Você está na página 1de 14

O GARANTISMO PENAL NA APLICAÇÃO DA SÚMULA 511: requisitos e

concomitância para aplicação nos casos de furto qualificado

THE CRIMINAL GUARANTEE IN THE APPLICATION OF THE SUMMARY 511: requirements and
concomitance for application in cases of qualified theft

Amanda Borges da Silva 1


Ana Carolina Pereira Pires 2
Ana Cláudia Pires 3
Diego Rafael da Silva4
Lorena Fabíola Machado5
Paula Alves de Amorim6
Victor Martins Lages7

RESUMO

O presente artigo tem como objetivo a interpretação da súmula 511 do STJ, bem como
analisar se o enunciado foi criado a fim de fazer valer o garantismo penal nas aplicaçãoes nos
casos de furto qualificado. Para tanto, será analisada a necessidade de aplicação do diploma
legal em um viés Constitucional, bem como a importância da súmula 511 para garantia de
efetivação de direitos. Nessa linha de ideias, necessário se faz uma análise da concomitância
presente no caso em questão, identificando as possibilidades de aplicar o privilégio em casos
de furto qualificado. Ao fim, serão tratados os requisitos necessários para aplicação do
presente instituto fazendo uma diferenciação entre coisa de pequeno valor e coisa

1
Graduanda em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
2
Graduanda em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
3
Graduanda em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
4
Graduando em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
5
Graduanda em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
6
Graduanda em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais; Monitora das discilplinas Direito
Administrativo I e Direito Civil VI na PUC Minas Campus Serro.
7
Graduando em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
2

insignificante, e ainda, trabalhando as hipóteses de qualificadoras de ordem objetivas e


subjetivas.

Palavras-chave: Concomitância; Privilegiadora; Qualificadora; Súmula.

ABSTRACT

The purpose of this article is to interpret the STJ 511 summary, as well as to analyze whether the sentence was
created in order to enforce criminal guarantees in cases of qualified theft. In order to do so, it will be analyzed
the need to apply the legal diploma in a Constitutional bias, as well as the importance of the summary 511 to
guarantee effectiveness of rights. In this line of ideas, it is necessary to analyze the concomitance present in the
case in question, identifying the possibilities of applying the privilege in cases of qualified theft. In the end, the
necessary requirements for the application of the present institute will be treated by making a distinction between
something of small value and insignificant thing, and also, working the hypotheses of objective and subjective
qualifiers.

Keywords: Concomitance; Privileged; Qualifier; Summary.

1. INTRODUÇÃO

O momento atual em que o poder judiciário está inserido, vem sendo caracterizado
pela constante provocação em decidir sobre qualquer assunto. Cada vez mais as reformas
legislativas e constitucionais têm buscado uma tentativa de uniformização da jurisprudência,
dessa forma, a tendência do judiciário é a padronização das decisões e a busca em aplacar a
morosidade do órgão. Sob o fundamento de garantir a compatibilização vertical das decisões
judiciais8 e garantir a segurança jurídica, o instituto das Súmulas, sejam elas vinculantes ou
não, vêm ganhando cada vez mais espaço em nosso ordenamento jurídico.
É nesse contexto que a Súmula 511 do STJ9 foi criada. De acordo com Cabette “já
havia uma tendência jurisprudencial a acatar o furto privilegiado – qualificado, de modo que o

8
Para Marinoni, entende-se por compatibilização vertical, a forma com que os juízos e tribunais do país decidem
seus casos com assento na decisão paradigma proferida pelos tribunais superiores. MARINONI, Luiz Guilherme.
Mididiero, Daniel. Repercussão Geral no Recurso Extraordinário.
9
Assevera o verbete que “é possível o reconhecimento do privilégio previsto no § 2º. do art. 155 do CP nos
casos de furto qualificado, se estiverem presentes a primariedade do agente, o pequeno valor da coisa e a
qualificadora for de ordem objetiva”.
3

STJ, com a Súmula 511 procura, como já dito, uniformizar a jurisprudência, adotando
praticamente a mesma solução doutrinária já corrente quanto ao caso do homicídio.” 10
Além da tendência de padronização das decisões, sabe-se que o judiciário é o órgão
reponsável por interpretar as leis e dar maior efetividade na garantia dos direitos
fundamentais. Dessa forma, algumas súmulas são criadas com a finalidade de concretizar tais
direitos, uma vez que a Constituição Federal traz um extenso rol de garantias e nosso Código
Penal, apesar de ter sido recepcionado pela lei maior, não consegue cumprir por si só os
citados direitos.
Nessa linha de ideias, o presente artigo possui como objetivo a interpretação da
súmula 511 do STJ, bem como sua análise crítica a fim de identificar se o verbete criado
efetivamente faz valer o garantismo penal quando se aplica aos casos de furto qualificado. A
pesquisa se volta para a necessidade de aplicação do diploma legal em um viés
Constitucional, ressaltando também a importância da súmula 511 para garantia de efetivação
de direitos.
Ainda, necessário se faz uma análise da concomitância presente no caso em questão e
identificar as possibilidades de aplicar o privilégio em casos de furto qualificado. Ao fim,
serão tratados os requisitos necessários para a adoção do presente instituto e uma necessária
diferenciação entre coisa de pequeno valor e coisa insignificante, para, em decorrência disto,
serem trabalhadas as hipóteses de qualificadoras de ordem objetivas e subjetivas.
Por fim, busca-se identificar se a criação da citada súmula tem de fato garantido à
tomada de decisões que asseguram a efetividade do dispositivo penal à luz da Constituição e
ainda afirmar e defender que as hipóteses de aplicação do referido enunciado somente possuí
eficácia quando voltados a uma concretude constitucionalizada.

2. GARANTISMO PENAL: NECESSIDADE DE APLICAÇÃO DOS DISPOSITIVOS


DO CÓDIGO PENAL À LUZ DA CONSTITUIÇÃO

Produzido em sintonia com uma Constituição que fazia menção a pouquíssimos


direitos fundamentais em seu texto, tais como o direito à liberdade e à propriedade, no dia 7

10
CABETTE, Eduardo Luiz Santos. Comentários atualizados sobre a recentíssima Súmula 511 do STJ que trata
do chamado "furto privilegiado-qualificado". 2014
4

de dezembro do ano de 1940, foi promulgado pelo então presidente da República, Getúlio
Vargas, o decreto-lei n° 2.848, o Código Penal brasileiro, em vigor até os dias atuais, tendo
sofrido apenas algumas modificações em seu texto e uma reforma em sua Parte Geral no ano
de 1984. Para Zapater,

(...) foi neste cenário de ilegalidade e de total privação das liberdades civis que o
Código Penal de 1942, inspirado no Código Penal da Itália fascista de 1930, foi
produzido e posto em vigor, e assim permanece até hoje, ressalvadas alterações
pontuais e uma grande reforma na sua Parte Geral no ano de 1984 (vale lembrar, no
final da ditadura militar).11

Apesar de ter sido criado à luz da Constituição de 1937, que como já mencionado, que
fazia menção a ínfimos direitos fundamentais, o Código Penal foi recepcionado pela
Constituição da República de 1988, que traz em seu texto um extenso rol de direitos
fundamentais, em comparação ao da Constituição de 37. Nos dizeres de Pedro Lenza,

(...) nos termos do preâmbulo da CF/88, foi instituído um Estado Democrático,


destinado a assegurar os seguintes valores supremos de uma sociedade fraterna,
pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na
ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias: o exercício
dos direitos sociais e individuais; a liberdade; a segurança; o bem-estar; o
desenvolvimento; a igualdade; a justiça. 12

A Constituição como sendo a lei superior de todo o ordenamento jurídico, deve ter
seus preceitos observados na elaboração e aplicação das normas hierarquicamente inferiores.
Nesse sentido, foi desenvolvido o garantismo penal por Luigi Ferrajoli, onde devem ser
observados os direitos individuais dos cidadãos como forma de limitar o poder punitivo do
Estado. Segundo Costa,

(...) o garantismo jurídico baseia-se nos direitos individuais, vinculado à tradição


iluminista, com escopo de articular mecanismos capazes de limitar o poder do
Estado soberano, sofrendo as influências dos acontecimentos históricos,
especificamente e transformação da sociedade relativamente à tutela dos direitos
sócias e negativos de liberdade. 13

11
Zapater, Maíra. O Código Penal de 1940: não parece que foi ontem? 2016

12
Lenza, Pedro. p. 119. Direito Constitucional Esquematizado/ Pedro Lenza – 14. Ed. rev. atual e ampl. – São
Paulo: Saraiva, 2010.
13
COSTA, Givaldo Santos da. Direito Penal Mínimo: sua conformidade com o Garantismo Penal . 2015
5

Essa necessidade de se observar os direitos do indivíduo advém dos tempos em que o


objetivo do Estado era garantir a qualquer custo à prevenção de crimes e a punição
extremamente rígida para aqueles transgressores das normas, como era o caso do Brasil na
época do nascimento do Código Penal, onde poucos direitos fundamentais eram conferidos
aos cidadãos pela Constituição de 1937 e como se não bastasse a sua escassez foram
restringidos em decorrência da entrada do Brasil na 2ª Guerra Mundial (trecho do artigo da
pág. Justificando). O que se buscava era um direito penal máximo, com intuito de coibir
qualquer tipo de insubordinação por parte dos indivíduos, vejamos que

(...) o Direito Penal, de cunho exclusivamente repressivo, consiste na preocupação


da norma penal em repreender qualquer um que se molde à figura de transgressor do
pacto social e normativo e desestimular a prática de condutas delitivas. Nessa
vertente repressiva não há lugar para preocupações com a humanização,
ressocialização, devido processo legal ou demais garantias constitucionais. 14

Outro ponto importante no garantismo penal de Ferrajoli é o papel do magistrado na


aplicação das normas penais. Já que estamos inseridos no paradigma de Estado Democrático
de Direito, o juiz não somente aplica a lei, mas é imprescindível que ele analise a
compatibilidade da norma penal com o texto constitucional, e não havendo harmonia entre os
dois textos a vontade da Constituição sempre prevaleça sobre as normas inferiores do
ordenamento jurídico, cabe ao juiz aqui o papel de interprete e guardião da Constituição.
Segundo Greco,

(...) a magistratura, segundo a concepção garantista de Ferrajoli, exerce papel


fundamental, principalmente no que diz respeito ao critério de interpretação da lei
conforme a Constituição. O juiz não é mero aplicador da lei, mero executor da
vontade do legislador ordinário. Antes de tudo, é o guardião de nossos direitos
fundamentais. Ante a contrariedade da norma com a Constituição, deverá o
magistrado, sempre, optar por esta última, fonte verdadeira da validade da
primeira.15

Sendo assim, a teoria do garantismo penal proposta por Ferrajoli tem com objetivo
máximo, que no Estado Democrático de Direito, as garantias e direitos fundamentais dos
cidadãos sejam respeitados e que por mais que o Estado tenha por objetivo assegurar o “bem
de todos”, a individualidade de cada cidadão e seus direitos devem ser respeitados acima de

14
Ibidem.
15
Greco, Rogério. p. 9. Curso de direito penal/ Rogério Greco. – 16. Ed. Rio de Janeiro: Impetus, 2014.
6

qualquer coisa, ou seja, a atividade acusatória e punitiva do Estado deve respeitar os limites
impostos pelo texto constitucional.
Para Costa, “a teoria geral do garantismo, está baseada no respeito à dignidade da
pessoa humana e seus direitos fundamentais, com sujeição formal e material das práticas
jurídicas aos conteúdos constitucionais.”16 Com efeito, a teoria do garantismo penal, antes de
mais nada, propõe-se a estabelecer critérios de racionalidade e civilidade à intervenção penal,
deslegitimando qualquer modelo de controle social maniqueísta que coloca a defesa social
acima dos direitos e garantias, permite a criação de um instrumental prático-teórico idôneo à
tutela dos direitos contra a irracionalidade dos poderes, sejam públicos ou privados.
Foi nesse contexto garantista que a súmula 511 foi criada. Com ela o Superior
Tribunal de Justiça consolidou o entendimento que é possível a aplicação do privilégio nos
casos de furto qualificado. Ao permitir o privilégio, o órgão julgador está fazendo a leitura do
Código Penal de uma maneira constitucionalizada, o que permite um maior respeito a
dignidade da pessoa humana e a garantia dos direitos fundamentais trazidos no Magna Carta.

3. CONCOMITÂNCIA: QUALIFICADORA X PRIVILEGIADORA

Para que seja possível falar em concomitância, necessário se faz, primeiramente, uma
análise sobre qualificadora e privilegiadora. Circunstâncias qualificadoras “são circunstâncias
legais especiais ou específicas previstas na parte especial do CP que, agregadas à figura
fundamental, têm função de aumentar a pena”. 17 As qualificadoras são uma das causas de
aumento da pena em abstrato. São circunstâncias atenuantes, utilizadas de modo a prover
novos limites (mínimo e máximo), isso faz com que surja um delito independente não
previsto pelo caput. Um exemplo seria o furto qualificado, previsto nos §§4° e 5° do art. 155
que prevê um tipo maior de pena.
O tipo qualificado ainda apresenta dois modos descritivos, são eles: o objetivo que se
refere ao modo material do delito, seu núcleo verbal, a “forma”, “como” e o “meio” ao qual o
delito ocorreu. O modo subjetivo diz que quando “o tipo incriminador contiver elemento

16
COSTA, Givaldo Santos da. Direito Penal Mínimo: sua conformidade com o Garantismo Penal . 2015
17
JESUS, Damásio Evangelista de. Direito penal, volume 1: parte geral. 28ª ed. São Paulo: Saraiva, 2005, p.
580.
7

subjetivo, será necessário que o agente, além da vontade de realizar o núcleo da conduta (o
verbo), tenha também a finalidade especial descrita explicitamente no modelo legal” 18 ou seja,
são delitos de intenção, atribuem não só a ação do individuo mas também uma razão interna.
Outro tipo penal de modificação da pena base são as privilegiadoras que “são
circunstâncias legais especiais ou específicas previstas na parte especial do CP que criam um
tipo penal derivado e têm objetiva diminuir a pena”. 19 O privilégio é causa de diminuição de
pena que é analisado na 3° fase seguindo o critério trifásico de Nelson Hungria. A diminuição
da pena irá ocorrer após comprovação da existência de circunstâncias condenáveis da conduta
do agente.
Destarte, o questionamento que se faz é: há a possibilidade de concomitância entre
qualificadora e privilegiadora na mesma pena? Essa questão já está pacificada tanto
doutrinariamente quanto jurisprudencialmente. Em nosso ordenamento jurídico, nos casos de
crimes qualificados, como o homicídio e o furto há a possibilidade da aplicação de penas
qualificadoras e privilegiadoras em uma mesma sentença.
Porém, para que haja a aplicação da concomitância entre elas, é necessário que se
enquadrem em alguns requisitos, no caso do furto por exemplo, é preciso que exista a
primariedade da conduta do agente, pequeno valor da coisa furtada e qualificadora de ordem
objetiva, requisitos que iremos ver de maneira mais detalhada no próximo tópico.

4. A SÚMULA 511 E OS REQUISITOS PARA SUA APLICAÇÃO

Muito já se discutia entre a jurisprudência e doutrinas a possibilidade de aplicar o


privilégio aos casos de furto qualificado, algumas doutrinas apontavam erros quanto a
topografia dos artigos e quanto a contradição lógica existente a impedir a harmonização de
privilegio e qualificadoras.
Mesmo diante da contradição lógica apontada, a jurisprudência já vinha acatando o
entendimento de que seria possível existir o furto qualificado-privilegiado, pois já se tinha
feito o mesmo questionamento na questão do homicídio qualificado-privilegiado, sendo que a
doutrina já vinha apontando há bastante tempo à possibilidade de sua existência se as

18
CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal, volume 1, parte geral. 16° ed. — São Paulo: Saraiva, 2012, p. 217.
19
TUBENCHLAK, James. Teoria do crime: o estudo através de suas divisões. Rio de Janeiro: Forense, 1980, p.
33.
8

qualificadoras fossem de ordem objetiva. Para responder a questão que estava gerando
discussão tanto doutrinária quanto jurisprudenial, o STJ sumulou o assunto editando o
seguinte verbete sintético: “é possível o reconhecimento do privilégio previsto no § 2º do art.
155 do CP nos casos de crime de furto qualificado, se estiverem presentes a primariedade do
agente, o pequeno valor da coisa e a qualificadora for de ordem objetiva.”20
Na prática, o privilegio que anteriormente só se concedia ao furto simples passou, com
o advento da súmula 511, a abranger o furto qualificado. Para que seja possível a
concomitância devem ser observados certos requisitos, quais sejam, a primariedade do agente,
o pequeno valor da coisa e a qualificadora for de ordem objetiva.
O primeiro requisito para aplicação do privilégio exige a primariedade do agente.
Nosso ordenamento jurídico assevera que primário é aquele que não é reincidente. Destarte,
de acordo com o a artigo 63 do CP “verifica-se a reincidência quando o agente comete novo
crime, depois de transitar em julgado a sentença que, no País ou no estrangeiro, o tenha
condenado por crime anterior”.21
Com relação ao termo “tecnicamente primário” - que, em verdade, é primário -,
sutenta a doutrina que se refere

(...) ao sujeito que, embora não se enquadrando no conceito de reincidente, registra


condenação anterior. Não é reincidente, seja porque já se ultrapassou o período
depurador da reincidência22 seja porque o novo crime foi praticado antes da
condenação definitiva oriunda do delito anterior. 23

Tendo por base o entendimento do Supremo, não se vê obstáculo para a concessão do


benefício do privilégio ao agente que seja “tecnicamente primário”. Ainda, vale resslatar que
o registro de maus antecedentes também não pode impedir a concessão do benefício.
Vencido o primeiro, passemos, de forma mais detalhada aos demais requisitos.

20
Súmula 511 do STJ.
21
Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984.
22
Período depurador da reincidência compreende os 5 anos entre a prática do novo crime e o cumprimento ou
extinção da pena resultante da pena anterior.
23
CASTRO, Leonardo. Legislação Comentada - Furto - Art. 155 do CP in forumcriminal.com.
9

4.1. Coisa de pequeno valor x coisa insignificante

Partindo-se da teoria finalista, mais aceita no que concerne à teoria do delito, temos
que este é todo fato típico, ilícito e culpável. Neste sentido, a fim de definir se estamos ou não
frente ao comentimento de algum delito temos que analisar, primeiramente, a tipicidade e
todos os seus elementos. Numa conceituação mais comum, temos que fato típico é aquele fato
humano antissocial consistente numa conduta produtora de um resultado com ajuste (formal e
material) a um tipo penal. Assim, a tipicidade penal possui três aspectos: formal, subjetivo e
material.
A tipicidade formal consiste na subsunção da conduta do agente ao tipo previsto na lei
penal, possuindo como elementos a conduta humana voluntária, o resultado jurídico, o nexo
de causalidade e adequação formal. O aspecto subjetivo, em resumo, consiste na vontade livre
e consciente de praticar a conduta, ou seja, o dolo.
Por outro lado, a tipicidade material, por sua vez, implica na verificação daquela
conduta, que deve ser livre, consciente e formalmente típica, no que concerne à sua relevância
penal, considerando a existência ou não de significativa lesão ao bem jurídico protegido pela
norma penal incriminadora, observando-se o desvalor da conduta, o nexo de imputação e o
desvalor do resultado.
Em atendimento ao direito penal mínimo, a lei penal somente poderá proibir ou impor
comportamentos, sob a ameaça de sanção, se houver absoluta necessidade de proteger
determinados bens, tidos como fundamentais ao convívio em sociedade. Nesse ínterim, o
moderno direito penal deve ser considerado a ultima ratio, bem como ser aplicado sob a ótica
dos princípios da subsidiariedade, fragmentariedade, intervenção mínima, insignificância,
adequação e proporcionalidade.
A moderna doutrina penalista pugna pela análise da dogmática jurídica tendo em mira
princípios de política criminal, em especial o postulado da intervenção mínima. 24 Essa nova
visão do Direito Penal permitiu incluir categorias materiais àqueles elementos do delito
(tipicidade, ilicitude e culpabilidade). Em alguns casos, percebe-se que, apesar de

24
É o movimento conhecido como funcionalismo, que tem como precursores Klaus Roxin e Eugenio Raul
Zaffaroni.
10

formalmente típica, a conduta não apresenta tipicidade material, eis que não há desvalor
relevante da conduta ou do resultado visado.
Em casos de furtos de valor insignificante, o Direito Penal não deve ser acionado, pois
é suficiente a cobrança do valor pelas vias cíveis. A conduta não é típica (materialmente), pois
não é afeta ao Direito Penal. É nesse ponto que se inclui o multicitado princípio da
insignificância. Os Tribunais, em especial, o Superior Tribunal de Justiça e Supremo Tribunal
Federal, vêm decidindo que é atípica a conduta quando os valores objetos da subtração são
insignificantes e incapazes de violar o bem jurídico protegido pela norma penal, isso porque,
não tendo a conduta, efetivamente, trazido lesão aos bens jurídicos penalmente protegidos (e,
por conseqüência, à sociedade), o fato, ainda que previsto formalmente na norma
incriminadora, é atípico.
Apesar de parecidas, coisa de pequeno valor e coisa insignificante são apresentadas
em situações diferentes, uma vez que a coisa insignificante desconfigura a tipicidade do
agente, porém se tratando de coisa de pequeno valor a conduta será enquadrada no tipo de
furto privilegiado, assim é necessário avaliar os fatores que vão para além do valor em si da
coisa. O código penal, no artigo 155, § 2º prevê que “se o criminoso é primário, e é de
pequeno valor a coisa furtada, o juiz pode substituir a pena de reclusão pela de detenção,
diminuí-la de um a dois terços, ou aplicar somente a pena de multa”. 25

Assim, o entendimento majoritário entende que para se caracterizar o furto


privilegiado, a coisa não pode ultrapassar o valor de um salário mínimo, vez que o de valor
insignificante o seu valor é inexpressivo. Entende Caetano que,

(...) desse modo, para valorar o princípio da insignificância não há um critério


objetivo como há na ponderação da coisa de pequeno valor, razão pena qual é
preciso proceder à análise do caso concreto para concluir se a conduta tem
tipicidade material ou não.26

A partir do habeas corpus 218.473, a jurisprudência entende que:

(...) ainda que se considere o delito como de pouca gravidade, tal não se identifica
com o indiferente penal se, como um todo, observado o binômio tipo de injusto/bem
jurídico, deixou de se caracterizar a sua insignificância. No caso concreto, o valor

25
Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940.
26
CAETANO, Wesley. Da diferença entre coisa insignificante e coisa de pequeno valor.
11

da res furtiva não equivale, em linha gerais, aproximadamente, a uma esmola, não
configurando, portanto, um delito de bagatela. 27

Dessa forma, faz-se necessário uma analise da situação do crime e do objeto furtado
para, posteriormente, classificá-lo entre coisa de pequeno valor ou coisa insignificantes,
tipificando ou não o delito.

4.2. Qualificadora de ordem objetiva x qualificadora de ordem subjetiva

Para diferenciar as qualificadoras de ordem objetiva e de ordem subjetiva, faz-se


necessário entender o conceito de qualificadora e sua diferença quanto às causas de aumento
de pena ou majorantes.
As causas de aumento da pena ou majorantes são circunstâncias previstas na legislação
e ocorre quanto a pena é aumentada em frações, como por exemplo, no art. 121, §4.º do
Código Penal que trata do crime de homicídio “(...) a pena é aumentada de 1/3 (um terço) se o
crime é cometido contra pessoa menor de 14 (quatorze) ou maior de 60 (sessenta) anos.” 28 ou
no art.155 §1.º do mesmo diploma legal que vai tratar do crime de furto, assegura que “a pena
aumenta-se de um terço, se o crime é praticado durante o repouso noturno.” Já a
qualificadora aumenta diretamente a pena base “em um quantum já delimitado”, ou seja,
define a pena de acordo com o crime praticado e de modo exato.
Exemplo de qualificadora é o parágrafo 4º do art.155 que trata do furto qualificado. A
pena base do furto é reclusão, de um a quatro anos, e multa, enquanto o do mesmíssimo
parágrafo é de dois a oito anos, e multa, se o crime é cometido: “com destruição ou
rompimento de obstáculo à subtração da coisa; com abuso de confiança, ou mediante fraude,
escalada ou destreza; com emprego de chave falsa ou mediante concurso de duas ou mais
pessoas.”.
Entendido qualificadora, a diferença entre a de ordem objetiva e a subjetiva é que a
primeira é atinente ao fato praticado e não ao aspecto pessoal do agente, ou seja, diz respeito
pura e simplesmente a atitude do agente no fato. Já a qualificadora de ordem subjetiva é

27
SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Superior Tribunal de Justiça STJ – Habeas Corpus: HC 218473 MG
2011/0219057-9.
28
Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940.
12

entendida como a conduta, situações do próprio agente, por exemplo, a diferenciação na


aplicação da pena para um réu primário de um reincidente.
De acordo com Bezerra29, as qualificadoras objetivas são as que dizem respeito ao
crime, enquanto as subjetivas vinculam-se ao agente. Enquanto as objetivas dizem com as
formas de execução (meios e modos), as subjetivas conectam-se com a motivação do crime.
Para Oliveira “quando a doutrina se refere a qualificadoras subjetivas, ela aponta para as que
apontam motivos ou finalidades. Já quando diz respeito a qualificadoras objetivas, ela indica
as que estão relacionados ao modo ou meio utilizados para o acontecimento”.30

CONCLUSÃO

Com o advento da Constituição de 1988, foi dada maior ênfase a garantia e promoção
de direitos fundamentais. Alguns dipositivos elaborados e promulgados antes da Constituição
não possuem um viés constitucionalizado. Esse é o caso do Código Penal, que, apesar de ter
sido recepcionado pela Constituição da República de 1988, pouco trata acerca de garantias
fundamentais.
Nesse diapasão, os órgãos de convergências do poder judiciário, é dizer STF e STJ,
tem, cada vez mais editado súmulas a fim de fazer valer tais garantias e possibilitar uma
leitura de determinados dispositivos à luz da Contituição. Foi nesse contexto que o STJ editou
a súmula 511, que, muito embora não tenha efeito vinculante, vem sendo adotada pela maioria
dos tribunais.
Como visto, a súmula trata da concomitãncia no caso de furto. Isso quer dizer que, o
privilegio que anteriormente só se concedia ao furto simples passou, com o advento da súmula
511, a abranger o furto qualificado. Para que seja possível a concomitância devem ser
observados certos requisitos, quais sejam, a primariedade do agente, o pequeno valor da coisa
e a qualificadora deve ser de ordem objetiva.
Dessa forma, pode-se concluir que a criação da citada súmula tem efetivamente
garantido à tomada de decisões que asseguram a efetividade do dispositivo penal à luz da

29
Eduardo Bezzerra. Advogado com experiência multidisciplinar focada em Direito Administrativo. Especialista
em Direito Público. Membro da Comissão de Ciências Criminais e Segurança Pública da OAB/DF.
30
Daniel Bernoulli Lucena de Oliveira. Promotor de Justiça do Ministério Público do Distrito Federal e
Territórios, especialista em Tribunal do Júri.
13

Constituição, sendo que, frente às garantias fundamentais às quais se fundam o Estado


Democrático de Direito, as hipóteses de aplicação do referido dispositivo legal somente
possuem eficácia quando voltadas a uma concretude constitucionalizada.

REFERÊNCIAS

___________. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Senado Federal.

BRASIL, Constituição Federal, de 5 de outubro de 1988. Senado Federal.

CAETANO, Wesley. Da diferença entre coisa insignificante e coisa de pequeno valor.


Disponível em <https://wesleycaetano.jusbrasil.com.br/artigos/227417930/da-diferenca-entre-
coisa-insignificante-e-coisa-de-pequeno-valor> Acesso em 19 abril de 2018.

CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal, volume 1, parte geral. 16° ed. — São Paulo:
Saraiva, 2012.

CASTRO, Leonardo. Legislação Comentada - Furto - Art. 155 do CP. In: Fórum
Criminal. Disonível em <
https://leonardocastro2.jusbrasil.com.br/artigos/136366573/legislacao-comentada-furto-art-
155-do-cp>. Acesso em 03 de maio de 2018.

COSTA, Givaldo Santos da. Direito Penal Mínimo: sua conformidade com o Garantismo
Penal. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XVIII, n. 132, jan 2015. Disponível em:
<http://www.ambito-
juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=15658&revista_caderno=3>.
Acesso em 30 de abril de 2018.

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal.16. Ed. Rio de Janeiro: Impetus, 2014.

FERRAJOLI, Luigi. Direito e Razão - Teoria do Garantismo Penal. 4 ed. Trad. Ana Paula
Zomer Sica. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014.
14

JESUS, Damásio Evangelista de. Direito Penal, volume 1: parte geral. 28ª ed. São Paulo:
Saraiva, 2005

LENZA, Pedro. Direito Constitucional Esquematizado. 14. Ed. rev. atual e ampl. – São
Paulo: Saraiva, 2010.b

MARINONI, Luiz Guilherme. Mididiero, Daniel. Repercussão Geral no Recurso


Extraordinário. 2ª edição. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2008.

SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. STJ – Habeas Corpus: HC 218473 MG


2011/0219057-9 – Inteiro Teor. In: JusBrasil. Disponível em <
https://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/21458619/habeas-corpus-hc-218473-mg-2011-
0219057-9-stj/inteiro-teor-21458620?ref=juris-tabs> Acesso em 19 abril de 2018.

TUBENCHLAK, James. Teoria do crime: o estudo através de suas divisões. Rio de


Janeiro: Forense, 1980.

ZAPATER, Maíra. O Código Penal de 1940: não parece que foi ontem? Disponível em: <
http://justificando.cartacapital.com.br/2016/06/03/o-codigo-penal-de-1940-nao-parece-que-
foi-ontem/ >. Acesso em: 30 de abril de 2018.