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Falcon em: “A formação do mundo moderno”

A passagem da Idade Média para a Idade Moderna com o começo de um


longo período de transição do feudalismo para o capitalismo, em função da
denominada crise geral do feudalismo; teríamos aí, portanto, a identificação
da Idade Moderna com o período da transição feudal-capitalista.

A modernidade é algo relativo.

A transição do feudalismo para o capitalismo, ou a idade moderna, também


pode ser chamada de era mercantilista. Trata-se, portanto, no caso da
transição feudal-capitalista, de um processo muito longo em termos
cronológicos, além de destituído de uma verdadeira uniformidade.
Começando com os primeiros sinais da crise do feudalismo, termina,
séculos mais tarde, com o advento do capitalismo.

Vista como um todo, a fase final do feudalismo correspondeu


historicamente a transformações as mais variadas, associadas tanto à
progressiva desestruturação das relações feudais como ao avanço lento, não
raro irregular, das relações capitalistas. Na realidade, a fase final do
feudalismo corresponde a uma fase de transição caracterizada pela
coexistência de elementos típicos do feudalismo, em processo de
progressiva desagregação, e de outros, propriamente capitalistas, ainda
emergentes.

“Ao chamarem de Antigo Regime a sociedade existente, os revolucionários


franceses tinham na mira justamente uma realidade que execravam e
pretendiam demolir.”

“A ideia de Antigo Regime nasceu assim marcada por uma visão


maniqueísta a respeito das diferenças entre os universos pré e pós-
revolucionário”

“Seja como for, o Antigo Regime constitui basicamente um fenômeno


típico das regiões centro-ocidentais da Europa. Sua extensão a sociedades
da Europa Oriental constitui uma forma de manifestação ideológica
característica do mimetismo de certos historiadores preocupados em
estabelecer semelhanças com a história ocidental.”
Visão de Falcon da sociedade de corte de N. Elias.
A corte é um lugar de ostentação de uma vida coletiva, ritualizada pela etiqueta
(distinção social) Há dois sentidos na noção de sociedade de corte:

I - deve ser considerada uma sociedade, uma formação social na qual estão
definidas de maneira específica as relações entre as pessoas.

II - deve ser entendida no sentido de sociedade dotada de uma Corte (real ou


principesca) e totalmente organizada a partir dela. O mais importante talvez seja
tratar-se de uma forma particular de sociedade.

Do ponto de vista do autor, a corte representa uma figura central tanto da


constituição do Estado absolutista quanto do processo de civilização que
transforma radicalmente a economia psíquica dos homens do Ocidente entre os
séculos XII e XVIII.

Segundo esse mesmo autor, a configuração social formada pela Sociedade de


Corte está indissoluvelmente ligada à construção do Estado absolutista,
caracterizado por um duplo monopólio do soberano: o monopólio fiscal e o
monopólio sobre a violência legítima.

Monopólio fiscal: o rei pode retribuir em dinheiro, e não mais apenas em terras, a
seus servidores.

Monopólio da a violência legítima: assegura a pacificação social.

Em conjunto, esses monopólios privam a aristocracia das bases mais antigas de


seu poder e a obrigam a viver na proximidade do soberano. É assim que a Corte
se torna a instituição essencial: por um lado, garante a vigilância pela
proximidade sobre os concorrentes mais perigosos da autoridade real; do outro,
permite, a partir do jogo dos favores monárquicos, consolidar as fortunas
nobiliárquicas.

Três fundamentos ou princípios paradoxais caracterizam a Sociedade de Corte:


primeiro, ela é uma configuração na qual há a maior distancia social entre as
pessoas.

Em segundo lugar, o ser social do indivíduo identifica-se totalmente com a


representação que lhe é dada pelo próprio indivíduo ou pelos outros – a realidade
de uma posição social não é senão aquilo que a opinião julga que ela seja;

Em terceiro lugar, há o fato de que a superioridade social se afirma por meio da


submissão política e simbólica – a lógica da Corte vem a ser a de uma distinção
pela dependência, que se corporifica no respeito à etiqueta.
N. Elias em: “O processo civilizador”
Principiando pela análise das transformações dos costumes, o autor evidencia que as
mudanças não ocorrem de forma aleatória, mas de acordo com um sentido pré-
determinado, relacionando ao aumento do sentimento de vergonha e repugnância, em
virtude das novas noções de refinamento e civilização. Na medida em que os indivíduos
que formam a sociedade são educados, hábitos indesejados são suprimidos por aqueles
mais polidos, corteses e educados.

O que ocorre é uma naturalização dos hábitos e costumes. Quando se analisa os


costumes de uma sociedade diferente da nossa, é necessário se desfazer de convicções
acerca de boas maneiras e considerar que as diferenças de costumes são peculiares
àquela sociedade, aquele tempo histórico.

É preciso compreender que as relações sociais são elaboradas para e pelos homens, e
visam atender às demandas do momento histórico em que estão vivendo.

Para Elias, o processo civilizador constitui uma mudança a longo prazo na conduta e
sentimentos humanos rumo a uma direção muito especifica. No entanto, reconhece que
pessoas isoladas no passado não planejaram essa mudança, essa civilização,
pretendendo efetivá-la, gradualmente por meio de medidas conscientes, racionais,
deliberadas, ao longo de séculos. Segundo Elias a civilização não é racionalização, nem
um produto da raça humana nem mesmo o resultado de um planejamento a longo prazo.
Como seria possível que a racionalização gradual pudesse fundamentar-se num
comportamento e planejamento racionais que a ela preexistissem desde vários séculos?

O processo civilizatório educacional que Elias analisa vai em direção ao equilíbrio entre
os interesses individuais e os coletivos na sociedade, produto do autocontrole. Elias
afirma que para que o homem possa ser livre e feliz é preciso satisfazer as necessidades
e desejos pessoais, no entanto essa satisfação não pode destoar das regras da sociedade.
Se a estrutura das configurações humanas, de sua interdependência, tiver essas
características, se a coexistência delas, que afinal de contas é a condição da existência
individual de cada uma, funcionarem de tal maneira que seja possível a todos os assim
interligados alcançar tal equilíbrio, então, e só então, poderão os seres humanos dizer a
respeito de si mesmos, com alguma honestidade, que são civilizados. Até então estarão,
na melhor das hipóteses, em meio ao processo de se tornarem civilizados.

O principal critério para definir a direção do processo civilizador é a mudança na


balança entre coerção externa (penalidades, punições, prisões, etc.) e autocoerção
(educação, civilidade, cortesia), na qual a balança pende para a autocoerção, para a
educação, e a civilidade. Quando a sociedade é civilizada e educada (autocoerção), as
punições são menos necessárias. Quando as pessoas são disciplinadas e educadas
sistematicamente, quando se conscientizam de que determinados hábitos são
indesejáveis, sujeitam-se às regras difundidas pela sociedade.
Peter Burke em “A fabricação do rei”
O livro “A fabricação do rei” apresenta a construção de um sistema sólido e
perspicaz, a construção da imagem do rei, a partir de diferentes meios de
comunicação durante 72 anos de reinado. O autor explora o processo da
importância da comunicação, da produção, circulação, recepção e tudo que
circulava em relação às imagens de Luís XIV.

A desenvoltura que seus ministros desenvolviam, através de meios, gêneros,


estilos e alegorias, estavam destinados para persuadir um determinado público. A
imagem do rei estava relacionada ao seu poder, sua característica tinha que ser
marcante moderna e com certo toque renascentista.

No reinado de Luís, tudo foi motivo de comemoração, desde seu nascimento até
sua morte, alias todos os seus feitos grandiosos e vitoriosos, claro, foram seladas
com inúmeras medalhas. Uma de suas maiores construções foram, sem dúvidas,
o Palácio de Versailles seguida da Grande Galerie, entre outras galerias

O valor que o toque do rei tinha para seu governo. O toque sagrado, para seus
súditos ele realmente curava, o rei era guiado por uma luz divina.

Em suma, todo ciclo da vida pessoal e social do rei foram marcadas por um
sistema da construção de representações. Em seu reinado ele brilhou como o sol,
mas também foi atacado por discordantes de seu governo, esses não tiveram
representações tão gloriosas, nem apagaram a magnificência de Luís XIV.

A fabricação do rei se deu a partir da necessidade de um Estado centralizado, ter


um símbolo de centralidade.
J. Delumeau em “Nascimento e afirmação da Reforma”
Tese Marxista:
O autor descreve como os marxistas explicam as causas da Reforma a partir de uma
perspectiva exclusivamente econômica. A tese central é que a economia é uma mãe
universal das sociedades humanas e, consequentemente, a Reforma representa o fruto da
nova forma econômica que surgia no século XVI com as grandes viagens do
Renascimento, ou seja, o capitalismo. Lutero é considerado aqui como um reformador
burguês. A Igreja católica, que estava ligada às estruturas rurais do feudalismo, foi
ameaçada pela nova ordem urbana, burguesa e capitalista. Por isso, a Contra-Reforma
representou mais que um esforço para reestabelecer a supremacia católica, antes disso
foi uma tentativa de restauração da antiga ordem, que estava em perigo.

Se o argumento marxista fosse exato, a Reforma deveria ter surgido na Itália e lá se


desenvolvido, pois este era o país mais moderno da Europa nesse período. Pelo contrário, a
Reforma teve seus primeiros sucessos nos países mais atrasados, a Alemanha e Suíça. Inclusive,
acrescenta o autor, que os homens e as cidades mais bem sucedidos economicamente eram
católicos.

A tese de que a Reforma representou uma tentativa de revolução social de classes também é
desconsiderada pelo autor, pois existiram adeptos do protestantismo vindos de várias classes:
príncipes, burgueses, cavaleiros pobres, camponeses alemães ou artesãos das cidades. O autor
chega à conclusão de que a concepção marxista da Reforma pecou por anacronismo, ao
transferir para o século XVI realidades e conflitos do século XIX.

Tese tradicionalista:
A tese tradicional da reforma protestante são as ideias popularmente conhecidas que
fizeram com que Lutero ficasse chocado com os “abusos” da igreja. O escândalo da
indulgência, que é a compra de perdão, é o principal motivo que levaria Lutero a
escrever as 95 teses. Outros motivos tradicionalistas são o Index, que foi a censura de
livros pela igreja que iam contra a ideologia crista, a inquisição, julgamento dos
pecadores e o concilio de Trento, que foi a reunião da igreja para definirem a
profissionalização do clero.

Tese teológica: (visão do autor)


Afirma que a reforma protestante foi, antes de tudo, um fenômeno religioso. Pois numa
época perturbada, que além disso, assistia à afirmação do individualismo, os fiéis teriam
sentido a necessidade de uma teologia mais sólida e mais viva que aquela que lhes era
ensinada por um clero muitas vezes pouco instruído e rotineiro.
Skinner em “As Fundações do Pensamento Político Moderno”
Skinner analisa como o pensamento de Lutero e da igreja católica divergem.

Lutero:
Acreditava na sola scripitura, que acredita que a verdade está na bíblia e na sola fide,
que afirma que somente pela fé é que pode haver salvação.

Lutero não acreditava que o ser humano possa comportar-se como um cristão, pois
somos pecadores. Visão pessimista da natureza do homem. O homem por si só não
conseguia fazer as coisas corretas, não possuía os méritos necessários para a salvação.
Por isso Lutero não acreditava na salvação pelas atitudes.

Não são nossos méritos que permitem nossa salvação e sim a graça de Deus.

Para ele a igreja é uma congregação de fieis. (1ª fase do pensamento)

Lutero reduz a importância do clero.

Revolta dos camponeses (anabatista): ação de grupos protestantes mais radicais.


Ameaça não só a igreja católica como também algumas igrejas protestantes e Lutero
não apoia esse movimento, não acredita que seja o caminho certo, pois acredita na
reforma da igreja e não em uma nova.

Quem definiu as estruturas da igreja protestante foi Calvino.

Implicações politicas:

 Igreja interfere na politica


 Quando Lutero ataca o poder jurisdicional e territorial da igreja, reforça o poder
dos reis assim sendo apoiado por eles.

Lutero abdica da ideia de igreja ser uma congregação de fieis devido ao medo de ideias
radicais como os anabatistas. (1524) Mudança na postura de Lutero.

Igreja Católica:
Acredita também na salvação pela fé, mas também nas obras (atitudes), como ajudar o
próximo, comportamento digno de um cristão, imitar cristo no dia a dia. Na vida
cotidiana era necessário externar um comportamento cristão.

Não havia salvação fora da igreja, somente a igreja pode intermediar esse processo. Pois
existe um corpo especializado em ministrar os sacramentos.
M. Mullett em "A Contrarreforma e a Reforma
Católica nos Princípios da Idade Moderna.”
Na introdução de seu livro, Mullett expõe que o objetivo do texto é apresentar uma nova
visão sobre a Contra- Reforma. Temos uma breve exposição do pensamento de alguns
estudiosos que pautaram seus trabalhos numa abordagem mais tradicional do assunto
Exemplos de pesquisadores dessa vertente são:

 Green – que atribuiu grande ênfase à fundação da Companhia de Jesus


 H. O. Evenett – que situa o processo numa perspectiva de curta duração
 B. J. Kidd – o qual também inseriu o processo em um curto período de tempo e
deu grande peso à Inquisição e ao o Concílio de Trento.

Reafirmando seu objetivo de apresentar uma visão diferente sobre a Contra- Reforma,
Mullet situa as origens do processo antes do século XVI e o apresenta numa perspectiva
de longa duração, tendo seu desenvolvimento completo só a partir de 1600 ou 1650.
Nesse sentido, o autor afirma que para que se compreenda adequadamente a Contra-
Reforma, é preciso adotar uma visão mais ampla do processo, isto é, deve-se dar
atenção a outros fatores influentes no processo, além daqueles enfatizados pela corrente
tradicional: o Index, a Inquisição e uma suposta curta duração.

Como ponto de partida para seu trabalho, Mullett destaca as contribuições de Jean
Delumeau – que enfatiza o longo tempo necessário para implementar de fato as
mudanças, uma vez que haviam diversos interesses investidos, corruptos e amovíveis e
rotinas administrativas que sofriam de subdesenvolvimento.

Dessa forma, Mullett propõe um trabalho que enfoca três períodos principais: a
preparação da Contrarreforma (entre o final da Idade Média e início do século XVI); o
trabalho da Reforma Católica aliado ao Concílio de Trento (entre 1545-1563); o longo
período de implementação das decisões (durante a segunda metade do século XVI).

Mullet, então, faz breves considerações acerca dos significados dos diferentes termos
usados para denominar o processo, enquanto “Contrarreforma” sugere um agressivo
ataque católico à Reforma Protestante, “Reforma Católica” supõe um genuíno e
espontâneo melhoramento no catolicismo, sendo frequentemente adotado por estudiosos
católicos. Partindo dessa reflexão, o autor defende que todas as reformas desse período
– Protestante, Radical e Católica – possuem uma origem comum situada numa realidade
de reanimação cristã no final da Idade Média, que englobava a consolação na religião
cristã no contexto de pestes do século XIV; o movimento de Contra-Renascença que se
opunha ao resgate de valores pagãos Greco- Romanos, presentes no Renascimento e o
saque de Roma (encarado, assim como as pestes, como um castigo e aviso divino).
Mullet também destaca a importância dos bispos como agentes indispensáveis da
Contrarreforma, uma vez que levaram a cabo as decisões do Concílio de Trento –
fazendo reformas sistemáticas de seus bispados, inspecionando padres, estabelecendo
escolas e seminários e cuidaram da pregação e administração dos sacramentos.

Afirmando que a Reforma Católica não foi um evento estimulado puramente contra a
Reforma Protestante - mas também proveniente da necessidade de uma extensa reforma,
já expressa nos concílios do século XV e princípio do XVI

As características mais importantes da Contrarreforma seriam a limpeza, o


disciplinamento e a inspeção dos bispados.

Mullett afirma que o a Contrarreforma foi um processo implementado pelos sacerdotes


e dirigido aos leigos.

A contribuição mais significativa do Concílio de Trento para o sacerdócio foi a


construção de seminários – principalmente nas catedrais que não possuíam
universidades -, o qual era utilizado para a criação de padres que deveriam ser melhores
e diferentes dos leigos. Nesse sentido, os sacerdotes passaram a adotar um
comportamento grave, reservado, uma vida sem sexo e distância de tabernas e
botequins.

Um meio essencial de espalhamento da doutrina católica reformada foram as missões


enviadas a localidades distantes daquelas europeias. Entretanto, Mullett ressalta que
esses procedimentos não devem ser vistos em termos estritamente espirituais, uma vez
que acarretaram consequências sociais, políticas e econômicas.

É fundamental considerar que o povos convertidos não necessariamente adotavam a fé


católica de forma efetiva, uma vez que sua conversão era estabelecida por meio de
coerção, do prestígio e da persuasão.

Na conclusão de seu livro, Mullett volta a destacar que a Contrarreforma não era
primeiramente um movimento de oposição à Reforma Protestante, como mostrado pelo
autor no que tange às missões. Além disso, é preciso observar que a reforma Católica
emergiu no contexto de acentuação da autoridade dos estados nacionais e territoriais no
século XVI e XVII, no qual os governantes pretendiam aumentar sua autoridade sobre a
Igreja (tanto católica quanto protestante) a havia a diminuição do poder do papa sobre a
igreja católica internacional e sobre os estados da Europa. A partir de uma religião que
objetivava, mais do que anteriormente, ser sentida – fosse por meio da confissão, da
eucaristia ou da arte barroca -, a Contrarreforma foi um grande marco na história
cultural e política da Europa moderna e desempenhou importante papel na europeização
do mundo não europeu.

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