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B ens culturais da igreja

Documentos Vivenciados
Claudio Correia de Oliveira Neto
(Organizador)
Alexsandro Lopes da Costa
George Vinícius Lima da Silva
José Carlos Arcelino da Silva
Leonardo da Silva
Moises Cunha Cavalcante
Thalles Henrique Araújo da Silva

ARQUIVO METROPOLITANO DA ARQUIDIOCESE DE NATAL


B ens culturais da igreja

Documentos Vivenciados
Cláudio Correia de Oliveira Neto
(Organizador)
Alexsandro Lopes da Costa
George Vinícius Lima da Silva
José Carlos Arcelino da Silva
Leonardo da Silva
Moises Cunha Cavalcante
Thalles Henrique Araújo da Silva

ARQUIVO METROPOLITANO DA ARQUIDIOCESE DE NATAL


Arquidiocese de Natal
Arcebispo Metropolitano
Dom Jaime Vieira Rocha
Coordenadora do
Arquivo
Metropolitano da
Arquidiocese de Natal
Ir. Vilma Lúcia de Oliveira

Bens Culturais da Igreja – Documentos


Vivenciados/Cláudio Correia de Oliveira Neto
(Organizador). Natal: Arquidiocese de Natal,2018.
195 f.
1. Bens Culturais da Igreja. 2.Igreja.
3. Patrimônio Histórico
Sumário
Introdução..................................................................... 7
A formação dos futuros presbíteros à atenção para com os bens culturais da
Igreja .......................................................................... 9
As bibliotecas eclesiásticas na missão da Igreja ............................. 24
Os bens culturais dos institutos religiosos ...................................... 39
A função pastoral dos arquivos eclesiásticos ..................................50
Necessidade e urgência da inventariação e catalogação dos bens culturais da
Igreja ........................................................................ 72
A função pastoral dos museus eclesiásticos ..................................104
Inventariação dos bens culturais dos Institutos de Vida Consagrada e das
Sociedades de Vida Apostólica: algumas orientações práticas ........... 159
Crônica I ................................................................ 163
Crônica II .............................................................. 167
Crônica III ........................................................... 172
Crônica IV ............................................................. 178
Crônica V ................................................................ 183
Crônica VI ............................................................. 189
6

Sobre o organizador

Atualmente cursando o mestrado em História e Espaço na Universidade Federal


do Rio Grande do Norte com o projeto E QUE VENHA A NÓS O VOSSO
REINO: O PROGRAMA DE EDUCAÇÃO POLÍTICA DA ARQUIDIOCESE DE
NATAL (1972-1977). Formação em História pela Universidade Federal do Rio
Grande do Norte- UFRN (2015), Especialista em Educação de Jovens e Adultos
no contexto da Diversidade pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Rio Grande do Norte - IFRN (2018) e Arquivista consultor
voluntário no Arquivo Metropolitano da Arquidiocese de Natal (2018).
Trabalhou como pesquisador colaborador da Agência Espacial Brasileira no
Centro de Lançamento da Barreira do Inferno no processo de pesquisa sobre a
história da instituição e elaboração do Centro de Cultura Espacial e Informações
Turísticas (2010-2012). Foi instrutor e monitor dos Projetos “Memória e
Patrimônio da Euroamérica de Natal: da Ribeira a Cidade”(2011-2013), e
“Patrimônio: Cruzadas Históricas”(2014), “Identidade Potiguar: nas trilhas do
ensino de História do Rio Grande do Norte” (2014) e “ Documental e Produção
de Instrumentos de Pesquisa do Arquivo da Arquidiocese de Natal” pela Pró-
reitoria de Extensão da UFRN(2014). Foi também bolsista do Ministério Público
do Trabalho do Rio Grande do Norte no levantamento histórico para a criação
do memorial da referida instituição (2014).
7

Introdução
A presente obra é parte dos esforços do Arquivo Metropolitano da
Arquidiocese de Natal (AMAN) em promover uma política institucional de
proteção e promoção dos Bens Culturais da Igreja e do seu rico patrimônio
histórico cultural da Arquidiocese. O e-book “Bens Culturais da Igreja –
Documentos Vivenciados” é mais um fruto dos 12 anos de trabalhos da equipe
técnica do AMAN coordenado pela irmã Vilma Lúcia de Oliveira em conjunto com
o diácono João Manoel Neto e assessorada inicialmente pela historiadora
Margarida Maria Dias de Oliveira, e atualmente pelos historiadores Poliana
Cláudia Martins da Silva e Cláudio Correia de Oliveira Neto.
Resultado da disciplina Bens Culturais da Igreja ministrada no Seminário
de São Pedro, Natal, Rio Grande do Norte, este e-book reúne as 7 Cartas Pastorais
produzidas pela Comissão Pontifícia para os Bens Culturais da Igreja no período
de 1992 e 2006 que tratam dos mais diversos bens da Igreja. Além de conter
crônicas dos seminaristas que cursaram a disciplina e a luz dos textos estudados,
refletiram, cada uma a sua maneira, sobre o uso dos bens culturais na celebração
dos Mártires de Cunhaú e Uruaçu em 03 de outubro de 2018.
Nosso intuito com a obra é fazer com que a comunidade arquidiocesana de
Natal conheça minimamente os seus deveres para com a preservação dos bens
culturais da igreja e usufrua deles da melhor maneira possível Esperamos que a
leitura das Cartas Pastorais e crônicas sensibiliza o povo de Deus a conhecer e
cuidar do legado material e imaterial da Santa Madre Igreja.
Esta iniciativa de insere em uma maior que é o I Colóquio de Bens
Culturais da Igreja realizado em parceria com o Seminário de São Pedro em 28
de outubro de 2018. O evento conta com a publicação de mais um e-book, “Educar
para preservar” que sistematiza a experiência da disciplina ministrada, uma mesa
redonda com os representantes dos laboratórios do departamento de História da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte e o lançamento do curso a distância
de Bens Culturais da Igreja no blog do AMAN. Em breve haverá ainda o
lançamento dos catálogos do AMAN com o e-book das Cartas Pastorais
comentadas por especialistas da área de Patrimônio Histórico Cultural e Bens
Culturais da Igreja.
Desejo a todos uma frutífera leitura das Cartas e das crônicas que nos
sensibilize para a preservação e promoção dos bens culturais da igreja que nos
cercam no nosso cotidiano e nos inspire.

Cláudio Correia de Oliveira Neto


Organizador
8
9

A formação dos futuros


presbíteros à atenção para com os
bens culturais da Igreja
(15 de outubro de 1992)
10

Carta circular sobre a formação cultural e pastoral


dos futuros sacerdotes em suas responsabilidades futuras
sobre o patrimônio artístico e histórico da Igreja

Roma, 15 de outubro de 1992

PROT. 121/90/18

Sua Eminência / Excelência

O nosso Santo Padre João Paulo II, desejando sinceramente uma frutuosa
valorização dos bens culturais da Igreja na obra de evangelização, como solicitado
pelos recentes acontecimentos históricos e preocupada com a proteção deste
precioso património artístico e histórico da Igreja e da humanidade como um
todo, procurou estimular um dinamismo renovado na Igreja em relação a esses
valores. Ele, portanto, estabeleceu um novo organismo dentro da Cúria Romana,
que poderia cuidar desta área específica de atividade pastoral e cultural.

Com a entrada em vigor da Constituição Apostólica “Pastor bonus”, em 1


de março de 1989 iniciou-se a Pontifícia Comissão para a Conservação do
Patrimônio Artístico e Histórico da Igreja.

Uma das preocupações principais e constantes que surgiram da pesquisa


realizada sobre a situação atual das coleções artísticas e históricas da Igreja em
todo o mundo, é que sem um esforço renovado por parte do clero em relação à
conservação desses bens e a sua valorização cultural e pastoral e a consciência do
seu papel no trabalho de evangelização, na liturgia e no aprofundamento da fé,
aquela nova dinâmica desejada pela Constituição “Pastor bonus”, dificilmente
será possível (1).

Além disso, notamos o problemático fenômeno do uso indevido de uma


série de coleções artísticas e históricas da Igreja, que foram subtraídas do local
para o qual foram originalmente destinadas a fazer parte de residências
particulares ou coleções. Isso ocorre devido às ações arbitrárias, por vezes,
realizadas pelos responsáveis pela custódia de tais bens ou, mais frequentemente,
devido ao crescente fenômeno de roubo. Em ambos os casos, é indispensável que
os próprios sacerdotes assumam a responsabilidade de cuidar das coleções
artísticas e históricas da comunidade cristã, enquanto se esforçam por sua
proteção e custódia.

Em numerosas ocasiões, a Santa Sé enfatizou e chamou a atenção dos


pastores para este dever, sublinhando como é imprescindível que eles tenham, já
na época de seus primeiros anos de formação sacerdotal, uma profunda
compreensão do valor da arte sacra. Eles devem estar conscientes da importância
de estabelecer, proteger e usar adequadamente os arquivos eclesiásticos, e de
11

garantir a conservação e promoção das coleções da biblioteca para as


comunidades cristãs (2).

Como vamos mencionar neste mesmo texto, a "Ratio Fundamentalis


institutionis sacerdotalis", ecoando a Constituição conciliar " Sacrosanctum
Concilium ", solicitou que a Sagrada Liturgia, um dos principais temas para os
estudos teológicos, seja apresentada "em conexão com outros assuntos".
(3). Dentro das "Normas" emitidas por vários episcopados para a preparação do
clero em suas respectivas nações, os seguintes temas foram incluídos: arte sacra,
arqueologia, estudos de arquivo e estudos bibliotecários como parte da formação
litúrgica e pastoral. Isto foi feito a fim de promover em seus futuros sacerdotes
uma sensibilidade e preparação adequadas em relação à sua futura
responsabilidade na área das coleções artísticas e históricas da Igreja.

Depois de um exame acurado das diferentes situações que se encontram


nas várias igrejas particulares, esta Pontifícia Comissão considera parte de sua
tarefa - em colaboração com a Congregação para a Educação Católica - dirigir esta
carta aos Reverendíssimos Bispos, aos cuidados de quem a formação integral dos
futuros sacerdotes foi destinada a sugerir uma intensificação ou a recuperação de
um esforço de promoção de uma sensibilidade e responsabilidade adequadas em
relação à valorização, conservação, custódia e fruição das coleções artísticas e
históricas da Igreja em a parte de todos aqueles que estão se preparando para o
sacerdócio.

I - UM PROBLEMA IMPORTANTE PARA A VIDA DA IGREJA

1 . Ao longo dos séculos, a Igreja tem percebido tradicionalmente a promoção, a


custódia e a valorização das mais altas expressões do espírito humano nos campos
históricos e artísticos como parte integrante de seu ministério.

Além de manter uma relação própria com a promoção integral do homem


através de várias iniciativas culturais e educacionais, a Igreja anunciou o
Evangelho e aperfeiçoou o culto divino de muitas maneiras com a ajuda de artes
literárias e figurativas, música, arquitetura e conservando as memórias históricas
e os preciosos documentos da vida e reflexão dos seus fiéis. Graças a estes meios,
a mensagem de salvação foi comunicada e continua a ser comunicada hoje a
multidões inteiras de crentes e não crentes.

Esta constante atenção da Igreja enriqueceu a humanidade com um


imenso tesouro de testemunhos da ingenuidade humana e sua adesão à fé. Isto
constitui uma parte conspícua do patrimônio cultural da humanidade.

2. O Concílio Vaticano II, também, recordou solenemente esta responsabilidade


e este ministério da Igreja (4). No que diz respeito à arte sacra, tem-se dedicado
particularmente à formação artística do clero: "O clero, durante os cursos de
12

estudos filosóficos e teológicos, deve também ser ensinado a história e


desenvolvimento da arte sacra, bem como os princípios saudáveis sobre que as
obras da arte sacra devem ser fundadas, para que possam apreciar e conservar os
monumentos veneráveis da Igreja e possam oferecer conselhos adequados aos
artistas para a realização de suas obras "(5). O Conselho, de fato, levou em conta
dois importantes componentes do problema, que gostaríamos de submeter agora
à atenção daqueles indivíduos e instituições responsáveis pela formação dos
futuros sacerdotes.

3. Hoje, por um lado, notamos uma forte e crescente conscientização do valor do


patrimônio artístico e cultural das pessoas em várias partes do mundo e em
diferentes culturas. Uma nova preocupação foi dedicada a esta área. Recursos
novos e mais abundantes foram empregados para sua conservação e uso. Altos
gritos de protesto foram soados contra o risco de sua dispersão e destruição.

Enquanto a humanidade registrou o fracasso de um modelo de vida


baseado no consumo do poder efêmero e incontestável da tecnologia e enquanto
as ideologias que fecharam suas portas à transcendência humana e à
espiritualidade do homem estão desmoronando, notamos um crescente apelo por
a fruição daqueles bens típicos do espírito humano e característicos das
manifestações superiores do gênio do homem. Num mundo ameaçado por novas
formas de crueldade e atravessado por um fluxo migratório cada vez mais
impressionante que expõe populações inteiras a viver quase desenraizadas de seu
húmus, um número crescente de homens e mulheres está se tornando sensível ao
valor humanizador das expressões artísticas e culturais. Como consequência, há
uma crescente convicção de que sua conservação adequada,

4. Por outro lado, estamos conscientes de que o esforço e a responsabilidade de


contribuir para este trabalho de humanização, para este cuidado com o
"suplemento da alma" que deve ser garantido ao mundo moderno, gravitam
particularmente na Igreja e - dentro a comunidade cristã - cai sobre todos os
ombros do clero. Sob a direção dos Bispos e do Sucessor de São Pedro, eles
presidem com autoridade e orientam o trabalho de evangelização que se realiza
também através da promoção, do cuidado e do uso de bens culturais. A eles foi
atribuído de maneira muito especial o trabalho sábio e esclarecido de conservação
dos bens da comunidade, do qual uma parte consistente vem das obras da
ingenuidade humana e dos preciosos testemunhos da fé de nossos pais. Além do
que, além do mais, eles têm que se tornar promotores de um diálogo constante
entre a comunidade eclesiástica e os homens de cultura e artistas. Isso serve para
renovar uma tradição que deu vida a obras-primas imortais, contribuindo para o
enriquecimento interior da própria arte, da comunidade de fiéis e da humanidade
como um todo.

5. Recordando estas considerações e tendo em conta o recente inquérito realizado


pela Pontifícia Comissão para a Conservação do Património Artístico e Histórico
13

da Igreja nas Igrejas particulares, temos infelizmente de dizer que em muitos


casos a preparação do clero para esta tarefa durante estes anos recentes tem sido
bastante fraco e incompleto, se não totalmente ausente.

É verdade que em nosso mundo moderno os sacerdotes se veem diante de


numerosos, urgentes e complexos problemas ligados à obra de evangelização e à
orientação pastoral de sua comunidade. Mas também é verdade que sua
capacidade de administrar e avaliar corretamente os bens culturais que lhes são
atribuídos faz parte de sua missão que, com base nas considerações precedentes,
certamente não constitui um fator secundário ou insignificante. Mesmo nos casos
em que a relação entre padres e bens culturais é adequadamente mediada por
leigos competentes e consultores especializados, a responsabilidade final e, acima
de tudo, o propósito pastoral do uso desses bens continua a ser a principal
responsabilidade daqueles que presidem à comunidade e isso requer uma
preparação adequada.

As consequências negativas de uma falta de sensibilidade estética e


pastoral na gestão dos bens culturais são, em muitos casos, evidentes. Eles têm
sido frequentemente o motivo de uma queixa justificada por parte das
autoridades eclesiásticas e civis. Os roubos têm sido causados, às vezes, por grave
falta de proteção, por danos, uso indevido e destrutivo, vendas ilegais,
restaurações incompletas e devastadoras, atendimento inadequado às coleções,
dificuldade de diálogo ou relações estéreis com o mundo do artista e dos
especialistas. (6).

6. Em vista desses fenômenos, uma atenção renovada da parte de toda a Igreja a


esse problema parece cada vez mais urgente. Muito tem sido feito e muito ainda
está sendo realizado para corrigir erros e evitar negligências. Mas resta mais a ser
feito, sobretudo, na área de uma sensibilidade e informação renovadas sobre a
importância deste aspecto primário do serviço da Igreja no anúncio da mensagem
do Evangelho e no apoio ao verdadeiro progresso da humanidade.

Assim, acreditamos que estamos diante de um problema real cuja


importância não deve escapar a ninguém. Assume uma característica de
particular urgência, se considerarmos a sua pertinência para a grande tarefa da
nova evangelização. Uma solução adequada para este problema será capaz de
oferecer possibilidades novas e eficientes nos campos da catequese e da pastoral
litúrgica e, de um modo mais geral, na área da promoção e difusão da cultura. Este
último aspecto nunca foi considerado estranho às preocupações da Igreja para o
desenvolvimento integral da humanidade.

7. Com base nessas considerações, parece oportuno que a Pontifícia Comissão


para a Conservação do Patrimônio Histórico e Artístico da Igreja ofereça aos
venerados bispos e particularmente aos responsáveis pela formação sacerdotal e
religiosa uma contribuição específica para a meditação. Seguem-se algumas
14

sugestões práticas sobre a preparação dos futuros sacerdotes para a promoção,


proteção e valorização dos bens culturais.

Assim, recordamos e renovamos uma tradição há muito conhecida que


envolveu a Igreja e, em particular, os Sumos Pontífices e os Dicastérios da Santa
Sé, enfatizando muitas vezes solenemente a importância deste problema e as
formas de abordá-lo de maneira eficiente (7). ).

A presente contribuição está muito de acordo com as reflexões inspiradas


pelo recente Sínodo dos Bispos sobre a formação sacerdotal. Entre as
"circunstâncias atuais" lembradas pelo tema do Sínodo, podemos identificar de
fato o que já mencionamos acima. Em mais de uma intervenção dos padres
sinodais, o tema dos bens culturais como meios de evangelização e promoção da
fé foi referido de maneira mais ou menos direta. Encontramos isto ecoado na
Exortação Apostólica do nosso Santo Padre João Paulo II (8).

8. Pretendemos aqui apresentar algumas observações e sugerir algumas


prioridades em relação a quatro pontos principais: em primeiro lugar, o objetivo
desta intervenção e os aspectos educacionais que ela pretende
sublinhar; segundo, uma análise do itinerário educacional como um
todo e seus principais componentes individuais, a fim de insistir - como nosso
terceiro ponto - no aspecto intelectual-escolástico desse tipo de
formação. Finalmente, nos voltaremos para algumas outras considerações sobre
os educadores e os instrumentos adequados para uma preparação
adequada dos sacerdotes na promoção, conservação e valorização do patrimônio
dos bens culturais destinados aos seus cuidados.

II - O objetivo deste documento

9. Este documento pretende ajudar os responsáveis pela formação de candidatos


ao sacerdócio, definindo o itinerário educativo e, sobretudo, sugerindo as formas
operativas e as iniciativas voltadas para conscientizar os futuros sacerdotes de sua
tarefa em relação às coleções artísticas e históricas do sacerdócio. Igreja,
inserindo essas maneiras organicamente dentro de seu currículo educacional.

Por se tratar de iniciar ou definir um programa educacional que nos


últimos anos foi interrompido ou sofreu atrasos ou lacunas por diversos motivos
em muitos círculos eclesiásticos, a principal preocupação é estimular uma
profunda reflexão sobre a situação atual, as necessidades e necessidades, os
recursos disponíveis ou a serem empregados, a fim de criar as condições para a
criação de iniciativas concretas de forma gradual e bem pensada.

Não nos esqueçamos de que este é um problema enfrentado na formação


permanente do clero também. No entanto, queremos concentrar nossa atenção,
pelo menos por enquanto, na formação inicial dos futuros sacerdotes.
15

10. O que pretendemos dizer refere-se particularmente aos candidatos ao


sacerdócio filiados ao clero diocesano, aos institutos de vida consagrada e às
sociedades de vida apostólica. Considerando, no entanto, a grande
responsabilidade de tantos leigos religiosos e religiosas que trabalham com bens
culturais, esta carta é também dirigida a candidatos formados em Institutos de
Vida Consagrada e Sociedades leigas de vida apostólica, masculinos e femininos,
para que possam também estar preparado para levar em conta este aspecto de
sua atividade apostólica.

11. Certamente não pretendemos preparar especialistas no tema da gestão de


bens culturais. O que queremos alcançar é simplesmente que os pastores
adquiram esse tipo de sensibilidade e competência que lhes permita avaliar
atentamente a extensão dos valores em questão, para que possam, na ocasião,
beneficiar-se corretamente da colaboração de especialistas sem depender de
excessivamente destes. Os sacerdotes devem ser treinados para educar a
comunidade sob seus cuidados para esses valores. Eles devem ser capazes de
colaborar corretamente com associações, administrações públicas e privadas e
organizações dedicadas à proteção e promoção da arte e das várias formas de
cultura.

12. A área a que nos referimos não inclui apenas a arte sacra (arquitetura,
pintura, escultura, mosaicos, música, decoração interna e todas as outras formas
de arte relacionadas com a produção da liturgia e do culto), mas também
bibliotecas, arquivos, museus muitos dos quais ainda estão surgindo hoje e estão
sendo renovados ou atualizados com uma qualificação eclesiástica particular. A
promoção e o cuidado de todas essas áreas devem ser considerados como um
serviço de grande valor oferecido a toda a comunidade cristã, sob cuja proteção
permanece uma parte tão visível do patrimônio cultural da humanidade.

III - UM ITINERÁRIO COMPLETO DE FORMAÇÃO E PORQUE

13. Antes de expressar algumas sugestões particulares, queremos recordar que,


particularmente no nosso caso de uma típica "formação pastoral"; nossa
preocupação não é apenas garantir a transmissão de noções ou informações sobre
bens culturais. Mais do que isso, pretendemos traçar um itinerário de formação
que, sob diversos aspectos e com diferentes meios, quer garantir o crescimento
de uma sensibilidade madura para esses valores no contexto de um projeto
educacional para cada seminário ou casa de estudos.

Bens culturais devem ser conhecidos e apreciados por pessoas instruídas


que serão capazes de compreender seu valor global e se beneficiar da
contemplação daquelas verdades que comunicam.

Nós nos vemos confrontados com um problema que não é apenas


acadêmico, mas cujas raízes se estendem à formação global da sensibilidade de
16

um indivíduo. Consequentemente, sob esta perspectiva e para a maioria dos casos


em relação aos futuros padres, significará integrar uma cultura, que em várias
partes do mundo parece tornar-se cada vez mais técnica e eficiente. Isso não
favorece espontaneamente a afirmação de uma mentalidade humanista que
representa uma premissa indispensável para avaliar corretamente as mais altas e
autênticas expressões do espírito humano.

14. A formação deve lidar sobretudo com este tipo de integração, especialmente
se os candidatos ao sacerdócio vêm de um ambiente caracterizado por uma
cultura técnica unilateral prevalente e uma "mentalidade científica",
apresentando assim lacunas graves do ponto de vista da experiência estética,
sensibilidade histórica e literária, uma consciência "participante" em relação ao
mundo artístico e, acima de tudo, a capacidade de compreender esses valores.

Os estudantes devem envolver-se pessoalmente no aprendizado desse


"humanismo" que, em seu sentido mais nobre e equilibrado, revela-se como
premissa dispensável e acompanhamento necessário para acolher a mensagem
evangélica por parte de indivíduos ou culturas singulares. Como se pode
perceber, isso não implica apenas um esforço intelectual, mas sim um
crescimento global do indivíduo em termos do nível de maturidade de sua
sensibilidade, de sua crença religiosa e adoração, e de seus níveis cultural,
espiritual e pastoral.

Os programas educacionais de seminários e casas de estudos devem


enriquecer-se de muitas maneiras e em ocasiões selecionadas e planejadas,
através de experiências e estímulos adequados, visando aumentar essa
maturidade global.

15. É sensato recordar aqui que o ambiente onde está educação se realiza
representa já em si um lugar de potencial educativo. Mesmo um ambiente simples
ou moderno será mais ou menos capaz de facilitar uma atmosfera de
recolhimento e aumentar o crescimento de uma sensibilidade estética
adequada. Isso é ainda mais matiz se alguém vive em lugares cheios de história e
arte.

16. A própria vida comunitária também pode ser importante para o nosso
objetivo. Estimular um sentido de participação ativa e assumir a
responsabilidade, ensinando um espírito de colaboração e compreendendo os
próprios limites, aumentando o respeito pelos dons alheios e a capacidade de
explorar esses dons, guiando-os ao serviço do Evangelho, são apenas alguns dos
componentes desse aspecto da educação para o ministério presbiteral.

A incapacidade de adquirir essas qualidades humanas pode ser uma das


causas mais imediatas do comportamento imaturo em relação ao patrimônio
histórico e artístico ou às dificuldades encontradas para realizar um diálogo
17

correto e frutífero com o mundo dos artistas. Nada pode inibir uma apreciação do
tom e do belo mais do que uma mentalidade estreita.

17. A formação espiritual também assume grande importância neste mestre. A


vida litúrgica tem um papel muito importante na educação da sensibilidade
estética. A primeira escola de arte é composta pelas celebrações realizadas na
comunidade formadora. Eles devem ser exemplares, mesmo em um ponto de
vista artístico. Isso implica uma verificação constante de seu nível e de sua
qualidade, a fim de evitar excessos opostos de descuido ou refinamento bizarro e
esmagador, ambos contrários ao bom senso estético.

A oração comunitária e individual são também importantes momentos de


formação para uma sensibilidade artística profundamente integrada na
experiência da própria fé. Os responsáveis pela formação espiritual devem,
portanto, educar a oração de modo a deixar espaço para as dimensões da
sensibilidade, imaginação e contemplação estética. O último; se bem inserido na
experiência da graça e no acolhimento do Espírito, de modo algum é distrativo ou
evasivo. Na verdade, é um veículo para uma celebração mais profunda das
"grandes obras do Senhor".

18. A prática pastoral frequentemente encontra problemas associados à arte


sacra e à arte em geral.

Portanto, é necessário que os futuros sacerdotes sejam ajudados, em


primeiro lugar, a não ignorar esses problemas, mas a saber reconhecê-los, avaliá-
los e enfrentá-los com prudência e inteligência pastoral. Já durante suas
primeiras experiências ministeriais, eles se tornarão conscientes das
responsabilidades que os esperam como guias da comunidade de fiéis em um
mundo tão fascinante, rico em recursos, mas também em necessidade de
purificação e orientação.

IV - FORMAÇÃO ACADÊMICA E INTELECTUAL

19. O que dissemos até agora certamente não pretende subestimar a contribuição
específica da formação intelectual para uma solução do nosso problema por meio
de uma estrutura apropriada de cursos acadêmicos. Queremos apenas colocar
esta área de formação decisiva e essencial dentro do contexto mais amplo do
crescimento global de um indivíduo, que também deve constituir o objetivo da
formação acadêmica.

Nas sugestões a seguir, vamos respeitar as indicações da Ratio


Fundamentalis, que sabiamente recomendam não "multiplicar o número de
temas, mas tentar inserir adequadamente nos já existentes novas questões e
aspectos". (9)
18

20. A fim de integrar as lacunas dos currículos de estudos anteriores, deve-se


favorecer, tanto quanto possível, a contribuição de uma boa formação secundária
no seminário menor ou de outras formas de formação educacional e cultural das
vocações nos primeiros anos da adolescência.

No recente Sínodo dos Bispos sobre a formação dos futuros sacerdotes,


muitos Padres têm insistido na necessidade de propor às vocações jovens e
adultas um ano introdutório de teologia. Durante esse tempo, pode-se encontrar
a colocação adequada de cursos de história da arte, história da civilização e
filosofia, que podem ser de grande ajuda para a maturidade da sensibilidade
humanística e artística. O documento pós-sinodal acolheu este pedido (10).

21. Os cursos de filosofia devem, com razão, incluir a apresentação de um


conjunto suficiente de questões relativas à estética.

A teologia sistemática pode apresentar muitos temas importantes


referentes à "forma" de revelação. Este último pode ser avaliado não apenas à luz
dos transcendentais, do verdadeiro e do bom, mas também do belo, um aspecto
muitas vezes ignorado (11).

A teologia espiritual, em particular, será capaz de influenciar


positivamente nesse sentido por meio de uma análise de temas como a iconologia
ou a influência do elemento estético em geral sobre a ascensão das experiências
cristãs mais elevadas.

O ensino da lei de canoagem deve incluir uma análise de cânones


importantes que dizem respeito à gestão de bens culturais e obras de arte.

O papel do ensino da liturgia é ainda mais importante, pois deve enfatizar


o valor expressivo e comunicativo da fé, que pode ser atribuído a obras de
arquitetura, pintura, música de escultura, em relação às celebrações sacramentais
e ao culto.

Isso vale também para a história e patologia eclesiásticas que oferecem


uma ampla gama de possibilidades para destacar a criatividade da fé cristã, sua
capacidade de aceitar e elevar várias expressões artísticas, a profunda relação
existente entre a reflexão teológica e a inculturação da fé e da fé, trabalhos de arte.

Finalmente, mesmo na teologia pastoral, que recentemente adquiriu


maior atenção nos estudos eclesiásticos, há amplas áreas nas quais os temas da
arte sacra, bens culturais e o papel dos pastores da comunidade cristã como guias
responsáveis por tais bens podem ser tratados de acordo com novos pontos de
vista.
19

22. Embora tenhamos recomendado, como mencionamos anteriormente, não


multiplicar desnecessariamente cursos acadêmicos, a Ratio Fundamentalis
reconheceu o papel e a importância de cursos especiais e disciplinas eletivas (12).

Alguns episcopados nacionais empenhados em elaborar as "Normas" para


seus próprios seminários adotaram essa iniciativa (13). Eles sugeriram que os
cursos fossem planejados em que a história e os princípios da arte sacra,
arqueologia cristã, ciência de arquivos e biblioteconomia fossem incluídos. Esses
cursos podem contribuir na seleção de um número de estudantes que podem se
especializar nesses assuntos, a fim de que também possam se tornar um estímulo
e uma ajuda para seus irmãos.

23. Desejamos que, durante a revisão e atualização de todas as "Normas" de cada


Conferência Episcopal, esta seção de áreas específicas seja especificamente
planejada, uma vez que se enquadra no tema geral da "formação cultural e
pastoral relativa aos bens culturais eclesiásticos". " Podemos até dizer que é
possível neste momento que todos os seminários e casas de estudos delineiem e
intensifiquem um programa específico sobre o assunto, avaliando o espaço
disponível dentro dos temas co-naturais para o tema do patrimônio artístico e
histórico, já que indicado acima (14).

A publicação de manuais adequados poderia ser de grande utilidade nesse


sentido. Eles poderiam apresentar, de maneira unificada, as teses essenciais
sobre a complexa questão jurídica, litúrgica, estética, pastoral e técnica de
conservação, restauração, gestão e responsabilidade para com os bens culturais
da Igreja e o papel dos futuros sacerdotes nesta área.

24. Em termos de orientação acadêmica e vida acadêmica em geral, devemos


finalmente sublinhar a utilidade de iniciativas específicas, como reuniões com
artistas e críticos de arte, participação em alguns dos principais eventos artísticos,
informações e visitas a instituições diocesanas (por exemplo, museus diocesanos,
arquivos, bibliotecas), visitas aos mais importantes monumentos religiosos e civis
da diocese.

Um encontro direto com o mundo da arte e da história, seja por meio do


contato pessoal com os que trabalham nesse campo ou pelo contato pessoal com
obras de arte e documentos históricos, constitui uma experiência educacional
particularmente eficiente, que não pode ser substituída por lições teóricas dadas
na escola.

EDUCADORES E MEIOS

25. Todos os responsáveis pela formação atual devem ter uma boa sensibilidade
para com o problema aqui sublinhado porque, como esperamos ter demonstrado,
a aquisição da sensibilidade correta no campo da promoção, proteção e
20

valorização dos bens culturais depende de vários fatores que envolvem a


responsabilidade de todos os diferentes componentes de um seminário.

Entre os docentes, os professores de liturgia e história eclesiástica


adquirem particular importância, pois incorporam mais direta e explicitamente
o papel de educadores de uma boa sensibilidade estética. A esse respeito, o
professor de Teologia Pastoral tem um papel essencial.

Talvez seja supérfluo ressaltar que as indicações que mencionamos


exigem, por parte desses docentes e de várias formas, por parte de todo o corpo
docente dos seminários e das casas de estudos, um esforço conspícuo para manter
seu nível profissional atualizado.

26. Seria sensato, nesse sentido, fornecer treinamento especializado para aqueles
membros do corpo docente que poderiam ser encarregados de ensinar assuntos
como trabalho pastoral, arte sacra, arqueologia cristã, ciência de arquivo,
biblioteconomia. Além do que já foi feito admiravelmente em muitas partes do
mundo, bem como pelos Institutos Pontifícios em Roma (15), pode-se estudar a
possibilidade de coordenar os recursos disponíveis e estabelecer um projeto para
a formação de obreiros eclesiásticos para bens culturais em cada um deles, nação
ou região. Dessa forma, eles poderiam oferecer não apenas a necessária alta
competência científica, mas também a necessária sensibilidade teológica e
eclesiástica, juntamente com uma formação específica no ensino desses assuntos,
particularmente em seminários e casas de estudos.

Uma vez que tais programas de treinamento especializado tenham sido


estabelecidos, os educadores e professores que serão empregados nas instituições
educacionais que oferecem treinamento para os futuros sacerdotes a respeito de
sua responsabilidade no campo dos bens culturais da Igreja, podem ser
convidados a participar.

27. Os assuntos envolvidos na formação dos futuros sacerdotes neste campo em


particular também são frequentemente assuntos ensinados, total ou
parcialmente, nos vários departamentos universitários estaduais ou privados
como parte dos diplomas de bacharelado ou mestrado. É importante que tais
instituições culturais, particularmente aquelas ligadas às Universidades
Católicas, constituam um ponto de referência e uma oportunidade de comparação
e diálogo para a atividade educativa dos seminários e das casas de estudos. Uma
sugestão similar pode ser feita em relação a museus, bibliotecas e arquivos não-
eclesiásticos, que muitas vezes através de vários meios organizacionais, realizam
atividades culturais interessantes às quais a comunidade cristã não pode
permanecer alheia.
21

28. Um ponto de referência frutífero para valores educacionais é certamente


constituído pela Comissão diocesana de arte sacra ou por outros organismos da
Igreja que cuidam dessa área com um objetivo pastoral em mente.

O intercâmbio de indivíduos, informações e iniciativas entre esses


organismos e o seminário e casas de estudos é normalmente um dos canais mais
adequados para integrar a educação dos futuros sacerdotes, tendo em vista a sua
pastoral pelas artes, os bens culturais da comunidade e uma preparação concreta
para o trabalho neste campo.

Temos a certeza de que Vossa Excelência, sensível a todos os aspectos da


vida pastoral, aceitará as preocupações e as sugestões contidas nesta carta,
compartilhando a solicitude do nosso Santo Padre João Paulo II e do nosso, que
os futuros sacerdotes possam enfrentar até mesmo as responsabilidades
associadas ao delicado tema do patrimônio artístico e os documentos históricos
atribuídos ao seu cuidado e promoção.

Esperamos que Vossa Excelência possa transmitir o texto desta carta,


juntamente com suas próprias sugestões e comentários, aos Educadores e
Professores responsáveis de Seu Seminário, para que possam ter a oportunidade
de refletir sobre as questões fundamentais que motivaram isto. Esperamos que
eles possam projetar, juntamente com linhas operativas concretas, o programa
de estudos institucionais de seus alunos, tanto no que diz respeito aos cursos de
seis anos de formação teológica e filosófica, quanto no projeto global de formação,
de acordo com as sugestões que tomamos a liberdade de sublinhar aqui.

Além disso, ficaríamos encantados se, durante uma das reuniões do seu
clero, Vossa Excelência pudesse informá-los do crescente esforço que pedimos a
todos eles no que diz respeito à nossa responsabilidade em relação ao patrimônio
artístico e histórico da Igreja desde o início de sua atividade de
formação. Agradecemos a Vossa Excelência por sua atenção e preocupação, e
seríamos realmente gratos por qualquer informação relativa à realização destas
sugestões em sua Diocese, que nos permita aproveitar essas experiências como
ajuda a outras Igrejas.

Aproveitamos esta oportunidade para expressar nossos profundos sentimentos e


estima.

Sinceramente o seu em Jesus Cristo,

FRANCESCO MARCHISANO
Secretária

MONS. PAOLO RABITTI


Subsecretário
22

1) João Paulo II, Constituição Apostólica Pastor Bonus , 28 de junho de 1988,


art. 103

2) Cf. por exemplo: Sacrosanctum Concilium 129; Sagrada Congregação para os


Seminários e Universidades, Sobre o curso da ciência do arquivo nos seminários
maiores , 27 de maio de 1963. Carta ao Card. Gasparri, Sobre a custódia de
conservação e o uso de arquivos e bibliotecas eclesiásticas 15 de abril de 1923.

3) Cf. Sagrada Congregação para a Educação Católica Ratio fundamentalis . 6 de


janeiro de 1970 N. 80. ( Ratio fundamentalis 19 de março de 1985 N.79).

4) Cf. Gaudium et Spes , 53-62; Sacrosanctum Concilium , 122-128; Mensagem


do Conselho para a humanidade: Mensagem aos artistas , 8 de dezembro de
1965.

5) Sacrosanctum Concilium , 129.

6) Cf. Congregação para o Clero Carta Circular aos Presidentes das Conferências
Episcopais sobre o cuidado do patrimônio artístico e histórico da Igreja , 21 de
abril de 1971.

7) Apenas para mencionar alguns documentos emitidos em nossos tempos além


do já mencionado na nota anterior, lembramos:

- Secretário de Estado: Circular para a instituição de Comissões para os


monumentos sob os cuidados do clero 10 de dezembro de 1902; Circular para a
conservação de arquivos e bibliotecas 15 de abril de 1923, Circular aos
Ordinários da Itália 1 de setembro de 1924.

- S. Congregação do Conselho, Disposições relativas a objetos de história e arte


sacra , 24 de maio de 1939.

8) Cf. João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal, Pastores dabo vobis ,
art. 55

9) Ratio Rundamentalis , 80, que se refere a Optatam totius , 17. E novamente:


"Não introduza facilmente novos assuntos, mas insira os novos assuntos no lugar
certo naqueles assuntos já existentes"; Ratio Fundamentalis , 90.

10) João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal, Pastores dabo vobis ,
62; ref. Congregação para a Educação Católica, carta circular sobre alguns dos
23

aspectos mais urgentes da formação espiritual nos seminários , 6 de janeiro de


1980, parte III.

11) Cf. sobre este assunto, entre os teólogos contemporâneos, a teoria


desenvolvida por HU von Balthasar em sua obra “A Glória do Senhor: Estética
Teológica” .

12) Ratio Fundamentalis , 80.83-84.

13) Cf. por exemplo: Conferência Episcopal Italiana, Regulamento para estudos
teológicos nos seminários maiores, p. 49. 74-76; Conferência Episcopal
Espanhola, La formacion par el ministerio presbiteral , 1986, p.129; Conferência
Episcopal Mexicana, Ordinamento basico dos estudos para a formação
sacerdotal no México , 1988, p. 177; Conferência Episcopal
Alemã, Rahmenordnung für Priesterbildung , 1978, p. 61; etc.

14) Dada a grande variedade de situações locais, esta Comissão prefere não
elaborar diretamente um programa orgânico que regula os aspectos artísticos,
jurídicos, pastorais e organizacionais do mestre do assunto como um todo,
concernentes à relação entre os sacerdotes e os bens culturais históricos e
artísticos do mundo. a Igreja na convicção de que tais programas completos e
eficientes podem ser elaborados localmente de acordo com as indicações
estabelecidas nesta carta circular.

15) Destacamos, em particular, o programa de Estudos Avançados em Patrimônio


Cultural da Igreja na Pontifícia Universidade Gregoriana, instituído em 1991
24

As bibliotecas eclesiásticas na
missão da Igreja
(19 de março de 1994)
25

Bibliotecas Eclesiásticas e seu papel


na missão da igreja

Roma, 19 de março de 1994

Prot. 179/91/35

Aos mais reverendos arcebispos e bispos


em suas respectivas sedes

Vossa Excelência,

A Pontifícia Comissão para o Patrimônio Cultural da Igreja tenta realizar


o desejo do Santo Padre João Paulo II, que deseja "fortalecer o trabalho pastoral
da Igreja no contexto vital da cultura e dos bens culturais" e aplicar suas diretrizes
relativas à este assunto (ver João Paulo II, Motu Proprio " Inde a Pontificatus
Nostri initio ", 25.III.1993, Prefácio).

Com este objetivo em mente e consciente das tarefas que lhe são atribuídas
pela Constituição Apostólica " Pastor Bonu s" (ver Prefácio, e art.4) - repetido e
sublinhado agora no "motu proprio" acima mencionado - nós tentamos trabalhar
para que todo o povo de Deus - e principalmente os sacerdotes atuais e futuros -
"magis magisque conscius fiat" da importância e necessidade do papel do
Patrimônio Cultural em expressar e aprofundar a fé.

Por esta razão, um primeiro documento foi enviado para despertar a


sensibilidade dos futuros sacerdotes em tais problemas durante os anos de seu
treinamento pastoral e teológico. Três outros documentos estão sendo
elaborados, os quais pretendem aprofundar, respectivamente, o sentido e o valor
da arte sacra; a importância de um cuidado apropriado para os arquivos da
Igreja; a retomada de um renovado esforço de valorização das bibliotecas no
contexto dos estudos eclesiais e da vida comunitária.

Nesta carta circular, gostaríamos, portanto, de entrar no assunto das


bibliotecas eclesiásticas e de seu papel na missão da Igreja. "Traga-me os livros e
sobretudo os manuscritos" (2Tm 4, 13).

Esta foi a recomendação de São Paulo para Timóteo, numa época em que
ele estava reduzindo sua vida ao essencial, quando sentiu que havia alcançado o
pôr do sol e queria usar o que restava para que "todos os gentios pudessem ouvir
a mensagem" (2Tim. 4, 17).

1. A Igreja, a cultura, o patrimônio cultural e as bibliotecas


26

1.1 Também a Igreja, instituída por Cristo para levar a mensagem de salvação a
todos os povos e proteger sua memória viva, dentro das tradições das sociedades
e culturas, onde a assimilação da fé pode florescer, cuida "de livros e
pergaminhos" porque é estimulado por um profundo interesse pela cultura de
todos os povos e nações. De fato, no curso de sua história, a Igreja "usou as
diferentes culturas para difundir e explicar a mensagem cristã, para estudá-la e
aprofundá-la" (Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral " Gaudium et Spes Em
outras palavras: o anúncio do Evangelho, através da vida e do pensamento da
Igreja, envolve, por sua própria natureza, o desenvolvimento de um processo de
"inculturação". Em termos definidos, isto significa nada mais do que unir os fatos
culturais gerados pela "encarnação do Evangelho nas culturas autônomas" e a
"introdução dessas culturas na vida da Igreja" (João Paulo II, Carta Encíclica
" Slavorum Apostoli ")2.VI.1985, n.21, veja "Exeunte Coetu Secundo", Relatório
final do extraordinário Sínodo de 1985, II. D4).

Daqui deriva também aquela atitude de extrema cautela que a Igreja


Católica reservou a todos os documentos, especialmente aqueles mediados pelas
Escrituras, que encarnam e transmitem os valores da sabedoria das pessoas. A
mera existência de bibliotecas eclesiásticas, das quais muitas são de fundação
antiga e de extraordinário valor cultural, constitui um testemunho decisivo deste
esforço irrevogável da Igreja para uma herança espiritual documentada por uma
tradição da biblioteca que ela considera, ao mesmo tempo, como tanto um bem
próprio quanto um bem universal colocado a serviço da sociedade humana.

1.2 As bibliotecas da propriedade eclesiástica, onde os monumentos de


aprendizagem da cultura humana e cristã de todos os tempos são protegidos e
tornados acessíveis, representam um tesouro inesgotável de conhecimento de
que toda a comunidade eclesial e sociedade civil podem atrair para o presente a
memória de seu passado. .

No entanto, o interesse específico e primário que a Igreja tem pelas


chamadas "bibliotecas eclesiásticas" baseia-se no fato de que o "fermento do
Evangelho" - do qual a Igreja tem sido guardiã e comunicadora - na medida em
que inseriu-se nas diferentes disciplinas do conhecimento, deu origem à história
cristã e à cultura cristã ou uma cultura inspirada no cristianismo, produzindo
assim uma incrível ascensão do pensamento religioso, literário, filosófico,
jurídico, artístico, psicológico e pedagógico, e assim em.

Assim, a documentação da biblioteca - arquivista e artística - representa


para a Igreja um meio insubstituível para colocar gerações, que encontraram a fé
e a vida cristãs, em contato com tudo o que o “evento” cristão produziu na história
e no pensamento humano. Isto é feito com o objetivo de não privá-lo da
experiência já realizada pelas gerações precedentes no leito de suas respectivas
culturas. Pode-se dizer também que a tradição cristã - garantida por seu eterno
caráter para todas as gerações - dentro da Igreja encontra nos livros escritos uma
27

contribuição constante para sua difusão e transmissão, para seu aprofundamento


de sentido e compreensão, para sua inserção viva nas tradições das pessoas. Para
proteger um livro, incentive-o a ler

1.3 A partir desta suprema aspiração - que é a missão evangelizadora da Igreja -,


deriva a origem do cuidado ininterrupto que a comunidade cristã teve na criação,
proteção, enriquecimento, defesa e fecundação de suas próprias bibliotecas.

Isto é comprovado pelas contínuas recomendações feitas pelos papas para


cumprir tais tarefas e o cuidado exemplar que algumas comunidades religiosas e
diocesanas dedicaram aos seus livros. Por essa mesma razão, deve-se evitar
qualquer coisa que entre em conflito com a proteção e custódia, o cuidado e o
crescimento, o prazer e a acessibilidade das bibliotecas.

Além disso, o que a Igreja se comprometeu a conservar em suas bibliotecas


é, agora mais do que nunca, de interesse vital para o desenvolvimento da
cultura. E isso não é apenas para um melhor conhecimento da tradição religiosa
e eclesiástica, mas também para o benefício da história, das artes e das ciências
da civilização a que pertencemos e que nós mesmos ainda nutrimos. É por esta
razão que a Igreja, enquanto oferece a todas as pessoas, onde quer que esteja
presente, a possibilidade de usar suas bibliotecas, tendo que prover as sérias
obrigações de proteção e gestão que se seguem, objetivamente pede uma efetiva
contribuição da sociedade civil sociedade. Isso é feito, para que a Igreja também,
da maneira que melhor lhe convenha, possa participar da proteção, conservação,

1.4 Naturalmente, os critérios precisos e as formas concretas de apoio recíproco


entre a Igreja e a sociedade civil, neste trabalho de proteção e promoção de bens
bibliotecários, devem ser determinados tendo em mente as várias situações
políticas e as leis vigentes em cada estado. A Igreja Católica, por sua parte,
consciente de sua alta e imediata responsabilidade nesse sentido, é muito sensível
aos muitos sinais de encorajamento decorrentes de um interesse renovado na
apreciação de uma memória histórica por parte da cultura moderna, mesmo
aquela que não é estritamente acadêmico ou especializado. A Igreja propõe,
assim, aumentar e avaliar adequadamente, a partir dessa perspectiva, a dimensão
pública e social de suas próprias bibliotecas.

Isso significa conceber uma convergência e uma colaboração com a


sociedade civil, não apenas em vista da política de conservação e da organização
catalogadora das bibliotecas eclesiásticas, mas também em vista de uma nova
política de valorização e disponibilidade de sua coleção de livros. Essa
convergência e colaboração também será facilitada se as bibliotecas eclesiásticas
participarem, através de redes informatizadas nacionais, na comunicação de
informações bibliográficas com outras bibliotecas nacionais ou eclesiásticas. Isso
permitiria que a memória histórica, científica, filosófica, religiosa e literária,
armazenada em bibliotecas, estivesse amplamente disponível para a pesquisa de
28

especialistas e para a disseminação da cultura, em benefício também das ciências


religiosas que, desse modo, estará mais presente no mundo da pesquisa e da
ciência.

De sua parte, a Igreja deseja conservar plenamente sua responsabilidade


direta sobre as bibliotecas eclesiásticas, considerando a importância que elas têm
como instrumento de evangelização.

2. O significado e o valor de uma instituição da biblioteca dentro da


Igreja: um centro de cultura universal.

2.1 Embora no quadro geral de seu desenvolvimento histórico não tenha havido
falta de algumas regressões, a Igreja tem participado de maneira determinada na
moldagem de instituições culturais, muitas vezes com um impulso inovador e
com resultados duradouros. Isso ocorreu, direta ou indiretamente, também em
relação à evolução específica das instituições bibliotecárias.

Assim, por exemplo, todos sabem da importância da transição do "rolo" para o


"códice" no que diz respeito a uma distribuição mais fácil e, portanto, mais ampla
de documentos escritos, necessários para o desenvolvimento da cultura.

O peculiar conceito cristão de "Sagradas Escrituras", livros veneráveis,


mas não esotéricos, como matriz de um conhecimento que aspira por sua própria
natureza a uma distribuição "universal", certamente influenciou o processo de
"comunicação" e "distribuição" de todos as altas formas da cultura em
si. Imprimiu um impulso de fazer época cujos reflexos não faltaram para se tornar
conhecidos, mesmo no nível das instituições sociais e dos reflexos culturais
homogêneos a eles. Bastaria relembrar aqui a influência exercida pela tradição
das escolas-catedral, das "scriptoria", dos "studia" monásticos, das faculdades
teológicas, das academias eclesiásticas: não apenas no desenvolvimento da ideia
de "biblioteca".

2.2 Na área mais específica da ideia de biblioteca, pode-se recordar com


facilidade que alguns desenvolvimentos qualitativos no conceito e na organização
interna dessa instituição amadureceram em um ambiente eclesiástico. Por
exemplo, foi a Ordem de Cister que realizou a primeira transição significativa de
uma biblioteca de conservação quantitativa (a maior parte dos volumes
concebidos exclusivamente como um bem patrimonial) para uma biblioteca de
conservação qualitativa (consistindo de uma seleção específica de livros a serem
reunidos e preservada). Outra reviravolta significativa foi feita dentro da tradição
das Ordens Mendicantes, quando as bibliotecas foram submetidas a uma atenção
sistemática para a racionalização do estoque e do depósito, tendo em vista a
pesquisa e consulta.
29

De fato, era preciso esperar até o Renascimento e a era do Humanismo


pelas condições destinadas a realizar esses impulsos para amadurecer, de modo
que pudessem ser transformados em princípios organizacionais e teóricos de
caráter geral. E mesmo aqui, algumas bibliotecas eclesiásticas (Vaticana,
Ambrosiana) distinguiram-se entre as primeiras e mais prestigiadas bibliotecas,
com o intuito de unificar o interesse pela coleta de uma vasta e preciosa coleção
de livros. Trata-se de um acervo organizado com intenções culturais e científicas
de interesse geral, acessíveis a um público cosmopolita composto por
pesquisadores interessados na fruição e valorização do conhecimento contido nos
textos e, portanto, não apenas na preciosidade dos objetos coletados.

Enquanto isso, o próprio conceito que rege a aquisição e a coleta de textos


torna-se mais amplo e significativamente mais enciclopédico. A biblioteca
eclesiástica, além dos textos que remetem às disciplinas teológicas tradicionais,
reúne também, com igual cuidado e diligência, os clássicos latinos e gregos, os
textos de filosofia e ciência, documentos de culturas e religiões, monumentos de
história e arte de várias pessoas e das mais diversas civilizações.

2.3 Assim, é possível traçar uma biblioteca eclesiástica, seguindo os vários


estágios de seu desenvolvimento característico, aqui apenas brevemente
mencionado, uma significativa "vocação" própria para representar um lugar
típico onde várias formas de conhecimento podem se confrontar. Isto é
precisamente devido ao impulso universal ("católico") que forma o pano de fundo
da ideia cristã da busca da verdade, que implica o interesse e o conhecimento de
todas as áreas da história e da cultura onde a experiência de tal pesquisa pode
parecer prática e documentado.

A recuperação desta "vocação" histórica objetiva que a biblioteca


eclesiástica teve - além de favorecer a remoção de alguns lugares-comuns que
ainda estimulam o preconceito de quem quer ver uma instituição eclesiástica
fechada a um espírito de diálogo e de um amplo conhecimento cultural isenta de
restrições - pode certamente favorecer um esforço mais intenso e motivado
daqueles que, na Igreja, são chamados a operar nestes preciosos laboratórios de
cultura como as bibliotecas eclesiásticas. De fato, estes não foram, raramente, no
curso da história da Igreja, centros culturais de muito alto nível e ainda podem
ser instrumentos válidos para a cultura, em colaboração com outras instituições
análogas.

2.4 Se esta é a verdade histórica que qualifica a origem, a fisionomia, a influência


cultural e a metodologia das bibliotecas eclesiásticas - especialmente as maiores
lembradas acima - deve-se reconhecer que nem sempre se desejou ou foi possível
manter todas as bibliotecas eclesiásticas neste nível. Alienações inesperadas ou o
confisco dos edifícios onde eles estavam localizados; repetidos esforços; a
supressão de muitas ordens religiosas com a consequente diminuição de um
número substancial de suas bibliotecas; certas tendências de atitudes culturais,
30

ou certos tipos de esquecimento e até mesmo algum desinteresse dificultaram a


sobrevivência e o caráter funcional de muitas bibliotecas eclesiásticas.

Espera-se que o ressurgimento da consciência sobre os bens culturais da


Igreja e das nações produza um impulso renovado para devolver a vitalidade a
esses centros de cultura e torná-los conectados a um serviço comum e respeitoso
para com a humanidade, indo além do que pode ser definitivamente prejudicial à
universalidade do conhecimento - contrastando o empobrecimento desses
instrumentos culturais.

3. A Pontifícia Comissão para Bens Culturais e Bibliotecas


Eclesiásticas

3.1 Como foi mencionado anteriormente, o Sumo Pontífice e a Santa Sé


dedicaram-se muito a revitalizar o esforço pastoral e cultural de toda a Igreja para
o cuidado das bibliotecas eclesiásticas, estabelecidas em diferentes níveis e com
diferentes objetivos (1).

Alguns conflitos que tornaram precárias as muitas sedes de bibliotecas, a


transformação global que afetou todas as instituições nas últimas décadas, e o
próprio modo de conceber a cultura e os meios para assimilá-la agravaram o
problema da "proteção-fruição" de essas bibliotecas. E parece que chegou o
momento em que qualquer um tenta recuperar ou renovar sua função, ou estão
destinados a um declínio irreparável.

João Paulo II captou o caráter delicado deste momento, estabelecendo que


o problema global de proteção - uso - promoção de todos os bens culturais da
Igreja - e, portanto, também bens bibliotecários - seja atribuído não apenas a
documentos exortativos ou a decisões autoritárias periódicas, mas constituem
uma questão real e estável de um Departamento da Cúria Romana, proposital e
autoritariamente destinado a esta área: a Pontifícia Comissão para o Patrimônio
Cultural da Igreja.

3.2 Sob este disfarce, esta Pontifícia Comissão pretende, com o presente
documento, ocupar-se especificamente com as bibliotecas eclesiásticas.

3.3 Conhecendo o seu próprio mandato "Comissio Ecclesiis particularibus et


episcoporum coetitus adiutierium praebet et una cum iis agit" (João Paulo II -
Constituição Apostólica "Pastor Bonus", 28.VI.1988, art.102), esta Pontifícia
Comissão, em Querendo fazer eco da vontade explícita do Santo Padre, dirige-se
agora aos Reverendíssimos Bispos das Dioceses e aos Superiores Gerais das
Congregações Religiosas, para compartilhar com eles a preocupação e a
preocupação com o destino de todas as bibliotecas eclesiásticas - recentes e
antigos (bibliotecas episcopais, capitulares, paroquiais, universitárias e
estudantis; as de ordens religiosas, instituições, associações e outros).
31

É necessário que, entre as preocupações pastorais, haja um retorno total


àqueles que se referem aos instrumentos de evangelização e cultura do povo de
Deus, como as bibliotecas eclesiásticas. Assim, favoreceria o "diálogo com a
humanidade", que tão frequentemente encontra nesses instrumentos o modo de
se encontrar de maneira vital com a "realidade cristã" e com as raízes bimilenárias
de uma cultura sem a qual o mundo seria mais pobre.

Seria indesculpável atribuir a herança cultural como uma das


preocupações menores dos pastores ou ceder à convicção super-simplista e
superficial de que a "cura animarum" pode ignorar tais instrumentos, julgando-
os um "luxo" e não um instrumento essencial para a evangelização, mesmo em
igrejas recém-fundadas (ver II Decreto do Concílio Vaticano, "Ad Gentes
divinitus", 7.XII.1965, n.21).

4. Diretrizes para a atividade relacionada às Bibliotecas Eclesiásticas

4.1 É necessário que cada diocese e cada congregação religiosa - se ainda não o
fizeram - compilem um inventário e identifiquem as diferentes tipologias das
bibliotecas sob sua responsabilidade. Isso deve ser feito a fim de se chegar a um
consequente planejamento das atividades referentes aos possíveis espaços
adequados necessários tanto para os usuários da biblioteca quanto para a atual
coleção de bibliotecas, além de prever um aumento regular dos fundos de
biblioteca e aquisições de instalações para o trabalho e como auxílio à pesquisa.

Quando as distâncias representavam uma dificuldade, era evidente que


toda biblioteca eclesiástica tentaria ter a máxima completude e adequação para
alcançar os objetivos para os quais foi fundada. Agora que as distâncias são
facilmente superadas e os sistemas de computador permitem, com grande
facilidade, ajudas e trocas, é mais fácil pensar em uma política de planejamento
de bibliotecas eclesiásticas para torná-las mais qualificadas e mais utilizáveis
dentro de um território.

Assim como nas várias áreas do trabalho pastoral, tende-se a ter


trabalhadores qualificados, por isso deve ser na área de "bibliotecas". É
necessário que o "ministério de um bibliotecário" volte a ser considerado integral
e honrosamente dentro da comunidade cristã. Isso porque ele não é apenas um
trabalhador, mas também um patrocinador da cultura e, consequentemente, da
evangelização da Igreja, quando trabalha para aumentar o conhecimento da
comunidade eclesial a que pertence, e para o bem da pesquisa conduzida por eles
quem quer aprofundar seu próprio conhecimento.

Até mesmo seu próprio treinamento profissional será, para ele, uma ajuda
válida em sua missão de comunicar a cultura e ajudar, sempre que possível, as
tentativas daqueles que querem entrar em contato com uma compreensão mais
profunda da mensagem cristã.
32

4.2 Com certeza, os Bispos diocesanos e os Padres gerais das Congregações são
os primeiros indivíduos que desejam um novo processo de revitalização de suas
bibliotecas.

Esta Pontifícia Comissão gostaria de destacar a oportunidade de acelerar


este processo de interesse e esforço renovados - favorecendo a formação
especializada de sacerdotes, religiosos e leigos destinados a assumir a tarefa de
dirigir bibliotecas e a quem, se possível, deve ser atribuído um posto permanente
- como é o caso dos arquivos e bens artísticos. Por este motivo, há já algum tempo
que uma Escola do Vaticano de Paleografia e Arquivista e uma Escola da
Biblioteconomia do Vaticano vêm realizando suas atividades com sucesso e
competência. Ambos foram instituídos, respectivamente, ao lado dos Arquivos
Secretos do Vaticano e da Biblioteca Apostólica Vaticana.

Um Programa de Estudos Avançados no Patrimônio Cultural da Igreja foi


recentemente criado com o mesmo objetivo na Pontifícia Universidade
Gregoriana de Roma. Estamos trabalhando para incrementar as Associações de
Bibliotecas Eclesiásticas em várias nações, com a possibilidade de transformá-las
em federações, para que elas também possam se ajudar mutuamente a enfrentar
os problemas que caracterizam este setor e oferecer um treinamento atualizado e
periódico daqueles já existentes atribuído ao serviço dessas bibliotecas.

4,3Parece que em muitas igrejas diocesanas chegou a hora de organizar uma


"grande biblioteca da igreja local", que pode representar um local primário mais
dotado (mais acessível a todos) para encontrar as principais obras antigas e
recentes do pensamento cristão. Isso significaria revitalizar o espírito das velhas
bibliotecas eclesiásticas colocadas a serviço da igreja e da cidade, onde se podem
encontrar testemunhos autênticos e documentados da tradição e onde se pode
encontrar a mensagem que emana da cultura cristã. Além disso, esse maior
fortalecimento dos recursos bibliográficos colocados juntos a serviço da igreja
local permitiria uma proteção mais inteligente e atenta, a conservação e possível
restauração de valiosos volumes antigos,

Não estamos cientes dos muitos problemas que tal decisão pode
provocar. No entanto, parece que, a essa altura, os tempos reivindicam da Igreja
essa presença e essa fermentação cultural dentro da cidade.

Deve-se acrescentar o fato de que muitas atividades de pesquisa


universitária ou especializada são cada vez mais orientadas para o patrimônio
cultural bimilenário da Igreja.

4.4 Não se deve ignorar, então, bibliotecas menores - paróquias ou conectadas a


associações. Estes representaram no passado um lugar real de educação para
gerações rurais inteiras para as quais não era fácil alcançar as principais obras e
as principais fontes culturais, mas que, através dos chamados "sistemas de
33

biblioteca em circulação", foram capazes de aprofundar seu pensamento cristão


e se dão um fundo cultural bastante sólido.

Hoje, a aparência dessas bibliotecas parece evoluir para uma fisionomia de


"pequenos centros multimídia", onde o livro se encontra com outros
instrumentos auxiliares difusores da cultura.

Parece que um eficiente "diocesano nenter", dirigido por pessoal treinado


no patrimônio cultural (incluindo biblioteca, arquivo, obras de arte), terá a
capacidade de se dedicar à continuação e à transformação de bibliotecas de
paróquias e associações.

A este respeito, deve haver um diálogo constante e constante entre os


responsáveis das Associações de Bibliotecas Eclesiásticas em todo o país e os
editores de livros e multimídia, a fim de identificar e promover o que parece ser
útil e necessário para a cultura das comunidades cristãs e que fatores positivos do
"mundo católico" podem ser colocados em circulação como contribuição para a
cultura de vários países.

Parece que uma política de planejamento inteligente pode trazer um


aumento positivo tanto para a disseminação quanto para o aprofundamento da
cultura e da sabedoria editorial, evitando repetições, preenchendo lacunas e
alimentando uma certa anemia de valores que atualmente sobrecarrega muitas
das publicações hoje. .

4.5 Não se pode ignorar um fato que diz respeito à vida da Igreja hoje em algumas
nações: a diminuição do clero e a subsequente presença menor de padres, nas
paróquias e instituições solteiras, que eram também os garantes naturais da
conservação e da promoção das bibliotecas paroquiais e das bibliotecas das
associações. O resultado é frequentemente o empobrecimento ou o fechamento
de tais instituições.

Acreditamos que não se deve simplesmente abandonar o destino dessa


tendência, mas tudo deve ser feito para cuidar da herança bibliotecária das
paróquias e instituições suprimidas, muitas vezes muito preciosas. Deve-se
cuidar de sua proteção, incorporar em bibliotecas zonais ou de área aquilo que de
outra forma é esquecido ou correr o risco de não ter utilidade, ou reunir em um
centro diocesano coleções de livros abandonadas - para que, além de protegidas,
possam continuar sendo úteis e fonte frutuosa de conhecimento.

4.6 Como recordamos anteriormente, no ano passado, em 1992, esta Pontifícia


Comissão manteve uma de suas tarefas primárias para dirigir uma carta cordial
(que era, no entanto, também um aviso delicado do que havia sido assinalado em
toda a Igreja) sobre o problema de fazer os futuros sacerdotes, mais conscientes
do papel do patrimônio cultural eclesiástico na obra de evangelização, bem como
34

das responsabilidades que os esperam a este respeito (ver Carta Circular dirigida
aos Bispos, 15.X.1992).

Parece apropriado neste caso repetir tal apelo, tornando-o mais preciso e
direcionado para: a apreciação e o conhecimento prático do uso da biblioteca que
os seminaristas consultam durante seus estudos filosóficos e teológicos; a
importância da documentação bibliográfica e arquivística, a fim de formar uma
consciência da identidade da própria igreja e da Igreja universal: uma realidade
que o futuro sacerdote não pode se permitir ignorar; o uso de bibliotecas válidas
na atividade pastoral ordinária do sacerdote, onde o material pode ser obtido para
seus estudos e deveriam direcionar aqueles, por sua vez, que pedem para
aprofundar seu próprio conhecimento. O Seminário, que prepara os futuros
sacerdotes, deve assumir a responsabilidade de apoiar essa consciência.

4.7 O tempo parece maduro o suficiente para que a Conferência Episcopal


elabore, para os bibliotecários eclesiásticos de suas respectivas dioceses e para
sua igreja particular, um "Diretório de Bibliotecas Eclesiásticas" que possa avaliar
a tarefa "pastoral apropriada", diante de toda a Igreja comunidade, que os
bibliotecários (sacerdotes, religiosos e leigos) podem realizar para o surgimento
da cultura cristã e o diálogo entre as culturas. Isto significaria um Diretório que
poderia guiar os complexos problemas doutrinários - jurídicos - práticos que
envolvem bibliotecas eclesiásticas, que poderiam fornece diretrizes para seu
relacionamento com as bibliotecas estaduais, o que poderia ajudar em seu
desenvolvimento mais vigoroso.

O caráter "nacional" de tal diretório, ao invés de um "universal", parece ser


mais conveniente para este fim, a fim de permitir uma maior adesão às situações
locais.

Isto não significa que as Conferências Episcopais não devem dar a


conhecer os problemas e sugestões indicados por esta Pontifícia Comissão, que
quer fazer todos os esforços para servir a causa das bibliotecas eclesiásticas.

4.8 A Pontifícia Comissão para o Patrimônio Cultural da Igreja mantém seu


dever de dar a conhecer aos Bispos e aos Superiores Gerais, trabalhando em
Igrejas de antiga constituição e de cristianismo consolidado, problema que se
pode chamar de "economia-biblioteca missionária". Ou seja, em muitas dioceses
onde a "plantatio Ecclesiae" ocorreu recentemente, não só não é possível criar
"bibliotecas diocesanas" adequadas - como se sugeriu acima -, mas também
"bibliotecas eclesiásticas nacionais", na medida em que é difícil ou difícil às vezes
impossível encontrar fundos patrísticos e grandes coleções teológicas.

As igrejas podem então planejar - se às vezes têm bibliotecas eclesiásticas


não mais em uso - enviar fundos importantes e fundamentais em termos de seu
35

conteúdo (como grandes séries filosóficas e teológicas, e fontes patrísticas) para


igrejas em desenvolvimento?

Isso parece constituir uma troca cultural e pastoral entre igrejas de


significado relevante, o que permitiria devolver um valor a certas bibliotecas
tornadas infrutíferas por causa de seu uso limitado.

As Associações Nacionais de Bibliotecários Eclesiásticos, de acordo com


esta Pontifícia Comissão, podem tornar-se promotoras deste intercâmbio
cultural.

4.9 Como sabemos, o problema que mais afeta as bibliotecas eclesiásticas é o


custo das aquisições de novas coleções de livros e o gerenciamento dessas
bibliotecas, o que exige um pessoal adequado, competente e, portanto, estável.

No que diz respeito às bibliotecas menores - aquelas ligadas a paróquias


ou associações - é necessário recorrer à ajuda de voluntários, como foi feito
admiravelmente no passado, a partir da sensibilidade bem-educada das
comunidades cristãs que criaram esses centros, tão significativas para os próprios
identidade cultural.

Essas bibliotecas, sendo instrumentos de cultura para todos, e não apenas


para as comunidades cristãs, parecem ter todos os títulos para participar das
contribuições que as comunidades nacionais, regionais ou locais estão
proporcionando para o crescimento das bibliotecas dentro do território.

Em relação às grandes bibliotecas eclesiásticas, um novo e mais claro perfil


"público" dessas bibliotecas deve ser delineado, pelo menos nas igrejas
particulares, onde isso ainda não foi feito.

Acontece que, se as bibliotecas, assim como outros bens da Igreja


(arquivos, coleções de arte) servem exclusivamente à comunidade da Igreja, que
então se torna a única árbitro, é difícil pensar que a comunidade nacional deveria
incluí-los entre as instituições às quais dado o apoio necessário.

Mas se a Igreja - permanecendo a proprietária e a única responsável por


suas bibliotecas - abrir essa herança àqueles que pretendem usá-la, pareceria
legítimo que essa relação de instrumentos culturais e de animação seja incluída
entre o patrimônio cultural de uma nação que um apoio econômico e
organizacional deve ser dado.

Consideramos estes problemas de grande interesse e preocupação pela


relação entre as Conferências Episcopais, os Governos Nacionais e as
Organizações Internacionais.
36

4.10 Finalmente, uma das tarefas desta Pontifícia Comissão é promover um


relacionamento cada vez mais crescente entre a comunidade eclesial e as
Organizações Internacionais criadas para o patrocínio da cultura -
oportunamente expressas pelas Associações Culturais Internacionais. Tomamos
a liberdade de solicitar que as Conferências Episcopais nos ajudem nessa tarefa,
favorecendo o estabelecimento de Associações Nacionais de Bibliotecas
Eclesiásticas e sua adesão às correspondentes Associações continentais e
internacionais. Estamos conscientes de que estas instituições podem, por vezes,
pedir colaborações exigentes por motivos de co-responsabilidade e por tempo
extra a dedicar, às quais é necessário oferecer necessariamente a sua
disponibilidade obediente.

Vossa Excelência,

Se tivéssemos que resumir, em frases breves, os pontos contidos nesta nossa


carta, poderíamos dizer:

- o Santo Padre considera um "sinal dos tempos" o florescimento universal do


interesse pelo Patrimônio Cultural; a Igreja, como "especialista em cultura", não
pode ignorar esse apelo;

Nesta ocasião, quisemos sublinhar a natureza, a tarefa, os principais problemas


das bibliotecas eclesiásticas, a fim de não colocar todo o peso de tais tarefas no
ombro dos bispos diocesanos, mas para que possamos nos unir devolvendo o
vigor a esta importantíssima área de evangelização e cultura;

- destacamos alguns problemas, sugerindo algumas soluções gerais, conscientes


de que as situações das Igrejas são diferentes e não podemos formular diretrizes
abrangentes para todos os problemas e para todas as soluções; acreditamos que
esta nossa carta é uma faísca que pode acender o interesse e o diálogo dentro de
sua Conferência Episcopal;

- acreditamos que, mais uma vez, que o problema mais urgente e radical está
dando para trás a sensibilidade para esta questão em comunidades da Igreja - e
seus pastores - sobre o papel que os Bens Culturais da Igreja têm como
verdadeiros e reais "bens para o trabalho pastoral " Entre eles, agora, temos
destacou coleções de livros que, juntamente com arquivos, constituem a memória
da Igreja em relação à sua própria aprofundamento progressivo da fé e possam
constituir uma "memória" para toda a humanidade quando Ela quer descobrir o
significado de uma cultura cristã ;

- assim, consideramos útil que entre os temas discutidos pela Conferência


Episcopal emergiriam, de maneira orgânica, o tema-problema das bibliotecas da
Igreja, para que possa ser tratado posteriormente pelas dioceses
individuais. Parece que - uma vez especificados os principais pontos nos quais se
37

deve concentrar o esforço - não seria difícil provocar um movimento real de


interesse nas bibliotecas da Igreja, o que poderia estimular a identificação e o
apoio de patrocinadores capazes nessa área;

- como sempre, ficaríamos felizes em receber uma resposta pensada para essas
nossas observações, para que possamos acompanhar os desenvolvimentos e
sintonizar nossa ação em situações reais, e sugerir iniciativas válidas baseadas na
experiência.

Gostaríamos, mais uma vez, de repetir as palavras do nosso Santo Padre João
Paulo II: "a fé tende por sua própria natureza a expressar-se em formas artísticas
e testemunhos históricos com um potencial intrínseco de evangelização e
dimensão cultural, diante do qual A Igreja é chamada a dar a máxima atenção
"(Motu proprio, " Inde a Pontificatus Nostri initio " , 25.III.1993, Prefácio).

A tal desejo associo meus cumprimentos mais respeitosos e fraternos.

(1) Para mais informações, recordamos outros documentos emanados no


decorrer do século XX:

1) Carta Apostólica de Pio X, "Quoniam in re biblica", 27.III.1906, n.18;

2) CJC (1917), cân. 1495, 1497;

3) Carta Circular da Secretaria de Estado, 30 de dezembro de 1902;

4) Carta Circular da Secretaria de Estado, 10 de dezembro de 1907;

5) Carta Circular da Secretaria de Estado, 15 de abril de 1923;

6) Carta Circular da Secretaria de Estado, 1º de setembro de 1924;

7) Congregações para os Seminários, o Questionário enviado em 2 de fevereiro


de 1924 e a Carta-Circular de 10 de março de 1927;

8) a Constituição da Escola de Biblioteconomia da Biblioteca Apostólica Vaticana


(1934);

9) Pio XI, "Deus scientiarum Dominus", 24 de maio de 1931, art. 48;

10) Congregação para os Seminários, Decreto de 12 de junho de 1931, art. 45;

11) Congregação para os Seminários, Curso de verão para bibliotecários dos


seminários, setembro de 1938;
38

12) Biblioteca Apostólica Vaticana, carta circular assinada pelo Cardeal Mercati
em 1 de novembro de 1942;

13) Pio XII, Exortação Apostólica "Menti nostrae", 23 de setembro de 1950, parte
III;

14) Concílio Vaticano II, Decreto "Presbiterorum Ordinis", capítulo III, 19;

15) Congregação para o Clero, "De permanenti cleri institutione", 4 de novembro


de 1969, art. 22;

16) Congregação para a Educação Católica, "Ratio fundamentalis institutionis


sacerdotalis", NN. 27 e 94;

17) João Paulo II, Constituição Apostólica "Sapientia christiana", 15 de abril de


1979, artigos 52-54;

18) CJC (1983), Livro III, título IV;

19) João Paulo II, Constituição Apostólica "Pastor Bonus", 28 de junho de 1988,
artigos 99-104;

20) João Paulo II, Motu proprio "Inde a Pontificatus Nostri initio", 25 de março
de 1933.
39

Os bens culturais dos institutos


religiosos
(10 de abril de 1994)
40

Os bens culturais dos institutos religiosos

Roma, 10 de abril de 1994

Neste espírito de consciência e colaboração, parece-me valer a pena


dirigir-me a todas as famílias religiosas da Igreja, pois são também grandes
promotoras da cultura e da arte, colocadas ao serviço da fé e guardiãs de uma
parte muito importante dos arquivos, bibliotecas, assim como das coleções
litúrgicas e artísticas da Igreja.

Através desta carta, desejo expressar a toda a comunidade os meus


sentimentos de maior respeito e estima pelo que fez no passado e continua a fazer
hoje para proteger e melhorar estas coleções.

Esta iniciativa e o texto desta carta circular receberam o mais cordial apoio
e aprovação por parte da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as
Sociedades de Vida Apostólica. Considero essencial recorrer a todas as famílias
religiosas a fim de, idealmente, convocar todos a responder de maneira adequada
ao apelo do Santo Padre para "fazer-se magis magisque", isto é, consciente da
importância e da necessidade de conservar, avaliar e valorizar o património
artístico e histórico da Igreja "para o nosso presente e para o futuro.

Desejo, portanto, lembrar de maneira explícita as responsabilidades que


as famílias religiosas têm em relação ao Patrimônio Cultural da Igreja. Graças à
estrutura comunitária da vida consagrada, os membros dos Institutos de Vida
Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica oferecem um testemunho
significativo e sempre novo aos carismas particulares de seus fundadores.

A vida da comunidade, em sua fidelidade substancial ao plano original,


sabe adaptar-se aos sinais dos tempos e às características das pessoas em que
estabelece suas raízes, seja no país de origem, seja no distante terras. O resultado
é que muitas famílias religiosas desfrutam de uma herança espiritual que
progressivamente se enriqueceu e passou por uma integração harmoniosa de
"nova et vetera".

De fato, pode-se observar dentro dessas comunidades, com interesse


sempre renovado, como o momento presente pode conseguir amalgamação de
todo tipo de questões: as do passado e presente, da vida local, de modelos de
outras culturas e sensibilidades que são bem-vindas como um dom recíproco,
fortemente unido à missão evangelizadora. Este último sempre viu membros de
Institutos Religiosos e
41

Sociedades dinamicamente e profundamente. É verdade que algumas


realidades foram percebidas apenas de maneira superficial. Contudo, pode-se
também ter certeza de que tem havido uma sensibilidade generalizada dentro dos
ambientes religiosos de se adaptar aos outros e de acolher os valores dos outros
com adaptações apropriadas.

Os bens culturais são as testemunhas privilegiadas deste trabalho católico


e espiritual. Devem ser considerados, portanto, não apenas elementos de
interesse antropológico e social, mas acima de tudo expressões significativas de
uma fé que cresce dentro da Igreja e encontra expressões cada vez mais
apropriadas para manifestar sua vitalidade interior. É preciso "reler" a herança
cultural da Igreja nesta perspectiva: das majestosas catedrais aos objetos
menores; das maravilhosas obras de arte dos grandes mestres às menores
expressões das artes mais pobres; das obras literárias mais penetrantes aos
registros financeiros aparentemente áridos que seguem passo a passo a vida do
povo de Deus.

A comunidade cristã sabe que, a partir das fundações de novas famílias


religiosas, derivou para a Igreja não apenas novas expressões de espiritualidade
ou evangelização, mas também novas contribuições humanistas que tiveram
esplêndidas repercussões nos campos cultural, artístico, arquitetônico e
educacional.

Basta pensar nos centros de espiritualidade, cultura e arte representados pelas


abadias e mosteiros.

Mas mesmo esses conventos, mais modestos em forma e tamanho, mas


presentes nos bairros da cidade ou nas periferias da cidade, podem se tornar
prova de como muitas vezes se tornaram não apenas escolas de vida espiritual,
mas também pontos de referência para cultura, arte, vida social, civilização e vida
urbana.

A Igreja de novo chama hoje as famílias religiosas e pede que não


negligenciem este aspecto de seu esforço e testemunho. Talvez isso pareça
secundário, em comparação com a tarefa absoluta de levar adiante a vida
evangélica e a obra de evangelização. No entanto, acreditamos que isso seja um
corolário intrínseco dessa mesma tarefa. Quando uma comunidade religiosa vive
intensamente seu próprio carisma, irradia-se também nas formas visíveis de
cultura e arte que se tornam como que contaminadas com a intensidade espiritual
de tal testemunho.

A difusão generalizada das famílias religiosas e seu modo de vida em todo


o mundo, que abrange também muitas gerações de fiéis que são testemunhas da
vida evangélica, podem colocar algumas questões aos membros de Institutos e
42

Sociedades Religiosas e podem exigir que elas assumam explicitamente algumas


responsabilidades.

IGREJAS E EDIFÍCIOS

Uma abordagem cuidadosa é necessária hoje na complexa área de edifícios


destinados ao culto e edifícios destinados à vida comunitária. Há muitos países
onde a diminuição das vocações requer um novo reagrupamento de
religiosos. Sua distribuição diversa, como resultado, pode levar ao fechamento e
ao abandono de centros que em algum momento foram particularmente
importantes para uma família religiosa e para a vida eclesial. Por outro lado, há
países onde o crescimento repentino da vida consagrada, imprevisto até poucos
anos atrás, encontra membros de Sociedades e Institutos Religiosos confrontados
com situações diversas. Pode-se recordar, por exemplo, a necessidade de
construir novas igrejas e edifícios para a vida comunitária a partir do zero em
regiões onde a Igreja esteve presente recentemente, ou a urgência de reconversão
de locais de culto e restauração de casas religiosas em países onde, por longas
décadas, tais espaços foram tirados de seus legítimos proprietários, como ocorreu
em nações da Europa Oriental. Situações muito diversas requerem então
abordagens apropriadas.

Com relação ao espaço que está se tornando abundante por causa das
crises vocacionais, seria bom planejar um programa para ser colocado em ação,
que pode levar em consideração não apenas o fator econômico (uma venda pelo
melhor preço possível), mas, acima de tudo, pode justificar o significado histórico
e espiritual das construções individuais. Parece urgente que algumas decisões
relativas à alienação do património imobiliário não sejam tomadas
apressadamente. Antes, deve-se levar em conta os propósitos atribuídos a cada
edifício, em um esforço para manter integral seu objetivo original, especialmente
no caso dos centros litúrgicos. As vastas construções encontradas acima de tudo
em países de tradição cristã antiga não devem ser dadas a especulações duvidosas
de propriedade. Eles devem ser disponibilizados, se possível.

Quando se trata de recuperar edifícios que caíram por algum tempo em


desuso, deve-se avaliar o sentido real por trás de tal iniciativa. Deve ser conduzido
com grande cuidado, de acordo com uma clara hierarquia de valores que pode
ajudar a estabelecer as prioridades das intervenções e a natureza do esforço
necessário envolvido. Não se trata de restaurar a todo custo o que está em
condições desastrosas, a fim de reafirmar um certo prestígio dentro das
estruturas de poder fora da Igreja. Pelo contrário, deveria implicar saber como
afirmar o objetivo primário de dar glória a Deus sem esquecer os sofrimentos de
Seu povo que carregam as visíveis cicatrizes da violência, como se vê também nas
igrejas e casas danificadas.
43

Como sábios administradores dos bens do Espírito, os membros dos


Institutos e Sociedades Religiosos saberão encontrar muitas maneiras de lançar
um programa de construção e restauração, que não provocará mais sofrimentos
no povo cristão. Muito mais conveniente será a restauração de um prédio para o
culto, muito mais austero deve ser a recuperação dos alojamentos.

Na construção de novos edifícios religiosos, eles devem saber investir toda


a experiência espiritual, a sensibilidade social e o gosto estético, que se
desenvolveram na história de sua comunidade.

As construções devem levar a marca do essencial, que pode unir


simplicidade e dignidade, o funcional e a beleza. As estruturas não devem
obscurecer a mensagem do Evangelho que essas mesmas construções são capazes
de transmitir quando são construídas como testemunhas do espírito das bem-
aventuranças.

Condições económicas difíceis podem, por vezes, impor a renúncia a


qualquer tipo de intervenção nos edifícios sob sua custódia. Essa condição de
pobreza deve levar os membros dos Institutos Religiosos a confiar mais na
Providência, o que faz com que nada falte à necessidade da vida cotidiana. Como
pessoas pobres, eles devem ajudar aqueles que estão em uma condição de pobreza
maior ou mais sofrida. Desta forma, eles podem dar também um testemunho
credível da supremacia de Deus e valores espirituais em um mundo que
facilmente se deixa atropelar por outros princípios.

MATERIAL DO MUSEU:
Um desafio para encontrar as raízes mais uma vez

Os edifícios de culto e as próprias casas religiosas, com o passar do tempo,


tornaram-se um espaço onde numerosos símbolos da fé vividos pelas várias
comunidades foram reunidos: móveis e instrumentos musicais usados para o
culto, pinturas e esculturas, pequenos e grandes objetos do cotidiano vida que
passou por eventos alternativos. Em muitas comunidades, já há algum tempo,
procedeu-se a encontrar uma colocação adequada deste material em locais
adequados. Extremamente positivo é o esforço para inserir tais coisas em um
contexto didático que pode ajudar os próprios religiosos e os visitantes de tais
demonstrações a rever a história da família religiosa através dos eventos da vida
cotidiana dentro da comunidade e em seu esforço apostólico. Uma atenção
particular deve ser dada ao mobiliário litúrgico. Dentro dos limites e na
oportunidade certa, eles devem encontrar um uso periódico nas
celebrações. Deve-se mostrar o máximo de cuidado para protegê-los, pelo menos,
tanto quanto foi o cuidado para produzi-los.

Todo o material que compõe a coleção do museu deve ser reunido e


conservado com cuidado. Após uma pesquisa inicial, deve-se proceder a um
44

inventário geral e detalhado de acordo com os critérios metodológicos dos


campos relacionados a museus atuais, sem deixar de lado detalhes importantes
como, por exemplo, uma documentação fotográfica completa.

De acordo com as situações concretas apresentadas e com o objetivo,


acima de tudo, de evitar deteriorações irreversíveis e o risco de roubo e extravio,
seria prudente reunir todo o material disperso nas várias casas suburbanas num
único centro ou centros provinciais ou nacionais. Nesta operação delicada,
porém, deve-se evitar causar danos às casas suburbanas tirando aquelas relíquias
particularmente significativas para sua história local.

A conservação do material dos museus não implica apenas um interesse


arqueológico prevalente, mas, mais ainda, expressa o desejo de conhecer melhor
as raízes da história humana e religiosa da própria pessoa. Nessa perspectiva, o
cuidado com objetos feitos à mão e obras de arte torna as consciências mais
conscientes de confrontar hoje tanto as complexas condições sociais quanto as
provocadoras necessidades evangélicas. Somente com fidelidade à própria matriz
cultural e espiritual é que podemos nos abrir a experiências renovadas de
humanidade e fé, que exigem sempre uma contribuição criativa do coração e da
mente.

MATERIAL DE ARQUIVO:
A escola da história

Um monte de material, disperso entre as muitas casas religiosas ao redor


do mundo, se enquadra na categoria de patrimônio de arquivo. A natureza desse
material, porque é feito de papel, o torna particularmente vulnerável e
perecível. Muito mais, portanto, deve ser a atenção dada a essa "esfera" que
documenta a história vital e a expansão da Igreja, mãe de inumeráveis crianças
que ela reúne na unidade da fé.

A natureza do material é diferenciada de um lugar para outro de acordo


com a fisionomia específica das comunidades individuais - quer inseridas em
centros sociais com funções pastorais particulares ou situadas em um ambiente
de solidão enclausurado. Deve, no entanto, ser sempre inventariada, reunida,
ordenada, estudada e acessível àqueles que desejam aprofundar a pesquisa em
arquivos. De documentos pessoais a registros de livros, de atos capitulares a
relatos de casas individuais, de registros financeiros a inventários das coleções,
de registros demográficos a entradas meticulosas e detalhadas de práticas
sacramentais: o material de arquivo oferece uma pista que permite acompanhar
concretamente os eventos de uma casa individual e toda uma família religiosa
através do seu crescimento e suas crises,

O material arquivístico presta-se, assim, a toda uma série de análises


interdisciplinares (da paleografia à estatística, da sociologia à comunicação
45

social, dos estudos demográficos à economia) que criam um horizonte histórico


no qual a vida religiosa pode se orientar hoje. É nesta escola de história que os
membros dos Institutos e Sociedades Religiosas podem redescobrir as sugestões
do Espírito, que sempre exige o trabalho apostólico de evangelização e de
adoração silenciosa. Apesar de uma opinião generalizada em contrário, o arquivo
das comunidades religiosas não é um lugar onde se refugia no passado, mas sim
o espaço onde se abre para o futuro.

Para que tal programa possa ocorrer, é preciso examinar de perto a


oportunidade de concentrar o material em algumas sedes apropriadas e torná-lo
acessível, mesmo à distância, usando os procedimentos de reprodução fotográfica
ou computadorizada.

Extremamente rentável é a colaboração entre várias instituições


envolvidas nesta área. É uma colaboração que abrange um amplo leque de
possibilidades: desde a troca de informações até a criação de um banco de dados
comum.

MATERIAL DA BIBLIOTECA: A linfa de uma nova vida

Outra área de interesse é a coleção de material bibliotecário de famílias


religiosas. Tal material constitui outro espelho que reflete profundamente os
esforços religiosos e culturais da Igreja. Esta área inclui uma vasta seção de
depoimentos: desde códices medievais até publicações impressas mais recentes,
de anotações da velha escola a coleções de cartas, de volumes manuscritos de
profundo conhecimento nos vários campos de pesquisa teológica e científica a
coleções eruditas compiladas, de desenhos e projetos arquitetônicos para
partituras com música composta por grandes capelas e por lugares mais
populares e simples.

O material da biblioteca, mesmo em suas expressões tão diversificadas,


pode apresentar a oportunidade de frutificar os talentos que Deus concedeu a
Seus filhos que estão em busca de Seu semblante.

Tudo isso constitui um trabalho paciente e secular que destila a ciência


humana a ponto de transformá-la no conhecimento das coisas de Deus, em uma
profissão de fé ilustrada pela especulação intelectual e cantada pela música
sacra. As bibliotecas não apenas reúnem material empoeirado destinado a ser
esquecido. Neles estão escondidos tesouros da experiência cristã vivida e
comunicada através da palavra escrita. Não é tanto uma questão de encher as
prateleiras, mas de cumprir o coração, mergulhando na sabedoria dos pais e das
mães da fé - a linfa de uma nova vida - num itinerário de aprofundamento cultural
que é parte integrante da vida, o caminho da atualização individual e comunitária
para o crescimento do indivíduo e de toda a família.
46

Até mesmo o material da biblioteca deve ser adequadamente identificado,


inventariado, eventualmente restaurado e tornado acessível. As coleções de livros
das antigas ordens religiosas precisam ser atualizadas e integradas com trabalhos
análogos mais recentes, que permitem a renovação necessária. Deve-se
privilegiar as coleções centrais, como nos casos de arquivo e coleções de
bibliotecas. Mesmo no que diz respeito ao material bibliotecário, deve-se
favorecer toda forma de colaboração entre as casas da mesma família e entre as
diferentes instituições eclesiásticas.

DIRETRIZES DE TRABALHO

Em um nível prático imediato, como já foi mencionado, várias perspectivas


se abrem, o que deve se tornar uma realidade, pelo menos em parte dentro das
famílias religiosas individuais e, em parte, nas organizações
interdenominacionais:

1) Parece importante que as " relações mútuas " entre bispos e membros de
Institutos e Sociedades Religiosos, e, portanto, entre dioceses e famílias
religiosas, se materializem eficientemente nesta área do patrimônio cultural. Isso
pode acontecer por:

- buscando a máxima convergência e harmonia com as normas e diretrizes das


Conferências Episcopais nacionais e regionais, bem como com as dioceses
individuais;

- oferecendo cordialmente a toda a comunidade cristã as coleções artísticas,


históricas e culturais que são de propriedade de instituições dirigidas por
religiosos, para que esses bens possam ainda suprir a fé e a cultura do povo de
Deus - preenchendo um certo desapego que parece contrastar o homem de hoje
e a tradição de pensamento e arte que o conectou no passado à fé cristã e cultura
de populações inteiras;

- inserir no circuito vital dos promotores do pensamento e das artes os membros


dos Institutos e Sociedades Religiosos que têm uma tendência particular a esse
respeito, de modo a reconstruir aquelas conexões ideais entre aqueles que, da fé,
derivam a entonação de seus conhecimentos como membros de Institutos
Religiosos para a Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, e aqueles que
buscam a verdade em seus estudos e em sua experiência artística. Na verdade,
nenhum de nós deve ser autorizado a fechar-se em sua área particular sem se
abrir para a vida total da Igreja e da humanidade.

2) Assim, parece-nos importante resolver a questão das pessoas diretamente


envolvidas no patrimônio cultural. Neste sentido, deve-se privilegiar, acima de
tudo, as vocações artísticas e culturais que Deus desperta para o bem dos
Institutos individuais e de toda a Igreja. O verdadeiro interesse pelo Patrimônio
47

Cultural do passado é testemunhado pelo cuidado com que hoje se promove uma
tradição cultural renovada dentro da Igreja, abrangendo todas as áreas dos bens
culturais conhecidas ao longo da história. É preciso fazer todo o possível para que
a fé e as culturas dos cristãos de hoje e membros dos Institutos Religiosos possam
se traduzir em expressões reais da arte cristã e em depoimentos históricos
adequados.

3) Além disso, deve-se treinar profissionalmente todos aqueles indivíduos que


cuidam do Patrimônio Cultural do passado, não apenas por uma conservação
inerte, mas por uma conscientização necessária e necessária desse
patrimônio. Tais especialistas nos vários setores do Patrimônio Cultural podem
então intervir de maneira positiva no treinamento e na instrução de jovens
membros de Institutos e Sociedades Religiosos, para que uma responsabilidade
vívida possa amadurecer neles para todas as expressões culturais da fé cristã. .

4) Como escrevemos há alguns anos ao Superior e às Madre-Gerais, cujas Casas


Gerais estão localizadas aqui em Roma, foi criado na Universidade Gregoriana
um Programa de Estudos Avançados para a Formação no Patrimônio Cultural da
Igreja, em Roma, com a intenção de colocar à disposição dos sacerdotes,
membros dos institutos religiosos e leigos interessados, um programa que os
prepare nesta delicada e específica área de conservação e promoção do
patrimônio cultural. Tal Escola já está passando pelo seu terceiro ano
agora. Parece possível prever não muito longe no futuro a sua transformação em
uma Faculdade própria para o Patrimônio Cultural. É também possível que, após
essa primeira experiência, outras escolas semelhantes a esta possam se abrir em
outras partes da Igreja.

Gostaríamos de pedir aos membros religiosos que não ignorem esta oportunidade
que pode permitir enviar a Roma os seus irmãos e irmãs em Cristo que se
destinam a ser encarregados desta área de Arte Sacra, Arquivos e Bibliotecas ou
com o ensino destes campos ou com a valorização do patrimônio cultural dentro
de sua Ordem.

5) No planejamento econômico dos Institutos Religiosos não se pode ignorar o


problema do Patrimônio Cultural. Sua valorização tanto no nível de conservação
quanto em sua fruição, muitas vezes constitui um investimento financeiro
seguro. Mas o cuidado dessa herança transcende os limites da economia e a faz
participar dos eventos das obras e de seus criadores numa experiência comum e
renovada de fé.

6) Neste mesmo nível pode-se colocar todos os programas necessários para dar
espaço ao Patrimônio Cultural; a coordenação e os acordos dentro da Igreja, entre
outros Institutos diocesanos e regionais, bem como eventuais acordos com
administrações civis competentes; a programação comum entre membros de
famílias religiosas e com a igreja local, a nível de pesquisa, proteção, conservação
48

e fruição do patrimônio do passado e a produção de obras atuais. Em qualquer


caso, a colaboração deve ser vista como um esforço ativo e não como uma simples
regulação de limites de competências, ciumento de toda "parte interessada".

7) Em particular:

- recordamos a urgência de um inventário atualizado, especialmente fotográfico,


de tudo o que pertence a cada casa religiosa individual;

- deve-se elaborar a documentação necessária para uma compreensão completa


do material de que é proprietário (origem, proveniência, uso, contexto sócio
eclesiástico);

- Toda família religiosa deve aprofundar e certificar através de meios apropriados


de pesquisa, seu próprio itinerário histórico no contexto da ampla história da
Igreja e da sociedade, com particular atenção à obra de evangelização e na
presença da oração que marca a supremacia de Deus na vida da Igreja;

- toda família religiosa deve ter um ou mais centros de documentação de seu


próprio patrimônio artístico e histórico, de modo a melhor aproveitá-lo e
continuar sua constante promoção.

CONCLUSÃO

Como conclusão desta carta fraterna, ousamos pedir a Vossa Excelência,


Reverenda Madre Geral e Superiora Geral, como pedimos e obtivemos dos
Reverendíssimos Presidentes das Conferências Episcopais, que nos respondam e
ajudem esta Pontifícia Comissão, da qual o Santo Padre espera muito com o que
se está a fazer neste domínio, com as dificuldades encontradas e com os desejos
expressos em cada família religiosa em termos dos temas aqui apresentados; e,
acima de tudo, suas sugestões, observações para que possamos agir de forma mais
eficiente e concreta em nosso esforço.

Como fizemos com a resposta dos Presidentes acima mencionados,


podemos então comunicar entre nós, sob a forma de um relatório final, as
respostas recebidas para partilhar os pontos mais significativos que surgiram.

Esperamos que esta comunicação recíproca entre a Pontifícia Comissão e


as famílias religiosas possa marcar uma oportunidade para aprofundar ou iniciar
um diálogo constante de confiança que não pode deixar de influenciar o retorno
a uma cultura e arte inspiradas pelos cristãos, para a qual todos parecem solicitar
um esforço renovado.

Na esperança de que nossas considerações e este "apelo" possam se tornar


objeto de reflexão em Sua Comunidade, para que nosso pensamento possa
49

alcançar um espírito de comunhão, parece útil recordar novamente as palavras


do Santo Padre contidas no Motu Próprio com o qual Ele instituiu esta Pontifícia
Comissão para o Patrimônio Cultural da Igreja:

"A fé tende, por sua própria natureza, a expressar-se em


formas artísticas e em testemunhas históricas que têm
uma força evangelizadora intrínseca e um valor cultural,
diante do qual a Igreja é chamada a dar a máxima atenção".

Com meus sentimentos de estima pessoal e sinceros agradecimentos por


Sua atenção, eu sou Fraternalmente seu em Jesus Cristo.
50

A função pastoral dos arquivos


eclesiásticos
(2 de fevereiro de 1997)
51

A função pastoral dos arquivos eclesiásticos

Cidade do Vaticano, 2 de fevereiro de 1997


Sua Eminência (Excelência)
No curso de sua história bimilenária, a Igreja fez o melhor possível em
múltiplas iniciativas pastorais, no contexto de culturas muito diferentes, com a
única intenção de anunciar o Evangelho. A lembrança das obras produzidas
confirma o esforço contínuo dos fiéis em buscar os bens capazes de criar uma
cultura de inspiração cristã, a fim de promover plenamente o homem como
pressuposto indispensável para sua evangelização. Além da produção de tais bens
culturais, a Igreja tem se interessado em seu uso pastoral e, consequentemente,
na proteção daquilo que produziu para expressar e realizar sua missão. Parte
deste último é o cuidado de conservar a memória de muitos e diferentes tipos de
ações pastorais através de documentos de arquivo.
No espírito da Igreja, os arquivos são lugares de memória da comunidade
cristã e armazéns de cultura para a nova evangelização. Assim, eles próprios são
um bem cultural de importância primordial, cujo mérito especial reside em
registrar o caminho seguido pela Igreja ao longo dos séculos nos vários contextos
que constituem sua própria estrutura. Como os arquivos de memória devem
reunir sistematicamente todos os dados que compõem a história articulada da
comunidade da Igreja, para que o que foi feito, os resultados obtidos, incluindo
omissões e erros, possam ser devidamente avaliados.
Um estudo bem documentado e sem preconceitos de seu próprio passado
torna a Igreja mais “perita em humanidade” porque revela a riqueza histórica por
trás dela e também permite que ela se identifique com sua missão essencial,
contínua e variada de inculturação e aculturação. Um estudo como este, que
procede de uma cuidadosa coletânea de tudo o que pode ser documentado, ajuda
a planejar um futuro baseado nas contribuições da Tradição, segundo o qual a
memória é também uma profecia.
Tomando emprestada uma imagem adequada da escola de Chartres,
podemos nos considerar gigantes se fomentarmos a consciência de repousar
sobre os ombros das gerações que nos precederam em nome da única fé. De fato,
fontes históricas traçam a ação da Igreja em um caminho ininterrupto de
continuidade. Isso começa com a mensagem de Cristo, passa pelos escritos das
primeiras comunidades apostólicas e de todas as comunidades eclesiais que se
seguem até nossos dias atuais. Ele fornece uma série de imagens que
documentam o processo de evangelização de cada igreja em particular, bem como
da Igreja universal. Uma vez que, providencialmente, circunstâncias históricas
adversas não destruíram a memória de grandes eventos, devemos fazer um
esforço especial para proteger e apreciar os documentos sobreviventes, a fim de
usá-los no hic et nunc da Igreja.
52

Em termos de conteúdo específico, os arquivos preservam as fontes que


descrevem o desenvolvimento histórico da comunidade eclesial, bem como as
relativas às atividades litúrgicas, sacramentais, educativas e de caridade que o
clero, os religiosos e os leigos membros da Igreja realizaram ao longo do tempo,
dos séculos até os dias atuais. Muitas vezes, eles preservam documentos sobre as
realizações desses indivíduos, bem como documentos sobre a relação jurídica
entre comunidades, instituições e indivíduos.
Numerosos são os esforços patrocinados pelos Papas que tratam de
questões relacionadas a arquivos, como sabemos pelos documentos mantidos de
forma exemplar no antigo e glorioso Scrinium Sanctae Sedis no Laterano e depois
na mais recente coleção do Arquivo Secreto Vaticano. Normas têm sido
repetidamente emitidas pelos Conselhos Gerais e pelos sínodos diocesanos.
Igualmente numerosos são os exemplos das nobres tradições de arquivo
mantidas pelas igrejas particulares e por ordens religiosas e congregações [1]. O
novo Código de Direito Canônico de 25 de janeiro de 1983 [2], bem como o
anterior de 1917 [3], e o Código de Cânones das Igrejas Orientais (18 de outubro
de 1990) [4] dar normas adequadas para a conservação diligente e gestão
cuidadosa das fontes de arquivo. Desde 1923, um curso de Arquivística foi
oferecido na Scuola Pontifícia de Paleografia e Diplomatica, que levou o nome da
instituição a mudar para a Scuola Vaticana de Paleografia, Diplomatica e
Archivistica.
Além desta iniciativa, deve-se lembrar também que o Papa João Paulo II
estabeleceu uma Comissão Pontifícia para a Conservação do Patrimônio
Histórico e Artístico em 28 de junho de 1988, na Congregação do Clero [5]. Esta
Comissão foi posteriormente reformada de acordo com os desejos do Santo
Padre, e convocou a Comissão Pontifícia para o Patrimônio Cultural da Igreja com
uma posição autônoma [6]. Além disso, o Papa João Paulo II, na Constituição
Apostólica Pastor Bonus de 28 de junho de 1988, declarou que “inter bona
historica eminent omnia documenta et instrumenta, quae vitam et curam
pastoralem necnon iura et obrigations dioecesium, paroeciarum, ecclesiarum
aliarumque personarum iuridicarum in Ecclesia conditarum respiciunt et
testificantur” [7].
O Santo Padre voltou a comentar sobre esta questão em seu discurso aos
membros da Pontifícia Comissão para o Patrimônio Cultural da Igreja em sua
primeira Assembleia Plenária. Nesta ocasião, ao traçar a ampla tipologia dessa
herança cultural “colocada a serviço da missão da Igreja”, ele também mencionou
“documentos históricos preservados nos arquivos das comunidades eclesiais” [8],
das fontes autorizadas acima mencionadas e da crescente literatura científica e
histórica, pode-se ver claramente o interesse da Igreja em preservar o bem viver
da memória, com o objetivo de atrair a atenção do povo de Deus para sua história.
53

A Pontifícia Comissão para o Patrimônio Cultural da Igreja tem feito sua


parte ao comunicar regularmente ao episcopado o desejo do Santo Padre João
Paulo II de que a herança cultural da Igreja receba a devida atenção que merece,
por ser uma testemunha a tradição cristã e representa um meio para levar a cabo
a obra da nova evangelização requerida hoje.

Uma primeira carta circular dirigida aos Presidentes das Conferências


Episcopais foi publicada em 10 de abril de 1989, juntamente com um questionário
que tinha como objetivo reunir informações sobre a natureza e o status quo desse
patrimônio, incluindo coleções de arquivos e sua gestão. Uma segunda carta foi
enviada aos Presidentes das Conferências Episcopais da Europa em 15 de junho
de 1991, em vista da abertura das fronteiras europeias, incitando a inventariação
e catalogação de material histórico e artístico.
Posteriormente, na carta circular emitida em 15 de outubro de 1992, esta
Comissão sugeriu enfaticamente que os futuros sacerdotes se tornassem
adequadamente conscientes da importância e da necessidade do patrimônio
cultural da Igreja como parte da expressão e aprofundamento da fé dentro de seu
programa teológico e estudos filosóficos. Outra carta circular foi enviada em 19
de março de 1994 para chamar a atenção para a importância das bibliotecas da
Igreja e seu papel na missão da Igreja.
Finalmente, com a presente circular, a Comissão deseja despertar o
interesse pelas coleções de arquivos, devido à sua importância cultural e pastoral.
Deste modo, quer responder ao desejo expresso pelo Santo Padre aos membros
da Primeira Assembleia Plenária desta Pontifícia Comissão, para ir além do
conceito de mera conservação do patrimônio cultural. Ele sublinhou que
“devemos promovê-lo de maneira sistemática e sábia, para torná-lo parte da força
vital da atividade cultural e pastoral da Igreja” [9].
1. A transmissão de documentos e sua importância para a Igreja
Os documentos preservados nos arquivos da Igreja Católica representam
uma herança imensa e preciosa. Isso é demonstrado pelo grande número de
arquivos que foram instituídos pela presença e atividade dos bispos em suas sedes
episcopais. Deve-se, portanto, mencionar os arquivos dos bispos e registros
paroquiais como o tipo mais antigo de material que compõe a coleção. Estes
últimos documentos, apesar dos acontecimentos históricos, aumentaram em
muitos casos com novos documentos, devido às mudanças na organização
institucional da Igreja e aos desenvolvimentos em sua atividade pastoral e
missionária.
Os arquivos dos mosteiros de várias tradições são, em muitos casos,
significativos devido à idade e importância dos documentos coletados. A vida
cenobítica desempenhou um papel primordial na evangelização das pessoas que
cercam os assentamentos religiosos. Fundou importantes instituições
54

educacionais e de caridade. Transmitiu a cultura antiga e, mais recentemente,


proporcionou a oportunidade de restaurar documentos de arquivo através da
criação de laboratórios especializados.
Além dos arquivos dos mosteiros, deve-se incluir também os das
congregações religiosas e outras instituições de vida consagrada, de sociedades
de vida apostólica recentemente instituídas com as organizações locais,
provinciais, nacionais e internacionais. Assim, esta documentação abundante que
é um enriquecimento para as coleções de arquivos abre um capítulo eloquente na
história da Igreja.
A estes devem ser acrescentados os arquivos que preservam os
documentos produzidos pela catedral e pelos capítulos colegiais; centros para a
educação do clero (por exemplo, seminários, universidades eclesiásticas, centros
de estudo de vários tipos); aqueles pertencentes a grupos e associações de fiéis,
passados e atuais, como confrarias que desempenharam um papel especial
através dos tempos e para o trabalho de caridade; as de instituições hospitalares
e escolares; as das comunidades missionárias através das quais se materializou o
apostolado da caridade cristã. É verdadeiramente impossível descrever os
arquivos da Igreja de maneira exaustiva, pois, observando os regulamentos
canônicos, vemos sua diversidade multiforme.
1.1. Transmissão como um momento de tradição
Os arquivos da Igreja, preservando a documentação única e espontânea
produzida por pessoas e eventos, cultivam a memória da vida da Igreja e
manifestam o sentido da Tradição. De fato, as informações armazenadas em
coleções de arquivos possibilitam a reconstrução das ocorrências diárias
envolvidas na evangelização e educação para o estilo de vida cristão. Eles
representam uma fonte primária para escrever a história das múltiplas
expressões da vida religiosa e da caridade cristã.
A vontade da comunidade de fiéis e, em particular, das instituições da
Igreja de reunir dos tempos apostólicos as testemunhas de fé e cultivar sua
memória expressa a unidade e a continuidade da Igreja. A recordação venerada
do que foi dito e feito por Jesus, pela primeira comunidade cristã, pelos mártires
e pais da Igreja, pela expansão do cristianismo no mundo, é motivo suficiente
para louvar ao Senhor e agradecer-lhe pelas "grandes obras" que inspirou seu
povo. Assim, nos homens da Igreja, uma memória cronológica traz consigo uma
leitura espiritual dos eventos no contexto do eventum salutis e impõe a urgência
da conversão para alcançar o utumum sint.
1.2. Transmissão como memória da evangelização
Tais motivações teológicas são a inspiração por trás da atenção e cuidado
demonstrados pela comunidade cristã na proteção de seus arquivos. Fontes
históricas, preservadas em gabinetes antigos ou em prateleiras modernas,
permitiram e favoreceram a reconstrução de eventos. Eles registraram a história
55

do trabalho pastoral dos bispos em suas dioceses, dos pastores em suas


paróquias, dos missionários em áreas de primeira evangelização, de religiosos em
suas instituições, de organizações leigas na sociedade.
Pensemos nos registros de visitas pastorais, nos relatórios de visitas ad
limina, nos relatórios elaborados pelos núncios e delegados apostólicos;
documentos relativos a conselhos nacionais e sínodos diocesanos, os despachos
de missionários, as atas de capítulos de instituições de vida consagrada e de
sociedades apostólicas, etc.

Os registros paroquiais que registram a celebração dos sacramentos e


registram o falecido, bem como os registros da cúria que relatam ordenações
sagradas, revelam a história da santificação do povo cristão em sua dinâmica
institucional e social. Documentos relativos a profissões religiosas nos permitem
compreender o desenvolvimento dos movimentos espirituais nos termos
históricos em que a sequela Christi se expressou. Mesmo os artigos referentes à
administração de bens da Igreja refletem o esforço dos indivíduos e a atividade
econômica das instituições, fornecendo assim uma importante fonte de
informação.
Os documentos coletados em um arquivo sublinham a atividade religiosa,
cultural e caritativa de muitas instituições dentro da Igreja. Eles favorecem uma
compreensão histórica das obras artísticas que foram produzidas ao longo dos
séculos para expressar o culto, a piedade popular e as obras de misericórdia.
Assim, os arquivos da Igreja merecem atenção tanto pelo seu significado histórico
quanto pelo espiritual. Eles nos permitem entender o laço intrínseco entre esses
dois aspectos na vida da Igreja. De fato, através da história diversificada da
comunidade como registrada nos documentos, os traços da ação de Cristo são
revelados, uma ação que nutre Sua Igreja como um instrumento universal de
salvação e a inspira no caminho da humanidade. Nos arquivos da Igreja, como o
Papa Paulo VI adorava dizer, são mantidos os vestígios datransitus Domini na
história da humanidade [10].
1.3. Transmissão como instrumento pastoral
As instituições cristãs têm abrangido através de suas atividades as
características e os modos de diversas culturas e realidades históricas e, ao
mesmo tempo, tornaram-se uma importante agência cultural. Ao nos
aproximarmos do terceiro milênio cristão, é muito útil redescobrir essa
inculturação multifacetada do Evangelho que ocorreu nos séculos passados e
ainda é um fenômeno atual na medida em que a Palavra de Deus se torna
anunciada, crida e vivida pela comunidade de fiéis através de inúmeros costumes
locais e diversas práticas pastorais.
A memória histórica constitui parte integrante da vida de toda
comunidade. O conhecimento de tudo o que testemunha a sucessão de gerações,
56

seu know-how e suas ações cria um senso de continuidade entre o passado e o


presente. Portanto, se os documentos são conhecidos e comunicados, os arquivos
podem se tornar instrumentos úteis para uma ação pastoral iluminadora, porque
através da memória dos fatos a Tradição se torna mais concreta. Além disso,
podem oferecer aos pastores e leigos, igualmente envolvidos no trabalho de
evangelização, informações úteis sobre diferentes experiências do passado
distante e recente.
Uma consciência prospectiva da ação histórica da Igreja, como entendida
por meio de fontes de arquivo, oferece a possibilidade de uma adaptação
adequada das instituições da Igreja às necessidades dos fiéis e dos homens de
nossos tempos. Através da pesquisa de aspectos históricos, culturais e sociais,
estes centros de documentação permitem a estudar de experiências passadas
dentro da vida da Igreja e a identificação de quaisquer faltas cometidas, bem
como incentivar a renovação das experiências benéficas adaptadas às condições
históricas mudaram. Uma instituição que esquece seu próprio passado
dificilmente será capaz de projetar sua função entre os homens em qualquer
contexto social, cultural ou religioso. Nesse sentido, os arquivos, preservando as
testemunhas das tradições religiosas e das práticas pastorais, têm sua própria
vitalidade e validade intrínsecas. Contribuem eficazmente para o crescimento de
um sentido de pertença eclesial em todas as gerações e mostram o esforço da
Igreja num determinado território. Pode-se entender, então, o cuidado que
muitas comunidades locais dedicaram no passado e continuam fazendo em favor
desses centros de cultura e ação da Igreja.
2. O esboço de um plano de ação concreto
Os arquivos são lugares de memória da Igreja, que devem ser preservados,
transmitidos, renovados, apreciados porque representam a conexão mais direta
com a herança da comunidade eclesial. As perspectivas de relançá-las são
favoráveis, devido à sensibilidade que se desenvolveu em muitas igrejas
particulares para o patrimônio cultural e, em particular, para a memória de
eventos locais. Iniciativas nesse sentido têm sido muitas e significativas não
apenas dentro da Igreja, mas também na comunidade civil. Em muitas nações,
há uma crescente atenção dada à herança cultural da Igreja, considerando o papel
que a Igreja Católica teve em sua história. Mesmo em países de recente
evangelização e profundas mudanças sociais, a proteção dos arquivos está
assumindo um significado social e cultural relevante.
No geral, a situação das coleções de arquivos é muito diversificada.
Consequentemente, esta Pontifícia Comissão considera oportuno indicar a Sua
Eminência (Excelência) apenas algumas diretrizes gerais para a formulação de
um plano de ação específico voltado à conservação e promoção do patrimônio
arquivístico das Igrejas Particulares em relação às suas diversas situações.
No contexto da tipologia eclesiástica, os arquivos se distinguem em várias
categorias, que incluem arquivos diocesanos, arquivos paroquiais, arquivos de
57

outras entidades não sujeitas ao bispo diocesano, arquivos de pessoas jurídicas.


Em termos de sua função, encontramos registros arquivísticos para assuntos
atuais (documentos sobre a vida cotidiana e gestão de uma entidade particular),
arquivos históricos (documentos de valor histórico), arquivos secretos diocesanos
(documentos sobre causas criminais, atestados de casamentos de consciência,
dispensações de impedimentos ocultos etc.).
A responsabilidade pelo material documental é atribuída principalmente a
entidades individuais da Igreja. Isso faz com que seja necessário estabelecer
critérios adequados in loco sobre a configuração e boa gestão dos arquivos
históricos, a proteção e conservação do arquivo secreto, a organização correta dos
arquivos para assuntos atuais, uma informatização adequada dos dados, a
contratação de pessoal qualificado e a assistência de especialistas técnicos, a
circulação de informações entre várias coleções de arquivos, a participação em
associações nacionais e internacionais de arquivo, a promoção da disponibilidade
deste material para consulta e pesquisa.
Além disso, é desejável estabelecer comissões especiais, sempre que
possível, compostas pelos responsáveis pelas coleções de arquivo diocesano, bem
como por especialistas na área. Na organização de arquivos e sua gestão, pode-se
adotar metodologias diferentes baseadas em certas teorias arquivísticas básicas e
que podem responder a necessidades especiais usando os meios operacionais
concretos disponíveis. É impossível chegar a um plano orgânico igual para todos
os arquivos da Igreja. No entanto, é necessário elaborar um plano coerente,
aberto a desenvolvimentos futuros, inclusive tecnológicos, e ao intercâmbio de
informações. Nesse sentido, algumas diretrizes operacionais são sugeridas para
melhor contextualizar o problema do arquivo.
2.1. Estabelecimento ou efetivação de um arquivo histórico diocesano
Deve-se sublinhar a responsabilidade primária das igrejas particulares em
termos de sua própria memória histórica. Consequentemente, o Código de
Direito Canônico cobra especificamente ao bispo diocesano e,
consequentemente, ao seu equivalente de acordo com can.381.2, ter cuidadosa
atenção para que "arquivar registros e documentos de igrejas catedrais, colegiais,
paroquiais e outras que estejam presentes em seu território sejam
adequadamente conservada " [11]. A isto deve ser acrescentado o dever de
estabelecer dentro da diocese "um arquivo histórico diocesano e ver que os
documentos de valor histórico sejam cuidadosamente guardados e organizados
sistematicamente" [12]. O bispo diocesano deve, além disso, de acordo com o cân.
491,3 [13], fornecer uma coleção de arquivos com regulamentações específicas,
que possam garantir sua função correta em relação aos seus objetivos específicos.
A organização correta do arquivo histórico diocesano pode servir de
exemplo para outras entidades e organizações da Igreja presentes no território.
Mais especificamente, pode constituir um paradigma útil para as instituições da
vida consagrada e para as sociedades de vida apostólica, onde há frequentemente
58

um depósito arquivístico abundante, de modo que os arquivos históricos das


instituições podem ser estabelecidos segundo critérios semelhantes.
Um arquivo histórico da Igreja pode encontrar-se na situação de receber
material de arquivo privado (seja de um fiel individual ou de uma pessoa jurídica
eclesiástica privada). Estes tipos de arquivos permanecem de propriedade do fiel
ou entidade que depositou o material, com a devida consideração pelos direitos
adquiridos no momento da concessão deste material (como por exemplo, quanto
à proteção do material em sua integridade, os regulamentos para conservação em
local específico, critérios de acesso). Ao receber este material na coleção do
arquivo da Igreja, é necessário incluir no ato oficial do contrato cláusulas relativas
ao cumprimento exato das condições do arquivo de hospedagem. Se este material
cai sob a competência do reino civil, as normas em vigor nesse local devem ser
seguidas.

Com o devido respeito pela competência canônica e civil, deve-se prever a


possibilidade de reunir certas coleções menores de arquivos que não estejam
suficientemente protegidas, sob qualquer título que possa ser aplicado (depósito,
extinção ou supressão de uma pessoa jurídica eclesiástica, etc.). Essa
concentração é feita com a finalidade de garantir a conservação do material tanto
para seu uso como para sua proteção. Os bispos diocesanos e outros que são
legitimamente responsáveis por tais questões devem tomar tais medidas sempre
que houver o perigo de que tais materiais possam acabar em locais impróprios ou
de fato já estejam em locais desprotegidos, como paróquias e igrejas que não têm
sacerdotes ou outro pessoal, ou mosteiros e conventos não mais habitados por
comunidades religiosas.
2.2. Adaptação do arquivo para assuntos atuais
O arquivo para assuntos atuais assume uma importância notável para a
vida ordinária da comunidade eclesial. Expressa a natureza da atividade pastoral
de um corpo eclesiástico. Por esta razão, deve-se organizá-lo de acordo com
critérios que podem levar em conta as necessidades atuais, mas também estar
aberto a desenvolvimentos futuros.
O procedimento arquivístico para documentos contemporâneos é tão
importante quanto a coleta de documentos antigos e a conservação de arquivos
históricos. De fato, os arquivos históricos de amanhã estão guardados nos
arquivos de hoje para assuntos atuais em várias cúrias episcopais e provinciais,
em escritórios paroquiais, em escritórios secretariais de instituições eclesiásticas
individuais. Nestes, registra-se todo momento da vida da comunidade eclesial e
seu contínuo desenvolvimento, bem como sua organização capilar e as múltiplas
atividades realizadas por seus membros. No período pós-conciliar, foi lançado um
processo benéfico de renovação. Houve mudanças, mesmo radicais, na
organização das instituições da Igreja. Novos desenvolvimentos e retrocessos
59

ocorreram na atividade missionária da Igreja. A necessidade de reestruturar


muitas instituições tem sido sentida devido a uma diminuição das vocações e da
prática religiosa, bem como a outras condições adversas, que afetaram
principalmente os países ocidentais. A documentação produzida a este respeito
tem sido muito abundante e assumiu particular importância. Por isso, requer
uma regulação e organização adequadas.
Sobre o funcionamento correto dos arquivos para os assuntos atuais pode
depender agora da informação e da coordenação de muitas iniciativas e no futuro
a imagem da diocese, paróquia, a instituição da vida consagrada e a sociedade da
vida apostólica, as associações de fiéis, movimentos eclesiais, que serão
transmitidos às gerações futuras. Se alguém não proceder com certa urgência
para cuidar dos arquivos para assuntos atuais, pode causar danos não apenas à
memória histórica, mas também à atividade pastoral das igrejas particulares.
Arquivos bem gerenciados são instrumentos úteis para verificar as
iniciativas tomadas a curto, médio e longo prazo. É necessário, portanto, fixar
critérios para a aquisição de atos e organizá-los de maneira adequada, bem como
distingui-los tipologicamente (por exemplo, os registros de atas e os atos da vida
da Igreja, que têm um período contínuo, devem ser considerados diferentemente;
de documentos sobre casos individuais que terminam em um determinado
momento). O Código de Direito Canônico recomenda a todos os administradores
de bens da Igreja que “cataloguem adequadamente documentos e materiais,
sobre os quais se fundam os direitos da Igreja e da instituição em relação a seus
bens e propriedades, e os conservem em um arquivo conveniente e adequado.”
[14]
Particular atenção deve ser dada à metodologia usada para organizar o
arquivo. Não pode limitar-se apenas ao planejamento da coleta e ao ordenamento
do material de papel. Deverá envolver a organização de documentação adquirida
utilizando os meios técnicos que estão continuamente a ser desenvolvidos com o
auxílio de métodos multimídia (diapositivos, cassetes, videocassetes, discos de
computador, CD, CD-ROM, etc.). A este respeito, na área dos arquivos da Igreja
ainda é necessário adquirir, sempre que possível, uma mentalidade de gestão em
conformidade com as modernas tecnologias.
2.3. Colaboração mútua com corpos civis
Em muitos países, já existe uma política avançada para o patrimônio
cultural atualmente em vigor, estabelecida por meio de leis, regulamentos,
acordos com entidades privadas e projetos concretos específicos. Em seu
relacionamento com as nações, a Igreja enfatiza os objetivos pastorais de seus
bens culturais e seu papel persistente e atualizado na obtenção desses objetivos.
Esta posição não exclui, mas torna mais vital o uso dos documentos reunidos em
um território específico e de uma certa conjunção cultural em benefício da Igreja
e das comunidades civis.
60

Tal atenção por parte da comunidade política envolve a herança cultural


pertencente aos corpos oficiais da Igreja de várias maneiras. Frequentemente
encontramos acordos mútuos elaborados para favorecer a harmonização de ações
específicas. De fato, há uma crença generalizada de que os arquivos históricos de
entidades eclesiásticas também fazem parte do patrimônio nacional, mesmo que
permaneçam autônomos. Nesse sentido, as normas devem ser garantidas e
promovidas por meio das quais sua propriedade, natureza e origem devem ser
respeitadas. Além disso, iniciativas destinadas a tornar conhecida a ação
realizada pela Igreja em uma determinada comunidade política por meio de
documentos de arquivo devem ser favorecidas e apoiadas.
Em relação à comunidade política, é dever dos bispos diocesanos e de
todos os responsáveis pelos arquivos da Igreja manter uma atitude de respeito
pelas leis vigentes nos diversos países, tendo em mente as condições previstas no
cân . 22 do Código de Direito Canônico. É também desejável que as igrejas
particulares trabalhem em colaboração com a comunidade política com base nos
acordos apropriados elaborados pela Sé Apostólica ou pelo seu mandato
expresso.
2.4. Diretrizes comuns para as Conferências Episcopais
Tal interação entre a Igreja competente e as autoridades civis instala as
Conferências Episcopais nacionais e regionais a promover uma orientação
comum nas igrejas particulares, a fim de melhor coordenar as ações tomadas em
favor de bens histórico-culturais e, mais especificamente, arquivos, com o devido
respeito à poder legislativo próprio do bispo diocesano por direito divino [15].
Por conseguinte, é considerado adequado:
- reafirmar o respeito que a Igreja sempre demonstrou em relação às culturas,
mesmo as clássicas não cristãs, das quais preservou e distribuiu muitos
documentos escritos, poupando-os muitas vezes do esquecimento total;
- estimular a crença de que o cuidado e a valorização dos arquivos assumem uma
importante importância cultural e podem ter um profundo significado pastoral,
além de se tornar um eficiente instrumento de diálogo com a sociedade
contemporânea;
- preservar nos arquivos os atos estabelecidos e tudo o que possa ajudar a tornar
mais conhecida a vida concreta da comunidade eclesial;
- incentivar a elaboração de agendas onde se registrem os principais
acontecimentos locais de cada entidade da Igreja, a fim de fornecer um ponto de
referência válido para os documentos diários reunidos em arquivos;
- ter especial cuidado na recolha (também com a ajuda de novas tecnologias) de
documentos sobre as tradições religiosas e iniciativas eclesiais que estão a
desaparecer para perpetuar a memória histórica;
61

- Convergir em diretrizes práticas comuns o esforço das igrejas particulares em


relação à metodologia seguida para o arranjo, avaliação, proteção, uso dos
documentos na coleção de arquivos;
- Estudar a possibilidade e a forma de recuperar arquivos confiscados no passado,
muitas vezes como resultado de circunstâncias históricas complexas, e dispersos
noutros locais, através de acordos de restituição ou através de meios de
reprodução informatizados (microfilmes, ópticas, discos, etc), especialmente
quando contêm documentos sobre a história da comunidade da Igreja;
- lembrar a cada administrador de bens da Igreja sua responsabilidade em relação
à proteção de documentos relevantes de acordo com as diretrizes canônicas
estabelecidas;
- encorajar os arquivistas na sua responsabilidade de proteger a coleção,
promovendo programas de formação adequados e atualizados, convidando-os a
participar nas associações nacionais competentes neste domínio e organizando
seminários e congressos para uma melhor compreensão dos problemas
envolvidos no processo de avaliação e gestão de arquivos da Igreja;
- despertar nos pastores e em todos os responsáveis pelas pessoas jurídicas
submetidas aos Bispos diocesanos uma maior sensibilidade para com os arquivos
sob seus cuidados, a fim de que estes possam contribuir com um esforço maior
para coletar, ordenar e apreciar apropriadamente este tipo de material.

- incentivar os esforços para que os “registros paroquiais sejam corretamente


inscritos e devidamente salvaguardados ...” [16].
2.5. O emprego de pessoal qualificado
As autoridades competentes devem atribuir a direção dos arquivos da
Igreja a indivíduos qualificados e devidamente treinados. Uma seleção cuidadosa
deve ser feita para que esse tipo de serviço da Igreja, que deve ser atribuído
sempre que possível a indivíduos capazes e experientes, de acordo com condições
de trabalho estáveis, possa aumentar ainda mais. A importância deste serviço
deve ser considerada em referência ao arquivo histórico, bem como a dos
assuntos atuais, como mencionado no cân. 491.1-2 :
- o indivíduo responsável pelo arquivo histórico diocesano pode realizar trabalhos
em outras coleções de arquivos diocesanos, de acordo com as diretrizes próprias
emitidas pelo bispo, e pode coordenar as atividades culturais promovidas por
vários arquivos;
- o responsável pelo arquivo de assuntos da atualidade, além de garantir a devida
confidencialidade do material coletado, pode favorecer várias iniciativas
empreendidas por meio de uma política de gestão que facilite a consulta e a
pesquisa.
62

Assim, é de fundamental importância o treinamento adequado de


funcionários que atuam neste campo da ciência de arquivos em vários níveis. A
longo prazo, este serviço contribuirá para o desenvolvimento dessa base cultural
que hoje parece extremamente necessária para o trabalho pastoral. Com este
objetivo em mente, a Escola do Vaticano de Paleografia e Ciência dos Arquivos,
instituída nos Arquivos Secretos do Vaticano, vem trabalhando de maneira
louvável há décadas.
Recentemente, esta Pontifícia Comissão para o Patrimônio Cultural da
Igreja patrocinou um Programa de Estudos Avançados para o Patrimônio
Cultural da Igreja na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. As associações
de arquivistas da Igreja devem ser promovidas em todos os países, porque seu
trabalho e esforços são de fato louváveis por oferecer aos arquivistas uma
oportunidade de se manter atualizados e garantir a proteção do patrimônio
cultural.
O cumprimento das numerosas necessidades ligadas à ciência do arquivo
depende da formação profissional dos funcionários do departamento de arquivo,
para quem os bispos diocesanos atribuem a gestão e a direção das coleções de
arquivos, bem como seu senso de responsabilidade para com a Igreja e para com
a cultura em geral.
A competência técnica e o senso de dever são as condições necessárias na
base de um devido respeito à integridade das coleções de material, a aquisição de
novos documentos materiais derivados de outros arquivos, a organização do
material depositado, as políticas de acesso e avaliação que deve estar em
conformidade com um regulamento que controla a passagem de material do
arquivo para assuntos atuais para o arquivo histórico.

3. A conservação dos documentos de memória


A principal preocupação em relação aos arquivos da Igreja nas igrejas
particulares é, certamente, preservar com cuidado uma herança tão preciosa, a
fim de que possa ser transmitida às gerações futuras. Organizar arquivos implica
seguir os critérios de unidade por diferenciação. A distinção do material reunido
demonstra a atividade capilar da comunidade da Igreja e, ao mesmo tempo, fala
sobre sua substancial unidade de intenção.
Preservação é uma necessidade que nós hoje justamente devemos àqueles
que foram antes de nós. Mostrar desinteresse seria uma ofensa aos nossos
antepassados e sua memória. É dever dos bispos diocesanos observar as
regulamentações canônicas a esse respeito. [17] Igrejas particulares jovens
também são obrigadas a documentar progressivamente sua atividade pastoral
seguindo regras canônicas a fim de transmitir a memória da primeira atividade
de evangelização e a inculturação da fé em sua comunidade.
63

3.1. A qualidade única dos documentos


Deve-se ter em mente que os arquivos, ao contrário das bibliotecas,
contêm principalmente documentos exclusivos. Eles representam as principais
fontes para a pesquisa histórica, porque se referem diretamente aos eventos e
ações particulares de indivíduos específicos. Sua perda ou destruição significa
anular uma investigação objetiva dos fatos e impedir a aquisição de experiências
anteriores e, assim, comprometer a transmissão de valores culturais e religiosos.
A conservação de manuscritos, pergaminhos, material de papel e registros
computadorizados pode ser garantida por uma norma apropriada em relação à
política de acesso, um programa de inventário eficiente, qualquer restauração
necessária, a adequação e segurança dos locais de armazenamento. Parte de uma
política de conservação é a recuperação desse material disperso em locais
inadequados. É também sábio coordenar as ações entre outros arquivos de
entidades da Igreja que não estão sujeitas à autoridade do bispo diocesano, para
melhor focalizar esses esforços. A escolha do papel, bem como outros tipos de
material, deve ser atentamente avaliada, a fim de avaliar a durabilidade em certas
condições climáticas e ambientais. Tais operações são etapas necessárias para um
gerenciamento correto da coleção de arquivos.
3.2. Espaços de armazenamento apropriados
A preocupação dos bispos diocesanos e superiores religiosos deve ser
concretamente direcionada a um esforço de utilizar espaços devidamente
equipados para armazenar o material de arquivo. Os locais devem responder às
normas fundamentais de higiene (iluminação, ventilação, controle de umidade e
temperatura, etc.), segurança (devem ter um alarme de incêndio e roubo, etc.),
vigilância (supervisão durante as verificações periódicas da consulta).

Na estruturação das premissas do arquivo, deve-se reservar locais para


armazenar o material e espaços próprios para a consulta de documentos com o
auxílio de diversos instrumentos técnicos, instrumentos de pesquisa e
equipamentos informatizados para pesquisa e análise. Naturalmente, tal
organização será proporcional às diferentes categorias de material de arquivo da
Igreja armazenadas e ao tipo de consulta que se deseja oferecer.
3.3. Inventário e métodos informatizados
Para a conservação dos arquivos das igrejas particulares, sugere-se que os
critérios estabelecidos pela melhor tradição arquivística e tecnologia aplicada
sejam seguidos (programas de catálogo computadorizado, internet, microfilmes,
reproduções usando scanners, etc.). Deve-se fazer um esforço para tentar
encontrar os primeiros documentos de valor especial a serem sujeitos à primeira
fase de informatização e, em seguida, os documentos comuns para o trabalho
geral de inserir os dados com a ajuda de entidades nacionais e internacionais.
64

O estabelecimento de um procedimento de inventário é certamente o passo


mais fundamental para garantir a consulta e o acesso ao material de arquivo,
conforme recomendado no cânon. 486,3 e 491,1. Somente ela pode permitir a
produção de outras medidas úteis para facilitar a consulta de materiais
(catálogos, registros, índices, etc.) e permitirá o uso de sistemas informatizados
modernos para interligar os diversos arquivos, a fim de dar a possibilidade de
pesquisa escala mais ampla. Além de usar novas tecnologias, sugere-se também
que cópias dos documentos mais importantes sejam preservadas em outras áreas
protegidas, a fim de evitar a perda de todo esse material em caso de desastre.
4. A valorização do patrimônio dos documentos na cultura histórica e
a missão da igreja
A documentação contida nos arquivos constitui uma herança que é
preservada para ser transmitida e utilizada. Sua consulta permite uma
reconstrução histórica de uma igreja específica e da sociedade em que opera.
Nesse sentido, os papéis da memória são um bem cultural vivo, porque são
oferecidos para o treinamento da Igreja e da comunidade civil e transmitidos para
as gerações vindouras. Portanto, torna-se nosso dever protegê-los com cuidado.
4.1. O destino universal do patrimônio arquivístico
Os arquivos, como parte do patrimônio cultural, devem ser oferecidos
principalmente a serviço da comunidade que os produziu. Mas com o tempo eles
assumem um destino universal porque se tornam a herança de toda a
humanidade. O material armazenado não pode, de fato, ser excluído daqueles que
podem aproveitá-lo para saber mais sobre a história do povo cristão, seus atos
religiosos, civis, culturais e sociais.
Os responsáveis devem certificar-se de que o uso dos arquivos da Igreja
seja facilitado, não só para aqueles interessados que têm o direito de acesso, mas
também para uma ampla gama de pesquisadores, sem preconceitos religiosos ou
ideológicos, seguindo os melhores Tradição da igreja, embora respeitando as
normas adequadas de proteção oferecidas pela lei universal, bem como os
regulamentos do bispo diocesano.
Tal atitude de abertura desinteressada, bem-vinda bondosa e serviço
competente deve ser levada em consideração cuidadosa para que a memória
histórica da Igreja possa ser oferecida a toda a sociedade.
4.2. Sobre regulamentos relativos a arquivos
Dado o interesse universal que os arquivos devem despertar, seria
desejável que regulamentações individuais fossem divulgadas publicamente e
que as normas fossem harmonizadas com as estaduais ou civis, tanto quanto
possível. Isto serviria para sublinhar o serviço comum que os arquivos em geral
estão destinados a dar.
65

Além das regras e regulamentos relativos aos arquivos diocesanos, seria


sensato estabelecer diretrizes comuns também sobre o uso de arquivos paroquiais
em relação às normas canônicas, bem como para outros arquivos, a fim de evitar
erros no processo de registro de dados ou na coleta de documentos. Este tipo de
coordenação pode favorecer uma eventual informatização dos dados dentro da
própria diocese, a fim de obter alguma informação estatística sobre toda a
atividade pastoral de uma determinada igreja particular. Seria também
aconselhável coordenar estas regras e regulamentos também com as coleções de
arquivo de outras entidades da Igreja, especialmente aquelas de institutos de vida
consagrada e sociedades de vida apostólica, respeitando suas legítimas
autonomias.
No entanto, também seria desejável que fossem colocados limites à
consulta de arquivos pessoais e outros documentos cuja natureza os tornasse
confidenciais ou fossem mantidos pelos bispos [18]. Não estamos nos referindo
ao arquivo secreto do bispo, como explicitamente descrito no canhão 489-490 do
Código de Direito Canônico, mas ao arquivo da Igreja em geral. A esse respeito,
algumas metodologias de arquivamento sugerem que os documentos
confidenciais sejam bem marcados nos inventários e catálogos que são
disponibilizados aos pesquisadores.
4.3. A interpretação dos documentos dentro de seu contexto
Para o trabalho de pesquisa e uma melhor apreciação dos documentos
preservados nos arquivos, procedimentos arquivísticos específicos, bem como
ajudas bibliográficas, são muito úteis para o estudo dos documentos individuais,
uma vez que revelam seu contexto histórico. A este respeito, não se deve esquecer
de fornecer ao arquivo histórico diocesano obras especializadas para o
conhecimento histórico-jurídico das instituições da Igreja e obras gerais que
ilustram a história da Igreja. De fato, todo documento deve ser inserido em seu
contexto correto, do qual recebe todo o seu valor histórico. Nesse sentido, as
contribuições da pesquisa tornam-se mais evidentes, uma vez que entram em
relação aos dados previamente adquiridos e já conhecidos.

Essas ajudas, juntamente com os instrumentos que facilitam a leitura de


manuscritos antigos e sua cópia e reprodução, contribuem para um melhor uso
da coleção arquivística.
4.4. Na obtenção da formação cultural através do depósito
arquivístico
Através do depósito arquivístico, a Igreja comunica sua própria história,
que se desenvolveu ao longo dos séculos e que cresceu e ajudou a transformar
muitas culturas. Mesmo os arquivos da Igreja, então, tornam-se parte da herança
da civilização e possuem um valor educacional irredutível que pode torná-los
verdadeiros centros culturais.
66

Assim, aqueles que trabalham nos arquivos da Igreja contribuem


eficientemente para o desenvolvimento cultural, porque oferecem sua
competência científica, ao mesmo tempo em que tornam acessíveis a natureza e
o significado dos documentos aos pesquisadores. Quando oferecem seus serviços
em proveito de estudiosos estrangeiros, eles contribuem de maneira concreta
para encorajar pesquisadores de diferentes nacionalidades a se conhecerem e
diferentes culturas a se entenderem. Assim, eles se incluem “entre os artesãos da
paz e da unidade entre os homens” [19].
4.5. Sobre a promoção da pesquisa histórica
É desejável que a Igreja se torne uma promotora de organização
arquivística, enfatizando sua importância cultural, especialmente onde uma
consciência adequada entre os corpos civis ainda não existe. Neste sentido, é
sábio coordenar todos os arquivos da Igreja presentes em uma igreja particular,
incluindo aqueles que estão sujeitos ao Bispo diocesano, assim como outros. Essa
herança de memória pode se tornar, de fato, um ponto de referência e um ponto
de encontro. Pode inspirar iniciativas culturais e pesquisas históricas em
colaboração com os institutos especializados de universidades católicas, católicas,
livres e estaduais. De grande utilidade é também a relação entre arquivos e
centros de documentação. Quando os arquivos se tornarão lugares privilegiados
para pesquisas e conferências sobre as tradições religiosas e pastorais da
comunidade cristã, para exposições didáticas, eles assumirão o papel de uma
agência cultural não apenas para especialistas no campo, mas também para
estudantes e jovens adequadamente treinados. Finalmente, promovendo edições
críticas de fontes e coleções de estudos, tais austeras tabernáculos da memória,
expressarão sua plena vitalidade e se inserirão no processo criativo da cultura e
na missão pastoral da igreja local.
5. Conclusão
Ao tratar do patrimônio arquivístico das comunidades da Igreja nesta
nossa carta, temos a certeza de que despertamos em Vossa Eminência
(Excelência) profundos sentimentos e queridas lembranças da Igreja pelas quais
és responsável.

O venerado Pontífice Paulo VI “estava convencido de que a cultura


histórica é necessária, nasce do gênio, caráter, necessidade da própria vida
católica que tem uma tradição, é coerente e realiza, ao longo dos séculos, um
desenho e mistério determinados. É Cristo que opera no tempo e escreve, Ele
mesmo, a sua história através dos nossos documentos que são ecos e traços desta
passagem da Igreja, da passagem do Senhor Jesus, no mundo. Assim, ter
veneração por esses papéis, documentos, arquivos significa ter veneração por
Cristo, ter um senso da Igreja; significa dar a nós mesmos e àqueles que virão
67

depois de nós a história da passagem desta fase do transitus Domini no mundo.


[20]
Preservar, então, esse patrimônio para transmiti-lo às futuras gerações,
assim como promovê-lo adequadamente para a cultura e a missão históricas da
Igreja, implica um esforço notável. Por essa razão, a Pontifícia Comissão para o
Patrimônio Cultural da Igreja manteve a utilidade de oferecer estas
recomendações a fim de favorecer a formulação de um plano de ação concreto.
Ficaríamos felizes e agradecidos por receber quaisquer comentários sobre
essas observações que fizemos e sobre as propostas que indicamos. Isso nos
permitiria desenvolver um diálogo frutífero que pode nos oferecer outras ideias,
a fim de melhor sintonizar nossa ação com as situações reais das Igrejas
Particulares, e nos permitir planejar iniciativas sólidas baseadas na experiência
de cada um.
Iniciativas desse tipo, assim como a conservação e promoção do
patrimônio cultural como um todo, exigem indivíduos e tempo. Mesmo com
arquivos, é necessário que uma atitude pastoral seja estimulada, considerando
que sua conservação se prepara para desenvolvimentos culturais futuros. Sua
apreciação pode constituir um ponto de encontro válido com a cultura atual e
oferecer ocasiões para participar do progresso da humanidade como um todo.
Os arquivos, como parte da herança cultural da Igreja [21] e, portanto,
compartilhando os objetivos característicos desse tipo de patrimônio dentro da
Igreja [22], podem realmente trazer uma contribuição válida para o processo de
nova evangelização. Ao usar adequadamente todos os bens culturais produzidos
pelas comunidades da Igreja, é possível continuar e aumentar o diálogo entre os
cristãos e o mundo de hoje. O Santo Padre João Paulo II em seu discurso aos
membros da Primeira Assembleia Plenária da Pontifícia Comissão para o
Patrimônio Cultural da Igreja sublinhou “a importância do património cultural
na expressão e inculturação da fé e no diálogo da Igreja com a humanidade entre
a religião e a arte e entre a religião e a cultura existe uma relação muito próxima.
E todos sabem da contribuição feita ao sentido religioso pelas realizações
artísticas e culturais que a fé das gerações cristãs acumulou ao longo dos séculos”
[23].
Com o meu desejo fraterno de que o Seu trabalho pastoral seja rico
também em resultados culturais, aproveito com prazer esta oportunidade para
expressar os meus sentimentos de veneração e estima, juntamente com os meus
respeitosos cumprimentos, pois tenho a honra de ser

Fraternalmente seu em Jesus Cristo

+ Arcebispo Francesco Marchisano


68

Presidente

Carlo Chenis SDB


Secretário

Cidade do Vaticano, 2 de fevereiro de 1997

[ 1Durante este último século, o Magistério Papal emitiu documentos


significativos sobre os arquivos da Igreja: a Carta Circular do Secretário de Estado
aos Bispos Italianos (30 de setembro de 1902); a Carta do Secretário de Estado
aos Bispos Italianos (12 de dezembro de 1907); a Carta Circular do Secretário de
Estado (15 de abril de 1923); o estabelecimento de um curso de Ciência
Arquivística na Pontifícia Escola de Paleografia (6 de novembro de 1923); Pio XI,
Discurso às Escolas de Arquivo e Biblioteconomia (15 de junho de 1942); a Carta
Circular do Bibliotecário e Arquivista da Santa Igreja Romana (1 de novembro de
1942); as Instruções emitidas pelo Bibliotecário e Arquivista da Santa Igreja
Romana (novembro de 1942); Carta da Congregação do Conselho (30 de
dezembro de 1952); Discurso de Pio XII ao Ist Congresso da Associação dos
Arquivos da Igreja (5 de dezembro de 1956); Instruções para a administração de
arquivos emitida pela Pontifícia Comissão para os Arquivos da Igreja da Itália (5
de dezembro de 1960); a Carta da Congregação para os Seminários e
Universidades (27 de maio de 1963); Constituição ApostólicaGaudium et Spes (7
de dezembro de 1965) nn.56-62.

[ 2 ] CIC / 1983, cann. 173 § 4; 428 § 2; 482 § 1; 486-491; 535 § 4; 895; 1053;
1082; 1121 § 3; 1133; 1208; 1283 n. 3; 1284 § 2 n. 9; 1306 § 2; 1339 § 3; 1719

[ 3 ] CIC / 1917, cann. 304 § 1; 372 § 1; 375-384; 435 § 3; 470 § 4; 1010 § 1; 1522
n. 3; 1523 n. 6; 1548 § 2; 2405; 2406

[ 4 ] CCEO / 1990, cann. 37; 123 §§ 1 e 3; 189 § 2; 228 § 2; 252 § 1; 256-261; 296
§ 4; 470; 535 § 2; 769 § 2; 774; 799; 840 § 3; 871 § 2; 955 § 5; 1026; 1028 § 2 n. 8;
1050; 1470
69

[ 5 ] João Paulo II, Constituição Apostólica Pastor Bonus (28 de junho de 1988)
art. 99-104.

[ 6 ] João Paulo II, Motu Proprio Inde a Pontificatus Nostri initio (25 de março
de 1993).

[ 7 ] João Paulo II, Constituição Apostólica Pastor Bonus (28 de junho de 1988),
art. 101 § 1.

[ 8 ] João Paulo II, Discurso A importância do patrimônio artístico na expressão


da fé e no diálogo com a humanidade (13 de outubro de 1995).

[ 9 ] Ibid.

[ 10 ] CFR Paulo VI, Discurso sobre Arquivistas da Igreja (26 de setembro de


1963).

[ 11 ] CIC / 1983, pode. 491 - § 1.

[ 12 ] CIC / 1983, pode. 491 - § 2. Curet etiam Episcopus dioecesanus ut in dioecesi


habeatur archivum historicum atque documenta valorem historicum habentia in
eodem diligent custodiantur et système ordinentur.

[ 13 ] CIC / 1983, can.491 § 3. Acta ed documenta, de quibus in §§ 1 et 2, ut


inspiciantur aut eferantur, serventur normae ab Episcopro diocesano statutae.

[ 14 ] CIC / 1983 pode. 1284 § 2 n. 9

[ 15 ] Cfr. CIC / 1983 cann. 381; 375 § 1; 455 § 4º, com as respectivas fontes.

[ 16 ] CIC / 1983 pode. 555 § 3, cfr. posso. 535


70

[ 17 ] Can.486 - § 1. Documenta omnia, quae dioecesim paroecias respiciunt,


maxima cura custodiri debent.

§ 2 Na curia erigatur unaquaque, in loco tuto, arquivum seu tabularium


dioecesanum, em qua instrumenta et scripturae quae ad negocio dioecesana tum
spiritualia tum temporalia spectant, iniord ordine disposita et diligenter clausa
custodiantur.

§3. Documentário, quae in archivo continentur, conficiatur inventarium seu


catalogus, cum brevi singularum scripturarum synopsi.

Lata. 487 - §1. Archivum clausum sit oportet eiusque clavem habeant solum
Episcopus e cancellarius; nemini licet illud ingredientes de Episcopi aut
Moderatoris curiae simul et cancellarii licentia.

§2. Ius est i is quorum interesse, documentorum, quae natura sua súplica
quaeque ad statum suae personae pertinent, documentum authenticum scriptum
per photostaticum per be vel per procuratorem recipere.

Lata. 488 - Ex archivo non licet efferre documenta, nisi ad tempus tantum atque
de Episcopi aut insimul Moderatoris curiae et cancellarii consensu.

Lata. 489 - §1. Sit curia dioecesana archivum quoque secretum, aut saltem in
communi archivo armarium seu scrinium, omnino clausum et obseratum, quod
de loco amoveri nequeat, in quo scilicet documenta secreto servanda cautissime
custodiantur.

§2. Singulis annis destruantur documenta arguum criminalium in materia


morum, quarum rei vita cesserunt aut quae a decennio sententia condenación
absolutae sunt, retent facti brevi summario cum textu sententiae definitivae.

Lata. 490 - §1. Archivi secreti clavem habeat tantummodo Episcopus.

§2. Sede vacante, arquivamento de armamento secreto ne aperiatur, nisi in casu


verae necessitati, ab ipso Administratore dioecesano.
71

§3. Ex archivo vel armario secreto documenta ne efferantur.

Lata. 491 - §1 - Curet Episcopus dioecesanus ut acta et documenta archivorum


quoque ecclesiarium cathedralium, collegiatarum, paroecialium, aliarumque in
suo territorio exstantium diligenter serventur, atque inventaria sua catalogi
conficiantur diobus exemplaribus, quórum alterum in proprio archivo, alterum
in archivo dioecesano serventur.

§2. Curet etiam Episcopus dioecesanus ut in dioecesi habeatur archivum


historicum atque documenta valorem historicum habentia in eodem diligent
custodiantur et systematic ordinentur.

§3. Acta et documenta, de quibus nos §§ 1 e 2, ut inspiciantur aut eferantur,


serventur normae ab Episcopro dioecesano statutae.

[ 18 ] Cfr. CIC / 1983 491 § 3.

[ 19 ] Cartão. Agostino Casaroli (Secretário de Estado), Mensagem ao IV


Congresso de Arquivistas da Igreja na França (Paris, 26-28 de novembro de
1979).

[ 20 ] Paulo VI, Discurso sobre Arquivistas da Igreja (26 de setembro de 1963).

[ 21 ] Cfr. CIC / 1983, can.1257 - §1. Bona temporalia omnia quae ad Eclesia
universam, Apostolicam Sedem aliasve em Ecclesia personas iuridicas publicas
pertinente, sunt bona ecclesiastica e reguntur canonibus qui sequuntur, necnon
propriis statutis.

[ 22 ] Cfr. CIC / 1983, pode. 1254 - §2. Multas vero proprii praecipue sunt: cultus
divinus ordinandus, honesta cleri aliorumque ministrorum sustentatio
procuranda, ópera sacri apostolatus e caritatis, praesertim erga egenos,
exercenda.

[ 23 ] João Paulo II, Discurso sobre A importância do patrimônio artístico na


expressão da fé e no diálogo com a humanidade (13 de outubro de 1995).
72

Necessidade e urgência da
inventariação e catalogação dos
bens culturais da Igreja
(8 de dezembro de 1999)
73

Carta Circular sobre a necessidade e urgência do inventário e


catálogo de patrimônio cultural da igreja

Cidade do Vaticano, 8 de dezembro de 1999

Eminência Reverendíssima

A Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja, depois de tratar de


bibliotecas e arquivos, (1) com este documento centra a sua atenção no
inventário-catalogação dos bens culturais pertencentes a instituições e
instituições da Igreja, a fim de proteger e melhorar a enorme herança histórica e
artística da Igreja. Este patrimônio é constituído por obras de arquitetura,
pintura, escultura, mobiliário, peças litúrgicas, instrumentos musicais, etc. (2)
Pode ser considerado como o rosto histórico e criativo da comunidade
cristã. Adoração, catequese, caridade, cultura moldaram o ambiente no qual a
comunidade de crentes aprende e vive sua fé. A tradução da fé em imagens
enriquece o relacionamento com a criação e com a realidade sobrenatural.

As comunidades cristãs individuais são assim reconhecidas nas várias


manifestações da arte, e da arte sacra em particular, criando um forte vínculo que
caracteriza e distingue as Igrejas particulares no itinerário religioso comum. Eles
também se reuniram em arquivos, bibliotecas, museus, uma quantidade
inumerável de artefatos, documentos e textos que foram produzidos ao longo dos
séculos para atender às diferentes necessidades pastorais e culturais.

Tais atividades liberais "são mais orientadas para Deus e para o aumento
de seu louvor e glória, uma vez que nenhum outro fim lhes é atribuído, exceto
contribuir de maneira tão eficaz quanto possível para dirigir totalmente as
mentes dos homens a Deus". (3).

Se as bibliotecas podem ser considerados locais de reflexão e arquivo


lugares de memória, o patrimônio histórico e artístico da Igreja é a prova concreta
de habilidade e criatividade artística expressa pela comunidade cristã à perfeição
da beleza para os lugares de culto, a piedade, vida religiosa, estudo e
memória. Pode-se afirmar, portanto, que monumentos e objetos, de todo tipo e
estilo, acompanham os eventos históricos da Igreja. Em suas inter-relações, são
instrumentos adequados para promover a evangelização do homem
contemporâneo.

A incidência do patrimônio histórico-artístico da Igreja no complexo do


patrimônio cultural da humanidade é enorme, tanto pela quantidade como pela
variedade dos artefatos, tanto pela qualidade quanto pela beleza de muitos
deles. Nem podemos esquecer as distintas personalidades que colocam seu gênio
a serviço da Igreja. De fato, toda vocação artística pode dar testemunho da
mensagem cristã entre todos os povos. Todas as obras de arte de inspiração cristã
74

são uma expressão da espiritualidade universal e local. Eles podem coincidir com
a pesquisa religiosa, individual e comunitária, alcançando, em alguns casos,
formas de harmonia espiritual total entre o caminho criativo e o de fruição.

A função cultural e eclesial ininterrupta que caracteriza esses bens


representa o melhor suporte para sua conservação. Basta pensar quão difícil e
oneroso para a comunidade a manutenção de estruturas que perderam seu
destino original e quão complexas são as escolhas para identificar novas. Além da
"proteção vital" do patrimônio cultural é, portanto, importante para a sua
"conservação contextual", porque a avaliação deve ser tomado como um todo,
especialmente no que diz respeito aos edifícios de culto, onde existe a maior parte
do patrimônio histórico e artístico da Igreja. Além disso, não é possível
subestimar a necessidade de manter, tanto quanto possível, a ligação entre os
edifícios e os trabalhos nele contidos, a fim de garantir uma utilização completa
e abrangente.

O requisito anterior para salvaguardar esse enorme ativo é o compromisso


cognitivo. É preliminar às intervenções subsequentes e a todos os tipos de
atividades que envolvem as autoridades eclesiásticas e civis, de acordo com suas
respectivas competências.

O caminho do conhecimento pode ser expresso de diferentes formas que,


no entanto, encontram no inventário e na subsequente catalogação de um suporte
válido e amplamente reconhecido em suas premissas básicas. Destacar os
componentes individuais e reconstituir o conjunto de relações estabelecidas entre
os artefatos em diferentes contextos é um dos princípios norteadores subjacentes
às metodologias de uma moderna atividade de reconhecimento documental.

Esta Circular, portanto, é dirigida aos bispos, porque eles fazem urgência
porta-voz de tratar o patrimônio histórico e artístico, a partir principalmente de
inventário, para chegar esperemos que para o catálogo. Com isso, gostaríamos
também de sensibilizar os Superiores dos Institutos de Vida Consagrada e
Sociedades de Vida Apostólica, que ao longo dos séculos deram origem a um
patrimônio cultural de valor incalculável.

Como um todo, a circular pretende ilustrar nas linhas essenciais o


inventário, a partir do qual se pode proceder à criação da atividade de
catalogação. Trata-se de uma operação complexa, em constante
desenvolvimento, urgente e necessária, que deve ser realizada com rigor científico
para evitar soluções precárias e desperdício de recursos.

A partir do interesse persistente da Igreja pelo patrimônio cultural,


demonstrado desde os primeiros séculos, e depois de ter esclarecido a noção, o
objeto, o método e o fim da catalogação de inventário, o documento enfoca
primeiro a exposição do patrimônio cultural e urgência do inventário. Em
75

segundo lugar, indica alguns elementos para a atividade de catalogação


subsequente. A atenção, então, vai para as instituições e os sujeitos responsáveis
pelo setor.

O documento reúne os conceitos de inventário e catalogação em um único


conceito complexo. Este por razões teóricas e práticas, tais como a necessária
continuidade entre os dois processos, as diferenças legítimos na concepção, as
várias fases de processamento dos mesmos e, acima de tudo, a situação diferente
das igrejas particulares individuais. O documento, portanto, apresenta um
itinerário que, a partir do inventário necessário e urgente, leva à catalogação, que
é desejável e importante.

O projeto começa a partir das disposições do Código de Direito Canônico,


que prescreve a obrigação de preparar "um inventário detalhado [...] de bens
imóveis, objetos móveis, sejam preciosos ou de algum patrimônio cultural, e
outras coisas com a sua descrição e estima. "(4) a partir daqui você prosseguir
para apresentar a oportunidade para uma descrição mais completa do patrimônio
histórico e artístico da Igreja em seus componentes e em seu contexto. Na
verdade, a disposição do código, enquanto a prescrição de um procedimento por
razões administrativas, a fim de proteger, insta, e em conformidade com o cânone
citado tanto na sua intenção geral, a realização de uma ac distinctum inventário
accuratum que visa promover melhoria eclesial do patrimônio cultural, de acordo
com a ação da Igreja, orientada para o salus animarum.

O jornal espera oferecer as Igrejas particulares a sull'inventariazione geral


orientação do seu patrimônio histórico e artístico, a integrar progressivamente
para um sistema catalogatorio, tendo em conta as necessidades eclesiais, situação
política, possibilidades econômicas, o pessoal, etc.

1. O inventário-catalogação:

Fundo histórico

A Igreja desde a antiguidade compreendeu a importância do patrimônio


cultural no cumprimento de sua missão. Na verdade, tudo o que "através dos
tempos de qualquer forma pertencia" deu dignidade da arte, imprimindo "como
um reflexo de sua beleza espiritual." (5) Também não era apenas patrono das
artes e da cultura, mas também trabalhou para salvaguardar e melhorar sua
herança cultural, como pode ser visto em uma rápida investigação histórica.

As pinturas das catacumbas, o esplendor das igrejas e o valor do mobiliário


sagrado são a prova da importância dada pela Igreja às obras de arte. O Liber
Pontificalis (6) e os estoques mantidos no Arquivo Secreto Vaticano (7)
76

documento que colocaria os Papas igrejas nell'ornare cuidados assíduos e


herança como objetos de arte foram logo para ser considerado para tratar com
cuidado.

Nos tempos antigos, uma primeira intervenção do magistério papal sobre


o reconhecimento do valor da arte sacra ocorreu através da obra do Papa Gregório
Magno (590-604). Ele apoiou o uso de imagens como útil para fixar a memória
da história cristã e despertar aquele sentimento de compunção que leva os fiéis à
adoração; mas acima de tudo são os meios pelos quais podemos ensinar os
analfabetos, os eventos narrados na Escritura. (8) Para concluir a iconoclastia,
que trabalhou por muitas décadas a Igreja do Oriente, com repercussões
significativas no Ocidente e ditar os critérios iconografia Christian era então o
Concílio de Nicéia II (787) (9).

Ao longo da Idade Média sabe-se que as Ordens monásticas


(especialmente as Beneditinas) e as Ordens Mendicantes cultivaram uma grande
atenção ao patrimônio artístico, para caracterizar o estilo e emitir normas que às
vezes se tornaram parte das mesmas regras religiosas.

Além disso, os historiadores veem na oração da instituição dos ostiarii


(talvez datando de meados do terceiro século) um primeiro compromisso sagrado
para a proteção da propriedade pela Igreja: "Tenha em mente que, por sua
negligência, nada irá se arruinar aquelas coisas que estão na igreja. Aja de tal
maneira a prestar contas a Deus pelas coisas que são guardadas por essas chaves
[que são entregues a você] "(10).

Logo apareceram numerosas intervenções legislativas pelos Romanos


Pontífices, especialmente no que diz respeito à alienação ou à doação de bens
culturais, que infligiram penalidades sérias, não excluindo a excomunhão,
àqueles que procederam a esses atos sem as autorizações necessárias (11).

Não apenas os papas, mas também os concílios ecumênicos cuidaram da


proteção do patrimônio cultural. Neste sentido pode ser mencionado o Conselho
de Constantinopla IV (869-70) (12) e o segundo Conselho de Lyons (1274). (13)
Em particular, o Conselho de Trent, além de confirmar com um decreto a sua
posição contra a iconoclasm, acrescentou um novo e muito importante elemento,
o apelo aos bispos para instruir os fiéis sobre o significado e utilidade das imagens
sagradas para a vida cristã e a obrigação de apresentar qualquer imagem
"incomum" para o julgamento do bispo competente. (14)

Nenhum foi exceção, embora privilegiada e extremamente privilegiada, irá


apresentar uma nota muito exata e distinto de artigos sobre expressa em
duplicado assinado com distinção (17) peça cadaun. "O edital, que serviu como
base e inspiração para as leis sobre" belas artes "em não poucas nações europeias
do século. XIX e XX, pela primeira vez organizou o inventário do inventário.
77

Embora as disposições acima mencionadas se refiram adequadamente aos


Estados Papais, elas constituem, no entanto, um testemunho significativo do
interesse da Igreja em salvaguardar o patrimônio cultural e a conscientização
progressiva de seu inventário com vistas à proteção legal.

Quanto à lei da Igreja universal especificamente, além das disposições


acima mencionadas dos concílios ecumênicos, deve-se notar que desde 1907 Pio
X necessário os Ordinários da Itália o estabelecimento da "Alta Comissão
Diocesana" para avaliar o patrimônio cultural, monitorar sua conservação e
análise de projetos de restauração e de novos edifícios. (18)

A preocupação da Igreja, uma vez que foi ordenado à adoração deve ser de
valor artístico inquestionável é evidente nas instruções sobre a música sacra de
Pio X de 22 de Novembro de 1903. (19) A adequação sacral supervisão dos
artefatos que foram para decorar as igrejas é, então, inculcado pela encíclica de
Pio XII Mediator Dei (1947). (20)

Consequentemente, o Código de Direito Canônico de 1917 também


comprometeu, com o cânon 1522, os administradores de bens eclesiásticos a
elaborar um inventário preciso e distinto de bens imóveis, de bens móveis
preciosos ou de outros com sua descrição e estima. Duas cópias do inventário
deveriam ser feitas, uma das quais deveria ser guardada nos arquivos da
administração, a outra no arquivo da Cúria. Em ambas as cópias, quaisquer
alterações nos ativos devem ser anotadas (21).

De grande importância para a conservação e valorização do patrimônio


cultural sagrado artística, é a circular do Secretário de Estado, Card. Gasparri, de
15 de Abril de 1923, n. 16605, e de 1 de setembro de 1924, n. 34215. (22) por
último, direto para os Ordinários da Itália, ele notificou o estabelecimento em
Roma, junto da Secretaria de Estado de Sua Santidade ", uma Comissão Central
especial para Arte Sacra em toda a Itália "a fim de manter acordado e ativo em
todos os lugares, por sua gestão ação própria, inspeção e propaganda, em
colaboração com as Comissões diocesanas (ou interdiocesano ou regional), o
sentido cristão da arte e para promover o bom conservação e aumento do
patrimônio artístico da Igreja.

Outras normas e instruções foram ditadas, para o mesmo fim, nas


circulares da mesma Secretaria de Estado de 3 de outubro de 1923, n. 22352 (23)
e de 1 de dezembro de 1925, n. 49158, (24) contendo disposições pontificas sobre
arte sacra. As circulares da Sagrada Congregação do Conselho também merecem
ser mencionadas em 10 de agosto de 1928, 20 de junho de 1929 (25) e 24 de maio
de 1939 (26).
78

Por carta circular datada de 11 de abril de 1971, a Congregação para o Clero


prescreveu o inventário de edifícios sagrados e objetos de valor artístico ou
histórico neles presentes (27).

O atual Código de Direito Canônico de 1983, no cânon 1283, n. 2 a 3, reitera


a norma do Código de 1917, acrescentando, entre os bens a serem inventariados,
também todos os bens móveis que, no entanto, dizem respeito ao patrimônio
cultural (28).

Em suma, pode-se dizer que a Igreja esteve entre as primeiras instituições


públicas que regulamentaram com suas próprias leis a criação, conservação e
valorização do patrimônio artístico colocado a serviço de sua missão.

2. Catalogação de Inventário:

Perspectivas gerais

A catalogação de inventário requer, acima de tudo, o esclarecimento dos


termos em questão de acordo com o pensamento da Igreja. Por isso, é necessário
destacar o conceito, o objeto, o método e os objetivos.

2.1. A noção

Em primeiro lugar, precisamos distinguir a noção de inventário da de


catalogação. As duas operações geralmente têm objetivos e metodologias
distintos, ainda que conectados e complementares, como partes orgânicas de uma
única operação cognitiva e de um único campo de interesses gerais.

Inventário é uma atividade cognitiva básica. Pode ser definido como


"registro" para o sistema puramente de lista de caráter extrínseco com o qual é
constituído. A catalogação, por outro lado, leva em consideração o bem como um
todo e seus objetivos intrínsecos. É um momento mais detalhado de
conhecimento do objeto considerado em seu contexto, em seu significado e seu
valor.

A catalogação, portanto, é o resultado maduro de uma iniciativa cognitiva


da qual o inventário é o estágio preliminar indispensável. Por se tratar de um
único processo contínuo, a circular, ao destacar o objeto, método, objetivos, faz
uso do termo conjunto de catalogação de estoque. Dada a natureza sui generis do
patrimônio histórico e artístico da Igreja, não só o inventário, mas também a
catalogação é essencial. Tais bens, na verdade, têm um significado cultural, social
e religioso natural, de modo que não podem ser adequadamente conhecidos,
protegidos, valorizados com uma simples operação de listagem. No entanto, a
79

situação diferente das Igrejas particulares individuais não permite soluções


unívocas ou até mesmo tempos curtos de processamento.

2.2. O objeto

O objeto material da catalogação de estoque é o bem cultural do interesse


religioso como um produto, isto é, como um trabalho produzido pelo homem,
visível, mensurável, perecível. Este trabalho é dotado de uma dimensão
apreciável de representatividade religiosa, de modo que assume o valor de um
bem cultural eclesial.

Essa definição exclui "bens ambientais", ou seja, objetos não produzidos


pelo homem, e o universo da "herança cultural não material", como linguagem,
costumes, mitos, padrões de comportamento.

Tipicamente, os bens materiais sujeitos a catalogação de estoque são


divididos em "imóveis" (tais como edifícios de culto e anexos, mosteiros e
conventos, episcópios e casas paroquiais, complexos educacionais e caridosos, e
outros) e em "Bens móveis" (como pinturas, esculturas, móveis, móveis, roupas,
instrumentos musicais e muito mais). Os outros bens (incluindo documentos e
livros de arquivo), dos quais é desejável tomar consciência do seu valor
antropológico, cultural e ambiental, são objeto de uma metodologia diferente de
investigação e reconhecimento.

O objeto formal da catalogação de estoque é dado pela coleta ordenada e


sistemática de informações relacionadas a esses artefatos. Já a fase inicial da
pesquisa de dados através de documentação rigorosa, a identificação de bens
culturais e a elaboração de seu inventário geral (ou seja, uma lista nominal)
envolve um processo de avaliação e seleção preciso. De fato, ao longo do processo,
a catalogação de estoques não é uma simples operação enumerativa, mas uma
seleção fundamentada de informações com base em uma referência ideológica e
epistemológica específica. Portanto, já a partir da organização dos dados
pesquisados, a intenção de levar em consideração o valor histórico-artístico, o
específico eclesial, a unidade contextual, deve ser amadurecida.

2.3. O método

O método de trabalho da catalogação de estoque é substancialmente


rastreável ao das disciplinas histórico-artísticas. Pode ser dividido em três fases:
a) a fase heurística ou a identificação do patrimônio cultural, que termina com a
elaboração do inventário geral; b) a fase analítica ou o catálogo descritivo do bem
cultural individual, que termina com a compilação da forma em suas diversas
articulações; c) a fase de síntese ou ordenação dos cartões, que termina com a
formação desejável do catálogo próprio.
80

Cada uma dessas fases apresenta problemas particulares e delicados que


podem ser superados com rigor de procedimento, com a prática de execução e
com bom senso. É no entanto essencial que toda a operação não esqueça os fins
para os quais é tensa: a imediata da formação do inventário e do catálogo (fim
material) e o último de conservação e fruição (fim formal).

Um sistema de inventário-catalogação pode ser definido com referência a


determinadas necessidades de gestão, de modo que nem todos os elementos
previstos para o registro completo deve aparecer, por exemplo, aquelas para as
forças policiais, para uso turístico, por divulgação geral, para caminhos didáticos,
para consulta imediata e muito mais. No entanto, é desejável para a integração
de dados entre os diferentes sistemas, de modo a evitar ter de repetir a operação
de inventário-catalogação de acordo com os diferentes utilizadores, com uma
despesa desnecessária de recursos, uma extensão do tempo de execução, menor
qualidade dos resultados, má circulação e interação de informações.

O catálogo de estoque pode ser realizado tanto em papel quanto em


suporte de computador, dependendo das diferentes necessidades e
situações. Como a informatização está se tornando cada vez mais importante, o
suporte de TI é geralmente preferido, mesmo que o suporte de papel não seja
subestimado. A evolução da catalogação de inventário em suporte electrónico não
deve, no entanto, dar origem à eliminação ou destruição de qualquer documento
em papel, exceto quando expressamente previsto no Código de Direito Canónico
(29).

2.4. Os objetivos

Os objetivos da catalogação de estoque são múltiplos e de importância


primária. Basicamente, eles podem ser reduzidos a três: o conhecimento, a
proteção e o aprimoramento do patrimônio histórico e artístico de acordo com
critérios culturais e eclesiais.

2.4.1. Conhecimento

O objetivo fundamental da catalogação de inventário é o conhecimento do


patrimônio histórico-artístico nos objetos isolados, em sua globalidade unitária,
na complexidade das relações existentes entre os vários objetos que o compõem,
em sua relação inseparável com a história e o território. Somente dentro desses
sistemas os bens que insistem nele adquirem significado e valor. Sendo destinado
a um conhecimento adequado do artefato como um bem cultural, a catalogação
de inventário apresenta um processo de conhecimento contextual progressivo do
objeto. A fase final envolve investigar o bem e seu contexto em uma lógica
interdisciplinar, bem como suas condições físicas, legais, administrativas e de
segurança.
81

A atividade resultante desenvolve um conjunto articulado de


conhecimentos, que deve ser organizado de acordo com uma metodologia
precisa. Este sistema permite a realização de objetivos complexos e inter-
relacionados de fundamental importância para toda forma de abordagem do
patrimônio histórico e artístico. Portanto, uma função propulsora também deve
ser dada à catalogação de inventário, a fim de melhor entender o território e o
patrimônio cultural presente nele. Isso é possível através da identificação das
características geomorfológicas, econômico-estruturais e histórico-culturais que
determinam sua identidade complexa.

A esse respeito, algumas nações há muito tempo adquiriram uma profunda


consciência e instrumentos jurídicos adequados para atender às necessidades
mencionadas, enquanto outros apenas começaram recentemente no mesmo
caminho.

2.4.2. A salvaguarda

A salvaguarda é caracterizada pela proteção legal e conservação de


material. Não assume a forma de obrigações legais e administrativas destinadas
exclusivamente ao registro de artefatos, através da elaboração de inventários,
mesmo que preciosos. Sua eficácia é medida principalmente na preparação de
quanto é útil para a edição do catálogo como uma ferramenta de conhecimento,
ordenada para o planejamento e planejamento das múltiplas formas de
intervenção. Nesse sentido, podemos promover a restauração, conservação,
proteção, prevenção (contra roubo e danos), bem como a gestão global de ativos
em um determinado território.

No contexto eclesiástico, qualquer intervenção de salvaguarda não pode


ser separada do valor cultural, catequético, caritativo e cultural do patrimônio
histórico-artístico. A primazia nos homens da Igreja, de fato, vai para o conteúdo,
já que os bens são uma função da missão pastoral e, como tais, devem aparecer
nos inventários e catálogos. Ao realizar uma constante ação de salvaguarda, a
Igreja cria e consolida a ligação entre os fiéis e as expressões histórico-artísticas
eclesiais de geração em geração. Estes moldam a pertença de uma comunidade
ao seu território, à experiência eclesial, às tradições religiosas. A consciência deste
vínculo age como um antídoto eficaz para a deterioração e dano de monumentos
e objetos nele contidos.

Do ponto de vista eclesial, a salvaguarda, para elaborar o catálogo de


inventário, deve destacar o uso do bem, para defender sua conaturalidade
religiosa. Do ponto de vista técnico, envolve o conhecimento prévio das
peculiaridades do bem e do contexto histórico para preparar as verificações
posteriores e estimular as intervenções. Do ponto de vista administrativo, requer
o esclarecimento da propriedade, a atualização cadastral, a regulação do usufruto,
a abordagem de gestão. Do ponto de vista da segurança, fornece um registro
82

adequado das necessidades do órgão responsável e dos órgãos policiais que


podem ser responsáveis pelo setor.

2.4.3. Valorização

O aprimoramento está emergindo em todas as fases da atividade de


catalogação de estoque e determina suas finalidades, métodos e conteúdo. A
atividade de aprimoramento é muito complexa. Através do catálogo de inventário
e com o que pode ser disseminado deduzindo-se dele, pode-se criar uma
consciência de respeito e desfrute dos bens em sua identidade eclesial, cultural,
social, histórica e artística. O inventário de catálogos deve, portanto, relacionar
as pessoas à herança cultural da Igreja presente em grandes áreas urbanas, em
áreas rurais e em complexos de museus. Este papel é de particular importância.

No contexto eclesial, a valorização pode traduzir-se em destacar as formas


ligadas às identidades culturais e religiosas individuais, consolidadas nas várias
Igrejas particulares. O maior conhecimento e identificação das realidades que a
ação das várias comunidades eclesiais produziu (locais de culto, mosteiros e
conventos, rotas de peregrinação e pontos de recepção, obras de caridade
expressas pelas confrarias e outras associações, instituições culturais, bibliotecas,
arquivos e museus, transformações do território através do trabalho de
instituições religiosas, entre outros) permitem destacar o trabalho de
inculturação e assimilação iniciado desde a origem do cristianismo (30).

Tanto a identificação do bem na complexidade contextual quanto o acesso


aos dados de informação relacionados podem ser favorecidos pelas técnicas de
TI. Através deles, é possível se comunicar com um número crescente de pessoas,
informando-os sobre as mercadorias, mas também do que é destruída por
desastres naturais e guerra. Esta é uma maneira de sensibilizar as consciências,
promover estratégias de intervenção e, portanto, aumentar o patrimônio cultural.

Além disso, não se deve esquecer que as numerosas iniciativas de


aprimoramento constituem uma oportunidade de emprego e se abrem para
formas organizadas de trabalho voluntário profissional, nas quais as instituições
eclesiásticas também devem se sentir envolvidas.

3. O inventário:

Um primeiro nível de conhecimento

Inventário é o primeiro passo na atividade de conhecimento, proteção e


valorização do patrimônio histórico-artístico de uma comunidade eclesial. De
fato, essa operação dificulta a dispersão desse patrimônio, pois proporciona um
83

suporte material através do qual se conserva sua memória e, por outro, registra
desenvolvimentos, transformações, desaparecimentos e aquisições. O inventário,
portanto, favorece o encontro da comunidade eclesial com sua própria herança
cultural, tornando-se um incentivo para conhecê-la, preservá-la, utilizá-la e
enriquecê-la. A proteção, a conservação, a manutenção, o aprimoramento e a
valorização do patrimônio histórico e artístico são, portanto, aspectos
intimamente ligados ao inventário, como pressupõem.

3.1. O valor do patrimônio histórico e artístico

Para cumprir sua missão pastoral, a Igreja está comprometida em manter


o patrimônio histórico-artístico em sua função original, indissoluvelmente ligada
ao anúncio da fé e ao serviço da promoção integral do homem. Assim, a dimensão
específica do patrimônio cultural de natureza religiosa é enfatizada, antes dos
mesmos usos aos quais será ordenado. O tesouro da arte herdado da Igreja deve
ser preservado porque "é como a roupa exterior e a pegada material da vida
sobrenatural da Igreja" (31).

Em virtude do seu valor pastoral, o patrimônio histórico-artístico é


ordenado à animação do povo de Deus, beneficiando a educação para a fé e o
crescimento do sentido de pertença dos fiéis à sua própria comunidade. Em
muitos casos, é uma expressão de desejos, ingenuidade, sacrifícios e, acima de
tudo, da piedade de pessoas de todas as condições sociais, que se reconhecem na
fé. O tesouro artístico da inspiração cristã dá dignidade ao território e constitui
uma herança espiritual para as futuras gerações. É reconhecido como o principal
meio de inculturação da fé no mundo contemporâneo, pois o caminho da beleza
se abre para as profundas dimensões do espírito e o caminho da arte inspirada
pelos cristãos instrui tanto os crentes como os não crentes.

Por seu significado social, o patrimônio histórico-artístico representa um


instrumento peculiar de agregação. É uma fonte de civilização, uma vez que ativa
processos de transformação do meio ambiente em escala humana, sustenta a
memória de seu passado em gerações individuais, oferece a possibilidade de
transmitir seus trabalhos para a posteridade. Nela, a sociedade contemporânea
reconhece a imagem concreta e inequívoca de sua identidade histórica e social. A
dissolução da unidade cultural em muitas sociedades do mundo moderno, devido
à fragmentação ideológica e étnica, pode ser efetivamente equilibrada com a
redescoberta do passado, das raízes comuns, dos acontecimentos históricos, da
memória cultural da qual o patrimônio histórico-artístico é uma expressão. O
inventário, portanto, favorece

3.2. A contextualização do patrimônio histórico-artístico

Uma vez que a herança cultural da Igreja é importante acima de tudo como
um todo e não apenas em sua individualidade e materialidade, a atenção ao
84

contexto eclesial é de fundamental importância. Os Bens Culturais da Igreja, em


todas as suas expressões, são a prova específica de "Tradição", que a ação pela
qual a Igreja, guiada pelo Espírito Santo, leva o Evangelho ao "povo". Eles se
qualificam como "bens" porque são ordenados para promoção humana e
evangelização.

Através destes bens, a ação pastoral da Igreja se desdobra, dando


continuidade e perspectiva à vida eclesial. Eles são cultural e espiritualmente
significativos dentro da comunidade cristã que os produziu e os ofereceu àqueles
que entram em contato com eles. Por conseguinte, não podem ser considerados
isoladamente do complexo a que pertencem e devem estar subordinados à missão
da Igreja. Por essa razão, o trabalho de inventário deve identificar o contexto de
modo a sublinhar a natureza relacional e o afluxo espiritual de que são signos
sensíveis.

A importância do contexto para o patrimônio cultural eclesiástico,


portanto, implica a necessidade de preservá-lo tanto quanto possível nos lugares
e lugares originais. No entanto, a principal necessidade de proteção e segurança
pode permitir a movimentação de obras de seu contexto original. Nesta
perspectiva, a difusão progressiva da instituição de museus eclesiásticos de
natureza territorial, sensível de muitos pontos de vista, deve ser cuidadosamente
avaliada, tendo em mente a necessidade de manter, na medida do possível, a
ligação original entre o bem, o lugar de pertença e comunidade de fiéis. De fato,
esta é uma relação vital que dificilmente pode ser substituída pela musealização
de testemunhas cristãs presentes em um determinado território. Para este efeito,
o "museu generalizado".

O reconhecimento contextual necessário facilita a reconstrução do


ambiente histórico e social, a recomposição de estratificações culturais e
religiosas, o conhecimento de materiais e técnicas de execução. Este processo de
reconhecimento converge tudo o que pode contribuir para uma compreensão
precisa e dinâmica de obras históricas e artísticas. A este respeito, a disseminação
de sistemas de inventário informatizado, se por um lado facilitar o conhecimento
do bem, por outro poderia diminuir a peculiaridade do uso no local. A
necessidade de permitir o acesso a bens como uma expressão da cultura do
território pode ser satisfeita com a melhoria do edifício no local, a organização de
exposições, o processamento de monitores de computador.

3.3. Reconhecimento de objetos

As considerações anteriores ressaltam a importância de um inventário que


seja um instrumento de salvaguarda do trabalho em sua individualidade, em seu
ambiente eclesial, em seu contexto territorial e em sua vitalidade espiritual. O
trabalho de reconhecimento através do inventário requer, portanto, um
planejamento preciso das intervenções, o que esperançosamente implica o
85

acordo entre as várias instituições eclesiásticas e civis envolvidas, já que em


muitos casos o enorme patrimônio histórico-artístico da Igreja se tornou também
herança preciosa de nações individuais. Essa concertação deve ser ordenada para
o uso racional de recursos, a integração de sistemas de inventário, a proteção legal
de dados e a regulação de seu acesso.

As diretrizes comuns resultantes podem melhorar a gestão do patrimônio


histórico-artístico e orientar adequadamente as intervenções das organizações
eclesiásticas e civis que são institucionalmente responsáveis por essas tarefas. Ao
elaborar estas diretrizes, as necessidades sociais e pastorais devem ser levadas
em consideração. Respeitando, de fato, os propósitos culturais e religiosos, é
possível planejar muitas atividades referentes à preservação e ao pleno desfrute
de bens históricos e artísticos, respeitando as diferentes funções que os
distinguem.

Em situações particulares, onde os órgãos estaduais não são capazes de


iniciar programas destinados a promover o conhecimento do patrimônio cultural,
a Igreja, de acordo com sua tradição, pode torná-lo devidamente promotor. Pode,
portanto, tornar-se um tema de referência para dar vida a iniciativas que, a partir
do inventário, são capazes de documentar as conexões entre a cultura material e
religiosa, como expressão viva da espiritualidade que caracteriza os diferentes
povos.

Se chegarmos então à colaboração entre autoridades eclesiásticas e civis


na criação de inventários territoriais, facilitar-se-á a circulação integrada de
informações sobre o patrimônio histórico-artístico da Igreja. A informação
recolhida de forma inequívoca e organizada em arquivos, especialmente se for
telematizada, pode de facto constituir uma "base de dados" útil para diferentes
fins e pode ser consultada num único centro ou em vários locais devidamente
ligados e geridos.

A disseminação de informações em todo o mundo representa um desafio


para o nosso tempo. No atual ambiente de globalização, a tecnologia é capaz de
fornecer as ferramentas para enfrentar com sucesso esse desafio. No entanto, é
importante alcançar a definição de memorandos de entendimento que
comprometem organismos eclesiásticos e civis (nos vários níveis regional,
nacional e internacional) à colaboração, planejamento, implementação de
projetos conjuntos, em pleno reconhecimento dos diferentes propósitos e
competências. A globalização não pode ser reduzida a um fato econômico que
corre o risco de marginalizar ainda mais os mais pobres. Deve dar origem a uma
nova civilização, onde é mais fácil acessar a informação de maneira controlada
para aproveitar a memória histórica de toda a humanidade.

3.4. O risco de dispersão


86

Como tem sido documentado na Etapa 1, no curso de sua história dois mil
anos, a Igreja tem procurado não só para promover a criação de bens culturais
ordenou a sua missão, mas também para protegê-los, em primeiro lugar a questão
das regras que prevenisse-o má conduta e alienação indevida. Neste sentido, o
pro tempore gerenciar esses ativos, sendo os cuidadores e não proprietários de
ativos, que é atribuída à Comunidade dos fiéis, desde tempos imemoriais são
obrigados a comparecer aos registros de desenho e de atualização de acordo com
as normas universais da Igreja e às provisões de Igrejas particulares ou
instituições eclesiásticas individuais.

No entanto, o risco de dispersão continua a depender do patrimônio da


herança cultural da Igreja, tanto nos países antigos como nos recentemente
evangelizados. No primeiro, devido ao enxugamento de várias instituições e às
frequentes mudanças de uso, há alienações e transferências de obras de interesse
histórico e artístico. Nos outros nem sempre há condições para uma efetiva
atividade de salvaguarda, dada a precariedade de muitas situações e a habitual
pobreza de recursos. Para conter o risco de dispersão, o inventário "preciso e
detalhado" é de fundamental importância, pois, ao permitir um reconhecimento
analítico do patrimônio histórico-artístico, promove a aquisição de uma "cultura
da memória".

Especialmente no nosso tempo o patrimônio cultural eclesiástica está a


executar vários perigos: a desintegração da comunidades urbanas e rurais
tradicionais, a instabilidade e poluição do ar ambiental, erupção cutânea
alienação e às vezes mal-intencionados, a pressão do mercado antiquário e roubo
sistemático, os conflitos de guerra e as expropriações recorrentes, a maior
facilidade de transferências resultantes da abertura das fronteiras entre muitos
países e a escassez de meios e pessoas responsáveis pela proteção, a falta de
integração dos sistemas jurídicos.

Nesta situação, a atividade de estoque é um impedimento válido, um sinal


de civilização e uma ferramenta de proteção. Ele adverte contra o comportamento
ilícito através de um documento oficial que pode ser invocado privada e
publicamente por instituições eclesiásticas e civis, tanto locais como nacionais e
internacionais. O inventário, e sobretudo o catálogo, é de fato um instrumento de
fundamental importância para a recuperação, pela força policial, das obras
roubadas, dispersas ou ilegalmente transferidas. De facto, sem um suporte
documental, acompanhado por fotografia, é difícil, senão impossível, demonstrar
a proveniência das obras em questão, de modo a devolvê-las aos seus legítimos
proprietários.

Na esfera eclesiástica, o inventário é a tarefa das Igrejas particulares


individuais, faz uso das orientações possíveis das Conferências Episcopais e é
dirigido pelas diretrizes da Santa Sé.
87

O inventário também insta a comunidade a respeitar os bens comuns


(passados e presentes), educando o sentido de pertença. Nesse contexto, os meios
de comunicação de massa e as instituições educacionais também podem
promover uma nova abordagem do patrimônio cultural tanto para os
responsáveis quanto para a comunidade.

3.5. Organização de estoques

O inventário pode ser organizado em papel e mídia eletrônica, que não são
mutuamente exclusivos. Como a informatização está modelando os sistemas
culturais atuais, é bom usar, onde for possível, até mesmo tecnologias modernas,
para ativar um arquivo mais flexível, mais utilizável e facilmente integrável.

A regulação do acesso à informação é de primordial importância na


organização do inventário, uma vez que nem todos os dados devem ser
disponibilizados a ninguém por razões óbvias de segurança do patrimônio
histórico e artístico. Portanto, é necessário distinguir o estoque completo (em
papel ou eletrônico) de qualquer inventário inserido em redes de
computadores. Além disso, os dados da rede também devem ser consultados de
forma diversificada e gradual, usando códigos de acesso separados.

Ao configurar registros de estoque, é recomendável usar métodos usados


nacional e internacionalmente. No trabalho, você pode proceder de uma
organização elementar, que permite preencher uma forma essencial, para uma
mais elaborada, que leva a coletar e articular mais dados. Portanto, é necessário
que a definição do trabalho inventariado permita novos desenvolvimentos e
acréscimos.

O inventário deve ser mantido em local adequado e seguro. Pode-se pensar


na criação de unidades centrais e periféricas, de acordo com as diferentes
necessidades gerais e locais.

Para o processamento dos cartões, é necessário utilizar, na medida do


possível, pessoal adequadamente preparado. Os gerentes devem ser capazes de
entender o propósito do inventário, os procedimentos organizacionais, a
regulamentação do acesso. Operadores individuais devem ser capazes de
processar os cartões (em papel ou computadorizados), coletando os dados e
inserindo-os neles. Portanto, na organização do inventário de uma Igreja
particular, podem ser usadas consultorias externas profissionais, a fim de obter
as diretrizes essenciais para aqueles que devem, então, realizar o trabalho
concretamente.

4. A catalogação:
88

Um nível mais profundo de conhecimento

Em continuidade e como o desenvolvimento do inventário é a catalogação


que também pode ser realizada em papel, computador ou mídia mista. A este
respeito, ao estabelecer os formulários, critérios e termos uniformes e rigorosos
devem ser estabelecidos para permitir um ordenamento orgânico.

A configuração do cartão de catálogo é de importância primordial. Esta


deve ser concebida como uma estrutura flexível, capaz de coletar dados de acordo
com diferentes níveis de competência, permitindo, após a primeira detecção do
ativo através do inventário, seu posterior aprofundamento. Portanto, você deve
poder anexar outras informações ao formulário inicial. Em particular, um
repertório fotográfico é indispensável e o feedback cartográfico contextual é
desejável.

4.1. O apoio da catalogação

A catalogação em papel, herdada do passado, não perdeu sua importância


e, em alguns casos, continua sendo a única forma possível de coleta de dados,
especialmente em situações em que os recursos econômicos são limitados. No
entanto, a catalogação realizada exclusivamente através do uso de cartões de
papel tem várias limitações, tanto pela excessiva largura de espaços necessária
para conter os cartões, quanto pela difícil disseminação de informações sobre os
produtos catalogados. Portanto, é desejável promover o uso do suporte de TI
junto com o sistema de papel tradicional. De fato, a informatização permite
consultas rápidas, tornando as salvaguardas e as intervenções de recuperação de
ativos mais eficazes. Em particular, esse compromisso é significativo para o
patrimônio histórico-artístico eclesiástico, tanto para o em uso,

Com referência à herança cultural da Igreja, qualquer catalogação


informatizada deve ser capaz de atender a certos critérios: adaptar-se a diferentes
contextos locais e, ao mesmo tempo, integrar-se a programas mais amplos e
interconectados; favorecer a consulta de dados de interesse eclesial, superando
inclusive os constrangimentos impostos pelos bens não eclesiásticos; facilitar a
reconstrução do contexto original e a requalificação religiosa dos bens
desaparecidos; finalizar a coleta de dados para aumentar o valor da propriedade
em seu conteúdo religioso; promover o uso das obras no local, a fim de evitar a
tentação de abordagens puramente virtuais.

Do ponto de vista técnico, a informatização deve ser definida levando-se


em conta o tamanho e o tipo de um sistema de catalogação específico. Um
pequeno catálogo requer investimentos limitados para a compra de
equipamentos e pessoal a ser envolvido; além disso, a atividade de treinamento
deste último é menos complexa. Um catálogo grande e importante, ao contrário,
89

requer investimentos mais caros tanto para o equipamento a ser usado como para
a preparação do pessoal envolvido.

As características de cada catálogo condicionam a escolha adequada de


hardware e software, o grau de preparação da equipe, o número de especialistas
a serem envolvidos e a metodologia a ser adotada. Além disso, uma vez que os
sistemas de TI atuais estão em rede, é desejável ter um planejamento de longo
prazo através da competição das instituições eclesiásticas e civis, a fim de alcançar
um comum e mais eficiente organização, interação e utilização do material
coletado.

A fim de encontrar recursos financeiros, será importante lembrar que, em


muitos casos, o financiamento público pode assumir a forma de subvenções para
projetos que tenham valor cultural, ambiental, turístico e outros
significativos. Além disso, algumas organizações nacionais e internacionais, no
contexto de suas políticas culturais, estão desenvolvendo programas de
catalogação informatizada para materiais localizados mesmo em áreas muito
distantes. Por conseguinte, é conveniente que as Igrejas particulares e as
Conferências Episcopais promovam acordos com essas instituições para o acesso
a projetos destinados a promover a integração de dados e a concessão de ajuda
financeira. Após cuidadosa avaliação da conveniência e oportunidade, pedidos de
financiamento também podem ser feitos a entidades privadas.

Em qualquer tipo de acordo, é sempre necessário evitar qualquer


comercialização indevida, discernir a definição dos formulários, legalizar a
propriedade dos dados coletados e regular o uso das informações.

Para facilitar e ampliar a possibilidade de consultar o catálogo, você


também pode ativar conexões de internet. Neste caso, é necessário um cuidadoso
discernimento e controle das informações a serem inseridas, bem como a
configuração dos métodos de acesso aos mesmos. O sistema da Internet não é um
investimento muito caro e abre novas perspectivas de financiamento. A crescente
confiabilidade e difusão da ferramenta a torna acessível a todos aqueles que
possuem conhecimentos básicos de ciência da computação. Graças à Internet, o
uso de um catálogo pode ser aberto a um círculo mais amplo de acadêmicos e
acadêmicos com a demolição de barreiras ideológicas e religiosas. Para uma
distribuição confidencial de informações, é aconselhável usar sistemas de
intranet. Como o universo telemático está em contínuo e rápido crescimento, as
autoridades eclesiásticas competentes deveriam, tanto quanto possível, estudar
as modalidades de possíveis investimentos no setor. Os processos de TI, de fato,
constituem as novas fronteiras da comunicação e, portanto, devem ser
considerados um veículo particularmente adequado para preservar e transmitir
às gerações futuras o que o cristianismo criou no campo do patrimônio cultural.

4.2. Os critérios de catalogação


90

No processo de catalogação, a fase analítica é de grande importância, que


termina com a compilação da folha de catálogo adequada. Constitui o momento
central e qualificativo de toda a operação. Uma vez compilado, o cartão constitui
o "relato sintético" de uma investigação crítica sobre o bem cultural em sua
identidade e deve ser concebido como um módulo destinado a reunir em síntese
orgânica toda a informação de caráter morfológico, histórico-crítico, técnico,
administrativo e legal, relacionado a coisas catalogadas.

Ao selecionar o cartão, é aconselhável utilizar os sistemas já em uso em


nível nacional e internacional, sempre com o objetivo de promover a circulação e
integração dos dados. Nos países em desenvolvimento, onde os métodos de
catalogação eficientes ainda não foram desenvolvidos, podemos avançar para os
sistemas internacionais mais comuns, escolhendo aqueles que já foram testados
e são mais compatíveis com outros sistemas. Com efeito, graças ao trabalho das
organizações internacionais, estão a ser acordados critérios comuns e sistemas de
catalogação compatíveis (35).

Consequentemente, para a definição do modelo de cartão de vistoria


relacionado aos diferentes tipos de bens, foram desenvolvidas metodologias que
permitem a organização uniforme e sistemática de informações específicas, tendo
em vista a necessidade de reconstituir o vínculo entre as obras e com o território
de pertença. Os dados informativos contidos na folha de dados devem
necessariamente ser divididos em unidades elementares (campos), a fim de
permitir a catalogação analítica e qualquer processamento de TI.

Portanto, é importante definir a distinção entre os campos e o uso da


terminologia ao configurar o formulário. Os principais campos podem assim ser
enucleados: objeto, material, medidas, localização, propriedades, estado de
conservação. A folha de resumo analítico que deriva dela deve cumprir
progressivamente os seguintes requisitos, a fim de identificar claramente o objeto
e seu contexto:

a) atribuir um "código" que inequivocamente leve ao patrimônio cultural em


questão (abreviação numérica ou alfanumérica);

b) adotar uma terminologia comum e estabelecida, usando glossários; (36)

c) identificar o patrimônio cultural (objeto, material, medidas, estado de


conservação);

d) identificar as condições jurídicas e topográficas do patrimônio cultural


(diocese, freguesia, província, município, usufrutuário ou entidade proprietária,
localização, origem, notificações);
91

e) dar uma descrição visual do patrimônio cultural (fotografia, desenho, pesquisa,


planejamento);

f) criar a possibilidade de novas alterações e aditamentos (período de, autor, arte


descrição histórica e iconografia, avaliação crítica, descrições detalhadas,
transcrições epigráficas, bibliografia específica, "registros médicos" da
restauração, ingresse notícias operações de manutenção sobre exposições e
conferências, dados sobre o catalogador);

g) definir o cartão, a fim de facilitar a leitura e gestão de dados por aqueles que
devem usá-lo;

h) colocar os cartões em local seguro e em ambiente adequado à sua conservação


e consulta;

i) fornecer o catálogo de um arquivo analítico (papel ou computador) para


facilitar a busca;

j) proteger legalmente o uso e propriedade das informações coletadas.

4.3. A documentação através da cartografia

A cartografia histórica reflete ao longo do tempo a imagem do ambiente


criado pelas diferentes comunidades. É uma documentação essencial para
rastrear e fixar as fases da mudança contínua do território em relação às
diferentes necessidades, incluindo as espirituais, que têm induzido a ação do
homem para mudar o contexto urbano e ambiental.

Especialmente nos centros históricos da cidade e nos complexos


eclesiásticos de fundação antiga, se ainda não existe, é necessário iniciar uma
pesquisa que destaque as várias fases de desenvolvimento do território. Como
complemento ao catálogo, portanto, pode haver uma comparação cartográfica
que documenta a situação dos bens eclesiásticos em suas fases históricas.

A necessidade de uma leitura aprofundada da evolução histórica das


realidades urbanas e rurais, onde os bens religiosos têm um papel emergente,
requer engajar-se no conhecimento, conservação e valorização, também por meio
de publicações, da cartografia histórica, geralmente mantida nos arquivos
eclesiásticos (curie, capítulos, mosteiros, conventos, confrarias e outros lugares).

Ao lado da cartografia histórica, existe a contemporânea, significativa para


detectar o bem na situação atual. A contextualização plena dos bens e a
comparação dos dados são, portanto, um requisito fundamental para conhecer
tanto a práxis religiosa quanto o impacto sociocultural do patrimônio histórico-
artístico da Igreja, e garantir a pertinência jurídica.
92

Também para este complexo de informações é importante identificar as


metodologias e os padrões que garantem o correto gerenciamento e aquisição de
dados. É apropriado utilizar os sistemas cartográficos existentes a nível nacional
e internacional.

4.4. Documentação fotográfica

Uma parte integrante da catalogação consiste na documentação


fotográfica e, portanto, cada cartão deve incluir pelo menos uma fotografia do
bem analisado. Além disso, um arquivo fotográfico é desejável, onde o trabalho é
documentado em detalhes: condição física, possíveis restaurações, eventos
especiais nos quais o objeto em questão está envolvido. De fato, cuidar da
documentação fotográfica de maneira atenta e completa é uma premissa
indispensável para a identificação do bem, o exame histórico-crítico, a
recuperação em caso de roubo ou a alienação ilícita.

Mesmo a recuperação e conservação do material fotográfico produzido ao


longo do século representam um compromisso notável, cuja importância é
extremamente significativa, uma vez que este repertório documental é o
testemunho, por vezes único, das transformações ocorridas. É necessário,
portanto, prestar especial atenção à preservação da documentação fotográfica
adquirida em épocas anteriores e ao informar sobre a mídia moderna, se
necessário.

Multimídia hoje oferece vários potenciais também no campo


fotográfico. Os sistemas atuais também podem ser usados para fins educacionais
e informativos, a fim de incentivar os processos de informação e treinamento para
o público. Por essa razão, a contribuição desses recursos tecnológicos não deve
ser subestimada no acompanhamento do catálogo de documentação em vídeo.

Indubitavelmente, não em todas as situações em que a Igreja opera,


medidas semelhantes são possíveis. Entretanto, o conhecimento das
possibilidades e dos limites das novas tecnologias nos permite evitar erros,
omissões e soluções intermediárias inúteis.

4.5. A configuração do catálogo

Os catálogos devem ser ordenados em um catálogo, que é o coletor do


processo de coleta e organização de informações. Cada catálogo deve elaborar um
sistema funcional para estabelecer a metodologia de colocação, integração,
gerenciamento e consulta dos cartões.

Tradicionalmente, os arquivos em suportes de papel têm uma ordem


topográfica para garantir a disponibilidade do documento em uma área
específica, com verificação imediata de quaisquer lacunas. O sistema topográfico,
93

por vezes, adicionou o depósito para assuntos e para pessoas, a fim de fornecer
outras chaves de busca. Neste caso, além dos catálogos e de quaisquer dossiês
complementares, foi fornecido um sistema de cartão de referência. A introdução
da tecnologia da informação está agora levando à superação deste sistema. As
informações coletadas, de fato, podem ser encontradas e acessadas através de
múltiplas chaves de acesso, determinadas com antecedência e organizadas em
sistemas de busca.

Os requisitos atuais de ordenação e consulta de catálogos, especialmente


os centrais, que coletam uma grande quantidade de materiais documentários,
levam à realização de formas de gerenciamento automatizado que são
acompanhadas por métodos tradicionais. Esta gestão informatizada do catálogo
oferece muitas vantagens para a integralidade dos dados, a economia de recursos,
a facilidade de consulta, a possibilidade de obter estatísticas sobre a gestão da
informação, bem como sobre os objetos revisados, facilitando também as
atividades de controle e programação no nível central e periférico.

Na ordenação de um catálogo, no entanto, soluções de TI de alto nível nem


sempre podem ser alcançadas, mesmo que estimulem operações de catalogação
de uma perspectiva mais ampla. A criação de um catálogo de computadores que
possa ser vinculado a outros implica, então, a adoção de programas compatíveis,
de modo que um acordo interinstitucional seja alcançado. É necessário, no
entanto, reiterar que o catálogo de computadores não anula a presença e a
validade de catálogos em papel pré-existentes ou concorrentes.

4.6. Gerenciamento de catálogos

Dada a complexidade dos elementos em jogo, um cuidado especial deve


ser reservado para o gerenciamento do empreendimento de catalogação em cada
Igreja particular. Esse compromisso deve ser cumprido para não desperdiçar
recursos econômicos e pessoais. Consequentemente, é ordenado discernir
metodologias adequadas a curto, médio e longo prazo.

A gestão deve, portanto, ser direcionada e direcionada por instrumentos


de análise preventiva, visando identificar emergências e prioridades
operacionais. Neste sentido, é possível cumprir os diferentes objetivos que estão
ligados a questões relacionadas à segurança material, intervenções de
manutenção e uso pastoral. Qualquer que seja a estrutura de gestão adotada, deve
ser ordenada para proteger o bem em seu contexto e em seu uso eclesial.

A gerência deve definir o catálogo em sua ordem geral e em seu


uso. Especialmente no contexto eclesial, o catálogo não deve ser considerado
como um "arquivo" fechado e definitivo, mas sim como um "registro" aberto a
acréscimos, enriquecimentos, atualizações, correções e correções. Só assim o
catálogo do patrimônio cultural pode manter e desempenhar sua função como
94

instrumento ativo de conhecimento, gestão, proteção e valorização do patrimônio


histórico-artístico.

5. Catalogação de Inventário:

Instituições e agentes

A criação de inventário e catalogação requer uma análise cuidadosa da


organização das instituições responsáveis pela preparação de agentes no setor.

Neste contexto, a relação interinstitucional, a sensibilização dos líderes


eclesiásticos, a educação da comunidade cristã assume um significado particular.

5.1. As instituições

O cuidado com a catalogação é parte dos compromissos de cada Igreja


particular que, para esse fim, é chamada a ativar organismos e promover
colaborações a fim de estabelecer um sistema operacional adequado. Em
particular, a autoridade eclesiástica competente, respeitando as diferentes
situações, são incentivados, sempre que possível e apropriado, para promover e
celebrar acordos com organizações públicas e privadas para planejar a gestão,
configurar as metodologias, treinar os catalogadores, encontrar recursos. Embora
as Igrejas particulares podem elaborar sua própria lista do patrimônio cultural de
relevância eclesiástica, deve esforçar-se para a participação ativa de todas as
forças (igreja, estado, privado) interessadas em um conhecimento exato do
patrimônio histórico, artístico e cultural de um determinado território.

A catalogação de inventário do patrimônio histórico-artístico-cultural


inicia processos de colaboração interinstitucional frutífera no compromisso
comum de organizações eclesiásticas e civis. A disponibilidade recíproca de dados
e imagens é a premissa para o resultado bem-sucedido da iniciativa. A
possibilidade de integrá-los em um único sistema pressupõe a adesão às
diretrizes de mérito e método estabelecidas pelos órgãos institucionalmente
designados para atingir esses objetivos nos diversos contextos eclesiásticos,
nacionais e internacionais.

No caso de ser impossível a colaboração entre corpos eclesiásticos e civis,


a Igreja, como já foi dito, é, de qualquer forma, chamada a prosseguir com o
inventário e, esperamos, catalogar seus bens, de acordo com sua legislação
específica.

5.2. Os agentes
95

A catalogação de estoque deve ser feita por pessoas (clérigos e leigos)


adequadamente preparadas. Esta preparação é direcionada para a compilação
das folhas do catálogo de estoque e para o gerenciamento do catálogo de estoque.

O papel do planejador é de particular importância. Há muitas disciplinas


relacionadas com a pesquisa das várias classes de patrimônio cultural de
importância religiosa (achados arqueológicos, complexos arquitetônicos, obras
de arte, mobiliário sagrado, mobiliário litúrgico, vestimentas sagradas e outros).

Para desenvolver a profissionalismo, o catalogador deve primeiro adquirir


a tecnologia para a organização editorial das placas e ser um perito em "cultura
material", a fim de ser capaz de identificar em diversos artefatos a marca da
cultura que os produziu. Também é desejável que o agendador tenha
conhecimento suficiente de outras disciplinas comuns (história da arte, história
da Igreja, história civil, teologia, liturgia, direito canônico). Não ser capaz de
alargar a sua competência a todas as ciências, o catalogador deve, no entanto, ser
capaz de procurar a colaboração nos campos de tempos em tempos surgem
(arqueologia, arquitetura, paleografia, ourivesaria, gemologia, ciência tecido,
biblioteconomia e muito mais). Além disso, ele deve saber usar técnicos, como
fotógrafos, agrimensores, cartógrafos, designers, para acompanhar, se
necessário, os cartões de um suporte visual do bem em si ou do seu contexto. Deve
então ser assistido por consultores jurídicos e administrativos, que lhe permitem
proteger a legítima autonomia dos órgãos eclesiásticos (proprietários ou
usufrutuários de bens) e administrar corretamente o uso dos dados coletados.

A necessidade de apoiar a catalogação de inventário com o uso de


ferramentas e metodologias de computador requer um treinamento adequado
também em relação às ferramentas que o operador é chamado a usar, tanto para
a detecção quanto para uma verificação inicial dos dados recuperados.

A considerável complexidade metodológica e gerencial requer a inserção


de pessoal especializado junto a operadores menos qualificados (que em muitos
casos já prestam seus serviços em instituições eclesiásticas). A contribuição dos
voluntários, como suporte à atividade de pessoal experiente, também é útil, mas
às vezes necessária.

A preparação dos escalonadores é a maior garantia para conduzir a


empresa de forma rigorosa, para garantir a continuidade do trabalho, para
permitir investigações científicas posteriores. A atividade de treinamento dos
escalonadores deve ser cuidadosamente preparada com cursos específicos que
tenham uma estrutura curricular, capaz de desenvolver o conhecimento
necessário. Até os fotógrafos exigem profissionalismo e experiência na
catalogação de inventário específica. Finalmente, é desejável atualizar
periodicamente o escalonador, que deve estar ciente da abordagem cada vez mais
sistemática e articulada ao patrimônio cultural.
96

As instituições que atuam como parte da inventariação e catalogação do


patrimônio cultural devem desempenhar um papel ativo na formação de
agendadores profissionais e de quaisquer voluntários. Ao lado dos institutos que
operam diretamente no campo da catalogação de estoques, é muito oportuno que
as universidades civis e os centros acadêmicos eclesiásticos ativem cursos
apropriados para a formação dos vários operadores (37).

6. Conclusão

O cuidado do patrimônio histórico-artístico eclesiástico é um fato da


civilização, que envolve a Igreja em primeiro plano. Sempre se declarou "perito
em humanidade", (38) favoreceu o desenvolvimento das artes liberais em todas
as épocas e promoveu o cuidado com o que foi criado para cumprir a missão
evangelizadora. De fato, "quando a Igreja chama a arte para acompanhar sua
missão, não é apenas por razões estéticas, mas obedecer à própria" lógica "da
revelação e da encarnação" (39).

Neste contexto, o inventário de catálogos é uma ferramenta para


salvaguardar e valorizar a herança cultural da Igreja. A abordagem científica e o
uso subsequente dos resultados da pesquisa são definidos como momentos
complementares do catálogo de inventário. Assim, a interpretação crítica dos
dados, a contextualização dos bens, a manutenção de seu uso religioso e cultural
partem da ordenação lógica do material coletado.

A concepção da operação de coleta de informações como um mero censo


de ativos, no máximo visando sua proteção legal, pode, portanto, ser considerada
desatualizada. As necessidades atuais requerem conhecimentos que garantam
confiabilidade científica, atualização contínua e, acima de tudo, o aprimoramento
cultural e eclesial dos dados coletados.

A catalogação de estoques deve ser entendida, portanto, como um


conjunto de atividades voltadas para a organização do conhecimento, visando os
objetivos de salvaguardar, administrar, valorizar o patrimônio cultural, segundo
métodos que não impeçam soluções de TI e conexões com outros sistemas. A ideia
de um arquivo como um simples depósito de cartões rapidamente deteriorados e
de difícil leitura está substituindo a imagem de um arquivo dinâmico, relacionado
internamente através de campos definidos e, ao mesmo tempo, relacionado às
inúmeras séries de arquivos disseminados território eclesial, nacional e
internacional.

A Igreja neste sector do inventário-catalogação é chamada a um esforço de


renovação para proteger seus ativos, regular o acesso aos seus dados, dá um valor
espiritual em que colhem. Desde então, o patrimônio cultural de conteúdo
97

religioso gravitam mesmo sob outros aparelhos, o compromisso catalogação


inventário não pode ser restrita apenas à responsabilidade eclesiástica, mas deve
ver envolvidos, quando as circunstâncias o permitirem, até mesmo as autoridades
civis e indivíduos.

Com um cenário eficiente de seus catálogos de inventários, a Igreja entra


na cultura da "globalização", dando um significado eclesial à informação
documental pertinente e demonstrando sua universalidade através do feedback
acessível do enorme patrimônio que criou e continua a criar em todos os lugares
onde ele está presente com sua obra de evangelização. Isso porque, com a ciência
da computação em inventário, se realiza a esperança de João Paulo II: "Dos sítios
arqueológicos às expressões mais modernas da arte cristã, o homem
contemporâneo deve ser capaz de ler a história da Igreja, ser ajudado a
reconhecer o misterioso encanto do plano salvífico de Deus ". (40)

Este trabalho, que compromete todas as Igrejas particulares, tanto as


antigas como as da evangelização recente, é certamente dificultado pelo problema
dos recursos, especialmente nos países em desenvolvimento, onde a superação
da pobreza é o principal problema para a comunidade cristã. No entanto, para
aumentar o progresso, também é importante criar a consciência da própria
civilização. De fato, "a Igreja, professora de vida, não pode deixar de assumir o
ministério de ajudar o homem contemporâneo a redescobrir o assombro religioso
diante do fascínio da beleza e da sabedoria que emana do que a história nos deu"
(41).

É por isso que o conhecimento do patrimônio artístico histórico, ainda que


mínimo, torna-se um fator de progresso não indiferente. Neste caso, será
necessário que os Pastores solicitem a solidariedade nacional e internacional e
será uma preocupação das Igrejas dos países mais ricos promover iniciativas para
proteger as culturas de minorias e povos que estão em sérias dificuldades
econômicas.

Desejando o vosso ministério pastoral que liga intimamente a obra de


evangelização à promoção humana, apraz-me ter a oportunidade de vos exprimir
a minha respeitosa e cordial saudação com que me confirmo.

da Eminência (Excelência) Seu Reverendíssimo

dev.mo em GC
Francesco Marchisano
Presidente

Carlo Chenis, SDB .


secretário
98

Cidade do Vaticano, 8 de dezembro de 1999

1 Cf. Comissão Pontifícia do Patrimônio Cultural da Igreja, Carta Circular


Bibliotecas eclesiásticas, 10 de abril de 1994, Prot. N. ° 179/91/35; Ead., Carta
Circular A função pastoral dos arquivos eclesiásticos, 2 de fevereiro de 1997, Prot.
N. 274/92/118.

2 Em seu discurso dirigido aos membros da primeira Assembleia Plenária da


Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja, 12 de outubro de 1995, João
Paulo II diz que o conceito de "patrimônio cultural" significa "a primeira pintura
patrimônio artístico, o escultura, arquitetura, mosaico e música, colocados a
serviço da missão da Igreja. A estes devem ser acrescentados os bens da biblioteca
contidos nas bibliotecas eclesiásticas e os documentos históricos guardados nos
arquivos das comunidades eclesiais. Por fim, as obras literárias, teatrais e
cinematográficas, produzidas pelos meios de comunicação de massa,
enquadram-se nesse contexto "(L'Osservatore Romano, 13 de outubro de 1995, p.
5). Cf. também o Codex Iuris Canonici (= CIC) pode. 1189.

3 Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição Sacrosanctum Concilium, n. 122:


"Quae [...] Deo et eiusdemque Lauds Gloria provehendae EO magis addicuntur,
quo nihil aliud eis propositum est quam ut operibus suis a torta hominum Mentes
em déum convertendas maxime conferant" (Sacrossanctum Oecumenicum
Concilium Vaticanum II, Constitutiones, decretos, Declarationes cuidados et
estúdio Secretariae Oecumenici Generalis Concilii Vaticano II, Vaticano 1993, p.
56).

4 CIC can.1283: "antequam administratores suum munus ineant [...] 2 °


accuratum distinctum Inventarium ac, ab ipsis subscribendum, rerum
Immobilium, rerum mobilium sive pretiosarum sive utcumque para bona
Culturalia pertinentium aliarumve cum descriptione atque aestimatione
earundem redigatur, redactumque recognoscatur; 3ª huius inventarii alterum
exemplar conservetur em tabularium administrationis, alterum em curiae
arquivo; et in utroque quaelibet immutatio adnotetur, quam patrimonium sofrer
contingat". Cf. também Código dos Cânones das Igrejas Orientais (= CCEO)
lata. 252-261.

5 Cf. Circular da Secretaria de Estado de Sua Santidade o Reverendíssimos


Ordinários da Itália, 1 setembro de 1924, n. 34215, em: Fallani G. (eds), Protecção
e conservação do patrimônio histórico e artístico da Igreja na Itália, Roma, 1974,
p. 192.

. 6 Por exemplo, sobre o Papa São Leão Magno (440-461) lê: "Hic renovavit pós
CLADEM Wandalicam omnia ministeria prata consagrado para omnes titulos
99

conflata, hydrias VI argenteas: Duas Basilice Constantiniane, Duas Basilice


abençoado Duas Petri Basilice abençoado Pauli [...] quae omnia vasa renovavit
consagrada [...] Et Pauli basilicam apóstolos abençoados renovavit [...] Hic
quoque constituit de super custódios sepulchra Apostolorum aqui dicuntur
cubicularii, ex-clero romano "(Liber Pontificalis, ed Prerovsky U. [= Ele estuda
Gratiana, 22], vol II, Roma 1978, pp. 108-110).

7 Cf. Arquivo Secreto Vaticano, I-LXXX Roupeiros; Secretaria de Fundos do


Brevi; Congregação do Conselho; Congregação das Indulgências e
SS. relíquias; Brevia et Decreta.

8 Papa Gregório, o Grande, por aproximar-se claro, bispo de Marselha, que havia
retirado das igrejas as pinturas, temendo idolatria, escreve: "aliud est enim
picturam adoração, aliud para picturae historiam quid addiscere sit
adorandum. Nam quod scriptura legentibus, hoc idiotis praestat pictura
cernentibus, quia em ipsa etiam ignorantes Vident quid Sequi debeant em ipsa
legunt aqui litteras nesciunt ... Ac deinde subjungendum quia picturas imaginum,
quae para aedificationem não qualificados factae fuerant populi, ut nescientes
litteras, IPSAM historiam intendentes , actum libras sentar discerent ... ut visão
anterior rei gestae ardorem compunctionis percipiant, et em adoratione Solius
Omnipotentis sanctae trinitatis humiliter prosternantur "(Gregorius Magnus,
Epistulae, em: Patrologia Latina (PL =) 77, 1128 C, 1129 BC).

9 Cf. Conciliorum Oecumenicorum Decreta, editado por Alberigo G. e outros,


Bologna 31973, p. 133-137.

10 Egger A., Kirchliche Kunst und Denkmalpflege, Brixen 1932, p. 7: "Providete


ne per negligentiam vestram illarum rerum", quae intra ecclesiam sunt, aliquid
pereat. Et cetera, quase Deo rentável rationem pro iis rebus, quae seu clavibus
recluduntur ".

11 Em 31 de Outubro, 447 Papa Leão I proíbe bispos e todo o clero, sob pena de
excomunhão e mesmo secularização, para dar como presentes, alterar ou vender
os ativos valiosos das igrejas sem um motivo grave e sem o consentimento de
todas as clero "decernimus exceptione Sine, ele Quis episcopus de rebus ecclesiae
suae audeat quidquam doar vel vel interruptor vel venda. Nisi forte aliquid horum
faciat ita ut meliora prospiciat, et cum totius clergies tractatu, atque consensu, id
eligat, quod non sit dubium Ecclesiae profuturum. Nam diáconos vel presbyteri,
aut cuiuscumque ordinis clero aqui em conniventiam Ecclesiæ damna
miscuerint, se Sciant et et privandos comunhão fim, Plenum iustitiae quia est, ut
era não apenas a bispos, clero sed etiam totius estudo, ecclesiasticae utilitatis
aumenta serventur, et eorum permaneant impecável Munera, quae pro
animarum suarum saúde, Fideles de substância própria Ecclesia contulerunt "(cf.
Bullarium Romanum Magnum, Graz 1964, vol. I, p. 145). Em 18 de agosto, 535
Papa Agapito I reiterou esta regra: (Ibid., P. 145) "Revocant Nos venerável
100

Patrum manifestissima constituta, quibus prohibemur, praedia jure Ecclesiae,


que nn omnipotens Dominus praeesse constituit, quolibet titulo para transferre
iura alienígena".

12 O Conselho Constantinopolitano IV no cân. 15 admitida como um motivo para


vender a propriedade sagrada das igrejas só para o resgate dos prisioneiros:
"Apostolicos et paternos canones renovans sancta haec universalis synodus,
definivit neminem prorsus episcopum venda vel utcumque alienar Cimelia et
vasa canonibus consagrada, excepta devido olim ab Antiquis ordenou, videlicet
accipiuntur quae em Redemptionem Captivorum "(Conciliorum Oecumenicorum
decretos, p. 177).

ut nec ius aliqué tribuant nec praescribendi etiam causam pai. Et praelatos
nihilominus, aqui secus egerint, ipso facto ab officio et adininistratione, clericos
etiam aqui scientes, praedictam inhibitionem contra aliquid eles praesumptum,
id neglexerint maior denuntiare, em beneficiorum perceptione, quae em sic
ecclesia sobrecarregados obtinent, três anos statuimus eles Suspensos
"(Conciliorum Oecumenicorum Decreta, pp. 325s.).

14 "Statuit santuário synodus Nemini licere [...] Ullam insolitam ponere vel
ponendam cura imaginem, nisi ab episcopo Approbata fuerit" (Conciliorum
Oecumenicorum Decretos, p. 775s).

15 O comissário se chamava Latino Giovenale Mannetto (cf. Costantini C.,


legislação eclesiástica sobre arte, em: Faith and Art, 5 (1957), página 374).

16 Cf. Emiliani A., Leis, avisos e medidas para a proteção do patrimônio artístico
e cultural nos antigos estados italianos 1571-1860, Bolonha 1978, p. 110-
126; Mariotti F., A Legislação das Belas Artes, Roma 1892, p. 226-233.

17 Cf. Menozzi D., A Igreja e as imagens. Os textos fundamentais sobre as artes


figurativas desde as origens até os nossos dias, Cinisello Balsamo 1995,
p. 248; Emiliani, Leis, chamadas e provisões, p. 130-145; Mariotti, Legislação,
p. 235-241.

18 Cf. Ofício Circular de Sua Eminência Cardeal Merry del Val para o
estabelecimento dos Comissariados diocesanos para os monumentos guardados
pelo Clero, 10 de dezembro de 1907, n. 27114, in: Fallani, Protection and
Conservation, p. 182-184. Sobre a legislação eclesiástica sobre a arte sacra cf. a
vasta antologia de Costantini, Legislação Eclesiástica, p. 359-447.

19 Cf. Motu Proprio Entre as preocupações, 22 de novembro de 1903, em: Pii X


Pontificis Maximi Acta, vol. Eu, Romae ex Typographia Vaticana 1905,
p. 75; Costantini, legislação eclesiástica, p. 382s.
101

20 Cf. Acta Apostolicae Sedis (= AAS) 39 (1947) p. 590s.

21 "administratores antequam [...] suum munus ineant [...] 2 ° Fiat accuratum


distinctum Inventarium ac, ab omnibus subscribendum, rerum Immobilium,
rerum mobilium pretiosarum aliarumve cum descriptione atque aestimatione
earundem; vel factum antea inventarium acceptetur, adnotatis rebus quae intere
amissae vel acquisitae fuerint; 3º Huius inventarii alterum exemplar conservetur
in tabulario administration, alterum in archivo Curiae; et em utroque quaelibet
immutatio adnotetur, quam patrimonium sofrer contingat "(CIC 1917, pode.
1522).

22 Cf. Fallani, Proteção e Conservação, p. 184-194.

23 Cf. Carta circular aos Bispos italianos Sobre o sistema de iluminação eléctrica
nas igrejas, em: Arquivo Secreto Vaticano, Fundo Arquivo da Secretaria de
Estado, tbook. 52, 1923.

24 Cf. Costantini, Legislação Eclesiástica, p. 425S.

25 Cf. AAS 21 (1929), p. 384-399.

26 Cf. AAS 31 (1939), p. 266-268.

27 Cf. AAS 63 (1971), p. 315-317.

28 CIC pode. 1283: "antequam administratores suum munus ineant [...] 2 °


accuratum distinctum Inventarium ac, ab ipsis subscribendum, rerum
Immobilium, rerum mobilium sive pretiosarum sive utcumque para bona
Culturalia pertinentium aliarumve cum descriptione atque aestimatione
earundem redigatur, redactumque recognoscatur; 3ª huius inventarii alterum
exemplar conservetur em tabularium administrationis, alterum em curiae
arquivo; et in utroque quaelibet immutatio adnotetur, quam patrimonium sofrer
contingat". Cf. CCEO puro pode. 252-261.

29 Cf. CIC pode. 489, § 2, que lida com documentos sensíveis relativos a casos
criminais em matéria aduaneira.

30 Esta operação encontra um estímulo adequado para a implementação, tendo


em mente o que João Paulo II diz em sua Carta Apostólica Tertio Millennio
adveniente (10 de novembro de 1994) sobre as perspectivas do Grande Jubileu de
2000, em: AAS 87 (1995), p. 5-41.

31 Circular da Secretaria de Estado de Sua Santidade às Receitas Ordinárias da


Itália, 1 de setembro de 1924, n. 34215, in: Fallani, Protection and Conservation,
p. 192.
102

32 Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Sacrosanctum Concilium,


n. 122, em: Sacrosanctum Oecumenicum Concilium Vaticanum II,
Constitutiones, Decreta, Declarationes, p. 56.

33 Com o termo "museu difuso", queremos indicar o conjunto coordenado de


mercadorias no território, de modo que os monumentos e objetos únicos,
permanecendo no local original, constituam um único circuito de museu.

34 Em relação a cf. alguns documentos emitidos por organizações internacionais


na Europa que atuam na proteção e promoção do patrimônio cultural, como o
Conselho da Europa, ao qual muitas nações aderiram: a Convenção Européia para
a Proteção do Patrimônio Arquitetônico (Granada, Espanha, 1985); Convenção
Europeia para a Protecção do Patrimônio Arqueológico (Valletta, Malta, 1992).

35 Os principais documentos emitidos por organizações internacionais para este


setor específico são os seguintes: ICOM, Comitê de Documentação CIDOC,
Padrão de Trabalho para o Patrimônio Arqueológico de 1992; ICOM, Comitê de
Documentação do CIDOC, 1995 Padrão de Trabalho para Objetos de
Museus; Conselho da Europa, Recomendação NR (95) 3 relativa à coordenação
dos métodos e dos sistemas de documentação em matéria de monumentos
históricos e de aspectos do patrimônio arquitectónico adoptada pelo Comité de
Ministros em 11 de Janeiro de 1995; Conselho da Europa, Doc. CC-PAT (98) 23
Principais Padrões de Dados para Monumentos e Locais Arqueológicos. Os dois
últimos documentos foram preparados na sequência das reflexões e moções de
duas reuniões organizadas pelo Conselho da Europa sobre métodos de inventário
e documentação na Europa:

36 A título de exemplo indica o Thesaurus Multilanguage Eclesiástica Kit CD-


Rom, editado por Réseau Canadien d'Information (RCIP) -Canadian Heritage
Information Network (Chin), o Ministère de la Culture et de la Communication -
Sous-direção des études de la documentation et de l'ventaire (França), do
Instituto Central de Catalogação e Documentação (Itália) e do Getty Information
Institute (EUA).

37 A título de exemplo, algumas iniciativas de treinamento podem ser


mencionadas. Nas Pontifícias Instituições: Escola Vaticana de Paleografia,
Diplomática e Arquivo (Arquivo Secreto Vaticano, Cidade do Vaticano); Escola
Vaticana de Biblioteconomia (Biblioteca Apostólica Vaticana, Cidade do
Vaticano); Instituto Pontifício de Arqueologia Cristã (Roma, Itália); Curso
Avançado de Patrimônio Cultural da Igreja (Pontifícia Universidade Gregoriana,
Roma, Itália). Nas universidades católicas: Escola de Especialização em História
da Arte (Universidade Católica do Sagrado Coração, Milão, Itália); Institut des
Arts Sacrés (Faculdade de Teologia e Ciências Institucionais, Institut Catholique
de Paris, França); Curso de Mestrado em Patrimônio Sagrado (Universidade
Católica Portuguesa, Porto, Portugal); Curso de diplomado em Bienes Culturais
103

da Iglesia (Universidad Iberoamericana, Cidade do México, México); cursos de


formação sobre conservação e promoção do patrimônio cultural eclesiástico
(Instituto Paul VI de Artes, Washington, EUA); Comissão de Registros Históricos
Católicos de Nova Jersey (Seton Hall University, Nova Jersey, EUA). Em outras
instituições acadêmicas: Mestre em Restauração e Reabilitação do Patrimônio
(Universidad de Alcalá, Espanha); Cátedra de Arte Sacro (Universidade de
Monterrey, México). A.). Em outras instituições acadêmicas: Mestre em
Restauração e Reabilitação do Patrimônio (Universidad de Alcalá,
Espanha); Cátedra de Arte Sacro (Universidade de Monterrey, México). A.). Em
outras instituições acadêmicas: Mestre em Restauração e Reabilitação do
Patrimônio (Universidad de Alcalá, Espanha); Cátedra de Arte Sacro
(Universidade de Monterrey, México).

38 Paulo VI, Carta Encíclica Populorum Progressio, n. 13: "Christi Ecclesia, iam
rerum humanarum peritissima", em: AAS 59 (1967), p. 263.

39 João Paulo II, abordar a importância do patrimônio artístico na expressão de


fé e de diálogo com a humanidade, 12 de outubro de 1995, em L'Osservatore
Romano, 13 de outubro de 1995, p. 5.

40 João Paulo II, Mensagem patrimônio cultural pode ajudar a alma em busca
das coisas divinas e constituem páginas interessantes da catequese e ascetismo,
25 de setembro de 1997, em L'Osservatore Romano, 28 de setembro de 1997, p. 7.

41 Ibid.
104

A função pastoral dos museus


eclesiásticos
(15 de agosto de 2001)
105

Carta Circular
A função pastoral dos museus eclesiásticos

Eminência (Excelência) Reverendíssima

Depois de ter tratado das bibliotecas e dos arquivos, (1) e de ter insistido
sobre a necessidade e a urgência do inventário e da catalogação do patrimônio
histórico-artístico (móvel e imóvel) (2), a Pontifícia Comissão para os Bens
Culturais da Igreja dirige agora a sua atenção para os museus eclesiásticos, a fim
de conservar materialmente, tutelar sob o ponto de vista jurídico e valorizar
pastoralmente o importante patrimônio histórico-artístico que já não se usa de
forma habitual.

Com este novo documento, a Pontifícia Comissão para os Bens Culturais


da Igreja pretende oferecer um ulterior contributo para reforçar a ação da Igreja
através dos bens culturais, em ordem a favorecer um renovado humanismo à luz
da nova evangelização. De fato, a Pontifícia Comissão tem como encargo principal
trabalhar para que o povo de Deus, e sobretudo os agentes (leigos e clérigos),
valorizem no âmbito pastoral o enorme patrimônio histórico-artístico da Igreja.

O cristianismo caracteriza-se pelo anúncio do Evangelho no hic et nunc de


cada geração e pela fidelidade à Tradição. Ao longo da sua história, a Igreja
"serviu-se das diferentes culturas para difundir e explicar a mensagem cristã"(3).
Como consequência, "a fé tende por natureza a expressar-se em formas artísticas
e em testemunhos históricos que possuem uma intrínseca força evangelizadora e
um valor cultural perante os quais a Igreja deve prestar a máxima atenção"(4).
Por este motivo, especialmente nos países de antiga, e inclusive já nos de recente
evangelização, tem-se acumulado um abundante patrimônio de bens culturais,
caracterizados por um valor particular, no âmbito da sua finalidade eclesial.

Neste sentido, também um museu eclesiástico, com tudo o que contém,


está intimamente unido à vivência eclesial, visto que documenta de modo visível
o percurso da Igreja ao longo dos séculos no que diz respeito ao culto, à catequese,
à cultura e à caridade. O museu eclesiástico é, por conseguinte, um lugar que
documenta o desenvolvimento da vida cultural e religiosa, para além do gênio do
homem, com o fim de garantir o presente. Consequentemente, não se pode
compreender em sentido "absoluto", isto é, separado do conjunto das atividades
pastorais, mas sim enquadrado e em relação com a totalidade da vida eclesial e
com referência ao patrimônio histórico-artístico de cada nação e cultura. O
museu eclesiástico deve estar necessariamente inserido nas atividades pastorais,
com o intuito de expressar a vida eclesial através de uma aproximação global ao
patrimônio histórico-artístico.
106

Na mens cristã, os museus eclesiásticos entram com pleno direito nas


estruturas ordenadas para a valorização dos bens culturais, "postos ao serviço da
missão da Igreja”, (5) pelo que devem ser organizados de modo a poderem
comunicar o sagrado, o belo, o antigo e o novo. São, por este motivo, uma parte
integrante da expressão cultural e da ação pastoral da Igreja.

O patrimônio histórico-artístico que já não se encontra em uso habitual,


antiquado, que não se consegue conservar, pode encontrar nos museus
eclesiásticos uma tutela e uma oportuno uso.

Por esta razão, é necessário atuar para que tanto os bens em uso como os
que se encontram em desuso, se inter-relacionem com vista a garantir uma visão
retrospectiva, uma funcionalidade atual e ulteriores perspectivas em benefício do
território, de modo que se possam coordenar os museus, os monumentos, as
ornamentações, as representações sagradas, as devoções populares, os arquivos,
as bibliotecas, as coleções e qualquer outra tradição local. Numa cultura, às vezes
desagregada, somos chamados a tomar iniciativas que tornem possível
redescobrir o que, cultural e espiritualmente, pertence à coletividade, não no
sentido apenas turístico, mas propriamente humano. Neste sentido, é possível
redescobrir as finalidades do patrimônio histórico-artístico, para usufruir do
mesmo como um bem cultural.

Segundo esta visão, o museu eclesiástico pode converter-se no principal


ponto de referência à volta do qual se anima o projeto de uma nova consideração
do passado e da descoberta do presente nos seus melhores aspectos, muitas vezes
desconhecidos. Além disso, apresenta-se como sede para a coordenação da
atividade conservadora, da formação humana e da evangelização cristã num
determinado território. Outrossim, na sua organização deve ser acolhido o
dinamismo social, as políticas culturais e os planos pastorais aprovados para o
território de que faz parte.

Para além da importância das instituições dos museus no seio da Igreja, a


salvaguarda dos bens culturais deve ser, sobretudo, competência da comunidade
cristã. Esta tem de compreender a importância do seu próprio passado, ser
consciente do sentido de pertença ao território em que vive e deve, enfim,
compreender a peculiaridade pastoral do patrimônio artístico. Trata-se,
portanto, de criar uma consciência crítica que valorize o patrimônio histórico-
artístico produzido pelas diversas civilizações que se aproximaram no tempo,
graças também à presença da Igreja, quer como comitente iluminada quer como
guardiã atenta dos vestígios antigos.

É, pois, evidente que a organização dos museus eclesiásticos necessita de


um fundamento eclesiológico, de uma perspectiva teológica e de uma dimensão
espiritual, já que só assim estas instituições podem integrar-se num projeto
pastoral. Apesar de não aprofundar estas considerações, ainda que tenha nascido
107

como fruto das mesmas, a presente Carta circular deseja oferecer uma reflexão
de carácter geral e eminentemente prático sobre a importância e o papel dos
museus eclesiásticos no contexto da vida social e eclesial. A originalidade e a
eficácia dos museus eclesiásticos provêm, de fato, do contexto de que são parte
integrante.

Conservação do patrimônio histórico-artístico da Igreja

1.1 Importância do patrimônio histórico-artístico

Os bens culturais eclesiais são um patrimônio específico da comunidade


cristã. Ao mesmo tempo que, pela singular dimensão universal do anúncio
cristão, pertencem de certa forma a toda a humanidade. O seu fim está ordenado
para a missão eclesial sob um duplo e coincidente dinamismo da promoção
humana e da evangelização cristã. O seu valor realça a obra da inculturação da fé.

De fato, enquanto expressão da memória histórica, os bens culturais


permitem redescobrir o caminho da fé através das obras de diversas gerações.
Pelo seu valor artístico, manifestam a capacidade criativa dos artistas, artesãos e
mestres locais que souberam exprimir nas coisas simples o próprio sentido
religioso e a devoção da comunidade cristã. Pelo seu conteúdo cultural,
transmitem à sociedade atual a história individual e comunitária da sabedoria
humana e cristã, no âmbito de um território concreto e de um determinado
período histórico. Pelo seu significado litúrgico, estão dirigidos especialmente
para o culto divino. Pelo seu destino universal, permitem que cada um possa
usufruir dos mesmos, sem se tornar seu proprietário exclusivo.

O valor que a Igreja reconhece aos seus próprios bens culturais explica "a
vontade, por parte da comunidade dos crentes, e em particular das instituições
eclesiásticas, de reunir desde a época apostólica os testemunhos da fé e cultivar a
sua memória, exprime a unicidade e a continuidade da Igreja que vive estes
tempos últimos da história”. (6) Neste contexto a Igreja considera importante a
transmissão do próprio patrimônio de bens culturais. Eles representam, de fato,
um elo essencial da corrente da Tradição; são as memórias sensíveis da
evangelização; tornam-se um instrumento pastoral. Daí, "o empenho de os
restaurar, conservar, catalogar e defender”, (7) a fim de obter uma "valorização,
que favoreça o seu melhor conhecimento e uma utilização adequada, tanto na
catequese como na liturgia”. (8)

Entre os bens culturais da Igreja inclui-se o ingente patrimônio histórico e


artístico disseminado, em certa medida, por todas as partes do mundo. A
identidade desse patrimônio é devida ao uso eclesial, pelo que não pode ser
108

retirado de tal contexto. Portanto, devem-se elaborar estratégias de avaliação


global e contextual do patrimônio histórico e artístico, de modo que se possa
desfrutá-lo em toda a sua complexidade. Inclusive o que já não está em uso por
causa, por exemplo, das reformas litúrgicas, ou que não é utilizável pela sua
antiguidade, deve igualmente estar em relação com os bens em uso para
evidenciar o interesse da Igreja pela expressão, com múltiplas formas culturais e
com diversos estilos, da catequese, do culto, da cultura e da caridade.

A Igreja, portanto, deve evitar o perigo do abandono, da dispersão e da


devolução das peças a outros museus (estatais, civis e privados) instituindo,
quando for necessário, "depósitos dos museus" que possam garantir a sua
conservação e fruição no âmbito eclesial. As peças de menor importância artística
também testemunham no tempo o empenho das comunidades que as produziram
e podem esclarecer a identidade das comunidades atuais. Por este motivo, é
necessário prever uma forma adequada de "depósito do museu". De qualquer
modo, é indispensável que as obras conservadas nos museus e nos depósitos
eclesiásticos permaneçam em contato direto com as obras que ainda se
encontram em uso nas diversas instituições da Igreja.

1.2 Aproximação à conservação do patrimônio histórico-artístico

São diversos os modos segundo os quais, nas diferentes culturas, se


procede à conservação do patrimônio da memória cultural. Por exemplo, nas
culturas do Ocidente, cultiva-se a memória do passado conservando as peças que
se tornaram obsoletas pela importância histórico-artística, ou simplesmente pelo
seu valor de recordação. Noutras culturas, pelo contrário, o cultivo da memória
circunscreve-se prevalentemente à narração oral das gestas do passado, visto que,
por razões climáticas, se torna difícil a conservação das peças. Noutras, enfim, a
conservação é feita através de uma recriação das peças, respeitando os materiais
e os modelos estilísticos. Contudo, em todos os povos subsiste o sentido vivo da
memória como um valor básico que deve ser cultivado com dedicação.

Nos países de antiga tradição cristã o patrimônio histórico-artístico, que


ao longo dos séculos se foi enriquecendo continuamente com novas formas
interpretativas e constituiu um instrumento privilegiado de catequese e de culto
para as gerações, em tempos mais recentes adquiriu, algumas vezes, por causa da
secularização, um significado quase exclusivamente estético. Por isso, é oportuno
que as Igrejas confirmem, através de oportunas estratégias, a importância
contextual dos bens histórico-artísticos, de modo que uma peça considerada sob
o ponto de vista do valor estético não seja totalmente separada da sua função
pastoral, assim como do seu contexto histórico, social, ambiental e devocional, de
que constitui uma peculiar expressão e testemunho.

O museu eclesiástico radica-se sobre um território, está diretamente ligado


à ação da Igreja e é o resumo visível da sua memória histórica. Não se reduz à
109

simples "coleção de antiguidades e curiosidades", como pretendiam no


Renascimento Paulo Giovio e Alberto Lollio, mas conserva para as valorizar,
obras de arte e objetos de carácter religioso. O museu eclesiástico não é sequer
o Mousêion, isto é, o "templo das Musas", no sentido etimológico da palavra, em
recordação de quanto fundou Ptolomeu Soter em Alexandria do Egito, mas é o
edifício em que se conserva o patrimônio histórico-artístico da Igreja. De fato,
ainda que muitas peças já não desenvolvam uma função eclesial específica,
continuam, no entanto, transmitindo uma mensagem que as comunidades
cristãs, de épocas mais longínquas, quiseram entregar às gerações futuras.

À luz destas considerações é importante desenvolver programas


específicos para uma adequada valorização e conservação, com um sentido
eclesial, do patrimônio histórico-artístico. Tais programas deverão fundamentar-
se sobre estes compromissos:

- a salvaguarda promovida pelos organismos específicos instituídos a níveis


diocesano e nacional;
- o conhecimento da sua peculiar finalidade e história, para além da sua
consistência através da elaboração de inventários e catálogos;(9)
- a "contextualização" das obras na vida social, eclesial, devocional;
- a consideração das obras do passado em referência à experiência eclesial e
cultural hodierna;
- a conservação e a eventual utilização destas obras do passado numa dimensão
pastoral.(10)

Para realizar tais compromissos será oportuno instituir museus


eclesiásticos que, fazendo referência ao patrimônio histórico-artístico de um
determinado território, assumam também a função de centros de animação
cultural. Será igualmente importante a racionalização dos diversos
departamentos encarregados do setor dos bens culturais dentro da Igreja. Onde
for possível, dever-se-á trabalhar para criar formas de colaboração entre os
respetivos departamentos eclesiásticos e os seus análogos departamentos civis,
para realizar projetos comuns.

1.3 Indicações históricas sobre a conservação do patrimônio


histórico-artístico

É sobejamente conhecido o empenho da Igreja, ao longo da sua história,


em relação ao seu próprio patrimônio, como é constatável nas deliberações dos
Sumos Pontífices, dos Concílios Ecumênicos, dos Sínodos locais e de cada um dos
Bispos em particular. Esta atitude expressa-se tanto no mecenato de obras de
arte, destinadas principalmente ao culto e à ornamentação dos lugares sagrados,
como na sua tutela e conservação. (11)
110

Para a conservação dos objetos preciosos - entre os quais se destacam os


adornos litúrgicos e as relíquias com os respectivos relicários - foram instituídos
desde a antiguidade os chamados "tesouros" anexos às catedrais ou a outros
importantes lugares de culto (por exemplo, os santuários), muito frequentemente
num local contíguo à sacristia e num armário ou cofre reservado especialmente
para isto. Esta coleção tinha como principal função o depósito de objetos cultuais
de particular valor para serem utilizados nas cerimônias mais solenes, e que além
do mais possuíam um valor representativo especial pela presença de relíquias
insignes e, em última análise, podiam ter uma função de reserva áurea para os
casos de necessidade. Exemplo luminoso é a "Sacristia papal", no Vaticano.

Por tudo isto, é lícito considerar os "tesouros" medievais como verdadeiras


coleções compostas de objetos retirados (temporária ou definitivamente) do
circuito das atividades utilitárias e submetidas a um particular controle
institucional. No entanto, as peças que os compunham eram, algumas vezes,
expostas à admiração do público em oportunos lugares e circunstâncias. Uma
diferença destas coleções em relação às coleções privadas da antiguidade
consistia no fato de que os "tesouros" não eram obra de um único indivíduo, mas
sim de instituições, de modo que permanecia a fruição pública. Entre os mais
antigos "tesouros" da Europa, podemos recordar o da Abadia de Saint-Denis em
França e o tesouro da Catedral de Monza na Itália, ambos fundados no século VI.
De entre os tesouros medievais mais famosos, podemos mencionar o Sancta
Sanctorum de Roma, o da Basílica de São Marcos em Veneza e o de Santo
Ambrósio em Milão (Itália); os do Santuário de Sainte Foy de Conques e da
Catedral de Verdun-Metz (França); os da Catedral de Colónia, Aquisgrano e
Ratisbona (Alemanha); o tesouro da Câmara Santa de Oviedo (Espanha); e o da
Catedral de Clonmacnoise (Irlanda). Muitos dos "tesouros" mencionados estão
dotados de um inventário ou catálogo, com diversas versões ao longo dos séculos.

O colecionismo privado de objetos antigos, preciosos ou simplesmente


curiosos, documentado a partir do século XIV, foi também praticado de forma
privada por eclesiásticos. Entre as maiores coleções de obras clássicas que se
formaram como consequência do novo interesse humanístico pela antiguidade, a
partir do século XV, devemos destacar as coleções promovidas pelos Papas e
Cardeais. Neste contexto, a colocação no Capitólio de Roma de algumas estátuas
antigas de bronze, por ordem do Papa Sisto IV em 1471, com a intenção de
restituir ao povo romano as recordações que lhes pertenciam, constituiu um
acontecimento fundamental para a história da museologia. Trata-se do primeiro
destino público de obras de arte por iniciativa de um soberano, conceito que se
imporá universalmente a partir dos finais do século XVIII e que produzirá a
abertura do Museu Capitolino e dos Museus do Vaticano em Roma, para além dos
grandes museus nacionais das principais capitais da Europa.

No período pós-tridentino, em que o papel da Igreja no âmbito cultural foi


relevante, o Cardeal Federico Borromeu, Arcebispo de Milão - para citar um
111

exemplo - fundou uma coleção de pintura como lugar de conservação e, ao mesmo


tempo, como pólo didático aberto a um público selecionado. Por este motivo,
instituiu a Biblioteca Ambrosiana em 1609, e em 1618 criou a Academia de
pintura, escultura e arquitetura, e publicou um catálogo desta coleção em 1625,
o Musaeon, que no entanto se apresentava com um sentido estritamente
ilustrativo. Nestas iniciativas, que retomam o modelo do mecenato típico na
aristocracia daquele tempo, é evidente a integração entre a Biblioteca-Museu-
Escola para realizar um projeto formativo e cultural unitário.

Entre os séculos XVI e XVII apareceram progressivamente novas


tipologias de museus, com uma finalidade prevalecentemente pedagógica e
didática, que estão representadas de forma ampla no âmbito eclesiástico, como
museus científicos, de que estão dotados os seminários, os colégios e outras
instituições de formação, ligados sobretudo à Companhia de Jesus.

Em tempos mais recentes, ao lado dos "tesouros" foram surgindo os


Museus das Catedrais e os Museus da Obra, para guardar e exibir obras de arte e
objetos cultuais (ou de outra natureza), que geralmente já não estavam em uso,
provenientes das próprias catedrais ou das suas sacristias. No finais do século
XIX e inícios do século XX apareceram os Museus diocesanos, análogos aos
precedentes, mas com materiais provenientes também de outras Igrejas da
cidade e da diocese, concentrados numa única sede para os salvar do abandono e
da dispersão. Com análoga finalidade surgiram também os museus das
congregações religiosas.

1.4 Intervenções legislativas da Igreja sobre o tema dos museus


eclesiásticos

A legislação do Estado Pontifício dos inícios do século XIX, sobre o tema


da tutela e conservação das antiguidades e das obras de arte, confirma as
disposições precedentemente pronunciadas pelos diversos Pontífices já a partir
do século XV, destinadas a limitar a destruição dos monumentos da época
romana e a dispersão das obras clássicas. Além disso, esta legislação contém
ideias modernas e inovadoras sobre os museus. O célebre Quirógrafo de Pio VII,
de 1 de Outubro de 1802, afirma que as instituições estatais competentes devem,
a este respeito, "procurar que os Monumentos, e as belas obras da Antiguidade
[...] se conservem como os verdadeiros Protótipos e exemplares da beleza,
religiosamente e para a instrução pública, e sejam ainda aumentados com o
descobrimento de outras raridades".(12) Inclusive podemos encontrar, como
base dos princípios da inalienabilidade e inamovibilidade dos confins do Estado,
dos restos e de grande parte das demais obras de arte, o conceito da sua utilidade
pública em ordem à instrução. Surge como consequência a decisão de utilizar
fundos públicos - apesar das restrições daquela época - para a "aquisição de coisas
interessantes para o aumento dos nossos museus; certos de que os gastos em
112

ordem à promoção das Belas Artes será largamente compensado pelas imensas
vantagens, que deles tiram os súbditos e o Estado".(13)

As prescrições da Santa Sé, do século XX, em matéria de museus, são


destinadas aos Bispos da Itália mas, por analogia, podem ser consideradas válidas
para a Igreja universal. Em geral, estas prescrições não se referem exclusivamente
às instituições de museus, mas inserem-se num contexto mais amplo que
compreende também os arquivos, as bibliotecas e a totalidade da arte sacra,
segundo uma perspectiva que considera o bem cultural também no seu aspecto
pastoral. É oportuno recordar, a este respeito, a Carta circular da Secretaria de
Estado, de 15 de Abril de 1923, onde se sugere "fundar [...] onde ainda não existe,
e organizar bem um Museu diocesano no Paço episcopal ou na Catedral”. (14) É
de referir também a segunda Carta, enviada pelo Cardeal Pedro Gasparri no dia 1
de Setembro de 1924. Ao notificar aos bispos italianos a constituição da Pontifícia
Comissão Central para a Arte Sacra na Itália, ela recomenda a constituição em
cada diocese de Comissões diocesanas (ou regionais) para a Arte Sacra, cuja
função seria, entre outras, "a formação e a ordenação dos museus diocesanos.(15)
Análogas decisões foram emanadas pela Congregação do Concílio
nas Disposições de 24 de Maio de 1939,(16) onde se indica que a finalidade destas
instituições é a conservação das obras que, de outro modo, seriam destinadas à
dispersão. A já mencionada Pontifícia Comissão Central elaborou naqueles anos,
em colaboração com as instituições estatais, uma série de orientações destinadas
às dioceses italianas, para a criação e a gestão de museus diocesanos. (17)

Algum tempo depois, no dia 11 de Abril de 1971, e já com um valor


efetivamente universal, a Congregação para o Clero envia uma Carta circular a
todos os Presidentes das Conferências Episcopais, recomendando a conservação
num museu diocesano ou interdiocesano daquelas "obras de arte e tesouros" que
já não se utilizam como consequência da reforma litúrgica.(18)
Pelo contrário, o Código de Direito Canônico, de 1917 e de 1983, e o Código dos
Cânones das Igrejas Orientais não fazem qualquer referência aos museus, ainda
que claramente reclamem a tutela e a conservação do patrimônio artístico e
histórico.(19)

Que a Igreja tem vindo a considerar o museu como um instituição cultural


e pastoral para todos os efeitos, como os mais consolidados arquivos e bibliotecas,
é algo sobejamente conhecido e que emerge de forma clara da Constituição
Apostólica de 1988. Com ela, instituiu-se esta Pontifícia Comissão, onde se dispõe
que se coopere com as Igrejas particulares e com os organismos episcopais para
a constituição de museus, arquivos e bibliotecas, de modo a "proceder a uma
adequada reunião e conservação do patrimônio artístico e histórico em todo o
território, de forma a colocá-lo à disposição de todos os que nele estiverem
interessados”. (20)
113

II

Natureza, finalidade e tipologia do museu eclesiástico

2.1 Natureza

2.1.1 A conservação no contexto eclesial

Para compreender a natureza do museu eclesiástico, é necessário reforçar


a ideia de que a utilização dos bens culturais da Igreja se dá primária e
fundamentalmente no contexto cultural cristão. Está claro que o patrimônio
histórico-artístico eclesial não foi constituído em função dos museus, mas sim
para expressar o culto, a catequese, a cultura e a caridade. No entanto, a mudança
que se foi observando ao longo dos séculos nas exigências pastorais e nos gostos
das pessoas, fez que muitas peças passassem a ser obsoletas, impondo-se assim o
problema da conservação, para garantir a persistência no tempo pelo seu valor
histórico e artístico. A conservação material e a salvaguarda de intervenções
ilícitas impõem, às vezes, soluções drásticas, já que aumentam os perigos da
dispersão, inclusive por via indireta. Em casos semelhantes, é evidente a urgência
de instituir museus eclesiásticos para reunir em sedes adequadas os testemunhos
da história cristã e as suas expressões artístico-culturais, onde se possam exibir
ao público, depois de ter ordenado os mesmos segundo critérios específicos.

Deste modo, os museus eclesiásticos estão estreitamente ligados às Igrejas


particulares e, dentro destas, às comunidades que os animam. Eles "não são
depósitos de achados inanimados, mas viveiros perenes, em que se transmitem
no tempo o gênio e a espiritualidade da comunidade dos crentes".(21) Como
consequência, o museu eclesiástico não é uma simples coleção de objetos que já
não se usam, mas sim uma instituição pastoral de pleno direito, já que guarda e
valoriza os bens culturais que outrora estavam "postos ao serviço da missão da
Igreja" e que agora são significativos sob o ponto de vista histórico-artístico.(22)
Apresenta-se como um instrumento de evangelização cristã, de elevação
espiritual, de diálogo com os afastados, de formação cultural, de fruição artística,
de conhecimento histórico. É, portanto, um lugar de conhecimento, prazer,
catequese e espiritualidade. Por isso, "é necessário reafirmar a importância
dos museus eclesiásticos paroquiais, diocesanos, regionais e de obras literárias,
musicais, teatrais ou culturais em geral, de inspiração religiosa, para dar uma
feição concreta e desfrutável à memória histórica do cristianismo, (23) tornando
visível a ação pastoral da Igreja num determinado território.

Por isso, o museu eclesiástico deve ser considerado como uma parte
integrada e interativa com as demais instituições existentes em cada Igreja
particular. Na sua organização, não é uma instituição independente, dado que
está ligada e se difunde no território, de modo a tornar visíveis a unidade e
114

inseparabilidade do conjunto do patrimônio histórico-artístico, a sua


continuidade e o seu desenvolvimento no tempo, a sua atual fruição no âmbito
eclesial. Ao estar intimamente ligado à missão da Igreja, tudo o que ele contém
não perde a sua intrínseca finalidade e destino de uso.

Portanto, o museu eclesiástico não é uma estrutura estática, mas dinâmica,


que se realiza através da coordenação entre os bens que nele se encontram e os
que ainda permanecem in loco. Por conseguinte, está garantida a níveis jurídico
e prático a eventual nova utilização temporal dos bens que compõem os museus,
seja por motivos estritamente pastorais e litúrgicos, seja por motivos culturais e
sociais. Devem-se promover iniciativas de promoção e animação cultural para o
estudo, a fruição e a utilização dos bens que se encontram nos museus. De fato,
através dos museus, exposições, convênios, representações sagradas, espetáculos
e outros acontecimentos, poder-se-á reler organicamente e reviver de forma
espiritual a história da Igreja de uma comunidade particular que ainda vive no
presente.

2.1.2 A valorização no contexto eclesial

Em torno ao museu eclesiástico, que reúne sobretudo o patrimônio em


perigo de dispersão, desenvolve-se todo um projeto de conhecimento do passado
e de descoberta da vivência da Igreja. A partir desta óptica o museu eclesiástico
transforma-se, no seu território, num ponto de agregação eclesial, cultural e
social.

O museu eclesiástico, por conseguinte, deve ser interpretado em estreita


conexão com o território de que faz parte, na medida em que "completa" e
"sintetiza" outros lugares eclesiais.

Caracteriza-se, fazendo referência ao território, de modo a colocar em


evidência o seu tecido histórico, cultural, social e religioso. Portanto, ao museu
estão ligadas a tutela e a valorização de todo o patrimônio histórico-artístico local,
com a finalidade de desenvolver, em cada um dos membros e em toda a
comunidade, uma consciência que valorize a história humana e cristã.

"A vontade, por parte da comunidade dos crentes, e em particular das


instituições eclesiásticas, de reunir desde a época apostólica os testemunhos da
fé e cultivar a memória dos mesmos, exprime a unicidade e a continuidade da
Igreja que vive estes tempos últimos da história. A venerada recordação daquilo
que Jesus disse e fez, da primeira Comunidade cristã, da Igreja dos mártires e dos
Padres, da expansão do cristianismo no mundo, é motivo eficaz para louvar o
Senhor e lhe dar graças pelas "grandes coisas" que inspirou no seu povo. Na mens
da Igreja a memória cronológica leva, portanto, a uma nova leitura espiritual dos
eventos, no contexto do eventum salutis, e impõe a urgência da conversão a fim
de chegar ao ut unum sint”. (24)
115

Esta memória concretiza-se nas obras humanas que modelaram o


ambiente, correspondendo às exigências espirituais, chegando a traçar
o cursus da vivência eclesial. Por tudo isto, conservam-se com cuidado pelo seu
valor tanto histórico, como artístico. Em último lugar, afirmar que tudo o que é
conservado nos museus eclesiásticos é um "bem da memória" significa introduzir
este setor entre os instrumentos da pastoral, já que o que é um bem para a Igreja
contribui para a salus animarum.

Os museus eclesiásticos, por outro lado, introduzem-se num campo


específico da pastoral, recordando hoje a vivência cultural, caritativa e educativa
das comunidades cristãs, que precederam as atuais no signo da única fé. São,
portanto, "lugares eclesiais" na medida em que:

- fazem parte integrante da missão da Igreja no tempo e no presente;


- testemunham a atividade da Igreja através do descobrimento das obras de arte
voltadas para a catequese, o culto e a caridade;
- são um sinal do devir histórico e da continuidade da fé;
- representam uma síntese das múltiplas situações sociais e da vivência eclesial;
- estão destinadas ao desenvolvimento atual da obra de inculturação da fé;
- apresentam a beleza dos processos criativos humanos que tentam expressar a
"glória de Deus".

Nesta óptica, o acesso ao museu eclesiástico exige uma particular


predisposição interior, já que neles não só encontraremos coisas belas, mas na
beleza somos chamados e convidados a compreender o sagrado.

A visita ao museu eclesiástico, por conseguinte, não se pode entender


exclusivamente como uma proposta turístico-cultural, porque muitas das obras
expostas são expressão da fé dos autores e nos remetem para o sensus fidei da
comunidade. Estas obras devem, por isso, ser interpretadas, compreendidas e
desfrutadas na sua complexidade e globalidade, porque só assim se poderá
entender o seu significado autêntico, originário e último.

2.2 Finalidades

2.2.1 A salvaguarda da memória

A finalidade do museu eclesiástico está relacionada ao sensus Ecclesiae,


que vê na história da Igreja a progressiva realização do povo de Deus. Por este
motivo, o museu eclesiástico assume uma finalidade específica no âmbito da
pastoral da Igreja local.

Em particular, o museu eclesiástico tem diversas funções, entre as quais


podemos assinalar:
116

- a conservação das peças, porque reúne todas aquelas obras que, por
dificuldade de custódia, procedência desconhecida, alienação ou destruição das
estruturas a que pertenciam, degradação das estruturas de proveniência, ou
perigos diversos, não podem permanecer no seu lugar de origem;
- a investigação sobre a história da comunidade cristã, já que na ordenação do
museu, na escolha das "peças" e na sua estruturação, tem que reconstruir e
descobrir a evolução temporal e territorial da comunidade cristã;
- evidenciar a comunidade histórica, dado que o museu histórico deve
representar, juntamente com outros vestígios do passado, a "memória estável"
da comunidade cristã e, ao mesmo tempo, a sua "presença ativa e atual";
- o encontro com as expressões culturais do território, já que a conservação dos
bens culturais deve abarcar uma dimensão "católica", isto é, ter em
consideração todas as presenças e manifestações de um certo território, na
renovação do seu contexto.

2.2.2 A pastoral através da memória

O museu eclesiástico entra no âmbito da complexa relação entre


os christifideles e os bens culturais, com uma particular referência aos objetos de
culto, que se convertem em "sinal de graça" assumindo um papel
"sacramental".(25)

"A Igreja, mestra de vida, não pode deixar de assumir também o ministério
de ajudar o homem contemporâneo a reencontrar a admiração religiosa diante
do fascínio da beleza e da sabedoria, que deriva de quanto a história nos
transmitiu. Essa tarefa exige um trabalho diário e assíduo de orientação,
encorajamento e intercâmbio”. (26) O museu eclesiástico tem como prerrogativa
própria ser instrumento de crescimento na fé. Está, por isso, em conexão com a
ação pastoral desenvolvida pela Igreja ao longo dos séculos, com a finalidade de
retomar os germes da verdade semeados por cada geração, de se deixar iluminar
pelos esplendores da verdade encarnada nas obras sensíveis e de reconhecer as
marcas do transitus Domini na história dos homens.(27)

Tal primado pastoral é confirmado pela tipologia dos bens culturais


habitualmente conservados nas instituições de museus eclesiásticos. Todas estas
obras, apesar da sua diversidade, fazem referência a um único "sistema cultural"
e ajudam a reconstruir o sentido teológico, litúrgico e devocional da comunidade.
Portanto, os objetos usados para o culto divino, a formação dos fiéis e as obras de
caridade não se transformam simpliciter numa "coisa morta", quando são
obsoletas.

De fato, "sobrevivem" neles outros componentes, como os aspectos


culturais, teológicos, litúrgicos e, sobretudo, as formas artísticas, de modo que
continuam a desempenhar uma função pastoral.
117

Neste contexto, o museu eclesiástico testemunha a atuação da Igreja no


tempo, pelo que exerce o magistério pastoral da memória e da beleza. É um sinal
do decurso histórico, das mudanças culturais, da caducidade contingente. Em
coerência com a lógica da encarnação, representa uma "relíquia" do passado
recente da vivência eclesial, voltada para o desenvolvimento atual da obra de
inculturação da fé. Narra a história da comunidade cristã através do que
testificam os diversos ritos, as múltiplas formas de piedade, as variadas
conjunturas sociais e as específicas situações ambientais. Apresenta a beleza de
quanto foi criado para o culto, com a finalidade de evocar a inexprimível "glória"
divina; para a catequese, com a finalidade de infundir maravilha na narração
evangélica; para a cultura, com o objetivo de tornar magnífica a grandeza da
criação; para a caridade, a fim de colocar em evidência a essência do Evangelho.
Pertence ao complexo conjunto da atuação da Igreja, ao longo dos séculos, pelo
que se torna uma "realidade viva".

Como instrumento pastoral, o museu eclesiástico serve para descobrir e


reviver os testemunhos de fé das gerações passadas através de sinais sensíveis.
Conduz-nos, além disso, à percepção da beleza diversamente impressa nas obras
antigas e modernas, de modo que está destinado a orientar os corações, as mentes
e as vontades para Deus. A fragilidade dos materiais, as calamidades naturais, as
adversas ou favoráveis condições históricas, a mudança da sensibilidade cultural
e as reformas litúrgicas encontram-se documentadas nos museus eclesiásticos.
Estes recordam, através dos achados insuficientes ou de obras insignes, como as
épocas passadas colocavam em evidência, com a beleza de quanto se conservou,
a força criativa do homem juntamente com a fé dos crentes. As instituições dos
museus contribuem, portanto, para a função magisterial e catequética,
proporcionando uma perspectiva histórica e um prazer estético.

2.3 Tipologia

2.3.1 Tipos de museus

São diversas as tipologias segundo as quais o museu eclesiástico pode ser


constituído. Tais formas de museus viram a luz em épocas diversas, quase sempre
graças ao impulso de personalidades eclesiásticas que possuíam um singular
espírito de iniciativa. No entanto, não existe uma catalogação tipológica que
esgote a variedade dos museus eclesiásticos. Na tentativa de se fazer um elenco
sumário, poder-se-ia fazer referência à entidade eclesiástica que é o seu
proprietário ou o que lhe deu origem ou, ainda, fazer referência ao patrimônio do
próprio museu.

Na introdução histórica, (28) referimo-nos aos "tesouros das Catedrais"


assim como às mais antigas instituições de museus propriamente eclesiásticos.
Estas instituições em muitos casos subsistem nos nossos dias, mantendo a sua
natureza de conservação de objetos litúrgicos preciosos, alguns dos quais, em
118

determinadas circunstâncias, ainda podem ser utilizados para o culto. No


decorrer dos séculos, aos "tesouros" se foram unindo os "museus das Catedrais"
e, em algumas regiões, "os museus da Obra da Catedral", com uma relação menos
marcada com o culto mas com a finalidade de conservar e exibir obras de arte e
outros achados provenientes da Catedral e dos lugares vizinhos.

Na mesma introdução história fez-se referência aos diversos tipos de


possíveis "coleções", normalmente de carácter monográfico (coleções artísticas,
arqueológicas e científicas), algumas de notável antiguidade, outras surgidas em
tempos mais recentes. Todas estas coleções, que por várias circunstâncias
fortuitas passaram a ser de propriedade eclesiástica, são de procedência
diversa: cidadãos privados, entidades eclesiásticas e civis, outras instituições.

No período pós-conciliar incrementou-se o nascimento dos "museus


diocesanos", que em vários casos surgiram para afrontar o perigo da dispersão do
patrimônio artístico diocesano. Porém, estas instituições foram interpretadas
como uma atitude decididamente cultural. Em analogia com os "museus
diocesanos", hoje amplamente difundidos, surgiram os "museus paroquiais", os
"museus monásticos", os "museus conventuais", "os museus de institutos
religiosos" (por exemplo, os "museus missionários"), os "museus das confrarias"
e de outras instituições eclesiásticas.

Os museus que acabámos de recordar referem-se a um único monumento


religioso, a uma particular circunscrição eclesiástica ou a um determinado
instituto religioso. A sua natureza é diversa, assim como as finalidades que eles
se propõem. Por exemplo, os museus dos religiosos têm como finalidade oferecer
o marco histórico e geográfico da presença e do desenvolvimento do instituto de
vida consagrada ou de uma sociedade de vida apostólica num determinado
território ou no âmbito geral da obra presente em diversas partes do mundo.

Outros museus, como os diocesanos e os interparoquiais, refletem as


específicas realidades territoriais com âmbitos e jurisdições eclesiásticas bem
definidas. Os missionários, pelo contrário, dão testemunho da cultura com que se
confrontaram na obra de evangelização, adquirindo uma notável importância nos
estudos de antropologia cultural.

2.3.2 Tipologia dos objetos reunidos

Os museus eclesiásticos conservam tudo o que se refere à história e à vida


da Igreja e da comunidade, inclusive o que é considerado de menor importância.
Estes viram a eliminação, o abandono, a alienação e a dispersão dos objetos que
atualmente já não são utilizados para o serviço litúrgico-pastoral. Consentem,
deste modo, que estes materiais sejam tutelados, conservados e desfrutados como
uma documentação histórico-artística da vivência eclesial nas suas diversas
manifestações.
119

Querendo, em linhas gerais, individualizar algumas tipologias das peças


presentes nos museus eclesiásticos, podemos antes de mais nada discernir as de
uso litúrgico e paralitúrgico, que se agrupam em algumas categorias principais:

- obras de arte (pinturas, esculturas, decorações, gravuras, impressões,


trabalhos de marcenaria e outros materiais considerados menores); - vasos
sagrados;
- adornos;
- relicários e ex voto;
- paramentos litúrgicos, tecidos, rendas, bordados, vestes eclesiásticas;
- instrumentos musicais;
- manuscritos e livros litúrgicos, livros de coro, partituras musicais, etc.

A estas categorias de obras, que normalmente constituem o patrimônio


dos museus eclesiásticos, agregam-se com frequência outros materiais que em
geral correspondem aos arquivos e às bibliotecas, como por exemplo:

- projetos arquitetônicos e artísticos (desenhos, modelos, esboços, epistolários,


etc.);
- material documentário ligado às peças (legados, testamentos, pedidos, atos
jurídicos, etc.);
- livros de memória sobre obras, documentos sobre as coleções, documentações
sobre manifestações inerentes ao patrimônio histórico-artístico, etc.);
- outros materiais que de algum modo estão ligados ao patrimônio histórico-
artístico (regras, estatutos, registos, etc.) relativos às Dioceses e Paróquias, aos
Institutos de Vida Consagrada, às Sociedades de Vida Apostólica, às Confrarias e
às Obras Pias.

Além disso, seria para desejar que o museu eclesiástico incentivasse a


conservação da memória dos usos, tradições e costumes próprios da comunidade
eclesial e da sociedade civil, especialmente naquelas nações em que a conservação
das obras e dos documentos ainda não têm qualquer interesse relevante.

Mas para além das subdivisões tipológicas, o museu eclesiástico


caracteriza-se pelo empenho em evidenciar o "espírito" de cada uma das obras
que conserva e expõe. Não só lhes atribui um valor artístico, histórico,
antropológico e cultural, mas também realça sobretudo as suas dimensões
espiritual e religiosa. Estas últimas conotam de modo específico a identidade das
peças de carácter devocional, cultual e caritativo, convertendo-se assim na óptica
para compreender a vontade do doador, a sensibilidade do mecenas, a capacidade
interpretativa do artista e os complexos significados da própria obra.

2.4 Instituição
120

A responsabilidade de coordenar, disciplinar e promover tudo o que se


refere aos bens culturais eclesiásticos (29) nas respectivas Dioceses ou Igrejas
particulares que a elas estão assimiladas (30) e, portanto, também, de instituir o
museu diocesano e outros museus eclesiásticos dependentes da diocese,
corresponde ao Bispo diocesano, (31) oportunamente coadjuvado por uma
Comissão diocesana e por um Departamento para a arte sacra e os bens culturais.
No espírito da presente Carta circular, os museus eclesiásticos fazem parte dos
instrumentos "postos ao serviço da missão da Igreja", (32) pelo que é necessário
introduzi-los no projeto da pastoral diocesana. (33)

A constituição de museus torna-se necessária para a conservação, tutela e


valorização do patrimônio histórico-artístico. De fato "quando tais obras já não
são consideradas idóneas para o culto, nunca deverão ser destinadas para um uso
profano mas, pelo contrário, hão-de ser colocadas num lugar idóneo, isto é, num
museu diocesano ou interdiocesano, de livre acesso a todos”. (34)

O museu deve ser constituído com um decreto episcopal que, se for


possível, será dotado de um estatuto e de um regulamento, (35) que indicarão
respectivamente a natureza e a finalidade do mesmo, além da estrutura e das
modalidades práticas. Nenhum museu eclesiástico novo poderá ser criado por
entidades eclesiásticas e públicas, nem por entidades privadas, ainda que seja
total ou parcialmente financiado por elas, sem o consentimento do bispo
diocesano competente.

Na organização de um museu, onde for possível, será oportuno constituir


um Comité apropriado, criado por alguns peritos e gerido por um diretor
nomeado pelo bispo. Este diretor deverá ocupar-se, de acordo com as
competentes autoridades eclesiásticas, da organização dos ambientes, da escolha
dos materiais, das estratégias da exposição, do relacionamento com o pessoal, da
animação dos visitantes e de tudo o que se refere ao bom funcionamento de tais
instituições. Particular atenção deverá dedicar à angariação dos recursos,
estimulando inclusive as ajudas públicas.

Os Superiores Maiores dos Institutos Religiosos(36) e das Sociedades de


Vida Apostólica (37) são responsáveis pelos bens culturais que pertencem à
respectiva instituição, conforme ao direito que lhes é próprio. Eles desempenham
a sua tarefa através do Superior local, em cuja casa foi fundado e onde subsiste o
museu. As normas indicadas para a coordenação, organização e gestão dos
museus em geral deverão ser aplicadas também aos museus que pertencem aos
Institutos religiosos e às Sociedades de Vida Apostólica, permanecendo
estabelecida a observância das leis civis a este respeito e quanto se refere à vida
interna dos membros da respectiva instituição encarregada do museu.

Conforme as indicações da Carta circular sobre Os bens culturais dos


Institutos religiosos, dirigida por esta nossa Pontifícia Comissão aos Superiores
121

e Superioras-Gerais,(38) é para desejar, sempre que for possível, que se


estabeleçam entre a diocese a as comunidades uma colaboração e uma orientação
comuns no âmbito dos bens culturais em geral e dos museus eclesiásticos em
particular.(39) Se no futuro a instituição dos museus assumir conotações
públicas, será necessário considerar as disposições e as orientações do Ordinário
diocesano.

Enfim, caso o museu diocesano esteja entregue à gestão de um Instituto


religioso, devem-se observar as disposições previstas pelo cân. 681. (40)

III

Organização do museu eclesiástico

3.1 Sede

3.1.1 Estrutura

O museu eclesiástico deve contar, em primeiro lugar, com uma sede


própria num edifício preferentemente de propriedade eclesiástica. Em muitos
casos, trata-se de um edifício com um grande valor histórico-arquitetônico, em
que ele próprio já individualiza e representa o museu eclesiástico.

A organização dos espaços deve seguir critérios bem definidos. O


apetrechamento do museu deve corresponder a um projeto global elaborado por
um arquiteto competente no assunto, junto do qual será oportuno colocar outros
especialistas. Estes deverão ser competentes tanto no campo técnico (instalações
e montagens), como no humanístico (disciplinas teológicas e histórico-artísticas).

O projeto do museu eclesiástico deve ser elaborado tendo em conta a sede,


a tipologia das peças e o carácter "eclesial" do próprio museu. De fato, a sede do
museu eclesiástico não pode ser entendida como um ambiente indiferenciado; as
obras não podem ser colocadas fora do contexto, na relação tanto com o seu
destino de uso originário, como da sede arquitetônica que as acolhe.
Consequentemente, antigos mosteiros, conventos, seminários, palácios
episcopais e ambientes curiais, que em muitos casos estão a ser utilizados como
sedes de museus eclesiásticos, deverão manter a sua identidade ao mesmo tempo
que se abrem ao serviço de um novo destino e uso, de modo que os visitantes
sejam capazes de apreciar conjuntamente o significado da arquitetura e o valor
próprio das obras expostas.

A sede do museu eclesiástico articula-se de forma oportuna, de modo a


poder ser facilmente visitada, sem provocar interferências tanto no público como
nos empregados do museu. Igualmente, será preciso garantir a aplicação das
122

medidas necessárias para o acesso e a visita dos portadores de deficiência, em


conformidade com as indicações legislativas internacionais ou nacionais.

Como exemplo, ilustraremos a seguir um possível esquema distributivo de


museu eclesiástico.

3.1.2 Entrada

A entrada do museu tem grande importância como primeiro lugar de


encontro entre os visitantes e o museu. Antes de tudo, deve evidenciar a mens que
gerou o museu e que caracteriza a sua existência. Deverá situar-se numa posição
facilmente acessível e reconhecível. A sua estrutura há-de ser tal, que se possa
identificar claramente o museu. As suas linhas podem ser sóbrias, simples e
evidentes, de acordo com os atuais critérios museográficos. Em particular, deverá
ser rico de informações estimulantes, mas evitará a acumulação de materiais
informativos. O átrio da entrada deve expressar um significado próprio, pelo que
deverá estar dotado de uma específica conotação arquitetônica. Através do átrio,
o visitante deve poder enquadrar os critérios que conduzem para a leitura global
do museu. Por conseguinte, deve inspirar-se naquele lugar sagrado, que
indiretamente recorda. Durante a elaboração do seu projeto deve-se cuidar, na
medida do possível, do acolhimento das pessoas, da informação sobre a
organização e do delineamento didático.

O átrio é o lugar que prepara o visitante para passar do clima da distração


do ambiente externo, para a concentração pessoal e, no caso do crente, para o
recolhimento espiritual, exigidos por tudo o que se quer admirar. Por isso, impõe-
se um "clima" sugestivo, quase sagrado, muito discreto, para favorecer a sintonia
entre os visitantes e a realidade do museu. O visitante não deveria iniciar o
percurso do museu entusiasmado apenas pela curiosidade, mas sim porque se
sente estimulado pelas indicações visuais, pelos instrumentos audiovisuais e pela
competência do guia, que ambientam a visita. Por isso, é oportuno que no átrio
se encontrem à disposição algumas informações (impressos e audiovisuais) para
oferecer adequadamente às visitas, tendo em conta as diversas tipologias dos
visitantes. A este propósito, não é de menosprezar a oportunidade de organizar
visitas guiadas.

3.1.3 Salas

O primeiro contato que se oferece à entrada desenvolve-se nas salas de


exposição. Estas, através do enredo histórico-artístico-social-religioso oferecido
pelas peças originais, as cópias, a cartografia, os subsídios impressos e da
multimídia, apresentam à contemplação do visitante a história multiforme de
uma Igreja particular, de um específico instituto religioso, de um santuário ou de
outro lugar eclesiástico. Deve dar-se particular atenção à disposição de cada uma
das salas. O êxito de um bom delineamento dará aos visitantes a possibilidade de
123

poderem seguir melhor o fio lógico da história e de assimilar os temas propostos


pela estrutura do museu.

A disposição dos objetos e a sua apresentação ao público deverá ser


pensada segundo um critério global, de modo a que a estrutura arquitetônica
esteja coordenada com a exposição das obras. (41) A estrutura das salas, o seu
percurso e tudo quanto nelas se expõe devem expressar uma proposta única e
orgânica, cujos critérios gerais se adaptarão às situações e às intenções
particulares. Enfim, será oportuno dotar as salas com apropriados espaços para
o descanso, para facilitar a contemplação das obras expostas, especialmente as
mais significativas.

3.1.4 Vitrines

Para além de conservar de modo adequado os objetos que contém,


a vitrine deve valorizá-los e torná-los plenamente visíveis. Por isso, é desejável
que seja iluminada de maneira adequada, de modo a não deteriorar as cores das
peças nem alterar a sua visão.

A própria forma da vitrine torna-se um elemento de serviço não só em


sentido estrito, para uma melhor conservação das peças, mas também em sentido
amplo, para uma melhor contemplação do próprio objeto. A este propósito, deve
dar-se grande atenção às legendas, já que desempenham um papel fundamental
na exposição das obras. Se é possível, deveriam apresentar-se em duas ou três
línguas, escritas com caracteres facilmente legíveis e colocadas em posição
acessível.

Juntamente com uma breve ficha técnica de identificação, que


compreende o título da obra, o autor, a data, a matéria e a procedência, seria
desejável que se colocassem dois tipos diversos de subsídios ilustrativos, num
suporte informático ou de papel. O primeiro seria para referir a relação de cada
uma das obras com as restantes presentes no museu ou com outras que se
encontram fora dele. O segundo seria para aprofundar o conhecimento de cada
obra, indicando o seu destino litúrgico ou paralitúrgico, o significado do nome, o
contexto espaço-temporal de onde é originária, a simbologia e, eventualmente,
nos casos dos objetos mais famosos, apresentar algumas explicações
iconográficas, notas hagiográficas e breves referências bibliográficas. Tudo isto
para favorecer e orientar o estudo e contextualizar globalmente o conhecimento
das peças expostas.

3.1.5 Salas para exposições temporárias

Dado que o museu eclesiástico deve ser pensado como uma instituição
cultural, que se relaciona com outras instituições existentes no território, voltadas
para a animação cultural, é oportuna a existência de pelo menos uma sala para
124

exposições e acontecimentos culturais temporários. Manifestações deste tipo


poderão ser organizadas para realçar ocasiões singulares (por exemplo, os tempos
litúrgicos mais importantes, as festas titulares e patronais, as circunstâncias civis,
as jornadas de estudo e os estudos escolares).

Tais atividades poderão favorecer a ação evangelizadora no âmbito das


iniciativas culturais, tanto da Igreja como das entidades públicas ou privadas. A
sua particular realização ocasional reforça a relação entre o museu eclesiástico e
o território; permite a exposição de obras em depósito, através de um sistema
rotativo; e facilita, ainda, exposições e restaurações mais frequentes.

3.1.6 Sala didática

Juntamente com as salas de exposição, permanentes ou temporárias, é


oportuno que o museu eclesiástico esteja equipado com uma sala didática,
destinada em particular para os estudantes, os agentes da pastoral e os
catequistas. (42)

Nestas salas, o visitante poderá encontrar uma informação mais ampla no


que se refere à história da comunidade ou da instituição, para além de poder
entender melhor o contexto dos materiais expostos e da correlação entre o
passado e o presente. Este estudo didático poderá ser ajudado por meios gráficos,
audiovisuais, ilustrações e experiências. Não se devem excluir as atividades
didáticas de laboratório e de investigação, para favorecer o interesse e o estímulo
da criatividade dos jovens no sector dos bens culturais da Igreja.

3.1.7 Sala de formação cultural

Quando os espaços e as circunstâncias o permitirem caso contrário, optar-


se-á por soluções alternativas seria bom prever a existência de uma sala de aula
para a formação e a atualização cultural dos empregados, voluntários,
investigadores e estudantes, que esteja devidamente equipada. Esta sala de aula
dá vida ao museu e demonstra que na mens da Igreja esta instituição não é um
mero depósito com restos do passado, mas sim um ambiente de reflexão, diálogo,
encontro e investigação.

Tendo à disposição espaços deste tipo, seria também possível promover


iniciativas para a formação de base e permanente dos agentes no sector dos bens,
incluídos os voluntários.

3.1.8 Biblioteca

No conjunto dos serviços do museu, não se pode esquecer a presença de


uma biblioteca especializada. É, por isso, oportuno constituir dentro do museu
uma biblioteca atualizada e devidamente dotada, onde se possa encontrar
125

também, na medida do possível, um setor de videoteca ou de outros suportes de


multimídia.

Nessa biblioteca especializada deverão figurar as publicações e os


materiais referentes ao patrimônio histórico-artístico da entidade proprietária ou
promotora do museu.
A biblioteca assume a função de reunir e proporcionar a consulta, pelo menos das
publicações referentes à história e à cultura, que são frequentemente promovidas
e financiadas por instituições eclesiásticas, por entidades locais ou por cidadãos
privados.

3.1.9 Arquivos corrente e histórico

É necessário que a organização do museu preveja a criação de um arquivo


corrente em que colocará os registos das compras e dos empréstimos, os
inventários e os catálogos periodicamente atualizados, os atos jurídicos e
administrativos, os repertórios fotográficos e gráficos, etc.

Seria oportuno também um arquivo histórico específico. Este arquivo tem


uma função bastante diferente do habitual arquivo histórico da Igreja local, do
Instituto religioso, ou de outra Entidade eclesiástica. Nele dever-se-á conservar
pelo menos uma cópia de todos os materiais úteis para documentar a história de
cada uma das obras existentes no museu. Demasiadas vezes, infelizmente,
também os documentos oficiais de depósito ou de empréstimo temporário se
perdem, desaparecendo com eles um material útil para a tutela jurídica e para o
conhecimento do contexto do patrimônio histórico-artístico.

As normas sobre o uso, tanto do arquivo corrente como do histórico, para


os encarregados do trabalho e de consulta para os estudiosos, deve fixar-se
oportunamente num regulamento particular.

3.1.10 Saída

A saída, no final da visita, tal como a entrada, não deve ser subestimada.
Na medida do possível, seria útil que a entrada e a saída fossem áreas diferentes,
não só para evitar confusões no fluxo dos visitantes (pelo menos nos museus de
grande importância onde a afluência de pessoas é maior), mas sobretudo para
permitir a plena fruição do itinerário proposto.

O momento conclusivo da visita constitui uma singular ocasião para


oferecer ao visitante uma preciosa mensagem através do material disponível
na livraria (livros, catálogos, vídeos, postais, objetos, etc.), ou
simples panfletos distribuídos gratuitamente. Este material ajudará, sem dúvida,
a recordar quanto se viu, propondo uma leitura cristã do itinerário percorrido e
oferecendo uma clara recordação da experiência vivida.
126

3.1.11 Áreas de descanso

Nalguns museus de grande importância e extensão, poder-se-ia prever a


criação de áreas de descanso para favorecer o prolongamento da permanência no
museu tanto dos visitantes como dos estudiosos.

3.1.12 Escritórios para os funcionários

Junto da área pública do museu eclesiástico devem prever-se espaços


idóneos para os funcionários do museu. De fato, é importante que os funcionários
do museu possam dispor dos espaços necessários para desenvolver as suas
funções, bem como é oportuno adaptar-se às disposições civis. Deve-se pensar
numa adequada e congruente organização de quantos ali trabalham, em ordem a
dar uma maior eficiência ao próprio museu.

Concretamente, deve-se prever pelo menos um espaço para a direção e a


secretaria. Não esquecendo, porém, que a imagem externa das áreas reservadas
aos funcionários deve estar em sintonia com tudo o que anteriormente referimos.
Sublinhamos ainda que a presença de uma pessoa da direção do museu é
necessária e, se possível, permanente.

3.1.13 Salas de depósito

A própria vida do museu exige habitualmente outros lugares de serviço,


entre os quais se encontram as salas de depósito. Estes espaços servem para
colocar obras que não estão expostas.

Este conceito não pode ser mal entendido. O depósito de um museu não é,
pela sua própria natureza, nem um lugar de coisas esquecidas, nem um lugar de
desordem. Pelo contrário, estas salas recolherão obras igualmente importantes e
significativas no contexto eclesial, mas que, por diversos motivos, se encontram
depositadas nestas salas para uma maior e mais prudente tutela e conservação.

Se atualmente tais obras não se podem enquadrar no itinerário


predisposto, poderão, com o correr do tempo, converter-se numa parte integrante
do mesmo. Além disso, haverá sempre a possibilidade de as usar em exposições,
quer no âmbito do museu quer fora dele. A este propósito reiteramos a
importância da "circulação das obras", com as devidas precauções, tanto dentro
como fora do museu, pelo que se torna necessário estabelecer um cuidadoso
regulamento de intercâmbios e aquisições de obras.

Portanto, as peças que se encontram em depósito devem estar numa


disposição ordenada e facilmente acessíveis. Além disso, deverão estar
adequadamente documentadas e registadas no inventário geral do museu ou,
inclusive, num catálogo à parte, de modo que esta documentação se atualize
127

periodicamente. Além disso, seria conveniente colocá-las à disposição dos


estudiosos e dos responsáveis institucionais.

Algumas obras são colocadas no depósito porque estão numa situação


precária e, por isso, necessitam de ser restauradas. Assim, torna-se necessário
tratá-las com empenho a fim de as salvaguardar, já que se encontram numa fase
delicada da sua "existência".

3.1.14 Laboratório de restauro

Sempre e quando as condições o permitirem, seria oportuno dispor, junto


das salas de depósito do museu, de um pequeno laboratório de restauro.
Ordinariamente, deve ocupar-se da manutenção e da conservação. Porém, terá
também a função de realizar intervenções de primeira necessidade nas peças que
estiverem num estado de particular degradação.

Se o museu não dispõe de um laboratório interno, será necessário confiar


o controlo periódico dos materiais existentes no museu a restauradores de
confiança. Quando for possível e sempre que for solicitado, esta intervenção
realizar-se-á em colaboração com as autoridades civis.

3.2 Segurança

3.2.1 Instalações

Um dos aspectos que se deve afrontar com maior atenção é o das


instalações necessárias para o bom funcionamento do museu. A este respeito,
dever-se-á observar - onde existem - as leis civis vigentes, referentes às
instalações eléctricas, anti-incêndio, alarme, ar condicionado e aquecimento.

No que se refere à segurança das pessoas, convém evitar todo o tipo de


barreiras arquitetônicas, assinalar todos os percursos de saídas de emergência,
realizar controlos periódicos das instalações e das estruturas.

No que se refere à segurança das obras, deve-se garantir em primeiro lugar


a conservação do bem enquanto tal e garantir a sua tutela contra ações ilícitas e
roubos. (43)

No que diz respeito à conservação das obras, convém realizar uma


adequada climatização do ambiente; protegê-las contra o pó, a exposição solar e
organismos biológicos; organizar uma ordinária manutenção de limpeza e de
desinfecção; e fazer um diagnóstico periódico.

Em relação à tutela das obras, serão necessárias medidas preventivas de


segurança, com particular atenção à firmeza das paredes externas e à proteção
128

das aberturas para o exterior (portas blindadas, grades nas janelas, claraboias,
etc.). Sem dúvida, será oportuno um bom sistema de alarme, eventualmente
ligado às forças policiais. Será também indispensável a realização de uma ficha
fotográfica de cada uma das peças, para facilitar as investigações em caso de
roubo.

3.2.2 Vigilância

A vigilância do museu também desempenha um papel fundamental. Não


se trata apenas do ambiente do museu em geral, das obras existentes quer na
exposição quer no depósito, mas também da circulação das obras dentro e fora
do próprio museu.

A atenção e a vigilância devem ser "personalizadas" com referência a cada


peça concreta, pelo que é necessário contar com um pessoal especializado. Além
disso, não basta o cumprimento das regras gerais de conservação, mas elas devem
ser analisadas e adaptadas às exigências concretas de cada uma das obras.

Uma vigilância ordinária e bem organizada visa tanto o horário de abertura


ao público como o tempo em que o museu está fechado. Durante os horários de
abertura será necessário dispor de um adequado serviço de vigilância para evitar
possíveis danos às obras e às estruturas. Pode ser muito útil a presença de um
voluntariado profissional. Durante o tempo em que o museu se encontra fechado
seria conveniente, na medida do possível, para além dos sistemas de segurança já
citados, a presença de um guarda de vigilância.

Para a segurança durante a circulação das obras, necessita-se, sobretudo,


da diligência e da prudência por parte do pessoal encarregado, de modo a evitar
qualquer tipo de acidente. Particular atenção deve ser dedicada ao empréstimo
de obras, certificando-se que está garantida a vigilância em todas as fases
operativas, através de medidas cautelosas para o transporte (com a garantia de
seguros específicos) e uma atenta preocupação relativa à preparação dos espaços
reservados à exposição.

3.3 Gestão

Para que o museu eclesiástico possa desenvolver adequadamente a sua


atividade, torna-se indispensável uma gestão administrativa bem estruturada.

A este respeito, poderão ser úteis as seguintes sugestões:

- prover, por parte da entidade proprietária, um fundo econômico (por exemplo


uma "fundação" constituída como fonte de rendimento) que permita a
realização a longo prazo de uma programação das atividades consideradas
essenciais;
129

- preparar um plano econômico para vários anos, para além de outros a médio e
a curto prazo, com que se possa corresponder, com operações específicas, a
todas as exigências impostas pelas estratégias de conservação e de valorização
do museu;
- elaborar, com base num plano global, um orçamento e um balanço anuais
articulados com o quadro das receitas (venda de bilhetes, patrocínios
ocasionais, entidades institucionais, outras vendas, etc.) e despesas (compras,
pessoal, consumo, atividades, restaurações, seguros, publicidade, imprensa,
eventos, etc.), a fim de assegurar a regular continuidade das atividades, detectar
facilmente as alterações das despesas e fazer previsões das futuras intervenções;
- dotar o museu de uma regular fisionomia jurídica (tanto no âmbito eclesiástico
como civil) e de um regulamento normativo pormenorizado;
- dar uma clara configuração jurídica a todos os funcionários, tanto aos
contratados, como aos voluntários (eventualmente, fundar cooperativas ou
outras instituições); fazer com diligência os pagamentos das taxas fiscais; atuar
prudentemente na contratação do pessoal especializado para as diversas
exigências; organizar os serviços de voluntariado com pessoas responsáveis;
aprofundar a escolha acerca da ocupação do pessoal, com oportuna
flexibilidade;
- promover a imagem do museu através dos canais de comunicação social
eclesial, dos organismos didáticos e culturais e nos meios de
comunicação locais.

3.4 Pessoal

- É necessário um diretor responsável, com particulares competência e


dedicação;
- seria para desejar que colaborassem com o diretor um ou mais comités (pelo
menos alguns peritos) encarregados da organização científica, cultural e
administrativa do museu;
- quando for útil, pode-se encontrar pessoal para a secretaria, as relações
públicas, a gestão econômica, etc.;
- deve-se encontrar pessoal para a vigilância, seguindo os critérios já expostos;
- serão oportunos guias devidamente preparados para acompanhar os diversos
tipos de visitantes.

3.5 Normas

O regular funcionamento das atividades de um museu no contexto dos


bens culturais de cada uma das Igrejas particulares exige o respeito pelas normas
vigentes. Desta forma, poderão ser realçados os seguintes aspectos:

- Antes de mais nada, ter presentes as normas e as orientações da Santa Se, das
Conferências Episcopais Nacionais e Regionais e da Diocese, que abordam este
sector;
130

- redigir, se for possível, um Estatuto e um Regulamento, que se devem dar a


conhecer através dos diversos organismos diocesanos de informação;(44)
- cumprir as disposições civis de carácter internacional e, sobretudo, de carácter
nacional e regional (por exemplo, os já citados ICCROM, ICOM, ICOMOS,
Conselho da Europa);
- regulamentar os empréstimos das obras, fazendo referência às normas gerais
eclesiásticas e civis, assegurando-se sobre a finalidade do pedido e recomendando
o contexto eclesial das peças;
- elaborar normas sobre os direitos de reprodução das obras, tendo em conta as
disposições e os costumes eclesiásticos e civis;
- regulamentar o acesso aos dados de papel e, sobretudo, informático (in loco ou
na rede);
- dar orientações sobre o transporte de obras abandonadas, em desuso ou em
perigo de deterioração, presentes nos museus eclesiásticos ou em outros
depósitos.

Para os depósitos (já existentes, ou em vias de realização) dos bens


histórico-artísticos de propriedade eclesiástica em museus (ou instituições afins)
civis, públicos ou privados, é necessário estipular uma convenção, ou um pacto,
destinado a tutelar a propriedade dos mesmos, a salvaguarda, o uso eclesial e o
carácter temporário do próprio depósito.

Deverão ser igualmente regulamentados os atos formais dos processos de


restauração.

3.6 Relações com outras instituições

Na organização da gestão do museu eclesiástico deve-se prever e solicitar


relações com outras instituições culturais, em particular, como os museus
públicos e privados.

Tal colaboração deve realizar-se garantindo a autonomia de cada entidade


e estimulando a elaboração de projetos comuns em favor da animação cultural do
território.

Nas iniciativas realizadas com outros museus, ou instituições culturais,


deve-se tutelar a propriedade das obras, respeitar as normas sobre os
empréstimos e estabelecer acordos de gestão.

IV

Fruição do museu eclesiástico


131

4.1 Fruição pública

O museu eclesiástico é um lugar de fruição pública, já que os bens culturais


estão ao serviço da missão da Igreja. Ele contribui para o ensino do sentido da
história, da beleza e do sagrado, mediante o patrimônio cultural realizado pela
comunidade cristã. A visita a um museu eclesiástico está intimamente ligada,
ainda que dele seja diferente, ao valor formativo que deverá possuir a instituição
do museu. Distinguir para unir o momento formativo do ato de visitar significa
sublinhar a importância da complementaridade entre o conhecimento e a
emoção, sobretudo no que se refere à vivência religiosa cujos atos, que são
catalogados como expressão de amor a Deus e ao próximo, necessitam da ajuda
da inteligência, dos sentimentos e da vontade.

Todos os "lugares" do cristianismo estão destinados ao acolhimento, para


pregar "o evangelho da caridade" mediante todas as iniciativas. A Igreja serviu-
se dos sinais sensíveis para exprimir e anunciar a fé. Também as obras reunidas
nos museus estão destinadas à catequese ad intra e ao anúncio do evangelho ad
extra, de modo que se dispõem para a fruição tanto dos crentes quanto dos que
estão afastados, para que ambos, cada um a seu modo, as possam contemplar.

Por este motivo o museu eclesiástico, prioritariamente destinado à


comunidade cristã, deverá ser frequentado também por um público de diversas
condições culturais, sociais e religiosas. A própria comunidade cristã, mediante
os funcionários do museu, acolherá os que se interessam pela memória religiosa,
já que "Eclésia catholicae nemo extraneus, nemo exclusus, nemo longinquus est”.
(45)

O público pode ser dividido em diversas categorias: visitante individual,


grupo guiado, grupos de estudantes e estudiosos. A complexa modalidade de
aproximação sugere metodologias distintas para facilitar a atração do visitante e
satisfazer as diversas exigências culturais.
Uma inteligente organização de reservas e de visitas permitirá um melhor serviço
não só aos utentes, mas também aos funcionários. Cada museu deverá preocupar-
se em organizar, para além dos percursos temáticos da exposição, atividades
culturais complementares.

4.2 Fruição em sentido eclesial

4.2.1 A fruição na mens eclesial

Para que os museus eclesiásticos possam ser desfrutados adequadamente


é necessário colocar em evidência a íntima conexão entre o elemento estético e o
religioso. Além do mais será necessária uma visão clara da união indissolúvel
entre o patrimônio religioso exposto e o momento atual da Igreja e do mundo: de
fato, existe uma distinção entre a aproximação e a exposição que o cristianismo
132

faz do seu patrimônio e os restos de civilizações desaparecidas, já que muitas das


coisas que se apresentam aos visitantes estão em estreita ligação com a atual
vivência eclesial.

Particularmente neste momento histórico de secularização generalizada, o


museu eclesiástico é chamado a propor de novo as marcas de um sistema
existencial que encontra no sensus fidei a sua primeira razão de existência,
experiência e esperança. A reunião de peças materiais não é um sinal de orgulho,
mas um oferecimento a Deus do génio de muitos artistas que, através da arte, lhe
davam graças. Inclusive as coisas mais belas colocam sempre em evidência o
limite da criatividade humana segundo as palavras de Jesus: "Vede como
crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam; mas digo-vos que nem
Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como eles”. (46)

O museu eclesiástico assume, portanto, o papel formativo no ensino da


catequese e da cultura. As instalações do museu oferecem ao público obras
estimulantes para uma nova evangelização do homem do nosso tempo. Através
de visitas guiadas, conferências, publicações (catálogos do museu, catálogos de
exposições didáticas e panfletos ilustrativos dos itinerários do território) os
visitantes terão a possibilidade de captar os elementos fundamentais do
cristianismo, ao qual a maior parte já aderiu pessoalmente através dos
sacramentos da iniciação cristã. Com este insólito instrumento, os visitantes
poderão reencontrar os caminhos do crescimento e da maturidade cristã,
podendo assim expressar melhor a sua própria adesão a Cristo. Os não-crentes,
por sua vez, visitando os museus eclesiásticos, poderão intuir quanta importância
deu a comunidade cristã ao anúncio da fé, ao culto divino, às obras de caridade e
à cultura cristãmente inspirada.

Uma leitura atenta da história da Igreja, inclusive sobre o seu


desenvolvimento no território local e na composição do patrimônio histórico-
artístico, aponta naturalmente para o conhecimento dos grandes temas da arte
cristã. Na herança cultural que recebemos é possível ler e compreender o sentido
do sacrifício, do amor, da compaixão, do respeito pela vida, da relação particular
com a morte e da esperança num mundo renovado. Estas realidades que
expressam as obras reunidas nos museus conduzem para as grandes linhas da
missão eclesial:

- o culto, que se concretiza na liturgia, na piedade popular e nas devoções


pessoais;
- a catequese, que se manifesta no ensino e na educação;
- a cultura, que se expressa nas múltiplas ciências, realçando em particular as
ciências humanas;
- a caridade, sobretudo, que se expressa nas obras de misericórdia espirituais e
corporais.
133

Sobre cada uma destas coordenadas foi tecido um abundante enredo de


sinais visíveis, que se desenvolveram ao longo do tempo. A sua permanência
constitui o depósito da memória que se pode tutelar e valorizar pelos museus
eclesiásticos. Através desta concepção, poder-se-á ir além do aspecto meramente
estético e histórico, alcançando o sentido e o significado mais íntimo e profundo
no âmbito da civitas christiana.

4.2.2 A fruição no contexto eclesial

Através das iniciativas didáticas mais importantes dos museus pode-se


reconstruir sobre o território a microhistória de cada uma das realidades.

Jornadas de estudo, itinerários guiados, exposições temporárias e outras


iniciativas podem favorecer de modo útil o descobrimento dos valores essenciais
do cristianismo num determinado território. Os acontecimentos vividos pelos
pastores e pelos Santos da Igreja local descobrem-se nas formas de piedade e nas
devoções populares, que deixaram um abundante repertório histórico-artístico.
Outras obras confiadas aos museus colocam em evidência o importante papel das
associações e confrarias.

O museu eclesiástico realiza uma importante função na animação das


gerações contemporâneas e em particular dos jovens, já que, apresentando a
memória do passado, colocam em evidência a perspectiva histórica da
comunidade cristã. A partir desta óptica, é fundamental a relação entre a escola,
o território e a Igreja particular. Certamente as inter-relações institucionais que
realizam, incrementam o conhecimento do novo contexto eclesial, que encontra
uma resposta no patrimônio histórico-artístico da Igreja. A descoberta dos
acontecimentos através dos vestígios do passado converte-se, de tal modo, em
renovação de uma memória também familiar e por isso muito mais sentida. Além
disso, é um elemento de comum interesse perante os valores da fé transmitida.

4.2.3 A fruição na vivência eclesial

Na mentalidade comum, a palavra museu parece recordar um lugar


separado da vida presente, imutável, estático, frio e silencioso. O museu
eclesiástico, pelo contrário, qualifica-se como autêntico "viveiro", centro vivo de
elaboração cultural, capaz de desenvolver e difundir o conhecimento da
conservação e valorização dos bens culturais da Igreja. A peculiaridade do museu
eclesiástico está em conservar e evidenciar a memória histórica da vivência
eclesial, tal como esta se desenvolveu num determinado território, através das
múltiplas expressões artísticas.

Para alcançar estes objetivos, não é suficiente a planificação inteligente de


uma exposição bem estruturada onde se colocam obras, capazes de delinear e de
fazer compreender o contexto ambiental e a realidade histórica. Um problema
134

que se deve afrontar é o da correta coexistência das funções primárias da


estrutura do museu eclesiástico: a conservação e a exposição. Os critérios de
exposição devem contribuir para o evidente nexo entre a obra e a comunidade a
que pertence, com o objetivo de indicar a vivência eclesial da comunidade cristã
do passado. Além disso, a didática do museu deve dar vida a um circuito
comunicativo e formativo para animar e incentivar os visitantes à atual vivência
eclesial.

Por outro lado, o tempo de uma visita não permite uma apreciação
completa e profunda da riqueza histórica e documentária do museu. Por isso,
seria conveniente organizar percursos diversificados para oferecer aos visitantes,
enquadrados em lições-visitas, materiais de apoio que se possam ler também fora
do museu.

O museu eclesiástico transforma-se deste modo num centro de animação


cultural para a comunidade. Torna-se mais vivaz através da animação de grupos.
Projetar um calendário anual de iniciativas que se devem introduzir no amplo
projeto pastoral, tanto da Igreja particular no seu conjunto, como das instituições
eclesiais individuais que o compõem. Em tal calendário, podem considerar-se:

- exposições temporárias através das quais se colocam em evidência épocas,


artistas, circunstâncias históricas, espirituais, devoções, tradições e ritos;
- conferências em períodos fixos do ano, segundo ciclos temáticos;
- apresentação de livros ou de obras de arte novas ou restauradas;
- encontros e debates com artistas, restauradores, historiadores e críticos;
- apresentação de acontecimentos promovidos por instituições ou associações,
que de outra forma não lograriam difundir-se pelo menos em âmbito diocesano;
- organização de sessões catequéticas in loco.

Porém, a melhor forma para fazer compreender o valor das obras de arte
e, portanto, o sentido do museu eclesiástico, é ensinar os visitantes a olhar à sua
volta para refletir e unir acontecimentos, objetos, história, pessoas que naquele
território foram e continuam a ser a alma viva e presente. O museu eclesiástico,
deste modo, é capaz de unir o passado com o presente na vivência eclesial de uma
determinada comunidade cristã.

4.3 A fruição no conjunto do território

Através do museu eclesiástico podem-se tomar iniciativas para promover


o reconhecimento dos bens culturais que existem no território. A este respeito,
será oportuno:

- suscitar momentos de encontro entre crentes e não-crentes, fiéis e pastores,


utentes e artistas;
- sensibilizar as famílias a assumir a educação para a arte cristã e para a
135

compreensão dos valores que ela transmite;


- incutir nos jovens o interesse pela cultura da memória e da história do
cristianismo.

Pela sua própria natureza, o museu eclesiástico encontra-se em estreita


relação com o território onde desenvolve uma particular missão pastoral, já que
reúne o que dele provém, para o oferecer de novo aos fiéis através de um duplo
itinerário da memória histórica e da fruição estética. O museu eclesiástico, para
além de ser um "lugar eclesial" é, também, um "lugar territorial", porque a fé se
incultura em cada um dos ambientes. Os materiais usados para a produção das
múltiplas obras fazem referência a contextos naturais preciosos; os edifícios
produzem um indubitável impacto ambiental; os artistas e os que encomendam
as obras estão intimamente ligados à tradição, presente num determinado lugar;
os conteúdos das obras inspiram-se e correspondem às necessidades
relacionadas ao habitat em que se desenvolve a vida da comunidade cristã.

Imponentes monumentos, obras de arte, arquivos e bibliotecas estão


condicionados pelo território e, por isso, a ele se referem. Além disso, o museu
eclesiástico não é um lugar separado, mas um prolongamento físico e cultural do
ambiente circunstante.

Por conseguinte, o museu eclesiástico não é uma instituição alheia aos


restantes lugares eclesiais que pertencem a um determinado território. Todos têm
a mesma finalidade pastoral e, na sua diversa tipologia, mantêm uma relação
orgânica e diferenciada. Esta continuidade é confirmada pela mens da Igreja em
relação aos bens culturais colocados ao serviço da sua missão. Tais bens entram
num único discurso pelo que, de iure, estão coordenados entre eles e, de fato,
devem expressar esta unidade na complexidade e na diversidade. Por sua vez, o
museu reúne e ordena os bens histórico-artísticos, tornando visível a referência
ao conjunto do território e à estrutura eclesial.

O museu eclesiástico, no que se refere ao território, desenvolve várias


funções. Em primeiro lugar, prolonga aquela tradição de "coleção conservadora"
de quanto provém das regiões, onde se desenvolveram as Igrejas locais
individualmente e que, por vários motivos, já não podem permanecer in
loco (dificuldade de vigilância, procedência desconhecida das peças, alienações
ou destruição de lugares originários, degradação dos locais de procedência,
perigo de sismo ou de outras calamidades naturais). No entanto, outras funções
deverão ser tomadas em consideração, na realização de um projeto de museu
eclesiástico. A exposição das obras deve ser organizada de tal forma a tornar clara,
aos olhos dos visitantes, a história de uma determinada porção da Igreja. A
estrutura do museu deve referir-se a todo o território eclesiástico, pelo que deve,
de alguma forma, unir tudo o que expõe, com os lugares de procedência. Para
evidenciar a relação de continuidade entre o passado e o presente, o museu
136

eclesiástico deve ser a memória estável da história de uma comunidade cristã e,


ao mesmo tempo, é chamado a acolher manifestações ocasionais de carácter
contemporâneo, ligadas à ação da Igreja.

Todas estas funções sugerem, onde for possível, a contribuição das novas
tecnologias da multimídia, capazes de apresentar virtual, sistemática e
visualmente a íntima relação do museu com o território de que provêm os bens
que contém. Neste sentido, o conceito de museu eclesiástico é definido como
um museu integrado e difuso. Tais acepções comportam estruturas policêntricas
em que o museu diocesano desempenha a sua função de coordenação. À sua volta,
podem circular os tesouros da catedral e os bens culturais do cabido; as coleções
dos santuários, mosteiros, conventos, basílicas, confrarias; o grupo das igrejas
paroquiais e os outros lugares eclesiásticos; todo o conjunto de monumentos, com
as obras que o compõem; e os eventuais lugares arqueológicos. Deste modo, cria-
se uma rede que une dinamicamente o museu diocesano aos demais centros de
museus, e o conjunto dos bens culturais eclesiásticos ao conjunto do território.

O museu diocesano, em particular, cumpre uma peculiar tarefa, já que põe


em evidência a unidade e a organização dos bens culturais da Igreja particular.
Nele deveria haver um inventário de todo o patrimônio histórico-artístico da
diocese. Com prospectos de fácil leitura, dever-se-iam apresentar os bens
conservados e os bens presentes na circunscrição eclesiástica. Com instrumentos
científicos, deveria ser possível aceder ao inventário e à catalogação do
patrimônio histórico-artístico da região (pelo menos o que se considera de uso
público). Colocar-se-ia, assim, em prática um sistema que oferece as razões para
a obra da inculturação da fé no território; que reúne toda a atividade da Igreja
local destinada à produção dos bens culturais idóneos para a sua missão; que
destaca a importância cultural e espiritual do depósito da memória; que estimula
o sentido de pertença da coletividade através da herança transmitida por cada
uma das gerações; que favorece soluções de tutela e a investigação científica; que
se abre para acolher as criações contemporâneas, para poder deste modo
demonstrar a vitalidade e a dimensão pastoral dos bens culturais da Igreja,
presentes em cada uma das realidades em que se difundiu a mensagem cristã.

Neste sentido, o museu diocesano, assemelha-se a um centro cultural de


grande importância, já que foi fundado sobre o depósito histórico-artístico que
qualifica e reúne toda a comunidade cristã. Juntamente com ele está a catedral,
um patrimônio vivo que alberga no seu interior um museu-tesouro, estruturas e
obras funcionais para as múltiplas necessidades celebrativas e organizativas.
Assim, também as paróquias, os santuários, os mosteiros, os conventos e as
confrarias são lugares que possuem obras que guardam no seu interior ou num
museu central (com garantia de nova utilização, em circunstâncias particulares).
Também o laboratório de restauração e as oficinas técnicas devem estar em união
com o centro diocesano, para ser introduzidas no conjunto vital da Igreja
particular. Portanto, a conservação fica reduzida a um dos aspectos da obra de
137

valorização, que dependerá do museu diocesano. As obras de arte, as decorações,


as vestes litúrgicas, etc. que, por motivos de segurança, abandono, alienação dos
bens cultuais e precariedade ou destruição das estruturas que as acolhiam, são
levadas para os museus eclesiásticos, aí permanecem como parte viva dos bens
culturais da comunidade eclesial e de toda a comunidade civil presente no
território.

A noção de sistema de museu integrado alarga-se notavelmente e assume


uma importância eclesial relevante, em relação às várias instituições civis
presentes na circunscrição territorial. Esta noção leva ao reconhecimento jurídico
de tais Entidades de modo unitário; inspira a realização de um quadro
institucional capaz de moderar toda esta ordenação; é a base para angariar
subsídios públicos; condiciona as políticas culturais da região; e funda um
sistema de regulamentação e de proteção dos empregados e dos voluntários. Por
conseguinte, esta nova configuração tem um valor social e público inegável, visto
que oferece um serviço cultural de utilidade pública e abre discretas
possibilidades de ocupação.

A tipologia do sistema dos museus eclesiásticos difundido e


descentralizado qualifica o território, valorizando a totalidade do seu patrimônio
histórico-artístico-eclesiástico. A partir desta perspectiva, cada museu ou coleção
já não é um simples lugar de depósito ou de reunião de obras fora de circulação,
mas um elemento que define a cultura local e se relaciona com os demais bens
culturais. A descentralização, que leva à tutela tanto das obras nos lugares de
procedência como nestes espaços eclesiásticos, realça de modo especial a arte
menor e, mesmo tempo, enriquece cada uma das porções do território diocesano,
constituídas por paróquias, conventos, santuários, etc. Se os objetos e os adornos
fora de uso, presentes nas igrejas, fossem concentrados num único museu,
empobreceriam os lugares de procedência e os museus tornar-se-iam um
depósito sobrecarregado de material. Uma opção deste tipo provocaria a
desvalorização das próprias obras que, juntamente com muitas outras e de maior
importância, se converteriam em peças sem grande importância e pouco
utilizáveis. Por este motivo, é necessário salvaguardar in loco as diversas
expressões que dão brilho ao ambiente, evocando a recordação dos benfeitores e
mestres-de-obras, artistas insignes e simples artesãos, antigos costumes e
circunstâncias. Porém, quando faltam estruturas idóneas, é preferível a criação
de um museu central.

O museu diocesano pode converter-se num lugar de sensibilização da


comunidade eclesial e de diálogo entre as diversas forças culturais presentes no
território. Para que isto se realize, deve-se estabelecer uma relação entre os
inventários e os catálogos; solicitar a documentação topográfica e fotográfica da
região de procedência das obras e de todo o território;
promover stands ilustrativos, exposições de atualidade, estudos histórico-
artísticos e campanhas de restauração; organizar visitas guiadas que, partindo do
138

museu, incluam outros conjuntos monumentais da região. Este sistema,


coordenado com manifestações culturais, evidenciará a obra realizada pela Igreja
numa determinada região, favorecendo a tutela dos bens culturais no seu
contexto originário.

Formação dos agentes para os museus eclesiásticos

5.1 Projeto formativo

5.1.1 Importância da formação

Como pólo artístico-histórico, desenvolvendo uma atividade de


informação histórica e de educação estética no âmbito do projeto pastoral, o
museu pode assumir uma função cultural significativa. Para conseguir esta
finalidade deve-se proceder a um trabalho de formação do clero, dos artistas, dos
agentes de museu, dos guias, dos vigilantes e dos próprios visitantes, fazendo-os
compreender a natureza específica dos bens culturais da Igreja, com um renovado
profissionalismo, profunda humildade, diálogo atento, abertura disponível e
respeito pelas tradições locais.

O projeto formativo estará orientado para a valorização das obras do


passado e a promoção de novas produções. Dada a crise do sagrado e o
consequente empobrecimento das expressões cultuais - nos âmbitos
arquitetônico, iconográfico e decorativo - é urgente referir-se à tradição, para
evidenciar a contribuição das diversas épocas, introduzindo-se no debate
contemporâneo, para suscitar um novo período de arte e de cultura de inspiração
cristã. A Igreja, de fato, sempre promoveu as artes, porque viu nelas um
instrumento exemplar para cumprir a sua própria missão.

Ao longo dos séculos, a Igreja considerou tradicionalmente "como parte


integrante do seu ministério a promoção, a custódia e a valorização das mais altas
expressões do espírito humano nos campos artístico e histórico”. (47) Uma
operação cultural deste tipo exige uma capacidade crítica e uma preparação
notável. Por isso, é necessário um adequado projeto de formação pessoal, para
além da mútua colaboração das diversas instituições destinadas à gestão do
patrimônio histórico-artístico da Igreja.

Com a ajuda de instituições e especialistas, a Igreja poderá desenvolver


ulteriormente o atual interesse pelos bens culturais, pensando no trabalho levado
a cabo ao longo de dois milénios de história e elaborando propostas para o futuro.
139

Consequentemente, será oportuno voltar a oferecer à humanidade o sentido da


história, feita de coisas simples e de grandes acontecimentos; colocar em
evidência a influência do cristianismo ao longo dos séculos nos diversos contextos
socioculturais; recordar as catástrofes naturais ou os conflitos que, nalguns casos,
provocaram a destruição de valiosas obras-primas; ensinar através de um
adequado projeto de educação escolar e de formação permanente, que os bens
culturais da Igreja são particularmente significativos para toda a sociedade;
recordar que a característica eclesial destes bens é o anúncio do Evangelho e a
promoção humana; e superar as discriminações entre os ricos e os pobres, entre
as diversas culturas e etnias, entre as diversas confissões religiosas e as várias
religiões.

5.1.2 Urgências formativas

De forma geral, é urgente superar um certo desinteresse eclesiástico pela


conservação e valorização dos bens culturais; ultrapassar a falta de preparação
nos campos jurídico e administrativo; superar a ausência de um mecenato
preparado adequadamente.

- Superação do desinteresse eclesiástico pelos bens culturais. Nesta época de


proclamado interesse social do patrimônio histórico-artístico nota-se, às vezes,
uma certa falta de atenção e de interesse pelo patrimônio histórico-artístico em
âmbito eclesiástico. O fato de se imporem outras urgências pastorais, a falta de
pessoal e, presumivelmente, a inadequada preparação dos responsáveis, originou
uma precária tutela deste patrimônio. Em particular, a insuficiente formação dos
agentes faz constatar a escassa qualidade da gestão, que se manifesta
especialmente nos momentos de emergência (queda de estruturas, perigos para
a integridade das obras de arte, destruição de afrescos, alienação de peças,
organização de segurança, conflitos jurídico-administrativos, etc.)
Frequentemente, em tais circunstâncias não se tomam decisões resolutivas,
porque faltam uma visão orgânica e uma estratégia preventiva.

- Superação da falta de preparação nos campos jurídico e administrativo. A


enorme despesa em recursos económicos que, com frequência, é necessário ter
em conta para a realização de algumas intervenções, relaciona-se muitas vezes
com as graves carências institucionais. Por este motivo, tornam-se necessárias: a
capacidade de programação, as competências administrativa e jurídica, e a
colaboração interinstitucional (tanto em âmbito eclesiástico, como civil). Em
muitos casos não se consegue obter ajudas, especialmente de carácter público (a
níveis regional, nacional ou internacional), pela falta de informação sobre os
procedimentos a seguir. Neste contexto deve-se sublinhar a urgência de elevar o
nível formativo e dar a conhecer aos agentes dos bens culturais da Igreja as fontes
legislativas gerais e particulares a níveis civil e eclesiástico.
140

- Superação da ausência de um mecenato preparado adequadamente, que vise o


incremento dos bens culturais. A Igreja, no passado, em muitos casos foi mecenas
iluminada, introduzindo artistas de todos os géneros no coração da
espiritualidade cristã. O testemunho do passado, conservado nas instituições
eclesiásticas, deve inspirar o mecenato atual, a fim de poder incrementar os bens
culturais através de um empenho interdisciplinar, de modo que os artistas
possam compreender o variado background eclesial para o melhor êxito das suas
obras. É importante contar com pessoas preparadas para um trabalho de grupo e
para o contato com os artistas contemporâneos. (48) Nesta tarefa, o museu pode
desenvolver a função de catalisador para a animação dos artistas e para a sua
preparação sobre os temas religiosos.

5.1.3 Critérios formativos

O museu eclesiástico pode assumir uma função formativa própria e


permanente, que se desenvolva em três coordenadas: a formação histórica, a
educação estética e a interpretação espiritual.
Para que um museu eclesiástico cumpra esta função, serão necessárias pessoas
preparadas. Na formação do pessoal devem-se ter presentes alguns aspectos
fundamentais e irrenunciáveis:

- educar cada um dos agentes para a responsabilidade, a fim de poder participar


adequadamente nos projetos culturais promovidos pela Igreja;
- educar para o espírito de iniciativa, colocando em ato novas atividades e tendo
em conta as experiências já existentes;
- educar para o sentido do território, conseguindo uma conveniente
"contextualização" das iniciativas no conjunto dos bens culturais existentes em
cada uma das Igrejas particulares;
- educar para o uso de diversos instrumentos
didáticos, também a nível de multimídia, para facilitar a aproximação dos
utentes aos bens culturais da Igreja;
- educar para a dimensão pastoral, utilizando o patrimônio histórico-artístico
segundo a mens eclesial e com referência aos diversos tipos de público.

5.1.4 Conteúdos da formação

As iniciativas da formação devem prever um ensino diversificado, com


particular atenção às seguintes matérias: história da Igreja universal e local;
história das tradições populares; hagiografia e espiritualidade; iconografia e
iconologia; história da arte e da arquitetura religiosas; história das instituições de
vida consagrada e da sua presença no território; história das instituições
eclesiásticas laicais, do associativismo católico, das confrarias, dos movimentos
de assistência e das instituições culturais. A este respeito, poder-se-ão organizar
cursos, seminários de estudo, congressos, debates, séries de conferências com a
finalidade de oferecer a primeira formação, especialização, atualização e
141

formação permanente. Estas iniciativas de formação também ajudam a reunir


pessoas de várias ideologias, de modo que se possa promover um diálogo pastoral
frutuoso.

Para os funcionários e os responsáveis do museu eclesiástico impõe-se


uma formação específica. Nas suas iniciativas, para além das temáticas já
indicadas, deverão programar-se matérias específicas sobre a organização dos
museus, a gestão administrativa, a formulação didática, a tutela dos bens, a
conservação das obras e a legislação vigente (em matéria de tutela, de impostos e
de relações institucionais). Os eventuais boletins diocesanos ou outras
publicações poderão encarregar-se da realização de uma periódica atualização
informativa.

5.1.5 Lugares de formação

A formação desenvolve-se através de múltiplas iniciativas organizadas nas


diversas sedes institucionais competentes no assunto (locais, diocesanas,
regionais, nacionais e internacionais). Em geral, é necessário estabelecer um
diálogo construtivo entre os sacerdotes e os leigos, entre os profissionais e os
docentes, que aborde os problemas da tutela, conservação, valorização dos bens
culturais, todos os recursos intelectuais, humanos e espirituais que possam
contribuir para um trabalho de grupo e para uma colaboração interinstitucional.

A este respeito, também os departamentos territoriais para os bens


culturais estão convidados a trabalhar eficazmente, através de mesas redondas,
conferências e debates, para que se ofereça sempre uma informação útil e
atualizada.

Com uma referência específica aos museus presentes no território, deve-


se incentivar a criação de comissões ou associações de especialistas aos quais se
possam confiar tarefas de gestão e animação, tanto a nível de estratégias gerais,
como de museus individuais (por exemplo, Associações nacionais dos museus
eclesiásticos e Associações nacionais dos responsáveis pelos inventários, etc.).

5.1.6 Colaboração interinstitucional

A planificação de um museu eclesiástico integrado no território implica


numerosas instituições e desenvolve diversas iniciativas formativas. Por isso, é
de primeira importância abrir-se para a colaboração interinstitucional.

A nível diocesano, ou inclusive interdiocesano, devem-se empenhar,


sempre que for possível, as autoridades civis e outras entidades culturais, para
que se possam coordenar programas formativos de valorização do
patrimônio histórico-artístico da Igreja. Além disso, será oportuno preparar o
142

pessoal especializado nos correspondentes centros académicos, tanto civis como


eclesiásticos, quer a nível nacional quer internacional.

Os programas de formação não são orientados apenas para os agentes, mas


também para os visitantes, através de estratégias de formação permanente.

5.2 Formação dos agentes

5.2.1 Princípios para a formação do clero

No projeto de formação é de primeira importância a preparação dos


candidatos ao sacerdócio e do clero. Os que se preparam para o sacerdócio e a
vida religiosa devem ser educados a apreciar o valor dos bens culturais da Igreja,
com vista à promoção cultural e à evangelização.

Habitualmente, os sacerdotes dedicados à cura de almas têm também a


responsabilidade de proteger a fábrica Ecclesiae no aspecto arquitetônico e em
todas as peças que concretamente a constituem.

Na Carta circular aos Ordinários diocesanos sobre a Formação dos


candidatos ao sacerdócio (15 de Outubro de 1992), (49) esta Pontifícia Comissão
solicita que durante o ciclo formativo dos candidatos ao sacerdócio "sejam
programados cursos em que se tratem, de modo mais aprofundado e sistemático,
a história e os princípios da arte sacra, a arqueologia cristã, a arquivologia e a
biblioteconomia. Esses cursos poderão contribuir para a escolha de determinados
alunos a empenhar em tal sector de disciplinas, formando-os para desenvolver no
futuro uma função de estímulo e de ajuda também junto dos colegas”. (50) Além
disso, é oportuno abordar nos diversos cursos filosóficos e teológicos, temas
relativos à arte, à estética, às bibliotecas, aos arquivos e aos museus. Devem-se
também instituir centros especiais de estudo para poder formar peritos no sector
dos Bens Culturais da Igreja, onde se possam tratar das problemáticas inerentes
aos museus eclesiásticos. (51)

Uma adequada formação do clero prepara para a tutela dos bens culturais
e favorece a relação entre os eclesiásticos e os leigos para se poder elaborar um
projeto cultural capaz de valorizar a totalidade do patrimônio histórico-artístico
numa lógica eclesial e civil. Neste contexto, apresentam-se também as estratégias
inerentes à preparação do pessoal para os museus eclesiásticos. Ainda que os
sacerdotes não possam ser sempre os diretores responsáveis de tais instituições,
deverão pelo menos possuir os requisitos para poder promover museus
eclesiásticos e coordená-los no conjunto dos bens culturais eclesiásticos
presentes no território, introduzindo-os no projeto pastoral da Diocese como
cada uma das instituições locais (paróquias, mosteiros, conventos, institutos
religiosos, confrarias e associações).
143

Portanto, é oportuno que se instituam cursos apropriados de atualização


para os sacerdotes, com a finalidade de os sensibilizar para a organização e a
gestão dos museus eclesiásticos e sobre a salvaguarda do patrimônio cultural no
território.

5.2.2 Princípios para a formação dos agentes e dos guias

No projeto de formação deve haver um particular interesse pela formação


dos agentes e dos guias. Não se trata apenas de uma formação profissional de
especialistas dos diversos sectores implicados na organização do museu (ou de
comprovar a sua preparação), mas de os introduzir no que é especificamente
eclesial. Estes têm de ser capazes de contextualizar o patrimônio histórico-
artístico da Igreja, nos âmbitos catequético, cultural e caritativo, para que a
fruição de tais bens não se reduza ao mero dado estético, mas se converta num
instrumento pastoral através da linguagem universal da arte cristã.

- Guias internos. Em particular, os agentes dos museus encarregados de


acompanhar o público são chamados a captar as diversas características do
visitante, para poder introduzi-lo na fruição das obras expostas mediante
percursos centrados, por exemplo, em temáticas particulares, em objetos
singulares, em grupos homogéneos de obras.

- Animadores internos. Uma das eventuais funções dos agentes internos poderá
ser o de animar os visitantes, criando ocasiões de encontros, de conhecimento ou
de discussão.

- Agentes externos. Juntamente com os agentes internos da estrutura do museu,


seria bom pensar em formar agentes externos capazes de poder estabelecer uma
íntima relação entre as obras expostas no museu e o território, através de
percursos de visitas oferecidos, em princípio, às próprias comunidades locais,
mas sem esquecer os que praticam o turismo religioso. A totalidade do território,
desta forma, deve converter-se num "laboratório de pastoral" aberto a todos, ao
mesmo tempo que proporciona uma animação cultural mediante a arquitetura, a
história e os documentos que testemunham o interesse da Igreja pelos bens
culturais.

- Docentes e agentes eclesiais. Para se estabelecer uma relação entre os bens


culturais e o projeto pastoral, deve-se proceder com particular atenção à
formação dos catequistas, dos professores de religião e dos diversos agentes
eclesiais para que saibam utilizar com proveito, nas múltiplas atividades e
iniciativas, o patrimônio histórico-artístico que têm à sua disposição.

- Guias externos e agentes turísticos. Através de subsídios particulares, poder-


se-iam preparar guias externos e agentes turísticos, de quem se exigiriam os
requisitos da idoneidade a fim de garantir uma conveniente valorização do
144

patrimônio histórico-artístico da Igreja. A este respeito, poder-se-ia exigir um


certificado de assistência de cursos eclesiásticos para os agentes do turismo
religioso, em analogia ao que se pede aos professores de religião e de moral. É
oportuno que um projeto semelhante seja dado a conhecer às instituições civis
competentes para poderem coordenar orientações, procedimentos e os desejáveis
reconhecimentos académicos concordados.
A adequada formação dos responsáveis e dos agentes, tanto no campo
eclesiástico como no civil, conduz a uma maior colaboração no campo dos bens
culturais da Igreja. Incrementa uma discussão madura entre pessoas e
instituições (especialistas em diversos sectores, instituições encarregadas da
tutela dos bens culturais, escolas de todos os tipos e graus, e centros culturais e
turísticos).

5.2.3 Iniciativas para a formação dos agentes

A preparação do clero e dos agentes deve realizar-se, sobretudo, nos


lugares habituais de formação, intervindo sobre os programas ordinários. Seria
de desejar que se realizassem cursos especiais de aprofundamento e de
especialização, instituídos para os diversos níveis. Também seriam muito úteis os
cursos breves de atualização organizados periodicamente sobre temáticas
particulares. Para dar continuidade ao sistema formativo, poder-se-iam publicar
boletins ou circulares em que se indiquem experiências, se ofereçam informações
administrativas, se relacionem documentos eclesiásticos e civis do sector e se
ofereça uma bibliografia razoável.

Os cursos de formação podem ser distribuídos do seguinte modo:

- para os candidatos ao sacerdócio, é preferível organizar encontros nos


seminários que evidenciem e inter-relacionem o que as diversas disciplinas
filosófico-teológicas podem oferecer ao sector dos bens culturais da Igreja, que
preparem para a gestão, a relação com as autoridades civis e a colaboração
interinstitucional;

- para a atualização dos sacerdotes, é conveniente organizar jornadas de estudo


por temas, entre os quais os inerentes aos museus eclesiásticos (organização e
valorização do museu diocesano; constituição de uma coleção paroquial ou local;
integração do museu diocesano no território; animação pastoral através do
patrimônio histórico-artístico da Igreja; relação com as autoridades civis;
aspectos da gestão; etc.);

- para os dirigentes (sacerdotes ou leigos), que deverão assumir a nível diocesano


a responsabilidade dos museus diocesanos, é oportuno programar ulteriores
cursos especializados, eventualmente a nível das Conferências Episcopais
Regionais ou das Conferências Episcopais Nacionais. Podem-se aproveitar,
também, os cursos em instituições civis ou os planos de estudo académicos;
145

- para os agentes leigos, que deverão assumir competências específicas, é


conveniente garantir-lhes uma preparação geral nos centros de estudos
eclesiásticos (universidades, ateneus, faculdades pontifícias, institutos superiores
de ciências religiosas e institutos de ciências religiosas), para além de uma
preparação específica com cursos apropriados. A este respeito, existem bons
exemplos de cursos para agentes dos bens culturais e para guias turísticos,
organizados pelos Institutos de ciências religiosas.

5.2.4 Iniciativas para a formação dos usuários

Também o público deve ser formado, com iniciativas idóneas, para obter
um bom uso dos bens culturais da Igreja. Esta formação pode desenvolver-se
através da própria organização dos percursos da exposição, de eventuais
iniciativas colaterais, do sistema escolar, dos mass media, dos congressos de
estudo, das políticas culturais do território, etc. O público pode ser dividido em
duas categorias: os que pertencem à comunidade eclesial e os que provêm de
outros contextos. Para alcançar um maior número de pessoas, é oportuno
desenvolver iniciativas a níveis diocesano e local. Além disso, será necessário
diversificar as intervenções, tendo em conta o tipo de destinatários: estudantes,
público adulto, turistas, peregrinos, etc.

As iniciativas a nível diocesano. Apresentamos como exemplo algumas possíveis


iniciativas:

- organizar periodicamente, a nível diocesano, jornadas de estudo e congressos


sobre temas que realcem toda a riqueza cultural de um determinado território;
- programar visitas guiadas aos museus eclesiásticos, aos santuários, às Igrejas,
aos eventuais lugares arqueológicos cristãos e a outros lugares da Diocese
particularmente significativos, tentando apresentar cada monumento inserido no
contexto histórico territorial e eclesial;
- realizar exposições temporárias, nos museus ou
noutros lugares eclesiásticos, com materiais antigos ou contemporâneos,
fazendo referência ao território da Diocese ou à atividade específica de uma
congregação religiosa.

As diversas manifestações devem realizar-se de modo que não tenham um


aspecto puramente cultural, mas que se organizem com base em coordenadas
eclesiais, a fim de sensibilizar os visitantes para o valor não só histórico-artístico,
mas também religioso-pastoral dos bens culturais da Igreja.

Iniciativas a nível local. São também de grande utilidade as iniciativas


formativas para cada uma das comunidades ou lugares, para realçar a íntima
união entre os bens que estão em uso e os que já foram postos de parte, para
expressar a conexão das obras oferecendo uma perspectiva histórica, para
146

facilitar a relação entre o passado e o presente. Apresentamos como exemplo


algumas iniciativas possíveis:

- fazer visitar periodicamente, sobretudo os fiéis e os restantes membros da


comunidade civil, os seus próprios bens de interesse histórico-artístico, para
destacar o testemunho da fé e da cultura das precedentes gerações, de modo
particular as Igrejas;
- elaborar um programa anual composto de congressos, jornadas, espetáculos e
visitas para descobrir o próprio território e fazer aumentar o sentido de
pertença;
- implicar neste trabalho de animação especialmente os jovens, de modo que
possam nutrir interesses religiosa, social e culturalmente proveitosos;
- fazer compreender a toda a sociedade local que os bens histórico-artísticos da
Igreja pertencem a todos, em particular aos mais pobres, já que expressam o
anúncio do Evangelho da caridade e representam a dignidade da comunidade
eclesial;
- abrir-se aos visitantes externos, organizando manifestações turisticamente
interessantes;
- integrar as finalidades das antigas confrarias, tornando-as também operativas
no campo dos bens culturais da Igreja.

Iniciativas para turistas e peregrinos. Apresentamos como exemplo algumas


iniciativas possíveis:

- no que se refere aos turistas, é necessário considerar o turismo aos lugares


eclesiais como turismo religioso; assim, a fruição dos museus devem unir-se à
função eclesial dos lugares de procedência das obras que neles se conservam;
- para os peregrinos, é necessário valorizar as coleções do museu num contexto
religioso, fazendo realçar o caminho da fé da comunidade cristã, dos mecenas,
dos artistas, para além das formas de piedade popular e das tradições locais.

Iniciativas paraescolares. No que se refere à escola, de qualquer tipo e nível, a


tarefa principal é a de despertar o interesse dos estudantes, não só pelas obras
expostas nos museus eclesiásticos ou na sua história, mas também pelo
descobrimento progressivo do território. Para além das instituições docentes
para jovens, podem desempenhar um particular e interessante trabalho em favor
dos bens culturais da Igreja as "universidades da terceira idade", ou as atividades
análogas, já que estimulam o conhecimento e a criatividade. Neste contexto
escolar ou paraescolar podem-se realizar as seguintes iniciativas:

- guiar visitas que coloquem os museus em união com a totalidade do


patrimônio eclesial;
- promover investigações e campanhas de estudo;
- fazer concursos (composições escritas, reunião de testemunhos, projetos de
requalificação, desenhos, fotografias, etc.);
147

- empenhar ativamente os estudantes, para que se


interessem pelo patrimônio histórico-artístico da Igreja.

5.3 Função do voluntariado

É neste contexto de distribuição dos compromissos eclesiais que surgem a


importância e a utilidade de corresponsabilizar os voluntários leigos
oportunamente preparados nos diversos aspectos da organização de um museu.
De fato, em muitos casos os museus eclesiásticos, especialmente os pequenos, são
habitualmente geridos por pessoas que, de modo gratuito e voluntário,
desempenham este serviço com um espírito de fé e de testemunho.

Na organização do voluntariado é indispensável, por parte dos


responsáveis da instituição, uma particular atenção aos aspectos jurídico-fiscais
que a legislação civil prevê em cada Estado. É necessário, portanto, empenhar-se
para que tais serviços - para além da generosa disponibilidade - se possam
realizar devidamente e com o profissionalismo necessário. Também os agentes
voluntários deverão seguir cursos adequados de formação e ser preparados para
atuar em conjunto, onde for necessário, com o pessoal eventualmente contratado.

Neste campo, podem-se identificar algumas categorias de voluntariado: os


que já estão reformados, os que procuram o primeiro trabalho, os que já estão
profissionalmente empenhados em sectores adequados às atividades do museu e
pretendem dedicar-lhe parte do seu tempo livre.

- Reformados. Esta categoria de pessoas pode assumir uma função significativa,


oferecendo uma ajuda preciosa a título gratuito. Estas pessoas, tendo tempo à
disposição, podem prestar o seu serviço nos diversos âmbitos da organização do
museu. É oportuno considerar que, para uma conveniente integração do seu
serviço, devem observar os critérios gerais da organização, das normas e dos
horários. As suas energias e a sua disponibilidade podem ser utilizadas segundo
as suas precedentes ocupações profissionais e as exigências concretas do museu.

- Estudantes. Também os jovens estudantes, ou os que estão à espera do primeiro


emprego, podem ser empregados utilmente na organização do museu em forma
de voluntariado que pode, nalguns casos, ser remunerado (tendo sempre em
conta as disposições legais). Este tipo de voluntariado pode constituir um possível
tempo de aprendizagem para futuros compromissos profissionais.

- Cooperativas. Para fazer frente a tantas despesas estão a surgir, nalguns


museus, formas de trabalho cooperativo mantidas por fundações, pelas receitas
do museu ou por financiamentos eclesiásticos. Este tipo de presença pode
constituir uma oportunidade para a ocupação dos jovens e uma conveniente
forma de gestão do patrimônio histórico-artístico das Igrejas particulares.
148

- Profissionais. Há também pessoas profissionalmente empenhadas que desejam


colocar à disposição parte do seu tempo livre. A estas pessoas pode-se-lhes pedir
uma colaboração de carácter esporádico, já que é oportuno utilizar a sua
profissionalidade na medida em que for conveniente à organização do museu.
Sobretudo nos sectores da gestão e em outros especializados, a colaboração dos
profissionais voluntários é útil e vantajosa.

- Consultores. A este respeito pode-se, por exemplo, instituir uma comissão de


consultores do museu, cujos membros, nomeados pelo Ordinário por um tempo
determinado e prorrogável, possam oferecer a título gratuito as prestações que se
lhes pedirem e promover determinadas investigações de campo. Podem realizar
uma valiosa contribuição para estabelecer critérios e fazer propostas que visem
uma melhor função da conservação, organização, gestão, angariação de recursos
e animação.

VI

Conclusão

Os bens culturais da Igreja são um patrimônio que se deve conservar


materialmente, tutelar sob o ponto de vista jurídico e valorizar pastoralmente no
âmbito da cada comunidade cristã, para cultivar a memória do passado e
continuar a expressar no presente o que está orientado para a missão da Igreja. A
lição da história, através da contemplação da arte, abre-se para a profecia, de
modo que "a Igreja, mestra de vida, não pode deixar de assumir também o
ministério de ajudar o homem contemporâneo a reencontrar a admiração
religiosa diante do fascínio da beleza e da sabedoria, que deriva de quanto a
história nos transmitiu. Essa tarefa exige um trabalho diário e assíduo de
orientação, encorajamento e intercâmbio”. (52)

Os museus eclesiásticos, como lugares de animação dos fiéis e de


valorização do patrimônio histórico-artístico, unem o valor da memória ao da
profecia, salvaguardando os sinais tangíveis da Traditio Ecclesiae. Através do
patrimônio histórico-artístico, eles apresentam o cumprimento da história da
salvação em Cristo; voltam a propor a obra da evangelização cristã; apontam, na
beleza da arte, para "os novos céus e a nova terra"; e são sinais de recapitulação
de todas as coisas em Cristo. Tudo o que os museus eclesiásticos representam nos
permite crescer em humanidade e em espiritualidade; por esta razão, eles entram
de pleno direito no projeto pastoral das Igrejas particulares. A atenção a tais
patrimônio s pode transformar-se num novo e eficaz instrumento de
evangelização cristã e de promoção cultural.
149

Das considerações apresentadas na presente Carta circular emergem


algumas conclusões que podem guiar estratégias ligadas ao cuidado dos bens
culturais da Igreja:

- no âmbito de cada Igreja particular, é oportuno realizar um projeto global


sobre o tema dos bens culturais;
- este projeto deve ser elaborado em união com o projeto pastoral a níveis
diocesano e local;
- é para desejar, ao mesmo tempo, a colaboração com instituições civis voltadas
para a elaboração de planos que visam o desenvolvimento cultural;
- o museu eclesiástico, neste contexto, não deve ser considerado simplesmente
como um lugar de visita, mas também de atividade cultural-pastoral e de
experiências sobre a vivência histórica;
- portanto, é necessário educar os sacerdotes para estas matérias, não só através
da formação e da atualização, mas também através da consciencialização direta
do valor eclesial e civil do patrimônio histórico-artístico eclesiástico;
- além disso, é indispensável uma preparação dos diversos agentes para a
animação dos utentes;
- é oportuno promover estudos de campo para criar novas formas de
conhecimento e de aproximação aos bens culturais da Igreja;
- é significativo valorizar, na medida do possível, os bens culturais na sua sede
originária, relacionando as diversas realidades que compõem o território
eclesiástico;
- é oportuno oferecer espaços adequados para acolher no museu diocesano o
que não se pode conservar in loco e desenvolver na referida instituição múltiplas
iniciativas de animação;
- é necessário organizar adequadamente o museu diocesano no cuidado do
inventário e da catalogação de tudo quanto ele contém (em conexão com o
inventário-catálogo da Diocese), na promoção, em caso de necessidade, de
sessões didáticas multimídias, na organização da administração, no
regulamento do movimento das obras, na projeção de percursos de visitas e na
promoção de concursos interinstitucionais.

Dada a atual vontade da Igreja de recuperar as suas próprias raízes, é


necessário revigorar, tanto a nível eclesial, como civil, as estratégias dos museus
para unir entre si as diversas manifestações e tornar perceptível o que é
especificamente eclesial.

Para alcançar tais objetivos:

- é necessário, sobretudo, incentivar o interesse pelo patrimônio histórico-


artístico da Igreja, através de um adequado sistema de comunicação: é a
primeira dinâmica que leva ao "caminhar-para" o museu eclesiástico e o que lhe
está conexo, evidenciando os valores histórico, cultural, estético, afetivo e
religioso do patrimônio histórico-artístico da Igreja;
150

- é necessário dar vida a tudo quanto se expõe no museu eclesiástico, fazendo


compreender aos visitantes que o produto oferecido faz parte integrante da sua
própria história: é a segunda dinâmica, que "conduz-para-dentro" do museu
eclesiástico, considerando os conteúdos inspiradores no seu valor de bem
cultural;
- é necessário transferir este interesse para a própria vida, fazendo com que nela
se encontre tudo o que se viu de modo exemplar numa visita ao museu: é a
terceira dinâmica que "conduz-para-fora" do museu, reintroduzindo o indivíduo
na própria cultura e despertando-lhe o desejo de salvaguardar os bens histórico-
artísticos pelos quais é circundado.

Neste sentido, o museu eclesiástico converte-se num lugar de humanidade


e num lugar religioso. Na medida em que o homem contemporâneo beneficia do
passado, projeta-se para o futuro. Na medida em que o crente encontra a sua
própria história, desfruta da arte, vive santamente, anuncia o "Deus omnia in
omnibus".

Para terminar, acolhamos esta exortação de João Paulo II: "Estamos


numa época em que se valorizam as relíquias e as tradições, no intento de
recuperar o espírito originário de cada povo.

Por que não se faz outro tanto no campo religioso, para extrair das obras
de arte de cada época as indicações preciosas sobre o sensus fidei do povo cristão?
Aprofundai, vós também, para realçar a mensagem expressa nas obras pelo cunho
criador dos artistas do passado. Inumeráveis maravilhas virão à luz, sempre que
o modelo de referência for a religião”. (53)

Na esperança de que as reflexões propostas possam ser um ponto de


referência útil para cada uma das Igrejas particulares, favorecendo orientações e
regulamentos concretos, manifesto os meus melhores desejos para o seu
ministério pastoral e para a sua obra de promoção cultural através dos bens
culturais da Igreja, enquanto aproveito a ocasião para lhe expressar os meus
cordiais cumprimentos, com que me confirmo,

de Sua Eminência (Excelência) Reverendíssima devoto em J.C.

D. FRANCESCO MARCHISANO
Presidente

Pe. CARLO CHENIS, S.D.B.


Secretário
151

Cidade do Vaticano, 15 de Agosto de 2001.

Notas

1) Cf. PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA OS BENS CULTURAIS DA IGREJA, Carta


circular Bibliotecas eclesiásticas na missão da Igreja, 19 de Março de 1994, Prot.
n. 179/91/35 (Cf. Enchiridion Vaticanum 14/610-649); EAD., Carta circular A
função pastoral dos arquivos eclesiásticos, 2 de Fevereiro de 1997, Prot. n.
274/92/118 (Opúsculo, Cidade do Vaticano, 1997).

2) Cf. PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA OS BENS CULTURAIS DA IGREJA, Carta


circular Necessidade e urgência da inventariação e catalogação dos bens
culturais da Igreja, 8 de Dezembro de 1999, Prot. n. 140/97/162
(Opúsculo, Cidade do Vaticano, 1999).

3) CONCÍLIO ECUMÉNICO VATICANO II, Constituição pastoral Gaudium et


spes, 7 de Dezembro de 1965, n. 58. Tal magistério conciliar, invocado também
noutras passagens (Cf. Ad gentes, 21), foi retomado - entre outros - por João
Paulo II na Carta Encíclica Slavorum Apostoli, de 2 de Junho de 1985, n. 21
(Cf. Enchiridion Vaticanum 2/1554-1614).

4) JOÃO PAULO II, "Motu Proprio" Inde a pontificatus nostri initio, 25 de Março
de 1993, Proémio (Cf. ed. quot. de L'Osservatore Romano de 5 de Maio de 1993,
pp. 1 e 5).

5) Os "bens culturais" compreendem "antes de mais nada, os patrimônio s


artísticos da pintura, da escultura, da arquitetura, do mosaico e da música, postos
ao serviço da missão da Igreja. A estes devem ser depois acrescentados os livros,
contidos nas bibliotecas eclesiásticas, e os documentos históricos conservados
nos arquivos das comunidades eclesiais. Entram, por fim, neste âmbito as obras
literárias, teatrais e cinematográficas, produzidas pelos meios de comunicação de
massa": JOÃO PAULO II, Alocução aos participantes na I Assembleia Plenária
da Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja, 12 de Outubro de
1995, n. 3 (Ed. port. de L'Osservatore Romano de 28 de Outubro de 1995, pág.
5).

6) PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA OS BENS CULTURAIS DA IGREJA, Carta


circular A função pastoral dos arquivos eclesiásticos, op. cit., n. 1.1.
152

7) JOÃO PAULO II, Alocução de 12 Outubro 1995, op. cit., n. 4.

8) Ibidem.

9) Cf. SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA O CLERO, Carta circular Opera Artis


de cura patrimonii historico-artistici Ecclesiae, ad Praesides Conferentiarum
Episcopalium, 11 de Abril de 1971 (AAS 63 [1971] pp. 315-317); Código de Direito
Canónico [CDC] (1983), cân. 1283, 2-3; PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA OS
BENS CULTURAIS DA IGREJA, Carta
circular Necessidade e urgência da inventariação e catalogação dos bens
culturais da Igreja, op. cit.

10) SECRETARIA DE ESTADO, Carta circular aos Bispos de Itália sobre a


conservação, a custódia e o uso dos arquivos e das bibliotecas eclesiásticas, 15
de Abril de 1923, Prot. n. 16605 (M. VISMARA MISSIROLI, Codice dei Beni
Culturali di interesse religioso. I. Normativa Canonica, Milão 1993, pp. 188-
196); EAD., Carta circular aos Ordinários da Itália, 1 de Setembro de 1924, Prot.
n. 34215 (Ibid., pp. 196-198).

11) Uma ampla resenha das principais intervenções do Magistério desde a


antiguidade a favor dos bens culturais encontra-se no primeiro capítulo da última
Carta circular desta Pontifícia Comissão, Necessidade e urgência da
inventariação e catalogação dos bens culturais da Igreja, op. cit.

12) PIO VII, Quirógrafo sobre a conservação dos monumentos e sobre a


produção de belas artes, 1 de Outubro de 1802, incluído no Edital do
Camerlengo da Santa Romana Igreja, Cardeal Doria Pamphilj (A.
EMILIANI, Leggi, bandi e provvedimenti per la tutela dei beni artistici e
culturali negli antichi stati italiani, 1571-1860, Bolonha 1978, pp. 110-125).

13) Ibid., n. 10. Os princípios apresentados no Quirógrafo estão na base do


célebre Edital do Cardeal Camerlengo Bartolomeo Pacca, sobre as antiguidades
e as escavações, 7 de Abril de 1820 (A. EMILIANI, Leggi, bandi e provvedimenti,
op. cit., pp. 130-145) que, com as suas disposições em matéria de escavações, de
conservação e de circulação das obras de arte antigas e modernas, é considerado
como um dos fundamentos da legislação moderna em matéria de bens culturais.

14) SECRETARIA DE ESTADO, Carta circular aos Bispos da Itália para a


conservação, a custódia e o uso dos arquivos e das bibliotecas eclesiásticas, 15
de Abril de 1923, op. cit.

15) SECRETARIA DE ESTADO, Carta circular aos Ordinários da Itália, 1 de


Setembro de 1924, op. cit.
153

16) SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA O CONCÍLIO, Disposições para a


custódia e a conservação dos objetos de história e de arte sacra na Itália, 24 de
Maio de 1939 (AAS 31 [1939] pp. 266-268).

17) PONTIFÍCIA COMISSÃO CENTRAL PARA A ARTE SACRA NA


ITÁLIA, Esquema do regulamento para os Museus diocesanos (G.
FALLANI, Tutela e conservazione del patrimonio storico e artistico della Chiesa
in Italia, Bréscia 1974, pp. 225-229); EAD., Esquema do informe de depósito em
Museus estatais (Ibid., pp. 229-230); EAD., Esquema do informe de depósito em
Museus não estatais (Ibid., pp. 230-232); EAD., Normas relativas ao
empréstimo de obras de arte de propriedade de Entidades
eclesiásticas (Ibid., pp. 232-235).

18) SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA O CLERO, Carta circular Opera artis...,


op. cit., n. 6.

19) CDC (1983), cânn. 638 3, 1269-1270, 1292 e 1377 (doações, aquisições e
alienações); cân. 1189 (restauro de imagens); cânn. 1220 2 e 1234 2 (segurança e
visibilidade dos bens sagrados e preciosos); cân. 1222 (redução ao uso profano de
um templo que já não está dedicado ao culto); cânn. 1283-1284 (deveres dos
administradores; inventário).

Código de Direito Canónico para as Igrejas Orientais (1990) [CDCIO], cân. 278
(vigilância); cân. 873 (redução ao uso profano dos templos); cânn. 887 1, 888,
1018-1019, 1036 e 1449 (alienação); cân. 887 2 (restauro); e cânn. 1025-1026
(inventário).

20) JOÃO PAULO II, Constituição Apostólica Pastor bonus, 28 de Junho de 1988
(AAS 80 [1988] pp. 885-886) art. 102.

21) JOÃO PAULO II, Mensagem aos participantes na II Assembleia da Pontifícia


Comissão para os Bens Culturais da Igreja, 25 de Setembro de 1997, n. 2 (ed.
port. de L'Osservatore Romano de 11 de Outubro de 1997, pág. 15).

22) JOÃO PAULO II, Alocução de 12 de Outubro de 1995, op. cit., n. 3.

23) ID., Mensagem de 25 de Setembro de 1997, op. cit., n. 3.

24) PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA OS BENS CULTURAIS DA IGREJA, Carta


circular A função pastoral dos arquivos eclesiásticos, op. cit., n. 1.1.

25) PAULO VI, Alocução para a festa da dedicação do Templo Maior, 17 de


Novembro de 1965 (Insegnamenti di Paolo VI, III, Cidade do Vaticano, 1965, pp.
1101-1104).
154

26) JOÃO PAULO II, Discurso de 25 de Setembro de 1997, op. cit., n. 4.

27) Cf. PAULO VI, Discurso aos participantes no V Encontro dos Arquivistas
Eclesiásticos, 26 de Setembro de 1963 (Archiva Ecclesiae 5-6 [1962-1963] pp.
173-175).

28) Cf. a presente Circular no n. 1.3: Indicações históricas sobre a conservação


do patrimônio histórico-artístico.

29) CDC, cân. 1257 1: Bona temporalia omnia quae ad Ecclesiam universam,
Apostolicam Sedem aliasve in Ecclesia personas iuridicas publicas pertinent, sunt
bona ecclesiastica et reguntur canonibus qui sequuntur, necnon propriis statutis.
Cf. CDCIO, cân. 1009 2.

30) CDC, cân. 368: Ecclesiae particulares, in quibus et ex quibus una et unica
Ecclesia catholica exsistit, sunt imprimis dioeceses, quibus, nisi aliud constet,
assimilantur praelatura territorialis et abbatia territorialis, vicariatus apostolicus
et praefectura apostolica necnon administratio apostolica stabiliter erecta.

31) CDC, cân. 381 1: Episcopo dioecesano in dioecesi ipsi commissa omnis
competit potestas ordinaria, propria et immediata, quae ad exercitium eius
muneris pastoralis requiritur, exceptis causis quae iure aut Summi Pontificis
decreto supremae aut alii auctoritati ecclesiasticae reserventur.2: Qui praesunt
aliis communitatibus fidelium, de quibus in can. 368, Episcopo dioecesano in iure
aequiparantur, nisi ex rei natura aut iuris praescripto aliud appareat.
Cf. CDCIO, cân. 178.

32) JOÃO PAULO II, Alocução de 12 de Outubro de 1995, op. cit., n. 3.

33) De forma geral, tudo o que diz respeito à valorização dos bens culturais faz
parte da ação apostólica da Igreja cuidada e promovida pelo Ordinário diocesano.
Cf. CDC, cân. 394 1: Varias apostolatus rationes in dioecesi foveat Episcopus,
atque curet ut in universa dioecesi, vel in eiusdem particularibus districtibus,
omnia apostolatus opera, servata uniuscuiusque propria indole, sub suo
moderamine coordinentur.

2: Urgeat officium, quo tenentur fideles ad apostolatum pro sua cuiusque


condicione et aptitudine exercendum, atque ipsos adhortetur ut varia opera
apostolatus, secundum necessitates loci et temporis, participent et iuvent.
Cf. CDCIO, cân. 203 1-2.

34) SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA O CLERO, Carta circular Opera artis...,


op. cit., n. 6.
155

35) Na redação dos Estatutos e dos Regulamentos, poder-se-ão indicar alguns


aspectos a ter presentes, que aqui apresentamos.
Elementos para o Estatuto de um museu diocesano (e analogamente de um
museu eclesiástico): 1. Data de fundação, propriedade; 2. Finalidades
institucionais; 3. Descrição sumária da sede e das coleções; 4. Diretor: nomeação,
duração do cargo, funções e competências; 5. Comissão do museu: nomeação dos
membros e duração, funções e competências; 6. Conselho de administração e
gestão financeira; 7. Secretaria e arquivo; e 8. Pessoal de guarda.
Elementos para um Regulamento: 1. Critérios gerais para a aquisição das obras;
2. Registro de obras; 3. Exposição de obras; 4. Regulamento das fotoreproduções;
5. Regulamento dos empréstimos; 6. Horário e regulamento do acesso dos
visitantes; 7. Sistemas de segurança.

36) Cf. CDC, cân. 620: Superiores maiores sunt, qui totum regunt institutum, vel
eius provinciam, vel partem eidem aequiparatam, vel domum sui iuris, itemque
eorum vicarii. His accedunt Abbas Primas et Superior congregationis monasticae,
qui tamen non habent omnem potestatem, quam ius universale Superioribus
maioribus tribuit. Cf. CDCIO, cân. 418.

37) Cf. CDC, cân. 734: Regimen societatis a


constitutionibus determinatur, servatis, iuxta naturam uniuscuiusque societa
tis, cânn. 617-633. Cf. CDCIO, cân. 557.

38) Cf. PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA OS BENS CULTURAIS DA IGREJA,


Carta circular Os Bens Culturais dos Institutos Religiosos, 10 de Abril de 1994,
Prot. n. 275/92/12 (Cf. Enchiridion Vaticanum 14/918-947).

39) Cf. CDC, cân. 678 3: In operibus apostolatus religiosorum ordinandis


Episcopi dioecesani et Superiores religiosi collatis consiliis procedant oportet.
Cf. CDCIO, cân. 416.

40) Cf. CDC, cân. 681 1: Opera quae ab Episcopo dioecesano committuntur
religiosis, eiusdem Episcopi auctoritati et directioni subsunt, firmo iure
Superiorum religiosorum ad normam can. 678 2 et 3.

2: In his casibus ineatur conventio scripta inter Episcopum dioecesanum et


competentem instituti Superiorem, qua, inter alia, expresse et accurate
definiantur quae ad opus explendum, ad sodales eidem addicendos et ad
oeconomicas spectent. Cf. CDCIO, cân 415 3.

41) No que se refere aos critérios operativos para as exposições e a manutenção


das peças, poder-se-á fazer referência às directrizes emanadas pelas Entidades e
Associações Nacionais (por exemplo, na Irlanda publicou-se o volume do
HERITAGE COUNCIL, Caring for
Collections. A Manual of Preventive Conservation, Dublim 2000).
156

42) Para uma adequada organização dos espaços didáticos, é possível colocar-se
em contato com instituições ou associações, nacionais ou internacionais, que
tenham elaborado programas específicos de pedagogia para museus. Podemos
recordar, a este respeito, os programas elaborados e já em funcionamento nos
centros nacionais do ICOM (International Council of Museums). Para além disso,
em vários países têm-se elaborado programas didáticos específicos, relacionados
com o uso dos bens culturais e a aproximação interativa das estruturas dos
museus (por exemplo, nos E.U.A. realizou-se o programa MUSE, Educational
Media, e o projeto The Museum Educational Side Licensing Project (MESL),
promovido pelo Getty Information Institute, em colaboração com a Association
of Art Museum Diretors, a American Association of Museums e a Coalition for
Networked Information.

43) Existem disposições internacionais específicas sobre a exposição de obras de


arte, que visam facilitar a conservação e a manutenção. A este respeito pode-se
citar alguns documentos emanados pelos Organismos internacionais: ICOM,
Code de Déontologie Professionnelle de l'ICOM, Paris 1990;
ICOM, Documentation Committee CIDOC Working Standard for Museum
Objects, 1995; CONSELHO DA EUROPA, Convenzione riveduta sulla Protezione
del Patrimonio Archeologico, Malta 1992; ICOMOS (International Council of
Monuments and Sites), International Cultural Tourism Charter, 1998, artt. 2.4,
6.1, 3.1 e 5.4.
A estes documentos, poder-se-ão agregar as directrizes emanadas nos encontros
internacionais sobre os Museus diocesanos e eclesiásticos, como por exemplo,
o Rome Document, aprovado pela 44ª Assembleia Anual do
ARBEITSGEMEINSCHAFT KIRCHLICHER MUSEEN UND
SCHATZKAMMERN, Roma, 31 de Maio de 1995.

44) Cf. nota 35.

45) PAULO VI, Homilia: Nos esplendores da Imaculada. Saudação e felicitações


de Pedro a todas as almas, 8 de Dezembro de 1965 (Insegnamenti di Paolo
VI, III, op. cit., pp. 742-747).

46) Cf. Mt 6, 28-29.

47) Cf. PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA A CONSERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO


ARTÍSTICO E HISTÓRICO DA IGREJA (Atualmente, PONTIFÍCIA COMISSÃO
PARA OS BENS CULTURAIS DA IGREJA), Carta circular aos Ordinários
diocesanos sobre a formação dos candidatos ao sacerdócio sobre os bens
culturais, 15 de Outubro de 1992, Prot. n. 121/90/18 (Cf. Notitiae 28 [1992], pp.
714-731), n. 1.

48) JOÃO PAULO II, Alocução aos participantes no Congresso Nacional


Italiano de Arte Sacra: O artista é mediador entre o Evangelho e a vida, 27 de
157

Abril de 1981 (Insegnamenti di Giovanni Paolo II, IV/1, Cidade do Vaticano,


1981, pp. 1052-1956); ID., Carta aos
Artistas, 4 de Abril de 1999 (Opúsculo, Cidade do Vaticano, 1999).

49) Em relação ao problema da formação, a Pontifícia Comissão considerou


oportuno dirigir a primeira Carta circular (15 de Outubro de 1992) a todos os
Bispos do mundo, recordando a necessidade de preparar os futuros sacerdotes
para o cuidado dos bens culturais da Igreja (PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA A
CONSERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO ARTÍSTICO E HISTÓRICO DA IGREJA
[Atualmente, PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA OS BENS CULTURAIS DA
IGREJA], Carta circular aos Ordinários diocesanos sobre a formação dos
candidatos ao sacerdócio sobre os bens culturais, op. cit.). Como se tratava de
um aspecto fundamental, três anos depois a Comissão dirigiu uma Carta circular
a todas a Conferências Episcopais (3 de Fevereiro de 1995) solicitando o relatório
das iniciativas que se colocaram em prática nesse período para a formação do
clero sobre os bens culturais (PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA OS BENS
CULTURAIS DA IGREJA, Carta circular, 3 de Fevereiro de 1995, Prot. n.
15/95/2). Uma consideração semelhante foi dirigida ao trabalho desenvolvido
pelas universidades católicas sobre os bens culturais da Igreja. A este respeito,
dirigiu-se uma Carta circular (31 de Janeiro de 1992) a todas as universidades
católicas do mundo, graças à qual se reuniram dados de notável importância para
o futuro trabalho desta mesma Comissão (PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA A
CONSERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO ARTÍSTICO E HISTÓRICO DA IGREJA
[Atualmente, PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA OS BENS CULTURAIS DA
IGREJA], Carta circular aos Reitores das Universidades católicas, 31 de Janeiro
de 1992, e PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA OS BENS CULTURAIS DA
IGREJA, Carta circular aos Reitores das Universidades católicas para o envio
do "Relatório sobre as respostas das Universidades católicas a respeito das
atividades promovidas em relação aos bens culturais da Igreja", 10 de Setembro
de 1994, Prot. n. 239/89/18). A Congregação para a Educação Católica pediu à
Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja que dedicasse dois números
da revista Seminarium ao tema A Formação dos Seminaristas na Valorização
Pastoral dos Bens Culturais Eclesiásticos [Cf. Seminarium N.S. 39/2-3 (1999)].
Tal volume foi enviado às Conferências Episcopais do mundo inteiro.

50) Cf. PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA A CONSERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO


ARTÍSTICO E HISTÓRICO DA IGREJA (Atualmente, PONTIFÍCIA COMISSÃO
PARA OS BENS CULTURAIS DA IGREJA), Carta circular aos Ordinários
diocesanos sobre a formação dos candidatos ao sacerdócio sobre os bens
culturais, op. cit., n. 22. O documento recorda, para além de outras coisas, a
responsabilidade da Igreja em relação ao patrimônio artístico "como parte
integrante do seu ministério a promoção, a conservação e a valorização das mais
excelsas expressões do espírito humano nos campos artístico e histórico".
158

51) Neste sentido, a Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma iniciou em 1991


um "Curso Superior para os Bens Culturais da Igreja". Tal exemplo foi seguido
por outras iniciativas análogas em Paris (França), Lisboa (Portugal), Cidade do
México, Bréscia (Itália), etc. Nos centros académicos estatais de muitas Nações
organizaram-se também planos de estudos específicos da museologia, que
poderiam constituir um apoio válido para a preparação geral dos agentes dos
museus eclesiásticos.

52) Cf. JOÃO PAULO II, Discurso de 25 de Setembro de 1997, op. cit., n. 4.

53) JOÃO PAULO II, Discurso aos participantes no Congresso Nacional Italiano
de Arte Sacra, 27 de Abril de 1981, op. cit.
159

Inventariação dos bens culturais


dos Institutos de Vida
Consagrada e das Sociedades
de Vida Apostólica: algumas
orientações práticas
(15 de setembro de 2006)
160

Inventário dos Institutos de Vida Consagrada


e das Sociedades do Patrimônio Cultural da Vida Apostólica:
algumas orientações práticas

Cidade do Vaticano, 15 de setembro de 2006

Prot. N. 14/06/4

ReverendoPadre,
Reverenda Madre,

É um fato bem estabelecido que os bens de valor cultural no cuidado dos


Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica constituem uma
parte significativa do notável patrimônio histórico-artístico da Igreja. Eles
abrangem “antes de tudo, a riqueza artística da pintura, escultura, arquitetura,
mosaico e música, colocada a serviço da missão da Igreja. A estes devemos
acrescentar a riqueza de livros contidos nas bibliotecas eclesiásticas e os
documentos históricos preservados nos arquivos das comunidades
eclesiásticas. Por fim, este conceito abrange as obras literárias, teatrais e
cinematográficas produzidas pelos meios de comunicação de massa” (João
Paulo II, Discurso aos membros da Pontifícia Comissão do Patrimônio Cultural
da Igreja12 de outubro de 1995, n. 3: L'Osservatore Romano. Edição semanal em
inglês, 25 de outubro de 1995, p. 5).

Desde o início de sua fundação, esta Pontifícia Comissão fez todos os


esforços para instilar entre os Institutos e as Sociedades um senso de
responsabilidade e atenção vigilante ao seu próprio patrimônio histórico e
artístico; em especial através da carta circular O Património Cultural da Igreja e
Famílias religiosas, em 10 de Abril de 1994. Nessa carta e em outros documentos
do inventário de bens de valor cultural tem sido apontada como sendo
primário e essencial na assistência ao trabalho de tutela judicial, de proteção
contra os crimes de roubo; alienação; ou expropriação, de manutenção de bens
culturais, e também de melhoria eclesial. Tal inventário também foi objeto de um
documento anterior da Pontifícia Comissão. O inventário e o Catálogo do
Patrimônio Cultural da Igreja: Uma Tarefa Necessária e Urgente, 8 de
dezembro de 1999, que, embora seja dirigida aos Ordinários diocesanos, também
é válida para os Religiosos.

No entanto, apesar da resposta positiva e colaboração por parte de vários


Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica - alguns dos quais
desenvolveram disposições internas completas - muitos outros ainda não
conseguiram assumir a tarefa devido à falta de pessoal e fundos adequados para
esse fim.

O risco que surge de tal situação é fácil de imaginar. Se considerarmos,


entre outras coisas, o fechamento mais frequente das casas religiosas, ocorre um
161

dilema em relação ao destino não apenas das obras de arte e do mobiliário


litúrgico, mas também de bibliotecas e arquivos inteiros. Em mais de alguns
casos, essa situação é resolvida através de uma irreversível difusão desses bens
de valor cultural no mercado de antiguidades, o que causa grande dano ao
patrimônio da Igreja e viola diretamente os regulamentos canônicos e civis.

Espera-se, portanto, que com um senso de responsabilidade, os Superiores


Maiores tomem as medidas necessárias para organizar um inventário de itens de
arquivo, bibliotecas e obras de arte em sua posse, localizados na Casa Mãe ou em
casas regionais. Particular atenção deve ser dada aos bens de valor cultural das
casas religiosas reprimidas. A importância de tal inventário é destacada em
lata. 1283, 2 ° CIC e lata. 1025 CCEO.

Para as comunidades religiosas com a casa geral na Itália, é necessário


seguir as instruções dadas pela Conferência Episcopal Italiana (CEI). Para
facilitar a comunicação entre esses dois grupos, antes de escrever esta carta, esta
Pontifícia Comissão consultou o CEI, que em colaboração com o Istituto Centrale
per il Catalogo e la Documentazione ( ICCD ) iniciou, há alguns anos, um
programa de inventário de mobiliário eclesiástico de valor artístico e histórico.

Com referência à proteção da arte sagrada, a participação de Superiores


religiosos não é esperado de acordo com as 1974 normas Tutela e Conservazione
del patrimonio storico artístico della Chiesa em Italia ( cf . N. 6) ( Enchiridion
della Conferenza Episcopale Italiana , II, Bologna 1985, pp. 448-460). Isto é
delineado mais adiante no acordo entre o Ministro de Bens e Atividades de Valor
Cultural e o Presidente do CEI (18 de abril de 2000) que se refere à conservação
e consulta dos arquivos de interesse histórico e bibliotecas de Agências
Eclesiásticas e Instituições. Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida
Apostólica estão incluídos neste acordo (Enchiridion CEI, cit., pp. 1419-1441).

Portanto, com base nessas orientações, a CEI garante que o software de


computador preparado pelos Escritórios e Serviços do Secretário Geral para fins
de inventário de bens eclesiásticos de valor cultural seja livremente colocado à
disposição daqueles Institutos e Sociedades que solicitarem isto.

Juntamente com o software de inventário de bens e arquivos históricos e


artísticos, o Escritório Nacional de bens eclesiásticos de valor cultural, sempre
que possível, gostaria de oferecer aos Institutos e às Sociedades acima
mencionados, formação de pessoal, assistência técnica e possibilidade de
continuidade renovação por meio do Fórum sui beni culturali ecclesiastici . Além
disso, um programa relacionado às bibliotecas eclesiásticas já está disponível no
site do Ufficio Nazionale Beni Culturali Ecclesiastici .

As provisões econômicas são previstas pelos termos do art. 1, § 3, c)


do Disposicionioni concernenti la concessione di contributi finanziari della
162

Conferenza Episcopale Italiana per i beni culturali ecclesiastici e art. 1, § 2 do


executivo relativo Regolamento (“Notiziario della Conferenza Episcopale
Italiana” 9/2003, pp. 279-295). Os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades
de Vida Apostólica, legitimamente reconhecidos, podem alocar doações para a
conservação e consulta de arquivos gerais e provinciais, bem como bibliotecas de
particular importância, abertas ao público. Em relação aos pedidos de subsídios,
as solicitações devem ser feitas pelo Superior Maior ao Ordinário da Diocese em
cujo território a casa religiosa está localizada.

O Secretário Geral do CEI , e particularmente o Ufficio Nazionale per i


Beni Culturali Ecclesiastici, estão disponíveis para os Institutos e Sociedades
acima mencionados, que podem requerer assistência. Para informações mais
detalhadas, entre em contato com o Centro Servizi Progetti Informatici
dell'Ufficio Nazionale per i Beni Culturali Ecclesiasticido CEI em (número verde)
848.580.167 (Dott.ssa Francesca M. D'Agnelli). A principal pessoa de contato é o
Rev. Don Stefano Russo, Via Aurélia 468, 00165 Roma, e-mail:
unbc@chiesacattolica.it

No caso em que a Casa Geral não esteja localizada na Itália, mas esteja
conectada à Itália por meio de Províncias ou casas reconhecidas, o CEI também
oferece aos Institutos e às Sociedades acesso a software de computador. Como
regra geral, é apropriado adotar o sistema de inventário em uso no país em que a
Casa Geral está localizada ou em que o Instituto tem uma presença
importante. Levando em consideração, entretanto, que nem todos os países têm
um sistema disponível de inventário, particularmente com referência à tecnologia
de computadores, seria preferível recorrer àqueles que possuem sistemas
confiáveis e confiáveis.

Finalmente, no caso de fundos domésticos insuficientes ou da


impossibilidade de subsídios civis, recomenda-se a aplicação a Corporações
Internacionais ou Fundações para assistência econômica.

Obrigado pelo trabalho que você assume ao proteger o patrimônio


histórico e artístico de seu Instituto e por levar em consideração as
recomendações desta carta. Garantindo-lhe a disponibilidade desta Pontifícia
Comissão no caso de ser necessária assistência ou esclarecimento, permaneço

Sinceramente seu em Cristo

Mauro Piacenza
Presidente

Prof. Don Carlo Chenis, Secretário da SBD

Reverendos Superiores Maiores


dos Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica
163

Alexsandro Lopes da Costa nascido na cidade de Goianinha aos 27 de agosto de


1995, cursou todo o ensino médio em escola pública da cidade. Entrou para o
seminário de São Pedro na capital do estado no dia 30 de janeiro de 2016, cursa
bacharelado em filosofia pela faculdade Claretiano.

Crônica I
164

Os bens culturais inseridos na festa dos Mártires

“Mártires da fé, filhos do Rio Grande, homens e


mulheres, jovens e meninos, pelo bom pastor
deram o seu sangue, nossa Igreja em festa canta
os seus hinos.”
(Hino dos Mártires)

No dia 03 de outubro deste ano, aconteceu no distrito de Uruaçu um


grande momento, demonstração de muita fé e amor a Deus, em nossa igreja
arquidiocesana de Natal, se celebra o dia dos padroeiros do Rio Grande do Norte,
canonizados no dia 15 de outubro de 2017 pelo Santo Padre o Papa Francisco no
Vaticano. Este evento acontece todos os anos, trazendo gente de todas as partes
do rio grande do norte, homens, mulheres, crianças e jovens, pessoas de fé que
vão ter com Cristo um momento de encontro através do testemunho de homens
e mulheres que um dia, livremente deram sua vida por Cristo e sua Igreja. Os
mártires são para nós estas testemunhas do amor de Deus e da defesa da fé
católica em nosso país.
O evento teve início pela manhã onde muitos fiéis puderam participar de
missas celebrada no local do morticínio em Uruaçu, o evento foi marcado por
muitos momentos bons, como louvor, oração, atendimento de confissão para
todos aqueles que queriam receber o sacramento do perdão, caravanas de muitas
paróquias de nossa Arquidiocese se fizeram presente desde o momento em que o
evento começou pela manhã, o movimento foi grande, pessoas animadas,
cantando, rezando, demostrando sua fé e seu amor por Cristo como também pelos
Santos Mártires. Ao chegarmos no evento, pudemos contemplar uma grande
multidão que com muita Fé, foi certamente pedir ou agradecer a intercessão dos
Santos Mártires de Uruaçu neste dia festejado em nossa Igreja particular de
Natal, a devoção cada vez mais cresce, o povo cada vez mais ama, por reconhecer
a presença de Cristo na vida e testemunho deste povo que deu sua vida por a amor
a Cristo e a Igreja.
Muitos cantores católicos do nosso estado estiveram presentes, o dia foi
longo, cheio de muito louvor e alegria, foi gente de todo lugar no intuito de louvar
a Deus e rezar diante das Imagens dos Mártires. Ao percorrer todo o campo onde
as pessoas estavam era nítida a alegria que brotava daquele povo e nos
contagiava, o povo canta, reza e espalha alegria. Durante toda a celebração pude
perceber como os bens culturais da Igreja estavam presentes naquele momento
festivo, na música pude sentir a presença dos bens de forma que podíamos
compreender como os bens imateriais se apresentam em nossas celebrações. Os
mártires são para o nosso povo, sinal de esperança e fé, pois contemplamos neles
a real presença de Deus, no testemunho temos o sinal visível de que em nenhum
momento de nossa vida Cristo se faz distante de nós. Durante todos estes anos
que eu participo das celebrações dos mártires nunca tinha parado para pensar em
cada parte da celebração ou mesmo no evento, em tudo aquilo que acontece
durante todo o dia, a festa é linda, e a cada ano percebe-se o quanto eles estão
165

sendo conhecidos. O que são os bens culturais da Igreja? Podemos entender como
tudo aquilo que no decorrer dos séculos foram instrumentos de evangelização.
Muitos são os tipos de bens, instrumentos e formas que aos poucos, homens e
mulheres, foram descobrindo ou mesmo criando para melhor fazer com que as
pessoas conhecessem a Deus. Hoje olhando para o passado podemos ter certeza
que muito foi feito pela evangelização, muito se criou para que o evangelho não
ficasse simplesmente na mera teoria, mais que o evangelho de Cristo fosse
verdadeiramente pratica, testemunho e ação.
Podemos avaliar por partes todo o evento que em cada detalhe ou
momento fazia aparecer explicitamente algum bem cultural, por exemplo, a parte
inicial, a música em forma de louvor, mostrava-nos a presença ativa dos bens
imateriais que são verdadeiras joias para a nossa igreja. A música é um dos
grandes meios de evangelização, pois ela penetra de uma forma profunda em
nosso ser e nos leva a transcender, está é a sua grande função. Santo Agostinho
nos diz que: “quem canta reza duas vezes”. Este bem imaterial se faz presente
desde os primórdios de nossa evangelização.
Saindo da música que foi algo existente em todo o evento, podemos agora
ir para o ponto mais forte do evento que foi a Missa, nela a presença dos bens se
tornou muito forte, podemos até dizer que quase todos os bens, vamos por parte,
no início da celebração, temos as vestes usadas pelos sacerdotes, paramentos que
certamente foram confeccionados para a grande festa da canonização dos santos
ano passado, paramentos que são usados para que os sacerdotes possam celebrar,
faz parte da tradição da igreja o uso destas vestimentas. Cada uma tem seu
profundo significado, e sentido real na celebração eucarística. Além dos
paramentos usados tivemos os objetos litúrgicos como, altar, lugar onde o
sacrifício, a missa acontece e tem para a igreja todo o significado divino, Jesus se
fará presente naquele lugar pelas mão do sacerdote, que agi na pessoa de Cristo.
Além do altar tínhamos o ambão, lugar de onde se proclama os textos sagrados
da missa, a Palavra do próprio Deus se faz ser ouvida por todos aqueles que
participam daquele momento celebrativo, rico em significados e espiritualidade.
Este momento vivido no dia 03 de outubro no vilarejo de Uruaçu, lugar
que foi testemunha autentica daquele triste dia, onde a perseguição o ódio e a
buscar por dominar, tirou a vida de tantos cristãos, que mesmo vendo a morte à
sua frente não tiveram medo de perderem suas vidas, mas a deram como oferta
de livre vontade, para que Cristo torna-se conhecido e amado pelo sangue destes
inocentes, não tem testemunho maior do que ser capaz de dar sua vida por Cristo
assim como ele próprio um dia deu a sua pela salvação de todo o gênero humano.
Sendo assim posso afirmar que os bens culturais, sejam eles matérias, imateriais,
móveis e imóveis, estavam e sempre vão estar presentes em todos os momentos
de nossa história, desde os primórdios até os dias atuais. São meios visíveis de
evangelização, a festa dos mártires que acontece todos os anos usa destes bens
para comunicar a todos a boa nova do evangelho de Cristo. Na celebração usa-se
tanto os bens móveis, como é o caso dos vasos sagrados, paramentos que são as
vestes dos sacerdotes, como os bens imóveis, o altar, mesa da celebração como já
166

citei a cima, o próprio monumento onde acontece a celebração é um bem imóvel


que marca naquele lugar a presença da igreja. No cântico, leituras e orações
sentimos a presença dos bens imateriais, que são passados de geração em
geração.
Em nossa disciplina de bens culturais da igreja tivemos a oportunidade de
criar em nós um olhar que faz refletir, aquilo que antes era algo comum, tornou-
se agora significativo pois trazemos em nós a importância de cada momentos e
gestos. Os bens culturais da igreja com suas formas diversas se faz presente em
tudo, desde a ação do povo de Deus até as ações do próprio sacerdote na
celebração vivida, foi o que pude perceber e sentir a importância dos bens
culturais que não é algo só nosso que vivemos na atualidade, mas sim é algo que
pertenceu ao passado, pertence a nós do presente e pertencerá a toda uma
geração futura que viverá tudo aquilo que hoje vivemos, não podemos deixar
esquecido ou mesmo inutilizado tantos meios e formas de evangelizar que chegou
até nós e certamente continuará a existir.
No momento final da celebração o arcebispo de Natal, Dom Jaime Vieira
Rocha, falou como pastor a todos os fiéis da importância destes 30 santos para a
nossa igreja particular de Natal, mas também para toda igreja que conosco se
alegra por termos homens e mulheres que estão intimamente ligados a Deus para
pedir por nosso povo, levando assim nossas tristezas e alegrias, principalmente
neste momento inserto que o nosso país vive, onde como igreja devemos rezar e
acima de tudo buscarmos defender todos aqueles que na maioria das vezes não
tem quem os defenda. A igreja assim como os santos mártires deve ser esta
testemunha vida na defesa do pobre, do excluído buscando sempre cuidar de
todos e lutar para que todos tenham dignidade, tendo assim seus direitos
garantidos e suas vidas preservadas.
Os bens culturais da igreja são meios de perceber a ação da história no
percurso da evangelização, tendo como ponto alto o conhecimento de Cristo,
nosso Sumo e Eterno Sacerdote.
Encerro minha crônica dizendo que, a celebração foi para mim uma
verdadeira experiência, pois nunca havia olhado ou mesmo vivido um celebração
observando atentamente os bens culturais como forma de estudo, na maioria das
vezes eu vivia as celebração mais como forma de oração, mas foi uma experiência
profunda e muito rica em aprendizagem.
167

Nascido em Natal/RN, aos 02 de junho de 1997, George Vinícius é o filho único


da senhora Zuleide Domingos Lima e do senhor George Ferreira da Silva. Foi
Batizado aos 23 dias do mês de Novembro de 1997. Em 18 de outubro de 2009
o Sacramento da Eucaristia e em 27 de março de 2011, a Crisma. Iniciou os seus
estudos no Pequeno Davi, no Bairro das Quintas de 2000 a 2002; em 2003 a
2006 no Jardim Escola Meu Sonho; 2007 a 2008 na Escola Estadual Professor
Theodulo Câmara; 2009 a 2012 na Escola Municipal Ferreira Itajubá. Em 2013
a 2015 o Ensino Médio, no Instituto Padre Meguelinho. No dia 30 de janeiro de
2016 ingressa no Seminário de São Pedro, no curso Propedêutico, em Emaús.
Atualmente é Universitário em Filosofia pelo Centro Claretiano.

Crônica II
168

A marca vermelha na Igreja – Uruaçu e Cunhaú

Há dois fatos no mundo verdadeiramente fatigantes: testemunhar com


tenor célebre e conservar a memória. A sensibilidade do povo é algo fascinante
que eleva, em sua simplicidade, um pleito de louvor a Deus, assim como fizera os
nossos Santos Mártires, no século XVII, por ocasião da invasão holandesa no
Brasil, oferecendo-se a si, ou seja, as suas vidas – regando com o seu sangue as
sementes de fé que brotariam, a partir do testemunho convicto e verdadeiro em
defesa da fé, em um cenário caótico, no qual predominava-se o Odium Fidei
(Odeio a Fé).
Tudo começou quando os holandeses tomaram a iniciativa de invadir o
nordeste brasileiro para cobrar as dívidas dos portugueses que construíram engenhos
com dinheiro emprestado pela Holanda.
– As sementes deram frutos, indagou Raimundo?
- O sangue derramado por nossos predecessores, efetivamente, regou a fé do
nosso povo, indagou Clara?
- O povo conhece a sua história de fé, indagou Alvoro?
Responderemos a estas interpelações, trazendo, o último dia, 03 de
outubro, uma quarta-feira, em Uruaçu uma multidão de pessoas oriundas de
várias partes da nossa Arquidiocese. A história garante-nos que os heróis jamais
são esquecidos, como afirma o Getúlio Vargas, em sua carta-testamento “(...) saiu
da vida e entro na história”.
Analisando bem, na Igreja não é diferente, quem testemunha a sua vida
em favor de Cristo, buscando unir-se a Ele por meio de seu sacrifico eterniza-se
para sempre na lista dos santos, encorajando a fé das novas gerações, por meio
da história que ouvimos, desde casa, passando pelo amadurecimento quando
concretizamos os nossos passos na caminhada cristã e, no entanto, nos
deparamos com a Tradição, concatenando-a a nossa realidade.
Três séculos já se passaram após o martírio de nossos irmãos em Cunhaú
e Uruaçu. Delinear a história objetivamente é muito difícil, principalmente
quando se trata de um caso controvertido como este, com muitos pormenores
desconhecidos. Mas afirmar, como foi feito por certos porta-vozes, que as
barbaridades de Cunhaú foram perpetradas a mando do próprio governo
holandês, e ainda por cima orientadas por um pastor evangélico, simplesmente
não corresponde à verdade.
Em suas inúmeras pesquisas, o monsenhor Francisco de Assis Pereira (IN
MEMORIAN) defendeu para os teólogos do Vaticano que o caso potiguar se
encaixava nas três características para beatificar vítimas de um massacre: morte
violenta, imposta por ódio à fé e livremente aceitas pela vítima.
169

O processo envolveu a consulta a mais de 50 autores de história no país e


na Europa. Auxiliado pelo Espírito Santo, Monsenhor Assis não permitiu que os
nossos mártires fossem abandonados no lixo da história.
- Lixo da história?
– Sim, apagados... talvez, encontraremos nas entrelinhas o primeiro milagre
realizado pelos mártires: inspirar o coração do monsenhor Assis, dando-lhe a
coragem e ousadia de traze-los ao nosso conhecimento.
Havia, entretanto, poucas informações a respeito dos mártires e, por isso,
o monsenhor Assis como diz no dito popular “Bateu fundos e mundos” para
aumentar o conhecimento e traze-los ao povo – és, talvez um grande desafio.
– Por que?
- Um desafio de encontrar uma metodologia de catequisar o nosso povo, ou seja,
criar uma devoção popular.
Encontrou-se desafios, mas aos poucos, foi-se achando as soluções. Por
conseguinte, tendo Monsenhor Assis concluído os seus trabalhos foi a vez de leva-
lo ao conhecimento da santa Sé e em março de 2000, sob o governo de Dom
Heitor de Araújo Sales que os mártires foram beatificados em praça pública pelo
então Papa – hoje santo – João Paulo II.
Em homenagem ao morticínio, foi erguido um monumento na localidade de
Uruaçu, próximo aonde ocorreu o martírio, denominado 'Monumento aos Mártires',
que foi inaugurado no dia 05 de dezembro de 2000 com a presença de
aproximadamente 15 mil pessoas, incluindo diversas autoridades eclesiásticas e
governamentais.
O local abrange uma área de dois hectares, doada pela família Veríssimo,
proprietária da fazenda. O Monumento aos Mártires foi projetado pelo arquiteto
Francisco Soares Junior, tendo capacidade para receber 20 mil peregrinos. Atrás do
palco há um painel medindo 30 metros. O Capelão do monumento é o Padre Antônio
Murilo de Paiva.
Dezessete anos mais tarde, em 15 de outubro de 2017, o Papa Francisco os
declarou santo. Para tanto, diante da vivencia durante o último dia 03 de outubro,
encontramos em primeiro lugar a sensibilização do povo para com os mártires,
ou seja, a fé, revivendo o verdadeiro sentido do martírio, louvando a Deus. Apesar
do sol, mas o amor vence qualquer obstáculo.
- Mas é necessário tanto sacrifício?
- Não nos cabe julgar, simplesmente viver, pois como diz Cristo “Quem quiser
salvar a sua vida, perdê-la-á” (Mc 8, 35).
- Sim. Então o que poderemos encontrar como bem cultural? Disse Claro.
- A sensibilização do nosso povo; as orações; as fotos dos mártires; o terço;
devocionário; os livros que contam a história; as casulas e estolas padronizadas e
o maior de todos a santa Missa, respondeu Vinícius.
170

- Como isso pode ser aplicado? Poderia explicar? Replicou Clara.


- Claro. Para aumentar a devoção aos nossos santos que eram desconhecidos e,
tendo em vista que, não há nada como relíquia, viu-se a necessidade de se criar
uma imagem para os mártires, aplicado de forma evangelizadora para
demonstrar e retratar o martírio vivido por eles, na missa, torna-se algo visível
para o encorajamento da fé, respondeu Vinícius.
Contudo, no dia 03, pudemos observar a forte procura das pessoas em
buscar conhecer a história, tendo em visto, a necessidade ler... “Pois só se ama
aquilo que conhecemos”.
- Sem contar, também, a forte procura das pessoas em devocionários! Afirmou
Alvoro.
- Pois é. Com o devocionário as pessoas vivificam a fé, pois neles contém na forma
de oração a história, os hinos, ladainhas e tantas coisas que podem favorecer no
conhecimento. O nosso Arcebispo Dom Jaime Vieira Rocha, preocupado com o
seu rebanho e na devoção aos santos Mártires elaborou com devocionário, no qual
podemos encontrar o que acima citamos, ditou Vinícius.
No entanto, outro ponto visível são os hinos compostos para a santa missa
que trazem em si um caráter catequético inestimável, pois une a música que
anima, trazendo a letra com a história e orações.
Contudo, a música é sem dúvida um viés bastante importante para uma
boa evangelização, durante o dia 03 de outubro, 95% era música, provando, assim
que importância da mesma. Outro fato interessante é a santa Missa, na qual
vimos um mar valioso de bens culturais, patrimônios entre outros.
A começar pelos paramentos, trazendo em si uma unificação, ou seja, uma
identidade a celebração, transmitindo a história, a cultura do nosso povo, bem
como, a felicidade de transmitir o Evangelho. Os hinos voltados para o
simbolismo do martírio, uma forma poética de compreender o seu significado.
Podemos destacar, portanto, a homilia do nosso Arcebispo Dom Jaime,
enfatizando “(...) a alegria do cristão deve está completada no sofrimento, como
forma de santificação por causa dos nossos irmãos. Não obstante a nossa
realidade, quantos irmãos e irmãs, derramam sangue em defesa da fé, abrindo
os caminhos para a chegada de novos cristãos”, disse Dom Jaime.

O valor da homilia é algo importante, pois quem fala, deve falar com
autoridade – não no sentido de ser dono, mas de ter propriedade do que diz e,
antes de tudo, viver o que se prega. Quem profere a homilia deve realizar bem o
seu ministério. Aquele que prega, o sacerdote, o diácono, o bispo, oferecendo um
real serviço a quem participa da Missa, mas também aqueles que ouvem devem
fazer a sua parte. Antes de tudo prestando a devida atenção, assumindo, isto é, as
justas disposições interiores, sem pretensões subjetivas, sabendo que cada
pregador tem méritos e limites”.
171

Portanto, no dia 03, os bens culturais foram trabalhados, a partir dos


verbos: ver e ouvir. Os meus sinceros cumprimentos. Há sopro romântico, há
imaginação, há ardência nesta decoração, fiz com o ar dogmático dos críticos
ignorantes de pintura.
Ingenuamente, Clara olhou para mim e, primeiro homem que não se
julga célebre neste país, balbuciou:
— Eu não sei nada… Isso está para aí…
Se soubesse fazer alguma coisa de valor até ficava triste — só com a ideia
de que um dia talvez a fé em nossos mártires não fosse bem valorizada…
172

Sou José Carlos Arcelino da Silva, nasci aos 02 dias de novembro de 1996 do
ano do Senhor, tenho 22 anos e estou cursando bacharelado em Filosofia. Sou -
estou - seminarista do Seminário Arquidiocesano de São Pedro na Cidade do
Natal.

Crônica III
173

CRÔNICA

O acontecimento devocional, no monumento erguido em honra aos


Mártires de Cunhaú e Uruaçu, em São Gonçalo do Amarante/RN, mostra a
importância desses Santos e Santas para fé do povo do Rio Grande do Norte, se
não for forçoso dizer, para todo Brasil, tendo em vista que eles são os
Protomártires do Brasil.
Pode-se observar muitas manifestações de fé por parte do povo, que
encontram nesses Santos exemplos de vida e fé cristã. No qual, em nome de Deus
não negaram sua fé primeira, mesmo diante da morte cruenta provocadas pelos
seus algozes.
Anualmente no dia 03 de outubro, é organizada uma intensa programação
religiosa, com shows de cantores religiosos, Missas, Adoração ao Santíssimo
Sacramento e Confissões. Todos estes momentos ajudam no enriquecimento da
fé e na devoção aos Mártires. São distribuídas tendas, em todo o espaço do
monumento, com artigos religiosos: livros, devocionários, terços, camisas como
também comidas e bebidas.
Com o passar do dia, observa-se muitas formas de expressão devocional e
relatos de graças alcançadas por intercessão dos mesmos. Pessoas que no cruzeiro
dirigem-se contritamente e acendem velas, amarram fitas e rezam
profundamente agradecidas pelas bênçãos em suas vidas, outras vem pedir aos
Mártires o auxílio na caminhada rumo ao céu, pois a caminhada é muito difícil
em alguns momentos faz-se necessário recorrer aos auxílios Divinos, por
intermédios dos Santos e Santas de Deus.
Durante o evento pude participar ativamente da fé que envolve aquele
devoto povo que expressa publicamente a sua estima, carinho e devoção pelos
Protomártires. Os atos celebrativos e devocionais foram de muito entusiasmo e
ânimo, com os cantores que com seu profissionalismo que lhes são próprios e
envoltos da mesma fé que reunira aquela porção do povo de Deus, transmitiram
a mensagem evangélica tendo como base de suas reflexões o martírio e os
exemplos de vida dos cristãos mortos pela fé nos primórdios de nossa
evangelização.
A Santa Missa foi o ponto ápice de todo o evento. Vê o povo em pé com sua
atenção voltada as palavras proferidas pelo Arcebispo Dom Jaime Vieira Rocha,
que exortava o povo a terem como modelo de fé, de coragem, de garra os Santos
Brasileiros. Foi muito gratificante participar dessa vivência devocional, poder
experimentar a mesma fé e a mesma caridade que inflamava e continuar a
inflamar os corações daquelas pessoas que buscam cada dia mais a santificação
do corpo e da alma, tendo os mesmos como portadores do canal da graça de Deus
em suas vidas.
A experiência e a vivência da fé são condições inerentes ao cristão
autêntico que busca no decurso do tempo aproximar-se de Deus e de suas
maravilhas. Encontrar-se com Deus é encontrar-se com o próprio Amor, Amor
este que entregou seu Filho único à expiação dos nossos pecados para libertar-
174

nos dos grilhões da escravidão da morte, e de tudo que nos afasta da comunhão
com Ele. Os cristãos veem nos Santos um exemplo a ser seguido e imitado para
chegar até Deus, visto que os eles são pessoas com todas as limitações e condições
inatas ao ser humano. O amado povo de Deus que luta contra o pecado
diariamente, contra tudo que causa divisão, contra tudo que o separa do convívio
com Deus, suplica ajuda aos Santos para manter-se fiel no cumprimento da
bondade dos filhos do Pai amabilíssimo. Os Santos Mártires de Cunhaú e Uruaçu
são modelos de fé autentica para todo o Brasil, pois motivados pelos Padres André
de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, não negaram sua fé ao Deus altíssimo,
sendo verdadeiramente cristãos mortos pela fé em Deus, pela fé Católica.
As diversas formas de expressão e veneração encontrada na programação
em honra aos Mártires de Cunhaú e Uruaçu são verdadeiras manifestações
devocionais, no qual o povo eleva o seu pedido por meios de orações, cânticos,
gestos, palavras e ações, dando a certeza que estes mártires são dignos
representantes do povo brasileiro.
Depois de descrever como foi o desenrolar do evento, como o povo
participou ativa e fervorosamente do mesmo, a importância dos Santos em sua
vida e como a devoção aos mártires tem contribuído no crescimento espiritual
das pessoas, pode-se fazer algumas observações quanto aos Bens Culturais
materiais e imateriais da Igreja e o seu envolvimento com a fé do povo aos
Protomártires brasileiros.
Com um olhar mais cuidadoso e/ou técnico, notam-se muitas maneiras de
apresentação dos Bens Culturais da Igreja no evento em honra aos Santos
mártires.
O envolvimento dos padres em função da conservação da memória e da
propagação da devoção é de fundamental importância, pois “a eles foi atribuído
de maneira muito especial o trabalho sábio e esclarecido de conservação dos bens
da comunidade” (CARTA PASTORAL, 1992. pág. 3). Com isso, é louvável ver a
verdadeira interação e preocupação do clero com os Bens Culturais da Igreja,
fazendo com que a sensibilidade do povo, sobre os mártires, tenha crescido
paulatinamente. Para tanto, não somente o clero tem se envolvido para esse
crescimento, mas o próprio povo devoto que conduzidos pela fé aos Santos,
trabalham incansavelmente na propagação, difusão e transmissão devocional dos
Santos Brasileiros.
Os Bens da Igreja, como supracitado, são divididos em materiais e
imateriais, no monumento encontramos os dois tipos de Bens. No primeiro veem-
se as camisas dos mártires, os quadros, os paramentos e objetos litúrgicos, o
monumento, o cruzeiro e o espaço geográfico. Todos esses Bens são de fácil
percepção visual, eles mostram o tamanho da fé do povo pelos mártires que estão
atrelados as experiências de fé do povo. No segundo nos deparamos com as
músicas aos Santos Mártires, os terços, os relatos de graças alcanças, os grupos
de oração aos Mártires e a Santa Missa, os Bens imateriais estão muito enraizado
nas idiossincrasias dos diversos povos, daí surgem as mais diversas formas e
maneiras de expressão de fé. No entanto, deve-se compreender o intento que é a
175

evangelização e trabalhar a sensibilidade pastoral dos Bens Culturais para vida


do povo e da Igreja, pois do contrário “as consequências negativas de uma falta
de sensibilidade estética e pastoral na gestação dos Bens Culturas são, em muitos
casos, evidentes” (CARTA PASTORAL, 1992, pág. 7). Essas evidências podem
ser destacadas como roupo, vendas ilegais, má restauração e total desvalorização
dos mesmos.
O evento acontece num período de tempo, logo, passa a fazer parte da
História Missionária devocional da Arquidiocese de Natal, portanto deve ser
conservada na história da vida do povo e da Igreja porque “a memória histórica
constitui parte integrante da vida de toda comunidade” (CARTA PASTORAL,
1997. pág. 8). Decorrente disso, são elaborados documentos: artigos, jornais,
revistas, músicas, vídeos referentes aos mártires e a fé do povo. Tais documentos
devem ser arquivados, protegidos e preservados em locais adequados, no caso, no
arquivo da (Arqui) diocese e/ou da paróquia, pois ele “cultiva a memória da vida
da Igreja e manifesta o sentido da Tradição” (IDEM, pág. 7). O Arquivo
aparentemente parece ser um amontoado de papéis velhos, que não servem para
nada a não ser guardar poeira e fungos, essa seria a visão de uma pessoa que não
gosta de história e/ou não tem conhecimento da função do Arquivo, pois bem, o
mesmo tem uma função pastoral para a vida da Igreja e da comunidade:
No espírito da Igreja, os arquivos são lugares de memória
da comunidade cristã e armazém de cultura para a nova
evangelização. Assim, eles próprios são um bem cultural
de importância primordial, cujo mérito especial reside em
registrar o caminho seguido pela Igreja ao longo dos
séculos nos vários contextos que constituem sua própria
estrutura (IDEM, pág. 4).

Portanto, mas que guardar papéis “velhos”, o Arquivo conserva a vida da


Igreja e da comunidade ao longo dos séculos. O mesmo nos auxilia como
ferramenta de pesquisa, essa pesquisa pode ser para resgatar algo que tenha se
perdido com o passar do tempo, como a própria identidade paroquial ou (Arqui)
diocesana, a história do povo, as particulares contidas em cada comunidade.
Portanto, a existência do Arquivo é a existência da identidade da comunidade.
Outra iniciativa que merece ser ressaltada é o inventário dos Patrimônios
históricos culturais da Igreja. Veja bem, o monumento dos Mártires de Cunhaú e
Uruaçu é um patrimônio histórico cultural que deve ser preservado e o inventário
é uma das formas para manter salvo e registrado os Patrimônios eclesiásticos:

Inventário é o primeiro passo na atividade de


conhecimento, proteção e valorização do patrimônio
histórico-artístico de uma comunidade eclesial. De fato,
essa operação dificulta a dispersão desse patrimônio, pois
proporciona um suporte material através do qual se
conserva sua memória e, por outro, registra
desenvolvimentos, transformações, desaparecimentos e
aquisições (CARTA PASTORAL, 1999, pág. 13).
176

Como pode-se observar o inventário tem função muito importante para


conservação da memória da Igreja e do povo, porquê a partir do momento que
são inventariados todos os patrimônios históricos-artísticos-culturais dos Santos
Mártires de Cunhaú e Uruaçu haverá uma maior segurança, uma base de quantos
e quais são os patrimônios existentes, um controle de como salvaguardar os
mesmos, pois o inventário é um suporte à valorização, contextualização e ao
reconhecimento de objetos do patrimônio histórico artístico, além de evitar a
dispersão desnecessária dos mesmos e organizá-los em estoques para melhor
facilitar o trabalho de pesquisa e disponibilização ao público.
Junto ao trabalho do inventário tem a catalogação que vem auxiliar na
pertença e posse dos Patrimônios e Bens Culturais da Igreja uma vez que a
catalogação “é o resultado maduro de uma iniciativa cognitiva da qual, o
inventário é o estágio preliminar indispensável” (IDEM, pág. 10). Portanto, a
inventariação e a catalogação dão suporta, segurança e posse as instituições dos
seus bens.
Daí surge à necessidade de catalogar e inventariar os Patrimônios
históricos e Bens Culturais da Igreja. A Carta Pastoral: A necessidade e urgência
do inventário e catálogo de Patrimônio Cultural da Igreja no diz que:

O patrimônio histórico e artístico da Igreja é a prova


concreta de habilidade e criatividade artística expressa
pela comunidade cristã à perfeição da beleza para os
lugares de culto, a piedade, vida religiosa, estudo e
memória (IDEM, pág. 5).

A inventariação e a catalogação são procedimentos primordiais à


conservação dos Patrimônios históricos e artísticos da Igreja.
No espaço que acontece o evento dos Mártires de Cunhaú e Uruaçu tem as
imagens dos Mártires, André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, presbíteros,
e Mateus Moreira, leigo. Tais imagens são referências para a fé do povo, pois a
Igreja defende o uso das imagens como meio de recordação e veneração, pois “a
tradução da fé em imagens enriquece o relacionamento com a criação e com a
realidade sobrenatural” (IDEM, pág. 5). As imagens têm uma função catequética
para o povo, e principalmente para o povo mais pobre que não tiveram a
oportunidade de estudar para aprender a ler, e assim, poder se deleitar nos livros
sobre os Santos, com isso, elas veem as imagens e enxergam a presença de Deus,
porque através da história dos Santos que é transmitida oralmente, elas percebem
que os Santos Mártires brasileiros maltratados e torturados pelos cruéis
holandeses, não voltaram atrás e negaram sua fé, pelo contrário, assumiram
tenazmente sua decisão de permanecer na Santa Mãe Igreja. Por isso, as imagens
são inspiração de fé e devoção para viver uma vida santa enquanto peregrinos
aqui na terra. “Todas as obras de artes de inspiração cristã são uma expressão de
espiritualidade universal e local” (IDEM, IBIDEM). Com isso, as pessoas
imbuídas por uma experiência de fé em Deus, elevam suas súplicas aos Santos
177

Mártires de Cunhaú e Uruaçu para que Deus que é Pai de misericórdia e bondade
escute os clamores de seus corações e os envolva no seu amor de Pai.
A vivência no monumento dos Mártires é uma oportunidade de colocar em
prática as Cartas Pastorais, que exortam os presbíteros e os futuros presbíteros a
criarem uma sensibilidade artística, cultural e histórica dos Bens e Patrimônio da
Igreja e com isso, transmitir ao povo uma fé enraizada da Tradição da Igreja de
Cristo.
178

Jovem Leonardo da Silva de 23 anos nasceu na cidade de Natal e toda sua


infância passou na cidade de Arez. Na cidade de Arez, o jovem coordenou o
grupo de coroinhas como atuou em outras pastorais. Em 2014, Leonardo
começou participar dos encontros vocacionais no seminário de São Pedro. No
dia 30 de janeiro 2016 ingressou no propedêutico. Hoje no seminário de São
Pedro o jovem participa da equipe da biblioteca cônego Monte localizada no
próprio seminário de São Pedro.

Crônica IV
179

Bens Culturais da Igreja


No dia 3 de setembro de 2018 foi realizada a solenidade dos mártires de
Cunhaú e Uruaçu localizado na cidade de São Gonçalo/ Rio Grande do Norte. Um
dia cheio de atividades. O dia foi cheio de atividade no monumento desde a
chegada dos primeiros romeiros até os momentos finais. Durante o dia aconteceu
ás primeiras missas pela manhã, logo em seguida, acompanhada de confissões. A
partir do horário da tarde, exatamente ás 13 h 30 min, aconteceu os show com
cantores religiosos: Fátima Santos, Padre Assis e Banda Alga e Ômega e Padre
Antônio Nunes. As festividades em honra aos protomártires do Brasil foram
encerradas com celebração da santa missa ás 17 h presidida pelo arcebispo
metropolitano, Dom Jaime Vieira Rocha.
Por isso, assim afirmou o Concílio Vaticano II: “A
experiência dos séculos passados, os progressos científicos,
os tesouros contidos nas várias formas de cultura humana,
pelos quais se manifesta tais plenamente a natureza do
homem e se abrem novos caminhos à verdade, também
aproveitam à Igreja”. “Ela aprendeu, desde os começos da
sua história, a formular a mensagem de Cristo nos
conceitos e línguas dos diversos povos e procurou ilustrá-
la com o saber filosófico” (GS, 44).

Chegando ao santuário é possível observar os bens: imóveis, moveis e


imateriais que estão inseridos no ambiente, para o momento celebrativo onde
está contida uma mensagem evangélica. Esses elementos possuir um grande
valor de evangelização da vida dos romeiros que participaram da festividade dos
Santos Mártires de Cunhaú e Uruaçu. Um lugar simbólico onde numeroso é
possível ver alguns elementos inseridos no momento celebrativo. No momento
do show onde logo mais aconteceria a santa missa houve algumas mudanças
como aumento do presbitério com piso de madeira; salas foram aumentadas as
salas proporcionadas dando uma estrutura adequada para as visitas. O Papa
Paulo VI já afirmava que evangelização e cultura andam juntas: ou a
evangelização entra nas culturas, ou ela não é evangelização. Os bens imóveis,
móveis e imateriais estão ao nosso redor como expressões simbólicas da nossa fé.
Por meio, dos representantes (Padres, bispos e leigos) são responsáveis com a
igreja a preservar, a valorizar e zela por esses bens culturais. É preciso ensinar
outras pessoas o quanto é necessário cuida desses bens que tem uma importância
no processo evangelizador.
180

Com este objetivo, a própria Santa Sé criou recentemente,


na Cúria Romana, uma Comissão Pontifícia que tem a seu
cargo cuidar do património. Histórico e artístico de toda a
Igreja, auxiliando as dioceses e os bispos no trabalho de
defesa e promoção desses bens e contribuindo para que o
Povo de Deus em geral se torne cada vez mais consciente
dos seus direitos e deveres este campo (Cf. Constituição
Apostólica Pastor Bonus, art. 99-104).

Na missa dos santos mártires se tem uma longa lista de bens culturais da igreja
que tem uma essência variada. Seja o monumento dos mártires, música, objetos
de cultos, como os paramentos sagrados (casula, túnica, alva), como objetos
litúrgicos; símbolos imateriais como a própria festa dos santos mártires, ritos,
simbologia sagradas. É indispensável imagina que esses bens não exerçam uma
função evangelizadora na vida dos fieis participantes seja através da música ou
objeto litúrgico que faz incendia a fé.
Efetivamente, “os templos, imagens, alfaias litúrgicas,
livros litúrgicos, instrumentos religiosos, produções
literárias, plásticas e musicais nasceram para que o homem
colocasse ao serviço do culto divino o melhor de si mesmo
e as mais belas das suas obras”.

No decorrer das comemorações durante o dia, notamos como estão


incluídos os bens moveis, imóveis e imateriais. Há outras expressões cristãs
utilizadas no momento uma oração aos santos mártires, ave Maria, fato de levar
uma cruz ou medalha no pescoço; adentrando ao santuário há um lugar reservado
para confissões “A Igreja é uma comunidade de salvação e, enquanto tal
proclama a sua fidelidade no louvor e adoração do Deus criador e providente,
salvador e redentor”. Esses objetos possuir funções com o alvo de catequisar, a
memória histórica os fatos que aconteceram no exato local o morticínio.
Por meio do uso dos objetos sagrados a igreja católica procura os meios
mais adequados para difundir a mensagem evangelizadora, para realizar sua
missão transcendental. Vale ressaltar o uso dos bens inseridos na procissão de
entrada são: crucifixo, tochas, turíbulo, casulas. Há uma coletividade no uso de
cada peça

“Liturgia levam a que os locais mais nobres da vida da


coletividade humana, em particular na civilização cristã,
sejam locais de culto religioso e os objetos mais preciosos
sejam os que se lhe destinam”.

Desde processo de beatificação até hoje após a canonização dos mártires,


a devoção vem se expandindo em várias localidades da nossa região como em
181

outros estados. Um sinal dessa devoção é observar quanto foi participativa uma
grande multidão de fiéis reunidos em um único proposito festejarem a festa dos
mártires de Cunhaú e Uruaçu momentos esses tem uma importância especial na
vida do povo e da igreja. Esses locais possuir um grande valor enriquecedor na
vidados visitantes como um lugar “de conhecimento, prazer, catequese e
espiritualidade” (SANTA SÉ, 2001).
Não podemos esquecer que toda a celebração litúrgica os bens da igreja
estão acompanhados em cada ato celebrativo seja: nos ritos iniciais, liturgia da
palavra, litúrgica eucarística e os ritos finais. Nos ritos inicias encontramos o uso
de alguns como objetos: crucifixo, tocha, turibulo e naveta etc; liturgia da palavra
faz o uso dos livros sagrados: lecionário e evangeliario, liturgia eucarística:
apresentação das oferendas como também o uso das alfaias e objetos litúrgicos e
os ritos finais. Tais objetos têm uma grande importância na liturgia e povo
próprio se identificar. Considerando que os bens da igreja não meros objetos, mas
estão associados ao culto e a piedade dos fiéis.
Consequentemente, não se pode compreendê-lo em
sentido "absoluto", isto é, separado do conjunto das
atividades pastorais, mas sim enquadrado e em relação
com a totalidade da vida eclesial e com referência ao
patrimônio de cada nação e cultura. (SANTA SÉ, 2001).

Andando ao redor do monumento identificamos alguns elementos


religiosos espalhados em várias áreas do santuário como capela (representa o
morticínio), como também os quadros dos santos mártires; fieis que
testemunharam graças alcançadas pela intercessão dos santos padroeiros do
nosso estado. Seguindo o percurso encontramos duas palavras chaves: história e
a fé ambos caminham juntas nesse processo evangelizador. Como também o
monumento precisa de reparos para bem melhor acolher os fiéis.

“Deste modo, ao dever de conservação do património


passado corresponde à urgência criadora de patrimónios
atuais a transmitir ao futuro, a fim de que não se
interrompa esta sequência de autênticas tradições de uma
geração a outra, ao serviço da fé e da história”.

O Padre Murilo mencionou a urgência que é necessária realizar no


monumento assim como, melhora o ambiente preservar o que tem criar novos
métodos que sensibilize o clero e os fiéis. Nos ritos finais da celebração o Padre
Murilo tomou a palavra onde fez seus agradecimentos, e a todos os envolvidos na
realização do evento no monumento dos mártires. Em seguida, fez algumas
complementações a respeito do santuário de Uruaçu. Em sua colocação o
santuário perdeu a oportunidade de realizar um evento para mais de 10.000
pessoas por falta de estrutura; o mesmo sensibilizou tanto o bispo, os padres, os
seminaristas e os fiéis a importância da devoção aos santos mártires, como
182

também em outros estados que tem difundido essa devoção e tem o apoio do
governo. Quem visita o monumento observar que precisa ajuda para realizar
obras tanto da parte de empresários e o apoio do governo para atrai visitantes.
"Só por caminhar pela cidade, os jovens descobrem que também são
construtores da própria história, bem como responsáveis por sua preservação",
conta a professora Altidel Cardoso Soares. Nesta geração somos nós que
devemos sensibilizar essa nova geração para preservação, zelo, o cuidado pelos
bens da igreja. Agora não devemos cruzar os braços, chegou a nossa hora de
valorizar o que nosso e não deixamos que se perca nas lembranças da futura
geração que foi construído seja monumento, objetos litúrgicos ou outro objeto de
evangelização.
Ao realizar visita ao monumento dos mártires de Uruaçu como é bonito
profissão de fé de todos os fiéis de várias cidades. Como os bens da igreja
estão interligados tanto com na vida dos romeiros é no crucifixo carregado sobre
o peito ou na procissão de entrada que faz recorda que somos um povo que
caminhar carregando a cruz do dia a dia. Vale ressaltar um pouco questionar se
os fiéis tivesse um conhecimento dos bens culturais pelo menos o básico. Será que
não havia mais interesses da parte do povo pela valorização destas peças. Foi uma
experiência única, quantas vezes visitamos o santuário? Dessa vez, participamos
com um olhar investigativo dos elementos presentes seja na celebração da missa,
show louvor, oração tivéssemos grande aprendizado ao realizar este trabalho.

REFÊNCIAS

SANTA SÉ. Comissão Pontifícia para os Bens Culturais da Igreja. “Carta Circular
sobre Inventário dos Bens Culturais dos Institutos de Vida Consagrada e das
Sociedades de Vida Apostólica: Algumas Orientações Práticas”. 15 set. 2006.
Acesso em 20 jun. 2015 de
http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_commissions/pcchc/document
s/rc_com_pcchc_20060915_inventariazione_it.html
183

Meu nome é Moises, tenho 24 anos sou formado em administração e há


três anos ingressei no Seminário de São Pedro em Natal/RN. Estou cursando o
penúltimo ano do curso de filosofia e para mim foi uma alegria muito grande
pagar esta disciplina de Bens Culturais.

Crônica V
184

VIVÊNCIA V – CRÔNICA FILOSÓFICA


Os corações que batem a um mesmo compasso, os olhares que se lançam
sobre o chão, chão sagrado, chão aclamado santo por fieis, banhado com o sangue
de homens, mulheres e crianças santas, também se lançam sobre o alto e como
sem nada dizer é possível sentir preces que se elevam aos céus, preces que unem
em uma diversidade estarrecedora filhos e filhas de Deus, por um dia inteiro
(03/10/2018), brancos e negros, pobres e ricos, doutos e ignorantes, não são
poucos nem ao menos é possível de se contar e de se saber sobre cada um dos fiéis
que ao santuário de Uruaçu se fazem presentes para a festa dos santos
protomártires do Rio grande do Norte festejar.
Ao andar-se no imenso terreno onde foi construído o santuário e a capela
dos mártires, percebemos a realização de um sonho iniciado muitos anos antes.
A beatificação destes trinta novos santos brasileiros aconteceu no dia 5 de março
do ano 2000, na praça de São Pedro, em Roma, pelo papa São João Paulo II.
“O título de Protomártires foi conferido pelo Papa São João Paulo II, na
homilia da beatificação, em que proclamou para todo o mundo os primeiros
Mártires do Brasil.” (ROCHA, 2017, p.25)
Esse título com certeza encheu o coração dos brasileiros de alegria, nosso
povo carecia de modelos de santidade provindos da nossa própria terra, somos
um povo formado pela devoção a santos estrangeiros, e que agora possuímos 30
novos santos para chamar de nossos.
O cardeal Emérito de São Paulo Dom Claudio Humes, em visita a capela
de Nossa Senhora das Candeias, onde os Mártires de Cunhaú derramaram seu
sangue, disse:
“Eles eram gente muito simples, pessoas como
todo mundo; não eram mais santos do que os outros. Era
gente que vivia sua vida familiar, sua vida de trabalho,
que frequentavam a igreja aos domingos, que ensinavam
seus filhos a fazer o sinal da cruz, a rezar uma Ave-Maria;
enfim, eram pessoas de vida simples, que, no entanto, se
tornaram Mártires. Naquele momento, Deus deu a eles
essa grande graça, que ao mesmo tempo é uma grande
graça para o nosso Brasil e para a nossa Igreja – a graça
de poder dar a vida, de ter a coragem de dar a vida pela
fé.” (ROCHA, 2017, p.13)
De tal maneira a igreja, mãe e doutora nos mistérios da fé confirma: “O
martírio é o supremo testemunho prestado à verdade da fé, ele designa um
testemunho que vai até a morte.” (CIC, 2473) Dom inalcançável pelas
capacidades humanas, mas que só pode ser alcançado pela graça salvifica de Deus
e construído junto a um amor, sem limite, um amor que se doa, que se entrega
totalmente, um amor que se assemelha ao amor de Cristo, ao amor de uma mãe,
ao amor daquele ou daquela que ama mais a vida do outro do que a sua própria
vida.
A igreja em sua sabedoria ensina que são três os requisitos para o Martírio:
1º A morte violenta; 2º A morte por ódio a fé; 3º A morte por Livre aceitação.
185

Esses trinta novos mártires morreram por que professavam a fé em Cristo,


morreram de formas terríveis e morreram exercendo a sua liberdade de crença.
Os martírios são pessoas, homens, mulheres, jovens e adultos que assim
como cristo rejeitaram a si mesmo e até a mais elementar vontade humana que é
a da própria sobrevivência, em prol de um ideal, mas não de qualquer ideal, um
ideal de fé, repleto de amor, como nos lembra São Paulo:
“Ele, que era de condição divina, não se valeu da sua
igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo.
Assumiu a condição de servo, tornando-se semelhante
aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-se
ainda mais, obedecendo até a morte, e morte de cruz.” (Fl
2, 6-8)
Sacrifício esse: “Nem o primeiro, nem o ultimo” desde o início do
cristianismo homens e mulheres derramaram o seu sangue, eis que alguém pode
perguntar de quer que adiantou? Um grande santo da igreja São Tertuliano
responde: “O sangue dos Mártires é semente de novos cristãos!” O sangue
derramado por esses 30 santos e santas não são em vão, eles servem de modelo e
de inspiração para todos aqueles que desejam se aproximar do mistério da
salvação e da vida eterna no Cristo mártir dos mártires.
Os dois Morticínios, são sinais de um povo que mesmo em tempo de
dificuldade não abriram mão de professar a sua fé, segundo Rocha, o primeiro
martírio em 16 de Julho de 1645, na solenidade de Nossa Senhora do Carmo, no
momento da elevação da Hóstia, o Pe. André de Soveral, Domingos de Carvalho
e toda a comunidade foram surpreendidas por invasores holandeses,
comandados pelo mandatário Jacó Rabi, os quais incitaram nativos, índios
Tapuias e Potiguares, a trucidarem toda a aldeia, massacrando toda a
comunidade reunida. Morreram, com ele, mais de sessenta fieis. Prosseguindo
com as investidas com o intuito de exterminar o catolicismo, em 3 de outubro de
1645, o grupo holandês de Jacó Rabi levou o Pe. Ambrósio, o leigo Mateus
Moreira e seus companheiros para o Porto dos Flamengos, em Uruaçu, e ali os
sacrificou, uma vez que eles não aceitaram renegar a fé e trair a pátria.
Ao todo como relatam os historiadores foram em média 150 pessoas
mortas, das quais apenas 30 foram identificadas e tiveram sua santidade
comprovada. São estas: Santo André de Soveral; Santo Ambrósio Francisco
Ferro; Mateus Moreira e seus 27 companheiros mártires.
Na festa de 1 ano da canonização dos Santos Mártires em Uruaçu neste ano
do Senhor de 2018, pude perceber o quanto a alegria e a devoção aos santos norte
rio-grandense vai aos pouco sendo fomentado no coração tanto dos Nortes rio-
grandenses, como de inúmeras outras pessoas dos mais diversos lugares
possíveis.
No santuário de Uruaçu e na própria festa dos Mártires são nítidos
expressões de fé e de devoção, principalmente na presença marcante dos Bens
Culturais, sendo de Bens Imóveis, como as grandes imagens erguidas em honra a
São Mateus Moreira, aos santos Padres André e Ambrósio, há também inúmeros
bens imateriais, como o hino dos santos mártires, orações com o pedido pela
186

canonização e orações aos novos santos já canonizados, frases e ejaculatórias,


como: “Na hora de sua morte, Mateus Moreira exclamou: Louvado seja o
santíssimo sacramento”, que se enraízam no coração dos devotos e despertam
animo e fomentam mais ainda essa devoção.
Percebe-se também a presença de bens culturais moveis como as
medalhinhas confeccionadas em razão a canonização em Roma no ano de 2017,
os inúmeros quadros que a arquidiocese confeccionou e que foram colocados nas
mais diversas paróquias e comunidades paroquiais ao longo da vasta extensão da
arquidiocese de natal a pedido do nosso arcebispo Dom Jaime Vieira Rocha.
A presença de todos esses bens é muito significativa para a igreja como um
todo, pois são manifestações que se instalam na história e criam no imaginário
do povo uma sensação maior de pertencimento e de participação com a festa dos
santos. Algumas reflexões interessantes acerca da festa de 1 ano da canonização,
ligada a valorização destes bens culturais podem ser feita:
Como bem mostra a carta circular sobre a formação cultural e pastoral dos
futuros sacerdotes em suas responsabilidades futuras sobre o patrimônio
artístico e histórico da Igreja, escrita em 15, outubro de 1992, por sua eminência
o Santo Padre João Paulo II:
“O nosso Santo Padre João Paulo II, desejando
sinceramente uma frutuosa valorização dos bens
culturais da Igreja na obra de evangelização, como
solicitado pelos recentes acontecimentos históricos e
preocupada com a proteção deste precioso património
artístico e histórico da Igreja e da humanidade como um
todo, procurou estimular um dinamismo renovado na
Igreja em relação a esses valores. Ele, portanto,
estabeleceu um novo organismo dentro da Cúria
Romana, que poderia cuidar desta área específica de
atividade pastoral e cultural.” (JOÃO PAULO II, 1992)
É nítido nesse discurso do santo padre São João Paulo II, que todo esforço
por parte da igreja de aproximar o seu clero a festa e a propagação da devoção aos
santos mártires é válida, como também a aproximação dos próprios seminaristas,
que são o futuro clero da arquidiocese.
Segundo o santo padre nesta carta os clérigos devem ser agentes
transformadores e conservadores da história da fé de seu povo, dentro de suas
paróquias ou aonde estes estiverem inseridos, de forma a contribuir na grande
missão de zelar pelos tesouros da fé.
Sendo que uma das formas de se conservar esse patrimônio cultural da fé
cristã, é a conscientização e valorização dos arquivos eclesiásticos e da sua função
pastoral e evangelizadora, como nos aponta o documento (A função pastoral dos
arquivos eclesiásticos) de 02/fevereiro/1997, de sua eminência São João Paulo II:
“No curso de sua história bimilenária, a Igreja fez
o melhor possível em múltiplas iniciativas pastorais, no
contexto de culturas muito diferentes, com a única
intenção de anunciar o Evangelho. A lembrança das
obras produzidas confirma o esforço contínuo dos fiéis
em buscar os bens capazes de criar uma cultura de
187

inspiração cristã, a fim de promover plenamente o


homem como pressuposto indispensável para sua
evangelização. Além da produção de tais bens culturais,
a Igreja tem se interessado em seu uso pastoral e,
consequentemente, na proteção daquilo que produziu
para expressar e realizar sua missão. Parte deste último
é o cuidado de conservar a memória de muitos e
diferentes tipos de ações pastorais através de
documentos de arquivo.” (JOÃO PAULO II, 1997)
Os arquivos eclesiásticos como nos adverte o santo padre são
fundamentais para a igreja na medida em que guardam o patrimônio histórico e
pastoral construído ao longo das gerações:
“No espírito da Igreja, os arquivos são lugares de
memória da comunidade cristã e armazéns de cultura
para a nova evangelização. Assim, eles próprios são um
bem cultural de importância primordial, cujo mérito
especial reside em registrar o caminho seguido pela
Igreja ao longo dos séculos nos vários contextos que
constituem sua própria estrutura.” (JOÃO PAULO II,
1997)
Outro ponto interessante é o da importância dos museus eclesiásticos,
todo esse patrimônio que ao longo do caminhar da igreja e dos homens vai sendo
construído precisa ser guardado e como sabemos nem tudo é viável ou é preciso
ser guardado, por isso é de extrema importância que haja uma eficiente seleção
dos bens a serem destinados a conservação e exposição nos chamados Museus
eclesiásticos. A carta circular “A função pastoral dos museus eclesiásticos”
aponta:
“Os bens culturais eclesiais são um patrimônio específico
da comunidade cristã. Ao mesmo tempo que, pela
singular dimensão universal do anúncio cristão,
pertencem de certa forma a toda a humanidade. O seu
fim está ordenado para a missão eclesial sob um duplo e
coincidente dinamismo da promoção humana e da
evangelização cristã. O seu valor realça a obra da
inculturação da fé.”
Todo esse processo culmina na necessidade da elaboração de inventários e
catálogos de patrimônio cultural da igreja, como nos mostra o documento
“CARTA CIRCULAR SOBRE A NECESSIDADE E URGÊNCIA DO INVENTÁRIO
E CATÁLOGO DE PATRIMÔNIO CULTURAL DA IGREJA “de
8/dezembro/1999:
” A Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja,
depois de tratar de bibliotecas e arquivos, com este
documento centra a sua atenção no inventário-
catalogação dos bens culturais pertencentes a
instituições e instituições da Igreja, a fim de proteger e
melhorar a enorme herança histórica e artística da Igreja.
Este patrimônio é constituído por obras de arquitetura,
pintura, escultura, mobiliário, peças litúrgicas,
instrumentos musicais, etc. Pode ser considerado como
o rosto histórico e criativo da comunidade cristã.
188

Adoração, catequese, caridade, cultura moldaram o


ambiente no qual a comunidade de crentes aprende e
vive sua fé. A tradução da fé em imagens enriquece o
relacionamento com a criação e com a realidade
sobrenatural.” (JOÃO PAULO II, 1999)
É notório que a igreja ainda possui um vasto caminho para percorrer em
prol da devoção dos santos mártires, mas a força e a fé do povo são combustíveis
mais que suficientes para essa longa alçada.

REFERÊNCIAS
ROCHA, J. V. Devocionário dos Santos Mártires de Cunhaú e Uruaçu. São
Paulo: Canção Nova, 2017.

PAULO, J. II. Carta circular sobre a formação cultural e pastoral dos


futuros sacerdotes em suas responsabilidades futuras sobre o
patrimônio artístico e histórico da Igreja. Roma, 1992.
PAULO, J. II. A função pastoral dos arquivos eclesiásticos. Cidade do
vaticano, 1997.

PAULO, J. CARTA CIRCULAR "A FUNÇÃO PASTORAL DOS MUSEUS


ECLESIÁSTICOS". Roma, 1998.

PAULO, J. PAULO, J. CARTA CIRCULAR "A FUNÇÃO PASTORAL DOS


MUSEUS ECLESIÁSTICOS". Roma, 1999.
189

Thalles Henrique Araújo da Silva, nascido aos 23 dias do mês de setembro do


ano de 1997 no estado de Amapá. Sendo filho único do casal Francisco Canindé
Cardoso da Silva (in memoria) e Josefa Costa de Araújo

Crônica VI
190

“O Sangue dos mártires é a semente de novos cristãos.”

Foi no solo potiguar que no ano de 1645, os padres André de Soveral e


Ambrósio Francisco Ferro, juntamente com 28 companheiros leigos, morreram
em favor e defesa da fé católica, com isso pode-se dizer que a fé do povo potiguar
foi regada pelo sangue e testemunho dos santos mártires de Cunhaú e Uruaçu. Ao
perpassar do tempo essa grande história de amor foi ressoando nos corações
daqueles que reconheceram este episódio como ato de fé e amor para com jesus
cristo e a sua igreja. Contudo reconhecendo os grandes feitos dos Mártires de
Uruaçu, em 16 de junho de 1989 o processo de beatificação foi concedido pela
Santa Sé. Em 21 de dezembro de 1998 o papa João II assinou o decreto
reconhecendo o martírio de 30 brasileiros, sendo dois sacerdotes e 28 leigos. Em
março de 2000, o papa João Paulo II beatificou os mártires de Cunhaú e Uruaçu
como exemplos de fé cristã e defensores da Igreja Católica. Atualmente, os
mártires são lembrados em duas datas, no dia 16 de julho em Canguaretama, e
dia 3 de outubro em São Gonçalo do Amarante.

No dia 15 de outubro do ano de 2017 os mártires de Cunhaú e Uruaçu


foram canonizados pelo santo padre o Papa Francisco em Roma. Durante este
tempo que antecedeu foi o um momento muito esperado por todos os Potiguares,
os primeiros mártires brasileiros eram do solo potiguar. Foi um tempo de muita
preparação e de intensificação da história dos mártires tentando alcançar a um
conhecimento da história destes mártires. Muitos elementos foram ponte para
que pudesse propagar ainda mais a devoção aos santos mártires. Estes elementos
pode-se entender como bens culturais, pois como bem sabemos os bens culturais
são elementos de propagação e que ajudam na evangelização. A própria capela
em Cunhaú que temos como um bem cultural da igreja, pois foi naquela capela
que o Padre Ambrósio Francisco ferro juntamente com os fiéis na missa da manhã
foram atacados e mortos pelo ódio. Contudo aquela capela tem um grande
significado pois foi naquela pequena capela no engenho do Cunhaú homens e
mulheres derramaram o seu sangue, este mesmo sangue que nos dias atuais
regam a fé de um povo potiguar. Como diz uma parte de um hino dedicado aos
santos mártires:
191

“Mártires da fé, filhos do Rio Grande,


homens e mulheres, jovens e meninos. Pelo
bom pastor deram o seu sangue, nossa Igreja
em festa canta os seus hinos.” (Parte do hino
dos santos mártires)

Esta parte do hino deixa bem claro a alegria do povo em reconhecer a


grande história destes homens e mulheres que derramaram sangue em defesa da
fé, e amor a Jesus Cristo.Com isso a nossa igreja cantam os hinos dos mártires
não apenas com os lábios mais sim com o coração. É realizada duas romarias
durante o ano, a primeira é no dia 16 de julho para a cidade de Canguaretama
mais especifico em Cunhaú. A segunda romaria é no dia 3 de outubro para a
cidade de são Gonçalo do amarante mais especifico em Uruaçu onde se foi
batizado como o monumento dos mártires, durante estas duas romaria é se
colocada uma vasta programação em comemoração aos santos mártires dia todo
se tem visitas, muitos fiéis e romeiros que vem de diversas cidades para que assim
possam se unir em comunhão para louvar durante todo este dia em honra aos
santos Mártires. É um momento muito bonito para toda a igreja, o que se é belo
de ver é a expressão de todo povo, por mais que seja cansativo ou até mesmo o
incomodo do calor, mas alegria é grande em está naquele solo sagrado, tem
pessoas que esperam o ano todo para vivenciar este dia. Durante este tempo de
preparação da canonização, todo dia três de cada mês em toda a igreja particular
de natal se tem a missa devocional aos santos mártires, de forma que esta
propagação a devoção não fique somente nos dias dos mártires, mas que seja algo
continuo, de forma que leve a todos o conhecimento desta linda história.

Um outro elemento considerado como um bem cultural foram os


devocionários produzidos, nos mesmos se tem a história, oração e cânticos dos
mártires. Este devocional não visa apenas a propagação da devoção mas
sobretudo a evangelização de todos, pois conhecendo a história dos mártires se
pode chegar ao conhecimento da pessoa de Cristo. Contudo para todo povo do
Rio Grande do Norte, mas não somente do rio grande do norte mais até em ouras
regiões já se tem o conhecimento da história e até crescendo a devoção aos santos
mártires. Também tiveram medalhas que foram distribuídas para os fies, com
isso as mesmas foram caracterizadas como bens culturais da igreja, as medalhas
192

tiveram a dimensão de propagação da devoção e intensificação de conhecimento


dos santos mártires. Neste mesmo período foi tirado do solo uma porão de areia
onde simbolizou como relíquia, esta mesma areia já se foi para outras dioceses
fora do estado, pois em outros estados já se tem o conhecimento da história dos
santos mártires.Com tudo diante destes relatos o povo potiguar devem amar aos
santos mártires, pois são da nossa terra, possamos recorrer sempre a eles,
busquemos as suas intercessões,

Recentemente celebramos o dia dos santos mártires, foi a primeira festa


celebrada como santos, foi um momento de grande expressividade, em todas as
missas se tinha uma grande participação dos fiéis, eu tive a oportunidade de
passar o dia todo no monumento dos mártires e pude sentir um pouco da grande
importância dos santos mártires na vida de todo povo. Durante as horas que
estive no monumento presenciei a chegada de várias caravanas que vinham de
longe, também presenciei a chegada de um grupo de fieis que se deslocaram de
macaíba até Uruaçu a pé, muitas foram as expressão de devoção aos santos
mártires, destaco no momento das missas os fies no sol, mesmos cansados mas
não se limitavam em estarem naquele solo sagrado.

No dia 3 de outubro o dia de louvores aos mártires termina as cinco horas


da tarde, é quando se tem a santa missa presidida pelo Arcebispo e tem a
participação de todos os padres de diversas paroquias e até mesmo padres de
outras dioceses. Para esta missa se tem uma grande preparação, tanto na
estrutura como também na liturgia, é uma liturgia muito rica em sinas onde cada
momento é único para todo povo, muitos sentem o cansaço físico mas também
muitos sentem o cansaço espiritual, onde estão naquele local para que a exemplo
dos mártires e com a eucaristia celebrada fortalece a fé de todos os fies.

Diante da disciplina estudada: Bens culturais da igreja e com base nos


documentos apresentados no decorrer desta disciplina, se tem conteúdos de
grande valor e de grande importância até ajuda na vivencia destes momentos. No
primeiro documento estudado pela mesma disciplina é encontrado: A formação
dos futuros presbíteros a atenção para os bens culturais da Igreja, este primeiro
documento foi muito importante pois abriu a mente e proporcionou uma visão
ampla quando se fala de bens culturais da igreja. Se tinha um pensamento que os
bens culturais estavam distantes ou até mesmo que não pudesse existir, fazendo
193

até com que não se tivesse uma valorização com o mesmo. Depois do primeiro
documento uma nova visão, os bens culturais muitas sempre existiram mas não
tinha o conhecimento, como por exemplo eu sempre fui a festa dos mártires nuca
imaginei que a capela do morticínio era um bem cultural imóvel depois do estudo
do mesmo documento pude este ano vivenciar a festa dos mártires com um novo
olhar e tendo uma valorização por aquela capela pois tinha conhecimento da
grande importância e do grande conteúdo que a mesma passava e transmissão
de evangelização que chegava de forma eficaz para mim, como também para
todos os fiéis. Contudo o primeiro documento ajuda ao futuro presbítero ter essa
a sensibilidade para com os bens culturais da igreja, com isso ressalto a grande
importância desta nova disciplina na formação, pode se dizer que é uma grande
riqueza. O documento nos diz que:

“A Santa Sé enfatizou e chamou a atenção dos


pastores para este dever, sublinhando como é
imprescindível que eles tenham, já na época de seus
primeiros anos de formação sacerdotal, uma profunda
compreensão do valor da arte sacra. (Documento 1
bens culturais da igreja)

Portanto é notório esta preocupação com os futuros presbíteros, este


documento pois nos possibilita a ter um conhecimento dos bens culturais, nos
favorece a ter um olhar e um zelo pelos bem culturais da igreja, e faz com que os
futuros presbíteros saibam aproveitar os bens culturais para a evangelização e
catequização do povo, ressalto mais uma vez os locais dos morticínios são bens
culturais, pois transmite uma catequização e possibilita a evangelização estando
presente nos mesmos locais.

Algo importante que não posso deixar de ressaltar que na carta circular
sobre a necessidade e urgência do inventário e catálogo de patrimônio cultural da
igreja, tendo observado e analisado percebi que é importante ter um lugar
especifico que pudesse levar apresentar a história dos mártires, tipo um museu
ou um sala de com exposição para que os fiéis pudesse conhecer mais ainda a
história dos santos mártires.
194

“Se as bibliotecas podem ser considerados locais de


reflexão e arquivo lugares de memória, o patrimônio
histórico e artístico da Igreja é a prova concreta de
habilidade e criatividade artística expressa pela
comunidade cristã à perfeição da beleza para os lugares de
culto, a piedade, vida religiosa, estudo e memória. Pode-se
afirmar, portanto, que monumentos e objetos, de todo tipo
e estilo, acompanham os eventos históricos da Igreja. Em
suas inter-relações, são instrumentos adequados para
promover a evangelização do homem contemporâneo.”
(Documento 6, bens culturais da igreja)

É notório a grande preocupação da própria igreja com a formação dos futuros


presbíteros, esta disciplina possibilita este olhar mais especifico diante dos bens
culturais. Portanto que bom seria que tivesse um lugar como uma arquivo ou um
museu dedicado a propagação da história dos santos mártires. Contudo concluo
este mesmo trabalho mostrando a grande importância dos bens culturais na
evangelização e que eles estão presentes em nosso cotidiano e que as vezes não
sabemos valorizar. Amemos aos santos mártires pois como disse o cardeal
Claudio Hummes em sua homilia na festa dos mártires:

“Deus deu a eles essa grande graça, que


ao mesmo tempo é uma grande graça
para o nosso brasil e para nossa igreja- a
graça de poder dar a vida, de ter a
coragem de dar a vida pela fé.”
(Devocionário do mártires, segundo
parágrafo da pag,13)

REFERÊNCIAS

DISPONIVEL EM:
DEVOCIONARIO DO MARTIRES
DOCUENTOS DA DISCIPLINA DE BENS CULTURAIS DA IGREJA
195

Lista de Imagens
I. Fachada do Seminário de São Pedro
II. Seminarista Denilson Costa, coordenador da exposição “Nosso
clero também se imortalizou” que trazia a coleção histórica da
biblioteca do Seminário de São Pedro
III. Fachada do Colégio Marista de Natal
IV. As historiadoras Poliana Martins e Gerlane Mendes em um dia de
trabalho no Arquivo Metropolitano da Arquidiocese de Natal
V. Imagem de Sant’Ana da Igreja Matriz de São José de Mipibu
VI. Exposição temporária do Museu de Arte Sacra de Natal
VII. Jardim da casa provincial das Filhas do Amor Divino da Província
Nossa Senhora das Neves

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