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A PRÁTICA PEDAGÓGICA DOS MESTRES DE CARATÊ DA

GRANDE VITÓRIA (ES)

Yúri Márcio Lopes


Discente do Programa de Pós-Graduação em Educação Física (mestrado) do CEFD/UFES.

Otávio Guimarães Tavares


Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação Física (mestrado) do CEFD/UFES.

Resumo
Este estudo propõe investigar o tipo de prática de ensino dos “mestres” de caratê nas academias da Grande Vitória
(ES). A metodologia adotada consiste em coleta de dados por meio da observação e da aplicação de entrevistas
estruturadas. Os dados coletados evidenciam que os conteúdos são tratados de maneira dogmática; a metodologia é
baseada na explicação oral e demonstrações do professor; a relação professor-aluno favorece as decisões unilaterais do
professor, e, na avaliação, verifica-se a exatidão das técnicas ensinadas. Em síntese, pode-se concluir que a presença
dos valores da tradição e do esporte nas aulas de caratê é fator impeditivo para adoção de práticas pedagógicas mais
críticas e significativas.
Palavras-chave: caratê – pedagogia do esporte – prática pedagógica.

Introdução inicialmente discutir como é possível pensar o


ensino do caratê como uma prática pedagógica.

O caratê é uma arte marcial milenar que


ao longo de sua história tem sofrido
transformações de seus significados e sentidos
O debate acadêmico aponta para o delinea-
mento de concepções de educação no sentido
lato e no sentido estrito. Isto se articula com
sócio-culturais. Em sua dimensão contem- a necessidade de determinação das interfaces
porânea, é reconhecido popularmente como que se estabelecem entre a especificidade do
um esporte de luta. Dadas as condições de papel social escolar e as práticas sociais não-
seu contexto histórico-social, verifica-se que escolares. Ao fazer uma revisão das diver-
o caratê assumiu valores da tradição japonesa sas concepções de educação, Libâneo (2001)
transmitidos especialmente por meio da nar- elabora uma síntese da concepção histórico-
rativa oral (VIANNA, 1995), o que tem de- social abordando dois conceitos de educação:
terminado sua identidade e, particularmente
para o que interessa a este estudo, suas formas Em sentido amplo, a educação compreende
o conjunto dos processos formativos que
e estratégias de aprendizagem. ocorrem no meio social, sejam eles intencionais
A motivação para este estudo foi a constru- ou não-intencionais, sistematizados ou não,
ção de uma reflexão sobre o ensino do caratê institucionalizados ou não... Em sentido
como uma prática pedagógica. Assim, o objetivo estrito, a educação diz respeito a formas
intencionais de promoção do desenvolvimento
deste artigo é analisar a concepção de ensino e a individual e de inserção social dos indivíduos,
prática pedagógica dos professores de caratê da envolvendo especialmente a educação escolar
Grande Vitória – GV (ES). Neste sentido, cabe e extra-escolar (LIBÂNEO, 2001, p. 74).

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Nessa passagem, ao discutir sobre as mo- configura-se como uma prática pedagógica.
dalidades da educação intencional, Libâneo Em face dessas discussões parece ser relevante
faz distinção de dois tipos: a não-formal e investigar que elementos caracterizam a prá-
a formal. Para ele, o termo “educação for- tica de ensino dos professores de caratê.
mal” refere-se àquela educação estruturada,
organizada, planejada intencionalmente e Metodologia
sistemática. Por outro lado, a educação não-
formal seria aquele conjunto de atividades A coleta de dados foi realizada por meio
com caráter de intencionalidade, implicando da técnica de observação das aulas, durante
certamente relações pedagógicas, porém com uma semana seguida, e da aplicação de uma
baixo grau de estruturação e sistematização. entrevista estruturada com cada um dos res-
Nestes termos, a educação escolar se confi- pectivos professores observados.
gura na modalidade de educação formal. Isto A partir do conjunto dos professores de
não significa dizer que não aconteça educação caratê filiados à Federação Espírito-Santense
formal em outros tempos/espaços sociais, ou de Karatê (FEK) foram selecionados três pro-
seu oposto, ou seja, práticas da educação não- fessores, segundo os seguintes critérios: [1]
formal na própria escola (atividades extra-es-
maior tempo de prática de ensino; [2] maior
colares). O autor esclarece que:
reconhecimento pelos pares de sua atuação no
caratê na GV; e [3] maior número de alunos.
onde haja ensino (escolar ou não) há educação
formal. Nesse caso, são atividades educativas É importante frisar que nenhum dos profes-
formais também a educação de adultos, a edu- sores tem formação em educação física.1
cação sindical, a educação profissional, desde Para a sistematização dos dados da obser-
que nelas estejam presentes a intencionalida- vação foi elaborada uma lista de checagem.
de, a sistematicidade e condições previamente
preparadas, atributos que caracterizam um
Nesta lista eram descritos previamente os
trabalho pedagógico-didático, ainda que reali- critérios de análise, acompanhando as carac-
zadas fora do marco escolar propriamente dito terísticas das tendências pedagógicas liberais
(LIBÂNEO, 2001, p. 81). e progressistas, tal como classificadas por Li-
bâneo (1993). Foi considerado também um
Em abordagem semelhante, Souza Júnior espaço para a descrição das ações dos profes-
(2001) faz uma análise sistemática do termo sores. Considerando que o contexto da práti-
“prática pedagógica”. Ele procura compreen- ca pedagógica dos professores de caratê está
der o seu surgimento na educação física, os circunscrito fora do ambiente escolar, utiliza-
delineamentos conceituais e contextuais, seus mos como categorias de análise os elementos
argumentos de sustentação na educação físi- “conteúdos”, “metodologia”, “relação profes-
ca e, por fim, apresenta a sua hipótese acer- sor-aluno”, “pressupostos de aprendizagem” e
ca da compreensão de prática pedagógica da “avaliação”.
educação física nas várias instâncias organi- Considerando os respectivos elementos
zacionais em que está presente. Souza Júnior que compõem a prática pedagógica, as argu-
(2001, p. 9) afirma que “a educação física é mentações e discursos dos professores foram
uma prática pedagógica mesmo em diferentes coletados por meio de uma entrevista com
tempos e espaços sociais, inclusive para além perguntas de tipo aberta. Esta técnica foi uti-
da escola”. lizada com o intuito de complementar e/ou
Inspirando-nos nestes autores, poderí- contrastar com os dados oriundos da obser-
amos admitir que na prática de ensino dos
professores de caratê há certo grau de estrutu- 1
De acordo com as informações obtidas nesta Fede-
ração pedagógica. Ou seja, o ensino do caratê ração existe oito academias filiadas.

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vação. As entrevistas foram realizadas em um 24): “São os conhecimentos e valores acumu-
ambiente neutro, para minimizar possíveis in- lados pelas gerações adultas e repassados ao
terferências de outras pessoas e restrições tem- aluno como verdades”.
porais. Para análise dos dados das entrevistas, Quanto ao aspecto das habilidades a se-
utilizamos a técnica de análise de discurso. rem apreendidas pelos alunos, percebemos, na
observação das aulas, um ensino mecânico. A
Apresentação e análise dos resultados ênfase na prática de ensino, principalmente
para as crianças e adolescentes, pode limitar o
Uma vez que as diferentes técnicas potencial criativo dos alunos para novas possi-
de coleta de dados utilizadas estão relaciona- bilidades de movimento. As aulas de caratê po-
das a uma mesma questão de investigação, a deriam ser enriquecidas com o sentido lúdico,
discussão dos resultados baseou-se na análise com o destaque na ampliação das possibilida-
combinada de observações e entrevistas de des de movimentos para aumentar o repertório
modo a facilitar a construção de sínteses. de forma criativa, sem que isto necessariamente
implicasse na “invenção de um estilo novo”.
Conteúdos de ensino
Métodos de ensino
Durante a observação pôde ser verificado
que, na prática pedagógica dos professores de Observamos que havia nas aulas certo
caratê, predominou a preocupação com trans- grau de estruturação. Regularmente inicia-
missão de conhecimentos. Como registramos va-se com os rituais de saudação ao mestre
em nosso diário de campo: “Ao ensinar um Gishin Funakoshi cuja figura estava presente
fundamento técnico (soco guiaku-zuki), o por meio de um quadro afixado na parede e
professor explicava e demonstrava como sal- ao professor. Em seguida eram realizados os
titar e aproximar do adversário com maior exercícios de aquecimento, o desenvolvimen-
rapidez. No ensino da luta, o professor dava to dos conteúdos da aula e finalizava com os
ênfase ao aperfeiçoamento no controle do mesmos ritos de saudação.2
contato físico, segundo as regras de competi- Do mesmo modo, constatamos um grau
ção” (aula do mestre A). de sistematização das aulas. O aprendizado
Os professores observados explicavam e o aperfeiçoamento das técnicas eram fei-
os conteúdos (valores pedagógicos do cara- tos, primeiramente, pela repetição parcial
tê, fundamentos técnicos – ataque, defesa, dos movimentos ou conjugando-os (kihon),
contra-ataque e deslocamentos, os katas e o considerando o nível de aprendizagem dos
kumitê) a partir de experiências adquiridas, alunos. Depois, era realizado o aprendizado/
variando entre os sentidos/significados do ca- treino da luta e/ou dos katas com base nas ati-
ratê para a autodefesa e para o esporte. vidades feitas anteriormente, dependendo da
Verificamos que os valores da tradição e faixa de graduação dos alunos, preparando-os
do esporte permeiam os conteúdos do ensino para futuras competições. Freqüentemente
do caratê. Ambos os elementos, na prática de era adotado o uso do rodízio entre os alunos
ensino dos professores, permitem um ensino no momento da luta a fim de favorecer a troca
que se fundamenta em “verdades” baseadas de experiências entre eles.3
no discurso da tradição e no imobilismo das
regras de competição. Nestes termos, os da- 2
Segundo a tradição oral, o mestre Gishin Funakoshi
dos puderam evidenciar que os conteúdos de foi o pai do caratê moderno.
ensino se aproximam do ensino tradicional, 3
De acordo com Paula (1996), os katas de competição
tal como classificado por Libâneo (1993, p. são aqueles listados pelos quatro estilos mais impor-

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Constatamos também, na prática de en- como os procedimentos a serem repetidos pe-
sino dos katas, uma preocupação dos profes- los alunos, de forma idêntica e exaustiva. As-
sores para além da repetição exaustiva dos sim, de acordo com a classificação de Libâneo
movimentos padronizados. Para compre- (1993), pode ser dito que as características do
endê-los seria necessário saber aplicar cada ensino do caratê se aproximam da tendência
movimento, já que os mesmos representam tradicional. Como afirma o autor,
uma simulação da luta. Apesar de os alu-
nos até ensaiarem novos sentidos aos movi- os métodos baseiam-se na exposição verbal da
matéria e/ou demonstração. Tanto a exposição
mentos, as “verdadeiras” e “inquestionáveis”
quanto à análise são feitas pelo professor
interpretações deles estavam centradas no [...] A ênfase nos exercícios, na repetição
professor. de conceitos ou fórmulas na memorização
As razões mobilizadas pelos professores visa disciplinar a mente e formar hábitos
para considerar corretos determinados pa- (LIBÂNEO, 1993, p. 24).
drões de movimentos evidenciam a presença
e a força da tradição oral do caratê e o caráter Relação professor-aluno
imobilista desta prática pedagógica. Segundo
eles: “Isso é assim porque sempre foi assim. Os professores deixam transparecer, nas
Isso vem da tradição. O caratê é uma arte mi- suas ações, o entendimento de que o rela-
lenar” (entrevistado B). cionamento com os alunos durante as au-
Considerando que os atores sociais fa- las deveria ser hierarquizado. Ao entrar no
zem uso de esquemas racionais para justificar dojô, o aluno sempre deve estar “abaixo” do
as ações, o uso de tais argumentos pode ser professor.
classificado como a manifestação de uma ra- O professor explica o que os alunos de-
cionalidade de tipo tradicional (BOUDON, vem fazer e eles apenas executam em conjun-
1996). É evidente que os professores de caratê to. O controle da quantidade e qualidade dos
mobilizam os argumentos baseados na tradi- movimentos, assim como o momento de des-
ção para explicar as situações que emergem canso, é definido pelo professor. Aos alunos
no cotidiano das práticas pedagógicas de for- cabe somente a repetição dos exercícios. Nes-
ma a dar um caráter racional para suas ações. se contexto, durante as aulas, a comunicação
Porém, é preciso considerar que a base des- entre os alunos ocorre somente nos intervalos
se tipo de discurso situa-se em um contexto de descanso.
mais amplo, construído ao longo da história O caráter da relação vertical entre profes-
do caratê e que auxilia a constituir a sua pró- sor-aluno é reforçado nas falas dos entrevista-
pria identidade. dos. Por exemplo, ao levantar a questão “o que
De modo predominante, os professores significa ser professor para você?”, um dos en-
mobilizam o conhecimento de suas próprias trevistados respondeu: “Significa ser respon-
experiências no caratê, com especial atenção sável em proporcionar às pessoas ensinamen-
às competições, para ensinar os conteúdos tos técnicos e filosóficos de cultura oriental de
pela explicação oral e pela demonstração. apreciação mundial” (entrevistado C).
Observamos que as técnicas são ensina- Nesse sentido, o tipo de relação professor-
das como receitas. Os professores explicam a aluno estava sustentado na hierarquia e na dis-
postura “correta” para cada movimento, assim ciplina. Acredita-se que os valores da tradição
são reforçadores para que a relação professor-
aluno seja verticalizada. A atenção é enfatiza-
tantes reconhecidos pela Federação Mundial de Kara-
da pela seriedade e respeito ao professor que
tê (Goju ryu, Shito Ryu, Shotokan e Wado Ryu) que
procura assegurar os principais katas de cada estilo. transmite os conhecimentos práticos.

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Ao analisar os dados anteriores, podemos no-aprendizagem, partindo do aprendizado e
verificar que a relação professor-aluno na treino dos fundamentos técnicos elementares
prática pedagógica dos professores de caratê aos movimentos mais complexos. Quando foi
apresenta semelhanças com o ensino tradicio- solicitado a explicar, com as próprias palavras,
nal. Para Libâneo (1993, p. 24), o relaciona- como os alunos aprendem, um dos entrevista-
mento entre professor e aluno: dos respondeu: “A aplicação dos conhecimen-
tos deve ser um exercício constante na luta ou
Predomina a autoridade do professor que exige nos katas. O aprimoramento de cada golpe ou
atitude receptiva dos alunos e impede qualquer
técnica deve estar sempre presente numa se-
comunicação entre eles no decorrer da aula. O
professor transmite o conteúdo na forma de qüência de aprendizado” (entrevistado C).
verdade a ser absorvida; em conseqüência, a
disciplina imposta é o meio mais eficaz para Avaliação
assegurar a atenção e o silêncio.

A observação é o instrumento de avalia-


Pressupostos de aprendizagem ção mais utilizado pelos professores, mas não
o único. Os alunos são avaliados no cotidiano
Os alunos apreendem os movimentos de forma qualitativa com base no desempe-
pela imitação do professor ou de alunos mais nho técnico, verificando a correspondência
graduados. Os professores condicionam os entre as demonstrações feitas e a exatidão na
alunos, independentemente da idade, a repe- execução. O olhar dos professores está centra-
tirem as técnicas com os estímulos, variando do na observância do grau de proximidade das
entre as contagens em japonês e as entonações formas de movimentos ensinadas e aquelas
da voz. A repetição dos movimentos é refor- exibidas pelos alunos. Isto ficou evidente na
çada de acordo com as respostas pretendidas entrevista com a questão: “Como você avalia
pelo professor, com as correções da postura a aprendizagem dos alunos? Quais são os cri-
e exatidão das técnicas, por meios de funda-
térios?” Um dos professores respondeu: “De
mentos orientados à luz da narrativa oral ou
modo observacional durante a prática de cada
das normas do esporte.
um nas aulas. Bom, os critérios são a execução
Confrontando os dados observados com
correta dos movimentos e a aplicação correta
o que pensa Libâneo (1993), verificamos uma
das técnicas” (entrevistado B).
proximidade maior com algumas caracterís-
Notamos que os professores fazem cons-
ticas da tendência liberal tradicional. Segun-
tantes correções quanto à direção do olhar,
do as características dessa tendência, o autor
trajetória dos golpes, distância adequada em
afirma que:
relação ao adversário na luta, quanto à postura
a capacidade de assimilação da criança é idên-
corporal para cada técnica de ataque, defesa e
tica à do adulto, apenas menos desenvolvida. deslocamento. Nas intervenções, o professor
Os programas, então, devem ser dados numa identifica as ações dos alunos que não corres-
progressão lógica, estabelecida pelo adulto, pondem às suas expectativas. Para cada faixa
sem levar em conta as características próprias
de graduação é exigido o domínio de um con-
de cada idade. A aprendizagem, assim, é re-
ceptiva e mecânica (LIBÂNEO, 1993, p. 24). junto de habilidades técnicas no kihon, kata
e kumitê. Porém, os katas foram os únicos
Os fatos observados, de certo modo, são cujos critérios apresentaram convergência no
complementados com o discurso dos pro- discurso dos professores.4
fessores nas entrevistas. Os professores acre-
ditam que, para aprender a lutar caratê, os 4
No caratê, as faixas de graduação marcam os níveis
alunos devem passar por processo de ensi- de aprendizagem. As cores das faixas variam de acor-

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Foi constatado nas entrevistas que as com- sessão de treinamento, com o predomínio dos
petições servem, também, como instrumento métodos da explicação oral e a demonstração
de avaliação para verificar quanto o aluno as- centrada no professor. A sistemática de en-
similou dos conhecimentos técnicos. É atri- sino parte do método parcial (kihon) para o
buído às competições um momento relevante global das técnicas do caratê (kata e kumitê)
a ser considerado nas avaliações por colocar o e as estratégias de ensino por comando. Foi
aluno diante de situações adversas para obser- evidente a relação hierarquizada entre profes-
var a aprendizagem do autocontrole, da dis- sor e aluno, cabendo ao professor o controle
ciplina e do amadurecimento. Contudo, não da aula e aos alunos a imitação passiva. Para a
foram registradas, neste estudo, considerações avaliação do aprendizado, os professores uti-
dos professores investigados sobre os limites lizam a observação e os exames de graduação
educativos do tipo de modelo competitivo para verificar a exatidão da correspondência
a que os alunos estão sujeitos. Deste modo, dos conteúdos ensinados.
concordamos com Freire (1997) quando pro- Face ao exposto, as práticas pedagógicas
põe a necessidade do trato pedagógico para dos professores de caratê, aqui estudadas,
as competições no sentido da valorização de caracterizam-se, predominantemente, por
todos os competidores, em detrimento do fo- uma forma de tipo liberal tradicional. Os
mento da busca pela vitória a qualquer custo. professores analisados estão orientados por
Considerando que a avaliação para os pro- uma concepção de ensino estático e acríti-
fessores é verificação de quanto o aluno pôde co. Assim, sua concepção de ensino parece
reter dos conteúdos ensinados, seja na forma contrariar o movimento dinâmico da pro-
de execução estereotipada, seja pelo desem- dução do conhecimento e contemplar uma
penho nas competições, verificamos que há concepção essencialista do homem (SA-
uma aproximação com as características da VIANI, 1985), reforçada pelo modelo de
tendência pedagógica liberal tradicional. racionalidade predominantemente tradicio-
É preciso, porém, fazer uma ressalva em nal (BOUDON, 1996) e pela influência do
relação às limitações da análise sobre a ava- sistema esportivo.
liação dos professores de caratê à luz do qua- Apesar da proximidade com as caracte-
dro das tendências pedagógicas de Libâneo rísticas da pedagogia tradicional, é relevante
(1993), usado como referencial teórico, uma considerar as implicações dos valores da tra-
vez que seu caráter formal e burocrático é dição e do esporte na prática de ensino. Pode-
bem mais claro, definido e institucionalizado mos observar que esses elementos estiveram
no sistema escolar do que nas escolinhas de presentes na narrativa oral dos professores.
caratê analisadas. Isto se deve ao fato que, não tendo formação
pedagógica em educação física, o grande re-
Conclusão ferencial para estruturar suas aulas é a própria
experiência de formação na luta.
Podemos concluir que os conteúdos são Se a prática do caratê for considerada en-
transmitidos como “verdades” a serem assimi- tre as dimensões da Cultura de Movimento
ladas pelos alunos com a prevalência da repro- (KUNZ, 2005), esta poderá ser tratada pe-
dução passiva e repetição mecânica. A estru- dagogicamente no sentido de uma formação
tura das aulas guarda semelhanças com uma humanizadora. Para a construção de uma “pe-
dagogia do caratê”, diferente daquela eviden-
ciada na prática pedagógica dos professores
do com os estilos de caratê. É majoritário que a pri- de caratê estudada, seriam necessários articu-
meira e a última faixa de graduação seja a branca e a
preta, respectivamente. lar novos valores orientadores para o ensino.

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A análise empreendida deixa em aberto a Referências
seguinte questão: considerando os valores da
tradição e a influência do esporte na “pedago- BOUDON, R. Tratado de Sociologia. Rio de
gia do caratê”, em que medida é possível arti- Janeiro: Zahar, 1996.
cular outros valores para a intervenção peda-
FREIRE, J. B. Educação de corpo inteiro:
gógica do caratê para a formação de sujeitos
teoria e prática da educação física. São Paulo:
mais autônomos e críticos? Parece que este é
Scipione, 1997.
o desafio a ser enfrentado.
KUNZ, E. Cultura de movimento. In: GON-
Pedagogical practice among karate instructors in the ZÁLEZ, F.; FENSTERSEIFER, P. Dicioná-
Greater Vitória (ES) area
rio crítico de educação física. Ijuí: Unijuí, 2005.
p. 111-113.
Abstract
This research work aims at investigating teaching LIBÂNEO, J. C. Democratização da escola pú-
practices among karate instructors in the gyms of the blica: a pedagogia crítico-social dos conteú-
greater Vitoria area (ES). The adopted methodology dos. 11. ed. São Paulo: Edições Loiola, 1993.
consists of data collection through observation, and
structured interviewing. The collected data show ______. Pedagogia e pedagogos para quê? 4. ed.
that contents are treated in a dogmatic manner; São Paulo: Cortez, 2001.
methodology is based on oral explanations and teacher
demonstrations; the teacher-student relationship favors PAULA, G. G. Karatê esporte: tática & estra-
one-sided decisions made by the teacher; examinations tégia. São Paulo: IBRASA, 1996.
verify accuracy of techniques taught. In a summary,
one can conclude that the presence of tradition and SAVIANI, D. Tendências e correntes da edu-
sports values in karate lessons is a blocking factor to the cação brasileira. In: SAVIANI, D. et. al. Filo-
adoption of more critical and meaningful pedagogical
sofia da educação brasileira. 2. ed. Rio de Janei-
practices.
Keywords: karate – sport pedagogy – pedagogical ro: Civilização Brasileira, 1985. p. 19-47.
practices.
SOUZA JÚNIOR, M. A prática pedagógi-
La práctica pedagógica de los experts del karate de ca da educação física nos tempos e espaços
Grande Vitória (ES) sociais. In: CONGRESSO BRASILEIRO
DE CIÊNCIAS DO ESPORTE, 12., 2001,
Resumen Caxambu. Anais... Caxambu, 2001.
Este estudio propone investigar el tipo de práctica de
enseñanza de los “expert” en karate en las academias de VIANNA, J. A. Valores tradicionais do karatê:
Grande Vitória (ES). La metodología adoptada consistió uma aproximação histórica e interpretativa.
en la recolección de datos por medio de la observación y 1995. 117 f. Dissertação (Mestrado em Edu-
de la aplicación de entrevistas estructuradas. Los datos
cação Física) – Centro de Educação Física e
reunidos evidencian que los contenidos son tratados de
una manera dogmática; la metodología es basada en Desportos, Universidade de Gama Filho, Rio
la explicación oral y las demostraciones del profesor; de Janeiro, 1995.
la relación profesor-alumno favorece las decisiones ......................................................................................
unilaterales del profesor, y, en la evaluación, se verifica
la exactitud de las técnicas enseñadas. En síntesis, se Recebido: 28 de setembro de 2007
puede concluir que la presencia de los valores de la Aprovado: 23 de outubro de 2007
tradición y del deporte en las clases del karate es un
factor que impide la adopción de prácticas pedagógicas Endereço para correspondência
más críticas y significativas. yurimsl@ebrnet.com.br
Palabras-clave: karate – pedagogía del deporte – tavaresotavio@yahoo.com.br
práctica pedagógica.

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