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MÓDULO II – GESTÃO DE RISCOS – 2013 1

LIVRO-TEXTO
1a EDIÇÃO

CAPACITAÇÃO
EM
GESTÃO
DE RISCOS
Organização e execução:
UFRGS E CEPED/RS
Realização:
Ministério da Integração Nacional e
Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil

CENTRO UNIVERSITÁRIO DE ESTUDOS


E PESQUISAS SOBRE DESASTRES
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Centro Universitário de Estudos e Pesquisas


sobre Desastres – CEPED/RS

CAPACITAÇÃO
EM
GESTÃO
DE RISCOS
LIVRO-TEXTO

1ª Edição

Porto Alegre
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

2015
© 2015. Centro Universitário de Estudos e Pesquisas sobre Desastres da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul. Todos os direitos reservados. A responsabilidade pelo conteúdo e imagens desta obra é do(s)
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prejuízo das sanções cíveis cabíveis à espécie.

PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Excelentíssima Senhora Dilma Vana Rousseff

MINISTRO DA INTEGRAÇÃO NACIONAL


Excelentíssimo Senhor Gilberto Occhi

SECRETÁRIO NACIONAL DE PROTEÇÃO E DEFESA CIVIL


Excelentíssimo Senhor Adriano Pereira Júnior

DIRETOR DO DEPARTAMENTO DE MINIMIZAÇÃO DE DESASTRES


Ilustríssimo Senhor Armin Augusto Braun

COORDENADORA-GERAL DE PREVENÇÃO E PREPARAÇÃO


Ilustríssima Senhora Cristianne da Silva Antunes

REITOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL


Prof. Dr. Carlos Alexandre Netto

DIRETOR DO CENTRO UNIVERSITÁRIO DE ESTUDOS E PESQUISAS


SOBRE DESASTRES
Prof. PhD. Luiz Carlos Pinto da Silva Filho

DIRETOR PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO DE APOIO DA UNIVERSIDADE


FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
Prof. Sergio Nicolaiewsky

Ficha Catalográfica

C236 Capacitação em gestão de riscos [recurso eletrônico] : livro-texto / Centro


Universitário de Estudos e Pesquisas sobre Desastres. – 1. ed. – Porto
Alegre : UFRGS, CEPED/RS, 2015.
214 p. : il. color.
Modo de acesso: <http://www.ufrgs.br/grid>
ISBN 978-85-66094-13-8
1. Gestão de riscos. I. Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Centro Universitário de Estudos e Pesquisas sobre Desastres.
CDU 658
MINISTÉRIO DA INTEGRAÇÃO NACIONAL
SECRETARIA NACIONAL DE PROTEÇÃO E DEFESA CIVIL
DEPARTAMENTO DE MINIMIZAÇÃO DE DESASTRES

CENTRO UNIVERSITÁRIO DE ESTUDOS E PESQUISAS SOBRE DESASTRES


Coordenação Geral
Luiz Carlos Pinto da Silva Filho – CEPED/RS
Gestão e Organização do Conteúdo
Cristiane Pauletti – CEPED/RS
Produção do Conteúdo
Alexandra Cruz Passuello – CEPED/RS
Andréa Jaeger Foresti – CEPED/RS
Camilla Zanon Bussular – CEPED/RS
Christa Korzenowski – CEPED/RS
Cláudio Silva da Rocha – Oficina Regional de Proteção e Defesa Civil do
Vale do Paranhana, Região das Hortênsias e Alto Sinos
Cristiane Pauletti – CEPED/RS
Eloisa Maria Adami Giazzon – CEPED/RS
Eli Antônio da Costa – LAGEOtec
Eveline Favero – CEPED/RS e UNIOESTE
Jocelei Teresa Bresolin – CEPED/RS
Juliana Fin – CEPED/RS
Laurindo Antonio Guasselli – CEPED/RS
Ludmila Pochmann de Souza – CEPED/RS
Luiz Antonio Bressani – CEPED/RS
Luiz Carlos Pinto da Silva Filho – CEPED/RS
Maria Rita Fonseca - CEMADEN
Mariana Madruga de Brito – CEPED/RS
Mariane Assis – CEMADEN
Mauricio Schneider Schavinski – CEPED/RS
Patrick Walesko Fontes – CEPED/RS
Rita de Cássia Marques Alves – CEPED/RS
Renata Batista Lucena – CEPED/RS
Silvia Midori Saito - CEMADEN
Tânia Maria Sausen – GS Engenharia Ltda
Victor Marchezini - CEMADEN
Revisão Técnica
Cristiane Pauletti – CEPED/RS
Luiz Antonio Bressani – CEPED/RS
Mariana Madruga de Brito – CEPED/RS

Projeto Gráfico e Diagramação


Camilla Zanon Bussular – CEPED/RS
HiDesign Estudio Ltda

SECRETARIA NACIONAL DE PROTEÇÃO E DEFESA CIVIL


Coordenação
Leno Rodrigues de Queiroz

Revisão Técnica
Anderson Chagas da Silva
Giselle Paes Gouveia
Leno Rodrigues de Queiroz
Monica Curcio de Souza Tostes
Maria Cristina Dantas
Apresentação

As mudanças climáticas já são uma realidade para a população e suas evidências fa-
zem parte do cotidiano mundial, com ameaças à infraestrutura de cidades, diminuição
da produtividade nas lavouras, alterações nos oceanos e risco em relação à disponibi-
lidade de peixes.
Nesse cenário, nós brasileiros, ao longo dos últimos anos, também temos presenciado
uma maior intensidade e frequência de Desastres e, consequentemente, maiores da-
nos e perdas de ordem econômica, social e ambiental.
Precisamos gerir os riscos e os desastres e, para fazer frente a esse desafio, é imperiosa
a participação do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil de maneira articulada,
coordenada e organizada focando na prevenção e na mitigação dos riscos e, ainda,
garantindo a adequada resposta e recuperação pós-desastre, para uma efetiva prote-
ção e segurança da população.
Nessa caminhada é fundamental a participação ativa de todos, unindo esforços na
busca de fomentar a cultura de prevenção em nosso país. E para lograrmos êxito é
imprescindível conhecer, se capacitar. O Curso de Gestão de Riscos de Desastres é um
importante passo nessa direção.
Portanto, desejo a todos um excelente curso, e que os insumos disponibilizados se-
jam uma valorosa ferramenta para os gestores, para os agentes e para a sociedade
atuarem de forma mais produtiva e inovadora no constante fortalecimento do Siste-
ma Nacional de Proteção e Defesa Civil de nosso país.

Adriano Pereira Júnior


Secretário Nacional de Proteção e Defesa Civil
Sumário
INTRODUÇÃO.................................................................... 11
GESTÃO DE RISCOS DE DESASTRES................................. 13
ENTENDENDO OS CONCEITOS......................................... 18
Evento e evento adverso.............................................. 20
Desastres........................................................................ 21
Inventário de eventos, eventos adversos
e desastres..................................................................... 25
Suscetibilidade.............................................................. 26
Ameaça.......................................................................... 27
Perigo............................................................................ 27
Vulnerabilidade............................................................. 28
Exposição....................................................................... 29
Danos e Prejuízos.......................................................... 31
Risco............................................................................... 32
Percepção de risco........................................................ 34
Resiliência...................................................................... 34
O DESAFIO DE CONVIVER COM O RISCO........................ 39
A situação do risco e a sociedade................................ 40
Em que situação nos encontramos?............................ 42
Os desastres no Brasil................................................... 46
Enxurrada e Inundação................................................ 54
Seca e estiagem........................................................... 57
Movimentos de massa................................................. 59
Vendaval..................................................................... 61
Granizo....................................................................... 63
Geada......................................................................... 64
Erosão......................................................................... 65
Incêndio Florestal......................................................... 66
ENXERGANDO OS COMPONENTES DO RISCO................ 71
O risco e suas classificações.......................................... 72
Risco instalado............................................................. 72
Identificando a suscetibilidade.................................... 76
Identificando a ameaça e o perigo.............................. 79
Identificando as vulnerabilidades................................ 81
Vulnerabilidade física................................................... 81
Vulnerabilidade de função........................................... 82
Vulnerabilidade social.................................................. 82
O uso de indicadores.................................................... 82
Como devem ser os indicadores?................................. 84
Como determinar a qualidade de um indicador?......... 84
Sinergias positivas dos indicadores............................... 85
MAPEANDO E AVALIANDO O RISCO............................... 87
Mapeando e avaliando a suscetibilidade.................... 88
Mapeando e avaliando a ameaça e o perigo.............. 92
Mapeando e avaliando a vulnerabilidade.................. 94
Vulnerabilidade física................................................... 95
Vulnerabilidade de função........................................... 97
Vulnerabilidade Social.................................................. 98
Mapeamento e avaliação do risco propriamente dito... 105
Hierarquização dos riscos............................................. 110
Recursos utilizados no mapeamento de risco............. 111
Níveis de detalhamento e escalas recomendadas
para cada tipo de mapeamento.................................. 112
Métodos de mapeamento para cada evento adverso....117
Uso do geoprocessamento na gestão de riscos.......... 123
PREPARANDO-SE PARA LIDAR COM O RISCO................. 131
Percepção de risco........................................................ 132
Processo de percepção de risco.................................... 132
A visão dos experts x população em geral.................... 135
Situação de Risco......................................................... 136
Algumas justificativas para as pessoas permanecerem
vivendo em áreas de risco/situação de risco................. 136
A importância da percepção de risco para a gestão
de risco....................................................................... 136
Qualificação da percepção de risco.............................. 137
Resiliência...................................................................... 138
Resiliência no contexto da gestão de riscos de desastre.....138
Planejamento, flexibilidade e adaptação...................... 139
Construindo a resiliência.............................................. 140
INTERVINDO PARA PREVENIR E MITIGAR, REDUZINDO
O RISCO DE DESASTRES................................................... 143
Medidas estruturais e não estruturais......................... 144
Medidas Estruturais..................................................... 144
Medidas não estruturais.............................................. 156
Importância da implementação de políticas públicas... 160
Participação social no processo de tomada de decisão
implementação e avaliação de ações públicas............ 161
Alguns princípios da participação................................. 162
Importância da participação......................................... 162
Qualidade de participação........................................... 162
Sensibilização e Mobilização – Elementos importantes
para participação social............................................... 163
Controle Social............................................................ 164
Ganhos da participação social...................................... 164
Como promover a participação social ......................... 164
A Política Nacional de Proteção e Defesa Civil........... 165
PAC-Prevenção............................................................ 165
Plano Municipal de Redução de Riscos......................... 166
Planos Diretores Participativos...................................... 168
Conselho Nacional de Proteção e Defesa Civil.............. 168
Plano de Contingência de Proteção e Defesa Civil........ 169
Experiências de processos participativos..................... 169
MONITORANDO OS RISCOS............................................. 178
Monitoramento, Alerta e Alarme ............................... 179
Monitoramento Global................................................ 179
Monitoramento Nacional............................................. 181
Sistemas de Alerta....................................................... 187
Sistema Nacional de Monitoramento e Alerta.............. 190
Aparelhamento e Apoio Logístico............................... 196
Estrutura, Aparelhamento e Gestão do Órgão
Municipal de Proteção e Defesa Civil........................... 197
Estrutura Social e Comunitária..................................... 199
Estrutura Organizacional.............................................. 199
Estrutura Orçamentária e Financeira............................ 200
Estrutura de Pessoal..................................................... 200
Perfil Profissional para Atuação na Proteção e
Defesa Civil................................................................. 201
INFORMANDO E COMUNICANDO OS RISCOS................. 204
A importância da comunicação de riscos.................... 205
Os modelos de comunicação de riscos......................... 206
Modelo Direto............................................................. 207
Modelo Midiático........................................................ 207
Modelo Intrainstitucional............................................. 208
Modelo Interinstitucional............................................. 208
Ferramentas.................................................................. 209
Campanhas de prevenção de desastres........................ 209
Divulgação do conhecimento técnico, científico
e tradicional................................................................ 210
Produção de conteúdo jornalístico............................... 211
Organização de dados e informações de
forma estruturada....................................................... 212
11

Introdução

Caro estudante,

Seja bem-vindo à Capacitação em Gestão de Riscos. O presente curso abordará a ges-


tão de risco de desastres, incluindo as etapas de prevenção, mitigação e preparação.
A Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil tem promovido o desenvolvimento
de cursos de capacitação para os seus agentes de Proteção e Defesa Civil, a fim de pre-
pará-los para enfrentar os eventos adversos, tendo em vista que a capacitação é um
dos eixos primordiais de ação estratégica para reduzir riscos de desastre e incentivar o
adequado gerenciamento do desastre e da reconstrução das áreas afetadas.
Este curso foi elaborado para que você se capacite com relação às ações preventivas a
desastres, destinadas a reduzir a ocorrência e a intensidade de desastres; às ações de
mitigação, que compreendem as medidas estruturais e não estruturais para limitar os
danos e prejuízos, visto que não é possível prevenir todos os impactos adversos das
ameaças; bem como às ações de preparação, que contemplam as medidas tomadas
antecipadamente, para assegurar uma resposta eficaz aos desastres.
No capítulo 1 são introduzidos os conceitos referentes à gestão de risco e o ge-
renciamento de desastres. É apresentada a mudança de paradigma da Proteção e
Defesa Civil, que atualmente prioriza a prevenção, o conhecimento do risco e a
capacitação dos agentes de Proteção e Defesa Civil e da sociedade civil, em relação
às ações de resposta.
O capítulo 2 apresenta os conceitos básicos de gestão de risco de desastres necessários
à compreensão do restante do texto. São introduzidos conceitos como suscetibilidade,
perigo, ameaça, risco, resiliência, entre outros. Ele também inclui a articulação dos
componentes da gestão de risco, na forma de um esquema conceitual.
O capítulo 3 abrange o contexto social do risco, refletindo sobre a sua produção. Ele
também mostra a situação atual do risco na sociedade brasileira. São sintetizados os
principais eventos extremos que ocorrem em cada região do Brasil, bem como sua
distribuição espacial e temporal.
O capítulo 4 aborda os componentes do risco e suas classificações, evoluindo para a
identificação da suscetibilidade, da ameaça, do perigo e das vulnerabilidades, assim
como o uso de seus indicadores na Proteção e Defesa Civil.
No capítulo 5 são apresentadas as principais metodologias e técnicas utilizadas para
realizar o mapeamento e avaliação da suscetibilidade, ameaça, perigo, vulnerabilida-
de e risco. Apresentam-se também, os níveis de detalhamento e escalas recomendadas
para cada tipo de mapeamento, além de uma descrição dos recursos e métodos mais
utilizados no mapeamento de risco como, por exemplo, os Sistemas de Informação
Geográfica (SIG).
O capítulo 6 mostra um panorama sobre percepção de risco, resiliência no contexto da
gestão de risco e planejamento para a preparação da sociedade para lidar com o risco.
O capítulo 7 aborda as medidas de intervenção estrutural para prevenir, mitigar e re-
duzir os riscos, a importância da implantação de políticas públicas, o Plano Municipal
de Redução de Riscos (PMRR) e a participação social no processo de tomada de decisão.
No capítulo 8 são abordados os sistemas de monitoramento, alerta e alarme, bem
como a estrutura necessária para seu funcionamento, aparelhamento e apoio logístico.
O capítulo 9 explica as ferramentas de informação e comunicação dos riscos e seus
objetivos.
Como é possível observar, está a sua disposição, um conteúdo extenso que contempla
documentos para pesquisas complementares. Desejamos que o material seja útil e que
possa auxiliá-lo na preparação das ações de Proteção e Defesa Civil e, principalmente,
na prevenção e mitigação de riscos de desastres.

Centro Universitário de Estudos e Pesquisas sobre Desastres da


Universidade do Rio Grande do Sul – CEPED/RS-UFRGS
1
GESTÃO DE RISCOS
DE DESASTRES
14 Gestão de riscos de desastres

De acordo com o Glossário da Estra- tem coordenar os esforços do governo,


tégia Internacional para Redução de De- de entidades voluntárias e privadas para
sastres (EIRD/ONU, 2009), a gestão de responder as necessidades associadas às
riscos de desastres caracteriza-se pelo emergências (EIRD/ONU, 2009). 
conjunto de decisões administrativas, de
No Brasil, o processo sistemático
organização e de conhecimentos opera-
da gestão de riscos e gerenciamento de
cionais desenvolvidos por sociedades e
desastres está implícito no Artigo 3° da
comunidades para estabelecer políticas,
Política Nacional de Proteção e Defesa
estratégias e fortalecer suas capacidades
Civil (Lei n° 12.608, de 10 de Abril de
e resiliência a fim de reduzir os impactos
2012), que prevê as seguintes ações dis-
de ameaças e, consequentemente, a ocor-
tintas e inter-relacionadas, as quais são:
rência de possíveis desastres. Em outras
palavras, a gestão de riscos consiste na • Prevenção;
adoção de medidas para reduzir os pre- • Mitigação;
juízos e danos ocasionados por desastres, • Preparação;
antes que estes ocorram. • Resposta e;
• Recuperação.
O gerenciamento de desastres, por
outro lado, contempla a organização e Essas ações ocorrem de forma multis-
gestão de recursos e responsabilidades setorial nos três níveis de governo (fede-
para o manejo de emergências quando ral, estadual e municipal) e exigem uma
o desastre se concretiza. Essa etapa, tam- participação ativa e articulada da socie-
bém denominada como gestão de emer- dade. O Quadro 1 e a Figura 1 sintetizam
gências ou gestão de desastres, inclui essas ações, conforme a Política Nacional
planos, estruturas e acordos que permi- de Proteção e Defesa Civil (PNPDC).
Quadro 1: Principais ações do ciclo de gestão de riscos e gerenciamento de desastres.

Gestão de Risco Gestão de Desastres


Prevenção Mitigação Preparação Resposta Recuperação
Ações de Medidas toma-
Medidas tomadas
Ações destinadas a socorro, das logo após
Medidas es- antecipadamente
reduzir a ocorrência assistência à o desastre para
truturais e não para assegurar
e a intensidade de população reestabelecer
estruturais para uma resposta
desastres, por meio afetada e a normalidade
limitar os danos eficaz aos desas-
da identificação, reabilitação da comunidade
e prejuízos visto tres, como planos
mapeamento e moni- do cenário de afetada, como
que não é pos- de contingência,
toramento de riscos, desastre com a recuperação
sível prevenir simulações,
ameaças e vulnera- o objetivo de serviços
todos os im- monitoramento,
bilidades, bem como salvar vidas essenciais, a
pactos adversos emissão de alertas
a capacitação da e reduzir realocação de
das ameaças e a evacuação da
sociedade os danos e pessoas e ações
população
prejuízos de reconstrução

Fonte: Brasil (2010); EIRD/ONU (2009)


Capacitação em Gestão de Riscos 15

etapas de resposta e recuperação de lo-


mitigação
mitigação
cais atingidos por desastres. No entanto,

pprr
o
para reduzir os danos e prejuízos é im-

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ção
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prescindível investir na gestão de risco.
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Dessa forma, fez-se indispensável uma


pr

Ciclo continuo
da gestão mudança de paradigma no que diz res-
de riscos e peito às ações de Defesa Civil no Brasil,
gerenciamento
de desastre sendo que atualmente seu foco é na ges-
tão integral do risco de desastres (Figura
re
cup 2). A partir de 2012, com o lançamento
er a
aç st do Plano Nacional de Gestão de Riscos
ão s po
re
e Resposta a Desastres, o volume de re-
cursos destinados à prevenção e à res-
posta a desastres tornou-se expressivo.
Entre as linhas de ações adotadas, des-
reduzir os impactos negativos
taca-se o investimento em capacitação,
dos desastres e sua ocorrência para que a sociedade, incluindo comu-
Figura 1. Ciclo de gestão de riscos e gerencia- nidades em geral e os próprios agentes
mento de desastres em Proteção e Defesa Civil. de Defesa Civil, qualifique sua percep-
ção de risco e esteja preparada para lidar
Durante muitas décadas a priorida-
com situações adversas.
de de investimento dos governos foi nas
Foco nos desastres
Resposta Preparação e Prevenção Atenção
1950 - 1970

1970 - 1980

1980

1990

Resposta Mundial1
Ciclo dos
Desastres

Foco no risco

Gestão de risco e Marco de Proteção Gestão


2010 -
1990

2000 - 2015

2005 - 2013

Ação de financeira Integral


vulnerabilidade2 do risco de
Hyogo
Planificação desastres
pública
Lei 12.608 de
2012

1 Década Internacional para a redução de desastres naturais – DIRDN.


2 LA RED de estudios sociales en prevención de desastres en América Latina.
Figura 2. Mudança de paradigma da Defesa Civil.
16 Gestão de riscos de desastres

Para definir as ações para reduzir o lificar a resiliência da população frente


risco de uma maneira eficaz é necessário, aos desastres.
primeiramente, compreender os eventos
adversos e os métodos apropriados para É preciso ter em mente que desastres
sua previsão. poderão sempre acontecer, indepen-
dente de esforços humanos e, sendo
Portanto, antes da ocorrência dos de- assim, é importante enfatizar que a so-
ciedade necessita estar preparada para
sastres, ou seja, nas etapas de prevenção lidar com tais situações.
e mitigação, devem ser elaborados mapas
com os registros de ocorrência de desas-
tres, mapas de suscetibilidade, de ameaça Durante a ocorrência de desastres
e/ou perigo, de vulnerabilidade e de risco. são realizadas ações de resposta, onde se
Após esse mapeamento, o risco é hierar- inclui o socorro, com o objetivo de auxi-
quizado, o que permite o estabelecimento liar população atingida. Como exemplo
e priorização de medidas preventivas e citam-se ações de busca e salvamento, pri-
mitigadoras bem como a elaboração de meiros-socorros e atendimento pré-hos-
planos de contingência, previstos na Po- pitalar (Figura 3). São realizadas também
lítica Nacional de Proteção e Defesa Civil. ações de assistência às vítimas, que visam
garantir condições de cidadania aos atin-
Para prevenir a ocorrência de desastres gidos como, por exemplo, o suprimento
é necessário realizar o mapeamento de de alimentos, material de abrigo, vestuá-
risco, pois antes de escolher e implantar rio, limpeza, higiene pessoal, entre outros.
medidas estruturais e não estruturais, é
necessário conhecer os riscos aos quais a Já as ações de reabilitação são destinadas
comunidade está exposta. a dar condições de segurança e habitabili-
dade da área atingida pelo desastre, como
São realizadas também atividades o suprimento e distribuição de água po-
de preparação, como a capacitação da tável e energia elétrica, serviços de limpe-
comunidade, a implantação de siste- za urbana, drenagem das águas pluviais,
mas de alerta e realização de simula- transporte coletivo e a desobstrução e re-
dos. Essas ações têm por objetivo qua- moção de escombros.

Figura 3. Exemplos de algumas ações de resposta: busca e salvamento e atendimento de


urgência.
Capacitação em Gestão de Riscos 17

Depois da ocorrência de desastres, Formação Continuada em Defesa Civil,


parte-se para a etapa de recuperação que será abordado o gerenciamento de desas-
tem por objetivo restabelecer a normali- tres e suas etapas correspondentes.
dade da região afetada pelo desastre. Essa
etapa visa recuperar as unidades habita-
cionais e infraestruturas danificadas ou REFERÊNCIAS
afetadas pelo desastre, reduzir a vulnera-
bilidade da região e melhorar a seguran- BRASIL. Decreto nº 7.257, de 4 de agosto
ça e a qualidade de vida, sempre visando de 2010. Regulamenta a Medida Provisória
à prevenção. no 494 de 2 de julho de 2010, para dispor sobre
o Sistema Nacional de Defesa Civil - SINDEC,
Devido a sua importância, a gestão de
sobre o reconhecimento de situação de emer-
riscos e o gerenciamento de desastres, em
gência e estado de calamidade pública, sobre
todas suas fases, não devem ser tratados
as transferências de recursos para ações de so-
de maneira segmentada entre os diferen-
corro, assistência às vítimas, restabelecimento
tes setores da sociedade. Ações integradas
de serviços essenciais e reconstrução nas áreas
entre comunidades, poder público e insti-
atingidas por desastre. Brasília, 2010.
tuições de ensino e pesquisa são essenciais
para reduzir efetivamente o risco. As uni- BRASIL. Lei Nº 12.608, de 10 de abril de 2012.
versidades e instituições como o Centro Institui a Política Nacional de Proteção e De-
Nacional de Monitoramento e Alertas de fesa Civil - PNPDEC; dispõe sobre o Sistema
Desastres Naturais (CEMADEM), Cen- Nacional de Proteção e Defesa Civil - SINP-
tro Nacional de Gerenciamento de Risos DEC e o Conselho Nacional de Proteção e
e Desastres (CENAD) e Instituto Nacio- Defesa Civil - CONPDEC; e dá outras provi-
nal de Pesquisas Espaciais (INPE) devem dências. Brasília, 2012.
contribuir para compreender os desastres
EIRD/ONU, Estratégia Internacional para
através de monitoramentos e modelagens
Redução de desastres da Organização das
que facilitem o processo de gestão e essas
Nações Unidas. Terminologia sobre reducci-
informações devem ser repassadas à so-
ón del riesgo de desastres. Suiça: ONU: 2009.
ciedade, para que esta possa agir de for-
Disponível em: <http://www.unisdr.org/fi-
ma consciente e organizada, auxiliando
les/7817_UNISDRTerminologySpanish.pdf>.
os órgãos de Defesa Civil na redução dos
Acesso em 21 jul. 2014.
danos e prejuízos causados por desastres
(KOBIYAMA et al., 2004). KOBIYAMA, M. et al. Papel da comunidade
e da universidade no gerenciamento de de-
O presente curso abordará a gestão de
sastres naturais. In: Simpósio Brasileiro de
riscos de desastres, incluindo as etapas de
Desastres Naturais, 1., 2004. Florianópolis.
prevenção, mitigação e preparação. Pos-
Anais... Florianópolis: GEDN/UFSC, 2004. p.
teriormente, no Módulo III do Plano de
834 - 846.
2
ENTENDENDO
OS CONCEITOS
Capacitação em Gestão de Riscos 19

Este tópico tem por objetivo possibilitar ao aluno:


• Compreender os conceitos básicos utilizados na gestão de riscos de desastres;
• Compreender como os conceitos se articulam.

A multidisciplinaridade envolvida profissionais envolvidos na avaliação de


na gestão de riscos leva à disseminação riscos. Surge então a necessidade de se
de uma diversidade de termos, não ha- harmonizar o entendimento dos con-
vendo uma terminologia completamen- ceitos associados à gestão de riscos de
te consolidada. Essa falta de homoge- desastres.
neidade e a consequente sobreposição
A Figura 1 apresenta um fluxograma
de termos podem trazer dificuldades,
conceitual dos principais assuntos abor-
principalmente no que se refere às tro-
dados nesse curso.
cas de informações entre os diversos

Tipos e classificação Entender a natureza dos eventos que podem


dos eventos levar a ocorrênciados desastres

Levantamento e compilação dos registros dos


Inventário eventos e desastres ocorridos
GESTÃO DE RISCO

Análise da possibilidade de ocorrência de novos


Suscetibilidade eventos

Análise da possibilidade de ocorrência de eventos


Exposição Ameaça adversos que causem danos à atividade humana

Análise da probabilidade de ocorrência de


Vulnerabilidade Perigo eventos adversose seus impactos
Perigo = Ameaça x Probabilidade

Danos e prejuízos Estimativa das consequências

Riscos Risco = Ameaça x Probabilidade x Consequência

Ações para redução do risco: Alerta, Comunicação


Resiliência do risco, Percepção de riscos...

Figura 1. Fluxograma conceitual dos conceitos abordados no curso.

A coluna da direita, na Figura 1, in- vão se complementando e constituindo


dica como cada termo se relaciona com a gestão de risco. Na sequência, cada
a gestão de riscos e, à medida que vai um desses termos é tratado com maior
descendo na direção da seta, os termos detalhe.
20 Entendendo os conceitos

Evento e evento adverso


Eventos são fenômenos da nature- cados nos levantamentos inventários, o
za ou causados pela ação antrópica que que se constitui em uma fonte de erros
ocorrem sem causar danos ou prejuízos nos mapeamentos.
significativos, não levando à decreta-
ção de Situação de Emergência (SE) ou Por exemplo: deslizamentos e inunda-
Estado de Calamidade Pública (ECP). ções que ocorrem em áreas não ocupa-
das, com consequências mínimas ao ho-
Dessa forma, muitos eventos acabam mem e suas atividades, são exemplos de
não sendo contabilizados nos registros eventos (Figura 2).
de ocorrência, e com isto, não são indi-
A

Figura 2. Eventos: (a) deslizamento; (b) inundação.

Os eventos adversos, por outro


Por exemplo: um determinado evento,
lado, tratam da ocorrência desfavorável, como por exemplo, uma chuva forte
prejudicial, imprópria de eventos. Eles sob uma cidade, uma explosão química
trazem danos e prejuízos à população em uma indústria ou um período pro-
longado sem chuvas em uma área agrí-
ou ao ambiente. cola, é chamado de evento adverso.
Os efeitos desses eventos adversos po-
dem ou não ocasionar um desastre, de-
pendendo de suas consequências.
Capacitação em Gestão de Riscos 21

Desastres
Quando eventos adversos ocorrem eles naturais ou provocados pelo homem,
em áreas com ocupação humana vul- sobre um cenário vulnerável (BRASIL,
nerável, eles podem originar desastres. 2012), acarretando em danos humanos,
Assim, os desastres são o resultado da ambientais e/ou materiais e prejuízos ao
ocorrência de eventos adversos, sejam patrimônio público e privado.

Evento Cenário
Desastre
adverso vulnerável

Figura 3. Desastre é resultado de um evento adverso que ocorre sobre um cenário vulnerável.

Por exemplo: os deslizamentos que ocorreram na Região Serrana do Rio de Janeiro


em 2011, com pelo menos 900 mortos e milhares de desabrigados (Figura 4a), são
exemplos de desastres. Outro exemplo é a enxurrada que ocorreu em União dos Pal-
mares, em Alagoas em 2010, com cerca de 50 mortos (Figura 4b).

A B

Figura 4. Desastres de grande intensidade no Brasil: (a) deslizamentos na região serrana do


Rio de Janeiro; (b) enxurrada em União dos Palmares, Alagoas.

Os desastres são classificados pela evento adverso e o grau de vulnerabili-


Defesa Civil segundo a sua intensida- dade, sendo que, na maioria das vezes,
de, evolução e origem, conforme apre- o fator preponderante para a intensifi-
sentado na Figura 5 (BRASIL, 2012). cação de um desastre é o grau de vul-
A intensidade de um desastre depen- nerabilidade dos elementos expostos
de da interação entre a magnitude do (CASTRO, 2003).
22 Entendendo os conceitos

Nível I – média intensidade: os danos e prejuízos são suportáveis e superáveis pelos


governos locais e a situação de normalidade pode ser restabelecida com os recursos
Intensidade

mobilizados em nível local ou complementados com recursos estaduais e federais

Nível II – grande intensidade: os danos e prejuízos não são superáveis e suportáveis


pelos governos locais, e o restabelecimento da situação de normalidade depende da
mobilização e da ação coordenada das três esferas de atuação do Sistema Nacional
de Proteção e Defesa Civil (SINPDEC) e, em alguns casos, de ajuda internacional

Súbitos ou de evolução aguda: se caracterizam pela velocidade com que o proces-


so evolui e pela violência dos eventos adversos, podendo ocorrer de forma inespera-
da e surpreendente ou ter características cíclicas e sazonais
Evolução

Graduais ou de evolução crônica: se caracterizam por evoluírem em etapas de


agravamento progressivo

Naturais: causados por processos ou fenômenos naturais


Origem

Tecnológicos: originados de condições tecnológicas ou industriais, incluindo aci-


dentes, procedimentos perigosos, falhas na infraestrutura ou atividades humanas
específicas

Figura 5. Classificação dos desastres quanto a sua intensidade, evolução e origem (BRASIL,
2012).

Nos casos em que a capacidade de res- dependendo da intensidade do desastre.


posta do município ou estado é afetada De acordo com a Instrução Normativa
ou superada, causando a interrupção de Nº 01/2012, para a obtenção do reconhe-
seu funcionamento normal, pode-se de- cimento de SE ou ECP pelo menos dois
cretar Situação de Emergência (SE) ou dos danos e um dos prejuízos descritos
Estado de Calamidade Pública (ECP), nos Quadros 1 e 2 deve ocorrer.
Capacitação em Gestão de Riscos 23

Quadro 1. Danos e prejuízos para o reconhecimento de Situação de Emergência:


Desastres Nível I.

Danos Humanos: De 1 a 9 mortos; ou até 99 pessoas afetadas.

De 1 a 9 instalações públicas de saúde, de en-


sino ou prestadoras de outros serviços danifica-
das ou destruídas; ou
De 1 a 9 unidades habitacionais danificadas ou
Danos Materiais: destruídas; ou
De 1 a 9 obras de infraestrutura danificadas ou
destruídas; ou
De 1 a 9 instalações públicas de uso comunitá-
rio danificadas ou destruídas.

Poluição ou contaminação, recuperável em cur-


to prazo, do ar, da água ou do solo, prejudican-
do a saúde e o abastecimento de 10% a 20%
da população de municípios com até 10.000
habitantes e de 5% a 10% da população de
municípios com mais 10.000 habitantes;
Diminuição ou exaurimento sazonal e tempo-
Danos Ambientais: rário da água, prejudicando o abastecimento
de 10% a 20% da população de municípios
com até 10.000 habitantes e de 5% a 10% da
população de municípios com mais de 10.000
habitantes;
Destruição de até 40% de Parques, Áreas de
Proteção Ambiental e Áreas de Preservação Per-
manente Nacionais, Estaduais ou Municipais.

Prejuízos econômicos públicos que ultrapassem


2,77% da receita corrente líquida anual do Mu-
nicípio, do Distrito Federal ou do Estado atin-
gido, relacionados com o colapso de serviços
Prejuízos econômicos: essenciais.
Prejuízos econômicos privados que ultrapas-
sem 8,33% da receita corrente líquida anual
do Município, do Distrito Federal ou do Estado
atingido.

10 ou mais mortos; ou
Danos Humanos:
100 ou mais pessoas afetadas.

Fonte: Brasil (2012).


24 Entendendo os conceitos

Quadro 2. Prejuízos e danos para o reconhecimento de Estado de Calamidade Pública:


Desastres Nível II.

10 ou mais instalações públicas de saúde, de ensino ou


prestadoras de outros serviços danificadas ou destruídas; ou
10 ou mais unidades habitacionais danificadas ou destruídas; ou
Danos Materiais:
10 ou mais obras de infraestrutura danificadas ou destruídas; ou
10 ou mais instalações públicas de uso comunitário danificadas
ou destruídas.

Poluição ou contaminação, recuperável em curto prazo, do ar,


da água ou do solo, prejudicando a saúde e o abastecimento
de mais de 20% da população de municípios com até 10.000
habitantes e de mais de 10% da população de municípios
com mais 10.000 habitantes;
Diminuição ou exaurimento a longo prazo da água, preju-
Danos Ambientais:
dicando o abastecimento de mais de 20% da população de
municípios com até 10.000 habitantes e de mais de 10% da
população de municípios com mais de 10.000 habitantes;
Destruição de mais 40% de Parques, Áreas de Proteção Am-
biental e Áreas de Preservação Permanente Nacionais, Estadu-
ais ou Municipais.

Prejuízos econômicos públicos que ultrapassem 8,33% da re-


ceita corrente líquida anual do Município, do Distrito Federal
ou do Estado atingido, relacionados com o colapso de serviços
Prejuízos econômicos: essenciais.
Prejuízos econômicos privados que ultrapassem 24,93% da
receita corrente líquida anual do Município, do Distrito Federal
ou do Estado atingido.

Fonte: Brasil (2012).

Segundo os critérios adotados pelo • Decretação de Estado de Emer-


Banco de Dados Internacional de De- gência;
sastres (EM-DAT), um desastre será • Solicitação de assistência interna-
registrado quando pelo menos uma das cional.
seguintes situações ocorrer:
Dessa forma, são computados no ban-
• Número de vítimas é igual ou su- co EM-DAT apenas desastres de grande
perior a 10; intensidade. Assim, o número de desastres
• Número de afetados (desabrigados, que realmente ocorre no Brasil é superior
feridos) é igual ou superior a 100; ao contabilizado nesse banco global.
Capacitação em Gestão de Riscos 25

Inventário de eventos, eventos adversos


e desastres
O inventário consiste em um cadas- Nesse sentido, se reforça a importância que
tro com os eventos, eventos adversos e deve ser dada ao ato de registrar e armaze-
desastres ocorridos em uma determinada nar, de forma precisa, integrada e sistemá-
área. Ele contém a sua localização espacial tica, os dados relativos aos eventos, eventos
e pode incluir informações sobre as suas adversos e desastres já ocorridos, a fim de
principais características. Esses registros garantir uma fonte de informação confiável
são a base para a avaliação da suscetibi- para a modelagem desses processos. Dessa
lidade, sendo fundamentais na previsão forma, mesmo as ocorrências e os desastres
de novos processos e, consequentemente, que não levem à decretação de SE e ECP
para a tomada de decisões, implantação devem ser registrados pelo município. Su-
de políticas preventivas de redução de gere-se, portanto, a utilização do esquema
risco e adoção de medidas mitigadoras. apresentado na Figura 6.

Por exemplo: o Anuário Brasileiro de Desastres Naturais, elaborado pelo CENAD, é um im-
portante exemplo de inventário. Este documento retrata os principais desastres ocorridos
num determinado ano no Brasil, o que permite conhecer o perfil de desastres brasileiros.
Para consultar o Anuário Brasileiro de Desastres Naturais do ano de 2012, acesse:
http://www.defesacivil.mg.gov.br/conteudo/arquivos/AnuariodeDesastresNaturais_2013.pdf.

Maior detalhamento
Registros locais de todos os tipos, que
Registros locais e municipais permitam compreender tudo que
acontece no município e possibilitam
estudos completos e aprofundados

Registros nacionais de todos os tipos de


Número registros

Sistema
desastres que necessitem de transferência
Nacional de Proteção
e Defesa Civil de recursos. Configura-se um banco de
dados nacional atualizado sobre as ocor-
rências de desastres em diversos níveis

Registros internacionais que atendem a


determinados requisitos mínimos, utili-
EM-DAT
zado para determinar padrões globais e
tendências dos acontecimentos

Menor detalhamento

Figura 6. Níveis de detalhamento para o registro de ocorrências.


26 Entendendo os conceitos

Suscetibilidade
A suscetibilidade pode ser definida o território apresenta para a ocorrência
como a maior ou menor predisposição desses processos. Ela é avaliada por meio
de ocorrência de um determinado pro- de indicadores geomorfológicos, como
cesso em uma área específica, sem consi- por exemplo, a forma do relevo, escoa-
derar os possíveis danos e seu período de mento superficial, rede hidrográfica, tipo
recorrência (probabilidade). de solo, entre outros.
A avaliação da suscetibilidade resulta
Por exemplo: A Figura 7 apresenta as áre-
da análise de diversos fatores que con- as onde as inundações são mais prováveis
dicionam a ocorrência de um evento ou em um fundo de vale, ou seja, a sua sus-
evento adverso conforme ilustrado na cetibilidade. Percebe-se que quanto mais
próximo das margens do rio, maior será
equação a seguir. a suscetibilidade, uma vez que o relevo
apresenta baixo gradiente topográfico,
resultando em inundações quando o es-
SUSCETIBILIDADE = função (fatores
coamento do curso d’água excede a ca-
condicionantes)
pacidade normal do canal. Já nos locais
onde o relevo é mais acentuado e mais
Ela deve ser determinada para cada afastado da planície de inundação, a sus-
um dos eventos. No caso de inundações, a cetibilidade é inferior.
suscetibilidade expressa as condições que
Pouco suscetível à Pouco suscetível à
unundação ( -provável) unundação ( +provável)

Figura 7. Suscetibilidade a inundação. Fonte: CPRM (2012).

Como exemplo de situações com ameaças cita-se:


• a existência de blocos instáveis junto a residências;
• a ocupação de áreas de extravasamento de rios;
• a ocupação de um edifício com materiais de baixa resistência ao fogo e com insta-
lações elétricas precárias;
• a presença de taludes com possibilidade de deslizamentos junto a uma escola.

No caso de incêndios urbanos, a sus- dos materiais ao fogo, compartimentação


cetibilidade varia em função de deter- dos edifícios, estado de conservação da
minados fatores que promovem o seu construção, das instalações elétricas e a
desenvolvimento, tais como a resistência gás, entre outros.
Capacitação em Gestão de Riscos 27

Já no caso de seca, a suscetibilidade Posteriormente, no item 4.2 serão


representa uma avaliação baseada na apresentados com maior detalhe os fato-
quantidade de chuvas, tipos de solos, uso res de maior relevância para a identifica-
do solo, sem considerar seu tempo de re- ção da suscetibilidade, conforme diferen-
corrência e seus possíveis danos. tes tipos de processo.

Ameaça
A ameaça é, segundo a Estratégia e/ou atividade humana que pode cau-
Internacional para Redução de Desas- sar a morte e/ou lesões, danos mate-
tres da Organização das Nações Unidas riais, interrupção de atividade social
(EIRD/ONU, 2009), um evento físico, e econômica ou degradação do meio
potencialmente prejudicial, fenômeno ambiente.

As ameaças podem ter diferentes origens, tais como: natural, biológica, geológica, hidromete-
orológica e tecnológica. Para acessar a classificação de ameaças proposta pela EIRD clique aqui.

Em outras palavras, a ameaça é uma Na avaliação da ameaça não se inclui


condição que evidencia a possibilidade nenhum tipo de previsão, ou seja, não
de ocorrência de eventos adversos, com é avaliada a probabilidade de que esses
capacidade de causar danos e prejuízos. processos ocorram.

Perigo
Os conceitos dos termos perigo e de retorno (TR) de chuvas intensas, o que
ameaça são relativamente semelhantes. permite estabelecer uma frequência deter-
No entanto, o perigo indica a probabili- minada para os eventos adversos poten-
dade quantitativa ou qualitativa de que ciais, conforme apresentado na equação
eventos adversos ocorram. Dessa forma, a seguir. Dessa forma, no mapeamento
chamamos de perigo uma situação que do perigo o intervalo de tempo deve ser
tem potencial para causar consequências quantificado, ou ao menos uma expectati-
indesejáveis, como as descritas anterior- va subjetiva do seu valor deve ser indicada.
mente, mas para a qual é possível fazer
uma estimativa dos intervalos de tempo PERIGO = Suscetibilidade x Probabilida-
de ocorrência (frequência). de Temporal (TR)

Na avaliação do perigo, a suscetibili- Assim, a avaliação do perigo de uma


dade é combinada com os fatores desen- área com ameaça de deslizamentos de-
cadeantes, como por exemplo, o tempo verá incluir o local, o seu volume e a pro-
28 Entendendo os conceitos

babilidade da sua ocorrência dentro de rigo de uma área com ameaça de enxur-
um dado período de tempo. rada incluirá o local e a probabilidade de
ocorrência de chuvas que deflagrem esses
Por exemplo: considerando a ameaça processos em certo período de tempo.
descrita anteriormente (a existência de
blocos instáveis junto a residências), o
Por exemplo: considerando a ameaça des-
seu perigo pode ser indicado como uma
crita anteriormente (a ocupação de áreas
probabilidade média de que um bloco
de extravasamento de rios), o seu perigo
com dimensões métricas atinja uma resi-
pode ser indicado como uma probabilida-
dência, causando danos. Em alguns casos,
de alta de ocorrência de uma inundação
é possível indicar essa probabilidade de
com danos a população. O perigo pode
maneira quantitativa, como por exemplo,
ser descrito ainda, como uma probabi-
uma frequência de x% por ano.
lidade de x% por ano de que ocorram
chuvas que desencadeiem inundações em
Da mesma forma, a descrição do pe- uma determinada região.

Vulnerabilidade
O termo vulnerabilidade está asso-
ciado à condição dos elementos sob
Tipo de evento
ameaça ou em perigo (indivíduos, co-
munidades ou cenários expostos) e pode
ser avaliado através do grau esperado
de danos e prejuízos no caso do evento Vulnerabilidade
acontecer (Figura 8). Sendo assim, a vul- Características
Área de
nerabilidade indica como as condições dos elementos
exposição
preexistentes fazem com que os elemen- expostos
tos expostos sejam mais ou menos pro-
pensos a ser afetados por um processo
Figura 8. Vulnerabilidade e suas interações.
perigoso.

Por exemplo: Se uma casa estiver localizada em uma área que não seja suscetível
a nenhum tipo de fenômeno (inundação, deslizamento) a mesma não será vulnerável a
esses processos.

Para fins de quantificação de danos, (FELL et al., 2008). Para construções, o


a vulnerabilidade é expressa através de grau de danos será a relação entre o valor
uma escala de 0 (sem danos ou preju- dos danos esperados e o valor integral da
ízos) a 1,0 (perda total ou danos extre- propriedade.
mos), conforme apresentado na Figura 9,
Capacitação em Gestão de Riscos 29

0 Vulnerabilidade 1
Figura 9. Escala ilustrativa de vulnerabilidade.

Para pessoas, a vulnerabilidade será a à localização daws residências do que aos


probabilidade que uma vida em particu- materiais de construção (madeira, alve-
lar seja perdida (considerando um grupo naria, mistas).
como o elemento em risco), caso as pesso-
as sejam afetadas por um evento adverso. Por exemplo: A Figura 10 mostra um
Naturalmente, se este grupo não estiver na grupo de elementos que foram expostos
à mesma inundação. Devido à localiza-
área afetada ele não será vulnerável! ção dos elementos e de seu tipo constru-
No caso de um deslizamento de alta tivo, algumas residências foram comple-
velocidade atingir uma área construída, a tamente destruídas e outras não (relação
entre a vulnerabilidade/exposição).
vulnerabilidade estaria mais relacionada

Figura 10. Relação entre a vulnerabilidade e a exposição a inundações.

Exposição
O potencial para uma ameaça se A exposição indica quanto uma cida-
transformar em desastre depende do de, comunidade ou sistema, localizado
grau de exposição de uma população e em uma área suscetível a um determina-
seus recursos físicos e econômicos. do perigo, estará sujeito a sofrer com um
evento adverso, quando este ocorrer.
30 Entendendo os conceitos

Nos casos de inundação e deslizamen- aumentam a concentração de pessoas e re-


tos, a posição geográfica é fundamental cursos em áreas suscetíveis a desastres.
para se determinar o grau de exposição,
A Figura 12 ilustra os diferentes graus
conforme mostrado na Figura 11. A urba-
de exposição para um evento adverso do
nização, a migração, o crescimento popu-
tipo deslizamento.
lacional e o desenvolvimento econômico
elementos em risco área inundável exposto não exposto

Figura 11. A exposição à inundação está diretamente ligada com a posição geográfica dos
elementos em risco.

Alto da encosta = queda

Posição média =
atingimento e queda

Base da encosta =
atingimento

Figura 12. Exposição de habitações a deslizamentos em diferentes posições na encosta.


Fonte: IPT (2012).

A exposição faz parte da avaliação da


Por exemplo: em deslizamentos urba-
nos, o grau de exposição irá variar con-
vulnerabilidade individual ou do grupo de
forme a posição da ocupação em rela- elementos. Em escolas e rodovias, a expo-
ção à encosta e as atividades humanas sição será menor em virtude do tipo de uso
no local.
(as pessoas não estão nesses locais todo o
tempo). Em vários casos, a exposição pode
estar incorporada na vulnerabilidade.
Capacitação em Gestão de Riscos 31

Danos e Prejuízos
Todo desastre causa uma série de as mortas, desabrigadas e feridas (perdas
consequências negativas aos elementos humanas); quantidade de unidades habi-
expostos, as quais podem ser expressas tacionais destruídas e danificadas (mate-
quantitativa ou qualitativamente, em ter- riais); contaminação do solo (ambientais).
mos de danos e prejuízos.
A Figura 13 ilustra duas situações em
Os danos são o resultado das perdas que houve grandes danos e prejuízos de-
humanas, materiais ou ambientais infligi- vido a ocorrência de desastres.
das às pessoas, comunidades, instituições,
instalações e aos ecossistemas, como con- Por exemplo: os deslizamentos e inun-
sequência de um desastre. Pode-se dizer dações que ocorreram no vale do Itajaí,
SC em 2008 tiveram como danos a mor-
que os danos representam as perdas de- te de 110 pessoas (BANCO MUNDIAL,
correntes de efeitos diretos do desastre, 2012b) (Figura 13a).
como por exemplo: quantidade de pesso-

A B

Figura 13. Exemplos de desastres com grande intensidade de danos e prejuízos: (a) enxur-
radas em Santa Catarina em 2008; (b) deslizamentos em Nova Friburgo, RJ em 2011.

Conforme a Instrução Normativa


Por exemplo: os prejuízos ao setor ha-
2/2012 do Ministério da Integração Na- bitacional decorrentes das inundações
cional, prejuízo é a medida de perda re- bruscas que ocorreram em Pernambuco
lacionada com o valor econômico, social em 2010 foram estimados em 1,08 bi-
lhões de reais (BANCO MUNDIAL, 2012c).
e patrimonial, de um determinado bem,
em circunstâncias de desastre. Pode-se
A avaliação de danos e prejuízos de-
dizer que os prejuízos representam os
correntes de um desastres é realizada
custos decorrentes de efeitos indiretos
por meio do Formulário de Informa-
do desastre.
ções dos Desastres (FIDE), documento
32 Entendendo os conceitos

que tem como objetivo avaliar danos e to; infraestrutura e energia; telecomu-
prejuízos decorrentes do desastre, ser- nicações; meio ambiente; agropecuária;
vindo também para reconhecimento de indústria; entre outros.
situações de anormalidade (Situação de
Emergência ou Estado de Calamidade Para saber maiores informações sobre
Pública). O Coordenador Municipal de a avaliação de perdas e danos de de-
Defesa Civil deve preencher o FIDE com sastres no Brasil, realizada pelo Banco
Mundial, clique nos itens a seguir:
as informações relativas ao município e • Inundações bruscas em Pernambuco
ao desastre ocorrido. – Junho de 2010
• Inundações e deslizamentos na Re-
gião Serrana do Rio de Janeiro – Ja-
Para saber mais sobre o FIDE acesse o neiro de 2011
link http://www.integracao.gov.br/mo- • Inundações bruscas em Alagoas –
delo-de-formularios. Junho de 2010
• Inundações bruscas em Santa Cata-
Já o banco Mundial trabalha com da- rina – Novembro de 2008
nos e prejuízo em 4 setores: social, infra- * A partir do COBRADE, o termo “inun-
dações bruscas” foi alterado para en-
estrutura, econômico e meio ambiente. xurradas. No entanto, mantiveram-se
Esses setores principais são subdivididos os títulos dessas publicações como no
em: população afetada; habitação; saúde; original.
educação; transporte, água e saneamen-

Risco
A definição de risco é, sem dúvida, a
O risco é a probabilidade de que ocor-
mais importante e mais utilizada, mas é ram consequências prejudiciais e/ou
também a que tem maiores divergências danos (como por exemplo mortes, le-
de entendimento. No Brasil, a falta de sões, prejuízos econômicos, interrupção
de serviços, entre outros), resultado da
uma conceituação uniforme deste termo, interação entre as ameaças e a vulnera-
o qual é adotado em várias áreas do co- bilidades. Convencionalmente o risco é
nhecimento, fez com que muitos estudos expresso pela equação: RISCO = Amea-
tenham utilizado a denominação “mapas ça x Vulnerabilidade
de risco”, quando muitas vezes tratam-se
de mapas de suscetibilidade ou ameaça. De maneira geral o risco existirá, em
menor ou maior grau, quando elemen-
Atualmente a Secretaria Nacional de
tos vulneráveis estiverem localizados em
Proteção e Defesa Civil trabalha com o
uma área que apresente ameaça a um
mesmo conceito da EIRD (2009), o qual
tipo de fenômeno (Figura 14).
define o risco da seguinte maneira:
Capacitação em Gestão de Riscos 33

Área Elementos
Risco
Perigosa vulneráeis

Figura 14. Relação entre risco, cenário vulnerável e áreas com ameaça.

No entanto, esse conceito não en- humana o estão produzindo e em que


globa a estimativa dos danos poten- condições a sua evolução poderá produ-
ciais, o que é essencial para realizar a zir um desastre. Após chegar a este ponto,
gestão de riscos de maneira eficiente. devem-se avaliar as consequências que o
Então, de forma mais completa, o ris- evento adverso causará aos elementos
co representa uma estimativa do dano expostos, conforme sua vulnerabilidade
potencial a que pessoas, bens e ativida- (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2006) e
des econômicas estão sujeitos, levando valor (de estruturas e serviços ou núme-
em consideração a probabilidade de ro de vidas). Salienta-se que não se está
ocorrência de um evento adverso nesse atribuindo um valor às vidas humanas,
período (um ano, por exemplo) e a vul- mas sim quantificando em função do nú-
nerabilidade dos elementos expostos mero de vidas.
(FELL et al., 2008). Dessa forma, nes-
Assim, o risco pode ser calculado
te curso o risco é expresso da seguinte
quantitativamente e indicado com ba-
maneira.
ses anuais:
RISCO = Ameaça x Probabilidade de
ocorrência x Consequência Por exemplo: probabilidade anual
de ocorrência de um evento adversos
Sendo que: CONSEQUÊNCIA = (em %) vezes o valor provável (R$) dos
danos e prejuízos esperados.
Vulnerabilidade x Valor dos elementos
Essa fórmula é muito adequada para Devido à dificuldade em determinar
o exercício da gestão de riscos. Ela mos- a probabilidade de ocorrência dos even-
tra que, ao olharmos para uma “situação tos adversos e dos danos e prejuízos po-
de risco”, deve-se, em primeiro lugar, tenciais quantitativamente, existem algu-
identificar qual é o perigo (ou seja, qual mas metodologias que consideram estes
é a probabilidade de que ameaças ocor- valores de forma subjetiva e analisam o
ram?), que processos naturais ou da ação risco de maneira qualitativa:
34 Entendendo os conceitos

O risco depende fortemente do pro-


Por exemplo: probabilidade muito cesso que está sendo analisado. Desta
alta de um evento extremo ocorrer
anualmente com prejuízos elevados à forma, ele deve ser avaliado para cada
população. um dos tipos de desastre que podem
ocorrer em uma determinada localidade.

Percepção de risco
A percepção de riscos é o processo A
de coletar, selecionar e interpretar Os
sinais relativos a impactos incertos de
eventos, atividades e tecnologias. É a
maneira pela qual as pessoas avaliam
as consequências de um determinado
evento baseadas na sua capacidade de
interpretação da situação.
Diversos fatores podem interferir
para mais ou para menos na percepção
que se tem dos riscos, desde o tipo de
risco a que se está exposto, passando B
pela experiência que se tem com um de-
terminado risco, até o modo de vida que
se possui.
As pessoas irão perceber mais ou me-
nos de acordo com o seu julgamento de
valor daquilo que está em risco, seja um
bem material ou mesmo a sua vida. A
aceitação ou uma percepção baixa para o
risco pode estar diretamente relacionada
ao benefício recebido em contrapartida
pela exposição a esse risco. Figura 15. Cenário vulnerável a ameaças
de: (a) queda de blocos e (b) inundações.
Fonte: IPT (2012).

Resiliência
A resiliência é a capacidade de uma funções. Quanto maior for a resiliência
cidade, comunidade ou sistema supor- de uma cidade, comunidade ou sistema,
tar ou se recuperar rapidamente de um maior será a sua capacidade de se recu-
desastre, mantendo ou retomando suas perar das perdas e danos causadas pela
Capacitação em Gestão de Riscos 35

ocorrência de desastres e voltar a fun- resiliência, pois orienta as formas de adap-


cionar e operar normalmente após um tação necessárias para obter uma proteção
evento adverso. futura melhor, através da identificação e
A capacidade de aprender com de- redução de riscos (ISDR, 2004), conforme
sastres passados influencia diretamente a mostra o esquema da Figura 16.
Maior
resiliência
de
ade ção
a p acid adapta
C o e
ad
ndiz
apre
Menor
resiliência
Figura 16. Relação entre a resiliência e a capacidade de aprendizado e adaptação de uma
sociedade.

Na escala urbana, a resiliência de- pendência de diferentes sistemas, como


pende da habilidade de se preservar re- por exemplo, infraestruturas, ecossiste-
cursos essenciais, bem como assegurar mas, instituições e redes de conhecimen-
funções que garantam o bem-estar da to; e das pessoas, cidadãos, representan-
população. tes do setor público e privado.
A resiliência depende principalmente O Quadro 3 ilustra alguns exemplos
de dois fatores: da inter-relação e interde- de resiliência.

Quadro 3. Exemplos de resiliência.

• Ter equipamentos e serviços públi-


cos de saúde protegidos e em fun-
cionamento rapidamente após um
evento adverso.
• Instalar e operar meios de comuni-
cação capazes de se manter durante
situações críticas, como a rede de
rádio amadores.

• Em estruturas de construção civil


pode-se reforçar as estruturas, cons-
truir diques.
• A revisão de normas e leis para ade-
quarem-se a novas situações.
• Preparação de planos de contingên-
cia.
• Contratação de seguros.
36 Entendendo os conceitos

• Em áreas alagadiças, como a Ama-


zônia e o Pantanal, é comum a cons-
trução sobre palafitas. Esta solução
evita o contato da habitação com
o solo úmido, permitindo também
maior ventilação. É importante utili-
zar material de qualidade e evitar o
acúmulo de lixo e a proliferação de
doenças.

• A construção de diques com sacos


de areia é uma medida de caráter
emergencial adotada em casos de
inundação, por exemplo. A vanta-
gem desta solução é o baixo custo
dos materiais, assim como a rapidez
de montagem, que pode ser um fa-
tor muito importante para uma situ-
ação crítica.

• A realização de simulados pela Defe-


sa Civil é importante no processo de
gestão de riscos. Auxilia na redução
desses riscos, na preparação de agen-
tes e comunidade para uma situação
de emergência e na elaboração de um
plano de contingência. Treinamento e
articulação entre todos os envolvidos
são fundamentais para agilizar ações
e aumentar a resiliência.

• A capacidade de se recuperar rapi-


damente de um desastre é determi-
nante para a resiliência. As fotos ao
lado mostram a resiliência do Japão
ao grande terremoto de março de
2011. As duas fotos ao lado mos-
tram a capacidade dos japoneses
em recuperar suas estruturas danifi-
cadas apenas 6 dias após o desastre.
Capacitação em Gestão de Riscos 37

Resumindo... BANCO MUNDIAL. Avaliação de perdas e


danos: inundações bruscas em Santa Catarina
Para exemplificar a relação entre os - Novembro de 2008. Brasília: 2012. Disponível
conceitos anteriormente expostos, po- em: <http://www.ecapra.org/sites/default/files/
de-se tomar como exemplo um tornado documents/DaLA%20Santa%20Catarina%20
(fenômeno atmosférico extremo). Esse fe- Final%202%20Baixa%20Resolucao_0.pdf>.
nômeno costuma ocorrer em uma deter- Acesso em: 30 set. 2013.
minada região, devido às características
intrínsecas do local, ou seja, a sua susce- BANCO MUNDIAL. Avaliação de perdas
tibilidade. Se este se deslocar na direção e danos: inundações bruscas em Pernam-
de uma área ocupada pelo homem, com buco - junho de 2010. Brasília: 2012c. Dis-
uma possibilidade real de prejuízos (even- ponível em: <http://www.integracao.gov.br/
to adverso) a uma população vulnerável pt/c/ document_library/get_file?uuid=53d-
(elemento exposto), o mesmo será consi- 18df5-cf74-4be4-80c0-97ce3cebad14&grou-
pId=10157>. Acesso em 30 set. 2013.
derado como uma ameaça. Caso o perío-
do de recorrência desse fenômeno seja co- BRASIL. Instrução Normativa N° 1, de 24 de
nhecido, teremos então uma identificação agosto de 2012. Estabelece procedimentos e
do perigo. Conforme a vulnerabilidade critérios para a decretação de situação de emer-
dessa população a esse fenômeno, os da- gência ou estado de calamidade pública pelos
nos e prejuízos serão maiores ou menores. Municípios, Estados e pelo Distrito Federal, e
Se os danos associados a esse evento fo- para o reconhecimento federal das situações de
rem quantificados ou qualificados, tere- anormalidade decretadas pelos entes federati-
mos então a identificação do risco. vos e dá outras providências. Brasília: 2012.

Se o tornado atingir a área povoada, BERTONE, P.; MARINHO, C. Gestão de ris-


provocando de fato danos materiais e ví- cos e resposta a desastres naturais: a visão do
timas, será definido como um desastre. planejamento. In: Congresso CONSAD de
Caso o mesmo fenômeno ocorra e não Gestão Pública, VI. Anais... Brasília, 2013.
ocasione danos, será considerado apenas CASTRO, A. L. C. Manual de planejamento
como um evento. em Defesa Civil: Volume IV. Brasília: Minis-
tério da Integração Nacional, Secretaria de
Defesa Civil, 2003.
REFERÊNCIAS
CPRM. Serviço Geológico do Brasil. Capaci-
tação de técnicos municipais para preven-
BANCO MUNDIAL. Avaliação de perdas
ção e gerenciamento de riscos de desastres
e danos: inundações e deslizamentos na Re-
naturais. Caxias do Sul: 2012.
gião Serrana do Rio de Janeiro em Janeiro de
2011. Brasília: 2012. Disponível em: <http:// FELL, R.; COROMINAS, J.; BONNARD, C.;
www.ecapra.org/sites/default/files/docu- CASCINI, L.; LEROI, E.; SAVAGE, W. Guide-
ments/DaLA%20Rio%20de%20Janeiro%20 lines for Landslide Susceptibility, Hazard and
Final%202%20Baixa%20Resolucao_0.pdf>. Risk Zoning for Land Use Planning. Engine-
Acesso em: 30 set. 2013. ering Geology, v. 102, p. 83-84, 2008.
38 Entendendo os conceitos

INSTITUTO GEOLÓGICO. Desastres na- guia para elaboração de políticas municipais.


turais: conhecer para prevenir / Lídia Keiko CARVALHO, C. S.; GALVÃO, T. G. (Orgs.)
Tominaga, Jair Santoro, Rosangela do Ama- Brasília: Ministério das Cidades; Cities
ral (orgs.). São Paulo: Instituto Geológico, Alliance, 2006; 111 p.
2009. 196 p.
SEVEGNANI, L et al. Gente socorrendo gente.
IPT. Instituto de Pesquisas Tecnológicas. Cur- In: FRANK, B.; SEVEGNANI, L. (Org.). De-
so de capacitação para o mapeamento e ge- sastre de 2008 no Vale do Itajaí: água, gente e
renciamento de áreas de risco. Santos: 2012. política. Blumenau: Agência de Água do Vale
do Itajaí, 2009.
ISDR. Living with Risk - A global review of
disaster reduction initiatives. Geneva, United UNISDR - The United Nations Office for Di-
Nations, 2004. saster Risk Reduction. Disaster Risk Mana-
gement. 2000. Disponível em: <http://www.
KOBIYAMA, M. et al. Papel da comunidade e
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da universidade no gerenciamento de desastres
em 19 ago. 2013.
naturais. In: Simpósio Brasileiro de Desastres
Naturais, 1., 2004. Florianópolis. Anais... Flo- ZÊZERE, J. L. Dinâmica de vertentes e riscos
rianópolis: GEDN/UFSC, 2004. p. 834 - 846. geomorfológicos. Centro de Estudos Geográ-
ficos, Área de Geografia Física e Ambiente, re-
MINISTÉRIO DAS CIDADES. Prevenção
latório nº 41, Lisboa, p. 35-81, 2005.
de riscos de deslizamentos em encostas:
3
O DESAFIO DE
CONVIVER COM
O RISCO
40 O desafio de conviver com o risco

Este capítulo tem por objetivo possibilitar ao aluno:

• Compreender como o conceito de risco adquire importância na sociedade, espe-


cialmente com a necessidade de convivermos com o risco produzido decorrente do
processo de modernização;
• Compreender a relação entre a urbanização e o aumento das situações de risco no
contexto brasileiro;
• Conhecer quais são os principais desastres naturais e tecnológicos que ocorrem no
Brasil.

A modernização da sociedade trou- portanto, encontrar o equilíbrio, alian-


xe como resultado o avanço da ciência do a modernização com a correta per-
e da tecnologia e o desenvolvimento cepção e a gestão dos riscos derivados
econômico da sociedade, mas também dessas transformações.
consequências negativas, como o cres- É preciso que a convivência com os
cimento populacional desordenado e a riscos traga sempre o menor prejuízo
expansão das cidades sem a adoção de ao meio ambiente e à sociedade. Por
critérios adequados de ocupação e orde- isso iniciativas como o Marco de Ações
namento do território. Essas mudanças de Hyogo e o Planos locais de gestão de
influenciaram significativamente no au- riscos e resposta a desastres naturais são
mento da frequência e da intensidade de muito importantes para o comprometi-
desastres causados por eventos naturais mento das nações com a redução dos ris-
e pela ação do homem. O desafio atual é, cos e da vulnerabilidade.

A situação do risco e a sociedade


O desenvolvimento econômico e so- efeitos de eventos adversos, como as
cial, o aumento demográfico e o cresci- chuvas fortes.
mento das cidades têm gerado um novo É importante ressaltar que, apesar
panorama em muitas partes do mundo. do aumento na quantidade de desas-
Essas novas situações criadas impactam tres, o risco sempre foi algo presente
e modificam as relações naturais existen- na sociedade, desde a sua formação. A
tes, podendo aumentar a vulnerabilida- humanidade sempre enfrentou situa-
de e, consequentemente, o risco ao qual ções perigosas de diversas ordens – as
a sociedade está exposta. A ocupação de decorrentes da ação da natureza (terre-
encostas de morros e margens de cur- motos, vulcões, furacões, inundações),
sos d’água pela população, por exemplo, as produzidas pelo homem (guerras),
acaba por produzir situações de risco, ou mesmo aquelas que ocorrem na
uma vez que essas áreas não possuem vida cotidiana em função dos modos
infraestrutura adequada e as habitações e estilos de vida dos indivíduos e dos
nelas instaladas estão mais expostas aos grupos sociais.
Capacitação em Gestão de Riscos 41

O que se percebe é que o desenvolvi- Dessa forma, Giddens (2005) afirma


mento das sociedades introduziu novas que o risco, além de ser inerente ao sis-
atividades, tais como a utilização de produ- tema social, é a condição para o seu de-
tos químicos e a produção de energia nu- senvolvimento, pois o risco é a “dinâmica
clear, resultando no surgimento de novos mobilizadora de uma sociedade propen-
riscos, os quais assumem uma importân- sa à mudança, que deseja determinar seu
cia crescente na atualidade. O termo risco, próprio futuro”.
conforme visto anteriormente, refere-se à Seguindo esse raciocínio, a socieda-
probabilidade de ocorrência de desastres e de de risco é uma sociedade que convive
a estimativa de seus danos e prejuízos, con- com a possibilidade de danos e prejuízos
siderando a vulnerabilidade dos elementos decorrentes das suas atividades. Nesse
a ele expostos. Ele representa a chance de sentido, determinadas situações, que de-
algo acontecer e seus respectivos danos e veriam ser consideradas exceções, ame-
prejuízos, cujo efeito pode ser observado açam converter-se em normalidade em
sobre um elemento que se quer proteger, função das atividades exercidas pela po-
podendo ser o mesmo uma propriedade pulação, gerando, desta forma, um pro-
ou um bem material, uma espécie vegetal cesso de risco contínuo.
e, principalmente, o próprio homem.

Por exemplo: desta geração de risco contínuo, pode-se citar:

• Disseminação de doenças associadas ao estilo de vida da população, como proble-


mas cardíacos associados ao sedentarismo e à má alimentação e problemas respira-
tórios associados ao hábito de fumar e à poluição atmosférica;
• Ocupação desordenada do território, como a execução de cortes com declividades
acentuados para ocupar as encostas, o que acaba por aumentar a suscetibilidade do
terreno a deslizamentos e, consequentemente, a probabilidade de que estes ocorram;
• Práticas como as queimadas e a derrubada de árvores para expansão da fronteira
agrícola, que podem causar incêndios florestais e danos ambientais.

Na sociedade moderna, existe uma desastres ganha dimensões que ultrapas-


maior incidência dos desastres criados sam fronteiras administrativas – como os
pelas ações humanas em comparação ao limites de uma cidade, por exemplo – e
passado, resultado do desenvolvimento adquirem relevância desde o âmbito lo-
econômico e social sem considerar ade- cal até o âmbito global.
quadamente o risco. Juntamente com o
Desta forma, a sociedade de risco nos
aumento dos riscos tecnológicos, surge
equaliza, pois todos nós podemos estar
como consequência o aumento da com-
ameaçados pelos mesmos riscos – tais como
plexidade do seu gerenciamento.
as mudanças climáticas e a poluição, – visto
Num contexto onde as cidades, co- que habitamos o mesmo planeta. No entan-
munidades e indivíduos estão cada vez to, essa sociedade não necessariamente nos
mais interligados, gerenciar o risco de iguala, porque possuímos distintos graus de
42 O desafio de conviver com o risco

vulnerabilidade e diferentes condições para • Os riscos tecnológicos são tão im-


enfrentar esses riscos (BECK, 2010). portantes quanto aqueles causados
por eventos climáticos extremos ou
Na sociedade de risco pode-se dizer
pela dinâmica superficial da terra.
que:
O risco está, portanto, presente si-
• Situações de risco não estão so-
multaneamente em qualquer localidade
mente ligadas à classe social, mas
e em todas as dimensões da vida moder-
são também criadas pelo modo
na. Deste modo, é impossível adotar uma
de vida;
postura indiferente em relação ao risco,
• O desenvolvimento deve com-
fazendo-se necessário enfrentar o desafio
preender o gerenciamento dos
de gerenciá-lo, buscando formas de evi-
riscos criados pelo avanço das
tar que as situações de risco convertam-
sociedades;
se em desastres.

Em que situação nos encontramos?


A realidade brasileira, em relação aos de Desastres, a Campanha “Construin-
desastres naturais, se caracteriza principal- do Cidades Resilientes”, entre outras,
mente pela ocorrência de desastres natu- são iniciativas que buscam mudar essa
rais cíclicos, especialmente as inundações realidade.
em todo o território nacional, as secas na
Dentre os principais fatores que in-
região nordeste e as estiagens no sul do
fluenciam na ocorrência de desastres no
país. Em relação aos desastres tecnológi-
Brasil, pode-se destacar:
cos, observa-se um crescente aumento dos
acidentes envolvendo o armazenamento e • Aumento da vulnerabilidade e
transporte de produtos perigosos, a conta- consequentemente da exposição,
minação do solo por produtos agrícolas e pelo crescimento das cidades e
pelo descarte incorreto de rejeitos. ocupação de áreas impróprias à
Isso se dá, sobretudo, devido ao au- urbanização por um maior núme-
mento da vulnerabilidade sem a dispo- ro de pessoas;
nibilidade de serviços e infraestruturas • Falta de aplicação de instrumentos
necessárias. Além disso, o Brasil possui de planejamento urbano e ausên-
uma cultura de prevenção e autopro- cia de políticas habitacionais de
teção relativamente jovem e com um interesse social, associadas a uma
passivo de problemas muito grande fiscalização ineficiente, que não
para ser resolvido em curto prazo. No consegue evitar a ocupação de
entanto, a participação e criação de di- Áreas de Preservação Permanente
versas ações como o Marco de Ações de - APP (Figura 1) e a formação de
Hyogo, o Plano Nacional de Redução loteamentos irregulares (Figura 2);
Capacitação em Gestão de Riscos 43

Figura 1. Assentamento em condições precárias localizado no município de Porto Alegre/RS.

Figura 2. Loteamentos irregulares ocupando as áreas de preservação permanente do Rio


Atuba, localizado no município de Curitiba/PR.

• Crescimento do número de ati- contaminação do solo (ex.: produ-


vidades perigosas exercidas pela tos agrícolas ou combustíveis que
sociedade, como por exemplo, o contaminam o lençol freático) e a
transporte de produtos químicos destinação dos rejeitos (ex.: rejeitos
perigosos, a utilização de combus- das usinas nucleares, do césio 137);
tíveis nucleares para a produção • Alteração da intensidade e frequ-
de energia, entre outros. Alguns ência de eventos climáticos extre-
dos principais riscos relacionados mos (Painel Brasileiro de Mudan-
a produtos e substâncias perigosas ças Climáticas – PBMC, 2013).
estão relacionados ao armazena-
Diante do agravamento e do aumen-
mento (ex.: supermercados, lojas
to de desastres provocados por eventos
de produtos químicos que estão
adversos, o governo brasileiro, junto com
situadas em centros residenciais), a
44 O desafio de conviver com o risco

os governos de outros 167 países, se com- • Reduzir os riscos por meio do pla-
prometeu a adotar medidas para reduzir o nejamento do uso e ocupação do
risco de desastres, adotando o Marco de solo, e de medidas ambientais, so-
Ação de Hyogo (MAH), em 2005 (EIRD, ciais e econômicas;
2007). O MAH é o instrumento mais im- • Fortalecer a preparação em desas-
portante para a implementação da redu- tres para uma resposta efetiva, em
ção de risco de desastres da atualidade. todos os níveis.
Ele tem por objetivo reduzir substancial-
mente as perdas em termos de vidas e bem Para saber mais:
sociais, econômicos e ambientais, a partir Para conhecer mais sobre o Marco de
da promoção da resiliência das nações e Ação de Hyogo clique aqui.
comunidades diante de desastres. As cinco
prioridades de ação do MAH são:
A urbanização e o agravamento
• Garantir que a redução de riscos de dos desastres no Brasil
desastres seja uma prioridade na-
cional e local com forte base insti- Muitos dos problemas associados aos
tucional para sua implantação; desastres no Brasil podem ser explicados
• Identificar, avaliar e monitorar os pela maneira como o país se desenvolveu
riscos de desastres e melhorar os ao longo do século passado até o presen-
alertas e alarmes; te. A população do país se tornou majo-
• Utilizar conhecimento, inovação e ritariamente urbana a partir dos anos 60,
educação para construir uma cul- sendo que atualmente mais de 80% da po-
tura de segurança e resiliência em pulação brasileira vive em áreas urbanas,
todos os níveis; conforme apresentado na Figura 3.

Figura 3. Taxa de urbanização no Brasil ao longo das décadas de 1940 até 2010 (IBGE, 2010).

A rápida urbanização no Brasil, em despreparo das administrações locais em


um período de tempo relativamente cur- atender às necessidades básicas da popu-
to foi acompanhada por um crescimento lação. Esses fatores acarretaram o adensa-
urbano muitas vezes desordenado e pelo mento populacional e, muitas vezes, em
Capacitação em Gestão de Riscos 45

áreas consideradas inadequadas à ocupa- desastres. A dificuldade do acesso à mora-


ção, bem como o surgimento de graves dia em áreas urbanas levou a um quadro de
problemas estruturais nos municípios bra- ocupação desordenada de áreas inadequa-
sileiros. Situações como essas têm como das, como encostas íngremes e planícies de
consequência uma série de problemas inundação, fazendo, dessa maneira, com
sociais e ambientais, que potencializam e que a população de baixa renda se torne
até mesmo desencadeiam os desastres, au- mais vulnerável aos desastres. Em 2008, o
mentando a vulnerabilidade da população. déficit habitacional estimado correspondia
a aproximadamente 5,5 milhões de domi-
Pode-se dizer que a transformação de
cílios, dos quais 86,5% estão localizados
eventos em desastres é, em parte, sintoma
nas áreas urbanas. Neste mesmo ano, 10,9
de uma incapacidade de gerenciamen-
milhões de domicílios não eram atendidos
to e planejamento da expansão urbana e
por, no mínimo, um dos serviços básicos
do crescimento populacional, o que gera
essenciais: saneamento, energia, assistência
um cenário com falhas de infraestrutura,
médica, transporte, entre outros.
deficiências nos serviços públicos, degra-
dação do ambiente urbano, aumento das A Figura 4 mostra o déficit habita-
ocupações irregulares, entre outros. cional total nos Estados brasileiros em
2008. Destaca-se que as regiões mais afe-
tadas pela falta de moradia são também as
O Contexto Social dos que concentram a maior parte dos regis-
Desastres tros de desastres no país (regiões nordeste,
sul e sudeste), conforme será apresentado
Diversos fatores sociais influenciam em maior detalhe no livro-texto.
na intensidade dos desastres, tais como
o acesso à informação e conhecimento
sobre riscos, acesso à moradia adequada,
segurança de renda e acesso a serviços
financeiros, acesso a empregos formais,
acesso a redes de suporte, inclusão etc.
Dessa forma, ao considerarmos o modo
de vida urbana da sociedade brasileira,
percebemos que os problemas associa-
dos aos desastres podem aumentar nos
próximos anos se estes fatores sociais
não forem também trabalhados dentro
da gestão de riscos de desastres.
A falta de moradia adequada é um dos
maiores problemas sociais que contribuem Figura 4. Déficit habitacional total no Bra-
sil em 2008. (Fonte: MINISTÉRIO DAS CIDA-
para o aumento do risco de ocorrência de DES, 2011).
46 O desafio de conviver com o risco

Os desastres no Brasil
O Brasil, devido ao seu tamanho 2012). Além desse documento, destacam-
geográfico, às condições climáticas e se os Anuários de Desastres Naturais ela-
fisiográficas e aos diferentes graus de borados pelo Centro Nacional de Geren-
desenvolvimento urbano, está sujeito ciamento de Riscos e Desastres (CENAD,
permanentemente à ocorrência de de- 2012;2013). Cabe salientar, entretanto,
sastres. Ao contrário de outros países que a metodologia utilizada no tratamen-
onde é frequente a ocorrência de desas- to das informações para os dados de 2011
tres de origem tectônica, como é o caso e 2012 são distintas daquelas utilizadas na
de terremotos e tsunamis, no Brasil os elaboração do Atlas Brasileiro de Desas-
desastres tendem a estar relacionados a tres Naturais, de 1991 a 2010, o que difi-
fenômenos climáticos, potencializados culta sua comparação.
pela ação e exposição do homem. Segundo essas publicações, entre os
Um panorama interessante sobre a anos de 1991 e 2012, foram registrados
incidência de desastres naturais no Brasil oficialmente 33.080 desastres naturais no
está disponível no Atlas Brasileiro de De- Brasil, conforme apresentado na Figura
sastres Naturais, elaborado pelo Centro 5. Neste período, o ano de 2009 foi o ano
Universitário de Estudos e Pesquisas so- mais afetado, com cerca de 3.200 regis-
bre Desastres da UFSC (CEPED/UFSC, tros de desastres.

Figura 5. Número de registros de desastres naturais no Brasil entre os anos de 1991 e 2012.
(Fonte: CEPED/UFSC, 2012; CENAD, 2012;2013).

Figura 6. Comparação entre o número de ocorrências de desastres no Brasil entre as déca-


das de 1990 e 2000. (Fonte: CEPED/UFSC, 2012).
Capacitação em Gestão de Riscos 47

Entre a década de 1990 e a dos anos • estiagem e seca;


2000, houve uma alta de 21,7 vezes no • enxurrada e alagamentos;
número de registros, conforme apresen-
• inundação;
tado na Figura 6 (CEPED/UFSC, 2012).
Embora tenha ocorrido um aumento ge- • granizo;
neralizado em todos os tipos de desastres, • ciclones e vendavais;
os movimentos de massa registraram o • tornado;
maior avanço entre essas décadas.
• geada;
A Figura 7 apresenta a distribuição • incêndio florestal;
do número de registros de desastres na- • movimento de massa;
turais por região brasileira. Nota-se que,
apesar do aumento no número de regis- • erosão linear;
tros relacionados a movimentos de mas- • erosão fluvial;
sa, a liderança do ranking de desastres • erosão marinha.
naturais pertence à seca. A frequência
Já as regiões com mais registros fo-
desses desastres é maior no Nordeste,
ram: nordeste, sul, sudeste, centro-oeste
com 16.449 registros no período de 1991
e norte.
a 2010. Os desastres mais frequentes, por
ordem decrescente de registros, foram:

Figura 7. Distribuição por região dos desastres naturais registrados no Brasil entre 1991 e
2010 (Fonte: CEPED/UFSC, 2012).
48 O desafio de conviver com o risco

Os gráficos apresentados nas Figu- causam maior perda de vidas no Brasil e,


ras 8 e 9 mostram, respectivamente, a portanto, merecem maior atenção.
percentagem da população afetada por
O número de mortos em decorrên-
desastres e a percentagem de mortos no
cia de desastres evidencia a urgência de
Brasil, no período de 1991 a 2010. Por
ações conjuntas para a elaboração de
meio desses gráficos percebe-se que as
políticas públicas de prevenção e res-
secas e as estiagens afetam a sociedade
posta aos desastres, bem como a neces-
mais do que todos os outros tipos de
sidade de conscientização da sociedade,
desastres somados. Entretanto, o gráfico
através da qualificação de sua percepção
com a percentagem de mortos evidencia
do risco.
que as enxurradas são os desastres que

Figura 8. População afetada por diferentes tipos desastres no Brasil entre 1991 e 2010
(Fonte: CEPED/UFSC, 2012).

Figura 9. Mortes decorrentes de desastres naturais no Brasil entre 1991 e 2010 (Fonte:
CEPED/UFSC, 2012).

Quanto à distribuição sazonal, os pi- • Fevereiro e março na região Cen-


cos de desastre ocorrem, segundo a Figu- tro-Oeste;
ra 10, nos meses de: • Agosto, novembro e dezembro na
região Sudeste;
• Abril e outubro na região Norte; • Janeiro, fevereiro e setembro a de-
• Março, abril e maio na região Nor- zembro na região Sul.
deste;
Capacitação em Gestão de Riscos 49

Figura 10. Distribuição dos principais desastres ocorridos no Brasil entre 1991 e 2010 (Fon-
te: CEPED/UFSC, 2012).

Para saber mais:


Para acessar a versão digital completa do Atlas Brasileiro de Desastres Naturais clique
aqui. Para acessar o Anuário Brasileiro dos Desastres Naturais dos anos de 2011 e 2012
clique aqui e aqui.

Codificação Brasileira de finições de desastres, servindo como base


Desastres para entidades e profissionais relacionadas
à gestão de desastres no território nacional.
A Codificação Brasileira de Desastres
(COBRADE), apresentada no Quadro 1, Esta codificação foi elaborada a partir
foi instituída por meio da Instrução Nor- da classificação utilizada pelo Banco de
mativa Nº 1, de 24 de agosto de 2012, em Dados Internacional de Desastres (EM-
substituição à Codificação de Desastres, DAT) do Centro para Pesquisa sobre
Ameaças e Riscos – CODAR (MINISTÉ- Epidemiologia de Desastres (CRED) e da
RIO DA INTEGRAÇÃO NACIONAL, Organização Mundial de Saúde (OMS/
2012). A COBRADE distingue duas cate- ONU). Além dos desastres constantes da
gorias de desastre: natural e tecnológico. classificação do EM-DAT, foram incluí-
Ela é fundamental para uniformizar as de- dos alguns desastres peculiares à realida-
de brasileira.

Para saber mais:


Para acessar a Instrução Normativa N° 1, de 24 de agosto de 2012, clique aqui.
50 O desafio de conviver com o risco

Quadro 1. Codificação brasileira de desastres naturais e tecnológicos.


1. DESASTRES NATURAIS

GRUPO SUBGRUPO TIPO SUBTIPO COBRADE


1. Tremor de terra 0 1.1.1.1.0
1. Terremotos
2. Tsunami 0 1.1.1.2.0
2. E manações vulcânicas 0 0 1.1.2.0.0
1. Blocos
1.1.3.1.1
1. Quedas,
tombamentos, 2. Lascas 1.1.3.1.2
rolamentos
3. Matacões 1.1.3.1.3
4. Lajes 1.1.3.1.4
3. Movimentos
1. Deslizamentos
de massa
2. Deslizamentos de solo e ou 1.1.3.2.1
1. GEOLÓGICOS rocha
3. Corrida de 1. Solo/Lama 1.1.3.3.1
massa 2. Rocha/Detrito 1.1.3.3.2
4. Subsidências e
0 1.1.3.4.0
colapsos
1. Erosão costeira/
0 1.1.4.1.0
marinha
2. Erosão de
0 1.1.4.2.0
4. Erosão margem fluvial
1. Laminar 1.1.4.3.1
3. Erosão
2. Ravinas 1.1.4.3.2
continental
3. Boçorocas 1.1.4.3.3
1. Inundações 0 0 1.2.1.0.0

2. HIDROLÓGICOS 2. Enxurradas 0 0 1.2.2.0.0

3. Alagamentos 0 0 1.2.3.0.0
(continua)
Capacitação em Gestão de Riscos 51

Quadro 1. Codificação brasileira de desastres naturais e tecnológicos. (continuação)


GRUPO SUBGRUPO TIPO SUBTIPO COBRADE
1. Ventos
Costeiros
1.3.1.1.1
(mobilidade
1. Ciclones de dunas)
1. Sistemas de grande 2. Marés de
escala/ escala regional Tempestade 1.3.1.1.2
(ressacas)
2. Frentes frias/
zona de 0 1.3.1.2.0
3. convergência
METEOROLÓGICOS 1. Tornados 1.3.2.1.1
2. Tempestade
1.3.2.1.2
de raios
1. Tempestade
2. Tempestades 3. Granizo 1.3.2.1.3
local/convectiva
4. Chuvas
1.3.2.1.4
Intensas
5. Vendaval 1.3.2.1.5
3. Temperaturas
1. Onda de calor 0 1.3.3.1.0
extremas
1. Estiagem 0 1.4.1.1.0
2. Seca 0 1.4.1.2.0
1. Incêndios em
Parques, Áreas
de Proteção
Ambiental
4. 3. Incêndio e Áreas de
1. Seca 1.4.1.3.1
CLIMATOLÓGICO florestal Preservação
Permanente
Nacionais,
Estaduais ou
Municipais.
4. Baixa umidade
0 1.4.1.4.0
do ar
(continua)
52 O desafio de conviver com o risco

Quadro 1. Codificação brasileira de desastres naturais e tecnológicos. (continuação)


GRUPO SUBGRUPO TIPO SUBTIPO COBRADE
1. Doenças
infecciosas 0 1.5.1.1.0
virais
2. Doenças
infecciosas 0 1.5.1.2.0
bacterianas
1. Epidemias
3. Doenças
infecciosas 0 1.5.1.3.0
parasíticas
4. Doenças
5. BIOLÓGICO infecciosas 0 1.5.1.4.0
fúngicas
1. Infestações de
0 1.5.2.1.0
animais
1. Marés
1.5.2.2.1
vermelhas
2. Infestações de
2. Infestações/pragas  2. Cianobactérias
algas
em 1.5.2.2.2
reservatórios
 3. Outras
0 1.5.2.3.0
infestações
2. DESASTRES TECNOLÓGICOS
GRUPO SUBGRUPO TIPO SUBTIPO COBRADE

1. D
 esastres siderais com 1. Queda de
0 2.1.1.1.0
riscos radioativos satélite

2. D
 esastres com
substâncias e 1. Fontes
1. DESASTRES equipamentos radioativas em
0 2.1.2.1.0
RELACIONADOS radioativos de uso em processos de
A SUBSTÂNCIAS pesquisas, indústrias e produção
RADIOATIVAS usinas nucleares
3. Desastres relacionados 1. Outras fontes
com riscos de intensa de liberação de
poluição ambiental Radionuclídeos 0 2.1.3.1.0
provocada por para o meio
resíduos radioativos ambiente
(continua)
Capacitação em Gestão de Riscos 53

Quadro 1. Codificação brasileira de desastres naturais e tecnológicos. (continuação)


GRUPO SUBGRUPO TIPO SUBTIPO COBRADE
1. Liberação
1. Desastres em
de produtos
plantas e distritos
químicos para
industriais, parques e
a atmosfera 0 2.2.1.1.0
armazenamentos com
causada por
extravasamento de
explosão ou
produtos perigosos.
incêndio
1. Liberação
de produtos
químicos nos 0 2.2.2.1.0
sistemas de
água potável
2. Desastres relacionados
à contaminação da 2. Derramamento
água de produtos
químicos em
ambiente 0 2.2.2.2.0
lacustre, fluvial,
marinho ou
2. DESASTRES aquíferos
RELACIONADOS 1. Liberação
A PRODUTOS produtos
PERIGOSOS químicos e
3. Desastres relacionados contaminação
0 2.2.3.1.0
a conflitos bélicos como
consequência
de ações
militares
1. Transporte
0 2.2.4.1.0
rodoviário
2. Transporte
0 2.2.4.2.0
ferroviário
3. Transporte
4. Desastres relacionados 0 2.2.4.3.0
aéreo
ao transporte de
produtos perigosos 4. Transporte
0 2.2.4.4.0
dutoviário
5. Transporte
0 2.2.4.5.0
marítimo
6. Transporte
0 2.2.4.6.0
aquaviário
(continua)
54 O desafio de conviver com o risco

Quadro 1. Codificação brasileira de desastres naturais e tecnológicos. (continuação)


GRUPO SUBGRUPO TIPO SUBTIPO COBRADE
1. Incêndios
em plantas
e distritos
0 2.3.1.1.0
3. DESASTRES industriais,
RELACIONADOS parques e
1. Incêndios urbanos
A INCÊNDIOS depósitos.
URBANOS
2. Incêndios em
aglomerados 0 2.3.1.2.0
residenciais

1. C
 olapso de
0 0 2.4.1.0.0
4. DESASTRES edificações
RELACIONADOS
A OBRAS CIVIS 2. Rompimento/colapso
0 0 2.4.2.0.0
de barragens

5. DESASTRES 1. Transporte rodoviário 0 0 2.5.1.0.0


RELACIONADOS 2. Transporte ferroviário 0 0 2.5.2.0.0
AO TRANSPORTE
3. Transporte aéreo 0 0 2.5.3.0.0
DE PASSAGEIROS
E CARGAS NÃO 4. Transporte marítimo 0 0 2.5.4.0.0
PERIGOSAS 5. Transporte aquaviário 0 0 2.5.5.0.0

Considerando esses códigos e os da- Desastres naturais


dos disponibilizados no Atlas Brasileiro
de Desastres Naturais (CEPED; UFSC, Enxurrada e Inundação
2012) e nos Anuários Brasileiros de De- Os desastres relacionados a enxurra-
sastres Naturais, elaborados pelo CENAD
das e inundações são os que acarretam
(2012;2013), será feita a seguir uma breve
maiores prejuízos econômicos ao país.
descrição dos desastres naturais e tecnoló-
gicos mais recorrentes no Brasil, bem como As enxurradas são desencadeadas
sua caracterização e ocorrência por região. por chuvas intensas e concentradas, e
consistem na elevação súbita dos rios
Capacitação em Gestão de Riscos 55

acompanhada de um escoamento de alta episódios de inundações e enxurradas,


velocidade e energia (CENAD, 2012), principalmente entre os meses de janei-
conforme o exemplo mostrado na Figu- ro e maio.
ra 11. Ao analisar a distribuição desses
processos no Brasil, nas Figuras 12 e 13,
nota-se que os mesmos afetam todos
os estados brasileiros e ocorrem em di-
ferentes épocas do ano dependendo da
região. Os estados com o maior núme-
ro de registros são Santa Catarina e Rio
Grande do Sul, principalmente nos me-
ses de janeiro. No Sudeste, o maior re-
gistro de ocorrências acontece no verão, Figura 11. Enxurrada ocorrida em Janeiro
de 2012, no Estado de Minas Gerais. (Fon-
sobretudo no mês de janeiro. O Nordes- te: registro fotográfico feito por Frederico
te, apesar de sofrer com a seca durante Haikal/Hoje em Dia/Folhapress).
a maior parte do ano, também enfrenta

Figura 12. Ocorrência de enxurradas por região brasileira, entre os anos de 1991 e 2010
(Fonte: CEPED/UFSC, 2012).
56 O desafio de conviver com o risco

Figura 13. Ocorrência mensal de enxurradas por região brasileira, entre os anos de 1991 e
2010 (Fonte: CEPED/UFSC, 2012).

As inundações consistem no aumen- como mostrado no exemplo da Figura


to lento e previsível dos níveis de água 14. Assim como as enxurradas, as inun-
em cursos e corpos hídricos, gerando um dações são comuns em todo o Brasil (Fi-
transbordamento que se mantém em si- guras 15), sendo que o Sudeste apresenta
tuação de cheia durante algum tempo e, a o maior número de casos, o que pode
seguir, escoa gradualmente. Esse tipo de estar associado às características das ba-
desastre é ocasionado, geralmente, por cias dessa região. A incidência mensal de
chuvas prolongadas em áreas de planície inundações é, de maneira geral, maior
(CENAD, 2012). Dessa forma, sua área nos meses do verão, principalmente no
de impacto é, em muitos casos, extensa, Sudeste.

Figura 14. Inundação ocorrida em 2014 no Rio Madeira, Acre. (Fonte: Agência de Notícias
do Acre, 2014).
Capacitação em Gestão de Riscos 57

Figura 15. Ocorrência de inundações por região brasileira entre os anos de 1991 e 2010
(Fonte: CEPED/UFSC, 2012).

Figura 16. Ocorrência mensal de inundações por região brasileira, entre os anos de 1991 e
2010 (Fonte: CEPED/UFSC, 2012).

Seca e estiagem de baixa ou ausência de chuvas em uma


determinada região, de modo que a fal-
Os eventos de seca e estiagem se ca- ta de precipitação provoque grave dese-
racterizam por períodos prolongados quilíbrio hidrológico (CENAD, 2012).
58 O desafio de conviver com o risco

Os danos gerados por esse fenômeno pecuária (Figura 17) e carência de água
são extremos, tendo em vista a impor- para consumo humano. Além disso,
tância da água para a manutenção da esses processos provocam a queda da
vida. Suas consequências estão asso- umidade do ar, facilitando a ocorrência
ciadas à escassez do regime hídrico dos de queimadas.
rios, ocasionando danos à agricultura e

Figura 17. Seca no Nordeste Brasileiro em 2013, a qual levou a decretação de Situação de
Emergência em 1.470 municípios (Fonte: ANDA, 2013).

Os maiores registros de secas e es- Vale lembrar a seca histórica ocorri-


tiagens se dão nas regiões Nordeste, Sul da em 1877/1879, que foi uma das mais
e Sudeste (Figura 18), sendo distribuí- graves secas que atingiram todo o Nor-
dos ao longo de todo o ano conforme deste. O Ceará, intensamente atingido
mostra o gráfico da Figura 19. Na re- pela seca, tinha cerca de 800 mil habi-
gião Nordeste, os desastres relaciona- tantes à época, dos quais 120 mil (15%)
dos à seca e estiagem ocorrem durante migraram para a Amazônia e 68 mil para
todo o ano. Já na região Sul nota-se cla- outros Estados. Aproximadamente me-
ramente a grande incidência de secas e tade da população da capital Fortaleza
estiagens nos meses de verão. pereceu e a economia foi arrasada, assim
como os rebanhos.
Capacitação em Gestão de Riscos 59

Figura 18. Ocorrência de secas e estiagens por região brasileira, entre os anos de 1991 e
2010. (Fonte: CEPED/UFSC, 2012).

Figura 19. Ocorrência mensal de secas e estiagens por região brasileira, entre os anos de
1991 e 2010 (Fonte: CEPED/UFSC, 2012).

Movimentos de massa tipos de desastres são devastadoras e


estão associadas à perda total ou par-
Os movimentos de massa envol- cial de moradias, deixando populações
vem o deslocamento de solo ou rocha desabrigadas e um grande número de
vertente abaixo. Em locais com ocupa- mortos (Figura 20).
ção humana, as consequências destes
60 O desafio de conviver com o risco

Figura 20. Movimentos de massa ocorridos em janeiro de 2011 na região serrana do Esta-
do do Rio de Janeiro.

Os movimentos do tipo deslizamento Sudeste e Norte, principalmente entre os


e queda de blocos são os mais recorrentes meses de novembro e março na Região Su-
no Brasil. As ocorrências de movimentos deste e de janeiro a fevereiro na Região Sul,
de massa são mais comuns nas regiões Sul, conforme apresentado nas Figuras 21 e 22.

Figura 21. Ocorrência de movimentos de massa por região brasileira, entre os anos de
1991 e 2010 (Fonte: CEPED/UFSC, 2012).
Capacitação em Gestão de Riscos 61

Figura 22. Ocorrência mensal de movimentos de massa por região brasileira, entre os anos
de 1991 e 2010 (Fonte: CEPED/UFSC, 2012).

Vendaval plantações e a fiações elétricas, acidentes


provocados pelos objetos transportados
Os vendavais acontecem em decor- pelo vento e danos em habitações. A Fi-
rência de forte deslocamento de uma gura 23 mostra um vendaval ocorrido
massa de ar, estando ligado a diferen- em 2013 no município de Porto Alegre/
ças nos valores de pressão atmosférica RS, o qual causou a queda de árvores em
(CENAD, 2012). Seus danos estão as- uma via pública com um elevado fluxo
sociados à queda de árvores, danos às de automóveis.

Figura 23. Queda de árvores causada por um vendaval ocorrido em Janeiro de 2013 no
município de Porto Alegre, RS. (Fonte: Isabel Marchesan/Portal Terra).
62 O desafio de conviver com o risco

Quanto a sua distribuição geográfica e na Região Sul do país, conforme é possível


sazonal por região brasileira, os vendavais observar no mapa e no gráfico das Figuras
ocorrem em todas as localidades do Bra- 24 e 25, respectivamente.
sil, porém com maior número de registros

Figura 24. Ocorrência de vendavais por região brasileira, entre os anos de 1991 e 2010
(Fonte: CEPED/UFSC, 2012).

Figura 25. Ocorrência mensal de vendavais por região brasileira, entre os anos de 1991 e
2010 (Fonte: CEPED/UFSC, 2012).
Capacitação em Gestão de Riscos 63

Granizo

O granizo consiste na precipitação


sólida de grânulos de gelo de diâmetro
igual ou superior a 5 mm. Esses proces-
sos causam danos a plantações (Figura
26), telhados (Figura 27) e redes elétri-
cas, bem como a queda de árvores, o que
acaba por desencadear transtornos no
trânsito, entre outros.
Figura 27. Danos decorrentes de uma pre-
cipitação de granizo ocorrida em 2011 no
Estado do Paraná. (Fonte: http://molinacuri-
tiba.blogspot.com.br/2011/06/parana-chu-
vasde-granizo-causam-prejuizo.html).

As precipitações de granizo ocorrem


com maior frequência na região Sul, com
ocorrência também na região Sudeste,
Figura 26. Danos à agricultura decorrentes sendo que o maior número de registros
de uma precipitação de granizo ocorrida se dá nos meses de setembro e outubro,
em 2011 no Estado do Rio Grande do Sul.
(Fonte: Jornal Correio do Povo). como mostram as Figuras 28 e 29.

Figura 28. Ocorrência de precipitações de granizo por região brasileira, entre os anos de
1991 e 2010 (Fonte: CEPED/UFSC, 2012).
64 O desafio de conviver com o risco

Figura 29. Ocorrência mensal de precipitações de granizo por região brasileira, entre os
anos de 1991 e 2010 (Fonte: CEPED/UFSC, 2012).

Geada tato com a superfície, que possui alguma


umidade, condensa sobre o solo com a
A geada é produzida quando a super- gradual redução da temperatura e conge-
fície terrestre perde muita energia para a la quando a mesma atinge valores abaixo
atmosfera devido à ausência de nuvens. dos 0°C (Figura 30). Os danos estão asso-
A camada da atmosfera que está em con- ciados, principalmente, à agricultura.

Figura 30. Fenômeno de geada ocorrido em julho de 2013 no município de Santana do


Livramento/RS. (Fonte: registro fotográfico feito por Fabian Ribeiro/Serviço de produção
fotográfica Futura Press).

A geada é um evento bastante localiza- mero de registros se dá nos meses de julho


do, o qual ocorre em apenas quatro esta- a setembro na região Sul e nos meses de
dos brasileiros: Rio Grande do Sul, Santa junho e julho no Sudeste do país, confor-
Catarina, Paraná e São Paulo. O maior nú- me ilustrado nas Figuras 31 e 32.
Capacitação em Gestão de Riscos 65

Figura 31. Ocorrência de geada na região Sul e Sudeste, entre os anos de 1991 e 2010
(Fonte: CEPED/UFSC, 2012).

Figura 32. Ocorrência mensal de geada por região brasileira, entre os anos de 1991 e 2010
(Fonte: CEPED/UFSC, 2012).

Erosão

A erosão consiste no desgaste do solo e


das rochas e seu transporte, em geral, feito
pela água da chuva, pelo vento ou, ainda,
pela ação do gelo. É caracterizada como
processo natural que, em grandes propor-
ções, pode se tornar um desastre (Figura
33). Os desastres vinculados aos processos
erosivos concentram-se, principalmente, Figura 33. Processo de erosão ocorrido em
2012 no Estado de São Paulo. (Fonte: regis-
nas regiões Centro-Oeste, Nordeste e Sul, tro fotográfico feito por Hélio Cezar de Oli-
conforme apresentado na Figura 34. veira/Portal G1).
66 O desafio de conviver com o risco

Figura 34. Ocorrência de erosões por região brasileira, no ano de 2011 (Fonte: CENAD, 2012).

Incêndio Florestal pelo homem (queimadas propositais ou


por negligência), ou por causa natural
Os incêndios florestais consistem na (como descargas elétricas e raios). Os
propagação do fogo na vegetação, sem danos estão associados principalmente à
controle (CENAD, 2013). Os incêndios alteração de ecossistemas, perdas agríco-
florestais podem ser tanto provocados las e à poluição atmosférica (Figura 35).

Figura 35. Incêndio florestal ocorrido em março de 2013 na Reserva Ecológica do Taim/RS.
(Fonte: registro fotográfico por Henrique Ilha/Jornal Correio do Povo).
Capacitação em Gestão de Riscos 67

Apesar de ocorrerem todas as regiões e setembro (Figura 36). Por outro lado,
do Brasil, os incêndios florestais registra- de acordo com o PREVFOGO/IBAMA,
dos no atlas apontam, principalmente, observa-se que o fogo tem ocorrências
incêndios na região Norte, (Figura 35). ao longo de todo ano, sendo que a maior
No entanto, outras fonte de dados oficias, parte dos incêndios florestais ocorre en-
como o PREVFOGO/IBAMA, apontam tre os meses de julho e novembro, com
para registros de incêndios florestais em pico marcante nos meses de agosto e se-
todo o Brasil. tembro. Entre dezembro e abril, a inci-
Quanto à distribuição mensal, os re- dência de incêndios é muito menor, salvo
gistros destes desastres, segundo o atlas, algumas exceções locais, como o sul da
concentram-se entre os meses de julho Bahia e o estado de Roraima.

Figura 36. Registro de incêndios florestais por região brasileira, entre os anos de 1991 e
2010 (Fonte: CEPED/UFSC, 2012).

As regiões Centro-Oeste, Sul e Su- ocorrem principalmente em dezembro


deste seguem o padrão nacional, já na e janeiro.
região Norte, outubro é o mês onde se No Nordeste, a época em que se con-
concentram as queimadas, apresen- centram as queimadas tende a atrasar
tando atraso em relação à tendência em relação ao período nacional também,
nacional. Roraima e Amapá, que têm como na região Norte. Em particular, sul da
a maior parte de seus territórios no Bahia, Pernambuco e Paraíba tendem a ter
hemisfério norte, fogem da tendência esse atraso mais pronunciado, queimando
nacional, uma vez que os incêndios mais em dezembro e no início do ano.
68 O desafio de conviver com o risco

Figura 37. Ocorrência mensal de incêndios florestais por região brasileira, entre os anos de
1991 e 2010 (Fonte: CEPED/UFSC, 2012).

Desastres Tecnológicos volume de danos nos países em desenvol-


vimento em função da maior vulnerabi-
Embora os desastres naturais se des- lidade sociocultural, econômica e tecno-
taquem no Brasil, devido aos danos e lógica dos mesmos (CASTRO, 2003). Os
prejuízos ocasionados pelos mesmos, desastres tecnológicos são recorrentes no
há diversas modalidades de riscos pou- Brasil, mas nem sempre são extremos ao
co difundidas no país. Esse é o caso dos ponto de gerar uma decretação de anor-
desastres tecnológicos, os quais precisam malidade, não sendo, portanto, registra-
de maior visibilidade, no sentido de pre- dos na SEDEC. Nos estados e municípios,
parar a população quanto às formas de contudo, esses desastres geram mobiliza-
autoproteção, reduzindo assim a vulne- ção do SINPDEC em nível local.
rabilidade das comunidades ameaçadas. Os principais desastres tecnológicos
Os desastres tecnológicos são uma no Brasil estão associados ao manuseio,
das consequências indesejáveis do de- transporte e destinação de produtos peri-
senvolvimento econômico e tecnológi- gosos e de substâncias radiológicas (Figu-
co. Estes desastres se relacionam com o ra 38), incêndios (Figura 39), colapso de
incremento das trocas comerciais e com edificações (Figura 40), rompimento de
o crescimento demográfico das cidades, barragens (Figura 41), descarte incorreto
quando não acompanhado pelo corres- de resíduos (Figura 42). Além disso, Cas-
pondente desenvolvimento de uma es- tro (2003) destaca os desastres em plantas
trutura de serviços essenciais que seja e distritos industriais; campos de pros-
compatível e adequada ao crescimento. pecção de petróleo; instalações de mine-
ração; terminais de transporte; depósitos
Apesar de estes desastres ocorrerem e entrepostos de produtos perigosos; fá-
com maior frequência nos países mais de- bricas e depósitos de fogos de artifícios,
senvolvidos, costumam provocar maior pesticidas, explosivos e munições.
Capacitação em Gestão de Riscos 69

Figura 38. Acidente com produtos perigo-


sos ocorrido em São Paulo/SP em uma via de
alto fluxo de veículos automotivos (Fonte:
registro fotográfico por Oslaim Brito). Figura 41. Barragem de rejeitos de bauxita
que rompeu em 2007, no município de Miraí,
causando graves danos ambientais e patrimo-
niais (Fonte: Foto de Axel Grael, 2007).

Figura 39. Incêndio ocorrido na Boate Kiss


no município de Santa Maria/RS em janeiro
Figura 42. Acidente radioativo ocorrido
de 2013 (Fonte: Jornal Zero Hora).
em Goiânia (1987), provocado pela aber-
tura de uma cápsula de Césio-137 (Fonte:
CNEN-CRCN-CO - Projeto Goiânia).

REFERÊNCIAS

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tra Modernidade. São Paulo: Editora 34, 2010.

CASTRO, A. L. C. Manual de planejamento


em Defesa Civil: Volume IV. Brasília: Minis-
tério da Integração Nacional, Secretaria de
Defesa Civil, 2003. 68 p.
Figura 40. Queda de um edifício localiza-
do no centro do Rio de Janeiro/RJ em 2012 CENAD, Centro Nacional de Gerenciamen-
(Fonte: portal G1).
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70 O desafio de conviver com o risco

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(Org.). Florianópolis: Universidade federal de Federal, e para o reconhecimento federal
Santa Catarina, Centro Universitário de Estu- das situações de anormalidade decretadas
dos e Pesquisas sobre desastre, 2012. 94 p. pelos entes federativos e dá outras provi-
EIRD, Estratégia Intenacional para a redução dências. Brasília, 2012.
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IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Inundação. Disponível em: <http://rhama.
Estatística. Censos Demográficos de 1940, net/wordpress/?p=281>. Acesso em: 11 set.
1950, 1960, 1970, 1980, 1991, 2000 e 2010. 2013.
4
ENXERGANDO OS
COMPONENTES
DO RISCO
72 Enxergando os componentes do risco

Este tópico tem por objetivo possibilitar ao aluno:


• Compreender os conceitos de risco residual, instalado, aceitável, tolerável e into-
lerável;
• Reconhecer os indicadores fundamentais para a identificação da ameaça, suscetibi-
lidade e perigo, para os diferentes tipos de processos;
• Compreender os diferentes tipos de vulnerabilidade e como os mesmos podem ser
identificados;
• Compreender a importância da utilização de indicadores.

O risco e suas classificações


Existem diversos tipos e classificações TA, 2013). Este tipo de identificação de
de risco, desta forma, para se proceder a risco tem grande sucesso no Brasil e ajuda
sua identificação, se faz necessária uma a reconhecer situações críticas e a hierar-
discussão desses termos. quizar a aplicação de recursos em obras e
outras medidas de redução de risco.
Risco instalado
Por Exemplo: No caso de deslizamentos,
O risco instalado pode ser compre- o risco instalado é identificado com base
endido como o risco efetivo, atual ou vi- em feições de instabilidade (Figura 1) e
sível existente em áreas ocupadas (GRÉ, em condições que tendem a aumentar o
risco, como, por exemplo:
2013). Essa terminologia foi inicialmen- • Existência de trincas e degraus de
te introduzida pelo Instituto de Pesqui- abatimento em casas e no terreno;
sas Tecnológicas (IPT) no mapeamento • Inclinação de estruturas rígidas como
árvores, postes, paredes e muros;
de deslizamentos urbanos no estado de • Presença de blocos de rocha e mata-
São Paulo e atualmente é utilizada pela cões próximos à moradia;
CPRM nos mapeamentos elaborados • Presença de lixo e entulho nas en-
costas;
para o Plano Nacional de Gestão de Ris- • Lançamento de águas servidas dire-
cos e Resposta a Desastres Naturais do tamente na superfície;
Governo Federal (PPA 2012 – 2015). • Distância da moradia ao topo ou
base dos taludes;
A identificação do risco instalado é • Elevada inclinação da encosta;
• Existência de cortes com geometrias
realizada com base na avaliação de evi- inadequadas e cortes executados de
dências do terreno, ou seja, condições maneira ineficiente e sem compacta-
“visíveis” de que eventos adversos podem ção;
• Presença de árvores que prejudicam
ocorrer, a qual é realizada por meio da a estabilidade das encostas, como
execução de trabalhos de campo. Nestes por exemplo, bananeiras;
casos, não há uma análise rigorosa de • Qualidade do sistema de drenagem;
• Presença de colúvios e corpo de tálus;
probabilidade matemática ou do grau de • Vazamento de água em tubulações;
perda dos elementos em risco, sendo uma • Presença de cicatrizes de deslizamen-
avaliação empírica guiada por um conjun- tos próximos à moradia.
to de regras construídas a partir de experi- Fonte: elaborado a partir de Carvalho
ências bem sucedidas (BRESSANI; COS- et al. (2007)
Capacitação em Gestão de Riscos 73

A B C

Figura 1: Feições de instabilidade: a) trincas; b) degraus de abatimento no terreno; c) incli-


nação de estruturas rígidas como árvores.

Se em determinado local os indicado-


Por exemplo: Nos processos hidrológi-
cos de inundações e enxurradas, o risco res mostrados nos itens anteriores forem
instalado é identificado com base em em grande número, e em posições e seve-
indicadores de que os mesmos podem
der desencadeados, como por exemplo:
ridade críticas, envolvendo residências,
população ou infraestruturas, se define
• Registros de ocorrências de inunda- que essa área apresenta um determinado
ções e enxurradas;
grau de risco instalado.
• Cotas máximas dos corpos de água;
• Desmatamento das margens dos cor- É importante salientar que, embora
pos d’água e seu consequente assore-
amento; a identificação do risco instalado tenha
• Impermeabilização dos terrenos; grande sucesso no gerenciamento dos ris-
• Presença de lixo e entulho nos ca- cos, ela representa uma avaliação dos pro-
nais de drenagem;
• Ocupação desordenada de terrenos cessos que estão “em andamento”. Proces-
próximos ao eixo da drenagem; sos rápidos, como enxurradas, corridas de
• Forma do terreno.
detritos, tornados, que não geram evidên-
Fonte: elaborado a partir de Carvalho et cias no terreno, são mais difíceis de terem
al. (2007)
seu risco instalado identificado.

• Para obter maiores informações sobre a identificação do risco instalado de desliza-


mento clique aqui para assistir o vídeo elaborado pelo IPT.

Risco aceitável, risco tolerável e não considera que sejam justificáveis gastos
risco intolerável para reduzir o risco, já que não considera o
mesmo relevante. Portanto, a identificação
O risco aceitável é aquele que uma
do risco aceitável advém de uma percepção
determinada sociedade ou população de-
geral da sociedade, a qual varia ao longo
terminou como admissível, após conside-
do tempo e com o nível de experiência das
rar todas as consequências associadas ao
pessoas com desastres. É importante ter em
mesmo. Em outras palavras, é o risco que
mente que, quando um indivíduo ou uma
a população vulnerável está preparada para
sociedade “aceita” um risco, isso não signi-
aceitar sem se preocupar com a sua gestão
fica que o mesmo é inexistente.
(FELL et al., 2008). Neste caso, a sociedade
74 Enxergando os componentes do risco

O risco tolerável, por outro lado, é quência de acidentes podem alterar esta
aquele que a sociedade pode conviver de percepção de risco tolerável (BRESSANI;
modo a garantir certos benefícios, como COSTA, 2013).
por exemplo, a proximidade do local de
O risco intolerável consiste no risco
trabalho ou a determinados serviços.
que não pode ser tolerado ou aceito pela
Constitui-se em um risco em que não
sociedade, uma vez que os benefícios pro-
são feitos esforços efetivos para sua redu-
porcionados não compensam os riscos.
ção (FELL et al., 2008). Assim, questões
Assim como o risco aceitável e o tolerável,
sociais e econômicas podem levar uma
ele varia conforme a percepção do indiví-
população a tolerar um risco maior do
duo ou da sociedade, sendo que para uma
que outras populações. O risco tolerável
determinada pessoa ele pode ser intole-
é maior do que o risco aceitável, embora
rável enquanto que para outra é um risco
na prática seja difícil fazer essa diferen-
tolerável ou até mesmo aceitável.
ciação numérica. Como risco tolerável é
o risco aceito pela sociedade por ques- A Figura 2 apresenta a diferença con-
tões sociais e/ou econômicas, mudanças ceitual entre o risco aceitável, tolerável e
no cenário econômico local ou na fre- inaceitável.
Risco Inaceitável
O risco é inadmissível sob as condições existentes,
pois os possíveis danos e prejuízos sào superiores aos
Zona de benefícios. Nesse caso, ações devem ser tomadas para
inaceitabilidade que ocorra sua redução.
Nível de risco

O risco é tolerável, ou seja, é possível conviver com


o mesmo devido aos benefæicios associados e à
Zona de inviabilidade de reduzi-lo. As medidas de redução de
tolerância risco não são tão vantajosas quando comparadas com
os benefícios proporcionados pela tolerância ao risco.

O risco é aceitável, portanto, a sua frequência e os


Zona de possíveis danos e prejuízos causados pelo mesmo são
aceitabilidade considerados insignificantes.

Risco Aceitável
Figura 2: Esquema representativo da diferenciação entre risco aceitável, tolerável e inacei-
tável. Fonte: adaptado de <http://www.ep-consult.co.uk/service/hse-risk-assessment/quanti-
tative-risk-assessment>.

Exemplo: Algumas pessoas moram em locais suscetíveis a inundação e optam por con-
viver com esse risco, pois o benefício de permanecer nesse local é superior ao de se
mudar para outro lugar.

O juízo entre o limite do risco tolerá- econômicas de cada uma das opções de
vel e aceitável exige um elevado grau de ação possíveis, em termos de custo/bene-
responsabilidade política e deve levar em fício. A equação custo/benefício tende a
consideração as consequências sociais e aumentar na medida em que cresce o nível
Capacitação em Gestão de Riscos 75

de qualidade de vida e, consequentemen- vez ele pode ser reduzido com medidas
te, de exigência da sociedade a altos níveis de mitigação, mas não completamente
de proteção e de um baixo grau de risco eliminado (BRESSANI; COSTA, 2013).
(MORAES, 2013). Os fatores que influen-
O risco residual pode ser entendido,
ciam na percepção da comunidade do ris-
também, como o risco que permanece
co tolerável, intolerável e aceitável serão
após a ocorrência de um desastre. Esse
abordados posteriormente, no Capítulo 6.
conceito é muito aplicado aos desliza-
Risco residual mentos, onde os setores de riscos resi-
duais são considerados aqueles extre-
O risco residual é um risco remanes- mamente críticos, onde o material não
cente, ou seja, um risco que permanece mobilizado pelos deslizamentos está
após a implantação de programas de re- prestes a se movimentar, constituindo-se
dução de risco. De uma maneira geral, dessa forma, em riscos instalados.
sempre existirá um risco residual, uma

Por exemplo: O Serviço Geológico do Estado do Rio de Janeiro (DRM-RJ) realiza a iden-
tificação do risco remanescente ou residual após a ocorrência de escorregamentos. Para
tanto, as cicatrizes dos deslizamentos ocorridos são mapeadas, juntamente com as áreas
potencialmente instáveis, ou seja, o risco instalado. A Figura 3 apresenta o risco remanes-
cente do deslizamento do Bairro Independência, ocorrido em 2013 em Petrópolis, RJ. Em
amarelo estão demarcadas as cicatrizes dos escorregamentos, e em vermelho, os polígo-
nos com as casas para as quais a execução de obras de contenção ou a remoção da po-
pulação é inquestionável, devido à alta probabilidade de ocorrência de novos processos.

Figura 3: Risco remanescente dos deslizamentos Bairro Independência, Petrópolis, Rio de


Janeiro, 2013. Fonte: DRM (2013).
Capacitação em Gestão de Riscos 76

Identificando a suscetibilidade
A suscetibilidade, conforme des- Os fatores condicionantes que in-
crito anteriormente no item 2.4, corres- fluenciam na suscetibilidade variam se-
ponde à propensão de que determina- gundo o tipo de evento analisado. A Tabela
dos locais sejam afetados por um tipo 1 apresenta os fatores de maior relevância
de desastre, sem considerar seus even- para a identificação da suscetibilidade,
tuais danos. Sua identificação resulta da conforme diferentes tipos de processo. Os
análise conjunta dos fatores predispo- julgamentos sobre o nível de suscetibilida-
nentes que influenciam na ocorrência de irão variar conforme a área de estudo.
de desastres. Essa etapa é fundamental Dessa forma não é possível relacionar, por
para a predição de locais sujeitos a no- exemplo, determinados graus de declivi-
vos eventos e, consequentemente, para dade com uma alta ou baixa suscetibilida-
a adoção de medidas preventivas e mi- de a deslizamentos. Essa avaliação deve ser
tigadoras adequadas. realizada com base no conhecimento de
especialistas locais, caso a caso.

Tabela 1: Fatores condicionantes utilizados na identificação da suscetibilidade para


cada tipo de processo.

Tipo de processo Fatores condicionantes

• Declividade
• Forma da encosta
• Orientação da encosta
• Acúmulo de fluxo
• Amplitude da encosta
• Densidade e/ou distância de lineamentos
• Tipo de rocha
• Grau de alteração
Deslizamento
• Aspectos estruturais
• Tipo de solo
• Propriedades geotécnicas e hidrológicas do solo
• Umidade do solo
• Nível do lençol freático
• Unidades geomorfológicas
• Características da vegetação
• Presença de afloramentos rochosos

continua
77 Enxergando os componentes do risco

Tabela 1: Fatores condicionantes utilizados na identificação da suscetibilidade para


cada tipo de processo.
Tipo de processo Fatores condicionantes
• Declividade
• Forma da encosta no perfil e no plano
• Orientação da encosta
• Direção do fluxo
• Acúmulo de fluxo
Erosão hídrica • Tipo de rocha
• Tipo de solo
• Uso do solo e cobertura vegetal
• Erosividade
• Erobidilidade
• Unidades geomorfológicas
• Rede hidrográfica
• Declividade
• Forma da encosta no perfil e no plano
• Excedente hídrico
• Tipo de rocha e suas propriedades de permeabilidade
• Tipo de solo
• Uso do solo e cobertura vegetal
Inundações
• Escoamento superficial
• Área da bacia de drenagem
• Forma da bacia
• Gradiente hidráulico do corpo d’água
• Índice de circularidade da bacia
• Índice de rugosidade
• Densidade de drenagens
• Velocidade do vento
Vendavais
• Direção do vento
• Latitude
• Continentalidade
Granizo
• Nuvens de desenvolvimento vertical associadas a frentes
frias
continua
Capacitação em Gestão de Riscos 78

Tabela 1: Fatores condicionantes utilizados na identificação da suscetibilidade para


cada tipo de processo.
Tipo de processo Fatores condicionantes
• Temperatura do ar
• Umidade relativa do ar
• Velocidade do vento
• Direção do vento
• Altitude
• Declividade
• Exposição solar
Incêndios florestais • Balanço hídrico
• Uso do solo e cobertura vegetal
• Quantidade e dimensão dos materiais combustíveis
• Distribuição vertical e horizontal dos combustíveis
• Combustibilidade
• Proximidade da rede viária
• Densidade populacional
• Limite com as áreas florestais
• Declividade
• Tipo de solo
• Grau de fragilidade a erosão
Desertificação • Erosividade
• Uso do solo e cobertura vegetal
• Balanço hídrico
• Evapotranspiração
• Temperatura do ar
• Umidade relativa do ar
Secas e estiagens • Precipitação pluvial mensal e/ou anual
• Circulação dos ventos
• Correntes marítimas
• Rota de transporte
Produtos perigosos • Tipo de transporte
• Tipo de produto
Fonte: Elaborado a partir de Cardoso et al. (2004); Van Westen et al. (2008); Julião et al. (2009);
Ferreira (2010).

Por exemplo: No Maciço da Tijuca (RJ), as declividades mais críticas para a ocorrência de des-
lizamentos variam de 37° a 55°, ocorrendo principalmente nas porções côncavas do relevo
(FERNANDES et al., 2001). Já no município de Porto Alegre (RS), os deslizamentos ocorrem
predominantemente em encostas com declividades entre 16° e 26°, em encostas convexas
(BRITO, 2014). Dessa forma constata-se que os limiares críticos dos fatores condicionantes
variam amplamente e devem ser delimitados com base nas características da área de estudo.

Observação: é importante salien- Os indicadores a serem utilizados irão


tar que os indicadores apresentados na variar conforme a área de estudo, escala
Tabela 1 tratam apenas de uma sugestão. do trabalho e seus objetivos.
Capacitação em Gestão de Riscos 79

Identificando a ameaça e o perigo


A identificação da ameaça e do perigo • As características naturais da área,
é realizada com base nos mesmos fatores. ou seja, a suscetibilidade do terre-
Dessa forma, sua explicação será realizada no. Ela é identificada por meio dos
de forma conjunta. A diferenciação en- fatores condicionantes, conforme
tre esses dois componentes se dá apenas apresentado anteriormente no
na sua avaliação, onde o perigo indicará item 4.2 (Tabela 1). Eles são o con-
a probabilidade de que uma ameaça es- junto das características intrínse-
pecífica (e, portanto, com danos) ocorra cas do meio físico natural.
em um dado período de tempo de uma
maneira quantitativa. Por outro lado, a Por exemplo: Entre os fatores condicio-
avaliação da ameaça indicará qualitativa- nantes dos deslizamentos, destacam-se:
mente uma condição com potencial para • Declividade;
causar consequência indesejável, sem ter • Tipos de rocha e seu grau de alte-
ração;
o seu tempo de recorrência conhecido. • Propriedades geotécnicas e hidroló-
gicas do solo;
Por exemplo: Na identificação do perigo • Nível do lençol freático;
a deslizamentos, devem-se considerar • Tipo de vegetação.
além dos indicadores de suscetibilidade
natural do terreno, as características do
uso e ocupação do solo e o tempo de • Os agentes efetivos que deflagram
retorno de chuvas que deflagrem esses os desastres, ou seja, que são direta-
processos como componentes do cálcu-
mente responsáveis pela ocorrência
lo de probabilidade de sua ocorrência.
Já na identificação da ameaça se consi- dos desastres. Eles são diferencia-
deram os mesmos fatores, no entanto, dos em preparatórios e imediatos.
sem mensurar a sua probabilidade de Os agentes preparatórios são di-
ocorrência.
nâmicos e auxiliam no desenca-
deamento dos desastres, mas sem
Salienta-se que a maior parte dos estu- iniciar esses processos. Os agentes
dos brasileiros identifica apenas a ameaça, imediatos, também chamados de
devido à dificuldade de determinar quanti- desencadeantes, representam a
tativamente a probabilidade de ocorrência causa imediata do desastre.
dos eventos adversos. Apesar dessa limita-
ção, esses estudos são fundamentais para o
Por exemplo: Entre os agentes pre-
planejamento estratégico e ajudam a orien- paratórios dos deslizamentos, desta-
tar as ações do ordenamento do território, cam-se:
no sentido de evitar a ocupação de áreas • Chuva de baixa intensidade;
• Erosão pela água e vento;
com maiores ameaças. • Variação de temperatura e umidade;
Ao realizar a identificação da ameaça • Ação de fontes e mananciais;
e perigo, de uma maneira geral, devem-se • Oscilação do nível de lagos e mares
e do lençol freático;
considerar os seguintes componentes: • Ação do homem.
80 Enxergando os componentes do risco

Dentre os agentes apresentados, a ação


Por exemplo: Entre os agentes efetivos antrópica pode ser considerada como o
imediatos dos deslizamentos, desta-
principal agente efetivo, principalmente
cam-se:
• Chuva intensa e/ou prolongada; por meio do tipo de uso e ocupação do
• Vibrações; solo. Em muitos casos, a ação antrópica
• Terremotos; agrava e intensifica os desastres.
• Ondas;
• Vento;
• Ação do homem.

Por exemplo: Entre os agentes efetivos (preparatórios e imediatos) relacionados com


a ação antrópica, destacam-se:

• Retirada da mata ciliar e desmatamento das encostas;


• Impermeabilização do solo (concreto, asfalto, etc.);
• Ocupação desordenada de encostas íngremes e planícies de inundação;
• Lançamento de lixo e entulho nas encostas e rios;
• Execução de cortes e aterros com geometrias inadequadas;
• Vazamentos de tubulação;
• Lançamento de águas servidas na superfície;
• Realização de queimadas sem controle.

No entanto, salienta-se que raramen- A identificação da vulnerabilida-


te um desastre pode ser associado a um de inclui o reconhecimento de todas as
único e definitivo fator condicionante e características e circunstâncias de uma
agente efetivo, devendo ser observado comunidade, sistema ou bem exposto a
como o produto de uma cadeia de fatores uma ameaça ou processo perigoso e, por
e efeitos que acabam determinando sua esta razão, a identificação dos elementos
deflagração. que a compõem deve ser focada nas suas
características físicas, funcionais, e so-
Apontam-se os seguintes passos na
cioambientais.
identificação da ameaça e perigo:
Por exemplo: Para o caso de desliza-
1. quais são os processos naturais e mento, alguns especialistas definem a
da ação humana responsáveis por vulnerabilidade como o grau de perda
de um dado elemento, ou grupo de
este perigo? elementos expostos, em uma área sus-
2. em que condições a sua evolução cetível. Para propriedades, construções
poderá produzir danos? e estruturas, a perda será indicada pela
relação do valor dos prejuízos relativos
3. qual a probabilidade (qualitativa,
com valor da propriedade; para pesso-
no caso da ameaça) deste fenôme- as, será a probabilidade que uma vida
no físico ocorrer em uma deter- em particular seja perdida, caso a pes-
minada área em um intervalo de soa seja afetada pelo deslizamento.
tempo?
Capacitação em Gestão de Riscos 81

Identificando as vulnerabilidades
Deve-se levar em conta, porém, que A
a exposição (tópico 2.8 do capítulo 2) é
o principal fator causador de vítimas,
embora outras características socioe-
conômicas sejam também importantes
para a determinação da vulnerabilidade.
Assim, a vulnerabilidade é identifi-
cada primariamente pela sua localização
em relação à ameaça e suas característi-
cas. No tópico 5.3 serão vistos mais deta- B
lhadamente os aspectos da vulnerabilida-
de para a realização do seu mapeamento
e avaliação.
Embora os conceitos de exposição e
vulnerabilidade sejam claramente dife-
rentes (rever tópico 2.7 do capítulo 2),
eles têm uma grande interação e não po-
dem ser dissociados. Figura 4: Vulnerabilidade: a) escola vul-
nerável a ocorrência de solapamento de
margem; b) vulnerabilidade a ocorrência de
Por exemplo: inundações. (Fonte: http://g1.globo.com e
http://oestemania.net).
• Uma casa só estará vulnerável à
inundação se estiver na área atingí-
vel pelo evento, ou seja, se estiver Vulnerabilidade física
exposta à esta ameaça. A identifi-
cação da vulnerabilidade neste caso Refere-se às condições físicas e intrín-
deverá levar em consideração as ca- secas ao elemento, corpo ou sistema re-
racterísticas da sua construção e da
condição dos seus ocupantes.
ceptor em análise que, em interação com
• Uma escola situada próxima de uma a magnitude do evento ou acidente, define
encosta pouco segura será vulne- os efeitos adversos, medidos em termos
rável a um deslizamento pois está de intensidade dos danos previstos (CAS-
exposta à esta ameaça. A vulnera- TRO, 1999).
bilidade será maior quanto maior
for o volume ou a velocidade de um A vulnerabilidade física ao risco de
eventual deslizamento. desastre pode ser identificada através da
análise dos aspectos construtivos dos ele-
A Figura 4 ilustra dois locais que são mentos avaliados. Abaixo, são apresenta-
vulneráveis devido à sua exposição. dos alguns indicadores de classificação
da vulnerabilidade física.
82 Enxergando os componentes do risco

• Condições da construção; pluviais eficientes;


• Saneamento em rede; • Abastecimento de água potável;
• Acesso à construção; • Acesso viário local ou através de
• Densidade das construções. pontes.

Vulnerabilidade de função Vulnerabilidade social

Em muitas situações, um evento ad- Vulnerabilidade social é aquela re-


verso causa mais prejuízo em função da lacionada às questões que provocam
interrupção de um serviço ou função im- danos ou prejuízos econômicos ao ser
portante do que o custo que essa função humano. Possui enfoque centrado nas
representa para ser reconstruída. Como características comportamentais, orga-
por exemplo, a queda de uma pequena nizacionais e de educação de pessoas
ponte que não causou vítimas. Embora o ou populações.
valor gasto para construir a ponte tenha A vulnerabilidade social de indiví-
sido baixo e ninguém se feriu, o prejuízo duos ou populações pode ser identifi-
de não poder abastecer a localidade do cada através da avaliação das capaci-
outro lado da ponte será sentido por toda dades de autonomia e mobilidade, bem
uma população. como pela sua capacidade de acesso a
recursos financeiros, educação e servi-
Por exemplo: Vulnerabilidade do sis- ços de saúde. Abaixo, são apresentados
tema de abastecimento de eletricida-
de por quedas de torres causadas por alguns indicadores de classificação da
temporais. vulnerabilidade social de elementos
em risco.
Abaixo, são apresentados alguns indi-
• Nível de cultura, educação e renda;
cadores de classificação da vulnerabilida-
• Nível de organização da sociedade,
de de função de elementos em risco.
redes de alerta, presença de sindi-
catos, associações, NUPDECs;
• Serviços públicos e equipamentos • Faixa etária, níveis de saúde, graus
urbanos localizados em áreas sus- de mobilidade, percentual de pes-
cetíveis às ameaças; soas com restrições de mobilidade
• Área de acúmulo de lixo e entulho; (cadeirantes, idosos, dificuldades
• Sistemas de drenagem de águas visuais, crianças, etc).

O uso de indicadores
Os indicadores são instrumentos tão de riscos em uma região específica e
muito úteis para a gestão de riscos e di- auxiliam os gestores dessa região a tomar
versas outras áreas. Eles fazem parte da decisões e a identificar o impacto dessas
construção de uma boa vigilância da ges- decisões para a melhoria do território.
Capacitação em Gestão de Riscos 83

Indicadores permitem, por exemplo,


comparar a situação de risco de uma po- Por exemplo: O número médio de
eventos adversos por ano é um indica-
pulação com outra, avaliar as tendências dor que permite acompanhar a evolu-
do comportamento dessa situação ao ção de desastres e a eficácia das medi-
longo do tempo e definir as prioridades das preventivas ou mitigatórias.
de orientação para os esforços de gestão
de risco. Indicadores configuram-se, des- • Uma medida, geralmente quan-
ta forma, um instrumento de orientação titativa, que pode ser usada para
e monitoramento das ações de gestão na ilustrar e comunicar um conjunto
busca de bons resultados. de fenômenos complexos de uma
Indicadores podem ser descritos forma simples, incluindo tendên-
como parâmetros (uma propriedade que cias e progressos ao longo do tem-
pode ser mensurada e observada) que po (EEA, 2005).
forneçam informações sobre um fenôme-
no, ambiente ou área. São, desta maneira, Por exemplo: O Índice de Desenvolvi-
um veículo para resumir ou simplificar e mento Humano (IDH) é uma medida
comparativa usada para classificar os
comunicar informações sobre algo que é países pelo seu grau de desenvolvi-
importante para a tomada de decisão. mento humano (Figura 5). A estatística
é composta a partir de dados de ex-
Os indicadores podem ser utilizados pectativa de vida ao nascer, educação
como: Uma ferramenta de avaliação, pa- e PIB per capita como um indicador do
râmetro, ou valor calculado a partir de padrão de vida.
parâmetros (OCDE, 2002).

Figura 5: Mapa ilustrando o IDH dos países, separados em quatro classificações.


(Fonte: PNUD, 2012).
84 Enxergando os componentes do risco

Como devem ser os indicadores? Eles devem refletir com facilidade as


intervenções políticas, mas não sujeitos a
Os indicadores devem capturar a es- manipulações.
sência do problema e ter uma interpreta-
O número de NUPDECs por muni-
ção normativa clara e aceita.
cípio é um indicador de participação da
sociedade civil no SINPDEC. Pode ser
Por exemplo: A redução da média men- melhorado com políticas que fortaleçam
sal de precipitação nos últimos 80 anos a disseminação de informações sobre a
em Recife é um indicador de mudança importância do papel das comunidades
climática.
na prevenção de desastres.
Planos diretores que incluem mape-
Eles devem demonstrar a realidade
amento contendo as áreas suscetíveis à
de maneira clara e comprovada. ocorrência de deslizamentos de grande
impacto, inundações bruscas ou proces-
Por exemplo: Indicadores para ava- sos geológicos ou hidrológicos correlatos
liação da vulnerabilidade de uma também são indicadores de eficiência; que-
habitação: da no numero de desastres, ou de danos e
prejuízos advindos de desastres são indi-
cadores da eficácia das ações mitigadoras,
a) Presença de preventivas e de preparação, dentre outros.
pavimentação
Condições de b) A
 cesso ao sistema de
infraestrutura e abastecimento de água Como determinar a qualidade de
hidrossanitárias c) P resença de banheiro um indicador?
de uma na habitação
habitação d) S istema de A qualidade é definida pela sua re-
esgotamento sanitário levância ao conteúdo, credibilidade da
e) Lixo é coletado fonte, atemporalidade e neutralidade,
conforme descrito na Tabela 2.

Tabela 2: Parâmetros utilizados na determinação da qualidade de um indicador.


Relevância Credibilidade
Atemporalidade Neutralidade
ao conteúdo da fonte
O Indicador deve estar Quanto mais Os indicadores devem
relacionado ao tema reconhecida for a refletir situações Bons indicadores não
analisado e ser uma fonte dos dados, mais que poderão ser excluem grupos de
importante contribuição credibilidade terá o comparadas em dados homogêneos.
na sua composição. indicador. momentos distintos.
Exemplo: Exemplo: Exemplo:
Exemplo:
IBGE, Instituições Número de pessoas Total de moradias
Percentual de famílias
e agências contaminadas com afetadas por
com baixa renda
governamentais, dengue ao longo inundações,
como indicador de
Institutos de dos anos em um independente da
desenvolvimento social.
pesquisas. município. renda da família.
Capacitação em Gestão de Riscos 85

Sinergias positivas dos indicadores GEDN/UFSC, 2004. P. 628-632. (CD-ROM).

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5
MAPEANDO
E AVALIANDO
O RISCO
88 Mapeando e avaliando o risco

Este tópico tem por objetivo possibilitar ao aluno:

• Conhecer as principais técnicas de mapeamento e avaliação de suscetibilidade, vul-


nerabilidade, ameaça e perigo e o consequente risco, para os diferentes tipos de
processos;
• Compreender como as ferramentas de geoprocessamento podem ser utilizadas
para auxiliar a gestão de risco.

A gestão de riscos implica, em pri- Dentre os tipos de mapeamentos exis-


meiro lugar, no conhecimento do risco tentes, destaca-se o mapeamento de susce-
sob a qual uma sociedade está exposta, tibilidade, ameaça, perigo e vulnerabilida-
por meio do seu mapeamento e avalia- de, os quais conjuntamente resultarão no
ção. Essa etapa, prevista no Art. 6° da mapa final de risco em uma determinada
Política Nacional de Proteção e Defesa área. A partir dos dados obtidos nesses
Civil (BRASIL, 2012), subsidia o estabe- estudos, são realizadas atividades de pre-
lecimento de medidas preventivas e cor- venção, mitigação e preparação (gestão de
retivas nas áreas prioritárias. risco), bem como de resposta e recupera-
ção (gerenciamento de desastres).

Mapeando e avaliando a suscetibilidade


A suscetibilidade constitui-se no SIG, GPS e sensoriamento remoto) mui-
primeiro passo para a avaliação de risco. tas técnicas têm sido propostas para ma-
Ela indica a potencialidade de ocorrên- peamento e avaliação da suscetibilidade,
cia de processos naturais e tecnológi- sendo que não existe um método melhor
cos em uma área específica, sem consi- ou mais adequado. A preferência por um
derar seu período de recorrência e seus ou outro método irá depender:
possíveis danos e prejuízos.
• Da disponibilidade, qualidade e
O conhecimento da suscetibilidade é precisão dos dados existentes;
de grande importância aos municípios, e • Da escala de mapeamento adotada;
está previsto no Plano Nacional de Ges- • Da capacidade técnica da equipe
tão de Riscos e Resposta a Desastres para uso das ferramentas disponíveis;
Naturais. Esse mapeamento contribui • Dos resultados esperados;
para o planejamento do uso e ocupação • Da relação custo/benefício.
do solo, controle da expansão urbana e
avaliação de cenários potenciais de risco. De maneira geral, os métodos de ma-
Além disso, ele pode auxiliar na elabora- peamento e avaliação da suscetibilidade
ção de medidas de restrição à ocupação, podem ser divididos em quantitativos e
de modo a evitar a formação de novas qualitativos, conforme apresentado na
áreas de risco (CPRM, 2014). Figura 1. Essa divisão pode ser aplicada
Com o avanço das geotecnologias também para o mapeamento e avaliação
(Sistema de Informações Geográficas - de perigo e risco.
Capacitação em Gestão de Riscos 89

Análise
estatística
Combinação
de mapas
Métodos Métodos Análise
qualitativos quantitativos determinística
Análise
no campo
Análise
probabilística

Figura 1. Métodos de mapeamento e avaliação da suscetibilidade qualitativos e quantita-


tivos. (Fonte: adaptado de Aleotti e Chowdhury, 1999).

suscetibilidade a movimentos de massa e


Por exemplo: O método deve ser selecio-
nado em função da escala de trabalho. inundações ficou a cargo do Serviço Geo-
lógico Brasileiro (CPRM), o qual irá mapear
• A avaliação da suscetibilidade em
áreas extensas, como uma bacia hi- 286 municípios prioritários. A metodologia
drográfica ou um município, pode utilizada pela CPRM tem base qualitati-
ser realizada por meio de métodos va e varia de acordo com as condições do
qualitativos, em escalas médias;
local. De uma maneira geral, a metodolo-
• Já para áreas pequenas, como uma
encosta isolada ou o segmento de gia adotada pode ser dividida em 5 passos
um rio, o mapeamento pode ser principais, conforme mostrado na Figura 2:
auxiliado por investigações quanti- Sequência de procedimentos básicos desen-
tativas com abordagens determinís-
ticas, em escalas grandes. volvidos para a elaboração de cartas de sus-
cetibilidade segundo a metodologia adotada
Os métodos qualitativos são intei- pela CPRM. (Fonte: CPRM, 2014).
ramente baseados no conhecimento e na
opinião de especialistas. Eles são de fácil
aplicação, no entanto seu inconveniente
principal está em sua subjetividade, já
que o resultado depende diretamente do
conhecimento de quem está avaliando.
Dessa forma, é essencial que os mesmos
possuam um conhecimento detalhado
dos processos em análise.
Os métodos qualitativos podem ser
divididos em: execução de análises no
campo e combinação de mapas de fato-
res condicionantes.
Figura 2: Sequência de procedimentos bási-
No âmbito do Plano Nacional de Ges- cos desenvolvidos para a elaboração de cartas
tão de Riscos e Resposta a Desastres Natu- de suscetibilidade segundo a metodologia
rais, a elaboração de Cartas municipais de adotada pela CPRM. (Fonte: CPRM, 2014).
90 Mapeando e avaliando o risco

Exemplo: A Figura 3 apresenta o mapa de suscetibilidade a movimentos de massa e


inundações elaborado pela CPRM para o município de Santa Maria Madalena, RJ. Para
a confecção desse mapa se utilizou uma metodologia qualitativa baseada na combina-
ção dos seguintes mapas:

• Geologia;
• Declividade;
• Padrões de relevo;
• Solo.

Figura 3: Mapa de suscetibilidades a movimentos de massa e inundações, em escala


1:25.000, do município de Santa Maria Madalena, RJ. (Fonte: Sampaio et al., 2013).

Para saber mais sobre a elaboração e Exemplo: O mapa de suscetibilidade


interpretação das cartas municipais de à ocorrência de incêndios mostrado
suscetibilidade a movimentos de massa na Figura 4 foi elaborado a partir do
e inundações acesse: http://www.brasil. método qualitativo denominado com-
gov.br/observatoriodaschuvas/mape- binação de mapas. Foram sobrepostos
amento/mapa-suscetibilidade.html e os seguintes fatores:
http://www.ipt.br/centros_tecnologicos/
CTGeo/livros/29-cartas_de_suscetibilida- • Total de radiação solar;
de_a_movimentos_gravitacionais_de_ • Forma das encostas;
massa_e_inundacoes_1:25000:_nota_ • Combustibilidade.
tecnica_e.htm
Capacitação em Gestão de Riscos 91

Figura 4: Mapa da suscetibilidade à ocorrência de incêndios florestais do Maciço da Pedra


Branca. (Fonte: Coura et al., 2009).

Os métodos quantitativos buscam


reduzir a subjetividade, através da quan-
tificação dos graus de suscetibilidade em
valores absolutos. Eles podem se basear
em análises estatísticas, comparando-
se a distribuição espacial dos acidentes
e desastres já ocorridos com os fatores
condicionantes considerados. Podem
ainda se basear em análises determinís-
ticas, as quais utilizam modelos matemá-
ticos para quantificar a suscetibilidade
(Figura 5).

Figura 5. Mapeamento da suscetibilidade a


inundação obtido por meio do modelo mate-
mático HEC-RAS®. Fonte: Cunha et al. (2012).
92 Mapeando e avaliando o risco

O que diferencia a classificação dada (figura 5) são delimitados por informa-


para a elaboração dos mapas de susceti- ções anteriores e modelos matemáticos.
bilidade das Figuras 3 e 4 (qualitativos)
Há ainda mapas de suscetibilidade
da Ftigura 5 (matemático) é a base de in-
elaborados a partir de modelos deter-
formações para sua elaboração. Apenas
minísticos.
olhando as figuras não é possível saber
como foram elaboradas. Nas duas pri-
meiras, os níveis de suscetibilidade são Para saber mais a respeito e ver alguns
exemplos aplicando as técnicas SHALS-
definidos pela opinião de especialistas TAB e SINMAP (ambas utilizam uma
(que varia de acordo com a percepção combinação de modelos), acesse a re-
de cada um) enquanto que nesta última ferência: MICHEL et al., 2012.

Mapeando e avaliando a ameaça e o perigo


Relembrando.... cetibilidade: tipo de solo, declividade,
clima, entre outros).
Entende-se como ameaça a condição
que evidencia a possibilidade de ocor- Assim como a suscetibilidade, o ma-
rência de eventos adversos, com capaci- peamento e avaliação de perigo podem
dade de causar danos e prejuízos. Na ava- ser realizados de maneira quantitativa e
liação da ameaça não se inclui nenhum qualitativa, seguindo as mesmas técnicas
tipo de previsão, ou seja, não é avaliada apresentadas anteriormente, as quais são:
a probabilidade de que esses processos
ocorram. • Análise no campo;
Já o perigo é a situação que tem po- • Combinação de mapas;
tencial para causar consequências inde- • Análise estatística;
sejáveis, para a qual é possível fazer uma • Análise determinística;
estimativa de intervalos de tempo de • Análise probabilística.
ocorrência (frequência). Na avaliação O perigo é quantificado sob a forma
do perigo, a suscetibilidade é combina- de probabilidade e, portanto, não é defi-
da com os fatores desencadeantes, como nido através de uma unidade de medida,
por exemplo, o tempo de retorno (TR) ou seja, é adimensional.
de chuvas intensas, o que permite es-
tabelecer uma frequência determinada O perigo pode ser definido de forma
para os eventos potenciais. qualitativa, como alto, médio ou bai-
xo. Mas também pode ser avaliado de
Dessa forma, a avaliação do perigo é forma quantitativa, neste caso em ter-
resultante da combinação das informa- mos de probabilidade de ocorrência de
ções do mapa de inventário de processos um processo que venha a causar algum
(frequência de inundações, deslizamen- dano considerando-se um intervalo de
tos, erosões, etc.) e do meio físico (sus- tempo em um determinado local.
Capacitação em Gestão de Riscos 93

Exemplo: 5% de chance de que ocorra uma estiagem nos próximos dois anos e que cause
perda da produção agrícola em uma determinada área rural.

Exemplo: a Figura 6 mostra um mapa de perigo a terremotos elaborado por meio de


modelos probabilísticos. Esse mapa ilustra a probabilidade de que ocorram terremotos
com 0,2 segundos de duração no Hawaii, com uma probabilidade de excedência de
10% em 50 anos.

Figura 6. Mapa de perigo a terremotos no Hawaii, EUA. (Fonte: USGS, 1998).

A avaliação do perigo a inundação ses eventos ocorrerem no futuro;


pode ser elaborada de maneira qualitativa, • Execução de trabalhos de campo
conforme o roteiro apresentado a seguir: e espacialização dos dados: com
o cadastro é possível selecionar as
• Levantamento preliminar e geor- áreas mais críticas para a realiza-
referenciamento de ocorrências de ção de trabalhos de campo para
inundação: levantamento de infor- verificação e caracterização dos
mações sobre o meio físico da área fenômenos ocorridos.
em estudo para a elaboração de um • Delimitação e caracterização de
cadastro com as ocorrências desses setores de perigo e inundação: os
processos, o que permitirá identifi- setores de perigo buscam expres-
car a probabilidade qualitativa des- sar a probabilidade de ocorrência
94 Mapeando e avaliando o risco

dos processos perigosos, sua dis- cruzado às bases cartográficas.


tribuição espacial (abrangência), • Classificação Preliminar do Peri-
intensidade e recorrência (com go: feito através do estabelecimen-
intervalo de tempo). to de limiares de classificação bai-
• Delimitação dos Setores de Pe- xo, moderado, alto e muito alto.
rigo: tem por finalidade delimi- Exemplo: A Figura 7 mostra um
tar a abrangência espacial das exemplo de um mapa de perigo a inun-
classes de nível de atingimento, dações elaborado a partir do roteiro
baseado em interpretação visual, mostrado anteriormente.

Figura 7. Mapa de perigo a inundações do município de Aparecida/SP. Fonte: IG (20--).

Resultados como os das Figuras 6 e 7 tomada de decisão quando da restrição de


se constituem importantes ferramentas de urbanização dessas áreas, seja impedindo
auxílio à gestão pública, que baseada nes- que a mesma seja ocupada, seja indicando
sas informações têm embasamento para a condições para a sua ocupação.

Mapeando e avaliando a vulnerabilidade


Como apresentado no item 2.7, a vul- lidade dos elementos expostos é uma das
nerabilidade está associada à condição medidas mais eficazes para mitigar os da-
dos elementos sob ameaça ou em perigo nos humanos, materiais e ambientais.
(indivíduos, comunidades ou cenários ex-
Sabe-se que não é possível evitar a ocor-
postos) e pode ser avaliada através do grau
rência de chuvas intensas ou tempestades,
esperado de danos e prejuízos no caso do
no entanto, podem-se preparar melhor as
evento acontecer. A redução da vulnerabi-
comunidades e sistemas a fim de que pos-
Capacitação em Gestão de Riscos 95

sam ter melhor resposta às ameaças. Para


tanto, é importante dimensionar e mapear a Exemplo: No próprio site do IBGE,
é possível espacializar e criar alguns
vulnerabilidade, ou seja, definir o que, quem mapas com informações dos habitan-
e quanto são os elementos vulneráveis, tes do seu município por setor cen-
onde e como vivem, quais são as relações en- sitário. Através do link http://www.
censo2010.ibge.gov.br/sinopse/index.
tre si, para que, a partir disso, se possa traba- php?dados=2R&uf=43 é possível es-
lhar em medidas efetivas de diminuição da colher algumas variáveis de interesse
vulnerabilidade, sendo elas estruturais e/ou para caracterizar a população residen-
te, por exemplo, por faixa etária.
não estruturais (abordadas no capítulo 7).
O levantamento de dados para mape-
amento da vulnerabilidade pode ser reali- Para saber mais: para conhecer mais
sobre o acesso e compartilhamento
zado por meio do seguinte roteiro: de dados, acesse o Portal Brasileiro de
Dados Geoespaciais, que reúne a Infra-
• Execução de trabalhos de cam- estrutura Nacional de Dados Espaciais
po: nessa fase é realizado in loco (INDE), http://www.inde.gov.br.
o levantamento dos elementos ex-
postos e vulneráveis. É necessário Há alguns itens essenciais a serem
observar as características físicas e observados que contribuem para a cons-
ambientais, as infraestruturas e os trução do mapeamento, a partir da aná-
serviços disponíveis na área ana- lise da vulnerabilidade física, vulnerabili-
lisada, o perfil da população resi- dade de função e vulnerabilidade social.
dente nestas áreas. Para a melhor
sistematização dos dados, pode-se Vulnerabilidade física
preparar questionários para serem Observe as condições ambientais da
aplicados junto aos moradores ou área em análise, a localização e o padrão
formulários para levantamento de construtivo das instalações, a exposição a
informações sobre as moradias. situações que as colocam em risco. Ao re-
• Trabalho de escritório: compre- alizar o mapeamento de vulnerabilidade, é
ende a compilação e a geração importante se ter uma visão integrada das
de informações a partir das ob- características físicas dos elementos ava-
servações de campo, bem como liados. Identifique locais onde foram reti-
a conciliação de informações es- radas a mata ciliar e a vegetação próxima
paciais de diferentes fontes. Algu- aos cursos d’água, pois potencializam o as-
mas ferramentas para a geração soreamento; obras que modificam a vazão
de mapas podem ser utilizadas, do rio, como canalizações e retificações; e,
como os Sistemas de Informações ainda, atente para a impermeabilização na
Geográficas (SIG), que permitem bacia hidrográfica, que também altera o
a realização de análises comple- sistema natural de drenagem.
xas, ao integrar dados de diversas No caso de deslizamentos, alguns ele-
fontes e ao criar bancos de dados mentos podem indicar vulnerabilidade
georreferenciados. física:
96 Mapeando e avaliando o risco

• Terrenos com lançamento de esgo- Os materiais utilizados para construção


tos e águas servidas de moradias nos taludes de corte e aterro
ou em planícies de inundação podem pro-
O lançamento de água servida ou es- piciar maior vulnerabilidade. As constru-
goto nos terrenos propicia a saturação do ções de alvenaria são mais rígidas do que as
solo. Em alguns casos, associada a esta situ- construções de madeiras, as quais podem
ação, até mesmo pouca quantidade de chu- ser mais vulneráveis devido à baixa capa-
va pode ser capaz de deflagrar um desliza- cidade de resistir ao impacto de processos
mento. Esse é o tipo de situação que deve hidrológicos ou geológicos. As áreas onde
ser atentamente mapeado e solucionado há predominância de construção do tipo
para evitar acidentes, já que podem ocorrer madeira são denominadas de baixo padrão
independentemente da estação chuvosa. construtivo.
As moradias que se localizam em terrenos No caso das inundações, um dos prin-
nestas condições possuem maior vulnera- cipais elementos a ser observado é a ocupa-
bilidade do que aquelas onde não há lan- ção ou não de planícies de inundação, ou
çamento de esgotos e águas servidas e que, seja, aquela área onde o rio, em seu proces-
portanto, não sofrem com a infiltração de so natural, extravasa em episódios de cheia.
águas que levam à saturação dos solos. A atenção deve ser dada a todos os tipos de
Tanto no mapeamento da vulnerabi- loteamento, seja regular ou não. Moradias
lidade a deslizamentos quanto na vulne- de alvenaria apresentam maior resistência
rabilidade a inundações e outros proces- do que moradias de taipa (Figura 8). En-
sos, deve-se avaliar: tretanto, em caso de enxurradas com alto
poder destrutivo, mesmo construções de
• Padrão construtivo das moradias e alvenaria podem ser severamente danifica-
características da urbanização das ou destruídas (Figura 9).

Figura 8. Casa de taipa destruída durante as chuvas de janeiro no Parque Brasil, Zona Nor-
te de Teresina/PI. (Foto: Gil Oliveira/ G1).
Capacitação em Gestão de Riscos 97

Figura 9. Casas de alvenaria atingidas por enxurrada em Cachoeiro do Itapemirim/ES. (Fon-


te: CEDEC-ES).

Uma observação a ser feita, é que, metros de onde ocorreu o desastre. Por
residências de alvenaria, no caso de exemplo, as secas que afetam o abasteci-
desabamentos provocados por desliza- mento de reservatórios no país elevam o
mentos ou enxurradas, podem causar custo da produção de energia elétrica e,
danos humanos maiores que aqueles consequentemente, da tarifa que é paga
provocados por materiais mais leves, pelo consumidor.
como madeira. Além disso, é necessário
sempre fazer a avaliação da vulnerabi- Os impactos causados pelos desastres
lidade de acordo com a região e o tipo de evolução súbita, como as enxurradas,
de ameaça que pode ocorrer. Em regiões deslizamentos, vendavais e tornados, ou
de inundação, as construções de madei- de evolução gradual, a exemplo das secas,
ra sobre palafitas, por exemplo, tendem provocam diferentes tipos de transtornos
a diminuir a vulnerabilidade. às comunidades. Os danos não se restrin-
gem apenas aos aspectos econômicos,
Vulnerabilidade de função mas também aos sociais e ambientais.
As aulas interrompidas em uma escola
Assim como as pessoas, os sistemas atingida por uma inundação ou desliza-
de infraestrutura, funções e serviços mento levam ao atraso ou até mesmo à
também podem ser vulneráveis a perigos perda do ano letivo de estudantes; o lixo
e sofrer prejuízos ao seu funcionamento. acumulado pela falta de coleta pode pro-
Quando afetados, causam impactos dire- vocar a contaminação de solos e corpos
tos e indiretos à população. Em algumas d’água; a obstrução de uma rodovia ou
situações, as consequências são sentidas ponte impede o fluxo de pessoas e mer-
por aqueles que estão a vários quilô- cadorias, entre outros exemplos.
98 Mapeando e avaliando o risco

As principais funções e serviços vul- Cabe ressaltar que todos os passos aci-
neráveis que devem ser avaliados em um ma mencionados devem ser previamente
mapeamento são listados a seguir: levantados e conectados com as fases de
prevenção, mitigação, preparação, respos-
• Saúde pública, com especial aten- ta e recuperação, e devidamente incluídos
ção ao atendimento de emergên- nos planos de contingência, a fim de que
cias e controle de epidemias; realmente sejam eficazes para a redução
• Abastecimento de água potável; dos danos em uma comunidade. A Estraté-
• Esgotamento sanitário; gia Internacional para a Redução de Desas-
• Limpeza urbana e remoção de en- tres (EIRD/ONU) já realizou campanhas
tulhos; promovendo a inserção de escolas e hos-
• Geração e distribuição de energia pitais como infraestruturas fundamentais
elétrica; nos planos de gestão de risco. No Brasil,
• Comunicações, com especial aten- a referida preocupação com essas infraes-
ção aos sistemas de telefonia e in- truturas procede, uma vez que, já houve-
ternet; ram inúmeros casos de escolas e hospitais
• Transportes terrestres, com espe- atingidos por inundações e deslizamentos
como, por exemplo, nas inundações ocor-
cial atenção a estações rodoviárias
ridas em junho de 2010 nos estados de Per-
e terminais urbanos;
nambuco e Alagoas e na tragédia da Região
• Transportes aéreos, locais e de lon-
Serrana do Rio de Janeiro em 2011. Nesse
gas distâncias; novo paradigma da gestão integral dos ris-
• Segurança pública; cos e desastres, todos os elementos devem
• Instituições de ensino fundamen- ser considerados no mapeamento e dimen-
tal, médio e superior; sionamento da vulnerabilidade.
• Outras instalações comunitárias
(igrejas e outros templos religiosos,
Vulnerabilidade Social
asilos, creches, estádios, ginásios).
A vulnerabilidade social é o conceito
As seguintes informações devem ser que traduz a propensão da população para
levantadas a fim de complementar e de- os impactos negativos dos perigos e dos
finir a vulnerabilidade, conforme o tipo desastres, identificando as características
de ameaça: que aumentam ou diminuem a sua capaci-
dade de preparação para a resposta e recu-
• Estimar quanto tempo (horas,
peração frente a um desastre. O conceito
dias, semanas) de interrupção do
também auxilia a pensar na distribuição
serviço afetado;
dos riscos e das perdas potenciais.
• Avaliar qual a população atingida
direta e indiretamente; Existe um Protocolo Nacional Con-
• Identificar os principais responsá- junto para Proteção Integral a Crianças
veis pelo rápido restabelecimento e Adolescentes, Pessoas Idosas e Pessoas
dos sistemas e se estão aptos para com Deficiência em Situação de Riscos e
a pronta resposta. Desastres que tem por objetivos:
Capacitação em Gestão de Riscos 99

1. Assegurar a proteção integral aos tância de alguns desses indicadores para se


direitos da criança e do adolescen- pensar na vulnerabilidade a desastres. Es-
te, da pessoa idosa e da pessoa com tes indicadores podem ser levantados por
deficiência, em situação de riscos e meio do trabalho de campo, com utilização
desastres, com objetivo de reduzir de questionários e entrevistas. Há também
a vulnerabilidade a que estiverem a possibilidade de utilizar alguns indicado-
expostos; e res já levantados pelo IBGE, conforme cita-
2. Orientar os agentes públicos, a do anteriormente.
sociedade civil, o setor privado e
as agências de cooperação inter- • Idade
nacional que atuam em situação As características etárias da popu-
de riscos e desastres no desenvol- lação são importantes para mapear e
vimento das ações de preparação, dimensionar a vulnerabilidade. Em con-
prevenção, resposta e recuperação, textos de riscos de desastres, crianças e
nos três níveis da Federação. idosos representam as pessoas mais vul-
neráveis devido ao maior tempo de per-
Para saber mais: Para acessar o Proto- manência em casa, à dificuldade de loco-
colo Nacional Conjunto acesse www. moção autônoma, em função da menor
integracao.gov.br
resistência a possíveis ferimentos. Além
disso, são aqueles que apresentam menor
O mapeamento da vulnerabilidade so-
autonomia e que necessitam de cuidados
cial possibilita o planejamento e a definição
específicos no processo de recuperação.
de políticas públicas, principalmente nas
Conhecer o perfil etário da população
ações de prevenção, preparação, resposta
pode ajudar a planejar aspectos relacio-
e recuperação de desastres. Alguns indica-
nados às ações de gestão de risco.
dores são mais comumente utilizados, tais
como idade, renda, escolaridade e gênero, Você conhece o perfil etário da popu-
mas outros também podem ser considera- lação de seu município? Conhecer o per-
dos, dependendo do contexto social a ser fil etário da população pode ajudar nas
analisado. A seguir, discutiremos a impor- ações de gestão de risco.

Exemplo: Um exemplo ilustrativo dessa importância pode ser obtido quando se exa-
mina a história da grande inundação de janeiro de 2010 que atingiu o município
de São Luiz do Paraitinga, SP. Grande parte dos dez mil habitantes era de idosos e
crianças, que puderam ser salvos graças ao trabalho dos moradores locais, os quais
souberam mapear em quais residências se encontravam as crianças e os idosos, muitos
dos quais enfermos, acamados e cadeirantes. Por meio desse trabalho de mapeamen-
to, os grupos mais vulneráveis puderam ser identificados e resgatados antes que uma
tragédia maior ocorresse. Para saber mais sobre essa história, Clique aqui.

Para saber mais: Para conhecer o perfil etário da população, você pode acessar fontes
de informação como, por exemplo, o site do IBGE. Clique aqui para acessar.
100 Mapeando e avaliando o risco

• Escolaridade ficuldade no processo de leitura, de aces-


so às novas tecnologias, como também
Geralmente, a maior escolaridade sig-
àqueles que se encontram no trânsito.
nifica uma capacidade maior de compre-
Por vezes, essa diversificação dos canais
ender as informações disseminadas nos
de transmissão de informação pode ser
meios de comunicação como, por exemplo,
importante para lidar com as falhas tec-
ler e interpretar uma notícia de jornal com
nológicas que geralmente ocorrem como,
a previsão do tempo, em que frequente- por exemplo, a inoperância dos serviços
mente se faz uso de termos técnicos não tão de telefonia móvel, a falta de acesso à in-
comuns à maioria das pessoas. Por vezes, ternet. Nas circunstâncias de desastres,
não só a compreensão dos termos técnicos é comum que os meios de comunicação
pode ser um obstáculo às ações de gestão falhem. Nessas situações de crise, às vezes
e comunicação de risco, como também os entram em cena aparelhos de comuni-
meios de comunicação que são utilizados cação desconhecidos para a maioria das
para disseminar uma informação, que nem pessoas como, por exemplo, os aparelhos
sempre são acessíveis a todos. utilizados por radioamadores.
Atualmente, as redes sociais (Twitter, A escolaridade é um aspecto funda-
Facebook etc.) têm sido utilizadas para mental a se considerar nas ações de gestão
veicular informações, dada sua grande de risco. Geralmente, nas ações educati-
rapidez em replicar conteúdo. Entretan- vas voltadas à temática de desastres têm-
to, se as novas gerações possuem maior se utilizado cartilhas, manuais, apostilas,
familiaridade com as novas tecnologias sem considerar que nem todos podem ter
de comunicação, o mesmo não se pode acesso à leitura e à compreensão dos ter-
afirmar em relação aos adultos e idosos. mos técnicos ali utilizados. Diante desse
Nesse sentido, torna-se importante di- desafio, torna-se cada vez mais importan-
versificar os canais de transmissão de in- te criar materiais educativos que se preo-
formação para ampliar o público que se cupem em adotar linguagens mais acessí-
quer atingir. O rádio, por exemplo, pode veis, fazendo uso de termos mais simples
se constituir em um meio de comunica- e utilizando-se imagens para esclarecer os
ção mais acessível aos que têm certa di- conceitos abordados.

Exemplo: Um exemplo dessa tentativa é o vídeo produzido pelo Instituto de Pesquisas


Tecnológicas chamado “Áreas de risco: informação para prevenção”. Clique aqui para
assistir o vídeo.

Para saber mais: Outros projetos têm sido desenvolvidos para fomentar a percepção
social em torno dos riscos e desastres, buscando envolver as comunidades em ações de
monitoramento de situações de risco como, por exemplo, o projeto “Pluviômetros nas
Comunidades”. Aos poucos, o investimento em ações educativas e preventivas intro-
duz um novo paradigma de atuação frente ao tema dos desastres, focando na gestão
de risco. Para acessar o projeto “Pluviômetros nas comunidades” Clique aqui.
Capacitação em Gestão de Riscos 101

Para saber mais: Você pode conhecer alguns itens gerais relativos à escolaridade na pá-
gina do IBGE ou na Secretaria de Educação do seu município, mas também pode realizar
um trabalho de campo com alguns moradores de áreas de risco para pesquisar sobre
a temática de desastres. Existem muitos temas que você pode explorar: os moradores
sabem o que é um pluviômetro? O que é acumulado de chuva? Quais riscos o morador
identifica no bairro? Quais são os sinais de risco de deslizamento? Qual o meio de co-
municação mais utilizado? Há uma série de outras perguntas que podem ser levantadas
dependendo do contexto social e dos tipos de desastres mais comuns enfrentados na
sua região. A escolaridade também pode ser um fator muito importante ao se traçar
projetos de recuperação socioeconômica de municípios atingidos por desastres, uma vez
que os projetos de qualificação profissional podem se constituir em fontes de geração de
renda, recuperação socioeconômica e também psicossocial.

A renda irá definir as opções de escolha


Para saber mais: Você também pode
consultar o “Atlas de Desenvolvimento
no mercado de terras e de imóveis, possibi-
Humano no Brasil 2013”, clicando aqui, litando que as pessoas possam adquirir ou
e conhecer o perfil do seu município no não um imóvel em uma área segura, que
que se refere aos aspectos educacionais.
possam melhorar suas condições de vida,
investindo, por exemplo, na infraestrutura
• Renda de suas moradias, na aquisição de eletrodo-
mésticos e equipamentos de telecomunica-
A Figura 10 expressa a desigualdade ção (televisão, telefones celulares), aqui-
social existente entre a Favela de Paraisó- sição de seguros etc. O uso que se faz do
polis e o Bairro do Morumbi, no municí- espaço urbano depende, em larga medida,
pio de São Paulo. A partir da figura, po- da condição de renda, mas tendo em vista
de-se identificar uma série de elementos que pode haver exceções. Na imagem aci-
que contribuem para pensar em como a ma, enquanto no condomínio do Bairro do
variável renda é um aspecto fundamen- Morumbi grande parte da área é utilizada
tal para se considerar no mapeamento da para produção de infraestruturas de lazer
vulnerabilidade social. (quadras de tênis, piscinas, áreas verdes
para drenagem etc.), na favela de Paraisó-
polis o uso do espaço é priorizado e dis-
putado entre os inúmeros moradores que
buscam cumprir o direito fundamental de
acesso à moradia. Outros aspectos que cha-
mam a atenção são o número de unidades
habitacionais e a estimativa da quantidade
de pessoas ocupando as áreas da favela e do
condomínio, isto é, o adensamento popula-
cional de cada uma das áreas.
Figura 10. Fotografia aérea do bairro Mo- As pessoas com maior rendimento
rumbi, São Paulo/SP. Foto: Tuca Vieira/Folha
Imagem. geralmente dispõem de mais recursos
102 Mapeando e avaliando o risco

materiais para reduzir essas condições alertas antecipados, gestão da informa-


de vulnerabilidade social que estrutural- ção, capacitação e educação. Considera-
mente se produzem na sociedade. Diante se que é imprescindível colocar em pé de
de situações de desastres, geralmente essa igualdade as necessidades, experiências e
lógica também se reproduz, à medida que opiniões de homens e mulheres nas ações
dispõem de mais recursos materiais para de prevenção, preparação, mitigação, res-
lidar com estiagens prolongadas, como posta e recuperação. Para atingir esse ob-
também podem apresentar maior capa- jetivo inicial de equidade de gênero, cabe
cidade de recuperação socioeconômica dedicar uma atenção especial ao empo-
no pós-impacto de desastres, adquirindo deramento das mulheres para garantia de
financiamentos para restabelecimento de sua participação na construção das polí-
suas atividades domésticas, comerciais ticas relativas ao tema.
etc. Mapear e dimensionar a distribuição
de renda de regiões e municípios sob al- Segundo o Programa das Nações Uni-
gum tipo de ameaça é um primeiro passo das para o Desenvolvimento (2010), as
para planejar as ações de mitigação de mulheres e as meninas ocupam um lugar
desastres, os serviços assistenciais como de especial vulnerabilidade ante as amea-
envio de água potável, cestas básicas etc., ças, o que se reflete não somente na maior
bem como as políticas públicas para re- porcentagem de mulheres e meninas que
construção e recuperação de áreas atingi- morrem e que estão propensas a falecer
das. Essa informação muitas vezes preci- nos desastres, como também no aumen-
sa ser analisada num contexto maior, de to da violência doméstica e sexual no pós
estado e até mesmo de país. desastre, nas condições de alojamento nos
abrigos temporários, no sofrimento social
Para saber mais: Você pode consultar vivenciado no processo de recuperação.
o Atlas de Desenvolvimento Humano
no Brasil 2013 (http://atlasbrasil.org.
br/2013/consulta) e o perfil do seu mu- Para saber mais: No Brasil, estudos têm
nicípio (http://atlasbrasil.org.br/2013/ sido realizados para tratar desse tema,
perfil/) para saber qual a renda per como a dissertação “A dimensão de gê-
capita média, o grau de concentração nero na análise sociológica de desastres:
de renda, a porcentagem de pessoas conflitos entre desabrigadas e gestoras
vulneráveis à pobreza etc. A renda é de abrigos temporários relacionados às
um dos elementos-chave para definir chuvas”, de autoria de Mariana Siena.
o Índice de Desenvolvimento Humano Visite o link a seguir e conheça o estudo:
Municipal. http://www.bdtd.ufscar.br/htdocs/
tedeSimplificado/tde_arquivos/24/
TDE-2009-09-11T161345Z-2393/Publi-
• Gênero co/2441.pdf

O Marco de Ação de Hyogo reitera a Uma das principais dificuldades para


importância de se integrar a perspectiva se mapear a vulnerabilidade a desastres
de gênero nas políticas, planos e pro- a partir dessa perspectiva de gênero é a
cessos de gestão de risco, incluindo os inexistência de informações quantitati-
aspectos relativos à avaliação de risco, vas confiáveis que possibilitem analisar
Capacitação em Gestão de Riscos 103

se mulheres morrem mais que homens tual. Numa circunstância de risco ou de


nos desastres ocorridos no Brasil, se há desastre, demandam auxílios especiais
mais mulheres residindo em áreas de para receber avisos e alertas, para se pro-
risco do que homens, se há mais mulhe- teger e, se necessário, deixar suas casas,
res do que homens desabrigados etc. A assim como para permanecer nos abri-
experiência e a atuação das Coordena- gos temporários.
dorias Municipais de Proteção e Defesa De acordo com dados preliminares do
Civil podem fornecer informações para Censo de 2010, o Brasil possui 45.623.910
começar a construir essa base de dados de pessoas que têm, ao menos, uma dessas
e mapear a vulnerabilidade a desastres deficiências, o que representa 23,92% do
nessa perspectiva de gênero, uma prática total da população. Considerando o grau
cada vez mais adotada e recomendada de severidade da deficiência visual, cons-
internacionalmente. tatou-se que há, no Brasil, aproximada-
• Pessoas com deficiência mente 528.624 pessoas cegas e 6.056.684
pessoas que enxergam com grande difi-
Entre os grupos mais vulneráveis a culdade. O total de pessoas com defici-
riscos de desastres estão as pessoas com ência mental ou intelectual é de cerca de
deficiência visual, auditiva e motora, 2.617.025, o que representa 1,37% do total
além da deficiência mental ou intelec- da população brasileira.

Para saber mais: Você pode acessar o site da Secretaria Nacional de Promoção dos
Direitos da Pessoa com Deficiência Clicando aqui e obter maiores informações desses
indicadores, bem como da legislação federal a respeito do tema.

Para saber mais: A preocupação internacional em relação ao tema das pessoas com
deficiência em situações de desastres tem sido cada vez mais crescente. O Dia Interna-
cional para a Redução de Desastres em 2013 teve como propósito intensificar as discus-
sões em torno da temática. Para saber mais, visite o site: http://eird.org/americas/13/
oct/2013/iddr/index.html.

Para saber mais: No Brasil, existem alguns estudos sobre o tema, como a dissertação
“Do estigma social à invisibilidade: a pessoa com deficiência física nas políticas públi-
cas voltadas para a redução de desastres”, de autoria de Débora Geraldi. Acesse esse
estudo clicando aqui.

• População em situação de rua de rua, que se encontra mais vulnerável a


este tipo de perigo.
Ondas de frio são fenômenos que
ocorrem principalmente na região Sul Por população em situação de rua se
do país e porções da região Sudeste, po- compreende as pessoas que estão uti-
dendo oferecer riscos de morte, princi- lizando, em um dado momento, como
palmente para a população em situação local de moradia ou pernoite, espaços
104 Mapeando e avaliando o risco

de tipos variados situados sob pontes, destacam-se Campinas/SP, com mais de


marquises, viadutos, à frente de prédios mil pessoas vivendo nas ruas, e Curiti-
privados e públicos, em espaços públicos ba/PR, com mais de 2.700. Outros mu-
não utilizados à noite, em parques, pra- nicípios também são preocupantes do
ças, calçadas, praias, embarcações, es- ponto de vista do risco supracitado, so-
tações de trem e rodoviárias, à margem bretudo pela severidade dos fenômenos
de rodovias, em esconderijos abrigados, meteorológicos, tal como o ocorrido em
dentro de galerias subterrâneas, metrôs julho de 2013, quando ao menos 128
e outras construções com áreas internas municípios da região Sul do país regis-
ocupáveis, depósitos e prédios fora de traram neve. O município de São Paulo
uso e outros locais relativamente prote- também sofreu esses efeitos, registran-
gidos do frio e da exposição à violência. do ao menos três mortes de pessoas em
São também considerados componentes situação de rua. Novo levantamento foi
da população em situação de rua aqueles realizado no final de 2013 e os dados em
que dormem em albergues e abrigos, de breve estarão disponíveis.
forma preferencial ou ocasional, alter- Resumindo...
nando o local de repouso noturno en-
tre estas instituições e os locais de rua É possível observar qual grau de
(BRASIL, 2009). vulnerabilidade será resultante da inte-
gração de várias situações adversas. É
Recentemente têm sido formuladas importante ressaltar que apenas o bai-
políticas públicas para inclusão desse xo poder aquisitivo não indica maior
segmento populacional em condição vulnerabilidade, mas sim a conjunção
de alta vulnerabilidade social. Para tan- de diversos fatores, como a vulnerabili-
to, tem se procurado dimensioná-lo e dade física e social. O conhecimento e
mapeá-lo. O Ministério do Desenvolvi- a identificação das variáveis envolvidas
mento Social e Combate à Fome (MDS, na análise da vulnerabilidade possibi-
2009) realizou, entre agosto de 2007 litam planejar ações de gestão de risco,
e março de 2008, o I Censo e Pesquisa formulando políticas públicas de pre-
Nacional sobre População em Situa- venção, mitigação, preparação, resposta
ção de Rua, em um levantamento que e recuperação. A partir desse planeja-
abrangeu 71 municípios brasileiros. Fo- mento, é possível melhorar as condições
ram identificadas 31.922 pessoas maio- de vida da população, diminuindo sua
res de 18 anos em situação de rua, o que vulnerabilidade ante situações de ame-
equivale a 0,061% da população dessas aça, diminuindo, por conseguinte, o
cidades. Alguns desses municípios pes- risco, investindo em medidas para apri-
quisados situam-se em áreas sujeitas a morar as características do terreno, das
ondas de frio e grandes quedas de tem- moradias, e o acesso à informação. Ma-
peratura, que podem oferecer riscos de pear e dimensionar a vulnerabilidade é
hipotermia à população em situação de um caminho para favorecer a criação de
rua. Dentre os municípios pesquisados, cidades mais resilientes.
Capacitação em Gestão de Riscos 105

Mapeamento e avaliação do risco


propriamente dito
Uma série de dados que serão neces- A avaliação do risco geralmente é re-
sários para o mapeamento e avaliação alizada de maneira qualitativa, devido à
do risco propriamente dito, foram vistos grande quantidade de dados envolvida
anteriormente. No mapeamento de risco na análise.
são indicadas as consequências adversas Entretanto, a avaliação do risco tam-
em potencial associadas à ocorrência de bém pode ser elaborada de maneira
desastres. Para tanto, deve-se considerar: quantitativa, onde o mapa é desagregado
por graus de probabilidade de ocorrên-
• A suscetibilidade do terreno; cia, exprimindo o número de habitantes,
• A probabilidade temporal, ou seja, as atividades econômicas, as instalações
o perigo do fenômeno; que poderão ser afetadas e outras infor-
• A vulnerabilidade dos elementos mações consideradas relevantes.
expostos ao risco (ex. população, in-
fraestrutura, atividades econômicas); Exemplo: a Figura 11 mapeia o risco de
• Danos e prejuízos associados ao inundações de um determinado local e
desastre em potencial (ex. número foi elaborada considerando os danos e
prejuízos causados a estrutura dos edifí-
de mortos, feridos, prejuízos dire- cios com a ocorrência de inundações com
tos e indiretos esperados). um tempo de retorno de 20 anos.

Figura 11. Representação do risco de inundação. Fonte: Meyer et al. (2009).

Exemplo: a representação do risco a escorregamentos mostrada na Figura 12 foi ela-


borada por meio da combinação qualitativa de mapas, recortados considerando-se o
mapa de perigo, vulnerabilidade, elementos expostos e danos potenciais.
106 Mapeando e avaliando o risco

a)

b)

Mapa de perigo + Mapa de


vulnerabilidade

Mapa com
Mapa de danos
elementos
expostos
+ potenciais

Figura 12. (a) recortes de mapas sobrepostos; (b) representação do risco a escorregamen-
tos elaborado por meio da combinação de recorte de mapas. (Fonte: adaptado de Guillard
e Zêzere, 2010).
Capacitação em Gestão de Riscos 107

Entre as técnicas de avaliação quali-


tativa de riscos destaca-se a metodologia Para acessar a lista de municípios aces-
se: htttp://www.brasil.gov.br/observa-
aplicada pelo IPT e CPRM para mapear toriodaschuvas/municipios-seleciona-
o risco à inundação e a escorregamen- dos.html.
tos. Nestes estudos, os setores de risco
são identificados com base na opinião O zoneamento das áreas de risco a
da equipe durante a execução de traba- escorregamentos utilizado pelo IPT e
lhos de campo, auxiliada pela aplicação CPRM pode ser dividido, de maneira ge-
de fichas, utilização de fotografias aéreas ral, nas seguintes etapas:
oblíquas e imagens de satélite. Esta seto-
rização está sendo realizada nos 821 mu- a) Pré-setorização: nessa etapa ava-
nicípios prioritários. liam-se alguns parâmetros básicos como:
O zoneamento do risco por meio • Declividade da encosta;
desta técnica envolve a delimitação de • Tipo do processo (queda, tomba-
zonas homogêneas em relação ao grau de mento, escorregamento, etc.);
probabilidade de ocorrência do processo • Posição da ocupação em relação à
considerando os seus danos. encosta (Figura 13);
• Qualidade da ocupação e sua vul-
nerabilidade (Figura 14).

Alto da encosta = queda Posição da ocupação

base da encosta
= atingimento

Figura 13. Ocupação de encosta (área de risco de deslizamento).


108 Mapeando e avaliando o risco

Vulnerabilidade das moradias

Figura 14. Moradias vulneráveis em área de risco de deslizamento.

b) Setorização do risco: essa etapa é


realizada com base em:

• Auxílio de fichas de campo, tam-


bém chamados de check list (Figu-
ra 15);
• Uso de plantas, mapas, ou mesmo
guias de ruas;
• Uso de fotografias aéreas e ima-
gens de satélite;
Figura 15. Fichas de campo (check list).
• Uso de fotografias oblíquas de bai-
xa altitude, coletadas desde heli-
cópteros (Figura 16);
• Trabalhos de campo com equipe
treinada (Figura 17);
• Conhecimento do histórico da
área.

Figura 16. Imagens oblíquas de helicóptero.


Capacitação em Gestão de Riscos 109

Exemplo: Nota-se que no mapeamento


das áreas de risco elaborado pela CPRM
são indicados o grau de risco, a quanti-
dade de casas e de pessoas em risco e
algumas ações necessárias para a sua mi-
tigação (Figura 18).

Figura 17. Execução de trabalhos de campo.

Figura 18. Setorização do risco a escorregamento no município de Porto Alegre elaborado


pela CPRM em 2012.

A setorização do risco a movimentos na Figura 18, está sendo realizada pela


de massa e inundações, exemplificada CPRM nos 821 municípios prioritários.
110 Mapeando e avaliando o risco

Hierarquização dos riscos


A hierarquização de riscos consiste Essa etapa é considerada essencial
na definição do grau de risco de um de- na fase de prevenção de desastres, pois é
terminado processo de desastre ocorrer através da hierarquização de riscos que
em um dado local. Essa definição é feita são definidas as áreas prioritárias para o
de forma probabilística, com a utilização gerenciamento de riscos de desastres.
de diferentes variáveis dependendo do
Como exemplo, no Quadro 1 é apre-
tipo de processo analisado.
sentada a metodologia de hierarquiza-
Em função do grande número de ção de risco utilizada pelo Serviço Ge-
processos e variáveis que podem ser ana- ológico Brasileiro (CPRM).
lisados, existem diferentes metodologias
utilizadas para hierarquizar os riscos.

Quadro 1. Hierarquização de risco utilizada pela CPRM.

Graus de Risco Descrição

Não há indícios de desenvolvimento de processos destrutivos em


R1 encostas e margens de drenagens.
Baixo Mantidas as condições existentes, não se espera a ocorrência de
eventos destrutivos.

Observa-se a presença de alguma(s) evidência(s) de instabilidade


(encostas e margens de drenangens), porém incipiente(s).
R2
Médio Mantidas as condições existentes, é reduzida a possibilidade de
ocorrência de eventos destrutivos durante episódios de chuvas intensas
e prolongadas.

Observa-se a presença de significativa(s) evidência(s) de instabilidade


(trincas no solo, degraus de abatimento em taludes etc.)
R3
Alto Mantidas as condições existentes, é perfeitamente possível a ocorrência
de eventos destrutivos durante episódios de chuvas intensas e
prolongadas.

As evidências de instabilidade (trincas no solo, degraus de abatimento


em taludes, trincas em moradias ou em muros de contenção, árvores
ou postes inclinados, cicatrizes de escorregamento, feições erosivas,
R4 proximidade da moradia em relação ao córrego etc.) são expressivas e
Muito Alto estão presentes em grande número e/ou magnitude.
Mantidas as condições existentes, é muito provável a ocorrência de
eventos destrutivos durante episódios de chuvas intensas e prolongadas.
Capacitação em Gestão de Riscos 111

Recursos utilizados no mapeamento de risco


Diversos recursos são utilizados para as características da população residente
o mapeamento de risco, em diferentes em um espaço geográfico menor do que
áreas e em diferentes níveis de precisão. o limite municipal.
É importante lembrar que alguns des-
Como exemplo de recursos, são citados:
ses recursos estão disponíveis de forma
gratuita, porém muitos possuem custos Levantamentos aerofotogramétri-
para serem adquiridos e estes custos de- cos, imagens de satélite e fotos aéreas:
vem ser adequados às verbas existentes
para tanto. • Identificação de área de risco e de
setores de risco (setorização preli-
Entre as principais informações espa-
minar);
ciais que podem ser empregadas para o
• Auxílio em levantamentos de cam-
mapeamento, destaca-se a utilização de
po para a setorização das áreas de
imagens de satélite do Google Earth para
risco.
localização das áreas visitadas; os limites
municipais e setores censitários do Insti- A Figura 19 mostra a utilização de fo-
tuto Brasileiro de Geografia e Estatísticas tografias oblíquas de baixa altitude para
(IBGE), que contêm informações sobre setorizar o risco.

Figura 19. Setorização de risco com o uso de imagens oblíquas obtidas em voos de heli-
cópteros.
112 Mapeando e avaliando o risco

Sistema de Posicionamento Global Alguns SIG são disponibilizados


(GPS) e softwares de geoprocessamento e gratuitamente ao público, a exemplo do
sensoriamento remoto: software SPRING (Sistema de Processa-
mento de Informações Georeferencia-
• Georreferenciamento de dados e das), desenvolvido pelo Instituto Nacio-
imagens e construção de banco de nal de Pesquisas Espaciais (INPE).
dados georreferenciados;
Para acesso aos tutoriais e download
• Coleta de coordenadas geográficas do software SPRING, clique aqui
em campo;

• Elaboração de mapas em um Siste- Base de dados


ma de Informação Geográfica (SIG);
• Vinculação de diferentes fontes de
• Processamento digital de imagens base de dados georreferenciadas
de satélite, fotos aéreas e dados de relacionados e utilização das mes-
levantamentos por radar. mas na elaboração de mapas em
um SIG.

Níveis de detalhamento e escalas


recomendadas para cada tipo de mapeamento
Para que a reprodução dos elementos escalas mais apropriadas para cada tipo
físicos em um mapa plano seja possível de mapeamento.
é necessário que os mesmos sofram re-
A escala de mapeamento sempre de-
duções em suas proporções reais. Isso
verá ser indicada nos mapas, por meio de
ocorre por meio da definição de escalas
uma escala numérica e/ou gráfica. A esca-
de mapeamento, as quais indicam o nível
la numérica (Tabela 1) é indicada em for-
de detalhamento dos elementos. Dessa
ma fracionária, sendo que o numerador
forma, a escala pode ser compreendida
representa a medida no mapa e o denomi-
como a relação entre a dimensão repre-
nador a medida da superfície real.
sentada do objeto no mapa e sua dimen-
são no espaço geográfico real (CRUZ; Tabela 1. Escalas numéricas mais comuns e
MENEZES, 2009). seus equivalentes.

A seleção da escala de trabalho é um Escala 1 cm representa no mapa


dos pontos fundamentais de qualquer es- 1:1.000 10 metros
tudo relacionado com o mapeamento de
1:5.000 50 metros
desastres, inexistindo uma escala única
1:25.000 250 metros
para estudar esses processos. A seguir se-
rão apresentados os principais conceitos 1:50.000 500 metros
relacionados com o tema e sugestões de 1:100.000 1.000 metros
Capacitação em Gestão de Riscos 113

Na escala gráfica a correspondência en- menor entre diferentes mapas, o que


tre um objeto no mapa e no espaço real é in- pode trazer confusões. O termo esca-
dicada através de uma reta graduada, como la maior, indica uma menor redução
a mostrada na Figura 20. Nesse exemplo, dos elementos físicos representados
cada centímetro do mapa corresponde a 4 no mapa, ou seja, esses elementos po-
quilômetros na realidade. dem ser mais bem visualizados, com
maior nível de detalhamento. O inver-
so se aplica nas escalas menores, ou
km seja, a utilização de uma escala menor
Figura 20. Exemplo de escala gráfica. indica uma maior redução dos ele-
mentos representados no mapa e es-
Frequentemente são empregadas ses, por sua vez, terão um menor nível
expressões como escala maior ou de detalhamento.

Exemplo: Na Figura 21 é possível visualizar porções de uma mesma localidade em di-


ferentes escalas, onde é possível perceber que a maior escala é a da direita (1: 25.000).

Figura 21. Visualização de porções de uma mesma localidade em diferentes escalas.

Sendo assim, um mapa originalmen- Exemplo: Na figura 22, é possível vi-


te concebido na escala de detalhe de sualizar o resultado da utilização da
1:50.000, por exemplo, não terá uma ferramenta zoon in em um mapa com
precisão maior do que a permitida para escala original de 1:50.000. Note que o
essa escala. As informações apresenta- que ocorreu foi uma simples ampliação
das em um mapa sempre estarão asso- dos elementos representados, e não um
ciadas à escala na qual os dados espa- maior detalhamento da área. Isso ocor-
ciais foram originalmente mapeados. re porque a utilização do zoom altera
apenas a escala de visualização, mas não
a escala original em que o mapa foi ge-
rado. O nível de detalhamento sempre
Por esse motivo, não se pode dizer estará vinculado à escala original de ma-
que ao aplicar a função de zoom em um peamento, que neste caso é 1:50.000.
mapa digital já finalizado é possível obter
uma maior escala.
114 Mapeando e avaliando o risco

Figura 22. Utilização da ferramenta zoom in em um mapa com dados em escala original
de 1:50.000.

• Grau de detalhamento desejado;


É importante salientar que quanto
maior a escala, maior será o custo asso- • Extensão da área de estudo;
ciado ao mapeamento e menor será a
área mapeada. • Método utilizado no mapeamento
(quantitativo ou qualitativo);

Surge então a dúvida sobre qual es- • Tipo de área estudada (urbana ou
cala deve ser utilizada para realizar os rural);
mapeamentos referentes a desastres. O • Financiamento disponível;
fato é que não existe uma escala única a
ser adotada para a elaboração dos ma- • Qualidade das bases digitais exis-
pas. A escala a ser adotada irá depen- tentes.
der dos seguintes fatores: Existem algumas propostas que su-
gerem as escalas de detalhamento mais
• Tipo de ameaça analisada; adequadas para cada tipo de mapeamen-
• Resultados que se pretende alcan- to. No Quadro 2 é apresentada a proposta
çar com o estudo; elaborada por Dourado (2013).
Capacitação em Gestão de Riscos 115

Quadro 2. Escalas para diferentes tipos de mapeamento e suas aplicações.

Nível de Mapeamentos Área coberta


Escala Objetivos
aplicação aplicáveis (km2)

• Priorização de países e/ou regiões


Global < 1:5.000.000 > 10.000.000
• Emissão de alertas

Continental • Priorização de regiões


1:5.000.000 a 1.000.000 a • Inventário dos principais
Muito 1:1.000.000 10.000.000
inventário desastres de países e/ou regiões
pequena
(nível preliminar) • Análise dos tatores deflagradores
e suscetibilidade • Implantação de programas
(nível preliminar) racionais
• Planejamento do uso do solo a
Nacional 1:1.000.000 a 100.000 a longo prazo
Pequena 1:100.000 1.000.000 • Avaliação estratégica
• Seguros
• Emissão de alertas

Regional 1:100.000 a inventário,


10.000 a 100.000
Região 1:50.000 suscetibilidade, • Planejamento do uso do solo a
perigo nível regional ou municipal
(nível preliminar) • Seguros
Municipal 1:50.000 a e vulnerabilidade • Emissão de alertas
1.000 a 10.000
Média 1:25.000 (nível preliminar)

suscetibilidade,
• Zoneamento de uso do solo
perigo,
Bairro 1:25.000 a • Desenvolvimento de políticas e
vulnerabilidade, 10 a 1.000
Grande 1:5.000 medidas para a redução de risco
risco
• Emissão de alertas
(nível preliminar)

• Desenvolvimento de políticas e
medidas para a redução de risco
vulnerabilidade,
• Emissão de alertas
Local risco e
> 1:5.000 > 10 • Implantação de obras de
Muito Grande mapeamento
engenharia
cadastrais
• Planejamento detalhado de uma
área

Fonte: adaptado de Dourado (2013).

Cabe salientar que as escalas indi- tos em escalas detalhadas (>1:5.000),


cadas no Quadro 2 variam conforme o já para os deslizamentos, essa escala é a
evento analisado, pois para cada pro- mais adequada. Uma proposta de escalas
cesso uma escala é mais adequada que aplicáveis a cada tipo de perigo natural é
outra, por exemplo, no caso de vendavais mostrada na Tabela 2.
ou secas é inviável realizar mapeamen-
116 Mapeando e avaliando o risco

Tabela 2. Escalas de mapeamento aplicáveis a diferentes tipos de eventos adversos.

Nível de aplicação Escala Deslizamentos Inundações Secas e Vendavais

Moderadamente
Global < 1:5.000.000 Pouco aplicável Pouco aplicável
aplicável

Continental 1:5.000.000 a Moderadamente


Pouco aplicável Altamente aplicável
Muito pequena 1:1.000.000 aplicável

Nacional 1:1.000.000 a
Pouco aplicável Altamente aplicável Altamente aplicável
Pequena 1:100.000

Regional 1:100.000 a Moderadamente


Altamente aplicável Altamente aplicável
Região 1:50.000 aplicável

Municipal 1:50.000 a Moderadamente


Altamente aplicável Altamente aplicável
Média 1:25.000 aplicável

Bairro 1:25.000 a
Altamente aplicável Altamente aplicável Pouco aplicável
Grande 1:5.000

Local
> 1:5.000 Altamente aplicável Pouco aplicável Pouco aplicável
Muito Grande

Fonte: adaptado de Van Westen (2012) e Dourado (2013).

A escala pequena, que varia de nessa escala. O mapeamento nesse nível


1:1.100.000 a 1:100.000, permite identi- de detalhe é fundamental para evitar o
ficar áreas suscetíveis a perigos naturais aparecimento de novas áreas de risco e
em nível geral e com um baixo detalhe. para gerenciar as já existentes.
Esta escala é utilizada principalmente em
A escala grande, que varia de 1:25.000
projetos de planejamento em nível nacio-
a 1:5.000, começa a apresentar um maior
nal ou regional, visando ao planejamento
refinamento no nível de detalhe, aplicável
do uso do solo em longo prazo.
ao mapeamento de eventos como desliza-
A escala média, que varia de mentos e inundações, por exemplo.
1:100.000 a 1:25.000, permite identificar A escala muito grande, que é maior
quantas áreas de risco existem no territó- que 1:5.000, é a mais adequada para a
rio analisado. A partir dela é possível de- gestão das áreas de risco. Os planos de
finir as prioridades para o mapeamento contingência de Defesa Civil são elabo-
de detalhe, além disso, os mapas executa- rados com base em mapas nesse nível de
dos nesta escala são adequados aos estu- detalhe, sendo que a partir deles é pos-
dos do meio físico visando à aplicação de sível identificar as áreas críticas para a
instrumentos de planejamento territo- realização de intervenções estruturais e
rial. A maior parte dos dados geomorfo- não estruturais, além de permitir a rea-
métricos, censitários e temáticos do ter- lização do monitoramento das áreas de
ritório brasileiro encontra-se disponível risco.
Capacitação em Gestão de Riscos 117

Verifica-se que no caso de desliza- onde ele se fizer realmente necessário


mentos, por exemplo, o nível de deta- (FELL et al., 2008).
lhamento necessário para a execução de Além disso, o quadro anterior per-
obras de estabilização de encostas exige mite constatar que para o mapeamento
um conhecimento detalhado da área de riscos visando à execução de projetos
(escala > 1:5.000). A área deve ser mi- de engenharia a escala mais adequada é
nuciosamente descrita, determinadas as a local (> 1:5.000). Para a gestão de pro-
suas características físicas, condições to- blemas causados pela ocupação de áreas
pográficas e principais deflagradores dos inadequadas, como encostas íngremes e
deslizamentos. Já para o mapeamento de planícies de inundação, as escalas de tra-
inundações, a escala utilizada geralmente balho mais adotadas ficam entre 1:10.000
é menor do que 1:5.000. e 1:25.000. Já para os estudos realizados
Essas recomendações de diferencia- em níveis regionais as escalas são meno-
ção nas escalas aplicadas para cada tipo res (< 1:50.000), sendo que estes mapas
de mapeamento ocorrem, também, em são de caráter indicativo e têm como
função dos custos envolvidos para a re- principal papel, subsidiar o planejamen-
alização de cada um deles. No mapea- to urbano e regional.
mento de suscetibilidade, por exemplo, o Os mapeamentos em escala global ou
nível de detalhamento é menor que no de continental (> 1:1.000.000) destinam-se
perigo, e o de perigo é bem menor que no principalmente a geração de índices de
de risco. Assim, os tomadores de decisão risco para cada país, que relacionados
podem optar por um tipo de mapeamen- aos índices de desenvolvimento socioe-
to de menor nível de detalhamento nos conômico permitem que as organizações
estudos iniciais. Dessa forma, é possível internacionais como o Banco Mundial,
reduzir custos pela limitação do mapea- BAD, OMS, PNUD, FAO façam prioriza-
mento mais detalhado apenas nas áreas ções (VAN WESTEN, 2012).

Métodos de mapeamento para cada evento


adverso
Conforme visto nos itens anteriores, permite a análise espacial de dados histó-
o mapeamento é uma ferramenta funda- ricos, o que fornece informações relevan-
mental para a gestão de riscos de desas- tes sobre o comportamento dos desastres
tres. Através do mesmo é possível iden- e auxilia, sobretudo, na avaliação dos da-
tificar as áreas onde os eventos adversos nos e prejuízos.
podem ocorrer, e consequentemente seu Entre os tipos de mapeamentos mais
risco, realizar a avaliação das áreas afe- conhecidos, destaca-se o mapeamento
tadas e a comparação do antes e depois de áreas de riscos de desastres, princi-
do desastre. Além disso, o mapeamento palmente os que se referem às áreas que
118 Mapeando e avaliando o risco

envolvem riscos geológicos (deslizamen- ção de Riscos do Ministério das Cida-


tos, corridas de lama) e hidrológicos des (BRASIL, 2007) sugere uma meto-
(inundações e enxurradas). Este tipo de dologia de mapeamento para áreas de
mapeamento é de extrema importância risco de inundação em áreas urbanas
na gestão de riscos, uma vez que permite desenvolvida pelo Instituto de Pesqui-
atuar na prevenção, mitigação e prepara- sas Tecnológica (IPT), que segue os se-
ção, reduzindo dessa maneira, os danos e guintes passos:
prejuízos causados pelos desastres.
Um dos instrumentos mais eficien- 1. Identificação e delimitação pre-
tes para análise de risco é o mapeamen- liminar de área de risco em foto-
to de áreas de risco. A partir dele po- grafias aéreas (fotos aéreas de bai-
dem-se elaborar medidas preventivas, xa altitude ou de helicóptero) ou
planificar as situações de emergência e plantas cartográficas. No caso de
estabelecer ações conjuntas entre a co- cidades, devem ser identificados
munidade e o poder público, visando à prioritariamente os assentamentos
defesa permanente contra os desastres. precários localizados ao longo dos
Tais medidas estão associadas à identi- cursos d’água;
ficação das áreas com maior potencial 2. Após isto, deve ser feita a localiza-
de serem afetadas, onde são hierarqui- ção das áreas de risco em plantas
zados os cenários de risco e a proposi- cartográficas, guias de ruas, fo-
ção de medidas corretivas (MARCELI- tografias aéreas de levantamento
NO, 2004). aerofotogramétricos recentes ou
imagens de satélite de alta reso-
Este tipo de mapeamento é impor- lução (GeoEye, World View, Ra-
tante também para o planejamento das pid Eye, Google Pro). Este tipo
situações de emergência, na evacuação de informação permite fazer uma
da população frente a um perigo emi- pré-setorização ou setorização
nente, de logística na resposta ao desas- preliminar das áreas e de compar-
tre, nas operações de resgate, na restau- timentos de risco, no caso de inun-
ração das áreas afetadas, e nas atividades dações o vetor de análise são a ba-
de educação, capacitação, preparação e cia de drenagem e o curso d’água;
conscientização das comunidades em 3. Após a setorização preliminar de-
risco identificadas no mapa, visando à vem ser feitos levantamentos de
redução do risco e o número de pessoas campo para análise mais detalha-
afetadas. da dos processos que ocorrem na
área (preenchimento da ficha de
O mapa de áreas de risco à inunda-
cadastro, fotos de campo, dados de
ção é uma importante ferramenta para
vulnerabilidade e periculosidade
a prevenção, controle e gestão deste
da área);
evento adverdo. O Programa de Redu-
Capacitação em Gestão de Riscos 119

4. De posse dos dados de campos, partimentos com os diferentes


confrontados com os obtidos em graus de risco de inundação.
fotos, imagens e mapas faz-se a
A cidade de Itabuna na Bahia possui
síntese final da setorização de
um vasto histórico relacionado às inunda-
risco com a delimitação dos com-
ções

Figura 23. Modelo conceitual da metodologia adotada para o mapeamento de áreas de


risco à inundação num trecho do rio Cachoeira, Itabuna, BA. Fonte: Hora e Gomes (2009).
120 Mapeando e avaliando o risco

Figura 24. Mapa de risco a inundação do rio Cachoeira, Itabuna, BA. Fonte: Hora e Gomes (2009).

Um dos quatro eixos temáticos do Dois tipos de mapeamentos estão


Plano Nacional de Gestão de Riscos e sendo realizados:
Resposta a Desastres Naturais do Gover-
no Federal (PPA 2012–2015), é o mapea- • A Setorização de Riscos a Movi-
mento, isto é, a produção do conhecimen- mentos de Massa e Inundações, que
to geológico-geotécnico em municípios consiste na identificação e delimita-
com alto e muito alto risco a deslizamen- ção de áreas urbanas classificadas
tos e inundações. O Ministério das Minas como de risco Muito Alto e Alto, em
e Energia, por meio da CPRM-Serviço escala variável de 1:1.000 a 1:2.000;
Geológico do Brasil, recebeu a incumbên- para processos de rupturas em en-
cia de atuar neste mapeamento. Está pre- costas e deslizamentos e inundações;
visto até 2014 a realização do mapeamento • A geração de Cartas Municipais
de áreas de risco nas áreas urbanas de 821 de Suscetibilidade a Movimen-
municípios e de suscetibilidade em 286 tos de Massa e Inundações, que
municípios considerados críticos. O foco indicam no território municipal,
é naqueles recorrentemente afetados por as áreas de suscetibilidade Muito
inundações, enxurradas e deslizamentos, Alta, Alta, Média, Baixa e Muito
buscando contribuir para a mitigação e Baixa para processos de movimen-
redução das perdas de vidas e danos rela- tos de massa, enxurradas e inun-
cionadas a desastres naturais. dações, na escala 1:25.000.
Capacitação em Gestão de Riscos 121

As etapas da metodologia adotada entendimento dos condicionantes


para a Setorização de Riscos são: da ruptura;
5. Estimativa do número de mora-
1. Uso de imagens de satélite, bases dias (prédios) e pessoas afetadas
cartográficas e bibliografia dispo- ou passíveis de serem afetadas;
nível, para o reconhecimento pre- 6. Indicação das intervenções estru-
liminar da área; turais/não estruturais (obras de
2. Contato institucional com SE- contenção, drenagem, educação
DEC/COMDECs para a integra- ambiental, remoção ou relocação
ção de técnicos municipais e de de moradores e moradias) entre
Proteção e Defesa Civil com os outras intervenções.
pesquisadores da CPRM, para 7. Geração do polígono, envolvendo
identificar os setores de risco alto e as moradias que estão sob risco,
muito alto a movimentos de massa em um ambiente SIG e fazendo
e/ou sujeitas a processos de inun- uso de imagens Google Earth ge-
dação; orreferenciadas ou imagens de
3. Delimitação sobre imagens de sensores remoto de alta resolução,
satélites/fotografias aéreas da se- com a vetorização em tela;
torização, que é um polígono en- 8. Transferência destas informações
volvendo a porção de uma encosta para os representantes dos mu-
ou planície de inundação com po- nicípios e defesa civil, com apre-
tencial para sofrer algum tipo de sentações e disponibilização das
processo natural ou induzido, que pranchas em formato pdf-impres-
possa causar danos; sas e digital (Figura 25), os dados
4. Elaboração dos mapas (pranchas) vetoriais e a base de dados (Figura
de setorização, no tamanho A3, 26). Elas são entregues também
com fotos de campo do setor re- ao CEMADEN, CENAD, Minis-
lativas às rupturas e aos indícios tério das Cidades e outros órgãos
observados no terreno e mora- e instituições integrantes do Plano
dias, e outras estruturas urbanas Nacional de Gestão de Riscos e
em risco. Neles estão também a Resposta a Desastres Naturais do
descrição da tipologia do proces- Governo Federal.
so e todas as informações para o
122 Mapeando e avaliando o risco

Figura 25. Prancha com a setorização de riscos e descrição dos processos de inundação
elaborada pela CPRM. Fonte: <http://campinas.sp.gov.br/arquivos/meio-ambiente/plano-sa-
neamento/fichas-informativas-15-1.pdf>.

Figura 26. Setorização de risco do município de Ouro Preto, MG, em ambiente SIG.
Capacitação em Gestão de Riscos 123

Uso do geoprocessamento na gestão de riscos


Este item tem por objetivo apresentar ferramentas usadas para coleta e trata-
os conceitos de geoprocessamento e Siste- mento de informações geográficas (espa-
mas de Informação Geográfica (SIG), além ciais), tendo como resultado a geração de
de mostrar as possibilidades e praticidade mapas, relatórios, arquivos digitais, etc.
da aplicação destas ferramentas nas dife- Na Figura 27 é apresentado um esquema
rentes etapas da gestão de riscos. mostrando algumas possibilidades de uso
das ferramentas de geoprocessamento.
Geoprocessamento é o conjunto de

Figura 27. Esquema mostrando utilizações das ferramentas de geoprocessamento.

Para simplificar, pode-se dizer que o SIG é um sistema auxiliado por com-
geoprocessamento representa qualquer putador para aquisição, armazenamento,
tipo de processamento de dados geor- análise e visualização de dados geográ-
referenciados realizado através do uso ficos. É, portanto, uma ferramenta do
de Sistemas de Informação Geográfica geoprocessamento. Esse sistema é com-
(SIG), que envolve diversos componen- posto por uma variedade de elementos,
tes como pessoas, dados, software, har- como banco de dados espacial, sistema
dware e metodologias (Figura 28). de visualização cartográfica, sistema de
análise geográfica, análise estatística, en-
tre outros.
As principais fontes de dados para
gestão de riscos utilizadas no geoproces-
samento são adquiridas por meio de ma-
pas analógicos e digitais; imagens de sa-
télite; fotografias aéreas; dados coletados
com GPS; levantamentos topográficos;
dados estatísticos e relatórios.
Entre as vantagens do uso do geopro-
Figura 28. Componentes de um SIG. cessamento destacam-se (ISSAI, 2013):
124 Mapeando e avaliando o risco

• utilização mais nobre e eficiente ta; resgate de pessoas atingidas por desas-
dos dados disponíveis; tres; avalição de danos.
• integração de dados de diversas
fontes, origens e formatos;
• realização de análises complexas
por meio de cruzamento de dados;
• geração de informações com um
baixo custo financeiro e otimiza-
ção do tempo de análise;
• facilidade na tomada de decisões;
• melhoria da coordenação e a comu-
nicação entre diferentes setores, au-
mentando a eficiência dos mesmos;
• criação de relações entre conjun-
tos de dados que podem parecer
desconexos quando analisados
Figura 29. Ciclo contínuo da gestão de ris-
individualmente, mas quando so- cos e gerenciamento de desastres.
brepostos em um mapa mostram-
se correlacionáveis; Na prevenção, o geoprocessamento
• melhoria do entendimento dos pode auxiliar no mapeamento de susceti-
desastres no processo de gestão de bilidade, perigo, vulnerabilidade e risco.
riscos, uma vez que auxiliam no Esses mapas podem ajudar a direcionar
seu mapeamento; os recursos para mapeamentos mais de-
• multiplicação da produtividade talhados, além de auxiliar na priorização
dos técnicos. de estratégias de intervenção e mitigação
em áreas de maior risco.
Desta forma, o geoprocessamento
constitui-se em uma tecnologia impor- Outra ferramenta importante para a
tante para a gestão de riscos, podendo ser prevenção de desastres é a elaboração de
utilizado em todas as etapas (Figura 29), mapas com os registros de eventos ante-
desde a prevenção de desastres, mitigação, riores. Esses mapas, chamados de inven-
preparação e resposta até a recuperação. tários, fornecem dados básicos para o
Algumas aplicações do geoprocessamen- planejamento regional e auxiliam na de-
to na gestão de risco, especificamente, in- finição de áreas prioritárias onde estudos
cluem o mapeamento de suscetibilidade, mais detalhados devem ser conduzidos.
perigo, vulnerabilidade e risco de desastre; Na preparação, o geoprocessamen-
mapeamento de ocorrências de desastres; to possui diversas aplicações, principal-
monitoramento de desastres; elaboração mente no apoio para a elaboração do
de rotas de evacuação através dos mapas plano de contingência, podendo oferecer
previamente construídos; simulação de as seguintes informações básicas para o
desastres; implantação de sistema de aler- mesmo (MARCELINO, 2007):
Capacitação em Gestão de Riscos 125

• definição de rotas de evacuação; rápidas, organizadas e coordenadas de um


• identificação de hospitais, abrigos amplo conjunto de indivíduos e órgãos.
e centros de operações de emer-
Alguns exemplos específicos de como
gência;
o geoprocessamento pode auxiliar na
• realização de treinamentos e simu-
resposta incluem (ESRI, 2013):
lados de desastres;
• criação de modelos digitais de • compreender o alcance dos danos;
desastres; • identificar locais onde pessoas
• criação e gerenciamento de siste- possam estar presas, feridas ou
mas de alerta; necessitando de apoio médico e de
• monitoramento de desastres; resgate;
• auxílio no desenvolvimento de • localizar pessoas nas operações de
planos de contingência; busca e salvamento com a utiliza-
• cálculo do tempo de resposta de ção de um GPS;
emergências. • identificar potenciais abrigos (es-
colas, bibliotecas, igrejas, edifícios
A realização de treinamentos com a públicos), hospitais, polícia, bom-
utilização de geoprocessamento permite beiros, entre outros, desde que
simular diferentes cenários de desastres. previamente cadastrados em um
Dessa forma, é possível capacitar equipes banco de dados;
de técnicos e a população em geral para • mapear locais adequados para
uma melhor resposta frente a ocorrên- postos de comando de incidentes
cias de desastres. para fornecer apoio logístico para
Um modelo desenvolvido em SIG a equipe de segurança pública;
para estimar possíveis danos ocasiona- • identificar locais com suprimentos
dos por episódios de desastres é utiliza- e materiais necessários para a res-
do pela Federal Emergency Management posta e recuperação.
Agency (FEMA) nas áreas suscetíveis a Em desastres de longa duração (por
tempestades e furacões. Os mapas de exemplo, inundações e incêndios), os SIG
saída do modelo incluem prejuízos esti- podem modelar a velocidade, direção e
mados pela ação do vento sobre as edifi- intensidade do evento. Assim, é possível
cações localizadas ao longo do caminho alertar as pessoas em perigo e mobilizar
da tempestade (FEMA, 2008). A partir recursos públicos para as ações de resposta.
desses cenários é possível verificar se
existem escolas, abrigos e hospitais loca- Em 2003, nos EUA, um software de
lizados nas áreas afetadas pelos desastres. SIG foi utilizado na modelagem de um
incêndio florestal ocorrido no Sul do Es-
Na resposta, o geoprocessamento pro- tado da Califórnia. A partir da direção
porciona aos gestores meios necessários dos ventos, foi possível modelar cenários
para melhorar sua atuação frente aos desas- e verificar os locais que seriam atingidos.
tres, uma vez que estes, por serem ocorrên- Com isso, foi possível evacuar previamen-
cias extraordinárias, requerem respostas te cerca de 95.000 pessoas (ESRI, 2004).
126 Mapeando e avaliando o risco

Outra utilização de SIG na resposta Na recuperação, o geoprocessa-


a desastres ocorreu também nos EUA, mento ajuda agências municipais, esta-
por meio do uso de uma série de mapas duais e federais na avaliação dos danos
produzidos, quando o furacão Katrina e na identificação de áreas seguras para
atingiu a cidade de New Orleans no Es- a relocação e reconstrução das comu-
tado da Louisiana em 2005. Os socorris- nidades afetadas. Estas informações
tas e equipes de emergência utilizaram podem ser inseridas em um banco de
mapas de ruas mostrando a densidade dados para serem utilizadas novamen-
populacional, as principais referências te na fase de prevenção e preparação
urbanas citadas nas chamadas de emer- (MARCELINO, 2007).
gência e as coordenadas de latitude e O uso de imagens aéreas e de satélite
longitude necessárias ao resgate por he- também pode ser aplicado para verificar
licóptero. Foram empregados mapas de a magnitude dos danos de um determi-
suscetibilidade na identificação de áreas nado desastre, pois por meio delas é pos-
que provavelmente haviam sido afetadas sível visualizar uma mesma localidade
pelas inundações e mapas com pontos antes e após a ocorrência do desastre,
estratégicos para a resposta (abrigos, permitindo uma maior precisão na re-
hospitais, pontos de distribuição de construção. Na Figura 30, são apresenta-
água e locais com produtos perigosos). das imagens aéreas do Porto de Yuriage,
Também foram utilizados mapas para o na cidade de Natori no Japão mostran-
fechamento de estradas e restrições de do a situação antes e depois do tsunami
acesso (LONGLEY, 2013). ocorrido no local em 2011.

A B

Figura 30. Imagens aéreas do Porto de Yuriage, na cidade de Natori no Japão mostrando a
situação (a) antes e (b) depois do tsunami ocorrido no local em 2011 (fonte: Google, Digital
Globe, GeoEye).

Algumas iniciativas de sucesso para oprocessamento com funções de


aplicação do geoprocessamento no Brasil processamento digital de imagens
são citadas abaixo: de satélite, mapeamento, análise
espacial, modelagem numérica de
• Disponibilização gratuita de ima- terreno (MNT) e consulta a ban-
gens de satélite e softwares de ge- cos de dados espaciais (Exemplo:
Capacitação em Gestão de Riscos 127

aquisição do software SPRING e REFERÊNCIAS


imagens do Satélite Sino-Brasilei-
ro de Recursos Terrestres - CBERS
ALEOTTI, P.; CHOWDHURY, R. Landsli-
através de iniciativa do governo
de hazard assessment: summary review and
brasileiro, por meio do Instituto de
new perspectives. Bulletin of Engineering
Pesquisas espaciais – INPE, entre
Geology and the Environment, v. 58, n. 1,
vários outros);
p. 21-44, 1999.
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espaciais, tendo como fontes prin- BRASIL. Ministério das Cidades/Instituto de
cipais: Pesquisas Tecnológicas - IPT. Mapeamento de
Riscos em Encostas e Margem de Rios. CAR-
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(DSG) como organizações respon- IPT, 2007. 176 p. ISBN 978-85-60133-81-9.
sáveis pelo mapeamento sistemáti-
BRASIL. Lei Nº 12.608, de  10 de abril de
co de todo o território nacional;
2012. Institui a Política Nacional de Prote-
2. Diretoria de Hidrografia e Nave-
ção e Defesa Civil - PNPDEC; dispõe sobre
gação (DHN) e o Instituto de Car-
o Sistema Nacional de Proteção e Defesa Ci-
tografia Aeronáutica (ICA) para
vil - SINPDEC e o Conselho Nacional de Pro-
trabalhos específicos;
teção e Defesa Civil - CONPDEC; e dá outras
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Rural), Instituto Brasileiro do Meio COURA, P. H. F.; SOUSA, G. M. de; FER-
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nováveis (IBAMA), Instituto Esta- lógico da susceptibilidade à ocorrência de
dual de Florestas (IEF) e outras Ins- incêndios no maciço da Pedra Branca, mu-
tituições Federais e Estaduais; nicípio do Rio de Janeiro. Anuário do Ins-
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associados; Janeiro 2009.
5. Universidades e Institutos de
Pesquisa, por meio de estudos e CPRM 2014 file:///C:/Users/ADM/Docu-
pesquisas já realizados e em exe- ments/Downloads/1096-Nota_Tecnica_Ex-
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6
PREPARANDO-SE
PARA LIDAR COM
O RISCO
132 Preparando-se para lidar com o risco

Este tópico tem por objetivo possibilitar ao aluno:

• Mostrar o que é percepção de risco e como os riscos são percebidos;


• Identificar fatores que interferem na percepção de risco;
• Diferenciar situação de risco e percepção de risco;
• Compreender a importância da qualificação da percepção de risco para a análise e
gestão de riscos.

A multidisciplinaridade envolvida na dem trazer dificuldades, principalmente


gestão de riscos leva à disseminação de no que se refere às trocas de informações
uma diversidade de termos, não havendo entre os diversos profissionais envolvidos
uma terminologia completamente conso- na avaliação de riscos. Surge então a neces-
lidada. Essa falta de homogeneidade e a sidade de se harmonizar o entendimento
consequente sobreposição de termos po- dos conceitos associados à gestão de riscos.

Percepção de risco
A percepção de riscos é o processo de...

... os sinais relativos a impactos incer- e aceitabilidade do risco (SLOVIC, 2010;


tos de eventos, atividades e tecnologias WACHINGER; RENN, 2010).
(WACHINGER; RENN, 2010).
Exemplo: Há sempre o risco de atropela-
Processo de percepção de risco mento ao atravessar uma rodovia (Figura
1). No entanto, algumas pessoas podem
avaliar este risco com maior ou menor
A percepção de risco é um processo seriedade, aceitando ou não suas conse-
complexo, dinâmico e influenciado por quências.
fatores como conhecimento, experiência, A experiência prévia de não ter sido
atropelado pode diminuir a percepção
valores, atitudes e sentimentos, etc. do risco e reforçar o comportamento de
Tudo isso influencia o pensamento e o continuar atravessando.
julgamento das pessoas sobre a seriedade
Capacitação em Gestão de Riscos 133

Do tipo de risco
As características qualitativas do ris-
co são importantes na determinação da
percepção do risco.

Exemplo: Energia nuclear é considera-


da, pelo cidadão em geral, como um
“risco desconhecido”, um perigo não
observável, novo, causa pavor e com
efeitos retardados em sua manifesta-
ção de dano (SLOVIC, 2010).

Por outro lado, um motoqueiro pode


ter maior tolerância ao risco de aciden-
tes com motos, mesmo que as estatísti-
cas mostrem o contrário. A percepção
Figura 1. Pedestre cruzando rodovia (Fonte: de controle pessoal sobre a motocicleta,
Clicrbs/2013). bem como a familiaridade com esse meio
de transporte aumentam, em algum grau,
Fatores que interferem na percepção a tolerância e a aceitabilidade dos riscos
A percepção de risco pode diferir de- (SLOVIC, 2010).
pendendo: Os riscos são considerados com mais
• do tipo de risco; seriedade quando têm potencial para
• do contexto de risco; colocar em perigo a vida das pessoas,
• das emoções (afeto positivo e ne- quando o risco é imediato e quando as
gativo); fontes de comunicação têm credibilidade
• do gênero; (SMITH, 1992).
• da confiança ou desconfiança nas Assim, a percepção das pessoas so-
instituições; bre o risco de faltar água será diferente
• da visão de mundo; de acordo com o tipo de informação que
• do efeito de substâncias. possuem.
Exemplo:

Se a população O reservatório
não poupar, irá possui água
faltar água para as suficiente apenas
Baixa futuras gerações para mais 10 dias Alta
percepção percepção
de risco de risco
134 Preparando-se para lidar com o risco

Do contexto do risco Quanto menor foi o impacto sofrido,


menor a percepção das pessoas de que
Experiências prévias e, especialmen-
estão novamente em perigo. Assim, ex-
te, a severidade das consequências pes-
periências anteriores podem ter um efei-
soais relacionadas a desastres anteriores,
to paradoxal:
podem fazer diferenças na percepção de
risco.

Geralmente, quando um alto benefício As percepções de risco são, desta for-


é percebido em determinadas atividades ou ma, alteradas pelo fato de se ter ou não
tecnologias, tende-se a uma menor percep- vivenciado um evento adverso ou conhe-
ção de risco dessas atividades. cer alguém próximo que o tenha viven-
ciado. Além disso, a percepção de risco é
Exemplo: As pessoas tendem a aceitar influenciada pelo conhecimento sobre as
melhor o risco advindo da construção consequências de tal evento.
de um shopping center quando há pro-
messa de melhoria na infraestrutura da Do gênero
região e quando esta informação vem
de fonte confiável. Homens e mulheres têm diferentes
A aceitação do risco de viver em uma percepções de risco. Mulheres tendem a
área propensa a inundação pode de- avaliar os possíveis os riscos com maior
correr do benefício da moradia, da seriedade do que os homens. Diferen-
localização, da rede social que o indi-
víduo possui, dentre outros aspectos.
ças podem ser explicadas pela biologia e
Desse modo, aceita-se conviver com o também pela maior vulnerabilidade so-
risco pelos benefícios. cial a certos riscos como, por exemplo, a
violência.
Das emoções Num estudo de Domènech, Supra-
namiam e Sauri (2010), as mulheres per-
As emoções afetam a maneira com ceberam a seca (2007-2008) na região
a qual se percebe o risco a partir das ex- metropolitana de Barcelona como mais
periências que cada indivíduo possui. A aguda do que os homens e também apre-
percepção é influenciada por processos sentaram maior preocupação quanto ao
emotivos presentes na memória e pela risco do desastre para as futuras gerações.
aprendizagem que cada um tem e recebe.
Capacitação em Gestão de Riscos 135

Da confiança nas instituições ta de cheias do Instituto Estadual do Am-


biente, RJ. (Fonte INEA (2014). apresenta
A confiança ou desconfiança nas
um sistema de alerta de cheias on line.
instituições nasce da relação prévia es-
tabelecida entre seus representantes e a
Exemplo: A credibilidade das informa-
população. ções pode determinar a percepção da
seriedade do risco. Informações divul-
Desse modo, a qualidade desta relação gadas por uma instituição conhecida
irá afetar o processo de comunicação de tendem a ser observados com maior
risco e, consequentemente, a percepção do atenção pelas pessoas (Figura 2).
grau de vulnerabilidade, ameaça, perigo ou www.inea.rj.gov.br
mesmo o risco. A Figura 2. Sistema de aler-

Figura 2. Sistema de alerta de cheias do Instituto Estadual do Ambiente, RJ. Fonte: INEA
(2014).

Do efeito de substâncias
Exemplo: Em situações de desastres a
Pessoas que utilizam medicações prescrição de determinados medica-
mentos deve ser avaliada com cautela
como, por exemplo, ansiolíticos, ou mes- de modo a não colocar em risco a vida
mo sob efeito de outras drogas ou álcool, das pessoas.
têm sua capacidade de avaliação dos estí-
mulos alterada.
Nesse sentido, diferentes tipos de A visão dos experts x população
substâncias podem influenciar na per- em geral
cepção de risco e, consequentemente, Expert (Cientistas): Tendem a ver o
no comportamento de se proteger. grau de risco como sinônimo de proba-
136 Preparando-se para lidar com o risco

bilidade de dano ou expectativa de mor- tão boa pra plantar”, “daqui de cima
talidade (ex.: quantas mortes por ano em dá pra ver toda a cidade”, “quando
acidentes de trânsito). falta água, a gente pega do rio”.
População em geral: Concepção am-
pla de riscos, qualitativa e complexa, que A importância da percepção de
risco para a gestão de risco
incorpora considerações, tais como medo,
incerteza, potencial catastrófico, controle, A percepção de risco é um elemento
equidade, risco para as futuras gerações, etc. fundamental na gestão de risco, porque
quando a comunidade percebe sua situação
Situação de Risco real, contamos com um recurso facilitador
para a realização das atividades preventivas.
Sistema com características dinâmicas,
construído por uma combinação de fatores No momento em que uma população
de risco. Tais fatores são desencadeantes de passa a perceber seus riscos, ela também
processos crônicos de risco, fundados so- tem mais clareza sobre a necessidade de
bre uma relação prévia entre elementos do se proteger e abre-se o caminho para a co-
ambiente e os sujeitos de risco. Lembrando laboração nas ações de proteção (Figura
3. Atividade de percepção de riscos rea-
que a situação de risco pode ou não coinci-
lizada na comunidade de Ilha das Flores,
dir com a percepção de risco.
Porto Alegre – RS (Foto: GRID, 2012)).
Algumas justificativas para as No entanto, não se pode afirmar que
pessoas permanecerem vivendo a informação sobre o risco e o conheci-
em áreas de risco/situação de risco mento deste pela população exerça influ-
ência sobre a percepção de risco.
Uma série de expressões são usadas
Porém, a informação sobre o risco
com frequência para justificar a perma-
tem um papel importante no aumento
nência das pessoas em áreas ou situações
da preocupação das pessoas em adotar
de risco, tais como:
medidas para se adaptar ao contexto de
risco, o que terá impacto sobre seus com-
• incertezas associadas à ocorrência do portamentos futuros.
fenômeno: “mas quando e onde?”;
• mudança do cenário de risco: “mas
isso nunca aconteceu!”;
• roleta russa: “vale a pena arriscar”,
“o raio nunca cai duas vezes no
mesmo lugar”;
• falta de alternativa de moradia,
trabalho e segurança: “não tenho
para onde ir”, “meu trabalho é tão Figura 3. Atividade de percepção de riscos
longe”, “gosto daqui, é seguro”; realizada na comunidade de Ilha das Flores,
• custo versus benefício: “essa terra é Porto Alegre – RS (Foto: GRID, 2012).
Capacitação em Gestão de Riscos 137

Qualificação da percepção de risco

A qualificação da percepção de risco a chave para entender porque as pessoas


refere-se ao desenvolvimento da capaci- resistem em adotar medidas de preven-
dade das pessoas em analisar de maneira ção e proteção em desastres.
diferenciada o seu cotidiano, rompendo
Desta forma, o foco das ações para
com concepções baseadas no senso co-
o fortalecimento da percepção de risco
mum e ampliando a visão para uma série
deve estar na sua qualificação e na iden-
de fatores de risco que possam estar pre-
tificação de fatores que possam estar in-
sentes no ambiente (Figura 4).
terferindo na análise da seriedade e acei-
A identificação dos fatores que in- tação das condições de risco.
fluenciam a percepção de risco pode ser
A B

Figura 4. Situações de risco: (a) casa com rachadura e (b) esgoto não canalizado. (Fonte: IPT).

Assim, a preocupação não está apenas Qualificar a percepção de risco é um


na análise de um único tipo de risco, mas ingrediente a mais no fortalecimento e
na compreensão dos processos que man- aumento da capacidade de:
tém ou desencadeiam diferentes riscos no
ambiente, como estes podem estar relacio- Antecipar e
nados e que tipo de impactos podem ser preparar-se
Resiliência

antecipados pela análise de risco (Figura 5.


Corte na encosta – talude. (Fonte: IPT).).
Lidar com

Recuperar-se

Aprender com

Figura 5. Corte na encosta – talude. (Fonte: IPT).


138 Preparando-se para lidar com o risco

Resiliência
O termo resiliência é utilizado em tecnológica, configurando-se uma abor-
diversos campos do conhecimento com dagem holística da gestão de riscos de
variações de interpretação no seu signifi- desastres e da relação entre os dois. Neste
cado em cada um deles. Para a gestão de contexto, o conceito de resiliência reflete
riscos de desastres, o conceito de resiliên- as capacidades e deficiências dos sistemas
cia incorpora aspectos amplos. Abrange sociais, econômicos, culturais e ambien-
os eventos adversos de origem natural e tais na redução de risco de desastres.

Resiliência é a capacidade de um sistema, comunidade ou sociedade, potencialmente expos-


ta a perigos, de adaptar-se, resistir ou suportar impactos e manter-se em um nível aceitável
de funcionamento, garantindo o acesso a serviços e suporte para a o bem-estar da popula-
ção e se recuperando de forma rápida.
A resiliência é determinada pelo grau ao qual um sistema social é capaz de se auto-organi-
zar para aumentar a sua capacidade de aprender com os desastres do passado e construir
um futuro mais protegido com melhores medidas de redução de risco.

Resiliência no contexto da gestão trumento balizador das iniciativas para


de riscos de desastre redução do risco de desastres. O Marco
indica quais são os aspectos e atividades
Diferentes iniciativas internacionais que devem ser implementados para que
tem advogado pelo aumento da resili- comunidades e nações tornem-se mais
ência como caminho para a redução de resistentes às ameaças que põem em ris-
risco de desastres. Os estados membros co os benefícios do seu desenvolvimento
da Organização das Nações Unidas, por e para enfrentá-las da melhor forma. A
exemplo, se comprometeram em adotar resiliência integra e complementa a ges-
o Marco de Ação de Hyogo como ins- tão de riscos de desastres.
Pré desastre
-Identificar o risco
Retornar e se -Reduzir o risco
Absorver
adaptar a uma -Estar preparado
Impactos
nova realidade

Pós desastre Resiliência Durante um


-Dar assistência desastre
-Recuperar -Dar resposta
-Reabilitar adequada
Manter as
funções básicas

Figura 6. Relação entre resiliência e gestão de riscos de desastres.


Capacitação em Gestão de Riscos 139

A gestão de riscos de desastres con- tanto nas causas como na mitigação das
figura-se desta maneira uma parte im- mudanças climáticas, exigem um sólido
portante para as cidades mais resilientes planejamento territorial.
e demonstra que o planejamento urbano
e a gestão de riscos são complementares Exemplo: A cidade de Campinas (Figura
e devem ser integrados. 7) está certificada pela Organização das
Nações Unidas (ONU) como cidade mo-
delo de boas práticas na construção de
Planejamento, flexibilidade e resiliência para a redução de riscos de de-
adaptação sastres. Isso significa que a ONU considera
Campinas como um município preparado
para o atendimento em situações de um
Os desafios impostos pelo rápido desastre natural, minimizando os riscos e
crescimento de muitas cidades e o de- perdas para a população.
clínio de outras, pela expansão da eco-
nomia informal e pelo papel de cidades

Figura 7. Município de Campinas - SP.

Ser resiliente pode ser interpreta- deverá planejar ações em diferentes


do como uma estratégia de gestão que áreas que contribuirão para a resiliên-
prioriza, entre outros aspectos, a redu- cia (Figura 8. Áreas de contribuição
ção de risco de desastres. A gestão pú- para a resiliência (Fonte: adaptado de
blica, juntamente com as comunidades, Turnbull et al., 2013)).
140 Preparando-se para lidar com o risco

Figura 8. Áreas de contribuição para a resiliência (Fonte: adaptado de Turnbull et al., 2013).

Reconhecer que a definição técnica toridades lidam com as vulnerabilidades


de resiliência incorpora processos eco- criadas pelo o crescimento desordenado,
lógicos, sociais e econômicos permite o pela rápida urbanização e pela degrada-
contínuo ajuste e auto-organização de ção ambiental, eles podem ter intensida-
uma comunidade, sociedade ou de um des maiores ou menores.
sistema urbano.
Uma sociedade resiliente entende
Construindo a resiliência seus riscos e desenvolve um forte traba-
lho de educação com base nas ameaças
Os desastres atingem todas as cida- e vulnerabilidades a que seus cidadãos
des, mas em função da maneira como au- estão expostos.
Capacitação em Gestão de Riscos 141

Uma cidade resiliente realiza investi-


mentos necessários em redução de riscos
e é capaz de se organizar antes, durante e
depois de um desastre. Além disso, o ofe-
recimento de serviços plenos à população,
a preservação do meio ambiente e a incor-
poração da participação pública na gestão
do território dão condições para que as
cidades possam conviver com os riscos de
desastres, superá-los e reconstruírem-se
de forma mais rápida e eficiente.
O Marco de Ação de Hyogo indica a
priorização de 5 iniciativas para a redu- Figura 9. Centro Integrado de Comando e
ção do risco de desastres que contribuem Controle de Belo Horizonte/MG (Fonte: Go-
para aumentar a resiliência: verno de Minas).

1. Garantir que a redução de risco


de desastres (RRD) seja uma prio- Exemplo: A Campanha Construindo Cida-
des Resilientes: Minha Cidade está se Pre-
ridade nacional e local com uma parando, da Estratégia Internacional para
sólida base institucional para sua a Redução de Desastres (EIRD), da Orga-
implementação; nização das Nações Unidas (ONU) é pro-
movida no Brasil pela Secretaria Nacional
2. Identificar, avaliar e observar de
de Defesa Civil (SEDEC), do Ministério da
perto os riscos dos desastres, e me- Integração Nacional.
lhorar os alertas prévios; O objetivo da ação é sensibilizar governos
3. Utilizar o conhecimento, a inova- e cidadãos, firmar o compromisso em tor-
no das práticas de desenvolvimento sus-
ção e a educação para criar uma tentável e redução de risco de desastres
cultura de segurança e resiliência como forma de construir cidades mais
em todos os níveis; resilientes e propiciar o bem estar e segu-
4. Reduzir os fatores fundamentais rança dos cidadãos.
do risco; Para saber mais: acesse http://www.
5. Fortalecer a preparação em de- mi.gov.br/cidadesresilientes
sastres para uma resposta eficaz a
todo nível.
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7
INTERVINDO PARA
PREVENIR E MITIGAR,
REDUZINDO O RISCO
DE DESASTRES
144 Intervindo para prevenir e mitigar, reduzindo o risco de desastres

Este tópico tem por objetivo possibilitar ao aluno:


• Identificar as diferenças entre medidas estruturais e não estruturais para prevenção,
mitigação e redução do risco;
• Compreender o papel das políticas públicas e sua relevância para a gestão de risco;
• Conhecer alguns instrumentos de política pública para gestão de risco;
• Compreender os princípios, as dimensões da participação e sua função estratégica
na gestão de risco;
• Conhecer algumas experiências de mobilização e organização coletiva.

Tão importante quanto tratar os pro- visão da Gestão de Risco, a mesma está
blemas existentes é adotar medidas que relacionada com a busca por alterações de
mudem esta realidade para o futuro. situações intrínsecas a uma realidade físi-
A palavra intervenção nos remete a ca ou social de uma comunidade suscetí-
sinônimos como modificar, alterar, assis- vel a eventos adversos específicos e vul-
tir, ser ou estar presente, entre outros. Na nerável aos impactos provocados por eles.

Medidas estruturais e não estruturais


O impacto gerado a partir das ocorrên- dos tipos de desastres (MARCELINO,
cias dos eventos extremos pode ser miti- 2008), bem como o nível de detalhamento
gado e, em alguns casos, até mesmo elimi- (escala) com o qual irá se trabalhar.
nado por meio da adoção de medidas de
É importante ressaltar, também, que as
intervenção de caráter preventivo ou cor-
medidas de intervenção (estruturais e não
retivo. Estas medidas podem ser classifica-
estruturais) podem ser consideradas ações
das em dois grandes grupos: as medidas
fundamentais para se melhorar a quali-
estruturais e as medidas não estruturais.
dade dos espaços urbanos e, portanto, da
A Figura 1 mostra duas imagens de um
vida de seus habitantes. Para qualquer das
mesmo local, antes e após (respectivamen-
alternativas, a participação da população
te) a aplicação de medidas de intervenção.
na sua implantação é fundamental para al-
cançar bons resultados (FREITAS, 2007).

Medidas Estruturais

As medidas estruturais são, em ge-


Figura 1. Imagens do Beco São Vicente, em ral, de cunho mitigador e estão relacio-
Belo Horizonte/MG, antes e após a realiza- nadas a projetos de engenharia, através
ção de obras de contenção de deslizamentos. da construção, por exemplo, de obras de
(Fonte: www.portalpbh.pbh.gov.br).
contenção, drenagem, retenção hídrica,
Para a correta escolha pelo tipo e/ou proteção superficial, entre outras. Na Fi-
combinação de medidas de intervenção gura 2 são apresentados dois exemplos
preventivas a serem utilizadas é necessá- de obras de engenharia com aplicação de
rio conhecer as causas e consequências medidas estruturais de intervenção.
Capacitação em Gestão de Riscos 145

A B

Figura 2. Medidas estruturais: (A) Cortinas atirantadas na Rodovia RJ 142, Nova Friburgo - RJ;
(B) Escadaria hidráulica. (Fonte: www.sopeengenharia.com.br e IPT).

O tipo de medida estrutural ado- cessos perigosos mais frequentes no


tada está relacionado com o processo Brasil. Na Figura 3, é possível observar
perigoso que deve ser contido ou mi- uma mesma localidade antes e após a
tigado. Neste curso, serão vistas algu- realização de obras de engenharia com
mas possíveis obras relacionadas com aplicação de medidas estruturais de in-
a mitigação ou eliminação dos pro- tervenção.
A B

Figura 3. Igarapé Bittencourt, Manaus/AM: (A) antes; (B) e após a retirada de famílias de áreas de
risco, revitalização do local e construção de praça no entorno. (Fonte: www.prosamim.am.gov.br).

A seguir, serão especificados alguns Encostas são as superfícies inclina-


tipos de medidas estruturais aplicadas das de maciços naturais, formados por
no Brasil: material rochoso ou solo. Taludes são
superfícies inclinadas geradas a partir
• Obras de contenção de encostas/ de uma modificação humana, alterando
taludes a encosta através da realização de cortes
ou aterros (Figura 4).
146 Intervindo para prevenir e mitigar, reduzindo o risco de desastres

A B

Figura 4. (A) Ilustração de uma encosta em condição natural; (B) Ilustração de um corte
realizado na parte interior de uma encosta, para ocupação humana, gerando um talude.
(Fonte: GRID, 2014).

As obras de contenção de encos- bilização de blocos e a utilização de sis-


tas e taludes estão relacionadas com a temas de atirantamento.
manutenção do equilíbrio de um ma- A indicação do tipo mais adequado
ciço, que pode ser tanto uma encosta de intervenção de engenharia dependerá
natural quando um talude de corte ou da compreensão dos processos dos movi-
aterro. Tais obras consistem na aplica- mentos de massa envolvidos.
ção de estruturas de reforço em encos-
Os muros de arrimo, também co-
tas naturais ou taludes de corte/aterro
nhecidos como muros de gravidade, são
e têm a finalidade de proporcionar
estruturas de contenção que utilizam do
maior segurança com relação à estabi-
seu peso próprio ou geometria para su-
lidade dos mesmos.
portar os movimentos e/ou os esforços
Entre as mais comuns pode-se citar a do maciço. De forma geral, são utilizados
construção de muros de arrimo, a esta- na contenção de taludes (Figura 5).

Muro de
contenção
Muro de com gigantes
arrimo com
contrafortes

Figura 5. Ilustração de muros de Arrimo (Fonte: GRID, 2014).


Capacitação em Gestão de Riscos 147

Dentre os tipos de muro de arrimo relacionados ao talude, aos materiais


mais comumente utilizados destacam- disponíveis e ao custo.
se: muro de pedra seca; muro de pedra O muro de pedra seca caracteriza-se
argamassada; muro de gabião; muro de por uma estrutura formada pela união
concreto armado; muro de pneus. O uso manual de pedras e sua resistência é dada
de cada um deles dependerá da avaliação pela forma de entrelaçamento das mes-
técnica de um engenheiro geotécnico, mas (Figura 6).
que levará em consideração os aspectos

Figura 6. Imagem de um muro de pedra seca. (Fonte: IPT).

As principais características de um
muro de pedra seca são a facilidade de
construção, o baixo custo e o fato de o
mesmo ser autodrenante, o que evita a
ocorrência de pressões de água contra
o muro.
O muro de pedra argamassada é
similar ao de pedra seca, porém seus
vazios são preenchidos com argamassa
(cimento + areia + água). Suas principais
características são as mesmas do muro
de pedra seca, com exceção deste não ser Figura 7. Imagem de um muro de pedra
autodrenante (Figura 7). argamassada. (Fonte IPT).
148 Intervindo para prevenir e mitigar, reduzindo o risco de desastres

O muro de gabião é constituído por O muro de pneus é construído a


gaiolas formadas por redes de aço preen- partir do lançamento de camadas hori-
chidas com pedras (Figura 8). Suas prin- zontais de pneus, amarrados entre si e
cipais características são a flexibilidade preenchidos com solo compactado (Fi-
em relação ao local de aplicação, a rapi- gura 10).
dez de construção e a sua propriedade
autodrenante.

Figura 10. Imagem de um muro de pneus.


(Fonte: IPT).

Figura 8. Imagem de um muro de gabião. Outro tipo de obra de intervenção


(Fonte: IPT).
para contenção de encostas e taludes bas-
O muro de concreto armado, assim tante comum no Brasil é a estabilização
denominado por ser constituído deste de blocos, realizada em encostas sujeitas
material, pode ser construído utilizando a queda ou rolamento de blocos de ro-
formas geométricas mais elaboradas e, cha com dimensões variadas (Figura 11
assim, ser adaptado para qualquer tipo e Figura 12.
de necessidade (Figura 9). Suas princi-
pais características são o uso pratica-
mente irrestrito e o custo de construção
mais elevado.

Figura 11. Imagem de uma obra de estabi-


lização de um bloco de rocha. (Fonte: IPT).
Figura 9. Imagem de um muro de concre-
to armado. (Fonte: IPT).
Capacitação em Gestão de Riscos 149

Figura 12. Imagem de uma obra de estabi-


lização de um bloco de rocha. (Fonte: IPT).

O tipo de obra de estabilização a ser


utilizado depende dos processos físicos
que podem provocar a queda dos blo-
cos de rocha (Figura 13 e Figura 14), tais
como: alterações da rocha no contato
entre blocos; descalçamento de blocos;
cortes da rocha no sentido desfavorável Figura 14. Imagem de uma queda de blo-
às zonas de falhas. cos de rocha com aplicação de medida de
intervenção estrutural. (Fonte: IPT).

Os sistemas de Atirantamentos
também consistem em um grupo de
obras para contenção de encostas e ta-
ludes que incluem a utilização tanto de
tirantes isolados como de cortinas ati-
rantadas (Figura 15 e Figura 16). Os ti-
rantes são fios, barras ou cordoalhas de
aço que podem ser usados para conter
tanto solo quanto rocha. As cortinas,
Figura 13. Imagem de uma queda de blo- formadas pelo conjunto de painéis e ti-
cos de rocha. (Fonte: IPT). rantes, são aplicadas na contenção de
grandes massas de solo.
150 Intervindo para prevenir e mitigar, reduzindo o risco de desastres

presença de vegetação não é um fator


condicionante para a não ocorrência
desses movimentos.

Figura 15. Imagem de obra realizada com


uso de atiramentos. (Fonte: IPT).

Figura 17. Imagem de erosão de talude,


em margem de rio, ocasionada pelo escoa-
mento superficial das águas de chuva. (Fon-
te: www.agriculturaecologiaesaude.blogs-
pot.com.br).
Figura 16. Imagem de obra realizada com
uso de atiramentos. (Fonte: IPT).
As obras de proteção superficial de
• Obras de proteção de taludes taludes têm a finalidade de revestir os
taludes com materiais que permitam
A falta de vegetação e a remoção da um escoamento adequado das águas. Os
camada superficial do solo deixam os materiais utilizados podem ser naturais,
taludes vulneráveis à erosão (Figura 17) como por exemplo, revestimento de ta-
e à infiltração das águas provenientes lude com biomassa (Figura 18), artificial
das precipitações atmosféricas, poden- (Figura 19) ou então por uma combina-
do contribuir para o aumento da susce- ção dos dois. A definição de qual tipo uti-
tibilidade à ocorrência de movimentos lizar deverá ser analisada considerando
de massa. É importante lembrar que a cada situação específica.
Capacitação em Gestão de Riscos 151

Figura 18. Imagem de um talude adjacente a uma ferrovia antes e após, respectivamente,
ser revestido com biomassa, Brasil. (Fonte: http://deflor.com.br/solucoes/solucoes-taludes/).

Figura 19. Imagem de uma obra de reves- Figura 20. Imagem de uma obra de conten-
timento artificial para proteção de um talu- ção e estabilidade de encosta com utilização
de. (Fonte: IPT). de estruturas de drenagem. (Fonte IPT).

O sistema de drenagem das águas é


outro aspecto fundamental que deve ser
observado na implantação de qualquer
obra para contenção e estabilidade de en-
costas, pois a sua retenção ou direciona-
mento inadequado poderá comprometer
a estabilidade do conjunto. Na constru-
ção de obras que não possuem caracterís-
ticas autodrenantes, devem ser utilizadas
outras técnicas para garantir a drenagem
(Figura 20 e Figura 21. Figura 21. Imagem de uma obra de conten-
ção e estabilidade de encosta com utilização
de estruturas de drenagem. (Fonte IPT).
152 Intervindo para prevenir e mitigar, reduzindo o risco de desastres

Considerando esse aspecto, as obras


de engenharia mais utilizadas são: cons-
trução de bacias de detenção; construção
de bacias de retenção; construção de di-
ques; construção de canal artificial; obras
de saneamento; construção de barragens
e açudes. A seguir, será feita uma breve
explicação sobre cada uma delas.
As bacias de detenção (Figura 22)
retêm parte do volume escoado na bacia
a montante e permitem amortecer a va- Figura 23. Imagem de uma bacia de reten-
zão máxima escoada em decorrência da ção. (Fonte: IPT).
chuva na bacia. O objetivo dessa obra é
A construção de diques (Figura 24.
impedir a inundação de áreas situadas à
é uma obra de engenharia que funciona
jusante (RIGHETTO, 2009). Esse tipo de
como barreira artificial para contenção
bacia permanece seco na maior parte do
de água, enquanto que os canais artifi-
tempo, recebendo água apenas nos dias
de chuva. Dessa forma, é possível seu ciais (Figura 25) são construídos para
aproveitamento para atividades de lazer possibilitar o escoamento de água em
por meio da implantação de quadras es- superfície livre.
portivas. Já as bacias de retenção (Figura
23), são concebidas para armazenar todo
o volume gerado na bacia, possibilitando
também a melhoria da qualidade da água
(RIGHETTO, 2009).

Figura 24. Dique na margem direita da


ponte da Vila Maria, às margens do Rio
Tietê, São Paulo. (Fonte: http://piniweb.
pini.com.br/construcao/infra-estrutura/obra
-pretende-acabar-com-alagamentos-em
-pontos-baixos-da-marginal-280588-1.aspx).
Figura 22. Bacia de detenção realizada para
fins esportivos em Porto Alegre/RS. (Fonte:
http://www2.portoalegre.rs.gov.br/dep).
Capacitação em Gestão de Riscos 153

Figura 25. Canal artificial de Pereira Bar-


reto/SP. (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/ Figura 27. Imagem de um esgoto a céu
Ficheiro:Canal_de_Pereira_Barreto.jpg). aberto devido à falta de rede coletora de
esgoto. (Fonte: www.amovitapoa.blogspot.
com.br).
As obras de saneamento (Figura 26)
são indispensáveis para que o esgoto pro- As construções dos tipos barragens
veniente das habitações (Figura 27) seja e açudes (Figura 28 e Figura 29) funcio-
direcionado por uma rede adequada e, nam como barreiras artificiais, feitas em
dessa forma, se evite uma situação de cursos d’água para a retenção de grandes
risco. A falta de saneamento pode con- quantidades de água. Tais barreiras tam-
tribuir para a ocorrência de erosões e bém podem atender às necessidades bá-
promover a saturação constante do solo, sicas de áreas que apresentem condições
incidindo diretamente nos parâmetros extremamente críticas em decorrência de
que afetam a instabilidade das encostas. episódios de seca.
Além disso, a destinação incorreta do es-
goto pode se tornar um grave problema
de saúde pública.

Figura 28. Imagem de uma construção do


tipo barragem. (Fonte: IPT).

Figura 26. Imagem de uma construção de rede


coletora de esgoto no maciço do Morro da Cruz,
Florianóplis/SC. (Fonte: www.casan.com.br).
154 Intervindo para prevenir e mitigar, reduzindo o risco de desastres

Figura 29. Imagem do açude Mundaú localizado no município de Urubetama/CE, construí-


do para fins de irrigação, piscicultura e abastecimento de água. (Fonte: www.transportes.
gov.br).

Outras medidas estruturais de in-


tervenção de grande importância são a
reconstrução ou recuperação de obras
danificadas ou destruídas em função
de desastres (Figura 30 e Figura 31) e
as obras para realocação das famílias
residentes em áreas de risco (Figura
32 e Figura 33). A primeira consiste em
recuperar, reconstruir ou implantar me-
lhorias na infraestrutura, edificações e/
ou de caráter ambiental para evitar um
novo desastre. A segunda consiste na
retirada de pessoas de áreas de risco e
na construção de novas moradias, pro-
porcionando segurança, melhorando as
condições ambientais, de habitação e de
saúde por meio do planejamento urbano
e possibilitando também a regularização Figura 30. Imagem aérea do escorrega-
de propriedades. mento no morro do Bumba em Niterói/RJ.
(Fonte: www.transportes.gov.br).
Capacitação em Gestão de Riscos 155

Figura 31. Imagem aérea das obras de re- Figura 32. Imagem de Habitações popula-
construção feitas após o escorregamento no res danificadas nas margens e leitos de ria-
morro do Bumba em Niterói/RJ para o escoa- chos na Bacia dos Educandos em Manaus/
mento de água das chuvas, dreno e coleta de AM. (Fonte: www.prosamim.am.gov.br).
chorume. (Fonte: www.oglobo.globo.com).

Figura 33. Imagem da reposição de moradias em unidades habitacionais (reassentamen-


tos) feita em Educandos, Manaus/AM. (Fonte: www.prosamim.am.gov.br).

Após conhecer algumas das princi-


Exemplo: O desastre desencadeado pelo
pais medidas estruturais de intervenção Furacão Katrina em New Orleans, nos
utilizadas no Brasil, é necessário con- EUA (Figura 34). Os diques que prote-
siderar também que as mesmas podem giam a cidade das inundações haviam
sido construídos para resistirem a impac-
gerar uma sensação ilusória de seguran- tos causados por furacões classificados
ça por parte da sociedade, que deixa de até a categoria 3. O Katrina, entretanto,
preparar-se para um possível evento atingiu a categoria 5, ultrapassando o
previsto no projeto de construção desses
adverso. diques (KNABB et al., 2005).
156 Intervindo para prevenir e mitigar, reduzindo o risco de desastres

duras, mas sim um conjunto de medidas


relacionadas ao planejamento urbano,
legislação, defesa civil e educação, fun-
damentalmente (FREITAS, 2007). Essas
medidas podem ter um custo mais baixo
quando comparadas com ações estrutu-
rais e seus resultados são positivos na pre-
venção dos desastres. A Figura 35 mostra
um exemplo de medida não estrutural.

Figura 34. Imagem aérea de New Orleans,


nos EUA, após o desastre desencadeado Figura 35. Imagem mostrando a partici-
pelo Furacão Katrina. (Fonte: www.kathryn- pação de Servidores de Defesa Civil em um
cramer.com). simulado de mesa realizado pela Associação
Mato-Grossense de Municípios como parte
Ao final deste tópico, é importante das atividades de uma oficina de prepara-
salientar que devido aos expressivos va- ção para desastres. (Fonte: www.portalama-
zonia.com).
lores associados às obras de engenharia,
a condição socioeconômica latino-ame- A seguir, serão exemplificados alguns
ricana tem limitado a aplicação das me- tipos de medidas não estruturais direcio-
didas estruturais, visto que, mesmo com nadas para educação e informação.
grandes esforços mobilizados pela admi-
nistração pública, o valor investido ainda • Desenvolvimento de campanhas
está bem abaixo das reais necessidades direcionadas a temas voltados aos
(FREITAS, 2007). riscos e defesa civil:

Medidas não estruturais Exemplo: Organizações de cursos, ofici-


nas, palestras, manuais, livros e cartilhas
As ações não estruturais são aquelas para a capacitação da equipe local e po-
pulação (Figura 36 e Figura 37).
em que não se aplicam as tecnologias
Capacitação em Gestão de Riscos 157

Por meio dos treinamentos, pode-se


desenvolver uma atuação nas áreas preven-
tivas, aumentando a possibilidade de dar
uma melhor resposta e até mesmo de pro-
porcionar um processo de reconstrução.

Exemplo: Elaboração de simulados,


que ajudam a orientar a população
que vive em áreas de risco sobre
como agir na hora de um desastre (Fi-
gura 38 e Figura 39.

Figura 36. Encontros Regionais anuais de Figura 38. Simulado de vazamento com
Defesa Civil no Vale do Paranhana/RS. (Fon- produtos químicos no Tecon em Rio Grande/
te: adaptado de www.prefroante.com.br). RS, promovido pela Defesa Civil Estadual.
(Fonte: www.riogrande.rs.gov.br).

Figura 37. Cartilhas com informações sobre


medidas de prevenção de enchentes produ- Figura 39. Simulado de esvaziamento em
zidas pelo Centro de Operações do Sistema 100 prédios do centro do Rio de Janeiro/
de Alerta (CEOPS) e Defesa Civil de Blume- RJ, promovido pelo Corpo de Bombeiros e
nau/SC. (Fonte: www.arcadenoe.eco.br). Defesa Civil Estadual. (Fonte: www.noticias.
r7.com/rio-de-janeiro).
• Treinamento de equipes envolvi-
das na gestão de risco: • Elaboração de estudos para conhe-
cimento da realidade local:
158 Intervindo para prevenir e mitigar, reduzindo o risco de desastres

Por meio desses estudos é possível Algumas Universidades que possuem


reduzir o risco de desastres através da Grupos de Pesquisas em Desastres (Fi-
promoção de atividades de ensino, de gura 40. UFRGS, IFSC, UNESP, UFPR,
pesquisa e de extensão. USP.):

Figura 40. UFRGS, IFSC, UNESP, UFPR, USP.

• Elaboração de cursos de capacitação em gestão de riscos para a Defesa Civil


(Figura 41).

Figura 41. (A) Curso de capacitação básica em Defesa Civil incluindo módulo sobre ges-
tão de riscos de desastres; (B) Curso de capacitação em mapeamento e gerenciamento de
Risco de desastres – Ministério das Cidades. Fonte: (http://www.casadoradioamador.org.br/
defesacivil/docs/cbdcmodulo4.pdf e http://www.defesacivil.mg.gov.br/conteudo/arquivos/
manuais/Mapeamento/mapeamento-grafica.pdf).

• Atividades focadas no aumento da áreas de risco, permitindo uma melhor


percepção de risco compreensão por parte dos moradores
sobre as condições de risco às quais es-
As atividades devem ser desenvolvi- tão expostos.
das junto às comunidades que vivem em
Capacitação em Gestão de Riscos 159

Exemplo: Elaboração de mapas interativos nas comunidades (Figura 42) e mapas sobre-
postos com “mancha falada” (Figura 43), proporcionar a interação da comunidade com
os sistemas de monitoramento e alertas, informar a população sobre as regulamenta-
ções de uso e ocupação do solo, promover a educação ambiental (Figura 44), instruir a
comunidade sobre como realizar uma correta disposição dos seus resíduos sólidos, ins-
truir sobre a importância do controle de desmatamentos, Programas para Efetivação da
Participação da Comunidade do SNPDEC (Figura 45 e Figura 46), valorização de datas e
períodos importantes ligados ao tema de Defesa Civil (Figura 47).

Figura 44. Placas educativas com a mensa-


gem “jogar lixo e entulho em vias públicas
causa inundação nos dias de chuva” locali-
Figura 42. Atividade de mapa Interativo zadas na Rua dos Limões, Belo Horizonte/
realizado pelo Grupo de pesquisa GRID/
MG. (Fonte: GRID, 2012).
UFRGS na Comunidade de Amorim/RJ. (Fon-
te: GRID, 2012).

Figura 45. Núcleo Comunitário de Defesa


Figura 43. Mancha Falada do Núcleo de Civil (NUDEC)1 do Morro da Boa Vista,  Ni-
Alerta de Chuvas Suzana, Regional Pampu- terói-RJ (Fonte: www.conlestenoticias.com.
lha/Belo Horizonte. (Fonte: Prefeitura de br/2013/07/niteroi-morro-da-boa-vista-re-
Belo Horizonte – Superintendência de De- cebe-o-quinto-nucleo-comunitario-de-de-
senvolvimento da Capital - Núcleo de Alerta fesa-civil-nudec-da-cidade/).
de Chuvas). 1 Núcleo Comunitário de Defesa Civil (NUDEC):
Trata-se de um grupo comunitário formado em um bairro,
distrito, escola, associação comunitária, dentre outros, que
participa, de forma voluntária, no planejamento e na exe-
cução das ações de Defesa Civil (MENDES, 2012).
160 Intervindo para prevenir e mitigar, reduzindo o risco de desastres

Figura 46. Material distribuído aos volun- Figura 47. Divulgação da Semana Nacional
tários dos Núcleos de Defesa Civil, Belo Ho- de Redução de Desastres. (Fonte: www.sos-
rizonte- MG. (Fonte: GRID, 2012). riosdobrasil.blogspot.com.br).

Importância da implementação de políticas


públicas
Políticas públicas são diretrizes, prin- de renúncia fiscal (isenções). Realizam-
cípios norteadores de ação do poder se num campo de interesses e visões de
público, regras e procedimentos para as mundo muitas vezes conflitantes. Daí a
relações entre poder público e sociedade, necessidade do debate público, da trans-
além de mediações entre atores da socie- parência e da sua elaboração em espaços
dade e do Estado. públicos de discussão. A sua eficácia de-
pende da participação dos diversos seto-
As políticas públicas são implementa-
res da sociedade.
das em forma de documentos, como leis,
programas, dentre outros, e viabilizadas
As políticas públicas desempenham um
por meio de destinação de recursos do papel estratégico na redução/preven-
orçamento e de linhas de financiamento ção de riscos.
disponíveis.
A redução de desastres no Brasil
As políticas públicas tratam de re-
vem pautando iniciativas governa-
cursos públicos diretamente ou através
mentais importantes no sentido de se
Capacitação em Gestão de Riscos 161

fortalecer como política pública. Vem POLÍTICAS PÚBLICAS


ganhando relevância e eficácia na me-
dida em que se articula com outras
políticas setoriais existentes, como o
planejamento urbano e habitacional. Competência da União.
A Lei Federal 12.608/2012 institui a Estados e Municípios
obrigatoriedade de implantação e funcio- Figura 48. Políticas públicas como compe-
namento do Sistema de Proteção e Defe- tência da União, Estados e Municípios.
sa Civil local, bem como a articulação da As políticas públicas têm por funções:
gestão de riscos a outras políticas públicas.
• Regular o uso e ocupação de ter-
Para saber mais sobre a Lei Federal ritórios e o desenvolvimento das
12.608/2012 clique aqui. diferentes atividades presentes na
sociedade;
O processo de formulação de po- • Disponibilizar recursos humanos,
lítica pública é aquele através do qual tecnológicos e financeiros para o
os governos traduzem seus propósitos desenvolvimento da sociedade a
em programas e ações, que produzirão partir de programas e projetos;
resultados ou as mudanças desejadas • Garantir direitos humanos (edu-
no mundo real (SOUZA, 2003). E, se cação, saúde, habitação, proteção e
a sociedade civil participar deste pro- defesa civil, etc.);
cesso, as possibilidades das mesmas • Mitigar, prevenir e solucionar pro-
atenderem as demandas da realidade blemas, entre outras.
aumentam.
A participação é a ação e o efeito de
A maioria das políticas públicas pos-
participar: tomar parte, intervir, compar-
suem características de programas, com
tilhar, denunciar, ser parte de. Participa-
objetivos e recursos definidos claramen-
ção social é um processo de conquista
te e orientam as ações das esferas fede-
que envolve a organização de pessoas e
ral, estadual e municipal (Figura 48).
grupos no sentido de expressar suas ne-
cessidades, interesses e buscar formas de
superação (BORDENAVE, 1995).

Participação social no processo de tomada de


decisão implementação e avaliação de ações
públicas
A participação constrói a democra- cialmente das pessoas se verem ou não
cia, facilitando o crescimento da consci- como responsáveis de provocar e cons-
ência crítica. Participar depende essen- truir mudanças.
162 Intervindo para prevenir e mitigar, reduzindo o risco de desastres

Exemplos: Núcleos de Defesa Civil (NUDECs), bombeiros voluntários, entidades comu-


nitárias, etc. (Figura 49).

Figura 49. Bombeiros voluntários do município de Agudo, RS e NUDEC Teresópolis, RJ.


(Fonte: www.voluntersul.com.br e www.radiologiarj.com.br).

Alguns princípios da participação • As decisões e os programas são


enriquecidos pelo conhecimento e
A seguir, são listados alguns prin- experiência de muitas pessoas;
cípios da participação de acordo com o • As pessoas que cooperam na ela-
proposto por Bordenave (1983): boração ou nas decisões tornam-
se mais interessadas e envolvidas
• A participação é uma necessidade
na sua execução e não precisam
humana e, por conseguinte, cons-
ser convencidas;
titui um direito humano; • Desenvolve a corresponsabilidade
• A participação é um processo de pelos problemas e pelas soluções e
desenvolvimento da consciência
a capacidade de se colocar no lu-
crítica e da aquisição de poder;
gar do outro.
• A participação leva à apropriação
do desenvolvimento pelo povo; Qualidade de participação
• A participação é algo que se apren-
A participação pode acontecer em
de e aperfeiçoa;
diversos níveis, dependendo do tema
• A participação é facilitada com a
organização e a criação de fluxos em questão e dos objetivos de quem está
de comunicação. promovendo o processo, pois ela pode
ter um caráter formal ou real.
Importância da participação A seguir, evidenciamos alguns destes
níveis adaptando da escala de qualidade
A importância da participação está de participação (SILVA, 2003):
ligada, segundo Montoro (1991) apud • Consultivo: a opinião dos partici-
Marcoccia (2006), aos seguintes fatores: pantes é ouvida, mas não é neces-
• Há maior probabilidade de corres- sariamente levada em consideração
ponder às necessidades reais e ser na hora da definição de prioridades
eficientes; e estratégias. Pode ser uma consul-
Capacitação em Gestão de Riscos 163

ta obrigatória em função da apro- projeto. Porém, sensibilizar é um pro-


vação de planos e projetos ou não. cesso que deve ir além da etapa inicial;
• Propositivo: além de pedir infor- deve estar presente nas demais etapas
mação e de opinar, também pode para manter o envolvimento dos sujeitos
colocar ar suas propostas para o e também para abrir espaço para novos
debate entre os membros. sujeitos participarem (SILVA, 2003).
• Cogestão: divide, juntamente com
Também compreende-se que a sensi-
representantes de outras catego-
bilização está implicada na mobilização
rias ou órgãos, a definição das ati-
dos sujeitos, ou seja, é preciso despertar
vidades a serem desenvolvidas.
o interesse e também sugerir ou criar
• Autogestão: as pessoas assumem
coletivamente formas de ação concretas
responsabilidade por todas as eta-
para que estes participem do processo.
pas e instâncias de um determina-
do projeto. Podem ser usadas diversas técni-
cas ou estratégias de sensibilização e
A participação no processo de to-
de mobilização, adequando para cada
mada de decisão acontece num nível
contexto e objetivo das ações. Sugere-
aprofundado de compartilhamento de
se usar a criatividade e metáforas que
poder. Isto implica num exercício de
possam comunicar o conteúdo a ser
maturidade e responsabilidade bastan-
trabalhado de forma clara e envolvente,
te importante. Muitas vezes, é preciso
motivadora. Muitas vezes, o depoimen-
preparar as pessoas para processos de
to de uma pessoa ou de um grupo, ou
tomada de decisão: informando, capa-
seja, uma experiência pode ser usada
citando e debatendo, para que estejam
como estratégia de sensibilização.
instrumentalizadas a decidir.

Sensibilização e Mobilização Exemplo: Peça de teatro utilizada como


estratégia de sensibilização e mobiliza-
– Elementos importantes para ção da comunidade pela Prefeitura de
participação social Caxias do Sul, 2000 (Figura 50).

A sensibilização é um processo que


visa estimular a receptividade, a empa-
tia e o comprometimento para a cons-
trução de vínculos e estabelecimento de
parcerias. Sensibilizar significa entrar
em contato, conhecer, compreender e se
sentir convidado a fazer parte de algo.
Para um projeto de trabalho alcançar
seus objetivos é preciso que desde o iní-
Figura 50. Peça de teatro “Os desbra-
cio de seu desenvolvimento seja promo- vadores” (Fonte: Prefeitura de Caxias
vida a adesão e o apoio dos sujeitos e das do Sul).
instituições que poderão se beneficiar do
164 Intervindo para prevenir e mitigar, reduzindo o risco de desastres

As estratégias de sensibilização, presentação da sociedade civil e do


mobilização dos sujeitos e de cria- governo. Constituem canais de partici-
ção de espaços democráticos para o pação coletiva que possibilitam a cria-
compartilhamento de informações e ção de uma nova cultura política e no-
construção de conhecimento são fun- vas relações entre governos e cidadãos,
damentais para ampliar as possibilida- bem como instâncias de fiscalização e
des de compreender e de interferir na negociação de conflitos entre diferen-
realidade. tes grupos e interesses (RAICHELIS,
2006).
Considera-se que o êxito da sensibi-
lização e também da mobilização está no Os principais mecanismos de Con-
modo de conduzir o trabalho, o qual deve trole Social são:
ser pautado pelos seguintes objetivos:
• Conselhos
• Informar sobre o contexto políti- • Audiências Públicas
co e técnico dos projetos; • Consultas Públicas
• Evidenciar a necessidade e vonta- • Conferências
de de planejar e desenvolver ações
em parceria, valorizando os sabe-
Ganhos da participação social
res das instituições e grupos co-
munitários; • Maior conhecimento dos proble-
• Promover um espaço de reflexão mas e potencialidades por parte do
coletiva acerca dos principais te- agente, do gestor e da comunidade;
mas referentes ao projeto. • Consciência de coletividade e de
solidariedade;
Durante este processo, deve-se ficar • Planos e leis incorporados à vida
atento ao modo de conduzir o trabalho real;
para que exista uma coerência entre os • Desenvolvimento da autonomia;
discursos, as posturas e as atitudes, dando • Co-responsabilidade.
consistência e credibilidade a este trabalho.
Como promover a participação
Controle Social social

Controle social são espaços públi- Entre as principais estratégias para a


cos com força legal para atuar nas po- promoção da participação social, segun-
líticas públicas, na definição de suas do Raichelis (2006), destaca-se:
prioridades, de seus conteúdos e re-
cursos orçamentários, de segmentos • Desenvolver ações em rede que ar-
sociais a serem atendidos e na avalia- ticulem governo e organizações da
ção dos resultados. Possuem caracte- sociedade civil que prestam servi-
rísticas de composição plural, com re- ços similares;
Capacitação em Gestão de Riscos 165

• Ampliar a participação da socie- • Incentivar a circulação de infor-


dade civil na formulação e gestão mações entre conselhos;
de políticas públicas, sem que o • Investir na capacitação mais ade-
Estado abra mão de suas respon- quada e na formação continuada de
sabilidades; conselheiros, qualificando a capa-
• Estabelecer alianças entre entida- cidade de participação das pessoas
des, ONGs e movimentos sociais; nos processos de tomada de deci-
• Ampliar a visibilidade pública; sões.

A Política Nacional de Proteção e Defesa Civil


A Política Nacional de Proteção e do adotados, assim como avaliar estudos,
Defesa Civil (PNPDEC) foi instituída projetos, prestações de contas e opinar
pela Lei n° 12.608/2012 e define: sobre o que está sendo realizado. Além
disso, é um mecanismo muito importan-
Art. 2o É dever da União, dos Esta-
te de efetivação da participação e empo-
dos, do Distrito Federal e dos Muni-
deramento popular, aliando o conheci-
cípios adotar as medidas necessárias
mento dos técnicos e a capacidade dos
à redução dos riscos de desastre.
órgãos executores ao conhecimento de
§ 1o As medidas previstas no caput quem vive no local e se beneficiará com
poderão ser adotadas com a cola- as medidas.
boração de entidades públicas ou
privadas e da sociedade em geral. Dentre as iniciativas que vão ao en-
contro da Política Nacional de Proteção
§ 2o A incerteza quanto ao risco de
e Defesa Civil, que prevê a colaboração
desastre não constituirá óbice para
entre diferentes órgãos e programas
a adoção das medidas preventivas
governamentais, entidades privadas
e mitigadoras da situação de risco. 
e sociedade objetivando a redução de
As pessoas podem se envolver em riscos, destaca-se:
diferentes formas de participação. Pode
dar-se em um nível em que as pessoas
PAC-Prevenção
têm acesso à informação, podendo avan-
çar ou não para esferas em que partici- Foi lançado em agosto de 2012 o Pla-
pam da tomada de decisão e do desenvol- no Nacional de Gestão de Riscos e Res-
vimento das ações definidas. posta a Desastres Naturais. Inserido no
Neste contexto, a realização de audi- Programa de Aceleração do Crescimen-
ências públicas é fundamental para que to (PAC), o Plano prevê um investimen-
a população possa tomar conhecimento to de R$ 18,8 bilhões em obras de pre-
dos programas e medidas que estão sen- venção e redução do tempo de resposta a
166 Intervindo para prevenir e mitigar, reduzindo o risco de desastres

ocorrências – buscando garantir a segu- rios, no âmbito do Programa de Urba-


rança das populações que vivem em áre- nização, Regularização e Integração de
as suscetíveis a desastres e preservando Assentamentos Precários do Ministério
o meio ambiente – além de uma reserva das Cidades, está o Plano Municipal de
para a construção de unidades habita- Redução de Risco (PMRR).
cionais do Minha Casa, Minha Vida 2. O PMRR é um instrumento de plane-
Grande parte do montante de recur- jamento para o diagnóstico do risco e a
sos investidos será na Prevenção (R$ 15,6 proposição de medidas (estruturais e não
bilhões), mas outros três eixos também estruturais) para a sua redução. São con-
serão contemplados: Mapeamento; Mo- siderados o custo estimado e os critérios
para priorização das medidas, buscando
nitoramento e Alerta e Resposta. O eixo
articular a gestão de riscos nas três esfe-
Prevenção contempla as obras do PAC 2
ras de governo (Federal, Estadual e Mu-
e abrange medidas estruturais de preven-
nicipal).
ção de inundações e deslizamentos e de
combate à seca, como: A partir dessas ferramentas, pode-
se dimensionar o problema (Figura
• Contenção de encostas; 51. Setorização de riscos e processos
• Contenção de cheias; atuantes. (Fonte: CPRM, 2011; Mi-
• Drenagem urbana; nistério das Cidades, 2011).) e imple-
• Construção de barragens; mentar ações para a redução ou eli-
• Construção de adutoras; minação das situações de risco, assim
• Sistemas de abastecimento de água. como captar recursos para financiar
medidas que superam a capacidade da
O Plano Nacional de Gestão de Ris- Prefeitura.
cos e Resposta a Desastres Naturais foi
A metodologia adotada pelo Minis-
feito pelo Ministério do Planejamento,
tério das Cidades para a elaboração do
Orçamento e Gestão – MPOG, com a
PMRR prevê 5 etapas:
participação da SEDEC. As obras inse-
ridas neste programa são selecionadas 1. Identificação dos riscos;
diretamente pelo MPOG e não estão su- 2. Análise dos Riscos;
jeitas a contingenciamento de recursos 3. Medidas de Prevenção e/ou Erra-
(bloqueio na liberação de verbas, no caso dicação;
de corte de gastos do governo). 4. Planejamento para Situações de
Emergências;
5. Informações Públicas e Treina-
Plano Municipal de Redução de
Riscos mentos.

Dentro da Ação de Apoio à Preven-


ção de Riscos em Assentamentos Precá-
Capacitação em Gestão de Riscos 167

Figura 51. Setorização de riscos e processos atuantes. (Fonte: CPRM, 2011; Ministério das
Cidades, 2011).

Os Planos Municipais de Redução • Plano Diretor Municipal – Macro-


de Risco podem ser considerados po- zoneamento e Zoneamento Urbano;
líticas públicas de gestão de riscos que • Política de Habitação de Interesse
se enquadram na Política Nacional de Social (HIS) – Regularização Fun-
Proteção e Defesa Civil (PNPDEC). diária e Produção Habitacional;
Para o planejamento territorial, ci- • Carta Geotécnica;
tam-se os seguintes instrumentos: • Mapeamento de vulnerabilidades
em setores de risco;
168 Intervindo para prevenir e mitigar, reduzindo o risco de desastres

• Plano Municipal de Redução de blemas e desigualdades presentes nas


Riscos; cidades, todos os municípios com mais
• Plano de Drenagem Urbana ou de 20 mil habitantes e/ou integrantes de
Plano de Saneamento Básico; regiões metropolitanas e aglomerados
urbanos devem elaborar e aprovar seu
Exemplo: Um plano diretor que defi-
Plano Diretor de forma participativa.
ne áreas com aptidão à urbanização a
partir das cartas geotécnicas evitará a
Para envolver os diversos grupos que
ocupação inadequada de áreas de risco. fazem parte da cidade e estimular a par-
ticipação da população, são recomenda-
As diretrizes para regularização fun- das atividades de sensibilização e capaci-
diária dos assentamentos precários em- tação sobre os temas a serem discutidos.
basadas no Plano Municipal de Redução Além disso, de acordo com o Estatuto da
de Riscos (PMRR) garantirão a habita- Cidade, são instrumentos obrigatórios
ção segura para seus moradores, poden- para a efetiva participação social na ela-
do, quando necessário, indicar reassenta- boração do Plano Diretor as audiências
mentos e um novo uso à área desocupada. públicas e debates, bem como o acesso,
A política habitacional deverá prover por parte do público, às informações e
habitação em locais seguros tanto para aos documentos produzidos (Figura 52).
moradores de áreas de risco como para
outras famílias de baixa renda através da
oferta de unidades habitacionais adequa-
das e bem localizadas. A PNPDEC tam-
bém prevê a adoção, por parte dos mu-
nicípios, de providências para a redução
de risco (plano de contingência, obras de
segurança, reassentamentos) em áreas
ocupadas e suscetíveis a deslizamentos e Figura 52. Audiência pública para apre-
inundações. O cuidado com as áreas de sentação e discussão junto à população
da proposta de revisão do Plano Diretor
preservação ambiental também é de ex- Participativo do município de Itabira, MG.
trema importância e evita que essas se- (Fonte: http://www.itabira.mg.gov.br/por-
jam inadequadamente ocupadas. tal/?p=9717#prettyPhoto).

Planos Diretores Participativos


Conselho Nacional de Proteção e
As audiências públicas são funda- Defesa Civil
mentais para a elaboração dos Planos
A Política Nacional de Proteção e De-
Diretores Participativos previstos no
fesa Civil prevê a participação social e es-
Estatuto da Cidade, do Ministério das
tabelece mecanismos e espaços para que
Cidades. Com o objetivo de garantir
esta ocorra, como o Conselho Nacional de
aos cidadãos um local digno para habi-
Proteção e Defesa Civil (CONPDEC), defi-
tar e procurando soluções para os pro-
nido no artigo 12 como órgão colegiado
Capacitação em Gestão de Riscos 169

integrante do Ministério da Integração teção e Defesa Civil será elaborado no


Nacional. No § 2º é determinado que: prazo de 1 (um) ano, sendo submetido
a avaliação e prestação de contas anu-
O CONPDEC contará com representantes al, por meio de audiência pública, com
da União, dos Estados, do Distrito Fede- ampla divulgação.”
ral, dos Municípios e da sociedade civil
organizada, incluindo-se representantes Através de estudos de cenários de
das comunidades atingidas por desas- risco, esse documento registra o planeja-
tre, e por especialistas de notório saber. mento e os procedimentos a serem ado-
tados para alerta e alarme, resposta e re-
Além disso, a participação está pre- abilitação do cenário, reduzindo danos e
sente na Lei Nº 12.608/2012, Artigo 8º. prejuízos. O Ministério da Integração in-
Compete aos Municípios: dica que o PLANCON deve contemplar:
XV - estimular a participação de entida- I - Identificação da responsabilidade de
des privadas, associações de voluntários, organizações e indivíduos que desenvol-
clubes de serviços, organizações não go- vem ações específicas em emergências;
vernamentais e associações de classe e II - Descrição das linhas de autorida-
comunitárias nas ações do SINPDEC e de e relacionamento entre os órgãos en-
promover o treinamento de associações volvidos, mostrando como as ações serão
de voluntários para atuação conjunta coordenadas;
com as comunidades apoiadas.
III -  Descrição de como as pessoas,
Plano de Contingência de o meio ambiente e as propriedades serão
Proteção e Defesa Civil protegidas durante a resposta ao desastre;

Dentre os processos participativos IV -  Identificação do pessoal, equipa-


previstos na PNPDEC está a realização mento, instalações, suprimentos e outros
de audiências públicas para a avaliação e recursos disponíveis para a resposta ao
aprovação do Plano de Contingência de desastre, e como serão mobilizados;
Proteção e Defesa Civil (PLANCON), V -  Identificação das ações que de-
conforme a Lei Nº 12.608/2012, Artigo 22: vem ser implementadas antes, durante e
§ 6oo O Plano de Contingência de Pro- após a resposta ao desastre.

Experiências de processos participativos


As experiências que serão apresen- presente a elaboração de diagnósticos
tadas a seguir expressam possibilidades e a produção de políticas públicas em
de envolvimento dos sujeitos que vi- diferentes escalas.
venciam problemáticas ligadas ao risco,
a) Oficina Regional Permanente de
sejam como moradores, como agentes
Proteção e Defesa Civil do Vale do Pa-
de proteção e defesa civil, como ges-
ranhana, Região das Hortências e Alto
tores públicos ou como pesquisadores
Sinos – RS:
acadêmicos. Nestas experiências está
170 Intervindo para prevenir e mitigar, reduzindo o risco de desastres

Iniciou em outubro de 2009 a partir de Belo Horizonte. Sua finalidade é atuar


da Conferência Municipal de Defesa Civil em diagnóstico, prevenção, controle e
em Taquara/RS. Aprovou-se como diretriz eliminação de áreas de risco geológico do
estabelecer programas e projetos de apoio município. O Grupo se reúne semanal-
mútuo entre os municípios vizinhos a fim mente durante o período chuvoso (outu-
de conhecer as realidades locais e desenvol- bro - março) para troca de informações e
ver atividades de prevenção, preparação e otimização dos recursos.
resposta a desastres.
• Plano Diretor de Drenagem Urba-
Desde então, foram realizadas Ofi- na (PDDU):
cinas de Diagnóstico e Planejamento a Vinculado à Superintendência de De-
cada duas semanas, Encontros Regio- senvolvimento da Capital (SUDECAP),
nais anuais, debates, atividades de capa- é um instrumento de planejamento,
citação e trocas de experiências. controle e gestão das águas de Belo Ho-
rizonte, orientando o poder executivo.
Participam as Coordenadorias Muni-
A Prefeitura estabeleceu a participação
cipais de Defesa Civil de Taquara, Parobé,
popular no processo de escolha da apli-
Igrejinha, Três Coroas, São Francisco de
cação de recursos do orçamento munici-
Paula, Caraá, Riozinho e Rolante.
pal nas obras de melhoria urbana. Foram
b) Política Municipal (áreas de ris- realizados estudos relacionados à erosão
co) Belo Horizonte – MG: do solo, poluição das águas, drenagem e
• Grupo Executivo de Áreas de Ris- ocupação de margens.
co (GEAR): Após, foram realizados modelos e
Criado em 2006, é uma das instân- estudos sobre o sistema de drenagem, re-
cias de articulação que compõe o Siste- sultando na Carta de Inundações de Belo
ma Municipal de Defesa Civil (SIMDEC) Horizonte, finalizada em 2009 (Figura 53).

Figura 53. Áreas suscetíveis à inundação na Regional Pampulha, nos córregos Ressaca e
Flor d’água, Belo Horizonte. (Fonte SMURBE & SUDECAP, 2009).
Capacitação em Gestão de Riscos 171

• Núcleo de Alerta de Chuva (NAC): a percepção de risco por parte dos mora-
dores e sua agilidade no enfrentamento de
Criado pelo Governo Municipal e co-
eventos adversos. Os voluntários atuam
ordenado pela Superintendência de De-
como agentes de alerta para a população
senvolvimento da Capital (SUDECAP),
e fornecem suporte para ações de evacu-
tem por finalidade o estabelecimento de
ação. Critério para escolha das áreas ba-
um canal de diálogo direto com a popula-
seado na Carta de Inundação (Figura 54).
ção atingida por inundações, qualificando

Figura 54. Sistema de comunicação de alerta de chuva no NAC Vila Esporte Clube, Regio-
nal Oeste de Belo Horizonte. (Fonte: Prefeitura de Belo Horizonte).

c) Programa de Regularização Fun- O DRUP caracteriza-se por um con-


diária – Prefeitura de Caxias do Sul – RS junto de técnicas que envolvem morado-
(de 1997 a 2004): res de assentamentos urbanos precários.
Desenvolvido em assentamentos pre- As técnicas usadas permitem identificar,
cários com áreas de risco por meio de de forma especializada e lúdica, os pro-
intervenções urbano-ambientais, sociais blemas e potenciais e as necessidades e
e jurídicas. sonhos das pessoas, indicando caminhos
para o planejamento da intervenção.
Nesta experiência, destaca-se:
Durante o DRUP, foram organizadas
• Diagnósticos Rápidos Urbanos comissões de representantes da comuni-
Participativos DRUP; dade para serem capacitadas e avançarem
• Combinação de Medidas Estru- no processo, participando da elaboração
turais – Construção de Muros de dos projetos e da sua execução.
Arrimo – com Medidas Não Es-
truturais – Curso sobre Muros de As imagens apresentadas na Figura
Arrimo e Taipas e Percepção de 56 mostram exemplos de ações de pla-
Risco (Figura 55): nejamento realizadas pela prefeitura de
Caxias do Sul, RS.
172 Intervindo para prevenir e mitigar, reduzindo o risco de desastres

Figura 55. Exemplo de diagnóstico participativo, realizado pela Prefeitura de Caxias do Sul, RS.

Figura 56. Ações de planejamento desenvolvidas pela Prefeitura de Caxias do Sul, RS. (Fon-
te: Prefeitura de Caxias do Sul).

O curso “Construção de taipas e áreas de risco para realização de peque-


muros de arrimo” foi realizado com o nas obras com segurança e identifica-
objetivo de capacitar os moradores de ção de “sinais de risco” (Figura 57):

Figura 57. Curso teórico e prático sobre “Construção de Muros de Arrimo” promovido
pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pela Prefeitura de Caxias do Sul
(Secretaria Municipal da Habitação) no ano de 2000. (Fonte: Prefeitura de Caxias do Sul).

Nas aulas práticas desenvolvi- das aulas práticas mostrando a cons-


das no curso foram abordadas di- trução de “muro de pneus”, “escadaria
versas técnicas aplicadas em taludes no terreno de um morador” e “obra de
no “Complexo Jardelino Ramos” em contenção (gunitagem) para manter
Caxias do Sul, RS (Figura 58. Imagens moradias em segurança”.).
Capacitação em Gestão de Riscos 173

Figura 58. Imagens das aulas práticas mostrando a construção de “muro de pneus”, “esca-
daria no terreno de um morador” e “obra de contenção (gunitagem) para manter moradias
em segurança”.

d) Metodologia participativa para REDECRIAR nos anos de 2012 e 2013.


percepção de riscos e Proposição de A Figura 59. Ciclo socioeducativo uti-
Ações e Atitudes para Redução de Vul- lizado como metodologia participativa
nerabilidades Socioambientais – Ex- na experiência feita na Ilha das Flores
periência na Ilha das Flores em Porto em Porto Alegre, RS. (Realização: Gru-
Alegre, RS po de Gestão de riscos de Desastres –
GRID, da Universidade Federal do Rio
Esse projeto foi realizado pelo Gru-
Grande do Sul) apresenta um esquema
po de Gestão de Riscos de Desastres
simplificado da metodologia participa-
(GRID) da Universidade Federal do Rio
tiva desenvolvida,
Grande do Sul em parceria com a ONG

Figura 59. Ciclo socioeducativo utilizado como metodologia participativa na experiência


feita na Ilha das Flores em Porto Alegre, RS. (Realização: Grupo de Gestão de riscos de De-
sastres – GRID, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul).
174 Intervindo para prevenir e mitigar, reduzindo o risco de desastres

No âmbito desse projeto, foram de- de um conjunto de registros elei-


senvolvidas as seguintes técnicas para tos pelos moradores como signifi-
percepção de riscos socioambientais, cativos nas questões relacionadas
bem como de propostas para redução da à ocupação e situações de risco,
vulnerabilidade em Ilha das Flores, Porto conforme apresentado na Figura
Alegre, RS: 60. Linha da vida, realizada para
sistematização do histórico da co-
• Caminhada comunitária para munidade.. A técnica de “memória
identificação do território; coletiva” utilizada nesse processo é
• Linha da vida: Sistematização do importante para o fortalecimento
histórico da comunidade, a partir da identidade do grupo;

Figura 60. Linha da vida, realizada para sistematização do histórico da comunidade.


• Identificação dos elementos do ambiente natural e construído (Figura 61);

Figura 61. Atividades para Identificação dos elementos do ambiente natural e construído
na comunidade.
• Oficina de fotografia: Os moradores registram em fotos os aspectos negativos e
positivos da comunidade (Figura 62);

Figura 62. Oficina de fotografia.


Capacitação em Gestão de Riscos 175

• Mapa interativo para identificação dos riscos (Figura 63);

Figura 63. Atividade realizada sobre mapa interativo para identificação dos riscos pelos morado-
res da comunidade. (Realização: Grupo de Gestão de Riscos de Desastres – GRID da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul).

• Jogo cooperativo: para interação entre o “saber científico” e o “saber popular”.


Essa atividade busca complementar e aprofundar a percepção dos riscos, tra-
zendo outros elementos, refletindo sobre suas causas e sobre os responsáveis
pela sua ocorrência (Figura 64);

Figura 64. Jogo cooperativo.

• Dinâmica de grupo: ações e atitudes para a redução das vulnerabilidades socio-


ambientais (Figura 65).
176 Intervindo para prevenir e mitigar, reduzindo o risco de desastres

Figura 65. Dinâmica de grupo.

Existem diferentes formas de cooperar contínuo? Revista Labor. Nº15, v1, 2011.
com a redução dos riscos de desastres, que Disponível em: <www.revistalabor.ufc.br/Ar-
vão desde programas do Governo Federal tigo/volume5/6_Lydia_Brito.pdf>, 2007
que preveem a aplicação de amplos recur-
FREITAS, C. G. L. (Coord.). Planos Diretores
sos a iniciativas que podem ser adaptadas
Municipais: Integração Regional Estratégica.
para contextos específicos e multiplicadas,
Porto Alegre: AN, 2007.
cabendo aos gestores, agentes e sociedade
avaliar a realidade local e determinar como MARCELINO, E. V. Desastres Naturais e
colaborar com a PNPDEC. Destaca-se Geotecnologias: Conceitos Básicos. São José
também a importância de sempre buscar o dos Campos: INPE, 2008. Disponível em:
envolvimento e a participação da popula- <http://www.inpe.br/crs/geodesastres/ca-
ção que, além de previsto em lei, contribui dernodidatico.php>.
de maneira essencial para a avaliação e a
MARCOCCIA, R. M. O princípio de subsi-
implementação de medidas efetivas. diariedade e a participação popular. Serviço
Social & Sociedade – Nº 86 – Julho 2006. Pá-
REFERÊNCIAS ginas 90 a 121. Cortez Editora – SP
MENDES, A. D. J. Reflexões acerca da Co-
AZEVEDO, S. Políticas públicas: discutindo operação entre os Conselhos de Segurança
modelos e alguns problemas de implementa- Pública e os Núcleos Comunitários de Defesa
ção. In: SANTOS JÚNIOR, Orlando A. Dos (et. Civil em Belo Horizonte. Trabalho de Con-
al.). Políticas públicas e gestão local: programa clusão de Curso apresentado à Academia de
interdisciplinar de capacitação de conselheiros Polícia Militar de Minas Gerais, 2012.
municipais. Rio de Janeiro: FASE, 2003.
MINISTÉRIO DAS CIDADES. Sistema Na-
BORDENAVE, J. E. D. O que é participação. cional de Habitação – 2010
São Paulo: Brasiliense, 1995.
MINISTÉRIO DAS CIDADES. Políticas Públi-
BRITO, L. M. P.; FREIRE, J. L.; GURGEL, cas - O Papel das Políticas Públicas. 2002 - AATR
F. F. Gestão participativa: um processo -BA. Apresentação Ministério das Cidades 2011.
Capacitação em Gestão de Riscos 177

NAÇÕES UNIDAS (UNISDR). Como cons- www.finep.gov.br/prosab/livros/prosab5_


truir cidades mais resilientes – um guia para tema%204.pdf>.
gestores públicos locais. Genebra, Novembro
ROCHA, C. S. (Coord.). Política Regional de
de 2012.
Proteção e Defesa Civil. Taquara: Evergráfica,
RAICHELIS, R. Articulação entre conselhos 2012.
de políticas públicas. Serviço Social & Socie-
SILVA, T. Da participação que temos à que
dade – Nº 85 – Março 2006. Páginas 108 a
queremos: o processo do Orçamento Parti-
116. Cortez Editora – SP.
cipativo na cidade do Recife. In: Avritzer,
RIGHETTO, A. M. (coordenador): Mane- L.; Navarro, Z. (orgs.). A inovação demo-
jo de Águas Pluviais Urbanas. Rio de Janei- crática no Brasil. São Paulo: Cortez Edito-
ro: ABES, 2009. Disponível em: < http:// ra, 2003.
83
MONITORANDO
O desafio
OS RISCOS de
conviver com
o risco
Capacitação em Gestão de Riscos 179

Este tópico tem por objetivo possibilitar ao aluno:

• Entender como são monitorados e coletados os dados meteorológicos;


• Compreender o funcionamento do sistema nacional de monitoramento e alerta no
gerenciamento de riscos e desastres;
• Aprender o que é um sistema de alertas e a sua importância;
• Conhecer qual a logística e aparelhamento necessários para a operação de um ór-
gão municipal de Proteção e Defesa Civil.

Monitoramento, Alerta e Alarme


Uma das formas de atuação para a gistas e especialistas em desastres natu-
mitigação de desastres naturais são os es- rais, dentre outros. Para saber se é neces-
tudos de monitoramento (contínuo e em sário a emissão de alertas de eminência
tempo real) e de modelagem, que servirão de um evento adverso, esses profissionais
de base tanto para o zoneamento de áreas precisam analisar as situações climáticas
de risco como para os sistemas de alerta e e ambientais de áreas consideradas de
alarme (KOBIYAMA et al., 2006). risco de ocorrências de deslizamento de
encostas, enxurradas, eventos extremos e
O monitoramento consiste na ob-
período de estiagem, por exemplo.
servação e medição contínua dos pro-
cessos ambientais, já a modelagem, Na maioria dos países, incluindo o
refere-se ao processo de gerar e/ou Brasil, as séries ou conjuntos de dados
aplicar modelos. Um modelo é uma re- climáticos, hidrológicos, biogeofísicos e
presentação simplificada da realidade, socioeconômicos, são muitas vezes pro-
que supostamente apresenta, de forma duzidos por diversas agências governa-
generalizada, características ou rela- mentais. Essas informações coletadas,
ções importantes, corresponde a uma gerenciadas e analisadas ajudam os to-
aproximação da realidade. madores de decisão, a Proteção e Defesa
Civil e a população em geral a planejar
Por meio de monitoramento e mo- suas ações frente às condições esperadas.
delagem é possível identificar as áreas Desta maneira, decisões são tomadas no
suscetíveis à ocorrência de desastres na- planejamento e estratégia, com o intuito
turais e, a partir de simulações, ter infor- de reduzir riscos e beneficiar a popula-
mações sobre a magnitude e a dimensão ção. A seguir, são apresentados os princi-
de um provável fenômeno natural (KO- pais centros que disponibilizam essas in-
BIYAMA et al., 2006). formações para a Defesa Civil no Brasil.
O monitoramento das condições
meteorológicas e ambientais causado- Monitoramento Global
ras de desastres necessita de cooperação
multidisciplinar, unindo informações de A Organização Mundial de Meteo-
diversos profissionais, como: geólogos, rologia (OMM) é uma agência especia-
geomorfólogos, hidrólogos, meteorolo- lizada das Nações Unidas. A OMM é a
180 Monitorando os riscos

porta-voz autorizada da ONU sobre os ção dos impactos de desastres naturais. O


estados e comportamento da atmosfera Brasil faz parte da OMM desde a sua fun-
terrestre, sua interação com os oceanos dação em 1950 e é representado interna-
e o clima resultante da distribuição dos cionalmente pelo Instituto Nacional de
recursos hídricos. Promove a colabora- Meteorologia (INMET).
ção entre os Serviços Meteorológicos e
Para prever o tempo, a moderna me-
Hidrológicos de seus membros, em es-
teorologia depende fundamentalmente
cala global, coordenando as atividades
da troca de dados e do intercâmbio livre
de caráter operacional para a formulação
e irrestrito de informações, produtos e
de políticas em sua área de atuação. A
serviços em tempo real. A medição de
OMM é responsável pela observação, pa-
dados em todo o mundo acontece ao
dronização e divulgação dos dados mete-
mesmo tempo, em horários estabelecidos
orológicos mundialmente e, dessa forma,
pela OMM, em terra, céu e mar, abaste-
possibilita a aplicação da meteorologia
cendo a central meteorológica mundial.
nos serviços meteorológicos públicos, na
Um esquema ilustrativo dos diversos
agricultura, na aviação, nos transportes
tipos de fontes de dados atmosféricos
em geral, no meio ambiente e na mitiga-
pode ser visto na Figura 1.

Figura 1. Sistema global de observação de tempo. (Fonte: WMO, 2013).

A coleta de informações começa em como automáticas. Em geral, esses ins-


terra, nas estações meteorológicas de su- trumentos são alimentados por painéis
perfície, tanto convencionais (manuais) de energia solar. Entretanto, estações
Capacitação em Gestão de Riscos 181

meteorológicas não cobrem todo o glo- cos também auxiliam na medição de


bo. Por isso, elas têm a ajuda de minies- quantidade de vapor d’água contida na
tações espalhadas em lugares como os atmosfera, identificando aproximação e
aeroportos, que medem ventos, pressão presença de nuvens e chuva.
atmosférica, chuva e umidade do ar, por
A OMM disponibiliza todos esses da-
exemplo. Além de usar os dados para ga-
dos na forma de gráficos, tabelas e ma-
rantir a segurança dos voos, os aeropor-
pas, sendo utilizados mais diretamente
tos também os enviam à OMM. Cerca de
por meteorologistas - em razão da sua
três mil aviões comerciais conveniados à
complexidade e especificidade - para a
OMM voam por áreas de grandes altitu-
previsão do tempo. Mesmo com tantos
des que as estações não cobrem.
dados e poderosos computadores, a pre-
Os aviões viajam a cerca de 11 mil visão vem da contribuição que os mete-
metros de altura, onde as condições de orologistas fazem ao interpretarem essas
tempo são muito diferentes da superfície, informações, é por isso que as previsões
por isso, esses dados são valiosos apesar para um mesmo local em um mesmo dia
de o globo não ser totalmente coberto podem variar.
por essas aeronaves. Acima dos aviões,
existem os balões meteorológicos, que Monitoramento Nacional
podem chegar a 30 mil metros de altitu-
de. Inflados com gás hélio, eles carregam No Brasil, o Instituto Nacional de
radiossondas, um conjunto de instru- Meteorologia (INMET) é órgão nacio-
mentos que mede pressão atmosférica, nal responsável pela observação, coleta,
temperatura e umidade relativa do ar. armazenamento e distribuição de dados
Monitorando a posição do balão, é possí- meteorológicos, sendo também respon-
vel checar também a direção e velocidade sável pelo tráfego das mensagens coleta-
do vento em altitude. das pela rede de observação meteorológi-
ca da América do Sul.
As estações meteorológicas cobrem
a parte terrestre do globo e a captação O INMET é ligado ao Ministério da
de dados no mar fica por conta de boias Agricultura, Pecuária e Abastecimento
meteorológicas e de navios mercantes, (MAPA). Sua missão é prover informa-
militares e de passageiros. Os navios ções meteorológicas à sociedade brasi-
e as boias transmitem dados como os leira e influenciar construtivamente no
de chuva e de ventos. Outra ferramen- processo de tomada de decisão, contri-
ta fundamental para captação de dados buindo para o desenvolvimento sus-
são as imagens de satélite, que mostram tentável do País. A estrutura organiza-
a movimentação das nuvens, ajudando cional do INMET contempla sua sede,
a entender a dinâmica de chuvas e tem- em Brasília, com cinco Coordenações,
peraturas. Elas podem mostrar ainda, e dez Distritos de Meteorologia (DIS-
temperatura, vapor d’água e umidade MEs), distribuídos estrategicamente
relativa do ar. Os radares meteorológi- nas capitais (Figura 2).
182 Monitorando os riscos

DISTRITOS DE METEOROLOGIA - DISMES

1º DISME 2º DISME 3º DISME 4º DISME 5º DISME


MANAUS/AM BELÉM/PA RECIFE/PE SALVADOR/BA BELO
HORIZONTE/MG

6º DISME 7º DISME 8º DISME 9º DISME 10º DISME


RIO DE SÃO PAULO/SP PORTO CUIABÁ/MT GOIÂNIA/GO
JANEIRO/RJ ALEGRE/RS
Figura 2. Distritos de Meteorologia do INMET no Brasil. (Fonte: INMET).

O instituto mantêm diversos instru- ca e gratuita, em tempo real (Figura 3),


mentos de leitura das condições climáti- e têm aplicação em todos os setores da
cas em todo o território nacional. Os da- economia, de modo especial no agrope-
dos coletados nas Estações Automáticas cuário e em apoio à Defesa Civil.
são disseminados, de forma democráti-

Figura 3. Estações automáticas de meteorologia do INMET. (Fonte: INMET).

O INMET possui, ainda, um Banco


de Dados Meteorológicos com acervo de Para acessar os dados disponibilizados
pelas Estações Automáticas diretamen-
informações diárias coletadas desde 1961. te na página online do INMET: http://
Além de dados Históricos que contém www.inmet.gov.br/sonabra/maps/auto-
aproximadamente 12 milhões de docu- maticas.php
mentos – patrimônio do clima observado
desde tempos do Império (Figura 4).
Capacitação em Gestão de Riscos 183

Figura 4. Modelo Brasileiro de Alta Resolução (MBAR) do INMET e planilha de dados


disponível online no site do INMET. (Fonte: INMET).

O Instituto Nacional de Pesquisas


Para acessar a plataforma do Modelo
MBAR diretamente na página online
Espaciais (INPE) faz o Monitoramento
do INMET: http://www.inmet.gov.br/vi- de Queimadas e Incêndios por satélite
me/?P=P2. em tempo quase real, além realizar o
cálculo e a previsão do risco de fogo da
Além disso, o INMET elabora e divul- vegetação.
ga, diariamente, em nível nacional, a previ-
são do tempo para os Estados, suas capitais É possível acessar material e acompa-
e microrregiões em períodos de 24, 48 e 72 nhar a situação pelo portal: www.inpe.
br/queimadas.
horas de antecedência. Análises descriti-
vas da situação sinótica observada no país
O Centro Nacional de Monitora-
e na América do Sul, em quatro horários
mento e Alertas de Desastres Naturais
padrões (0UTC, 6UTC, 12UTC e 18UTC)
(CEMADEN) criado em 2011 por meio
definidos pela OMM também são disponi-
do Decreto 7.513/2011, vinculado ao Mi-
bilizadas pelo INMET.
nistério da Ciência, Tecnologia e Inovação
A Agência Nacional de Águas -MCTI e instalado na cidade de Cachoeira
(ANA) realiza o monitoramento hidro- Paulista no estado de São Paulo, é o órgão
meteorológico no país, mensurando por encarregado do monitoramento e alerta
meio de suas estações o volume de chu- de desastres (para o CENAD). De acordo
vas, a evaporação da água, o nível e a va- com o Decreto, compete ao CEMADEN:
zão dos rios, a quantidade de sedimentos
e a qualidade das águas. 1. elaborar alertas de desastres natu-
rais relevantes para ações de pro-
Essas informações estão disponíveis no teção e de defesa civil no território
Sistema de Informações Hidrológicas nacional;
(HidroWeb)  e no Sistema Nacional de 2. elaborar e divulgar estudos visan-
Informações sobre Recursos Hídricos
(SNIRH).
do à produção de informações
necessárias ao planejamento e à
184 Monitorando os riscos

promoção de ações contra desas- Além de prever a ocorrência de de-


tres naturais; sastres naturais no país, também realiza
3. desenvolver capacidade científica, pesquisas que contribuem na melhoria
tecnológica e de inovação para do sistema de monitoramento e alerta e
continuamente aperfeiçoar os para a produção de informações neces-
alertas de desastres naturais; sárias ao planejamento e à promoção de
4. desenvolver e implementar siste- ações contra desastres naturais. Ao Cen-
mas de observação para o monito- tro ainda são atribuídas outras atividades
ramento de desastres naturais; como o desenvolvimento de capacidade
5. desenvolver e implementar mode- científica, tecnológica e de inovação para
los computacionais para desastres aperfeiçoar os alertas; e de implantação
naturais; de sistemas de observação para o moni-
6. operar sistemas computacionais toramento de desastres naturais.
necessários à elaboração dos aler-
Sua Sala de Situação tem capacida-
tas de desastres naturais;
de para 25 analistas para operação em
7. promover capacitação, treinamento
regime de 24 horas por dia/ 7 dias por
e apoio a atividades de pós-gradua-
semana e equipamentos como videowall
ção, em suas áreas de atuação; e
de grande dimensão, gabinete de crise
8. emitir alertas de desastres natu-
dotado de sistemas de teleconferência,
rais para o Centro Nacional de
modernos computadores e sistemas de
Gerenciamento de Riscos e De-
fornecimento de energia elétrica em caso
sastres- CENAD, do Ministério da
de blackout (Figura 5).
Integração Nacional, auxiliando
o Sistema Nacional de Proteção e
Defesa Civil.

O CEMADEN tem o objetivo de de-


senvolver, testar e implementar um siste-
ma de previsão de ocorrência de desastres
naturais em áreas suscetíveis de todo o
Brasil, sendo responsável por gerenciar as
informações emitidas pelos radares meteo-
rológicos, pluviômetros, dados provenien-
tes de previsões climáticas, plataformas de
Figura 5. Sala de Situação, do CEMADEN, mo-
coleta de dados, equipamentos de análise nitora as situações de risco em todo o país.
de solo e imagens de satélites, repassando
posteriormente estas informações para
Para acessar diretamente a página onli-
os órgãos competentes em todo o Brasil, ne do CEMADEN:
visando à antecipação perante possíveis http://www.cemaden.gov.br.
ocorrências de situações meteorológicas
que possam levar a um desastre natural.
Capacitação em Gestão de Riscos 185

Este centro entrou efetivamente em à ocorrência de desastres e os danos as-


operação em 02 de dezembro de 2011, sociados), pois o gerenciamento dessas
e desde então vêm monitorando vários possibilitará ao Centro apoiar os esta-
municípios brasileiros. Sua meta é moni- dos e municípios nas ações de prepara-
torar os 821 municípios prioritários. Em ção para desastres junto às comunidades
conformidade com a designação da Casa vulneráveis. O CENAD trabalha em par-
Civil, o CEMADEN atualmente moni- ceria com a CPRM (Serviço Geológico
tora 535 municípios nas regiões Sul, Su- do Brasil) para elaborar mapas de ris-
deste, Centro Oeste, Norte e Nordeste. A co e realizar a setorização desses riscos
condição básica para um município ser nos municípios prioritários (o objetivo
monitorado pelo CEMADEN é possuir até 2014 é efetuar mapeamento de risco
um mapeamento de suas áreas de risco nas áreas urbanas em 821 municípios e a
de deslizamentos em encostas, de alaga- suscetibilidade em 286 municípios).
mentos e de enxurradas, solapamentos e
terras caídas, além da estimativa da ex-
Para saber mais sobre o CENAD: www.
tensão dos prováveis danos decorrentes mi.gov.br/defesa-civil/cenad
de um desastre natural.
Quando o alerta de desastre é emiti- Atualmente, o Brasil iguala-se aos
do, este é repassado imediatamente para países mais avançados na previsão de
o Centro Nacional de Gerenciamento tempo e, principalmente, na previsão
de Riscos e Desastres (CENAD), que climática, área de atividade restrita a um
redistribui a informação à Defesa Civil seleto grupo de oito países. Um dos res-
Estadual e Municipal, a fim de que sejam ponsáveis por esse avanço é o Centro de
tomadas as devidas providências (o deta- Previsão de Tempo e Estudos Climáti-
lhamento do Sistema Nacional de Alerta cos - CPTEC do Instituto Nacional de
será apresentado no item 8.1.4 deste ca- Pesquisas Espaciais (INPE), ligado ao
pítulo). O CENAD pertence ao Ministé- Ministério da Ciência, Tecnologia e Ino-
rio da Integração Nacional e é coordena- vação (MCTI). O CPTEC integra infor-
do pela Secretaria Nacional de Proteção mações de diversas fontes de observações
e Defesa Civil. Tem como objetivo geren- da atmosfera, de superfície e de sensoria-
ciar, com agilidade, ações estratégicas de mento remoto, no intuito de subsidiar e
preparação e de resposta a desastres em desenvolver modelos numéricos de pre-
todo território nacional e, eventualmen- visão de tempo, clima e condições quími-
te, também no âmbito internacional. O cas da atmosfera.
CENAD é, portanto, o órgão operacional
da Defesa Civil em âmbito nacional e, tal O CPTEC tem contribuído para a pre-
como o CEMADEN, funciona de forma visão de secas, estiagens e eventos adver-
ininterrupta. sos de natureza hidrológica, favorecendo
as tomadas de decisões nas áreas de De-
Ao CENAD cabe consolidar as in- fesa Civil, geração de energia elétrica e
formações a respeito dos riscos no país gerenciamento de recursos hídricos no
(mapas de áreas de risco, dados relativos
186 Monitorando os riscos

Brasil e na América do Sul. Também há méricos em contínuo desenvolvimento e


contribuição importante nos campos dos estudos de modelagem global e regional.
transportes, abastecimento, turismo e la- Com relação a sua estrutura física, o CP-
zer. O sistema de computação e os acervos TEC conta com o que há de mais moder-
de dados propiciam enorme crescimento no atualmente nessa área, como o super-
da pesquisa meteorológica no país, resul- computador “CRAY XT6” (Figura 7). Esta
tando em melhora no conhecimento so- tecnologia possibilita ao Centro melhorar
bre fenômenos atmosféricos. a resolução espacial dos modelos de previ-
são de tempo, de clima sazonal, ambiental
Esse centro realiza previsão de tempo
(qualidade do ar) e de projeções de cená-
diária e previsão mensal de clima (Figura
rios de mudanças climáticas.
6), através da utilização de modelos nu-

Figura 6. Previsão de Clima mensal para o trimestre e Previsão diária de Tempo.(Fonte:


CPTEC/INPE).

Por se tratar de um centro que inte-


gra operação e formação de profissio-
nais, o CPTEC desenvolve e aperfeiçoa
seus modelos numéricos para simulação
de tempo e clima, integrando informa-
ções atmosféricas e oceânicas. O resul-
tado disso são previsões de tempo con-
fiáveis e com maior antecedência, além
de prever chuvas e eventos extremos
Figura 7. Supercomputador (CRAY XT6), com maior confiabilidade para todo o
conhecido como TUPÃ. (Fonte: CPTEC/INPE). país. Os agentes de Proteção e Defesa
Civil podem acessar as informações do
Capacitação em Gestão de Riscos 187

CPTEC através do site: http://bancode-


dados.cptec.inpe.br. Para acessar a plataforma do Modelo
Regional BRAMS diretamente na pági-
Antes da chegada dos supercompu- na online do CPETEC/INPE: www.ceptec.
inpe.br.
tadores ao Brasil, as previsões de tempo
eram fornecidas para até um dia e meio
de antecedência, com índice de 60% de Além destes centros nacionais de co-
acerto. Hoje as previsões são geradas leta, análise e previsão de tempo, existem
para até 15 dias, com 98% de acerto para ainda no Brasil diversos órgãos regionais
as primeiras 48h, chegando a 70% com de análise e previsão de tempo e clima.
cinco dias de antecedência. A tendência Destacam-se:
com as inovações tecnológicas é de que
• Fundação Estadual de Pesquisa
as previsões alcancem períodos mais
Agropecuária do Rio Grande do
longos, mantendo a confiabilidade. A
Sul (Fepagro): http://www.fepa-
constante atualização do sistema com-
gro.rs.gov.br
putacional tem permitido não somente
• Centro de Informações de Recursos
previsões mais confiáveis, mas também
Ambientais e de Hidrometeorologia
de melhor qualidade para microrregiões.
de Santa Catarina (Epagri/Ciram):
O modelo regional BRAMS (Brazilian http://ciram.epagri.sc.gov.br
developments on the Regional Atmos- • Sistema de Proteção da Amazônia
pheric Modelling System) operacional (Sipam): http://www.sipam.gov.br
no CPTEC (Figura 8) já chega a uma re- • Fundação Cearense de Meteoro-
solução de 5 km. Isto significa ter capaci- logia e Recursos Hídricos (Funce-
dade para gerar previsões de tempo com me): http://www.funceme.br
maior grau de detalhamento. • Sistema Meteorológico do Paraná
(SIMEPAR): http://www.simepar.br

Sistemas de Alerta

A Estratégia Internacional para a


Redução de Desastres-EIRD da ONU
(UNISDR, 2009), define os sistemas de
alerta como “o conjunto de capacida-
des necessárias para gerar e difundir
informação de alerta que seja oportuna
e significativa, com a finalidade de per-
mitir que as pessoas das comunidades
e as organizações ameaçadas por uma
Figura 8. Modelo regional BRAMS 5 km, ameaça se preparem e atuem de forma
operacional e disponível no site do CPTEC. apropriada e com tempo de antecedência
(Fonte: CPTEC/INPE).
suficiente para reduzir a possibilidade de
que se produza perdas ou danos”.
188 Monitorando os riscos

Já a Organização dos Estados Ame- Alerta baseados nos conhecimentos teó-


ricanos (OEA, 2010) diz que um sistema ricos de sazonalidade do clima no Brasil
de alerta consiste na transmissão rápida e dos dados analisados no momento da
de dados que ative mecanismos de alarme confecção dos boletins meteorológicos.
em uma população previamente organi-
Isto é feito da seguinte maneira: para
zada e capacitada para reagir de maneira
realizar a previsão de tempo, a equipe
antecipada e oportuna. O fornecimento
necessita, primeiramente, de cartas sinó-
de informação oportuna se realiza por
ticas de superfície e altitude. Estas cartas
meio das instituições encarregadas, o que são gráficos horários onde se encontram
permite que as pessoas expostas à ameaça plotados os dados coletados pelas esta-
tomem ações para reduzir o risco e se pre- ções meteorológicas da rede mundial. Os
parem para uma resposta efetiva. meteorologistas identificam nestas cartas
Um Sistema de Alerta possibilita que os sistemas meteorológicos que atuam na
seja conhecido antecipadamente e com atmosfera. Isso os auxilia para que con-
certo nível de precisão, em que tempo e es- sigam prever o tempo para as próximas
paço, uma ameaça que pode desencadear horas ou mesmo dias. Além das cartas
um desastre. Por este motivo, os alertas de- sinóticas, são utilizadas imagens de saté-
vem ser difundidos com antecipação sufi- lite, dados de radar e informações como
ciente para que a comunidade possa tomar os boletins horários confeccionados em
providencias e dirigir-se aos locais seguros aeroportos, conhecidos como METAR
e pré-determinados pela Proteção e Defesa (METeorological Aerodrome Report – ou
Civil municipal, abrigando temporaria- Informe meteorológico regular de aeró-
mente os moradores das áreas ameaçadas. dromo). Por último, todas essas infor-
mações são comparadas aos gráficos dos
Mundialmente, os eventos mais co- modelos numéricos de previsão de tempo.
muns aos quais se aplicam um Sistema de Estes modelos são softwares desenvolvi-
Alerta estão as inundações, enxurradas, dos mundialmente, que realizam o cálculo
deslizamentos, furacões, vulcões, tsuna- das condições atmosféricas futuras, atra-
mis, incêndios florestais, os fenômenos El vés da solução das equações matemáticas
Niño e La Niña, terremotos, entre outros. e físicas que regem a atmosfera, ou seja, as
diversas variáveis coletadas são aplicadas
Milhões de pessoas ao redor do mun-
a equações matemáticas e físicas em com-
do salvaram suas vidas, suas propriedades
putadores específicos para esses cálculos.
e meios de subsistência graças à implanta-
Os supercomputadores simulam o que
ção de sistemas de alerta em suas comuni-
deve acontecer nos próximos dias. A so-
dades, municípios ou estados.
lução dessas diversas equações complexas
Como visto anteriormente, os centros seria a “previsão do tempo”.
de monitoramento e previsão de tempo
Mesmo se tratando de cálculos (ciên-
e clima realizam as previsões diárias das
cias exatas), o resultado na prática pode
condições meteorológicas. Através da re-
variar por que a natureza é surpreen-
alização deste serviço, os meteorologistas
dente e muitas vezes ocorrem erros nas
analisam as eventuais áreas de risco ou de
Capacitação em Gestão de Riscos 189

medições (dados de entrada para o cál- mapas de risco com informações geoló-
culo dos modelos). Isso gera erros nos gicas e hidrológicas são cruzados com as
resultados finais. Por isso a necessidade cartas geradas por institutos de previsão
de um profissional meteorologista, pois de tempo como o CPTEC e o INMET.
sua experiência e perspicácia faz toda a Quando uma região com risco elevado
diferença para análise da previsão. de incidentes como deslizamentos e en-
xurradas é visitada por frentes frias ou
Feito isso, no caso de condições seve-
por concentrações de nuvens que po-
ras de tempo, estas informações são re-
dem gerar pancadas de chuvas, o aviso é
passadas à Defesa Civil do local em risco.
emitido. O alerta é enviado para que os
Os centros meteorológicos podem apenas
municípios e os órgãos de defesa possam
alertar os órgãos responsáveis sobre os
monitorar a situação e agir quando pre-
possíveis eventos extremos, não podendo
ciso. A ação de alerta deve ser sempre an-
gerar alarde da população. A tarefa estra-
tecipada para reduzir os riscos.
tégica é de competência da Defesa Civil.
Na Figura 9, é apresentado um gráfi-
Para montar um alerta, os dados de
co ilustrativo das etapas descritas acima:

Figura 9. Ilustração das etapas de monitoramento das condições de tempo para confecção
de Alertas e Alarmes de desastres naturais no Brasil.

Todos esses fatores interligados con- vida humana, pois estes serviços ajudam
tribuem para a defesa e manutenção da não somente a proteger a população dos
190 Monitorando os riscos

desastres naturais, mas também auxiliam horas, e são esperados deslizamen-


nas pesquisas, estudos e na elaboração de tos e enxurradas generalizados.
novas tecnologias para colaborar com o Há sistemas de alerta sofisticados,
desenvolvimento sustentável da humani- que utilizam tecnologia que exige conhe-
dade, do transporte e da aviação. cimento técnico especializado no que se
Os componentes de um Sistema de refere a observação, monitoramento do
Alerta efetivo incluem quatro elementos fenômeno e elaboração das previsões e
prognósticos. Este tipo de sistema em ge-
básicos:
ral utiliza informações geradas por redes
• Detecção e previsão de ameaças e globais de previsão de tempo e clima, ba-
elaboração de mensagens de alerta ses científicas e exigem a participação de
e ameaças; profissionais qualificados.
• Avaliação dos riscos potenciais e No Brasil, o sistema de alerta de desas-
integração da informação sobre os tres compete ao CENAD, que recebe in-
riscos nas mensagens de alerta; formações de diversos órgãos do Governo
• Divulgação oportuna, confiável e Federal responsáveis por predizer tempo e
compreensível de mensagens de temperatura; avaliar condições geológicas
alerta às autoridades e à população de áreas de risco; monitorar movimentos
em risco; das placas tectônicas; acompanhar bacias
• Planejamento, preparação e capa- hidrográficas; controlar queimadas e in-
citação em nível comunitário vi- cêndios florestais; e transportar e armaze-
sando à obtenção de uma resposta nar produtos perigosos.
efetiva aos alertas. As informações são avaliadas e pro-
cessadas por especialistas do CENAD e
Os tipos de alertas mais comuns são: encaminhadas aos órgãos de Proteção
e Defesa Civil dos estados e municípios
• Alerta amarelo: quando ocorrem com risco de ocorrência de desastres,
condições especificas para uma si- sendo que o alerta ocorre de acordo com
tuação potencialmente grave. Este a intensidade do evento adverso (Nível
tipo de alerta pode ser feito via de Observação, Nível Moderado, Nível
rádio, carros de som, telefone, ou Alto, Nível Muito Alto).
outros meios;
• Alerta laranja: quando o perigo
Sistema Nacional de
é iminente e sua manifestação se
Monitoramento e Alerta
dará em questão de minutos ou
horas. Neste caso deve ser ativada No contexto de gestão de riscos e geren-
uma série de protocolos de prepa- ciamento de desastres, os mecanismos de
ração e resposta; monitoramento e alerta constituem-se em
• Alerta vermelho: é quando a si- importantes aliados para a efetiva preven-
tuação já se manifesta e já causou ção de desastres, conforme foi abordado no
ou está causando danos; em geral item 8.1. deste capítulo. Para que tais meca-
quando ocorrem índices pluvio- nismos sejam eficazes, é importante enfati-
métricos excepcionais nas últimas zar novamente que diversos atores devem
Capacitação em Gestão de Riscos 191

agir conjuntamente, a exemplo do que vem A definição dos municípios prioritá-


ocorrendo no Brasil com o Sistema Nacio- rios foi baseada em critérios como número
nal de Monitoramento e Alertas. de mortes, frequência de grandes eventos
destrutivos e população atingida ou afeta-
A estruturação inicial desse Sistema está
da. Tais dados foram obtidos a partir das
baseada em três eixos principais que envol-
informações dos arquivos da Secretaria
vem o mapeamento, o monitoramento e a Nacional de Proteção e Defesa Civil.
resposta. A primeira ação é de responsabili-
dade da CPRM, cuja missão é a de realizar O núcleo inteligente do sistema, uma
o mapeamento de áreas de risco de desli- equipe multidisciplinar formada por
zamentos e inundações de 821 municípios profissionais de meteorologia, hidrolo-
prioritários. Esses produtos são fundamen- gia, geologia e especialista em desastres
tais para o trabalho de monitoramento e naturais, é o responsável por gerenciar
alertas no país, realizado pelo Centro Na- as informações provenientes de diver-
cional de Monitoramento e Alertas de De- sas fontes como, por exemplo, previsões
sastres Naturais (CEMADEN). Os alertas meteorológicas de alta resolução, rede
emitidos por esse Centro são enviados ex- de pluviômetros, e informações remotas
clusivamente ao Centro Nacional de Geren- de estimativas de precipitação por radar
ciamento de Riscos e Desastres (CENAD), e satélite. Além destes dados, o CEMA-
responsável pela articulação das ações de DEN utiliza mapeamentos de áreas de
resposta a desastres no Brasil. risco elaborados e informações forneci-
das por diversos parceiros do Centro que
Lembrando que outras instituições contribuem de maneira significativa para
também contribuem de maneira rele- a emissão de alertas (Figura 10).
vante para o Sistema, provendo dados e
informações meteorológicas, hidrológi- Quais dados são utilizados para o
cas, socioeconômicas, entre outras. Por monitoramento?
exemplo: o Instituto Nacional de Meteo- Para o monitoramento e emissão de
rologia (INMET), a Agência Nacional de
alertas, há uma ampla gama de infor-
Águas (ANA), o Instituto Brasileiro de
mações e dados que devem ser obser-
Geografia e Estatística (IBGE).
vados, como descrição dos setores de
Os alertas elaborados pelo CEMADEN risco e suas características, informações
são enviados unicamente para o CENAD, dinâmicas provenientes tanto de mode-
ligado à Secretaria Nacional de Proteção lagem quanto de dados observacionais
e Defesa Civil / Ministério da Integração, obtidos em tempo real (Figura 11). A
que contata as Defesas Civis locais, respon- integração destes sobre a malha urbana
sáveis pelas primeiras ações de resposta. O de um município e associada com dados
foco é monitorar as áreas de risco previa- socioeconômicos, por exemplo, poderá
mente mapeadas dos municípios prioritá- indicar áreas de especial atenção ao mo-
rios, para tornar o trabalho dos profissio- nitoramento, indicando também o tipo
nais envolvidos em Proteção e Defesa Civil de processo que poderá ocorrer sob de-
mais focado e efetivo e para que sejam re- terminadas condições meteorológicas e
alizadas ações antecipadas de redução de hidrológicas.
danos humanos, ambientais e materiais.
192 Monitorando os riscos

Figura 10. Fluxo de trabalho do CEMADEN. (Fonte: CEMADEN).

Figura 11. Exemplo de integração de diversas informações utilizadas para o monitoramen-


to e emissão dos alertas.

Também são utilizadas ferramentas de até 90%, prever situações favoráveis à


mais precisas, como a modelagem nu- ocorrência de desastres de origem geoló-
mérica físico-matemática, tanto meteo- gica e hidrológica.
rológica quanto hidrológica, fornecendo
Os modelos hidrológicos, por sua vez,
dados sobre, por exemplo, volume de
geralmente utilizam as condições meteo-
precipitação, intensidade do vento e tem-
rológicas previstas para assim prognosti-
peratura. Neste contexto, torna-se possí-
car a vazão e nível dos rios dentro de uma
vel com um tempo hábil de aproximada-
bacia de drenagem.
mente 3 dias e com um índice de acerto
Capacitação em Gestão de Riscos 193

Prognóstico é o conhecimento pré- por exemplo, a cada 15 minutos. Este


vio, baseado no diagnóstico da equipe de constante acompanhamento das condi-
operadores, da possibilidade de ocorrên- ções meteorológicas e hidrológicas per-
cia, duração e evolução de um evento. O mite uma avaliação imediata da equipe
prognóstico é importante na tomada de do CEMADEN e a tomada de decisão
decisão para emissão dos alertas. para envio de alertas para o CENAD.
Para o período inferior a 24 horas, a A integração das informações meteo-
modelagem meteorológica e hidrológica rológicas, hidrológicas e as informações
ainda é eficaz, mas não é totalmente pre- sobre áreas de risco permite indicar áreas
cisa, necessitando assim avaliar a situação em determinado município que estarão
presente e monitorar constantemente a em alerta devido a condições estabele-
evolução das condições de tempo e hidro- cidas ou previstas. Sendo assim, todas
lógicas. Para este fim, a utilização de dados as informações citadas tornam-se peças
de estações pluviométricas, fluviométricas fundamentais em um sistema de moni-
e, principalmente, de radares meteoroló- toramento e alerta de desastres naturais.
gicos, é essencial no sistema de monitora- Como é o alerta enviado pelo CE-
mento e alerta de desastres naturais. MADEN?
Produtos de radar permitem acom-
O monitoramento do CEMADEN
panhar as condições meteorológicas em
acompanha ininterruptamente as condi-
tempo real, inferindo o deslocamento de
ções hidrológicas, geológicas e meteorológi-
áreas de instabilidade atmosférica e infor-
cas e os possíveis impactos socioambientais
mando a taxa horária de precipitação com
nos municípios monitorados pelo Centro.
um raio de varredura de até 400 km. Com
Conforme a avaliação da equipe multidis-
esta informação, uma grande área possui
ciplinar, um alerta de risco de movimentos
cobertura com informações de volume
de massa, hidrológico ou ambos, pode ser
pluviométrico tanto acumulado para um
emitido para o CENAD, auxiliando o Sis-
período pré-determinado como para ta-
tema Nacional de Proteção e Defesa Civil.
xas horárias de precipitação.
Com o uso de informações pluvio- Dentro do procedimento de ela-
métricas e fluviométricas, torna-se possí- boração e emissão de alertas pelo CE-
vel conhecer o volume de precipitação e MADEN, há quatro níveis de alerta: (a)
nível dos rios em tempo real e com uma Observação; (b) Moderado; (c) Alto; (d)
alta frequência de informações como, Muito Alto (Figura 12).

Figura 12. Níveis de alerta emitidos pelo CEMADEN.


194 Monitorando os riscos

a. Nível de Observação: acompanha- o período de vigência, ou seja, período no


mento contínuo das previsões de qual perdurará a situação de risco. Baseia-
chuva, dos índices pluviométricos se principalmente na expectativa de volu-
e das condições de riscos hidroló- me e forma com que a chuva possa ocorrer
gicos e geológico-geotécnicos. nas próximas horas. Por exemplo: se a pre-
b. Nível de alerta Moderado: valores visão indica chuva contínua e possibilida-
de acumulados pluviométricos mo- de de ocorrência de pancadas moderadas
derados nas últimas horas e previsão para as próximas 24 horas, o alerta pode
meteorológica de continuidade de ter período de vigência de até 24 horas.
chuvas de intensidade forte ou mui- Ressalta-se que o monitoramento segue
to forte com possibilidade mode- continuamente e em qualquer momento
rada de ocorrência de deslizamen- a situação de risco pode ser reavaliada e o
tos induzidos em taludes de corte período de vigência pode ser alterado.
e aterro, principalmente em áreas
urbanas caracterizadas por assenta- O alerta de risco possui um texto des-
mentos precários, e/ou inundações critivo, no qual são informadas as caracte-
abruptas (enxurradas) e inundação rísticas das áreas de risco, o valor de pre-
em bacias de resposta rápida. cipitação que já ocorreu no município e a
c. Nível de alerta Alto: valores de acu- previsão meteorológica para o decorrer
mulados pluviométricos altos nas do período de vigência, bem como indica
últimas horas e previsão meteoro- as localidades do município que contêm
lógica de continuidade de chuvas as áreas de risco previamente mapeadas.
de intensidade forte ou muito for- O principal objetivo do alerta é indicar
te, indicando probabilidade alta de áreas de especial atenção para ação da
ocorrência de deslizamentos indu- Proteção e Defesa Civil. Esta indicação é
zidos em taludes de corte e aterro possível através da análise da distribuição
e deslizamentos esparsos em en- da precipitação sobre as áreas de risco mo-
costas naturais, e/ou de inundações nitoradas, onde rotineiramente observa-
abruptas (enxurradas) e de inunda- se heterogeneidade do comportamento
ção em bacias de resposta rápida. das chuvas ao longo do município, tanto
d. Nível de alerta Muito Alto: valo- em volume como em intensidade. Portan-
res de acumulados pluviométricos to, a avaliação é mais eficiente conforme
excepcionais nas últimas horas, a rede de observação pluviométrica dis-
associados ou não a acumulados ponível ao longo do município. Este deta-
significativos nos últimos dias, que lhamento espacial e temporal pode ser ca-
indicam probabilidade muito alta paz de auxiliar na definição de áreas mais
de deslizamentos generalizados e/ críticas do município, em decorrência das
ou inundações abruptas (enxurra-
características físicas do terreno, e a pre-
das) e inundação em bacias de res-
cipitação incidente sobre estas áreas, ou
posta rápida de forma generalizada.
seja, ajuda a nortear e focalizar os esforços
Além de informar o tipo de processo dos órgãos de ação. Outro elemento que
alertado e o nível, o alerta também contém auxilia a identificação de áreas de especial
Capacitação em Gestão de Riscos 195

atenção são informações de campo for- TerraMA2 também é um exemplo deste


necidas pelas Defesas Civis. O acompa- tipo de sistema de alerta.
nhamento in loco tem se mostrado como Esta plataforma permite a integra-
uma importante ferramenta para avaliar a ção de serviços geográficos e de modela-
evolução dos cenários de risco, auxiliando gem, com base de acesso em tempo real
inclusive na tomada de decisão para eleva- a dados geoambientais (meteorológicos,
ção de um nível de alerta. climáticos, atmosféricos, hidrológicos,
geotécnicos, sociodemográficos, etc.) dis-
Exemplo: a equipe do CEMADEN emite poníveis em qualquer servidor conectado
um alerta de risco alto de movimentos
de massa para o CENAD e este reporta à internet. Esses dados podem ser lidos,
ao município alertado. Ao receber a in- processados e aplicados a diversos usos,
formação, a Defesa Civil local visita as tais como monitoramento, análise e alerta
áreas de risco apontadas pelo Centro e
observa que já há ocorrências de desli- em áreas como qualidade do ar, da água,
zamentos pontuais e indícios de movi- gasodutos, barragens de rejeito em área
mentação das encostas. A Defesa Civil de mineração, incêndios florestais, movi-
retorna esta informação ao CENAD e
este, por sua vez, ao CEMADEN. Basea-
mentos de massa do tipo escorregamentos
do na previsão meteorológica de chuva e corridas de lama, inundações e estiagens
forte nas áreas de risco, associadas às (http://www.dpi.inpe.br). Desta forma,
condições locais de vulnerabilidade, é
possível inferir que nas próximas horas
além do sistema de alerta gerado pelo
espera-se o agravamento do cenário de CENAD, os municípios também podem
risco. Neste caso, a Defesa Civil contri- manter seus próprios sistemas de alerta.
bui com a informação de campo e o CE-
MADEN, conhecendo esta informação, Por exemplo, o TerraMA2 é utiliza-
pode decidir sobre a manutenção ou do pela Prefeitura de Caraguatatuba/SP
não da vigência do alerta.. para monitorar deslizamentos de terra;
pela Prefeitura de Campinas/SP em par-
Por fim, o CEMADEN possui a fun- ceria com o Instituto do Meio Ambiente;
ção de traduzir todas essas informações pela Prefeitura de São Paulo em parceria
recebidas e compiladas em um cenário com a Defesa Civil estadual e municipal;
de risco para a ocorrência de desastres, pela Transportadora Brasileira Gasoduto
apontando inclusive quais eventos são Bolívia-Brasil S.A.-TBG, para monitorar
esperados diante das condições apresen- toda a área por onde passa o gasoduto
tadas. Este é um bom exemplo dos papéis e evitar desastres como o ocorrido em
desempenhados pelos atores, em âmbito 2008, durante as fortes chuvas e desliza-
local e federal, que mostra a importância mentos em Santa Catarina que acabaram
do fortalecimento do Sistema Nacional provocando o rompimento do gasoduto.
de Monitoramento e Alertas. A Secretaria Estadual do Meio Am-
Outros Exemplos de Sistemas de biente/RS implantou uma Sala de Situa-
Alerta ção cujo objetivo é monitorar os eventos
hidrológicos extremos, principalmente
A Plataforma de Monitoramento, as inundações, enxurradas e as estiagens,
Análise e Alerta a extremos ambientais- visando contribuir para a gestão de riscos
196 Monitorando os riscos

no Estado, em parceria com a Defesa Civil, Há também sistemas de alerta mais


por meio de alertas e estabelecimento de simples baseados na participação de co-
critérios técnicos. Também pretende criar munidades, caracterizando-se pelo uso
uma base de dados para apoio à gestão de de equipamentos de baixo custo e de fácil
recursos hídricos, monitorando a disponi- manejo, podendo, portanto, ser operados
bilidade hídrica e os reservatórios de gran- pelos membros da própria população,
de porte. Para tal, a Plataforma TerraMA2 tanto na fase de monitoramento como de
fornece informações sobre as previsões alerta (OEA, 2010).
meteorológicas e os avisos de alerta que
Um bom exemplo deste tipo de sis-
são repassados à Defesa Civil Estadual.
tema é o Sistema de Alerta e Alarme
O Centro Integrado de Alertas de Comunitário, que faz parte das Ações
Desastres Naturais (CIADEN), instalado de Prevenção e Preparação das Comuni-
em Cabrália Paulista/SP, faz uso do Ter- dades frente aos desastres relacionados
raMA2, que é operado em parceria e em às chuvas fortes e/ou prolongadas, rea-
forma de rede com a REDEC-17 da Defe- lizado pela Subsecretaria Municipal de
sa Civil Estadual. A rede conta com uma Proteção e Defesa Civil da Cidade do Rio
central localizada no CIADEN, que aten- de Janeiro. Entre as ações realizadas, foi
de a trinta e nove municípios da região implantado um NUPDEC (Núcleo Co-
conforme exemplificado na Figura 13. munitário de Proteção e Defesa Civil),
que tem o objetivo de aumentar a resili-
ência da população residente nas regiões
mais vulneráveis da cidade, e foi opera-
cionalizado o Sistema de Alerta e Alarme
Comunitário para Chuvas Fortes (Siste-
ma A2C2), com o acionamento de Men-
sagens SMS – para os avisos de alerta, e
com Sirenes - para os avisos de alarme,
ambos inéditos no Brasil. O Sistema de
Alarme com Sirenes foi implantado em
Figura 13. Sistema integrado de operação 103 comunidades e a Figura 14 apresenta
da Plataforma TerraMA2 pelo CIADEN, em a estratégia de alerta (SMS) e de alarme
Cabrália Paulista, SP. (SMS) deste sistema.

Aparelhamento e Apoio Logístico


Com a implantação dos NUPDEC – dentes das Associações de Moradores e
Núcleos de Proteção e Defesa Civil vol- integrantes de outros Programas Comu-
tados para a proteção comunitária, foi nitários Municipais (Agentes Ambien-
feita a mobilização e preparação das co- tais e Guardiões dos Rios). Foi elabora-
munidades, tendo como foco os Agentes do também, pela Fundação GEO-Rio, o
Comunitários de Saúde (ACS), os presi- mapeamento de risco nas encostas, que
Capacitação em Gestão de Riscos 197

apontou 117 comunidades com edifica- mente articulados e devem fortalecer-se


ções em situação de Alto Risco de des- mutuamente (OEA, 2010).
lizamento. Este mapeamento serviu de
Os elementos chaves para o funciona-
base para a escolha dos locais onde se-
mento de um Sistema de Alerta são:
riam implantadas as sirenes.
Seja qual for o tipo do Sistema de • Participação;
Alerta, é fundamental para o seu bom • Pessoas das comunidades e autori-
funcionamento que exista uma parti- dades locais capacitadas;
cipação ativa das comunidades em sua • Análise de riscos e identificação
operação, desde a identificação e ava- das zonas mais vulneráveis;
liação de risco, no desenho do sistema, • Monitoramento;
no monitoramento dos indicadores, na • Planos de contingência;
• Sistemas de comunicação de avi-
coleta de dados, até na comunicação de
sos, alertas e alarmes eficientes;
alerta, alarme e resposta. Portanto, se
• Diálogo permanente entre comu-
existirem os dois tipos de sistemas em
nidade e município.
uma área, ambos devem estar estreita-

A B

Figura 14. Estratégia do Sistema de Alerta (A) e Alarme (B) com Sirenes da cidade
do Rio de Janeiro.

Estrutura, Aparelhamento e Diante da severidade dos eventos e


Gestão do Órgão Municipal de da amplitude dos seus efeitos, estamos
Proteção e Defesa Civil diante da necessidade de gerenciar es-
tas situações e, não há como gerenciar
O enfrentamento dos efeitos dos even- sem um grupo de pessoas que busquem
tos climáticos severos, os quais, via de regra, o atingimento comum de objetivos e,
geram desastres socioambientais, exigem a sem que eles e os recursos necessários
atuação contínua, integrada e coordenada, estejam institucionalizados, no órgão
seja na gestão de riscos (prevenção, mitiga- de pronto atendimento ao cidadão, qual
ção e preparação) seja no gerenciamento seja o Poder Executivo Municipal. A
do desastre (resposta e recuperação).
198 Monitorando os riscos

inexistência de estruturas sociais (na O arcabouço de recursos humanos


comunidade) e institucionais (públicas) quantitativos permite ao órgão de Prote-
impede que o governo local construa e ção e Defesa Civil a realização das suas
desenvolva políticas públicas consisten- missões com uma capacidade mínima
tes e perenes voltadas à gestão de risco. na resposta, enquanto que o qualitativo
lhe permite dar uma resposta adequada
Cada município representa uma rea-
no quesito qualidade. A quantidade de
lidade em si mesmo. A visão político-ad-
pessoas deve estar dosada ao conjunto de
ministrativa, a cultura de percepção do
responsabilidades, podendo ser estabele-
risco e o conjunto de ações municipais
cida a partir da extensão territorial e da
nem sempre colocam a atividade de ges-
magnitude dos riscos (ver item 7.2.1.5);
tão dos riscos em patamar de igualdade
A qualidade e a competência das pesso-
com outras ações ou políticas. Em face
as revelam-se pela capacitação e perfil
disto, é indispensável que cada municí-
(competências, habilidades e aptidões,
pio possua um setor encarregado da ges-
ver item 7.2.1.6). Assim, necessaria-
tão do risco e da gestão do desastre.
mente, deverá se destinar recursos para
A estrutura de Proteção e Defesa Ci- investimentos na capacitação. Aqui, é
vil deve ser formatada a partir de: importante frisar a necessidade de que
se tenham, de preferência, recursos hu-
• um arcabouço ou estrutura legal; manos (servidores públicos efetivos) no
• um arcabouço político; órgão municipal de Proteção e Defesa
• um arcabouço de recursos humanos Civil, para que não se percam os investi-
quantitativos e qualitativos; mentos e se mantenha a memória.
• um arcabouço material e financeiro;
• um arcabouço estratégico, tático O arcabouço material e financeiro
operacional. permite apoiar o conjunto de ações e,
também, realizar de forma eficiente e
O arcabouço legal, representado pelo eficaz a sua função, complementando
conjunto de regramentos (leis, decretos, os requisitos que se exige dos recursos
portarias), confere competência e legiti- humanos. Exige do gestor, a articulação
midade, sendo o que lhe dará sustentação permanente com os demais órgãos mu-
jurídica para o conjunto de ações. nicipais com a finalidade de influenciar
na destinação de recursos a partir da
O arcabouço político revela o pro-
inserção de planos, metas, finalidades e
pósito da organização, compõe-se pela
ações no Plano Plurianual (PPA), Lei de
capacidade de articulação do Coorde-
Diretrizes Orçamentárias (LDO) e Lei
nador, identifica-se pela posição que o
Orçamentária Anual (LOA).
órgão de Defesa Civil ocupa no organo-
grama municipal e lhe dá espaço para O arcabouço estratégico, tático ope-
a construção de apoios e sustentações racional representa o conjunto de di-
para o conjunto de ações que deva bus- retrizes, metas, planos e resultados que
car e realizar. devem ser perseguidos pelo órgão muni-
Capacitação em Gestão de Riscos 199

cipal de Proteção e Defesa Civil. Seu por- Neste contexto, é fundamental a partici-
tal de ingresso é a Política Municipal de pação da população nas audiências pú-
Defesa Civil, construída a partir da reali- blicas promovidas, sendo esta principal
dade local. Uma estrutura municipal de ferramenta de participação social previs-
resposta às exigências de defesa e prote- ta na Lei nº 12.608.
ção civil precisa consolidar-se a partir de:
a) estrutura organizacional; b) estrutura Estrutura Organizacional
orçamentária e financeira; c) estrutura de
pessoal; d) estrutura de equipamentos; e) Não existe melhor denominação ao
estrutura social e comunitária. órgão que deve tratar da temática de ges-
tão de riscos e gestão de desastres do que
Estrutura Social e Comunitária “Coordenadoria Municipal de Proteção
e Defesa Civil”, pelo fato de que o papel
A legislação estabelece como instru- deste órgão é o de articulação, seja nas
mento de participação social das comu- ações de prevenção, mitigação e prepara-
nidades os NUPDECs, conforme apre- ção, seja nas de resposta e recuperação.
sentado anteriormente no capítulo 7. As A Coordenadoria deve estar diretamente
associações de vilas e bairros, os clubes ligada ao Prefeito Municipal e o seu coor-
de serviços, as organizações religiosas, a denador possuir a função de Secretário.
escola, o círculo de pais e mestres são im- Os meios materiais e humanos devem ser
portantes instrumentos para a mudança aqueles suficientes para manter uma ar-
na cultura da percepção do risco e na ticulação interna (dentro da Prefeitura)
eficácia e eficiência da realização das po- e externa (com as demais entidades da
líticas de proteção das pessoas contra os comunidade), capazes de enfrentar com
efeitos dos eventos extremos. O caráter desenvoltura os desastres locais. Deve es-
comunitário das ações de enfrentamen- tar organizada com pessoas capacitadas
to dos desastres, em qualquer das fases a desenvolver um relacionamento ótimo
da gestão de riscos e gestão de desastres, com os demais entidades envolvidas nas
tem como princípio a participação de to- suas atividades.
dos, uma vez que o cidadão é ao mesmo
O gestor local deve apoiar-se nos
tempo o principal protagonista e o mais
seguintes instrumentos legais e regula-
importante destinatário das ações reali-
mentatórios:
zadas diante do evento extremo.
As ações preventivas de Proteção e • Lei de Estrutura que pode constar
Defesa Civil podem estar, intimamente, da lei da Estrutura Administrativa
ligadas às questões ambientais. Para isto, do Município;
incorpora-se o princípio da participa- • Lei de Criação do Conselho Mu-
ção, diante dos interesses difusos e cole- nicipal;
tivos que envolvem as atividades de Pro- • Lei do Fundo Municipal;
teção e Defesa Civil, exigindo que cada • Decreto de nomeação dos inte-
um dê a sua participação no processo. grantes da Coordenadoria;
200 Monitorando os riscos

• Portaria de nomeação dos inte- e Defesa Civil pode começar a partir da


grantes do Conselho Municipal de destinação de recursos do IPTU e do
Proteção e Defesa Civil; IPVA, em percentuais modestos, mas
• Portaria de nomeação dos integran- que permitirá aos gestores da Defesa
tes do Conselho Gestor do Fundo. Civil encaminhar ações decorrentes da
Política Municipal de Proteção e Defesa
Civil.
Estrutura Orçamentária e
Financeira
Estrutura de Pessoal
Não haverá política pública onde não
houver orçamento e não haverá recurso A seguir, apresentaremos uma suges-
onde não houver planejamento orça- tão (Tabela 1) em relação a estrutura de
mentário, representado basicamente pela pessoal de uma COMPDEC, que poderá
Lei do Plano Plurianual (PPA), Lei das variar de acordo com os riscos de cada
Diretrizes Orçamentárias (LDO) e Lei comunidade. Também serão apresenta-
Orçamentária Anual (LOA). A institui- das algumas sugestões quanto ao perfil
ção de um Fundo Municipal de Proteção do pessoal que deverá ser recrutado para
o órgão municipal.

Tabela 1. Sugestão de estrutura organizacional de uma COMPDEC

Coordenador Auxiliares
ESTRUTURA Chefe Motorista Técnicos Total
geral administrativos

Coordenadoria-Geral   01 01
Seção
01 02 02 05
Administrativa
Divisão de
01 02 02(**) 06
Atividades Técnicas
Divisão de
Relações 01 02 03
Comunitárias
Grupo de Ação
Comunitária e 01 01
Institucional(*)

(*)Chefe da Divisão de Relações Comunitárias - coordenará as atividades do GACI (Grupo


de Ação Comunitária e Institucional).

(**) Técnicos em Proteção e Defesa Civil, articulação com entidades de ensino superior
para realização de curso a partir do estudo do Perfil Profissional e Análise do Cargo e
Plano de Carreira.
Capacitação em Gestão de Riscos 201

Perfil Profissional para Atuação XII. Noções de Sociologia e Psicolo-


na Proteção e Defesa Civil gia dos Desastres;
XIII. Noções de Cartografia;
As competências representam um XIV. Noções de Direito e Gestão
conjunto de conhecimentos, habilidades Ambiental;
e atitudes necessárias para o desenvolvi- XV. Noções de Direito Financeiro e
mento de determinadas atividades pro- Orçamento;
fissionais. A seguir, serão expostos alguns XVI. Noções de Direito Penal;
exemplos de conhecimentos, habilidades XVII. Noções de Direito Urbanístico;
e aptidões gerais para a atuação nas ati- XVIII. Economia Municipal;
vidades de Proteção e Defesa Civil nos XIX. Noções de Processo Legislativo;
municípios: XX. Técnicas de Planejamento;
XXI. Noções de Gestão de Desastres;
a. CONHECIMENTOS XXII. Noções sobre Meio Ambiente.
I. Conhecimentos básicos de técni- b. HABILIDADES
cas de salvamento;
II. Conhecimento da estrutura do I. Operar computador e os softwares
SINPDEC; utilizados em Defesa Civil;
III. Conhecimento e preenchimen- II. Conduzir veículo automotor mé-
to da documentação; dio e leve;
IV. Conhecimento dos princípios e III. Preencher formulários especí-
práticas da administração pública; ficos;
V. Domínio em computação – editor IV. Gerenciar riscos;
de textos, planilhas, banco de da- V. Administrar emergências;
dos e outros softwares; VI. Planejamento de defesa e emer-
VI. Capacitação primeiros socor- gência;
ros; VII. Identificar áreas risco.
VII. Noções de trabalho comunitá-
rio; c. APTIDÕES
VIII. Noções de meteorologia; hidro-
logia; ventos; clima; I. Relacionamento humano;
IX. Noções de Geografia do estado II. Sentido de justiça;
e do município; III. Resistência física;
X. Noções de Topografia e dinâmica IV. Equilíbrio emocional;
de solo; V. Caráter conciliador;
XI. Noções de Sociologia e Psicolo- VI. Assessorar gestores municipais.
gia Social Aplicada; Estrutura de Equipamentos
202 Monitorando os riscos

Quadro 1. Estrutura de Equipamentos para a COMPDEC


Material/Equipamento Discriminação
Aparelho GPS
Bonés
Botas de borracha
Câmera Fotográfica Digital
Capas de chuva
Coletes ostensivos
Computadores
Cones de sinalização
Projetores
Gerador de energia
Holofotes
Impressora
Dotado de garagem, área para depósito, Sala de
Imóvel pra instalação da Defesa Civil
Cenário, espaço para recebimento do público.
Instalações
Jogos de canetas Diversas cores.
Lanternas Baterias de longa duração.
Luvas
Mapas diversos Adequados para rascunhos e planos imediatos.
Mapas temáticos
Máscara de proteção Respirador semifacial, filtro químico/mecânico.
Notebook c/acesso portátil Internet
Quadros brancos
Quadros magnéticos
Rádios Receptores/transceptores estação fixas.
Rádios Receptores/transceptores portáteis.
Sinalizadores noturnos
Editor de textos, Planilhas, Banco de dados,
Softwares
Apresentações, Cartografia e Geoprocessamento.
Telefone celular
Televisão 42’
Camioneta 4x4, banco de couro ou courvin,
identificada, dotada de sirene e luzes de
Veículo automotor
emergência, rádio transmissor/receptor na
frequência do Corpo de Bombeiros.
Capacitação em Gestão de Riscos 203

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NO, E.; GONÇALVES, E.F.; BRAZETTI, L.L.P.; pages/index_en.html.
9
3
INFORMANDO E
O desafio de
COMUNICANDO
conviver
OS RISCOScom
o risco
Capacitação em Gestão de Riscos 205

Este tópico tem por objetivo possibilitar ao aluno:

• Compreender como o conceito de comunicação de riscos adquire importância na


sociedade atual;
• Conhecer alguns modelos de comunicação de riscos;
• Explorar algumas ferramentas de comunicação de risco e suas aplicações.

A gestão de riscos é um processo A eficácia da gestão do risco de de-


complexo que envolve diversos atores sastres depende cada vez mais da par-
com distintas atribuições em diferentes ticipação inteligente de todos os atores
contextos. Neste cenário, a comunicação envolvidos no processo. A esse respeito,
de riscos torna-se indispensável para a torna-se indispensável promover a tro-
eficácia da própria gestão de riscos. Para ca de informações e o fácil acesso aos
isso, a informação deve ser de fácil acesso meios de comunicação, posto que sem
e linguagem, proporcionar a transmissão informações não é possível investigar,
de conhecimento e qualificar o processo planificar e monitorar as ameaças e
de tomada de decisão. A comunicação de avaliar riscos, nem responder adequa-
riscos é um processo interativo que visa damente a um desastre (UNISDR, 2004,
atender a esses objetivos. p. 214).

A importância da comunicação de riscos


O desenvolvimento de novas tecnolo- guagem compreensível à população – e
gias e meios de comunicação possibilitou que a sua troca seja ágil e correta.
transmissões e trocas mais rápidas de
De acordo com o National Research
informação, assim como as novas ferra-
Council (Conselho Nacional de Pesquisas)
mentas favoreceram o registro e a divul-
dos Estados Unidos (1989), a comunicação
gação desse conteúdo, compartilhando o
de risco pode ser conceituada como “um
conhecimento entre os atores envolvidos
processo interativo de troca de informa-
no processo de gestão do risco. É cada
ções e opiniões entre os indivíduos, grupos
vez mais evidente que a participação
e instituições, que frequentemente envolve
inteligente de todos esses atores (órgãos
várias mensagens sobre a natureza do risco
governamentais, organizações, institutos
ou expressa preocupações e opiniões legais
de pesquisa, agentes de Proteção e Defe-
e institucionais sobre a gestão do risco”.
sa Civil, população) qualifica o processo
de comunicação de riscos, auxiliando no Neste contexto, a comunicação de risco
monitoramento, na divulgação de infor- torna-se imperativa, tanto na gestão de ris-
mações e alertas e nas medidas tomadas. cos (ou seja, na gestão da redução, previsão
Para tanto, é preciso que o acesso à infor- e controle de riscos de desastres) quanto
mação seja facilitado – disponibilizado na gestão do próprio desastre (gestão da
em diversas plataformas, com uma lin- emergência, mediante ações de preparação,
206 Informando e comunicando os riscos

resposta e passos iniciais da reabilitação do sobre os riscos de desastres, sendo, dessa


cenário atingido pelo desastre). Ela ajuda forma, uma importante ferramenta para a
a minimizar a propagação de rumores, a promoção da cultura de riscos de desastres
falta, o excesso ou conflito de informações e do gerenciamento de riscos.

Figura 1. Pesquisadores discutindo simulações das mudanças climáticas em frente ao pai-


nel HiPerWall com 220 megapixel na Universidade da Califórnia, em San Diego.(Fonte:
http://www.nsf.gov/news/news_summ.jsp?cntn_id=123607).

A comunicação de riscos é uma fer- • Reduzir a desinformação e mani-


ramenta que pode propiciar uma tomada pulação de informações que po-
de decisão mais consciente por todos os dem ocorrer em diferentes meios
segmentos da sociedade e uma gestão de de comunicação.
riscos de desastre mais adequada às ne- • Prover informação suficiente à
cessidades da população. Além de servir população e transmitir o conheci-
como ferramenta para a tomada de deci- mento de especialistas para o pú-
são, ajuda também a: blico leigo.

Os modelos de comunicação de riscos


Toda pessoa tem o direito de parti- possibilidades, quatro modelos de comu-
cipar do processo de tomada de decisão nicação de riscos (apresentados no rela-
que diz respeito à sua vida. A comuni- tório desenvolvido pelo CEPED/UFSC
cação de risco torna-se, desta maneira, (2012) sobre o projeto Promoção da Cul-
necessária para a democratização e a efe- tura de Riscos de Desastres – PCRD), se-
tividade deste processo. rão mostrados e detalhados a seguir:
O envolvimento da população e o • Direto
acesso a informações pode acontecer • Midiático
através de alguns modelos de comuni- • Intrainstitucional
cação. Com o intuito de evidenciar estas • Interinstitucional
Capacitação em Gestão de Riscos 207

Modelo Direto Modelo Midiático

O Modelo de comunicação direto é O Modelo de comunicação midiático


aquele que parte do órgão responsável parte do órgão responsável (Ex.: Defesa
para a população, sem a utilização ou me- Civil) e utiliza um ou mais meios de co-
diação de outros meios de comunicação. municação de massa para alcançar toda
A Defesa Civil pode comunicar-se direta- a sociedade. A Figura 3. Entrevista do
mente com a população ao, por exemplo, Coordenador da Defesa Civil de Palma-
explicar os procedimentos para a realiza- res – PE, para a rede local de televisão.
ção de um simulado e esclarecer eventu- (Fonte: http://www.palmares.pe.gov.br/
ais dúvidas dos participantes (Figura 2. secretario-da-cidade-e-defesa-civil-de
Apresentação dos procedimento para a -palmares-participam-de-reportagem-
realização de um simulado de atendimen- na-tv-asa-branca/) é um exemplo do mo-
to a desastres em Canoas, Rio Grande do delo midiático de comunicação, no qual o
Sul.), realizar uma oficina com a popula- agente de Proteção e Defesa Civil utiliza
ção para orientação e capacitação voltadas um veículo de comunicação para divul-
à prevenção de riscos ou mesmo quando gar informações de forma a alcançar uma
um agente de Proteção e Defesa Civil faz grande parcela da população.
a vistoria em moradias e conversa com os
moradores sobre os riscos existentes e as Cabe aqui destacar a importância da
medidas que devem ser adotadas. correta comunicação da informação. A co-
municação é parte da estratégia de redução
Este modelo tem a vantagem de trans- de risco de desastres, servindo para preve-
mitir o conteúdo diretamente da institui- nir e conscientizar a população (boletins
ção para o público, evitando que sejam meteorológicos, alertas, conteúdos que fa-
divulgadas informações em excesso ou em voreçam a percepção de risco, campanhas
falta, bem como informações conflitantes. educacionais, medidas preventivas a se-
Por outro lado, como não conta com o au- rem adotadas) e para as etapas posteriores
xílio de instrumentos de comunicação de de resposta e reconstrução (comunicação
massa, a mensagem pode não chegar a um sobre pontos de atendimento aos afeta-
número tão grande de pessoas. dos, funcionamento de estabelecimentos,
divulgação de números para contato com
agentes e organizações, informações sobre
como agir e como ajudar).
Para que a comunicação funcione de
forma efetiva, é necessário que esta esteja
adequada ao seu público alvo (para uma
população onde há um grande número de
Figura 2. Apresentação dos procedimento analfabetos, por exemplo, pode ser mais efi-
para a realização de um simulado de aten- ciente a comunicação por rádio e o uso de
dimento a desastres em Canoas, Rio Grande
do Sul.
cartazes com ícones e sinalizações gráficas)
208 Informando e comunicando os riscos

e que a linguagem empregada seja compre- corretamente o trabalho das Coordenado-


ensível e adequada ao contexto, de forma rias Municipais de Proteção e Defesa Civil
a conscientizar e mobilizar, mas sem gerar (Figura 4. A Presidente Dilma no lança-
ansiedade ou medo excessivos na popula- mento do programa voltado à prevenção
ção. Além disso, os veículos de comunica- de desastres naturais no Centro Nacional
ção devem verificar o conteúdo divulgado de Gerenciamento de Riscos e Desastres -
(com profissionais e técnicos da área, ins- CENAD. (Fonte: http://memoria.ebc.com.
titutos de pesquisa e demais responsáveis), br/agenciabrasil/galeria/2012-08-08/pre-
de modo que as informações transmitidas sidenta-dilma-rousseff-lanca-plano-na-
estejam claras e em sintonia com os órgãos cional-de-gestao-de-risco-e-respostas-de-
de Proteção e Defesa Civil, mantendo as- sastres-naturais)). A comunicação interna
sim sua credibilidade e colaborando com a é essencial para o bom andamento das ati-
gestão de riscos de desastres. vidades e a transmissão precisa das infor-
mações, agilizando a tomada de decisões e
as medidas necessárias para o processo de
gestão de riscos.

Figura 3. Entrevista do Coordenador da Figura 4. A Presidente Dilma no lançamento


Defesa Civil de Palmares – PE, para a rede do programa voltado à prevenção de desas-
local de televisão. (Fonte: http://www.pal- tres naturais no Centro Nacional de Geren-
mares.pe.gov.br/secretario-da-cidade-e-de- ciamento de Riscos e Desastres - CENAD.
fesa-civil-de-palmares-participam-de-repor- (Fonte: http://memoria.ebc.com.br/agencia-
tagem-na-tv-asa-branca/). brasil/galeria/2012-08-08/presidenta-dilma
-rousseff-lanca-plano-nacional-de-gestao-de
Modelo Intrainstitucional -risco-e-respostas-desastres-naturais).
O Modelo intrainstitucional é o tipo de Modelo Interinstitucional
comunicação de risco que acontece dentro
de uma mesma instituição, podendo ocor- O Modelo interinstitucional de co-
rer inclusive entre diferentes níveis, como municação envolve a participação de
nacional, estadual e municipal. Na Defesa diferentes instituições ligadas direta ou
Civil, por exemplo, a Secretaria Nacional indiretamente com as questões dos riscos
de Proteção e Defesa Civil deve comuni- (IBAMA, Defesa Civil, Corpo de Bombei-
car-se com os centros de pesquisas e mo- ros, Ministérios, Secretarias etc.), buscan-
nitoramentos que a subsidiam com infor- do uma comunicação de riscos integrada
mações (CENAD, CEMADEN) e orientar (Figura 5. A Presidente Dilma Rousseff
Capacitação em Gestão de Riscos 209

durante reunião para tratar de medidas de dessas instituições devem se comunicar


apoio às regiões afetadas pelas chuvas no de modo que seus conhecimentos pos-
estado do Rio de Janeiro. (Fonte: http:// sam colaborar com as demais áreas en-
www2.planalto.gov.br/centrais-de-conteu- volvidas, sem que haja desencontro de in-
dos/imagens/visita-as-regioes-atingidas formações ou sobreposição de atividades.
-pelas-chuvas-no-rio-de-janeiro). A circulação da informação correta e
A comunicação interinstitucional é coerente dentro das diferentes instituições
muito significativa para que as informa- também evita que a comunicação dos riscos
ções e os dados disponíveis nas diferen- feita aos meios de comunicação seja equi-
tes instituições possam ser utilizados de vocada, que haja excesso de informações
maneira estratégica e eficaz na gestão de divulgadas ou que as notícias sejam veicu-
riscos. Da mesma forma, os profissionais ladas em momentos menos oportunos.

Figura 5. A Presidente Dilma Rousseff durante reunião para tratar de medidas de apoio às
regiões afetadas pelas chuvas no estado do Rio de Janeiro. (Fonte: http://www2.planalto.gov.
br/centrais-de-conteudos/imagens/visita-as-regioes-atingidas-pelas-chuvas-no-rio-de-janeiro).

Ferramentas
A seguir serão apresentadas algumas Campanhas de prevenção de
ferramentas de comunicação de risco, desastres
sua definição e detalhamento:
A veiculação de campanhas de pre-
• Campanhas de prevenção de de- venção de desastres possibilita a difusão
sastres da informação, uma maior visibilida-
• Divulgação do conhecimento téc- de às ações de proteção e defesa civil e
nico, científico e tradicional a divulgação de boas práticas, além de
• Produção de conteúdo jornalístico reforçar o processo de manutenção de
• Organização de dados e informa- uma cultura de risco. Por isso, os meios
ções de forma estruturada de comunicação tem um papel funda-
210 Informando e comunicando os riscos

mental para a divulgação dessas cam- de moradores e demais organizações da


panhas (Figura 6. Campanha Cidades sociedade civil. Podem incluir a realiza-
mais seguras.) ção de oficinas, seminários, palestras e
As campanhas de prevenção podem contar com verbas para repasse, ou po-
ser coordenadas por órgãos governamen- dem focar na conscientização da popula-
tais (Defesa Civil, Ministérios, Secreta- ção sobre os riscos na busca por mudan-
rias), organizações não governamentais, ças de comportamento e por um maior
empresas privadas, escolas, associações engajamento na etapa de prevenção.

Figura 6. Campanha Cidades mais seguras.

Divulgação do conhecimento lação também são uma oportunidade


técnico, científico e tradicional essencial para o intercâmbio de infor-
A divulgação e as trocas de conheci- mações, discussão de projetos e resul-
mento podem ocorrer em diversos es- tados, para a integração e cooperação
paços e através de diferentes atividades. com o processo de gestão de riscos
Revistas especializadas no tema e revis- (Figura 7. Apresentação sobre Gestão
tas científicas são um canal de divulga- Integral de Riscos durante o Seminário
ção do conhecimento técnico, científico Internacional sobre Gestão Integrada
e tradicional no campo da ciência do ris- de Riscos e Desastres, ocorrido em Bra-
co. O seu principal propósito é promo- sília, 2011. (Fonte: http://www.abms.
ver e ampliar a troca de conhecimento, com.br/home/eventos/eventos/465-
impressões, opiniões e ideias sobre te- ministerio-da-integracao-discute-ges-
mas específicos. tao-de-riscos).). É fundamental que
nesses espaços exista a possibilidade
A realização de seminários e ofi- de todos os atores participarem, com-
cinas com a participação de técnicos, partilhando suas experiências, conhe-
pesquisadores, agentes de Proteção e cimentos e aprendendo também com
Defesa Civil, gestores públicos e popu- os demais.
Capacitação em Gestão de Riscos 211

Figura 7. Apresentação sobre Gestão Integral de Riscos durante o Seminário Internacional


sobre Gestão Integrada de Riscos e Desastres, ocorrido em Brasília, 2011. (Fonte: http://www.
abms.com.br/home/eventos/eventos/465-ministerio-da-integracao-discute-gestao-de-riscos).

Produção de conteúdo jornalístico Repórter entrevista moradores de área


de risco de inundação, Nova Iguaçu/RJ.
Dentre suas atribuições, a imprensa (Fonte: http://uniaodanon.blogspot.com.
realiza a cobertura de eventos, transmi- br/2012_01_01_archive.html)), os veículos
te os fatos à sociedade e, geralmente, tem de comunicação ajudam a tornar público o
forte presença nos locais de ocorrência problema, alertando moradores, agentes de
dos desastres. Antes que ocorra o desas- Proteção e Defesa Civil, gestores públicos e
tre, contudo, ela pode exercer um papel demais instituições para que essas possam
importante na etapa de prevenção. Quan- tomar as medidas necessárias. Além disso,
do visitam locais de risco e comunicam à a imprensa colabora com a fiscalização e
população estas informações (Figura 8. divulgação dos resultados dessas medidas.

Figura 8. Repórter entrevista moradores de área de risco de inundação, Nova Iguaçu/RJ.


(Fonte: http://uniaodanon.blogspot.com.br/2012_01_01_archive.html).
212 Informando e comunicando os riscos

A cobertura de temas relacionados • Quais as recomendações para essa


a riscos e a desastres demanda conheci- população e que medidas devem
mento prévio por parte dos profissionais ser tomadas;
jornalistas. A Defesa Civil deve estar • Quais medidas serão tomadas pela
preparada e capacitada para atender à Defesa Civil e pelos gestores públicos;
demanda de informações da imprensa, • Quais os telefones para contato
transmitindo sempre dados seguros e com essas instituições;
devidamente apurados, para que esses • Onde serão divulgadas novas in-
sejam repassados à população e sirvam formações sobre a situação;
como ferramenta de gestão de riscos.
Essas informações são fundamentais
É relevante que a população seja in- para que a população possa prevenir a
formada de forma clara sobre: ocorrência de desastres e se preparar para
lidar com a situação adversa, podendo
• Qual a ameaça existente no local;
também acompanhar as medidas que es-
• Quem está mais vulnerável com
tão sendo tomadas e cobrar ações dos de-
relação a essa ameaça;
mais responsáveis.

Organização de dados e informações de forma estruturada

Figura 9. Mapa de zonas de evacuação e banco de dados com os centros de evacuação em


caso de ocorrência de furacões na cidade de Nova Iorque nos Estado Unidos. (Fonte: http://
maps.nyc.gov/hurricane/).

A organização de dados e informa- processos de tomada de decisão. Novas


ções de forma estruturada contribui tecnologias facilitam a consulta dessas
para a credibilidade e formação da cul- informações e permitem a colaboração
tura de riscos em uma sociedade. Uma dos atores na construção de uma base de
base de dados organizada pode fornecer dados mais completa e atualizada, sem-
informação confiável a pesquisadores, pre recordando que quanto mais aces-
agentes de Proteção e Defesa Civil, ges- sível e de fácil compreensão, mais essa
tores públicos e meios de comunicação, informação beneficiará a população e a
favorecendo a agilidade e confiança nos gestão de riscos.
Capacitação em Gestão de Riscos 213

REFERÊNCIAS em http://www.unisdr.org/files/7817_UNIS-
DRTerminologyEnglish.pdf. Acessado em:
20 dez. 2013.
BARROS, A. B. SOUZA, A. S. SILVA, A. C.
PAIVA, A. C. VICTOR, C. LOPES, D. C. UNITED NATIONS, INTERNATIONAL
SANTOS, D. R. FRAGA, D. HADDAD, E. STRATEGY FOR DISASTER REDUCTION
RODRIGUES, E. E. C. VIANNA, E. SAN- (UNISDR). Living with risk: a global review
TOS, G. L. P. FURTADO, J. ALMEIDA, K. of disaster reduction initiatives, 2004.
L. CALHEIROS, L. B. ALVES, L. M. LINS,
Disponível em: <http://www.unisdr.org/we/
L. F. L. L. OLIVEIRA, M. DANTAS, M. C.
inform/publications/657 >. Acesso em: 20
SOLINO, M. N. F. ANDRÉ, M. H. B. FON-
dez. 2013.
TES, P. W. SANTOS, P. C. S. SCHADECK, R.
DUTRA, R. C., LELLIS, V. M. CARVALHO, Universidade Federal de Santa Catarina. Cen-
W. M. Curso de Gestão Integrada em Defesa tro Universitário de Estudos e Pesquisas sobre
Civil. 2010. (Desenvolvimento de material di- Desastres. Promoção da cultura de riscos de
dático ou instrucional – Curso). desastres: relatório final - Florianópolis: CE-
International Strategy for disaster reduction PED UFSC, 2012. Disponível em: <http://
– ISDR/UN. Terminology on Disaster risk www.ceped.ufsc.br/sites/default/files/proje-
reduction. Genebra, Suiça. 2009 Disponível tos/final_pcrd.pdf> Acesso em: 20/08/2014.
Carta de encerramento

Prezado aluno,

O Centro Universitário de Estudos e Pesquisas sobre Desastres (CEPED/RS) da Univer-


sidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) é um núcleo interdisciplinar vinculado
à universidade e tem como objetivo principal desenvolver seu trabalho para contri-
buir, através de diversas ações de pesquisa, ensino e extensão, com a prevenção e
minimização dos desastres e seus efeitos.
A Capacitação em Gestão de Riscos é uma dessas inciativas, realizada em conjunto com
a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC), para promover em todo o
Brasil a cultura da Gestão de Riscos. O curso baseou-se neste livro-texto dividido em
nove capítulos. Cada um deles discutiu um tema específico da Gestão de Riscos, desen-
volvendo de modo inovador um quadro conceitual da temática para o país. 
A partir do curso esperamos que a gestão de riscos possa ser feita de maneira inte-
grada e sistêmica nas esferas municipal, estadual e federal, a partir de parcerias com
as diferentes instituições que trabalham a temática, bem como com a população. O
trabalho participativo e integrado com a comunidade é uma de nossas premissas: unir
os saberes técnicos e populares na construção de uma cultura de prevenção de riscos. 
A equipe do CEPED/RS-UFRGS orgulha-se da produção deste curso EaD e deseja que
as ações de gestão de riscos possam ser multiplicadas em suas comunidades a partir
da sua participação.

Cordiais saudações!

Luiz Carlos Pinto da Silva Filho


Prof. PhD. Diretor do CEPED/RS-UFRGS

Luiz Antonio Bressani


Prof. PhD. Departamento Eng. Civil/UFRGS

Cristiane Pauletti
Profa. Dra. Gestão e organização