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DOR, SOFRIMENTO E CURA:

FONTES E TRATO METODOLÓGICO NA PESQUISA SOBRE O PADRE QUE


CURAVA

Marcia Regina de Oliveira Lupion


LERR/PPH/UEM

Resumo: Nesta comunicação apresentarei o conjunto diversificado de fontes utilizado


para realizar a pesquisa que busca conhecer a prática religiosa de Bernardo Cnudde
assim como o perfil dos indivíduos e os motivos que os levaram a procurar o clérigo.
O trato com as fontes segue as orientações de André Cellard propostas no artigo
“Análise documental” que integra a obra Pesquisa Qualitativa (2012) para os
documentos escritos e de Verena Alberti (Ouvir contar, 2015) para as fontes
construídas a partir da oralidade. As fontes em questão revelaram que o público que
buscava o atendimento do padre o fazia no afã de receber curas para suas aflições
físicas, mentais e espirituais. Revelou também que muitos viam no padre um amigo e
mesmo um pai com o qual podiam contar quando os recursos financeiros estavam
escassos. Para a análise desses dados e sua interpretação, Thomas Csordas e sua
obra Corpo/Significado/Cura publicada em 2008 foi essencial pois, dentre outros
predicados a obra trata dos motivos que levam os indivíduos a buscarem na religião
e em pessoas com carisma expressivo, como foi o caso de Bernardo, o amparo para
situações sensíveis em suas vidas.
Palavras-chave: Fontes. Metodologia. André Cellard. Verena Alberti. Thomas
Csordas.

Delimitação de objeto, objetivos e fontes

Nesta comunicação apresentarei o conjunto diversificado de fontes e a


metodologia utilizada para realizar a pesquisa que busca conhecer a prática religiosa
de Bernardo Cnudde, assim como o perfil e os motivos que levaram os indivíduos a
procurar constantemente o clérigo. Sobre o padre, que também era monsenhor,
adianto que a memória cristalizada corrente entre leigos católicos e simpatizantes e
retida pelas fontes orais é a de que ele foi uma pessoa carismática dotada de poderes
sobrenaturais e, por esse motivo, capaz de curar doenças físicas e espirituais assim
como atender às necessidades materiais básicas daqueles que o procuravam.
Sobre aqueles que o buscavam essa mesma fonte mostra que muitos
mantiveram seus primeiros contatos com o padre por motivos ligados à coordenação
paroquial. Outros foram até ele em busca de cura para suas dores e sofrimentos
físicos, sociais e espirituais. Não se descarta o fato de que as pessoas mais próximas
a Bernardo, no caso coordenadores de liturgia, catequistas, coordenadores de
pastoral, etc., estejam entre aqueles e aquelas que puderam contar com as orações
e bênçãos do padre.
Essas mesmas fontes nos revelaram que havia na paróquia Divino Espírito
Santo coordenada pelo monsenhor uma dinâmica cujo foco se desdobrava em duas
direções: uma pastoral estabelecida pela diocese com base nas normas do Vaticano
II e que não será objeto de análise nesse texto, e uma curadora baseada na prática
religiosa e pessoal, isto é na performance de Bernardo Cnudde, que alimentava a ideia
de libertação das dores e sofrimentos com os quais os simpatizantes do padre lidavam
cotidianamente. Quanto aos documentos escritos, alguns recortes de jornais
presentes nos arquivos da Cúria Metropolitana de Maringá corroboram a prática de
orações, bênçãos e curas realizada por Bernardo enfatizada pelos testemunhos orais.
Esses recortes associam a prática do padre e a eficácia de seus atendimentos a
milagres mas, ao ser entrevistado, o padre enfatiza que seu sucesso se deve ao fato
de que Deus que seria incapaz de deixar de atender às orações a ele dirigidas.
Dada a inexistência de documentação mais expressiva sobre a performance de
Bernardo o caminho escolhido para conhecer detalhes de sua prática foi criar um
acervo de documentos orais dada a abundância de testemunhos existentes sobre a
temática.
Não que inexistam documentos sobre o padre, longe disso! Somente nos
arquivos da Cúria Metropolitana e da Paróquia Divino Espírito Santo foram
encontrados quase duas centenas de documentos que nos permitem conhecer
institucionalmente o padre sendo que nem toda documentação relativa ao padre foi
disponibilizada em ambas as instituições. Por exemplo, na paróquia Divino Espírito
Santo onde o padre atuou por mais de trinta anos, o acesso ao Livro Tombo não
permitido, de forma que não foi mensurar se o padre registrava suas atividades e, se
fazia menção à sua forma de atendimento. A alegação do atual pároco para não
autorizar o acesso ao Livro do Tombo é que Bernardo não era muito responsável com
os registros.
Outro grupo de fontes são as imagéticas. Tornou-se uma tarefa sempre
inacabada arrolar tudo o que foi sendo encontrado diante das mais de três décadas
somente como pároco da Igreja Divino Espírito Santo em Maringá sem contar os
atendimentos feitos em outras paróquias quando o padre atendia a celebrações de
sacramentos como casamentos, crismas e primeiras eucaristias por exemplo. Nesse
caso, privilegiei as fotografias em que o padre aparecia em situações menos formais,
como pescarias, momentos na praia, ou tomando cerveja, três de seus momentos de
laser preferidos segundo testemunhos. Dada a brevidade deste texto, as fontes
imagéticas e audiovisuais não serão objeto de análise com relação à metodologia
utilizada para sua análise.
Em seu conjunto, as fontes permitiram refletir sobre a performance do padre
como uma forma de sacerdócio no qual ele é o personagem chave para compreender
a dinâmica existente na paróquia visto que não só intermediava a comunicação entre
o sagrado e o profano como também entre os que necessitavam de ajuda financeira
e aqueles que tinham recursos para suprir essa necessidade. Abaixo são descritos o
trato metodológico e teórico aplicados às fontes e que foram essências para a
composição das afirmativas acima.

2 Um pouco sobre Bernardo

O padre atuou na diocese de Maringá entre os anos de 1967 e 2000 e, nesse


período foi pároco em duas igrejas, uma em Santa Isabel do Ivaí entre 1967 e 1969 e
partir de então na paróquia Divino Espírito Santo até sua morte em 20 de novembro
do ano 2000.
Tive conhecimento da trajetória do padre como exorcista e curador ainda nos
anos quando participava da paróquia Santa Isabel de Portugal, existente no bairro
homônimo, aqui mesmo em Maringá. Confesso que sua prática sempre foi vista por
mim como algo misterioso e, como boa filha da Teologia da Libertação, como algo
atrasado em relação ao modelo de religião praticado nas demais paróquias da
diocese.
Pessoalmente vi o padre, que na época já era monsenhor, durante os anos
1990 quando era coordenadora de um grupo de adolescentes que receberia o
sacramento do crisma na ocasião. Confesso mais uma vez que fiquei olhando para
aquele homem robusto, vestido de dourado esperando ver nele algo diferente, meio
mágico talvez, mas o que me chamou a atenção foi o sorriso boca perene e o fato de
que cumprimentava todos por quem passava. Não tinha pressa ao andar e olhava
para todos os lados como se quisesse demonstrar que a todos estava vendo. Como
monsenhor, recebia todas as obséquias comuns ao seu cargo, e havia, por parte do
pároco local, uma certa reverência para com Bernardo.
No entanto, essa reverência estava mais de acordo com a hierarquia do que
necessariamente pela pessoa de Bernardo que nessa época já era reconhecido
internacionalmente por sua prática peculiar. Minha afirmação acerca da reverência do
pároco local está baseada numa frase que ele dissera dias antes para os
coordenadores quando informou que não seria o arcebispo Jaime quem realizaria o
cerimonial do crisma e sim Bernardo. Na ocasião, o padre levantara os ombros e
dissera “fazer o quê”! como que se desculpando e demonstrando sua insatisfação pelo
fato de ter havido uma mudança no celebrante e a responsabilidade ter caído
exatamente sobre Bernardo.
Com relação a assembleia, não houve reações à presença de Bernardo que
tenham chamado minha atenção de forma especial. Muitos ali o conheciam melhor do
que eu e costumavam inclusive participar de suas famosas missas de cura
acontecidas às quartas-feiras em sua paróquia ou pedir aconselhamentos e orações
individualizados. Poderia ser, para mim, a primeira e única vez que eu veria Bernardo
pessoalmente, mas, não o foi para todos ali. Inclusive, para os crismandos ter
Bernardo como celebrante foi um acaso recebido com alegria, pois, o arcebispo Jaime
era conhecido por finalizar a unção com o óleo do crisma com um belo e sonoro tapa
no rosto do recém-crismado, sobretudo se fosse do sexo masculino!, enquanto
Bernardo apenas sorria e acariciava os rostos adolescentes como tive a oportunidade
de presenciar.
Sobre sua formação, Bernardo que era francês, ordenou-se no ano de 1966 e
nesse mesmo ano se dirigiu ao Brasil. Em 1969 pede incardinação, ou seja, solicita
admissão como sacerdote na diocese de Maringá e é aceito por Dom Jaime, na época
não só o bispo diocesano mas também o responsável por convidar Bernardo e outros
seminaristas a virem atuar na diocese. Ao todo, Bernardo trabalhou na diocese
maringaense entre os anos de 1967 e 2000. Desses 33 anos, 31 foram realizados
integralmente na Paróquia Divino Espírito Santo onde foi o único pároco até sua morte.
De sua prática religiosa marcada por orações, bênçãos e curas realizadas
individual ou coletivamente, temos o primeiro registro no ano de 1973, mas, o relato
dessa cura revela que a pessoa responsável por convidar Bernardo para rezar por
uma menina de apenas oito anos que sofria de uma doença cujo diagnóstico fugia aos
médicos, o fez com base no fato de que ele já era conhecido como um grande curador.
Ou seja, em pouco mais de cinco anos na diocese maringaense, Bernardo já era
conhecido por sua peculiar prática de atendimentos com vistas a cura de doenças e
outros males sofridos por aqueles que o procuravam. Visibilidade essa que aumentou
com o passar dos anos até sua morte devido a um infarto fulminante em 20 de
novembro do ano 2000.

O trato metodológico sobre as fontes escritas e orais

O trato metodológico sobre as fontes seguiu as orientações de André Cellard


propostas no artigo “Análise documental” que integra a obra Pesquisa Qualitativa
(2012) para os documentos escritos, já a produção da documentação oral seguiu as
prerrogativas de Meihy e Holanda (2017). Vejamos as primeiras.

As fontes escritas
De acordo com Cellard, “uma pessoa que deseja empreender uma pesquisa
documental deve, com o objetivo de construir um corpus satisfatório, esgotar todas as
pistas capazes de lhe fornecer informações interessantes” (CELLARD, 2012, p. 298,
grifo do autor). De fato, construir um corpus documental foi prioridade nos primeiros
anos da pesquisa e por esse motivo o contato com a Cúria Metropolitana e a Paróquia
Divino Espírito Santo foi essencial nesse momento.
O levantamento realizado nos arquivos dessas duas instituições resultou num
corpus documental com 196 tipos de documentos escritos. Seguem dados
quantitativos da documentação arrolada na Cúria na Paróquia Divino Espírito Santo
as quais tive autorização para pesquisar.

Figura 1: Síntese quantitativa dos documentos sobre Bernardo Cnudde presentes nos arquivos da
Cúria Metropolitana e na Paróquia Divino Espírito Santo.

DOCUMENTOS

QUANTIDADE DE
ORIGINAIS OBSERVAÇÕES TOTAL
DOCUMENTOS
84 docs. originais
Cúria 87 87
3 cópias
91 docs. originais

Paróquia Divino Espírito 16 docs. comuns à Cúria e a


109 109
Santo Paróquia D. E. Santo

02 docs. sem data


TOTAL DE
196
DOCUMENTOS
Fonte: Elaborado pela autora, 2018.
De posse dessa documentação, foi criada uma tabela onde cada documento
foi escrito considerando data de produção, finalidade, quem o produziu/assinou, a que
ou a quem se destinava, se era de categoria pessoal ou institucional, conteúdo.
Os documentos encontrados foram organizados da seguinte forma:
- Uma tabela onde os documentos foram dispostos cronologicamente;

- Uma tabela com a documentação por temas;

- Uma tabela cronológica com dados da documentação da Cúria e da Paróquia.

Com esses dados foi possível estabelecer o perfil ou a biografia institucional do


padre desde sua chegada ao Brasil, seu pedido de incardinação, sua escalada
hierárquica que se iniciou como padre auxiliar, pároco, depois como ecônomo da
diocese, professor do seminário e então monsenhor. Revelou ainda que Bernardo
mantinha um relacionamento pessoal com Dom Jaime a quem costumava enviar
cartões postais e natalinos com certa frequência e que fora solicitado, por religiosas
de diversas congregações religiosas femininas que Bernardo fosse seu assistente
espiritual. Pedido que foi aceito por Dom Jaime com anuência de Bernardo.
Confesso que fui até esses arquivos aberta a todo tipo de documentação que
pudesse me fornecer qualquer informação sobre Bernardo e de fato, fui privilegiada
nesse sentido, pois, como dito anteriormente, foi possível reconstruir traços evidentes
de sua trajetória institucional e biografia, mas, não só isso. Produzido por um jornalista
e arquivado nas dependências da Cúria, alguns recortes de jornal evidenciam o que
a memória local já consagrara: o fato de Bernardo ser visto como um padre que
realizava milagres de cura, que suas orações auxiliavam no encontro de empregos e
na cura de vícios em drogadição.
No acervo das duas instituições há, porém, uma diferença. Enquanto na Cúria
existe uma pasta específica sobre o padre, onde estão somente documentos ligados
à sua pessoa, na Paróquia Divino os documentos são parte dos arquivos da paróquia
e, nesse sentido, é mais um registro histórico da instituição sendo os dados relativos
a Bernardo um momento dentro dessa história.
Em síntese portanto, a documentação arrolada nas duas instituições foi
essencial para a construção da trajetória institucional do padre e, ao permitir a
elaboração cronológica dessa trajetória, possibilitou conhecer detalhes de sua
biografia.
A produção das fontes orais
Quanto aos documentos orais foram realizadas ao todo dezoito entrevistas.
Dessas, nove entrevistados são homens e nove são mulheres com uma média de
idade de 62 anos. Do total, dezesseis são católicos e dois espíritas. Dois entrevistados
são clérigos – um padre e um arcebispo - e uma é religiosa. Os demais atuam em
suas atividades profissionais ou estão aposentados. Duas entrevistas foram
realizadas com casais cujos relatos integram uma mesma gravação em áudio. Um dos
entrevistados, que hoje é locatário do sobrado construído pelo padre, permitiu a
entrevista em áudio e vídeo de forma que toda a residência foi registrada em vídeo.
Nem todos os entrevistados tiveram contato íntimo com o padre. Alguns tiveram
contato tangencial, mas, todos eles conhecem casos pessoais, de conhecidos ou
mesmo de “ouvir falar” ligados aos poderes curativos de Bernardo.
O processo de agendamento das entrevistas se deu de quatro formas
específicas: por meio da abordagem realizada durante os trabalhos de campo nas
dependências do cemitério municipal onde o padre está enterrado; por meio de
pessoas conhecidas da pesquisadora; por meio da sugestão dos próprios
entrevistados e por fim, por meio da observação de nomes citados em documentos
da Paróquia Divino Espírito Santo. Nem todos os contatos realizados resultaram em
entrevista, alguns alegando não saberem nada sobre o padre, outras por motivos não
especificados.
A construção da documentação oral seguiu os trâmites comuns ao método
como a elaboração de um projeto orientador para a coleta de entrevistas como
sugerido por Meihy e Holanda (2017). Nesse projeto foi estabelecido que as
entrevistas seriam temáticas com ênfase na pergunta: “Quem foi Bernardo para
você?”. A escolha por esse tema/problema teve por objetivo deixar o entrevistado à
vontade e ao mesmo tempo limitar seu relato. Escolhidos os entrevistados e
realizados os agendamentos, a pesquisadora apresentou em detalhes as intenções
da pesquisa e os motivos que a levaram a considerar aquele depoimento. A isso
seguiu-se a apresentação e assinatura do Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido pelo entrevistado firmando o compromisso do pesquisador com o material
coletado e, por fim, a transcrição total ou parcial da gravação.
A análise das informações presentes nas fontes

O trabalho com a oralidade se revelaria uma fonte não só de memórias


pessoais sobre o padre, mas de uma série de objetos que pertenceram ao mesmo e
que estão em posse tanto da instituição quanto de ex-paroquianos. Dada a riqueza de
tais objetos, todos foram incorporados à pesquisa quer seja a título de exemplo, quer
seja como fonte documental. Alguns entrevistados possuem em seu acervo pessoal
não somente fotos com o padre, mas também seus documentos pessoais como
originais da carteira de motorista, identidade, de clérigo, etc. Encontram-se ainda de
posse de algumas testemunhas objetos que pertenceram a Bernardo como o rosário
que estava em suas mãos no dia de sua morte. Outros objetos como os vasos de
óleos santos, uma estola e um véu umeral podem ser encontrados na Paróquia, com
alguns ex-paroquianos ou ainda, com o grupo de Renovação Carismática Filhos de
Sião, que foi acolhido pelo padre em meados dos anos 1980.
Um documento de extrema relevância durante o processo de levantamento de
fontes foi o compartilhamento de um casal de ex-paroquianos que viveu intimamente
com Bernardo, de um DVD produzido depois da morte do padre. O DVD é composto
por quatro vídeos sendo um o histórico da vida do padre, outro uma homenagem a
Bernardo, o terceiro registra a missa de corpo presente de Bernardo e o quarto registra
a missa de sétimo dia. No DVD é possível visualizar os momento de laser preferidos
do monsenhor assim como sua atuação como pároco. Mas, o que de fato chama a
atenção é a comoção vivida pela população com sua morte. A entrega de flores e
bilhetes colocados sobre caixão assim como as lágrimas demonstram o nível do afeto
com o qual o padre era recebido. Não se descarta ter havido curiosos no velório e
enterro do padre, mas, esse tema não foi objeto de estudo até o presente momento.
O encontro de todos esses objetos e do DVD fortaleceu ainda mais a tese de
que Bernardo era motivo de afetos positivos por parte de um número expressivo de
pessoas que guardam lembranças suas não somente na memória mas também na
forma de objetos seus guardados entre os pertences pessoas dos familiares.
Os documentos escritos foram analisados seguindo o proposto por Cellard
quando este autor diz que o pesquisador deve desconfiar do documento escrito, pois
ele pode trazer armadilhas (CELLARD, 2008, p. 296). Numa tentativa de não incorrer
nessas armadilhas, após a elaboração das tabelas os documentos foram submetidos
a um escrutínio analítico considerando o contexto de sua produção, seu autor ou
autores e a natureza do documento de forma a realizar uma seleção rigorosa das
informações sempre com vistas a construir a biografia institucional e pessoal do padre
e também de verificar dados que contribuíssem para conhecer traços de sua prática
religiosa marcada pela busca da cura daqueles que o procuravam.
Nesse processo, que ocorreu concomitantemente à produção da
documentação oral, observou-se que a memória oral e a memória institucional
presente nos arquivos preservam, estas menos que aquelas, lembranças acerca da
prática religiosa do padre marcada por sua capacidade de promoção de graças aos
que o procuravam. É o caso, por exemplo, de um recorte de jornal em especial que
evidencia explicitamente a prática de cura realizada por Bernardo durante as missas
ocorridas às quartas-feiras em sua paróquia.
Contudo, não é possível ir muito longe por meio dos documentos escritos no
sentido de conhecer detalhes sobre a forma como Bernardo ou aqueles que o
buscavam operacionalizavam suas ações e sentimentos em relação à prática de cura
do padre. Para isso foram criados os documentos orais, pois, esse tipo de fonte tem
como especificidade exatamente revelar as subjetividades presentes nos objetos de
estudo e por esse motivo foram incorporados à pesquisa sobre o padre que curava.
A análise das fontes orais foi realizada de acordo com o proposto por Verena
Alberti, para quem:
[...] com relação à especificidade da história oral: sua grande riqueza está em
ser um terreno propício para o estudo da subjetividade e das representações
do passado “tomados como dados objetivos”, capazes de incidir (de agir,
portanto) sobre a realidade e sobre nosso entendimento do passado
(ALBERTI, 2004, p. 42, grifos da autora).

Assim, foi considerando o fato de que as fontes orais revelam elementos


objetos e subjetivos sobre o objeto de estudo que busquei, nessa documentação,
observar a forma como padre e simpatizantes operacionalizaram a prática religiosa
que tinha na busca pela cura de sofrimentos e dores físicos, emocionais e sociais, o
motivo de sua existência.
Dentre as inúmeras informações que as fontes orais trouxeram, constam os
motivos pelos quais um número significativo de pessoas buscava o atendimento do
padre. Esses motivos podiam ser a cura para uma doença considerada incurável, a
cura para males cotidianos como depressão, a benção para arranjar um trabalho,
orações para deixar vícios em drogadição como citato acima. Mas, buscava-se
Bernardo também para aconselhamentos diversos, confissões, orações e bênçãos.
Muitos, agendavam atendimentos pessoais outros se contentavam em participar de
suas missas e receber, ao final delas, uma benção que podia ser coletiva ou individual
quando se formava uma fila no centro da igreja e um a um recebia a unção do padre.
Para a análise dos dados arrolados no corpus documental e sua interpretação
em relação a dor, sofrimento e cura Thomas Csordas e sua obra
Corpo/Significado/Cura publicada em 2008 foi essencial pois, dentre outros
predicados a obra trata dos motivos que levam os indivíduos a buscarem na religião
e em pessoas com carisma expressivo, como foi o caso de Bernardo, o amparo para
situações sensíveis em suas vidas.
Segundo Csordas, “a cura religiosa poderia ser vista como um tipo de
performance cultural altamente persuasiva” (CSORDAS, 2008, p. 17). Para ele ainda,
o membros da Renovação Católica Carismática e os cristãos em geral mudaram a
relação com a dor e o sofrimento a partir do século XX quando passaram a ser vistos
como um obstáculo ao crescimento espiritual (CSORDAS, 2008, p. 33).
Para Csordas, o processo terapêutico realizado pelo curador é constituído por
três aspectos: o procedimento (quem fez o que a quem); o processo (natureza da
experiência com o sagrado) e a conclusão (satisfação por parte dos participantes em
relação a cura) (CSORDAS, 2008, p, 31). Em tese, esses três momentos do processo
terapêutico estão ligados à performance do curador e, em relação a Bernardo, tanto
os testemunhos quanto os recortes de jornal e outras fontes não citadas aqui,
denunciam que a dinâmica de atendimentos criada e mantida pelo padre em sua
paróquia é o que permitia que sua prática religiosa, ou sua performance se efetivasse.
Sendo os ritos os meios que asseguram as diversas manifestações da vida
religiosa na prática (CAILLOIS, 1988, p, 20), o que se observou é que Bernardo
mantinha ao seu redor uma aura de mistério na qual havia entre ele e os santos e
santas e mesmo entre ele e Deus um canal aberto de comunicação. Muitos relatos
afirmam que o padre costumava inclusive entrar com conflitos com as divindades
quando fazia seus pedidos.
Mas, seu canal de comunicação não se resumia apenas ao corpo sagrado do
panteão católico. Os relatos de exorcismos realizados por Bernardo mostram que ele
falava também com os demônios e, que quando não os expulsava acaba por assimilá-
los por vezes precisando se retirar para poder realizar a libertação total das entidades
que acabava levando consigo após as sessões de exorcismos.
Esses elementos nos levam a segunda característica citada por Csordas que é
relativa ao processo. Por meio de sua prática o padre demonstrava ter domínio tanto
dos rituais quanto dos elementos sagrados e que se permitia colocar em evidencia
esses conhecimentos o que o tornava cada vez mais experiente nos processos de
cura e libertação enriquecendo cada vez mais sua performance. Pois, na tentava de
atender aos diversos casos que lhe eram trazidos, Bernardo foi buscar em outras
religiões como a Espírita por exemplo, conhecimentos que lhe permitissem realizar
com mais presteza seus atendimentos. E, quando sentia que para determinado caso
lhe faltavam conhecimentos, o monsenhor imediatamente enviava o solicitante até o
Centro Espírita existente até hoje perto da Igreja Divino Espírito Santo. Por essa
capacidade de “ver” o que estava acontecendo muitos depoimentos denominam o
padre como sendo um vidente, um místico, ou seja, alguém que oscilava entre o
natural e o sobrenatural de forma consciente.

Resultados parciais

De forma geral, as fontes têm demonstrado que aqueles e aquelas que


buscavam seu conhecimento e poder confiavam na eficácia da performance do padre,
pois ele tornava visível a presença e o poder de Deus. Sua prática e vivência eram
tidas e continuam sendo vistas por seus ex-paroquianos e simpatizantes como a de
uma pessoa santa cujo contanto com Deus e os santos e santas católicos era a base
de sua força como curador. Pois, não só Bernardo acompanhava os dilemas
cotidianos marcados por dores e sofrimentos dos que os procuravam, mas também
compartilhava seus males ouvindo suas dores e prometendo intermediar a cura não
atribuindo a si tais graças mas, ao eterno amor de Deus por aqueles que Nele buscam
amparo.
Essa busca por limitar ao máximo dores e sofrimentos tem sido estudada
considerando como os indivíduos modernos desenvolveram estratégias de negação
de qualquer sensação de opressão seja física ou emocional. O paradigma da
corporaneidade criado por Csordas (2008); a história do corpo detalhada por Corbin
(2008) e a constituição do indivíduo moderno estudada por Hervieu-Léger (2015) tem
sido essenciais para composição dessa discussão ainda inconclusa.

Referências
Acervos
Acervo da Cúria Metropolitana de Maringá.
Acervo da Paróquia Divino Espírito Santo.

ALBERTI, Verena. Ouvir contar: textos em história oral. Rio de Janeiro: Editora da
FGV, 2004.

CAILLOIS, Roger. O homem e o sagrado. Lisboa: Edições 70, Ltda. 1988.

CELLARD, André. Análise documental. In: A pesquisa qualitativa: enfoques


epistemológicos e metodológicos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008. p. 295-316.

CORBIN, A. Dores, sofrimento e misérias do corpo. In: CORBIN, A.; COURTINE, J.


J.; VIGARELLO, G. (Org.). História do corpo: da revolução a grande guerra.
Petrópolis: Vozes, 2008. v. 2, p. 267-346.

CSORDAS, Thomas. Corpo. Significado. Cura. Porto Alegre, RS: Editora da


UFRGS, 2008,

HERVIEU-LEGER, D. O peregrino e o convertido: a religião em movimento.


Tradução de João Batista Kreuch. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015. 238 p.

MEIHY, José Carlos Sebe Bom; HOLANDA, Fabíola. História oral: como fazer,
como pensar. 2. ed., 5. reimp. São Paulo: Contexto, 2017. 175 p.