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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO

Nome da disciplina: Subjetividade e Política


Docente: Prof. João Manoel Calhau de Oliveira
Resenha Colonialismos
Estudante: Denise Ayres d’Avila

O texto que aqui se apresenta foi desenvolvido como atividade


domiciliar à estudante em licença médica. Serão abordados neste trabalho
aspectos constitutivos dos textos que compuseram a aula ao qual o tema foi
‘colonialismos’.

O primeiro texto, cuja autoria é de Susan Buck Morss, é um artigo


publicado em 2018 pela revista Novos Estudos Cebrap e se titula “Hegel e o
Haiti”. Com este trabalho, a autora se propõe a refletir acerca do paradoxo
discurso liberdade versus prática de escravidão se ancorando na metáfora da
escravidão no contexto de iluminismo filosófico europeu. A autora repercute a
“dialética do senhor e do escravo” hegeliana na leitura associada às noticias
que chegam à Europa sobre as condições que ocorrem a Revolução Haitiana
de 1971.

Neste trabalho, Buck-Morss descreve como a expansão do sistema


escravocrata sustentou a economia ocidental ocasionando a proliferação das
idéias iluministas pelo globo. Essa contradição entre ideais iluministas,
libertadoras, e regime de servidão ao trabalho compulsório e sem remuneração
marca a discrepância do pensamento prático com o sistema de produção
econômica, cuja base está na submissão do outro em nome da produtividade e
é ignorada pelos pensadores da época.

Nas palavras da autora: “A exploração de milhões de trabalhadores


escravos coloniais era aceita com naturalidade pelos próprios pensadores que
proclamavam a liberdade como o estado natural do homem e seu direito
inalienável.”[...]. Nesta contradição, a dialética se estabelece entre senhor de
escravos sujeito e detentor do direito a propriedade versus um sistema
escravocrata que por lei “coisifica” o escravo retirando sua humanidade e o
naturalizando a condição de ‘existir para servir’. A autora relembra que foi meio
século de entendimento do escravo como propriedade privada e problema
doméstico.

O texto desenvolve uma perspectiva racista da escravidão, ao eleger


autores que problematizavam a submissão de povos excluindo nessa
problematização os povos africanos. Neste ponto, é possível lembrar a
argumentação de Butler (2016) em afirmar a existência de vidas não
reconhecíveis como tal, as vidas não vivas. Butler argumenta a condição que
submetidas a experiência visual das normas reconhece o humano, semelhante,
vivo, sujeito de possível empatia e quando não enquadrado a essas normas há
destituição de sua humanidade e direito de existência, como destacado no
trecho de Buck-Morss (2011, p.144) “O escravo é caracterizado pela carência
de reconhecimento alheio. É visto como “uma coisa”; “coisidade” é a essência
da consciência escrava — como havia sido a essência de sua situação legal
sob o Code Noir”

Os povos africanos submetidos à escravidão foram das mais variadas


formas impostos a violências, expressaram seus sofrimentos, tristezas,
resistiram, suicidaram, realizaram motim. A extinção da escravidão haitiana foi
desenvolvida pela ação do escravo, em revoltas violentas e organizadas que
proclamaram em suas bandeiras liberdade ou morte: [...] “Esses eventos,
culminando na completa liberdade dos escravos e da colônia, não tinham
precedente. “Jamais uma sociedade escravista havia sido capaz de derrubar
sua classe dirigente” (BUCK-MORSS, 2011, p.139).

O enfrentamento armado e a imposição de uma nova lógica social


conferem aos rebeldes africanos o resgate do reconhecimento de sua
humanidade, antes, como o texto descreve, em Hegel o escravo era
responsabilizado por seu infortúnio e condição [...]“era o próprio es- cravo o
responsável por sua falta de liberdade, ao haver inicialmente optado pela vida
em lugar da liberdade, pela mera autopreservação”[...] (BUCK-MORSS, 2011,
p.145).

O desencadear de ideias elencadas pela autora traz o leitor para


estratégias mais sutis de escravidão impostas e as resistências manifestas nas
lutas de classes.

O segundo trabalho sugerido para leitura encontra-se no livro “Os


condenados da terra”, escrito em 1968 por Frantz Fanon, a solicitação de
leitura é para os capítulos “Da violência” e “Conclusão”. Trabalho em que o
autor concentra energia em refletir acerca da colonização e descolonização de
territórios.

O capítulo intitulado “da violência” apresenta argumentos que


sustentam a condição de violência que estão submetidas as colônias pelos
colonizadores e considera a descolonização a reivindicação mínima do
colonizado. As cidades das colônias são cidades cuja violência cultural é
predominante, há uma negação das culturas do nativo. Os povos colonizados
fazem seus os pensamentos dos colonizadores pela incapacidade de mediação
cultural.

A ruptura com esses processos perpassa, segundo o texto, pela


condição de historicizar a pilhagem produzida em período colônia para iniciar
uma historia da nação.

Referências

BUCK-MORSS, Susan. Hegel e Haiti. Novos estud. - CEBRAP, São Paulo ,


n. 90, p. 131-171, jul. 2011 . Disponível em <
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-
33002011000200010>. acessos em 29 out. 2019.
http://dx.doi.org/10.1590/S0101-33002011000200010.

BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto. 2. ed.


Rio de Janeiro: Covilização Brasileira, 2016. 287 p. Tradução Marina Vargas.
Fanon, Frantz (1968). Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Editora
Civilização Brasileira. https://www.geledes.org.br/wp-
content/uploads/2015/07/Os_condenados_da_Terra-Frantz-Fanon.pdf

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