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Entrevista TV Escola Neuroeducação

Maria Helena Guimarães Hora do Enem é o Na infância se


de Castro aponta as programa mais visto “—ă×ʨÊØ«ÿÊÃã—“
urgências do MEC na emissora pública leitura e da escrita

EDUCACAO
revistaeducacao.com.br

ANO 23 Nº258

DROGAS:
o problema está dentro da lei
Ao contrário do que propaga o senso comum,
substâncias ilícitas não são a maior ameaça à saúde
“ÊܶÊó—ÃÜʂŒ—Œ«“¼Ê˼«¼—¢¼«ÿ“˜Âè«ãÊ
«ÜÕؗʍèՁÃã—“Ê×藍؁¹—Êè
CARTA AO LEITOR EDUCACAO
JORNALISTA FUNDADOR
Edimilson Cardial

De cara limpa DIRETORA


Rita Martinez

A
Ano 23 - Nº 258 - maio de 2019
ISSN 1415-5486
www.revistaeducacao.com.br
reportagem de capa desta edição foi pensada e feita com
http://twitter.com/revistaeducacao
o cuidado que o tema exige, pela carga de polêmica, ur-
Editor: Marco Antonio Araujo
gência e gravidade que carrega. E assumimos o risco marcoaraujo@editorasegmento.com.br

calculado de uma abordagem a partir de pesquisa reali-


Colunistas: TECNOLOGIA
zada pela Fundação Oswaldo Cruz, instituição ligada ao Fernando Louzada, Desenvolvedor:

Gabriel Perissé, João Jonas Veiga Anderson Lopes


Ministério da Saúde e contratada para realizar o maior
Sobral, José Pacheco, Sérgio Rizzo

estudo sobre consumo de drogas da história do Brasil. MARKETING/WEB

Diagramação: Diretora de Marketing:


Concluído em 2016, o 3º Levantamento Nacional Domi- Simône Midori Maki Carolina Martinez

SØʶ—ãʢ؂ăÊʂ Gerente de Marketing:


ciliar sobre o Uso de Drogas nunca foi divulgado pela
Pedro Ursini Mariana Monné

Secretaria Nacional de Política de Drogas, a Senad, ór- Colaboradores: Editor de vídeo: Gabriel Pucci

Amaro Dornelles, Camila Ploennes,

gão do Ministério da Justiça responsável por encomendar o amplo trabalho. Diego Braga Norte, Eduardo ASSINATURAS

Marini, Lilian Cristine Hübner, Supervisora: Cláudia Santos


Esse embargo resultou, como sempre, no inverso do que toda censura al- Marina Kuzuyabu (textos); Eventos Assinaturas: Simone Melo

Maria Stella Valli (revisão)


meja: despertou indignação e curiosidade – no caso, de legítimos setores da
Processamento de imagem: Educação é uma

sociedade preocupados em traçar políticas públicas a partir de dados reais Paulo Cesar Salgado publicação mensal da Editora

SØʓ萊ʢ؂㍁ʂ Segmento destinada a mantenedores,

e não de crenças, impressões ou interesses ocultos. Sidney Luiz dos Santos educadores e interessados em

educação. Essa publicação não se


aʓÊ—“荁“ÊØ܁Œ—×藁«Ã¡Ê؁ŠÊ˜Ê«Ü—ă«—Ãã—ؗèØÜÊՁ؁ã؁ÿ—Ø PUBLICIDADE responsabiliza por ideias e conceitos

Gerente: Márcia Augusta de Paula emitidos em artigos ou matérias


adolescentes e jovens ao debate sobre as consequências do uso de substân-
marcia@editorasegmento.com.br assinadas, que expressam apenas

cias que possam levar ao vício, à dependência e, no limite, a tragédias com Executiva de Negócios: o pensamento dos autores, não

Margarete Rios Silva representando necessariamente a


seus diversos graus de custo e sofrimento. opinião da revista. A publicação se

WEB reserva o direito, por motivo de


HÊÃÜèÂÊ“—“ØÊ¢ÜÊÃã«ÃèܗÓÊè«—ÃÜÊ“—܁ăÊʃÜʃÊ—ÃÊÜ
Subeditora: Laura Rachid espaço e clareza, de resumir

pelas estatísticas disponíveis (e as quais todos temos o direito de conhecer, laura@editorasegmento.com.br cartas e artigos.

ã˜Ձ؁ÊÃã—ÜãØʜʃぼó—ÿ—Ü㗶ÂÊÜ“—«ùÃ“Ê“—ó—ØÊӗ㍁ÕÊØこ—

entrada para questões mais graves.

E, na escola, nada é mais tóxico do que a ignorância.


Editora Segmento
Rua Paulistânia, 551
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Central de atendimento ao leitor


Marco Antonio Araujo, editor De 2ª a 6ª feira, das 8h30 às 18h
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Revista Educação 8
SUMÁRIO

10 ENTREVISTA
Maria Helena
Guimarães de Castro
Ex-presidente do Inep e integrante do
ÊÃܗ¼¨ÊB«ÊÁ¼“—“荁ŠÊ“—ぼ¨
o que considera fundamental na agenda
educacional do país

38 INCLUSÃO
Atendimento especializado
Quais são as dúvidas mais comuns para escolas
e redes de ensino cumprirem a lei e de fato
e mais
«Ã¼è­Ø——Üã蓁Ãã—܍Ê“—ă«›Ã«Ü
18 Canal do leitor
19 Só no site
22 Mosaico
30 Educação em números
34 Leituras educadoras
64 Neuroeducação
76 TV pública
80 Pedagogia

48 CAPA 88 Aprendizagens
É O ÁLCOOL 90 Diálogos
A verdade dos números
Governo embarga pesquisa que poderia dar novo
92 Panorâmica
enfoque ao problema do consumo de drogas
entre jovens, para além dos mitos e equívocos
de interpretação sobre as substâncias ilícitas
94 Entre margens

Revista Educação 9
ENTREVISTA
Maria Helena Guimarães de Castro

TEMOS

URGÊNCIAS
Um dos principais quadros do PSDB na área de
educação, ex-presidente do Inep aponta as tarefas
«Ã“«‚ó—«Üܗؗ—́«è“Ü՗¼ÊA
| Eduardo Marini

P
oucos intelectuais prestaram tantos serviços ÊÂʁܗèÊ؁ó¼«ÊÜã؛ÜÕث—«ØÊÜ
à educação brasileira, nas últimas duas dé- —ܗÜ“ÊAʃÜʌʍʁÓÊ“—V«Ø“Êq˜¼—ÿ
cadas e meia, do que a socióloga e educado- Vʓح¢è—ÿʃÁ¢—ÜãŠÊ7«Ø ʼÜÊÁØÊʊ
ra paulista Maria Helena Guimarães de Cas- Foram, de fato, confusos. Em primeiro lugar,
tro. Mestre em Ciências Políticas, integrante houve desarticulação e muitas trocas na equipe,
do Conselho Nacional de Educação (CNE) e 15 ou 16 pessoas no período, que culminaram com
“Êʫ㛫—Ãã­ăÊ“ÜÜʍ«ŠÊ ؁ܫ¼—«ʢ a saída do próprio ministro. Isso gerou falta de
ra de Avaliação Educacional (Abave), profes- continuidade e um desgaste interno que, obvia-
sora aposentada da Unicamp, atuou também mente, dificultaram as coisas. Além disso, deram,
como pesquisadora do Núcleo de Estudos de Políticas Pú- na maior parte desse período, prioridade a temas
blicas na mesma universidade. A ação em cargos da admi- ideológicos que, a rigor, são pontuais e menores
nistração pública também ocupa parte importante de seu no universo de carências e problemas a resolver
currículo. Entre outras tarefas, foi secretária de Educação na agenda educacional do país. Mas alguns de seus
de Campinas (SP) e do Estado de São Paulo, presidente do colaboradores, sobretudo na secretaria executiva,
Inep e secretária executiva do MEC nos mandatos de Fer- iniciaram conversas e participaram de algumas
nando Henrique (PSDB) e Michel Temer (PMDB), dentro reuniões conosco no Conselho Nacional de Educa-
da cota tucana. Nesta entrevista à Educação, ela analisa os ção, e também com o Conselho Nacional de Secre-
primeiros meses de ação do governo Jair Bolsonaro (PSL) tários de Educação, o Consed, e a União Nacional
ÃÊ«ëÜã˜Ø«Ê—Â×è—ãÃãʁãèÊèʃÊÜ×聫Ü×聼«ăÊè“— dos Dirigentes Municipais de Educação, a Undime.
confusos; detalha o que considera urgente e fundamental Estavam buscando alternativas e caminhos, mas
na agenda educacional do país a partir de agora; e opina foram atropelados pelas crises internas. Acho im-
sobre temas colocados em pauta pelos gestores, como en- portante registrar que havia gente séria e bem in-
sino a distância, homeschooling e escola sem partido. “Para tencionada nessa equipe principal, com intenção
ser sincera, nem desejo mais me alongar ou mesmo falar de criar pontes para o diálogo, mas o fato é que
sobre escola sem partido. Sou contra - e acabou”, resume. não conseguiram.

Revista Educação 10
Marcelo Camargo/Agencia Brasil

Governo Bolsonaro tem dado


prioridade “a temas ideológicos
pontuais e menores no universo de
carências e problemas a resolver
na agenda educacional”

Revista Educação 11
ENTREVISTA
Maria Helena Guimarães de Castro

H×è—“—ã—Ø«ÃÊ聍Êáè܊Êʊ car ideias. Como eu não os conheço, penso que, com essa
As disputas entre os grupos que chegaram ao MEC a demonstração de vontade a princípio, devo criar uma ex-
partir da posse do novo governo. Basicamente, o grupo pectativa positiva a partir de agora.
político-ideológico, de viés conservador; o técnico, com
Luiz Tozi e a alguns auxiliares trazidos do Centro Pau- H¼¨—ÂÊÜՁ؁¡Ø—Ãã—ʂ×聫Ü܊ÊÊÜÕÊÃãÊÜÕثͫՁ«Ü
la Souza para a secretaria executiva, e alguns militares e urgentes da agenda do MEC e da educação brasileira a
que conseguiram espaço no ministério. O embate inter- ՁØã«Ø“—Üã——ùãÊÂÊ—ÃãÊʊ
ÃÊ—Ããؗ—Ü܁Ü¡ÊؐÜŒÊèÕÊØ“«ăè¼ãØÊ—́«èʢ São três. A prioridade número um, total, absoluta, é
mento de pontos mais estratégicos e decisivos da agenda Ê —́«èÂ—ÃãÊʃ 󫁌«¼«ÿŠÊ¼—¢¼ʃ —ÜãØèãè؁¼ — ăʢ
de que o país necessita. nanceira da renovação do Fundo de Manutenção e De-
senvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos
«ÃĄè›Ã«“—H¼óÊ“—Ø󁼨ÊʃÊÃÜ«“—؁“Ê SØÊăÜÜ«ÊÁ«Ü““荁ŠÊʃÊ"èӗŒʈó—Ø܊ʁã聼“—Üʢ
¢èØè“ÊÕؗܫ“—Ãã—ʊ te fundo acabará em dezembro de
Pois é... Além de tudo o que 2020. É preciso criar um grupo de
—è “«Üܗʃ —Ü܁ «ÃĄè›Ã« —ùã—ØÁ trabalho urgente para isso. O tema
ãØÊèù— “«ăè¼““—Ü “««ÊÁ«Ü — está em discussão no Congresso
contribuiu para deixar o ambien- O Fundeb, a BNCC Nacional, os governadores e pre-
te ainda mais instável. Mas, dito
tudo isso, minha expectativa é a
e a Base Nacional de feitos permanecem mobilizados e
preocupados. É imperioso que o
“—×è—ÊAʃ¢Ê؁ʃÊ——ʃăʢ Formação Docente MEC apresente uma nova propos-
nalmente, a andar. É bom lembrar
que, pouco antes da saída do mi-
são as grandes ta para o Fundeb até dezembro de
2018, janeiro de 2019 no máximo. É
nistro Vélez, houve os importantes prioridades a urgente. É para ontem.
anúncios de continuidade do pro-
grama pró-Base Nacional Comum serem enfrentadas Prioridade dois...
Curricular, a BNCC, e também do
repasse de recursos para os es-
neste momento Em segundo lugar, é necessário
concluir a implementação da BNCC.
tados e municípios terem como Esse trabalho foi iniciado em 2018.
desenvolver os trabalhos. Depois Agora, para ser concluída, necessita
desses comunicados, boa parte dos educadores, gestores e de estrutura, recursos e, igualmente fundamental, de diá-
líderes institucionais da Educação passou a admitir a pos- logo com os estados e municípios. Ela está aprovada, as
sibilidade de que a agenda correta seria recolocada nos ações estão aí, e um dos últimos atos do ex-ministro Ros-
trilhos mais cedo do que se pensava. Mas aí houve a troca sieli Soares foi o empenho de recursos para acompanhar a
do ministro e a montagem da nova equipe, o que sempre aplicação da Base em estados e municípios. O MEC conse-
gera alguma cautela, até mesmo pelo tempo de substitui- guiu liberar esse dinheiro dias atrás. Os estados e municí-
ção e retomada dos trabalhos na prática. pios simplesmente não conseguirão estabelecer a forma-
ção de professores e a revisão dos currículos nos padrões
ܗèÊ؁Ê藍——Ü܁—×è«Õ—“ÊÃÊóÊ«ëÜãØÊʃ da Base sem a ajuda direta do MEC e do governo.
ŒØ¨Âr—«Ãã؁èŒʊ
Não. Mas, sinceramente, espero e torço para eles acer- ÕÊØăÂʈʈʈ
tem e encontrem o caminho o mais rápido possível. Eles A viabilização da Base Nacional de Formação Docente,
já se reuniram com integrantes do Consed, da Undime que foi o último projeto que o MEC encaminhou ao CNE
e também de algumas ONGs ligadas à Educação. Plane- ÃʁÃÊՁÜ܁“Êʈ,ÜÜÊ—ù«¢«Ø‚“—ă됊Ê“ÕØËÕØ«Õʼ­ʢ
jam encontros conosco, no CNE, em maio. Querem ser tica de formação de professores para a nova realidade,
ouvidos, mas parecem também dispostos a ouvir e a tro- com residência pedagógica feita em ambientes escolares

Revista Educação 12
CELLEP.COM
FACEBOOK.COM/CELLEP

Cel.Lep promove Uma escola que entregue uma car a metodologia do Cel.Lep e
metodologia de qualidade aca- acompanhados por especialis-
uma escola moderna ba se destacando no mercado. tas durante todo o processo.
O gestor tem a responsabi- Nesta era globalizada, é funda-
lidade de conhecer a base mental ter um conhecimento A parceria também contempla
pedagógica de sua escola, a fim de inglês bem estruturado, as- assessoria em gestão e consul-
de criar um ambiente propí- sim, criamos as “Soluções Edu- toria pedagógica durante todo
cio para evoluções constantes, cacionais Intracurriculares”. o ano letivo.
evitando que a escola se torne
obsoleta em seus métodos de O Cel.Lep leva seus mais de 51 SOLUÇÃO BILÍNGUE
ensino. anos de experiência para as Esta opção contempla os be-
escolas parceiras, com cur- nefícios da modalidade Cel.Lep
Uma instituição moderna pre- sos para crianças a partir de 2 Sistema, mas com uma abor-
cisa estar atualizada com as anos, a fim de prepará-las para dagem mais intensiva, através
mudanças tecnológicas e da so- qualquer situação com a língua de programas interdisciplinares
ciedade. Assim, ela é capaz de inglesa. Com foco na leitura, e muita conversação na rotina
formar indivíduos conscientes e escrita e conversação, o curso diária escolar.
preparados para os desafios do busca capacitar os estudantes
Século XXI. para o mercado de trabalho São até 10 horas de aulas por
globalizado, também por meio semana distribuídas na grade
Dentro deste contexto, o gestor de exames internacionais e in- curricular.
pode se valer de algumas ferra- tercâmbios.
mentas para auxiliá-lo. EXTRACURRICULAR
Confira abaixo mais informa- (IN SCHOOL)
O INGLÊS ESPECIALIZADO ções sobre cada uma das mo- Esta é uma modalidade que
E O ENSINO REGULAR dalidades das Soluções Educa- contempla cursos Kids e Te-
Uma de nossas ferramentas é cionais do Cel.Lep: ens na versão padrão do Cel.
a promoção de um ensino de Lep, ministrados em horários
qualidade em todas as disci- CEL.LEP SISTEMA alternativos às aulas regulares.
plinas, inclusive na de língua Esta solução permite que os As aulas acontecem na escola
estrangeira. É comum crian- alunos estudem inglês por até com professores e materiais do
ças e adolescentes se matri- quatro horas semanais, com Cel.Lep.
cularem em cursos de idiomas material didático exclusivo do
extracurriculares, mesmo ten- curso e metodologia do Cel.Lep Se você entende a importância
do essas matérias na escola. na grade curricular da escola. de promover um ensino de idio-
Isso deve-se ao fato de o idioma Conteúdos e atividades são mas de qualidade, acesse o site
não ser aplicado com tanta pro- inseridos na grade para que o do Cel.Lep (www.cellep.com) ou
fundidade na grade escolar. idioma seja aprendido de ma- ligue (11) 3199-5838 para obter
neira mais natural. mais informações.

Os professores de inglês da
escola são treinados para apli-

Revista Educação 13
ENTREVISTA
Maria Helena Guimarães de Castro

e outras ferramentas. Precisamos disso para que tenha- do ensino infantil, algo fundamental para a melhoria do
mos educadores mais bem preparados, com integração aproveitamento de nossos adolescentes e jovens na esco-
permanente entre teoria e prática. O objetivo é fazer com laridade futura, o que os índices nacionais e internacio-
que os futuros professores saiam da faculdade com co- nais nos mostram ser fundamental.
nhecimento de rotina escolar e comportamento de alu-
no em grupo, entre outros pontos que apenas a realidade Qual é a situação da Base Nacional de Formação
Ê¡—Ø——ʃ Üʌؗãè“Ê Ձ؁ è ÕØÊăÜ܊Ê ×è—ʃ  Ø«¢ÊØʃ ˜  ʍ—Ãã—ÃÊBʊ
Š— “— ãʓÜ Ü Êèã؁Ü ÕØÊăÜÜӗÜʈ ʃ “—ÕÊ«Üʃ󗶁 Œ—Âʂ Estamos discutindo. Essa questão da formação dos
os professores precisarão conhecer bem a BNCC, que é professores exige que o MEC encontre, efetivamente, um
grande, inovadora e multifacetada. Como eles terão con- caminho para um diálogo franco com o CNE e, sobre-
dições de trabalhar os fundamentos da Base sem serem tudo, com os representantes da base de educadores, as
preparados para isso? As prioridades são essas. ՗ÜÜʁÜ“ ‚Ø—ʃ ÊÜ ×è— ؗ¼Â—Ãã— —Ãã—Ó—Â ÕØÊăÜÜ«Ê-
nalmente e colocam em prática, todo santo dia, esse ne-
E o que seria importante gerir em seguida gócio chamado educação. Essa equipe do MEC é, em sua
—ÜܗÜã؛ÜÕÊÃãÊÜʊ grande maioria, composta de novatos que não acompa-
Os eixos principais da agenda a partir de agora são esses nharam a agenda educacional nos últimos anos e déca-
– e eles estão consolidados, diria até mesmo consagrados, das. Se realmente houver a disponibilidade ao diálogo e
pela suprema maioria dos especialistas, independente- à consideração das avaliações dos que conhecem histori-
mente de posicionamento político-ideológico. A partir daí, camente a área, estou disposta a colaborar – e estou certa
precisaremos trabalhar, logo depois, a reforma do ensino de que muitos outros colegas da área pensam da mesma
˜“«ÊʃÃʍÊÃã—ùãÊ“ Bʃ—“—ăëØ—¼¨Ê؁—ÜãØèãè؁ forma. Os conturbados 90 ou cem dias iniciais do MEC
Marcelo Camargo/Agencia Brasil

Imagino ser
impossível não
realizarem o Enem;
há mais de cinco
milhões de alunos
com inscrição
encaminhada

Revista Educação 14
Revista Educação 15
ENTREVISTA
Maria Helena Guimarães de Castro

no governo Jair Bolsonaro impediram, precisamente, de E são poucas as pessoas que conseguem isso. Tanto que
se dar algum andamento a esses três pontos-chaves e a o índice médio de abandono de curso superior no EAD é
alguns outros que vêm logo em seguida. Mas devemos ser de 50% - e estamos falando de graduação. O EAD é uma
otimistas e torcer para dar certo. É o que procuro fazer. realidade no mundo digital e globalizado, há projetos
Precisamos de ação imediata, mas ainda há tempo. em todo o mundo. Mas ele exige um tipo de aluno mui-
ãʍÊÂÕØÊ—㫓Êʃ—ÂÜ«ã聐ӗÜ—Ü՗­ăÜʃ—ÊÊÃè
ܗèÊ؁¡Ê«è“Ü«Üã«óÜÊ¼ŒÊ؁“Ê؁Ü plataforma muito ampla.
do MEC nos dois governos de Fernando Henrique
Ø“ÊÜÊʈ)‚¼¢èÂՁ؁¼—¼Ê—ÃãؗÜ“«ăè¼““—Ü ÊÜث܍ÊÜ×藁—Âؗ¼«ÿŠÊ“Ê×—Üã—
encontradas na transição do MEC sob FHC para o ÃÊʊa—Ø—ÂÊÜÊ—ùÂ—ʊ
¢Êó—ØÃÊ;輁—Üó«ÜãÜ¢Ê؁ʃÁՁÜ܁¢—“—A«¨—¼ Penso que sim. Imagino ser impossível não realizarem.
a——ØՁ؁7«Ø ʼÜÊÁØÊʊ Há mais de cinco milhões de alunos com inscrição en-
Estive no governo FHC de 1995 até parte de 2002, como Â«Ã¨“ʈÜעʍ«Ó—ÜՁ؁ÃÊó¢Ø‚㍁Ձؗ—Â
presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesqui- concluídas, e os jovens e sociedade, antes de tudo, dese-
sas Educacionais Anísio Teixeira, o Inep. Depois, assumi jam o Enem e acreditam nele. Seria um ato de loucura não
a secretaria executiva do MEC. Foi uma transição orga- realizá-lo. É verdade que é caro, mobiliza mais de 900 mil
nizada e civilizada para o professor Cristovam Buarque, pessoas, inclusive das Forças Armadas. Uma operação de
o ministro escolhido por Lula para iniciar seu primeiro guerra. O que precisamos fazer é buscar uma maneira
ÓãÊʃ—ÂȻȹȹȼʈAÜÃÊ,×Õʃ—Ü՗«ăÂ—Ãã—ʃ¨Êè- de modernizá-lo nas próximas edições. Torná-lo prático,
ve problemas graves, uma situação confusa no início do menos caro, com mais de uma edição por ano, eventual-
governo. O professor que assumiu a presidência do insti- —Ãã—Êü«Ã—ʈÃăÂʂØØèØ¡Ê؁Ü“—Êã«Â«ÿØÕ¼«-
tuto, em janeiro de 2003, tinha como meta simplesmente cação e os resultados. Mas acabar com ele, nem pensar.
acabar com todas as avaliações estabelecidas até então.
Queria extinguir o Provão, as análises do ensino supe- H×藁ܗèÊ؁¨“Ê—ÃÜ«ÃÊ“Ê««¼«Øʃ
Ø«ÊØʃÊZ—Œʃ—ÃăÂʃãʓÜÜó¼«Ó—Ü“«ÜÕÊíó—«Üʈè- o homeschoolingʊ
rou seis meses. Saiu no início de julho de 2003. Era um Os países que têm o homeschooling o adotaram depois
professor da USP, não me lembro do nome dele (n. da r.: de resolverem questões estruturais básicas da educação
trata-se do físico e professor da USP Otaviano Helene). Os para os tempos atuais. No caso do Brasil, acabamos de
anos de 2003 e 2004 foram de confusão e descontinuida- enumerá-las nesta conversa. Não é o nosso caso, infe-
de no Inep. Depois, houve certa correção. Os problemas lizmente. O país ainda tem 1,7 milhão de crianças e ado-
da transição atual são outros, bem mais ligados às diver- lescentes de 12 a 17 anos fora da escola, um problema
gências técnicas e ideológicas entre os grupos do que a importante de atraso de alfabetização e altas taxas de
um pensamento individual. abandono escolar a partir dos 12 anos. Ainda falta muito
para universalizarmos o ensino médio. Não li o texto da
O governo Bolsonaro demonstra intenção de expandir lei. Soube, por reportagens, que tomaram cuidados im-
Ê—ÃÜ«Ãʁ“«Üã„Í«ʈH×藁ܗèÊ؁՗Ã܁Üʌؗ«ÜÜÊʊ portantes. De qualquer forma, penso que países como o
No caso da formação de professores, não acredito em Brasil não devem assumir um processo do tipo enquanto
um processo cem por cento apoiada nesse modelo. O não tiverem essas questões básicas equacionadas.
ideal é a formação híbrida, que combine encontros pre-
senciais com desenvolvimentos de projetos e situações a E do projeto Escola Sem Partidoʊ
distância. E também, claro, as interações escolares pre- Sou contra. Manifestei-me várias vezes sobre isso. Fere
vistas na residência. No caso do ensino regular, na uni- a liberdade de expressão e de opinião, além de destruir a
versidade, médio e mesmo fundamental, penso que ele autonomia do educador em sala de aula. Para ser sincera,
exige disciplina, concentração e comprometimento do nem desejo mais me alongar ou mesmo falar sobre este
aluno em altíssimo grau para dar resultado satisfatório. tema. Sou contra – e acabou.

Revista Educação 16
Revista Educação 17
CANAL DO LEITOR
SUA OPINIÃO
POTENCIAL Envie suas cartas
Douglas Soares:
Eu penso, como futuro professor, mas, principalmente, como estudante e mensagens para
×è—¡è«ʃÜÊè—ܗÂÕؗܗؗ«ʃ×藁¼ÜÜ«ăŠÊÕè؁—Ü«ÂÕ¼—ÜÕÊØÃÊじ
“—ă«ã‚Ø«ʃ¡¼«Ê܁—ʃ¼˜Â“«ÜÜÊʃ聓—ÜãØ諓Ê؁“—ÜÊèÊÜʈÜ՗ØÊ×è—
Revista Educação:
tais discussões aumentem e muito.
(Em resposta à coluna do prof. João Jonas Veiga Sobral No conselho de
classe, e compartilhada na rede social da Educação.)

Rua Paulistânia, 551


POVOS ORIGINÁRIOS
Carolina Peron: CEP 05440-001, São Paulo – SP.
É essencial sabermos sobre as nossas raízes, sobre as nossas origens. Mais
visibilidade, é disso que os povos indígenas precisam. Cartas e mensagens devem trazer
(Em resposta à matéria “Escrevem sobre os indígenas desde 1500, só o nome e o endereço do autor.
que muitos não têm noção do que é um povo indígena”, divulgada na rede
social da Educação.)
Os comentários publicados em
“Sua opinião” podem passar por

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DA PALMATÓRIA À RITALINA
Entenda por que a
infância precisa ser
“—Ü—“«¼«ÿ“
Alguns psicólogos, psiquiatras,
assessores pedagógicos e outros
profissionais criticam os diagnósticos,
segundo eles, sem fundamento
científico, na infância por Déficit de
Atenção com Hiperatividade (TDAH)
e dislexia, por exemplo, e que acabam
introduzindo nos pequenos uma
medicação muitas vezes indevida e,
o pior, que afeta o desenvolvimento
de cada um deles. Os medicamentos
receitados mais comuns são os à base de
cloridrato de metilfenidato, substância
presente na Ritalina ou Concerta.
O Brasil só perde para os Estados
Unidos no consumo dessa droga,
sendo que nos últimos dez anos,
houve um aumento de 775% no uso,
período que passou a ser autorizado
para as crianças, revela pesquisa
feita pela Uerj (Universidade
Estadual do Rio de Janeiro). Leia
mais sobre o caso com a opinião de
especialistas no site da Educação.

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Jovem brasileira
㍁—ÂȺȸ¼è¢ØÁ
Olimpíada Europeia
Feminina de
Matemática

Arquivo pessoal
Aos 17 anos, a gaúcha Mariana presença, somando nove medalhas e
«¢Ê¼«Ã#ØÊė¼—óÊèÜÊ聓 uma menção honrosa.
medalha de ouro — título inédito
para o país — na 8ª Olimpíada RECONHECIMENTOS
Europeia Feminina de Matemática As conquistas de Mariana, que
(EGMO, na sigla em inglês), que levou o ouro, são inúmeras:
aconteceu de 7 a 13 de abril, em ela já ganhou 28 medalhas em
Kiev, na Ucrânia. competições nacionais e cinco
Com 196 estudantes de 49 países, em competições internacionais.
a Olimpíada rendeu ao Brasil a Na EGMO, ano passado a gaúcha
20ª posição geral com o também ganhou medalha de prata e,
esforço da carioca Maria Clara em 2017, ficou com o bronze.
Wernerck e da fortalezense Ana Já na Olimpíada Brasileira de
Beatriz Studart, ambas com Matemática das Escolas Públicas
17 anos, e que garantiram ao (OBMEP) ela ficou em primeiro
país duas medalhas de bronze. lugar seis vezes.
Bruna Arisa Shoji Nakamura, de Ex-aluna da Escola Estadual Cardeal
16 anos, de São Paulo, e Maria Roncalli, em Frederico Westphalen,
Clara de Lacerda Werneck, de 17 Rio Grande do Sul, a jovem
anos, do Rio de Janeiro, também recentemente ganhou uma bolsa
participaram da competição. integral para estudar em um colégio
É a terceira vez que o Brasil marca particular em Fortaleza.

Revista Educação 22
DESCASO COM A PRIMEIRA INFÂNCIA
AINDA É LATENTE
Falta de vagas em creches do país continua
sendo problema. A qualidade do espaço também
merece atenção, defende instituição

A Fundação Maria Cecília Souto Vidigal desenvolve pesquisas e outras


QUANDO AS RAÍZES
atividades sempre com o intuito de aprimorar políticas públicas com
foco na primeira infância. Segundo o arquivo de dados da instituição, o
SÃO RECONHECIDAS
acesso de crianças de zero a três anos nas creches passou de 16% em 2005
para 32,7% nos dias atuais. Já na pré-escola, o total de crianças matricu-
Há cerca de 270 línguas
ladas passou de 72% para 90%, no mesmo período. indígenas só em território
Porém, o cenário continua falho e desigual. A Pesquisa Nacional por brasileiro, e foi apenas
Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), divulgada em 2018, aponta que em 2019 que uma dessas
um terço dos alunos de zero a três anos mais pobres do Brasil estão fora ¨—؁ЁÜÃ—Üã؁«Ü¡Ê«
da creche por falta de vaga. abraçada pela educação
A Fundação alerta que o foco não deve ser somente nas matrículas, do não indígena. No
mas também na qualidade das creches, em outras palavras, defende
caso, a cidade mineira
×藁ܫÃÜã«ã諐ӗÜ“——“荁ŠÊ«Ã¡Ã㫼ŒØÜ«¼—«ØÜã—èÂÕØÊăÜÜ«ÊÁ«Ü
de Bertópolis, no Vale
×聼«ă“ÊÜʃ Õ؂㫍Ü ՗“¢Ë¢«Ü —ÃØ«×藍—“Ê؁Üʃ ãè؁Ü ՗×è—ÁÜ
por educadores, espaço físico e materiais apropriados. Outra prioridade
do Mucuri, interior de
deve ser na formação dos professores e também na comunicação das es- Minas Gerais, é a primeira
colas com as famílias. cidade do Brasil a incluir
Âܗã—ÂŒØʓʁÃÊՁÜ܁“ÊʃèÊ՗؁ŠÊ“—ă܍¼«ÿŠÊ“ÊaØ«Œè- uma língua indígena — a
nal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP), com 253 creches muni- maxakali — no currículo
cipais de 215 municípios do estado, encontrou colchões mofados. Para escolar das escolas
piorar, 5% dos espaços visitados davam alimentos vencidos para os pe- municipais. Cerca de
quenos. Segundo o site G1, em 42,69% das creches também foram en-
20% da população de
contradas situações que poderiam colocar em risco a segurança das
Bertópolis, que gira
crianças, como brinquedos com ferrugem, pregos e parafusos aparen-
ã—ÜʃぐŠÊ—ùÕÊÜし¢ØÃ“—×èÃ㫓“—“—¡ÊØ«¢è—«ØÊÜ—ÂՁØ×è«Ã¨ÊÜʈ
em torno de cinco mil
Vale lembrar que, este ano, o Instituto Nacional de Estudos e Pes- ¨Œ«ãÃã—Üʃ˜«Ã“­¢—Á—
quisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) avaliará pela primeira vez costuma falar sua língua
a educação infantil. tradicional e o português.
HÕØÊ¡—ÜÜÊ؁ÿ«Ã¨Ê
Maxakali sai de sua aldeia
Shutterstock

para ensinar mais de 200


alunos não indígenas a ler
e escrever. A proposta é
uma forma de diminuir
o preconceito contra os
povos originários
e ainda aproximá-los
da população.

Revista Educação 23
MOSAICO

CAMINHOS PARA
A EDUCAÇÃO
Mozart Ramos lança
livro gratuito sobre

Juan Guerra
sistema educacional
do país

Vetado pela bancada evangélica a ser ministro da Edu- cem crianças que ingressam no primeiro ano do ensino
cação do governo Bolsonaro, o educador e diretor do Ins- fundamental, apenas 59 concluem o ensino médio.
tituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos, acaba de lan- Mozart é professor e pesquisador há mais de 40 anos e
çar o livro Sem Educação não haverá futuro (ed. Moderna, acredita que a internacionalização, programação e inovação
publicado pela Fundação Santillana). A obra de 106 pági- são essenciais para o futuro da educação. “Nos principais
nas reúne 21 artigos feitos pelo autor de 2016 a 2018 e está rankings mundiais de universidades, a inovação e a inter-
disponível gratuitamente na internet. nacionalização vêm ganhando destaque cada vez maior. No
O educador faz um diagnóstico dos caminhos per- ×è—ܗؗ¡—Ø—†ÕØʢ؁ŠÊʃŒè܍ÕÊØÕØÊăÜÜ«ÊÁ«Üܗ؂
corridos pela educação brasileira nas últimas décadas e Ø—܍—Ãã——ÂãʓÊÊÕ¼Ã—ãʈÜ՗ØÊăØ——Ãã—×è——Üã—
ÕØÊÕӗèؗĄ—ùŠÊ“Ê¡èãèØÊ“Ê—ÃÜ«ÃÊʈÃãؗÊÜ㗁Ü ¼«óØÊÕÊÜ܁ÊÃãØ«Œè«ØՁ؁ÂÕ¼«Ø—×聼«ăØÊ“—Œã—“
ŒÊؓ“ÊÜ—ÜãŠÊÊ“—܁ăÊ“¼¡Œ—ã«ÿŠÊʃ×聼«““—“Ê —“荁ŠÊŒØÜ«¼—«ØʈBŠÊ¨‚ã—ÂÕʁ՗ؓ—Øʮʃă؁ʈ
ensino, formação de professores e a preparação dos jo- Para ler o livro online acesse www.moderna.com.br/
vens para o mundo do trabalho. Segundo o autor, de cada responsabilidade-social/publicacoes/publicacoes.htm

Shutterstock

A VOZ É DOS ESTUDANTES


Desde agosto do ano passado, a sueca Greta Thun-
berg, 16 anos, falta às aulas toda sexta-feira para ir
ao Parlamento sueco, em Estocolmo, exigir medidas
contra o aquecimento global. A menina se considera
uma militante climática.
A manifestação de Greta inspirou jovens do mun-
do todo, que passaram a aderir ao Friday for Future
(sexta-feira para o futuro). Em 15 de março deste ano,
houve uma greve escolar global, em que alunos foram
às ruas protestar pela vida do planeta.
Diagnosticada com síndrome de Asperger, o re-
conhecimento mundial veio em dezembro de 2018,
quando a ativista participou da COP24 – Conferência
sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas, reali-
De casaco roxo segurando cartaz, Greta participa de zada em Katowice, na Polônia. Greta também esteve
uma marcha pelo meio ambiente organizada pelos em Davos para o Fórum Econômico Mundial e chegou
estudantes em Bruxelas, em 21 de fevereiro de 2019 a conversar com o Papa Francisco.

Revista Educação 24
Revista Educação 25
MOSAICO
VIOLÊNCIA
SEM CONTROLE?

Fotos: Shutterstock
Agressão em ambiente escolar chega a
números expressivos, alerta pesquisa

Episódios de agressão física ou verbal de alunos a pro- FALTA DE ESTÍMULO


¡—ÜÜÊؗÜ—ãÂŒ˜Â¡èÍ«ÊÂثÊÜ¡Ê؁ÊÃă؁“ÊÜÕÊØ No Saeb, também chama a atenção que 60% dos
metade dos diretores de escolas públicas, e cerca de 10% professores do ensino médio cumpriram menos de
deles dizem ter sido ameaçados pelos estudantes. As infor- 80% do planejado. Segundo os diretores escolares,
mações são do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Bá- a falta de recursos financeiros é um dos principais
sica) 2017, realizado a cada dois anos no país e divulgado re- motivos da situação.
centemente. Mais de 70 mil escolas da rede pública e cerca A ausência de material didático, em 2017, é a queixa de
de 5,5 milhões de alunos participaram da avaliação. mais da metade dos diretores, sendo que há estados cuja
A pesquisa — desenvolvida e gerenciada pelo Inep — taxa de reclamação ultrapassou 70%. Em Rondônia, 75,3%
ÕÊÃだ×è—ʃ —ÜÂÊ ɀȻ˟ “ÊÜ “«Ø—ãÊؗÜ ă؁ÓÊ ¨ó—Ø reclamaram da falta dos livros; Mato Grosso, 75,3%; Distrito
projetos sobre violência, 72,4% dos professores revelam que Federal, 73,2%; Espírito Santo, 70,2%, entre outros.
no último ano houve agressão física e verbal entre alunos. Sobre leitura, cerca de 58,6% dos professores leem livros
Já sobre as atividades de estudo, 56,7% dos estudantes sempre ou quase sempre. Em relação aos alunos, conforme
declaram fazer as lições de casa de português sempre ou os anos passam, a frequência à biblioteca ou ao espaço de
quase sempre, 25,5% fazem às vezes e 13,4% nunca ou qua- leitura diminui: no 5º ano, 29,6% dos estudantes frequen-
se nunca. Quando o assunto é matemática, 52,6% sempre tam esses ambientes sempre ou quase sempre; já no 3º ano
fazem as tarefas, 26,7% de vez em quando e 16,6% nunca. do ensino médio, apenas 11,8%.

SEM PROFESSOR E SEM INFRAESTRUTURA


Em 2018, durante cerca de oito meses, 46 escolas municipais de São Paulo
¡Ê؁Âă܍¼«ÿ“Ü՗¼ÊaØ«ŒèÁ¼“—ÊÃãÜ“ÊAè덭իÊʛaAʜʈSØ㫍«ÕØÂ
das entrevistas 542 alunos dos 7º, 8º e 9º anos e 504 professores.
Assim como no Saeb, a violência nessa pesquisa também é sentida: cerca de
68% dos professores ouvidos contam que já sofreram agressão verbal de estu-
dantes ou responsável. Dados do TCM também mostram que 17,8% das escolas
sofreram invasão, assalto ou furto ano passado.
Quase metade das escolas possuía disciplinas sem professor, e 43,5% não são
—ÜÜ­ó—«ÜՁ؁՗ÜÜʁ܍Ê“—ă«›Ã«ʈÂؗ¼ŠÊÊÜ¢—ÜãÊؗÜʃ×èÜ—ɀȹ˟
não são efetivos nos cargos.
A precariedade dos banheiros é uma das principais queixas dos alunos. Os
ă܍«ÜÊÊ—ÍÊÃã؁؁—«Ü“—こ—“Ü—܍ʼÜÜܗÃãÊÜÃÊÜóÜÊÜ܁-
nitários e só 30% possuíam papel higiênico.
Em nota, a Secretaria Municipal da Educação informa que a amostragem
analisada representa apenas 1,3% da rede, uma vez que o município conta com
3,5 mil escolas e 1 milhão de estudantes.

Revista Educação 26
Revista Educação 27
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estruturada no contexto de investigação de aprendizagem, onde crianças e
jovens aprendem a trabalhar com projetos e desenvolvem a persistência
necessária para colocar seus planos em prática e a resiliência essencial para
enfrentar os grandes desafios que a vida proporciona ao longo dos anos.

Além disso, apresentaremos soluções imersivas, rápidas e inspiradoras,


alinhadas com os conteúdos de STEAM (Ciências, Tecnologia, Arte, Engenharia e
Matemática) e com a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que as escolas
vêm procurando para aumentar a oferta de serviços para as famílias.

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EDUCAÇÃO EM NÚMEROS

Enem em risco
Principal meio de acesso ao
ensino superior, prova tem
seu conteúdo questionado e
viabilidade ameaçada
| Marina Kuzuyabu
Shutterstock

Depois da demissão de sua viabilização. Problemas principal meio de acesso ao


Marcus Vinicius Rodrigues, técnicos, que incluem o ensino superior no Brasil
ocorrida durante a curta e fechamento da gráfica que e, recentemente, passou
tumultuada gestão de Ricardo imprimia o teste, acenderam a ser usada como meio
Vélez Rodríguez, o Inep o alerta de um possível de admissão por diversas
(Instituto Nacional de Estudos atraso. O Enem também instituições portuguesas.
e Pesquisas Educacionais está sob pressão do novo Os dados estatísticos
íܫÊa—«ù—«ØʜăÊèÕÊØ governo, que já afirmou mais recentes divulgados
aproximadamente um mês diversas vezes a necessidade pelo Inep mostram que
sem presidente. O problema de eliminar questões mais da metade das
¡Ê«ؗÜʼó«“ÊÃÊăÁ¼“— consideradas “ideológicas”. pessoas que realizam a
ŒØ«¼ʃ×èÃ“Ê¡Ê«Êă«¼«ÿ“ Um comitê chegou a ser prova têm renda familiar
a nomeação do delegado da montado para fazer uma mensal entre R$ 788 e
Polícia Federal Elmer Coelho triagem das perguntas, mas R$ 1.182,00. Mais de 80%
Vicenzi para o cargo. Ex-diretor a ideia foi aparentemente delas estudaram somente
do Departamento Nacional de deixada de lado. em escola pública e uma
Trânsito (Denatran), Vicenzi Criado em 1998, o exame grande parte tem entre 17
atuava na Corregedoria-Geral é aplicado anualmente a e 19 anos. Há também um
da PF desde novembro de 2018. milhares de estudantes – um grande contingente entre
Entre outras número, aliás, muito superior 20 e 25 anos, o que explica o
responsabilidades, o novo ao de concluintes do ensino alto número de pessoas
presidente terá de realizar o médio. Em 2017, esse universo que realiza o Enem.
Enem. A prova está marcada foi de 1,9 milhão, enquanto o ÊÃă؁ÃÊܢ؂ăÊ܁Ê
para novembro, porém, há uma de inscritos no Enem chegou lado mais detalhes sobre o
grande discussão em torno de a 6,7 milhões. A prova é o público da prova.

Revista Educação 30
ESCOLA QUE FREQUENTOU:
TOTAL Somente Parte em escola pública Parte em escola pública Somente em escola Somente em
escola pública e parte em escola e parte em escola particular sem escola particular
privada sem bolsa de privada com bolsa de bolsa de estudo com bolsa de
estudo integral estudo integral integral estudo integral

6.731.340 5.559.087 205.734 109.226 692.238 165.055

PARTICIPANTES POR IDADE: NÚMERO DE INSCRITOS POR SEXO:


IDADE INSCRITOS
Masculino: Feminino:
<17 404.152
2.784.585 3.946.756
17 a 19 2.641.003
20 a 25 2.053.284

26 a 30 675.891
31 a 40 650.825
41 a 60 296.567

61 até 70 ou mais 9.619 PESSOAS QUE SOLICITARAM 305


ATENDIMENTO PELO NOME SOCIAL:

NÚMERO DE INSCRITOS NO DESEMPENHO POR ÁREAS:


ENEM SEGUNDO A RENDA CIÊNCIAS DA NATUREZA E SUAS TECNOLOGIAS

MENSAL DA FAMÍLIA: Média: 511,8


Pontuação máxima: 886,6

CIÊNCIAS HUMANAS E SUAS TECNOLOGIAS


VBABZ;"A,;,VʙVˌʚ ,BZV,aHZ
Média: 518,8
Pontuação máxima: 868,3
Sem renda 289.515
LINGUAGEM, CÓDIGO E SUAS TECNOLOGIAS
Até 788,00 1.910.039

788,01 até 1.182,00 1.652.220 Média: 510,2


Pontuação máxima: 788,8
1.182,01 até 3.152,00 1.994.196

3.152,01 até 6.304,00 582.512 MATEMÁTICA E SUAS TECNOLOGIAS

6.304,01 até 11.820,00 204.119 Média: 518,7

11.820,01 até 15.760,00 ou mais 98.739 Pontuação máxima: 993,9

REDAÇÃO

Fonte: Sinopse Estatística do Exame Nacional do Ensino Média: 558,5


Médio (ENEM) / Inep – 2017 Pontuação máxima: 1.000

Revista Educação 31
LEITURAS EDUCADORAS

DEUS
Shutterstock
NOS LIVROS

Üʌ؁Üã—ʼˢ«ÜÕʓ—ÂܗØ—¼è«“ã«óÜʃÕÿ—Ü“—¡Ê؁Ø
cidadãos ativos e livres de fanatismo
| GABRIEL PERISSÉ

C
omo nos ensinou Umberto Eco, o livro é mundo afora. As palavras cortam o coração, martelam
uma invenção humana insuperável, como a a cabeça, é possível pensar na complexidade de tudo
da colher, da roda, do martelo e da tesoura. e no possível sentido das coisas. Deus nos livre de não
Você pode tentar martelar um prego utili- termos livros que nos ajudem, por exemplo, a desco-
zando um livro (de preferência, com capa ŒØ«ØÊÜÃʗ܁ÕØÊÕØ«“Ê܁ÊÜÃÊÜÜÊÜ—Ü՗­ăÊÜ—Ü-
dura), mas é do martelo que você sente falta tados de ânimo: tédio é uma coisa, ansiedade é outra,
na hora de pregar um prego. Aliás, o prego é a tristeza é algo diferente de angústia, que é diferente
outra invenção fantástica. de amargura, que é diferente de desalento.
Você também pode tentar compreen- Não à toa as religiões mais difundidas guardaram nos
der a eterna inadequação humana à realidade empu- seus livros sagrados as histórias e os argumentos que as
nhando corajosamente um martelo, ou uma tesoura. levariam para além do seu lugar e do seu momento de
Contudo, tesouras e martelos não têm a menor possi- origem. Sobretudo o cristianismo, seguindo o exemplo
bilidade de ajudá-lo, nesse caso. Mais adequado será do judaísmo, valoriza enormemente o livro (na verdade,
Ê—Ø¼—؁¼¢èÃܼ«óØÊÜ“—ă¼ÊÜÊăʃ¨«ÜãËØ«ʃÕÜ«- a Bíblia reúne dezenas de livros), e continua, vinte sécu-
cologia, sociologia, teologia... los depois, produzindo milhares de livros para comen-
No livro, as ideias nos alimentam, nos fazem rodar tar, interpretar, entender e difundir o único Livro.

Revista Educação 34
DEUS É O ÚNICO ASSUNTO acadêmica, ela ocupa (quando ocupa) um cômodo pe-
Carlos Drummond de Andrade escreveu, na década ×è—ÃÊʃÂʌ«¼«“ʍÊÂÂʓ˜Ü㫁ʈZèؗ¼—ÿăÊèÃÊ
de 1970: passado. Talvez agora, no entanto, possamos redesco-
brir seu verdadeiro papel no conjunto dos saberes, se
ÚNICO considerarmos que em todos os temas, e em todos os
livros, o único problema é o Sentido.
O único assunto é Deus O Deus da Bíblia é o Deus da Palavra. A Palavra en-
o único problema é Deus sina, orienta, mas também cria, mobiliza. O teólogo
o único enigma é Deus èÜã؁¼«ÃʨØ¼—ÜV«Ã¢ÂʃؗĄ—ã«Ã“ÊÜʌؗ܁Œ—-
o único possível é Deus doria ancestral, observa que Deus é também o Deus
o único impossível é Deus da Ação, pois essa Palavra é geradora e produtiva. É
o único absurdo é Deus palavra que faz o que diz, e cumpre o que promete. É
o único culpado é Deus palavra que faz sentido.
e o resto é alucinação. Uma leitura faz sentido quando provoca uma ação
lúcida. Quando nos salva da alucinação e dos funda-
O poeta brinca com a formulação clássica do mono- mentalismos, dos reducionismos e dos ceticismos es-
teísmo. Deus é único, no sentido de que só há um Deus. téreis. Quando cria um movimento “de” “para”, e esse
AÜʁ“¶—ã«óÊܗ“—ܼʍ—ՁÜ܁×聼«ăØÊʭÜÜèÃ- “para” é para longe dos abismos desatinados, onde ou-
to”, o “problema”, o “enigma”, o “possível” e o “impossí- vimos o choro do desespero e o ranger de dentes pro-
vel”, o “absurdo” e o “culpado”. Em última análise, Deus vocado pelo ódio.
está sempre na origem e no destino de todas as coisas. As duas preposições “de” e “para” compõem uma
—èܘ—ã—ØÁ“«ÜèÜ܊Ê—èÂÕʗܗÂăÂʈ proposta de leitura. Se a palavra “Deus” for substituída
O resto é alucinação, lembrando, ironicamente, pela palavra “Sentido”, podemos falar nas leituras teo-
Êó—ØÜÊ ¶‚ «ØÍëÊ “— Sè¼˅ q—ؼ«Ã—ʃ Õʗだ“Ê ܘè¼Ê lógicas como leituras educadoras, elucidativas, capazes
19: “Et tout le reste est littérature”. Verlaine referia-se de nos converter em leitores cidadãos, leitores ativos,
àquele tipo de literatura artificial e ilusória que ele participativos, produtivos, colaborativos. Deus nos li-
jamais chamaria de verdadeira literatura, ou de ver- vre de todo fanatismo!
dadeira poesia. Então, quando o assunto é poesia e política, edu-
Drummond, agnóstico, mas hipersensível, produz cação e ciência, e economia, e religião, e ecologia, e
nesta única estrofe do poema um discurso alucinado, qualquer outro, a busca de sentido transborda o livro
em que o único assunto é Deus. E o resto (ou seja, o e nos torna capazes de dizer palavras plausíveis, su-
que não é Deus) já perdeu toda a relevância aos olhos gestivas, palavras que atuem positivamente sobre a
do fanático. Para o fanático, Deus é o único assunto de realidade, que dialoguem com os leitores de todas as
real interesse. A própria educação estaria divinamente crenças e visões.
encaminhada se a única disciplina fosse Deus, se a úni- A leitura teológica reintegra-se aos debates públicos.
ca avaliação fosse Deus, se a única didática fosse Deus. O único assunto não é Deus, mas, sendo Deus onipre-
Contudo, são tantos e tão variados os problemas da sente, a sua ausência é notada.
área educacional. São tantos absurdos (a começar pela Teologicamente falando, o absurdo conversa com a
absurda desvalorização dos professores) no dia a dia fé, o enigma conversa com o milagre, o problema dia-
das nossas escolas. Pensando bem, o único enigma na loga com o mistério, o impossível dialoga com o mila-
educação é que ainda precisemos repetir o óbvio: sem gre... e o resto é discurso alucinado.
educação, tudo é alucinação.

LEITURAS MOBILIZADORAS
Na Idade Média, a teologia era considerada a rainha
de todas as ciências e sentava-se no trono da univer- Gabriel Perissé
é professor da PUC-RS, escritor e palestrante
sidade, que ela própria havia fundado. Hoje, na vida www.perisse.com.br

Revista Educação 35
Adaptações básicas, como rampas
acessíveis, podem ser construídas

ESCOLA PÚBLICA mesmo antes de a escola receber


ãØ­è¼Ü“—¼èÃÊ܍Ê“—ă«›Ã«

INCLUSÃO:
MODO DE FAZER
Para auxiliar escolas e redes de ensino a cumprir a lei e de fato incluir
—Üã蓁Ãã—܍Ê“—ă«›Ã«ÜʃؗÜÕÊӗÂÊ܁¼¢èÜ“Ü“é󫓁܁«ÜÊÂèÃÜ
Üʌؗ—ÜܗÕØʍ—ÜÜÊʃ“¡Ê؁ŠÊ“ÊÜÕØÊăÜÜ«ÊÁ«Ü†—ÜãØèãè؁ŠÊ“Ê
| Camila Ploennes, da revista Escola Pública

Revista Educação 38
A
o menos desde 2008, quando a Política Na- AEE deverá ser ofertado na própria escola ou em outra
cional de Educação Especial na Perspecti- unidade parceira que já ofereça o atendimento.
va da Educação Inclusiva foi lançada pelo Para a professora, a base do bom trabalho de gestão é
MEC, as escolas têm passado por transfor- entender que o AEE não é uma etapa de ensino ou uma
mações no seu modo de pensar e praticar sala de reforço dos conteúdos curriculares. “Na realida-
não só a recepção de crianças e jovens com de, o atendimento educacional especializado é uma mo-
“—ă«›Ã«Üʃã؁ÃÜãÊØÃÊÜ¢¼ÊŒ«Ü“Ê“—Ü—Ã- dalidade complementar que oferece ajudas técnicas ao
volvimento e altas habilidades ou superdo- —Üã蓁Ãã—ÃʍÊÃã؁ãèØÃÊ—ܗÊÂè덁ÊÂÊÜÕØÊăÜ-
ぐŠÊʃ Ü ãʓÊ Ê —ÃÜ«ÃÊʈ Ê ؗă؁Ø  sionais da escola para dar condições de o aluno frequen-
natureza complementar da educação especial e deter- tar a sala de aula regular com sua capacidade, autonomia
minar como deve acontecer o Atendimento Educacional e o apoio que precisar no grupo. Entender essa novidade
Ü՗«¼«ÿ“ÊʛʜʃÕʼ­ã«ó—«ÊՁ؁؁ã«ăØ×è—˜ é entender a educação especial”, reforça.
tempo de a escola comum ensinar a todos, considerando
Ü“«ăè¼““—Ü—Õ«““—Ü“—“՗ÜÜʁʈ IMPLANTANDO A INCLUSÃO
)ʶ—ʃ ÃÊÜ ÕËÜ —Üܗ ؍Ê Õʼ­ã«Êʃ ÊÜ “—܁ăÊÜ “ —ù՗ث›Ã«“—܍ʼS#AØă¼¨ —¼¼Êã«ʃ“—#è-
inclusão se apresentam diariamente para gestores de rulhos, na região metropolitana de São Paulo, exempli-
rede e diretores de escolas, pois, diante da diversidade ㍁—ÜܗÕØʍ—ÜÜÊ“——Ãã—Ó—ØՁ؁Õ؁㫍ØʈÊÊؓ—-
“Ü“—ă«›Ã«Ü—ܗèÜíó—«Ü“—ܗó—Ø«““—ʃ×ÂܗÂ- nadora Leonice Amaro de Almeida conta que consegue
pre há respostas prontas para todas as demandas, mas ver os efeitos do projeto de AEE iniciado pela Secreta-
uma série de providências para garantir que os estu- ria Municipal de Educação, mas que o começo foi um
dantes aprendam na sala de aula regular e participem ¢ØÃ“—“—܁ăÊʈʭa«ó—ÂÊÜ“—ؗ—Ս«ÊÁØÊÜÃÊóÊÜÕØÊ-
do AEE no contraturno. fessores para essa realidade e sensibilizar os que já tra-
“Ler o que o MEC determina para a educação especial balhavam aqui antes. Levou tempo para chegar ao pon-
é o primeiro dever de qualquer gestor de rede ou dire- to em que estamos e ainda agora precisamos lidar com
tor. Por lei, eles precisam estar preparados para receber a rotatividade de professores, fruto do próprio sistema
a qualquer momento um aluno com algum tipo de de- “—¼ÊぐŠÊ“ܗØ—ãØ«ʮʃă؁;—Ê덗ʈ
ă«›Ã«ʃÊÊÕʓ—Â×¢ØÊ¡—Øこ——ÃÜ«ÃÊÕÊ؁ó- O projeto da rede de Guarulhos é o de ampliar o nú-
liar que a escola não está preparada”, alerta Maria Teresa mero de escolas que oferecem AEE até que todas as suas
Égler Mantoan, professora da Universidade Estadual de unidades possam fazer esse trabalho. Em 2011, existiam
Campinas (Unicamp) e coordenadora do Laboratório de 12 escolas preparadas para o atendimento, incluindo a
Estudos e Pesquisas em Ensino e Diferença (Leped). S#AØă¼¨ —¼¼Êã«ʃ——Ü㗁ÃʁÕؗó«ÜŠÊ˜×藍¨—-
gue a 60 unidades. No atual formato, essas unidades de
PRIMEIRA VIAGEM ensino que oferecem o atendimento funcionam como
Uma das maiores referências em educação inclusi- escolas-polo de AEE, recebendo tanto seus próprios
va no Brasil, Maria Teresa é autora do livro Inclusão ¼èÃÊ܍Ê“—ă«›Ã«Ü“«ó—Ø܁Üʃ×èÃãʍثÃÜ-
escolar: O que é? Por quê? Como fazer? (Summus Edito- triculadas em outras escolas próximas, chamadas “es-
rial, 2015). Em entrevista exclusiva para a reportagem, colas de abrangência”, de forma que todas as crianças
ela explica que, ao receber o primeiro aluno com de- Ê“—ă«›Ã«ã›Â“«Ø—«ãʁʁã—ӫ—ÃãÊʈ
ă«›Ã«ʃÊ“«Ø—ãÊØ“—ó—ܗ«Ã¡Ê؁ØÜʌؗ¼—«—ÊÃ- S#AØă¼¨ —¼¼«Êã«ã—ÂȽȺȻ—Üã蓁Ãã—܁ãØ«è-
versar com pais, coordenadores e professores sobre as lados e realiza o atendimento educacional especializa-
—Ü՗«ă«““—Ü“Ê—Üã蓁Ãã—ʃÊÂÊʃÕÊØ—ù—ÂÕ¼Êʃܗ do de 38 alunos – contando os da própria unidade e os
Gustavo Morita (2015)

ele precisará de um cuidador para se locomover e se de outras escolas. Uma das pendências da rede ainda é
alimentar. Em seguida, precisa procurar a secreta- o oferecimento de transporte dos alunos das escolas de
Ø«“—“荁ŠÊՁ؁Üʼ««ãØÕØÊăÜÜ«ÊÁ«Ü——×è«Õ- abrangência para o AEE.
mentos de sala multifuncional necessários para aque- Para o trabalho de AEE, a escola conta com uma
le caso, e também para questionar se, a princípio, o professora que trabalha oito horas por dia e tem uma

Revista Educação 39
ESCOLA PÚBLICA
semana dividida entre os atendimentos dos grupos
de alunos, no contraturno das aulas, e as visitas a
coordenadores pedagógicos e professores das salas
regulares, muitas vezes assistindo às aulas para aju-
dar o professor a encontrar o melhor canal de ensino
com cada aluno.
Para auxiliar gestores, professores e pais, responde-
mos, com o auxílio de especialistas, a algumas das dúvi-
das mais recorrentes de quem está no início ou em pleno
processo de inclusão.

DÚVIDAS COMUNS SOBRE COMO INCLUIR


OS ALUNOS COM DEFICIÊNCIA NA ESCOLA

1
Qual deve ser a formação do professor da sala regu-
Gustavo Morita

Divulgação
¼ØՁ؁¼«“ØÊÂ聼èÃʍÊ“—ă«›Ã«ʊ
Segundo Maria Teresa Mantoan, todo professor, em
qualquer graduação, precisa ser formado para pensar
que o ensino é para todas as crianças, considerando Maria Teresa Mantoan, da Unicamp: AEE ajuda
×藍“èã—ÂÜèÜ“«ăè¼““—Üʃã—ÓÊ“—ă«›Ã« o aluno a frequentar as aulas regulares
ou não. “Hoje, os cursos de formação inicial e até mes-
mo os estágios ensinam o professor a dar aula para o
que ele imagina ser um aluno padrão, o que não existe”, Maria Teresa Mantoan ressalta que quando uma es-
aponta. “Já a formação continuada deve acontecer em cola passa a oferecer AEE, deve buscar parcerias com
serviço, dentro da escola, não só a partir do que é pro- outras instituições que oferecem treinamento de Lín-
posto pela secretaria, mas a partir do estudo dos pro- gua Brasileira de Sinais (Libras) para os professores,
blemas da própria escola e do que dizem os pais, con- èØÜÊÜՁ؁¼«“ØÊ“«ăè¼““—Ü“—ÊØØ«“Ü“—Œ«ù
siderando o aluno como ele é e não uma idealização. visão ou de mobilidade e assim por diante. “O AEE es-
Cada um de nós é um ser singular para o qual aprender tuda os casos que são encaminhados a ele, dialoga com
tem suas nuances”, reforça Maria Teresa. a família, com especialistas e com professores da sala
ؗ¢è¼Ø—󁫁ã؂Ü“—Ձ؍—Ø«Üʮʃă؁ʈ

2
ÊÂÊ“—ó—ܗ؁¡Ê؁ŠÊ“ÊÕØÊ¡—ÜÜÊØ“Êʊ

3
“É importante esclarecer que o professor do AEE Uè—“—ó—ܗثͼ譓Êʊ
˜èÂÕØÊ¡—ÜÜÊØʃÊÊè—Ü՗«¼«ÜãÁÜ“—ă«›Ã«Üʮʃ Todos devem ser incluídos. “Se a criança consegue
explica Guacyara Labonia, coordenadora-geral da Mais ir para a escola, é importante que ela vá. Mas até mes-
Diferenças Educação e Inclusão Social, organização mo para a criança acamada, cuja questão médica a im-
que entre seus projetos desenvolve consultoria e trei- possibilita sair de casa, porque usa aparelho de oxigênio,
namento em escolas, em parceria com secretarias de por exemplo, há a opção de um professor atendê-la em
Educação. Segundo ela, a formação continuada para o casa”, explica Guacyara. Nesse caso, o professor que se
AEE acontece na prática com os alunos e suas especi- desloca trabalha os mesmos conteúdos abordados pelo
ă«““—Üʈ ʭH ÕØÊ¡—ÜÜÊØ “Ê  ó—Ø«ă Ê ×è— Õؗ«Ü ÕØÊ¡—ÜÜÊØ—Â܁¼ÊÂÊ¢ØèÕÊʃ“«ó—ØÜ«ăÃ“ÊÜã«ó«-
ser providenciado para que a educação daquele alu- dades de acordo com as possibilidades do aluno acama-
no aconteça na sala de aula regular. Por exemplo, se do. Mesmo em casa, a criança pode ter contato com a
ele precisa de uma lupa ou de uma telelupa, se isso já sala via internet. O atendimento domiciliar existe tanto
melhora sua rotina na escola. O professor está pronto Ձ؁ÜÊÜ“—“—ă«›Ã«×èÃãÊ“—“ʗЁÜʈʭZ——Ü-
×èÃ“Êܗ“«ÜÕӗ՗Ã܁Ø×藍“՗ÜÜʁÊ“—ăʢ cola tem dúvida diante de situações como essa, deve se
ciência é uma pessoa.” mobilizar e procurar a secretaria de Educação”, diz.

Revista Educação 40
Revista Educação 41
ESCOLA PÚBLICA

4 7
Há algum caso em que o antigo modelo de Há resistência de parte da comunidade surda em
escola especial é mais apropriado para a relação à escola regular. Muitos pais alegam que a
—܍ʼØ«ÿŠÊʊ Ø«Ã ㍁ «Üʼ“ʈ SÊØ ÊèãØʼ“Êʃ¨‚ Ձ«Ü ×è— “—-
Segundo Guacyara, a criança se desenvolve mui- ¡—Ó—ÂÊ—ÃÜ«ÃÊ“—¼­Ã¢èÕÊØãè¢è—܁—ã˜Ê؁¼«ÿ-
to mais na escola regular do que num lugar só para ção das crianças surdas. Como preparar a escola para
crianças como ela. A coordenadora da Mais Diferen- ؗ—Œ—؁¼èÃÊÜÜèؓÊÜʊ
ças explica que por muito tempo se acreditou que a Maria Teresa Mantoan explica que toda escola deve,
criança autista, por exemplo, não poderia frequentar por lei, ter um intérprete de Língua Brasileira de Sinais
a escola regular, porque, dependendo da severidade, (Libras), mas o professor regente da sala também pre-
o autista pode demonstrar comportamento agressivo. cisa aprender Libras, tanto para falar com as crianças
ʭAÜ¨Ê¶—ʍÊÃܗ¢è—«“—Ãã«ăØ×èÃ“ÊʍÊØؗ surdas como para estimular e ensinar as crianças que
agressividade e como evitá-la, porque as crianças não não são surdas a se comunicarem nessa língua. “Não é
܊Ê ÜÜ«Â ܗÂÕؗʃ —¼Ü ㍁ ¢Ø—ÜÜ«óÜ — ÂÊ—Ã- para a escola oralizar os surdos. É para ela praticar Li-
ãÊÜ—Ü՗­ăÊÜʈSʓ—ܗØ×èÃ“ʨ‚Âè«ãÊŒØ輨ÊÊè bras com todas as crianças. A resistência de parte da
qualquer outro motivo”, explica. Ela ressalta que juntar comunidade surda ainda é grande, porque há escolas
em uma mesma escola todas as crianças com autismo, que não se mobilizam para garantir esse direito”, des-
— ÜÊ—Ãã— —¼Üʃ “«ăè¼ã  ÕؗÓ«ÿ¢— “ÊÜ ¼«Â«ã—Ü taca. Hoje, há cursos de formação de professores que
da convivência em sociedade. “Os próprios colegas e oferecem Libras como disciplina obrigatória, mas as
professores dão os limites. Essa convivência dirá se o redes podem fazer parcerias com universidades que
que a criança precisa é de um agente de inclusão para oferecem cursos de especialização.
acompanhar a mobilidade, a alimentação e a higiene, Guacyara, que trabalha principalmente com escolas
ou de um professor auxiliar para mediar mais de perto bilíngues português-Libras, concorda. “Se não há mui-
a relação com o grupo e o ambiente. Se ela precisar, a tos alunos surdos em um município, mas existe uma
escola pode e deve solicitar esse apoio à secretaria de escola-polo de AEE, a escola inteira pode se tornar bi-
Educação”, esclarece. língue, trabalhando tanto com o intérprete quanto com
ÊÕØÊ¡—ÜÜÊØÕØÊă«—Ãã——Â;«ŒØÜʃ×藍¨ÂÂÊÜÕØÊ-

5
HÕʓ—ܗØÊ¡—Ø—«“Ê—Âè듁“—ÜʢÕʼÊʊ fessor de dupla docência”, explica. Segundo ela, algu-
O AEE ainda não existe em todas as escolas, por Ü—܍ʼÜÊÃãÂÊă¢è؁“ÊÕØÊ¡—ÜÜÊØÜèؓÊʃ
isso é comum as redes proporem escolas-polo de AEE, Âè«ãÊ—ă«—Ãã—×èÃ“ʁè듁“—ؗ—Œ—聍ثÃ
como acontece em Guarulhos (SP). “Na maioria dos ca- que não entende Libras nem português. “Isso acontece
ÜÊÜʃÊÜՁ«Ü㍁—́Øؗ¢“ÊÜ“—¼—óØÜØ«ÃÜՁ؁ ×èÃ“Êʁ¼èÃÊ˜ă¼¨Ê“—Ձ«ÜÊèó«Ãã—Ü×è—ÊÊ܁Œ—Â
o AEE no contraturno. Não é o ideal em uma grande ci- Libras. Esse professor surdo pode fazer um reforço de
dade, mas funciona em municípios pequenos que têm Libras no contraturno”, aponta.
escolas sem AEE próximas a uma escola com o aten-

8
dimento”, pondera Guacyara. Além de atender os alu- Ainda existem escolas públicas especiais ou esco-
nos e trabalhar com os professores da própria escola, o las públicas em convênio com outras instituições
professor de um polo de AEE precisa se deslocar para a “——“荁ŠÊ—Ü՗«¼—¡èÍ«ÊÁ—ÃãÊʈSÊØ×è›ʊ
escola de abrangência para fazer a articulação com os ʭ#—؁¼Â—Ãã——¼Üؗ—Œ—ÂÂè«ãÜ՗ÜÜʁ܍Ê“—ăʢ
professores da sala regular que lecionam para os alu- ciências que já são adultas, porque a rede não proporcio-
nos que ele atende. nou espaços de convivência ou a escola não as direcio-
nou para a Educação de Jovens e Adultos. Isso acontece

6
A rede deve oferecer transporte quando o AEE é muito por pressão dos pais, que muitas vezes não sabem
ؗ¼«ÿ“Ê—ÂÊèã؁—܍ʼʊ ×聼 ܗØó«Ê ÕØʍè؁Ø ÕËÜ Ê ă¼¨Ê è¼ã؁ՁÜ܁Ø  «““—
“Segundo a legislação, a criança tem de estudar per- escolar”, explica Guacyara. Ela aponta que essas unida-
to da casa dela. Portanto, as redes precisam garantir ou des, diante da nova política, não podem receber mais
isso ou o transporte, tanto para a aula regular quanto matrículas e que aos poucos deverão ser transformadas
para o AEE”, explica Guacyara. pelas redes em centros de convivência ou pontos de cul-

Revista Educação 42
Revista Educação 43
elevaplataforma.com.br
ESCOLA PÚBLICA

Gustavo Morita (2015)

BÊÃó«ó›Ã«Êãè؁“Üè¼Üؗ¢è¼Ø—Ü“—ó—ÂܗØ“—ă듁܁Ü׍—ÜÜ«““—Ü
da criança, como a existência de um cuidador ou um professor auxiliar

ãè؁ ÕØÊăÜÜ«ÊÁ¼«ÿÃã—Üʈ ʭÜÜ«Âʃ Ü Ø«ÃÜ ՗×è—ÁÜ ao banheiro sozinha, ela precisa de um cuidador por
são encaminhadas para outras escolas e os adultos são um tempo, até ganhar autonomia. Se um aluno tem
direcionados à EJA, que também dá direito ao AEE, ou paralisia cerebral que compromete o movimento para
Ձ؁èØÜÊÜÕØÊăÜÜ«ÊÁ¼«ÿÃã—Üʮʃ“—ぼ¨ʈ se alimentar, ele também precisa, por quanto tempo
for necessário. Uma criança autista que é mais agita-

9
ZÊè“«Ø—ãÊØ—«è—܍ʼ«Ã“ÊÊ¡Ê«ÕØʍè؁“ da também pode ter esse auxílio”, explica Guacyara.
ÕÊØ聍ثÃÊ“—ă«›Ã«ʈ—óÊ—Õؗʍèʢ Segundo a política nacional, o cuidador não atua em
Ձ؍ʁ“ÕぐӗÜÁ—ÜãØèãè؁¡­Ü«—ÜÂʁÜÜ«Âʊ questões pedagógicas.
De acordo com Maria Teresa Mantoan, a escola deve

11
ter o essencial, como rampas acessíveis, e providen- E qual a função e a formação necessária para o
ciar as adaptações necessárias a partir do momento em ÕØÊ¡—ÜÜÊ؁èù«¼«Øʊ
que recebe a criança. Isso porque as providências va- O professor auxiliar ajuda o professor a integrar o alu-
Ø«Â“—Êؓʍʍ““—ă«›Ã«ʈSØ¼¢èÃ܍ÜÊÜ no que não está tão adaptado ao grupo ou que tem algu-
pode ser urgente instalar bebedouros com determina- “«ăè¼““—՗“¢Ë¢«—Ü՗­ă—Õؗ«Ü“—è
da altura, em outros pode ser mais essencial colocar mediação mais próxima com a atividade proposta. “Ge-
piso tátil. ralmente o professor auxiliar é estagiário de pedagogia.
Ele deve trabalhar junto com o professor e não ser dei-

10
Qual a função do cuidador em uma escola xado de canto para fazer companhia ao aluno que tem
«Ã¼èÜ«óʊ ¼¢è“—ă«›Ã«—Ã×èÃãÊÊÕØÊ¡—ÜÜÊؼ—«ÊÁՁ؁Ê
O cuidador é contratado e capacitado pela rede de grupo”, alerta Guacyara. Se o professor propõe trabalhar
ensino para auxiliar a criança que não se alimenta, lo- èÂã—ùãÊʃʁèù«¼«ØÕʓ—¶è“‚ʢ¼Ê“«ó—ØÜ«ăØÜã«ó«ʢ
ÊÂÊó—Ê衁ÿÜ聨«¢«—×ÜÊÿ«Ã¨ʈHÕØÊăÜÜ«ÊÁ¼ãÂʢ dades para aproveitar aquele texto tanto com os alunos
bém ensina o aluno a realizar esses cuidados. “Se chega que já sabem interpretação quanto com os alunos que
uma criança com síndrome de Down que não sabe ir ainda estão aprendendo a escrever, por exemplo.

Revista Educação 44
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Revista Educação 45
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CAPA

Shutterstock

Revista Educação 48
UM BRINDE
ao preconceito
Ao contrário do defendido por setores políticos
e religiosos nos últimos anos, país não vive uma
epidemia no consumo de drogas ilícitas: o maior
problema são as bebidas alcoólicas
| Eduardo Marini

U
m estudo profundo, divulgado em abril pelo Instituto Casa da
Democracia e portal The Intercept, recolocou em cena uma das
questões mais delicadas e de difícil enfrentamento no ambiente
da Educação: o consumo de álcool, cigarro e drogas ilícitas por
adolescentes e jovens estudantes brasileiros. O 3º Levantamento
Nacional Domiciliar sobre o Uso de Drogas, contratado por licita-
ção junto à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) por R$ 7 milhões
ÃÊ¢Êó—ØÃÊ«¼ÂVÊèÜܗėʃ—Ããؗ¢è—ÃÊăÁ¼“—ȻȹȺȿʃÃÊ՗حʓÊ
de Michel Temer, e jamais publicado pela Secretaria Nacional de
Política de Drogas (Senad), do Ministério da Justiça, responsável pela enco-
—Ӂʃã؁ÿ«ÊØ؁“«Ê¢Øă“¨«ÜãËØ«“ÊՁ­ÜÜʌؗÊÃÜèÂÊ“—Œ—Œ«“Ü
alcoólicas, tabaco e substâncias ilegais por adolescentes e jovens entre 12 e 17
anos e adultos dos 18 aos 65 anos.
Os pesquisadores ouviram 16.273 pessoas em 351 municípios dos 26 estados
e do distrito federal. Utilizaram a base metodológica da Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios, a Pnad, do IBGE. Uma amostra duas vezes maior, por
exemplo, do que a adotada no último grande estudo nacional, feito em 2005
pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, o Cebrid.
O que permitiu incluir, pela primeira vez, padrões de consumo de zonas ru-
rais e regiões de fronteira. As drogas envolvidas no 3º Levantamento são as
lícitas álcool, tabaco industrializado e não industrializado; e as ilícitas ma-
conha, haxixe ou skank, cocaína em pó, crack e similares, solventes, ecstasy/
MDMA, ayahuasca (cujo consumo não é ilícito), LSD, quetamina, heroína, es-
timulantes e anabolizantes.

Revista Educação 49
CAPA
Os resultados levam a duas conclusões gerais. A de consumo de drogas ilícitas. A segunda: o proble-
primeira: apesar da necessidade de atenção contí- ma principal, que demanda maior atenção, esforço e
nua e de políticas públicas e educacionais eficientes, investimentos, continua a ser exatamente o consumo
mesmo porque qualquer fração pequena de percen- pela molecada do que é lícito socialmente, ou seja,
tual de consumo significa algo considerável diante álcool e tabaco, tanto para o período dos 12 aos 17
de 215,2 milhões de habitantes, o Brasil, ao contrário anos quanto para qualquer outra faixa etária, apesar
do defendido por alguns setores políticos, sociais e da proibição legal de venda de bebida alcoólica para
religiosos nos últimos anos, não vive uma epidemia menores de 18 anos em todo o país.

Alguns pontos da pesquisa


Os números e estatísticas da pesquisa ajudam a co nos últimos 12 meses e, 16,3%, nos últimos 30 dias.
«“—Ãã«ăØÜã—Ü—ÜʈSث—«ØÊʃÊÜ““ÊÜÜʌؗ‚¼Êʼ— ɽ Meninas começam a fumar industrializado, em
cigarro entre adolescentes dos 12 aos 17 anos: média, aos 14,9 anos. Meninos, aos 15,1 anos.
ɽOs meninos começam a consumir bebida alcoó- ɽQuatro em cada dez brasileiros dos 12 aos 65 anos
lica, em média, com 15,7 anos. consumiram álcool nos 30 dias anteriores à pesqui-
ɽAs meninas, um pouco mais tarde, com 17,1 anos. sa. No levantamento de 2005 do Cebrid, eram três a
ɽ34,3%, ou um em cada três entre 12 e 17 anos, be- cada dez.
beu álcool ao menos uma vez na vida. ɽ14,2% usam algum tipo de tabaco.
ɽ22,2% deles, um pouco mais de um para cada cin- Em seguida, os resultados sobre as drogas ilícitas do
co, ingeriu bebida alcoólica nos 12 meses anteriores levantamento na população entre 12 e 65 anos (os por-
ao dia em que foram entrevistados. tais não publicaram esses resultados divididos em fai-
ɽ8,8* dos adolescentes - quase um a cada dez - xas etárias):
beberam nos 30 dias anteriores à data em que fo- ɽ15% dos homens e 5,2% das mulheres dos 12 aos 65
ram questionados. anos consumiram algum tipo de droga ilícita ao me-
ɽNa faixa dos 12 aos 65 anos, pessoas com superior nos uma vez na vida.
completo que já beberam são em maior número do ɽ16,6 anos é a idade média do primeiro consumo.
que as sem instrução ou com fundamental incom- ɽ Um a cada dez brasileiros usou algum tipo de
pleto: 76,4% a 59,5%. droga ilícita ao menos uma vez na vida – maconha na
ɽE, entre os que já fumaram tabaco, pessoas com maioria dos casos.
superior completo são em menor número do que ɽ3,2% consumiram algum tipo de droga ao menos
as sem instrução ou com fundamental incompleto: uma vez no ano anterior à pesquisa.
32,9% a 47,8% ɽE 1,7% nos últimos 30 dias.
ɽ5% da amostra total dos adolescentes, equivalen- ɽ  Maconha: 7,7% uma vez na vida, 2,5% no ano e
tes a um a cada 20, ingeriu bebida em ritmo binge, 1,5% no mês anterior. Os três percentuais caíram em
termo internacional usado para descrever um pa- relação ao levantamento de 2005 do Cebrid, que fo-
drão de consumo rápido e volumoso – o equivalente, ram de 8,8%, 2,6% e 1,9%.
em quantidade de álcool, a quatro doses de destilado ɽCocaína: 3,1% uma vez na vida, 0,9% no ano e 0,3
ou garrafas de cerveja para mulheres e cinco para no mês anterior.
homens, em duas horas ou menos. ɽCrack: 0,9% uma vez na vida, 03% no ano e 0,1%
ɽ6,3% dos adolescentes nessa faixa etária já con- no mês anterior.
sumiram cigarros ɽEcstasy/MDMA: 0,7% na vida, 0,2 no ano anterior
ɽ17,3% da população consumiu algum tipo de taba- e zero estatístico no último mês.

Revista Educação 50
Reprodução Facebook
A avaliação fria do volume de números e estatísticas
mostramos que os percentuais de consumo de todas as
drogas ilícitas no Brasil se estabilizaram e, em alguns
casos, caíram. Mas nem por isso o combate deixa de
merecer apoio, mobilização e até investimentos compa-
tíveis com a dimensão desta parte do problema. “O es-
tudo epidemiológico da Fiocruz é robusto e não mostra
epidemia. Agora, 1% da população tendo relatado uso de
crack pelo menos uma vez na vida é relevante, chama a
atenção”, diz o psiquiatra Luiz Fernando Tófoli, da Uni-
camp. Fato: projetada sobre a população brasileira, são
2,15 milhões de pessoas, número equivalente ao da soma
dos habitantes das cidades de Salvador e Juiz de Fora.
Claro que nem todos se tornaram dependentes. Mas,
diante da capacidade brutal de geração de vício da subs- A explosão do consumo de crack é um mito: Cristiano
tância, muitas vezes até a partir do primeiro uso, não é Maronna vê interesses religiosos e financeiros
difícil imaginar que uma parte importante deste grupo imensos na área do tratamento de usuários
tornou-se dependente. Raciocínio semelhante pode ser
feito em relação à cocaína, consumida ao menos uma
vez na vida por 3,1% da amostra, ou cerca de 6,6 milhões “Há mais de um milhão de pontos de venda de álcool
de brasileiros. Embora não produza dependência como no país. Muitos vendem para menores. Naqueles que
na velocidade estonteante do crack, a cocaína envolveu, não vendem, o amigo da turma com mais de 18 anos
até agora, um volume de pessoas três vezes maior. compra. Hoje a tevê não exibe propaganda de destila-
No outro pilar do estudo, o uso do álcool, incentivado, do até determinada hora da noite mas as de cerveja e
entre outras coisas, pela publicidade cosmética e a alta ices da vida estão lá, lindas, digitalizadas, em ambien-
facilidade de compra, cresce em ritmo pequeno, mas tes de dança, esporte, lazer de jovens, como se aquilo
constante, entre a população, e de forma um pouco mais não fosse para conquistar a faixa sub-18. Querem en-
acelerada entre meninos e meninas na faixa dos 12 aos ganar quem? Sabemos que é. E também como se, por
17 anos. “Quinze a cada cem brasileiros que começam a exemplo, quatro garrafas de cerveja não tivessem mais
beber socialmente se tornarão dependentes do álcool no álcool do que duas doses de destilado”, alerta ele.
Brasil. No caso da maconha, é mais ou menos a metade Um dos mais importantes estudiosos do tema no
ʡ —ʃ «—Ãã«ăÂ—Ãã—ʃ Õʓ—ÂÊÜ “«ÿ—Ø ×è— è܁ “—Õ—Ã- país, pioneiro no estudo e na implantação de polí-
dência psicológica, algo negativo, é claro, mas bem mais tica de redução de danos por aqui, Xavier da Silveira
fácil de tratar, e ainda não comprovadamente física”, ex- «“—Ãã«ă è —×è­óʍÊ —Üã؁㘢«Ê ¡Ø—×è—Ãã— Á ÊÃ-
plica a Educação o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, dução de políticas de combate e orientação de jovens,
doutor em Psiquiatria pela Unifesp e integrante da In- adolescentes e familiares. “É evidente que o combate
ternational Association for Analytical Psychology. às drogas ilícitas exige olhar e trabalho atentos, mas
imagine esse percentual assustador de 15% projetado
sobre os milhões de estudantes adolescentes e jovens
Governo se recusa a na faixa dos 12 aos 18 ou 20, 21 anos, no caso do álcool,

publicar pesquisa da com seu poder devastador de geração de dependên-


cia progressiva, incurável, causadora de desestrutura-
"èӁŠÊHÜô¼“ÊØèÿ ção individual, social e familiar. Qual o tamanho des-
cujos dados desmentem sa base potencial de futuros dependentes? Certamente
imensa. No entanto, como a bebida é a droga social, dos
visão alarmista sobre uso bares, da celebração, de fácil compra e venda, convi-
de drogas ilícitas vemos historicamente com certa anestesia das autori-

Revista Educação 51
CAPA
dades para regular este consumo, enquanto frequen-
temente superestimam, por motivos morais, religiosos
O uso do álcool é incentivado
ou políticos, os prejuízos práticos, constatados na pon- pela publicidade e a alta
ta, causados pelas drogas ilícitas”, acrescenta.
facilidade de compra – e vem
Xavier da Silveira lembra o caso de uma família que
ã—Ó—èՁ؁—ù—ÂÕ¼«ăØ—Ü܁ؗ¼«““—ʈʭfÜ¼ÃÊÜ crescendo entre jovens na
ÕØʍèØÊè“«ÿ—ÓÊ×è—¨ó««Ãã—ØÁ“ÊÊă¼¨ÊՁ؁ã؁ãʢ faixa dos 12 aos 17 anos
mento porque ele tinha assumido que fumava maconha
de vez em quando. Fui avaliar o rapaz no local. Ele disse contextos comuns de vida nessa faixa etária, mostran-
que fumava ‘um baseadinho de vez em quando’. Mas re- do prejuízos que o álcool e as drogas trazem à realidade
velou também que o irmão, um ou dois anos mais velho, deles, os riscos de perdas ocorridos de acordo com os
voltava para casa bêbado, ou sob forte efeito do álcool, de valores deles naquele momento de vida.” O pesquisador
“èÜã؛Üó—ÿ—ÜÕÊØܗÁʡÊ×è—ÊÜՁ«ÜÊÃă؁؁ lembra de uma palestra para jovens, feita em um colégio
nas sessões seguintes”, conta o pesquisador. “Em resumo: paulista, em que foi questionado por um dos professores
o irmão mais velho naquele ritmo, e provavelmente o pai por ter falado de autoestima e rotina dos adolescentes
em duas horas de churrasco num sábado, se intoxicavam em 95% do tempo e quase nada dos efeitos químicos, fí-
e criavam riscos em intensidade muito maior do que os sicos e psicológico do álcool e das drogas. “Expliquei que
dois ‘baseadinhos’ do caçula em um mês”, compara. o discurso denso e com ares de terror não resolve. Se o
Mas o que deve ser feito na implantação das políticas adolescente já usou álcool ou droga, sabe que há efeitos
de prevenção e redução de danos no combate ao uso de agradáveis no início e vai descartar toda a abordagem
álcool, tabaco e drogas ilícitas nas escolas (leia nesta re- ÕÊØ“—܍ÊÃăØ“—¼ʃ“—×藁¡—ÿÊ蓁ܓèÜÊ«ÜÜʈ
portagem entrevista do pesquisador Cesar Pazinatto, autor ܗ¶Â«ÜèÜÊèʃăØ‚ʃÊÂÊãʓʶÊó—“«Ãã—“ÊŒÊÂʢ
de livros sobre o tema)? Em suas consultorias a colégios, bardeio de informações sobre efeitos e alterações, ex-
redes e governos, Xavier da Silveira costuma dividir o tremamente curioso em experimentar para saber qual é
trabalho em três linhas de conteúdo, para educadores, e, eventualmente, ver o mundo de forma diferente.”
pais e jovens estudantes. “Com professores e pais, faço Regina Tocci, professora e pedagoga com especializa-
聁ŒÊؓ¢—Â㘍덁ʃ«—Ãã­ă——Üãã­Ü㫍“Ê㗁 ções em gestão educacional e em dependência química,
em relação a drogas lícitas e ilícitas, com o alerta de que liderou, entre 1998 e 2015, o programa de prevenção de
isso não deve ser passado para os adolescentes em clima saúde e uso de álcool e drogas do colégio paulistano San-
de terror”, detalha. “Entre os alunos, procuro apresentar to Américo, premiado num congresso da Associação Bra-
sileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead).
Arquivo pessoal

O programa tinha formação contínua de professores,


Maria Estela Zanini: a
orientadores, diretores e bedéis, abastecida por encon-
escola tem “a obrigação”
tros regulares com especialistas da Unifesp e do Cebrid,
de dar as melhores e mais
que também conversavam com os alunos. “As aulas que
efetivas informações
tratavam sobre o tema, e também as relacionadas à edu-
para os estudantes
cação sexual, tinham lugar garantido na grade, e como
preparávamos a equipe, elas eram dadas por mais de um
professor”, conta. “A política correta une preocupação,
atenção, formação técnica e apoio aos envolvidos e seus
Ձ«Üʈ,“—Ãã«ăØʍÊÃÜèÂʘ¡èӁ—ÃぼʈBŠÊÕÊØ×è—Üʢ
tão moral, mas para diminuir o risco de a prática crescer
dentro da escola. Por isso até os bedéis foram incluídos
no processo. Além disso, valorizávamos muito o aluno
não consumidor que nos procurava para conversar so-
bre o assunto depois das aulas e palestras. Isso ajudava a
«“—Ãã«ăØÜÊÜÕؗʍèՁÃã—Ü—ÃãؗÊ¼—¢Ü“—¼—ÜʈʃÕÊØ

Revista Educação 52
Revista Educação 53
CAPA
ăÂʃÃèã—ЊÊ“ÊÊÃããʍÊÂÊÜՁ«ÜʃÊÊՁ؁Õè-
nir ou expulsar o aluno, mas para procurarmos, juntos, a
melhor forma de solucionar o problema”, acrescenta ela,
atualmente professora do colégio Pio XII.
A professora Maria Estela Benedetti Zanini, mestre em
Ciências Biológicas, especialista em Dependência Quími-
ca, professora e coordenadora do Programa de Prevenção
Xavier da Silveira
às Drogas e Educação Sexual do Colégio Bandeirantes-
aponta que a
-São Paulo, concorda com a tese de que o problema exi-
maconha tende a
ge mais proteção e orientação e menos (ou quase nada
causar dependência
de) punição. Seu programa também envolve formação de

Divulgação/Unifesp
em metade dos
professores e diretores da escola por meio de parcerias
usuários, se
Êf롗ÜÕʈʭã聼—Ãã—ʃÊ«Ãă듁“—“—«Ã¡ÊØ-
comparada aos que
mações oferecidas pelos meios de comunicação e a inter-
começam a beber
net, não é possível ter a pretensão de acreditar que o jo-
socialmente
vem irá se informar antes de todos, sobre álcool e drogas,
sempre na escola e em casa. Poderemos não dar as pri-
meiras informações, mas temos obrigação de dar as me-
lhores e mais efetivas para a vida deles”, analisa. “É nosso
dever criar uma rede de proteção para esses jovens. Se
beber faz mal até ao cérebro nessa fase de formação e,
além disso, a venda é proibida para menores, então não
pode – e ponto. Não chamamos os pais nesse caso para
“«ÿ—ØÊ×è——¼—ã›Â“—¡ÿ—؍ÊÂÊÜă¼¨ÊÜ“—ÃãØÊ“—Üʈ
Mas deixamos claro, por exemplo, que se eles consome
Regina Tocci
‚¼Êʼؗ¢è¼Ø—Ãã——ʃ“—ó—ÿ—Â×èÃ“ÊʃÊÂÊă¼¨Ê
liderou programas
menor, consideramos isso negativo e, pior, um fator de

Arquivo pessoal
de prevenção de
ث܍ÊՁ؁Êă¼¨Êʃ—Ê«“—¼ܗثŒÊ¼«ØÕ؂㫍ÊÂÊ
saúde e uso de
adolescente”, completa a professora.
álcool e drogas em
“Acreditamos que simplesmente proibir qualquer
colégio paulistano
droga, por mais perigosa que ela seja, é pior e traz pe-
rigo social muito maior do que regulá-la a partir de
՗Ü×è«ÜÜ——Üãè“Ê܍«—Ãã­ăÊÜ—Üʍ««Üó—Ø““—«ØÊÜ— resultados desse 3º Levantamento Nacional Domiciliar
“—Ü«Üã«ă“ÊÜ“ÊÜ—¡—«ãÊÜ—“ÊՁ“ØŠÊ“—ÊÃÜèÂÊ“— sobre o Uso de Drogas, que custou R$ 7 milhões do con-
cada uma. E é imperioso que esse material seja apre- ãØ«Œè«Ãã—ʃ ՗؁׍— Êă«¼Â—Ãã— —ÂŒØ¢“ÊÜ ÕÊØ
sentado e discutido com a sociedade”, pede o advogado ÊʍÊÃă؁Øʃ—ã˜—ÜÂÊ“—Ü—Ãã«Øʃ—Õ«“—«“—
Cristiano Maronna, presidente da Plataforma Nacio- drogas ilícitas propalada com ares de terror por seto-
nal de Política de Drogas, rede de estudiosos e orga- res conservadores, o atual governo e o anterior, de Te-
nizações dedicados ao tema. “Tudo leva a crer que os mer. Sobretudo a epidemia de crack, outro mito, mas
ÜʌؗÊ×聼Ձ«ØÂ«Ãã—Ø—ÜܗÜؗ¼«¢«ÊÜÊÜ—ăÁ͗«ØÊÜ

Precoces: meninas imensos na área do tratamento.” Maronna tentou con-


seguir, por duas vezes, o resultado do 3º Levantamento
começam a fumar cigarro por meio da Lei de Acesso à Informação. Teve os pedi-
«Ã“èÜãØ«¼«ÿ“Êʃ— dos negados. Depender da verdade é positivo, sobretu-
do quando o que está em jogo são coisas como prevenir
média, aos 14,9 anos; e reduzir riscos, diminuir vícios e salvar ambientes, fa-
meninos, aos 15,1 anos. ­¼«Ü—ʃÁÕÊÃãăÁ¼ʃ󫓁Ü

Revista Educação 54
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Revista Educação 55
CAPA
Entrevista – Cesar Pazinatto

Guias de prevenção
Especialista coloca a escola como local privilegiado para abordar
o consumo e os riscos das drogas entre jovens

O
biólogo e educador Cesar Pazinatto, es- no país, mesmo no caso de menores. E dá detalhes sobre
pecialista em dependência química pela os modelos de programa de prevenção de uso de drogas e
Universidade de São Paulo, atua há mais álcool mais adotados nas escolas e redes escolares.
de duas décadas em consultoria para a pre-
venção do uso de álcool e drogas em escolas. Os índices de consumo de álcool e drogas entre
Participou da implantação de programas so- adolescentes e jovens estudantes brasileiros
bre o tema em colégios, entre eles os paulis- ÜÜèÜãÂÊܗèÊØʊ
tas Santo Américo e Bandeirantes. Apoiado Tudo nessa área é preocupante, o uso de drogas mere-
nessa experiência, e na colaboração da edu- ce toda a nossa atenção, mas a explosão do consumo de
cadora Maria Estela Benedetti Zanini, ele escreveu, em bebida alcoólica nesta faixa etária, sobretudo a partir do
parceria com Ilana Pinsky, doutora em Psicologia Médi- ano 2000, fez com que os diretores e professores se dedi-
ca pela Unifesp e pós-doutora pelo Robert Wood John- cassem com maior ênfase à literatura e aos programas de
son Medical School, o livro Álcool e drogas na adolescência prevenção de álcool e drogas. Vemos propaganda de be-
– Um guia para pais e professores (Editora Contexto, 143 bida na tevê de manhã, vinculada a esporte. Nos mais de
págs.). Nesta entrevista a Educação, Pazinatto mostra-se um milhão de pontos de venda de álcool do país, é cada
preocupado com a aceleração do consumo de álcool por vez mais raro ver o vendedor ou caixa conferir a idade
jovens e adolescentes, sobretudo a partir do ano 2000. do comprador com aparência de menor, no documen-
Reclama da facilidade com que se compra e vende bebida to, para não vender álcool a um sub-18, o que é ilegal. E,
×èÃ“ÊÊ—ÃÊØ×è—ØŒ—Œ—Ø—˜«“—Ãã«ă“ÊʃÂè«ãÜó—ÿ—Ü
a questão é resolvida por alguém da turma com 18 anos ou
“Os professores estão mais. O Brasil é certamente um dos países onde se ven-
em posição privilegiada de e compra álcool com maior liberdade e menor regula-
para detectar jovens com mentação do mundo. Se alguém vende bebida alcoólica
o equilíbrio afetado por na rua, quase nunca é cobrado para esclarecer a origem
dificuldades de aprendizagem, e legalidade do produto e, muito menos, se está venden-
problemas emocionais, do para menores. É claro que essa avalanche precisa ser
estados depressivos «ÜŒ—Âؗ¢è¼Â—Ãこ—ʃÜʌؗãè“Êʃă܍¼«ÿ“ʈ
ou outro problema de
comportamento” Um dos capítulos do livro tem como título a
pergunta Qual o papel da escola na prevenção das
drogas? Fale um pouco sobre isso.
Neste ponto, Ilana e eu destacamos que as escolas são
o espaço apropriado e quase obrigatório para o desen-
Arquivo pessoal

volvimento de projetos e programas de prevenção de


consumo de álcool e drogas, mesmo porque os Parâ-
metros Curriculares Nacionais, os PCNs, determinam a
inclusão deste conteúdo dentro dos temas transversais.

Revista Educação 56
Alguns líderes escolares imaginam estar cumprindo as Resistência, o objetivo é preparar os jovens para resistir às
obrigações em relação a essa questão quando levam o pressões de consumir álcool e drogas.
assunto aos alunos diante de notícias de impacto como,
por exemplo, a morte de alguém famoso por overdose. —ÊӗՁØã——Ü܁ÜÕؗÜÜӗÜʊ
Isso é, sem dúvida, melhor do que ignorar totalmente o Podem vir dos amigos, da internet, dos meios de co-
assunto, mas oferecer informações apenas nessas oca- municação e até mesmo da própria família, sobretudo
ܫӗÜ —ÜゼÊâ— “— ܗØ Ê Üèă«—Ãã—ʈ  ׍—Ü܂ثÊ ¡ÿ—Ø no caso do álcool, algo que, como disse anteriormente, é
pesquisas em grupo com os alunos, agendar formação bem mais comum do que se imagina. Além desses mode-
continuada para os professores e palestras para os jo- los, destacamos outros três: Educação Afetiva, Educação
vens, observar empiricamente o cotidiano dos meni- Normativa e Oferta de Alternativas. O primeiro tem como
nos e, importante, encarar e tratar de forma verdadeira, ÕÊÃãʍ—Ãã؁¼Üʼ«“«ăŠÊ“èãʗÜã«Â“ʁ“ʼ—܍—Ã-
mas sem acusações e proselitismos, os casos de porte e te, a partir de instrumentos como feira de ciências, mú-
consumo de drogas que surgem no interior da escola. sica e atividades culturais. As informações sobre os ma-
Os professores estão em posição privilegiada para de- lefícios causados pela droga são passadas em momentos
㗍ãØ¶Êó—Ã܍ÊÂÊ—×諼­ŒØ«Ê¡—こÊÕÊØ“«ăè¼““—Ü calculados, ocasiões em que os jovens, fortalecidos, ten-
de aprendizagem, problemas emocionais, estados de- derão a dar muito mais valor a informações sobre coisas
pressivos ou outro problema de comportamento. Todos com potencial de gerar riscos à sua vida e saúde. Na Edu-
esses fatores podem levar o jovem a um comportamento cação Normativa, procura-se convencer os jovens de que
de risco. Por isso, toda escola com pretensão de formar acreditar em lemas como “balada boa é a que tem birita”
cidadãos plenos precisa ter um programa de prevenção, ou “bebo porque todo mundo na minha idade bebe” não
de preferência precoce e contínuo. é o melhor caminho. Uma boa atitude prática que ajuda a
promover essa ideia é realizar festas na escola sem qual-
ÂÊèãØʍÕ­ãè¼Êʃóʍ›Ü—Ãè—؁—¡ÿ— quer bebida alcoólica. Nem para adultos. Se possível, ál-
comentários sobre os modelos de prevenção mais cool nem no quentão cultural das festas juninas.
comuns adotados pelas escolas e redes.
Isso mesmo. Foi uma tentativa nossa de ajudar o leitor E aí vem a pergunta óbvia: qual desses modelos é
 «“—Ãã«ăØ ÊÜ ÕثͫՁ«Ü Â«Ã¨ÊÜ “ÊこÊÜʃ ÊÂՁ- Ê—¼¨ÊØʊ
rar seus principais pontos e formar opinião. O primeiro A resposta que Ilana e eu damos, infelizmente, não é
modelo é o que chamamos de Amedrontamento, ou seja, tão óbvia assim. Todas elas abrem espaço para acertos
o de utilizar informações dramáticas e material ameaça- e sucessos em maior ou menor grau, mas, infelizmente,
dor para supostamente conscientizar a garotada sobre os também para erros, fracassos e pouca efetividade.
prejuízos causados pelo álcool e as drogas. Coisas como Conversar com especialistas e consultar pesquisas na
mostrar imagens de caveiras ou corpos debilitados fu- área são os caminhos mais seguros para ajudar quem
mando. Ou de levar os jovens a clínicas de recuperação deseja montar um projeto de prevenção a encontrar o
para testemunhar o drama de dependentes. Esse mode- melhor caminho, o mais adequado ao projeto político-
¼Êʃ“——ă‚«¼ãÂ—Ãã—“èó«“Ê܁ʃ—Üã‚—ÂÕ¼—ÃÊ“—ÜèÜÊʈ pedagógico da instituição. De maneira geral, a política de
Na Pressão de Grupo Positiva, ou peer education, o objetivo prevenção que chamamos de universal pode ser adotada
˜è܁؁«ÃĄè›Ã«ÕÊÜ«ã«ó“—è¢ØèÕÊÜʌؗÊÊèãØÊʈ na maioria suprema das escolas. Isso se torna possível
Alunos mais velhos preparados para conversar sobre o Ê ÕØÊ¡—ÜÜÊؗÜʃ “«Ø—ãÊؗÜ — ÊèãØÊÜ ÕØÊăÜÜ«ÊÁ«Ü “
tema com os mais novos, por exemplo. No Conhecimen- escola preparados por especialistas. Depois do treina-
ãÊ «—Ãã­ăÊ, a ideia é passar informações comprovadas mento, todos eles podem atuar nas turmas sem a pre-
com sobriedade, sem viés religioso, moral ou ideológico. sença dos pesquisadores que os formaram. Mais do que
No modelo Educação para a Saúde, educa-se para uma nunca, o fundamental a ser buscado é um modelo, ou um
vida saudável, e consequentemente livre de álcool, taba- programa resultante da combinação de características de
co e droga, a partir do ambiente escolar, com atividades alguns deles, que dê possibilidade de mensurar resulta-
esportivas, lições de higiene e dicas para boa alimenta- “ÊÜʈÂè×è—ÜãŠÊ«ÂÕÊØãÃ㗍ÊÂÊ—Ü܁ʃ—“«Ø—ă-
ção, entre outros pontos. No modelo de Treinamento de cácia é algo indispensável.

Revista Educação 57
CAPA
Drauzio Dichava

Sem enrolação
Em cinco episódios, websérie do mais renomado médico brasileiro
«Ãó—Üã«¢ʃ“—¡Ê؁«—Ãã­ă—è«““Ê܁ʃÊèÜÊؗØ—ã«óÊ“Êè
– “onde moram os riscos, os tabus e a hipocrisia”

A
parte do Brasil que luta pela circulação de é o respeito conquistado em quase todas as classes e fai-
informações de efetiva utilidade pública, xas sociais e intelectuais, do cidadão que fuma um ba-
apuradas e organizadas com inteligência, seado na rua ao psiquiatra pós-doutor da universidade
acaba de ganhar uma ferramenta de peso. respeitada. Uma condição que lhe garante excelente re-
Na segunda-feira 22 de abril, pontual- cepção, elogios, reverência e, muitas vezes, até idolatria
mente às 4h20, entrou no ar, no YouTube das fontes que procura para conversar e debater temas.
e no portal do médico Drauzio Varella Nos encontros com Drauzio, quem parece fazer a supre-
(www.drauziovarella.uol.com.br/series/ ma gentileza de participar da conversa é sempre o outro,
drauzio-dichava/), a websérie Drauzio seja ele entrevistador, entrevistado, projeto de famoso
Dichava. A nova investida do consagrado oncologis- ou celebridade de fato. “Muito obrigado por nos trazer,
ta, professor, escritor e pesquisador é um conjun- mais uma vez, a sua luz”, derreteu-se o apresentador Pe-
to de cinco filmes, cada um com duração entre sete dro Bial, no dia seguinte ao do lançamento de Dichava,
e dez minutos, que retrata facetas, realidades e cir- ao receber o oncologista em seu programa Conversa com
cunstâncias do uso adulto da maconha. Tudo com a Bial, exibido nas noites da Rede Globo.
responsabilidade e o refinamento comuns a todas as
suas abordagens anteriores.
Autor de best-sellers que viraram filmes e séries,
como Estação Carandiru, consultor e colunista e de
programas de tevê, destaque do time de estudio- Há 12 mil anos já
sos pioneiros do HIV/Aids no país, Drauzio conse-
gue uma vez mais, em Dichava, resultados com uma havia maconheiro
marca de fazer inveja a muito comunicador de talen-
to: a transformação do que seria complicado para a
no planeta,
maioria em matéria de entendimento simples para descontrai
praticamente todo mundo.
Para atingir novamente esse objetivo, recolocou em Drauzio logo na
campo sua fórmula aparentemente infalível baseada em
dois pilares. O primeiro é o conhecimento profundo e
apresentação
multifacetado sobre praticamente tudo o que diz res- da série
peito à medicina. E o segundo, derivado do primeiro e
também da forma sempre honesta com que se expressa,

Revista Educação 58
Divulgação Rede Globo
Drauzio Varella defende investir em educação:
“As drogas jamais estiveram tão disponíveis,
e seguimos no erro de manter uma política de
repressão incapaz de conter o consumo”

“Há 12 mil anos já havia maconheiro no planeta”,


descontrai Drauzio logo na apresentação da série. “E,
atualmente, estamos diante de uma tendência mundial
de liberação da maconha”, prossegue, em Êĕ, escolta-
do por imagens de passeatas de defensores da planta
no Brasil e no mundo. “Como sou médico, você deve
estar pensando que vou abordar as pesquisas sobre o
uso medicinal da planta. Acho essas pesquisas válidas.
Se a ciência concluir que elas podem trazer benefícios
a grupos de pessoas, isso será positivo. Mas estou aqui
para discutir o uso recreativo, ou melhor, o uso adulto
da maconha, porque é aí que moram os riscos, os tabus
e a hipocrisia”, completa ele.
O primeiro episódio, Era uma vez uma planta, inicia
com análises de Drauzio sobre os países que começam
a legalizar ou descriminalizar a maconha, e também
sobre a Marcha da Maconha, que abrigou mais de cem
mil defensores nas ruas de São Paulo, em 2018. Em se-
guida, há um histórico sobre o cultivo e o uso da plan-
ta no mundo, com destaque para a relação feita entre
consumo da erva, imigração mexicana e racismo nos
Estados Unidos. E depois no Brasil, com manchetes de
jornais como “O Veneno Africano”.

Revista Educação 59
CAPA
Drauzio Dichava

BÊܗ¢èÓÊă¼Â—ʃA brisa, o mais “médico” dos epi- vou deixar para vocês”. Em seguida, visita duas lojas de
Ü˓«ÊÜʃ Ê ÊÍʼʢ«Üãʃ ʭÁ Œè܍ “— è ؗĄ—ùŠÊ «Â- apetrechos para o consumo de maconha, uma no Rio e
parcial sobre o assunto, isenta de ideias preconcebi- outra em São Paulo. Sim, porque a venda de cannabis é
das”, discute como a maconha atua no cérebro, seus Êă«¼Â—Ãã—ÕØÊ«Œ«“ÃÊ ؁ܫ¼ʃÜ“Ձ؁¡—ؼ«
efeitos e quem pode usar a substância. Neste ponto, o aparentemente usada para o seu consumo, e para o de
timing de bom entrevistador faz os discursos de “dois outros tipos de fumo, ao que parece ainda não.
estudiosos que defendem pontos de vista diferentes” O quarto episódio, Onde o bicho pega, é o “politiza-
– Valentim Gentil, professor titular da cadeira de Psi- do”. Mostra que décadas de guerra às drogas no Brasil
quiatria da Universidade de São Paulo, e o neurocien- não reduziu o consumo e aumentou a violência no país.
tista Renato Filev, pesquisador do Centro Brasileiro de “Mas não contra todos os brasileiros: quem arca com o
Pesquisas sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), da Uni- ônus da repressão é a população preta, pobre e perifé-
versidade Federal de São Paulo (Unifesp) – parecerem rica.” No último, O Jardineiro Fiel, lidera uma repor-
didaticamente complementares em tagem sensível sobre um comercian-
alguns momentos. te “que cultiva e vende maconha sem
“Dizer que a maconha é a por- ՁÜ܁Ø՗¼Êʯã؂ăÊÊÃó—Í«ÊÁ¼ʰʮʈBŠÊ
ta de entrada para outras drogas é
um mito. Álcool e cigarro chegam
A porta de ¡¼ã ¡Ø—¢è—Ü«ʃ — Ê ՗Øă¼ “ ¼«—Ã㗼
“está longe do estereótipo de ‘margi-
primeiro na suprema maioria dos entrada para nal’”, explica o entrevistador.
casos. Esse pensamento equivoca-
do está diretamente ligado à ques- outras drogas “Não fumo maconha, mas tenho
uma vivência longa com a droga por
tão da ilicitude, que faz as pessoas
pensarem dessa forma”, diz Filev,
não costuma ser causa do trabalho que faço nas ca-
deias. São 30 anos frequentando ca-
defensor de que uma eventual le- a maconha, mas deia toda semana”, diz Drauzio a Cauê
galização ou descriminalização di-
minuiria, e não aumentaria, o con-
álcool e cigarro Moura no podcast Poucas. “É uma con-
vivência longa com maconha, cocaína.
sumo no Brasil. “Mesmo os adeptos – e por serem Tive uma enorme vivência com usuá-
rios de crack.” Sobre a criminalização
lícitos, poucos
da legalização admitem que a gente
não sabe o que vai acontecer com “ Êèʃ ؗĄ—ã—ʂ ʭ ՗ÜÜʁ ՗Ã܁
o tempo. E que ainda não há ferra-
mentas para avaliar os transtornos
percebem ÜÜ«Âʂ ʯܗ —è ÕؗӗØ ãʓÊÜ ÊÜ ã؁ă-
cantes de maconha não vai ter droga
de uma medida dessa a longo prazo pra ser vendida e, consequentemen-
com consumo. E os caras querem ã—ʃ—èă¼¨ÊÊÊó«è܁Ø“ØÊ¢ʰʈaè“Ê
legalizar por aí? Então legalize primeiro a cocaína, que bem, eu também acho. Se prendessem todos, aí, tudo
dá psicose aguda. Os usuários vão fazer muita besteira”, bem, não ia ter droga vendida. Mas é possível fazer
discorda o psiquiatra Gentil. isso? Obviamente, não. As drogas jamais estiveram
No terceiro capítulo, Cannabusine$$, o oncologis- tão disponíveis. E seguimos no erro de manter uma
ta visita o quartel-general do Um Dois, “um canal na política de repressão incapaz de conter o consumo
internet dirigido aos maconheiros, ou maconhistas, e não investir em educação e ajuda aos dependentes
ÊÂÊ —¼—Ü ܗ “—ă×Âʮʈ  ؗ—Œ«“Ê ÃÊ ÕÊØãŠÊ “ ܗ“— para que controlem a dependência”.
com um carinhoso grito de “fala, dotô”. Um dos rapazes O compromisso lúcido de Antônio Drauzio Varella
pega uma câmera e coloca o visitante ao vivo no canal. com ideias, debates e propostas verdadeiramente pro-
Drauzio cumprimenta a audiência com um alô educa- dutivas é um dos poucos antídotos, no Brasil fratu-
do. Um dos rapazes ensina: “A gente costuma cumpri- rado de hoje, capaz de neutralizar o veneno dos pós-
mentar a turma assim: falem, maconhistas!”. O médico graduados, mestres e doutores na arte de ter as velhas
dá uma risada contida e confessa: “isso eu não falo não; – e imutáveis – opiniões formadas sobre tudo.

Revista Educação 60
Revista Educação 61
NEUROEDUCAÇÃO

Revista Educação 64
PARA FORMAR NOVOS

LEITORES
É importante que o professor busque se
alimentar de teorias e práticas voltadas para o
ÕØ«ÂÊ؁—ÃãÊ“Ê—ÃÜ«ÃÊ—“ÕؗÓ«ÿ¢—Âʃ
no sentido de compreender aspectos biológicos,
sociais, cognitivos e afetivos envolvidos nesse
processo. Antes de se pensar em “como se ensina”,
é necessário saber “como se aprende”

| Lilian Cristine Hübner, da revista Neuroeducação

E
m todo início de ano letivo, vemos crianças cheias de expectativas,
felizes por retornar ao ambiente escolar, reencontrar seus amigos,
conhecer os novos professores e colegas, ver o que de novidade a
escola lhes oferece. Junto com isso, há entre as crianças dos anos
iniciais a vontade de dominar um novo código, as letras, que lhes
ŒØ«ØŠÊÜÕÊØãÜ†¼—«ãè؁ʃÊÂÊ聍¨ó—Ձ؁Ü聁èãÊÜÜèă«›Ã-
cia para acessar o conhecimento que quiserem obter, os jogos – di-
¢«ã«ÜÊèÊÊʡ“—×è—×è«Ü—ؗ“—Ü¡ØèãØʃ—ÃăÂʃ¼ÃØʁ—ÜÜÊ
independente ao mundo letrado. Aprender a ler e a escrever é, sem
sombra de dúvida, um dos maiores marcos da infância – embora em alguns
casos ocorra em momento posterior.
Mas quando e onde ocorre a iniciação da criança à leitura e à escrita? A res-
posta é simples: na família e na educação infantil, ambas sustentadas pela valo-
rização social e por políticas de promoção da leitura.
Shutterstock

Saber ler e escrever é essencial para o sucesso na escola e ao longo da vida.


Assim sendo, não nos surpreende o destaque dado pela imprensa aos baixos
índices em leitura (e em conhecimento matemático) das nossas crianças e pré-

Revista Educação 65
NEUROEDUCAÇÃO
Shutterstock

A escrita surgiu entre


-adolescentes na comparação com os índices obtidos
os babilônios há
em outros países. E, sempre que há insucesso, buscam- aproximadamente 5.400 anos,
-se os “culpados”, quando a corda muitas vezes rompe
no professor. No entanto, os fatores iniciais geradores
enquanto o alfabeto não tem
do baixo desempenho podem estar no convívio familiar mais de 3.800. Como nossa
e no acesso à educação infantil, ou seja, bem antes do in- linguagem estava programada
gresso no ensino formal da leitura e da escrita.
Em relação à família, em muitos casos de meio so-
para uma tradição oral, o
cioeconômico baixo, a criança é praticamente privada cérebro teve de se adaptar
do acesso a livros infantis, da contação de histórias, da
observação da prática da escrita e da leitura entre as
para acolher e processar essa
pessoas que a rodeiam. Nesses casos, ao ingressar no invenção cultural,
ensino formal, a criança parece estar diante mesmo de visual, que é a escrita
outra língua, quase como se fosse estrangeira, pois a
variedade linguística de seu meio pode divergir bas-
tante daquela com a qual se depara na escola. Há pes- duzida ao tipo de linguagem oral e lida usada na escola.
quisadores que defendem a existência de dois grupos Diversos estudos têm se debruçado e trazido evidên-
“—¼—«ãÊؗÜ“—ă«—Ãã—ÜÃÊÜ—Üア«Êܫ덫«Ü“ÕؗÓ«ʢ «Ü«—Ãã­ăÜÜʌؗÊ«ÂՁãÊÁ¡Ê؁ŠÊ“ʼ—ã؁ʢ
ÿ¢—“¼—«ãè؁ʂ¼—«ãÊؗ܍Ê“—Ê“«ăŠÊ«Ã—ă«—Ãʢ mento infantil decorrido do acesso à leitura e à escrita
te (caracterizados por uma leitura lenta e inacurada) e bem antes do ensino formal.
¼—«ãÊؗÜ è¶ “—ă«›Ã« “—ÊØؗ “— è ؗ“èÿ«“Ê Êʢ Além da relevância da família, salienta-se o papel im-
nhecimento da linguagem oral em termos de vocabu- portante da educação infantil, cuja atuação como pre-
lário, de estruturas gramaticais e de outras questões cursora da alfabetização é ainda desconhecida por
linguísticas importantes para a compreensão leitora. muitos pais. Nela são desenvolvidas habilidades que ala-
Ü܁é¼ã«Â“—ă«›Ã«Õʓ—“—ÊØؗØ“—ùÕÊÜ«ŠÊؗʢ vancarão a aprendizagem da leitura, como a consciên-

Revista Educação 66
ESPAÇO PARA O REGISTRO E A
TROCA DE VIVÊNCIAS ENTRE DOCENTES.
O CONGRESSO ICLOC DE PRÁTICAS NA SALA DE AULA p XP EVENTO
GRATUITO TXH FRORFD HP HYLGrQFLD R TXH DFRQWHFH GHQWUR GD VDOD GH DXOD 6mR
HGXFDGRUHV GH HVFRODV S~EOLFDV H SDUWLFXODUHV WURFDQGR FRP VHXV SDUHV SUiWLFDV H
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DIA 25 DE MAIO DE 2019


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Inscrições pelo site:


www.icloc.org.br/congressoicloc

REALIZAÇÃO PATROCÍNIO APOIO

Revista Educação 67
NEUROEDUCAÇÃO
cia fonológica (por meio de jogos lúdicos com rimas e garantia ao acesso à educação infantil em uma socieda-
aliterações), o incremento de vocabulário por meio das de que, mais do que suprir necessidades biológicas bá-
histórias infantis, a introdução dos nomes e dos sons de sicas da criança, deve prover a ela o acesso a bens cultu-
letras do próprio nome e dos colegas e professores, a rais, mediados pela leitura e pela escrita.
manipulação oral de palavras (segmentações de pala-
vras e supressões de sílabas), entre outras habilidades. CONSTRUÇÃO DA HABILIDADE LEITORA
A aquisição precoce dessas habilidades formará os fun- Em termos simples, que espécie de habilidade é essa
damentos para a aprendizagem da leitura e da escrita. de ler? E a de escrever? Uma teoria surgida nos anos
Infelizmente, em nosso país ainda há crianças cujo aces- 1970 apregoava que aprender a ler seria tão fácil e natu-
so à educação infantil não é viabilizado, o que faz com ral quanto aprender a falar e que a diferença estaria nos
que tais habilidades sejam desenvolvidas apenas mais sinais: na fala os sinais seriam sonoros, enquanto na es-
adiante, concomitantemente ao ensino formal, em es- Ø«ã—Á¼—«ãè؁ܗثÂó«Ü聫Üʃ—܍ثãÊÜʈA«Ü—Ü՗«ă-
pecial em crianças advindas de classes sociais menos camente, assim como ocorre com a aquisição da fala, na
favorecidas e/ou de um meio familiar de baixo acesso e aprendizagem da leitura e da escrita a criança se empe-
uso da leitura e da escrita. nharia para dar ou buscar sentido desde que o contex-
Em suma, tratou-se aqui de enfatizar a importância ãÊ ¡ÊÜܗ «Ãã—Ø—Ü܁Ãã— — Ü«¢Ã«ăã«óÊʃ  —ù—ÂÕ¼Ê “Ê ×è—
do acesso ao uso social da leitura e da escrita antes do acontece com a fala. De modo similar, o linguista Ken
ingresso na escola para ressaltar-se que a aprendizagem Goodman, nos anos 1980, postulou que o uso da leitura e
da leitura é responsabilidade social, não apenas do pro- “—܍ثしÊÃã—ùãʍÊÂÜ«¢Ã«ă“ʘ¼¢ÊÜ«ÂÕ¼—Ü—
fessor, mas também da família. Tratou-se também da natural para a criança.
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Ler e escrever são invenções culturais, que


demandam uma readaptação cerebral para sua
aprendizagem. Aí entra o papel do adulto, em
geral o professor, que apresentará à criança
um sistema, convencional e arbitrário, de
Revista Educação 68
representação da cadeia sonora da fala
Revista Educação 69
NEUROEDUCAÇÃO
Em oposição a essa ideia pode-se mencionar o pres- ㍁ŠÊ “ÊÜ ¢Ø¡—Ü — ¡ÊׁÜ Ձ؁  «“—Ãã«ăŠÊ
suposto de alguns linguistas e psicólogos cognitivos que automatizada de palavras, ou seja, o alcance da leitura
¼—Œ؁ÂÊ¡ãÊ“—×è—聍ثÃ“«ă«¼Â—Ã㗁ÕؗÃʢ Ąè—Ãã—ʃ˜—ÜܗÍ«¼Ձ؁¡Ê؁ŠÊ“—è¼—«ãÊØÕØÊăʢ
deria a ler e a escrever sem instrução e que, mesmo re- ciente. A criança ou jovem que luta com as palavras na
cebendo-a, esse processo demandaria esforço e tempo. ã—Ããã«ó“—“—«¡Ø‚ʢ¼ÜÊ¼—ØÜʌؗØؗ¢Ü聗ÂËØ«
H×è——Üã‚ÁŒÜ—“—ÜܗÕؗÜÜèÕÊÜãʘÊÜ«ÂÕ¼—Ü¡ãÊ de trabalho e sua atenção, reduzindo recursos cogniti-
“—×è—ʃ—Ã×èÃãʁ¡¼˜èÂÕØʍ—ÜÜÊÁãè؁¼ʃ¼—«ãèʢ óÊÜ׍—Ü܂ثÊÜՁ؁聍ÊÂÕؗ—Ã܊ʁ«Ü¢¼ÊŒ¼“Ê
ra e a escrita são processos culturais, portanto aprendi- ã—ùãÊʈSÊØ«ÜÜÊʃ¼—«ãè؁Ąè—Ãã—ʃ×è—ܗ«Ãã—ÃÜ«ă՗¼Ê
“ÊÜʈÊÂʁă؁Ê×èØʍ«—Ãã«ÜãZãÃ«Ü¼Ü—¨—×ʃ encontro recorrente com as palavras, deve ser um dos
—܍ثだÜèØ¢«è —Ããؗ ÊÜ ŒŒ«¼ÍëÊܨ‚ ÕØÊù«Â“Â—Ãʢ objetivos fundamentais no início da alfabetização. En-
te 5.400 anos, enquanto o alfabeto tretanto, ser um leitor compe-
não tem mais de 3.800. Como nos- tente não se resume a alcançar
sa linguagem estava programada è ¼—«ãè؁ Ąè—Ãã—ʈ ÊÂÊ ăØʢ
Ձ؁èã؁“«ŠÊÊ؁¼ʃʍ˜Ø—ŒØÊ   —“荁“Ê؁ A¢“ ZʁؗÜʃ
teve de se adaptar para acolher e uma das maiores referências do
processar essa invenção cultural, Brasil no tema da alfabetização,
ó«Ü聼ʃ×è—˜—܍ثãʈ—ÜܗÕØÊʢ —Ü܁ ˜ Õ—ÁÜ è “Ü ¡—ãÜ
—ÜÜÊ“—“ÕぐŠÊʃ—¨—׍¨ʢ do ensino da leitura e da escri-
mou de “reciclagem neuronal”, em ãʈZ—¢èÓʁ՗Ü×è«Ü“Ê؁ʃՁ؁
que circuitos cerebrais, relaciona- A pesquisa na atingir-se o letramento aliam-se
dos à linguagem e à visão, se adap- internet pode a esta duas outras facetas, tão
ãØÂՁ؁ÊèãØÊăÂʡ¼—«ãè؁—
escrita – adaptação que demanda
instrumentalizar importantes quanto a primei-
ra: a faceta interativa, que inclui,
aprendizagem. Ou seja, enquan- o aluno com o entre outros aspectos, habilida-
to ouvir e falar são aspectos ina-
tos, como mencionado pelo lin-
conhecimento para des de interpretação, compreen-
܊ÊʃÕØʓ萊Êã—ùã聼ʃÂÕ¼«ŠÊ
guista e cientista cognitivo Noam escrever a respeito de “— óʍŒè¼‚Ø«Ê — Õؗ—Ã܊Ê “—
Chomsky, ler e escrever são in- um assunto sobre o ÊÃó—Ðӗ܁×è—ã—ùãÊÜ—܍ثãÊÜ
venções culturais, aprendidas, as
quais demandaram uma readap-
qual pouco conhece obedecem, e a faceta sociocultu-
ral, em que se inserem o conhe-
tação cerebral para sua apren- – aqui cabe a atuação «Â—ÃãÊ—Õ؂㫍“—èÜÊÜʃ¡èÃʢ
dizagem. Aí, obviamente, entra o do professor para ções e valores sociais da escrita
papel do adulto, em geral o pro-
¡—ÜÜÊØʃ×藁ÕؗܗÃãØ‚†Ø«Ãʃ
guiar o estudante em eventos de letramento.
Finalmente, cabe ainda sa-
de forma sistematizada, um siste- a buscar fontes lientar dois aspectos. O primei-
 ÊÃó—Í«ÊÁ¼ — ØŒ«ã؂ثÊʃ “—
representação da cadeia sonora da
ÊÃă‚ó—«Ü ro diz respeito ao que se enten-
de por leitura. A resposta pode
¡¼ʈÜ܁˜¡—ぼ«Ã¢è­Ü㫍“ÕؗÓ«ÿ¢—“¼—«ʢ variar dependendo do ponto de vista adotado: linguís-
tura e da escrita, fundamental para a formação do leitor, 㫍Êʃ Ê¢Ã«ã«óÊʃ Üʍ«¼ʃ ¼«ã—؂ثÊʃ —Ããؗ ÊèãØÊÜʈ ÜÜ«Âʃ
—Â×è—¼¨—“—ó—ÂܗØ—ÃܫÁ“ÊÜ—ùÕ¼««ãÂ—Ãã—ÊÜ«Üã—ʢ poderia variar desde uma visão simplória, em que ler
¼¡Œ˜ã«Ê—ÜÃÊ؁ÜÊØãʢ؂㍁ÜʃՁ؁ÊؗÊè—ʢ ˜ؗÊ藍—ØՁ¼ó؁ÜʃÊ聫ӁʃÕ—Á܁ãØ«Œè«ØܗÃʢ
«Â—ÃãÊ“—Ձ¼ó؁ÜʃÊ×聼“—ó—ܗãÊØÁ؁èãÊ‚㫍ʁ 㫓Êʃã˜èó«ÜŠÊÊÂÕ¼—ùʃ¢Ø—¢Ã“ʁÜ՗ãÊܼ«Ãʢ
ՁØã«Ø“Õ؂㫍ʈA«Ü—Ü՗«ăÂ—Ãã—ʃ“—Ü—¶ʢܗؗÜʢ guísticos, cognitivos e sociais. A visão do que venha
saltar aqui que, sem automatizar o processo de trans-  ܗØ ¼—«ãè؁ ó« “—ã—Ø«ÁØ  ¡Ê؁ ÊÂÊ —Üだܗ؂
¡Ê؁ØܫÁ«Ü¢Ø‚ăÊܼ«“ÊÜʢÊܢ؁¡—Üʡ—¡ÊׁÜʃ desenvolvida pelo professor em aula. O segundo pon-
a criança não pode ser considerada uma leitora com- ãʁ“—ÜきØ˜“«¡—ؗЁ—ÃãؗÕØËÕØ«¼—«ãè؁—
՗ã—Ãã—ʈã؁ÃÜÕÊÜ«ŠÊ“—Üܗ—Üア«Ê«Ã««¼“—“—Ê“«ʢ escrita em relação à fala. Ao escrevermos, precisamos

Revista Educação 70
Shutterstock
adotar as convenções da escrita, como a pontuação, a de implícitos. Já na leitura, muitas vezes nos depara-
distribuição em parágrafos, a observância à estrutu- mos com uma ausência do contexto situacional que
ra textual, de modo a tornar nosso texto claro e com- ampare a compreensão linguística. Porém, mais ainda
preensível, uma vez que não dispomos de recursos do que na leitura, é na escrita que os alunos mais cla-
da fala, como gestos, expressões faciais, pausas, he- ؁—Ãã— ՗؍—Œ— ÜèÜ «ÊؗÜ “«ăè¼““—Üʃ Ê ó—-
sitações, elementos que facilitam a compreensão de Ø«ăØ×è—ÊÊܗÕʓ——܍ؗó—Ø“Ê—ÜÂʶ—«ãʍÊÂÊ
questões discursivas e pragmáticas que podem, por se fala. É necessário adequarem-se termos, estruturas
exemplo, indicar ironia e humor. Na leitura, consegui- frasais, respeitando as características dos gêneros tex-
mos detectar as convenções da escrita. No entanto, ao tuais e incluindo sinalização de aspectos pragmáticos
escrevermos, precisamos dominar essas técnicas, ne- detectáveis sem os recursos de que dispomos na fala
cessárias para veiculação do sentido. (como, por exemplo, uma piscada de olho para indicar
quando estamos sendo irônicos). Nesse sentido, o tra-
NA PRÁTICA balho de escrita e reescrita é crucial em sala de aula na
ÃăÂʃ  ÕÊÃだ“Ê ¡èë¼ ʡ  —܍ʼ — Ê ÕØÊ¡—ÜÜÊØʂ Ê busca da instrumentalização do aluno para aprimorar
que fazer para auxiliar o processo de aprendizagem da —Ü܁¨Œ«¼«““——Ü՗«ăÂ—Ãã—ʈ
leitura e da escrita? Sugerimos algumas práticas que

2
Õʓ——¼¨Ê؁؁—ă«›Ã«“—¼—«ãè؁—“——܍ثこ— FAZER DA TECNOLOGIA UMA ALIADA
crianças e adolescentes. A leitura hoje se dá em diversos suportes, apre-
sentados de forma digital ou impressa, mas al-

1
PONTUAR DIFERENÇAS ENTRE A FALA E guns professores, mesmo mais jovens, resistem à
A ESCRITA «ÃÊØÕÊ؁ŠÊ“«Ãã—Ø×ã—“—が¼—ãÜ—ăÃÜÃʁÂ-
Na oralidade, o contexto está posto: conhecem- biente escolar. No entanto, há que se considerar que
-se os interlocutores e a situação de interlocução, nossos leitores mudaram: percebe-se que, em espe-
avaliam-se gestos, tom de voz e expressões faciais, o cial para muitas crianças mais velhas e adolescentes,
que auxilia na geração de inferências e na percepção ler um livro de porte médio parece ser enfadonho,

Revista Educação 71
NEUROEDUCAÇÃO
uma vez que os textos digitais costumam ser mais os elementos micro e macrolinguísticos ali presentes,
curtos e apelativos visualmente, com links convida- as escolhas lexicais e suas implicações, o contexto em
tivos à exploração. A tecnologia e a internet são tão que o texto se insere e o público que pretende atingir,
apelativas que até mesmo bebês são atraídos aos ce- o pensamento e objetivos que procura veicular, entre
lulares e tablets, que funcionam como calmantes em outros aspectos. Mas para isso é necessário que o pro-
determinadas situações, como em salas de espera. Por fessor se desarme e busque se capacitar para ter na
mais conservador que se seja em adotar computado- tecnologia uma aliada, e não uma ameaça. Por exem-
res e internet em sala de aula, ou ainda, por maiores plo, a pesquisa na internet pode instrumentalizar o
que sejam as dúvidas ou as inquietudes quanto ao que aluno com o conhecimento para escrever a respeito
será das funções da memória humana e da capacidade de um assunto sobre o qual pouco conhece – e aqui
de atenção num mundo bombardeado por informa- novamente cabe a atuação do professor para guiar o
ções, há que se concordar que estamos em um cami- ܗ聼èÃʁŒè܍Ø¡ÊÃã—܍ÊÃă‚ó—«Ü“—՗Ü×è«ÜʈÂ
nho sem volta. Então, o que poderia o professor fazer Üèʃ¼—«ãè؁——܍ثこ«¢«ã«Ü¨—¢ØÂՁ؁ă-
para lidar com esse novo contexto? Assumi-lo, ren- car e tomar um espaço cada vez maior entre nós, por
der-se a ele, sem, no entanto, deixar seus alunos na- isso devem ser bem empregadas em sala de aula. No
vegando na internet como ilhas isoladas (como o que entanto, é importante ressaltar que a promoção da
vemos nos ambientes sociais, como em restaurantes, leitura de impressos deve seguir tendo um espaço de
— ×è— — ¢—؁¼ Ü ՗ÜÜʁÜ ㍁ ŒÜÊØãÜ — ܗèÜ relevância em sala de aula, a qual passa a representar,
celulares sem interagir olho no olho). O professor po- assim como o ambiente familiar, um espaço em que
deria apresentar e explorar com os alunos os diferen- a leitura de informação e a literária impressas conti-
tes gêneros textuais que ali se encontram, discutindo nuem prestigiadas.
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Revista Educação 72
3
ATUAR COMO MEDIADOR ENTRE A LINʟ além de ter conhecimento das características da fai-
GUAGEM, O CONTEÚDO E O ALUNO xa etária com que se interage, saber como esse aluno
Mesmo que as crianças pareçam cada vez mais aprende, compreendendo quais aspectos biológicos,
precoces em termos digitais, a importância do profes- sociais, cognitivos e afetivos estão envolvidos no pro-
sor como mediador entre elas, o conteúdo e a lingua- cesso de aprendizagem. Ou seja, antes de se pensar em
gem (seja ela impressa ou digital) será sempre funda- “como se ensina”, é necessário saber “como se apren-
mental, para discutir implícitos, o dito e o não dito, as de”! Para isso, pode-se buscar amparo, por exemplo,
implicaturas, os objetivos do interlocutor expressos em recentes descobertas da neurociência, que tem tra-
em suas escolhas vocabulares e na forma de articular zido subsídios aplicáveis ao contexto do ensino. En-
suas ideias. Além disso, antes de se pensar nesses “ob- tre essas evidências, podem ser citadas algumas como
jetivos maiores” do professor mediador, cabe ainda a de suma importância: a sesta para a consolidação da
ele a ação mais básica e fundamental no processo de aprendizagem de crianças e adolescentes, as ativida-
¼¡Œ—ã«ÿŠÊʡʁ—ÜÜʆ“—Ê“«ăŠÊ—Ê“«ăŠÊ des físicas, a criação de um ambiente acolhedor e res-
“Ü¼—ã؁ÜØèÂʆĄè›Ã«—†èãÊÃÊ«¼—«ãÊ؁ʃÊÂÊ ՗«ã“ÊØ—Â܁¼“—è¼ʃÊ—ÃÜ«ÃÊÕÊØ—«Ê“—“—܁ăÊÜ
discutido acima, indispensável para a alfabetização em ʛÊ ˜Ø—ŒØÊ Œè܍ ÜʼèÓ—Ü ×èÃ“Ê ˜ “—܁こÊ “—ÃãØÊ
seu sentido mais amplo, incluindo-se aí a noção de le- “— è ¼«Â«Ø “— “«ăè¼““— Üè՗؂ó—¼ʜʃ  ʌܗØ󁐊Ê
tramento, impresso e digital. do tempo-limite de concentração considerando-se as
diferentes faixas etárias, o uso de material midiático e

4
PROMOVER UMA CULTURA LEITORA interativo que apele não apenas à leitura e à escrita, ou
O professor e a escola deveriam mostrar aos pais seja, não apenas material verbal (palavras), mas tam-
e à sociedade em geral que o desenvolvimento da bém ao uso de outros materiais de apoio relacionados
leitura e da escrita não é uma tarefa solitária do docen- à música e a outras formas de arte. Essas e outras evi-
te. Ao contrário, o uso social da leitura e da escrita se dências, aplicadas à sala de aula, podem tornar mais
inicia no seio familiar e sua promoção deve começar —㍁ÿÕؗÓ«ÿ¢—ÂʈBÊ—ÃãÃãÊʃՁ؁×è——ÜܗÊ-
muito cedo, assim que a criança demonstre capacida- nhecimento esteja disponível ao professor, é necessá-
de de atenção e interesse por ouvir histórias e mani- rio que a academia o disponibilize, saindo de seus mu-
pular livros infantis. A mediação leitora dos pais pro- ros e traduzindo de forma acessível para a comunidade
move a ampliação do vocabulário e expõe a criança a escolar os conhecimentos gerados em pesquisas apli-
variadas formas de textos, em especial os narrativos cáveis direta ou indiretamente ao ensino.
no início, o que instrumentalizará a criança para re- Muito ainda há por fazer, apesar de a leitura e a es-
ceber o posterior ensino formal. Essa interação com crita estarem no centro das discussões entre pais, pes-
material escrito deveria ocorrer também nas famílias quisadores e professores há várias décadas. No en-
com menor poder aquisitivo, para prover oportunida- tanto, percebe-se uma crescente conscientização das
des mais equilibradas a todas as crianças, indepen- instituições brasileiras sobre investir na educação e no
dentemente de classe social. professor como peças cruciais para o desenvolvimen-
to da nação, inclusive com iniciativas do terceiro setor,

5
INOVAR E SE QUALIFICAR como jamais se viu em nossa história. Por isso, acredi-
É importante revisar a própria prática docente, tamos numa reversão muito próxima do atual cenário
mantendo a preocupação com o como aprende- de desempenho das nossas crianças e jovens em leitura
mos. Estimular o espírito questionador e pesquisador e em escrita, a partir da participação de pais, educado-
é fundamental num mundo que exige adaptação rápida res, governo e da sociedade.
e constante dos indivíduos. Mesmo que planejamento
de aulas e correções de tarefas dos alunos absorvam
bastante tempo, é importante que o professor busque
se alimentar de teorias e práticas voltadas para o apri-
Lilian Cristine Hübner
é doutora em Letras, professora adjunta da Escola de Humanidades
moramento do ensino e da aprendizagem. Por exem- – Curso de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras -
Linguística da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
plo, para escolher um método de ensino, é importante, (PUCRS). Pesquisadora do CNPq.

Revista Educação 73
MEC

Land Vieira é o “mestre


de cerimônias” da
atração da TV Escola

A HORA DO

ENEM
Programa voltado
para estudantes do
ensino médio é o
líder de audiência
da TV Escola
| Amaro Dorneles

Revista Educação 76
O maior interesse
do público está
nos youtubers,
principalmente os
que se dedicam ao
tema educação

ção Roquette Pinto, do MEC. A insensatez das questões


citadas faz parte do quadro Momento Pop Prof, em que
o mestre-apresentador é obrigado a responder às mais
bizarras perguntas da audiência.
Humor e descontração é a forma que a equipe do
programa usa para atrair curiosidade e atenção dos
estudantes. Gino Márcio Carneiro, gerente de Comu-
nicação da emissora, recorda que a proposta do MEC
– desenvolvida por ele, junto com o gerente de Con-
teúdo Walmir Cardoso e o roteirista Diego Rebou-
ças – era ajudar na preparação de estudantes para o
Exame, mas não só resolvendo questões e ensinando
disciplinas. Por isso, também são exibidas entrevistas
ÊÂÕØÊăÜÜ«ÊÁ«Ü“Ü«Ü“«ó—Ø܁Ü‚Ø—ÜʂʭÜ܁Ü—Ã-
trevistas têm o objetivo de ampliar o repertório cul-
tural e mostrar que há inúmeras possibilidades de
atuação: a professora de letras que se tornou tradu-
tora da Marvel; o DJ que usa cálculos matemáticos
na composição de música eletrônica; o físico que se
tornou astro-fotógrafo”.
Renato de Paula, diretor de Programas, revela que a
Divulgação

ideia neste tipo de abordagem é mostrar que a decisão


ÕÊØ聍Øؗ«ØÊÊÕؗ«Üܗ؁¼¢ÊØ­¢«“Êʃ“—ăëã«óÊʂ
“Muitas vezes a vida nos leva a caminhos inesperados;

O
em outras, criamos nossos próprios rumos”. De acordo
nde estão enterradas as línguas mortas? com esse raciocínio, se um aluno decidir estudar his-
Qual seu número primo favorito? Pergun- tória, não quer dizer que ele só possa ser docente ou
tas insanas (ou cretinas) são comuns em pesquisador. Exemplo disso é o professor Filipe Perei-
várias circunstâncias e encontram terre- ra, historiador que presta consultoria para a elabora-
no fértil na mente de jovens em período de ção de videogames.
avaliação escolar, tendo que assimilar um O programa abre espaço também para profis-
Ü«¢Ã«ăã«óÊóʼè—“—«Ã¡Ê؁Ó—ÜʈSʫ܁ sionais destacados contarem suas histórias e peri-
renegada televisão pública do Brasil lapida pécias, como os cineastas Lawrence Wahba, Sérgio
uma joia desde 2016, quando foi ao ar pela Rezende e Belizário Franco. O mesmo vale para es-
primeira vez o programa Hora do Enem, hoje campeão critores, como Silviano Santiago, Mary Del Priore,
de audiência da TV Escola, administrada pela Funda- Geovani Martins, entre outros. “Porém, descobrimos

Revista Educação 77
MEC
que o maior interesse do nosso público está nos you- APROFUNDAR CONTEÚDOS
tubers, principalmente os de educação, que fazem Ainda no primeiro bloco, o professor de determina-
mais sucesso”, observa Carneiro, ao destacar Rafael da disciplina resolve uma questão do Enem. E faz uma
Procópio e Débora Aladim. revisão do conceito necessário para resolvê-la. Desde
Na abertura do Hora do Enem sempre há um esquete, a estreia do programa, o segundo bloco está reservado
na maioria das vezes cômico. O primeiro talk show edu- para uma entrevista.
cativo da televisão brasileira tem como “mestre de ce- Ao longo do ano, a produção do Hora do Enem pre-
rimônias” Land Vieira, ator de formação. Ele apresenta para programas especiais (Dia do Professor, especial
conteúdos didáticos sob a forma de um descontraído, de Natal), além de periódicas revisões de conteúdo.
por vezes hilário, bate-papo. Nessas representações, Tudo à disposição, na hora em que o aluno quiser. O
Land interpreta todos os papéis. Eventualmente, há líder de audiência da TV pública é transmitido de se-
participação de algum professor. gunda a sexta, em três sessões: 7h, 13h e 18h. O pro-

TIRA-GOSTO
Temas abordados pelo programa ao longo do tempo

* Land Vieira bateu um papo com o estudante * Movimentos artísticos como o Modernista
duas vezes ‘nota mil na redação do Enem’, Felipe e a Tropicália, comandada por Caetano Veloso nos
Bezerra, de Fortaleza, Ceará. Naquela oportunida- anos 70, foram destaque na programação. Para fa-
de, o aluno revelou como conseguiu a nota máxima lar sobre o assunto, o pesquisador Fred Coelho, au-
na prova de 2016. tor de livros e curador de exposições sobre os te-
mas, conversou com Land Vieira.
* A estudante Isabela Dadda foi uma das atra-
ções em 2017. Ela ganhou importantes prêmios
ÕËÜ—آ輨ØÁ՗Ü×è«Ü«—Ãã­ă—“—Ü—Ãóʼ-
COMO ASSISTIR:*
ver um método de detecção de drogas em bebidas, *EM TODO BRASIL:*
que pode ajudar a evitar crimes. ɽSky: Canal 21
ɽVivo: Canal 235
* No dia de História Negra, o personagem ɽClaro TV: Canal 08
principal foi Zumbi dos Palmares. Para contar a ɽOi TV: Canal 25
trajetória dele, o historiador Flávio Gomes abordou *Em São Paulo:*
Œ«Ê¢Øă×è——܍ؗó—èÜʌؗ—Üã—­ÊדؗܫÜ- ɽTV Aberta: Canal 62.3
tência contra a escravidão no Brasil. Para comple- ɽNet: Canal 8 (capital)
tar, a professora Jessika Souza, resolveu a questão *No Rio de Janeiro:*
76 do Caderno Azul do Enem 2017 sobre a história ɽTV Aberta: Canal 2.3
da população negra no país. ɽNET: Canal 15
*Em Brasília:*
* Os estudantes tiveram a oportunidade de ɽTV Aberta: Canal 2.3
conhecer mais sobre conceitos de etnia e sociolo- ɽNET: Canal 13
gia aplicados ao mercado de trabalho: o professor
Ramon Chaves conversou com o apresentador e A QUALQUER MOMENTO
resolveu as questões do Enem 2017 sobre formação ɽ ¨ããÕʂʏʏãó—܍ʼʈÊØ¢ʈŒØ
—ÊÃĄ«ãÊܘãëÊÜʈ ɽwww.youtube.com/tvescola

Revista Educação 78
ʭBŠÊã؁Œ¼¨ÂÊ܍ʁ
¨«ÕËã—Ü—“ÊÊؗ¼«ÿŠÊ
Divulgação

“ÊùÂ——Ü㗁ÃÊʮʃă؁
o diretor Renato de Paula

grama também pode ser visto, a qualquer momento que o programa apenas preenche uma lacuna que ou-
no site (tvescola.org.br), pelo aplicativo do portal, no tras emissoras deixam. Somos uma televisão modes-
YouTube, Instagram e Facebook. ta, mas conseguimos realizar um bom trabalho com
Um dos pontos de honra da atração é apresentar o orçamento que temos”. A equipe é considerada, ao
professores e entrevistados de todo o Brasil. Foram ãʓÊʃ“—ÿÕØÊăÜÜ«ÊÁ«Üʈ
Ê܍ÜÊÜ“— —퍫ÊS«ã¢èØúʃ—Üã蓁Ãã—“—#—ʢ؁ă
que veio de uma aldeia indígena do interior do Ceará, )qVSVHqʊ
e Roberson Jacques, refugiado haitiano que estuda na O último primeiro de abril trouxe uma notícia que me-
Universidade Federal da Integração Latino-Americana, ù—èÊŒ—“Ê܁¼èÃÊÜʂ¢Ø‚㍁VVÊÃ×¼¼—úʃؗÜ-
em Foz do Iguaçu, no Paraná. A pesquisadora da Nasa, ponsável pela impressão das provas do Enem, decre-
Rosaly Lopes, que vive nos EUA, também contou suas tou falência. Será que vai ter prova este ano? “Eu sigo
aventuras virtuais no espaço sideral, assim como Ar- as orientações da diretoria da empresa. Até este mo-
thur Ávila, hoje residente na França e o primeiro brasi- mento não trabalho com qualquer hipótese da não
leiro a receber a medalha Fields de Matemática realização do exame, nem com plano B. Isso não tem
A cada dia da semana é destrinchada uma área do sido cogitado na TV Escola” admite Renato de Pau-
conhecimento: matemática (segunda), ciências hu- la. Segundo ele, Hora do Enem não sofreu qualquer
manas (terça), linguagens e códigos (quarta), ciências restrição ou sondagem sobre suspensão da prova,
da natureza (quinta) e redação (sexta). Carneiro diz por parte do MEC.
que não existe segredo na fórmula encontrada: “Acho “O programa tem como pauta o conteúdo programá-
tico do Exame. Ou seja, abordamos os assuntos que de
algum modo podem cair na prova. Desde que o programa
Em abril, o programa foi ao ar o exame vem se mantendo o mesmo, Logo, nun-

atingiu 500 episódios, ca houve nenhuma mudança em relação ao conteúdo.”


O talk show da TV Escola já repercute no continen-
ÕØʓèÿ«“ÊÜÕÊØ ã—ʂ—ÂȻȹȺɀ—ȻȹȺɁʃ¡Ê«ăÁ¼«ÜこÊÕ؛«Êa;ʃÕثÍ«-
uma equipe de pal premiação para as TVs públicas da América Lati-

“—ÿÕØÊăÜÜ«ÊÁ«Ü na: “Ainda em abril chegamos aos 500 episódios. E ao


término de 2019 teremos ultrapassado a marca de 600
contratados programas”, exulta Carneiro.

Revista Educação 79
PEDAGOGIA

FORMAÇÃO DE PROFESSORES:
POR ONDE COMEÇAR A

REFORMA
Há um ciclo negativo se perpetuando na formação dos
futuros mestres, mas bons exemplos rompem esse
ÕØʍ—ÜÜÊ—ÕÊÃãÂՁ؁荁«èʓ——ù—¼›Ã«×è—
pode guiar outras instituições de ensino

| Diego Braga Norte, da revista Ensino Superior

É
chocante, muitos professores novos não têm Censo da Educação Superior indica que a maioria dos
ideia de como se relacionar com os alunos. professores é formada em faculdades particulares.
Chegam à escola com lacunas na formação, A baixa atratividade da carreira também é um ponto
perdidos na própria especialidade. O rela- complicado. Um estudo realizado pelo Iede (Interdiscipli-
to é do professor de física da rede pública naridade e Evidências no Debate Educacional) mostra que
V«Ø“Ê SãØÊʈ  ¡Ê؁ŠÊ “—ă«—Ãã— “ÊÜ apenas 3,3% dos alunos de 15 a 16 anos (755 alunos, calcula-
ÕØÊ¡—ÜÜÊؗÜ ˜ «“—Ãã«ă“ ÕÊØ —Ü՗«¼«ÜãÜ dos com peso amostral) têm a intenção de lecionar . Den-
como uma das causas da má qualidade do tre eles, 634 estão abaixo do nível 2 em matemática no exa-
ensino básico no Brasil. Independentemen- me do Pisa, 494 abaixo do nível 2 em leitura e 546 abaixo do
te da avaliação, os resultados do país são sempre pí- íó—¼Ȼ—«›Ã«ÜʈÜã—˜Êí󗼁«ÜŒ‚Ü«Ê“—ÕØÊă«›Ã-
ăÊÜʂÃÊS«ÜʃÊ ؁ܫ¼ʍèՁȿȾȷÕÊÜ«ŠÊ—ÃãؗÊÜɀȿ «Á¼ÜÜ«ăŠÊ“Hʃ×è—ؗ¼«ÿÊ—ùÂ—ÂèÓ«¼ʈ
países avaliados na prova de matemática, e no Ideb o Há um ciclo negativo se perpetuando na formação dos
cenário é de estagnação . futuros mestres, mas bons exemplos e boas práticas que-
O maior responsável pela qualidade do ensino básico bram essa cadeia e apontam para um caminho de exce-
é, claro, o governo, com seus enormes e complexos pro- lência que pode guiar outras IES que desejam melhorar.
Œ¼—Ü—ÜãØèãè؁«Ü“—ăÁÍ«Â—ÃãÊ—¢—ÜãŠÊʈAÜÊÊ
há como negar que as IES, principalmente as da rede POR UMA NOVA AVALIAÇÃO
privada, têm um papel importante nesta equação e po- A educadora Bernardete Gatti, presidente do Conselho
dem contribuir e muito para a melhoria do sistema. O Estadual de Educação de São Paulo e uma das maiores

Revista Educação 80
Shutterstock

pesquisadoras em educação no Brasil, diz que nos últi- ×ʈÊ«ÜÜÊʃÊAã—“«ăè¼““—“—ÊŒØØ—¼¨ÊØ«Ü


mos 20 anos houve “um grande estímulo, de diversas das IES e as faculdades não conseguem visualizar com
¡Ê؁Üʃ «ÃÜã«ã荫ÊÁ¼ — ăÁ͗«ØÊʃ †Ü ,Z Õث󁓁Üʮʃ ×è— ¼Ø—ÿÜÕØËÕØ«Ü“—ă«›Ã«Üʃ՗Ø՗ãèÃ“Ê¡¼¨Ü×è—
cresceram muito mais que as públicas; por isso que hoje poderiam ser sanadas com um diagnóstico mais efetivo.
temos a maioria dos cursos e alunos de licenciaturas e O diretor do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ra-
pedagogias em escolas particulares. Ainda de acordo com mos, concorda com a proposta, e acrescenta que, além
a especialista, tanto o monitoramento nas novas facul- de melhorar a qualidade, é fundamental ampliar a atra-
dades como a qualidade não acompanharam o ritmo do tividade dos cursos e da carreira de professor. Ainda que,
crescimento. “Houve uma liberalidade muito grande por evidentemente, a responsabilidade em melhorar o salário
parte do MEC, que permitiu a proliferação de muitas fa- —“—ăëØèÂÕ¼ÃÊ“—Øؗ«Ø«Üã؁ã«óÊՁ؁ÊÜÕØÊ-
culdades ruins. Tivemos, sem dúvidas, um ganho quanti- fessores seja do Estado, as IES podem e devem trabalhar
tativo, mas pouco ou nenhum ganho qualitativo”, diz. em conjunto por pautas comuns. Em sua visão, as facul-
Uma das soluções, de acordo com Gatti, seria uma mu- dades privadas podem sensibilizar seus alunos, profes-
“ÃÃÊÜ«Ü㗁Êă«¼“—ó¼«ŠÊՁ؁ܗØ«Øè sores e a própria sociedade em prol da melhoria da edu-
forma exclusiva e mais precisa de mensurar os cursos cação básica. Podem também atuar junto aos governos,
formadores de professores, pedagogia e licenciaturas. sugerindo ações, e como parceiras. “Todos só têm a ga-
Para a especialista, a avaliação do jeito que é feita hoje é nhar com a melhoria da educação básica no Brasil, inclu-
Âè«ãÊ¢—Øث—ÊÊ“‚ÊÃこ—ÕãØÜ—Ü՗«ă«“- sive as IES privadas, que formam a maioria dos professo-
des de tais cursos em suas vertentes presencial e on-li- res e recebem a maior parte dos alunos do ensino básico”,

Revista Educação 81
PEDAGOGIA

Gustavo Morita
Aula no Instituto Singularidades: foco em novas metodologias de ensino para
formar professores mais alinhados às necessidades contemporâneas

Divulgação
explica Ramos. Ele complementa que o trabalho é desa- Õ¼——ÃこÜ  “—ă됊Ê “— è ռÃÊ “— Øؗ«Ø ¼ØÊ
こÊØÕÊØÜ聍ÊÂÕ¼—ù«““——óØ«—““—“—¡ãÊؗÜ—Ã- e atrativo, com gatilhos no salário atrelados à formação
volvidos, como “trocar o pneu com o carro em movimen- continuada; mais empenho dos professores para se atua-
to”, mas é absolutamente necessário fazê-lo. lizar; e concursos mais exigentes. “Com ajustes, serieda-
de e vontade de todos os atores envolvidos, é possível me-
POLÍTICAS PÚBLICAS lhorar nossa formação e educação básica.”
H“—܁ăÊ“—¡Ê؁Ø—Õ«ãØÕØÊ¡—ÜÜÊؗÜÊʘ—ù-
clusividade do Brasil, tanto que o Banco Mundial (BM) REFERÊNCIA NA FORMAÇÃO
e o braço da Organização de Estados Ibero-Americanos DE PROFESSORES
para a educação criaram um programa com o objetivo de O Instituto Singularidades, que oferece cursos de li-
orientar e apoiar o desenvolvimento de iniciativas inova- cenciatura, pós, extensão e consultoria na área da educa-
doras no âmbito da formação inicial e continuada de do- ção, vem aprimorando sua expertise desde 2001. Ao longo
centes. O projeto piloto, implantado em 2014 na Colômbia, dos anos, a metodologia de ensino e os currículos já fo-
com o apoio do governo e de diversas IES, acompanhou ؁ÂÂʓ«ă“Ê܁¼¢èÜó—ÿ—ÜՁ؁ܗÃã—ؗã聫Ü
o trabalho em sala de aula e capacitou 73.077 professores e relevantes. O diretor-executivo da instituição, Miguel
em 12.497 escolas, sendo que 4.190 eram estabelecimentos Thompson, é aberto às mudanças e sabe que sua escola
educacionais de baixo rendimento. Os resultados já estão é um ponto fora da curva. “Como somos altamente espe-
aparecendo e motivando a perenidade do programa, que cializados, temos sempre que estar na dianteira.”
deve, em breve, virar uma política de Estado. Partidário da constante “refundação dos centros for-
Sobre o papel preponderante do Estado na valorização madores de professores” para conseguir acompanhar
da carreira do professor de ensino básico, Márcia Andréa as mudanças do mundo contemporâneo, ele enten-
Schmidt da Silva, coordenadora da pós-graduação em de que enquanto as faculdades seguem sendo muito
“荁ŠÊ“SfVZʃØ›×藁Œ«ù×聼«ăŠÊ“Ü՗Ü- compartimentadas e estáticas , a sociedade, o conheci-
soas que procuram os cursos de pedagogia e licenciaturas —ÃãÊ—«Ã¡Ê؁ŠÊ܊ʍ“ó—ÿ«ÜĄè«“ÊÜʃÂèã‚-
˜ؗĄ—ùÊ“«Ø—ãÊ“Ê“—܍ÜʍʁÕØÊăÜ܊ÊʈʭSÊè×è­Üܫ veis e intercambiáveis.
gente quer ser professor, menos ainda entre os jovens bem Um ponto crucial aplicado no Singularidades, e exal-
preparados. E muitos dos que têm um ideal, um sonho, tado por outros especialistas ouvidos pela reportagem,
abandonam os cursos porque são de baixa renda”, avalia. ˜ÂÕ¼«ŠÊãÃãÊÃÊã—ÂÕʍÊÂÊÁ¡Ê؁“—ă܍-
Mas, apesar da constatação desalentadora, a educadora lização do estágio obrigatório de 400 horas exigido pela
é otimista. Dentre as medidas elencadas como elemen- resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE) de
tares, Schmidt da Silva cita como possíveis de serem im- 2002. Outro diferencial são os modelos de aulas dife-

Revista Educação 82
renciados. “As licenciaturas, em sua maioria, são mais mesmo modo que foi implantado, com vídeos expositi-
tradicionais que outros cursos. É preciso mudar essa vos, textos em PDF e a prova on-line de múltipla escolha.
mentalidade. O futuro professor não pode aprender da BŠÊ˜Üèă«—Ãã—ʃ˜Õؗ«ÜÊ—¼¨Ê؁ØÂè«ãÊ—ÜܗՁ“ØŠÊʮʃ
maneira como ele estudou em sua infância e adolescên- constata Miguel Thompson.
cia. Tem que aprender diferente para saber como fa- Bernardete Gatti, presidente do Conselho Estadual de
zer isso depois”, diz Thompson. Diante desta premissa, Educação de São Paulo, explica que os educadores não
os alunos do Singularidades têm cada vez menos aulas são contra o ensino on-line, pois isso seria ir na contra-
expositivas e uma carga maior de aulas e trabalhos em mão dos avanços, seria um erro. Mas, por outro lado, ela
grupos, atividades performáticas e práticas. ă؁ ×è— ʭ “Ê ¶—«ãÊ ×è— —ù«Üã— ×è« ÃÊ ؁ܫ¼ ÊÊ
Outro centro de excelência em formação de professo- tem mais em nenhum lugar do mundo, é algo muito ul-
res, o Instituto Vera Cruz, que oferece graduação em Pe- trapassado”. Para Gatti, ou as faculdades formadoras se
dagogia, diferentes pós em educação, cursos de extensão comprometem em um trabalho sério de atualização e
e consultoria pedagógica, reformulou drasticamente seu melhoria dos cursos, ou “a situação pode fugir totalmente
currículo há pouco tempo, e desde 2017 está trabalhando do controle, com impactos diretos na qualidade do ensi-
com o modelo novo. “Dizem que a graduação em Peda- no lá na ponta, ampliando o descompasso entre as escolas
gogia deixa muito a desejar e que há uma faculdade em públicas e privadas”.
cada esquina. Há uma parcela de verdade nessa generali-
zação”, admite Andréa Luize, coordenadora pedagógica e O PROBLEMA DO ENSINO EM ESCALA
professora do Instituto. O principal objetivo da mudança a¨ÊÂÕÜÊÍÊÂÕ¼——Ãしă؁×è—è“Ê܁«ÊؗÜ
foi aproximar os alunos com o dia a dia das escolas par- gargalos está justamente na gestão dos grandes conglome-
ceiras. Assim, os futuros professores acabam cumprindo rados educacionais, que se fortaleceram com as recentes
mais que a carga horária de estágio exigida pelo MEC. aquisições que o mercado vivenciou. “Os grandes grupos
“Temos parcerias com escolas públicas e privadas. ã؁Œ¼¨Â — —܍¼ — ÕÊØ «ÜÜÊã›Â «Ü “«ăè¼““— “—
Como são instituições que trabalham há algum tempo co- romper com o atual modelo e inovar o ensino em EAD”,
nosco, desenvolvemos uma boa sintonia. Elas realmente avalia. E essa complexidade acaba impactando centenas ou
fazem parte do processo de formação dos nossos alunos”, ã˜«¼¨Ø—Ü“—èØÜÊÜʃ×è—óŠÊăÃ“Ê“—¡Ü“ÊÜʈ
explica a coordenadora. As disciplinas do curso de Pedago- A pedagoga Heloisa Argento, coordenadora de Tecnolo-
gia foram reunidas em módulos temáticos e todo o conteú- gias Digitais na Educação no Colégio São Bento, no Rio de
do é passado por meio de trabalhos. Os futuros professores 7Ã—«ØÊʃă؁×藁㗍Ãʼʢ«—ù«Üã—Ã㗨ʶ—ÕÊÜÜ«Œ«¼«ã
já aprendem utilizando as metodologias que irão trabalhar experiências de ensino muito dinâmicas, com vídeos in-
no futuro. Os alunos também têm de desenvolver projetos terativos, jogos, atividades colaborativas, uso didático das
dentro das escolas em que atuam, sempre sob a orientação redes sociais, maior ênfase na comunicação visual, traba-
dos professores da casa e da faculdade. lhos transmídias e multidisciplinares, entre outras práticas
que já existem no mercado. “Não é necessário reinventar a
EAD, QUANDO ADEQUADO, É ÓTIMO roda, mas é preciso fazer uma atualização e para isso bas-
O Censo da Educação Superior de 2017 traz dados im- ta usar o que já existe de mais moderno”, explica Argento.
portantes sobre o futuro da formação dos professores. Analisando a grande oferta de licenciaturas on-line,
Somente entre as licenciaturas, o percentual das matrí- o educador Mozart Neves Ramos, diretor do Instituto
culas a distância atingiu 46,8% em 2017, e a tendência é Ayrton Senna, diz entender o lado das IES. “Os cursos
o EAD superar o ensino presencial em breve. Os dados de EAD são muito mais baratos tanto para as instituições
mostram que não dá mais para discutir, planejar ou tra- quanto para os alunos, portanto a expansão seguiu uma
balhar a formação de professores sem incluir o ensino a lei de mercado”, avalia. Porém, como mais de 80% dos
distância na equação. professores de ensino básico são formados nas institui-
De maneira geral, os especialistas consultados pela re- ções privadas, estas faculdades têm a obrigação de “subir
portagem não são contra o ensino on-line, mas defendem o sarrafo” e melhorar a qualidade dos cursos ofertados.
atualizações no conteúdo, na metodologia e a adoção de Ramos crê que é fundamental a presença de tutores bem
um modelo híbrido — com todas as 400 horas, ou até uma preparados para a condução das atividades e principal-
carga horária superior a isso, de residência pedagógica —Ã㗁㓗¼«ÿŠÊ“Ê܁¼èÃÊÜʈʭ—óÜŠÊÃʘ×èÜ—
obrigatória cumpridas no dia a dia de uma escola e den- ÊãØ«Õ¼Ê “Ê ÕؗܗÍ«¼ʎ ˜ Âè«ãÊ «ÂÕÊØãÃã— 㓗¼«ÿØÂÊÜ
tro de salas de aula. “Hoje o EAD continua sendo feito do esse aluno, incentivando-o e ajudando-o a se formar.”

Revista Educação 83
PEDAGOGIA
Com a palavra, os professores
Docentes relatam experiências de início de carreira e apontam os
“—܁ăÊÜ×è—Õؗ«ÜÂܗØ—áؗÃこÊ܍ÊÂÕØ«ÊØ«““—

E
u entrei na rede estadual em 2007 sem saber modelo e produzir bons resultados, diz ela. “A média ge-
como funcionava o sistema público educa- ral é baixíssima e o nível dos professores é determinante
cional”, confessa o professor de física Ricardo nisso.” Ciente de que é impossível formar perfeitamente
Pataro. Mais de uma década depois, o docen- 100% dos professores, ela defende uma formação “mais
te conta que a passagem da licenciatura para —㍁ÿʮʃ Ê ÕØÊăÜÜ«ÊÁ«Ü ʭ×è— ܁«ŒÂ “«¼Ê¢Ø Ê ÊÜ
as salas de aula é um momento muito delica- alunos atuais e sejam aptos a ensinar as competências
“Ê Á 󫓁 ÕØÊăÜÜ«ÊÁ¼ —ʃ «Ã¡—¼«ÿ—Ãã—ʃ —Ü܁ exigidas na sociedade de hoje”.
transição vem sendo repetidamente subesti- Outro problema mencionado pelos professores é a alta
mada pelas faculdades (que fazem vista gros- desistência da carreira na rede pública. “Sempre traba-
sa com o cumprimento dos estágios obrigatórios), pelo lhei e defendi a rede pública, mas os melhores profes-
Estado (que pouco ou nada faz para ajudar o transcurso) ÜÊؗÜÊÊ㍁ÂʃÊÊ܊ʫÍ—Ãã«ó“Ê܁㍁Øʮʃ“«ÿÕØÊʢ
e até pelos próprios professores. fessora de português, inglês e redação Neiva Portes. Com
“Quando comecei a ir atrás de estágios, os professores melhores salários e estrutura, as escolas particulares
não queriam que eu assistisse a suas aulas, prossegue Pa- ã؁— ÊÜ ŒÊÃÜ ÕØÊăÜÜ«ÊÁ«Ü — ÂÕ¼«ʢܗ «Ã“ «Ü 
ãØÊʃ×è—«“—Ãã«ăèÊÂʓ«ÜÂÊÁ“܁蓂ó—¼×Üܗ distância na qualidade entre as redes públicas e privadas.
ciclo. “Muitos professores não deixam os estagiários en- Até para continuar estudando, na rede privada há mais
trarem, mas assinam as horas de estágio mesmo assim. facilidade. A professora Neiva disse que teve problemas
ŒܗÓʍÍÂʓÊՁ؁—¼—Ü—Ձ؁ÊÜ¡èãèØÊÜÕØÊăÜʢ para ter um dia livre durante a semana e assim conseguir
sionais, que se livram da obrigação sem o menor esforço”, fazer aulas de mestrado. “Tem colegas que não aceitam”,
detalha. E mesmo quando a vivência obrigatória em sala reconhece. Há ainda casos extremos (e absurdos) de pro-
de aula é feita cumprindo a carga horária determinada, fessores que tiveram de entrar na Justiça para conseguir
—¼ã—Ó—ܗØ“—ă«—Ãã—ʈH“—Ü—Üã­Âè¼Ê†¡Ê؁ŠÊ—† uma liminar para estudar. “Não é toda diretora que libe-
carreira é tamanho que os professores ouvidos pela re- ؁ʈʮBؗ“—Õث󁓁ʃ“«Ø—ŠÊ¢—؁¼Â—Ãã—˜«ÜĄ—ù­ó—¼
portagem relatam ser difícil encontrar jovens colegas que e entende a importância da formação continuada, e mui-
queiram, por exemplo, participar do Programa Institu- ãÜ ã˜ «Ã—Ãã«óÂ ăÁ͗«ØÂ—Ãã— ÊÜ ܗèÜ ÕØÊ¡—ÜÜÊؗÜ
cional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid). O projeto que querem fazer pós-graduação.
federal oferece bolsas de iniciação à docência aos alunos SÊØã—܁ă؁×è—ʃʭ«Ã“—՗Ó—Ãã——Ãã—“¡è¼““—
de cursos presenciais que se dediquem ao estágio nas es- que fazemos, não sabemos lidar com os anseios dessa ge-
colas públicas e que, quando graduados, se comprome- ração”. A sincera observação ganha mais peso na voz de
tam com o exercício do magistério na rede pública. uma professora com mais de 10 anos de carreira dedicada
“Os professores aprendem suas disciplinas, mas não ao ensino na rede pública e que cursou três graduações
܊Êãؗ«Ã“ÊÜ“—¡ãÊՁ؁ã聼¢—؁ŠÊ“—¼èÃÊÜʮʃăØʢ em IES de referência — Letras e Tradução no Macken-
ma a professora e pedagoga Heloisa Argento, que deu au- zie, Letras Português-Inglês e Pedagogia da USP. Portes
las na rede pública durante mais de 30 anos. De acordo vê uma crise grande na comunicação e no relacionamen-
com a especialista, as redes públicas perpetuam a miséria to dos professores com os alunos. “Os jovens de hoje não
educacional do país, pois, além de uma carência em in- querem aprender como as outras gerações, não veem
¡Ø—ÜãØèãè؁ʃÊÜÕØÊ¡—ÜÜÊؗÜ—¼èÃÊÜ㍁ÂʭÕؗÜÊÜÃè sentido em muitos dos conteúdos e sabem que uma boa
sistema de notas que hoje faz pouco sentido, com currí- educação, no Brasil, não é necessariamente uma garantia
culos ultrapassados e uma gestão conservadora”. São ra- de sucesso. Tem muita gente com pós, mestrado e douto-
ras as escolas públicas que conseguem romper com esse rado desempregada”, relata.

Revista Educação 84
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APRENDIZAGENS

JOGOS

VIOLENTOS
S«Ü——“荁“ÊؗÜ“—󗓫܍èã«Ø—“—ăëؼ«Â«ã—Ü“—
ã—ÂÕÊ—«““—Ձ؁—ùÕÊÜ«ŠÊ󫓗ʢÂ—Üʊ
| FERNANDO LOUZADA

A
tragédia ocorrida no dia 14 de março de sivos. No primeiro estudo, na “vida real”, o uso de jogos
2019 na cidade de Suzano reacendeu o de- violentos foi associado a comportamentos mais agressi-
Œã—ؗÜ՗«ãÊ“«ÃĄè›Ã«“ÊܶʢÊÜó«Ê- vos, delinquência e pior desempenho acadêmico. Poste-
lentos sobre o comportamento humano. A riormente, surgiram novos estudos, em sua maioria rea-
ŒÊؓ¢—«—Ãã­ăՁ؁—Üܗ㗁˜ؗ- ¼«ÿ“ÊÜ ÃÊÜ fʃ ÊÃă؁ÓÊ ؗÜè¼ã“ÊÜ Ãã—Ø«ÊؗÜ —
lativamente recente, tendo o número de ÂÊÜã؁Óʁ«ÃĄè›Ã«“ÊܶʢÊÜó«Ê¼—ÃãÊÜÁؗ“萊Ê“
artigos publicados crescido de maneira empatia e comportamentos pró-sociais, em adolescentes
Ü«¢Ã«ăã«ó Õ—ÁÜ ÃÊÜ é¼ã«ÂÊÜ Ⱥȹ ÃÊÜʈ e adultos. Nos últimos anos, com o aperfeiçoamento de
Em síntese, boa parte dos estudos mostra técnicas de registro da atividade cerebral, surgiram evi-
que a exposição crônica a jogos violentos está associada dências da associação entre uso frequente de jogos vio-
a diversos efeitos negativos. Entretanto, alguns resul- lentos e alterações do funcionamento de sistemas neurais
tados são controversos e não há consenso entre pes- responsáveis pelo processamento de expressões faciais –
quisadores da área; além disso, é preciso considerar essencial para a construção da empatia e de comporta-
que existem inúmeros outros fatores que podem estar mentos sociais saudáveis – e do controle inibitório. Em
associados a um comportamento violento, relaciona- outras palavras, a prática de jogos violentos pode alterar
dos à história individual e ao contexto social. Seria um sistemas cerebrais de processamento afetivo e cognitivo.
equívoco atribuir a culpa de uma tragédia dessa natu- BÊăÁ¼“ʁÃÊՁÜ܁“Êʃ«ÂÕÊØãÃã—ؗó«ÜãProcee-
reza única ou primordialmente aos jogos violentos. dings of the National Academy of Sciences (PNAS) publi-
Em um dos artigos pioneiros sobre esse tema, publica- cou uma meta-análise na qual foram avaliados 24 estu-
do em 2000, os psicólogos norte-americanos Craig An- dos sobre o tema, os quais envolveram mais de 17 mil
derson e Karen Dill apresentam resultados de dois estu- participantes. Na introdução, os autores enfatizam que
dos, um deles realizado no que os autores chamaram de a maioria dos pesquisadores na área defende que os
“vida real” e outro realizado em laboratório, ambos com jogos violentos aumentam o comportamento agressi-
estudantes universitários. No estudo de laboratório, vo- vo, mas há o que os autores chamam de uma minoria
luntários expostos a um videogame violento apresenta- barulhenta, que argumenta que os supostos efeitos na
ram aumento de pensamentos e comportamentos agres- vida real são no mínimo exagerados, senão espúrios.

Revista Educação 88
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Os critérios para seleção dos 24 estudos incluídos na reduzir sua simpatia por sua vítima virtual, com conse-
meta-análise procuraram eliminar estudos que eram quências para seus valores e comportamentos que ex-
apontados como falhos pela minoria barulhenta. Por trapolam o ambiente dos jogos.
exemplo, aqueles com medidas questionáveis de agres- O comportamento humano é multifacetado, fruto de
são ou com pouco rigor estatístico nas análises. Outro complexas interações entre predisposições biológicas
argumento da minoria é o viés das publicações cientí- — «ÃĄè›Ã«Ü ÂŒ«—ÃにÜʈãØ«Œè«Ø  è܁ “— ÊÂÕÊØ-
㍁ÜʃÕʫ܁Üؗó«ÜãÜÕØ«ÊØ«ÿÂ—Üãè“ÊÜ×è—ÂÊÜã؁ tamentos violentos a um único fator, como a exposição
resultados positivos – no caso, efeito dos jogos violen- a jogos violentos, pode atender momentaneamente ao
tos. A análise dos autores do artigo publicado na PNAS, anseio de quem busca por culpados, mas não contribui
ÕÊؘÂʃÂÊÜãØÊè×è—ÊÜ—Üãè“ÊÜ×è—«“—Ãã«ăÂèܛÃ- para a melhor compreensão do fenômeno. Em tragédias
cia de efeito dos jogos violentos sobre o comportamen- como a de Suzano há componentes inexplicáveis, qual-
ãÊÊÊ—ÜãŠÊÜèŒʢؗÕؗܗÃこÊÜÁ¼«ã—؁ãè؁«—Ãã­ăʈ quer que seja a perspectiva que utilizemos para com-
No artigo, são apresentados detalhes dos 24 estudos Õؗ—Ó›ʢ¼Êʈ ,ÜÜÊ ÊÊ Ü«¢Ã«ă ×è— “—óÂÊÜ «¢ÃÊ؁Ø Ü
analisados, a metodologia utilizada e os principais evidências apresentadas pela ciência. Muito pelo con-
resultados. A principal conclusão da meta-análise é trário, como pais e educadores, devemos, a partir dos
que os jogos violentos estão associados a maiores ní- ““ÊÜ“«ÜÕÊíó—«Üʃ“«Üèã«Ø—“—ăëؼ«Â«ã—Ü“—ã—ÂÕÊ—
veis de agressão física. idade para a exposição a esse tipo de jogos. E, como so-
Os autores também discutem uma possível ação mo- ciedade, devemos oferecer ambientes mais saudáveis
deradora do ambiente cultural sobre o efeito dos jogos para crianças e adolescentes, os quais apresentem al-
violentos. Segundo eles, culturas que promovem res- ternativas de lazer e aprendizagem que possam ir muito
ponsabilidade social e empatia em relação às vítimas além de telas coloridas com socos, chutes, facadas, tiros
de violência tendem a reduzir os efeitos negativos dos e outras ações cujo objetivo é matar e não ser morto.
jogos violentos. Por outro lado, culturas que promovem
o individualismo exacerbado e valorizam o que chama-
ram de “mentalidade guerreira” podem levar os indi- Fernando Louzada
é doutor em Neurociências e Comportamento pela
ó­“èÊ܁ܗ«“—Ãã«ăØ«ÜÊÂÊՁ՗¼“—¢Ø—ÜÜÊØ— USP e pós-doutorado pela Harvard Medical School

Revista Educação 89
DIÁLOGOS

No corredor
O orientador educacional encontra a aluna parada — Estou tentando, mas na semana que vem eu pas-
em frente ao balcão onde trabalha o bedel. sarei a frequentar.
— Como seria o “estar tentando”? Qual a ação con-
— Oi, Laura, tudo bem? Vi que está há um bom tempo creta dessa tentativa?
aí no balcão do bedel. O que houve? — É que eu volto com a van escolar bem no horário
— Tudo bem, obrigada. Eu já estou voltando para a sala. da aula de reforço. Estou conversando com o motorista
— Mas se você está aí parada, como pode “estar para que ele venha me pegar mais tarde.
voltando”? — Além de estarem conversando, você crê que o mo-
— Eu já vou voltar para a sala, estou pegando umas torista esteja resolvendo o problema?
cartolinas para levar para a aula. ʠZ«Âʃ—¼—“«Üܗ×è—“Ø‚ؗÜÕÊÜぁã˜Êă“—Üã
— E onde estão as cartolinas? O bedel foi buscá-las? semana sobre a possibilidade de mudar o horário.
Você está esperando por ele e por elas? — Será importante que você frequente essas aulas
— Não, ele saiu agora mesmo para atender a um cha- para que possa “ir corrigindo” aula a aula seus proble-
mado no segundo piso. As cartolinas estão aqui na par- mas com matemática, não?
te debaixo do balcão. — Sim, verdade. Farei isso.
— Quanto tempo você leva para “estar pegando” as — Você está assistindo às aulas de reforço de língua
cartolinas, Laura? portuguesa também?
— Leva uns segundos. Já estou indo, desculpe-me. — Não, mas eu estarei frequentando em breve.
— Calma, não vá ainda. Parabéns, agora sim você — Excelente. Faça isso também.
usou o gerúndio em uma situação de movimento. Mas, — Farei. Bem vou indo.
antes de ir, me responda. Você está frequentando as — Laura, sem as cartolinas?
aulas de recuperação paralela à tarde? — Ah, sim, já ia me esquecendo...

Revista Educação 90
Gerúndio: empurrando com a barriga
O gerúndio, entre muitos outros fatos e recursos lin- do que um desejo de, realmente, solucionar a questão.
guísticos que revelam nossa identidade nacional, é um Sem contar com a famigerada enunciação “eu vou estar
retrato bem acabado da nossa versatilidade linguística transferindo para o setor de cancelamento”.
e social. Cabe a ele, corretamente, permitir a expres- Aqui, em terras tupiniquins, o gerúndio, em cons-
são de movimento e continuidade (“estou trabalhando truções adverbiais, pode disfarçar e omitir o autor de
no momento”), sinalizar o aspecto durativo de atos e uma determinada ação. O sujeito desaparece e não se
—ó—ÃãÊÜ ʛʭ—ÜãÊè “—Ü«Üã«Ã“Êʮʜʃ Ó—Ü Êͼ譓Ü ʛʭăÁʢ compromete, sobretudo em construções condicionais,
lizando a prova, entregue a folha de resposta”), ação como “pensando sob esse ponto de vista…” O emissor
presente com tendência continuativa (“estou falando não deixa evidente sua autoria, que seria revelada em
agora”), ênfase na ação durativa (“ela anda dormindo construção de sentido similar, como “penso que”.
mal”), ações que duram um determinado tempo (“vou Em, por exemplo, “considerando que você é meu
estar me exercitando na academia das 16h às 17h”) e ato amigo, quero lhe pedir um favor”. Repare que a con-
futuro em relação a outro ato futuro (“amanhã não vou sideração parece vir de um ato divino ou universal, já
ao boteco, vou estar me reunindo por um bom tempo que não é o enunciador quem considera a suposta ami-
depois do expediente com um cliente”). zade. Um ser indeterminado impõe ao diálogo o traço
As diversas possibilidades de emprego que essa forma de amizade e a solicitação de favor.
nominal oferece ao usuário da língua conferem ao gerún- O gerúndio, por aqui, presta-se também a encobrir a
dio o status de curinga do idioma, porque torna nossa in- causa e, vez ou outra, a esconder responsabilidades. As
teração comunicativa ágil e versátil e permite usos em orações adverbiais causais, quando reduzidas, perdem a
situações variadas. Pode-se dizer que o leque de uso do conjunção “não estando atento ao trabalho, deixou pas-
¢—ØéÓ«Êܗ¶èՁØ㫍輁ث““—“é¼ã«ÂĄÊØ“Ê;‚«Ê sar esse defeito”. Veja que se empregássemos “porque
brasileira. Idiomas mais rígidos e que não lançam mão do você não prestou atenção”, a situação e a causa muda-
gerúndio se tornam mais regrados. Os portugueses, por Ø«Â“—ă¢è؁ʈBÕث—«Ø¨‚èÂܗ؁ŒÜã؁ãÊʎÁÊèã؁ʃ
—ù—ÂÕ¼ÊʃÊÂÊÊÜ—ÜՁè˫ÜʃÕؗ¡—Ø—ÂÊ«Ãăëã«óʁʢ—ʢ um você concreto e explícito. Ora, “não se culpando uma
rúndio (“estou a trabalhar”), e não empregam esse nosso pessoa, não se atribui a causa do erro ao seu responsá-
companheiro com a mesma frequência e familiaridade. vel” ou “se eu não atribuir erro à pessoa, não o respon-
Pode-se dizer que há certa brasilidade no uso de ge- sabilizo pelo problema causado”.
rúndio. Sim, é um bem imaterial indissociável de nos- E, assim, com o gerúndio sendo empregado de forma
sa gente – e caminha para canonização pátria como o adequada, inadequada, astuta e preguiçosa, a gente (como
samba, o carnaval e o jeitinho. No país em que o com- se diz por aqui) vai levando – com toda ambiguidade que é
prometimento com as ideias e com as coisas está lon- possível supor do danado desse recurso linguístico.
ge de ser manifestação cultural, não é incomum o
emprego dele em situações em que se deseja, por João Jonas Veiga Sobral
exemplo, não se comprometer. Professor de Língua Portuguesa e orientador educacional
“Estou tentando corrigir o malfeito”. A expressão “es-
tou tentando” revela o desejo e a intenção de ajustar a si-
tuação, mas não promete a resolução em um tempo de-
terminado. Assim, tem-se uma sensação de que as coisas
vão melhorar mesmo sem a promessa clara ou o com-
prometimento explícito. E de gerúndio em gerúndio vai
se tentando corrigir, às vezes, o corrigível e o incorrigível.
Aquele que nunca ouviu, de algum atendente de SAC, Shutterstock
em português claro um “eu vou estar providencian-
do a solução” que atire o primeiro celular. Com cer-
teza, a frase traz mais desesperança do que alento, soa
mais como um intencional “empurrar com a barriga”

Revista Educação 91
PANORÂMICA

Vincent Lacoste e
William Lebghil estão
em Primeiro ano

VESTIBULAR & COMPETITIVIDADE

ESTUDAR TANTO PRA QUÊ?


| SÉRGIO RIZZO
Sérgio Rizzo é jornalista e professor
sergio.rizzo@editorasegmento.com.br

D
emocracia, disse certa vez o britânico Wins- “Êă¼Â—˜Øã—Ø­Ü㫍“Ê—ÃÜ«ÃÊÜè՗ثÊء؁Í›ÜʃÜ
ton Churchill, “é o pior dos regimes polí- guarda semelhanças com os nossos exames. Em uma fa-
ticos, mas não há nenhum sistema melhor culdade pública de saúde em Paris, as notas do primei-
do que ela”. Foi uma eleição democrática, ro ano estabelecem o ranking de escolha das carreiras.
por sinal, que surpreendentemente tirou Quem não obtém a média necessária para o curso dese-
Churchill do poder em 1945, logo depois da jado pode mudar de opção, ou então insistir na escolha
II Guerra Mundial. Como primeiro-minis- inicial e repetir o ano para estudar mais.
tro, ele havia liderado a resistência britâni- Antoine (Vincent Lacoste, de Conquistar, amar e vi-
ca ao nazismo, mas as urnas consagraram a ver intensamente) está em sua terceira tentativa para
oposição. Há quem diga dos vestibulares quase a mesma fazer medicina, a carreira mais concorrida. Como ve-
coisa: não são um bom sistema, mas não existiria siste- terano de primeiro ano, torna-se mentor do novato
ma melhor para controlar o acesso ao ensino superior. Benjamin (William Lebghil, de Assim é a vida), filho de
Será mesmo? O drama francês Primeiro ano, em car- médico. À medida que o ano letivo avança, as tensões
taz nos cinemas e em breve disponível nas plataformas colocam à prova a amizade, a solidariedade e os sonhos
de streaming, ajuda a notar que os vestibulares são mui- de cada um. O diretor e roteirista Thomas Lilti fala do
to bons para mostrar quem é bom em fazer vestibular, a que conhece: fez medicina e usou a experiência ante-
um custo emocional (para os que participam do proces- riormente em Hipócrates (2014), também com Lacoste,
so, direta ou indiretamente) e social elevado. A situação e Insubstituível (2016).

Revista Educação 92
ARTES & ESCOLA

DISPONÍVEL AQUI, ALI E ACOLÁ


A localização física de nossas principais instituições cul-
turais fala sozinha pela desigualdade brasileira. Boa parte
está localizada no eixo Rio-São Paulo; boa parte das pau-
listanas, no espigão da avenida Paulista. Daí a importância Escola de gêniosÕØÊÕӗʭÕؗÓ«ÿ“ÊÕ؂㫍Ê—“«ó—Ø㫓Êʮ

de possibilitar, via internet, o acesso a seus acervos e ati-


vidades. O Itaú Cultural, por exemplo, tem se empenha- DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA
do em oferecer aos internautas quase tudo o que se pode
conhecer na própria sede. E, agora, com um canal espe- EINSTEIN JR.
cialmente voltado aos educadores, o Espaço do Professor.
"è㗌ʼÕ؁㫍“ÊÕÊØØʌÍÜ——ù՗ث›Ã«Ü×è—“—܁ăÂ
Trata-se de um campo criado pela Enciclopédia Itaú o poder da gravidade estão entre os temas da segunda tem-
Cultural de Arte e Cultura Brasileira – uma ampla obra porada de Escola de gêniosʃ¶‚—ØãÿÃʍÃ¼#¼Êʌ—
de referência virtual, em processo contínuo de atuali- ÁÜÕ¼ã¡Ê؁Ü“—ÜãؗÂ«Ã¢×è—¨ÊÜ՗“ÂܗèÊÃã—é“Êʈ
Na primeira temporada, que estreou em maio de 2018, um
zação – para reunir e compartilhar propostas didáticas. adolescente entrava na escola do título e, por meio de estu-
Como organizar uma aula sobre a Tropicália, como apre- dos de robótica, conseguia ajudar na recuperação da irmã
sentar “o mar de Dorival Caymmi” ou como criar estraté- ã—ã؁ռ˜¢«ʃ¼˜Â“—ó«ó—؁ó—Ããè؁Ü“—¡èÓʍ«—Ãã­ăÊÊ
lado dos novos amigos.
gias para a leitura de obras de Lygia Fagundes Telles são
ʭÃÊóã—ÂÕÊ؁“ã؁ÿã؁Ü—“—܁ăÊ܁«Ã“«ÜÜèØʢ
algumas das inúmeras possibilidades de exploração do preendentes, e os personagens como nosso público nunca viu
material. Artes visuais, música, literatura e temas sociais Ãã—Üʮʃ“«ÿSè¼aŒÊؓ“ÊÜ#èØÃúÜʃ“«Ø—ãÊ؁“—ÊÃã—é“Ê
correspondem aos pontos fortes do acervo. —ÕØʢ؁ŠÊ“Ê܍Ã«Ü#¼Êʌ—#¼Êʌ«Ã¨ÊʈHʭ¢ØÃ“—“«ʢ
ferencial” de Escola de gênios, segundo ela, é “a maneira como
Para saber mais: “—ÂÊÃÜã؁ÂÊÜèÕؗÓ«ÿ“ÊÕ؂㫍Ê—“«ó—Ø㫓ÊʮʈHèã؁Ü
¨ããÕʂʏʏôôôʈ«ãèè¼ãè؁¼ʈÊØ¢ʈŒØʏÊ藍ʢÊÜʢ“—Øʢ ã؛Üã—ÂÕÊ؁“Ü¶‚—ÜãŠÊÊÃă؁“ÜʈHÜÃÊóÊÜ—Õ«Ü˓«ÊÜ—ùʢ
nos-do-professor ploram a rivalidade com os alunos de outra escola de peque-
nos cientistas, a Robotec.

CONHEÇA TAMBÉM CLÁSSICOS DA DIVULGAÇÃO


CIENTÍFICA NA TV, HOJE DISPONÍVEIS PELA INTERNET:

O MUNDO DE BEAKMAN
Sucesso na TV Cultura, nos anos
1990, a série teve 91 episódios em tor-
no das experiências de um cientis-
ta (interpretado por Paul Zaloom) em
seu laboratório. Outros personagens o
ÊÂՁèóÂʃ ÊÂÊ Ê ؁ãÊ ¢«¢Ãã—
Lester (Mark Ritts).

X-TUDO
Outro sucesso dos anos 1990 trans-
Fotos: Divulgação

mitido pela TV Cultura, era intei-


ramente nacional e, além de temas
«—Ãã­ăÊÜʃ «ÃÊØÕÊ؁ó ¼«ã—؁ãè؁ —
cultura geral à pauta. Os falecidos
Gérson de Abreu e Márcio Ribeiro fo-
ram os apresentadores.
Espaço do professor: acervo e atividades

Revista Educação 93
ENTRE MARGENS

Amor, ordem e progresso

Shutterstock
A aprendizagem só acontece se tecemos vínculos afetivos

ÂÊØÕÊØÕثÍ­Õ«ÊʃHؓ—ÂÕÊØŒÜ—ʃÊSØʢؗÜÜÊÕÊØăʢ E continuou: Estou nesta escola há um ano e só ouço falar


nalidade – eis o lema adotado por Benjamim Constant, o de castigos. Proponho que se acabe com o tribunal e se crie
“Fundador da República Brasileira”. Benjamim foi minis- comissões de ajuda.
tro da Instrução Pública, autor de uma profunda refor- ÜÜ«ÂăÊè“—«“«“ÊÁÜܗŒ¼—«ܗ¢è«Ãã—ʈʃܗÂÕؗ
ma curricular, propôs a descentralização da gestão e uma que o Marco tendia para fazer besteira, logo um círculo
“formação adequada aos novos tempos”. humano o rodeava, dizendo: Somos a comissão de ajuda.
Apesar de ter sido militar e condecorado como comba- Estamos aqui para te ajudar. Nós sabemos que tu és bom. Nós
tente na Guerra do Paraguai, Benjamim era um Ձ«ăÜã, somos teus amigos! – E o “mandamento novo” se cumpriu.
assumia o princípio de que se deve “Viver para Outrem”. Nunca mais foi preciso impor regras, reprimir, punir.
E, ao participar no movimento pela Proclamação da Re- A aprendizagem acontece se tecemos vínculos afeti-
pública e na elaboração da Constituição de 1891, pugnava vos – se eu existo é porque o outro existe; o ser humano
por que a palavra Amor estivesse presente em todas as não é apenas um ser de contato, é um ser em relação – e
citações do lema positivista. a educação é um ato de amor. Mas continuamos insen-
Tal como o Benjamim de há mais de síveis aos apelos de Freire e do poe-
cem anos, sabemos que as pessoas de- tinha: ponha um pouco de amor na sua
verão amorosamente colaborar com O mais belo vida. E, nos arquipélagos de solidões
pessoas, sem com elas competir. Sa- ¨«ÃÊ“ÊÂèÓÊ em que as nossas escolas se transfor-
bemos que escolas são pessoas e que
as pessoas são os seus valores. Nos úl-
ÃÊÜ“«ÿ×è— maram, inauguram o desamor, não os
desamados, mas os que não amam, por-
timos quarenta anos, milhares de ve- um raio vívido que apenas se amam.
zes orientei a construção de “árvores de AMOR e Cadê a palavra amor na bandeira

de esperança à
dos valores”. Cada participante nes- brasileira? Ordem sem amor é violên-
sa dinâmica de grupo indicou o valor cia, porque ʁ“—Üã؁—ÃãÊÊÊ“—ă×
essencial das suas vidas. E o “tronco” terra desce a educação e uma educação amoro-
da “árvore”, o valor mais vezes referido sa é incompatível com a organização
sempre foi o… amor. autoritária da vida. Progresso sem amor é deterioração
Numa tese sobre a Escola da Ponte, encontrei a descrição ambiental, desumanização.
de um episódio, que transcrevo. Nos idos de 1980, o “Tri- Na sociedade doente em que vivemos, prevalece a cul-
bunal” julgava alunos, cujos nomes surgissem em grande tura do ódio. Imaginai o que seria este país se a palavra
quantidade no “Acho Ruim”. Na proto-história da humani- amor não fosse ostracizada. Se o mais belo hino do mun-
dade, em que os homens ainda precisam de tribunais, pri- do nos diz que um raio vívido de AMOR e de esperança à
sões e guerras, as crianças imitaram-nos. Até ao dia em que terra desce, por que terá sido amputado o lema positivista
uma menina de seis anos de idade, advogada de defesa de inscrito na bandeira do Brasil?
um colega, assim falou numa sessão do “tribunal”:
Vós não ouvis dizer que devemos amar-nos uns aos ou-
tros? Eu escutei o advogado de ataque dizer que o Marco
cospe nos colegas, que lhes atira pedras, que o Marco é José Pacheco
mau. Mas o Marco não precisa que digam que é mau. Ele Educador e escritor, ex-diretor da Escola
da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)
precisa de quem o ajude a ser bom. Algum de nós já aju- josepacheco@editorasegmento.com.br
dou o Marco a ser bom?

Revista Educação 94
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PROFESSORES E GESTORES EDUCACIONAIS
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