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Oficina de Leitura – Teoria e Prática

CAPÍTULO 6

A CONSTRUÇÃO DO SENTIDO DO TEXTO

Por Ana Israella Kelly da Silva

KLEYMAN, Angela. A construção do sentido do texto. In Oficina de Leitura: teoria e


prática. 4ª. Ed. Campinas: Pontes, 1996.

6.1 HABILIDADES LINGUÍSTICAS E COMPREENSÃO GLOBAL

[...] conjunto de habilidades de leitura [...] capacidade para perceber a estrutura do


texto (que se trata mais de uma capacidade para construir uma estrutura) [...]
capacidade para perceber ou mesmo inferir o tom, a intenção, a atitude do autor [...]
a capacidade para fazer paráfrases do texto. (pg. 83)

[...] a paráfrase também vai além da compreensão de pistas locais, pois para fazer
uma paráfrase adequada o leitor precisa perceber o global, transformar os elementos
locais num todo coerente. [...] (pg. 83)

6.2 CONSTRUÇÃO DE ESTRUTURA

[...] parte constitutiva da capacidade de construir uma estrutura, utilizando como


materiais as pistas linguísticas locais aquelas habilidades que integram elementos
discretos do texto através de operações para a unificação de funções, e para a
procura e identificação de categorias superiores [...] (pg. 84)

[...] é importante pensar no texto como tendo dois aspectos globais profundos [...] um
relativo à construção de um significado e que está diretamente ligado ao assunto, que
seria a MACROESTRUTURA [...] outro relativo à construção de uma armação
sustentadora do assunto, que estaria ligado ao gênero, que seria a estrutura ou
SUPERESTRUTURA. (pg. 84)

[...] Faz parte da estrutura do texto marcar a relativa importância das informações
mediante a ordenação, a hierarquização das mesmas. O tema, que é principal, é uma
das primeiras informações do texto, sendo também várias vezes retomado. (pg. 84)

[...] o texto expositivo teria uma estrutura binária contendo um evento e as causas do
evento, ou melhor, causa e consequência. A essa configuração dá-se o nome de
superestrutura. [...] diversos tipos de textos podem ser analisados como tendo
estruturas binária - problema/solução, tese/evidências, generalização/exemplo. [...]
essa estrutura é recursiva: por exemplo, a solução de um problema pode ter a
estrutura de uma tese e uma evidência, e assim sucessivamente. (pg. 86)

A capacidade de perceber a estrutura do texto estaria demonstrada se o aluno


percebesse as relações entre diferentes partes do texto para construir um sentido
global coerente para esse texto, tal como acima. Essa capacidade implicaria a
capacidade do aluno para:

1) depreender o tema;

2) construir relações lógicas e temporais;

3) construir categorias superestruturais ou ligadas ao gênero;

4) perceber relações de hierarquização entre as diversas informações veiculadas (por


exemplo, ideia principal versus detalhe). (pg. 86)

[...] A depreensão do tema implica a integração das diversas informações no texto


numa proposição genérica que incluirá todas as informações e só elas. [...] o leitor
deverá perceber as relações entre as diversas partes do texto e integrá-las num todo
que seja coerente com as partes. Para a construção de relações lógicas, como as de
causa e efeito, por exemplo, o leitor deverá procurar uma categoria maior, que pode
ser tema, ou os componentes de um dado tipo de texto (tal como problema e solução
num texto expositivo), que permita integrar as informações em termos de relação
abstrata que subjaz à estruturação e boa formação do texto. E assim sucessivamente.
(pg. 87)

[...] na identificação de componentes de um determinado gênero textual [...] o leitor


deverá interpretar as pistas locais em termos de uma categoria global (como, por
exemplo, a interpretação de uma série de verbos no pretérito perfeito como
marcadores do início da complicação - um dos componentes da superestrutura da
narrativa - de uma estória). (pg. 87)

[...] construir relações globais a partir de pistas locais, exige grande capacidade de
abstração do leitor. [...] para o desenvolvimento dessa capacidade mediante a leitura
de textos mais simples, que, pelo fato de não exigir demais quando o processamento
de aspectos linguísticos locais (relacionados à sintaxe da frase, relações coesivas,
léxico), permitem-lhe voltar sua atenção à tarefa de depreensão de aspectos
estruturais globais. (pg. 87)

[...] textos curtos, mostram visualmente relações entre as diversas informações, ou


ainda em textos que explicitam as relações entre as informações, mediante títulos,
subtítulos, parágrafos anunciatórios, e elementos de coesão na retomada e na
antecipação da informação. (pg. 87)
[...] quanto mais familiaridade eles [alunos] tiverem com textos narrativos, expositivo,
descritivos, mais conhecida será a estrutura desse texto, e mais fácil a percepção das
relações entre a informação veiculada no texto e a estrutura do mesmo. (pg. 87)

O Ensino: Exemplos de Gradação de Complexidade

[...] exemplares de textos simples que liberam a memória de trabalho para fazer
abstrações mais profundas: a ilustração com legenda e o gráfico. (pg. 87)

Ilustração com Legenda

Devido à curta extensão do texto, ao apoio da gravura e à proximidade do assunto,


[...] Poder-se-ia, então, fazer um trabalho para ensinar o aluno a analisar o texto à
procura de estrutura desse relato jornalístico, que, começando com a complicação,
ou evento que motiva a estória, passa a fornecer o cenário [...] Através de perguntas
sobre o que aconteceu e por que aconteceu, o professor pode reconstruir a estória e
as relações entre os diversos episódios [...] A tarefa do aluno pode ser, por exemplo,
a reconstrução da cadeia temporal e causal mediante a elaboração de um esquema
ou mapa das informações do texto, ou a redação de uma estória canônica mais
elaborada e rica em detalhes. (pg. 88)

[...] na medida em que textos descritivos [...] são relativamente simples, com uma
estrutura binária que consiste do objeto e suas características, a leitura do texto
poderia ser aproveitada para a introdução de elementos estruturais mediante
perguntas do seguinte tipo: qual é o tópico do texto (ou assunto), qual é a ideia
principal sobre o assunto, o que é detalhe. Novamente, uma das tarefas do aluno
poderia ser organizar essa informação hierarquicamente, através de um esquema do
texto. (pg. 89)

[...] estrutura expositiva contendo uma tese e uma evidência [...] A evidência, por sua
vez, consiste de um relato sobre um acontecimento. Uma vez que a evidência
mediante relato de experiência pessoal é comum na criança, a evidência de um relato
de um fato não apresentaria maiores dificuldades, ao mesmo tempo em que
constituiria um nível intermediário entre a evidência altamente contextualizada da
criança e a evidência abstrata de textos dissertativos, por exemplo. (pg. 90)

[...] se essas questões forem discutidas utilizando categorias superestruturais


superiores, como tese e evidência, ou teoria e prova, ou ainda interpretação e fato,
estaremos criando condições para o aluno integrar as informações em categorias
maiores. (pg. 91)

Gráfico e Tabela

[...] outro tipo de texto cuja simplicidade deve-se ao suporte da ilustração, podendo,
portanto, também ajudar a criança, segura em relação ao processamento do material
escrito, a perceber relações mais abstratas. (pg. 91)
6.3 INTERAÇÃO: ATRIBUIÇÃO DE INTENCIONALIDADE

Perceber a estrutura do texto é chegar até o esqueleto, que basicamente é o mesmo


para cada tipo textual. Processar o texto é perceber o exterior, as diferenças
individuais superficiais; perceber a intenção, ou melhor, atribuir uma intenção ao
autor, é chegar ao íntimo, à personalidade através da interação. É uma abstração que
se fundamenta nas outras. [...] (pg. 92)

A interpretação das pistas locais e contextuais, numa unidade coerente, implica


atribuir uma intencionalidade ao autor. Salientar essas pistas para o aluno é o primeiro
passo para ele poder atribuir-lhe uma função nessa dimensão, para depois, o próprio
aluno fazer análises semelhantes de outros textos. [...] (pg. 93)

Para criar condições para o aluno paulatinamente ir desenvolvendo sua capacidade


de perceber a relação entre função do elemento textual e a intencionalidade, é
importante um trabalho de conscientização linguística crítica. [...] (pg. 94)

Análise Crítica da Linguagem

[...] Se o aluno perceber como a estrutura linguística dá suporte ao pensamento e às


intenções do autor, ele conseguirá ler criticamente: se ele apenas souber como
classificar partes dessa estrutura, a conscientização linguística crítica é impossível.
(pg. 94)

[...] as escolhas gramaticais e lexicais dos interlocutores (mesmo que inconscientes)


são produtos de objetivos e intenções, que por serem socialmente determinados, por
refletirem relações de poder entre os participantes, não são naturais e podem ser
objeto do ensino crítico da língua. (conscientização crítica da linguagem) [...] a área
que se preocupa em descrever a relação entre forma e relações de poder (análise
crítica do discurso). (pg. 95)

Os aspectos que essa linha de análise [análise crítica do discurso] considera mais
relevantes para o estudo da relação entre forma e fatores sociais são: modalidade,
noções embutidas nas classes gramaticais e as transformações. [...] (pg. 95)

[...] Pensando no ensino de gramática a partir de uma perspectiva analítica crítica [...]
É através do adjetivo que o falante descreve, ou identifica, dentro do conjunto de
objetos nomeados pela palavra, aquele sobre qual ele está falando, e que seu ouvinte
começa a identificação do objeto dessa perspectiva, podendo aceitá-la ou não. (pg.
95)

[...] o adjetivo (entre outras classes) passa a categorizar, a dar nomes às pessoas: o
aidético, o tuberculoso, a feminista. Mediante a criação de uma categoria podemos
[...] criar entidades e consolidar novos conceitos e [...] tornar conspícua aquela
característica realçada, apagando qualquer outra e, de certa maneira, determinando,
num primeiro momento, a maneira como o interlocutor percebe o objeto. [...] (pg. 95)
[...] NOMINALIZAÇÃO [...] torna o texto mais impessoal (não temos mais agentes
atuando no tempo, mas apenas o resultado da ação) serve efetivamente para tornar
uma informação em algo dado*, já conhecido dos interlocutores. [em oposição a novo]
[...] (pg. 96)

[...] A gramática pode promover a percepção da relação entre forma e significado, e


como o significado está relacionado aos objetivos e intenções do autor. [...] (pg. 96)

O Ensino: Um Exemplo Contrastivo

[...] O processo através do qual transformamos ações em nomes tem o efeito de tornar
aquilo que era novo, que estava sendo comunicado, em dado, em pressuposição,
aquilo que é sabido pelos participantes. [...] (pg. 98)

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