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Ancestrais: Tempos de Resgate

Há alguns anos, dois eu creio, em 2002 acho, quando experimentei um misto de adversidade e
"inferno astral", com muitas situações impróprias em minha vida e também ao menos pela
minha percepção, também nos caminhos de meus amigos e amigas, por questões que
transcendem a este discurso, havia eu resolvido sair oficialmente de minha comunidade étnico-
cultural, a saber, os autointitulados Rhuniahr, a comunidade já estava desestruturada desde
1990/1991, e obtivemos, eu mesmo à distância, algumas conquistas significativas para toda a
história de nosso povo, mas ainda muito aquém de algum dia o projeto de uma comunidade
estruturada no Brasil voltar a ser debatida! Mas não foi por questões de política tribal que saí, e
sim por um motivo pessoal: quando minha forte identidade cultural étnico-religiosa de um
rhuniahr, um sármata egípode ou alano egípode, se preferirem os termos Ocidentais, estava se
chocando com um caminho que à minha alma (não nos referimos metaforicamente ao coração
como alma, sabemos que a inteligência e o sentimento vêm do cérebro), ao menos à minha,
parecia o caminho do destino e da alegria.

Sair da comunidade era o passo lógico para cortar elos, distanciar a identidade, desfazer as
máscaras que cada cultura cria para si, submergir no vazio e experimentar o desligamento, o
isolamento, a solidão sem bases em que me firmar e nas quais assentar minha mente em busca
de respostas. Todavia, embora muitos amigos tenham se demonstrados temerosos e
preocupados com minha decisão, mesmo os amigos Ocidentais, pensando talvez que eu não
resistiria a esse caminho sem volta, pois eu me auto-bani, um caminho para sempre, mais uma
vez o conhecimento tão intensamente passado por meus amigos e amigas do povo rhuniahr,
venceu mais uma vez: o guerreiro-xamã, ou xamã-guerreiro, que eu era, sobreviveu, e ainda
grita em mim em busca de resgates e bases para minha alma.

Talvez aquele momento não significasse uma fuga ou escapismo, talvez eu realmente tivesse a
necessidade de resgatar outros ancestrais. Curioso como me tornei xamanista-animista: eu
estudava em um colégio Jesuíta, e ali fiz laços enigmáticos, obscuros e ocultos que, porém
escondidos ante perseguições, revelaram para mim seus mistérios e me transportou a uma
grandiosa luz que eu jamais poderia conceber possível. Ainda hoje, quando me lembro do que
pensei e senti durante esse processo, há muitas coisas que ainda não compreendo, e a cada
dia, descubro mais maravilhas no poder que me foi dado de sonhar e caminhar pelos meandros
do destino. Certamente, algumas coisas são tão difíceis de descrever, que por vezes é melhor
calar! Mas eu não me tornei apenas xamanista-animista, mas xamanista-animista de uma rara
tradição religiosa Monista, ou seja, cremos em um deus amorfo, assexual, adimensional,
eterno, inefável, onipotente, onipresente e onisciente, não-nascido, que, porém pode se
manifestar tal como assim o desejar, para nós esse deus/deusa é absoluto e pode ser
também à parte que desejar, pode ser um animal, uma pessoa, ou vasto conjunto de deuses e
deusas ou um só deus, pode ser uma pedra, uma árvore, pode ser a chuva, a terra ou o fogo,
pode se manifestar de qualquer modo material ou imaterial, pode ser um sonho, um aviso, uma
memória, qualquer coisa, saber, sentimento, som ou imagem. Isso é Monismo... E além de
Monista, essa tradição também era branca e indígena, ou seja, por ser dos troncos de povos
Sármatas e Citas, representava um dos últimos fluxos de indígenas indo-irânicos do mundo, um
dos poucos povos tribais seminômades do mundo branco, e ali, eu, um Mineiro descendente de
portugueses nobres, catalães supostamente herdeiros da "heresia" Cátara, Cearenses e
Indígenas brasileiros, me tornava índio perante os conceitos da ONU, mas a partir de um povo
indígena centro-asiático e de tez branca, que curiosamente carregava como um de seus epítetos
o apelido povo transparente por não se associar internamente a conceitos de raça, e ver a
todos os povos como seus irmãos, um maravilhoso e estranho povo que não sabia o que era
um negro e não tinha nenhum preconceito em relação a um, mas apesar de ser muito mais
pálido que muitos brancos que conheço, odiava muitos povos de tez branca não se esquecendo
jamais das fogueiras da Inquisição, das Cruzadas, dos fascismos e nazismos e outras tantas
vezes em que esses brancos e os Ocidentais em geral os perseguiram, expropriaram, roubaram,
mataram... Eu ouvi ali uma voz resgatada, ou melhor, sobrevivente, a voz dos brancos que
discordavam dos brancos, e me tornei antropologicamente um índio, através de brancos, ironia
não?!

Ali naquele colégio eu tinha duas vidas nascendo, uma, em que eu não passava de um garoto
abaixo da média (como Darwin e Einstein, oba!), com poucos amigos, lembro de uns dois ou
três, passando os dias em brincadeiras adolescentes, e sonhando com criações estapafúrdias
(queríamos fazer um filme amador, eu lembro, meio que inspirados por outro filme amador que
os amigos de meu irmão tinham começado a fazer e se chamava: "As azeitonas também
amam", mas a diferença que o meu e de meus amigos nunca chegou a usar uma câmera, até a
tínhamos, ou melhor, um dos meus amigos tinha, um trambolho de câmera quase do tamanho
de um vídeo-cassete, mas era o que havia na época), e uma outra vida que em 1987 havia
apenas se iniciado, sem chances de emendar aos amigos adolescentes, essa outra vida era
secreta, enigmática, misteriosa, e muito mais rara e eventual que a primeira vida de todos os
recreios. A ausência em algumas aulas de educação física, aonde o professor tinha a
interessante e significativa alcunha de "Capeta", significava para eu estar nas reuniões de
iniciação, que se para alguns parecia ter de ser algo periódico, eu apenas me reservo dizer a
enigmática sentença: enquanto estive ali poucos minutos ou horas, foram como tivessem se
passados anos ou décadas, e nesses poucos minutos ou horas eu aprendi muito mais do que
desde então em toda a minha vida... Talvez algum dia isso se desvende, mas por ora prefiro o
romance da imagem do mistério, para não marcar os mistérios que para mim foram
maravilhosos. As pequenas escapulidas, os curtos passeios pelo gigante recreio, em meio a
tantos lugares interessantes naquele colégio, significavam partes dessa vida dupla, que eu creio
hoje teria se separado e fragmentado definitivamente deixando os amigos de recreio muito para
trás. Mesmo correndo o risco de uma certa injustiça, digo, sim, crio que os amigos de cultura
teriam vencido e predominado não fosse aquela comunidade estar prestes a se desestruturar.
Nunca tive o costume de falar muito de minha vida pessoal, em verdade só depois de 2002
passei a fazer isso, nunca julguei minha família capaz de retribuir minhas sensações e metáforas
existenciais com o mesmo retorno mágico que meus amigos e amigas, e particularmente meus
amigos e amigas de cultura. De fato, meu sangue não é propício ao empréstimo de apoio, e o
pouco apoio que eu recebia era indireto, mediante as estórias e histórias de meus ancestrais
heróicos, de meu sangue de um lado revolucionário em que meu herói de infância era meu
bisavô revolucionário da Revolta da Armada, e meu sangue nobre e multissecular materno, com
as histórias e costumes que minha avó relatava quando ainda era viva...

Tanto os amigos de recreio não sobreviveriam como laços, que de fato se distanciaram e
evaporaram no tempo... Lembro que naquele ano tomei bomba no colégio e tive de mudar de
escola indo para outra aonde experimentei o preconceito religioso de nosso belo Brasil: eu, um
xamanista-animista naquela época tendo de me ocultar sob a máscara do "paxismo
neocatólico", uma espécie de cristianismo ortodoxo rhuniahr para fugir a perseguições que
pareciam um fantasma voando sobre a comunidade do Brasil, um temor ocasionado por
incidentes tristes ocorridos longe daqui, me via ao lado de um colega judeu, forçados a assistir
à missa! Acho que alguém dá a isso o nome de democracia... Bom, seja como for, passada essa
fase tirânica de minha existência, notei que os amigos de recreio do colégio anterior sumiram,
lembro deles me dizendo preocupados "Gustavo, você vai fazer novos amigos" e blábláblá,
como se já se despedissem de seus fracos e parcos laços comigo, e lembro de não ter ficado
preocupado com isso, apenas ria dentro de mim daquela cena estranha, ria inocentemente, pois
eu sentia que os amigos e amigas que mais estariam presentes em minha vida desde então
seriam justamente os mais ocultos e misteriosos, os amigos de cultura e de crença, por cujos
caminhos eu me tornei um homem certo das palavras que digo, honrado e persistente.

Ainda guardo muitas memórias dessa vida paralela, e algumas já partilhei com amigos e amigas
que fui reunindo desde então, em outros recreios, que porém se perpetuaram... Um dia os
amigos e amigas de cultura e crença se foram para longe... e eu escolhi não ir, mas ficar só em
um caminho pelo ancialato, acima do mestre iniciado que eu já era, caminho que ainda hoje
talvez mesmo desligado da comunidade eu percorra sem o findar, não sei se algum dia eu me
sentirei um ancião, pois a cada dia me sinto mais criança curiosa desejosa de criar e de planejar
novos mundos a partir dos resgates ancestrais, das histórias que não mais ouço, mas estudo,
pesquiso. Ao menos um amigo de recreios posteriores restaram, recreios do colégio tirânico,
mas não foi o judeu, e sim um outro, que certamente é um laço mais forte do que os amigos de
recreio do passado... Curioso notar isso também, o meu rol de amigos e amigas,
particularmente de amigas, aumentou exponencialmente a partir de 2002, ainda que amigos e
amigas da faculdade e do comércio tenham resistido e ainda estejam aqui, e que ao menos
esse grande amigo (Maurício) do passado colegial tenha continuado a me acompanhar... Alguns
laços parecem ter crescido apenas quando eu não tinha mais bases m que me sustentar...
Talvez eu apenas tenha percebido que estavam ali...

Mas naquela mesma época eu percebi que não poderia deixar de ser índio, que meu sangue
indígena brasileiro, também berrava alto, e a minha sempre presente nobreza de alma queria
gritar por batalhas sagradas e realizar ações belas faladas com emoção, como diziam os
rhuniahr. Um dia, eu estava acordado em meu quarto, creio, e me veio uma visão: meus
ancestrais indígenas em meio a uma floresta tropical montanhosa, vinham a mim por uma trilha
cujo chão de terra mal se revelava entre os matos e plantas, e me diziam que meu novo nome
sagrado agora era Tupacyguara. Ainda não me sentia digno de portá-lo, sabia que precisava
resgatar o índio dentro de mim. Sei que as culturas indígenas do mundo não vêem aos
conceitos de povo do mesmo modo que os Ocidentais, e de fato a Antropologia e a História
também não vêem, e apesar de muitos amigos e amigas terem teimado que meu povo era o
brasileiro, repeti várias vezes que eu era sármata, por quê? Por que nacionalidade e
naturalidade não são povos, e pelo mesmo motivo que em Belo Horizonte existem cerca de 26
comunidades de tradições de povos estrangeiros, afora as nativas e as mineiras e de outras
regiões do Brasil, cada identidade cultural é que cria o seu povo, povo é um conceito
relacionado a um conjunto de pessoas que se entende como próprio e assentado sobre os
mesmos fundamentos culturais, sociais e às vezes religiosos. Falavam de meu português e meu
jeans, mas as calças compridas são invenções dos Citas e Sármatas, então também estavam
erradas entre os Ocidentais, e a língua, o português que eu aprendi eu falo com os que a falam,
mas aos estrangeiros tenho de falar nas suas línguas, falar japonês com um japonês não
significa que eu seja japonês, apenas que eu respeito sua tradição o suficiente pra me
comunicar com um na língua dele. Além disso, como Mineiro tenho meu próprio dialeto, com
palavras e expressões muitas vezes próprias, como ficou claro quando fui ao Paraná visitar a
namorada. Muita coisa lá eu não entendi e muitas coisas que eu dizia, eles não entenderam,
além disso, as culturas regionais eram visivelmente destoantes! Se eu fosse escolher um nome
brasileiro para dizer que é meu povo, certamente eu diria que sou Mineiro, pois meus laços com
o resto do país são de quase nada a zero... Exceto no Nordeste aonde tenho elos de origem e
cultura e história também Barrocas e Inconfidentes. Mas eu agora tinha outro desafio maior:
voltar a sentir-me índio! Sei que muitos grupos indígenas brasileiros - e é importante frisar que
os "índios" repudiam o termo "índio" por ser uma construção estupidamente genérica e
equivocada do europeu, pois cada grupo tem língua, cultura e crenças diferentes -, concebem
como seu membro aquele que aprende seu saber sagrado e passa nas provas de iniciação,
logo, me tornar um pajé seria um caminho para voltar a ser índio, ou seja, membro de um povo
indígena do Brasil. Mas por mais eu buscasse o significado de tupacyguara o achasse, como por
exemplo, esconderijo da mãe de deus em um dicionário renomado, ainda não me satisfazia!

Ainda não me satisfiz, sei que me tornar o índio dentro de mim é importante para mim, que
quero que meus ancestrais voltem a falar comigo! Eu ouço a bravia voz de nobres, hereges,
revolucionários e cientistas em mim, ouço meus inconfidentes e aqueles que foram mortos de
forma aterrorizante punidos por lutarem por nobres ideais de justiça e liberdade! Eu choro
quando caminho pelas palavras dessa luta, e carrego em mim o slogan de Minas Gerais como
um dos mais fortes e poderosos chavões de minha misteriosa existência sagrada, mas as vozes
dos guerreiros ancestrais nativos ainda tentam se conectar, e interagirem comigo. Até a
identidade Cibercultural e Ciberativista em mim ainda é muito mais forte... Bom, existe um
adágio que diz que branco que vira índio jamais volta a ser branco, e de fato, continuo
xamanista-animista, monista e guerreiro-xamã, hoje felizmente cada vez mais novamente certo
de minhas crenças, poderes e honra, e de fato é o índio branco que ainda sou, ainda que mais
Ocidentalizado que antes, que vem buscando resgatar o elo com o meu índio nativo... Índio,
aliás, é uma palavra mundialmente genérica desde os encontros do Movimento Indígena Contra
a Reconquista em 1992, que uniu povos tribais do mundo todo contra o Colonialismo e o
Neoliberalismo, colocando Guaranis, Lapões, Maneses, Sármatas, Bosquímanos, Gurkas e
Australóides em um mesmo saco de gatos, curiosamente muito irmanados, visto o xamanismo-
animismo ser essencialmente o mesmo em todo mundo, ainda que mudem rituais,
cosmogonias, teogonias e mitos, pois os princípios são sempre os mesmos.

Resgatar é a questão, refazer o elo ancestral para recriar os caminhos... Infelizmente por mais
algum Ocidental de carteirinha, e alguns amigos meus sei que são assim, critique isso, de fato
apenas um xamanista-animista ou outro adepto de crença similar poderá entender o significado
profundo disso! E a profunda importância que há em resgatar... Eu sei que a memória dentro
de mim me empurra para alguns caminhos, ainda não sei em quais batalhas terei de lutar,
ainda reflito dentro de mim sobre os meandros do meu destino e as marés da vida... Para onde
me levam? Em que u sou realmente bom? O que tem se mostrado mais claro? Quais os
significados de meus sonhos e visões? Quais os avisos que a vida me traz? Ainda reflito sobre
minha vida, os lugares que conheci, os que poderei conhecer, as pessoas que vão aparecendo
como elos sarados em minha existência, e ainda busco harmonizar isso tudo... Política Ativista?
Ciberativismo Cultural? Organizações e Ciência? Alguns caminhos nisso tudo eu já trilho, mas a
maravilha do resgate eu só saberei quando magicamente for realmente o momento certo para
eu me sentir profundamente digno de ser Tupacyguara! Eu ainda sou Ynahrh Warazta (Enár
Várasta), meu nome rhuniahr e ainda sou Gustavo Paula, descendente dos Monteiro de Barros,
Vaz de Melo, Lima & Paula, Miranda de Lima, do Barão Mathias Taveira, do Visconde de Caldes,
e também da bravia Dinastia de Borgonha... Eu ainda sou o cientista rebelde e bravio que
aprendeu com guerreiros sagrado centro-asiáticos a lutar com alma... Mas eu já me digo
multiétnico, como de fato todo ibérico já é, não há como mascarar isso é um fato, misto de
fenícios, gregos, celtas, iberos, alanos, suevos, visigodos, e às vezes também árabes, mouros,
berberes e hebreus, e tantos outros povos mais... E me sinto multiétnico, pois o indígena que
sempre carreguei, hoje chega a mim como voz e desejo, e sinto-o quando toco em minhas
lanças de cacique... E sei que sou um mestiço por mais pálida minha pele ainda seja, sei que
quando criança meus olhos eram levemente puxados, e que meu cabelo muito liso ainda é
geneticamente herança indígena. Um dia eu resgatarei o meu ancestral que falta, nesse dia, eu
serei o guerreiro-xamã completo, e terá enfim chegado a grande hora da batalha! O meu rosto
estará pintado para a guerra com as cores de minha alma e memória.

Fonte: Gustavo Paula, historiador, cibercientista e xamã-guerreiro.