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China: um estudo de caso em armas

R.W.Apolloni

Nossa idéia, neste artigo, é tratar das armas antigas, aquelas nascidas antes
da pólvora e que, por milênios, decidiram a sorte das civilizações. Neste caso, o
exemplo chinês é soberbo: graças à arqueologia e, sobretudo, às artes marciais,
muitas das velhas armas de antanho permaneceram preservadas em
praticamente todo o seu conteúdo em plena era dos petardos direcionados a
feixes de laser.

À sua maneira, o Ocidente também guardou alguns elementos deste


passado, sabiamente convertidos em atividades desportivas como a esgrima, o
arco-e-flecha e os esportes de arremesso. O número de armas desenvolvidas que
se mantiveram vivas aquelas que, mesmo obsoletas, continuaram sendo
praticadas por seu aspecto simbólico, ritual ou desportivo porém, é infinitamente
menor do lado de cá do mundo. A melhor prova disso é que, para nós, a maior
parte das velhas armas lanças, virotes, machados de guerra, maças, piques e
até a maioria das espadas encontra seu lugar ideal adornando paredes ou à
vista dos visitantes dos museus.
Entre os praticantes de artes marciais chinesas, porém, é relativamente
comum a manipulação, em rotinas os chamados katys, coleções de movimentos
que preservam as técnicas marciais de geração para geração de armas tão
diferentes quanto espadas, bastões, facões, alabardas, correntes e até de
utensílios como bengalas, leques e bandeiras.

No início, paus e pedras - A origem das armas em todo o mundo é a


mesma. Há cerca de 3,75 milhões de anos, grupos de Australopithecus e Homo
Habilis acossados nas savanas e carentes de alimento fizeram uso de paus,
pedras e ossos para obter caça. Organizaram-se em grupos formando o que,
para muitos pesquisadores, representou o embrião dos futuros exércitos e
partiram em busca das reservas substanciais de proteína presentes, por exemplo,
em grandes animais como mamutes e dinotérios. Daí para a especialização a
primeira funda, por exemplo, data de 1,5 milhão de anos e para o ataque intra-
específico (ou seja, homem contra homem), foi um passo. A espécie começava a
marchar sobre o fio da espada.

Na China, as primeiras referências históricas ao uso de armas datam de


2.700 a.C. As primeiras armas chamadas Bingqi ( ferramentas de soldado )
eram extremamente simples, seguindo o mesmo padrão ancestral de pedras,
paus e ossos voando , ampliado para os primeiros ensaios em relação a lanças e
a machados. A situação mudou radicalmente durante o reinado do imperador
Huang Di, personagem semilendário mais conhecido como Imperador Amarelo
por ter sido o primeiro a dominar toda a região do Rio Amarelo.

De sua época datam os primórdios da metalurgia chinesa e as primeiras


armas construídas em cobre e ouro (naquela época não eram incomuns, também,
espadas e punhais em jade, relativamente quebradiços mas com um tremendo
potencial de corte). Algumas das primeiras batalhas registradas da história
chinesa entre os exércitos de Huang Di e Chi You marcaram também o início
da utilização de machados construídos especialmente para despedaçar couraças
e inimigos humanos.
A partir da Dinastia Shang entre 1751 e 111 a.C. a produção de ligas de
cobre garantiu o surgimento de novas gerações de armas, cada vez mais
especializadas, duras e afiadas. A tecnologia armamentista chegou ao seu
principal momento na chamada Era dos Estados Guerreiros , entre 403 e 222
a.C, quando a separação entre as figuras do rei e do chefe guerreiro e a
profissionalização dos exércitos exigiu não apenas ligas metálicas mais
resistentes, mas soldados mais preparados.

Ponto de Partida - E é este o nosso ponto de partida: naquele momento, há


2,2 mil anos, já estavam presentes todas as principais armas utilizadas pela
civilização chinesa. E quais seriam elas? Segundo o pesquisador sino-americano
Yang Jwing Ming, um dos principais divulgadores das artes marciais chinesas nos
Estados Unidos, a coluna vertebral da máquina de guerra do Império do Meio
era formada pelas seguintes armas: lança ( qiang ), alabarda ( ji ), bastão longo
em madeira ( gun ), barra de ferro ( tie ), tridente ( cha ), gancho ( gou ), sabre
( dao ), espada ( jian ), forcado ( tang ), machado ( fu ), martelo ( chui ), pilão
( chu ), chicote ( bian ), arcoe-flecha ( gong jiang ), foice ( lian ), ancinho ( ba ),
aros afiados ( huan ) e bastões com manoplas ( guai ). Junto com armaduras
( Jia ou Rong Yi ) e escudos ( gan ), permaneceram em uso contínuo
praticamente até a introdução, por invasores europeus, das primeiras armas de
fogo. Instrumentos como a lança, por exemplo, permaneceram em uso regular
pelos exércitos por cerca de 20 séculos! Não é à toa que, para entre os chineses
que praticam alguma arte marcial nacional, a lança é a chamada rainha das
armas .

Derivações - Com o passar do tempo, todas as armas básicas ganharam


novos contornos (lanças maiores ou menores, espadas com diferentes formatos,
forcados com diferente número de pontas e lâminas, etc.) e muitas armas novas
de menor impacto tecnológico, é verdade - foram inventadas. Algumas
estranhíssimas, como é o caso do homem de metal ( Tong Ren ), uma peça
maçiça de latão com um metro e vinte centímetros de altura, em forma de homem
(semelhante à estatueta do Oscar) e utilizada como porrete por monges budistas.
Também nesta galeria se incluem arcos que disparavam várias flechas ao mesmo
tempo e em direções diferentes, bastões terminados em punhos fechados ou em
garras de animais (usados para socar e furar à distância) e até cordas dotadas de
contrapesos especialmente criadas para enrolar e golpear os inimigos.

Além disso, artifícios como o uso de veneno nas lâminas, o emprego de


armas duplas (facões, bastões, punhais, espadas e lanças, por exemplo) e o
aparecimento de armas articuladas (nascidas do chicote mas aparentadas às
correntes) deu uma nova cor à arte da guerra. Sua manipulação exigia domínio
completo sobre os dois lados do corpo e, por conta disso, passou a receber uma
atenção especial dos praticantes de artes marciais.

Sobrevivência na academias - Demorou, mas finalmente as armas


ocidentais derrubaram o tradicional modo de guerrear chinês. Para alguns, essa
transformação só ocorreu de fato durante a Rebelião dos Boxers, em 1900,
quando os últimos remanescentes do velho estilo chinês resolveram encarar as
potências ocidentais de peito aberto. A conseqüência, como conta a história, foi
um ponto final de chumbo, que, apenas graças ao longo tempo de convivência
entre homens e armas, não fez com que todo aquele passado terminasse no
museu. Hoje, muitas das armas e das técnicas desenhadas há séculos nos
quartéis e mosteiros chineses continuam valendo nas academias de kung-fu e tai-
chi-chuan, onde é possível aprender a manipular as mesmas lanças, facões,
bastões, alabardas, punhais e espadas. Sem a mesma finalidade marcial, é lógico
afinal, quem é que vai sair por aí empunhando uma lança ou com uma espada
na cintura? mas com o mesmo velho e, graças a Deus, rebelde - espírito.

Um filósofo marcha contra a corrente

Justiça seja feita: por mais que os antigos chineses tenham se interessado
pela arte de guerrear o que, de fato, não é uma característica exclusiva de sua
cultura (basta lembrar dos assírios, dos gregos e dos romanos) é preciso
lembrar que seu pensamento também se pautou pela busca da paz. De uma
maneira um tanto simplista, pode-se dizer que a mesma civilização que criou Sun
Tzu (mestre estrategista do Período dos Reinos Combatentes, autor do clássico
Os 13 Momentos e possível inspirador de Napoleão Bonaparte) tem em Lao Tzu
um pacifista por excelência um de seus principais filósofos.
Figura envolta em mistério, Lao Tzu é considerado o pai do Taoísmo, uma
das principais correntes do pensamento chinês. No clássico Tao Te Ching, escrito
por volta do século VI a.C., ele assim decreta sua visão sobre a guerra:

As armas são, acima de tudo, os instrumentos do mal odiados pelos


homens. Portanto, o homem religioso as evita. Na vida civil, os cavalheiros
favorecem a esquerda. Mas, nas ocasiões militares, favorecem a direita (*). As
armas são os instrumentos do mal, não o dos cavalheiros. Quando o esforço das
armas não pode receber auxílio, a melhor polícia mantém-se na reserva. Mesmo
na vitória nem sempre há beleza. E aqueles que a isso chamam beleza
São os que se deliciam com a carnificina. E, quem se delicia com a carnificina,
não será bem sucedido em suas ambições. (de A Sabedoria da China e da
Índia , Lin Yutang, trad. por Haydée Nicolusi)

(*) na ritualística chinesa, a esquerda era o lado da criação e a direita, o da destruição.

(**) Imagem1: Espada chinesa do tipo duplo gancho orelha de tigre . Imagem 2:
Sabre, Dinastia Ming.

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