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CAPA

FOLHA DE ROSTO
Sumário

Introdução .................................................................................................................. 5

A interdisciplinaridade entre Psicologia Jurídica e Direito: da formação acadêmica à


prática profissional ...................................................................................................... 7

Alienação parental e sua síndrome: uma discussão conceitual e os avanços na


Psicologia...................................................................................................................38

Pós-modernidade e violência: implicações nos modos de ser no cotidiano..............56

Compromisso social, racismo institucional e interfaces com a Psicologia


Jurídica.......................................................................................................................65

Genocídio no Brasil: reflexões sobre a depressão e o suicídio entre os povos


indígenas....................................................................................................................81

Representações sociais de adolescentes em conflito com a lei sobre a PSC e LA e


os desafios para a Psicologia.....................................................................................90

Apontamentos de uma psicologia jurídica sobre a questão do estupro de vulneráveis:


uma visão psicanalítica, com enfoque no sadismo..................................................119
Introdução
7

A interdisciplinaridade entre Psicologia Jurídica e Direito: da


formação acadêmica à prática profissional

Alecrides Marques Alencar1

Resumo: A proposta é fazer um convite à leitura de um tema reflexivo sobre dois eixos: a
interdisciplinaridade entre Psicologia Jurídica e Direito e a formação acadêmica e prática profissional.
Trata-se de reconhecer a importância da interdisciplinaridade tanto para o processo de formação
quanto para o exercício profissional, num contexto próprio demandado na e pela sociedade
contemporânea. A Psicologia Jurídica tem importância fundamental ao adentrar o campo do Direito,
no sentido contributivo, não apenas como auxiliar ao sistema justiça. A contribuição da ciência
psicológica a esse sistema versa pela perspectiva contextualizada e integral do sujeito, de modo que
se coadune com os preceitos jurídico-legais, obviamente. Há, de modo genuíno, condições humanas
de conflito em que os fenômenos psicológicos, caracterizados pela subjetividade, passam a dialogar
tecnicamente com a ciência do Direito, a qual é caracterizada por sua objetividade. Já o fenômeno
subjetividade supera o que seria considerado como abstrato ou distante de ser compreendido, pela
possibilidade de aplicação em outras ciências, superação possível devido à interdisciplinaridade. Por
isso, constrói-se a ampliação da Psicologia como ciência por sua construção relacional e pelos
modos de formação e atuação, todos voltados para o processo de humanização, podendo
fundamentar práticas técnico-científicas em qualquer campo de conhecimento no contexto atual da
sociedade.

1 Introdução

O contexto de justiça, por si mesmo, exige a participação de diferentes


disciplinas para abarcar uma diversidade de conhecimentos que possam dialogar e
alcançar objetivos estabelecidos em lei, mas essa participação precisa se dar de
maneira autônoma e subsidiar decisões judiciais com fundamentação científica. Para
isso, segue uma discussão a partir de um levantamento teórico para compreensão
desses aspectos em relação à Psicologia Jurídica.
A Psicologia Jurídica é importante e extremamente útil para a compreensão
do sujeito psicológico de forma integral, contextualizada e dinâmica. Vale lembrar
que são várias as terminologias utilizadas entre diversas literaturas, algumas são:
Psicologia Forense (âmbito dos fóruns), Psicologia Criminal (estudo sobre crimes),
entre outras. Essas terminologias revelam o campo epistemológico vasto, em que se
inserem os estudos sobre o comportamento humano, considerando-se Psicologia
Jurídica como o termo para se referenciar, de modo geral, à área. A Psicologia
Jurídica é todo saber psicológico aplicado ao conteúdo de justiça (SILVA, 2012).

1
Psicóloga. Mestra em Psicologia. Especialista em Psicologia Jurídica.
8

O conceito amplo da Psicologia, aplicado ao contexto de justiça, pode ser


compreendendo a partir da visão construtivista e correlata aos elementos
contextuais da sociedade. É necessário acompanhar as leis e suas transformações,
aliando-as ao que é humanamente pertencido, numa perspectiva integral do sujeito
(SILVA, 2012).
A Psicologia, de um modo geral, pode permitir ao homem conhecer melhor o
mundo, os outros e a si próprio. A Psicologia Jurídica, em particular, pode auxiliar a
compreender o hommo juridicus e a melhorá-lo, mas também a compreender as
leis e conflitualidades, principalmente as instituições jurídicas, assim como melhorá-
las (TRINDADE, 2004, p.28).
Para Jesus (2006), as funções do Psicólogo Jurídico perpassam: avaliar e
diagnosticar, assessorar, orientar, intervir, planejar, executar, formar, educar, treinar,
selecionar, colaborar, pesquisar e mediar. Em síntese, trata-se de condutas
psicológicas aplicadas às questões jurídicas. O trabalho implica numa parceria com
os outros profissionais, em particular, com aqueles do campo do direito, pois isso,
com certeza, favorece que o Psicólogo, com a legitimidade que lhe confere seu
campo específico de saber, tenha autonomia para definir suas funções dentro do
sistema judiciário. E isto em relação direta com uma prática situada dentro de um
contexto histórico e cultural, em contínua transformação.
Antes da década de 90, o trabalho do Psicólogo quase que se restringia a
fazer perícia e parecer, mas, desde então, ganhou novas modalidades. Seu trabalho
tem sido também o de informar, apoiar, acompanhar e dar orientação pertinente a
cada caso atendido nos diversos âmbitos do sistema judiciário. Há uma
preocupação, antes praticamente inexistente, com a promoção de saúde mental dos
que estão envolvidos em causas junto à Justiça, como também de criar condições
que visem a eliminar a opressão e a marginalização. Tem-se priorizado a formação
de equipe interdisciplinar com: o grupo de estudo (para aprofundamento de questões
teóricas que a prática cotidiana coloca), o estudo de caso, o acompanhamento
psicológico, as atividades de integração e de intercâmbio com outros profissionais
(da Justiça, e também de instituições externas, como a saúde e a educação - nesse
caso, a escola, mas também o meio acadêmico), para permitir uma visão mais
ampliada dos diferentes serviços disponíveis e estabelecer parcerias e
procedimentos de encaminhamento (JESUS, 2006).
9

O trabalho do Psicólogo deve auxiliar na resolução dos conflitos e não,


simplesmente, fazer, por exemplo, com que a família recorra ao poder judiciário e
esse profissional se limite a fazer parecer para o juiz aplicar a lei, que muitas vezes
não é cumprida, expressando a repetição de problemas familiares não elaborados.
Assim, o caso retorna à Justiça, num processo que se alonga por vários anos, sem
diminuir o conflito e a dor dos envolvidos.

2 Fundamentação teórica

2.1 A aproximação entre a Psicologia e o Direito

Ao final do século XIX, ocorreu a primeira aproximação entre a Psicologia e o


Direito, através da Psicologia do Testemunho, unicamente com o objetivo de atestar
a fidedignidade do relato do sujeito. Observa-se, desde então, que o objetivo que se
tinha, ou a finalidade de como era compreendida a Psicologia, ainda era bastante
restrito (ALTOÉ, 2003).
Os dados históricos além de reafirmarem que a Psicologia do Testemunho foi
o primórdio para o desenvolvimento da Psicologia Jurídica, também apontam para
as primeiras pesquisas experimentais realizadas sobre as funções psicológicas, pois
ainda nessa mesma época, já era possível analisar, por exemplo, as funções da
memória e da percepção do sujeito, inclusive, diante de demandas no âmbito
jurídico e, também em termos do nível de responsabilidade legal, configurando-se de
acordo com o código da lei brasileira vigente à época. A cientificidade do processo
evolutivo da Psicologia Jurídica foi circunscrita também pela ampla utilização dos
testes psicológicos (CASTRO; NETO, 2013). Nesse sentido, busca-se compreender
os processos internos, através da aplicação de testes, para poder tornar passível o
comportamento em ação jurídica (ALTOÉ, 2003).
A aplicação dos testes psicológicos foi entendida como parte da história e
como atividade quase que, exclusivamente, única. Essa prática, nesse período,
representava o caráter antiético com o qual era conduzido o laudo como
representativo de uma parte ainda excludente (ALTOÉ, 2003). Nesse contexto, o
objetivo era averiguar a veridicidade dos testemunhos. A evolução se encaminhou
através da aplicação de testes, pois se buscava a compreensão dos
comportamentos passíveis de ação jurídica.
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De modo geral, as ações eram restritivas à aplicação de testes e algumas


entrevistas, restritivas também, no sentido de limitar os sujeitos, através de laudos e
estudos bastante taxativos, que replicavam os valores postos pela sociedade
(preconceitos, segregação, exclusão e estigmas). O papel do Psicólogo passou a
ser valorizado devido à realização de perícias, restringindo as ações ao diagnóstico.
Atualmente, há novas práticas que se voltam para a valorização da escuta e para
atribuir sugestões de medidas, logo, as intervenções não se resumem apenas à
produção de laudo, perícia ou laudo psicológico. Os movimentos de jusnaturalismo,
positivismo e pós-positivismo favoreceram uma reaproximação entre Psicologia e
Direito, agora, de forma complementar uma da outra, pois a primeira aproximação
ocorreu de forma antagônica, o que não favoreceu o desenvolvimento efetivo e
conjunto dessas ciências (ALTOÉ, 2003).

Dar relevância a este dado histórico é importante para desenvolvermos uma


reflexão sobre a prática profissional do psicólogo junto às instituições do
direito e sobre as mudanças que têm ocorrido, principalmente, após 1980,
indicando novas perspectivas para o século XXI (ALTOÉ, 2003, p. 13).

No decorrer da história, as primeiras atuações dos Psicólogos, junto ao


contexto de justiça, encontraram-se nas varas de família, varas criminais e na vara
da infância e juventude, mas com formulações periciais, acompanhadas pelos
fatores contextuais da época, caracterizados pelas circunstâncias, algumas comuns
até hoje, são os casos de problemas sociais. Portanto, a Psicologia se aproximou do
Direito por realizar perícias e, em decorrência, subsidiar decisões judiciais
(CARVALHO, 2007).
Diante de novas reformulações históricas, ocorreram sucessivas
promulgações: do código de menores, seguida do Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA, 1990) e do artigo 227 da Constituição Federal (CF, 1988). Na
análise histórica, torna-se possível constatar que, conforme as mudanças sociais,
políticas e históricas, acompanhadas pelas políticas públicas, ocorreram também as
mudanças de conduta no decorrer de todo esse processo – englobando, por
exemplo, do menor infrator ao adolescente em conflito com a lei –, e as mudanças
de concepção, para além da simples mudança de terminologia (ALTOÉ, 2003).
O grande marco ocorreu nos anos 90, quando as atuações passaram a ser
solidificadas através de perícias, pareceres e ações de informar, apoiar, acompanhar
e prestar orientação. O envolvimento do Psicólogo com as políticas públicas também
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deve se fazer presente por meio de formulações, revisões e interpretações. A


ampliação das subáreas da Psicologia, relacionadas à justiça, reforça também sua
necessidade e importância, nos seus múltiplos aspectos contributivos: Psicologia
Penitenciária, Psicologia Policial, Psicologia da Vítima, entre tantos outros. De 2000
até o ano de 2013, teve início a regulamentação de concessão de títulos (AFONSO;
SENRA, 2016).
Numa perspectiva atualizada, o papel profissional do Psicólogo começa a ser
questionado e exigido por ele mesmo, em sua relação com o indivíduo e a
sociedade, fazendo-o assumir uma função mais crítica e abandonando, portanto, a
posição de quem opera como um sentenciador (pré-julgador) para aquele que se
preocupa com o desenvolvimento e o crescimento dos indivíduos em sociedade
(AFONSO; SENRA, 2016).

2.2 Formação e atuação interdisciplinar

A Psicologia Jurídica se iniciou, como disciplina, nomeada de “Psicologia para


fins Jurídicos”. No primeiro momento, ela se concentrava dentro do departamento de
Psicologia Clínica, mas, posteriormente, os professores da universidade, atentos à
realidade, vincularam-na ao departamento de Psicologia Social, o que favoreceu
uma ênfase muito menor às preocupações clínicas, mais propriamente ao
diagnóstico, já que se volta às questões pertinentes à realidade social dos
indivíduos. Isso significa que a Psicologia Clínica estava atrelada aos modelos
patológicos, ou seja, à realização de avaliações e de exercícios , prioritariamente,
voltados à realização de perícia, à relação de subordinação às ciências jurídicas, à
realização de diagnóstico psicológico e perícia (sentença psicológica), à verdade dos
fatos e ao discurso científico que sustenta o controle social. No decorrer da história,
houve também a nomeação “Psicodiagnóstico para Fins Jurídicos”, que já
demonstrava a relação entre o enfoque clínico e jurídico, diante da necessidade de
intervenção frente às demandas de transgressão (JESUS, 2006).
Houve, na continuidade da história, a atribuição de novas práticas em uma
proposta de construção identificatória da Psicologia, na interface com o Direito, e até
mesmo da Psicologia Geral, inclusive, com a valorização do trabalho do psicólogo
em sua diversidade de papéis. É necessário ter os parâmetros claros sobre as
vertentes de trabalho e de modo interdisciplinar com os operadores do Direito
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(ALTOÉ, 2003). Enquanto disciplina, a Psicologia aplicada ao Direito encontra-se,


geralmente, no quarto ou quinto semestre do curso de Direito, assim como, no curso
de Psicologia, a nomeada Psicologia Jurídica é oferecida, geralmente, como
disciplina optativa. A Psicologia pertence, ainda, ao eixo de formação fundamental
(COSTA, 2013).
As demandas no contexto jurídico vêm sendo crescentes por apontar, cada
vez mais, aspectos emergentes que têm em seu conteúdo questões,
eminentemente, psicológicas, e, em seus aspectos mais aparentes, deixam
destaque também para a objetividade de problemas passíveis de resolução (BRITO;
BEIRAS; OLIVEIRA, 2012).
Em 1962, ocorreu a regulamentação da profissão de Psicólogo, representada
pela Lei n.º 4.119 de 1962. E, em dois momentos, tornam-se possíveis aferições
acerca da Psicologia e o diálogo com outras ciências. No primeiro, precisamente no
art. 13, é conferido ao Psicólogo o ensino em vários cursos, respeitando-se as
exigências legais específicas. No segundo, é expresso que, ao Psicólogo, compete a
colaboração em assuntos psicológicos ligados às outras ciências.
O escopo de ações do Psicólogo foi estendido a partir de formulações e
reformulações políticas, para além da atividade pericial, fato crucial para o
crescimento da Psicologia Jurídica. A aceleração dos processos no sistema
judiciário também foi possível com a criação do Núcleo de Atendimento à Família
(NAF), no ano de 1997, em Porto Alegre, pois a Psicologia ofertava intervenções
sobre os aspectos intrínsecos que eram externalizados pelos conflitos apresentados
entre casais e famílias (AFONSO; SENRA, 2016).
Para Rovinski (2004), a Psicologia e o Direito constituem-se como disciplinas
distintas, mas eles têm um ponto de interesse comum quando se trata do
comportamento humano. Os conteúdos propedêuticos (conhecimento mínimo de
alguma disciplina) foram sistematizados nos currículos jurídicos e, em 2002, com o
Parecer n.º 146, a Psicologia passou a pertencer a esses currículos.

O conceito de interdisciplinaridade caracteriza-se pela intensidade das


trocas entre os especialistas e pelo grau de integração real das disciplinas
no interior de um mesmo projeto de pesquisa (FAZENDA, 1993, p. 25).

O eixo interdisciplinar apresenta-se, principalmente, nessa perspectiva de que


os problemas e os objetivos podem ser resolutivos, mas as questões subjetivas que
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o acompanham não são passíveis de resolutividade. Na mesma lógica, por exemplo,


a guarda compartilhada pode ser objetivamente definida, mas os conflitos,
possivelmente existentes, necessitarão de intervenções que fazem parte de um
processo que necessita de redimensionamento das partes, quanto ao litígio, para
repensar os seus papéis, agora, somente parentais (BRITO; BEIRAS; OLIVEIRA,
2012).
A interdisciplinaridade surge da integração das partes constitutivas de um
todo visível. Ela é sustentada por um diálogo aberto, pela contextualização,
cooperação, interação e reciprocidade (CALHAU, 2007).

A relação entre Psicologia e Direito é antiga, mas a pós-modernidade exige


atuação interdisciplinar, caracterizada por intervenções sistêmicas em áreas
diversificadas que facilitem o real e amplo alcance dos Direitos Humanos
(CARVALHO; MIRANDA, 2008, p. 18).

A Resolução n.º 09 de 2004 estabeleceu eixos, entre os quais, encontra-se o


de formação fundamental, que se refere ao objetivo interdisciplinar, ou seja, ao
estudo do Direito com outras áreas do saber humano, a exemplo da Psicologia. Na
Portaria n.º 1886 de 1994, em seu art. 6º, consta como matéria fundamental, entre
outras, a disciplina de Psicologia (FURTADO, 2006).
O ensino do Direito deve acompanhar as transformações da sociedade, em
termos sociais, culturais e políticos, e, consequentemente, os aspectos psicológicos
que acompanham também tais transformações. Furtado (2006) se refere à crise do
ensino e também questiona o próprio perfil formativo do professor, talvez, replicador
dos modelos tradicionais do ensino jurídico. E, por outro lado, a própria busca do
formando em reconhecer suas próprias necessidades e de valorizar os aspectos
psicológicos que permeiam as práticas jurídicas (FURTADO, 2006). A parte de
interesse deve ser comum, entre a Psicologia e o Direito, e deve prevalecer de modo
interdisciplinar (compartilhado) entre essas ciências.

2.3 A Psicologia na contribuição para a formação do magistrado

Ao procurar direitos, ou até mesmo no cumprimento de deveres, busca-se


que o representante da magistratura seja incorporado pela qualificação, pela
imparcialidade e pelo equilíbrio. Alguns elementos se fazem importantes, como a
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escuta, não ser arrogante, a educação técnica, mas também a afetividade no


exercício da profissão, a sistematização do seu trabalho e a equipe de modo
sistêmico, entre outros (CRISIGIOVANNI; SIQUEIRA, 2014).
A Psicologia contribui para a formação do magistrado por estar incumbida de
apresentar os fenômenos psíquicos sobre uma diversidade de demandas que lhe
são apresentadas. Outra grande contribuição refere-se ao próprio suporte
psicológico para lidar com conflitos e problemas que transpõem as demandas
passíveis de resolução na esfera jurídica. Nesse aspecto, o magistrado precisa agir
com imparcialidade e, ao mesmo tempo, ser sensível às pessoas que ali se
apresentam. Esse suporte pode ocorrer desde o período de formação daquele
profissional, no qual devem ocorrer: o questionamento, o sentido, a motivação, sobre
sua contribuição enquanto profissão e à sociedade, o desenvolvimento de
habilidades e atitudes para a função de juiz de direito (CRISIGIOVANNI; SIQUEIRA,
2014).
A Psicologia pode contribuir para a observância das seguintes características
dos juízes: o tipo analítico, que pode colocar em evidência circunstâncias
insignificantes; o tipo sintético, que é levado por impressões; o tipo objetivo, que é
receptivo e acolhedor; o tipo subjetivo, que considera a verdade por intuição; o
introspectivo, que se coloca, momentaneamente, no lugar do outro para saber o que
guiou suas ações; o perplexo, que se submete a uma contínua revisão das novas
circunstâncias que adquire, comparando-as, fazendo retrospectiva; e o complexo de
Pilatos, um tipo de magistrado que, especialmente no período de instrução, faz-se
com que a sentença não seja totalmente imperativa ou que seja uma decisão de
caráter definitivo. Há, ainda, o generalizador, que amplia os princípios, baseado,
inclusive, na experiência do magistrado; o Obstinado, que age sobre a tendência
sistemática criada ao longo do tempo, portanto, arraigada ao passado; o espírito de
contradição ou misoneísta, que envolve a questão de antítese; o misoneísta, que se
opõe a qualquer inovação; e o desconfiado, que repudia qualquer opinião não
coincidente com a mesma da dele. No escrupuloso, é a dúvida que impera como
característica, por isso ocorrem absolvições por insuficiência de provas e curtas
penas (CRISIGIOVANNI; SIQUEIRA, 2014).
Alguns aspectos subjetivos são importantes de serem exercitados, como: a
humildade, a prudência, o controle das emoções, o controle da ansiedade, da
angústia, da tensão, do pânico, a apatia, a empatia, o otimismo, o risco de
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preconceitos, a percepção, a atenção, a competência interpessoal, a ética e a arte


de escutar. O ato de julgar possui dois elementos importantes a serem
considerados: o conhecer, a priori, e a sincera convicção. Esse ato, portanto, leva a
avaliar a conduta do magistrado quanto à sua ética, moral e justiça
(CRISIGIOVANNI; SIQUEIRA, 2014).
De modo mais preciso, a Psicologia Jurídica pode contribuir como missão
relacionada, especificamente, ao juiz, no sentido de analisar as profundas razões
para a tomada de decisão, para observar os fundamentos e aspectos intrínsecos ao
sujeito, até porque a convicção do juiz se forma a partir de um complexo
pensamento aliado a uma série complexa de provas, testemunhas e demais
elementos constantes durante o decorrer de um processo. Logicamente, a
experiência tem sua importância e até é oportuno como princípio norteador e
orientador para a prática, na perspectiva sistêmica do magistrado (CRISIGIOVANNI;
SIQUEIRA, 2014).
O julgamento passa pelo princípio da análise e finaliza com a síntese, ou seja,
a sentença. O período da análise caracteriza-se pela reflexão, pelas ideias, entre
outros. O juiz confronta-se com a realidade e, como agente político, tem também seu
comprometimento enquanto cidadão, inserido no contexto social, histórico e cultural
do país (CRISIGIOVANNI; SIQUEIRA, 2014).

Como ciência dos fenômenos psíquicos, a psicologia vem em ajuda da ética


quando põe em evidência as leis que regem as motivações internas do
comportamento do indivíduo, assim como, quando mostra a estrutura do
caráter e da personalidade. Dá a sua ajuda também, quando examina os
atos voluntários, a formação dos atos, a gênese da consciência moral e dos
juízos morais; assim, a psicologia presta importante contribuição à ética
quando esclarece às condições internas subjetivas do ato moral
(CRISIGIOVANNI; SIQUEIRA, 2014, p. 278).

2.4 A perícia psicológica no contexto da justiça

As primeiras contribuições da Psicologia se referem ao diagnóstico


psicológico e, respectivamente, ao campo psicopatológico com fornecimento de
parecer técnico elaborado a partir de instrumentos e técnicas de avaliação
psicológica emitidos no laudo (BRITO, 2005).
De acordo com Brito (2005), os psicodiagnósticos eram vistos como
instrumentos que forneciam dados matematicamente comprováveis para a
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orientação dos operadores do Direito. Inicialmente, a Psicologia era identificada


como uma prática voltada para a realização de exames e avaliações, buscando
identificações por meio de diagnósticos. Essa época, marcada pela inauguração do
uso dos testes psicológicos, fez com que o psicólogo fosse visto como um testólogo,
como na verdade o foi na primeira metade do século XX.
Os psicólogos da Alemanha e da França desenvolveram trabalhos empírico-
experimentais sobre o testemunho e sua participação nos processos judiciais.
Estudos acerca dos sistemas de interrogatório, dos fatos delitivos, da detecção de
falsos testemunhos, das amnésias simuladas e dos testemunhos de crianças
impulsionaram a ascensão da denominada Psicologia do Testemunho, como já
tratado acima (GARRIDO, 1994).
Naquela época mais antiga, não eram reconhecidos os limites da perícia, pois
se tratava de conhecimento produzido a partir de um recorte da realidade. O
conhecimento resultante da perícia não representa a compreensão do indivíduo
como um todo, no entanto, por vezes, esses dados são tratados como a verdade
sobre os indivíduos, principalmente no início da relação Psicologia e Direito, no
entanto, as consequências foram desastrosas, pois somente replicavam resultados
estigmatizantes das pessoas submetidas a esse tipo de avaliação.
A perícia é retomada por Arantes (2014) em seu grau de importância e por ser
muito utilizada na área da Justiça, a depender do contexto, sendo solicitada, por
exemplo, para a averiguação de periculosidade e das condições de discernimento,
ou sanidade mental, das partes em litígio ou em julgamento.
A perícia psicológica é um instrumento que possui, em sua finalidade, uma
prova consubstanciada em processos judiciais. Nesse ponto, o Código de Ética da
Psicologia orienta a relatar somente o necessário para o esclarecimento do caso. O
laudo psicossocial usa o diagnóstico e a investigação (MESSA, 2010).
Os aspectos psicológicos investigados perfazem a estrutura e a dinâmica da
personalidade, da inteligência, da maturidade mental e das funções neurodinâmicas.
Portanto, a estrutura do exame psicológico pericial baseia-se na leitura e no estudo
dos autos do processo, visando entender o motivo da solicitação do exame para
saber que ação e quais procedimentos e materiais serão utilizados. Outras ações
podem ocorrer, seguidamente, como a entrevista clínico-pericial, em número
suficiente com o periciando e outros que se fizerem necessários e na estrutura que
também se fizer necessária também, baseados nos quesitos do direito e da ação
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processual e na utilização de testes psicológicos. Na etapa seguinte, sugere-se a


análise e interpretação (MESSA, 2010).
No papel da perícia e conforme o Código de Processo Civil (CPC) é
incumbido de esclarecer questões sobre tutela, adoção, curatela, casamento,
pedidos de guarda de crianças e adolescentes, além de outras situações. A atuação
psicojurídica é o que emerge na pós-modernidade como necessário para que se
efetivem atuações inter e, ainda, prova a demarcação do espaço de atuação do
psicólogo, mesmo considerando a construção da identidade profissional no que
permeia a Psicologia Jurídica. Busca-se o equilíbrio emocional dos envolvidos, mas
são prioritários os direitos fundamentais das crianças e adolescentes. O papel é
subsidiar, através do laudo, as decisões judiciais e o depoimento pessoal em juízo.
Há a articulação da Psicologia Jurídica com outras disciplinas de objetivos
compartilhados, como é o caso do Direito, da Criminologia e da Neurociência. Há
uma disparidade quando se trata da Psicologia do ser comparada ao direito da
ciência do deve ser (SILVA, 2012).
Precisa-se compreender, nesse momento, a diferença entre avaliação
psicológica e perícia psicológica. A avaliação psicológica é parte dos elementos que
fundamentam a perícia, sendo esta assumida por um psicólogo judiciário designado
por indicação do juiz. A avaliação psicológica é um procedimento que visa
diagnosticar a situação de conflito, em consequência, algumas ações são comuns,
como: entrevistas, testes psicológicos, observação e contextualização (SILVA,
2012). Outros princípios, como a constituição e os direitos universais do homem,
também são utilizados como preceitos nas ações do campo da Psicologia que
asseguram, de algum modo, ações mais humanas.
Deve-se ter parâmetros técnicos para que o psicólogo e o profissional do
Direito saibam discernir os seus campos de atuação e o que lhes acompanham
como competência. Os instrumentais técnicos, diante da realização da avaliação
psicológica, são laudos e pareceres produzidos por psicólogos peritos, no sentido de
dirimir conflitos emocionais e comportamentais que implicam, direta ou
indiretamente, a resolutividade objetiva do Direito, na qual é necessário aplicar a lei
e ter o entendimento jurisprudencial necessário (BRITO; BEIRAS; OLIVEIRA, 2012).
Na Psicologia Jurídica, há uma predominância das atividades de confecções
de laudos, pareceres e relatórios, pressupondo-se que compete à Psicologia uma
atividade de cunho avaliativo e de subsídio aos magistrados. Cabe ressaltar que o
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psicólogo, ao concluir o processo de avaliação, pode recomendar soluções para os


conflitos apresentados, mas jamais determinar os procedimentos jurídicos que
deverão ser tomados. Ao juiz, cabe a decisão judicial; não compete ao psicólogo
incumbir-se dessa tarefa. É preciso deixar clara esta distinção, reforçando a ideia de
que o psicólogo não decide, apenas conclui a partir dos dados levantados mediante
a avaliação e pode, assim, sugerir e/ou indicar possibilidades de solução da questão
apresentada pelo litígio judicial (SILVA, 2012).
Portanto, o psicólogo pode atuar como mediador, nos casos em que os
litigantes se disponham a tentar um acordo, ou, quando o juiz não considerar viável
a mediação, ao psicólogo pode ser solicitada uma avaliação de uma das partes ou
do casal. Processos de separação e divórcio englobam partilha de bens, guarda de
filhos, estabelecimento de pensão alimentícia e direito à visitação. Desta forma, seja
como avaliador ou mediador, o psicólogo buscará os motivos que levaram o casal ao
litígio e os conflitos subjacentes que impedem um acordo em relação aos aspectos
citados. Nos casos em que julgar necessário, o psicólogo poderá, inclusive, sugerir
encaminhamento para tratamento psicológico ou psiquiátrico da(s) parte(s) (SILVA,
2012).
Uma equipe de assistentes técnicos deve ser bastante articulada entre si,
quanto à questão de complementar e não interferir negativamente no trabalho dos
demais profissionais. Vale lembrar que esse profissional deve apenas abarcar o seu
conhecimento, ou seja, intervir como uma pessoa encarregada de, expressamente,
certificar-se dos fatos para dar conhecimento deles ao Julgador. Isso deve ser
realizado mediante intervenção do especialista ou "expert". Em síntese, compreendi
que a questão não seria tornar-se mais burocrática e, sim, mais consistente no que
se refere aos estudos, realizados, que irão subsidiar decisões judiciais (BRITO;
BEIRAS; OLIVEIRA, 2012).
Devido à sua função, o assistente técnico pode ser visto como adversário do
perito, pois, sendo autônomo e independente da hierarquia judiciária, possui uma
amplitude maior de trabalho, podendo “fiscalizar” a atuação do perito, o que é visto
com reserva e distância (SILVA; COSTA, 1999). Entretanto, alguns autores e o
próprio Núcleo de Apoio Profissional de Serviço Social e Psicologia do Tribunal do
Estado de São Paulo apontam a necessidade de se estabelecer um “espírito de
colaboração”, uma vez que o assistente técnico é o profissional capacitado para
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questionar, tecnicamente, a análise e as conclusões realizadas pelo perito


(CASTRO, 2010; CORTEZ, 2010).
O trabalho conjunto do perito e do(s) assistente(s) técnico(s) pode contribuir
para esclarecer a situação apresentada, podendo haver troca de informações
necessárias ao bom desempenho profissional de todos (SILVA; COSTA 1999). A
avaliação realizada por mais de um profissional, com a adoção de diferentes linhas e
ângulos de trabalho, pode clarear as várias facetas que um só incidente pode ter,
favorecendo novas diretrizes à apreciação do juiz (SILVA; COSTA, 1999).
O assistente técnico deve ser contratado por uma parte para auxiliá-la naquilo
que acredita estar certo, pois seu parecer pautará a defesa do advogado em relação
ao laudo pericial, e poderá fazer interpretações e sugestões ao seu cliente, não
correndo o risco de ser mal interpretado ou manipulado pelas partes ou por seus
respectivos advogados. Além disso, ele tem por obrigação acatar, criticar ou
complementar o laudo do perito, através de seu parecer, no qual o juiz poderá,
também, fundamentar sua decisão.
Perotti e Siqueira (2009) destacam que a atitude profissional do perito
consiste em manter sua neutralidade e imparcialidade. O assistente técnico, assim
como o perito, também possui tal responsabilidade, cabendo a eles se manter
atualizados em sua área e seguir rigorosamente os princípios éticos de sua
profissão. Gomes (2009) salienta a diferença entre o profissional de Psicologia
(perito ou assistente técnico) e as testemunhas, ressaltando que o primeiro não
entrega seu conhecimento pessoal sobre os fatos, mas sim informações e
conhecimentos especializados de sua formação.
Atualmente, o psicólogo utiliza estratégias de avaliação psicológica, com
objetivos bem definidos, a fim de encontrar respostas para a solução de problemas.
A testagem pode ser um passo importante do processo, mas constitui apenas um
dos recursos de avaliação (Cunha, 2000). Os métodos e técnicas psicológicos,
comuns para avaliação e intervenção no campo da justiça, são: as entrevistas,
testes e inventários padronizados, observações, dinâmicas de grupo, escuta e
intervenções (CFP, 2010).
De acordo com o Manual de Elaboração de Documentos produzidos pelo
psicólogo, representado pela Resolução n.º 07/2003, instituída pelo Conselho
Federal de Psicologia (CFP), os seguintes documentos podem ser produzidos: o
relatório psicológico ou o laudo psicológico, cuja finalidade é descrever, em
20

decorrência do processo de avaliação psicológica, condições psicológicas e suas


determinações (CFP, 2010).
O parecer psicológico não é um documento decorrente da avaliação
psicológica, mas uma avaliação específica em Psicologia, ou seja, uma resposta a
uma questão específica (CFP, 2010). O laudo psicológico pode ser utilizado como
prova pericial por se tratar de instrumento científico, ao qual são atribuídos princípios
legais e éticos (CFP, 2010).
De modo amplo, é necessário que o psicólogo tenha conhecimento sobre a
produção avaliativa para estabelecer um plano de ação (avaliação e intervenção),
seguido de possíveis encaminhamentos. Vale lembrar que, no âmbito jurídico, há o
aspecto da compulsoriedade, o que acarreta a postura defensiva do avaliado,
diferente quando comparado ao campo clínico, já que este possui, basicamente, a
perspectiva terapêutica (CFP, 2010).
A bateria de testes psicológicos deve obedecer a aprovações para uso no
Brasil e avaliar o que se propõe de acordo com os objetivos de seu uso: rorschach,
TAT (Teste de Apercepção Temática). Para crianças, os testes gráficos são mais
indicados, como o HTP (house, tree e person) e o DFH (Desenho da Figura
Humana) (CFP, 2010). A utilização de inventários e escalas também é bem-vinda,
inclusive, até, para a complementação de informações, como: IEP (Inventários de
Estilos Parentais), IPSF (Inventário de Percepção de Suporte Familiar), ESI e ESA
(Escala de Estresse Infantil e Adolescente). Do mesmo modo, as sessões lúdicas ou
sessões conjuntas e de interação (CFP, 2010).
A perícia tem uma classificação diagnóstica e o psicodiagnóstico tem uma
perspectiva de compreensão, discussão, intervenção e complementaridade. O
Decreto n.º 53.464 de 1964 trata da função do psicólogo, que consiste em realizar
perícias e elaborar pareceres. Já o Código de Processo Civil (CPC, 2002) classifica
a função de perito.
A atuação do psicólogo na justiça acompanha as legislações específicas e os
regimentos internos, e, nesses aspectos, o Conselho Federal (CFP) ou Regional de
Psicologia (CRP) devem também implicar-se. Já o paradigma atual aponta para a
dificuldade e delimitação do psicólogo na interface com o Direito, pois mantém uma
visão tradicional sem perspectiva evolutiva (SILVA; COSTA, 1999).
A Lei de Execuções Penais (LEP) 7.210 de 1984, modificada pela redação
dada pela Lei n.º 10.792 se 3004, também escala o psicólogo, entre outros
21

profissionais, para a Comissão Técnica de Classificação (CTC), que é o programa


individualizador da pena privativa de liberdade, com extinção, a posteriori, do exame
criminológico. E, atualmente, a Resolução n.º 12 de 2011, do CFP, propõe que o
psicólogo deva atuar para a qualidade de vida dos sujeitos e de acordo com os
preceitos éticos. O destaque está no parágrafo único, o qual determina que, ao
psicólogo, é vedado participar de procedimentos que envolvam as práticas de
caráter punitivo e disciplinar, assim como da apuração de faltas disciplinares.
No Código de Processo Civil (CPC), a Lei n.º 5.869 de 1973 trata do perito e
que este se enquadra como auxiliar da justiça. O Código de Ética do Profissional de
Psicologia (CEPP), que trata da Resolução CFP n.º 2 de 1987, reporta às relações
da Psicologia com a Justiça.
Portanto, o Conselho Federal de Psicologia e as propostas para o
desenvolvimento da Psicologia Jurídica são expostos a seguir.

2.5 Conselho Federal de Psicologia e as propostas para a Psicologia Jurídica e o


Direito

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) orienta o trabalho do psicólogo em


todas as áreas de atuação, inclusive na área jurídica. E de modo mais específico, a
Resolução n.º 019, de 2010, busca delimitar o trabalho do psicólogo nas instituições
prisionais. De todo modo, o Direito precisa ter clareza sobre a utilidade da Psicologia
(CASTRO; NETO, 2013).
Foi realizada uma pesquisa na área de abrangência do CFP da 4º região. O
levantamento realizado, a título de exemplo, evidenciou que, entre 2000 e 2013, foi
pouca a produção de referencial teórico, bem como, poucas as disponibilidades de
espaços para os profissionais psicólogos (AFONSO; SENRA, 2016).
Ressalta-se também a importância de profissionais que prestam colaborações
indiretas à justiça, como os que atuam na saúde, na esfera social e outros que
realizam encaminhamentos para o sistema da justiça. Esse posicionamento é
valorizado pelo próprio CFP. Houve a discussão de que os psicólogos tivessem
cargo oficial, independente, dessa contribuição indireta aos órgãos de justiça
(AFONSO; SENRA, 2016).
O CFP deve procurar ampliar as ações pertinentes ao psicólogo, claro que de
forma ética. O profissional psicólogo deve ter observância quanto aos padrões éticos
22

estabelecidos pelo próprio conselho. Igualmente, deve ser combatido o exercício


ilegal da profissão, quando outros profissionais de outras áreas, por exemplo,
opinam expondo “diagnósticos” sobre casos, principalmente, de repercussão por
parte da sociedade (AFONSO; SENRA, 2016).
A Resolução CFP n.º 017, de 2012, dispõe sobre a atuação do psicólogo
como perito, e a Resolução CFP n.º 12, de 2011, trata da prática profissional
pautada pelo respeito aos direitos humanos das pessoas em cumprimento de pena
ou medida de segurança. Essa última regulamenta a atuação do psicólogo no
âmbito do sistema prisional. É vedado ao psicólogo participar de procedimentos que
envolvam as práticas de caráter punitivo e disciplinar, bem como a apuração de
faltas disciplinares. O psicólogo não poderá elaborar documento a fim de subsidiar
decisão judicial na execução de penas e medidas de segurança.
O art. 4º, § 1º, da Resolução CFP n.º 12 de 2011, determina que, na perícia
psicológica realizada no contexto da execução penal, ficam vedados a elaboração
de prognóstico criminológico de reincidência, a aferição de periculosidade e o
estabelecimento de nexo causal a partir do binômio delito-delinquente.
Em 1992, o Conselho Federal de Psicologia estabelece os seguintes itens: 1-
Assessora na formulação, revisão e execução de leis. 2 - Colabora na formulação e
implantação das políticas de cidadania e direitos. 3 - Colabora na formulação e
implantação das políticas de cidadania e direitos humanos. 4 - Realiza pesquisa
visando à construção e ampliação do conhecimento psicológico aplicado ao campo
do Direito. 5 - Avalia as condições intelectuais e emocionais de crianças,
adolescentes e adultos em conexão com os processos jurídicos, seja por deficiência
mental e insanidade, testamentos contestados, aceitação em lares adotivos, posse e
guarda de crianças ou determinação da responsabilidade legal, por atos criminosos.
6 - Atua como perito judicial nas varas cíveis, criminais, da justiça do trabalho, da
família, da criança e do adolescente, elaborando laudos, pareceres e perícias a
serem anexados aos processos. 7 - Elabora petições que serão juntadas ao
processo, sempre que solicitar alguma providência, ou haja necessidade de
comunicar-se com o juiz, durante a execução da perícia. 8 – Eventualmente participa
de audiência para esclarecer aspectos técnicos em Psicologia que possam
necessitar de maiores informações a leigos ou leitores do trabalho pericial
psicológico (juízes, curadores e advogados). 9 - Elabora laudos, relatórios e
pareceres, colaborando não só com a ordem jurídica como com o indivíduo
23

envolvido com a Justiça, através da avaliação da personalidade dele e fornecendo


subsídios ao processo judicial quando solicitado por uma autoridade competente,
podendo utilizar-se de consulta aos processos e coletar dados considerados
necessários à elaboração do estudo psicológico. 10 - Realiza atendimento com a
busca de decisões próprias na organização familiar dos que recorrem a Varas de
Família para a resolução de questões. 11 - Realiza atendimento a crianças
envolvidas em situações que chegam às instituições de Direito, visando à
preservação de sua saúde mental, bem como presta atendimento e orientação a
detentos e seus familiares. 12 - Participa da elaboração e execução de programas
socioeducativos destinados a criança de rua, abandonadas ou infratoras. 13 -
Orienta a administração e os colegiados do sistema penitenciário, sob o ponto de
vista psicológico, quanto às tarefas educativas e profissionais que os internos
possam exercer nos estabelecimentos penais. 14 - Assessora autoridades judiciais
no encaminhamento a terapias psicológicas, quando necessário. 15 - Participa da
elaboração e do processo de Execução Penal e assessora a administração dos
estabelecimentos penais quanto à formulação da política penal e no treinamento de
pessoal para aplicá-la. 16 - Atua em pesquisas e programas de prevenção à
violência e desenvolve estudos sobre a pesquisa criminal, construindo ou adaptando
instrumentos de investigação psicológica.
O Código de Ética Profissional dos Psicólogos – CEPP (2005), no decorrer do
tempo e com o desenvolvimento da Psicologia, foi se fundamentado para
acompanhar as demandas de cunho ético e de ações pertinentes a essa classe
profissional. Por exemplo, já ocorreram, nas primeiras fundamentações à valorização
humana, ações do psicólogo que visam garantir o desenvolvimento da instituição e
da sociedade.

2.6 A Psicologia e a Justiça: possíveis diálogos na contemporaneidade

É possível, no âmbito do Direito, considerar a singularidade a partir da


participação ativa da Psicologia, mas obviamente em consonância com os preceitos
da lei. A participação e atuação interdisciplinares devem ocorrer em todo o processo
e não apenas isoladamente. As medidas, baseadas na lei, devem também ter um
significado que perpasse a subjetividade dos sujeitos e tenha sentido para os
mesmos (SOARES; ZANANDREA, 2014).
24

A contribuição da Psicologia atrela-se ao fato de compreender o sujeito em


seu contexto, sem julgamentos feitos unilateralmente e isolados. Perceber os fatores
contextuais e singulares dos sujeitos pode trazer resolutividade a partir dos
conteúdos e conflitos intrapsíquicos que envolvem decisões e demais aspectos
objetivos (SOARES; ZANANDREA, 2014).
São muitos os cidadãos que discutem o fenômeno de judicialização da vida.
Atualmente, observa-se a difusão da prática jurídica no que concerne às questões
sociais comuns à vida contemporânea, às questões psicológicas cada vez mais
ascendentes e presumidamente jurídicas, bem como à Psicologia como campo de
conhecimento e prática social. Sendo, antes, as práticas jurídicas fundamentadas na
prova, inquérito e exame. Com a evolução, houve a elaboração mais complexa e
diversificada de práticas como a elaboração de provas (FILHO, 2012).
A psicologização do Direito moderno é a necessidade de ajustar-se ao
indivíduo e o desvio da norma. Na perspectiva positivista, há a personalidade
criminosa e que para os conhecimentos jurídicos modernos os aspectos subjetivos
precisam ser alcançados. E isso ocorre na passagem à modernidade, com o
nascimento das ciências humanas e da Psicologia. Não há como não citar a
contribuição da Psicometria do século XX, detalhadamente pertencente às técnicas
de entrevista, anamnese, reconstituição e registro da história individual,
consequentemente, os psicodiagnósticos, pareceres, laudos e perícias (FILHO,
2012).
De modo amplo, é necessário ter a seguinte crítica, conforme Filho (2012, p.
110):

Deve-se ter em perspectiva que a criminalização das condutas cotidianas e


a judicialização da vida são correlativas da patologização das condutas
cotidianas e da medicalização da vida, todos esses aspectos fundamentais
da experiência contemporânea, imbricados no jogo da norma, colocando em
evidência formas sutis de governos das condutas, modos finos de
subjetivação e certa instrumentalização psicológica do exercício de poder.

A valorização também perpassa a necessidade de maior construção de


espaços para o psicólogo no âmbito da justiça, principalmente, nas áreas ainda
timidamente crescentes, como a Criminal, a do Direito de Família, a Penal e outras
(FURTADO, 2006).
25

Não se esgotam as discussões sobre a complexa relação da Psicologia com a


Justiça, pois são infindáveis os acontecimentos que se estabelecem entre os
campos de atuação (BUIATTI; PRÓCHNO; PARAVIDINI, 2014). É necessária a
análise crítica para não incorrer na psicopatologização dos fenômenos. Por isso, as
perspectivas social, cultural e de família são importantes para se entender a
complexidade dos fenômenos, o que se pode chamar de processo de relativização.
A Psicologia pode ser um dos contribuidores para se caracterizar a justiça
contemporânea. Os avanços da Psicologia Jurídica revelam várias áreas técnico-
científicas que colaboram para o desenvolvimento do ideal de justiça, exemplo disso
é o estudo sobre a cena do crime e o criminoso. E demandam aspectos em que
sejam possíveis a ocorrência do processo de transversalidade, interdisciplinaridade
e estudos na perspectiva psicossocial (FURTADO, 2006).
Na perspectiva atual, o Psicólogo valoriza a qualidade de vida dos sujeitos de
modo amplo, assim, compreende-se que a função não é restrita aos princípios da
sociedade, de forma que implique ações punitivas, preconceituosas. Desse modo,
ao invés de exercer o controle social sobre as pessoas, passa-se a realizar
orientações e acompanhamentos, contribuir para a construção de políticas
preventivas, assim como estudar e compreender os efeitos das ações jurídicas
sobre os indivíduos. Nessa perspectiva contemporânea, inclusive, as políticas
públicas têm sido um campo que tem recebido grandes contribuições da Psicologia,
ao mesmo tempo em que também demanda grandes ofertas de inserção do
psicólogo (BUIATTI; PRÓCHNO; PARAVIDINI, 2014).
Na perspectiva clássica, a avaliação era mais voltada para os aspectos
clínicos (Psicopatologia); o exercício era prioritariamente voltado à realização de
perícia; havia a relação de subordinação às ciências jurídicas; o diagnóstico
psicológico e a perícia significavam uma espécie de sentença psicológica; a busca
pela verdade dos fatos; discurso científico que sustentava o controle social. No
paradigma atual, a atenção é voltada para o contexto sócio-histórico e dinâmico dos
indivíduos; são desenvolvidos trabalhos de apoio, intervenção, mediação,
orientação; encaminhamento; prevenção. Há, ainda, o estabelecimento de uma
relação de complementaridade; a realização de um estudo psicossocial; a
compreensão dos fatos e a escuta do sujeito e, por fim, intervenções que favorecem
o crescimento dos indivíduos (BUIATTI; PRÓCHNO; PARAVIDINI, 2014).
26

3 Discussão

A Psicologia aplicada ao Direito não pode ser entendida como uma disciplina
isolada para ambos os cursos. É necessário ter a ideia de interdisciplinaridade,
apesar de o mais comum ser o primeiro entendimento (COSTA, 2013).
A partir das análises dos anais de trabalhos apresentados no “I Congresso de
Psicologia Jurídica: Uma Interface com o Direito”, em 2009, as seguintes conclusões
e propostas foram feitas:

O debate teórico não ser tão amplo quanto à prática. Poucos eventos e
estudos pouco convergentes, apontam para uma prática que ainda
demonstra dificuldades em se encontrar (BUIATTI; PRÓCHNO;
PARAVIDINI, 2014, p. 50).

Há práticas mais consolidadas em alguns domínios: criminal, penal, criança -


adolescente e família. Junto a isso, a Psicologia Jurídica precisa de autonomia e são
muitos os desafios. Um exemplo disso é a discussão sobre a redução da maioridade
penal (BUIATTI; PRÓCHNO; PARAVIDINI, 2014).
É óbvio que algumas temáticas são mais pertinentes à área da Psicologia
Jurídica, são os casos comuns às Varas de Família, Criminal, Penal, entre outros,
como citado anteriormente, mas também há temáticas que se afastam da Psicologia
Jurídica e se mantêm ainda indiretamente relacionadas. Portanto, os processos
seletivos, os certames e as discussões teóricas precisam estar sensíveis frente à
proposta interdisciplinar entre Psicologia Jurídica e Direito (BUIATTI; PRÓCHNO;
PARAVIDINI, 2014).
A renovação e a ampliação dos exercícios profissionais, assim os limites
éticos de seu trabalho, são necessários para a consolidação da emergente área da
Psicologia Jurídica. As resoluções são fundamentais por disporem sobre atribuições
e práticas profissionais nessa área. O ponto discursivo caracteriza-se pelos
programas, nos quais o profissional psicólogo pode entrar em conflito com diferentes
concepções entre Psicologia e Direito, como exemplo, tem-se para este (Direito) o
tratamento como pena, entre outros fatores. Outra perspectiva é que a Psicologia
Jurídica deve ampliar intervenções que promovam a atenção aos sujeitos autores de
violência, que não sejam pelo viés da punição e criminalização estritas (BRITO;
BEIRAS; OLIVEIRA, 2012).
27

A legislação ou todo o fundamento jurídico precisam ser de conhecimento do


psicólogo. Daí até questiona-se de que forma pode se dar, por meio de cursos de
graduação, pós-graduação ou outros. Ainda é possível discutir sobre os conteúdos
utilizados, como itens das provas de concursos no âmbito da Psicologia Jurídica,
que, por vezes, apresentam-se extensos e gerais. Além disso, a abordagem
psicanalítica é bastante utilizada. A Psicologia Jurídica não pode ser complementar,
mas se situar na proposta interdisciplinar (BRITO; BEIRAS; OLIVEIRA, 2012).
A trajetória vai de uma formação técnico-burocrática para a perspectiva
humanista. E o grande desafio encontra-se no que é característico, no século XXI: a
hiperespecialização ainda como originária do modelo de formação citado acima.
Diante dos programas de pós-graduação, deve-se atuar de forma a se representar o
modelo interdisciplinar (COSTA, 2013).
Na pesquisa de Costa (2013), realizada com discentes do curso de Direito em
diferentes níveis, evidencia-se certa rejeição dos discentes às disciplinas
complementares. Outro apontamento refere-se ao pouco avanço para o que é
voltado à interdisciplinaridade, portanto, para o que pode representar a realidade
social.
Deve-se temer pela aplicação assistencialista da Psicologia Jurídica ao
âmbito do direito. É carente de fundamentação epistemológica. Por isso, os
questionamentos tratam da Psicologia Jurídica como autônoma, se é uma área de
atuação e/ou especialização, se se trata, realmente, de ciência ou faz parte de um
conhecimento prévio e se há e qual é o objetivo real da existência da psicologia do
ser (SILVA, 2012).
As práticas jurídicas possuem caráter, eminentemente, social, humano e
natural, por isso também os aspectos intrinsecamente psicológicos. Essas
características exigem que o campo teórico-prático também se constitua dessas
perspectivas para que se funda na realidade e não no idealismo das relações, e que
consiga com isso, inclusive, acompanhar as transformações sociais, políticas,
históricas e culturais (SILVA, 2012).
Tem-se o receio da delimitação exacerbada da prática profissional do
psicólogo e, então, prevalece-se a indefinição da identidade profissional que poderia
ser revertida por uma formação teórica, prática e ética (CASTRO; NETO, 2013).
Os entraves ou desafios se encontram em não tornar a área estigmatizante e
de controle social, mas a favor dos preceitos ético-legais. A atuação do sicólogo
28

Jurídico recebe orientações específicas de acordo com as legislações que regem a


prática jurídica. Portanto, o psicólogo Jurídico deve considerar, em suas práticas,
essas legislações e os preceitos do código de conduta de sua profissão (CASTRO;
NETO, 2013).
Para alguns autores, pesquisadores e demais interessados na área, a
disciplina da Psicologia Jurídica pode ser vista de forma introdutória com perspectiva
geral da área, mas não há consenso sobre a existência dessa disciplina no curso de
Psicologia nos cursos de graduação, apesar de haver ofertas da Psicologia Jurídica
como disciplina eletiva em alguns lugares do país (CASTRO; NETO, 2013).
Por meio da mediação, pode ocorrer o diálogo entre o Direito e a Psicologia,
pois o conflito, muitas vezes, não termina com a ação do jurídico. Há falta de
conhecimento sobre o psiquismo humano por parte dos Operadores do Direito
(SOARES; ZANANDREA, 2014).
Nos cursos de Direito, as disciplinas de Psicologia devem se fazer presentes
sob a ministração de profissionais especializados, psicólogos, e não ocorrer
unicamente em uma disciplina isolada (SOARES; ZANANDREA, 2014).
Houve a oscilação entre o sujeito do Direito e os outros que estão, por
exemplo, nos papéis de infratores e criminosos. Além disso, tem-se com o nome de
sujeito “normal” aquele que não transgride as normas sociais. Uma visão holística do
homem e de seu comportamento ressalta fatores biológicos, socioculturais,
emocionais e funcionais, dentre outros, que interagem ininterruptamente, o que
proporciona aos psicólogos a aplicação de seus conhecimentos para fins jurídicos
(CAIRES, 2003). No entanto, o psicólogo jurídico não deve ater-se apenas aos seus
conhecimentos específicos, visto que é essencial a compreensão das premissas
jurídicas para uma atuação em que os espaços e conhecimentos do âmbito no qual
o profissional se insere são respeitados.
O espaço destinado ao psicólogo que atua no Sistema Judiciário ainda está
em construção, tanto pela estrutura do poder judiciário, que varia conforme a cultura
e a sociedade – fator que pode intensificar ou amenizar os conflitos e a consequente
urgência e percepção do espaço do psicólogo –, quanto pela incompreensão por
parte de alguns operadores do Direito da ciência psicológica que, com frequência,
não compreendem a multiplicidade de teorias e perspectivas, em comparação ao
seu método, o qual possui como objetivo a uniformidade e a evitação da
desigualdade (ROVINSKI, 2004).
29

Segundo a autora citada acima, Rovinski (2004), os psicólogos jurídicos


devem atuar preocupando-se em aumentar o grau de certeza de suas hipóteses por
meio de pesquisas empíricas, bem como buscando sensibilizar os juristas quanto
aos problemas básicos de predição e flexibilidade da conduta humana. Trata-se de
uma análise aprofundada do contexto em que essas pessoas que acorreram ao
Judiciário (agentes) estão inseridas. Essa análise inclui aspectos conscientes e
inconscientes, verbais e não-verbais, autênticos e não-autênticos, individualizados e
grupais, que mobilizam os indivíduos às condutas humanas.
O psicólogo jurídico deve estar apto para atuar no âmbito da Justiça
considerando a perspectiva psicológica dos fatos jurídicos; colaborar no
planejamento e execução de políticas de cidadania, Direitos Humanos e prevenção
da violência; fornecer subsídios ao processo judicial; além de contribuir para a
formulação, revisão e interpretação das leis.
Porém, alguns autores mais contemporâneos (BANGER, 1943; MIRA Y
LOPEZ, 1950; COHEN, 1996; SEGRE, 1996 apud LEAL, 2008) concluem que não
há um perfil criminoso, e, sim, uma série de variáveis, circunstâncias e contextos que
levam o indivíduo a cometer um delito. Conclui-se, daí, que as decisões judiciais,
baseadas em laudos e avaliações psicológicas (psicodiagnósticos), colocaram a
Psicologia em uma posição de subordinação ao Direito, auxiliando-o a exercer a
função de controle social dos indivíduos (SANCHES, 2009; COSTA et al, 2009;
FRANÇA, 2004; MIRANDA Jr., 1998).

4 Conclusão

É preciso que a formação e a atuação, na área jurídica, sejam construídas de


modo interdisciplinar e acompanhadas pelas transformações da sociedade, para
uma visão integrada e crítica que produza reflexões diante das demandas
apresentadas (COSTA, 2013).
A proposta, no campo psicojurídico, é que se tenha formação generalista e,
em seguida, especialização. Vale ressaltar alguns temas primordiais, abordados
desde a graduação, que podem ser também aprofundados em especializações com
algumas temáticas: Psicologia do desenvolvimento, da personalidade,
psicopatologia, teorias e técnicas de avaliação e intervenção psicológicas
(CARVALHO, 2007).
30

Os locais para campo de estágio e desenvolvimento de práticas gerais são


fundamentais para assegurar conhecimento técnico e ter observância ao que foi
aprendido como base ou fundamentação teórica. Quanto às atividades comuns no
âmbito jurídico, fazem-se presentes: a mediação, as reuniões interdisciplinares, os
grupos terapêuticos, as orientações, o plantão psicológico, além de processos
formativos, como a produção de artigos científicos, a participação em congressos e
o estudo psicossocial (CARVALHO, 2007).
O contato com diversos profissionais é oportunizado, sendo os principais:
juízes, advogados, promotores, assistentes sociais e conselheiros tutelares.
Igualmente, é importante a intersetorialidade, especialmente, no campo das políticas
públicas, da saúde e do social. Há questões pertinentes, a cada atuação específica
do psicólogo, que exigem desse profissional habilidades próprias, por exemplo, para
atuar na vara de família. A multiplicidade de atuação e sua expansão para a
consolidação das práticas terão, consequentemente, o reconhecimento da
importância da Psicologia na contribuição para o Direito (CARVALHO, 2007).
Há várias dimensões na atuação do psicólogo jurídico, desde a observação
sobre as manifestações da subjetividade até as consequências das ações jurídicas,
mas deve-se ter como consideração que algumas repercussões na vida do indivíduo
são recortes registrados nas produções de documentos, como laudos, relatórios,
entre outros. Por isso, deve-se considerar o aspecto dinâmico e processual dos
fenômenos psicológicos e dos fatores contextuais (BUIATTI; PRÓCHNO;
PARAVIDINI, 2014). Em continuidade a esse raciocínio, o processo de formação
torna-se imprescindível como seguimento ou paralelo à atuação profissional, junto à
crescente demanda da Psicologia Jurídica, por vários motivos (BRITO; BEIRAS;
OLIVEIRA, 2012).
Os estudos comprovam que a relação entre a Psicologia e o Direito passou
por um avanço, mas que ainda são necessárias a qualificação e a formação
específica na área. Diante da complexidade do homem e de seus conflitos, a
Psicologia Jurídica, como uma área de especialidade da Psicologia, tem como
objeto de estudo deste campo justamente o comportamento complexo, tendo como
consequência o envolvimento com o âmbito jurídico. Amorim (2015), por meio de
diversos autores, demonstra as áreas que mais são próximas da Psicologia: o
Direito de Família, o Direito Penal e o Direito Criminal.
31

As legislações mais importantes podem ser exemplificadas pelo Estatuto do


Idoso, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e pela Lei da Guarda
Compartilhada. O contexto clínico, como prática do psicólogo, é o mais exigido como
conhecimento em avaliações do Tribunal de Justiça em todo o Brasil (BRITO;
BEIRAS; OLIVEIRA, 2012).
A pesquisa de Costa (2013), realizada com discentes do curso de Direito em
diferentes níveis, aponta que muitos desafios foram encontrados entre os diferentes
atores (docentes, discentes, estruturas curriculares, instituições educacionais,
proposta pedagógica e histórico de reformas educacionais.
A contribuição da Psicologia se refere à humanização nos processos de
aplicação de leis, que se contextualiza por meio de fundamentos psicológicos, ao se
observar os fenômenos humanos do ponto de vista integral, considerando os
aspectos culturais, sociais e históricos, além da própria subjetividade, individualidade
e singularidade. Ressalta-se que o aperfeiçoamento profissional se faz fundamental
para que essa contribuição da Psicologia realmente se efetive. Para isso, deve-se
ter a compreensão do processo de dinâmica familiar, das leis, das medidas
aplicadas, dos processos nos estudos sobre crimes e penas aplicadas. Nesse caso,
surge o exemplo contemporâneo de técnicas e recursos, os quais o profissional de
Psicologia, que atue vinculado à justiça, deve buscar dominar, bem como renová-los
sistematicamente (SILVA, 2012).
As ações judiciais têm, geralmente, motivações intrinsecamente emocionais,
às vezes, com conteúdo de vingança e como uma perspectiva de resolução de
práticas e problemas que extrapolam os aspectos jurídicos decisórios. No âmbito do
direito da família, esses casos são bem corriqueiros e o psicólogo deverá estar
comprometido com os direitos das pessoas envolvidas. A mediação de conflitos e a
conciliação são fatores pertinentes de interação frente aos comportamentos
humanos (SILVA, 2012).
Todo o corpo jurídico e os envolvidos devem ser conscientizados sobre o
papel da Psicologia aplicada à Justiça, uma vez que a avaliação psicológica deve
ser entendida na sua real utilidade, reconhecendo-se quanto aos momentos de
necessidade, para que a Psicologia possa, de fato, dirimir os conflitos existentes
(SILVA, 2012).
Em cada âmbito específico da justiça, como as varas de família, tem-se a
especificidade das ações do psicólogo, com seus conhecimentos técnicos
32

apropriados para lidar com os diferentes aspectos demandados por esses campos
específicos. Na continuidade do exemplo, observa-se que, nas varas de família,
podem ocorrer: falsas acusações de abuso sexual, síndrome de alienação parental,
litígio, entre outros, inclusive, inter-relacionados (SILVA, 2012).
Necessita-se de que a psicologias geral e jurídica se valorizem e sejam
valorizadas, enquanto disciplinas e como atuação interdisciplinar. Mira y López
(2015) afirmam que a Psicologia atual é algo mais do que isso, igualando-a a outros
conhecimentos comuns, como, por exemplo, as disciplinas biológicas.
O estudo de Castro e Neto, publicado em 2013, revela como resultado o fato
de que os psicólogos jurídicos possuem a representação social relacionada à
delimitação estabelecida pelo CFP e insuficiente conhecimento da área. O estudo foi
um recorte que se deu com profissionais da cidade de Goiânia – Goiás. O psicólogo,
de acordo com os procedimentos de apoio, mediação, orientação e prevenção,
precisa estar atento ao encaminhamento para outras esferas, principalmente, para a
clínica, pois as questões pontuais foram tratadas, mas as demandas clínicas podem
permanecer e, inclusive, comprometer as decisões judiciais tomadas. A guarda
compartilhada é um exemplo clássico de que a manutenção das relações deve
perdurar (CASTRO; NETO, 2013).
As representações sociais são modificáveis por serem dinâmicas, de acordo
com o tempo e os acontecimentos ao longo desse tempo. Por isso, há uma revisão
sobre a práxis, especialmente, do psicólogo jurídico. É necessário contextualizar o
sujeito para a melhor atuação dos judiciários. A Psicologia Jurídica é pouco
explorada, apesar do seu grau de necessidade e importância, mas, justamente por
esses motivos, essa área será ampliada, como também por outros mecanismos: a
atuação interdisciplinar; a inovação da prática profissional entre o Direito e a
Psicologia; o aumento de pesquisas e publicações que enfatizam a Psicologia
Jurídica ou que estejam no campo do Direito; o asseguramento de oportunidades de
preenchimento de cargos no campo jurídico; a revisão constante de sua práxis e os
recursos técnicos (CASTRO; NETO, 2013).
Assim, é necessária a aceitação de novas vertentes do conhecimento que
dialoguem por meio da interdisciplinaridade. Para a Psicologia Jurídica, a qual deve
ser exercida pela consciência crítica, é importante o conhecimento da clínica e do
social. A constante análise do ser social, em dado momento histórico e cultural,
decorre nas configurações do seu estado psicológico (CASTRO; NETO, 2013).
33

O Direito precisa estar comprometido com a pluralidade e a ética, portanto,


mais acessível. A postura mais humanista e a formação integral devem ser contra a
fragmentação do conhecimento ou da formação e a favor do currículo formativo, com
qualificação específica e formação complementar. Para o não psicólogo, o
conhecimento sobre a área necessita ser amplo e aplicado para não se tornar
somente de cunho psicanalítico. Deve-se construir representações sociais
impulsionadoras e conclui-se que a ampliação conceitual e da práxis, além da
própria reflexão contínua e do aprimoramento da área, fazem-se importantes
(CASTRO; NETO, 2013).
Em síntese, pode-se afirmar que, segundo Soares e Zanandrea (2014),
encontra-se a relevância em muitos estudos, inclusive na mediação. Esses mesmos
autores ainda se referem à humanização dos processos judiciários e, para o
Operador do Direito, a Psicologia proporciona um olhar e uma escuta sensíveis. É a
contribuição conjunta dos saberes da Psicologia e do Direito.

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38

Alienação parental e sua síndrome: uma discussão conceitual e os


avanços na Psicologia

Andreza Maia Silva Barbosa2


Marcelo Silva de Souza Ribeiro3

Resumo: Discutimos, neste capítulo, o tema Alienação parental e sua síndrome. Propomos, dessa
forma, uma discussão teórica sobre o assunto, visando esclarecer questões históricas e conceituais,
compreendendo como a Psicologia se inseriu nesse contexto, a partir de uma demanda da atuação
do psicólogo. Abordamos o tema a partir de três tópicos: o primeiro refere-se à “Evolução das
relações como tendência para o surgimento da SAP”; o segundo trata sobre a “Construção histórica,
análise conceitual e desenvolvimento da SAP no Brasil” e, por último, “A SAP e a Psicologia no Brasil:
atuação do profissional psicólogo”. Compreendemos a SAP como um tema de fundamental
importância na Psicologia Jurídica, sobretudo nos juízos de família, bem como para o atendimento à
criança e/ou ao adolescente e suas famílias, merecendo maior atenção dos profissionais. Dessa
forma, propomos uma maior aproximação das diversas áreas que atuam nesse contexto, para que
promovam discussões mais aprofundadas sobre a SAP, além de intervenções e programas que
abordem o problema.

Diante da edição da Lei n.º 12.318/2010, que disciplinou a figura da alienação


parental, percebemos a necessidade de sua análise, uma vez que trata de aspectos
psicológicos que envolvem o desenvolvimento infantil, além daqueles referentes aos
responsáveis pelo menor, seja alienado ou alienante. Portanto, com base na leitura
da referida lei, pudemos perceber que, mesmo estando guiada por normas jurídicas,
há uma inserção no campo da Psicologia, no que se refere ao estudo de casos que
envolvem tal situação, já que, em determinadas circunstâncias, é necessário o
trabalho de uma equipe multidisciplinar, que inclui também o profissional psicólogo.
A interdisciplinaridade entre a Psicologia e o Direito torna necessário o
conhecimento de terminologias e procedimentos jurídicos, o que conduz ao
questionamento de onde e como buscar essa discussão (LAGO; BANDEIRA, 2009).
A crescente ascensão da Psicologia Jurídica no Brasil (JACÓ-VILELA, 1999) leva à
reflexão sobre assuntos emergentes na área de interface entre a Psicologia e o
Direito de família. Dessa maneira, é necessário atentar para a formação acadêmica
na preparação para a prática no âmbito forense, por se tratar de uma área em
2
Mestra em Psicologia pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF). Colegiado
de Pós-Graduação em Psicologia. Av. José de Sá Maniçoba, S/N – Centro. CEP 56304-205,
Petrolina-PE - Brasil. Fone: (87) 2101-6869. Bloco de Laboratórios - 1º Andar. E-mail:
andreza.psicologia@gmail.com.
3
Doutor em Educação. Docente do Colegiado de Psicologia da Universidade Federal do Vale do São
Francisco (UNIVASF). Av. José Maniçoba, S/N, Centro. CEP: 56.304-205, Petrolina-PE – Brasil.
Fone: (87) 2102-6868. E-mail: mribeiro27@gmail.com.
39

expansão, que exige a atualização dos profissionais que nela atuam (LAGO;
BANDEIRA, 2009).
Dessa forma, é necessário que façamos uma breve distinção entre a
Alienação Parental (AP) e a Síndrome de Alienação Parental (SAP), para que
possamos entender o conteúdo do presente capítulo. Sendo assim, a definição de
Alienação Parental, de acordo com o artigo 2º da Lei n.º 12. 318/2010, seria:

Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação


psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por
genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança sob sua autoridade,
guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao
estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este.

A razão dessa norma, segundo Figueiredo (2014), é a proteção da dignidade


da pessoa humana do menor, que não pode ser manipulado, de tal sorte, a ser
prejudicado, diante das dificuldades e dos impedimentos criados para o exercício de
seu direito convivencial com os demais familiares. Já para Síndrome de Alienação
Parental, temos o conceito de um distúrbio infantil que acometeria crianças e
adolescentes envolvidos em situações de disputa de guarda entre os pais. Dessa
forma, podemos concluir que a AP se refere à ação do responsável pelo menor, com
intenção de aliená-lo à imagem de um dos genitores, enquanto a SAP estaria
relacionada às consequências que essa alienação pode gerar na criança ou no
adolescente.
É importante ressaltar que, apesar de nossos tribunais já terem, por inúmeras
vezes, reconhecido a existência da Alienação Parental e a necessidade de proteção
do vitimado, a doutrina a respeito do tema se mostra ainda bastante escassa
(FIGUEIREDO, 2014).
Tendo em vista a carência de estudos empíricos e de revisões de literatura
sobre algumas temáticas envolvidas na relação entre o Direito de Família e a
Psicologia, selecionamos a Síndrome da Alienação Parental (SAP), assunto que,
segundo Lago e Bandeira (2009), é recente na literatura brasileira e desconhecido
por parte dos profissionais que trabalham com o Direito de Família, considerado
demanda atual dessas áreas de estudo, tais como a Psicologia, o Direito e o Serviço
Social, por exemplo. Esse aspecto é um dos disparadores para o estudo realizado
no presente capítulo, se considerarmos a relevância desse tema dentro da
Psicologia e a insuficiência de trabalhos que o envolvem.
40

Sendo assim, faz-se necessário que os psicólogos conheçam a SAP, a fim de


identificar suas características em um processo de disputa judicial e de intervir de
forma a amenizar suas consequências para os envolvidos, sobretudo as crianças e
os adolescentes (LAGO; BANDEIRA, 2009).
Buscando perceber de que forma esse tema apareceu para a Psicologia e
como veio se desenvolvendo ao longo dos anos, é que surgiu a motivação para a
realização deste capítulo. Dessa maneira, temos dois objetivos: primeiro, apresentar
uma revisão teórica mais aprofundada sobre a AP e a SAP, visando esclarecer
questões históricas e conceituais; e, segundo, compreender de que maneira a
Psicologia se inseriu nesse contexto, entendendo como esse assunto passou a
demandar a atuação do profissional psicólogo.
Assim, foram elaboradas três categorias para melhor desenvolvimento do
conteúdo: “A evolução das relações como tendência para o surgimento da SAP”, “A
construção histórica, análise conceitual e desenvolvimento da SAP no Brasil” e “A
SAP e a Psicologia no Brasil: atuação do profissional psicólogo”.
De acordo com esses achados, é importante realizarmos uma reflexão
histórica acerca do surgimento do tema em território brasileiro, na tentativa de
compreender os fatores envolvidos nessa questão. Apesar da SAP ser conhecida
mundialmente como um conteúdo da Psiquiatria, por ter sido um psiquiatra, Richard
Gardner, o seu precursor, o assunto surgiu no Brasil, principalmente, por meio de
associações de pais separados.
Em sua tese de mestrado, Sousa (2010) acompanhou, mensalmente, a
atualização dos sites dessas associações em busca de novas informações sobre a
difusão do tema SAP. Segundo ela, a Associação de Pais e Mães Separados -
Apase, constituída como sociedade civil sem fins lucrativos, em 1997, na cidade de
Florianópolis, tem sido um dos principais meios de divulgação do assunto.
Nos últimos anos, a Apase atuou ativamente para a criação de lei sobre a
guarda compartilhada, a qual foi sancionada em 13 de junho de 2008. Após a
entrada em vigor dessa lei, juntamente com alguns profissionais que atuavam no
judiciário, voltaram-se para a elaboração de um novo anteprojeto de lei, tendo como
alvo o que se chama de alienação parental (SOUSA, 2010).
Acredita-se, portanto, que realmente houve uma maior repercussão,
sobretudo no Brasil, após as discussões em torno da edição da Lei n.º 12.318,
sancionada em 2010, dispondo sobre a alienação parental. Esse fato,
41

possivelmente, explica o aumento da realização de estudos científicos a partir desse


ano.
Embora na literatura internacional seja possível encontrar artigos e livros
sobre o tópico em questão (GARDNER, 1987; 1999; 2002), o termo SAP é recente
na literatura nacional, ainda que as características do fenômeno não o sejam, como
apontado por Lago e Bandeira (2009).
A esse respeito, Brockhausen (2011) concorda com a ausência de estudos
acerca do tema e destaca:

Na literatura nacional especializada, alguns textos iniciaram a discussão do


tema [...], porém são escassos artigos e pesquisas científicas sobre tema
tão capital. Encontramos muitas vezes textos introdutórios, isentos de
discussões maiores, como no campo da técnica, dos procedimentos, da
clínica e do diagnóstico diferencial. A produção, por ser inicial, difere-se de
forma muito significativa da qualidade dos estudos existentes em outros
países (p. 201-202).

Seguindo essa perspectiva, destacamos a importância de estudar a evolução


das relações da família brasileira e a maneira pela qual chegou aos moldes atuais.
Com isso, tentamos contextualizar o cenário em que se desenvolve a alienação
parental, para que possamos realizar uma construção histórica sobre a SAP e
entendermos como se deu o seu desenvolvimento no Brasil.

A evolução das relações como tendência para o surgimento da SAP

O próprio Gardner, responsável pela difusão da SAP mundialmente, destaca


a importância da realização de um estudo que analise as condições contextuais da
família e da sociedade, pois associa a maior incidência da Síndrome de Alienação
Parental nos EUA às importantes mudanças socioculturais e jurídicas da década de
1980 (GARDNER, 2006, p. 5 apud BROCKHAUSEN, 2011). Porém, são hipóteses
que necessitam de maiores investigações quanto à realidade brasileira, como
sugere Brockhausen (2011). Sendo assim, buscamos fazer um estudo acerca da
evolução das relações, no sentido de compreender a realidade da família brasileira.
Percebemos, no entanto, que poucos foram os estudiosos que se
preocuparam com a análise das relações. Dentre eles, podemos citar Próchno,
Paravidini e Cunha (2011), que discutem a formação de vínculos, os quais já
nascem carentes de substancialidade, estando, dessa forma, fadados ao fracasso.
42

Nesse sentido, os autores supracitados retomam o Código Civil de 1916, que


mantinha o compromisso com o Direito Canônico e com a indissolubilidade do
vínculo matrimonial (PRIORE, 2005, p. 246 apud PRÓCHNO; PARAVIDINI; CUNHA,
2011, p. 1470). De acordo com a realidade social da época, no que diz respeito à
possibilidade de separações conjugais, Priore (2005) destaca:

[...] a sociedade discriminava muito as pessoas que eventualmente se


desquitavam. As senhoras dignas de uma boa reputação deveriam ficar
longe de pessoas separadas, para não se contaminarem com a má fama.
Desquitados de ambos os sexos eram vistos como má companhia, mas as
mulheres sofriam mais com a situação. As “bem casadas” evitavam
qualquer contato com elas. Sua conduta ficava sob a mira do juiz e qualquer
passo em falso lhes fazia perder a guarda dos filhos. As posições
antidivorcistas, como já vimos, eram majoritárias. Uma “segunda chance”
tinha pouca possibilidade de se efetivar (PRIORE, 2005, p. 269 apud
PRÓCHNO; PARAVIDINI; CUNHA, 2011, p. 1470-1471).

Nessa retrospectiva, Próchno, Paravidini e Cunha (2011) apontam que a


exceção de antes, hoje, é um fato corriqueiro. Divórcios e separações fazem parte
da realidade conjugal, de modo que casais se separam e, em pouco tempo, formam
novos pares (PRÓCHNO; PARAVIDINI; CUNHA, 2011).
Nessa mesma linha de raciocínio, Sousa (2010) discute que há, na
atualidade, uma tendência a ignorar elementos constitutivos das relações, em
decorrência da sobreposição à lógica de consumo, que atravessa o momento sócio-
histórico em que os atores estão inseridos. Dessa forma, as relações amorosas e os
sentimentos seriam espécies de sensações a serem consumidas de modo fugaz e
instantâneo, visando ao prazer e à satisfação momentânea (SOUSA, 2010 apud
RAVASIO, 2012).
Nesse contexto, pensa-se na situação dos filhos, frutos dessas uniões que,
como relembram Próchno, Paravidini e Cunha (2011), acabam por sofrer as
consequências de vínculos mal estruturados: “Elas são vistas pelos ex-consortes
meramente como instrumentos de vingança e não há sobre elas a devida
consideração pelos seus direitos, dentre os quais, o direito de uma boa convivência
familiar com ambos os genitores independente de seus desencontros” (PRÓCHNO;
PARAVIDINI; CUNHA, 2011, p. 1467). É, portanto, nesse aparato que se estabelece
a síndrome de alienação parental (SAP), objeto principal do estudo realizado.
Buscaremos, a seguir, fazer uma análise teórica sobre o conceito da SAP e
sua construção, bem como quanto ao seu desenvolvimento no Brasil.
43

Construção histórica, análise conceitual e desenvolvimento da SAP no Brasil

De modo geral, quando se trata da SAP, é comum encontrarmos estudos que


fazem referência ao psiquiatra Richard Gardner na década de 1980, existindo
também uma preocupação com a análise jurídica e as consequências psicológicas
desenvolvidas pela alienação parental, sobretudo nas crianças e adolescentes.
Quanto à definição da SAP, diversos autores utilizaram diferentes estudos de
Gardner, entre os anos de 1985 e 2002, para fundamentar as suas pesquisas. Sobre
isso, mencionamos a definição dada por Gardner nos anos de 1999 e 1998, para
Alienação Parental e Síndrome de Alienação Parental, respectivamente:

A Alienação Parental é um processo que consiste em programar uma


criança para que odeie um de seus genitores sem justificativa. Quando a
Síndrome está presente, a criança dá sua própria contribuição na campanha
para desmoralizar o genitor alienado (GARDNER, 1999; GARDNER, 1998
apud PODEVYN, 2001).

Nessa perspectiva, é importante diferenciarmos a Alienação Parental da


Síndrome de Alienação Parental. Como discute Fonseca (2006):

A síndrome da alienação parental não se confunde, portanto, com a mera


alienação parental. Aquela geralmente é decorrente desta, ou seja, a
alienação parental é o afastamento do filho de um dos genitores,
provocado pelo outro, via de regra, o titular da custódia. A síndrome da
alienação parental, por seu turno, diz respeito às sequelas emocionais
e comportamentais de que vem a padecer a criança vítima daquele
alijamento (p. 164, grifo do autor).

Sendo assim, de acordo com o que sugere Fonseca (2006), a alienação


parental estaria relacionada ao processo desencadeado pelo genitor, responsável
pela criança ou adolescente, quanto à tentativa de macular a imagem do outro,
visando ao afastamento desse outro com o menor.
Porém, seguindo a ideia abordada pela autora, tal comportamento somente
seria derivado do genitor detentor da guarda. É importante salientar que também
seriam possíveis outras modalidades de alienação, sejam pelos pais, responsáveis,
ou qualquer membro da família, como podemos perceber na Lei n.º 12. 318/2010:

Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação


psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por
44

genitores, pelos avós ou pelos que tem a criança sob sua autoridade,
guarda ou vigilância para que repudie genitor (Grifo nosso).

Notadamente, na prática, a pessoa do alienador é um dos genitores


detentores da guarda, que, segundo Figueiredo (2014), usa a sua influência sobre o
menor para afastá-lo do convívio com outro genitor. Porém, o autor destaca que a
alienação parental não se limita a esse caso, uma vez que qualquer parente pode
ser alienador do menor, para afastá-lo do convívio de outro parente, além de poder
ocorrer, inclusive, diante do exercício da tutela e da curatela.
Diante disso, podemos supor que, independente da detenção da guarda do
menor, qualquer familiar que tiver aproximação suficiente com este, poderá ser o
sujeito alienante, não somente a mãe, como propõem alguns estudos, assumiria
essa figura, uma vez que na maioria dos casos a guarda do infante pertence a ela.
Como Dias (2006) destaca: “São as mães que geralmente ficam com a guarda das
crianças e, portanto, elas são as que mais praticam a chamada alienação parental,
também denominada implantação de falsas memórias” (DIAS, 2006 apud
PRÓCHNO; PARAVIDINI; CUNHA, 2011, p. 1478).
O termo “síndrome”, por sua vez, é definido por Gardner (2002) para justificar
a utilização do conceito de Síndrome de Alienação Parental, em detrimento de
utilizar-se apenas Alienação Parental, como sugere a posição assumida pelos
tribunais de justiça, no contexto de disputas de custódia de crianças. Assim, Gardner
(2002) explica:

Uma síndrome, pela definição médica, é um conjunto de sintomas que


ocorrem juntos, e que caracterizam uma doença específica. Embora
aparentemente os sintomas sejam desconectados entre si, justifica-se que
sejam agrupados por causa de uma etiologia comum ou causa subjacente
básica (p. 2).

Entre os sintomas citados por Gardner (2002), encaixam-se: campanha


denegritória contra o genitor alienado; racionalizações fracas, absurdas ou frívolas
para a depreciação; falta de ambivalência; fenômeno do “pensador independente”;
apoio automático ao genitor alienador no conflito parental; ausência de culpa sobre a
crueldade e/ou a exploração contra o genitor alienado; presença de encenações
“encomendadas”; propagação da animosidade aos amigos e/ou à família extensa do
genitor alienado.
45

Nesse sentido, podemos perceber que tal conceito, apesar de ter uma ideia
central, foi se modificando, ao logo dos anos, nas publicações do psiquiatra,
assumindo, cada vez mais, um caráter psicopatológico. Assim, surgiu a ideia de
incluí-lo no DSM V, no ano de 2002, de modo que seria somado ao rol de categorias
diagnósticas ou transtornos mentais infantis, como destacado por Sousa e Brito
(2011).
Diante disso, é necessária a realização de uma análise crítica sobre os
interesses, as causas e as consequências que poderiam advir dessa inclusão,
levando em consideração que, como observa Sousa e Brito (2011), o rótulo de
síndrome é considerado uma forma de aprisionar os indivíduos em um diagnóstico,
de modo que os seus comportamentos passam a ser vistos, exclusivamente, como
resultados de uma patologia.
Por outro lado, Gardner (2002) defende a ideia, argumentando que o
resultado da não inclusão da SAP no DSM-V estaria no fato de que muitas famílias
com SAP seriam privadas do reconhecimento que, apropriadamente, merecem nos
tribunais de justiça - que dependem “frequente e pesadamente” do DSM. Apesar de
o autor acatar essa ideia, observamos que ele não justifica tal dependência, apenas
questiona a utilização do termo “alienação parental” (AP) por alguns profissionais do
judiciário.
Dessa forma, Gardner (2002) considera que o problema com o uso do termo
AP é que há muitas razões pelas quais uma criança pode ser alienada dos pais.
Razões essas que não têm nada a ver com a programação originadora da SAP.
Gardner (2002) apresenta, nesse sentido, outros fatores que também indicam
alienação, tais como abuso parental da criança (físico, emocional ou sexual);
negligência parental; transtornos de conduta e fases de alienação que, geralmente,
atravessam a adolescência. O autor sugere, então, que a SAP seja vista como um
subtipo da alienação parental (GARDNER, 2002).
Vale questionar a relevância da utilização de um termo em detrimento do
outro, uma vez que ambos se fazem necessários e determinam diferentes aspectos
da alienação, como já mencionado anteriormente. Dessa forma, um estaria
relacionado, muito mais, ao comportamento do responsável, em alienar a imagem
do outro perante o menor, enquanto o outro se refere às consequências dessa
alienação. Tal distinção torna-se importante, uma vez que implica diretamente na
46

atuação do profissional psicólogo, já que é exigida, deste, uma posição de


investigação que determine o “diagnóstico”.
Alguns estudiosos indagam sobre o posicionamento de Gardner, pois
constatou-se que o psiquiatra afirmava a existência da SAP sem apresentar dados
de pesquisas que embasassem o conceito por ele criado. Como sugere Martins
(2012):

O autor apoiava-se, fundamentalmente, em analogias com doenças físicas


e argumentações supostamente lógicas. Ademais, não considerava os
resultados de pesquisas sobre separação conjugal e guarda de filhos,
amparando-se quase que exclusivamente em seus próprios estudos, os
quais não explicava, de forma mais detida, como haviam sido realizados
(SOUSA, 2010 apud MARTINS, 2012).

Dessa forma, a síndrome de alienação parental é observada através de um


modelo biomédico, que apresenta, além de sintomas, os efeitos que acometem,
principalmente, os filhos de casais em situação de disputa judicial, como apontam
Lago e Bandeira (2009):

A SAP pode gerar efeitos em suas vítimas, como: depressão crônica,


incapacidade de adaptação social, transtornos de identidade e de imagem,
desespero, sentimento de isolamento, comportamento hostil, falta de
organização, tendência ao uso de álcool e drogas quando adultas e, às
vezes, suicídio. Podem também ocorrer sentimentos incontroláveis de culpa
quando a criança se torna adulta e percebe que foi cúmplice inconsciente
de uma grande injustiça quanto ao genitor alienado (p. 295).

Podemos perceber, então, um posicionamento bem determinista quanto aos


personagens envolvidos em litígio conjugal, principalmente, quanto às motivações
da pessoa alienante:

As razões que levam o genitor alienante a promovê-la se denotam bastante


diversificadas. Pode resultar das circunstâncias e/ou, de se tratar o genitor
alienante de pessoa exclusivista, ou ainda, que assim procede motivado por
um espírito de vingança ou de mera inveja. Inconformismo do cônjuge com
a separação, insatisfação do progenitor alienante, ora com as condições
econômicas advindas do fim do vínculo conjugal, ora com as razões que
conduziram ao desfazimento do matrimônio, principalmente quando este se
dá em decorrência de adultério e, mais frequentemente, quando o ex-
cônjuge prossegue a relação com o parceiro da relação extra-matrimonial
(FONSECA, 2006, p. 164).

De acordo com esse posicionamento, Gardner engendra, com efeito, essa


visão acerca dos membros do grupo familiar, os quais têm ignoradas sua
47

singularidade e capacidade de desenvolver suportes em meio a situações de conflito


e sofrimento (MARTINS, 2012).
Dessa forma, são analisados, principalmente, os aspectos individuais, de
modo que aqueles coletivos e sociais acabam por ser desconsiderados, ou seja, o
contexto no qual o sujeito está inserido. Assim, se a nossa perspectiva for limitante,
não considerando as diversas relações que moldam sua existência, reproduziremos
uma prática classificatória reducionista, determinando que a infração está acima de
qualquer outra questão pertinente à sua narrativa de vida, como é discutido por
Oliveira e Brito (2013).
Por ser considerado a principal referência no que diz respeito à SAP, muitos
profissionais têm reproduzido os ideais de Gardner (1985-2002), sem realizar um
estudo analítico mais aprofundado do que sugere a sua teoria. Sobre esse aspecto,
Martins (2012) considera que:

A despeito de polêmicas e controvérsias envolvendo o assunto, as ideias de


Gardner difundiram-se rapidamente em vários países. No Brasil, a rápida
difusão da SAP, aliada à escassez de estudos e debates aprofundados a
respeito, contribuiu para que fosse percebida, por muitos, como uma
verdade inconteste (p. 18).

Dessa forma, a atuação do psicólogo fica prejudicada, já que não se


encontram pesquisas que revelem, de fato, a realidade das famílias brasileiras em
situação de divórcio e disputa judicial, bem como as consequências dessa relação, o
que infere diretamente na percepção da SAP, como exigido legalmente.

A SAP e a Psicologia no Brasil: atuação do profissional psicólogo

A partir da prática profissional, é possível perceber que os processos que


frequentemente demandam a participação do psicólogo são aqueles relacionados à
regulamentação de visitas, que é uma das questões a ser definida a partir do
processo de separação ou divórcio. Após a decisão judicial, no entanto, podem
surgir questões que tornem necessário recorrer novamente ao judiciário, com o
intuito da revisão quanto aos dias e horários das visitas.
Nesse sentido, o psicólogo jurídico contribui por meio de avaliações com a
família, normalmente, utilizando-se da técnica de entrevistas, observação
comportamental e análise documental do processo, objetivando esclarecer os
48

conflitos, sugerindo medidas que poderiam ser tomadas para a resolução destes e
informando ao juiz a dinâmica que envolve as relações familiares.
Diante da demanda de regulamentação de visitas, destaca-se o aumento das
acusações de alienação parental, uma vez que surge como queixa que justifique a
revisão dos dias e horários de visita estabelecidos outrora. Frente a essa realidade,
propõe-se pensar a proteção da dignidade da pessoa humana do menor, que não
pode ser manipulado, de tal sorte, a ser prejudicado diante das dificuldades e dos
impedimentos criados para o exercício de seu direito convivencial com os demais
familiares.
Nesse contexto, pensa-se na situação dos filhos de casais que passam por
situação de disputa judicial e nos seus direitos à convivência com ambos os
genitores e respectivos familiares, o que é de extrema importância para a formação
psicossocial da criança. Tal prática tem se exaurido, independentemente dos
motivos que são utilizados para justificar essa ação.
Uma pesquisa realizada por Lago e Bandeira (2009) apresentou os resultados
de um estudo com psicólogos que tinham experiências em situações de disputa de
guarda. Os profissionais responderam, dentre outras, às questões relativas ao
conhecimento e à experiência sobre síndrome de alienação parental, de modo que
77,5% dos participantes conheciam o termo, enquanto 22,5% o desconheciam.
Se considerarmos que os participantes de tal pesquisa eram profissionais que
trabalhavam no contexto de divórcios e disputa de guarda, o desconhecimento de
22,5% dos psicólogos acerca do tema SAP é um número bastante elevado, o que
implica a necessidade de atualização sobre os temas que demandam a sua atuação.
Essa necessidade é ainda mais evidenciada devido ao fato de que, dentre os
que conheciam essa denominação, 73,7% tinham experiência no assunto, e apenas
7,9% não o tinham. O que significa que a ocorrência de situações que envolvem a
alienação parental é consideravelmente alta.
Porém, ainda com base nessa pesquisa, Lago e Bandeira (2009) apontam
que, na extensa lista de assuntos que os participantes consideram exigir maior
atualização, o assunto síndrome de alienação parental não foi citado. As autoras
consideram que, talvez, haja um descrédito por parte de alguns profissionais em
relação a tal síndrome, no sentido de a classificarem como uma dinâmica já
existente há anos entre os casais que se separam. Nesse sentido, sendo algo tão
recorrente, a SAP é um tema que merece maior atenção dos profissionais que
49

trabalham no âmbito das relações familiares, que vão além do âmbito jurídico, assim
como daqueles que lidam diretamente com as famílias, dentre os quais podemos
citar o assistente social, os membros da educação e o psicólogo.
O art. 5º da Lei n.º 12.318/10 dispõe que: “havendo indício da prática de ato
de alienação parental, em ação autônoma ou incidental, o juiz, se necessário,
determinará perícia psicológica ou biopsicossocial”. Mediante avaliação psicológica
ou biopsicossocial, o laudo deverá ser realizado através de entrevista pessoal com
as partes envolvidas, exame de documentos dos autos, histórico do relacionamento
do casal e da separação, cronologia de incidentes, avaliação da personalidade dos
envolvidos e exame da forma como a criança ou o adolescente se manifesta acerca
de eventual acusação contra genitor, conforme estabelece o parágrafo 1º do referido
artigo.
Realizada a perícia, a equipe multidisciplinar ou perito terão o prazo de até 90
dias para a apresentação do laudo, prorrogável, exclusivamente, por autorização
judicial baseada em justificativa circunstanciada, como estipula o seu parágrafo
terceiro.
Nesse aspecto, podemos discutir a práxis do psicólogo, que atuará como
perito inserido em equipe multidisciplinar. Daí surge a necessidade de
compreendermos de que maneira esse tema passou a fazer parte do âmbito da
Psicologia no Brasil, demandando a atuação desse profissional. Para isso, faremos
uma breve problematização do surgimento da SAP em esfera nacional.
Diferentemente da realidade norte-americana, no Brasil, verificou-se que a
SAP não tem sido discutida na literatura psiquiátrica, sendo debatida, sobretudo,
pelas áreas de Psicologia e Direito. Profissionais esses que atuam nas disputas
judiciais referentes à guarda dos filhos, o que, possivelmente, justifica esse dado.
Sobre isso, Sousa e Brito (2011) corroboram a discussão, afirmando que:

No Brasil, verifica-se que a SAP não foi objeto de estudo da psiquiatria, haja
vista a ausência de pesquisas e publicações científicas dessa área sobre o
assunto (Sousa, 2010). Possivelmente, isso ocorreu devido ao fato de esse
ser um tema relativamente recente no país, difundido especialmente entre
os profissionais que atuam nos juízos de família (p. 271).

Como exposto anteriormente, percebemos um aumento de discussões sobre


o tema, sobretudo, no campo da Psicologia, após o ano de 2011. Embora tenha
ocorrido esse considerável aumento após a publicação da Lei n.º 12.318/2010, vale
50

ressaltar que os principais difusores da SAP, em esfera nacional, foram as


associações de pais separados, como já discutimos aqui. Devemos, então, salientar
que, embora tenham fundamental importância na divulgação sobre esse assunto, as
discussões realizadas pelas ONGs (Organizações Não Governamentais), muitas
vezes, carecem de estudos empíricos e teóricos, baseando-se, em sua maioria, nas
experiências dos pais alienados e em reportagens jornalísticas, que,
recorrentemente, vêm carregadas de subjetividades e direcionamentos parciais, que
tendem à acusação do alienador.
A influência dessas associações, sem bases científicas, interferiu diretamente
na criação da Lei que discute a alienação parental. Por ter sido sancionada em um
período de escassez na literatura científica, exige algumas observações,
principalmente no que diz respeito ao trabalho dos profissionais que atuam nesse
quesito, incluindo o psicólogo, geralmente, responsável por perceber a alienação
parental, como sugere Brockhausen (2012):

Com o advento da nova lei brasileira, somos chamados a refletir sobre o


impacto do tema no trabalho do psicólogo. Curiosamente, a lei introduz uma
definição jurídica acerca de termo psicológico, o que tampouco deve deixar
de passar por nosso exame (p.15).

Por isso, é válido considerar algumas limitações inseridas nesse contexto,


como, por exemplo, o prazo de 90 dias para a apresentação do laudo. Seria
possível, diante da demanda jurídica e da baixa celeridade das tramitações, realizar
a entrega de um relatório, no qual há uma exigência de que constem todas as
informações necessárias para a compreensão da acusação, bem como o
embasamento teórico, além do atendimento às questões solicitadas pelo juízo ou
Ministério Público, no período de três meses?
Devemos levar em conta que a entrevista psicossocial ou biopsicossocial
pretende analisar o histórico do relacionamento do casal e da separação, a
cronologia de incidentes, a personalidade dos envolvidos e a forma como a criança
ou o adolescente se manifesta diante de eventual acusação contra um dos
genitores. Tratando-se de entrevistas com uma criança possivelmente alienada,
devemos considerar, também, as manipulações no seu discurso, o que dificulta
ainda mais a atuação do psicólogo.
51

Por outro lado, é preciso analisar também a necessidade de celeridade


nesses processos, por se tratar do interesse maior pelo atendimento à criança ou ao
adolescente que passem pelo processo de AP. Desse modo, é indispensável que o
profissional responsável pelo laudo psicossocial leve em consideração a urgência
dos casos em questão e as consequências que a morosidade pode representar
nesse sentido, devendo também limitar o seu parecer, exclusivamente, às
informações necessárias para a resolução do conflito e o cuidado com a exposição
da criança ou do adolescente e seus familiares.
Outro fator que merece bastante atenção por parte do psicólogo é a falsa
acusação de abuso sexual. Esse tema é bastante comum na literatura, já que é
citado como uma possível consequência da Alienação Parental. Conforme diversos
autores internacionais, estudiosos da Síndrome de Alienação Parental, esta é
apontada como o principal motivo para as falsas alegações (BROCKHAUSEN,
2011). Dessa forma, o alienante se utilizaria desse procedimento para afastar o
menor do convívio com o genitor alienado, uma vez que, ameaçada a segurança da
criança, extingue-se o contato dela com o genitor acusado, até que se obtenha um
resultado sobre a acusação, como aponta Furniss (1993):

As crianças em famílias de separação e divórcio são o terceiro grupo em


que a alegação de abuso sexual é utilizada pelas mães para obter o
cuidado e controle sobre as crianças, ou para privar o pai do acesso aos
filhos nas famílias separadas (p. 185).

Porém, é importante ressaltar que passa a ser fundamental o diagnóstico da


origem de uma falsa alegação, devido ao encaminhamento que pode ser feito a
partir da avaliação do psicólogo. Além disso, o profissional não deve ser levado a
classificar como intencional de retaliação todo diagnóstico de falsa alegação, como
destacado por Brockhausen (2011).
Devemos salientar que a SAP pode ser uma justificativa para a construção de
uma falsa alegação, porém, não deve ser indicada como evidência inequívoca de
que não houve abuso sexual infantil. Assim, a SAP não necessariamente implicaria
na falsa alegação, podendo, sim, existir a possibilidade do abuso.
Tal como a percepção do abuso, ou a sua falsa alegação, a acusação de
alienação parental exige tamanha responsabilidade do profissional indicado para
isso, pois a Lei n.º 12.318/2010 determina possíveis sanções para o acusado que for
52

considerado culpado, como a inversão da guarda e a suspensão da autoridade


parental. Sanções essas que podem interferir diretamente no desenvolvimento
psicológico da criança, aquela que deveria ser a principal protegida diante dessa
situação.
Diante da confirmação da Alienação Parental, Rosa (2012) esclarece que o
juiz pode advertir o alienador, ampliar o regime de convivência familiar em favor do
genitor alienado, inverter a guarda ou alterá-la para guarda compartilhada. Nesse
sentido, alguns autores apontam a guarda compartilhada como uma possível
alternativa para minimizar os efeitos da alienação parental, uma vez que o convívio
com ambos os genitores poderia reduzir a manipulação provocada por um deles.
Por outro lado, a guarda compartilhada não deve ser sinônimo de ausência de
alienação parental. É necessário frisar que a guarda compartilhada não é
subordinada ao acordo dos pais quando se separam, acabando por ser aplicada
pelo juiz sempre que possível, de acordo com o § 2º do art. 1.584 do Código Civil
(com nova redação dada pela Lei n.º 11.698, de 2008).
Se a doutrina reconhece, pois, todos os benefícios que a guarda
compartilhada traz a criança, por outro lado, também reconhece a complexidade da
aplicação desta, pois, como sugere Paulo Lôbo (2012):

Para o sucesso da guarda compartilhada é necessário o trabalho conjunto


do juiz e das equipes multidisciplinares das Varas de Família, para o
convencimento dos pais e para a superação de seus conflitos. Sem um
mínimo de entendimento a guarda compartilhada pode não contemplar o
melhor interesse do filho (LÔBO, 2012 apud SOUZA; BARRETO, 2011, p.
79).

Considerando, portanto, a importância das observações e dos resultados


apontados pelo profissional psicólogo, bem como as consequências que podem ser
geradas por um trabalho inconsistente, seja na área criminal, da família ou da
criança, realçamos a necessidade imperiosa de maiores investimentos na
capacitação dos psicólogos brasileiros, como também é discutido por Brockhausen
(2011).
Ainda sobre a atuação do psicólogo, os próprios profissionais reconhecem
que ainda não há um preparo por parte das equipes psicossociais e dos operadores
do Direito para lidar com o fenômeno da SAP (COSTA, 2011). Assim, podemos
sugerir uma maior promoção de debates e discussões mais aprofundadas sobre o
53

assunto, além do incentivo às pesquisas nacionais e à criação de resoluções e/ou


orientações que possam ser úteis à prática desse profissional, para que possamos
adquirir melhor regulamentação da atuação do psicólogo nessa área.

Considerações finais

Diante do exposto, pudemos obter uma análise um pouco mais crítica acerca
desse tema, entendendo sobre o surgimento da SAP no Brasil, observando o
contexto das famílias brasileiras, além do seu próprio desenvolvimento enquanto
aspecto jurídico e psicológico.
Além disso, confrontamos algumas teorias deterministas e, às vezes,
contraditórias, que foram difundidas no meio científico da Psicologia, com base em
um posicionamento muito mais biomédico e psiquiátrico que psicológico, num
sentido psicossocial. Assim, deixamos alguns questionamentos acerca da criação da
Lei n.º 12.318/2010 e o momento histórico em que foi sancionada, considerando a
ausência de literatura que embasasse o seu conteúdo, o que poderia sugerir
algumas revisões para melhor atender ao compromisso com a Psicologia, a
sociedade, com os direitos humanos e, sobretudo, com as crianças e os
adolescentes envolvidos.
Visto isso, algumas limitações devem ser consideradas, tais como a ausência
de estudos mais aprofundados sobre o tema, além de um posicionamento mais
crítico e menos reprodutor, apenas, das ideias de Gardner.
Assim, sugerimos a necessidade de realização de novos estudos que
investiguem a atual realidade das famílias brasileiras, sobretudo pesquisas
empíricas, que analisem os principais atores desse cenário. Após termos
conseguido um pequeno avanço nas discussões sobre a SAP, é importante
aprofundar e continuar as pesquisas, tendo em vista a relevância do assunto para a
Psicologia, que cada vez mais está inserida nesse contexto de divórcio e disputa da
guarda dos filhos.
Além disso, instamos uma maior aproximação das diversas áreas que atuam
nos juízos de família, para que promovam intervenções e programas que,
conjuntamente, abordem o problema e possam complementar a lei a qual nos
referimos.
54

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SOUZA, A. M. O; RICARDO M. B. Síndrome de alienação parental, falso abuso


sexual e guarda compartilhada: a necessidade de uma observação jurídica
transdisciplinar. Joaçaba: Espaço Jurídico, v. 12, n.º 1, p. 67-82, jan./jun. 2011.
56

Pós-modernidade e violência: implicações nos modos de ser


no cotidiano

Darlindo Ferreira de Lima4

Resumo: O presente trabalho é fruto de uma pesquisa sobre violência contra a mulher em
atendimento na prática do plantão psicológico, realizada em nosso doutoramento. A partir de algumas
reflexões com autores que pensam a contemporaneidade, propomo-nos promover uma reflexão a
respeito das possibilidades de prática psicológica, tendo por contexto a contemporaneidade e um de
seus mais presentes fenômenos, a violência. A relação que mantemos com o tempo e espaço, bem
como as relações sociais que constituímos passam por uma intensificação e fragmentação que se
apresentam sob a forma de uma insegurança ontológica, a qual retira desse homem as condições de
produção de sentido e significado que possibilitem a simbolização, o diálogo e a convivência de modo
a encontrar espaços de significação que tenham como condição o tempo da construção do próprio
sentido. Os diversos modos de relação de objetificação destituem os espaços/tempo de relações de
alteridade, restando, em boa parte das vezes, o vazio do encontro com o objeto e não com o outro,
sem o qual o homem parece se afundar em uma angústia dilacerante, sentida como violência.

A prática de qualquer fazer profissional, inevitavelmente, encontra-se inserida


em um contexto histórico social. A Psicologia enquanto ciência e profissão também
ocupa um lugar de destaque na contemporaneidade, na medida em que é
convocada a contribuir com o enfrentamento aos inúmeros fenômenos
socioculturais, dentre esses, a violência.
O objetivo deste ensaio é promover uma reflexão sobre a Psicologia Jurídica,
mais especificamente, de como a noção de humano se apresenta a partir de um
dado tempo histórico, o qual se encontra permeado pelo fenômeno da violência.
Para tanto, vamos promover, inicialmente, um diálogo com alguns autores do campo
da sociologia que apontam para um modo de configuração do social que nos chama
atenção. Destacam-se, nesse contexto, autores como Bauman5 (1925-2017),
Giddens6 (1938-) e Agamben7 (1942-), os quais tratam a condição da

4
Professor Adjunto do Curso de Saúde Coletiva do Centro Acadêmico Vitória – UFPE.
5
Zygmunt Bauman é sociólogo, nascido em 1925, em uma família judia da Polônia. Desde cedo,
conheceu as agruras da guerra e a discriminação que imperou na Europa no início do século XX.
Após lutar na Segunda Guerra Mundial, tornou-se professor em Londres (Universidade de Leeds-UK)
e fez parte da chamada “Escola de Varsóvia” do pensamento sociológico.
6
Anthony Giddens é sociólogo e filósofo nascido em 1938, em Londres-UK. É conhecido como um
dos mais influentes pensadores da chamada “Terceira Via”. Em sua história, possui uma ligação com
o trabalhismo britânico, tendo sido, inclusive, assessor do governo inglês por longo período.
7
Giorgio Agamben é filósofo, nascido em Roma (1942). Participou de vários seminários promovidos
por Heidegger, o que influenciou sua construção teórica. Atualmente, leciona em várias universidades
da Europa e dos EUA.
57

modernidade/contemporaneidade e as diferentes formas como o humano a


experiência.
Faz-se necessário ressaltar que o propósito de nosso trabalho não é o de
debater exaustivamente conceitos como modernidade, pós-modernidade e/ou
contemporaneidade, ou mesmo situar quais desses são os mais abrangentes ou
limitantes. Pelo contrário, tomamos por condição a tentativa de esclarecer alguns
pontos que nos parecem convergentes entre esses temas. Serão pontuadas
algumas reflexões sobre a condição moderna e, em seguida, a chamada
contemporaneidade e/ou pós-modernidade.
A conceituação sobre modernidade e pós-modernidade passa por inúmeras
discussões e debates, principalmente no campo da filosofia e das ciências humanas.
Dentre os debates, um dos mais interessantes advém, principalmente, de Habermas
(2002) e Lyotard (2010). Esses autores procuram explicitar as marcas deixadas no
campo da produção do conhecimento que, singularmente, diferenciam esses
conceitos em relação a outras épocas ou paradigmas de pensamento.
Assim, dentre as diversas definições que sofreram a influência do debate de
Habermas e Lyotard sobre a modernidade, destaca-se, por sua abrangência, o
conceito elaborado por Rocha (2001), que aponta a modernidade como um projeto
de emancipação do humano, pelo próprio humano, daquilo que sua natureza
biológica e as vicissitudes da vida lhe impõem:

O Projeto da Modernidade teve como objetivo decretar a “maioridade”


intelectual do homem em todos os campos da cultura. A razão “esclarecida”
libertá-lo-ia do medo e das superstições, resquícios do mundo mágico e
mítico no qual viviam os antigos e os medievais, alienados e submetidos ao
poder dos deuses e dos feiticeiros. Para conseguir este objetivo, dois
caminhos foram abertos: a dessacralização da natureza, ou o
desencantamento do mundo, e uma profunda modificação na compreensão
do conceito e da linguagem da nova ciência regida pelo logos técnico (p.
318).

Em linhas gerais, podemos dizer que há uma passagem da ordem mítico-


filosófica para outra de cunho racionalizante, mais especificamente, lógico-
matemático. O humano, portanto, coloca-se como centro de doação de sentido para
si, para a natureza e para o mundo social que o rodeia. É possível notarmos, nessa
posição conceitual, uma marcante mudança, pois passamos da visão alicerçada na
tradição, e/ou religião, à outra que sobrevaloriza a ciência como matriz geradora de
um discurso produtor da verdade.
58

Nesse projeto moderno, principalmente por meio de alguns dispositivos


culturais (a ciência, por exemplo), foi-se construindo uma forma de razão voltada
para o factum, ou seja, um modelo de racionalidade que visava, desde o início, à
explicação de coisas, tendo na pragmática e no empirismo suas bases fundantes.
Houve uma tentativa de conhecer o substrato último do tecido da realidade, de forma
objetiva e, ao mesmo tempo, social.
Bauman (1997), refletindo sobre as implicações éticas da modernidade, lembra
que foram duas as bandeiras centrais que possibilitaram a construção do mundo em
que vivemos: a primeira diz respeito à universalidade; e a segunda refere-se à
proposta constante de fundamentação racional sobre o mundo, uma forma
hegemonicamente presente de privilegiar a ordenação e a não contradição da vida.
A ideia de natureza humana universal visava a uma proposta de construção de
mundo no qual todos os humanos fossem iguais perante seus direitos.
A experiência de se viver num mundo moderno parece passar, invariavelmente,
por uma sensação de intensa ambivalência, uma espécie de crise ou contradição
radical que deixa o indivíduo num estado de alerta constante, tendo que lidar com o
inesperado, sem quaisquer garantias de segurança. Bauman (2005), em uma outra
obra, afirma que, na “época líquido-moderna, o mundo em nossa volta está repartido
em fragmentos mal coordenados, enquanto nossas existências individuais falidas
em uma sucessão de episódios fragilmente conectados” (p. 17).
Para os indivíduos modernos, o estar-no-mundo implica em uma sensação de
busca constante por um lugar de pertencimento. Sente-se um “estar deslocado”, em
qualquer parte em que se venha a estar. Podemos compreender que,
concomitantemente, por meio de recursos tecnológicos oriundos dessa mesma
modernidade, pode fazer-se presente, simultaneamente, em lugares com milhares
de quilômetros de distância.
A modernidade, a partir de infinitas possibilidades de instaurar os modos de ser
e viver do humano, sobretudo de forma fugaz e com a noção de insegurança
vigente, parece instaurar formas de estar-no-mundo que encontram, na crise, um
jeito fundamental de produzir modos de existir. Nessa configuração, não há muitos
espaços para uma ideia de si rígida, universal, tal qual se via no período pré-
moderno, uma vez que não se encontra respaldo algum em nossos cotidianos
(BAUMAN, 2005):
59

O “pertencimento” e a “identidade” não têm solidez de uma rocha, não são


garantidos por toda vida, são bastante negociáveis, e de que as decisões
que toma, os caminhos que percorre, a maneira como age e a
determinação de se manter firme a tudo isso são fatores cruciais tanto para
o “pertencimento” quanto para “identidade” (p. 17).

A experiência de ser moderno implica também em ser livre e, ao mesmo


tempo, solitário. Há uma contínua construção, com seus próprios recursos
(reflexivos), de uma ideia de si que possa tentar dar sentido à existência. A princípio,
essa “total” autonomia prometida pelo projeto da modernidade parece que foi
sentida, por um dado tempo, como uma realização do sonho de toda humanidade.
A definição de modernidade, proposta por Giddens (2002), implica a
construção de uma ordem social pós-tradicional, na qual as certezas e os hábitos da
tradição não foram substituídos, de forma linear e absoluta, pela “verdade” oriunda
de um conhecimento racional. Dito de outro modo, não foi meramente a capacidade
reflexiva, por uso de uma racionalização instrumental, que, em uma sucessão
natural, substituiu a dimensão tradicional.
Socioculturalmente contextualizada, a modernidade pode ser compreendida a
partir da emergência de instituições e dos modos de vida que foram se construindo,
na Europa do século XX, e se ampliaram de maneira a tomar dimensões planetárias.

Além de sua reflexividade institucional, a vida social moderna é


caracterizada por processos de reorganização do tempo e dos espaços
associados à expansão de mecanismos de desencaixe – mecanismos que
deslocam as relações sociais de seus lugares específicos, recombinando-os
através de grandes distâncias no tempo e espaço (GIDDENS, 2002, p. 10).

Portanto, a modernidade, nessa perspectiva, não foi de todo superada, como


pensam alguns autores, pois, em nosso mundo, persistem, de forma ainda
sistemática, os mesmos eixos axiais, os quais a transformam no que se chama de
“alta modernidade” ou “modernidade tardia”, sem, contudo, perder suas
características básicas.
Os principais contornos da modernidade tardia (GIDDENS, 2002), que
terminam por configurar parâmetros nos quais se desenrolam as possibilidades de
ser-no-mundo na modernidade, dizem respeito aos seguintes processos: o
imperativo das condições sociais modernas, que determinam a necessidade de
todos os indivíduos terem de “encontrar-se a si mesmo”; a existência do perigo e da
60

oportunidade como intrínsecos ao mundo moderno; a existência da ansiedade


intensa como correlata natural da maturação dos perigos mundanos; a organização
contumaz de uma biografia, reflexivamente organizada, sob a égide do que a própria
modernidade dispõe em forma de possíveis modos de vida.
O tempo, no âmbito da modernidade, foi perdendo a âncora com relação ao
espaço, principalmente no que diz respeito às culturas tradicionais, pois que
tempo/espaço dispõem-se como pontos de apoio para identificação e simbolização
dos indivíduos. Assim, a vida moderna foi perdendo possibilidades de ritualização. O
rito, justamente, corresponde à marca que imprime ao tempo e ao lugar uma dada
significância. As vivências dessa separação entre tempo e espaço foram
possibilitando a emergência, cada vez mais intensa, de uma sensação de “vazio do
tempo”. As tentativas de preenchimento se dão por meio de sistemas de tempo
universais concomitantes, independentemente das distâncias envolvidas nos
eventos.
Contudo, a própria necessidade de simbolização por parte dos indivíduos,
sobrecarregados de uma significativa carga de informação em tempo real, demanda
sempre, nesse mesmo processo de separação do tempo e espaço, um outro
processo, contrário e concomitante, a saber: a reintegração do tempo e espaço. É
justamente essa reintegração que torna universal a história singular de cada cultura
ou comunidade. A história, única e globalizante, passa a ser sempre em tempo real,
sem interlocutores ou mediadores; nasce já pronta, inserindo todos a um só clique
ou aperto do controle remoto.
No âmbito das relações interpessoais, os indivíduos passaram a vivenciar uma
crescente artificialidade, nos modos de existir, que parece se acentuar desde os
aspectos físicos até a necessidade de reflexão daquilo que é simbolizado nas
relações de intimidade, tornando superficiais os contatos e as experiências com o
mundo. Nesse contexto, podemos considerar que o estar-no-mundo com outros
indivíduos foi-se perdendo num estar-no-mundo com coisas. Dá-se, paulatinamente,
uma sobrevalorização às formas de relação de objetificação, em detrimento das
formas de constituição de alteridade, nas quais os indivíduos se posicionam
irredutíveis à mera condição de objeto.
As consequências imediatas promovidas pela sobrevalorização da objetificação
das relações se dão, principalmente, no âmbito da intimidade, sobretudo por meio do
recrudescimento do narcisismo. Essa dimensão narcísica se transformou na faceta
61

mais visível do processo de objetificação inter-relacional, na medida em que se


busca uma autoimagem, um “eu” coerente e sem contradições, por uma sensação
de estabilidade inexistente no campo da modernidade.
Nesse contexto, emergem o que Giddens (1997) chama de relações puras, que
consistem em modelos de relações de intimidade, nos quais há uma idealização do
ser amado, cuja ênfase se dá na universalidade do amor, na naturalização dos
vínculos afetivos e na eternidade da relação. Um exemplo dessa forma de relação
pura é o chamado “amor romântico”. A dimensão do ciúme ou da construção de
formas simbióticas de viver não são o que de mais destrutivo há nessas relações,
mas, sim, a impossibilidade de retroalimentação desse amor.
Ao constituírem-se as relações puras, alicerçadas em uma dimensão da
exterioridade da experiência mundana dos indivíduos, ou seja, fora do campo das
afetações do mundo, obtém-se, apenas, a existência de um mundo idealizado, no
qual não se sofre as agruras e as possibilidades advindas da ambivalência, nem
incertezas e contradições. Dessa forma, as relações puras se tornam quase sempre
fadadas ao fracasso, o qual é entendido como um sentimento de impotência, de
desinvestimento de si frente ao outro, ao mundo e à sua própria vida.
A partir do mesmo campo de críticas às transformações acontecidas a partir do
século XX, Agamben (2009) chamará de contemporaneidade o contexto
sociocultural no qual nos encontramos. Diferentemente de Bauman e Giddens, que
de alguma forma buscam explicações universalizantes e socialmente ancoradas
sobre a constituição dos modelos de relações sociais, Agamben aponta, através de
uma leitura heideggeriana, para a dificuldade ôntico-ontológica de situarmo-nos,
verdadeiramente, como contemporâneos.
Mas, afinal, o que Agamben (2009) chama de contemporâneo? E que relação
há com o conceito de modernidade, trazido por Bauman e Giddens? Vejamos:

[...] verdadeiramente contemporâneo, é aquele que não coincide


perfeitamente com este (tempo), nem está adequado às suas pretensões e
é, portanto, nesse sentido, inatual; mas, exatamente por isso, exatamente
através desse deslocamento e desse anacronismo ele é capaz, mais do que
outros, de aprender e apreender o seu tempo (p. 59).

Agamben (2009) continua contextualizando o humano contemporâneo da


seguinte forma:
62

O contemporâneo é aquele que não se deixa cegar pelas luzes do século e


consegue entrever nessas a parte da sombra, sua íntima obscuridade...
percebe o escuro de seu tempo como algo que ele concebe e não deixa de
interpelá-lo, algo que, mais do que toda luz, dirige-se direta e singularmente
a ele. O contemporâneo é o agente que recebe em pleno rosto o facho de
trevas que provém de seu tempo (p. 64).

A proposta trazida pelo autor sinaliza, inicialmente, que o contemporâneo


não deve ser confundido com aquilo que é atual, que se instala no agora, e ao qual
podemos ter acesso e conhecê-lo como um todo. Pelo contrário, nesse conceito há
uma fratura, uma anacronia insuplantável na qual os indivíduos são jogados. E por
justamente se encontrarem nela, apreendem o desconforto e o desamparo
ontológicos.
Na condição daquele que apreende o “escuro do presente”, abre-se a
possibilidade de se ter uma experiência de distanciamento da própria história e do
tempo, fazendo disso algo inédito, inaugural. A partir desse contexto, faz-se
instigante pensar, ainda a partir das reflexões advindas de Agamben, que, nesse
colocar-se de outro modo no tempo/espaço, podemos experimentar a ineficácia de
nosso arbítrio humano. E é justamente nesse sentido que encontramos
ressonâncias vindas da articulação entre a reflexão de Agamben e as propostas de
Bauman e Giddens. Assim, o que nos parece comum em ambas as propostas é a
impressão de que o homem se encontra em um estar lançado no mundo. Esse
mesmo mundo parece ser apreendido como modos de experienciação da vida, que
tomam o homem por inteiro, fazendo-o, assim, experimentar sua própria impotência.
Desta feita, podemos compreender que, tanto para Bauman, quanto para
Giddens e Agamben, parece haver, através da experiência da impotência, uma
dimensão de violência, no âmago das experiências vividas pelo humano, a partir da
configuração sociocultural contemporânea na qual ele se encontra. Pois, ao
percorrermos as veredas da sociedade líquida (BAUMAN, 2001), ou das relações
puras (GIDDENS, 1993), ou ainda das configurações contemporâneas (AGAMBEN,
2009), parece que levamos como parceiro constante um desassossego que vem
acompanhado por um “estreitamento” dos sentidos e dos significados das nossas
experiências no mundo.
A partir desse contexto, podemos identificar a violência contra a mulher como
um dos modos de expressão desse horizonte das experiências
modernas/contemporâneas, nas quais nos encontramos e que nos constituem.
63

Entretanto, ao entendermos a existência de uma dimensão da violência na


contemporaneidade, não queremos indicar que exista uma determinação natural,
social ou cultural da violência como a marca essencial da cultura moderna, visto
que em todas as épocas históricas sempre houve alguma forma de violência.
Assim, reconhecemos a violência, e, mais especificamente, a violência contra a
mulher, como modo de expressão de um dado tempo histórico que necessita ser
melhor circunscrito.
De acordo com o dicionário da língua portuguesa, em Ferreira (2009), a palavra
violência diz respeito a todo ato de constrangimento físico ou moral; uso da força ou
coação. Indica, ainda, que a palavra violência possui uma raiz etimológica do latim
violentia, que, em sua origem, significa profanar, transgredir. O termo vis remete à
compreensão de força, vigor, potência, emprego de força física.
No mesmo sentido, Chauí (2003) indica que a violência pode ser
compreendida como:

Exercício da força física e do constrangimento psíquico para obrigar alguém


a agir de modo contrário à sua natureza e ao seu ser ou contra sua própria
vontade. Por meio da força e da coação psíquica, obriga-se alguém a fazer
algo contrário a si, aos seus interesses e desejos, ao seu corpo e à sua
consciência, causando-lhe danos profundos e irreparáveis, como a morte, a
loucura, a autoagressão ou a agressão aos outros (p. 308).

Por outro lado, no âmbito da saúde, a Organização Mundial da Saúde (OMS)


e alguns autores definem a violência a partir da seguinte perspectiva:

Violência é o uso intencional da força física ou do poder, real ou em


ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma
comunidade, que resulte ou tenha a possibilidade de resultar em lesão,
morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação
(DAHLBERG; KRUG, 2006 [2002], p. 28).

No mesmo relatório, a OMS (2002) ressalta que a natureza dos diversos tipos
de violência contempla a possibilidade de atos que envolvam as dimensões: física;
sexual; psicológica; além de privação ou negligência.

Referências

AGAMBEN, G. O que é o contemporâneo e outros ensaios. Chapecó: Argos,


2009.
64

ALMEIDA, F. M. Cuidar de ser. Uma aproximação do pensamento heideggeriano.


1995, 73 f. Dissertação (Mestrado em Filosofia) - Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo, São Paulo, 1995.

BAUMAN, Z. Ética pós-moderna. São Paulo: Paulus, 1997.

______. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

______. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,


2005.

CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2003.

DAHLBERG, Linda L.; KRUG, Etienne G. Violência: um problema global de saúde


pública. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2006, vol.11, suppl., pp.1163-1178, 2006.
Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-
81232006000500007&script=sci_abstract&tlng=pt>. Acesso em: 5 mar. 2018.

GIDDENS, A. A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas


sociedades modernas. São Paulo: Editora UNESP, 1993.

GIDDENS, A., LASCH, S.; BECK, U. Modernização reflexiva. Política, tradição e


estética na ordem social moderna. São Paulo: Editora UNESP, 1997.

HABERMAS, J. Pensamento pós-metafísico. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.


2002.

LYOTARD, F. A condição pós-moderna. São Paulo: José Olympio, 2010.

ROCHA, Z. O problema da violência e a crise ética de nossos dias. In Síntese,


v. 28, n.º 92, 301-326. 2001.
65

Compromisso social, racismo institucional e interfaces com a


Psicologia Jurídica

Jonalva Paranã de Araújo Gama8

Resumo: A Psicologia Jurídica, no Brasil, acompanhou o desenvolvimento internacional do seu


campo de atuação, ganhando corpo e lugar nas demandas relacionadas aos conflitos familiares, na
proteção de crianças e adolescentes e nas intervenções relacionadas à vitimologia e Psicologia do
Testemunho. Apesar de questões bem delimitadas, essas demandas apresentam atravessamentos
sociais diversos, se considerarmos a necessidade de contextualizar cada situação, pautando o
compromisso social da Psicologia com a superação dos problemas sociais. No que diz respeito ao
povo negro, faz-se necessário compreender como sua história foi se constituindo, elencando
compreensões sobre o racismo estrutural e sua interferência na vida social e nas relações de poder.
A partir dessa compreensão, é possível contextualizar e fundamentar discussões, construção de
saberes e intervenções com a população negra, assumindo uma prática ético-política interessada no
combate ao racismo institucional. Nesse sentindo, este texto propõe uma reflexão sobre o
compromisso social da Psicologia, elencando meditações a respeito do Racismo Institucional e das
possíveis interfaces com o trabalho da Psicologia Jurídica. Isso porque, sabe-se, o racismo no país é
velado e tratado de forma naturalizada, violando a população negra em diferentes contextos. E no
campo da Justiça, a criminalização de uma raça demanda de nós um olhar político comprometido
com a superação das desigualdades sociais provocadas pelas diversas expressões do preconceito
racial.

Na trajetória da Psicologia, não raramente, há relatos de que ela foi se


fundamentando a partir de avaliações dos comportamentos humanos sem,
necessariamente, ter o interesse de demarcar um olhar, com recorte sociocultural,
na vida dos grupos sociais. Desse modo, foi se forjando o interesse de entender as
diferenças que existiam na sociedade e por que determinados modelos de
comportamento eram adotados.
No caso da Psicologia Jurídica, apesar de não existirem relatos de um marco
histórico específico, fazem parte da História da Loucura intervenções de psicólogos
interessados em avaliar os comportamentos das pessoas ditas “loucas” que eram
enquadradas como criminosas. Desse modo, na metade do século XX, o que
caracterizava a Psicologia, no âmbito do Direito, eram os diagnósticos realizados
através de exames e avaliações, demarcando, assim, o princípio da utilização de
testes psicológicos.

De acordo com Brito (2005), os psicodiagnósticos eram vistos como


instrumentos que forneciam dados matematicamente comprováveis para a

8
Psicóloga (UNIVASF). Residente da Residência Multiprofissional da Universidade Federal do Vale
do São Francisco (UNIVASF), no Programa de Saúde da Família e Vigilância em Saúde. E-mail:
jonalvagama@gmail.com.
66

orientação dos operadores do Direito. Inicialmente, a Psicologia era


identificada como uma prática voltada para a realização de exames e
avaliações, buscando identificações por meio de diagnósticos. Essa época,
marcada pela inauguração do uso dos testes psicológicos, fez com que o
psicólogo fosse visto como um testólogo, como na verdade o foi na primeira
metade do século XX (Gromth-Marnat, 1999). Psicólogos da Alemanha e
França desenvolveram trabalhos empírico-experimentais sobre o
testemunho e sua participação nos processos judiciais. Estudos acerca dos
sistemas de interrogatório, os fatos delitivos, a detecção de falsos
testemunhos, as amnésias simuladas e os testemunhos de crianças
impulsionaram a ascensão da então denominada Psicologia do Testemunho
(Garrido, 1994.) Atualmente, o psicólogo utiliza estratégias de avaliação
psicológica, com objetivos bem definidos, para encontrar respostas para
solução de problemas (LAGO et al., 2009, p. 484).

De acordo com Cunha (2000), foi a testagem que abriu espaço para a
atuação dos psicólogos, no campo criminal, utilizando a avaliação como uma das
ferramentas possíveis e tecendo um estreitamento com a área criminal, o que tornou
possível o diálogo com os diversos campos do Direito. Hoje, a atuação da Psicologia
Jurídica é bem delimitada e suas intervenções têm objetivos eticamente bem
definidos, abarcando avaliações e intervenções diversas com o foco de apresentar
resolutividade aos problemas, a partir de um olhar compartilhado e multiprofissional.
Se formos adentrar as análises sobre violações sociais que a Psicologia pode
ter legitimado, no avanço de seu crescimento e na delimitação teórico-conceitual,
precisaríamos de muito cuidado com as pontuações e considerações. Grosso modo,
podemos afirmar que há dois momentos na história da Psicologia: um primeiro, no
qual suas práticas e estudos estavam colados aos interesses de uma classe
dominante, e um segundo, que mostra a inclinação para o investimento nos estudos,
aproximação e intervenções relacionadas às desigualdades sociais. O segundo
momento tem se fortalecido, e a Psicologia, enquanto ciência e profissão, tem
enfatizado os discursos sobre igualdade de direitos, superação da discriminação, do
preconceito e das desigualdades sociais, os quais fundamentam suas intervenções,
mostrando o seu compromisso ético-político.

Esse histórico inicial reforça a aproximação da Psicologia e do Direito


através da área criminal e a importância dada à avaliação psicológica.
Porém, não era apenas no campo do Direito Penal que existia a demanda
pelo trabalho dos psicólogos. Outro campo em ascensão até os dias atuais
é a participação do psicólogo nos processos de Direito Civil. No estado de
São Paulo, o psicólogo fez sua entrada informal no Tribunal de Justiça por
meio de trabalhos voluntários com famílias carentes em 1979. A entrada
oficial se deu em 1985, quando ocorreu o primeiro concurso público para
admissão de psicólogos dentro de seus quadros (Shine, 1998). Ainda dentro
do Direito Civil, destaca-se o Direito da Infância e Juventude, área em que o
67

psicólogo iniciou sua atuação no então denominado Juizado de Menores


(LAGO et al., 2009, p. 484-485).

Na Psicologia Jurídica, esse compromisso ético-social foi ficando mais


fortalecido com o avanço dos estudos sobre os contextos sociais, que abarcam a
vida dos sujeitos, os quais entram na seara das demandas do Direito. Foi na década
de 90 do século passado, atuando em situações relacionadas a famílias em
vulnerabilidade social e risco, e na proteção de crianças e adolescentes, que o
psicodiagnóstico se tornou um instrumento importante, na garantia dos Direitos e da
Cidadania, que demanda atenção.
Nos contextos familiares, as intervenções focaram em situações relacionadas
ao direito da família, separação e divórcio, visitas regulamentadas, disputa de
guarda, adoção e interdição. Ainda há o campo da vitimologia e da Psicologia do
testemunho. Mesmo nesses campos, as demandas diversas têm atravessamentos
sociais relacionados a vulnerabilidades nas dimensões individual, social e
programática.
A partir dessa breve contextualização, este texto propõe uma discussão sobre
o compromisso social da Psicologia, a atuação da Psicologia Jurídica e suas
interfaces com o Racismo Institucional.

Compromisso social da Psicologia

Para falar sobre o compromisso social da Psicologia, é preciso compreender


como essa profissão se desenvolveu. Falando sobre a realidade no Brasil, suas
primeiras intervenções tiveram o interesse de colaborar com a modernização,
investindo em técnicas para trabalhar com a produção de riqueza, ou seja,
trabalhando com as demandas do mercado de trabalho capitalista moderno. Além
disso, a modernização da sociedade esteve/está relacionada ao crescimento da
tecnologia, nesse âmbito, os psicólogos atuaram em produções relacionadas à
gestão da vida e da sociedade.
Nos anos 50 e 60 do século passado, a Psicologia produziu intervenções e
saberes que incentivaram o desenvolvimento da modernização, do rendimento e da
produtividade. Até mesmo os testes psicológicos apresentavam a Psicologia numa
perspectiva de profissão tecnológica e objetiva.
68

Na sociedade moderna, a Psicologia seguiu seu caminho fortalecendo o


projeto de elite, estando à disposição dos grupos sociais dominantes, os quais
tinham interesses mercantilistas, riquezas acumuladas, status social privilegiado e
que, por isso, eram importantes às conquistas sociais. A regulamentação da
Psicologia como profissão foi possível, também, pela estrita relação com a elite
brasileira, em um movimento de benefícios ambivalentes.
Diferente de muitas leis conquistadas no país, a Lei n.º 4.119 de 1962 não
pode ser considerada como conquista de um grupo social ou de uma categoria
profissional mobilizada, até porque quem fazia a Psicologia no país era um grupo
restrito de cerca de mil pessoas.

A sociedade brasileira desconhecia este saber e suas possibilidades


práticas. Somente à elite interessava instalar e desenvolver a Psicologia no
Brasil, pois ela prometia com sua tecnologia – os testes psicológicos -
contribuir para a previsão e o controle dos comportamentos, tarefas
necessárias naquele momento de instalação de um novo projeto de
sociedade. A Psicologia permitia colocar o homem certo no lugar certo;
prometia facilitar a aprendizagem; adaptar as pessoas; facilitar a percepção
de cada um sobre si mesmo e diferenciar os sujeitos (alunos ou
trabalhadores). Eram muitos os interesses da elite que a Psicologia podia
ajudar a resolver e não fazia isso de modo espontâneo; possuía tecnologia
apropriada para esta tarefa (BOCK, 2008, p. 2).

Apesar do privilégio, a profissão não tinha, na segunda metade do século XX,


corporação profissional, discurso ideológico, modelos de intervenção e experiência
prática abrangente. Não existia, ainda, uma categoria profissional organizada para
compor espaços para essas construções. Esse foi um cenário muito importante para
a Psicologia, pois a principal demanda era dar corpo teórico e formas práticas que
fossem o pontapé para o seu crescimento enquanto ciência e profissão. Além disso,
era necessário construir estratégias de comunicação com a sociedade,
apresentando a Psicologia e suas possibilidades para uma sociedade que não a
solicitava, pois não a conhecia.
As décadas de 70, 80 e 90 foram um marco no que tange à construção da
Psicologia, época em que os profissionais em exercício se questionavam sobre
quem eram e por que queriam ser. Foram as experiências práticas e as pesquisas
científicas, então, que forjaram a construção de saberes, de técnicas e,
principalmente, do campo de atuação profissional. Nesse contexto é que a
Psicologia desperta o interesse para as questões sociais, tramado numa disputa de
69

projetos distintos, um, que objetiva o fortalecimento da sociedade moderna


capitalista, e o outro mais voltado à temática social e seus caminhos profissionais.

A Psicologia foi utilizada, inicialmente, como conhecimento e como prática


para responder aos interesses de controle, de categorização, de selecionar,
que eram da elite. Talvez as condições sociais sob as quais surgiu a
Psicologia (a Lei foi aprovada em 1962, tendo logo depois ocorrido o golpe
militar e teve início um longo período de ditadura militar), onde a falta de
democracia social, as lutas ocultas nos partidos, nas várias formas de arte,
nas academias estavam postas como condição, ao lado das duras medidas
autoritárias, tenham formado um bom terreno para escaparmos de um
projeto corporativista, mesquinho, que nos mantivesse aliados às elites,
sem contradições (BOCK, 2008, p. 03).

Bock (2008) ainda destaca:

Algumas universidades neste período receberam professores que haviam


sido cassados pelas Leis de exceção. Os próprios partidos políticos de
esquerda, sob a mira da ditadura recuaram e uma parte da militância esteve
então nas Universidades, ensinando e construindo um espaço de debate
progressista. Muitas questões éticas e políticas fermentaram nos espaços
universitários e a Psicologia não escapou. O compromisso com as elites se
tornava aos poucos um incômodo. Sem dúvida, a abertura de novos cursos
e todo país, colocou na Universidade as camadas médias e possibilitou uma
composição de categoria profissional para além dos filhos das elites. A
situação era propícia para o desenvolvimento de um projeto de
compromisso social. E a Psicologia, que até então se colocava de costas
para a realidade social, acreditando possível explicar o humano sem
considerar sua realidade econômica, cultural e social, se voltou para a
sociedade.

A inserção dos psicólogos nos serviços de saúde e os investimentos nos


estudos relacionados à Psicologia Comunitária abriram espaço para um novo campo
de atuação da profissão: as políticas públicas. Nessa seara, o dever de conhecer as
realidades dos territórios onde iriam intervir se tornou uma das ferramentas de
trabalho. Vale ressaltar que a noção de território, aqui citado, ultrapassa as
demarcações geográficas, contemplando as experiências socioeconômicas e
culturais das populações assistidas pelas políticas públicas.
As intervenções sociais começaram, então, a ganhar corpo, conquistando o
campo intersetorial, multi e interdisciplinar. À medida que a Psicologia foi/está se
desenvolvendo, os serviços de atuação têm se ampliado, bem como as
compreensões sobre direito, cidadania, saúde, assistência social e educação.
Ampliaram-se e construíram novos saberes e fazeres interventivos; as demandas
pedem, cada vez mais, intervenções contextualizadas e ampliadas.
70

Considerando o cenário no qual a Psicologia vai se constituindo, enquanto


profissão, e os espaços já conquistados atualmente, pode-se afirmar que muitas das
desigualdades sociais, construídas na realidade brasileira, foram legitimadas pela
Psicologia, quando não havia compromisso social. Essas desigualdades estão
relacionadas ao mercado de trabalho, visto que algumas intervenções tiveram a
finalidade de promover um ambiente de produção e lucro; à pobreza, considerando
que camadas específicas foram favorecidas e outras marginalizadas; e, de forma
geral, ao interesse por um ambiente de controle dos corpos e das vidas na
sociedade.
Hoje, sua prática implica um posicionamento político pautado no
enfrentamento das desigualdades e das diversas formas de expressão das violações
de direitos. Especialmente nos espaços que refletem a importância do fortalecimento
das redes intersetoriais, as vivências compartilhadas sobre os acompanhamentos
territoriais referenciados e contrarreferenciados dão mote para se pensar a prática
psicológica colada num compromisso social muito bem demarcado: a construção de
uma sociedade menos opressora e mais igual, no que tange à noção de
equanimidade.
Demandas relacionadas ao combate aos preconceitos indicam que é preciso
conhecer como e quando as vulnerabilidades influenciam nos caminhos individuais e
coletivos dos sujeitos sociais. É fundamental, por exemplo, entender que a
vulnerabilidade age em três dimensões importantes: individual, social e pragmática,
as quais afetam, respectivamente, os comportamentos que desprotegem, as
condições políticas, culturais e sociais desfavoráveis e o acesso à ação institucional.
Essa leitura diz da atenção que os psicólogos (e demais profissionais) devem
ter às condições de sobrevivência dos sujeitos e dos seus coletivos: como são as
moradias? Como é o acesso a escolas? Como é o acesso à saúde? Como é o
acesso à alimentação e ao lazer? A que condições de trabalho estão expostos os
trabalhadores e as trabalhadoras? Como são seus vínculos familiares e sociais?
Quais possibilidades de acesso o sujeito teve/tem durante sua história de vida? Qual
a história do grupo a que pertence?
Ter compromisso social é, portanto, ter responsabilidade, compartilhada com
os sujeitos, exercendo a profissão de forma ético-política, garantindo direitos,
promovendo espaços de construção de autonomia, empoderamento e estratégias de
cuidado, combatendo violências e discriminações sociais, de gênero e raciais. Ter
71

compromisso social é, também, conhecer a verdadeira história das populações,


especialmente as mais invisibilizadas e tratadas como minorias, como no caso da
história do povo negro.

História do povo negro

A história do descobrimento do Brasil e da escravidão já deveria ter sido


superada e contada de uma forma mais honesta. Para tornar possível o interesse
em explorar as riquezas encontradas nas Américas, e com a resistência do povo
indígena, que não aceitou ser mão de obra gratuita, a estratégia utilizada pelos
europeus foi sequestrar os povos africanos, tirá-los de sua terra mãe, de suas
famílias, de sua cultura, de sua religiosidade e escravizá-los.
Ao contrário do que parece, o racismo não se constituiu a partir da escravidão
dos povos africanos. Esse grupo social foi escolhido porque o racismo já existia e foi
se estruturando historicamente. Foi no Brasil Colônia que o processo de
objetificação das negras e dos negros foi intensificado, quando muitos deles foram
capturados e transportados, em navios negreiros, para novas terras, sob péssimas
condições de vida, para trabalhar em condições subumanas.
Nesse contexto, os africanos – que ainda não tinham a identidade negra
construída – criaram diversas estratégias de resistência para sobreviver às
opressões a que foram submetidos nestas terras. A organização dessa população
foi desenhando as articulações da luta do povo negro pelo fim das diversas formas
de discriminação. Aqui, precisaram se unir e resistir. Tomando como base tanto as
heranças de sua terra e das civilizações ancestrais quanto os valores civilizatórios
das comunidades africanas, incentivaram a resiliência e a luta pela liberdade.
Foi na relação com a sociedade dominante, em meados de 1800, que a
imagem da África como terra de todos e as identidades africanas foram surgindo na
formação dos povos angola, congo, monjolo, fula, umbundo, cabinda, quiloa, mina,
jeje, nagô, haussá etc. Resultando do processo de resistência dos negros africanos,
que se indignaram com as opressões encontradas nas Américas, as torturas e o
trabalho forçado, os movimentos de rebelião e resistência se espalharam pelas
comunidades onde havia escravos.
O produto dos movimentos de resistência e luta, além de ter sido instrumento
para a constituição das negras e dos negros como sujeitos protagonistas da própria
72

história, tornou possível o compartilhamento dos valores aprendidos com os seus


ancestrais, incorporando elementos à nossa cultura, como saberes, transcendência,
conhecimentos técnicos, impulso de vida, religiosidade e manifestações culturais
que compõem os valores civilizatórios afro-brasileiros, os quais seguem abaixo.
A memória diz do orgulho da história e do povo afro-brasileiro; a
ancestralidade está relacionada à memória por ser a valorização e o respeito às
pessoas mais velhas; a religiosidade tem relação com as experiências
transcendentais que os negros têm com suas crenças. A oralidade diz da autonomia
relacional, da comunicação como fortalecimento da comunicação; a musicalidade é
a consciência dos sons e das melodias que o nosso corpo pode produzir; o
cooperativismo, também chamado de comunitarismo, é a relação que a comunidade
negra estabelece entre si, valorizando a consciência de que não há cultura sem
coletivo, sem diversidade e cooperação comunitária (BRANDÃO, 2006).
A corporeidade é a relação de respeito com o corpo, com suas possibilidades
de ação e interação com os outros; o prazer, a alegria e a brincadeira estão
relacionados ao valor da ludicidade, responsável pela preservação da alegria do
povo negro; a circularidade organiza os trabalhos e diálogos dentro do grupo da
população negra; a vontade de viver e superar todas as opressões e dores é
motivada pela energia vital; e a resiliência é a capacidade de reinventar a vida,
mesmo em situações de extrema adversidade (BRANDÃO, 2006).
Martins (2013) realizou uma pesquisa com mulheres negras que foi
ferramenta para a compreensão da expressão “afrorresilientes”, que quer traduzir a
capacidade dessas mulheres sobreviverem em ambientes de discriminação,
preconceito e racismo. Ela define resiliência como um conjunto de habilidades
individuais, ambientais, socioculturais e coletivas que beneficia o enfrentamento das
adversidades, fortalecendo a dimensão individual e coletiva de grupos que são
marginalizados.
A assinatura da Lei Áurea não está relacionada à liberdade, ela não foi
pensada como uma política pública pautada na redemocratização do acesso do
povo negro. Os antigos escravos não tinham habitação, acesso à educação, acesso
à formação técnica, acesso à saúde, acesso à alimentação, entre outros direitos,
além de não terem condições de voltar para sua terra natal – até porque famílias
tinham se formado e já havia novas gerações.
73

As negras, os negros e suas famílias precisaram encontrar um modo de


recomeçar, ocupando terras que ficavam às margens das moradias centrais, da
sociedade dominante. O fato é que a escravidão não se sustentava mais,
especialmente com a mudança no sistema econômico, pois havia novos interesses e
a necessidade de novas relações de trabalho.
É a partir de então que surgem as favelas, o fortalecimento das comunidades
quilombolas, o aumento das desigualdades sociais e se perpetuam a
marginalização, a discriminação, as violências e o racismo. As intervenções, que
propõem o enfretamento do racismo e da discriminação racial, precisam ter
compromisso com um olhar fundamentado em um recorte sociopolítico que dê
embasamento para compreender como as situações analisadas se constituíram.

Racismo institucional e interfaces com a Psicologia Jurídica

O modo como a história foi conduzida teve interferência do racismo estrutural,


condicionando os determinantes sociais da população negra, reforçando os
preconceitos e estereótipos étnico-raciais através dos veículos de massa. A
sociedade foi se fundamentando através da invisibilidade, inferiorização e
estigmatização do povo negro, influenciada pelas normas culturais vigentes. As
normas que legitimaram o racismo avançaram ao longo do tempo, construindo uma
identidade cultural negra marginalizada, considerando que ela se formou na mistura
com outras compreensões culturais.

Antes da cor, da pele, do constrangimento social e político baseado no


fenótipo, da exclusão calcada no que é entendido como “diferente”, vem a
naturalização. Ela está na base de toda forma de preconceito (de gênero,
identidade sexual, condição social, raça etc.) e nasce batizada pela
ignorância. A naturalização tem o perigoso efeito de embotar nossa visão e
é, como veremos ao longo deste livro, essencialmente ideológica: está
relacionada ao senso comum, ao “é como é”, como se o mundo tivesse uma
essência e não fosse resultado de construções históricas e sociais. “O
processo de ‘naturalização’ está presente em todas as hierarquias sociais,
sendo um traço constitutivo das relações de dominação”, escreve Antônio
Sérgio Alfredo Guimarães (2005). É importante entender essa dinâmica
para reconhecer os lugares nem sempre visíveis nos quais o preconceito
opera: aqui, vamos nos concentrar, de acordo com a temática do livro,
nesse fenômeno especificamente relacionado à cor da pele. Ele está
diretamente ligado à perigosa ideia de uma democracia racial ainda
existente no País, ideia esta que tanto torna mais difícil o desmonte dessa
falácia quanto estaciona e perpetua as injustiças sociais (MPPE, 2013, p.
17).
74

Compreender por que o racismo é estrutural demanda um investimento na


apreensão ideológica em que as relações sociais vão se formando, reconhecendo
nelas as relações de poder. A proposição de políticas públicas tem relação
intrínseca com os interesses que cercam a redistribuição de poder e riqueza que
existem no país. Muitos autores utilizam o conceito de dispositivo, defendido por
Foucault, para ilustrar as articulações sociais, como:

[...] um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos,


instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis,
medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas,
morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não-dito são os elementos do
dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre estes
elementos (FOUCAULT apud CARNEIRO, 2005, p. 36).

Carneiro (2005) aponta o dispositivo de racialidade para explicar como o


racismo adentra as diversas áreas sociais e produz consequências, dando
possibilidade para entender por que ele é estruturante. O preconceito racial
fundamenta a sociedade quando reduz a noção de quem tem direito de ser
considerado cidadão - determinando quem deve ter, ou não, acesso a recursos de
cidadania, e mantém estereótipos que inferiorizam e marginalizam a população
negra, provocando graves expressões de preconceito e retroalimentando as
desigualdades sociais que atingem essa população.
O racismo apresentado por Jones (2002) se apresenta em três formas
principais, atingindo o individual e o coletivo: Dimensão pessoal (internalizado) –
relacionada ao sentimento de inferioridade e superioridade e às condutas de
passividade, proatividade, aceitação e recusa; Dimensão interpessoal – referente às
ações de falta de respeito, desconfiança, desvalorização, perseguição,
desumanização e omissões, que legitimam as negligências referentes ao racismo e
aos seus impactos; e a Dimensão institucional – relacionada ao âmbito material,
quando da indisponibilidade e/ou acesso reduzido a políticas de qualidade e ao
poder, no que tange ao menor acesso à informação, menor participação, controle
social e escassez de recursos.
O racismo institucional, talvez a expressão mais negligenciada do racismo,

É também denominado racismo sistêmico e garante a exclusão seletiva dos


grupos racialmente subordinados, atuando como alavanca importante da
exclusão diferenciada de diferentes sujeitos nesses grupos. O conceito foi
cunhado pelos ativistas do grupo Panteras Negras, Stokely Carmichael e
75

Charles Hamilton, em 1967, como capaz de produzir: “A falha coletiva de


uma organização em prover um serviço apropriado e profissional às
pessoas por causa de sua cor, cultura ou origem étnica” (Carmichael;
Hamilton, 1967, p. 4). Desse ponto de vista, ele atua de forma a induzir,
manter e condicionar a organização e a ação do Estado, suas instituições e
políticas públicas – atuando também nas instituições privadas – produzindo
e reproduzindo a hierarquia racial. Atualmente, já é possível compreender
que, mais do que uma insuficiência ou inadequação, o RI é um mecanismo
performativo ou produtivo, capaz de gerar e legitimar condutas excludentes,
tanto no que se refere a formas de governo quanto de accountability
(WERNECK, 2016, p. 541).

Essas dimensões do racismo exercem influência sobre as condições de


vulnerabilidade e risco vividas pela população negra. Podemos relacionar as três
dimensões do racismo com as três dimensões de vulnerabilidade (individual, social e
pragmática). Elas indicam, respectivamente, comportamentos desprotegidos,
condições sociais, políticas e econômicas desfavoráveis e falta de acesso à ação
institucional que se propõe a garantir proteção.
Por ser a maior porcentagem da população brasileira, a população negra é o
maior público do Sistema Único de Saúde (SUS), do Sistema Único de Assistência
Social (SUAS) e das demandas da justiça. No SUS, o trânsito de negros é a
possibilidade de garantia de direitos, mas, ainda assim, foi necessária a criação da
Política Nacional de Saúde Integral da População Negra para rever como esta tem
sido assistida diante de suas demandas de saúde.
Em relação ao SUAS e à Justiça, essa porcentagem do público negro está
associada à construção da sociedade tendo o racismo como dispositivo estruturante.
É nos serviços oferecidos pela Política Nacional de Assistência Social que podemos
acompanhar, enquanto rede intersetorial, os caminhos que o povo negro tece de
acordo com as possibilidades que vai encontrando em suas existências.
Começando pelas fragilidades de vínculos familiares e comunitários –
considerando a relação com a população branca, elitista, ainda dominante –,
passando pelas portas fechadas que esses sujeitos recebem e pelas possibilidades
de escolha e opções marginalizadas, é possível pontuar as diversas situações de
exclusão e discriminação: violência doméstica, violência comunitária, condições de
trabalho desfavoráveis, evasão escolar, assédio sexual e moral, assédio moral em
serviços de saúde e educação, racismo, injúria racial, não acesso à Educação
Superior, entre outras.
76

Não raro, situações que se configuram em contextos de racismo,


vulnerabilidades sociais e risco acabam por caracterizar demandas judiciais em que
a cor da pele é determinante.

Os dados do Infopen, o Sistema Integrado de Informações


Penitenciárias, divulgados nesta sexta-feira 8 pelo Ministério da Justiça
trazem uma estatística que embasa a constatação de que o Judiciário
brasileiro exerce uma seletividade penal prejudicial à população negra.
Enquanto no total da população brasileira com mais de 15 anos 53% das
pessoas se declaram negras, 64% dos presos no sistema penitenciário
nacional são negros (CARTA CAPITAL, 2017).

O dado apresentado pela Carta Capital indica que questões relacionadas à


população negra, que vive em situação de privação de liberdade, caracterizam
diferentes contextos sociais que se configuram a partir de uma ideologia social na
qual o racismo institucional é invisibilizado e naturalizado, historicamente.

Esse imaginário/ideologia a respeito de nossas relações sociais e raciais


está, é claro, também presente no âmbito das instituições do País, estas
não sendo apenas um reflexo do mundo social, mas, pelo poder de gerir,
decidir e organizar parte de nossas ações, também produtoras de
determinações que podem (ou não) dilatar o problema. A filtragem racial
realizada pelas instituições públicas é um processo concreto observado na
história brasileira: Andrews (apud Silvério, 2002) observa, por exemplo, o
vínculo entre o racismo institucional e a política estatal paulistana pós-
escravidão. Ali, ele encontra fortes evidências do pacto firmado entre o
governo estadual e os proprietários rurais de terras: a ideia principal era
proporcionar o desenvolvimento econômico investindo na imigração
europeia, enfraquecendo assim a participação profissional de negros recém-
libertos no processo (MORAES, 2013, p. 23).

Os relatos sociais diários sinalizam como está organizada a compreensão


social sobre os negros:

O exercício é simples: feche os olhos. Imagine que uma pessoa está à sua
frente, ameaçadora, e anuncia um assalto. Agora, uma pergunta: qual a cor
e o sexo do infrator (a)? São raras as vezes nas quais a pele escura e o
sexo masculino não compõem o tipo que está materializado em nosso
imaginário. Nele, a insegurança é diversas vezes representada pelo homem
negro de roupas modestas com o qual evitamos cruzar quando andamos
por ruas menos movimentadas (MORAES, 2013, p. 45).

O Ministério Público de Pernambuco lançou, em 2013, um documento


intitulado “A criminalização de uma cor”, no qual faz uma leitura sobre o racismo no
Brasil. Alguns relatos ilustram situações diárias que são vividas por causa da cor de
pele:
77

“Passei por um vexame muito grande. Fiquei dois anos preso, estava no
auge da minha carreira. Me enquadraram, me colocaram no meio de
matadores... devem ter visto assim, meu nome, Galo Preto... nem
investigaram direito nem nada, foi assim, logo pela cor”. Mestre Galo Preto,
embolador e repentista (MORAES, 2013, p. 48).

O MPPE apresenta relatos de pesquisas realizadas sobre abordagem policial


e discriminação no Rio de Janeiro. Os resultados apontam os estereótipos
construídos pelo racismo como determinantes em posturas institucionalizadas:

Silvia Ramos e Leonarda Musumeci realizaram 18 entrevistas com policiais


militares e observaram que, entre eles, considerar para então abordar
alguém “suspeito” é ato quase totalmente baseado na subjetividade. Idade,
gênero, cor, classe social, geografia (lugar onde os suspeitos vivem) e
variáveis como vestuário, comportamento e situação na qual o (a) abordado
(a) se encontra foram listados. “Às vezes o que chama atenção é o olhar da
pessoa, o semblante...”, diz um policial, em uma resposta que demonstra o
alto nível de abstração de uma força que, em segundo momento, é várias
vezes traduzida em repressão e violência. Outra resposta de um policial
sobre que tipo de situação o levava a desconfiar de determinados indivíduos
está relacionada ao poder aquisitivo: para ele, é preciso perceber, por
exemplo, “se [o carro] condiz com a pessoa que tá dirigindo”. Ou seja, há
um tipo de pessoa que está diretamente ligada ao valor de bens materiais
mais prestigiosos. Há também um fenótipo que, ao se aproximar daquilo
que é mais comum entre os mais abastados, provoca o estranhamento e
consequente abordagem. É como se a pessoa estivesse usufruindo algo
que “normalmente” não lhe pertenceria (MORAES, 2013, p. 47).

Exemplos não faltam, apesar do pouco investimento em pesquisas que


retratem o recorte racial da sociedade brasileira, de como a população negra tem
sido vítima de violências diversas. Voltando para a Psicologia e à relação que
podemos fazer com o campo de atuação da Psicologia Jurídica, percebemos que a
contextualização das situações diversas e o investimento na compreensão de como
funciona o racismo institucional são ferramentas que podem fortalecer a atividade
dos profissionais psicólogos que trabalham nos campos de atuação do Direito.
Segundo o Conselho Federal de Psicologia (2008), o psicólogo jurídico:

Atua no âmbito da Justiça, nas instituições governamentais e não-


governamentais, colaborando no planejamento e execução de políticas de
cidadania, direitos humanos e prevenção da violência. Para tanto, sua
atuação é centrada na orientação do dado psicológico repassado não só
para os juristas como também aos sujeitos que carecem de tal intervenção.
Contribui para a formulação, revisões e interpretação das leis.
78

Além das atribuições mais relacionadas com as contribuições que o psicólogo


dá aos processos judiciais, as atividades de educação permanente, a elaboração de
políticas públicas voltadas à garantia de cidadania, as pesquisas no campo do
Direito, a orientação para administração e colegiados penitenciários, bem como a
atuação em pesquisas e programas de prevenção à violência (CFP, 2008) podem
ampliar o olhar e pautar discussões relacionadas ao racismo institucional e à Justiça
de um modo macro, considerando a leitura sobre o sistema penitenciário e judiciário,
e, de modo micro, atuando em conjunto com as redes de saúde, assistência social e
educação.
Não que a Psicologia seja a salvadora do mundo, mas ela pode compor a
atuação relacionada ao combate do racismo institucional no país, aproximando-se
da população negra que transita no campo do Direito e sendo mediadora de
provocações nos espaços que são construídos para pensar as demandas da Justiça
brasileira.

Considerações finais

Pensar as contribuições sociais que a Psicologia Jurídica pode ofertar para a


construção social demanda uma leitura sobre como se deu a construção da história
da Psicologia, como ciência e profissão, e como o investimento nos estudos, com
recorte político-social, de como a sociedade foi se fundamentando para apresentar-
se tal qual é no aqui-agora. Partir desse viés é uma das possibilidades de colocar
em prática o compromisso social da Psicologia que tanto se discute nos meios
acadêmicos e profissionais.
No que toca à história do Brasil, há um compromisso social anterior às
responsabilidades da Psicologia, que é a necessidade de os diferentes campos
sociais compartilharem o encargo de combater o racismo institucional e pautar uma
sociedade mais justa e mais democrática.
Muitas vezes, as compreensões sobre o fazer da Psicologia Jurídica ficam
presas ao entendimento das condições psicológicas relacionadas aos crimes.
Talvez, por isso, imagina-se que, no campo do Direito, a Psicologia ainda não
alcance todos os públicos. É também papel da Psicologia disseminar os saberes
sobre as organizações individuais e comunitárias, além de suas implicações nas
79

vidas dos sujeitos e dos seus coletivos, para que seja possível pautar
transformações sociais cada vez mais aproximadas com a realidade do povo.
Nesse sentido, uma reflexão sobre a ampliação dos recursos de trabalho da
Psicologia Jurídica tem provocado afetações a ponto de se forjar este texto,
trazendo as interfaces entre compromisso social, racismo institucional e Psicologia
Jurídica. A intenção foi pontuar a importância de contextualizar territórios, vidas e
fundamentar ações próximas das realidades sociais.

Referências

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sócio-histórica. Psicologia &m foco, Aracaju, Faculdade Pio Décimo, v. 1, n.º 1,
jul./dez. 2008.

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[recurso eletrônico]: Lei n.º 12.228, de 20 de julho de 2010, e
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120 p. (Série legislação; n.º 115).

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2005. Tese (Doutorado em Educação) − Universidade de São Paulo, São Paulo,
2005.

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<https://www.cartacapital.com.br/sociedade/no-brasil-64-dos-presos-sao-negros>.

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22, 2002.

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sucesso educacional. 182f, 2013. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal do
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MORAES, Fabiana. No país do racismo institucional: dez anos de ações do GT


Racismo no MPPE. Recife: Procuradoria Geral de Justiça, 2013.
80

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raça, racismo, identidade e etnia, 2003. Disponível em: <https://www.ufmg.br/
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BRANDÃO, Ana Paula (Coord.). Saberes e fazeres, v.3: modos de interagir. Rio de
Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 2006. 152p. (A cor da cultura).

WERNECK, J. Racismo institucional e saúde da população negra. Saúde Soc. São


Paulo, v.25, n.º 3, p.535-549, 2016.
81

Genocídio no Brasil: reflexões sobre a depressão e o suicídio entre


os povos indígenas

Juracy Marques9
Anderson C. Armstrong10
Cilene Letícia Neves Colombi11

Resumo: Este artigo discute a dramática situação em que vivem os povos indígenas do Brasil, hoje,
o grupo humano que concentra o maior número de suicídios. O Brasil, onde há mais de 305 grupos
que se identificam como povo indígena, figura entre os 10 países com maior número de suicídios no
mundo, registrando o total de 9.852 casos em 2011, uma média de 27 mortes por dia (PESSOA,
2016). Desse percentual, as maiores taxas são registradas entre os povos indígenas (9 por 100 mil).
No país, o coeficiente de mortalidade por suicídio é de 4,5. O Alto Solimões, região de ocorrência
indígena, registra a segunda maior taxa de suicídio do mundo (32,1 por 100 mil habitantes), perdendo
apenas para a Groelândia (DCM, 2014). Em São Gabriel da Cachoeira, no Rio Negro (AM), onde
ainda são faladas 23 línguas, entre 2008 e 2012, a taxa de suicídios (enforcamento ou
envenenamento com timbó) foi de 50 casos por 100 mil habitantes. A partir de um levantamento de
dados sobre o número de suicídios e depressão entre indígenas, bem como pela observação direta
em algumas aldeias, constatamos um potencial crescimento dessa problemática e um descaso tanto
por parte do estado quanto da sociedade. Objetivamos, com este trabalho, ampliar a divulgação
desse problema e sensibilizar as pessoas, sensíveis à causa da mortalidade indígena, de que é
urgente uma mobilização mundial para pressionar governos e sociedades a atuarem no combate a
esse grave problema de saúde pública que afeta, mais diretamente, os povos indígenas. O caso do
Brasil, observamos, é dramático, no qual está em perigo a vida dos grupos humanos originários,
particularmente, jovens e crianças.

Introdução

Desde o surgimento do Homo sapiens, na África Oriental, e da chegada dos


seus descendentes às Américas, há mais de 16 mil anos, civilizações complexas,
posteriormente apelidadas de indígenas, desenvolveram-se por todos os lugares
desse continente (HARARI, 2016).
Antes da colonização europeia, havia cerca de cinco milhões de pessoas nas
Américas. Hoje, o número de indígenas está reduzido a menos de 1 milhão. No
Brasil, há mais de 305 grupos que se identificam como povos indígenas, entre os
quais ainda se fala mais de 300 línguas. Eles estão distribuídos em mais de 80%
dos municípios brasileiros e representam 0,45% da população do país, onde ainda

9
Professor Titular da Universidade do Estado da Bahia (UNEB); membro do Mestrado em Ecologia
Humana e Gestão Socioambiental – PPGECOH e do Mestrado em Educação, Cultura e Territórios
Semiáridos – PPGESA (UNEB). Contato: juracymarques@yahoo.com.br.
10
Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), Petrolina, Brasil. Membro
do Mestrado em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental – PPGECOH. Contato:
armstrong_ac@yahoo.com.
11
Assistente Social, especializada em Saúde Mental Indígena. Contato: ncileneleticia@yahoo.com.br.
82

existem mais de 26 povos não contactados, vítimas de um pacote de ameaças


transfronteiriças (ONU, 2016).
A história conhece a carnificina que foi o genocídio indígena no período
colonial. Talvez, não saiba que, desde lá, os povos indígenas foram - e ainda estão
sendo - submetidos a violentos processos de perseguição, dominação e morte.
O Relatório Especial sobre Direitos dos Povos Indígenas, da ONU12,
publicado em agosto de 2016, revela aspectos dessas diferentes formas de
violências às quais estão submetidos os indígenas do Brasil.

Suicídios indígenas

O Brasil figura entre os 10 países com maior número de suicídios no mundo,


registrando o total de 9.852 casos em 2011, uma média de 27 mortes por dia
(PESSOA, 2016). Desse percentual, as maiores taxas são registradas entre os
povos indígenas (9 por 100 mil). No país, o coeficiente de mortalidade por suicídio é
de 4,5. O Alto Solimões, região de ocorrência indígena, registra a segunda maior
taxa de suicídio do mundo (32,1 por 100 mil habitantes), perdendo apenas para a
Groelândia (DCM, 2014). Em São Gabriel da Cachoeira, no Rio Negro (AM), onde
ainda são faladas 23 línguas, entre 2008 e 2012, a taxa de suicídios (enforcamento
ou envenenamento com timbó) foi de 50 casos por 100 mil habitantes 13. Na região
norte do Brasil, da qual destacamos a Amazônia, os suicídios passaram de 390, em
2002, para 693, em 2012. Um aumento de 77%.
Os dados sobre os suicídios na etnia Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do
Sul, assustam. Essa região concentra 9% da população indígena do Brasil, dos
quais 3% são Guarani Kaiowá (ONU, 2016). O CIMI (Conselho Indigenista
Missionário) tem publicado recorrentes notas, na imprensa nacional e internacional,
a respeito dessa questão entre o povo Kaiowá, considerado um dos grupos
indígenas mais vulneráveis do Brasil, que enfrenta uma sangrenta guerra, em defesa
de seus territórios tradicionais, amplamente desassistidos pelo Estado e invisíveis à
população brasileira em geral. Entre 2000 e 2011, foram 555 suicídios (CIMI, 2012).
Em 2013, 72 índios Kaiowá do estado do Mato Grosso do Sul, na faixa etária de 15

12
http://unsr.vtaulicorpuz.org/site/images/docs/country/2016-brazil-a-hrc-33-42-add-1-portugues.pdf.
13
http://jornalggn.com.br.
83

a 30 anos, cometeram suicídio, atingindo a maior taxa do mundo14. A tabela abaixo,


organizada por Pessoa (2016), dá uma ideia da gravidade desse assunto:

Figura 1 - Suicídios Guarani Kaiowá no MS – 2000 a 2014.

Fonte: Pessoa, 2016.

Ainda são desconhecidas as razões para esse alarmante número de suicídios


entre os indígenas. O CIMI (2012) indica, entre as motivações, situações de
confinamento, violência aguda e variada, afastamento das terras tradicionais e vida
em acampamento às margens de estradas. Sabe-se que, desde a colonização, os
povos indígenas são submetidos a brutais processos de subjugação, sendo, nas
Américas, vítimas de um arquitetado processo de apagamento, de mortes.
O suicídio indígena, nos tempos atuais, é a atualização e continuação desse
violento processo mortificador começado nos idos de 1500, no caso brasileiro, que
coloca os indígenas frente a um dramático estado de desilusão e entristecimento,
chamado por André-Marcel d`Ans (1938-2008), ex-professor da Paris VII, de
"souffrance", em seus estudos sobre os indígenas Kaxinauwá, referindo-se a um
estado de sofrimento e desespero provocados por tensões e conflitos linguísticos.
O Brasil é um país que possui excelentes dispositivos de proteção dos
direitos dos povos indígenas, entre os quais, a Constituição Federal de 1988, a
Convenção 169 da OIT, a Declaração da ONU sobre Direitos dos Povos Indígenas e
a Declaração da Organização dos Estados Americanos sobre os Direitos dos Povos
Indígenas, dos quais o Brasil é signatário. Como pontuou o Relatório Especial da
ONU, a situação dos povos indígenas no Brasil é a pior desde a promulgação da
Constituição de 1988. Hoje, há tentativas recorrentes de fragilização desses
dispositivos legais de proteção, a exemplo da PEC 215, que, entre outras
atrocidades, quer tirar a responsabilidade da demarcação dos territórios indígenas

14
http://www.survivalinternational.org.
84

do executivo para o legislativo, hoje controlado por forças ligadas aos opositores dos
povos indígenas.
Outros instrumentos nessa direção são o Novo Código de Mineração, com
mudanças nos procedimentos de licenciamentos para grandes obras, e a Nova Lei
da Biodiversidade, ambos arquitetados para derrubar os parcos direitos indígenas
conquistados ao longo desses anos de lutas. O que observamos, na prática, é o
fracasso do Estado em proteger as terras indígenas de atividades ilegais,
especialmente de mineração e extração de madeira (ONU, 2016).
Em todo o país, estão enraizados conflitos territoriais. Desses, podemos citar
o caso dos Guarani-Kaiowá e dos Terena, no Mato Grosso do Sul; dos Arara e dos
Parakanã, no Pará; dos Ka´apor, no Maranhão; dos Guarani Mbyá e dos Kaingang,
no sul do Brasil; dos Pataxó, Tumbalalá e Tuxá, na Bahia; dos Truká e dos Xucuru-
Kariri, em Pernambuco; dos Xacriabá, em Minas, entre tantos outros casos.
O mundo conheceu o maior desastre ambiental com mineradoras da história,
o caso de Mariana, em Minas Gerais, que trouxe fortes impactos sobre os povos
indígenas, particularmente sobre os Krenak, cujas vidas dependem profundamente
do rio Doce.
Entre os recentes empreendimentos no país que mais afetaram um grande
número de povos indígenas, estão a construção da Hidrelétrica de Belo Monte (11
povos impactados) e os outros projetos para a Bacia do rio Tapajós, área
exatamente rica em biodiversidade, onde se concentram 10 povos indígenas, em
118 aldeias, entre eles, os Mundukuru, maior grupo, com mais de 13.000 pessoas
(ONU, 2016). Em virtude de diversas pressões feitas por organismos nacionais e
internacionais, e das lutas dos povos indígenas atingidos, neste ano, houve a
suspensão do processo de licenciamento da Hidrelétrica São Luiz do Tapajós pelo
Ministério do Meio Ambiente. Como alerta João Omoto (2016), do Ministério Público
Federal:

A Amazônia e seus rios são, de fato, a principal fronteira para a expansão


do setor elétrico brasileiro, segundo as atuais prioridades do governo
federal. Com aproximadamente 43% de seu potencial de geração hidráulica
(247 gigawatts estimados) explorando em nível nacional, o país conta com
enorme experiência na implantação de usinas hidrelétricas, acumulada ao
longo de décadas, mas parece ter aprendido pouco com isso,
principalmente sob a ótica socioambiental.
85

Num tempo em que se fala de responsabilidade socioambiental, de direitos


humanos, de dignidade da vida e da natureza, obras com a gravidade desses
impactos são financiadas por empresas como o Banco Nacional de
Desenvolvimento (BNDES). Esses grupos humanos, em frente a gigantes da
economia mundial, não sabem a quem recorrer. Sequer têm acesso à justiça. Ao
contrário, diversos líderes estão sendo criminalizados por ela. Como consta no
Relatório Especial da ONU (2016), houve, na Bahia, prisões de diversos líderes
indígenas e, recentemente, em abril de 2016, o Supremo Tribunal Federal pediu a
suspensão da demarcação da terra indígena Tupinambá de Olivença, que fica no sul
do estado. Esse fato reflete como o Judiciário brasileiro vem tratando as questões
das terras indígenas e o quanto a justiça brasileira desconhece e desconsidera a
necessidade de manutenção dos territórios indígenas, essencial à sobrevivência
física, cultural e psíquica desses povos.
A Bacia do rio São Francisco, onde se concentram mais de 40 povos
indígenas, entre os quais, Kaxagó, Kariri-Xocó, Tingui-Botó, Akonã, Karapotó, Xocó,
Katokin, Koiupanká. Karuazu, Kalankó, Fulni-ô, Xucuru-Kariri, Pankaiukpa, Tuxá,
Pipipã, Kambiwá, Kapinauwá, Xucuru, Pankará, Truká-Tupan, Truká, Pankararé,
Kantaruré, Atikum, Tumbalalá, Pankaru, Kiriri, Xacriabá, Kaxixó e Pataxó, foi
praticamente destruída com a construção de um Complexo de Grandes
Hidrelétricas, num curso de todo o século XX.
Foram mais de 250.000 pessoas atingidas, entre as quais, dezenas de povos
indígenas, sendo os Tuxá de Rodelas um dos casos mais emblemáticos, uma vez
que tiveram sua etnia fragmentada e, até hoje, lutam pela reparação dos danos e
pelo direito ao seu território tradicional (MARQUES, 2008). Vivendo em sua área
habitual há mais de 400 anos, mesmo com o processo de desterritorialização
causado pelo barramento de Itaparica, e, ainda hoje, lutando pelo direito de viver na
sua terra, em 2015, os Tuxá foram surpreendidos com uma liminar, do Supremo
Tribunal Federal, negando-lhes o direito à posse de seu território. Como afirma a
liderança indígena Neguinho Truká (2013), hoje o Estado é nosso próprio inimigo.
Ao invés de proteger nossos direitos, o Estado brasileiro é quem mais tem negado e
perseguido os povos indígenas.
Se não bastasse, o projeto de transposição e a ameaça de implantação de
usina nuclear, na região, são pressões que esses povos têm de vivenciar todos os
86

dias, parte deles, em processos de retomadas há mais de quatro anos, sem grandes
ganhos em suas reivindicações.
Um levantamento prévio, nessa bacia hidrográfica, mostra que, entre esses
povos indígenas afetados drasticamente por esses empreendimentos, e, agora, com
a efetivação da transposição do rio, são graves os dados sobre mortes, conforme
observamos nos indicadores abaixo:

Figura 2 – Mortalidade dos grupamentos indígenas > 29 anos da Bacia do Rio São Francisco entre
2007 e 2011, conforme o grau de urbanização.

Fonte: Dados do SIASI, 2012.

Tabela 1 – Mortalidade total (2007-2001) nos grupos populacionais indígenas da Bacia do Rio São
Francisco (estados da Bahia e de Pernambuco), conforme o grau de urbanização.

Fonte: Dados do SIASI, 2012.

Outra questão preocupante tem sido o aumento da incidência de transtornos


mentais, entre as populações indígenas, que, associados ao agravamento do
processo de alcoolização, tornam-se os principais problemas de saúde mental
dessas populações, indiscutivelmente associados ao acirramento das questões
sociais vivenciadas por eles.
87

Em grupo amostral de 50 pessoas15 de uma etnia indígena do São Francisco,


cerca de 50% sofriam de depressão fazendo uso de antidepressivos e de
medicamentos controlados para insônia e ansiedade. Essas são algumas das
questões que, segundo conclui a Relatora Especial da ONU, refletem a continuada
falta de serviços culturalmente apropriados para os povos indígenas.
O suicídio, hoje, é uma realidade entre essas comunidades. Quadros
crescentes de depressão e de outros transtornos mentais vêm afetando
drasticamente os indígenas da Bacia do São Francisco. Só para ilustrarmos como o
Estado trata essas questões, tomaremos como exemplo Bahia e Pernambuco, no
nordeste do Brasil, a partir da atenção dispensada aos indígenas pelo Programa de
Saúde Mental do DSEI – Distrito Sanitário Especial Indígena.
O DISEI-BA possui apenas um psicólogo e sete assistentes sociais, no seu
quadro profissional, para atender uma população de 37.582 indígenas distribuídos
em nove polos-base, 23 municípios e 72 aldeias com mais de 14 etnias. Já o DSEI-
PE possui três psicólogos, três assistentes sociais e dois médicos psiquiatras, que
compõem a equipe de saúde mental, para atender uma população de 34.620
indígenas distribuídos em 12 polos-base, 15 municípios e 245 aldeias de 10 etnias.
Como pensar a atenção para a saúde mental indígena em quadros dessa
natureza? Tanto a depressão quanto o suicídio requerem uma atenção especial e
demandam esforços de uma equipe multidisciplinar. O que observamos é um
crescimento da medicalização com antidepressivos e ansiolíticos, concomitante a
uma decadência da crença na medicina tradicional entre os indígenas.
Os recorrentes assassinatos, contra lideranças indígenas e ambientalistas, é
outra constante neste cenário de guerra na luta pela proteção dos direitos dos povos
indígenas no Brasil. De acordo com o CIMI, 92 índios foram assassinados, em 2007;
em 2014, esse número aumentou para 138. A maior parte dos crimes se concentra
no Mato Grosso do Sul, local de conflito com os Guarani Kaiowá.
Outro dado assustador é que, de cada 100 indígenas que morrem, 40 são
crianças16. A desnutrição, as doenças diarreicas e as infecções respiratórias são as
principais causas de mortes dessas crianças, as quais, segundo alguns
especialistas, seriam evitáveis por meio de ações básicas de saúde.

15
Projeto PAI, 2016.
16
BBC Brasil: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/02/140221_sub_mortes_indios_pai_jf.
88

O Relatório da ONU destaca a grave situação das crianças indígenas: a


Relatora Especial ficou gravemente preocupada com os relatos de adoções de
crianças indígenas autorizadas por juízes (2016). Um acontecimento assustador,
que mostra o quão desprezada está a questão indígena no Brasil, foi a decapitação
de um bebê Kaingang, em Santa Catarina, em 31 de dezembro de 2015, que,
sequer, foi noticiado pela grande mídia.

Considerações finais

Como podemos observar nesses pequenos dados, que, nem de longe,


representam a dramática realidade vivida por esses povos, está em curso um
genocídio dos grupos indígenas ainda existentes no Brasil.
Tornam-se necessárias medidas urgentes que ponham fim a esse continuado
processo de violação de direitos étnicos e territoriais, o qual, em boa parte, conta
com a omissão do Estado e com a chancela de grandes grupos econômicos
nacionais e internacionais.
Todo o cenário é muito grave, mas devemos ter especial atenção com a
realidade vivida pelas crianças, vítimas indefesas dessas formas violentas e
assassinas em curso em quase todas as aldeias indígenas do país. Se as crianças
de hoje são o futuro de um povo amanhã, que futuro esperar para os povos
indígenas?
O mundo precisa mobilizar-se para pôr fim a este processo etnocida e
ecocida, em marcha na América Latina desde a colonização, e que, neste pequeno
recorte da realidade brasileira, mostra-se vivo, fazendo, todos os dias, vítimas entre
os povos originários do Brasil.

Referências

CIMI. Nota sobre o suposto suicídio coletivo dos Kaiowá de Pyelito Kue. Sítio
do Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Disponível em: <http://cimi.org.br>.
Acesso em: 23 out. 2012.

HARARI, Yuval Noah. Sapiens: uma breve história da humanidade. Porto Alegre:
L&PM, 2016.
89

MARQUES, Juracy. Cultura material e etnicidade dos Povos Indígenas do São


Francisco Afetados por Barragens: um estudo de caso dos Tuxá de Rodelas,
Bahia, Brasil. Tese de Doutorado (Programa de Pós-Graduação em Cultura e
Sociedade) - Universidade Federal da Bahia-UFBA, Salvador, 2008.

OMOTO, João Akira. Prefácio. In: ALARCON, Daniela Fernandes; MILLIKAN, Brent;
TORRES, Maurício. OCEKADI: Hidrelétricas, conflitos socioambientais e
resistência na Bacia do Tapajós. Brasília, DF: Universidade Federal do Oeste do
Pará, 2016.

ONU. Relatório da missão ao Brasil da Relatora Especial sobre direitos dos


povos indígenas. 2016. Disponível em: <http://www.onu.org.br/>. Acesso em: 29
nov. 2016.

PESSOA, Giuliana Mattiazzo. Suicídios Guarani Kaiowá: território tradicional e a


identidade étnica. Monografia (Graduação em Psicologia) - Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC-SP), São Paulo, 2016.
90

Representações sociais de adolescentes em conflito com a lei


sobre a PSC e LA e os desafios para a Psicologia

Laisla Suelen Miranda Rocha17


Marcelo da Silva Souza Ribeiro18

Resumo: O presente estudo objetivou compreender as Representações Sociais que adolescentes


em conflito com a lei têm acerca das medidas socioeducativas de Prestação de Serviço à
Comunidade (PSC) e Liberdade Assistida (LA), bem como discutir acerca da atuação da Psicologia
junto a essas práticas. Essas medidas têm como finalidade a responsabilização frente ao ato
infracional cometido, assegurando os direitos e deveres previstos em legislação, contribuindo para a
ressignificação dos valores pessoais e sociais do adolescente. O trabalho do psicólogo no
desenvolvimento de tais medidas demanda pensar sobre a implicação e a finalidade do cumprimento
dessa determinação judicial para cada um dos adolescentes. Com isso, fazem-se necessários
questionamentos constantes acerca das contribuições da Psicologia nesse contexto, construindo,
assim, uma reflexão que permita compreender os efeitos e as respostas dos adolescentes frente ao
processo que é desencadeado pela responsabilização diante da prática de um ato infracional. A
pesquisa se insere no referencial interpretativo das pesquisas qualitativas, tendo como base teórica a
Teoria das Representações Sociais, e objetiva compreender os saberes do senso comum acerca de
um determinado objeto. Cabe ressaltar a importância da experiência na formação das
representações, uma vez que ela está ligada ao que foi vivido, conhecido e experienciado.
Participaram quatro adolescentes, com idade entre 14 e 18 anos, que estavam em cumprimento de
LA e PSC. Para coleta, utilizou-se observação direta, mapa mental e grupo focal. Percebeu-se que as
representações sociais da medida de PSC ancoram-se no preconceito sofrido, no trabalho
remunerado e no fato de atrapalhar a realização de outras atividades, enquanto a de LA em
orientação e mudança. Diante disso, trazem-se alguns questionamentos e reflexões sobre o papel da
Psicologia nesses serviços, considerando os diversos fatores éticos, políticos e técnicos que se
fazem necessários para que a política socioeducativa seja consolidada.

Introdução

Quando se busca estudar sobre os direitos da criança e do adolescente, faz-


se necessário percorrer sua evolução histórica, uma vez que as conquistas que se
tem hoje são reflexos dos trabalhos desenvolvidos ao longo do tempo. Percebe-se
que o adolescente, durante um período, foi visto como uma pessoa sem direitos,
sendo alvo de discriminação por parte da sociedade, que não se preocupava em
respeitá-lo ou considerá-lo como pessoa que ainda estava em desenvolvimento.
Podemos observar que, no primeiro código vigente no país, as Ordenações
das Filipinas, destaca-se a severidade das penas aplicadas aos adolescentes,
consideradas por Garcia (2011) como cruéis e desumanas, já que as crianças e
adolescentes eram punidos severamente, quase sem diferenciação dos adultos. Nos

17
Psicóloga (Univasf). E-mail: suelen.lmiranda@gmail.com.
18
Doutor em Educação. Docente do Colegiado de Psicologia da Universidade Federal do Vale do
São Francisco (UNIVASF). E-mail: mribeiro27@gmail.com.
91

primeiros anos da República, as questões voltadas para esse público ganham uma
dimensão política, e vários setores da sociedade começaram a discutir essa
problemática, gerando diversos pensamentos relacionados à criança e ao
adolescente. Por um lado, havia uma preocupação com a defesa destes e, por outro,
havia uma visão de que eles seriam uma ameaça para a sociedade. Soares (2003)
coloca que esses discursos se traduziram em decretos e na criação de locais para
recolher esses menores. Uns visavam à prevenção e eram destinados a menores
abandonados, outros objetivavam a regeneração e eram destinados aos
“delinquentes”, sendo separados por idade, sexo e crime cometido.
Desse período até hoje, diversas mudanças aconteceram, entretanto, as mais
significativas começaram a ganhar forma com a promulgação da Constituição de
1988, em que foram adotados preceitos baseados nos direitos humanos e na
doutrina de proteção integral, gerando diversas mudanças que se estruturaram nas
políticas sociais, tais como a ampliação dos direitos individuais e coletivos. Essa
doutrina assegura que:

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança,


ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à
saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura,
à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária,
além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação,
exploração, violência, crueldade e opressão (BRASIL, 1988).

Outra marca importante foi a promulgação do Estatuto da Criança e do


Adolescente (ECA) em 1990, sob a Lei n.º 8.069/90, tendo como princípios
orientadores: a) o da prioridade absoluta, o qual refere que cada ato administrativo
deve ser pensando e analisado de acordo com o artigo 227 da Constituição; b) o do
melhor interesse, entendido de forma que todas as condutas devam ser tomadas
considerando o que é melhor para o menor; e c) a municipalização, que corresponde
à descentralização das ações governamentais na área de assistência social. Os
princípios fundamentais, segundo Silva (2011), asseguram que crianças e
adolescentes são prioridades absolutas, “sujeitos de direitos e pessoas em condição
peculiar de desenvolvimento” (p. 41).
Esse estatuto traz diversas transformações políticas, culturais e jurídicas no
que se refere ao adolescente. No âmbito político, destaca-se a criação dos
Conselhos de Direitos e Conselhos Tutelares, sendo aquele responsável pela
92

formulação de políticas relacionadas a crianças e adolescentes e este por assegurar


a proteção. Na área jurídica, encontra-se o aparecimento do sistema de
responsabilização penal do adolescente em conflito com a lei e das ações civis
públicas como forma de exigir os direitos subjetivos da criança e do adolescente.
No que tange ao ato infracional, o ECA acaba com as ambiguidades que
existiam entre proteção e responsabilização do menor, designando, então, a
responsabilidade penal aos adolescentes. O Estatuto prevê que o adolescente em
conflito com a lei, sujeito entre 12 e 18 anos de idade, deverá passar por um
procedimento de apuração do ato infracional. Caso seja comprovada sua autoria,
dar-se-á a aplicação de uma medida socioeducativa. O ECA caracteriza o ato
infracional, em seu art. 103, como a conduta descrita como crime ou contravenção
penal, reiterando, no artigo seguinte, que menores de dezoito anos são inimputáveis,
apesar de serem capazes de cometer atos infracionais, sendo, então, passíveis de
medidas socioeducativas.
De acordo com o art. 100 do ECA, ao se aplicar a medida deverá se
considerar as intenções pedagógicas, escolhendo as que proponham o
fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários. Dentre as medidas previstas,
estão a Prestação de Serviço à Comunidade (PSC) e à Liberdade Assistida (LA). No
que se refere à PSC, entende-se que o adolescente em conflito com a lei deverá
realizar tarefas gratuitas, de interesse geral, por um período que não ultrapasse os
seis meses, podendo cumpri-la em hospitais, escolas, bem como em programas
comunitários ou governamentais. Ainda segundo o ECA, essas tarefas deverão ser
aplicadas levando em conta as aptidões do adolescente, com uma carga horária
máxima de oito horas semanais, com a intenção de não atrapalhar a frequência
escolar ou o trabalho dele. Já a LA será aplicada sempre que for considerada a mais
adequada, com o objetivo de acompanhar, auxiliar e orientar o adolescente. A LA
tem o prazo mínimo de seis meses, podendo ser prorrogada, revogada ou
substituída por outra medida. As funções do orientador são dadas no art. 19:

I - promover socialmente o adolescente e sua família, fornecendo-lhes


orientação e inserindo-os, se necessário, em programa oficial ou
comunitário de auxílio e assistência social; II - supervisionar a frequência e
o aproveitamento escolar do adolescente, promovendo, inclusive, sua
matrícula; III - diligenciar no sentido da profissionalização do adolescente e
de sua inserção no mercado de trabalho; IV - apresentar relatório do caso.
93

Através da Lei n.º 12.594, de 18 de janeiro de 2012, institui-se o Sistema


Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase), que é uma política pública que,
atualmente, organiza e orienta a execução das Medidas Socioeducativas,
objetivando estabelecer diretrizes para um adequado cumprimento de tais medidas.
Além disso, esse sistema tem por finalidade que as ações socioeducativas sejam
sustentadas nos princípios dos direitos humanos, ao mesmo tempo em que promove
alinhamentos estratégico, conceitual e operacional, os quais são formados por bases
éticas e pedagógicas.
Diante das mudanças na legislação, os adolescentes passam a ser vistos
como seres de direitos e deveres, assegurando-os dos direitos estabelecidos no art.
227 da Constituição. Essa nova forma de reconhecer o adolescente também deve
estar presente ao se propor o cumprimento de medidas socioeducativas, tendo em
vista que, para o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), a finalidade desse
serviço é contribuir para o acesso aos direitos e à ressignificação dos valores na
vida pessoal e social desses adolescentes, além de notar os critérios de
responsabilização destes diante da infração cometida.
Apesar dessa nova postura frente ao adolescente em conflito com a lei, é
possível perceber, em diversos estudos, que as representações sociais dessa
categoria da sociedade ainda se encontram pautadas nas primeiras legislações
vigentes sobre o assunto, partindo, daí, a necessidade de maiores aprofundamentos
nas discussões sobre a temática (MARTINS, 2010; ESPÍNDULA et al., 2006;
ESPÍNDULA; SOUZA, 2004).

Teoria das representações sociais

A teoria das representações sociais foi desenvolvida por Serge Moscovici, em


1961, e, de acordo com Espíndula e Santos (2004), ela busca compreender os
saberes do senso comum a respeito de objetos específicos, sendo essas
representações construídas e compartilhadas socialmente. Dessa forma, são
consideradas conhecimentos práticos que norteiam a comunicação e facilitam a
compreensão do contexto em que estamos inseridos. Moscovici (2007) afirma que
as representações sociais “devem ser vistas como uma maneira específica de
compreender e comunicar o que nós já sabemos” (p.46), tendo como objetivo
94

abstrair o sentido do mundo e inserir nele ordem e percepções, reproduzindo-o de


maneira significativa.
Em sua estrutura, as representações sociais possuem duas faces
interdependentes: uma face icônica e a face simbólica (MOSCOVICI, 2007). Dessa
forma, a representação pode ser entendida por uma imagem ou significação. Assim,
toda imagem se iguala a uma ideia e toda ideia a uma imagem (MOSCOVICI, 2007).
A partir disso, Moscovici (2007) introduz os conceitos que dão origem às
representações sociais, à objetivação e à ancoragem. A objetivação é um processo
pelo qual ideias abstratas vão sendo transformadas em imagens concretas e a
ancoragem é a formulação de novos conceitos, ou o reconhecimento de objetos não
familiares, tendo como base os agrupamentos de imagens já conhecidos
(MOSCOVICI, 2001).
Compreendendo as representações como algo construído de forma coletiva,
através de trocas, práticas e experiências, entende-se que elas são a base para o
julgamento e as atitudes. As representações sociais, por serem um sistema de
interpretação que possibilita nortear nossa relação com o mundo e com as outras
pessoas, “[...] são capazes de orientar e organizar as condutas e comunicações
sociais. O estudo das representações permitiria, então, compreender o conjunto de
significados atribuídos por um determinado grupo social a um objeto, bem como aos
comportamentos relativos a este objeto” (ESPÍNDULA; SANTOS, 2004, p. 358).
Apesar de Spink ter se afastado das discussões acerca das RP,
consideramos importantes suas observações, quando diz que as representações
sociais devem ser estudadas através da articulação de elementos afetivos, mentais,
sociais e cognitivos (SPINK, 1993). Albuquerque e Basílio (2011) retomam, também,
Jodelet (2005) para discorrer sobre a importância da experiência na Representação
Social, assegurando que ela pode assumir um papel revelador na condução de
novas representações, uma vez que:

A díade representação social e experiência incrementa a passagem do


plano coletivo para o singular e do plano social para o individual sem tirar do
foco o lugar das representações sociais e suas formas de funcionamento,
as quais, otimizadas pela comunicação social, suplementam a construção
representacional (ALBUQUERQUE; BASILIO, 2011, p. 315).

Pensando dessa forma, a experiência é algo fundamental para a formação


das Representações Sociais. De acordo com Bondía (2002), a experiência é o que
95

nos acontece e o saber da experiência pode ser considerado um saber finito.


Relacionado à existência de um indivíduo ou de um grupo particular, é algo que se
mostra “ao homem concreto e singular, [...] por isso, o saber da experiência é um
saber particular, subjetivo, relativo, contingente, pessoal” (BONDÍA, 2002, p.27).

Adolescência

Para uma melhor contextualização desta discussão sobre a representação


social enquanto dimensão da experiência, que, no caso desta pesquisa, será a
experiência dos adolescentes, é necessário saber qual conceito de adolescência
será utilizado no estudo. De acordo com o ECA, adolescente é aquele que está
entre os doze e dezoito anos de idade, em uma condição particular como pessoa em
desenvolvimento. Segundo Frota (2007), para muitos estudiosos do
desenvolvimento humano, a adolescência pode ser considerada um período de
mudanças físicas, cognitivas, afetivas e sociais, assim como uma fase do
desenvolvimento entre a infância e a idade adulta. O autor traz, ainda, que esse é
um período atravessado por crises, as quais levam o adolescente a construir sua
subjetividade e identidade. Entretanto, a adolescência não deve ser compreendida
apenas como um período de transição, uma vez que ela é bem mais que isso, pois
tem suas vivências próprias.
Percebe-se que, durante muito tempo, a adolescência foi tida como um
período com características universais, sendo os primeiros estudos realizados por
Stanley Hall (1904). Em sua teoria, refere que o desenvolvimento da personalidade é
realizado por fatores fisiológicos, geneticamente determinados, imutáveis e que não
sofrem influências ambientais. Campos (1987) traz que, de acordo com essa teoria,
os comportamentos que não eram aceitáveis numa determinada fase
desapareceriam na fase seguinte, sem necessidade de uma intervenção
educacional.
Almeida (2003) aponta que diversos estudiosos se propuseram a estudar
essa temática, destacando os trabalhos antropológicos de Margaret Mead e R.
Benedict, no início do século XX. Esses estudos apresentaram descobertas que se
tornaram um desafio para as perspectivas anteriores, principalmente a de Hall, uma
vez que demonstraram que essa fase do desenvolvimento não é universal e que não
necessariamente tem que ser a fase dos conflitos e crises. A partir dessas
96

diferentes concepções, começaram a aparecer teorias que mostravam uma


compreensão intermediária da adolescência, em que os fatores genéticos e
ambientais passaram a ser vistos como interagindo no desenvolvimento humano.
Diante disso, "adolescer" não fica mais restrito apenas às determinações
biológicas, podendo ser considerado como um processo de construção da própria
identidade do sujeito, buscando seus valores, suas crenças e sua sexualidade
através da interação entre os grupos nos quais está inserido (OZELA, 2003).

Situação do adolescente em conflito com a lei no Brasil

Em 2009, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), através da Resolução n.º 77,


instituiu o Cadastro Nacional de Adolescentes em Conflito com a Lei (CNACL),
possibilitando integrar a lista dessa população em todos os estados brasileiros.
Desde sua criação, o CNACL já possui 91.321 adolescentes inscritos e mais de 112
mil processos cadastrados, contando com os ativos e conclusos. De acordo com
informações da Subsecretaria de Promoção dos Direitos da Criança e do
Adolescente, aproximadamente 70% desses adolescentes tornam-se reincidentes,
ou seja, voltam a cometer algum ato infracional após o cumprimento da medida
socioeducativa. Vale ressaltar que esses valores correspondem a todas as medidas
socioeducativas. Esse índice pode ser considerado preocupante e revelador, na
medida em que representa um problema nos sistemas de ressocialização.
Segundo Nardi (2010), frequentemente, esses adolescentes são referidos
com expressões estigmatizantes, tais como "marginais ou delinquentes", as quais,
para Silva (2002), estão ligadas a um modo de ser estável e duradouro, indo, então,
de encontro ao entendimento e às práticas relacionadas ao adolescente em conflito
com a lei.
De acordo com o Mapeamento Nacional das Medidas Socioeducativas em
Meio Aberto (BRASIL, 2007), até 2007, não havia estudos tendo como foco de
análise as medidas socioeducativas em meio aberto, sendo esse mapeamento o
pioneiro. Esse estudo mostrou que 88% dos adolescentes são do sexo masculino,
84% têm idade entre 15 e 18 anos e, com relação ao nível de escolaridade, 53%
possuem nível fundamental.
Considerando os objetivos do programa e as altas taxas de reincidência, e
pressupondo que as representações sociais orientam a comunicação e a vida
97

quotidiana das pessoas, de tal forma que a maneira como os adolescentes em


conflito com a lei representam o cumprimento das medidas pode interferir na
reincidência ou não aos atos infracionais, esta pesquisa objetivou compreender
quais as representações sociais que os adolescentes em conflito com a lei, a partir
de suas experiências em cumprimento das medidas de PSC e LA, têm acerca
dessas medidas socioeducativas. Buscou-se, ainda, identificar o conhecimento deles
sobre as medidas e descrever, assim como analisar, as experiências no que se
refere ao cumprimento das medidas socioeducativas.

Método

Este projeto se insere no referencial interpretativo das pesquisas qualitativas,


uma vez que valoriza o conhecimento em seus aspectos idiossincráticos e
compreensivos (MACEDO; GALEFFI; PIMENTEL, 2009). De maneira mais
específica, o referencial utilizado tem suporte teórico-metodológico a partir da Teoria
das Representações Sociais, a qual, no dizer de Anadón e Machado (2003), é
também uma orientação-método, uma vez que pressupõe vias de acesso ao modo
como o conhecimento é construído.
As representações sociais regem as relações estabelecidas com o ambiente e
com os indivíduos, assim como organizam a comunicação e conduta social. Para
Moreira (2001), “a teoria das representações sociais constitui-se num instrumento de
estudo particularmente importante nas relações onde os aspectos simbólicos são
determinantes das condutas, das práticas e dos comportamentos” (p. 104). Essa
abordagem teórica é utilizada para compreender conhecimentos provenientes do
senso comum. Tal teoria articula-se com o conhecimento científico a fim de
estabelecer uma relação entre a ciência e as teorias do senso comum.

Participantes

Participaram deste estudo quatro adolescentes, com idade entre 14 e 18


anos, todos do sexo masculino, que, por determinação judicial, estão em
cumprimento de medidas socioeducativas em meio aberto. Para participar do estudo
em questão, era necessário que os adolescentes estivessem em cumprimento tanto
de LA quanto de PSC. Além disso, era preciso que já estivessem há pelo menos um
98

mês em contato com tais medidas, uma vez que, de acordo com Jodelet (2005), a
representação social está interligada ao que foi vivido, conhecido e experienciado,
ou seja, a dimensão da experiência. Inicialmente, optou-se por oito adolescentes,
entretanto, ao entrar em contato com eles, dentre os que se encaixavam no critério
de inclusão, apenas quatro se disponibilizaram a participar.
Para preservar a identidade dos participantes, foram atribuídos nomes
fictícios aos quatro adolescentes. As informações sobre a história de vida dos
participantes se deram através do grupo focal, sendo complementadas pela análise
dos prontuários.
João tem 17 anos, mora com o pai e a madrasta, sua namorada está grávida
de seis meses. Ele está estudando o 7° ano, já trabalhou como chapeiro em festas e
com pinturas de casa; cometeu um roubo à mão armada e, devido a isso, está em
cumprimento de medidas socioeducativas de L.A e PSC há três meses; cumpre a
PSC em uma escola. Pedro tem 18 anos, mora com duas irmãs, uma de 22 e outra
de 24 anos. A genitora morreu há dez anos e seu genitor mora em uma casa perto,
onde reside com a madrasta do adolescente. Ele parou de estudar no 6° ano por
falta de interesse; trabalha, atualmente, com forro residencial e cumpre medida
socioeducativa há mais de três meses, por ter sido pego com uma arma. A PSC é
realizada no Centro de Referência em Assistência Social (CRAS). Ramom tem 18
anos, reside com a companheira e a cunhada, estuda o 7° ano e trabalha em uma
distribuidora. Ele também é acompanhado pelo Centro de Atenção Psicossocial
(CAPS) e cumpre medidas socioeducativas há três meses e meio, por tráfico de
drogas. A PSC é feita em uma Unidade de Saúde. Mateus, por sua vez, tem 14
anos, mora com a avó materna, que possui a sua guarda, e o companheiro desta.
Estuda o 6° ano, não trabalha e foi preso no CENIP por nove dias, em decorrência
de furto de um celular portando um canivete. Cumpre medida de PSC em uma
escola e LA há dois meses.

Cenário da pesquisa

Esta pesquisa foi realizada em um Centro de Referência em Assistência


Social (CRAS), do interior do Nordeste. De acordo com a Lei n.º 12.435/2011, o
CREAS é uma unidade pública estatal, visando oferecer serviços especializados e
continuados às famílias e aos indivíduos em situação de risco ou por violação dos
99

direitos, tais como violência física, psicológica, sexual, abandono e cumprimento de


medidas socioeducativas (BRASIL, 2011). Nessa instituição, é ofertado o Serviço de
Proteção a Adolescentes em Cumprimento de Medida Socioeducativa de LA e PSC.
A oferta da atenção especializada foca na família e na situação vivenciada,
buscando a construção de um espaço de acolhimento e escuta qualificada, que
priorize o fortalecimento dos vínculos familiares e sociais. Esse serviço tem como
objetivo oferecer atenção socioassistencial e acompanhar o adolescente em
cumprimento dessas medidas. No serviço, é oferecido atendimento psicossocial,
visitas domiciliares e institucionais, acompanhamento pelos educadores sociais e as
demais funções estabelecidas pelo ECA, em seu art. 19.

Instrumentos

Foram utilizados quatro instrumentos para a coleta de dados: a) registro das


observações diretas dos grupos de L.A.; b) grupo focal, pelo qual se buscou
conhecer as experiências dos adolescentes, bem como suas opiniões e sentimentos
relacionados ao processo de cumprimento de medidas socioeducativas; c) mapa
mental, que, de acordo com Archela, Gratão e Trostdorf (2004), são imagens
espaciais que as pessoas têm acerca de lugares, além de inserir sentimentos
relacionados à vivência nesse ambiente e d) análise dos prontuários dos
adolescentes.

Coleta e análise dos dados

A coleta de dados começou após a assinatura da Carta de Anuência pela


instituição e aprovação pelo Comitê de Ética e Deontologia em Estudos e Pesquisas
da Universidade Federal do Vale do São Francisco (CEDEP/UNIVASF), registrado
sob o n.º 0007/180814. Inicialmente, apresentou-se o projeto para todos os
adolescentes que participam do grupo de LA, objetivando o consentimento para
observação direta dos grupos. Foram observados dois encontros, no primeiro,
inicialmente, foram dadas orientações acerca das medidas de LA e PSC e do seu
cumprimento; em seguida, passou-se o documentário “Juízo”, dirigido por Maria
Augusta Ramos. Esse documentário retrata a trajetória vivida por adolescentes
desde o momento da sua detenção, passando pelo julgamento e a permanência em
100

instituições socioeducativas. Ao fim do documentário, foi encerrado o encontro de


LA. No segundo encontro, no primeiro momento, explicou-se sobre as medidas
socioeducativas, a importância de cumpri-las e sobre a responsabilização do
adolescente frente à infração cometida. Em seguida, houve uma palestra sobre
DST/AIDS, encerrando com o planejamento dos próximos encontros, onde a
Assistente Social interrogou sobre os temas que os adolescentes gostariam de
discutir. Também foram observados atendimentos individuais, um feito pela
Assistente Social, outro pela psicóloga. No decorrer das observações, foram
realizadas interações informais entre a pesquisadora e os adolescentes, a fim de
estabelecer vínculos e conhecer suas histórias de vida. Ao fim de cada encontro e
de cada atendimento, a pesquisadora construiu diários de campo para auxiliar na
análise das entrevistas.
Os adolescentes foram, então, convidados a participar do grupo focal, sendo
que quatro adolescentes se disponibilizaram. Diante disso, solicitou-se que
assinassem o Termo de Assentimento, e o responsável legal o Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido. O grupo focal é definido por Kitzinger (2000
apud TRAD, 2009) como uma forma de entrevista com grupos, tendo como base a
comunicação e interação. Uma das finalidades do grupo focal é coletar informações
que possibilitem a compreensão das crenças, atitudes e percepções acerca de um
tema. Utilizou-se essa técnica, pois, de acordo com Sá (1998 apud TEIXEIRA e
PINHEIRO 2003), ela “simula as conversações espontâneas pelas quais as
representações são veiculadas na vida cotidiana” (p. 29). O grupo focal se iniciou
com uma pergunta disparadora: “Como é a experiência de cumprir medidas
socioeducativas de PSC e LA?”. O registro das discussões foi feito através de
gravações, com o consentimento dos participantes. No grupo, também foi utilizado o
mapa mental, no qual os participantes desenharam o ambiente em que cumprem a
medida de PSC. O grupo focal teve duração média de uma hora e dez minutos.
Ao fim, realizou-se a análise documental dos prontuários dos adolescentes
participantes visando obter mais informações sobre eles. O grupo focal foi transcrito
integralmente, sendo lido e relido até que a pesquisadora estivesse familiarizada
com o material. Para a análise dos dados, foi utilizado o método de Análise de
Conteúdo proposto por Bardin (2004), que consiste em técnicas de análises, tendo
por objetivo interpretar a comunicação por meio dos procedimentos sistemáticos e
objetivos dos conteúdos (BARDIN, 2004). Assim, a Análise do Conteúdo “procura
101

conhecer aquilo que está por trás das palavras sobre as quais se debruça”
(BARDIN, 2004 p. 38). Dessa forma, Assis e Silva (2010) apontam que esse método
busca descobrir os núcleos de sentido que fazem parte da comunicação.
Após a leitura, a pesquisadora identificou os núcleos de sentido para as duas
medidas socioeducativas, sendo criadas, então, três categorias para a PSC:
preconceito sofrido, trabalho como fonte de renda e atrapalhar; e duas para a LA:
orientação e mudança.
Com o objetivo de conhecer os sentidos expressos nos mapas mentais,
buscou-se subsídios no trabalho de Machado (2010), o qual sugere que, para a
análise desses mapas, seja necessária a seguinte sistematização: primeiro uma
identificação dos elementos representados; segundo, a organização dos conteúdos
de acordo com suas configurações; e terceiro, a análise dos elementos, na qual se
apreende o significado geral da representação.

Resultados e discussão

Durante a observação direta, foi possível perceber que a instituição sempre


fornece informações acerca das medidas socioeducativas, dos direitos e deveres de
todos os adolescentes. Percebeu-se que, quando um adolescente inicia o
cumprimento da medida, junto ao CREAS, é feito o Plano Individual de Atendimento
(PIA), realizando atendimento psicossocial, no qual, dentre outras intervenções, são
feitas explanações sobre as medidas que serão cumpridas. Durante o grupo de LA,
no início, são repassadas informações sobre as medidas, a frequência escolar e
programas em que os adolescentes podem estar se inserindo.
Com relação ao entendimento dos adolescentes acerca das medidas, todos
afirmaram que sabiam em que consistia, geralmente associando-as ao ato
infracional cometido. Percebe-se clareza também quanto às consequências do
descumprimento. Durante o grupo focal, observou-se que, com relação à PSC, eles
referem ser um trabalho sem remuneração, e a LA um espaço para orientação.

PSC – O preconceito, o trabalho remunerado e o atrapalhar

No que se refere à medida de PSC, as representações encontradas ancoram-


se no preconceito sofrido, no trabalho como fonte de renda e no “atrapalhar”. Sobre
102

essa medida, os adolescentes apresentaram um mapa mental. Observou-se que


apenas um dos adolescentes, Ramom, desenhou outra instituição.
Os adolescentes trouxeram em suas falas questões referentes ao preconceito
ou ao isolamento das pessoas nos locais em que prestam serviços. Nesse sentido,
João relata:

É, lá na escola, lá tudo que você fizer tá errado, porque você já foi preso, o povo já olha assim
pra você, e fica falando que é vagabundo, é isso é aquilo. Aí sempre que chega uma mina pra
falar com a pessoa, fica os professores de longe olhando, aí vem a diretora, e eu deixando,
né? [...] tudo desconfiando... é, as pessoas têm preconceito (João).

É importante ressaltar o papel da mídia na veiculação das representações. De


acordo com Chaves e Rabinovich (2010), os meios de comunicação vêm
reafirmando o antagonismo entre adolescente em conflito com a lei e a sociedade,
colocando entre os dois um muro de intolerância, ligado a um medo injustificado. No
estudo de Espíndula et al. (2006), foi demonstrado que os termos utilizados na
imprensa capixaba, quando se referem aos adolescentes, ainda estão pautados nas
concepções do Código de Menores, no qual eram tidos como um problema de
segurança nacional. Os autores afirmam, ainda, que a maneira como a mídia
representa esses adolescentes pode ser considerada estigmatizante e perversa,
uma vez que colocam o ato infracional como algo que acontecerá sempre na vida
desses adolescentes, por estar ligado ao modo de ser “sem laços afetivos e sociais
que poderiam ser a base sobre a qual se produziriam sua transformação em um
‘homem de bem’” (ESPÍNDULA et al., 2006, p.19).
Como a mídia, além de ser um veículo de informação, é formadora de
opiniões e crenças, ao divulgar esse tipo de ideia, acaba influenciando e justificando
as representações e discriminações frente a esses adolescentes.
Percebeu-se, no grupo, que essas impressões também foram compartilhadas
pelos demais adolescentes. Por exemplo, nota-se que antes mesmo que João
terminasse sua fala, foi logo complementado pelos demais. O primeiro foi Mateus:

Rapaz, aí é direto, quando eu tô lá e todo mundo sabe, aí eu fico lá sentado em um canto só,
aí um monte de gente lá falando de mim, aí eu pego e vou pra casa.

Ramom continua: “Ó o vagabundo passando, é assim”.


103

João, o que mais falou sobre essas situações vivenciadas, demonstrando, por
vezes, sentimentos de raiva, retoma a fala:

Um filho meu num anda com isso daí não, oxe [...]. Tem horas que dá raiva, aí o cara fica de
cabeça quente e faz besteira. O cara tá lá pra mudar.

Nos fragmentos desses registros, há características contrárias às da medida


de PSC, na qual é demandado um maior entrosamento dos funcionários com os
adolescentes, possibilitando um aumento dos laços sociais e afetivos. De acordo
com o Ministério do Desenvolvimento Social, para o cumprimento da medida de
PSC, faz-se necessário selecionar instituições adequadas para o cumprimento das
atividades comunitárias, de modo que possuam um ambiente acolhedor e uma boa
convivência com o adolescente no período de cumprimento de tal medida. Além
disso, é assegurado que atividades de cunho constrangedor não sejam permitidas
(BRASIL, n.d).
Os adolescentes também relatam que, inicialmente, são bem recepcionados,
referindo que essas mudanças ocorrem após ficarem sabendo que eles estão em
cumprimento de medidas socioeducativas:

Assim, foi mudando o comportamento das [pessoas] comigo, quando começou os


professores, diretor falavam bom dia, passou umas três, quatro semanas, ninguém falava
mais comigo, os alunos que vem falar comigo os professores ficam vigiando. Na hora do
recreio mesmo, se alguém vier falar comigo, os professores vêm tudo pra ficar vigiando, pra
ver o que tá acontecendo, é meio estranho, né? (João)

O adolescente ainda relata que não vê pontos positivos nessa medida. Ao ser
solicitado que faça um mapa mental sobre esse lugar, ele logo fala: “vou fazer eu
sentado numa cadeira só”. No mapa mental (Figura 1), foi desenhada uma escola e
apenas ele no portão, não aparecendo mais nenhuma figura humana, o que
pressupõe que esse adolescente encontra-se numa falsa inclusão, ele está presente
no ambiente, mas não é visto como parte dele, o que faz lembrar as palavras de
Sawaia (2001): “A sociedade exclui para incluir e esta transmutação é condição da
ordem social desigual, o que implica o caráter ilusório da inclusão” (p.8).

Figura 1 - Mapa mental realizado por João.


104

Essa situação vai de encontro às diretrizes estabelecidas para um


adequado cumprimento de tais medidas, já que o MDS prevê um caráter
ressocializador, a fim de que novos laços sociais sejam construídos. Pedro, por
outro lado, já refere que a PSC pode ajudar, entretanto, como ele já é maior de
idade, acaba atrapalhando no trabalho:

Ajudar ajuda, mas pra quem não tem tempo, rapaz, aí tem o trabalho. Pra quem é novo
assim, 17, 12, 14 anos é bom, ajuda, pois não precisa trabalhar, tem mãe e pai pra dar as
coisas, agora o cara com 18, tem que trabalhar pra comprar suas coisas, esperar de pai e
mãe é chato. Se não tivesse que trabalhar era mais fácil, mas trabalho não falta não. Sou
profissional do gesso, faço tudo, os cara da firma enrica (Pedro).

No estudo de Baptista (2001), acerca das representações dos adolescentes


acerca da PCS, encontra-se que a forma como os adolescentes avaliaram a
recepção na instituição foi de positiva, o que está diretamente relacionado ao modo
como foram tratados. Nas falas dos participantes, nota-se que as principais
respostas se relacionavam ao respeito com que foram recebidos e por serem
tratados como funcionários. Em algumas respostas, também ficava claro que alguns
jovens se surpreendiam com a forma como se dava a relação, pois, por terem
cometido uma infração, esperava-se que o tratamento fosse de forma diferente:
“Muito bem, pô, nem parecia que eu tinha sido infrator nem nada” (V., 17 anos, apud
105

BAPTISTA, p. 103). Baptista (2001) revela que o discurso natural acerca do


tratamento para um jovem em conflito com a lei está pautado no desprezo e
maltrato, vindo, daí, o medo e a posterior surpresa desses jovens.
No que se refere a essa questão de identificação como funcionário ou como
profissional, foi possível perceber, no mapa mental que João fez sobre a escola
onde cumpre a PSC, que ele se desenha no portão e, logo acima, escreve o nome
porteiro, que é a função que desempenha. Pedro também se refere como
profissional do gesso, atividade essa que contribui para a renda familiar. Essa
identificação pode contribuir para a construção da identidade, favorecendo na
construção de um projeto de vida.
Outro ponto destacado por Baptista (2001) é a presença de diálogos e
conversas entre adolescentes e funcionários, o que, para os quatro adolescentes
deste estudo, não faz parte das possibilidades dentro da instituição onde cumprem
as atividades. Nota-se que os adolescentes apresentaram uma percepção negativa
da PSC. Todos relataram, em suas respostas, que essa medida não está
favorecendo um processo de mudanças, não percebendo nenhuma ajuda com esse
cumprimento, além de atrapalhar a realização de outras atividades, principalmente o
trabalho remunerado, o que pode ser observado nas seguintes falas:

No serviço eu fico só na portaria sentado, isso tá é me atrapalhando. Empata de eu trabalhar


pra poder ganhar meu dinheiro, comprar as coisas pro meu filho. É... atrapalha porque, ao
invés de eu estar trabalhando para comprar minhas coisas e as coisas do meu filho, eu tô
trabalhando de graça, sem ganhar nada (João).

Nem pra fichar dá, assim vai ter que faltar uns dias por semana e firma nenhuma vai aceitar
isso. Aí fica ruim (Pedro).

O mapa mental de Pedro também reflete essa questão: foi desenhada a


estrutura física do CRAS, uma árvore e várias pessoas do lado de fora, que
representam as crianças que ele acompanha no Projovem. Logo acima, foi escrito:

Do CRAS não gosto do ambiente e dos dias que eu cumpro o serviço (Pedro).

O adolescente, ao mesmo tempo em que relata a questão de atrapalhar,


propõe soluções para que haja um melhor aproveitamento dessa medida:
106

Era bom se eles deixassem prestar o serviço dia de domingo, que aí adianta. Até no sábado
dava, trabalhava segunda, terça, quarta, quinta, sexta, aí no sábado dava pra fazer. Tem
horas que eu vou lá e só tem cinco alunos só, nem os guri que faz num vão, aí. Eu acho que
se fosse dia de domingo, até eles iam mais, aí marcavam pra eu ir lá. Dia de domingo que
num faltava um guri lá (Pedro).

Jacobina e Costa (2007), em um estudo sobre como a experiência do trabalho


para adolescentes que estão cumprindo medidas socioeducativas pode influenciar
as relações familiares, demonstram em seus resultados que, através do trabalho,
houve uma ressignificação das relações familiares e da sua inserção social,
trazendo mudanças significativas na relação familiar, especialmente a conquista da
confiança e um aumento na participação das atividades na comunidade.
Percebe-se, então, a importância do trabalho no processo da reconstrução da
cidadania dos adolescentes, o que é, de certa forma, promovido pelo CREAS,
através da inserção dos adolescentes em cursos profissionalizantes, a fim de
promover uma ampliação do desenvolvimento de habilidades e competências.

LA – Orientação e mudança

Ao analisar o material do grupo focal e os diários de campo da pesquisadora,


foi possível destacar que as representações acerca da liberdade assistida ancoram-
se na “orientação e mudança”. Durante os encontros de LA, notou-se, especialmente
no segundo encontro, que as relações dos funcionários do CREAS com os
adolescentes são de maior interação do que as relatadas na PSC. Essa questão
pode ser percebida no mapa mental de Ramom, uma vez que a solicitação foi que
desenhassem o mapa do lugar onde cumprem a medida de PSC. Entretanto, ele
desenhou o CREAS. No mapa, não aparecem figuras humanas, apenas a estrutura
física do lugar, sendo todo dividido e escrito o que cada parte representa, sendo:
recepção, sala de atendimento e banheiro. Ao ser questionado sobre o que era seu
mapa, referiu:

Eu fiz o CREAS, é melhor aqui. É muito é bom, homem. Bom demais (Ramom).

A afirmação de ser melhor está interligada à maneira como eles se fazem


presentes nas duas instituições. Enquanto na PSC se referem ao isolamento, na LA,
os funcionários do CREAS estão mais próximos, acompanhando o cumprimento da
107

medida, orientando e buscando saber como estão, além da participação em


momentos informais, como, por exemplo, o momento do lanche, no qual é realizada
a interação informal entre funcionários, adolescentes e familiares que se fazem
presentes.
Em cada encontro de LA, é discutido um tema diferente. Percebe-se que os
adolescentes têm papel importante nessa escolha, sendo eles que dão sugestões
sobre os assuntos que gostariam de ser discutidos. Entretanto, observou-se que são
pouco participativos e demonstram uma ansiedade para que o grupo acabe logo.
Quando questionados sobre como era a experiência em liberdade assistida, os
adolescentes falaram sobre as conversas e as mudanças que já perceberam após
começarem a ser acompanhados:

Assim, eu acho que tá ajudando, tá, tá. As pessoas daqui conversa um pouco com a gente
aqui, fala sobre as normas, sobre as drogas, pra gente não usar e tal. Pra mim tá ajudando
um pouco, nem tanto... mas tá ajudando (João).

Aqui a pessoa conhece pessoas novas, aprende algumas coisas. Aprendi que não deve errar
mais, a levar a vida direito, mudar, eles ajudam a mudar (Mateus).

Percebe-se uma contradição existente entre a fala dos adolescentes e o que


foi observado, pois eles reconhecem essa medida como positiva e que promove
mudanças na suas vidas, entretanto, não demonstram tanto interesse pelo modo
como são realizadas as intervenções em grupo. Porém, o que parece é que há uma
valorização do acompanhamento individual, de estar sendo orientado:

É, eles conversam com a gente, liberdade assistida é isso, eu acho né, eu venho aqui e eles
conversam comigo e tal, vem conversar, aprender as coisas (Mateus).

É bom, a gente vem assistir, conversar, vem conversar com a psicóloga, né? (Ramom).

No estudo de Nardi e Dell’Aglio (2013), foi evidenciado que o cumprimento da


medida de LA fez com que os adolescentes refletissem sobre suas atitudes e suas
vidas, demonstrando também que eles começaram a construir novos planos para o
futuro, aliados ao desejo de reintegração social. No presente estudo, também foi
possível identificar novos posicionamentos e novas formas de pensar sobre os
planos futuros:
108

Quero arrumar um emprego, família. Meu filho vai nascer ainda, vai nascer em dezembro. E
esse tempo aqui já tá fazendo mudar, porque o que eu fiz eu não quero que um filho meu
faça, né? E agora eu sei, eu não quero passar o que a minha mãe e meu pai passou (João).

Fez pensar na minha vida daqui a um ano, dois anos... eu quero ficar logo livre disso aqui [...].
Eles ficam conversando com a gente e tal, falando pra não usar droga, falando sobre droga,
que é isso que eu num quero mais, sabe? eu já deixei por eu mesmo. Depois que eu voltei
pra minha mulher, me ajudou muito a sair das drogas (Ramom).

Também aparece nas falas dos adolescentes que essa mudança está
relacionada a um medo de que a medida em meio aberto seja revogada para a
medida de internação, uma vez que essa é uma realidade para eles, já que, com o
acompanhamento, são enviados relatórios psicossociais para o juiz:

A liberdade assistida é bom, porque a pessoa muda mesmo que ela não queira mudar,
porque ou muda ou vai pra Funase ficar internado. Tem que mudar, porque se alguém vê
você fazendo algo de errado aí o juiz vai ficar sabendo, aí vai ser pior, tem que fazer por
onde, não fazer nada de errado (João).

[...] eu tô aqui pagando por aquilo que eu fiz e vindo pra poder criar juízo se não... aí pega um
castigo (Ramom).

Sousa (2010), em uma pesquisa acerca das percepções de adolescentes em


conflito com a lei sobre a medida socioeducativa de liberdade assistida, evidenciou
que a experiência dos adolescentes em LA é compreendida como estar no limite
entre a liberdade e a privação, funcionando como uma “liberdade vigiada”, sendo
que eles estão livres, mas tem alguém para acompanhá-los. Devido a qualquer
deslize que cometerem, podem ter a perda dessa liberdade.
Ao se comentar sobre as diferenças entre medidas de internação e em meio
aberto, todos os adolescentes se mostram favoráveis ao meio aberto, trazendo
questões sobre a orientação que recebem na medida de LA e a dificuldade que é
ficar “isolado” do mundo, como é possível perceber nas falas seguintes:

A primeira vez que eu fui preso assim, eu fazia era chorar, pedia pra minha mãe me tirar, num
me deixe ir pra lá não. Minha mãe, eu não vou fazer coisa errada não, me tire daqui, eu não
vou fazer mais nada de errado, depois preso de novo (João).

Rapaz, aqui é melhor, né?... Eles orientam (Ramom).

O cara vê o mundo, lá é ruim demais, o cara num vê ninguém, num faz nada (Mateus).

Observa-se também que, após terem sido presos, tendo passado por
instituições de internação provisória, os três adolescentes relatam que voltaram a
109

cometer ato infracional. Em sua fala, João reconhece isso, mostrando que, apesar
de ter sido uma experiência desagradável, logo foi preso novamente. Essas
questões também podem ser percebidas nos estudos de Estevam, Coutinho e
Araújo (2009), em que as RS de adolescentes privados de liberdade, no Centro
Educacional do Adolescente, estão pautadas em sentimentos de tristeza e angústia,
o que faz com que eles tenham mais desejo por liberdade e por valorizar a família.
Os adolescentes também apontam que essa prática não serve para ressocializar
ninguém.
Observa-se também, no mapa mental (Figura 2) realizado por Mateus, essa
valorização da liberdade e dos amigos. No seu mapa, foi desenhado, em um lado, a
escola em que ele cumpre a medida de PSC, além dos três amigos que estudam
nessa instituição; no outro lado, foi desenhada a sua casa, a escola que ele estuda e
a rua com uma praça, podendo ser compreendido como esse sentimento de
liberdade.

Figura 2 - Mapa mental realizado por Mateus, frente e verso.


110

Na fala de Pedro, observa-se que há uma forma de pensar diferente no que


se refere às medidas de internação, que as diferencia das medidas direcionadas
para os adultos:

Quando eu era menor, eu era doido pra ir, mas agora não (risos). Eu aprontava muito pra
poder ir, meus colegas iam e saiam tudo fortinho, branco e tal, oxe, e eu doido pra ir lá e tal,
mas quando não é pra ir não vai não. Eu queria ir quando era menor, mas hoje não quero
mais não.

Percebe-se que a internação, durante um período, foi vista por Pedro como
algo positivo, não em relação às funções pedagógicas das medidas, e, sim, por sair
branco e forte. Isso faz pensar no perfil que, atualmente, é alvo de violência e
exclusão, o qual é demonstrado por Monteiro, Coimbra e Filho (2006) como sendo
111

composto por jovens, negros ou pardos e com baixa escolaridade. Considera-se,


então, que o adolescente trocaria a liberdade para ser incluído socialmente.

Os desafios para a Psicologia em sistemas socioeducativos em meio aberto

Compreende-se que o trabalho do psicólogo voltado para o acompanhamento


de adolescentes que cumprem medidas socioeducativas em meio aberto deve estar
amparado no ECA, implicando no envolvimento nas construções de práticas que
contribuam para a efetivação das políticas públicas que aderem a essa nova visão
trazida pelo estatuto. Além disso, deve-se articular ações entre o Estado, a família e
a sociedade. Ademais, envolve um abordagem junto ao adolescente quanto ao
exercício de seus direitos, além de ações que assegurem um processo de
transformação das instituições e RS que ainda estão orientadas pela doutrina da
situação irregular.
No trabalho da Psicologia, bem como nas demais áreas que compõem as
equipes multiprofissionais, muitas vezes, ainda são identificadas formas de
operacionalizar as medidas que se pautam apenas na lógica punitiva, separando-se
da concepção proposta pelo estatuto e Sinase, que propõe a responsabilização do
adolescente através de um processo educativo que converse com a situação na qual
o ato infracional se produziu (CFP, 2012).
Percebe-se, nesta pesquisa, que os adolescentes traziam que o preconceito e
o estigma estavam presentes no cumprimento das medidas, o que demonstra que o
compromisso ético-político do psicólogo, enquanto um princípio norteador, exige
atenção não somente ao cumprimento da legislação e às diretrizes conquistadas no
processo histórico de efetivação, mas também ao modo como o saber está sendo
produzido nesses contextos, efetivando saberes e práticas que informam sobre
modos de pensar e conceber o adolescente em sua singularidade. É necessário
também abdicar dos conceitos forjados na tradição menorista, que, geralmente,
ligavam a pobreza ao abandono, à delinquência e ao risco, sendo isso fundamental
para a transformação proposta pelo ECA.
Sabe-se também que, para além das diretrizes que dizem respeito às políticas
públicas que asseguram o direito dos adolescentes e a execução das medidas
socioeducativas, já discutidas anteriormente, as práticas em Psicologia devem
observar a legislação do próprio Sistema de Conselhos de Psicologia, tais como o
112

Código de Ética e as demais resoluções emitidas pelo Conselho Federal de


Psicologia (CFP), que tratam de temas específicos do fazer nessa área. Com vistas
a orientar os psicólogos, o CFP (2012) lançou o “Referência Técnica para Atuação
de psicólogas(os) em Programas de Medidas Socioeducativas em Meio Aberto”, no
qual foi proposto que uma política voltada para a execução de tais medidas, que
leve em consideração os desafios para a Psicologia, requer alguns aspectos:

1. A articulação entre diferentes campos de saberes, e no que concerne às


questões específicas da Psicologia, é necessária para uma crescente inclusão
do ensino relacionado às políticas públicas.
2. A capacidade de ser criativo e ousado nas propostas de executar as
medidas;
3. Constante investimento na construção de alternativas para os impasses
trazidos pelos adolescentes, levando em conta as diferentes dimensões
presentes, buscando sempre a participação ativa do adolescente na
elaboração do seu plano de atendimento. A participação da Psicologia deve
contribuir na singularização dos processos e na busca por alternativas junto à
família;
4. Fomentar a participação política, o compromisso e a responsabilidade social
da profissão em ações que afirmem, no município, a rede de serviços
destinada aos adolescentes, bem como a criação de estratégias de
envolvimento dos adolescentes em espaços de debate e conquista de direitos
e cidadania.

Observa-se que esses são pontos norteadores da prática e, falando


especificamente sobre a atuação na execução da PSC e LA, o trabalho do psicólogo
deve pensar na finalidade e na implicação do cumprimento de tais medidas para os
adolescentes. Dessa forma, é necessário que os questionamentos sobre a atribuição
dessa área sejam constantes e tenham como consequência reflexões que
possibilitem, aos adolescentes, a reflexão e a problematização sobre o processo
resultante da responsabilização frente ao ato infracional, valorizando o encontro com
esses sujeitos e sempre questionando sobre a sua experiência, uma vez que é
através desse contato que o psicólogo poderá pensar sua contribuição possível para
a trajetória de vida dos adolescentes em seus entraves com a lei.
113

No cumprimento da PSC, uma das principais finalidades é explorar as


possibilidades educacionais que existem dentro de um ambiente de trabalho, é
preciso atenção para que esse espaço favoreça a criação, a elaboração e o
aprendizado. Ao profissional de Psicologia, caberá um trabalho em conjunto com os
orientadores, a fim de construir a função socioeducativa do espaço, colaborando
para que esses lugares sejam recurso operacionais importantes e não locais
insalubres, humilhantes ou punitivos. Neste estudo, o que se observou foi que os
adolescentes têm RS ancoradas no preconceito e no isolamento sofridos nos locais
onde cumprem essas medidas, indo, então, de encontro a todas as orientações na
política. Faz-se necessário que haja um acompanhamento e capacitações das
pessoas que ocupam esse lugar de orientador, visando a um espaço de
ressignificação.
Já na medida de LA, um dos primeiros questionamentos que devem ser feitos
diz respeito a como garantir, para os adolescentes, o direito de ir e vir nos espaços
das cidades, considerando o cumprimento dessa medida. De acordo com o CFP
(2012), nesse caso, o papel do psicólogo será convocar esses adolescentes à fala e
ao compartilhamento das construções, pelos seus locais de convívio, e à resposta
frente a lei. Ressalta-se, ainda, que a LA é uma medida que exige acompanhamento
da vida social. Dessa forma, a intervenção se faz pelo acompanhamento,

[...] garantindo aspectos que conforme cada situação estarão relacionados


com: proteção, inserção comunitária, cotidiano de lazer, manutenção de
vínculos familiares, da frequência à escola, aderência aos tratamentos de
saúde, inserção no mercado de trabalho e/ou cursos profissionalizantes e
participação na vida cultural da cidade (CFP, 2012, p. 43).

Um dos objetivos norteadores da LA é a necessidade de realizar ações que


permitam aos adolescentes terem condições para que construam novos projetos de
vida e um rompimento com a prática de atos infracionais. Busca-se, assim, garantir
que as políticas de atendimento não se detenham exclusivamente a componentes
pedagógicos, mas, sim, que criem condições de inserção produtiva na coletividade.
Tendo isso em vista, a implantação e execução dessa medida devem fortalecer os
laços familiares e comunitários dos adolescentes, bem como encorajar ações que
integrem as áreas de educação, saúde, lazer e trabalho.

Considerações finais
114

Ao estudar sobre as medidas socioeducativas, percebe-se uma riqueza de


possibilidades nas formas de efetivar o seu cumprimento. A PSC, por exemplo, pode
oferecer a esses jovens a oportunidade de reparar a infração cometida através da
inclusão social, além de possibilitar que as instituições que recebem atuem de forma
ativa na integração do adolescente em conflito com a lei. Entretanto, ao se ouvir
esses adolescentes, é importante destacar o isolamento e o preconceito que eles
sofrem, percebendo que ainda existe uma falta de preparação referente às medidas
socioeducativas por parte das instituições, no que se refere ao efetivo cumprimento
da medida. Essa forma de se portar também remete ao forte e hegemônico discurso
presente na sociedade, no qual se busca maquiar o problema da exclusão social,
através da responsabilização do sujeito por um problema que é produto de uma
organização social, política e econômica.
Diante disso, percebe-se a necessidade de um preparo para as instituições que
recebem adolescentes em PSC, seja através de rodas de conversas ou oficinas de
capacitação, uma vez que, nos estudos de Baptista (2001), é apontado que essa
boa relação com os funcionários acarreta em um menor índice no descumprimento
da medida. Além disso, com as leituras de outros estudos e na construção deste,
fica cada vez mais claro que é necessário pensar que a responsabilidade pelo
adolescente em conflito com a lei não é apenas da Vara da Infância e Juventude ou
do CREAS. É preciso que haja a participação dos mais variados setores da
sociedade para que possamos buscar formas de soluções para essa questão.
No que tange ao papel da Psicologia no contexto da execução das medidas
socioeducativas, espera-se que esse profissional contribua para que as políticas
públicas sejam efetivadas com base nessa nova forma de ver o adolescente,
buscando realizar articulações entre o estado, a família e a sociedade. A atuação
deve estar junto ao adolescente, favorecendo-lhe um espaço de escuta, para que
ele possa partilhar suas experiência e, dessa maneira, atuar de forma ativa no
planejamento das ações socioeducativas. Além disso, faz-se necessário promover
ações que provoquem transformações na forma como as instituições veem esses
adolescentes, uma vez que ainda estão pautadas nas primeiras legislações.
Algumas limitações foram encontradas, mas elas não inviabilizaram a
realização da pesquisa. Inicialmente, optou-se por ser realizada observação
participante, entretanto, por ser realizado apenas um encontro de LA por mês e por
115

ter apenas três meses para a coleta, fez-se uma troca por observação direta dos
grupos. Outra mudança foi relacionada à quantidade de participantes. Esperava-se
que fosse realizado o grupo focal com oito adolescentes, porém, dentre os que se
encaixavam no critério de inclusão, apenas quatro se disponibilizaram,
voluntariamente, a participar do estudo. Só foi possível também a realização de um
grupo focal, uma vez que, num segundo encontro, apenas dois adolescentes
estavam presentes, inviabilizando a realização de grupo.
Vale ressaltar que este estudo não tem o caráter de generalizar as
representações sociais para todos os adolescentes em conflito com a lei, uma vez
que buscou ser um estudo qualitativo, através das experiências de quatro
adolescentes.
Espera-se que novos estudos surjam para aprofundar discussões sobre essa
temática, que ainda causa bastante polêmica na sociedade, assim como para
permitir discussões e, através delas, irem modificando o que ainda precisa ser
melhorado. Cabe ressaltar também a importância dos trabalhos estatísticos nessa
região, para que se possa ter uma visão mais ampla da situação de reincidência e
do descumprimento dessas medidas.

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73312009000300013>.
119

Apontamentos de uma Psicologia Jurídica sobre a questão do


estupro de vulneráveis: uma visão psicanalítica, com enfoque no
sadismo

Marcelino Jorge Lira19

Resumo: O Código Penal brasileiro considera estupro de vulnerável o ato libidinoso realizado por
maior imputável contra pessoa que seja incapaz de consentir. São três as condições apresentadas
pela lei para essa incapacidade: a vítima ter menos que catorze anos; ser “portadora” de enfermidade
mental transitória ou crônica; e, no momento do ato libidinoso, não possuir grau de discernimento
suficiente para o consentimento; por qualquer motivo não poder consentir (assim como estados
comatosos, intoxicações graves, estados oníricos ou semelhantes). O presente trabalho pretende
analisar a necessidade da relação sexual sádica e, em especial, o caso do estupro de vulneráveis,
em que a vítima tem pouco ou nenhum poder de resistência sobre a ação do agressor. Os resultados
obtidos, dada a brevidade do trabalho, não pretendem ser de aplicação in omnibus, o que não é uma
característica psicanalítica, mas norteador de reflexão e incitador de discussão e aprofundamento
futuro.

1 O que é, juridicamente, o estupro de vulneráveis?

Para que o psicólogo entenda a demanda do Direito sobre o tema, faz-se


necessário entender o objeto e o objetivo jurídico do que é tratado. O “estupro de
vulneráveis” já existia nas leis brasileiras, ainda que não de forma tão destacada dos
crimes contra a liberdade sexual, e foi introduzido, tal como é, no ano de 2009, sob o
artigo 217-A, do Código Penal brasileiro. Como o tipo penal depende de uma
descrição de comportamento, é natural que a avaliação inicial, em relação à norma,
seja considerar e interpretar a lei. Veja-se a lei, in verbis:

Estupro de vulnerável
Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor
de 14 (catorze) anos:
Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.
o
§ 1 Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com
alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário
discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não
pode oferecer resistência.
o
§ 2 (VETADO)
o
§ 3 Se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave:
Pena - reclusão, de 10 (dez) a 20 (vinte) anos.
o
§ 4 Se da conduta resulta morte:
Pena - reclusão, de 12 (doze) a 30 (trinta) anos (BRASIL, 1940).

19
Doutorando em Psicologia Clínica na linha de Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela
Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Mestre em Direito Público pela Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE). Bacharel em Psicologia e em Direito pela UNICAP. Professor
universitário. Psicólogo clínico. Advogado. E-mail: platus.academeia@gmail.com.
120

Para o Direito, um ato sexual só é considerado lícito quando devidamente


consentido pelas partes. Para que o consentimento seja válido, há necessidade de
declaração válida de vontade livre por agente habilitado pela norma jurídica. Duas
pessoas adultas e capazes, que, de comum acordo, desejem realizar o ato sexual,
não aparecem como interesse de proteção penal. Quando um deles não possui a
capacidade de consentir - seja por imaturidade cronológica natural, por enfermidade
ou condição momentânea -, mesmo que haja um consentimento, este não é
considerado válido para o Direito.
Para efeitos de crime, existe o que se chama de sujeitos ativos e passivos. O
sujeito ativo, ou polo ativo, é aquele que comete o crime, privando o sujeito passivo,
ou polo passivo, de usufruir do seu direito. No caso em tela, doutrinariamente para o
Direito Penal, estão, no polo passivo, os vulneráveis e, no polo ativo, os
estupradores de vulneráveis.
Iniciando pelo polo passivo, o Direito considera que essa parcela da
população não é capaz de entender as responsabilidades e os meandros envolvidos
em uma relação sexual e estão (de onde vem o nome) vulneráveis à ação de
aproveitadores. Considera, com efeito, seguindo o crivo social e ético, inapropriada a
relação sexual de uma pessoa desenvolvida, física e psicologicamente, com as
pessoas apontadas no art. 217-A, como vulneráveis.
No sentido estrito da lei, “vulnerável” é o menor de 14 anos, cujo
desenvolvimento físico e psíquico presume-se que ainda não esteja completo. Em
um sentido mais lato, posto pelo § 1º do artigo, equipara-se ao vulnerável, em seus
efeitos (“incorre na mesma pena quem”), os enfermos ou deficientes mentais que
não possuem discernimento para a prática do ato ou que, por qualquer causa, não
possam oferecer resistência. Aqui, estão enquadradas as pessoas que nunca
tiveram ou perderam (momentânea ou permanentemente) a autodeterminação
jurídica (de entender e querer) de conduta (FRAGOSO, 2003, p. 242). Podemos
destacar, como exemplos, pessoas em crise esquizofrênica ou em estado comatoso,
no momento do ato sexual, pois não tinham, segundo a lei, a capacidade genérica
de entender e de querer.
A mesma proteção é realizada no âmbito do direito civil, pois a incapacidade
jurídica torna todos os atos jurídicos dessa população sem efeito. “A lei priva da
capacidade as pessoas que presume não tenham discernimento necessário para a
121

prática de alguns ou todos os atos jurídicos” (GOMES, 1993, p. 133). Assim, o


consentimento de uma criança de nove anos para um casamento não gera efeitos
jurídicos, da mesma forma que a compra realizada por um adulto em estado
maníaco (chamado juridicamente de prodigalidade). Os referidos amparos (penal e
cível) protegem os indivíduos vulneráveis das consequências jurídicas de seus atos,
mas o efeito necessário dessa proteção é a privação da liberdade para os atos (Cf.
BITENCOURT, 2016, p. 100-101).
No outro polo da relação, ou seja, o ativo, encontra-se o algoz. De acordo
com a Teoria do Crime, em sua concepção dogmática ou analítica, o crime é toda
conduta humana típica, antijurídica e culpável. Essa concepção é metodológica e
“emprega-se o método analítico, isto é, decomposição sucessiva de um todo em
suas partes, seja materialmente, seja idealmente, visando a agrupá-las em uma
ordem simultânea” (PRADO, 2006, p. 236). Para análise do fato típico, verifica-se se
houve conduta, se essa conduta produziu um resultado, se existe uma relação
causal entre a conduta e o resultado, se há uma tipicidade (uma norma proibitiva
que se ajuste à conduta). A análise da antijuridicidade é feita a partir de uma causa
justificante, elencada no art. 23 do Código Penal (assim com o estado de
necessidade, a legítima defesa, o estrito cumprimento do dever legal ou o exercício
regular do direito). Já a culpabilidade é analisada pela potencial consciência de
ilicitude, pela imputabilidade ou pela exigibilidade de conduta diversa do agente.
Caso as respostas não sejam favoráveis ao sujeito, por meio dessa análise,
considera-se crime o ato perpetrado.
O Poder Judiciário é aquele que, na maior parte das vezes, exigirá posições
dos psicólogos sobre “sanidades” e “vulnerabilidades”. Então, a Psicologia, de
acordo com os seus saberes, pode fornecer auxílio, não só para questões pontuais,
mas ampliando a percepção do fenômeno através de várias ações.

2 Um enfoque da Psicologia Forense

As expressões “Psicologia Jurídica” e “Psicologia Forense” são usadas


frequentemente como sinônimas. No entanto, a Psicologia Jurídica denota área de
aplicação da Psicologia que auxilia o Direito para melhor consecução dos seus fins
ou, no dizer de Mira y López, “é a psicologia aplicada ao melhor exercício do direito”
(2003, p. 18). É uma expressão mais ampla que Psicologia Forense. Esta seria
122

responsável pelo auxílio prestado pela Psicologia em ambiente do fórum, de onde


deriva o nome (Cf. FRANÇA, 2004, p. 74). O auxílio prestado pela Psicologia para a
elaboração de uma lei certamente mereceria o nome de “jurídica”, ao passo que um
parecer sobre a existência, ou não, de alienação parental em um processo de
guarda de menor seria “forense”. As acepções consideradas são de suma
importância para tratar do tema deste estudo. Em primeiro lugar, trata-se, aqui, da
Psicologia Forense.
O Código de Processo Penal, mesmo com as profundas reformas sofridas em
2008, ainda deixa, em um verdadeiro limbo, boa parte das perícias psíquicas. Uma
boa ideia se pode ter, considerando que o Título VII, do Código (Das provas), não
faz qualquer menção à perícia psicológica, cabendo ao título anterior (Das questões
e processos incidentes), no Capítulo VIII, tratar “Da insanidade mental do acusado”.
Embora seja prova, o Direito a trata como uma questão incidental, privilegiando as
tradicionais provas, como a necroscópica, traumatológica, do local do crime, de
incêndio, de documentos, dentre outras. Não apenas isso. Seguindo ainda a linha da
Parte Geral do Código Penal de 1940, e não a Parte Geral já reformada em 1984,
considera que toda a perícia psicológica tem como objeto de análise o infrator. Por
um lado, pode ser encarado como depreciativo ao trabalho realizado pelo psicólogo,
não o considerando com “prova” em sentido estrito, ainda que, por outro lado, liberte
o psicólogo para o caráter instrutivo e, quiçá, pedagógico, sobre o conhecimento do
ser humano por outro prisma, que não o jurídico.
A inserção do art. 217-A, no Código Penal, cria uma nova perspectiva para a
“análise técnica” feita por todos os profissionais “psi”, pois é a própria condição de
vulnerabilidade que possibilita o enquadramento do criminoso. Caso a vítima não
seja vulnerável, não existe o crime. E quem são os “vulneráveis”? Como se vê, a lei
dá os requisitos, mas, por assim dizer, não habilita ao jurista a determinação de
quem são, sem embasamento psicológico. É preciso a comprovação para que a
acusação possa ser válida, e cabe ao perito “atestar”, na maior parte das vezes, a
vulnerabilidade.
Durante algum tempo, houve controvérsia sobre se bastaria a condição etária
da vítima menor de catorze anos para que fosse considerada automaticamente
“vulnerável”. Havia o argumento de que alguns menores, por sua pretérita e
frequente atividade sexual, desenvoltura, vivência, não estariam enquadrados na
condição de vulneráveis, ainda que possuíssem a idade apontada na norma
123

(quebrando o que é conhecido como “presunção de violência” e, em geral,


descaracterizando a posição de vítima do menor). Houve, inclusive, sob outro ponto
de vista, quem considerasse que nem todos os menores atuais são os mesmos de
outrora, e que alguns menores possuíam acesso à informação suficiente para não
serem mais considerados “vulneráveis”. A questão foi resolvida recentemente. A
“presunção de violência”, quando a vítima é menor de catorze anos, é absoluta (não
cabe exceção), de acordo com o STJ, no julgamento do Recurso Especial n.°
1.480.881/PI, sob a sistemática dos repetitivos (BRASIL, 2015). Em poucas
palavras, não cabe mais a possibilidade de perícia para analisar o grau de
desenvolvimento físico e psicológico da vítima, para saber se ela corresponde a uma
pessoa “vulnerável”. O Poder Judiciário adotou a postura de que é impossível o
menor de catorze anos ter se desenvolvido a ponto de consentir validamente,
tornando o ato sexual do adulto com o menor em tela automaticamente criminoso.
Por outro lado, juridicamente, pode haver controvérsia sobre o grau de
vulnerabilidade dos outros grupos citados no tipo de estupro de vulneráveis, uma
vez que são adultos e existem diversos graus de afetação. Como a vulnerabilidade
funciona como um espelho da inimputabilidade, é importante conhecer o que leciona
Alves (2005, p. 307):

Assim sendo, o sistema biopsicológico exige a averiguação da real


existência de um nexo de causalidade entre o anormal estado psíquico e o
delito cometido, isto é, que tal estado contemporâneo à ação ou omissão
criminosa privou o agente de suas capacidades psicológicas (intelectiva e
volitiva), eliminando a sua capacidade de entender e querer.

Caberia ao perito psicólogo a função de tentar delimitar, no momento do crime


em tela, se há uma patologia (seja perene ou transitória) e se esta provoca um grau
de comprometimento tal que possa perturbar, intelectiva ou volitivamente, a escolha
livre do ato (Cf. BRUNO, 2005, p. 29). Podemos usar, como exemplo, a condição de
retardamento mental grave em uma vítima. Outro exemplo, agora com uma condição
transitória, se dá com um grande grau de alcoolemia, que, embora não seja
considerada uma patologia, impede o consentimento válido para o ato sexual. Por
certo, a missão conferida pelo ordenamento jurídico ao psicólogo não é fácil! É
necessário precisar se, no momento da investida do polo ativo, a vítima possuía
grau suficiente de entendimento e de vontade para consentir com o ato.
124

Da mesma forma que cabe perícia para a vítima, cabe perícia para o autor do
fato. Como citado, o autor pode também ser afetado por algum distúrbio psíquico
que o leve a cometer uma agressão sexual, configurando a sua inimputabilidade. Tal
inimputabilidade é a irresponsabilidade penal por força de uma ou mais condições
(patologia, desenvolvimento mental incompleto ou retardado) que, ao tempo da ação
ou omissão, impossibilitavam o agente de entender o caráter ilícito do seu ato ou
mesmo o impedia de agir de acordo com esse entendimento. É o incidente de
insanidade (nomenclatura, bastante imprópria, da década de trinta do século
passado) que exculpa o agente. De pronto, ficam nítidos dois elementos a serem
observados, considerando os efeitos e sua ligação com o ato: o primeiro deles é a
incapacidade de entendimento do caráter ilícito do ato e, o segundo, a incapacidade
de portar-se de acordo com o entendimento. O psicólogo deveria, pois, verificar se
essas condições são capazes de gerar, no indivíduo, incompreensão ou dificuldade
significativa de incompreensão de que aquele ato é antijurídico. Em surto
esquizofrênico, como exemplo, o agente é incapaz de perceber o caráter ilícito do
fato, no momento em que ocorre. Na segunda condição, uma compulsão pedófila
pode não impedir o agente de entender o caráter ilícito do fato, mas o impede de
portar-se de acordo com o entendimento do ilícito. Ocorrendo qualquer dos dois
casos, o agente é considerado inimputável e isento de responsabilidade penal, ainda
que um tratamento compulsório, sob o nome de medida de segurança, seja exigido.
Essas análises, quando realizadas nessa fase e por psicólogos (sejam eles
peritos oficiais ou assistentes técnicos contratados pelas partes), devem atender a
todas as normas que regulam a profissão, principalmente o Código de Ética do
Psicólogo (BRASIL, 2005), a Resolução CFP n.º 008/2010 (BRASIL, 2010), a
Resolução CFP n.º 012/2011 (BRASIL, 2011) e a Resolução CFP n.º 017/2012
(BRASIL, 2012).

3 Relação entre o sadismo e a vulnerabilidade

Enquanto a postura do psicólogo forense deve ser de cautela, pois há


concretamente um ou mais seres humanos a serem preservados, a amplitude da
discussão in genere, que grande parte da Psicologia Jurídica possui, dá a ela um
poder de aprofundar o estudo sobre o comportamento. O uso do caso concreto pela
Psicologia Jurídica está marcado pelo anonimato das pessoas, o que não pode
125

ocorrer, por motivos óbvios, com a Psicologia Forense. Sendo assim, uma parcela
da Psicologia Jurídica está destinada a entender o comportamento de interesse do
Direito, assim como a subsidiá-lo para a consecução dos interesses estatais de uma
sociedade o mais harmônica possível.
O estudo do sadismo merece destaque para a Psicologia Jurídica, quando o
assunto é o crime contra vulneráveis, assim como a suas acepções. Krafft-Ebing, no
século XIX, define sadismo como “a associação de volúpia e crueldade” (2001, p.
07), e os manuais classificatórios aprimoraram o seu sentido como transtorno
sexual. O DSM-5, por exemplo, indica o sujeito que, pelo menos em um período de
seis meses, obtém excitação sexual recorrente e intensa a partir do sofrimento físico
e/ou psicológico de terceiros. No mesmo sentido, manifesta fantasias, impulsos ou
comportamentos correlatos a essas fantasias e a esses impulsos; coloca em prática
o que foi citado com pessoa que não consentiu ou essas fantasias causam prejuízo
social, clínico ou em qualquer outra área importante de sua vida (MANUAL, 2014, p.
696/302.84). Da mesma forma, ainda que de modo mais amplo, define-o – o CID-10
– como “Uma preferência por atividade sexual que envolve servidão ou inflição de
dor ou humilhação” (CLASSIFICAÇÃO, 2007, p. 215/F.65.5). Essa visão,
evidentemente, enfoca o caráter meramente classificatório de um comportamento,
que, embora tenha a sua utilidade, leva em conta apenas a externalidade de um
comportamento. Interessante ressaltar que a “servidão”, existente no
comportamento sexual sádico apontado pelos manuais, também é elemento na
“submissão” dos menores, no caso de pedofilia, ou mesmo de vulneráveis.
Do ponto de vista psicanalítico, o sadismo não é observado apenas sob o
prisma da sexualidade, mas do comportamento como um todo. Em 1905, nos “Três
ensaios sobre a teoria da sexualidade”, Freud (2016 [1905], p. 52) dizia que:

O sadismo corresponderia, então, a um componente agressivo do instinto


sexual que se tornou independente, exacerbado, e foi colocado na posição
principal mediante deslocamento.

Fica evidente, em Freud, que não se está falando sobre modos de classificar
o comportamento, e, sim, em uma teorização (por meio da metapsicologia) do
comportamento sádico. Dez anos depois, o pensamento ainda segue a mesma
linha, ao definir, com fins instrumentais, que “o sadismo consiste em prática de
violência, exercício de poder, tendo uma pessoa como objeto” (FREUD, 2010 [1915],
126

p. 65). O domínio sobre terceiro é o meio de satisfação do sádico, meio pelo qual
exerce o seu poder sobre ele.
Ao falar do termo “domínio”, fica implícito uma relação entre duas ou mais
pessoas. Em um polo, aqueles que dominam, e, em outro, aqueles que são
dominados. Todos já ouviram falar que o ser humano tem uma tendência a querer
adaptar o meio ambiente às suas necessidades. O que essa frase deixa claro é que
o ser humano, ao dominar o ambiente, o altera de acordo com as suas
necessidades. O domínio sobre o fogo, sobre técnicas de agricultura, sobre a
domesticação de animais que servem de alimento, sobre a tecnologia de construção
de casas, entre outros, faz o que o humano é, inclusive nos dias atuais. Para isso,
foi preciso interferir diretamente sobre o ambiente e moldá-lo, segundo a sua
necessidade e vontade. Ocorre que também o outro ser humano é parte desse
ambiente, sendo possível que possam existir polos passivos e ativos das relações
pessoais de domínio.
Quando há um quadro de sadismo sexual, a vítima não é aleatória. Ela é
escolhida por conta de suas qualidades, e, no caso de estupro de vulneráveis, de
suas qualidades vulnerantes. Dito isso, não é de todo errado cogitar que poderia
demonstrar uma percepção (consciente ou inconsciente) de hipossuficiência frente
aos não vulneráveis. A escolha versa sobre a necessidade de prevalecer,
principalmente porque sabe que a vítima não pode resistir. A inaptidão não estaria
ligada unicamente à capacidade de “fazer a corte”, ou seja, de realizar uma
“conquista amorosa” a um não vulnerável. Estaria também relacionada com a
capacidade física e psíquica da vítima resistir a uma investida mais voltada para a
força física. Busca, portanto, a postura da atividade, em detrimento da passividade,
que é típica da fase anal do desenvolvimento psicossexual, ou seja, a necessidade
de transcender à passividade através do controle.
Claro que existem diversas condições que podem fazer com que um
vulnerável seja atacado sexualmente, desde condições ambientais, sociais ou
mesmo condições psíquicas diferentes das tratadas aqui, embora não seja o foco.
O sadismo, visto assim, como na Psicanálise, não é apenas uma forma de se
estabelecer relações sexuais, senão uma forma de o indivíduo estabelecer relações
com o mundo. O vulnerável, como objeto de desejo, apenas revela o destaque do
desejo de poder e de controle sobre outro ser humano (Cf. FROMM, 1987, p. 379).
127

4 Quais os pontos principais do comportamento sádico?

Há casos em que o Estado acaba legislando sobre o que não conhece, o que
pode dá margem a resultados não pretendidos. Nelson Hungria, na década de
cinquenta do século passado, afirmava que, no que é pertinente à ofensa contra
vulneráveis, “há casos de doença ou deficiência mental que escapam ao
reconhecimento de pessoas que não sejam especialistas em psiquiatria” (HUNGRIA,
1959, p. 243). A afirmação pode ser aplicada para os dois polos da relação. Existem
condições que afetam não só a vítima, mas também o autor do ato, que podem
afetar o resultado, e estão, no dizer do Direito, em uma zona híbrida entre a
“normalidade” e a patologia.
Por certo, a caminhada inicia (e também termina) com a pulsão. Um dos
conceitos fundamentais da Psicanálise, a pulsão (trieb) é uma carga energética que
se encontra na origem da atividade motora do organismo, bem como do seu
funcionamento psíquico (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 628). São elas forças
constantes e internas, que atuam em todos os seres humanos, e das quais não há
possibilidade de ações de fuga. É a partir das pulsões que surgem as “demandas”
da pessoa. Essas pulsões ocorrem no aparato psíquico e causam desconforto
suficiente para mobilizar uma ação para neutralizá-lo. Em alemão, o verbo trieb
significa, entre outros, “aguilhoar”. Então, um incômodo interno encontra
apaziguamento quando essa energia é descarregada no meio ambiente de forma
eficiente, causando um efeito de satisfação que é percebido como prazer (FREUD,
2010 [1920], p. 124). Pulsão tem destino, ou seja, cada carga energética deve atingir
uma meta, que é a satisfação por meio de sua descarga. Essa meta é obtida quando
a energia é direcionada a objetos externos específicos, capazes de causar
satisfação. Classicamente, são duas pulsões que trabalham em conjunto, ainda que,
considerados os contextos específicos, seja possível nomeá-las de outro modo
(FREUD, 2010 [1915], p. 60).
A pulsão de vida é responsável por agrupar e criar elementos cada vez mais
complexos. A agregação de pessoas em círculos cada vez maiores e a produção
literária e intelectiva, normalmente, servem-se dessa pulsão criadora. Já a pulsão de
morte tende a desnaturar elementos complexos em elementos simples. São os
casos de destruição pela destruição e base pelo “gosto pela guerra”.
Aparentemente, as duas pulsões são imiscíveis, embora o inconsciente trabalhe
128

com o princípio de que a contradição lógica não opera, ou seja, uma pulsão pode
estar ligada a outra, e mesmo a serviço de outra. No Direito, é comum serem
percebidas nos casos clássicos de legítima defesa e onde a pulsão de morte age
para deter energicamente o agressor e manter, entre outros, a vida daquele que se
defende. O sadismo, como visto neste estudo e, mesmo, como relatado na relação
com o vulnerável, pode ser visto também como um amálgama da pulsão de vida e
da pulsão de morte. Contém em si a necessidade de criar vínculos – no caso com as
vítimas –, algo típico da pulsão de vida. Por outro lado, há também uma necessidade
de destruição, como na lesão (no mínimo, psíquica e jurídica) da vítima.
O sadismo, segundo a Psicanálise, é comum a todas as pessoas, mas, em
alguns casos, ganha lugar de destaque no arranjo psíquico, e o desejo sexual é
apenas aderido a ele. Para o sádico sexual, não é suficiente, para a obtenção de
satisfação, a relação sexual com um igual, pois é necessário o domínio sobre o
outro, no caso, o vulnerável, que está plenamente controlado pela atividade do
agressor. Cabe a um elemento fundamental, para atingir a meta da satisfação: a
passividade da vítima, a qual não consegue oferecer qualquer resistência. É o que
se pode chamar de pulsão de apoderamento (bemächtigugtrieb), que é saciada com
esse poder. O exercício desse poder também está relacionado com a necessidade
de manter o objeto, ou seja, a vítima de estupro de vulneráveis, segundo tal
descrição. Raramente ela é ferida, do ponto de vista físico, gravemente, quando
atacada por um sádico sexual, como aqui descrito. Quando há apenas o sadismo, o
crime mais provável é o homicídio, a lesão corporal ou a tortura.
No desenvolvimento do indivíduo, a criança vai percebendo, cada vez mais, o
seu potencial para se tornar autônoma, saindo da passividade para a atividade. O
controle esfincteriano é apenas um dos diversos poderes que reforçam o seu
sentimento progressivo de onipotência. A Psicanálise freudiana chama esse período
de fase anal. A megalomania e a superestimação desse período são gradativamente
arrefecidos pela realidade externa, fazendo com que a “normalidade adulta” se
instale. Quando isso não ocorre, inclusive por meio de traumas, é possível que um
traço dessas características permaneça no adulto e dê vazão a sentimentos sádicos.
Essas pulsões não são apenas “despejadas” no meio externo ao indivíduo. É
preciso saber distinguir objetos específicos para que a saciedade seja conseguida.
Do ponto de vista da segunda tópica, cabe a parte do ego consciente reconhecer as
demandas pulsionais, percebidas como desejos, e criar meios para que os objetos
129

sejam utilizados da maneira adequada para que a meta seja alcançada. Como é
cediço, em um aparelho razoavelmente bem constituído, isso não ocorre sem um
crivo moral. Dependendo do objeto, o superego criará uma barreira que tentará
impedir, algumas vezes, que o desejo chegue à consciência. Em outras, barrará
apenas a representação, deixando escapar o(s) afeto(s). E em alguns casos,
marcará o indivíduo com uma culpa sobre o que ele deseja e pelo que ele faz. Cria-
se, então, uma pressão no ego, que fica entre atender às pulsões do Id e atender às
exigências do superego. Algumas vezes, os mecanismos de defesa do ego precisam
agir para tentar aliviar tal pressão.
É sempre importante ressaltar o caráter inconsciente desses processos
agora apontados. O agressor sexual em foco não escolhe deliberadamente o objeto
de seu desejo, mas o sente – do seu ponto de percepção –, passivamente. De
maneira imprecisa, tal sentimento é descrito como “preferência”. A preferência é
ativa, na qual o sujeito escolhe entre alternativas. O desejo não é uma escolha ativa
da consciência, e, sim, sentida passivamente por ela. Não há escolha sobre o que
se deseja, senão possibilidade de execução, ou não, do desejo, segundo a limitação
de entendimento e o exercício de vontade. Com efeito, os arranjos psíquicos dos
indivíduos possuem caminhos desconhecidos por eles mesmos e, algumas vezes,
são deveras desagradáveis. Por vezes, aparecem nas clínicas pacientes
atormentados por desejos dos quais não só se envergonham, mas também não
possuem controle. Em casos mais acentuados, os pacientes sequer possuem
controle sobre suas ações, ainda que a mera cogitação cause um profundo
incômodo, do ponto de vista moral. Podemos apontar que o desejo por vulneráveis é
um arranjo precário, mas, caso o funcionamento psíquico do agressor não fosse
assim, poderiam surgir arranjos piores (FREUD, 2011 [1923]). Isso é um infortúnio
para alguns algozes e, certamente, também para suas vítimas.
Ainda que fatores culturais e sociais estejam excluídos das afirmações logo
acima, não se pode olvidar os traços sádicos, ainda que potencialmente em menor
destaque psíquico, não apenas dos indivíduos envolvidos nas práticas sexuais com
vulneráveis, mas também os traços sádicos da cultura e da sociedade envolvida.

5 Algumas contribuições para a discussão sobre o estupro de vulneráveis


130

Fica claro que o tema é tão complexo que não cabe em apenas poucas
páginas a que este trabalho está destinado, mas, em uma visão panorâmica, é
possível tratar do tema para que seja aprofundado com debates e estudos
posteriores. Dessa forma, cabe apontar algumas questões relevantes sobre o que foi
aqui tratado.
Não se pode esquecer que, quando uma sociedade aponta um
comportamento como “crime”, demonstra a relevância e, mesmo, os juízos de valor
envolvidos com o tema. É inadmissível a possibilidade de que um adulto mantenha
relações sexuais com vulneráveis. Até então, nada demais, pois é um conceito
amplamente aceito. No entanto, o psicólogo precisa ter em mente que essa
valoração não pode influenciá-lo, de forma alguma, nas suas atividades. Para um
número não negligenciável de pessoas, a simples acusação de “estupro” é suficiente
para criar um juízo de culpa e o impulso para linchar o acusado. Em perícias
exigidas, avaliações ou qualquer outra atividade do psicólogo, é preciso, ao máximo,
fazer com que esses valores e reações não influenciem no resultado do trabalho
técnico-científico produzido.
Da mesma forma que a ponderação e a isenção devem nortear a realização
do trabalho pericial, questões éticas devem ser respeitadas, em diversos níveis, pelo
psicólogo. Um deles é o trato com o periciando. Independentemente, se a análise
deve ser feita com a vítima ou o acusado, há ali um ser humano a quem se deve
atenção e cuidado. Outra questão é a relativa ao sigilo pertinente à própria relação.
Apenas questões atinentes ao processo, consideradas relevantes e, mesmo,
essenciais, devem ser apontadas.
Quanto à vulnerabilidade ou mesmo à inimputabilidade, é preciso não só
determinar se há entendimento ou capacidade de se portar de acordo com o
entendimento, mas também determinar em que grau. É possível que exista alguma
afetação do comportamento, que apenas atrapalhe o indivíduo, ainda que mantenha
preservada a sua capacidade de entendimento e de vontade do ponto de vista
jurídico. Por isso, a expressão “era inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito
do fato ou de portar-se de acordo com esse entendimento”. Isso, evidentemente,
vale não só para a avaliação pericial do vulnerável, como também para o
inimputável.
Por certo, a Psicanálise, com o perdão da paródia shakespeariana, propiciou
o conhecimento de que existem mais coisas, entre o funcionamento do aparato
131

psíquico e o ato, do que sonham alguns teóricos do Direito Penal. Não se trata de
uma simples “escolha”, pois depende de uma série de fatores que envolvem a
história de vida, a cultura em que está inserido, o arranjo psíquico, as interações
sociais, os referenciais fantasmáticos, a boa estruturação do superego, a educação
formal e doméstica recebida, as impressões pessoais, entre tantos outros fatores.
Em suma, a Psicanálise endossa uma série de outras abordagens que percebem o
fenômeno criminal como multifatorial. Não carrega, pois, o estigma de uma
patologização do comportamento criminoso.
A aplicação da pena de prisão - seja ela de oito a quinze, de dez a vinte ou de
doze a trinta – não tem o condão de, per se, diminuir a incidência dos crimes em
tela. A convicção “cultural” (?) de que a prima nocte de uma filha deve ser realizada
pelo pai, de que alguns indivíduos não possuem direitos (e que podem ser
“usados”), por não serem considerados verdadeiramente humanos, é exemplo de
que uma comunidade pode, simplesmente, ignorar o cumprimento da lei, por
acreditar (ou racionalizar) que está realizando um ato correto. Políticas públicas de
conscientização são muito mais eficientes nesses casos, que a prisão em si.
Em casos de sadismo sexual exercido com vulneráveis, o que está em tela é
a pulsão de apoderamento, na qual as necessidades de poder, de controle e de
atividade estão em evidência. Ela age como força interna constante e, em alguns
casos, compulsivamente sobre o indivíduo, sem que exista fuga possível. Por mais
que haja uma tendência da população em acreditar na aplicação da pena com fim
dissuasório, esta não se mostra eficiente contra essas forças. Sendo assim, a
aplicação da pena, per se, não altera a relação do indivíduo com o vulnerável e,
mesmo, com o mundo. Mesmo que fosse a intenção, vários casos relatados
demonstram a inabilidade do sistema prisional em lidar com o interno que cometeu
abuso de vulneráveis. Ao observar como o Estado lida com os casos que aparecem
e são processados, bem como com a reincidência, mostra que não há outro
interesse senão o punitivo e nunca o ressocializador. Quando muito, existe uma
tentativa crescente, por parte de setores da sociedade, em neutralizar a
possibilidade de ofensa (em um pensamento exclusivo de segurança pública) por
meio da castração química (Cf. SCOTT; HOLMBERG, 2003; MAIA; SEIL, 2014). Em
todo caso, a vingança social se sobressai ao manejo que tenta lidar com o indivíduo
concreto e presente, que busca tentar entendê-lo.
132

Cabe ao psicólogo, e também a outros profissionais, o caráter pedagógico e


científico de explicar como ocorrem os fenômenos envolvidos no tema, para que,
além de desmistificar algumas crenças errôneas, seja possível tratá-los de maneira
científica e eficiente – o que gera melhores resultados para toda a população.

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