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MATITA PERÊ DE TOM JOBIM

Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim nasceu no Rio de Janeiro então Distrito Federal, em
25 de janeiro de 1927 e faleceu em Nova York em 08 de dezembro de 1994. Esse “brasileiro” no
nome o próprio Tom atribui a uma época em que imperavam ideais positivistas no exército e seu
avô materno teria passado a adotar o sobrenome, em entrevista ele diz: “ - Meu avô era paulista,
naturalmente não é, de Capivari e ele inventou esse nome “Brasileiro” era um tempo do
positivismo no exército então todo mundo tinha que ter um nome de Quaraci, Peri, Seci...era o
Capitão Brasil, Ipiranga, tinha todo um negócio de um índio no meio” [...]. Essa relação com o
Brasil, com a cultura brasileira, que Jobim parece carregar como uma insígnia no próprio nome
perpassa sua atividade em momentos culturais importantes como quando é convidado para
escrever uma peça sinfônica, um poema sinfônico em parceria com Vinícius de Moraes para a
inauguração de Brasília no governo JK em 1960, período do nacional-desenvolvimentismo...

O seu papel como compositor de canções na bossa-nova, um movimento que rompia com
certos aspectos da canção popular do passado como o uso de ornamentos excessivos, a lírica
passional, vozes operísticas, trazendo no lugar disso uma interpretação mais intimista, com o uso
da voz em menor intensidade, mais próxima do microfone, a temática amorosa muitas vezes
mais fugaz, prazerosa e afirmativa ainda que carregada de certa melancolia.

No início de sua carreira Tom trabalhava como arranjador tendo participado de discos de
cantores populares como Elizeth Cardoso, João Gilberto, Sylvia Telles entre outros, além disso
tocava piano em boates noturnas cariocas. Seus primeiros discos gravados nos Estados Unidos,
época em que era mais conhecido como o compositor de canções da Bossa-Nova incluem The
Composer of Desafinado, Plays (63) seu álbum de estréia, The Wonderful World of Antônio
Carlos Jobim (65), alguns álbuns posteriores como Wave (67), e Tide (70) possuem uma
sonoridade mais jazzística, na formação instrumental e nos arranjos e ainda possuem muito do
repertório bossa-novista. Em Stone Flower (70) começasse a operar uma mudança, o disco inclui
2 versões de Aquarela do Brasil de Ari Barroso, um choro em homenagem à Garoto, o violonista
e um baião (a faixa título) fugindo sutilmente ao que vinha sendo feito nos 2 últimos discos que
eram basicamente de bossa-nova. Em todo caso é possível agrupar esses três discos como uma
hipotética trilogia, o último deles já apontando um outro caminho e na sequência uma outra
trilogia onde o compositor começava a se voltar para temas mais telúricos, relacionados a fauna
e flora da mata atlântica, todos os três com nomes de pássaros, são eles Matita Perê (73), Urubu
(75) e Passarim (87).

É importante frisar que o contexto do final dos anos 60 foi especialmente complexo para vários
artistas brasileiros que foram exilados dada as políticas do regime militar, em especial ao decreto
AI-5 emitido pelo então presidente Artur da Costa e Silva em 13 de dezembro de 68. Os anos que
se seguiram foram os mais duros em termos de enrijecimento e censura por parte do governo. O
ano de 68 também ficaria marcado por ter sido o aquele em que Jobim e Chico apresentaram e
venceram o III FIC com a música Sabiá interpretada por Cynara e Cybele a letra nos remete
claramente uma sensação de distanciamento, de forma mais lírica a canção fala do exílio de
artistas e intelectuais brasileiros. O ano seguinte Tom lançará Stone Flower, início de um
processo de amadurecimento de uma outra sonoridade, de interiorização por assim dizer, de um
retorno às origens e a uma brasilidade a qual era afeito. Embora tenha participado de momentos
importantes politica e socialmente, Tom nunca demonstrou em sua música algo que soasse
panfletário ainda que a temática apontasse para uma direção na qual se realizavam seus ideais
de invenção do Brasil e nisso estaria o seu papel de artista entendido como intelectual da
cultura. Fato importante de também é a sua relação próxima com modernistas e a literatura,
podemos citar João Cabral de Melo Neto, Drummond, Manuel Bandeira – o qual Tom diz em
entrevista ter sido uma espécie de importante “crítico” seu depois de ter lido o Pequena História
da Música - Guimarães Rosa, Cecília Meireles, Clarice Lispector que lhe entrevista inclusive,
dentre outros. Nesse sentido Jobim adota uma postura mais harmoniosa ao valorar elementos
ligados a vida privada e cotidiana como a amorosidade, o encantamento com o mundo natural, a
mata atlântica em especial, realizando assim um corte transversal nos processos de
modernização do Brasil.

O início do processo de composição das músicas de MP se dá num retorno físico ao Brasil, até
então habituado a idas e vindas do Rio aos Estados Unidos, Tom viaja para um pequeno sítio no
interior do estado do Rio, localidade conhecida como Poço Fundo pertencente ao município de
São José do Vale do Rio Preto. Nas palavras do Próprio compositor

“- Matita Perê é um disco profundamente brasileiro, resultado de pesquisas que realizei sobre
nossos sons e raízes nossas. Tudo que coloquei nele foi produto de um esforço que venho
desenvolvendo há muito tempo sobre essa temática.”

Folha de São Paulo 10/05/1973.

Buscando referências pode-se constatar que a época Tom estava imerso em leituras de
Guimarães Rosa em especial mas também de Drummond e Mário Palmério, todos escritores
mineiros que de alguma forma vão aparecer citados em alguma peça do disco. A ido para o sítio
em Poço Fundo, a fuga da cidade, o voltar-se para o interior parece ter permitido que essa
experiência se desdobrasse na sonoridade do disco, inclusive consultando material fotográfico
da época do disco podesse constatar uma mudança na aparência física de Tom, um aspecto
visualmente menos formal e despojado, o uso de um bigode.

Houve o lançamento de um single antes do lançamento do disco propriamente, esse pequeno


disco em formato de bolso foi vendido em bancas de jornal num projeto discográfico do jornal O
Pasquim e continha num dos lados Águas de Março numa versão ainda embrionária, com
andamento mais rápido, e do outro Agnus Sei de João Bosco e Aldir Blanc. Importante lembrar
que dado o período histórico em questão o referido jornal desempenhava um importante papel
de resistência às políticas de censura à produção de música popular em especial, vinculando
assim a leitores críticos ao regime. Se com Sabiá é cantado o desterro, a ausência e a espera em
Águas de Março é a vez de cantar a presença e o retorno, de modo que essas duas canções
dialogam dentro universo musical de Jobim assim como no lado B do disco dialoga com Matita
Perê.

O título do álbum refere-se a um dos nomes populares de um pássaro muito comum no


território brasileiro, o Tapera Naviae que em algumas regiões é associado a figura folclórica do
Saci Pererê e por isso no norte é também chamado Saci Ave, por ser um pregador de peças e
confundir o caminho de viajantes, segundo a lenda. Seu canto possui duas notas lembrando
sutilmente a palavra sa-ci. Canto esse que é reproduzido ora na flauta, ora na voz ou no piano
por Tom. O nome também se relaciona com o universo literário de Guimaraes Rosa, a música em
si é inspirada em um conto chamado O Duelo e a ideia teria vindo a partir de uma outra canção
do parceiro na letra, Paulo César Pinheiro que já compusera letra inspirada no autor chamada
Sagarana- título de um livro de contos. Segundo um depoimento do PCP sobre a composição:

“ - O Tom ouviu Sagarana no festival. Achou legal, me telefonou: Olha, comecei a fazer uma
música que é um pouco nesse tema, nesse caminho do seu Sagarana. Eu gostaria de fazer
contigo [...] Olha isso aí é uma espécie de monstro que está na minha cabeça, uma espécie de
rascunho [...] Matita Perê é uma história, um filme, um curta. Ele disse: No próximo disco disco,
essa vai ser a música principal. [...] Eu comentei: Essa música não vai ser tocada no rádio. É uma
música meio sinfônica. Ela tem um tempo muito grande para o rádio. Tem quase dez minutos de
duração [...]”

Outro elemento importante refere-se a origem social do personagem da música e dos contos de
Guimaraes, são eles vaqueiros, jagunços, loucos, caipiras. O disco e a música são fruto de um
mergulho nas entranhas do país a partir das vivências e leituras do próprio Tom. A música tem
um caráter épico, conta a história de um homem que teria cometido um crime durante um duelo
e precisa fugir, o nome do personagem é João homenagem ao escritor, a cada estrofe em que é
apontado um novo rumo para o fugitivo a música muda de tonalidade, na realidade passa ao
todo por doze tons. O canto do Matita também é tocado frequência sobretudo apontando uma
mudança de direção no caminho...