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Feitiçaria moderna: uma religião em evolução

Francis King

Vinte anos atrás, só uns poucos excêntricos afirmavam praticar a feitiçaria tradicional; hoje,
devotos do culto da feitiçaria, em rápida expansão, podem ser encontrados em todo centro
urbano importante da Inglaterra e dos Estados Unidos. O número de feiticeiros ativos na Grã-
Bretanha é estimado por baixo entre cinco e dez mil; nos Estados Unidos, há possivelmente o
dobro disso.

Apesar das freqüentes afirmações ao contrário feitas por cultistas que se dizem capazes de
remontar sua ancestralidade feiticeira há 400 ou 500 anos, é muitíssimo improvável que as
origens da feitiçaria atual remontem a antes da publicação de O Culto da Feitiçaria na Europa
Ocidental, de Margaret Murray, em 1921. As teses básicas de Margaret Murray são:
l. Que os julgamentos de bruxas do Renascimento e do fim da Idade Média não eram simples
aberrações intelectuais, mas o resultado de um conflito entre o cristianismo e uma contra-religião
de feitiçaria organizada.
2. Que essa contra-religião de feitiçaria que a Margaret preferia chamar de culto diânico, pode
remontar aos cultos pré-clássicos da fértil Grande Mãe e do Rei Divino, o deus encarnado
ritualmente assassinado para assegurar o bem de seu povo e a fertilidade de suas sementes.
3. Que já no século 17 esse culto diânico mantinha sua própria hierarquia religiosa, festivais,
locais sagrados e estrutura peculiar – os feiticeiros supostamente organizando-se em células,
em geral de treze membros, conhecidas como covens.
4. Que alguns dos reis da Inglaterra haviam sido altos membros do culto, e que pelo menos um
deles – William Rufus – foi um rei divino, uma divindade materializada que desejava
prazerosamente a morte de acordo com sua fé diânica. Uma esmagadora maioria de estudiosos
julga a teoria Murray histórica e antropologicamente insustentável. Contudo, ela exerceu, e ainda
exerce, considerável influência sobre os ocultistas. Talvez seja significativo o fato de que Margaret
Murray extraiu grande parte de seu material do escritor rosacruciano Hargrave Jennings: muito
curiosamente, ela parece não ter reconhecido a influência dele, apesar de algumas passagens de
seu texto serem pouco mais que citações resumidas do estranho livro de Jennings, Os
Rosacrucianos, Seus Ritos e Mistérios.

Gerald Gardner
Embora o culto contemporâneo da feitiçaria provavelmente se tenha originado em 1921, tem-se
alegado que mesmo essa data tardia é uma antecipação de cerca de 30 anos, e que toda a
revivescência da feitiçaria brotou das fantasias ocultistas e sexuais de um velho inglês chamado
Gerald Gardner. Isso é provavelmente um exagero, pois há motivos para acreditar que no início
da década de 1940 Gardner mantinha contato com grupos de feiticeiros de estilo próprio em
New Forest e na cidade inglesa de St. Albans. Contudo, não há dúvida que foi Gardner, um
soberbo publicista, o grande responsável pelo rápido crescimento do culto. Gardner, um
funcionário aposentado da alfândega que mexia com espiritualismo, antropologia e folclore, tinha
gostos sexuais inortodoxos e inclinação para o ocultismo. Parece ter achado que seria agradável
combinar as duas coisas num novo culto de feitiçaria gardneriano, que empregaria um conjunto
de rituais envolvendo nudez, açoites e cópula. Gardner parece ter sido sadomasoquista (em
criança gostava de apanhar da governanta), exibicionista e voyeur. Deve ter sentido que a tarefa
literária de compor esses rituais estava além de seu poder, pois procurou Aleister Crowley, de
cuja Ordo Templo Orientis (O.T.O.) era um iniciado, e convidou-o a executar o trabalho. Crowley
aceitou: além de Gardner estar disposto a pagar-lhe um preço adequado, ele há anos se
convencera da necessidade de uma religião de fertilidade e diversão que apresentasse sua própria
nova fé de Télamo de forma popularizada. Já em 1915, escrevia a seu discípulo C.S. Jones
insistindo na criação de um culto de feitiçaria exatamente como o planejado por Gardner: "A
época está caindo de madura para uma religião natural. As pessoas gostam de rituais
e cerimônias, e estão cansadas de deuses hipotéticos. Insista nos benefícios reais do
Sol, a Força-Mãe, a Força-Pai, e assim por diante... Em suma, seja o fundador de um
novo e maior culto pagão na Terra que você tornou seu lar..." Durante algum tempo essa
nova feitiçaria gardneriana, baseada nas composições literárias de Crowley revisadas por
Gardner, permaneceu semi-adormecida, praticada apenas por Gardner e uns poucos de seus
auxiliares íntimos. Em 1954, porém, Gardner publicou Feitiçaria Hoje (171), livro em que
requentou as teses básicas de Margaret Murray, afirmando que ainda se realizavam covens de
bruxaria e que ele estava ligado a eles. Logo recebeu uma enxurrada de cartas e perguntas de
candidatos a feiticeiro, homens e mulheres, muitos dos quais acabaram sendo admitidos no
culto. Esses bruxos recém-formados, por sua vez, iniciaram outros, e decorridos alguns anos já
havia grupos (covens) de bruxos em toda grande cidade britânica.

O Livro das Sombras


Os rituais e instruções de bruxaria prática, elaborados por Crowley tornaram-se conhecidos
coletivamente como O Livro das Sombras, e essa obra ainda é o manual técnico básico usado por
quase todos os covens do culto. É uma curiosa mistura de elementos em grande parte derivados,
de um lado, da religião Télamo, de Crowley, e das sobrevivências registradas por C. C. Leland em
seus estudos do folclore italiano no século 19 (Aradia, ou o Fantasma das Bruxas) e do folclore
romeno (Sortilégio Cigano), do outro. Essa combinação de elementos aparentemente
incompatíveis em um todo homogêneo é bem ilustrado pela seção de O Livro das Sombras
conhecida como O Ofício.

Rituais de iniciação à feitiçaria


Há três graus ou níveis na feitiçaria contemporânea. Em ordem ascendente de importância, são:
(a) Sacerdote ou Feiticeira da Grande Deusa; (b) Rainha Feiticeira ou, no caso de um
homem, Mago; e (c) Suma Sacerdotisa ou Sumo Sacerdote.
No primeiro grau, o candidato é conduzido nu, de olhos vendados e mãos atadas às costas, ao
Círculo do Poder. Após vários murmúrios ocultistas do chefe do coven (às vezes indelicadamente
chamada de feitiçaria de araque), o postulante recebe o beijo quíntuplo (nos pés, joelhos,
órgãos genitais, peito e lábios), quarenta golpes de chibata, e presta um julgamento de segredo:
"Eu, X..., em presença dos Poderosos, juro solenemente, por minha livre e
espontânea vontade, que sempre guardarei segredo e jamais revelarei os segredos da
Arte, a não ser a uma pessoa adequada, adequadamente preparada, com um círculo
como este. E que nunca negarei os segredos da Arte a uma tal pessoa, se ele ou ela
for afiançado por um Irmão ou Irmã da Arte. Tudo isso juro pelas minhas esperanças
de uma vida futura, consciente de que se tornaram minhas medidas, e que minhas
armas mágicas se voltem contra mim se eu quebrar este meu juramento". Pode dizer-
se com segurança que nenhum juramento foi quebrado com tanta freqüência quanto este; pois
os segredos da Arte foram registrados em livros, mostrados na televisão e descritos na imprensa
popular. Após a ministração do juramento, entrega-se ao candidato vários utensílios, conhecidos
como ferramentas de trabalho da Arte, e explica-se a ele o seu uso. Finalmente, o candidato e
informado que agora é Sacerdote e Feiticeiro da Grande Deusa.
O segundo grau também incorpora açoite; pergunta-se ao aspirante se está disposto a "sofrer e
ser purificado a fim de aprender", e após a resposta devidamente afirmativa ele recebe quarenta
golpes de chibata. O chefe do coven então declara que "na Feitiçaria não deveis jamais dar o
mesmo que recebeis, mas o triplo", e o candidato é instituído a aplicar 120 golpes de açoite no
iniciador. Concluídos esses procedimentos, lê-se em voz alta ou, em alguns covens, encena-se
como uma peça de mistério, a Lenda da Deusa. Essa lenda é uma variante do mito clássico de
Perséfone. No final da leitura ou peça, o aspirante é conduzido em torno do Círculo e proclama-
se aos Poderosos dos Elementos que um novo Mago ou Rainha Feiticeira foi consagrado.
O terceiro grau centra-se no intercurso sexual ritual, no Círculo, entre o candidato e o iniciador. O
ritual tem pouco interesse, a não ser para os voyeurs, e em muitos covens só se realiza de forma
simbólica. Quando se termina esse último curso, a faca mágica (athame) é solenemente
mergulhada em um cálice de vinho e informa-se aos assistentes que "assim como a Mulher
está para o Homem, o Cálice está para o Athame".

Festivais do culto
São oito os principais festivais, ou sabás, celebrados por feiticeiros modernos: a Véspera de
Maio (30 de abril, a lenda medieval da Noite Medieval das Valpúrgias), o Dia das Bruxas (31 de
outubro, a noite anterior a Todos os Santos), Candelária (2 de fevereiro), Festa das
Colheitas (2 de agosto), os dois equinócios (21 de março e 21 de setembro) e os Solstícios
do Verão e do Inverno (21 de junho e 21 de dezembro). Os rituais variam consideravelmente
de um coven para outro.
As iniciações (se alguma houver) são então realizadas, seguidas da cerimônia do Bolo e Vinho,
o Grande Ritual se possível, um banquete e uma dança comunal.
O Grande Ritual aqui referido é o da relação sexual entre Sacerdote e Sacerdotisa.
A Cerimônia do Bolo e Vinho tem semelhança com a Santa Comunhão cristã. O vinho – em
geral usa-se xerez doce – e os bolos são abençoados pela Suma Sacerdotisa. Compõem-se de
sal, mel e vinho e (em alguns covens) sangue, e são normalmente em forma de crescente (em
homenagem à deusa Lua), mas parecem mais ou menos idênticos aos Bolos de Luz, que o
Livro da Lei de Crowley instrui deve ser comido em homenagem ao deus Hórus.

A feitiçaria depois de Gardner


Após a morte de Gardner em 1964, o culto da feitiçaria sofreu uma considerável fragmentação.
Mesmo enquanto ele vivia, houvera uma tendência de cada coven seguir seu próprio caminho,
alguns abandonando o Grande Rito e as práticas gardnerianas mais sadomasoquistas, outras
enfatizando ainda mais que o mestre os aspectos sexuais do Ofício, outras ainda decidindo que os
grupos rivais não estavam praticando a verdadeira feitiçaria. Desde 1965, essas tendências
fissíparas tornaram-se mais acentuadas, e hoje se pode dividir o culto em três grupos bem
definidos.
Provavelmente o maior desses grupos, e sem dúvida o que tem mais publicidade, é o chefiado
por um certo Alec Sanders (os membros sendo conhecidos como alexandrianos), e de origem
relativamente recente. Segundo sua própria versão, Sanders foi iniciado na feitiçaria quando
tinha apenas nove anos, numa cozinha de Manchester, por sua velha avó; segundo feiticeiros
rivais, ele nunca foi formalmente iniciado no culto, mas obteve seu título de Sumo-Sacerdote e
Feiticeiro Rei pelo simples expediente de se autodeclarar como tal. Pode-se definir a feitiçaria
alexandriana como a gardneriana combinada com elementos extraídos de outras variedades do
ocultismo moderno. Por exemplo, ensina o uso de certos extratos herbais como fluidos
condensadores – preparados destinados a permitir que os espíritos evocados se manifestem no
plano físico. Tanto os nomes como as receitas desses tipos de ectoplasmas instantâneos parecem
derivar das palavras de Franz Bardon, um mago de língua germânica que foi, até sua morte
recente, membro da Ordo Templi Orientis. Foi provavelmente essa tendência sintetizadora que
justificou o sucesso da feitiçaria alexandriana. Tinha alguma coisa para todos os gostos –
diversão e jogos gardnerianos para uns, magia cerimonial da Aurora Dourada (em forma
modificada) para outros, e até mesmo as austeridades intelectuais e a bárbara linguagem
Angélica da magia enoquiana de Dee para uns poucos escolhidos. Os covens alexandrianos
hoje existem não apenas nas Ilhas Britânicas, mas na França, Alemanha e Estados Unidos, onde
são particularmente fortes; e há o Alexandrian Newsletter, uma publicação quinzenal através da
qual os vários covens mantêm contatos com as respectivas atividades uns dos outros.
O segundo grupo, os gardnerianos, estão eles próprios fragmentados; o coven de Sheffield, por
exemplo, nutre pouca simpatia pela maioria dos covens em atuação na grande região londrina,
sustentando ser incompleta a versão de Sheffield do Livro das Sombras.
A facção maior e mais ortodoxa dos gardnerianos, a liderada por Monique Wilson, conhecida por
seus seguidores como a Dama Olwen, foi a maior beneficiária do testamento de Gardner, ao
herdar os direitos autorais de seus livros, a extraordinária coleção de espadas e adagas dele, e,
sobretudo o Museu da Feitiçaria (o Moinho das Bruxas), em Castletown, na Isle of Man. De sua
casa, a senhora Wilson e o marido, Scotty, mantêm extensa correspondência com feiticeiros de
todo o mundo. Os Wilson mereceram muita publicidade desfavorável de jornalistas
sensacionalistas. A maioria dessas críticas parece injustificada, e embora as crenças e práticas
religiosas dos Wilson sejam sem dúvida excêntricas pelos padrões normais, não há motivo algum
para achá-los sinistros ou desonestos. No todo, a feitiçaria gardneriana pura acha-se em
estado de declínio, e o núcleo de seus membros parece diminuir. Contudo, há um contínuo influxo
de novos iniciados, cuja participação normalmente é de curta duração; hoje, a feitiçaria
gardneriana assemelha-se a um campo de trânsito do exército – muitas pessoas passam por
ele, mas muito poucas se juntam à equipe permanente.
Por fim, os chamados covens vestidos, como já indica o nome, abandonaram a nudez. Muitos de
seus membros mostram uma atitude de acentuada hostilidade em relação à feitiçaria
gardneriana e alexandriana, e afirmam ser feiticeiros hereditários. É quase desnecessário
dizer que jamais se apresentou qualquer prova satisfatória dessa alegação, e na falta de indícios
em contrário, somos forçados a considerá-la ume heresia gardneriana. Alguns dos grupos vestidos
usam versões seriamente censuradas do Livro das Sombras, mas a maioria tem seus próprios
rituais, supostamente tradicionais, embora em geral trazendo a influência de fontes literárias
como a Deusa Branca, de Robert Graves, e da edição de Israel Regardie do ritual e material
instrutivo da Ordem Hermética da Aurora Dourada. Há uma grande diversidade dentro dos covens
vestidos, e é difícil fazer quaisquer generalizações sobre eles. Alguns abandonaram
completamente a magia, concentrando suas energias no culto das antigas divindades da
Grã-Bretanha pagã; outros desenvolveram os aspectos mágicos da feitiçaria e dão sinais de
que vão acabar se tornando irmandades ocultistas semelhantes à Ordre Kabbalistique De La
Rose-Croix ou à Estrela Matutina.
A feitiçaria moderna é uma religião em evolução. Em sua forma gardneriana, provavelmente, já
está de saída, mas parece ter uma verdadeira capacidade de adaptação, e numa ou noutra
forma, pode muito bem sobreviver.

(O texto é um excerto do livro “Enciclopédia do Sobrenatural – Magia, Ocultismo, Esoterismo, Parapsicologia”,


editado por Richard Cavendish, traduzido por Alda Porto e Marcos Santarrita, lançado no Brasil por L&PM Editores,
em 1993).

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