões, eles ficaram rígidos, e os seios
incharam por causa da atenção. As mãos dela tremiam no colchão,
e Kennedy se sentia impotente e louca pelo próximo toque. Os
dedos talentosos passaram muito tempo em seus seios, antes de
voltar para as costas. Ele desceu as mãos espalmadas pela coluna
e mordiscou a pele, lambendo, abrindo as nádegas para enfiar a
língua até ela se contorcer e implorar.
Agarrando os quadris, saiu e entrou com força.
O prazer se espalhou pelo corpo de Ken e se concentrou no
clitóris latejante. Ele girou os quadris e repetiu. E mais uma vez.
O quinto movimento acertou o ponto em cheio. Ela gritou com
o lampejo de felicidade e contraiu todos os músculos.
“Ah, entendi. Aguenta firme, gata.”
Ken torceu os lençóis nos dedos e se deixou levar. As investidas
firmes tocaram o lugar mágico, forçando-a a ir cada vez mais alto,
a tensão aumentando impiedosamente, até sua garganta estar
obstruída pelas lágrimas e ela saber que iria morrer com a dor. Ele
deslizou os dedos por entre as pernas dela, beliscou o clitóris com
força, e soltou em seguida.
“Ah!”
O orgasmo se apoderou do seu corpo e a desestruturou. Ken se
moveu com a sensação de alívio, mas Nate continuou, até que um
segundo orgasmo se apoderou dela, derrubando-a indefesa na
cama. Ele a acariciou e murmurou palavras de conforto enquanto
girava seu corpo mole para junto do seu peito e a segurava com
firmeza. Kennedy fechou os olhos e se perguntou se seu cientista a
tinha arruinado para sempre.
13

Nate percebeu na mesma hora.


Entreabriu os olhos e viu Kennedy saltitando pelo quarto,
tentando se vestir. Andando na ponta dos pés, lançava olhares
preocupados na direção da cama, como se tivesse medo de que ele
levantasse e a agarrasse. Divertiu-se quando ela tentou entrar na
calcinha rasgada, murmurou um palavrão quando ela desistiu. Ken
mordeu o lábio como se estivesse tomando uma decisão, depois
vestiu a minissaia sem calcinha.
Isso aí.
Perguntou-se o que ela ia fazer com a camisa, mas Ken puxou
o sutiã descartado de debaixo do travesseiro, colocou-o e foi até o
armário dele. Com outra olhadela rápida para a cama, pegou do
cabide uma camisa de botão branca e vestiu, abotoando-a até o
pescoço. A camisa ia até bem abaixo da saia curta, mas Kennedy
não pareceu se importar. Desapareceu no banheiro, e ele ouviu a
água da pia, enquanto ela provavelmente penteava o cabelo e
escovava os dentes. Nate tinha uma escova de dentes reserva no
armário, mas achou melhor deixar que ela a encontrasse sozinha,
para não estragar seu plano de fuga.
Pelo menos não por enquanto.
Olhou para a luz alegre que entrava por entre as fendas da
persiana. Os passarinhos cantavam, recebendo a primavera com
alegria, mas a manhã trazia o final de sua fantasia. Lamentou não
a possuir uma última vez, ver seu rosto quando chegava ao
orgasmo, seu corpo estremecendo sob o dele, ciente de que era
ele a lhe dar aquele prazer feroz e sentindo-se mais poderoso que
um deus grego.
Kennedy queria esquecer. Fingir que aquilo era uma coisa
insignificante e que eles podiam voltar à vida de antes. Nate sabia
que já era tarde demais.
Estava apaixonado por ela.
A conclusão esmagadora não veio acompanhada por harpas,
pelo canto de corais nem por uma alegria transbordante. Na
verdade, sentia-se péssimo. Deprimido. Indefeso.
Irritado.
Pensou em suas opções. Admitir seus sentimentos e implorar
para que ela lhe desse uma chance. Kennedy entraria em pânico,
citaria uma dúzia de desculpas segundo as quais eles não iriam dar
certo juntos e talvez até deixaria de ser sua consultora de
relacionamentos, num esforço para fugir dele.
Melhor não.
Fingir que fora só uma ótima noite de sexo e que ele já tinha
esquecido. Sair com Mary, sair com qualquer mulher que estivesse
interessada e se concentrar em seguir em frente. Sem dúvida, é o
que Connor recomendaria. Se fizesse isso, Nate daria uma de
machão e poderia manter a carteirinha de homem.
Também não.
Fazer nada. Recusar-se a falar sobre a noite e ver o que
aconteceria. Não analisar tudo daria a ela bastante espaço para
seguir com a negação, mas não o suficiente para aniquilar qualquer
interação futura. Em outras palavras, deixaria todas as opções em
aberto.
Melhor opção até agora.
A porta rangeu.
Kennedy entrou na ponta dos pés, viu que ele estava acordado
e parou no mesmo lugar, com um sorriso estranho nos lábios. Sua
vontade era derrubá-la de costas na cama, beijá-la até não poder
mais e dar o quadragésimo orgasmo que ela havia implorado para
não receber na noite anterior.
Em vez disso, disse a primeira palavra que lhe veio à mente.
“Oi.”
O sorriso se tornou genuíno. Kennedy ajeitou a camisa. “Oi.”
Ele limpou a garganta e afastou as cobertas. Ignorando a
ereção matinal, levantou da cama, vestiu a cueca e virou de frente
para ela. Os olhos dela se arregalaram diante da visão, o que só
piorou muito mais as coisas. “Minha nossa. Hum. É melhor eu ir. Tá
meio tarde. Obrigada por ontem.”
Ele levantou a sobrancelha.
Ela levou a mão à boca. “Quer dizer, obrigada por me deixar
ficar aqui. Quer dizer… você sabe o que quero dizer. Não sabe?”
Era tão linda. Nenhuma outra mulher no planeta tinha tantas
facetas. Era confusa e sensual ao mesmo tempo. “Certo. Mas você
não pode fugir ainda.”
“Não estava fugindo!”
“Linda, você tá fazendo todo o ritual da caminhada da
vergonha. Não que eu esteja reclamando. Mas cuidei muito bem de
você ontem, então você me deve alguma coisa. Algo grande.”
Ken deixou o olhar cair até o pau dele e engoliu em seco, mas o
brilho de luxúria em seus olhos quase o matou. “Achei que já
estivesse satisfeito.”
Ele deu um passo para a frente. “Só uma coisa vai me deixar
satisfeito agora.”
“Você não tá sendo um cavalheiro.” A voz estava sem fôlego e
traía uma pontinha de excitação. Ele respirou fundo e inspirou o
cheiro dela. “Acho que já teve o suficiente.”
“Você tá me devendo uma coisa e sabe do que tô falando.”
Ela tremia. Umedeceu o lábio inferior com a língua. “Talvez se
você me pedir com jeito.”
Mais um passo, e ele a encarou. Ergueu o queixo dela. Os olhos
castanhos estavam embaçados, e ele sabia que com um gesto
poderia deixá-la de joelhos. Ela ia gostar. Ele ia adorar. Eles
poderiam adiar a inevitável luz do dia por mais uma hora. Ou duas.
“Então vou pedir.”
Levou o polegar até o lábio inferior, que se projetava num
biquinho, captou a umidade, e levou até a própria boca para
chupar. Ela gemeu. “Pode pedir.”
“Quero que você…”
“Tá bom.”
“Tome café da manhã comigo.”
Ele deu um passo para trás. Viu a confusão no rosto dela. “O
quê?”
“Café da manhã. Tô morrendo de fome, e não tem nada de
bom na cozinha. Deixa eu tomar um banho rápido e a gente vai.”
“Não tenho roupa.”
“A gente passa na sua casa pra você botar uma calça jeans.
Volto num minuto.”
Ele fechou a porta atrás de si e ligou o chuveiro no nível mais
frio. O truque era desequilibrá-la. Talvez com tempo suficiente,
Kennedy concluísse que estava tão louca por ele quanto ele por
ela. Talvez não estivesse à altura dela, mas não era covarde. Sabia
muito bem lutar e não ia desistir dessa briga.
Ia ser uma manhã e tanto.
Uma hora depois, estavam espremidos numa mesa apertada na
lanchonete Dish and Spoon. Nate pediu um pano com desinfetante,
limpou a mesa do seu próprio modo e relaxou na cadeira, como se
não tivesse acabado de transar uma centena de vezes.
Por razões que não conseguia compreender, Kennedy tinha
obedecido sem fazer objeção. Vestira uma calça jeans decente e
uma camiseta limpa, tênis e prendera o cabelo num coque
bagunçado. Seu plano original era sumir da casa dele, dar um
espaço para os dois e depois ter “a conversa”.
A culpa e a satisfação lutavam dentro dela. Kennedy era
responsável pelos encontros dele com outras mulheres da
Kinnections e não tinha o direito de confundir a cabeça de seu
cliente. Como Nate iria sair com alguém com a mente e o coração
leves depois do que tinham feito? Assim que acordou, jurou para si
mesma que aquilo não aconteceria de novo. Contaria tudo para
Kate e Arilyn e poria o destino de Nate nas boas mãos delas.
Em vez disso, ele a confundiu com aquele corpo nu de dar água
na boca e aquelas palavras sensuais. Ela nem brigou com ele pela
escolha da lanchonete. Pediu frutas com iogurte grego. Mas a visão
dos ovos fritos, o bacon crocante e os bolinhos de batata
gordurosos no prato dele a fizeram suar. Manteve-se firme na sua
determinação original e pegou um morango maduro, perguntando
por que estava irritada de repente depois de ter um milhão de
orgasmos.
“Sabe o teor de gordura desse prato?”, perguntou. “Mais que a
sua cota diária.”
“Fiz muito exercício. Você também.” Ele espetou um pedacinho
de ovo com pão de centeio. O pão brilhava com a manteiga
derretida. “Uma sessão padrão de sexo papai e mãe queima cerca
de trezentas calorias por hora. Mais umas cem calorias por
orgasmo. Calculando as várias posições que a gente fez, o número
de orgasmos e dividindo pelo número de horas, dá umas duas mil
calorias. Um ovo com bacon tem aproximadamente cento e trinta e
seis calorias. Mesmo com os bolinhos de batata e o pão, ainda
estou abaixo das calorias que queimei ontem. Aqui, come metade
de uma tira de bacon. Você precisa da proteína.”
Todos aqueles fatos e números sobre sexo fizeram a cabeça de
Ken girar. Deu um gole no café preto e tentou se conter. Meu Deus,
era possível mesmo queimar tanta energia numa noite agradável?
“Mas não é nem bacon de peru”, argumentou ela, tentando não
soar irritante.
Um sorriso tocou os lábios de Nate. Ele cortou metade do
bacon, acrescentou um quarto do ovo e uma fatia de pão de
centeio. “Você precisa de um pouco de grão integral e proteína,
gata. Só um pouquinho.”
Ela lambeu os lábios e estudou a comida no prato como quem
avalia o inimigo. “Só uma mordida.” Assim que seus dentes
tocaram a tira crocante, deixou escapar um gemido. Só o cheiro a
deixava louca. Fechou os olhos e saboreou cada mordida. “Tão
bom.”
Nate praguejou baixinho, mas Kennedy estava muito entretida
para ligar. “O que vai fazer hoje?”, perguntou ele.
“Não muito. Limpar a casa. Trabalhar.”
“Preciso de um parceiro de golfe.”
Ela bufou. “Duvido muito. Além do mais, você não trabalha aos
sábados?”
“Preciso de uma folga. Você também. E você me prometeu
ontem. Estou só cobrando.”
Kennedy mordiscou o pão amanteigado. Percebeu que deveria
estar zangada ou irritada por ele cobrar um favor que ela
prometera no auge do sexo, mas a combinação perfeita de ovos,
torrada e bacon tinha derretido seu cérebro. “Tá bom. Mas essa
coisa entre a gente acabou. Entendeu?”
“O golfe? Pode deixar, não vou pedir pra você jogar de novo.”
“E o resto. Todo o resto.”
“O sexo? Depois a gente fala disso. Não vamos estragar um
café da manhã tão bom. Aqui, experimenta um bolinho.”
“Ah, não, eu…”
Ele pôs um bolinho de batata no prato dela. “Só um. É tão
pequeno.”
“Só um. Então, sobre a noite passada. Acho que…”
“Tô incomodado com uma coisa já tem um tempo. Wayne, meu
colega de laboratório, acredita numa descoberta inovadora dos
cristais de tempo. Um negócio bem controverso. Um cara do MIT,
Wilczek, inventou a teoria, e ela tem dividido campos e causado
reboliço no mundo da física. Se ficar provado que é possível criar
cristais de tempo, vamos contrariar literalmente toda a base da
simetria. Wayne acredita que isso vai mudar o mundo. Eu acho que
existem muitos problemas inerentes lá no começo. Embora não
esteja negando a emoção de desafiar as teorias dominantes e
empurrar a física para o próximo nível.”
Ken sentiu um alívio. Nate não queria falar de sexo nem da
relação deles. Talvez acreditasse, como ela, que foi uma noite
maravilhosa que não devia dar em nada. Talvez já tivesse aceitado
que iriam passar mais algumas horas juntos no campo de golfe, e
então se separar sem discutir o encontro. Talvez até saísse com
Mary. Isso seria legal.
Droga, o bolinho de batata era tão bom. Mas pequeno demais.
Talvez só mais alguns. “É só uma teoria de que talvez seja possível,
e não uma confirmação”, comentou ela. “Não estamos falando de
viagem no tempo nem nada. Mas ter um sistema de controle do
tempo para o espaço seria inovador. Existe energia no estado mais
baixo possível, então nunca vai haver movimento perpétuo. Queria
ver mais pesquisas antes de chegar às minhas conclusões. Mas
estou um pouco surpresa. Sempre achei que você tivesse uma
cabeça mais aberta.”
Ela mergulhou uma batata no ketchup, que quase não tinha
calorias, e sorriu quando o sabor do sal e da batata explodiu em
sua boca. Estava tão feliz.
“Sou progressista. Também sou um classicista.”
Ela revirou os olhos. “Tanto faz.”
“Há quanto tempo você estuda física, Ken?”
O bolinho caiu de seus dedos. Merda. Uma olhada para ele, e
viu que Nate a estava avaliando, concentrado. Tinha a mesma
expressão da noite passada, quando estava entre suas coxas,
fazendo-a gozar. Seu corpo se contraiu em resposta, e ela ficou
molhada. Como ele conseguia fazer isso só com um olhar? “Do que
você tá falando? Li isso num blog de ciência quando estava
procurando sapatos no Shoe-Dazzle.com.”
“Por que mentir?”, perguntou ele, em voz baixa. “Por que é tão
ruim admitir que é boa em ciência e matemática?”
Ela ergueu a cabeça. Não ia cair naquele papo. Já tinha
contado coisa demais para ele. “Odeio ter que jogar água fria, mas
realmente não sei muito dessas coisas. Lembro o que aprendi na
escola, às vezes leio um blog ou outro, mas não tenta me
transformar em algo que não sou. Só vou decepcionar você.”
Sentiu seus olhos verdes queimando fundo nos dela.
Estremeceu diante de toda aquela atenção, a boca ficando seca à
medida que ela tentava manter a calma e a distância. Os lábios
exuberantes emoldurados pelo cavanhaque lhe davam o ar
embrutecido de “dia seguinte” que ela achava incrivelmente sexy. A
jaqueta jeans da Calvin Klein, a camisa de botão e a calça jeans
justa exibiam seu corpo musculoso. Não que ela precisasse ser
lembrada. Conhecia cada centímetro dele, do abdome definido aos
bíceps tonificados capazes de segurá-la, enquanto ele a penetrava.
Não parecia nem um pouco nerd. Na verdade, estava tão sensual
quanto um modelo masculino saído de uma sessão de fotos de
revista.
Ela respirou fundo. Foco. Nate queria entender seu cérebro, e
ela não ia dar isso a ele. Esperou e se preparou para a batalha. Ia
levantar e acabar com aquilo agora mesmo.
Em vez disso, ele relaxou lentamente o corpo e concordou com
a cabeça. “Certo. Terminou? Quero chegar no campo antes dos
grupos maiores.”
“Talvez não seja boa ideia.” Ela fez uma pausa. “Talvez seja
melhor deixar pra outro dia.”
“Não, você prometeu. Vamos.” Ele pegou a conta e foi até o
balcão para pagar, enquanto ela tentava controlar o apetite sexual
e físico. Algumas horas de golfe não iriam fazer mal. O dia estava
bonito, seria um exercício leve, e eles iriam cada um seguir o seu
caminho.
Algumas horas depois, estava convencida de que Nate Dunkle
era um filho da mãe sorrateiro.
Tirando o mau humor dele quando ela conseguiu fazer uma
coisa chamada birdie, Nate era o companheiro perfeito. Ensinou-a
como segurar o taco e a fincar os pés para ganhar força. Seus
dedos a acariciavam o tempo todo. Ele insistia em deslizar a ereção
contra sua bunda e em envolver os braços bem apertados em volta
dela, com o pretexto de ajudá-la com o swing. À medida que eles
iam passando para os buracos seguintes, ele começou a murmurar
consigo mesmo e até escreveu umas fórmulas ridículas no
bloquinho. Muito confuso. Toda vez que ela achava que tinha ido
bem, ele parecia ficar mais frustrado. Quando a bola dele caiu no
laguinho bonito, Nate quase perdeu a paciência. O que foi
interessante. E sensual.
Em vez de deixá-la em casa depois, Nate a forçou a parar e
relaxar num dos cafés ao ar livre. Ele bebeu uma cerveja artesanal,
ela pediu uma taça de vinho, e os dois ficaram observando as
pessoas e conversando sobre um monte de coisas. Ele parou numa
feira de produtos orgânicos e a fez fechar os olhos, enquanto
comprava uma série de ingredientes secretos que se recusou a
mostrar. Toda vez que ela tentava espiar dentro de um dos grandes
sacos de papel marrom, ele o fechava mais apertado. Tudo bem.
Talvez fosse preparar uma refeição especial secreta para Mary. Isso
seria legal.
No caminho de volta para casa, arrastou-a para uma exposição
de arte, onde eles debateram seus artistas preferidos, e ele veio
com uma teoria ridícula de como Monet usou uma equação
matemática famosa para gerar a aleatoriedade das suas ninfeias.
Até parece.
Quando ele enfim a levou até a porta de casa, já era de
noitinha. Kennedy tentou freneticamente encontrar um jeito fácil e
casual de se despedir e deixar a noite de sexo selvagem para trás.
Decidiu ser direta.
“Bem, obrigada pelo ótimo dia. Estou muito cansada, então é
melhor eu entrar.” Especialista em dispensar homens, ela abriu um
grande sorriso, mas Nate a ignorou e entrou no apartamento.
“Gostei da sua casa”, afirmou, assimilando a decoração
moderna e minimalista, as linhas limpas e o design caro.
“Obrigada. Hum, Nate…”
“Sei que você está cansada, mas preciso de um favor. Lembra
que disse que não cozinho muito? Quero aprender. Construir um
paladar é a base de uma boa educação culinária.” Depositou os
sacos na bancada. “Preciso de uma cobaia.”
Kennedy fechou a porta atrás de si e o encarou. “O quê?”
Ele fez um gesto com a mão no ar. “É jeito de dizer, claro. Mas
é uma experiência muito simples. Você coloca uma venda e me diz
qual é o gosto das coisas que eu comprei. Quero fazer um jantar
completo. Expandir meus limites. O que acha?”
A cabeça de Ken já estava girando. “Hum, acho que aprender a
cozinhar é uma ideia maravilhosa. Mas já tá tarde. E não sei como
isso vai te ajudar.”
“Vou ter uma perspectiva feminina sobre o cardápio que quero
tentar. Não vai demorar muito. Por favor?”
Ela olhou para os sacos de compras com suspeita. “Por que
tenho que ficar de olhos vendados?”
“Vi no programa do Gordon Ramsay. Quando você não vê os
ingredientes, fica com a cabeça mais aberta. Isso permite que o
seu paladar funcione como o seu sentido principal.”
Kennedy sentiu a pele formigando de antecipação. Era óbvio o
que tinha que fazer. Rejeitar o plano, pôr Nate para fora do seu
apartamento e ir cedo para a cama. Sozinha.
“Tudo bem. Eu topo.”
Ele se iluminou. Tirou a jaqueta e pendurou cuidadosamente no
cabide da sala. Ele vestia um jeans escuro que envolvia sua bunda
espetacular e arregaçou as mangas da camisa casual azul-clara,
como se estivesse se preparando para algo grande. Lavou as mãos
e puxou uma cadeira até a mesa.
“Posso sentar no banco”, apontou ela.
“Não. A cadeira é mais resistente. Confie em mim.”
Mais resistente para quê? Ela deu de ombros. “O que tenho que
fazer?”
“Pode pegar um lenço ou cachecol, por favor?”
“Safadinho.”
“Posso ser.” Ela riu, pegou um lenço roxo colorido e sentou.
“Agora, vou vendar você e preparar umas comidas.” Ele passou o
lenço com gentileza sobre seus olhos e deu um nó frouxo. “Está
vendo alguma coisa?”
“Não.”
“Certo, me dá um minuto.” Ela ouviu portas de armários
abrindo e fechando. O farfalhar dos sacos. O cheiro de ervas e
outras comidas frescas, tudo misturado. A porta da geladeira
rangeu, depois silenciou. O barulho na cozinha foi relaxando-a aos
poucos, e Kennedy deixou a mente vagar enquanto esperava a
primeira prova.
Sentiu-o ajoelhando-se à sua frente. A aura poderosa de sua
energia masculina a envolveu com uma força invisível. Uma rajada
de ar quente atingiu seus lábios. Seu coração batia
descompassado. “Pronta para o primeiro sabor?”
As palavras fortes e sensuais retumbaram em seus ouvidos.
Sentiu o estômago afundando na barriga. “Pronta.”
“Abra a boca.”
Separou os lábios. Esperava o toque frio e suave de uma colher,
mas ele usou os dedos. Levou algo pequeno e escorregadio até sua
língua. O sabor de mar, sal e fumaça fez cócegas. A mordida firme
com os dentes fez explodir o caldo em sua boca. O sabor simples e
cru a inundou de prazer, e seu corpo respondeu como um fio
desencapado.
“Ostra.” Sorriu de leve ao captar o gostinho cítrico no final. “A
combinação é incrível.”
Ele limpou uma gota do seu lábio inferior.
“Muito bem. Era uma ostra. Gostou?”
Ela se lembrou de como ele tinha puxado seus mamilos,
mordendo, lambendo e depois fazendo a mesma pergunta.
Kennedy tentou recuperar a sanidade. “Gostei.”
“Próximo.” Ela esperou, seus sentidos em alerta máximo. “Abra
a boca.” Relaxou as coxas, como se tentasse responder ao
comando, e ele enfiou algo entre os lábios. Um queijo cremoso e
grosso com uma pitada de alho, azeite, manjericão e tomate seco.
Era como se os ingredientes tivessem acabado de ser colhidos, e
seu paladar chorou de alegria. “Queijo”, murmurou. “Mozarela.
Tomate. Nossa, é uma delícia.”
Ele começou a acariciar seu rosto e seus ombros, conduzindo-a
a um transe mais relaxado. Ken abriu as pernas e sentiu a vagina
pulsar. A simplicidade dos sabores fluiu por ela, dentro dela, e ela
deixou a cabeça cair para trás. Nate murmurou em seu ouvido:
“Você é muito boa nisso, linda”. Levou as mãos em concha até os
seus seios, massageando-a por sobre o tecido de algodão. “Quer
mais?”
“Quero.”
“Quero tirar sua blusa.”
A exigência ultrajante ultrapassava todos os limites. Ele merecia
um tapa, um choque e um chute para fora de casa. Em vez disso,
ela ficou tão excitada que não conseguiu falar por um minuto. “Tira
pra mim.”
Ele rosnou. Passou a camiseta pela cabeça. O ar frio envolveu
seus seios e fez seus mamilos se eriçarem. Queria gritar, sentia-se
tão escandalosamente entregue ao prazer. Sentada na cozinha, os
olhos vendados, sem blusa e com Nate alimentando-a. Ele deslizou
os polegares pelos pontinhos duros, brincou com eles através da
renda do sutiã, e, de repente, sua boca estava em cima dela,
quente e molhada, chupando o mamilo por cima do tecido e
sacudindo a língua de um lado para o outro. Ken gritou e arqueou
o peito para ele, as mãos puxando-o para junto de si. Ele se
dedicou ao outro peito, e foi embora. Ouviu o barulho de um
utensílio batendo contra a bancada. O farfalhar de papel. Cada
segundo fazia aumentar o nó de tensão em sua barriga.
Respirar era um luxo agora. Ofegou por ar e cruzou as pernas,
mas ele falou com muita calma. “Pronta para o próximo sabor?”
Ela assentiu.
“Abra a boca.”
Ah.
Sushi. A textura era fria e suave, mas o peixe tinha uma
espessura que a intrigou. Mordeu. O sabor acre do molho teriyaki o
envolvia, mas não encobria o gosto natural do peixe, que se desfez
em lascas.
“Salmão! É salmão, tenho certeza.”
“Muito bem.” Enquanto ela mastigava e engolia, ele desabotoou
o sutiã. Seus seios se derramaram livres nas mãos à sua espera, e
a combinação do contato com o prazer da comida a deixou louca.
“Acho que você merece uma recompensa antes do próximo sabor.”
O botão da calça jeans se abriu. Os dedos dele envolveram sua
barriga e traçaram uma linha ao longo do cós da calça. “Levanta o
quadril, linda. Vou tirar sua calça.”
Ela esperou que sua voz interior racional gritasse feito bicho e
dissesse nem pensar. De jeito nenhum. Jamais. Não.
“Tá.”
Ele deslizou a calça, desvencilhando-a dos pés. Ken o ouviu
inspirar fundo. “Você é tão bonita.” Nate acariciou suas pernas até
as coxas, separando-as gentilmente. “E está tão molhada.” O dedo
traçou a linha da calcinha. Ela estremeceu, o corpo vacilante como
se estivesse a ponto de alcançar o clímax. “Faltam dois sabores.
Vamos te dar alguma coisa pra molhar a boca.”
Ela choramingou com a perda de seu toque. Uma porta de
armário bateu. Ouviu o som de líquido sendo derramado num copo.
“Dá um gole. Diz o que acha.”
Ele ergueu seu queixo e levou o copo aos lábios. O vinho
desceu pela garganta, forte e intenso, o aroma de amoras subindo
até as narinas e enchendo a boca. Um deleite sensual completo,
maravilhou-se com os taninos intensos e a ousadia. “Vinho tinto.
Frutas vermelhas? Figo?”
“Amora. Muito bem. Bebe um pouco mais.”
Ela deu outro gole, ao mesmo tempo ele envolveu seu sexo
com a palma da mão.
Kennedy ergueu o quadril, o vinho desceu pela garganta, e ela
quase se desfez ali mesmo. Com o polegar, ele atiçou a pontinha
dura do clitóris, e seus dedos dançaram e a massagearam até o
tecido estar molhado e perfumado. “Extraordinário”, murmurou ele,
como se ela fosse um de seus experimentos científicos. “Toda vez
que você experimenta uma coisa que gosta, seu corpo responde.
Acho que você podia gozar só com os sabores certos.”
Uma risada sufocada escapou da garganta de Ken. Era louca.
Ele era louco. Que droga, só podiam estar loucos para estarem
fazendo aquela cena de sexo na cozinha, mas ela não conseguia
parar, precisava que ele terminasse o que tinha começado. Por que
não estava se sentindo constrangida ou terrivelmente vulnerável?
Estava nua, ele estava todo vestido, e, ainda assim, sentia-se
segura por completo com ele, de uma forma que nunca tinha
experimentado antes. Nate iria cuidar dela antes de pensar em si
mesmo. E aqui, agora, ela só queria mais. “Para de me provocar”,
gemeu ela. “Preciso…”
“Sei do que você precisa, linda. Levanta.”
Ele tirou a calcinha.
Ela esperou o toque de suas mãos ou de sua boca, mas só
sentiu o ar frio e vazio. “Nate?”
“Um último sabor.” Achou que ia morrer. Apertou as pernas, em
busca de alívio. “Abra as pernas. Sem trapacear.”
Ela obedeceu, completamente indefesa sob seu feitiço. Ele lhe
acariciou o rosto, deslizou o dedo ao longo de seus lábios.
“Abre pra mim, Ken. Mais. Isso, assim.”
Seu coração batia feito uma tropa de cavalos de corrida
aproximando-se da linha de chegada. Todos os músculos se
retesaram com a tensão, à espera da colherada final.
Com os dedos, ele abriu os lábios, os dentes, e pôs o objeto na
língua.
Chocolate.
Agridoce, intenso e cremoso, o chocolate revestiu a língua,
derreteu na boca e a levou à beira do precipício.
“Nossa!”
A venda foi arrancada e sua boca tomada num beijo áspero, a
língua dele abrindo caminho, enquanto os dedos mergulhavam
entre as pernas e entravam nela.
Ela gozou forte, contorcendo-se contra a cadeira, uma dúzia de
sensações levando-a em diferentes direções. Nate murmurou
alguma coisa, levantou-a, envolvendo as pernas dela em seus
quadris, e seguiu para o quarto. Em minutos, jogou-a na cama,
tirou as roupas e colocou uma camisinha.
Ken ainda estava trêmula dos efeitos colaterais do primeiro
orgasmo, quando ele abriu seus joelhos e a tomou numa investida
completa.
O corpo dela o envolveu, acolhendo-o profundamente e
apertando-o com força. Nate a tomou com brutalidade, e ela
adorou cada momento, cravando as unhas em suas costas
enquanto se desfazia uma segunda vez. Ele gritou seu nome e
fundiu os lábios nos dela, movendo o quadril ao gozar.
Kennedy tentou se mexer, tentou falar, mas aquilo era demais,
e ela estava muito entregue. Uma tensão estranha se acumulou em
seu peito. Um soluço preso na garganta.
Ah, não. Por que sentia como se fosse se debulhar em lágrimas
de repente?
Ele a apertou contra o peito e, com gentileza, tirou os grampos
de seu cabelo. Alisou as mechas sobre os ombros e beijou sua
têmpora. Não disse uma palavra, só pareceu esperar uma resposta.
Como se soubesse que ela estava prestes a contar uma coisa
importante.
Ken era tão boa em guardar segredos, até de si mesma, que
levou um tempo para perceber que estava doida para lhe oferecer
algo mais profundo. Ali naquele momento, no escuro, com um
homem que a fazia se sentir completamente segura, queria contar
a verdade pra ele.
As palavras espirraram de sua boca descontroladas.
“Eu não era só gorda. Era inteligente. Muito inteligente.
Adorava matemática, ciência, história. Era como se eu pudesse
controlar aquilo, as coisas que faziam sentido. Participava de um
monte de grupos nerds. No dia em que me atacaram, lembro de
ver aqueles livros todos espalhados no chão. E percebi que os
livros, as coisas que eu amava, não tinham feito nada pra me
proteger. Na verdade, tinham piorado tudo. Ser inteligente não
levava uma mulher a lugar nenhum; ser bonita e perfeita era a
solução. Fui pra casa e larguei todos os meus livros, saí dos
grupos, comecei a ir mal na escola. Fiquei obcecada com coisas
que valorizavam as aparências. Mudei meus interesses para a
moda, roupas, tudo que deixa o mundo mais bonito. Me tornei meu
próprio Frankenstein. Minha mãe ficou emocionada… Odiava ter
uma filha inteligente e gorda, e, quando comecei a perder peso, ela
me incentivou. Começou a me levar para eventos de caridade e
parecia orgulhosa. Foi meu pai quem me botou na terapia quando
percebeu que eu estava me matando. Minha mãe disse que eu
estava bem.”
Ela relaxou o aperto no braço dele e terminou. “Tive uma
psicóloga maravilhosa. Um dia, percebi que não queria morrer.
Queria uma vida, uma vida de verdade, não o lugar sombrio e
escuro em que estava vivendo, onde a comida era a inimiga e
espelhos eram uma coisa a ser evitada. Eu tinha me perdido, então
decidi me encontrar de novo. Meus pais se separaram, e meu pai
casou mais uma vez. A gente quase não se fala. Minha mãe foi
morar com o marido novo. Fiquei sozinha, mas acho que foi melhor
assim. Kate e Arilyn ajudaram, e descobri que era muito boa em
design e desempenhando funções sociais. Me dediquei a esses
talentos e tentei esquecer o passado. Mas às vezes ele me ataca de
novo.”
Ficou em silêncio e sentiu o vazio. De repente, todos os
segredos e o medo acumulado se soltaram e foram embora. A
única coisa que sobrou foi uma tristeza profunda… pela menina
vulnerável que fora um dia e pelas coisas das quais tinha desistido
porque não acreditava que aquela menina merecia.
Kennedy tentou se soltar, sentindo necessidade da distância,
mas Nate a segurou com força. Seu calor e perfume a envolveram,
proporcionando conforto. Aos poucos, ela desistiu de lutar e
aceitou o que ele oferecia.
“Acho que está na hora de você entender a verdade, Ken. A
verdade que vi no momento em que coloquei os olhos em você.”
“O quê?”
“Você é as duas coisas. Inteligente e bonita. Por dentro e por
fora. Não precisa mais escolher uma coisa em detrimento da outra.
Pode só ser exatamente quem tem que ser. E acho essa pessoa
perfeita.”
Ela fechou os olhos e enterrou o rosto em seu peito. “Sou um
caos.”
“Shhh. Dorme, linda. Vai ficar melhor de manhã.”
Um sorriso curvou os lábios dela. Em seguida, a escuridão
chegou, e Ken se entregou, deixando o sono reivindicá-la.
14

Nate observou Wolfe fixar o olhar na bola, erguer o braço e


fazer o swing. O taco acertou a bola em cheio, e ele viu a tacada
de approach cair perto do green. Bem respeitável, principalmente
para um iniciante.
Wolfe olhou na sua direção, sem saber se tinha sido uma
tacada boa. Nate sorriu. “Bom trabalho. O movimento melhorou
muito, e você está acertando o green. Faz tempo que a gente não
tem que andar na areia nem na água.”
Wolfe riu quando os dois começaram a caminhar. “Cara, acertei
o green e o fairway. É um milagre.”
“Que isso, seu swing é muito forte. Deve ser essa tatuagem.”
“Você devia ver o que um piercing é capaz de fazer.
Principalmente num lugar doloroso.”
Nate se encolheu. “Vou passar essa.”
Eles jogaram os buracos seguintes num silêncio confortável.
Nate sentia falta de ter amigos homens. Wayne raramente falava
de outra coisa que não o trabalho, e seu irmão era da família,
então tinha que aturar o cara de um jeito ou de outro. Nunca tinha
imaginado que Wolfe seria o tipo de sujeito que gostaria de ser
amigo dele. Nate achou que seria descartado depois de algumas
sessões, mas ele parecia realmente interessado em continuar as
aulas e até chamou Nate para tomar uma cerveja depois do
trabalho, na semana anterior.
“Quando é a reunião de golfe que você está marcando?”,
perguntou Nate. Seu taco cortou o ar, e a bola navegou num arco
cheio, caindo a menos de meio metro do buraco. Boa! Se ao
menos Ken visse isso.
“Arrumei uma sessão na sexta de manhã com o grupo dele.
Cara, foi mais difícil que me infiltrar na CIA. Este esporte é dureza.”
“Você vai estar pronto. E o Purity, como está indo?”
Wolfe deu sua tacada. Pendeu um pouco para a esquerda, mas
se corrigiu o suficiente para evitar o perigo. “A inauguração vai ser
daqui a poucas semanas, e já fechei uma boa lista de celebridades.
Decidi fazer um evento beneficente, para dar também um retorno
para a comunidade. Nova York é um lugar especial, então preciso
ter uma abordagem diferente do hotel de Milão, e meu pai
concordou que o negócio tá nas minhas mãos. É o primeiro projeto
que toco do início ao fim.”
“Seu pai parece legal. Vocês se veem sempre?”
“Ele mora com a Julietta, minha madrasta, em Milão. Ela é
chefe da padaria La Dolce Famiglia e acabou de ter um filho, mas
tenho certeza que vai vir para a inauguração. É uma mulher
durona.” A expressão no seu rosto dizia a Nate que Wolfe gostava
dela. Sentiu uma pontada de inveja. Como seria ter um pai que
realmente se preocupasse com você e com a sua vida? Pelo menos
tinha Connor ao seu lado, o que era muito mais do que a maioria
das pessoas tinham.
“Acho que acabei de ter uma ideia brilhante.”
“O quê?”
“Você pode pagar as aulas em doce. Adoro bolo.”
Wolfe sorriu. “Fechado. Tem duas coisas que são garantia para
chamar a atenção das mulheres, e uma delas é comida boa.”
“Qual é a outra?”
“Um bichinho de estimação fofinho.”
Hum. Nate se perguntou se deveria investir num filhotinho de
cachorro e colocar Kennedy para ajudar. A ideia tinha seu mérito.
Ah, merda, que maluquice. Quem compra um animal de estimação
só para segurar a mulher que ama? Desde a noite em que ela
confessara o seu passado, que ele era perseguido por sua força e
vulnerabilidade. Também percebeu que ela não enxergava essas
qualidades.
Quando acordara no domingo de manhã na cama de Kennedy,
ela já tinha escapado. De banho tomado e vestida, cumprimentou-
o com uma animação falsa que o irritou profundamente. Devia ter
arrancado aquelas roupas e a arrastado de volta para a cama, onde
ela sempre o escutava, mas seu instinto o alertou de que ela
precisava de espaço. Sem uma palavra, deu-lhe um beijo de adeus
e saiu. Ficou na esperança de que um dia para refletir sobre a
relação dos dois poderia levá-la à conclusão de que eram perfeitos
juntos. Mas, de alguma forma, não acreditava muito nisso.
Ela não ligou. Também não foi à aula de zumba na segunda. Já
estavam no meio da semana e, até agora, nem um pio. Nate
precisava de algum sinal do que fazer. Seu instinto o levava a ser
direto, mas às vezes as mulheres precisavam de sutileza. E estava
jogando para valer.
Olhou para Wolfe, a tatuagem, o ar confiante e a aparência de
modelo. Sempre usava umas pulseiras de couro que só o tornavam
mais interessante. O filho da mãe fazia parecer fácil. “Ei, Wolfe?”
“O quê?”
“Já se apaixonou?”
Ele ficou rígido. Tirou os olhos da bola e virou para o professor.
Seus olhos azuis de repente pareceram turvar-se, mas ele
respondeu à pergunta: “Não”. Então estudou o rosto de Nate. “Te
pegaram de jeito, é?”
Nate correu a mão pelo cabelo cortado com perfeição. “É.
Literal e figurativamente. É com o sentido figurado que está difícil
de lidar.”
O amigo riu. “A explicação de um cientista. Ela tá a fim?”
“Acho que tá. Mas tem pavor de compromisso. Medo de parar e
olhar as coisas a fundo, como se já estivesse convencida de que vai
acabar mal. Não sei como convencê-la que quero uma coisa séria.
Que vou ficar. Que ela vale a pena. Ah, merda, isso não faz o
menor sentido, faz?”
“Faz.” Wolfe olhou para o horizonte e ficou quieto. Nate
reconheceu no silêncio outra alma que precisava resolver alguma
coisa e, de repente, percebeu que havia muito mais em Wolfe além
da camada externa de bilionário bonito. “Às vezes, as pessoas não
acreditam que merecem um final feliz. A maioria não consegue. Já
falou pra ela o que você tá sentindo?”
“Não. Achei que ia estragar tudo. A louca no mínimo ia trocar
de nome e se mudar pra outro estado só pra se livrar de mim.
Achei melhor ir devagar. Não forçar as coisas. Dar espaço.”
“É complicado, Nate. Pode ser que sim, pode ser que não. Mas
de uma coisa eu sei. Você vai ter que lutar muito por ela, e pode
acabar perdendo. Ela vale a pena mesmo assim?”
“Vale.”
“Ainda bem que não sou você.”
“Valeu pela ajuda.”
Outra risada curta. “Você tem que contar pra ela. Ela devia
saber. Se fugir, você espera. Talvez você tenha que provar que não
se assusta facilmente.”
Ele tentou não suspirar. “Pode ser.”
“Escuta, o que você vai fazer no sábado?”
“Tá me chamando pra sair?”
“Vai sonhando.”
Nate sorriu. “Só jogar golfe.”
“Tenho que ir a uma festa de noivado de gente muito próxima,
coisa grande, vai ser divertido. Por que não vem comigo?”
Nate foi pego de surpresa. Tinha a sensação de que ser
convidado para o círculo interno do novo amigo era algo
importante. “Seu amigo não vai se importar?”
“Quem me chamou foi a noiva, e não, quanto mais gente,
melhor. Vai ser bom conhecer pessoas novas. Se as coisas não
derem certo com essa mulher, é bom saber que você tem opções.
A família da Gen é incrível, e a festa vai ajudar você a esfriar a
cabeça um pouco.”
“Não prefere levar uma mulher?”
“Não… Acabei de sair de um namoro de fim de semana… Estou
exausto. Tô precisando é de um amigo. Você topa?”
“Topo. Obrigado.”
“Sem problema.”
Eles terminaram o jogo e foram embora. Nate entrou no carro,
passou o cinto e ouviu o telefone apitar. Feito um adolescente
apaixonado, correu para conferir a mensagem.
Oi, Nate, é Mary, do coquetel. Kennedy me falou pra entrar em
contato pra gente marcar um encontro. Disse que você estava
muito animado pra sair. Estou livre nesta sexta e no sábado, então
me avisa. Estou ansiosa… Adorei conversar com você no coquetel.
Tenha um bom dia!

Deixou a cabeça cair no volante. Bem, Kennedy tinha enfim


dado o primeiro passo, e tinha sido uma rasteira. Marcar um
encontro para ele com outra depois de eles terem dormido juntos
definitivamente era um sinal.
Um que ele não queria.
O próximo passo seria fundamental. Hora de ler a última edição
da Cosmopolitan e rezar.
***
Kennedy admirou a mansão imensa no terreno interminável e
se virou para Kate. “Uau. Alexa se esmerou neste evento, hein? Ela
pode ser minha irmã adotiva?”
Kate riu e segurou a mão do noivo. Sem perder a
masculinidade, Slade brincou com o embrulho afeminado do
presente das madrinhas — dois saquinhos cor-de-rosa da Barbie.
“Você pode ser minha irmã se quiser, Ken”, disse ele.
Ela jogou um beijo para o homem que tinha roubado o coração
da sua melhor amiga e começou a caminhar pela trilha de pedras.
“A casa da mãe dela era pequena demais, e David só tem um
apartamento. Eles viram um monte de lugares, mas Gen queria
uma coisa mais caseira”, comentou Kate.
“É, bem caseiro, com quinhentos metros quadrados. É incrível.”
“Nick fez tudo. Eu esqueço que você não veio aqui ainda. Vai vir
todo mundo, então vai ser bem animado. Caramba, aquilo é um
pavão!”
Uma belíssima criatura azul e violeta passou elegantemente por
eles na direção do gramado impecável. Havia guarda-sóis brancos
espalhados em meio a fileiras perfeitas de rosas brancas e
amarelas. Numa plataforma ladeada por esculturas de mármore,
uma orquestra de sete instrumentos tocava música clássica. Uma
harpista de longo branco e flores no cabelo dedilhava como se
tivesse acabado de sair de um conto de fadas.
“Nossa mãe. Nunca vou deixar Gen esquecer isso. Aquilo é uma
fonte de champanhe? Vamos provar!”
Slade riu. “Essa é a Kate que eu conheço, sempre mais
animada com a bebida.”
“Aposto que é coisa boa”, acrescentou Kennedy. “Espera por
mim.”
Eles abriram caminho por entre a multidão, o alvo sempre à
vista. Slade se virou no último segundo. “Aquilo era casquinha de
caranguejo? Querida, eles têm casquinha de caranguejo.”
“É, meu bem, segura a onda. O bufê vai ter filé-mignon e
lagosta.”
“Adoro festas de noivado. Te vejo daqui a pouco.”
Kate riu e observou o noivo se aproximar do garçom
elegantemente vestido. “O homem entende de comida. Ai, não!
Pronta?”
“Pro champanhe? Sempre.”
“Pro caos. Um, dois, três e…”
“Kate! Kate está aqui, Kate está aqui!”
Duas meninas histéricas atravessaram o gramado à toda. A
mais velha estava de sapato de couro branco e um vestido longo
cor-de-rosa, e o cabelo negro caía em cachinhos. A mais nova
vinha logo atrás, as fitas tortas na cabeça, o vestido rasgado e
lamacento, e descalça. Kate se ajoelhou e abraçou as duas, e elas
recuaram, rindo.
“Oi, meninas! Lembram da minha amiga, Kennedy?”
Elas olharam para cima e abriram grandes sorrisos. Ken se
lembrava bem das filhas de Alexa. A mais velha, Lily, era bem
sofisticada, e a mais nova era um espírito livre. Maria observou:
“Que nem o Ken da Barbie! Mas você é menina”.
Lily bufou. “Maria, o nome completo dela é Kennedy. Acho
muito bonito.” O olhar da menina se demorou no vestido justo de
Kennedy, nas joias brilhantes e nas sandálias de salto combinando.
“Amei sua roupa!”
“Obrigada, querida. Também adorei a sua.”
“Cadê sua tia e sua mãe, meninas?”
“Na varanda. Kate, vou ser daminha da tia Gen! E vou segurar
uma cesta e jogar flores na igreja toda!”, exclamou Maria.
“Só no caminho até o altar”, corrigiu Lily.
“Você trouxe presente, Kate?”
“Maria, que falta de educação!”, repreendeu Lily.
Kate ajeitou uma mecha rebelde numa das fitas. “Trouxe sim.
Se vocês acharem o Slade e derem um beijo e um abraço apertado
nele, aposto que ele vai dar o presente.”
“Eba!” Maria disparou pelo gramado.
Lily suspirou. “Obrigada, Kate.”
“De nada, meu amor. Agora vai atrás dele, enquanto eu procuro
a mamãe.” Lily saiu correndo.
“A mamãe está bem aqui.”
Kennedy fitou a mulher curvilínea e de cabelos escuros diante
de si e sorriu. Alexa era a irmã mais velha de Gen e uma das
pessoas mais gentis que já tinha conhecido. Sempre que saíam ela
e as duas irmãs, Kate era tratada como da família. As três se
abraçaram.
“Cadê o Slade?”, perguntou Alexa.
“Correndo atrás de uma casquinha de caranguejo. Não acredito
neste lugar; é incrível. Você se superou.”
Alexa pousou as mãos no quadril. “Foi divertido planejar a
festa. Como meu casamento foi uma fraude, estou usando toda a
minha energia acumulada no casamento da Gen. Gostaram dos
pavões? São de uma fazenda de conservação animal e são muito
bem cuidados. Cisnes ficam muito nervosos perto de multidões,
mas os pavões se dão muito bem.”
Ken se perguntou se tinha ouvido direito. Kate parecia tão
surpresa quanto ela.
“Adorei. Hum, seu casamento foi uma fraude?”, perguntou Ken.
A irmã de Gen dispensou a pergunta com um gesto da mão.
“Não importa. Acabou virando realidade. Preciso encontrar a
convidada de honra. Ficamos um minutinho juntas, e ela sumiu.”
Kennedy comentou: “Ela deve estar tendo que falar com tanta
gente, e tem todos os convidados do David também. Festa de
noivado dá trabalho”.
“É, acho que você tem razão. Mamãe e papai estão puxando o
saco dos pais do David. Acho que ele vai passar Nick no
departamento de genro preferido. Nick tá morrendo de raiva.” Seu
olhar se fixou em algo do outro lado do gramado. “Por que Maria
está descalça e imunda?”
“Porque ela e o meu filho estavam correndo atrás dos pavões e
caíram na lama. Oi, meninas.”
A melhor amiga de Alexa e tia emprestada de Gen, Maggie
Conte, se juntou ao grupo. Vestia um terno preto ousado que não
cairia bem nem em algumas modelos da Versace. O cabelo ruivo
estava cortado curtinho, formando um ângulo agudo com o queixo;
era a personificação da elegância. Kennedy sempre a tivera como
exemplo a seguir, e Maggie sempre dava conselhos de moda. As
duas trocaram abraços rápidos.
“Trouxe algum daqueles seus homens deliciosos?”, perguntou
Maggie. “E por que não tem ninguém bebendo?”
Ken riu. “Fomos interrompidas no caminho da fonte de
champanhe. E estou sozinha hoje.”
Maggie torceu o nariz. “Que pena. Você sempre traz cada
homem de babar. Alguém viu a Gen? David está procurando por
ela.”
Alexa franziu a testa. “Sumiu de novo. Está tão estressada com
a rotina de trabalho… Fico falando que é pra pegar leve.”
“Acho que essa é a fama dos cirurgiões em treinamento. Ken e
eu passamos a semana inteira tentando conversar com ela, mas
Gen ficava adiando. Izzy vem?”, perguntou Kate.
Maggie e Alexa trocaram um olhar. “Não sei. Vai ser uma
surpresa.” A irmã gêmea de Gen não se dava com a família. Izzy
tinha se isolado do clã MacKenzie e criado um racha no grupo
coeso. Vários fatores pareciam contribuir para a separação. Drogas.
Farras pesadas. Homens abusivos. Ninguém sabia ao certo o que a
mantinha à distância. Ken se perguntava se isso estava
contribuindo para o estresse de Gen. Ela tinha escolhido Kate como
principal madrinha, então talvez Izzy se sentisse ofendida.
“O que vai ser uma surpresa?”, uma voz interrompeu seus
pensamentos.
A cunhada de Maggie, Carina, juntou-se ao grupo. Trazia um
bebê em um braço e uma bebida no outro. O cabelo escuro
encobria seus ombros numa massa sedosa. Os olhos amendoados
reluziam com uma energia e um entusiasmo que nenhuma mãe de
primeira viagem com um recém-nascido deveria possuir. Na mesma
hora, todas as mulheres rodearam o bebê com suspiros de
admiração.
“A irmã gêmea da Gen, Izzy. Ninguém sabe se ela vem.
Querida, seus peitos estão enormes! Maximus deve ser um menino
muito feliz”, comentou Maggie.
“Qual deles? O pai ou o filho?”, interrompeu Alexa.
Elas caíram na gargalhada. Max Jr. estava enrolado numa
manta azul de malha, com uma touquinha na cabeça. O cabelo
escuro espreitava sob a touca, e seus olhos sonolentos se abriram
para analisá-las, então se fecharam de novo. A vontade de
Kennedy era de enterrar o nariz naquela pele macia cheirando a
talco e abraçá-lo para sempre. “Ei, tenho direito a uma bebida
mesmo amamentando, não tenho?”, perguntou Carina. “E não
digam que não, porque já bebi.”
“Uma taça de champanhe tudo bem, querida. Como você
está?”, perguntou Maggie.
Carina revirou os olhos. “Eu estou bem. Mas Max está péssimo.
Nos meus primeiros dias em casa, peguei ele olhando para o bebê
com uma cara de bobo.”
“Ahhh, que bonitinho”, suspirou Kate.
Carina arqueou uma sobrancelha. “É, mas era só isso que ele
fazia. Se recusava a trocar a fralda, vestir, dar banho. Tinha medo
de quebrar alguma coisa do menino. No mínimo, o pênis. Então fiz
tudo sozinha.”
Kennedy fez uma careta. “Nossa, eu ia ficar louca. O que você
fez?”
Maggie e Carina trocaram um olhar maligno. “Fui embora.”
“O quê? Você largou o seu marido?”, perguntou Kate.
“Só por um dia. Disse pra ele que Maggie ia me levar pra um
spa, pra fazer uma massagem e as unhas. Ele quase morreu, me
implorou pra não ir, mas falei que era hora de pai e filho se
conhecerem.”
Maggie sorriu, orgulhosa. “Vai por mim, não tem nada melhor
que se conhecer através de uma fralda suja de cocô. E funcionou.”
“Pois é. Quando voltei, naquela noite, ele estava botando Max
Jr. pra dormir, de macacão e fralda limpa. Às vezes, você tem que
jogar o marido na fogueira pra ver como ele se vira.”
Alexa riu. “Vocês são o máximo. Um dia, Nick me pediu pra
segurar Lily enquanto fazia alguma coisa, e saiu de casa. De carro.
Não preciso nem dizer que teve troco.”
Kennedy riu. Deus, como amava aquelas mulheres. Fortes,
atrevidas, dedicadas à família. Eram tudo o que ela queria ser
quando finalmente sossegasse. Um dia.
Quem sabe.
Pensou no homem para quem havia contado seus segredos
mais íntimos, que recebera mais profundamente e que passara a
semana inteira evitando, e a lembrança a incomodou. Sentia
saudade dele. Saudade da zumba, do golfe e do sexo. Nossa, o
sexo. Sentia saudade do jeito como ele manchava a camisa com
comida e a analisava com toda aquela concentração maravilhosa.
Mas ela tinha que salvá-lo.
De si mesma.
Jogar Mary em cima dele fora golpe baixo, mas não tivera
escolha. Ao empurrar outra mulher para os seus braços, estava
confirmando tudo o que ele suspeitava a seu respeito. Ela jamais
seria a companheira que ele precisava e merecia. Seus problemas
mal resolvidos iam acabar mostrando as caras. Ken iria achar algo
de errado num dos dois e partiria o coração dele. Melhor libertá-lo
agora. Mary iria ajudá-lo a esquecer.
Afastou a imagem de Nate da cabeça com firmeza e voltou a
atenção para as amigas.
“Por que a gente não se separa e procura a Gen?”, sugeriu
Kate.
Todas concordaram. Kennedy encheu a taça com champanhe e
entrou na casa para procurá-la. Conversou brevemente com os pais
de Gen, conheceu os pais de David, pegou uns palitinhos de aipo
da travessa de legumes e mordiscou. Achou que iria desmaiar se
visse o filé, então decidiu sair dali, ir para algum lugar em que o ar
não estivesse contaminado por todos aqueles aromas maravilhosos.
O primeiro andar não tinha nenhuma noiva, então foi para o
segundo. A imensa escada aberta era um sonho arquitetônico, com
um lustre que pendia em seis camadas de cristais e uma peça
central em ouro velho. Conferiu alguns cômodos, mas estava todo
mundo fora da casa ou no primeiro andar, então duvidou que fosse
encontrar alguém ali. Estava prestes a se virar, quando um rangido
suave chegou aos seus ouvidos.
Abriu a porta. Era o quarto de Lily. Decorado num tom de
amarelo feliz, com uma linda manta rendada sobre a cama de
dossel e um monte de bonecas e bichinhos de pelúcia por todos os
lados. As janelas estavam abertas, e a brisa entrava, enchendo o
quarto com os sons dos risos lá fora e os deliciosos cheiros da
festa.
Gen estava sentada na cadeira de balanço branca, olhando pela
janela.
“Hum, Gen?”
Ela ergueu o rosto. A surpresa inundou suas feições, sendo logo
substituída por um desligamento total das emoções. Ken fitou a
amiga, seu instinto gritando em alto e bom som que tinha alguma
coisa de muito errada. “Meu Deus. Desculpa, Ken. Não ouvi você!”
A risada foi forçada, e ela torceu o anel de noivado no dedo. Ken
notou que estava em carne-viva, da base até os nós. Gen estava
impecavelmente vestida, a blusa e a saia creme longa lhe davam
um ar de inocência mística. O cabelo escuro estava preso num
penteado sofisticado, e pingentes de diamantes brilhavam em suas
orelhas. Os olhos, tão parecidos com os de Alexa, eram de um azul
penetrante. Emanava uma energia nervosa, aflita, que beirava mais
o medo que a empolgação.
“Tudo bem, querida. O que você está fazendo aqui?”
Gen olhou pela janela com um meio sorriso. “Só precisava de
um minuto sozinha. Vou conhecer um monte de amigos e colegas
do David, o que é difícil, agora que estou sendo apresentada em pé
de igualdade. Ele foi meu chefe por dois anos, então é meio
esquisito. Não quero que fique decepcionado.”
Kennedy se aproximou e segurou suas mãos. “Senta aqui
comigo um minuto. Quero conversar com você.” As duas se
acomodaram no banco acolchoado com três almofadas de babados
cor-de-rosa. “Por que você acha uma coisa dessas? David te ama, e
você não decepcionaria ninguém. Qual o problema? Estamos
preocupadas com você, querida.”
Gen a segurou de volta com a força de uma cirurgiã. Falou com
cuidado. “Tem um monte de gente esperando coisas de mim. Não
quero decepcionar ninguém.” Ela levantou a cabeça e olhou direto
nos olhos da amiga. “Não quero errar.”
Ken sentiu o coração partir. Outra mulher linda e bem-sucedida
com medo de deixar a peteca cair. A vida às vezes era esmagadora.
Será que David não era a pessoa certa para ela? A amiga não
merecia estar nas nuvens, apaixonada, e feliz de estar planejando
um casamento? Ou era só a pressão social para ser tudo perfeito?
“Não tem nada pra errar”, disse. “Alexa, eu e Kate vamos ajudar
com todos os detalhes. Você é da família. Precisa dar um passo pra
trás e ver o que está fazendo com você mesma. Pressão demais
não vai te deixar feliz, nem vai deixar o David feliz, nem os seus
pacientes, amiga.”
Gen assentiu. “Você tem razão, eu sei.”
“Já falou com o David? Talvez você consiga dar um jeito de
adiar um pouco as coisas?”
Gen apertou com mais força. Suas mãos de repente ficaram
úmidas. “Não! Não, ele está sob muita pressão no trabalho, já que
suas responsabilidades duplicaram. Vai toda hora pra Manhattan, e
está fazendo o melhor que pode. Vai dar tudo certo.”
Kennedy analisou o rosto da amiga e resolveu arriscar uma
pergunta. “Você tá feliz com David?”
Ela recuou. “Do que você tá falando? Vou casar com ele!”
“Não foi isso que eu perguntei, foi? Nem perguntei se você o
ama. Perguntei se ele te faz feliz.”
Aqueles olhos azuis se arregalaram. Segundos se passaram.
Ken sentiu que estava prestes a ouvir alguma revelação importante
e teve medo de respirar e quebrar o momento. Sua amiga respirou.
Abriu a boca. E…
“Ei, é aqui que é a festa?”
O momento delicado se despedaçou e se perdeu abruptamente.
Wolfe apareceu na porta, a cabeça quase tocando a moldura. O
rosto de Gen se iluminou, e ela correu para lhe dar um grande
abraço. “Já estava na hora de você aparecer”, exclamou. E assim, a
antiga Gen estava de volta.
Wolfe riu e segurou sua orelha. “Belos brincos. É isso que aluno
de medicina recebe de salário hoje em dia?”
“Até parece. David me deu.”
“Que beleza”, comentou ele. “Oi, Ken, quanto tempo. Tudo
bem? Fazendo milhões arrumando namoradas pra otários em busca
de amor?”
Ken revirou os olhos. “Quando é que você vai dar o braço a
torcer e virar meu cliente? Sério, Wolfe, eu jamais teria escolhido a
última mulher com quem te vi. Vocês ainda estão juntos?”
“Que nada, ela só queria meu corpo. Preciso de mais respeito.”
Gen bufou. “Ela era horrível. Não sabia nem jogar um dardo.”
“Falando de dardos, você me deve uma revanche. Fica só
adiando. Não posso beber e jogar sozinho.”
“Desculpa, Wolfe, prometo que na semana que vem a gente se
encontra. Quarta tá bom? Meu turno acaba cedo.”
Uma voz fria cortou o ambiente. “Acho que não vai dar,
Genevieve. Na quarta, temos reunião com os enfermeiros e o
evento para levantar fundos para a caridade.”
Fez-se silêncio. Gen deu um pulo e correu para o lado de David,
como se estivesse com uma coleira no pescoço e o passeio do dia
tivesse acabado. Wolfe retesou a mandíbula e cerrou os punhos,
mas forçou um sorriso para o noivo de Gen. “Bom te ver, David.
Parabéns.”
David era uma presença imponente de um jeito completamente
diferente de Wolfe. O terno era de um tom neutro de cinza e com
certeza feito sob medida. Camisa branca. Gravata recatada. Cabelo
loiro espesso penteado para trás. Não havia um sinal de barba em
seu rosto, e suas feições exibiam as linhas e a graça de um
aristocrata. Kennedy observou, fascinada, enquanto as energias
masculinas opostas giravam e se digladiavam em dois planetas
distintos. Droga. Não gostavam um do outro.
Levantou-se e se aproximou. “Oi, David, já nos encontramos
antes. Sou Kennedy, amiga da Gen. Parabéns.”
O sorriso dele era impecável. Dentes brancos reluzentes.
“Obrigado, Kennedy, é um prazer receber você.” A frieza de sua voz
se abrandou quando ele voltou o olhar para Gen. “Amor, desculpa
interromper. Tem umas pessoas lá embaixo que preciso que você
conheça — são do conselho. Você me perdoa, não perdoa, Wolfe?”
“Claro.”
David passou o braço sob o cotovelo de Gen. “Prometo que
você vai ter tempo para os amigos daqui a pouco.”
“Claro, tudo bem. Vejo vocês dois mais tarde”, despediu-se
Gen, seguindo o noivo rigidamente.
Ken percebeu a expressão no rosto de Wolfe. Roxo de raiva era
uma boa descrição. Cara, tinha alguma coisa acontecendo aqui.
Eles obviamente se odiavam, mas era só porque os dois estavam
competindo pela atenção de Gen? Ou será que todo aquele desafio
verbal sutil significava algo mais?
Decidiu que iria conversar com Wolfe sobre isso quando
estivessem sozinhos, mas ouviu um barulho de descarga, uma
porta se abriu e alguém marchou na direção deles. Hum, bem, ela
precisava falar com Kate mesmo. Onde estava sua taça de
champanhe? Ken se virou e pegou a taça.
“Ah, aí está você. Ei, Ken, este aqui é o meu amigo, Nate.”
Ela ficou imóvel. Virou a cabeça. E viu Nate Ellison Raymond
Dunkle.
Uau. Simplesmente… Uau.
De pé ao lado de Wolfe, ele não fazia feio na categoria “santa
gostosura, Batman”. Faltavam-lhe as tatuagens, os piercings e a
altura impressionante, mas Nate não precisava de nada daquilo. Os
olhos verde-musgo brilhavam com calor e intensidade, e a linha
forte da mandíbula e das maçãs do rosto inspirava controle. Os
ombros largos estavam cobertos por uma camisa de botões feita de
seda preta costurada à mão. Ela a escolhera pessoalmente. O
tecido brilhava sob a luz e exibia o peito esguio e musculoso. As
mangas estavam enroladas, e a pele dourada coberta de cabelos
claros revelava o bronzeado de golfista. A bunda espetacular estava
envolvida por uma calça jeans escura da Banana Republic, com um
cinto de fivela prateada grande. Estava completamente… perfeito.
Os dois foram cercados por uma energia, em um desafio sensual
que sempre estivera ali, desde o primeiro dia. Ela só não estivera
pronta para ver ou aceitar.
Ainda não estava.
Ele arregalou os olhos, surpreso de vê-la ali. Então o encontro
não fora planejado. Ah, não, isso era alguma maluquice do deus
Universo, que gostava de rir dela e torturá-la. Quais as chances? E
como ele conhecia Wolfe? Tentou falar, mas levou um tempo até
sair alguma coisa. Não precisava ter se preocupado. Ele disse
exatamente o que ela podia jurar que diria não importa qual fosse
a situação.
“Oi.”
A pior parte foi o modo como seu coração amoleceu diante da
saudação familiar. “Oi.”
Wolfe olhou de um para o outro. “Vocês se conhecem?”
“Nos conhecemos”, responderam os dois em uníssono.
Nate explicou melhor. “Kennedy é minha consultora de
relacionamentos.”
“Não pode ser. Você está na Kinnections? Cara, você nunca me
falou!”
“Mundo pequeno”, murmurou Nate. Seu olhar percorreu o
corpo dela, quente, faminto e… sábio. Ele sabia o quanto ela
gostava quando mordiscava a curva entre o pescoço e o ombro.
Sabia a pressão exata que devia aplicar em seus mamilos para
levá-los a um ponto de dor/prazer. Sabia como curvar os dedos do
jeito certo quando entrava nela para levá-la depressa ao orgasmo.
Sabia demais.
“Como vocês dois se conheceram?”, perguntou ela.
“Nate me salvou me ensinando a jogar golfe. Estou correndo
atrás de um cliente grande para o Purity, e o único jeito de chegar
perto do cara é no campo de golfe. Sou péssimo, claro, e ele teve
pena de mim. Ele tem um negócio científico pra descobrir como é o
seu swing.”
“É, ele é ótimo professor.”
Nate ficou em silêncio.
O ar entre eles ficou pesado com as palavras não ditas e a
excitação. Wolfe pareceu notar algo de estranho, porque desviava
o olhar de um para o outro, como se tentasse descobrir o que era.
“Nate é um cliente maravilhoso. Estou animada com o par novo
dele.”
Nate cruzou os braços. “É, Mary parece ótima. Pena que ainda
estou preso na última mulher com quem saí. Você não acha que
preciso de um tempo pra arrumar as coisas na cabeça? Ou
convencê-la a dar uma chance pra gente?”
Ela negou com a cabeça, determinada. “Você precisa ver o
quadro geral. Mary é mais adequada pra você; essa outra vai partir
seu coração.”
Ele deu um passo adiante. “Como você sabe?”
“Porque ela é cheia de problemas.”
“Talvez eu goste de problemas.”
“Talvez você não saiba o que é bom pra você, porque ela
confundiu sua cabeça com o sexo.”
Wolfe assobiou. “Ela mandou bem, Nate.”
Nate continuou encarando Kennedy com toda a energia que
tinha. “Talvez ela devesse me dar mais crédito de que sei o que
quero e enxergo a situação com clareza. Talvez ela esteja com
tanto medo de dar uma chance a um relacionamento de verdade
porque nunca teve isso antes.”
“Talvez seja ela quem está vendo as coisas com clareza e
tentando proteger você.”
“Talvez ela não saiba merda nenhuma.” Ele deu outro passo.
Seus olhos brilhavam com uma luz feroz que disparava faíscas de
fúria e frustração. “Talvez ela só não queira enxergar a verdade.”
“A verdade?”, perguntou ela.
“Que eu me apaixonei.”
Ken arfou. Seu coração parou. Depois disparou num ritmo de
ataque cardíaco. O quarto girou e a taça quase escorregou dos
dedos dormentes.
“Hum, cara, quando falei pra você se abrir sobre o que estava
sentindo, estava falando da mulher em si. E não da sua consultora
de relacionamentos.”
Os dois se encararam, ignorando Wolfe. “Não fala isso”,
sussurrou ela. “Não é verdade.”
“Você não pode me dizer o que sinto. Pode jogar um monte de
mulheres em cima de mim, esconder, fingir que isso é uma coisa
que não é, mas cansei das mentiras. Amo aquela mulher, e isso
não vai mudar. Pode me fazer sair com a Mary, com a Sue, ou
qualquer outra, mas não muda nada. Amo aquela mulher.”
O corpo de Ken tremia com miniconvulsões. Nate havia dito que
a amava. Ele achava que a amava. Mas como era possível? Como
podia saber todos os seus segredos e ainda achar que ela era um
bom par para ele? Os homens amavam seu corpo, seu rosto, sua
imagem. Amavam tê-la ao seu lado, amavam sua carreira e o fato
de que ela não precisava que um homem a fizesse feliz. Não
olhavam para a sua alma danificada e amavam as partes ocultas.
Como poderiam, quando nem ela mesma gostava?
Uma frieza se infiltrou em sua pele e ossos. Não podia mais
continuar com isso. Ele já tinha se tornado importante demais, e
ela estava se entregando ao feitiço. Tinha que libertá-lo.
“Você vai superar.”
As palavras caíram como pedras entre os dois. Nate recuou
como se tivesse levado um tapa, e o coração dela se desfez em
pedaços tão minúsculos que teve medo de nunca mais conseguir
juntar todos os cacos.
“Ela é tão covarde assim?”
“Ela é realista”, revidou, a voz entrecortada. “Você precisa sair
com Mary.”
Wolfe limpou a garganta. “Certo, o assunto tá ficando sério.
Melhor deixar vocês sozinhos.”
Nate apertou a mandíbula. Sua postura derrotada emanava
decepção e uma emoção mais profunda que ela não queria
nomear. “Não, Wolfe, tá tudo bem. Já acabamos.”
Virou-se e parou na porta. “Vou mandar uma mensagem pra
Mary e levá-la pra jantar este fim de semana. Obrigado pelo
conselho, Ken. Você é mesmo uma excelente consultora de
relacionamentos.”
Observou os dois saírem pela porta, os joelhos trêmulos.
Cambaleou em direção ao banco para recuperar a compostura,
tentando acalmar o estômago enjoado. O que tinha acabado de
fazer?
A coisa certa. A única coisa. Certo?
Achou que ia desmaiar, pôs a cabeça entre os joelhos e respirou
fundo. Ouviu alguém chamando seu nome à distância, mas não
olhou pra cima, só se concentrou em encher o pulmão. Quando
levantou a cabeça, Kate estava ajoelhada na sua frente.
“Querida, já bebeu tanto champanhe assim? Você precisa se
segurar. Encontramos Gen, e ela está com David. Tudo bem?”
“Não. Aconteceu uma coisa.”
O rosto da amiga se encheu de preocupação. “O que foi?”
Ela engoliu em seco. “Dormi com Nate Dunkle.”
“Meu Deus. Quando? Você não contou nada. Foi bom? Está
feliz? Ele está fora da lista de clientes?”
Kennedy levou a mão à boca. “Não, é uma merda. Quer dizer, o
sexo foi de outro mundo, mas a situação toda é uma merda,
cometi um erro terrível, e agora acho que estraguei o Nate. Ele
precisa se apaixonar por Mary, e não por mim. Ai, por favor, deixa
ele se apaixonar por Mary neste fim de semana, pra minha vida
voltar ao normal.”
Kate suspirou, pegou o telefone e digitou na tela. “Isso é
demais pra uma pessoa só. Vou chamar a Arilyn no Skype pra
gente conversar.”
“Mas ela tá doente.”
“Ela pode falar da cama. No mínimo precisa de uma distração,
ficou tão chateada de não poder vir. Espera aí.”
Ken esperou. Depois de algumas mensagens de uma para a
outra, a tela de Kate piscou. Arilyn estava recostada na cama com
o nariz vermelho, de óculos, o cabelo parecendo um ninho de
passarinho de tão bagunçado e uma expressão séria no rosto. “Me
diz que não aconteceu nada de dramático. Gen cancelou o
noivado?”
Kate franziu o cenho. “Não. Por quê? Tá suspeitando de alguma
coisa?”
“Gen não anda feliz. Estou com um mau pressentimento. E aí, o
que foi?”
“Kennedy está com uma crise aqui. Ela dormiu com Nate
Dunkle.”
Um ataque de tosse se misturou com um arfar de surpresa. “O
cientista de foguetes?”
“Engenheiro aeroespacial”, corrigiu Kennedy. “É. Ele mesmo.”
“Uma vez? Duas?”
“Umas quinze vezes durante o fim de semana passado.”
“Sua safada”, murmurou Kate. “Você precisa de um descanso, e
não de uma intervenção.”
“Kate, se concentra”, interrompeu Arilyn.
“Tá. Mas acho que meu recorde é doze. Slade vai ter que se
dedicar mais.”
“Querida, por que o pânico? Kate dormiu com um cliente, e eles
estão felizes. É contra as regras, claro, mas às vezes as regras são
feitas para serem quebradas. Posso ligar para as mulheres que
você marcou de sair com ele e resolver o problema. Tenho certeza
que vai dar tudo certo.”
Kate suspirou. “Não, Arilyn, você não entendeu. Kennedy quer
que ele se apaixone por outra pessoa e já colocou Mary pra sair
com ele.”
Arilyn soltou um palavrão. “Qual o problema de vocês,
empurrando os homens que querem para os braços de outras?
Parece que a gente tá repetindo toda a história do Slade de novo.”
Kennedy negou com a cabeça. “Não, é diferente. Não posso ter
um relacionamento com Nate.”
“Por quê?”, perguntou Kate.
“Porque não! Não gosto de compromisso. Fico irritada e
inquieta, e sou uma megera. Ele precisa de alguém doce e
inteligente pra completar a vida e fazer um monte de filhos e todas
as coisas que não posso dar a ele.”
Arilyn fungou, limpou o nariz e olhou para a tela. “Espera aí.
Você é tudo isso. E também merece ser feliz, Ken. Por que é tão
relutante em aceitar a felicidade?”
“Não é isso! Estou sendo realista sobre o que dou conta e o que
tenho pra oferecer. Vocês estão sempre dizendo que encontro
defeito nos homens o tempo todo. Não estou pronta pra me
comprometer para sempre.”
“Certo, então faz uma lista de todos os defeitos do Nate e por
que isso não vai funcionar”, exigiu Kate.
Kennedy fungou. “É coisa demais.”
“Fala só uma.”
“Ele gosta de golfe.”
Silêncio. Arilyn a fitou pela tela do Skype. “Você jogou golfe
com ele e disse que não foi tão ruim.”
“Uma vez, tudo bem. Duas vezes, talvez. Mas não todos os fins
de semana!”
“Fraco”, declarou Kate. “Próximo defeito.”
“Ele é muito intelectual.”
“Você também. Você é total gêmeos — dois lados da mesma
moeda. Adora a Science Today tanto quanto a Vogue, e não vem
dizer que estou errada.”
“Ele não respeita minhas escolhas alimentares. Sempre me faz
comer coisas pouco saudáveis.”
Kate riu. “Ainda bem, amiga. Já estava na hora de você se
juntar ao mundo dos vivos, e salada te deixa insuportável. Você tá
frita. Tá caidinha por ele.”
“Não! De jeito nenhum.” Ela gemeu e se abraçou com força.
“Não estou apaixonada por Nate, ele vai casar com a Mary.”
Arilyn gemeu. “Deus, você está delirando igualzinho à Kate.
Escuta, querida, a gente pode esfregar a verdade na sua cara, mas
você precisa encontrá-la dentro de si primeiro. Precisa deixar essas
restrições do seu passado pra trás. Você merece tudo, e Nate teria
muita sorte de ter você. Confie em si mesma para corresponder.”
“Não.”
“Que bruxa”, murmurou Kate. “Sabia que ia ser a mais difícil de
nós. Você está destinada a Nate. Sei disso.”
“Como?”
Kate deu de ombros e desviou os olhos. “Só sei.”
“Não quero mais esta intervenção. Minha cabeça está doendo,
estou de mau humor, e só quero beber e comemorar o noivado da
Gen. Tá legal?”
Kate e Arilyn trocaram um olhar intenso pelo iPhone. “Tudo
bem”, encerrou Arilyn. Ela espirrou. “Tira umas fotos pra mim e dá
um abraço na Gen. Saudades.”
“Tchau, A.”
Kate desligou. Sentiu a frustração invadindo-a em ondas, mas
se levantou e ofereceu a mão à amiga. Ken segurou. “Quero deixar
bem claro que o seu plano é ridículo e que vocês vão acabar
juntos, seja da maneira mais difícil ou da mais fácil. Mas vou deixar
o assunto de lado e beber com você. Slade é o motorista da vez.
Agora, vamos até aquela fonte.”
“Amo você, Kate.”
“Eu também, amiga. Eu também.”
15

Nate segurou a garrafinha de cerveja artesanal e viu o irmão


entrar no bar. A semana tinha sido um inferno, entre as horas
intermináveis de trabalho e a conclusão de que Kennedy não o
queria. Claro, era o maior idiota do planeta. Quem confessava o
seu amor na terceira pessoa? Na frente de outro cara? Em código?
Merecia que ela lhe desse as costas.
Connor sentou à mesa e pediu uma cerveja light para a
garçonete. “Dia ruim, Con? Nem deu em cima dela.”
Ele esperou pela risada descontraída do irmão e algum tipo de
grosseria, mas Connor só deu de ombros. “Tanto faz. E você, como
anda a vida?”
Além de perder a mulher que amava? “Achei que tínhamos feito
um grande avanço com uma fórmula, aí descobri que não. Wayne
quase chorou feito um bebê. Disse que precisava sair do
laboratório ou ia ficar louco. E o trabalho novo?”
“Tudo bem. Os mesmos caras de sempre, então não tem
surpresas.” Connor bufou. “Não que haja alguma surpresa na
minha vida.”
Nate franziu o cenho. A cerveja chegou, e o irmão virou como
se fosse água. “O que está acontecendo? Você tá diferente.”
O outro deu de ombros. “Nada. Jay descobriu que a namorada
estava pulando a cerca e ficou louco no trabalho. Ela é manicure,
lembra? Loira, gostosa. Eu te falei, irmãozinho. Fica longe dessas;
elas vão te acertar em cheio e depois assistir à sua ruína.”
Uau. Nate se perguntou se podia falar com o irmão
— desabafar de verdade. O conselho de Wolfe foi útil, mas depois
do fiasco da festa de noivado, não sabia mais se devia insistir ou
partir pra outra. Limpou a garganta e tentou não se sentir um
idiota. “Ei, posso perguntar uma coisa?”
“Claro.”
“É sobre Kennedy. Lembra dela?”
“Lembro, a bonitona da agência de relacionamentos. O que
tem?”
Ah, ele odiava esse papo de homem. Principalmente com
Connor. “Bem, ela arranjou um encontro pra mim com aquela
garota, a Sue, lembra?”
“A que eu conheci na sua casa? Lembro. Você gostava dela, não
gostava?”
“Da Sue? É, gostava, mas passei muito tempo com Kennedy e
meio que fiquei a fim dela.”
Connor deu outro gole e limpou a boca. “Tipo como? Ficou com
vontade de levar pra cama?”
“É. Quer dizer, não é só isso, mas acabamos dormindo juntos.”
“Mandou bem! É disso que eu tô falando! Um pouquinho de
Sue aqui, um pouquinho de Kennedy ali, e você tá de volta ao jogo,
meu caro.”
Nate levou as mãos ao cabelo e tentou não gemer. “Não, você
não está ouvindo. Escuta, não dormi com Sue. Decidi que ela não
era certa pra mim, mas quando digo que fiquei a fim de Kennedy,
tô falando mais do que só sexo. Tô falando que me apaixonei por
ela.”
O irmão ficou imóvel. A voz se tornou fria como gelo. “Como
assim? Você não pode gostar daquela mulher — ela é a sua
consultora de relacionamentos, não é? Ela não te deixou todo
gostosão pra arrumar outra pessoa?”
“Foi. Mas as coisas ficaram complicadas. Acabamos passando
muito tempo juntos, eu a conheci melhor, e me apaixonei.”
Connor sacudiu a cabeça. “Escuta, você precisa se afastar dela
um pouco. Vocês já passaram tempo demais juntos, ela fez esse
negócio de transformação, e você acabou ficando preso demais
nisso. Fica de boca fechada, e isso vai passar, prometo.”
“Já falei pra ela.”
“Merda.” O irmão virou a garrafa e levantou a mão, para pedir
outra. “Nate, eu vi essa mulher, e ela vai te destruir. Kennedy é
uma supermodelo que exala sexo. Você não precisa da vida que a
gente teve com a mamãe, só esperando a hora em que ela vai
embora.”
“Ela não vai embora. Sei que não.”
“Vai sim!”
Eles se encararam. Nate apertou os lábios. “Eu devia ter
imaginado que você não ia entender. Você nunca teve coragem de
ir atrás de uma mulher que valesse alguma coisa. Prefere supor
que ela vai te foder a correr o risco de alguma felicidade. Cara,
você e Kennedy são farinha do mesmo saco. Você não podia dar
um conselho bom, pra variar, em vez de ficar falando essas
besteiras de sempre?”
Connor recuou na cadeira. Nate soltou um palavrão baixinho e
abriu a boca para se desculpar, mas Jerry apareceu na mesa deles.
“Oi, gente, vim tomar uma com vocês. Sinto muito pela promoção,
Con, mas eu te disse. Já estava quase certo que ia ser o Ed.
Ridículo que eles queiram diploma universitário pra trabalho braçal.
Mas pelo menos a gente vai ter mais tempo junto, você não precisa
daquele trabalho.”
Nate olhou para o irmão. “Você não conseguiu a promoção?”
Connor riu. Seu rosto se torceu com a amargura. “Já falei. Tá
tudo bem. Não fui feito pras mesmas coisas que você, irmãozinho.
Nem amor, nem cargos de gerência. E não tem problema. Pelo
menos sei meu lugar na vida.”
A mentira fez Nate parar por um segundo. “Isso é ridículo. Você
não pode acreditar nisso. Olha, quando vai aparecer outra vaga?
Talvez a gente possa…”
“Esquece. Não quero mais você falando dessa merda. Você não
gosta dos meus conselhos, tudo bem. Faz o que achar melhor,
destrói o seu coração. Mas fica fora do meu trabalho. Agora, vou
encher a cara com Jerry. Você pode ficar ou ir embora. Vamos, Jer.”
Ele pegou a cerveja, levantou da mesa e se juntou a outro
grupo de operários na ponta mais distante do bar. Nate recostou a
cabeça na parede e fechou os olhos.
No geral, o dia tinha sido uma merda.
Olhou para a mesa. Pensou em suas opções por um bom
tempo. Então tomou uma decisão.
Tinha a impressão de que a noite ia ficar ainda pior.
Kennedy levantou o pé e mergulhou mais fundo nas bolhas.
Que dia horrível. Uma separação, um cliente que insistia em
escolher seu par baseado na aparência e a tortura do silêncio de
suas melhores amigas. Todos os olhares lhe lembravam que elas
desaprovavam sua decisão. Não tinha ideia se Nate e Mary já
tinham se encontrado e decidiu se distanciar um pouco, antes de
entrar em contato. As coisas tinham esquentado na festa de
noivado.
Ela sentiu o cheiro de gengibre e sândalo e disse para si mesma
que tinha tomado a decisão certa. Cada dia que Nate passasse
longe dela lhe daria a distância de que ele precisava para seguir
em frente. Ele não a amava, era só a proximidade que o estava
confundindo. Sue não tinha sido o par ideal, o que também não
ajudara. Quem sabe…
Alguém bateu à porta. Uma vez. Duas.
Hum, quem poderia ser, num dia de semana? Kate tinha uma
chave do apartamento e teria entrado sem bater. Gen e Arilyn
teriam ligado.
Outra batida. Mais insistente.
Um vizinho? Saiu da banheira, pegou um roupão comprido azul
e fechou apertado. Seu cabelo estava pingando, mas ela o torceu
depressa com uma toalha.
Quinta batida.
“Já vai!” Arrastou-se até a sala e olhou pela janela.
Droga.
Fez uma pausa. Respirou fundo. E abriu a porta.
“Oi.”
Kennedy deixou escapar um suspiro impaciente. “Você não
devia ter vindo.”
Ele estava péssimo. Ele estava lindo. Estava de jaleco, e havia
duas manchas vermelhas na frente. Só podia ser ketchup. No
bolso, havia um lápis, uma caneta e um bloquinho de anotações. O
cabelo estava despenteado, mas mantendo a ondulação que Benny
aperfeiçoara, junto com o cavanhaque bem aparado em volta do
lábio e do queixo. Agora ela sabia que aqueles pelos arranhavam
seu rosto numa sensação deliciosa, mas que o cabelo era macio
como seda quando ele descansava a cabeça em seu peito.
“A gente precisa conversar. Você tá pelada debaixo desse
roupão?”
“Não. Olha, a gente não pode mais se ver. O sexo foi bom, a
gente disse algumas coisas, mas agora a gente precisa se afastar.
Sei que você não queria dizer de verdade o que falou na semana
passada, então vamos só esquecer isso tudo.”
“O sexo foi bom ou foi ótimo?”
“Ótimo.”
“Tudo que falei era a mais pura verdade. Tô entrando.” Nate
passou por ela e fechou a porta. O clique causou arrepios no corpo
nu de Ken. Ele estava no meio da sua sala de estar, as mãos nos
quadris, estudando cada centímetro de pele nua despontando para
fora do roupão. Ela apertou o cinto um pouco mais e cruzou os
braços na frente dos seios.
“Você já saiu com Mary?”
Nate deu uma risada curta. “Pelo amor de Deus. Eu digo que te
amo, e você tenta me arrumar alguém pra sair.”
“Tá vendo? Eu falei que a gente não servia um para o outro.
Nate, por favor. Vai embora.”
“Ainda não. Vim aqui pra falar umas coisas, e, se você não
quiser me ver de novo, tudo bem. Vou te deixar em paz.”
O coração de Ken gritou para abraçá-lo e nunca mais soltar. A
cabeça a manteve firme onde estava. “Pode falar.”
“Sou um idiota. Disse que te amava do jeito errado, mas
sempre faço esse tipo de coisa, e se a gente ficar junto, isso não
vai mudar. Passo comida na roupa, resmungo equações do trabalho
e tenho TOC quando se trata de sujeira em restaurantes. Digo
coisas estúpidas, sou obcecado por golfe e te amo. Eu te amo, só
isso.”
Kennedy sentiu o coração se fissurar e se fazer em pedacinhos.
As lágrimas fecharam sua garganta, e ela pensou que estava
morrendo. Aquela era a coisa mais honesta, romântica e sensual
que qualquer homem já tinha dito a ela. Nate a observava com
todas as emoções cruas expostas no rosto. A alma de Ken gritava
que ela devia correr para os seus braços e nunca mais ir embora.
Mas a voz interior com a qual ela convivera por tantos anos
permanecia em silêncio.
“Nunca vou ser capaz de te dar o que você precisa.”
As palavras se estilhaçaram em volta deles feito vidro.
Ele se aproximou e parou na frente dela. “Experimenta.”
“Você merece mais.”
Uma ira masculina emergiu de seu corpo. O olhar dele foi
tomado por uma luxúria pura. Nate a estudou por um tempo, então
baixou a cabeça para junto dela. “Você mentiu.”
Kennedy umedeceu os lábios. Estremeceu. “Sobre o quê?”
“Você tá pelada debaixo desse roupão.”
Ele enfiou as mãos no cabelo molhado e tomou seus lábios.
O beijo ardeu quente e rápido, sem explicação, sedução ou
desculpas. Essa era outra faceta dele, o amante frustrado
desesperado para provar alguma coisa, louco para reivindicá-la.
Kennedy gemeu com a investida, mas não conseguiu reagir. Seu
corpo se entregou e ela passou os braços ao redor dos ombros dele
e recebeu tudo o que ele oferecia. Como se soubesse que aquilo
era temporário, que ela não podia lhe oferecer um “eu te amo” de
volta, então lhe entregava o corpo como sacrifício.
Ele arrancou o roupão de seus ombros. Levantou-a no colo de
modo que ela teve que envolver as pernas na cintura dele. Com a
boca ainda colada na dela, empurrou a língua para dentro
enquanto a levava direto para o quarto.
Quando ele finalmente a baixou, os pés de Kennedy tocaram a
madeira fria do piso. Ela ouviu uma porta se abrindo e piscou,
tentando compreender o que estava acontecendo. Nate a virou
com dedos brutos.
O espelho de corpo inteiro a fitou de volta.
Ela o deixava atrás da porta do armário só para conferir o visual
final. Sua batalha contra os espelhos era lendária, e Kennedy em
geral mantinha suas interações com eles a um mínimo. Abriu a
boca, horrorizada, e, ao ver todo o seu corpo nu exposto, a
excitação sumiu depressa.
“Para com isso.” Tentou virar, mas ele a segurava de forma
implacável. Apertava os dedos nos ombros dela, mantendo-a
imóvel.
“Não. Isto é maior do que eu confessar meu amor por você.
Maior do que o sexo. Significa achar que eu não te enxergo, que
ninguém te enxerga, nem você mesma. Então, que tal se a gente
destruísse essa ilusão de uma vez por todas?”
Ele baixou a cabeça e falou junto ao seu ouvido. Uma das mãos
deixou o ombro para ir até o seio, apertando o mamilo
deliberadamente. Um arrepio desceu pela barriga dela e, de uma
hora para outra, seu corpo estava de volta e pronto para a ação.
Kennedy fechou os olhos, mas Nate abriu as pernas dela depressa
e mordeu o lóbulo da orelha.
“Abre os olhos. Tá na hora de você ver o que faço quando olho
pra você. Este corpo que você torturou, quebrou e depois
consertou é lindo. Olha como você responde ao meu toque, como
se estivesse destinada a florescer nas minhas mãos.”
Kennedy gemeu de novo, presa entre querer que ele
continuasse e o horror de se ver exposta em todos os detalhes. Ele
não lhe deu tempo para racionalizar ou pensar. Continuou
provocando seu seio esquerdo, e a outra mão mergulhou entre as
pernas abertas e brincou com ela.
Ai, Deus.
Suas pálpebras ficaram pesadas, mas ela continuou olhando os
dois no espelho. Ficou excitada e molhada com as carícias, e seus
quadris se moveram em busca de mais. Seus mamilos ficaram
vermelho-escuro, como uma calda de sorvete, e em nenhum
momento ele desviou os olhos dos dela, proibindo-a de escapar de
sua luxúria. Seus braços agora estavam morenos do sol e criavam
um contraste erótico com a pele rosada dela.
“Olha só pra você. Aberta, molhada e rosa por causa do
banho.” A ereção pressionou a curva das nádegas, fazendo sua
própria exigência. “Se fosse artista, pintaria você assim e
penduraria na minha mesa de trabalho, pra olhar pra você todo dia
e lembrar de como foi feita pra mim.” O polegar fez a pontinha do
clitóris ficar ainda mais dura, e ela se sentia vazia por dentro,
pulsando por mais, pela necessidade de ser preenchida pelos dedos
dele, a língua e o pau, precisando dele inteiro.
“Nate”, arfou.
“Eu sei, você está perto. Se entrega, linda, e me assiste te
fazendo gozar. Olha como você é linda.”
Ele levou as mãos mais fundo entre suas pernas, entrando e
saindo num ritmo constante. O polegar pressionava e girava, sem
nunca reduzir a pressão estimulante, e, com a boca aberta, Nate
mordia e chupava a lateral de seu pescoço.
A mulher no espelho era um ser primitivo entregue à satisfação
e ao prazer. Seus quadris se moviam e exigiam mais, respirava
ofegante pela boca, e os mamilos estavam rígidos contra a mão,
pedindo um alívio. Ela mergulhou nas profundezas da escuridão e
do êxtase, sem se importar com nada além de dar àquele homem
tudo o que ele quisesse, qualquer coisa que ele pedisse.
A tensão contraiu sua barriga, e ele acelerou os movimentos,
levando-a à beira do precipício, até que ela gritou, soltou o corpo
contra o dele e se rendeu às sensações.
“Nate! Por favor, Nate!”
“Isso, meu bem, assim. Olha pra você, não para de olhar.”
Ele entrou fundo e massageou o clitóris.
Ela gozou forte e com um grito alto. Seu corpo estremeceu com
o alívio, encharcando as mãos dele e tremendo impotente. Nate
virou o rosto dela e a beijou profundamente, então a pegou no colo
de novo e a deitou na cama. Arrancou as próprias roupas, vestiu
uma camisinha e se acomodou entre as pernas dela.
“Eu te amo, Kennedy Ashe.”
E a penetrou, forte e rápido, espremendo-a com o corpo e uma
força bruta que a levou a outro orgasmo em segundos. Ele gozou,
e ela se segurou firme, as lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto
se quebrava e se partia para nunca mais voltar a ser a mesma.
Ficaram deitados em silêncio por um tempo na meia-luz. O
cheiro de sabonete e sexo e um aroma cítrico chegou às narinas de
Kennedy. Ela se agarrou a ele e se perguntou se era forte o
suficiente para fazer o que tinha que fazer.
“Isto não tem a ver comigo, linda. Tem a ver com você. Posso
correr atrás de você pra sempre, te prometer o mundo inteiro, mas
até você se entregar, nunca vou ganhar. Não amo só o seu corpo.
Amo a sua mente incrível, a sua alma gentil e a sua força interior.
Amo a vida que você construiu para si, com as suas amigas e a
carreira. Amo cada parte de você — as boas e as ruins, as sombrias
e as luminosas —, e quero compartilhar tudo. Mas você tem que
me deixar.”
Kennedy piscou e sentiu os cílios molhados, mas já sabia a
resposta.
“Não posso.” Nate se enrijeceu debaixo dela. “Não estou
tentando te punir, nem te machucar. Não confio em mim o
suficiente. Não posso prometer que vai dar certo, ou que vou ser
capaz de me comprometer com um relacionamento sério, ou que
não vou fazer alguma coisa terrível pra me libertar. Não vou fazer o
que a sua mãe fez. Não vou correr esse risco. Não com você. Não
com o seu coração.”
Ele ficou em silêncio. A respiração dos dois subia e descia no ar.
Aos poucos, Nate se soltou dela e levantou da cama. Ken o viu se
vestir com movimentos lentos e metódicos.
“Não vou jogar este jogo. Mereço ser feliz. Você também. Mas
se você já decidiu que a gente não vai dar certo, então não vai dar
mesmo. Até esperaria por você, mas tenho medo de esperar pra
sempre, já que você está tão determinada a não me machucar.” Ele
deu uma risada sem humor. “O que, ironicamente, acabou de
fazer.”
Começou a caminhar para fora do quarto.
“Você ganhou. Vou ligar pra Mary. Tchau, Ken.”
Foi embora.
Ela sabia que tinha feito a coisa certa, a única coisa a fazer. Não
havia garantias, e ela não era do tipo que tinha finais de Cinderela.
Nunca tinha acontecido.
Nunca iria acontecer.
Kennedy escondeu o rosto no travesseiro e chorou.
16

Nate permaneceu na cadeira vermelha, enquanto Benny se


movia num furor de tesouras ao seu redor. O cavanhaque já tinha
sido hidratado e aparado, as sobrancelhas estavam depiladas, e ele
tinha ganhado a batalha sobre se recusar a fazer as unhas.
Até parece.
Havia se habituado a passar no salão de Benny de duas em
duas semanas, para fazer a manutenção. Também odiava admitir
que eles tinham formado uma estranha amizade mal-humorada.
Mais ou menos.
“Minha vida está um tédio ultimamente, e tô precisando de
fofoca. Como vai o namoro?”
“Indo.”
Um suspiro profundo e sofrido. “Deixa de ser micha. Me conta
tudo. Já transaram?”
“Ainda não. A gente saiu algumas vezes. Gosto dela. Ela é legal
com meu irmão. Tá indo tudo perfeito.”
“Mentira. Você ainda está caidinho pela sua consultora.”
Nate se virou na direção do outro. Benny o virou de volta para
o espelho. “Quer perder o topete? Quase cortei errado. Vê se fica
quieto, pelo amor de Deus.”
“O que você sabe de Kennedy e eu?”
O cabeleireiro bufou, mas pareceu gostar da reação. “Suspeitei
que tinha alguma atração entre vocês desde o primeiro dia. Na
última vez que você veio aqui, estava todo tristinho e perguntou,
como quem não quer nada, se eu tinha visto Kennedy por aqueles
dias. E quando ela veio aqui, estava soltando fumaça pelas orelhas.
Falei que ela estava precisando comer uns carboidratos, mas a
mulher estava louca. Devia ser por sua causa.”
A ideia de Kennedy sofrendo tanto quanto ele era ao mesmo
tempo um consolo e uma dor. Depois daquela noite, ela não tinha
mais entrado em contato. Nate recebeu uma ligação de Kate,
avisando que iria organizar os encontros dele a partir de agora, e
saiu com Mary naquele fim de semana. Se ao menos pudesse
esquecer Ken, ficaria feliz.
Mary tinha algum brilho, era muito esperta, além de
espirituosa. Ele se deu muito melhor com ela do que com Sue no
longo prazo, e os encontros eram tranquilos, uma forma de se
conhecerem mais. Tinham trocado alguns beijos, mas não mais
que isso. A culpa por não ser transparente com ela sobre seus
sentimentos o roía por dentro, mas Nate tinha a intenção de seguir
em frente. Até Connor tinha aprovado Mary, depois de encontrar
com os dois no bar uma vez.
Nate endureceu a voz. “Culpa dela. Coloquei tudo o que eu
estava sentindo pra fora, e ela me rejeitou. Fim de papo.”
Benny suspirou. “Bem, lá se vai meu bom humor. Você está me
deixando com pena. Odeio isso.”
“Pois é, quando se emociona você perde o sotaque britânico.”
“E agora a pena foi embora. Você é tão irritante.”
“E você é tão gay.”
Benny bufou uma risada. “Sou, mas pelo menos tenho um
amante esperando por mim em casa. Você fez tudo o que podia?”
“Fiz.”
“Então não tem do que se lamentar. Ela no mínimo está
sofrendo mais. Adoro aquela criatura, mas ela tem questões mal
resolvidas.”
Agora foi a vez de Nate rir. “Eu sei, mas eu também tenho.
Somos perfeitos um para o outro.”
“Não se preocupe. Pelo menos você tá bonitão. Agora dá uma
passada ali na Sally, e ela vai terminar pra você.”
“Não vou fazer as unhas, Benny. Não tente enganar um
engenheiro aeroespacial.”
Benny revirou os olhos e tirou a capa. “Tanto faz. Mas se um
dia você tiver seu grande momento de revelação, vai acabar se
lamentando de não estar com as mãos bonitas.”
“Até. Parece.”
“Tchau, micha.”
Benny mandou um beijinho de longe e se afastou fazendo pose.
Nate sorriu e foi até o caixa, para pagar. Não podia negar que o
cara o fazia se sentir melhor.
Kennedy encarou o telefone tocando por um tempo, em
seguida o pegou. “O que foi?”
Uma pausa. “Hum, querida, pode dar um pulinho na sala roxa,
por favor?”
Ela soltou um suspiro irritado. “É importante? Estou com um
coquetel problemático nas mãos.”
“É. Muito importante.”
“Já vou.” Desligou o telefone e levantou da cadeira. Odiava ser
interrompida. Como ia aumentar sua estatística de casamentos e
melhorar a campanha de marketing da Kinnections se seus
coquetéis não fossem bem-sucedidos? Com os saltos batendo
contra o chão, entrou na sala de consultas.
Arilyn e Kate a encararam, sentadas confortavelmente nas
almofadas cor de ameixa. O barulhinho relaxante da fonte de água
a irritou, mas ela bateu o pé e se forçou a abrir um sorriso calmo.
“O que foi?”
“Senta aí, Ken.”
“Não tenho tempo. Escuta, acho que a gente precisa parar de
organizar coquetel no Purple Haze. Tony me passou um sermão
sobre não incluirmos o vinho bom, e de jeito nenhum vou forçar
meus clientes top a se contentarem com um vinho em caixa saído
da geladeira só pra satisfazer o acordo com ele, e… isso é
chocolate?”
Kennedy arregalou os olhos. Kate estava estendendo um
quadradinho de chocolate amargo na direção dela. Sentiu o
estômago dar um pulo de alegria, e a boca encher d’água. “Senta
aí. A gente tem que conversar sobre uma coisa, e você precisa
muito disso.”
Sua mente considerou a opção de negar, mas já era tarde
demais. Pegou o chocolate da mão da amiga, sentou e,
lentamente, abriu a embalagem. “Suborno aceito. Vocês estão
muito sérias. Alguém morreu?”
“Morreu”, respondeu Arilyn, com gentileza. “Você.”
Sobressaltou-se com a resposta, mas o cheiro divino de
manteiga de cacau a alcançou, e, de repente, Ken não estava nem
aí para o motivo da conversa. A primeira mordida deslizou sobre
sua língua e derreteu. Seu corpo se acendeu, a imagem de Nate a
alimentando nua na cadeira da cozinha surgiu em sua cabeça, e,
subitamente, lágrimas ameaçaram aparecer. Que bobalhona. Tinha
que se controlar. Trabalhar era a única solução. Iria dar outro
coquetel. Quanto mais gente encontrasse amor, melhor se sentiria.
O que Arilyn estava dizendo? “Você disse que eu morri?”,
perguntou.
“Seu coração morreu. Querida, você não vai gostar dessa
conversa, mas isto precisa ser dito. Já passaram três semanas
desde que você chutou Nate pra fora da sua vida. Além de estar
sendo um pouco, hum, difícil e…”
“Insuportável”, sugeriu Kate.
“Temperamental”, corrigiu Arilyn, “você está trabalhando sem
parar e ficando até muito tarde todos os dias. Também não está
comendo direito.”
“Estou sim. Não tô passando fome. Tenho comido a quantidade
ideal de proteína, gordura e calorias pra manter uma dieta
saudável e equilibrada.”
“Você não está comendo açúcar e carboidratos suficientes pra
ser feliz. Não estou falando de saúde ou de manutenção de peso.
Estou falando de alegria.”
Kennedy deu outra mordida no chocolate. Sua fúria disparou.
“Não tenho tempo pra essa baboseira. Agradeço a sua
preocupação, e tenho certeza que vou superar isso. Fiz a coisa
certa, e pelo menos durmo bem à noite sabendo que ele vai ser
feliz.”
“Não adianta, A. Falei que ela é osso duro de roer e que não
entende indiretas. Minha vez”, anunciou Kate. Apontou um dedo
para a amiga. “Escuta aqui. Slade tinha as mesmas ideias
distorcidas sobre o nosso relacionamento. Achava que estava
condenado ao fracasso e que as experiências ruins do passado
provavam que a gente nunca ia dar certo. O que foi que ele fez?
Falei pra ele que o amava, e ele se afastou de mim. Igualzinho
você com o Nate. Slade ficou se convencendo de que estava
fazendo o melhor pra mim, mas ele era só um covarde que não
queria se arriscar.”
“Não sou o Slade.”
“Não, você não é. Você acha que não merece Nate. Que se
dane. Você merece ser feliz. Merece o cara. Merece ter uma vida. É
isso que você acha que é viver? Trabalhar, dormir, viver sozinha e
se martirizar? Você não está fazendo favor pra ninguém, e está na
hora de levantar e correr atrás do que você quer.”
Kate suavizou o tom de voz. “Você tem problemas alimentares.
Problemas com o corpo. Problemas com perfeição. E daí? Isso faz
de você indigna de amar alguém que quer te amar de volta? Amor
não tem nada a ver com perfeição. Tem a ver com falhas, e superar
o fracasso, e lutar por aquilo que você quer. Você sempre foi a
pessoa mais forte que já conheci. Você costumava ir atrás do que
queria. Até agora.”
Arilyn interrompeu. “A felicidade não cai do céu, querida. Você
tem que correr atrás.”
Kennedy olhou para as amigas, sentindo uma pequena chama
de esperança surgir. Será que tinham razão? Era tão fácil assim,
tomar uma decisão consciente de deixar o passado e as
inseguranças para trás e se permitir ser feliz?
Foi então que sua amiga deu o golpe de misericórdia.
“Senti o toque, Ken. Com você e Nate.”
O ar sumiu de seus pulmões numa rajada única. A sala girou, e
ela segurou os braços da cadeira para não cair. “O quê?”
“Naquela noite, quando a gente fez as encenações com ele no
bar? Toquei vocês dois e levei um choque. Foi por isso que caí.”
“Impossível”, sussurrou ela. “Não pode ser.”
Kate mordeu o lábio. “Desculpa. Sei que a gente fez um pacto
de que eu jamais iria contar pra nenhuma de vocês se sentisse o
toque com algum homem. Odeio a ideia de manipular o destino ou
os seus sentimentos. Não devia me envolver, porque cabe a cada
um escolher a outra pessoa da sua vida — com ou sem toque. Mas
não posso deixar isso assim. Nate é a sua alma gêmea. Ele
pertence a você.”
Kennedy gemeu e apertou a barriga com as mãos. Em
segundos, as amigas estavam do seu lado, abraçando e apoiando-a
à medida que a ficha caía.
Ela tinha que ficar com Nate.
Kate nunca errava. Seu toque era especial. Embora elas sempre
brincassem que a amiga era uma espécie de bruxa, nunca tinham
duvidado de sua habilidade para formar casais.
Eles tinham sido feitos um para o outro.
A compreensão ajudou a consolidar todas as emoções
acumuladas que as últimas três semanas tinham jogado na cara
dela. Estivera tão errada. Fora tão covarde. Mesmo depois que ele
a despira de todas as suas barreiras na frente do espelho, ela ainda
fugiu e acabou magoando o único homem que já tinha amado.
Mas era tarde demais. Não era? As comportas se abriram, e
toda a frustração, a raiva e a dor se derramaram. Pulou da cadeira
e começou a andar de um lado para o outro, murmurando
palavrões, até chegar às expressões em italiano que tinha
aprendido com Maggie.
Arilyn esperou, um tanto assustada. Kate parecia impressionada
com o vocabulário.
“Por que não posso fazer nada do jeito normal? Conhecer
alguém. Me apaixonar. Ficar feliz. Sempre troco os pés pelas mãos.
Arrumei outra pessoa pra ele de propósito!”
Kate murmurou com simpatia. “Eu sei. Tentei fazer a mesma
coisa.”
“Preciso fazer alguma coisa! Ir na casa dele. Falar com ele.
Pedir perdão.”
“Vai logo”, ordenou Arilyn.
“E se ele não me quiser de volta? E se eu o tiver magoado
tanto que ele nunca mais vai me perdoar?”
Kate apertou a mão dela. “Minha mãe uma vez me disse que
não existem garantias nesta vida, mas se você não tentar, sempre
vai se sentir vazia. Fala pra ele o que você tá sentindo, amiga. É a
única coisa sobre a qual você tem controle.”
Kennedy concordou. “É. Obrigada, meninas.”
Saiu às pressas da sala.
“Ei, cara. Se importa se eu passar umas horas aqui?”,
perguntou Connor.
Nate endireitou o casaco e passou um pouquinho de perfume.
Tinha aprendido a não exagerar. “Claro que não. Por que não está
no bar com Jerry, ou no apartamento?”
O irmão afastou o olhar. “Jerry saiu com Ed. Faz tempo que não
te vejo, então pensei em aparecer aqui. Desculpa atrapalhar.”
“Não, vou só comer um hambúrguer com a Mary no Mugs.
Devo voltar cedo, então por que você não fica? A gente vê um
pouco de Breaking Bad na Netflix quando eu chegar.”
“Legal.” Connor o estudou com uma expressão estranha no
rosto. “Você gosta dela?”
“Mary? Ela é legal. Estamos nos divertindo.”
“E Kennedy?”
Nate estremeceu. Ainda não conseguia ouvir o nome em voz
alta sem ter uma reação física. Pelo menos tinha finalmente
aprendido a controlar a ereção automática. “O que tem ela?”
O irmão se ajeitou no lugar, parecendo desconfortável. “Bem,
um dia você fala que tá apaixonado, e no outro nem fala mais o
nome dela.”
A maré de emoção o acertou como um gancho de direita brutal.
Nossa, como sentia falta dela. Da sua risada, do perfume, do jeito
de caminhar. Sentia saudade de estar na presença dela e de
discutir. Mas isso tinha acabado. E ele estava seguindo em frente.
Endireitou os ombros. “Ela não estava a fim. Vou superar.”
“Isso mesmo, você vai superar. Confie em mim, cara, muito
melhor se comprometer com uma mulher mais parecida com você.
Mary é legal. E ela é… segura.”
“É.” Merda, a conversa era deprimente demais. Se não sentisse
alguma faísca com Mary logo, ia ter que dizer a ela que aquilo não
ia dar certo. Talvez ele só precisasse de um pouco mais de tempo.
Superar Kennedy. Ir devagar. Ia dar certo. Se não, ia namorar outra
pessoa, de novo e de novo, até achar a mulher certa. Pelo menos
se sentia mais confortável consigo mesmo. “Tenho que ir, estou
atrasado. Vejo você mais tarde.”
E saiu em direção ao Mugs.
Kennedy alisou a saia com as palmas das mãos e hesitou por
um instante diante da porta. Engolir o orgulho não era sua coisa
favorita, mas rastejaria no chão se fosse preciso para que ele a
perdoasse.
O carro dele estava parado na frente de casa. Mas quando ela
bateu à porta, foi Connor que atendeu, e sua expressão disse tudo.
Antipatia e crítica pura. Ai, não. O que Nate tinha dito pra ele?
Tudo? Partes? Talvez ela devesse começar pedindo desculpas para
o irmão primeiro. Ai, Deus, era péssima naquilo, então abriu a boca
e disse a primeira palavra que lhe veio à cabeça.
“Oi.”
“Oi.” Ele não se moveu. “Nate não está.”
“Ah. Hum, tudo bem. Posso entrar por um minuto?” Connor não
parecia feliz, mas a deixou entrar. Ela não estava com paciência
para sentar, então ficou andando de um lado para o outro na
pequena cozinha. “Sabe se ele vai demorar?”
Connor foi até a geladeira, pegou uma cerveja e se manteve de
costas. “Provavelmente. Saiu com a Mary.”
Ai. Kennedy respirou, tentando conter o pânico de que tivesse
chegado tarde demais, e teve certeza de que Connor estava
morrendo de raiva dela. Hora de dizer umas verdades. “Não sei o
que o Nate te contou sobre a gente. Você significa o mundo pra
ele, e estava torcendo que a gente pudesse conversar. Queria
explicar o que aconteceu. Talvez pedir um conselho?”
Ele inclinou a garrafa, deu um gole e a encarou. Um tremor
percorreu o corpo de Kennedy. Os olhos de Connor brilhavam com
frieza e desdém. Ela sem dúvida estava em apuros. “Não precisa
falar, vou te dar meu conselho de uma vez. Você mandou muito
bem na transformação do meu irmão. Deu também uma bela de
uma surra nele. Quase o destruiu, sabia?”
“Desculpa”, sussurrou ela. “Cometi um erro. Preciso consertar
as coisas.”
“Saquei tudo de cara. Mulher bonita acha que manda no
mundo. Pega o que bem entende sem se preocupar se está
machucando os outros, e depois te larga na merda. Nate queria
acreditar que ia dar certo. Avisei, mas ele resolveu se arriscar, e
olha só o que aconteceu. O que você tá fazendo aqui? Veio
confundir a cabeça dele um pouco mais?”
Ela começou a tremer. “Juro por Deus que nunca quis machucar
ninguém. Fiquei assustada. Nunca tinha me apaixonado antes. Me
afastei dele pra não partir seu coração depois, mas aí me dei conta
de que, esse tempo todo, estava só com medo que ele me
deixasse. Fui uma covarde. Preciso dizer a verdade pra ele.”
“Agora já era.” Ele fechou a boca, como se estivesse tomando
uma decisão. “Ele está saindo com a Mary agora. Estão dormindo
juntos.”
Sentiu o sangue sumir de seu corpo como se um vampiro
tivesse acabado de fazer um banquete e deixado só a carcaça. Já
era. Tinha chegado tarde demais. Notou o olhar treinado de
Connor em seu rosto, como se estivesse avaliando a reação dela,
mas já não se importava mais. Mal conseguiu encontrar a voz.
“Ele está feliz?”
“Está. Não vai estragar tudo aparecendo de novo na vida dele.
Deixa meu irmão em paz.”
Fez um esforço para assentir. Connor tinha razão. Nate merecia
ser feliz, e se tinha encontrado isso com outra pessoa, não
importava. Nem o toque. Nem o seu próprio coração partido.
Estava dormindo com ela.
Sentiu náuseas. Tivera sua chance e demorara demais. O
mínimo que podia fazer era não chegar e destruir algo frágil, algo
que podia ser bom para ele e fazê-lo feliz. Mais feliz do que ela
seria capaz.
Moveu-se como se cercada de névoa. Sua mão parou na
maçaneta da porta. “Connor?”
“O quê?”
“Amo seu irmão. Ele merece… tudo.”
Então saiu.
Nate chegou ao restaurante e escolheu uma mesa. Mary ainda
não tinha chegado, então pediu seu Darth Maultini. Desta vez, o
barman não confirmou o pedido, e ele percebeu que estava
fazendo de Verily sua casa. Estranho. Morara com o irmão esse
tempo todo, mais perto do trabalho e do lado de Manhattan, mas
nunca se sentira em casa. O apartamento era só um local
agradável para alugar.
A casa de Genevieve era acolhedora e cheia de uma vibração
boa à qual tinha se habituado. A cidade inteira tinha lançado um
feitiço sobre ele. Adorava passear à noite e parar para tomar um
sorvete, ou observar as pessoas andando com o cachorro no
parque. Tinha comprado um quadro lindo na galeria de arte local, e
havia começado a conhecer uma pessoa ou outra no Purple Haze e
no Mugs. Andava até ansioso para sair do trabalho na hora, ou no
mínimo mais ou menos perto da hora de sair. Wayne parecia meio
irritado com esse desejo súbito de voltar pra casa, mas ele estava
brincado com fórmulas e fazendo suas pesquisas fora do
laboratório pela primeira vez na vida.
Se ao menos pudesse se apaixonar por Mary.
Uma sombra caiu sobre a mesa. “Oi, Nate.” Ela tinha um sorriso
fácil e acolhedor, e ele se levantou automaticamente para beijá-la,
mas Mary virou o rosto no último momento, então ele só acertou a
bochecha. Ela sentou e pousou as mãos na mesa, que ele já tinha
limpado. “Tudo bem?”
“Tudo. Você está bonita.” O penteado loiro curto era chique e
elegante, e emoldurava um rosto redondo com olhos verdes
reluzentes. Mary era magra e estava em forma, e usava roupas
mais casuais, como calça jeans, camisetas e sapatos confortáveis.
Muito mais o tipo dele. Muito melhor que uma mulher ligada em
moda e que sempre o ofuscasse em eventos públicos. Esta era
mais a sua praia.
“Obrigada.” Os olhos dela percorreram o restaurante, e ele
captou vibrações nervosas. Será que estava ficando impaciente que
ele estivesse indo devagar? Talvez devesse fazer alguma coisa hoje.
Os dois tinham trocado uns beijos e andado de mãos dadas, sem
que tivesse surgido a necessidade de ir mais longe, mas talvez ela
estivesse questionando as intenções dele? Lembrou de um artigo
da Glamour que dizia que, no quarto encontro, os homens já
tinham que tomar alguma atitude ou a mulher perdia o interesse.
Em que encontro estavam? No sexto? Merda, estava atrasado.
Deslizou a mão sobre a mesa e agarrou a dela. Ela se
sobressaltou de leve, riu e depois se ocupou com o cardápio. É,
isso ia terminar na cama rapidinho. Talvez ele devesse convidá-la
para a casa dele e mandar uma mensagem para o irmão, pedindo
para ir embora. Nate lutou contra os nervos. Era bom de sexo.
Talvez isso criasse uma intimidade entre os dois e os levasse para a
próxima etapa. Certo?
Seu pau não respondeu.
Nate limpou a garganta. “Pedi uma taça do merlot que você
gosta.”
“Que gentil.” Ela olhou por cima do cardápio e suspirou. “Você é
um homem maravilhoso, sabia?”
“Obrigado. Escuta, por que a gente não pula a sobremesa e vai
lá pra casa depois do jantar? Passar um tempo juntos.”
Ela baixou o cardápio e fechou os olhos. “A gente precisa
conversar.”
Lembrava-se de pelo menos quatro posts de blogs sobre como
a pior coisa que uma mulher podia dizer era “A gente precisa
conversar”. Tentou não entrar em pânico. “Claro. Você pode falar o
que quiser.”
“Me diverti muito saindo com você. De verdade, quando a
gente se conheceu no coquetel, achei que íamos dar certo juntos.
Mas não posso mais sair contigo.”
Como é que é? Nate a encarou, tentando organizar os
pensamentos. “Fiz alguma coisa de errado?”
Ela riu e apertou sua mão. “Não, claro que não! Olha, conheci
uma pessoa no trabalho. E embora eu me divirta com você, não
estou vendo as faíscas necessárias pra começar um namoro sério.”
Ela mordeu o lábio. “Por favor, não fica bravo. Achei mesmo que
não ia acontecer nada com esse cara, mas ele se abriu pra mim
sobre os sentimentos dele, e preciso me arriscar. Decidimos ter
uma relação exclusiva, então vou sair da Kinnections.”
Os olhos dela brilhavam com aquela emoção de conhecer
alguém que bate com você. Alguém que te compreenda em todos
os sentidos. Alguém com quem você queira passar todos os
momentos livres, e de quem você sinta saudade, que o faça se
sentir vivo. Nate esperou a sensação da decepção profunda por ter
perdido a mulher que poderia ter sido sua companheira. Em vez
disso, seu ser foi inteiramente tomado pelo alívio.
Mary não era a pessoa certa para ele.
Em seguida, riu, porque tudo aquilo era irônico demais. “Não,
não estou nem um pouco bravo. Na verdade, estou feliz por você.
Você é incrível, e ele é um cara de sorte.”
Ela sorriu. “Você é um cara e tanto, Nate Dunkle. Espero que a
próxima mulher na sua vida enxergue isso.”
“É, eu também.” Eles conversaram um pouco mais, e então ele
a beijou na bochecha e ela foi embora.
E a pergunta surgiu em sua mente. E agora?
Talvez… nada.
Deu um gole na bebida e repassou as opções. Se queria uma
chance de ser feliz com alguém, tinha que superar Kennedy. Sair
com outras mulheres e torcer para esquecê-la não estava
ajudando. Talvez fosse melhor dar um tempo. Gostava da casa
nova. Gostava das novas amizades. Agora estava confiante para
falar com as mulheres e aberto às possibilidades. Kennedy tinha lhe
dado todos aqueles presentes, mas até seu coração estar livre para
oferecer amor de novo, ele ia só se deixar levar.
Isso mesmo. Ia sair da Kinnections. Abrir mão da taxa de
inscrição, tirar um tempo para se curar e voltar à ativa nos próprios
termos. Não podia lidar com Kate nem com Arilyn quando estava
só torcendo para esbarrar na sua consultora de verdade. Distância
e tempo era o que precisava.
Pagou a conta e caminhou até em casa. A noite de primavera
estava animada, a rua estava cheia de gente entrando e saindo das
lojas e lotando os cafés ao ar livre. A lua estava cheia naquela
noite, um disco laranja bonito sobre o Hudson. A ponte de Tappan
Zee se estendia, comprida, com as luzes cintilando contra o céu
negro. Parou para conversar um pouco com alguns moradores e,
quando chegou à porta de casa, sentiu-se determinado em sua
decisão.
Connor estava recostado no sofá, uma cerveja do lado, batata
frita na mesa, Breaking Bad na televisão. “Oi, já voltou? Tudo
certo?”
Nate se juntou a ele no sofá. Deus, estava cansado. “Tudo.”
“O encontro foi bom?”
“Não, ela terminou comigo.”
O irmão virou a cabeça para encará-lo. “Tá brincando? Por
quê?”
Deu de ombros e pegou algumas batatas. “Conheceu alguém
no trabalho. Não temos nenhuma química. Blá-blá-blá.”
“Cara, que merda. Quer sair e encher a cara?”
Nate riu. “Não, concordei com ela. Na verdade, estou aliviado.
Vou fazer uma pausa com esse negócio de namoro por um tempo.
Colocar a cabeça no lugar.”
Connor lançou um olhar estranho. “Acho que você está
reagindo da forma errada. Você precisa transar. Sair e pegar
alguém. E não parar e olhar pra trás.”
“Não sou que nem você. Não é tão fácil.”
“É por causa dela, né? Da sua consultora de relacionamentos?
Você ainda está sofrendo quando devia estar comemorando que se
livrou dela. Aquela mulher é tóxica, cara.”
Nate sacudiu a cabeça. “Não. Ela é igualzinha a você, Con.”
O irmão pulou do sofá, a boca aberta feito um peixe. “Como é
que é? O que foi que você acabou de dizer?”
Droga. Que noite. Mas estava na hora de dizer umas verdades,
e ele estava cansado de se esquivar da questão. “Ela é igual a
você. Vocês dois se machucaram no passado. Vocês dois têm medo
de confiar. Que merda, nenhum dos dois acha que merece um
relacionamento de verdade, sempre inventando pretextos pra não
se comprometer ou fazendo listas de pessoas que vocês já
julgaram e declararam culpadas. Olha só pra você. A mulher não
pode trabalhar com estética, não pode ser bonita, não pode ser
inteligente e não pode te julgar. É ridículo. A Kennedy fez a mesma
coisa. Me disse mais de uma vez que a gente não era compatível,
ou que ela ia acabar partindo meu coração.”
“Ela ia acabar partindo o seu coração!”
“Como é que você sabe? Porque ela é bonita? Porque ia me
largar por alguém melhor, que nem a mamãe? Vocês dois me
deixam louco! Ninguém pode garantir nada. O negócio é estar
disposto. Kennedy não teve coragem. Espero que um dia ela
consiga, porque acho que vou amar aquela mulher até o dia em
que morrer. Mas você? Você ainda tem uma chance. Acorda para o
mundo e vê se faz alguma coisa com a sua vida.”
A raiva transbordou do corpo do irmão. Connor o agarrou pela
camisa e o levantou do sofá, sacudindo-o como um cão que quer
mostrar quem manda. “Vai se foder! Eu tentei a vaga de supervisor
e não consegui. Não tenho diploma, não sou um cientista brilhante,
nem nunca vou ser. Isto é tudo o que eu tenho!”
Nate o empurrou e cerrou os punhos. “Vai se foder você! Quem
falou que isto é tudo que você tem? A mamãe? O papai? Eu? Você?
Decide o que você quer e vai atrás. Se pra arrumar uma vaga de
supervisor você precisa de uma faculdade, vai estudar.”
Connor o empurrou de volta e grudou o rosto no do irmão. Ele
cuspia ao rosnar: “Vai se foder! Não tenho dinheiro”.
Nate deu o primeiro soco. Um golpe seco e direto que acertou a
mandíbula do outro. “Vai se foder! Você se sacrificou pra me
manter na escola e me criar e acha que não vou pagar sua
faculdade e tudo o que você precisa? Por que não posso finalmente
te retribuir?”
Connor segurou o rosto, abaixou o corpo e deu um golpe
poderoso por baixo no queixo do irmão, jogando sua cabeça para
trás. Nate viu estrelas, mas logo o mundo se estabilizou. “Vai se
foder! Não sou inteligente o suficiente pra ir pra faculdade.”
Nate dobrou o corpo e se jogou de cabeça na barriga do
adversário. Connor ofegou e caiu para trás. “Vai se foder! Você
sempre foi inteligente, mas nunca teve a chance de mostrar. Você é
perfeito pra um cargo de gerência, e um diploma em administração
é tudo que você precisa. Covarde!”
Connor levantou e entrou no ringue. “Quem você chamou de
covarde?”
Eles pararam de falar e começaram a se socar. Nate usou tudo
o que tinha aprendido e ainda acrescentou uns movimentos novos,
mas Connor era o professor e bloqueou a maior parte dos golpes
mais difíceis. Por fim, os dois caíram de costas no chão, ofegantes,
a adrenalina correndo nas veias e ocupando a sala inteira.
Foi lindo.
Nate relaxou os músculos e deitou a cabeça no chão,
recuperando o fôlego e olhando para o teto. Sentiu que o irmão
estava fazendo o mesmo. Depois de um tempo, a voz de Connor
interrompeu o silêncio. “Você pagaria mesmo a minha faculdade?”
“Claro.”
Uma pausa. “Acha que dou conta?”
“Tenho certeza.”
“Os caras fazem o curso de uma faculdade do bairro que tem
desconto na mensalidade. Eu podia continuar trabalhando, estudar
à noite e usar os fins de semana pra terminar mais cedo.”
“Você já checou tudo, né?”
Um suspiro. “É.”
“Ótimo. Se matricula esta semana.”
“Tá. Onde você aprendeu a fazer aquele gancho de direita
enquanto passa o joelho ao mesmo tempo?”
“Peguei o que você me ensinou e adaptei. Um pouco de ciência
ajuda.”
“Legal. Ei, Nate?”
“O quê?”
“Você ainda ama a sua consultora de relacionamentos? Se ela
te quisesse de volta, você voltaria?”
O coração de Nate morreu um pouco, mas estava acostumado
com aquilo e imaginou que um dia não iria doer tanto. Quem sabe.
Talvez não. “Amo. Mas não sei. Depende. Ela vai ter que mandar
muito bem pra me convencer que não vai desistir de novo. Porque
não vou sobreviver se perder essa mulher uma segunda vez.”
“Entendi.”
Os dois ficaram deitados em silêncio por um tempo, então se
levantaram devagar. Pegaram as cervejas. E começaram a assistir
Breaking Bad, lado a lado.
17

Kate deu uma espiadinha pela porta da sala de Ken. “Como é


que você tá?”
A amiga forçou um sorriso. “Aguentando.”
“Noite das mulheres. Mugs. Sexta-feira. Gen vai vir também.”
Ken levantou a sobrancelha. “Você acredita nela?”
“David viajou pra uma conferência, então acho que ela vai dar
uma escapada. Jane e Arilyn também vêm.”
“Legal.” Tentou evitar que a voz soasse desanimada, mas
estava sem energia naqueles dias. Ia levar um bom tempo para se
recuperar da conclusão de que tinha perdido Nate para sempre.
Mas estava fazendo algumas mudanças. Tinha voltado para a
terapia, o que estava ajudando. O tempo todo em que mantivera o
corpo saudável, tinha se esquecido da outra parte importante.
Amar a si mesma por inteiro, as coisas boas e as ruins, gorda e
magra, inteligente e não tão inteligente. As sessões estavam
mergulhando fundo, e embora o trabalho fosse doloroso, começava
a levantar um peso de sua alma.
Três semanas se passaram desde que perdera Nate
oficialmente. Mary e ele tinham saído da Kinnections, e torcia para
que ele estivesse feliz com ela.
Kate acrescentou, baixinho: “Você vai ficar bem, querida.
Vamos tirar você dessa”.
“Posso fazer uma pergunta?”
“Claro.”
“O que acontece se você deixar sua alma gêmea ir embora?
Você sentiu que a gente era feito um pro outro. Mas e se não
funcionar? Estamos condenados a passar o resto da vida
procurando uma coisa que não existe?”
Kate sacudiu a cabeça enfaticamente. “Não. Você não pode
pensar assim. Minha mãe me explicou o dom. Ele não garante um
final feliz. Duas pessoas podem não estar destinadas uma para a
outra neste momento. Você pode amar muitas pessoas nesta vida,
Ken, eu juro. E não sabemos o futuro. A parte mais importante é
que você não desistiu. Você tentou dizer a verdade para o Nate.
Você assumiu o risco. Isso é fundamental. Entendeu?”
Lágrimas tolas ameaçaram despontar de seus olhos. Andava
tão emotiva ultimamente. “Entendi. Obrigada.”
“Sem problemas. Vim avisar que tem um cliente te esperando.
Tentei ajudar, mas ele só quer falar com você. Ouviu dizer que era
a melhor.”
Ken limpou os olhos e riu. “Bem, quanto a isso ele tem razão.
Pode mandar entrar.”
“Beleza.”
Ela ajeitou a mesa, ajustou o paletó cor de chocolate e vestiu a
máscara da mulher de negócios. Mas logo deixou a caneta cair,
pois se viu cara a cara com o irmão de Nate.
O medo a retalhou em pedacinhos. “Tudo bem com o Nate?”
“Tudo, tudo bem. Só queria conversar.”
Soltou a respiração. Graças a Deus. Podia aguentar o baque
emocional que era estar perto do irmão de Nate desde que ele
estivesse bem. “Pode sentar.”
Ele acomodou o corpo grande e comprido na cadeira. Tentou
cruzar as pernas na altura do tornozelo, mas acertou a mesa, então
se decidiu por ficar balançando o pé de um lado para o outro,
como se estivesse prestes a enfrentar a diretora da escola. “Queria
perguntar uma coisa.”
“Pode falar.”
“Você ainda ama o Nate?”
O corpo de Ken gelou, mas ela se obrigou a falar. “Amo. Acho
que vou amar pra sempre.”
“Eu menti.”
Ela inclinou a cabeça e o analisou. Connor começou a batucar a
mão contra o joelho. “Do que você tá falando?”
“Ele não estava dormindo com a Mary. Nunca aconteceu. Eles
estavam saindo, e não confiei em você. Menti pra você nunca mais
incomodar meu irmão de novo.”
Um pequeno sorriso apareceu nos lábios dela. “Não culpo você.
Você é irmão dele e queria protegê-lo. Eu também mentiria.”
Ele parou de balançar o pé e fixou o olhar no dela. Os olhos cor
de avelã, que antes eram tão cheios de acusação, agora pareciam
mais suaves. Mais indulgentes. “Cometi um erro. Nunca falei para o
Nate que você foi na casa dele aquele dia.”
Ken deu de ombros. “Não tem por quê. Ele está com a Mary
agora, está feliz. É o que eu sempre quis pra ele. Os dois saíram da
Kinnections, então as coisas devem estar indo bem.”
“Ele não está mais com a Mary.”
Perdeu o fôlego. Uma esperança terrível brotou lá dentro, mas
ela a conteve. “O quê?”
Connor murmurou algo baixinho. “Nate te ama. Ele não chegou
a ter um relacionamento com a Mary… Eles não tinham química.
Mary encontrou outra pessoa, e Nate resolveu dar um tempo nos
namoros. Está tentando te esquecer, mas é como se vivesse
assombrado. Infeliz. Ele se deixa levar. Sai pra beber comigo e com
os caras, mas é como se fosse só uma sombra de si mesmo. Acho
que eu estava errado.”
Kennedy sentia o coração batendo tão forte e tão alto que
podia jurar que Connor também ouvia. “Sobre o quê?”
“Sobre você. Acho que você ficou com medo, que nem você
falou, e entrou em pânico. Acho que julguei você porque você me
lembrava de todas as mulheres que me machucaram, começando
pela minha mãe. Mas não quero mais fazer isso. Quem sou eu pra
te julgar? Todos nós cometemos erros. Sou um cara todo errado,
mas Nate me colocou pra estudar de novo, e quero mais da vida.
Você também não quer?”
“Quero”, sussurrou ela.
“Ótimo. Você precisa ir atrás dele. Conquistar ele de novo.”
Ela tirou o cabelo do rosto, as mãos trêmulas. “Vou ter que
provar que ele pode confiar em mim. Acha que ele vai me
perdoar?”
“Acho. Mas você tem que bolar algo grande. Épico.”
A esperança se soltou e floresceu. Ela tinha outra chance.
“Tenho que pensar.”
“Por que você não vai na casa dele vestindo uma capa de
chuva, e tira a capa e está pelada por baixo? Aí você diz que faria
qualquer coisa pra ter ele de volta.”
Ela revirou os olhos. “Cara, você tá falando sério? Que coisa
mais ridícula e exagerada. Próxima ideia.”
Connor olhou feio para ela. “Teria dado certo comigo”,
murmurou. “Já sei! A gente manda entregar um bolo enorme no
laboratório dele, e você pula pra fora do bolo num biquíni de
lantejoulas, ao som de ‘I Apologize’, e implora pelo perdão dele.”
“De jeito nenhum. Dá pra inventar uma opção em que eu esteja
vestida? Tem que ser uma coisa épica emocional, e não física.”
“Acho que você está indo na direção errada.”
“Você vai ser um cunhado pé no saco.”
Eles se entreolharam e, pela primeira vez, riram juntos de
verdade.
E então, de repente, ela teve uma luz.
“Já sei o que vou fazer. Mas vou precisar de ajuda.”
“Qual é o plano?”
Explicou os detalhes básicos. Connor arregalou os olhos e enfim
concordou. “Essa é boa. Mesmo sem você aparecer pelada.”
“Obrigada. Vou ligar pra ele.”
Estendeu a mão para pegar o telefone e conversar com Wolfe.
Nate olhou para o relógio e decidiu esperar mais cinco minutos.
Wolfe raramente se atrasava. Estava torcendo para que ele
aparecesse. Desde a briga com o irmão, as coisas tinham se
assentado um pouco, mas a solidão e as lembranças de Kennedy
ainda devastavam sua mente. Estava ansioso por um bom jogo
para testar as habilidades, além de um pouco de conversa
masculina, para se distrair.
O telefone tocou, e ele o pegou no bolso. “Vai me dar bolo?”
Uma risada baixa. “Desculpa, cara, me enrolei com um projeto
aqui e não vou poder ir.”
“Tudo bem. Mas estava com saudade de ganhar de você.”
“Tô chegando junto, cara. Diminuí duas tacadas no meu jogo e
fechei meu grande negócio. Foi lindo.”
Nate sorriu. “Uau, parabéns. Sabia que você conseguiria.”
“Graças a você. Também percebi que tem um mercado
inexplorado em campos de golfe na indústria hoteleira. Deixei uma
coisa pra você aí no escritório. É só mostrar a identidade para o
Ron, que ele te entrega.”
“Identidade, é? A trama se complica.”
“Divirta-se. E não vem me dizer que não precisava. Não posso
mais devolver.”
“Agora fiquei preocupado. Acho que vou agradecer por
antecipação, então.”
“De nada. Arrumei outro parceiro pra você também. Deve estar
lá no escritório, te esperando.”
“Você pensa em tudo. Agora vai ganhar algum dinheiro, pelo
amor de Deus.”
“Depois a gente se fala.”
Nate terminou a chamada e guardou o telefone no bolso.
Sentiu uma onda de orgulho com o feito do amigo. Caminhou até o
escritório, mostrou a carteira de motorista para Ron, e foi escoltado
até a sala dos fundos. Lá, no meio do cômodo, estavam os tacos
de golfe mais magníficos jamais criados.
Aproximou-se para inspecioná-los. O susto o deixou imóvel por
um instante. A mão tremia ao correr um dedo pela platina com
detalhes em ouro. Filho da puta. O conjunto personalizado de tacos
Honma era extremamente raro, além de caro pra burro. Trump
jogava com aquilo. Como é que Wolfe tinha conseguido?
Como se o amigo tivesse previsto a pergunta, Nate notou um
pequeno envelope colado no saco. Estendeu a mão e abriu.

Nate,
Obrigado por tudo. Enviei um vídeo do seu swing e mandei
fazer isso sob medida em Londres. Claro que também tenho meu
próprio conjunto, então fica de olho. Um dia o aprendiz supera o
mestre.
Te vejo na semana que vem.
Wolfe

Levou um tempo até estar pronto para retirar um dos tacos e


experimentar. O metal brilhava, e o cabo encaixava na mão como
se tivessem sido feitos um para o outro. A emoção apertou sua
garganta, mas lutou contra ela, porque sabia que Wolfe ia odiar
sentimentalismos e recusar sua gratidão. Era muita sorte ter um
amigo daqueles.
A porta se abriu. “Nate? Sua dupla está esperando.”
“Já vou.” Levou a bolsa com os tacos ao ombro, ainda
deslumbrado, e saiu do escritório em direção ao fairway principal.
Então parou.
“Oi, Nate.”
Kennedy estava bem na frente dele.
Puta merda. Estava deslumbrante. O cabelo caía em ondas
grossas abaixo dos ombros, com mechas cor de caramelo. O
vestido de tênis era diferente do último que tinha usado. Este era
mais curto, e vermelho-fogo. As pernas nuas bronzeadas pareciam
não acabar nunca e terminavam num par de sapatos de golfe
escarlates.
A voz de Nate não saiu. Continuou tentando falar, mas ela tinha
entalado em algum lugar entre os pulmões e a garganta. Seu pau,
no entanto, parecia funcionar muito bem. Subiu numa saudação
completa e se espremeu dolorosamente contra as calças. Aquilo
não estava acontecendo. Estava? Era um sonho ou era só um
imbecil de achar que ela algum dia o amara em segredo?
Repassou depressa um monte de equações de física para
acalmar a mente e conseguir andar sem demonstrar a excitação.
“O que você veio fazer aqui?”
Ela usou a língua para umedecer os lábios cor de rosa,
revelando o dente torto que ele adorava. “Jogar golfe. Wolfe me
falou que não podia vir.”
A raiva batalhou contra o desejo doentio de passar um tempo
com ela. “E, por você, tudo bem?”
Ela piscou. “Tudo. Por você, não?”
Nate cerrou os dentes. Não. Chega de joguinhos e de dor e de
desejar uma coisa que ela não era capaz de oferecer. “Não, por
mim, não tá nada bem. Você está tentando me confundir de
propósito? O que está fazendo aqui, Kennedy?”
Ela se encolheu, e, de repente, a calma fingida sumiu de seu
rosto e foi substituída pela verdade. Aqueles olhos cor de uísque
estavam repletos de saudade e uma pitada de… medo? Era
possível? O que estava acontecendo? “Preciso falar com você”,
murmurou ela. “Explicar. Algumas coisas.”
Seu coração deu um pulo de esperança. Mas ele a esmagou
como se fosse um mosquito irritante. “Acho que já falou tudo que
tinha pra ser dito. Não posso mais fazer isso. Vou pra casa.”
Ele virou e reuniu forças para alcançar o carro. Para dirigir dali
e se curar daquela mulher que tinha roubado seu coração, virado
seu mundo de ponta-cabeça e que não o queria.
“Espera!” Ela deu um pulo e bloqueou a passagem. Torceu os
dedos e o encarou por trás de cílios escuros grossos, com olhos de
cachorrinho suplicantes que o deixaram sem fôlego. “Por favor, me
dá uma chance. Joga três buracos comigo. Se eu ganhar, você
ouve tudo o que tenho pra dizer. Se eu perder, vou embora e nunca
mais te incomodo de novo.”
Nate olhou para ela, espantado. “Tá de sacanagem? É a coisa
mais ridícula que já ouvi.”
“É um desafio. Três buracos. Você me deve isso.”
Devia isso a ela? Só podia estar brincando. Uma raiva pura
guerreava contra seu instinto de sobrevivência, que dizia para fugir
e se salvar. Ela queria desafiá-lo para uma partida? Tudo bem. Mas
desta vez iria jogar pra valer. Na sua própria terra santa do campo
de golfe, Nate decidiu terminar aquele relacionamento de uma vez
por todas e nunca mais olhar para trás. Nos seus termos.
“Cuidado com o que deseja, Ken”, rosnou ele, baixinho.
“Cheguei ao meu limite.”
A mulher teve a coragem de sorrir para ele. “Eu também.
Vamos lá. Trouxe meus próprios tacos.”
Ele reprimiu uma risada mal-humorada. Filha da mãe. Mas
percebeu que esta era a única maneira de acabar com ela. Uma
vez que ganhasse, Kennedy ia deixá-lo em paz, e talvez ele
finalmente conseguisse continuar sua vida. Era uma espécie de
final poético, só que mais como uma ópera em que todo mundo
morria no final, em vez de um romance.
“Certo. A gente não vai precisar do carrinho. Anda.”
Nate pegou os tacos dela, recusando-se a deixar que ela os
carregasse ladeira acima, e marchou. Ken o seguiu, mas ele se
recusou a olhar para trás. Chega de olhar para aquela bunda
empinada mal coberta pelo vestido ridículo. Como podiam fazer
coisas daquelas para jogar golfe? Não era decente. E se ela tivesse
que se abaixar para pegar uma bola?
Estava soltando fumaça pelas orelhas, mas chegou ao primeiro
buraco, baixou os tacos e se concentrou no jogo. “Primeiro as
damas.”
Ela assumiu sua posição. Colou os olhos na bola, balançou um
pouco de um lado para o outro, com a saia vermelha
acompanhando o movimento, ergueu o taco e lançou a bola num
arco perfeito. Ela pousou bem na beirada do fairway. Em geral,
Kennedy não parava de falar enquanto eles jogavam. Desta vez,
permaneceu em silêncio, como se o jogo fosse realmente
importante para ela.
Nate conhecia a sensação.
Conteve as emoções e se posicionou. Sua tacada de approach
foi impecável, e ele observou a bola pousar no tee, pronta para um
par perfeito.
Ela franziu a testa. “Boa tacada”, elogiou.
Ele a fitou com uma cara feia. “Obrigado.”
Os dois se arrastaram até o fairway e terminaram a jogada.
Pontuação: Quatro tacadas para ela. Três para ele.
No segundo buraco, ela tentou se recuperar com um
lançamento lindo que quase a levou ao green. Como era possível a
mulher ter um swing natural tão perfeito que ninguém que ele
conhecia jamais tinha demonstrado? Estava com uma calcinha
vermelha pra combinar com o vestido? Ia conseguir ver se ela se
abaixasse? Podia sentir seu cheiro, o aroma de pele nua, excitação,
especiarias, almíscar e feminilidade. Seu cérebro se alternava entre
a luxúria e o golfe, mas ele estava determinado a vencer e mandou
a bola direto para o green. Em seguida, encerrou o buraco sem
problemas, enquanto ela se atrapalhava com o último putt.
Pontuação: Quatro tacadas para ela. Duas para ele.
“Acabou”, anunciou ele, calmamente. “Você precisa acertar o
último buraco de primeira, e isso é impossível.”
“Eu consigo.”
Foi tomado pela frustração e apertou o taco com força.
“Acabou”, repetiu, mais alto. “Além de ter que acertar de primeira,
ia precisar que eu fizesse quatro tacadas.”
Ela ergueu o queixo, ficou na ponta dos pés e falou bem na
cara dele. “Não desisto fácil. A gente falou que ia jogar três
buracos.”
Ele cerrou os dentes e soltou um palavrão. “Isso é ridículo e
desnecessário. Tá bom. Vamos.”
Nate marchou até o terceiro buraco, e ela o acompanhou. As
colinas verdes se estendiam diante deles, e o sol iluminava a terra
como um presente dos deuses. Passarinhos cantavam como num
filme da Disney, uma leve brisa acariciava a pele, e ele nunca tinha
se sentido tão triste na vida. Último buraco. Devia ter imaginado
que ela não desistia fácil, só quando desistia de si mesma.
Ou do amor.
Kennedy parecia mais calma e reflexiva ao assumir sua posição,
olhando para trás por cima do ombro na direção dele. Seu swing
acertou a bola em cheio e a mandou direito para o green.
Mas não caiu no buraco de primeira.
Nate não falou nada. Os dois olharam para a bola no green, e
algo forte pulsou naquele silêncio. Quando ela enfim virou a
cabeça, os olhos cor de âmbar penetrantes brilhavam com
lágrimas, mas nenhuma escorreu. “Perdi.”
Ele sentiu o coração partir e sangrar, e se perguntou se ia
morrer bem ali, no campo de golfe. “É.”
“Mas não posso jogar pelas regras. Não agora. Não com você.”
Nate deixou escapar um grito primitivo que imaginava ser o
mesmo que os homens das cavernas usavam quando suas
mulheres os estraçalhavam, literal e figurativamente. “Não”,
rosnou. “Não posso… não aguento mais.”
Ela ergueu as mãos numa súplica. Uma emoção pura destorcia
as linhas graciosas do seu rosto, e, pela primeira vez, ele
vislumbrou todos os cantos mais escondidos da sua alma, despidos
para ele à luz do sol ofuscante do campo de golfe. “Eu te amo.”
“Ah, droga. Você vai me matar.” Deu as costas para ela e enfiou
os dedos no cabelo. “Agora você decidiu que me ama? Você vem
jogar golfe, me vê de novo, lembra como era e decide que me quer
de volta?”
“Fui te ver algumas semanas atrás. Você tinha saído com a
Mary, e seu irmão atendeu a porta.”
A dor foi substituída pela frieza. Melhor assim. Doeu menos.
“Por quê?”
“Pra pedir perdão. Dizer que te amava, que acreditava na gente
e num relacionamento de verdade, e que era uma burra e uma
covarde. Você merece mais, eu sei que merece, mas eu tinha que
tentar te dizer a verdade.”
Ele estremeceu e estudou o rosto de Kennedy com um olhar
implacável. “Quanta determinação nessa declaração, hein? Então
por que foi embora? Por que não ficou e lutou por mim?”
“Porque Connor falou que você e Mary estavam dormindo
juntos. Me pediu pra me afastar de você, disse que você estava
tentando construir um relacionamento com ela. Que você tinha
uma chance de ser feliz.”
“A gente nunca dormiu junto. Mary arrumou outro cara e saiu
da Kinnections. Estou tentando te esquecer.”
“Eu sei”, respondeu ela, baixinho. “Quando vocês dois saíram
da agência, achei que era porque estavam juntos.”
Ele tentou entender o que estava acontecendo. “Por que agora?
Por que de repente você resolveu aparecer semanas depois no
campo de golfe?”
“Connor veio me ver. Ele me contou a verdade. Conversamos
muito, e confessei que o tempo todo era eu que estava com medo.
Você tinha razão.” Ela soltou uma expiração trêmula e ergueu o
rosto. “Inventei pretextos que não eram reais. Tentei te afastar
fingindo que ia te machucar, que era para o seu bem, que eu não
te merecia. Mas eu mereço. Mereço amar e não ser uma covarde, e
preciso tentar. Estou te oferecendo tudo. Meu coração, minha alma,
minha vida. Nunca vou deixar você. Vou te amar pelo tempo que
você permitir.”
A respiração de Nate parou. Olhou para a mulher que amava
diante dele, o rosto suplicante, e viu a verdade em seus olhos. Ela
não queria mais fugir. Ela o amava. Todos os seus sonhos estavam
bem ali.
Seus olhos ardiam, e ele deu um passo à frente, a mente
girando. Estava louco para puxá-la para os seus braços, perdoá-la,
amá-la, mas aquela pontinha de medo ainda estava lá, porque ele
sabia que desta vez não tinha volta. Notou uma coisa branca se
agitando na frente dele e olhou para cima.
O que era aquilo?
Uma enorme faixa branca tremulou diante dele. Dezenas de
pessoas seguravam a lona, esticando-a contra a brisa, que tentava
agitá-la. Em letras pretas sobre o fundo claro e reluzente, estavam
as palavras que vararam seu cérebro e desceram direto para suas
entranhas.
Eu te amo, Nate Dunkle. De verdade…
A voz de Ken o alcançou, suave e rouca, vindo de trás dele.
“Connor e eu decidimos que eu precisava fazer alguma coisa
épica. Entendo que você não queira me dar outra chance. Só posso
dizer o que você me ensinou.”
Ele se virou e a fitou no rosto.
“Você me ensinou a ser corajosa, a me abrir para a alegria e a
ser uma pessoa completa. Você chegou, viu todos os meus defeitos
e me amou assim mesmo. Você é tudo pra mim. Mas acima de
tudo, aprendi que sou perfeita. Pra você. Com você. Não quero
mais meias medidas. Não quero segurança. Quero você. Só você.”
Kennedy esperou. Sua humildade e vulnerabilidade a deixavam
ainda mais bonita, suavizando as linhas do rosto e os olhos,
entregando-se a ele… por inteiro.
Nate a pegou nos braços e a beijou. Deliciou-se com seu sabor
doce, sua suavidade, sua força, sob o sol quente e forte e a salva
de gritos de todas aquelas pessoas desconhecidas do outro lado da
colina. Beijou-a por muito, muito tempo e, quando finalmente se
afastou, sabia que sua vida jamais seria a mesma.
“Mas quem ganhou fui eu”, disse.
Ela riu, e o som se espalhou pelo campo e alcançou seus
ouvidos como uma melodia doce. “Desta vez. Mas ganhei você,
então quem saiu na vantagem fui eu.”
Ele enfiou os dedos em seus cabelos e a beijou mais uma vez,
demorada e profundamente. “Eu te amo, Kennedy Ashe. Vamos pra
casa.”
As palavras nunca soaram mais perfeitas.
Epílogo

Kennedy deu um golinho no chá e se recostou no assento.


“Ainda acho que o meu ‘final feliz’ foi ligeiramente melhor que o
seu. Afinal, você só ficou com poltronas reclináveis.”
Kate revirou os olhos e cutucou a amiga no braço. “Poltronas
reclináveis de couro, com aquecimento e sistema de massagem.
Final feliz num campo de golfe é que nem aeroporto.
Sobrevalorizado.”
Kennedy fez seu famoso biquinho. “O que acha, Arilyn? Qual
final foi melhor?”
Arilyn suspirou e terminou de adoçar o chá. “Os dois são
bonitos e bem satisfatórios. Agora parem de ser infantis e
experimentem esse bolinho. É um ultraje.”
Arilyn quebrou o doce em três pedaços, e Kennedy mordiscou
com entusiasmo. Comer era uma coisa maravilhosa, e ela estava
começando a fazê-lo com mais facilidade. A sensação de satisfação
em seu peito estava se tornando mais familiar. No início, achou que
era um tipo maravilhoso de indigestão. Foi Kate quem mandou a
real.
Era felicidade.
“Bom, pelo menos a Kinnections está crescendo”, comentou
Kate. “Os clientes estão vindo aos montes. Acha que foi por causa
da história que vazou para o jornal da cidade? Queria saber quem
foi que fez isso, depois de discutirmos e combinarmos que íamos
manter a vida pessoal privada.”
Kennedy se concentrou em mastigar. Não era educado
responder de boca cheia.
Arilyn sacudiu a cabeça em desaprovação. “A gente sabe que
foi você, Ken. Esse seu gene maldito para o marketing ainda vai
acabar com a gente.”
“Cadê o Slade quando preciso de um advogado de defesa? Eu
tenho o direito de permanecer calada. E não vi ninguém
reclamando quando a lista de clientes disparou depois que a
matéria saiu.”
“Certo. Então você não vai se incomodar se a gente fizer um
vídeo da história da sua relação, vai? Vai ser uma propaganda e
tanto.”
“Não posso. Se a minha relação for divulgada, as pessoas vão
começar a achar que somos uma agência de relacionamentos que
rouba os clientes pra nós mesmas. Péssima propaganda.”
“Ela tem uma resposta pra tudo”, comentou Arilyn.
“A gente sempre pode dizer que foi o feitiço”, brincou Kate.
Kennedy e Arilyn trocaram um olhar. “Tinha esquecido. Mas é
meio difícil de avaliar isso, né? Gen já tava noiva, e você tem o
toque.”
“Você lembra que qualidades pediu? Nate tem todas elas?”,
perguntou Arilyn.
Kennedy engoliu uma gargalhada. “Ninguém jamais teria todas
as qualidades que você deseja. Além do mais, estava bêbada.
Duvido…” Ela parou, a mente repassando sua lista. “Hum. Que
estranho.”
Kate a fitou com um olhar engraçado no rosto e pousou o chá
na mesa. “O quê?”
“Nate satisfaz todos os meus desejos. Até os que achei que
eram impossíveis de alcançar.”
Arilyn parecia nervosa. “A gente não devia ter feito o feitiço. Eu
sabia. Abrimos um portal ou algo assim.”
Kennedy sacudiu a cabeça. “Ei, para de ficar tão assustada. A
lista bate, mas e daí? Não significa que o feitiço funcionou. O
negócio é o seguinte, A., se você encontrar um homem com todas
as características que pediu, então a gente vai saber com certeza
que é verdade. De jeito nenhum que você vai se contentar com
menos do que um homem que usa roupas de algodão orgânico,
não come carne, tem cachorros, dá aula de ioga e pratica tantra na
cama.”
Arilyn desviou o olhar. “Você não sabe o que coloquei na minha
lista”, ressaltou, calmamente.
Kate arqueou uma sobrancelha. “Verdade. Você vai contar pra
gente?”
“Não.”
Kennedy riu. “Foi o que eu achei.”
A porta vermelha abriu devagar, e a minúscula mulher chinesa
saiu. Seu quimono branco impecável estava amarrado com uma
faixa escarlate. Os pés descalços flutuavam sobre o piso de bambu,
enquanto ela andava na direção das três amigas, com um pequeno
sorriso nos lábios. Kennedy não pôde evitar o ligeiro tremor tanto
de antecipação quanto de nervosismo antes de uma sessão com
Ming.
Como Nate sabia muito bem.
Seu amante surgiu atrás de Ming, numa nuvem atordoada de
paz e relaxamento. A pele estava úmida, e ele tinha um cheirinho
delicioso de frutas cítricas e sabão. Seu olhar examinou o ambiente
e se fixou no dela.
Nate sorriu. “Oi.”
O coração de Ken deu um pulinho de emoção. “Oi, lindo. Foi
boa a sessão?”
“Não sei ainda.”
Ming deu uma gargalhada animada e empurrou Nate na direção
da namorada. “Ele bom menino. Muito melhor desta vez.”
Kennedy se aconchegou em seus braços, sentindo-se quente,
confortável e segura. “Esta minha mulher”, disse ele, a voz
arrastada.
Kate riu. “Ele tá bêbado, Ken. É pra amar mesmo, um homem
que não consegue segurar a onda numa sessão com a Ming.”
Ming estendeu a mão e apontou para Kate. “Você, agora.”
Kate mordeu o lábio. “Hum, Arilyn pode ir primeiro?”
“Não. Você se casar em breve, né? Precisa de limpeza.”
Kate estremeceu e levantou lentamente. “Certo. Tá bom.”
O olhar afiado de Ming se voltou na direção de Arilyn. “Você
bebe mais chá e espera. Você tem homem?”
Arilyn assentiu. “Sim, tenho um homem.”
Ming franziu a testa e se agitou, furiosa. “Seu homem não bom
pra você. Sinto isso. Você precisa limpar aura pra homem certo.”
Arilyn ficou boquiaberta. “Não, preciso nada! Estou feliz.”
“Mentira. Falo com você depois.” Kennedy cobriu o rosto no
roupão de Nate, tentando não rir. Ming era massagista, curandeira
e sensitiva, e ninguém nunca sabia o tipo de tratamento que ia
receber. Seu humor não durou muito, pois a japonesa concentrou
toda a atenção nela. “Você casar com esse homem?”
“Ainda não. Um dia. Por enquanto estamos felizes assim.”
Nate puxou uma mecha rebelde do cabelo. “Sim, a gente vai
casar. Assim que eu conseguir convencê-la”, respondeu, com um
sorriso divertido. Tinham decidido morar juntos e haviam
construído uma rotina feliz, convidando Connor para se juntar a
eles numa espécie de família eclética, e encorajando-o a seguir
com os estudos.
Ming assentiu, satisfeita. “Ela, caso difícil, mas você, forte. Você
não desistir.”
O rosto de Nate se suavizou. “Nunca”, sussurrou ele.
O homem dizia as coisas mais bobas. Sabia que os dois
estavam certos. Ela ia se dobrar e dizer sim, mas não por
enquanto. Era muito divertido deixar a vida levá-la naquela direção,
aproveitar cada segundo do presente incrível que era Nathan
Ellison Raymond Dunkle.
Ming se virou para Kate. “Agora, nós.”
A amiga a fitou com um olhar desesperado e entrou no
corredor. “Tchau, gente. Me desejem boa sorte.” A porta se fechou.
Arilyn sacudiu a cabeça. “Estou feliz”, insistiu. “Ming está
errada.”
“Acredito em você, querida. Não se preocupe. Vai dar tudo
certo no final.” Ken olhou para o homem que amava e sorriu.
“Vai ser tudo… perfeito.”
Agradecimentos

Tenho sempre que começar meus agradecimentos com a equipe da Gallery


Books, principalmente Lauren McKenna, a editora mais legal do planeta.
Amiga, obrigada por salvar este livro e, sobretudo, por Ming. Foi épico.
Obrigada à minha agente, Kevan Lyons, pela orientação.
Um enorme obrigada e muito beijos ao esquadrão Probst pelo apoio, a
torcida e por ajudar com o nome do meu herói nerd sensual!
À minha amiga de infância, assistente maravilhosa e parceira de malhação,
Lisa Hamel-Soldano. Se não tivesse você ao meu lado, não teria uma equipe
nem seria capaz de cumprir um prazo, por isso obrigada por me manter sã.
Para o meu marido forte e maravilhoso, que cozinha e me ajuda em todos
os sentidos possíveis, e me faz rir o tempo todo. Te amo, querido.
Esta é uma profissão singular. Meus amigos autores são os melhores e
merecem menção especial: Aimee Carson, Wendy S. Marcus, Abbi Wilder,
Catherine Bybee, Megan Mulry, Alice Clayton, Elisabeth Barrett, Jen
McLaughlin, Jenna Bennett, Jen Talty, Bob Mayer, Ruth Cardello, Kathleen
Brooks, Melody Anne, Janet Lane Walters e tantos outros mais que seria
impossível de citar aqui sem criar um livro novo. Obrigada a todos vocês pela
inspiração, pelo apoio e pelos risos. Que venham as conferências!
MATT SIMPKINS PHOTOGRAPHY
Autora best-seller do New York Times e USA Today, JENNIFER PROBST
vive no Estado de Nova York. Escreveu seu primeiro livro aos doze anos e
nunca mais parou. Mestre em literatura inglesa, é casada, tem dois filhos e
dois cachorros resgatados.
www.jenniferprobst.com
Copyright © 2014 by Jennifer Probst

A Editora Paralela é uma divisão da Editora Schwarcz S.A.

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.

TÍTULO ORIGINAL Searching for Perfect

CAPA Joana Figueiredo

FOTO DE CAPA © anna42f/ Shutterstock

PREPARAÇÃO Natalia Engler

REVISÃO Renata Lopes Del Nero e Luciane Varela Gomide

ISBN 978-85-438-0880-2

Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA SCHWARCZ S.A.


Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32
04532-002 — São Paulo — SP
Telefone: (11) 3707-3500
www.editoraparalela.com.br
atendimentoaoleitor@editoraparalela.com.br
Sumário

Capa
Folha de rosto
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
Epílogo
Agradecimentos
Sobre a autora
Créditos
À procura de alguém

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admiram a Kinnections, agência de relacionamentos que Kate fundou com
suas duas melhores amigas.
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felizes e muito menos em agências de relacionamentos. Para ele, a
Kinnections é uma grande farsa, criada para ludibriar pessoas frágeis e
ingênuas, como sua irmã.
Agora, é uma questão de honra: Kate não vai medir esforços para provar a
Slade que seus talentos são legítimos e suas intenções nobres, nem que para
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