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Z'7lc Zimerman,DavidE .

Comotrabalhâmoscolììgruìlis . D:L\irl E. ZtncfiÌì:1.L:iz.. Ciìrìos


Osorio...[ct. al] - PorloAl.cr. : .\Írs \Íédì.â!. I99:.

l. TécnicaspsicoteÍápir$.L O\orio. L.C. IL TÍLrìo

cDU 615 . 85r

Câtalogaçliona publicâção:\Íôn i( r BaììcjoCanlo- CRB l0/ 1023

ISBN35 7:07 - 212 - 2


H COLABORAI)ORES

COMO TRABALHAMOSCOM

GRUPOS

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-ã-

PORTOALEGRE,I997
Pref4nin
Clqudio M. Martins

PrÁìnon
Davìd E. Zímerman

PARTE 1- REVISÃO GERAL SOBR-EGRUPOS

I Fundamentosteóricos......................................................................................................2
David E. Zimerman

2 Fundamentostécnicos.................................................................................................33
Dqvid E. Zimerman

3 Atributosdesejáveisparaum coordenadorde grupo............................................41


David E. Zímemun

4 A famíliacomogrupoprimordial................................................................................49
Luiz CarLosOsorío
5 Gruposespontâneos:asturmâse ganguesdeadolescentes
....................
David E. Zímerman

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d Processosobstrutivosnossistemassociais,nosgrupose
nasinstituições..........69
LuízCarlosOsorío
7 Classificaçãogerâldosgrupos..........................................................................................75
David E. Zimerman

8 Comosupervisionamosemgrupoterapia.................................................................8
LuizCarlosOsorio

PARTE 2 - PRÁTICA COM GRUPOSOPERATIVOS E PSICOTER(PICOS

9 Comoagemosgruposoperativos?.......................................................................95
Janíce B. Fiscmann

l0 Gruposcomunitários............................................................................................l0l
Salv,adorCelia
David E. Zìmennan

13 Grupoterapiapsicânalítica ..............
Davìd E.Zimernnn

L4 Psicanálisecompartilhada:atualização.............................................................1
Gerqrdo Steín

15 Grupoterapiadasconfiguraçõesvinculares ..............
WaldemarJosé Fernandes

16 Laboratórioterapêutico..........................................................................................1
Francísco BapÍista Neto

17 Psicodrama. ...........
Nedío Seminotti

PARTE3. PRÁTICA COM GRUPOSESPECIAIS

18 Grupoterapiacom pacientessomáticos:25 anosde experiência...............1


Júlio de Mello Filho

5888 Gruposcomportadoresde transtomosalimentares.........................


RubénZukerfeld
20 Grupoterapiaparaalcoolistas. ...........
Sérgio de Paula Ramos

2l Gruposcomdrogadictos ................
Sílvía Brasiliqno

22 Grupocomdeprimidos .................
Gilberto Brofman

23 Gruposcomautistas...... ..............,.
SoniMariq dos SantosLewis
Viviane Costade Leon

24 Psicoterapiacompacientesintemadosegressos... ,....................
José Onildo B. Contel

PARTE 4. PRT(TICACOM GRTJPOSNA ÁREÁ DE FAMÍLIA

25Ocasal:umaentidadepsicanalítica ......... ................


Janine Puseí

xvlIl
SusanaBarilari
GastórtMazieres

27Gruposcomgestantes.....................................................................................................3
Geraldiv RantosViçosa

28Gruposcomcrianças...................................................................................................311
RuthBlay Levislq
t0
.........................................................................................................................................321
Luiz CarlosOsorio

30 Gruposcomidosos...................................................................................................331
Guite L Zimerman

PARTE 5 - PRÂTICA COM GRUPOSNA AREA DO ENSINO E DA


APRENDIZAGEM

Luiz CarlosllLafontCoronel

32 Gruposdeeducaçãomédicâ ...
David E. Zímerman

33 O trabalhocomgnìposnaescoIa...................................................................................35
JoséOuoniOuteiral
J4 Gruposde orientaçãoprofissionalcom alunosadolescentes...................................3
Aidê Knijník Wainberg

PARTE 6 - PRÁTICA COM GRUPOS NA ÁREA INSTITUCIONAL

35 Terapiainstitucional...................................................................................................389
Luiz Cqrlos Osorio

36 Formaçãode líderes:o grupoé o fórumadequado...........................................399


Mauro Nogueíra de Olíveíra

37Atendimentoagruposeminstituições .......................................................................4
Neidí Margareth Schneider

38 Laboratório:exercícioda autoridade,modeloTavistok..........................................413
Neidí Margareth Schneíder
Luiz Carlos Osorío
Mauro Nogueira de Olìveira
Mônica GuazellíEstrougo

Epílogo............ ............. 421


LuizCarlosOsorio
PARTE1
RevisãoGeral
sobreGrupos
FundamentosTeóricos
DAVIDE, ZIMERMAN

Coerentecoma proposiçãogeraldestelivro, queé a demanterumasimplificaçãode


naturezadidáticadosassuntospertinentesaosgrupos,o presentecapítulovai
abordar unicamentealgunsaspectosque fundamentam teoria- tendo-seem vista a
sua aplicabilidadeprática- , sema menorpretensãode esgotarou de explorartoda
a complexidadedeum aprofundamentoteóricoquea dinâmicade grupopermite,pro-
piciae merece.
Inicialmente, fim de situaro leitorque aindanãoestejamuito familiarizado com
a áreade grupos,mencionaremosfaremosumabrevereferência algunsdos
autoresmaiscitadosna literatura quemaiscontribuíramparao desenvolvimentodo
movimentogrupalistaA. seguir,seráfeitaumanecessáriarevisãoacercada conce!
tuaçãode grupoe,porúltimo,umaabordagemdosaspectospsicológicoscontidosna
dinâmicado campogrupal.

ALGUNS AUTORES IMPORTANTES

23 Pratt. As grupoterapiasestãocomemorando seuprimeirocentenríriode


existên-cia.Issosedeveaofatodequea inauguraçãodo
recursogrupoteriípicocomeçoucom estetisiologistaamericanoque,a partirde
1905,emumaenfermariacommaisde 50 pacientestuberculosos,criou,
intüitivamente,o métodode "classescoletivas",as quaisconsistiamem
umaaulaprévia,ministradapor Pratt,sobrea higienee os pro-blemasda
tuberculose,seguidade perguntasdospacientes da sualivre discussão como
médicoNessas.reuniões,criava-seumclimade emulação,sendoqueospacien-
tesmais interessadosnasatividadescoletivase na aplicaçãodasmedidashigieno-
dietéticaserampremiadoscom o privilégiode ocuparas primeirasfilas da salade
aula.
Essemétodo,quemostrouexcelentesresultadosna aceleraçãoda recuperação
físicadosdoentes,estábaseadona identificaçãodessescom o médico,compondo
umaestruturafamiliar-fratemalexercendo quehojechamamos"funçãocontinen-te"
do grupo.Pode-sedizerqueessaseconstituinaprimeiraexperiênciagmpoterápica
registradana literaturaespecializadaque,emboratenhasido realizadaem bases
empíricas,serviucomomodeloparaoutrasorganizaçõessimilares,como,porexem-
plo, a daprestigiosa"AlcoólicosAnônimos",iniciadaem 1935e queaindaseman-
témcomumapopularidadecrescenteDa.mesmaforma,sentimosumaemoçãofasci-
nantequesentimosao percebermosquenaatualidade essênciado velhométodode
coordenadapor médicos (ou pessoaldo corpo de enfermagem)não-psiquiatras.

Freud. Embora nunca tenhatrabalhadodiretamentecom grupoterapias,Fre


trouxe valiosascontribuiçõesespecíficasà psicologiados grupos humanostanto i
plícita (petos ensinamentoscontidos em toda a sua obra) como também explicit
mente, atravésde seus5 conhecidostrabalhos:As perspectivas da terapê
futuras
tica psicanalítica(1910), Totetne tabu (1913), Psicologia das massase aruilise
ego (1921), O futuro de uma ilusdo (1927) e Mal-estar na civilização (1930). Já no
trabalhode 1910,Freud revelauma de suasgeniaisprevisõesao conce
que "... o êxito que 1 terapiapassaa ter no indivíduo haveráde obtêla na coletivid
de". Em Toteme tabu, aÍravésdo mito da horda selvagem,ele nos mostraque, p
intermédiodo inconsciente,a humanidadetransmiteassuasleis sociais,assimco
estasproduzem a cultura. No entanto,o seu trabalho de 1921 ê consideradocom
particularmenteo mais importantepara o entendimentoda psicodinâmicados gr
pos,e nele Freudtraz asseguintescontribuiçõesteóricas:umarevisãosobrea psicol
gia das multidões;os grandesgruposartificiais (igreja e exército);os processoside
tificatórios(projetivose introjetivos)quevinculamaspessoas osgrupos;aslideran
5888 asforçasque influem na coesãoe na desagregaçãodos
grupos.Nessemesmotrab lho, Freud pronuncia a sua clássica âfirmativa de que "a
psicologia individual e social não diferem em sua essência",bem como aponta para
as forças coesivase disruptivasquejuntam e separamos indivíduosde um grupo. Esta
última situaçã ilustradapor Freud com uma metáfora que ele tomou emprestadado
filóso Schopenaueqa qual alude à idéia de uma manadade porcos espinhos,no
invem procura se juntar em um recíproco aconchegoaquecedor;no entanto, a excess
aproximaçãoprovocaferimentosadvindosdos espinhose força uma separàção,nu
contínuoe interminávelvaivém.

5888 Moreno. Em 1930,este médico romeno introduziu a


expressão"terapia grupo". O amor de Moreno pelo teatro,desdea suainfância,
propiciou a utrlizaçãod importantetécnicagrupaldo psicodrama,bastantedifundido e
praticadona atualida

K, Lewin. A vertentesociológicado movimento grupalistaé fortementeins


radaem KuÍ Lewin, criador da expressão"dinâmica de grupo", com a qual ele sub
tituiu o conceito de "classe" pelo de "campo". Desde 1936, são relevantesos se
estudossobre a estruturapsicológica das maiorias e das minorias, especialmente
judaicas.Da mesmaforma sãoimportantesassuasconcepçõessobreo "campo grup
5888 a formação dos papéis,porquantoele postulavaque qualquer
indivíduo,por ma ignoradoque seja,faz partedo contextodo seu grupo social, o
influencia e é por es fortementeinfluenciadoe modelado.

S,H.Foulkes. Este psicanalistabritânico inaugurou a prática da psicotera


psicanalíticade grupo a partir de 1948,em Londres,com um enfoquegestáltico,
seja,para ele um grupo se organizacomo uma nova entidade,diferenteda soma d
indivíduos,e,por essarazão,as interpretaçõesdo grupoterapeutadeveriam ser se
pre dirigidasà totalidadegrupal.Foulkesintroduziuuma sériede conceitose posnÌla
que serviram como principal referencialde aprendizagema sucessivasgerações
grupoterapeutas,sendoconsideradoo líder mundial dapsicoterapiaanalíticadegr
DO.
tendo se tornado o grandenome na área dos grupos operativos,com contribuições
originais, mundialmenteaceitase praticadas.Este autor, partindo do seu "esquema
conceitual-referencial-operativo"(ECRO),aprofundouo estudo dos fenômenosque
surgemno campodos grupose que se instituemparaa finalidadenão de terapia,mas,
sim, a de operarnuma determinadatarefaobjetiva, como, por exemplo, a de ensino-
aprendizagemA. partir das postulaçõesde Pichon Rivière, abriu-seum vasto leque
de aplicaçõesde grupos oper'Ìtivos,asquais, com algumas variações técnicas,são
conhecidaspor múltiplase diferentesdenominações.

W.R.Bion. Durantea década40, esteeminentepsicanalistada sociedadebritânica de


psicanálise- fortementeinfluenciadopelasidéiasde M. Klein, com quemseana-lisavana
época- , partindode suasexperiênciascom gruposrealizadasem um hospi-tal militar
durante a SegundaGuerra Mundial, e na Tavistock Clinic, de Londres, criou e difundiu
conceitostotalmenteoriginais acercada dinâmicado campo grupal.
Entre as suascontribuiçõesvale destacara suaconcepçãode que qualquergru-po
semovimentaem doisplanos:o primeiro,queeÌedenomina"grupode trabalho", operano
plano do conscientee está voltado para a execuçãode algumatarefa; subja-centea
esseexiste em estadolâtente,o "grupo de pressupostosbásicos",o qual está radicadono
inconsciente suasmanifestaçõesclínicascorrespondema umprimitivo atavismode
pulsõese de fantasiasinconscientesBion. formulou três tipos de supos-tos básicos:o de
dependência(exige um líder carismáticoque inspire a promessade prover as
necessidadesexistenciaisbásicas),o de /ata efuqa (de nafireza,paranóide, requeruma
liderançade naturezatirânica para enfrentaro supostoinimigo ameaça-dor) e o de
apareaìnento(também conhecidocomo "acasalamento",alude à forma- ção de paresno
grupo que podem se acasalare gerarum messiassalvador;portanto,
23 um suposto inconscienteque, para se manter,exige um líder que tenha algumas
característicasmísticas)Além. disso, Bion contribuiu bastantepara o entendimento
da relaçãoqueum indivíduoportadorde idéiasnovas(que ele chamade "místico" ou
"gênio") trava com o establishnlentno qual ele estáinserido.Esta úÌtima concepção
tem se revelado de imprescindívelimportância para a compreensãodos problemas
que cercamas instituições.
Pela importânciaque Bion representapara o movimento grupalista,vale a pena
mencionaralgunsdosaspectosqueele postulou:

. 5888 grupo precedeao indivíduo,isto é, as origensda formaçãoespontâneade


gru-pos têm suasraízesnogrupoprimordial, tipo a horda selvagem,tal como
Freud a menclonou.
. Os supostosbásicosantesaludidosrepresentamum atavismodo grupo primitivo
queestáinseridona mentalidade na culturagrupal.
. A cultura grupal consistena permanenteinteraçãoentre o indivíduoe o seu gru-
po, ou seja,entreo narcisismoe o socialismo.
. No plano tran ;-subjetivo, este atavismo grupal aparecesob a forma de mitos
grupais,como são,por exemplo,os mìtosde Eden(DeusversasConhecimento, sob
ameaçasde punição); Babel (Deusversrs Conhecimento,atravésdo estabele-
cimentodeconfusão);Esfinge(temo Conhecimento,porémlutapelonão-conhe-
cimento,tal como aparecena clássicasentença"decifra-meou te devoro",ou, "me
devoro(suicídio)seme decifrares");Edipo(castigadopelacuriosidadeano-sante e
desafiadora).
.
ções e um código de valores morais e éticos.
23 modelo que Bion propôspara a relaçãoque o indivíduotem com o grupo
é o da relaçãocontinente-conteúdo,a qual compoÍa três
tipos:parasitiírio,comensale simbiótico.
.
A relação ql'lo.eestablÌshmeÌrÍmantém como indivíduo místico,sentido como um
ameçadorportadorde idéiasnovas,adquireuma dessasformas: simplesmen-te o
expulsam,ou ignoram,ou desqualificam,ou co-optamatravésda atribuição de
funções administrativas,ou ainda, decorrido algum tempo, adotam as suas
idéias,porém divulgam-nascomo se elastivessempartidodos pró-homensda
cúpuladiretiva.
.
A estruturaçãode qualquerindivíduorequera sua participaçãoem grupo.

EscolaFrancesa.Na décadade 60,começama surgirostrabalhossobrea dinâ-


mica dosgruposcom um novoenfoque,a partirdostrabalhosdospsicanalistasfran-
cesesD. Anzieue R. Kàes,os quais,retomandoalgunsdos postuladosoriginaisde
Freud, propõem o importante conceito de "aparelho psíquicogrupal", o qual está
dotadodasmesmasinstânciasqueo psiquismoinconscienteindividl:al,masnãodos
mesmosprincípiosde funcionamentoCom. asconcepçõesteóricasdessesdoisauto-
res, o edifício que abriga as grupoterapiascomeçaa adquirir alicercesreferenciais
específicose representaumatentativano sentidode asgrupoterapiasadquiriremuma
identidadeprópria.

EscolaArgentina. Os nomesdospsicanalistasargentinosL . Grinberg,M. Langer



e E. Rodrigué são bastanteconhecidos,porquanto o seu livro Psicoterapia del
grupo tornou-seuma espéciede bíbliapara algumasgeraçõesde grupoterapeutasem
formaçãoNa. atualidade,é necessáriodestacar:GeraldoStein,com assuasconcep-
ções originais a respeitodo que ele denomina"psicanálisecompartida";Rubén
Zuckerfeld,com assuasimportantescontribuiçõesna utilizaçãode técnicasgrupais no
atendimentoa pacientesportadoresde transtornosde alimentação;e grupo de
autoresargentinos- no qual, entre outros, pontifica o nome de Janine Puget - que
vêm estudando divulgandoa modema" psicanálisedasconfiguraçõesvinculares",
notadamentecom casais,famílias egrupos.
Brasil. No Brasil,a psicoterapiade grupode inspiraçãopsicanalíticateve co-
meçocom Alcion B. Bahia;outrosnomesimportantese pioneirossãoos de Walderedo
Ismaelde Oliveirae WemerKemper,no Rio de Janeiro;BernardoBlay Neto, Luis Miller
de Paivae OscarRezendede Lima, em São Paulo,e Cyro Martins, David
Zimmermann e Paulo Guedes,em Porto Alegre. Na atualidade,há no Brasil uma
sériede pessoas,em diversase múltiplasáreas,trabalhandoativamenteem buscade
novoscaminhose de uma assistênciamais amplae abrangentecom a aplicaçãodos
recursosda dinâmica grupal.

coNcErTUAçAO DE GRUPO
5888 ser humano é gregário por nâturezae so.Iente existe, ou subsiste,em função
de seusinter-relacionamentosgrupais.Sempre,desdeo nascimento,o indivíduopartici-
pa de diferentesgÍupos,numa constantedialéticaentrea buscade sua identidade
individuale a necessidadede uma identidadesruDâle social.
Um conjunto de pessoasconstitui um grupo, um conjunto de grupos constitui
uma comunidadee um conjuntointerativo das comunidadesconfigura uma socieda-
de.
23 importância do conhecimentoe a utilização da psicologiagmpal
decorrejus-tamente do fato de que todo indivíduo passaa maior parte do tempo de
sua vida convivendoe interagindocom distintosgrupos.Assim, desdeo primeiro grupo
natu-ral que existe em todas as culturas- a família nuclear,onde o bebê convive com
os pais, avós, irmãos,babá, etc., e, a seguir,passandopor
creches,escolasmaternaise bancosescolares,além de inúmeros gruposde
formaçãoespontânea os costumeiros cursinhosparalelos- , a
criançaestabelecevínculosdiversificados.Taisgrupamentos vão serenovandoe
ampliandona vida adulta,com a constituiçãode novasfamílias e de grupos
associativos,profissionais,esportivos,sociais,etc.
A essênciade todo e qualquerindivíduo consisteno fato dele ser portador de
um conjunto de sistemas:desejos,identificações,valores,capacidades,mecanismos
defensivos e, sobretudo,necessidadesbásicas,como a da dependênciae a de ser
reconhecidopelos outros, com os quais ele é compelido a conviver. Assim, como o
mundo interior e o exterior são a continuidadeum do outro, da mesmaforma o indi-
vidual e o social não existem separadamente,pelo contrário, eles se diluem,
interpenetram,complementame confundementre si.
Com basenessaspremissas,é legítimoafirmar que todo indívíduo é umgrupo
(na medida em que, no seu mundo interno, um grupo de personagensintrojetados,
como os pais, irmãos, etc.,convive e interageentresi), da mesmamaneiracomotodo
grupo pode comportar-secomo uma individualidade (inclusive podendo adquirir a
uniformidade de uma caracterologiaespecíficae típica, o que nos leva muitas vezes
a referir determinadogrupo como sendo"um grupo obsessivo",ou "atuadoÍ", etc.).
É muito vaga e imprecisa a definição do termo "grupo", porquanto ele pode
designarconceituaçõesmuito dispersasnum amplo leque de acepções.Assim, a pa-
lavra "grupo" tanto define,concretamente,um conjuntode três pessoas(para muitos
autores,umarelaçãobipessoaljáconfiguraum grupo)como tambémpode conceihrar
uma famflia, uma turma ou ganguede formaçãoespontânea;uma composição artifi-
cial de grupos como, por exemplo, o de uma classe de aula ou a de um grupo
terapêutico;uma fila de ônibus;um auditório; uma torcida num estádio;uma multi-
dão reunida num comício, etc.Da mesmaforma, a conceituaçãode grupo pode se
estenderaté o nível de uma abstração,como seriao casode um conjunto de pessoas
que, compondouma'audiência,estejasintonizadonum mesmo programa de televi-
são; ou pode abrangeruma nação,unificada no simbolismo de um hino ou de uma
bandeira,e assimpor diante.
Existem, portanto, gruposde todos os tipos, e uma primeira subdivisão que se
faz necessáriaé a que diferencia os grandesgrupos (pertencemà iírea da macro-
sociologia) dos pequenosgrupos (micropsicologia).No entanto,vale adiantarque, em
linhas gerais,os microgrupos- como é o casode um grupo terapêutico- costu-mam
reproduzir,em miniatura,ascaracterísticassócio-econômico-políticase a dinâ-mica
psicológica dos grandesgrupos.
Em relaçãoaos microgrupos também se impõe uma necessáriadistinção entre
grupo propriamenÍe dito e agrupamentoPor. "agrupamento"entendemosum con-junto de
pessoasque convive partilhandode um mesmoespaçoe que guardamentre si uma certa
valência de inter-relacionamentoe uma potencialidadeem virem a se constituir como um
grupo propriamentedito. Pode servir de exemplo a situaçãode uma
"serialidade"depessoas,como no casode uma fila à esperade um ônibus: essas
pessoascompartemum mesmointeresse,apesarde não estarhavendoo menor víncu-
estãoseencaminhandoparaum congressocientífico:elasestãopróximas,mascom
nãoseconhecem não estãointeragindoelasnãoformammaisdo queum agrup
mento,atéqueum poucomaisadiantepodemparticiparde umamesmasalade dis
cussãoclínicae seconstituíremcomoum interativogrupode trabalhoPode.-sedize
que a passagemda condiçãode um agrupamentoparaa de um gnrpoconsisten
transformaçãode "interessescomuns"paraa de "interessesem comum".
5888 que,então,caracterizaum grupopropriamentedito?Quandoo
grupo,que sejade naturezaoperativaou terapêutica,preencheas
seguintescondiçõesbásica mínimas,estácaracterizado:
.
Um gruponãoé um merosomatóriodeindivíduos;pelocontrário,ele seconst tui
comonovaentidade,com leise mecanismosprópfiose específicos.
.
Todososintegrantesdo grupoestãoreunidos,facea face,em tomo deumataref e de
um objetivocomunsao interessedeles.
.
O tamanhode um gruponão podeexcedero limite queponhaem riscoa indis
pensávelpreservaçãoda comunicação,tantoa visualcomoa auditivae a conceitua
.
Devehaverainstituiçãodeum enquadre(seÍing)e o cumprirnentodascombin
çõesnelefeitas.Assim,alémde ter os objetivosclaramentedefinidos,o grup
develevarem contaa preservaçãode espaço(osdiase o local dasreuniões),d
tempo(horiários,tempodeduraçãodasreuniões,planodeférias,etc.),e a combi
naçãode algumasregrase outrasvariáveisque delimiteme normatizem ativi
dadegrupalproposta.
.
O grupoé umaunidadequesecomportacomoumatotalidade, vice-versa,d
modoque, tão importantequantoo fato de ele se organizara serviçode
seu membros,é tambéma recíprocadisso-Cabeuma analogiacom a
relaçãoqu existeentreaspeçasseparadasde um quebra-
cabeçasdestecom o todo a se arÍnado.
.
Apesardeum gruposeconstituircomoumanovaentidade,comumaidentida
grupalprópriae genuína,étambémindispensávelquefiquemclaramenteprese
vadas,separadamente,asidentidadesespecíficasdecadaurndosindivíduoscom
ponentesdo grupo.
.
Em todogrupocoexistemduasforçascontraditóriaspeÍmanentementeemjogo
umatendenteà suacoesão, a outra,à suadesintegração.
.
A dinâmicagrupalde qualquergruposeprocessaem doisplanos,tal comono
ensinouBion: um é o da intencionalidadeconsciente(grupode trabalho),e o
outroé o da interferênciadefatoresinconscientes(grupode supostosbásicos)É.
claroque,naprática,essesdoisplanosnãosãorigidamenteestanques,pelocontrá
rio, costumahaverumaceÍa flutuaçãoe superposiçãoentreeles.
.
É inerenteàconceituaçãodegrupoa
existênciaentreosseusmembrosdealguma formade interaçãoafetiva,a
qualcostumaassumirasmaisvariadase múltipla formas.
Nosgmpossemprevai existirumahierárquicadistribuiçãode posiçõese de
pa péis,de distintasmodalidades.
256 inevitávela formaçãodeum campogrupaldinâmico,em
quegravitamfantas
as,ansiedades,rnecanismosdefensivos,funções,fenômenosresistenciaistrans
ferenciais,etc.,alémde algunsoutrosfenômenosquesãoprópriose específic
dosgrupos,tal comopretendemosdesenvolverno tópicoquesegue.
coMo TRÂaALHAIVÍOScoM CRUPOS . 29

O CAMPO GRUPAL
Como mencionadoanteriormente,em qualquergrupo constituídose fonna um cam-po
grupal dinâmico, o qual secomportacomo uma estruturaque vai além da somade
seus componentes,da mesma forma como uma melodia resulta não da soma das
notasmusicais,mas, sìm, da combinaçãoe do arranjo entre elas.
Essecampo é compostopor múltiplos fenômenose elementosdo psiquismo e,
como trata-sede uma estrutura,resultaque todosesteselementos,tanto os intra como
os inter-subjetivos,estãoarticuladosentresi, de tal modo que a alteraçãode cadaum
deles vai repercutir sobre os demais, em uma constanteinteraçãoentre todos. Por
outro lado, o campogrupal representaum enormepotencialenergéticopsíquico,tudo
dependendodo vetor resultantedo embateentre as forças coesivase as disruptivas.
Tambémé útil realçar que, emboraressalvandoas óbvias diferenças,em sua essên-
cia, as leis da dinâmica psicológica são as mesmasem todos os grupos.
Como um esquemasimplificado, vale destacaros seguintesaspectosque estão
alivamentepresentesno campogrupal:

. Uma permanenteinteraçãooscilatóriaentre o grupo de trabalhoe o de supostos


básicos,antesdefinidos.
. Uma presençapermanente,manifesta,disfarçadao\ oculta,depulsões- libidinais,
agressivase narcisísticas- que semanifestamsob a forma de
necessidades,dese-jos, demandas,inveja e seusderivados,ideais,etc.
. Da mesmafoma, no campogrupal ctrcúam ansiedades- as quais podem ser de
natureza persecutória,depressiva,confusional, aniquilamento, engolfamento,
perdade amor ou a de castração- que resultamtanto dos conflitos intemos como
podem emergir em função das inevitáveis, e necessárias,frustraçõesimpostas
pela realidadeexterna.
. Por conseguinte,para contrarrestara essasansiedades,cadaum do grupo e esse
como um todo mobilizam mecanismosdefensivos,quetanto podem ser os muito
primitivos (negaçãoe controle onipotente,dissociação,projeção, idealizaçío,
defesasmaníacas,etc.) como também circulam defesasmais elaboradas,a re-
pressão,deslocamento,isolamento,formação reativa,etc. Um tipo de defesaque
devemerecerumaatençãoespecialporparte do coordenadordo grupo é a que diz
respeitoàs diversasformas de negaçãode certasverdadespenosas.
. Em particular,para aquelesque coordenamgrupoterapiaspsicanalíticas,é neces-
sário ressaltarque a psicanálisecontemporâneaalargoua concepçãoda estrutura
damente,em relaçãoàtradicionalfórmula simplistado conflito psíquicocentrado no
embateentreaspulsõesdo ld versasasdefesasdo egoe aprolÏsiçáodo superego-
Na ahralidade,os psicanalistasaplicam na prática clínica os conceitosde: ego
anxiliar (ê uma parte do superegoresultanteda introjeção, sem conflitos, dos
necessáriosvaloresnormativose delimitadoresdos pais); ego recl (conesponde ao
que o sujeito reolmenteé emcontraposiçãoao que ele imagina ser); ego ideal
(herdeiro direto do narcisismo,correspondea uma perfeição de valores que o
sujeito imagina possuir,porém, de fato, o sujeito não os possuie nem tem possi-
bilidades futuras para tal, mas baseiaa sua vida nessacrença,o que o leva a um
constanteconflito com a realidadeexterior); ideal do ego (o sujeito fica prisio-leiro
das expectativasideais que os pais primitivos inculcaramnele); alÍer-ego (é uma
parte do sujeito que está projetadaem uma outra pessoae que, portanto.
representaseÍ um "duplo" seu); contrã-ego ( é uma denominaçãoque eu propo-
nho para designaros aspectosque, desdedentro do sefdo sujeito,organizam-se
te ganhouem complexidade,porémcom issotambémganhouuma riquezad
horizontesde abordagemclínica,sendoquea
grupoterapiapsicanalíticapropic o surgimentodosaspectosantesreferidos.
Um outroaspectodepresençaimportanteno campogmpalé o surgimentodeu
jogo ativodeidentirtcações,tantoas projetivascomoasintrojetivas,ou atéme
mo asadesivasO. problemadasidentificaçõesavultade importânciana medi
em queelasseconstituemcomoo elementoformadordo sensode idenúdade
0 comunicação,niassuasmúltiplasformasdeapresentação-asverbaise
asnã verbais-, representaum aspectodeespecialimportânciana
dinâmicado cam grupal.
Igualmente,o desempenhopapáis,emespecialosqueadquiremumacarac
ística de repetiçãoestereotipada-como,por exemplo,o debodeexpiatório- ,
umaexcelentefontede observaçãomanejoporpartedo coordenadordo grup
Cadavez maisestásendovalorizada formacomoos vínculos(de amor,ódi
conhecimento reconhecimento),no campogrupal,manifestam-searticula
entresi, querno planointrapessoal,no interpessoalou até no transpessoalD.
mesmamaneira,háumafortetendênciaem trabalharcomasconfiguraçõesvin
cularcs,tal comoelasaparecemnoscasais,famílias,grupose instituições.
No campogrupal,costumaaparecerum fenômenoespecífico típico: a ress
nâncìa,qu.e,comoo seunomesugere,consisteno fato de que,comoumjogo
d diapasõesacústicosou de bilhar,a comunicaçãotrazidapor um membrodo
gr po vai ressoarem um outro;o qual,por suavez,vai transmitirum significa
afetivo equivalente,ainda que,Fovavelmente, venhaembutidonuma naÍrativ
de embalagembemdiferente, assimpordiante Pode.-sedizerqueessefenôm
no equivaleaoda "livre associaçãode idéias"queacontecenassituaçõesindivi
duaise que,por issomesmo,exigeumaatençãoespecialpor partedo coorden
dor do grupo.
0 campogrupalseconstituicomoumagaleriade espelftos,ondecadaum pod
refletir e ser refletido nos, e pelos outros.Particularmentenos grupospsicoter
pêuticos,essaoportunidadedeencontrodo sefde um indivíduocom ode outro
configuraumapossibilidadedediscriminar,afirmareconsolidar própriaident
dade.
Um grupocoesoe bemconstituído,por si só,tomadono sentidode umaabstr

ção, exerceumaimportantíssimafunção,qual seja,a de serum continenteda


angrístiasenecessidades cadaum e de todos-Issoadquireuma importânc
especialquandosetratadeum grupocompostoporpessoasbastanteregressiv
Apesarde todosos avançosteóricos,com o incrementode novascorentesd
pensamentogrupalístico-ê a teoriasistêmicaéum exemplodisso-, aindanãos
podeproclamarquea ciênciada dinâmicado campogrupaljá tenhaencontra
plenamente suaautênticaidentidade,as suasleis e referenciaisprópriose ex
clusivos,porquantoelacontinuamuitopresaaosconceitosquetomouempres do da
psicanáliseindividual.
Creioserlegítimoconjecturarque,indoalémdosfatos,dasfantasiase dosconfl tos,
quepodemserpercebidossensoriale racionalmente,tambémexisteno cam po
grup;l muitosaipectosque perÍnanecemocultos,enigmáticos secretosÀ.
modade umaconjecturaimaginativa,cabeousardizerquetambémexistealg
cercadode algummistério,quea nossa"vã psicologiaaindanão explica",masqu
muitasvezessemanifestapor melhorasinexplicáveis,ou outrascoisasdo gêner
do indivíduo com osdiversos grupos com os quais ele convive, é igualmente
relevantedestacar,em termos macroscópicos,a relaçãodo sujeito com a cultura
na qual ele estáinserido.Uma afirmativa inicial que me pareceimportanteé a de
que o fator sócio-culturalsomentealterao modo de agir, mas não a naturezado
reagir.Explico melhorcom um exemplotirado da minhapráticacomo grupotera-
peuta,para ilustrar o fato de que, diante de uma mesmasituação- a vida genital
de uma mulherjovem e solteira- foi vivenciadade forma totalmentedistinta em
duas épocasdistantesuns vinte anosuma da outra. Assim, na década 60, uma
jovem estudantede medicina levou mais de um ano para "confessar" ao grupo
que mantinhauma atividadesexuaìcom o seunamorado,devido às suasculpas e
ao pânico de que sofreria um repúdio generalizadopela sua transgressãoaos
valores sociais vigentesnaquelaépoca. Em contrapartida,em um outro grupo,
em fins da década80, uma outra moça tambémlevou um longo tempo até poder
poderpartilharcom os demaiso seusentimentode vergonhae o temor de vir a ser
ridicularizadae humilhadapor eles pelo fato de "ainda ser cabaçuda".Em resu-
mo, o modo de agir foi totalmenteoposto,mas a natureza(medo, vergonha,cul-
pa, etc.) foi a mesma.Cabe tirarmos duas conclusões:uma, é a de que costuma
haver o estabelecimentode um conflito entre o ego individual e o ideal de ego
coletivo; a segundaconstataçãoé a de que o discursodo Outro (pais e cultura) é
que determinao sentidoe gera a estruturada mente.
.
Todos os elementosteóricosdo campo grupal antesenumeradossomenteadqui-
rem um sentidode existênciae de validadese encontraremum eco de reciproci-
dadeno exercícioda técnicae prática grupal. Igualmente,a técnicatambém não
pode prescindir da teoria, de maneiraque ambasinterageme evoluem de forma
conjugadae paralela.Pode-seafirmar que a teoria sema técnicavai resvalarpara
uma prática abstrata,com uma intelectualizaçãoacadêmica,enquantoa técnica
sem uma fundamentaçãoteórica corre o risco de não ser mais do que um agir
intuitivo ou passional.Por essasrazões,no capítuloque segue,tentaremosestabe-
lecer algumasinter-Íelaçõesentreâ teoria e a técnicada prática grupal.
FundamentosTécnicos
DAVID E. ZIMERMAN

Conquanto os fundamentosteóricos e as leis da dinâmica grupal que presidem o


grupos,de forma manifestaou latente.sempreestejampresentese sejamda mesm
essênciaem todos eles,é inegável que as técnicasempregadassão muito distintas
e variáveis,de acordo,sobretudo,com a finalidade para a qual determinadogrupo foi
criado.Em outraspalavras:da mesmaforma como todosos indivíduosque nos procu
ram - pacientes,por exemplo - são portadoresde uma mesmaessênciapsicológica
0 óbvio que, no casode um tratamento,paracadasujeito em especialigualmenteva ser
necessárioum planejamentode atendimentoparticular, com o empregode uma
técnicaadequadaàs necessidades,possibilidades peculiaridadesde cadaum dele Diante
do fato de que existe um vasto polimorfismo grupalísticoe que, po conseguinte,também
há uma extensae múltipla possibilidadede variaçãonasestraté gias, técnicase
táticas,toma-seimpossívelpretender,em um único capítuÌo,esgota ou fazer um
detalhamentominuciosode todaselas.Por essarazão,vamosnos limitar a enumerar,de
forma genérica,os principaisfundamentosda técnica,quedizem respe to ao cotidianoda

práticagrupal, tentandorastreá-losdesdeo planejamentoda forma ção de um grupo, o


seufuncionâmentoduranteo cursoevolutivo, procurandoacentu ar algumasformas de
manejotécnico diantedos diferentesaspectose fenômenosque
surgemno campogrupaldinâmico.

Planejamento. Inicialmente, creio ser útil fazer uma discriminação entre os


conceitosde logística, estratégia,técnicae tritica, termosque, emboraprovindos da
terminologia da áreamilitar, parecem-metambém adequadosao campo da psicolo
gia. Por logística entendemosum conjunto de conhecimentos equipamentose um
lastro de experiênciaque servemde suportepara o planejamentode uma ação (no
caso,o da formaçãode um grupo). Estratégia destgnaum estudodetalhadode como
utilizar a logísticapara atingir e alcançarum êxito operativo na finalidade planejad
(comohipótese,um grupopsicoterápicoparapacientesde estruturaneurótica).Técnic
sereferea um conjuntode procedimentose de regras,de aplicabilidadeprática, e qu
fundamentama exeqüibilidadeda operação (na hipótese que está nos servindo de
exempÌo,poderiaser a utilizaçãode uma técnicade fundamentaçãopsicanalític
Tótica alude às variadasformas de abordagemexistentes,que, de acordo com a
circunstânciasda operaçãoem cursoe com o estìlopeculiarde cadacoordenado
emboraa técnicapermaneçaessencialmente mesma(aindano nossoexemplohipoté
tico, é a possibilidadede que um grupoterapeutaprefira a interpretaçãoimediata e
sistemáticano "aqui-agora-comigo"da transferência,enquantoum outro grupotera
peutai,qualmentecapaz,e de uma mesmacorrentegrupanalítica,optepelatáticade
evitaÍo empregosistemático
exclusivodessaformadeinterpretar,comoum capazde criar um clima
maispropíciode acessibilidadeaosindivíduose grupal).
Destarte,dianteda resoluçãodecriare comporum gÍupo,devemosest
a respondera algumasquestõesfundamentais,comoas seguintes: v
Quem
coordenador?(Qualé a sualogística,Qualé o seuesquemareferencial?,etc.
què e paraqualfrnalidadeo grupoestásendocomposto?(E um grupode
aprendizagem?De auto-ajuda?De.saúdemental?Psicoterápico?De famíli
Para quemele se destina?(Sãopessoasque estãomotivadas?Coincideco
necessidadepor panede um conjuntode indivíduosequeo grupoem plane
poderápreencher?Sãocrianças,adolescentes,adultos,gestantes,psicóticos
siírios,alunos,etc.?)Como.elefuncionará?(Homogêneoou heterogêneo,a
fechado,comou semco-terapia,qualseráo enquadredo númerode partici
númerode reuniõessemanais,o tempode duraçãodasmesmas,seráacomp
ou nãopor um supervisor?,etc.).Onde,emquaiscircunstâncias,e comquai
sos?(No consultórioprivado?Em umainstituiçãoe,nestecaso,temo apoiod la
administrativa?Vai conseguirmantera necessáriacontinuidadede um locale
doshorárioscombinadoscomo grupo?,etc.).
Comoumatentativade sintetizartudo isso,valeafirmarque a
primei mendaçãotécnicaparaquemvai organizarum grupoé a de
queele tenhau bemclarado quepretendecom essegrupoe de comovai
operacionaliza intentoicasocontrário,é muito provávelque o
seugrupopatinaránum c confusão,de incertezâs demâl-entendidos.
Seleção grupamentoOs.grupoterapeutasnãosãounânimesquantoa
riosdeseleçãodosindivíduosparaacomposiçãodeumgrupo,queressesejaop
quersejaterapêuticoAlguns.preferemaceitarqualquerpessoaque manife
interesseemparticipardeum determinadogrupo,soba alegaçãode queosp
contratemposserãoresolvidosduranteo próprio andamentodo grupo.Ou
entanto,entreosquaisparticularmenteme filio, preferemadotarumcertorig na
seleção,ancoradosnosargumentosqueseguem:

0 muito impoÍantee delicadoo problemadasindicações contra-indi


Umamotivaçãopor demaisfrágil acarretaumaaltapossibilidadedeuma
paçãopobreou a de um abandonoprematuro.
Essetipo de abandonocausaum mal-estar umasensaçãode fracassot
indivíduoquenãoficou no grupocomotambémno coordenador na to do
grupo;alémdisso,esteúltimo vai ficar sobrecarregado,ao mesm
comsentimentosdeculpae.comumestadodeindignaçãoporsesentirdes do
e violentado,não unicamentepelo intrusoqueteveacessoà intimid
participantesfugou,mastambémcontraa negligênciado coordenado Um
outroprejuízopossíveléo dacomposiçãodeum inadequado"grupa
(essetermonãotemo mesmosignificadode"agrupamento"aludea uma ou
seja,a umavisãoglobalística,àformacomocadaindivíduointeragir
demaisna composiçãode umatotalidadegrupalsingular).
Além desses,podemaconteceroutrosincovenientes,comopossibilida
permanenteestadodedesconfortocontratransferencial,assimcomotam
democonercertassituaçõesconstrangedorasquando,por exemplo,mu
fica patenteentreas pessoascomponentesum acentuadodesnívelde
inteligência,patologiapsíquica,etc.
col\lo 1RÂBÂLHAMOSCOÌiÍCRUPOS o 35

Podeservircomo uma exemplificaçãomais completado impoÍante process de


seleção,particularmenteparaos leitoresmaisinteressadosem grupoterapiapsica-
nalítica, a exposiçãopresenteno capítuÌoespecífico,na Parte2 destelivro.
Enquadre (seÍrng).Uma importanterecomendaçãode técnicagrupalísticacon-
sisteno estabelecimentode um enquadre a necessidade preservaçãodo mesmo
0 enquadreé conceituadocomo a somade todosos procedimentosque organizam
noÍTnatizamepossibilitamo funcionamentogrupaÌAssim,.ele resultade uma con-
junção de regras,atitudese combinações,como, por exemplo,o localdasreuniÕes os
horários,a periodicidade, plano de férias,os honorários(na eventualidadede que
hajaalgumaforma de pagamento, combinaçãodesseaspectodeveficar bem claro),o
númeromédiode participantes,etc.
Todosessesaspectosformam"asregrasdojogo", masnão ojogo propriament dito.
O.retlirrgnão secomportacomoumasituaçãomeramentepassiva,pelo contrá-rio, eleé
um importanteelementotécnicoporquerepresentaasseguintes imponan-tesfunções:
.
0 criaçãode um novoespaçoparareexperimentarressignificarfortese antiga
experiênciasemocionais.
.
Uma forma de estabeleceruma necessáriadelimitaçãode papéise de posições
de direitose deveres,entreo queé desejável o queé possível,etc. Esteúltimo
.
aspectoganharelevâncianosgruposcompacientesregressivos,como, por
exemplo,os borderline,porquantoelescostumamapresentaruma "difusão de
identidade"por aindanão estaremclaramentedelimitadasas representaçõ do sefe
dosobjetos;portantoé imprescindívela colocaçãode limites,tal como o settÌng
pÍopicia.
.
O enquadreestásobumacontínuaameaçade vir a serdesvirtuadopelaspressõe
oriundasdo interior de cadaum e de todos,sob a forma de demandasinsaciáveis, por
distintasmanobrasde envolvimento,pelaaçãode algumasformasresistenciai e
transferenciais,etc.,e, por isso mesmo,o enquadreexigeum manejotécnico
adequado,tendopor basea necessidadedeleserpreservadoao máximo.
.
Um aspectoque merecea atençãodo coordenadorserefere ao grau de
ansiedade no qualo grupovai trabalhar,de rraneiraa quenãohajauma
angústiaexcessiva porémumafaltatotalde ansiedadedeveserdiscriminadado
quepodeestarsen-do um conformismo com a tarefa,uma apatia.
. Ainda um outro elementoinerenteao enquadreé o que podemosdenominar"at-
mosferagrupal",a qualdependebasìcamenteda atitudeafetivaintemado coor-
denador,do seuestilo pessoalde trabalhare do empregode táticasdentro de um
determinadoreferenciaÌtécnico.
. Os principaiselementosa seremlevadosem contana configuraçãode um J?/Íilg
grupalsãoos seguintes:
1 E um grupo homogêneo(uma mesmacategoriade patologia,ou de idade
sexo,graucultural,etc.)ou heterogêneo(comportavariaçõesno tipo e grau de
doença,no caso de um gÍïpo terapêutico;no tipo e nível de formaçãoe
qualificaçãoprofissional,no casode um grupo operativode aprendizado etc.)?

2 E um grupofechado(umavezcompostoo grupo,nãoentramaisninguém)ou
aberto(semprequehouvervaga,podemseradmitidosnovosmembros)?
3 A combinaçãoé a de duraçãolimitada (em reláìçãoao tempoprevistoparaa
existênciado grupoou dapermanêncìamáximade cadaindivíduonessesru-
po, como comumenteocorrenas instituições),ou ele seráde duraçãoi
da (como pode ser no casodos grupos abertos)?
0 Quanto ao número de participantes,poderá variar desdeum pequen
com três participantes- ou dois, no casode uma terapiade casal- , ou
tratar do grupo denominado"numeroso", que comporta dezenasde p
1 Da mesmaforma, tambémabrigamuma ampla gama de variações-
me o tipo e a finalidade do grupo - outros aspectosrelevantesdo e
grupal,como é o casodo númerode reuniõessemanais(ou
mensais),o de duraçãode cadareunião,e assim por diante.

Manejo das resistências.O melhor instrumentotécnico que um coor de


grupo pode possuirparaenfrentaras resistênciasque surgemno campo gr de
ter uma idéia clara da função que elas estãorepresentandopara um deter
momentoda dinâmica de seugrupo. Assim, uma primeira observaçãoque se
i a que diz respeitoà necessidadede o coordenadordiscriminar entre as resi
inconscientesque de fato são obstrutivase que visam a impedir a livre e
exitosado grupo, e aquelasoutrasresistênciasque são benvindasao campo
porquantoestãodandouma clara amostragemde como o sefde cadaum e d
aprendeua se defenderna vida contra o risco de seremhumilhados, aband
não-entendidos,etc.
Da mesmaforma, é útil que o coordenadorpossareconhecercontra qua
edadesemergentesno grupo uma determinadaresistênciase organiza:é ela
d rezaparanóide?(medo da situaçãonova, de não ser reconhecidocomo um
ig outrose de não ser aceito por esses,do risco de vir a passarvergonhae
humil de vir a ser desmascarado,etc.), ou é de naturezadepressiva?(no
caso grupoterapiapsicanalítica,é comum surgir o medo de enfrentâro
respectivo q de responsabilidadeou de eventuaisculpase o medode
seconfrontarcom um intemo destruídoe sempossibilidadede repamções,o
temor de ter que renu mundo das ilusões,etc.,), e assim por diante.
Nos gruposoperativosem geral(porexemplo,um grupode ensino-prend
um critério que o coordenadorpode utilizar como sinalisadorda presençad
tênciasé quando sucedemexcessivosatrasose faltas, aliados a um decrés
leiora dos textos combinados,acompanhadospor uma discussãonão mais
moma, caracterizandoum clima de apatia.Um outro sinal preocupante,porq
sívelna maioria das vezes,é quando o grupo elege os corredorescomo fó
debatede sentimentos,idéias e reivindicações.Da mesmaforma, o conduto
grupo operativodeve estaralerta para a possibilidadede que os "supostosb
estejamemergindoe interferindo no cumprimentoda finalidade da tarefa do
de trabalho". Nestes últimos casos,é recomendável que o coordenadord
operativa solicite ao grupo que façam uma pausa na sua tarefa a fim de p
entendero que estáse passando.
Ainda em relaçãoàsresistências,maisduasobservaçõessãonecessárias
dizem respeitoà pessoado coordenador,qualquerque seja a naturezado gru
ele estáconduzindo.A primeira é a possibiÌidadede que a resistênciado grup
representandouma natural, e até sadia,reaçãocontra as possíveisinadequa
cooordenadorna suaforma de concebere conduzir o grupo. A segunda,igu
importante,diz respeitoàpossívelformaçãode um, inconsciente,"conluio resis
entre o coordenadorc os demais,contra o desenvolvimentode certos asp
qual
tarefana estãotrabalhando.
coMo TRABALHAì!íoScov cnupos . 37

Manejo dos aspectostransferenciais. Da mesmaforma como foi Íeferido e


relação às resistências,é necessáriofrisar que, diante do inevitável surgimentod
situaçõestransferenciais,um manejotécnicoadequadoconsisteem reconhecere dis
criminá-las. Assim, cabeafirmar que o surgimentode um movimento transferenci está
"neurose
muito longe de representarque estejahavendoa instalaçãode uma d
transferência",ou seja,é legítimo dizerque no carnpogrupal, inclusive no grupan
lítïco,há transferênciaem tudo, mas nem tudo é transferênciaa ser trabalhada.
No campo grupal, as manifestaçõestransferenciaisadquiremuma compÌexid
de maior do queno individual,porquantonele surgemasassimdenominadas"transfe
rênciascruzadas",queindicamapossibilidadeda instalaçãode quatroníveisde iransfe
rência grupal: de cada indivíduo para com os seuspares,de cada um em relação
figura central do coordenadorde cada um para o grupo como uma totalidade,e d
todo grupal em relaçãoao coordenador.
Um aspectoque estáadquirindo uma crescenteimportânciatécnicaé o fato de
os sentimentostransferenciasnão representaremexclusivamenteuma mera
repetiçã de antigas experiênciasemocionais com figuras do passado;eles podem
també estarrefletindonovasexperiênciasque estãosendovivenciadascom a
pessoareal d coordenador cadaum dosdemais.
Em relaçãoaossentimenÍoscontratransferenciais, impoÍante équeo coorden dor
saibaqueelessãode surgimentoinevitável;queo segredodo êxito técnicoconsist em não
permitir que os sentimentosdespertadosinvadam a sua mente,de modo a s tomarem
patogênicos;pelo contrário, que elespossamse constituir como um instru mento de
empatia; e que, finalmente, o coordenadorestejaatento para o risco de
inconscientemente,poder estarenvolvido em algum tipo de "conluio inconscient com o
grupo, o qual pode ser de naturezanarcisística,sado-masoquista,etc.

Manejo dos dcÍr'rrgsTodos.ostécnicosque trabalhamcom gruposreconhece


que a tendênciaao acíing ("a açío") é de cursoparticularmentefreqüente,e que
intensidadedelescresceráemuma proporçãogeométricacom a hipótesede que
indiví duos de caracterologiapsicopática tenham sido incluídos na sua
composição. D ponto de vista de ser utilizado como um instrumento técnico, é
necessário que coordenadorreconheçaque os acllngs representamuma
determinadacondutaque s processacomo uma forma de substituirsentimentosque
não conseguemse manifes tar no plano consciente.Isso costuma ocorrer devido a
uma das cinco condiçõe s€guintes:quandoos seltimentos re!relados
ig:espqndelrygos, fantasiase ansie dadesque estãoreprimidase que não são
recoÈladas(como Freud ensinou),ou qu não são pensadas(segundoBion), ou que
não sãocomunicadaspela verbalização,o quenão conseguemficar
contidasdentrodo próprio indivíduo e, finalmente,o impo tanteaspectode que o

acting pode estarfuncionandocomo um recursode comunica ção muito primitivo.


As atuaçõesadquiremum extensolequede manifestações;no entanto,o que d fato
mais importa é a necessidadede o coordenadordo grupo saberdiscriminar co
segurançaquando se trata de actings benignos(como é o caso das conversaspré pós-
reuniões,encontrossociais entre os participantes,às vezes acompanhadosdo
respectivoscônjuges,ou o exercíciode algumaação transgressora,mas que, no fun do,
pode estar significando uma saudáveltentativa de quebrar alguns tabus e est
reotipiasobsessivas)e de quandose ÍaÌz deactingsmalignos, como são, por exem plo,
os de naturezapsicopática.Há uma forma de atuaçãoque,emborasejade aparec
mentocomum, apresentaumarepercussãodeletéria,devendo,por isso,serbem traba
lhadapelo coordenador:é a que serefereà divulgação,parafora do grupo, de algum
situaçãomuito sigilosae privativada intimidadedeste.Não
custarepetirq adequadaseleção composiçãona formaçãodeum
gmpominimizao riscod çõesmalignas.

ComunicaçãoPartindo.daafirmativadeque"o grandemal da humani


problemado mal-entenlido",pode-seaquilatara importânciaque os aspe
normalidade patologiada comunicaçãonos gmposrepresentaparaa técn
práticagrupalísticasDessa.forma,o grupoé um excelentecampode observ
comosãotransmitidase recebidasasmensagensverbais,comaspossíveisdis
0 reaçõesporpaÍedetodos.Um aspectodacomunicaçãoverbalquemerecea
especialé o queapontaparaa possibilidadede queo discursoestejasendou
fato não paracomunicaralgo, porém,pelo contrário,que ele estejaa ser
incomunicação.
Poroutrolado,nãoé unicamente
comunicaçãoverbalqueimporta,por cadavez maissetoma relevante
importânciadasmúltiplasformasde ling não-verbais(gestos,tipo de
roupas,maneirismos,somatizações,silêncios, actings,etc.).

Atividade interpretativa.Utilizo a expressão"atividadeinterpreta lugarde


"interpretação",pelofato destaúltima serdeusomaisrestritoàssit quevisama
umaformapsicanalíticade acessoao inconscienteindividuale enquanto
primeiraexpressãopermitesuporumamaiorabrangênciaderecu partedo
coordenâdorde um grupo,comoé o usode perguntasqueinstigue
xões;claÍeamentos;assinalamentosdeparadoxosecontradições;um confron
arealidade o imaginário;a aberturadenovosvérticesdepercepçãodeumad
nadaexperiênciaemocional,etc.Com"atividadeinterpretativa"tamMmesto
bandotodaa paÍicipaçãoverbaldo coordenadorque,de algumaforma,cons
movera integraçãodosaspectosdissociadosdosindivíduos,datarefae do g
Assimconcebida, atividadeinterpretativano grupoconstitui-secom
principalinstrumentotécnico,sendoquenãoexistemfórmulasacabadase " de
comoe o quedizer,poisassituaçõespráticassãomuito variáveise, além
cadacoordenadordeverespeitaro seuesfilopeculiare autênticode formulare
No casode grupoterapiapsicanalítica,questãomaispolêmicagira em tomo les
gnrpoterapeutasque prefereminterpretarsempresedirigindo ao grupocom
totalidadegestáltica,enquantooutrosadvogamque a interpretaçãopode (ou de
dirigida aosindivíduossepaÌadamente,desdequeela venhaacompanhadade u
culaçãocom a dinâmicada totalidadedo grupo.Esseassuntoé paÍticularme
vantee seráabordadomaisdetidamenteno capítulosobregrupoterapiaspsican
Creiosernecessáriosublinharque,assimcomoexistea possibilidad
"violência da interpÍetaçãÕ' (como é o casode um grupoterapeutapretende
os seusprópriosvalorese expectativas,ou de apontarverdadesdoloridasse
sensibilidadeamorosa),tambémexistea "violênciada imposiçãode preco
técnicosuniversais",semlevaremcontaaspeculiaridades cadatipo de gr de
situações circunstânciasespeciais.

Funçõesdo ego.A situaçãodocampogrupalpropiciao surgimentodasf


do ego,istoé, decomoosindivíduosutilizama capacidadedepercepção,pen
to, conhecimento,juízo crítico,discrimínaçã.comunicação,açAo,etc.;p
razão,trabalharcom essesaspectosé parte importanteda instrumentagão
Paradarum únicoexemplo,valemencionarquea essênciade umaterapiad
ou de famflia, consistebasicamenteem "ensinar" os participantesa usarem as fu
y
ções de sabereJcrtdr o outro (é diferentede simplesmente"ouvir"), de cadaum
5888 outro (é diferentede "olhar"), de po derpensarno que estáescutandoe
nasexperi cias emocionaispelasquaiseles estãopassando,e assimpor dianle.

Papéis. Convém enfatizar que uma das caracteísticasmais relevantesque p


meiam o campo grupal é a transparênciado desempenhode papéispor paíe de ca
um dos componentesA. importânciadessefenômeno grupal consisteno fato de q
23 indivíduo tambémestá executandoessesmesmospapéis nas
diversasáreasde s vida - como a familiar, profirssional,social, etc.
Eum deverdocoordenadordogrupoestaratentoàpossibilidadede estarocorr
do uma fixidez e uma estereotipiade papéispatológicosexercidossemprepelasm
mas pessoas,como se estivessemprogramadaspara assim agirem ao longo de
to vida. O melhor exemplo de como a atribuiçãoe a assunçãode papéispode
repres tar um recurso técnico por excelência é o que pode ser confirmado pel
grupoterapeutasde famíli4 que tão bem conhecemo fenômeno do "paciente
identific do" (a família elege alguémpara servir como depositárioda doençaoculta
de tod os demais)e outros aspectosequivalentes.

Vínculos.Cada vez mais, os técnicosda áreada psicologiaestãovalorizand


configuraçãoque adquiremas ligaçõesvincularesentreas pessoasIndo. muito al do
exclusivo conflito do vínculodo amor contrao do ódia, na atualidade,conside se mais
importantea observaçãoatentade como se manifestamas diferentesform de amar,de
agrediÍ e asinteraçõesentreambasAlém. disso, Bion introduziu o imp
tantíssimovínculo do conhecimento,que possibilitaum melhor manejotécnico c os
problemas ligados às diversasformas de "negação" que explicam a gênese muitos
quadrosde psicopatolgia,assimcomotambémfavoreceao técnicouma ma clarezana
compreensãoda circulação das verdades,falsidadese mentirasno cam grupal.
Particularmente,tenhopropostoa existênciade um quartovínculo,o do re
nhecimento,atravésdo qual é possívelao coordenadorpercebero quanto cada in
víduo necessita,deformavital, serreconhecidopelos demaisdo grupo como algu que,
de fato, pertenceao grupo (é o fenômeno grupal conhecido como "pertencência
5888 tambémalude à necessidadede que cadarmreconheça ao outro como
alguém q tem o direitode serdiferentee emancipadodele.
Tendo por base essesquatro vínculos, e as inúmerascombinaçõese arran
possíveisentreeles,a compreensão o manejodos mesmostomam-seum excele
recursotécnico no trato de casais,famílias,grupos ou instituições.

Término. Termo que designaduaspossibilidades:uma é a de que o grupo ter ne,


ou por uma dissoluçãodele, ou para cumprir uma combinaçãopÉvia, como é
casodos grupos "fechados";a segundaeventualidadeé a de que determinadapes
encerrea sua participação,embora o grupo continue, como é no caso dos grup
"abertos".Saberterminar algo,qu.epodeseruma tarcfa,um tratamento,um casame
etc., representâum significativo crescimentomental. Daí considerarmosque de haver
por parte do coordenadorde qualquergrupo uma fundamentaçãotécnica q possibilite
uma definição de critérios de término e um manejo adequadopara ca situaçãoem
particular,semprelevando em conta a possibilidadedo risco de que
resultadosalcançadospodem ter sido enganadoresIsso. vale especialmentepaÍa
grupos de frnalidadeterâpêutica,emborana atualidadeo grupoterapeutapossac tar
com claros critérios de um verdadeirocrescimentopsíquico.
Atributos de um coordenadorde grupo. DecidiincorporaÍestetópicocom
integrantedafundamentaçãotécnica,porquemepareceimpossíveldissociarumade
quadomanejotécnicoemqualquermodalidadedegrupo,semquehajaumasimult
neaatitudeintemana pessoarealdo profissional.
Assim,alémdosnecessárioscrnliecimentos(provindosde muitoestudoe
leitu ras),de habilidades(treino e supervisáo),as atitudes(üm tratamentode
basepsica nalíticaajudamuito) sãoindispensáveis, elassãotecidascom
algunsatributos funçõescomoasmencionadasseguir:
.
Gostare acreditaremgrupos.
.
Sercontinente(capacidadede conterasangústiase necessidadesdos
outros, tambémas suaspróprias).
.
Empatia(pder colocar-seno lugaÍdooutroe assimmanterumasintoniaafetiva
.
Discrìminação(paranão ficar perdidono cipoal dascruzadasidentificaçõ projetivase
introjetivas).
.
Novo modelode identiJìcaçõo(contribui paraa importantefunçãode desidentifi
caçãoe dessignificaçãodeexperiênciaspassadas,abrindoespaçoparaneo-identif
cações neo-significações).
23 Comunìcação(tantocomoemissoÍou receptor , com a linguagemverbalou a
não-verbal,coma preservaçãodeum estilopróprio,e comoumaformademode
lo paraosdemaisdo gnrpo).
.
Sq verdadeiro (se o coordenadornão tiver amor às verdadese Dreferir não
enfrentá-las,não poderáservircomoum modeloparao seugrupo,e o melho
serátrocarde profissão).
. (um
Sensode humor coordenadorpodeserfirme semserrígido,flexívelsemse
frouxo, bom semseÍbonzinhoe, da mesmaforma, podedescontrair,rir,
brincar semperdero seupapele a manutençãodos necessárioslimites).
.
Integraçãoe síntese(ê acapacidadede extrair o denominadorcomumdasmensa
gensemitidaspelosdiversoscomponentesdo grupoe de integrá-lasem um tod
coerente unificado,semartificialismosforçados).

Ao longo da leitura dos capítulosdaprática clínicados diversosautoresdest


livro, nassuasentrelinhas,o leitorpoderáidentificartodosessesatributos,e outro
mais,comoconstituintesbásicosda fi:ndamentaçãotécnica.
Atributos Desejáveispara
um Coordenadorde Grupo
DAVIDE,ZIMERMAN

Ao longo de virtualmentetodosos capítulosdestelivro, deuma forma ou de outra


semprehá um destaqueà pessoado coordenadordo grupono temaque estásend
especificamenteabordado,como sendoum fator de fundamentalimportânciana evo-
lução do respectivogrupo, seja ele de que naturezâfor. Creio que bastaessarazão
parajustificar a inclusãode um capítuloque abordede forma mais direta, abrangent
5888 enfáticaas condiçõesnecessárias,ou pelo menosdesejáveis,para a
pessoaque coordenagrupos.De certa forma, portanto,estecapítuloé uma síntesede
aspectosjá suficientementedestacadosnestelivro, tantode
modoexplícitoquantoimplícito.
Inicialmente,é útil escÌarecerque o termo "coordenador"estáaqui sendoempre-
gadono sentidomais amplo do termo, desdeas situaçõesque seformam naturalmen
te, sem maioresformalismos (como pode ser,por exemplo, uma atendentecom um
de bebêsde uma creche,ou com criancinhasde uma escolinhamatemal;um _erupo
grupo de auto-ajuda,no qual sempresurgemliderançasnaturaisque funcionamcomo
coordenadores;um professoruniversitárioem uma salade aula,um empresáriocom
23 suaequipede trabalho,etc.),passandopor gruposespecialmenteorganizadospara
aÌgumatarefa,atéa situaçãomaissofisticadaecomplexade um grupoterapeutacoorde
nandoum grupopsicanaÌítico.
Vale ressaltarque, indo muito além do importantepapel de figura transferencia
quequalquercondutorde grupo semprerepresenta, ênfasedo presentetexto incidirá
de forma mais particular na pessoareal do coordenador,com o seujeito verdadeiro
de ser,e, por conseguinte,com os âtributoshumanosqueeìepossui,ou lhe faltam.
Fazendoa necessáriaressalvade que cada situaçãogrupal específicatambém eriee
atributosigualmenteespeciaisparaa pessoado coordenador,consideroperfeita-m:nte
legítimo ressaltarque a essámciadascondiçõesintemas deve ser a mesmaem :ada um
deles.Uma segundaressalvaé a de que a discriminaçãoem separadodos
Civersosatributosa seguirmencionadospodedar uma falsaimpressãode queestamo
:resando uma enormidadede requisitospara um coordenadorde grupo, quaseque
:..ntìgurandoumacondiçãode "super-homem"Se. realmentefor essaa impressã i:irada.
peçoao leitorquereleve,poistudo sepassade forma simultânea,conjunta
24 :atural.e a quantidadede itensdescritosnãoé maisdo queum esquemade propósi
25 -. didático.
Destarte,seguindouma ordemmaisde lembrançado que de importância,vale
j
::ite.ar os seguintesatributoscomo um conjuntode condiçõesdesejáveise, para i:r. !
ituacòesimoresc.indíveis:
42 znasrM,c,Nosorro

.
Gostar e acreditar €m grupos,E claroquequalqueratividadeprofiss
exigequeo praticantegostedo quefaz,casocontrárioeletrabalharácom um en
desgastepessoal comalgumgraudeprejuízoem suatarefaNo. entanto,atrev
5888 dizer que,paÍicularmentena coordenaçãode
grupos,esseaspectoadquire relevânciaespecial,porquantoa gestaltde um
grupo,qual um "radar",capta mais facilidadeaquiloque lhe é "passado"pelo
coordenador,sejaentusias enfado.verdadeou falsidadeetc.
Cabedeixarbemclaroqueo fatode segostardetrabalharcomgruposdem
algumexcluio fato de vir a sentirtransitóÍiasansiedades,cansaço,descrença
.
Amor às verdadesNão.é exageroafirmar queessaé umacondiçâosine
nonparaum coordenadordequalquergrupo- muitoespecialmenteparaosdepro to
psicanalítico-, pois ninguémconiestaque a verdadeé o caminhorégio p
confiaça,a criatividade a liberdade.
5888 necessárioesclarecerque não estamosaludindoa uma
caçaobsessi
buscadasverdades,atémesmoporqueasmesmasnuncasãototalmenteabsol
dependemmuito do vérticede observação,mas,sim, referimos-nosà condiç
coordenadorserverdadeiroO. coordenadorque não possuiresseatributotam
terádificuldadesem fazerum necessáriodiscemimentoentreverdades,falsida
mentirasquecorremnoscamposgrupaisDa. mesmaforma,haveráum prejuí
suaimportantefunçãodeservircomoum modelodeidentificação,decomoenfr
assituaçõesdifíceisda vida.
No casodosgrupospsicoterápicos,atributodeo coordenadorserumape
veraz,alémde um deverético,tambémé um princípiotécnicofundamenta
somenteatravésdo amoràs verdades,por maispenosasqueelassejam,ospaci
conseguirãofazer verdadeirasmudançasinternas.Ademais,tal atitud
grupoterapeutamodelaráa formaçãodo indispensávelclimade umaleal franq
entreos membrosquepartilhamumagrupoterapia.

.
CoerênciâNem. sempreuma pessoaverdadeiraé coerente,pois,confor
seuestadode espírito,ou o efeitode umadeterminadacircunstânciaexterior,é
sívelqueeleprópriose"desdiga"e modifiqueposiçõesassumidasPequenasin.
rênciasfazempaÍe da condutade qualquerindivíduo;no entanto,a existênc
incoerênciassistemáticasporpartede algumeducador- comosãoaquelasprovi de
pais,professores,etc.- levaa criançaa um estadoconfusionale a um aba
construçãodos núcleosde confiançabásicaDe. fato,é altamentedanosoparao
quismodeurnacriançaque,diantedeumamesma"arte",emum diaelasejaapl
dapelospaise, numoutro,sejaseveramenteadmoestadaou castigada;assimco
igualmentepatogênica possibilidadede quecadaum dospais,separadame jam
pessoascoerentesnassuasposições,porémmanifestamenteincoerentesent
respectivasposiçõesassumidasperanteo filho. Essaatitudedo educadorcon
umaformade desrespeitoàcriança.
23 mesmoraciocíniovaleintegralmenteparaa
pessoadecoordenadordeal grupo,porquanto,de algumaforma,ele
tambémestá sempreexercendoum c grau de funçãoeducadora.
.
Sensode ética.O conceitodeética,aqui,aludeaofatodequeum coorde
de gruponãotem o direitode invadiro espaçomentaldosoutros,impondoìh
seusprópriosvalorese expectativas:pelo contrário,ele devepropiciarum al
COMO'IRAEALHAMOSCOVCRUPOS ' 43

mento do espaçointerior e exterior de cada um deles, através da aquisiçãode um


sensode liberdadede todos, desdeque essaliberdadenão invada a dos outros.
Da mesmaforma, falta com a ética o coordenadorde grupo que não
mantémum mínimo de sigilo daquiloque lhe foi dado em confiança,ou pelas
inúmerasoutras formas de faltar com o respeitopara com os outros.

.
Respeito. Este atributo tem um significado muito mais amplo e profundo do
que o usualmenteempregado.Respeitovem de re (de novo) + specíore(olhar), ou
seja,é a capacidadede um coordenadorde grupo voltar a olhar para as pessoascom
as quaisele estáem íntimainteraçãocom outrosoÌhos,com outrasperspectivas,sem
5888 miopia repetitiva dos rótulos e papéisque, desdecriancinha,foramJhes
incutidos. Igualmente,faz partedesteatributo a necessidadede que hajauma
necessâriadistân-cia ótima entreelee os demais,uma tolerânciapelasfalhase
limitaçõespresentesem algumaspessoasdo grupo, assimcomo uma compreensáo
paciência pelaseventu-ais inibições e pelo ritmo peculiar de cadaum.
Tudo isso estábaseadono importantefato de que a imagem queuma mãe ou
pai (o terapeuta,no casode uma grupoterapia)tem dos potenciaisdos seusfilhos
(paci-entes)e da família como um todo (equivale ao grupo) se toma parte
importante da imagem que cadaindivíduo virá a ter de si próprio.

.
Paciência. Habitualmente,o significado desta palavra está associadoa uma
idéiade passividadede. resignação,o queaquiestamosvalorizandocomoum impor-
tanteatributodeum coordenadorde grupoé frontalmenteopostoa isso.Paciênciadeve ser
entendidacomo uma atitudedtiva, como um tempode esperanecessi4riopara que uma
determinadapessoado grupo reduzaa sua possívelansiedadeparanóideinicial,
adquirauma confiançabasalnos outros,permita-sedar uns passosrumo a um terreno
desconhecido,e assim por diante. Assim concebida,a capacidadede paciência faz
partede um atributomais contingente,qual seja,o de funcionarcomo um continente.

.
Continente. Cada vez mais, na literatura psicológica em geral, a expressão
"continente"(é original de Bion) ampliao seuespaçode utilizaçãoe o reconhecimento
pela importânciade seu significado.Esseatributo alude originariamentea uma capa-
cidade que uma mãe deve possuirpara poder acolhere conteÍ as necessidades an-
gústias do seu filho, ao mesmo tempo que as vai compreendendo,desintoxicando,
emprestandoum sentido,um significado e especialmenteum nome, para só então
devolvêJas à criançana dosee no ritmo adequadosàs capacidadesdesta.
23capacidadedo coordenadorde grupo em funcionar como um continente é
impoÍante por três razões:

l. Permite que ele possacor,rteras possíveisfu que podem emergir no


campogrupal provindasde cadaum e de todos e que,por vezes,sãocolocadasde
forma maciça e volumosadentro de suapessoa.
5888 Possibilitaque ele contenhaas suaspróprias angústias,como é o caso, por
exem-plo, de não sabero que estáse passandona dinâmicado grupo, ou a
existênciade dúvidas, de sentimentosdespertados,etc. Essacondiçãode
reconhecere conter
as emoçõesnegativascostumaser denominadacapacidadenegativae seráme-
lhor descritano tópico qne segueabaixo.
3 . Faz parte da capacidadede continenteda mãe (ou do coordenadorde um grupo)
23 assim denominada,por Bion, função alfa, que será descrita um pouco
maìs adiante,em "Função de ego auxiliar".
44 . ZMERMAN&osoRlo

.
Capacidadenegativa.Comoantesreferido,no contextodestecapítulo,es
funçãoconsistena condiçãode um coordenadordegnrpode conterassuasprópri
angrístias,que,inevitavelmente,porvezes,surgememalgumaformae grau,demo
a queelasnãoinvadamtodoespaçode suamente.
Não há porqueum coordenadordeum grupoqualquerficar envergonhado
culpado,diantedaemergênciade sentimentos"menosnobres"despertadospeloto
grupal,ou poÍdeterminadaspessoasdo gÍupo,comopodemser,por exemplo,u
sentimentode ódio,impotência,enfado,excitaçãoerótica,confusão,etc.,desde q ele
reconheça existênciadosmesmos, assimpossacontere administrálosCa. contriário,ou
elesucumbináauma contra-atuaçãoou trabalharácom um enormedesga

.
Funçãode egoauxiliar. A "funçãoalfa" antesreferida,originariamente,co
sistena capacidadede uma mãeexerceras capacidades ego (perceber,pens
conhecer,discriminar,juízocrítico,etc.)queaindanãoestãosuficientementedese
volvidasna criança.A relevânciadesteatributose deveao fato de que um filh
somentedesenvolveráumadeterminadacapacidade-digamos,paraexemplifica
de ser um continenteparasi aosdemais- se a suamãedemonstroupossuires
capacidade.
Igualmente,um coordenadorde grupodeveestaratentoe disponívelpara,d
rantealgumtempo,emprestaras suasfunçõesdo ego às pessoasque aindanão
possuem, queacontececomumentequandosetratadeum grupobastanteregres
vo. Creioque,dentreasinúmerascapacidadesegóicasqueaindanãoestãosuficie
tementedesenvolvidasparadeterminadasfunções,tarefase comportamentos,q
temporariamentenecessitamdeum "egoauxiliar"por paÍtedo coordenadordo gr
po, meÍecemum registroespecialasfunçõesdepensar,discriminare comunicar
.
Funçãode pensar.É bastanteútil queum coordenadordegrupo,sejaqualf
256 naturezadeste,permaneçaatentoparaperceberseos
paÍticipantessabempensar idéias,os sentimentos asposiçõesque
sãoverbalizados, ele somenteterácon çõesde executaressataÍefase,de
fato,possuirestafunçãode saberpensar.
Podeparecerestranha afirmativaanterior;no entanto,os autorescontem
râneosenfatizamcadavezmaisa importânciade um indivíduopensarassuasexp
riênciasemocionais, issoé muitodiferentede simplesmente"descarÍegar"os na
centespensamentosabrumadoresparafora(soba formadeum discursovazio,proj
actings,etc.)ou paradentro(somatizações)A .capacidadepara"pensarospe ções,
samentos"tambémimplicaescutarosoutros,assumiro próprioquinhãoderespon
bilidadepelanaturezado sentimentoqueacompanhaidéia,estabelecerconfron e
correlaçõese, sobretudo,sentirumaliberdadeparapensaÍ.
Vou me permitir observarque:"muitosindivíduospensamque pensam,m não
pensam,porqueestãopensandocom o pensamentodos outros(submissão
pensamentodospais,professores,etc.),pâraos outros(noscasosde "falso sef
contraosoutros(situaçõesparanóides)ou,comoé nossujeitosexcessivamentenar
sistas:"eu pensoem mim, sóem mim, a partirde mim,e não pensoem mim com
outros,porqueeu creioqueessesdevemgravitaÍemtomo do meuego".
.
Discriminação. Faz partedo processode pensar.Capacidadede estabele
umadiferenciaçãoentreo quepertenceaoprópriosujeitoe o queé do outro,fanta e
realidade,intemoe extemo,presente passado, desejável o possível, claro
0 ambíguo,verdadee mentira,etc. Particularmentepara um cooÍdenadorde grup
esteatributoganharelevânciaem razãode um possíveljogo de intensasidentific
A ções projetivas cruzadasem todas as direçõesdo campo grupal, o qual exig
ts claradiscriminaçãode "quemé quem",sobo riscodo grupocairem umaconfu
o papéise de responsabilidadesAcredito.queos terapeutasquetrabalhamcom e
famfliaspodemtestemunhar concordarcom estaúltimacolocaçào.
u
o
.
Comunicação, Para atestara importânciada função de comunicar- tâ
n conteúdoquantona forma da mensagememitida - cabea afirmativa de que a li
€ gem dos educadoresdetermina o sentido e as significaçõesdas palavrase g
o estruturasda mente.
0 atributo de um coordenadorde grupo em sabercomunicaradequada
pârticularmenteimportante no caso de uma grupoterapiapsicanalítica,pela re
t- sabilidadeque representao conteúdode sua atividadeinterpretativa,o seu es
Í, comunicá-lae, sobretudo,seele estásintonizadono mesmocanalde comun dos
t- pacientes(por exemplo,não adiantaformular interpretaçõesem termos de
o plexidade simbólica para pacientesregressivosque ainda permanecemnuma
de pensamentoconcreto,e assimpor diante).Em relaçío ao estiLo,deveser da
destaqueao que é de naturezanarcisista,tal como seguelogo adiante.
Um aspectoparcialdacomunicaçãoé o quediz respeitoà atividadeinterpre e
F
comoessaestáintimamenteligadaaouso dasverdades,como antesfoi ress torna-
ts senecessárioestabeleceruma importanteconexãoentre a formulação d
i- verdadepenosade ser escutadae a manutençãoda verdade.Tomarei emprest
t-
Bion uma sentençaque sintetizatudo o que estou pretendendodestacar:anlo
€ verdadenão é mais do aue naixão, no entanlo, verdadesem amor é crueldade
F
É igualmenteimpo.tont"qu. ,r .oordenrdorde grupoqualquervalorize de
que a comunicaçãonão é unicamenteverbal, porquanto tanto ele como grupo
estãocontinuamentese comunicandoatravésdas mais sutis formas de li
)r gemnão-verbaì.
LS
.
i- Tfaços caracterológicos. Tanto meÌhor trabalharáum coordenadorde
quantomelhorele conhecera si próprio, os seusvalores,idiosincrasiase caracte
)- predominante.Dessa forma, se eÌe for exageradamenteobsessivo(embora
i- ressalvade queumaestruturaobsessiva,nãoexcessiva,é muito útil, pois det
;-:-
seriedade organização),vai acontecerqueo coordenadorteráuma absolutainto cia
a qualqueratraso,falta e coisasdo gênero,criandoum clima de sufoco,ou do uma
F dependênciasubmissaIgualmente,.umacaracterologiafóbicado coo dor pode
F.
determinar que ele evite entrar em contato com determinadassitu
r5
angustiantes,assimpor diante.
No entanto,vale destacaraquelestraçoscaracterológicosque são predo
tementede natnÍezànarcisìsta.Nestescasos,o maiorprejuízoé que o coorde
s estarámaisvoltadoparao seubem-estardo queparao dosdemaisA. necessi
receberaplausospodesertão imperiosa,que há o risco de que seestabeÌeçamc
), inconscientes,com o de uma recíprocafascinaçãonarcisista,por exemplo, o
valormáximoé o de um adoraro outro,semquenenhumamudançaverdadeir ra.
Uma outrapossibilidadenocivaé a de que o coordenadorsejatão brilhan
eÌedeslumbra("des" + "lumbre",ou seja,ofuscaporque"tira a luz") às pess grupo,
como seguidamenteaconÍeceentre plofessorese alunos,mas tambóin
r aconlecercom grupoterapeu(asseuspacientes.
a Nesteúltimo caso,o dogmáticodiscursointerpretativo pode estarmais a

t.
ço de uma fetichização,isto é, da manutençãodo ilusório,de seduzire domin
que propriamente
a uma comunicação,a uma resposta,ou a aberturapara re
A retórica pode substituira produçãoconceitual.
Um outro inconvenienteque decorrede um coordenadorexcessivamen
.. seu
sistaé que ele tem a sensaçãode que tem a propriedadeprivada sobreos
tes", do futuro dos quais ele crê ter a possee o direito de determinar o valo
Nestescasos,é comum que esteterapeutatrabalhemais sobreos núcleos con
0 os aspectosregressivos,descartandoos aspectosmais madurose as capa
sadiasdo ego.
Da mesmaforma, um grupoterapeutaassimpode ser tentadoa fazer
exib uma cultura erudita,de fazer frasesde efeito que, mais do que um
simplesbri lhe é tão necessário,o que ele basicamentevisa,no plano
inconsciente,é man larga diferençaentre ele e os demaisdo grupo.

.
Modelo de identiÍicação. Todosos grupos,mesmoos que não sãoesp mente
de naturezaterapêutica,de uma forma ou outra, exercem uma psicoterápica.Isso,
entre outras razões,deve-seao modelo exercido pela fig
coordenadordogrupo,pelamaneiracomo eleenfrentaasdificuldades,pensaos mas,
estabelecelimites, discrimina os distintos aspectosdas diferentes sit manejacom as
verdades,usa o verbo, sintetiza,integra e dá coesão ao grup outraspalavras,o grupo
também propicia uma oportunidadepara que os paÍ tes introjetem a figura do
coordenadore, dessaforma, identifiquem-secom característicascapacidadesdele.
Nos casos de grupoterapia psicanalítica,vale acrescentarque a ati
interpretativa_dogrupoterapeutatambémdevevisar a fazer desidentificações
desfazeras identificaçõespatógenasque podem estarocupando um largo es
mente dos pacientes,e preencheresseespaçomental formado com neo-idà çõer,
entre as quais pontifica as que procedemdo modelo da pessoareal do g
rapeuta.
. para
Empatia.Todos os atributosantesdiscriminadosexigemuma condição
que
adquiram validade,qual seja a de que exista uma sintonia emoci
coordenadorcom os participantesdo grupo.
Tal como designaa etimologia destapalavra [as raízesgregassão: em
de) + parhos (sofrimento)],empatiarefere-seao atributo do coordenadorde u po
.,clima
de podersecolocarno lugarde cadaum do grupo e entrar dentrodo g
Isso é muito diferentede simpatia (que se forma a partir do prefixo sfiz, qu
dizer ao lado de e não dentro de).
0 empatiaestá muito conectadaà capacidadede se poder fazer um apr
mentoútil dos sentimentoscontratransferenciaisque estejamsendo desperta
tro do coordenadordo grupo, porém, pâra tanto,é necessárioque ele
tenhacon de distinguir entreos sentimentosque provêm dos
participantesdaquelesque cem unicamentea ele mesmo.
.
Síntes€e integração. A função de síntesede um coordenador de gru deve
ser confundida com a habilidadede fazer resumos.A conceituaçãode alude à
capacidadede se extrair um denominadorcomum dentre as inúmeras
nicaçõesprovindasdas pessoasdo grupo e que, por vezes,aparentam ser tota
diferentesentresi, unificando e centralizando-asna tarefaprioritária do grupo do
estefor operativo,ou no emergentedas ansiedadesinconscienles,no caso po
voltado ao ,r2s{g/rtPor. outro Íado,é a "capacidadesintéticado ego" do gru
peutaque lhe possibilitasimbolizarsignificaçõesopostase aparentementecontraditó-
rias entre si.
Assim, também é útil estabeleceruma diferençaconceitual entre sintetizar e
junto.r: a sínteseconsisteem fazer uma totalidade,enquantojrínÍcrconsisteem fazer
uma nova ligação, isto é, em ligar de outro modo os mesmoselementospsíquicos.
Afunçáo de integraçõo,poÍs\avez, designauma capacidadede o coordenador
juntar aspectosde cadaum e de todos,que estãodissociadose projetadosem outros
(dentroou fora do grupo), assimcomo tambémaquelesaspectosque estãoconfusos,
ou, pelo_menos,pouco claros,porqueaindanão foram suficientementebem discrimi-
nados.E particularmenteimportantea integraçãodos opostos,como, por exemplo, a
concomitânciade sentimentose atitudesagressivascom asamorosasque sejamcons-
trutivas e repaÍadoras,etc.
Para que um coordenadorde grupo possaexercer adequadamenteas funções
antesreferidas,muito particularmentenasgrupoterapiasdirigidas ao insight, impõe-se
a necessidadede que seu estadomental esteja voltado para a posição de que o
crescimentopsíquicodosindivíduose do grupoconsisteemaprendercomasexperiên-
cias emocionaisque acontecemnas inter-relaçõesgrupais. Assim, ele deve comun-
gar com o grupoque o queé realmentevaliosona vida é ter aliberdade parafantasiar,
desejar,a sentir,pensar,dizer, sofrer,gozar e estar junÍocom os outros.
Portanto,um importantecritério de crescimentomental, emborapossaparecer
paradoxal,é aqueleque,ao contráriode valorizar sobremaneiraque o indivíduo este-ja
em condiçõesde haver-sesozinho,a terapia grupal deve visar que, diante de uma
dificuldademaior, o sujeitopossareconhecera suapartefrágil, permita-seangustiar-se
e chorar e que se sinta capazde solicitar e aceitaruma ajuda dos outros.
Vale enfatizar que a enumeraçãodos atributos que foram referidos ao longo
destecapítulonão pretendeser exaustiva.Os mencionadosatributoscomportam ou-tras
variantes,permitiriam muitas outrasconsiderações,foram descritosem terÍnos ideaise
nãodevemser levadosao pé da letra,como sefosseuma exigênciaintimidadora ou
u,maconstrangedoracamisade força. Antes, a descriçãoem itens separadosvisa a dar
uma amostragemda importânciada pessoado coordenadorde qualquertipo de
_crupo.
0 expressão"qualquertipo de grupo" implica uma abrangênciatal, que alguém
poderiaobjetarqueos atributosqueforam arroladosnãoconstituemnenhumaorigina-
lidade específica,porquantotambémdevem valer para mil outras situaçõesque não
rêm um enquadregrupal formalizado. A respostaque me ocoÍÌe dar aos hipotéticos
contestadoresé que elesestãocom a razão.Assim, em uma famíÌia nuclearé à dupla
parentalque cabea função de coordenara dinâmicado grupo familiar. Em uma sala
de aula, é o professorquem executaessafunção. Num grupo de teatro,essepapel é
do diretor do grupo. Numa empresa,cabe às chefiase diversassubchefías, assim
diante.
ç'or
Numa visualizaçãomacro-sociológica- uma nação,por exemplo -, as mesmas
:onsideraçõesvalem paraa pirâmideque govema os destinosdo país,desdea cúpula Jo
presidentecoordenandoo seu primeiro escalãode auxiliares diretos, cada um
Jessesexercendoa função de coordenaros respectivossubescalões,em uma escala-
5888 progressiva,passandopelos organismossindicais em direção às bases.Se
não hyer verdade,respeito,coerência,empatia,etc.,por
partedascúpulasdiretivas(como
.r dos pais em uma família, a de um coordenadornum gÍupo,etc.), é virtualmente
::no que a mesmacondutaacontecerápor parte dos respectivosgrupos.
O que importa destacaré o fato de que o modelo das liderançasé o maior res-
se.rri;ír'elpelos valorese característicasde um grupo, sejaele de que tipo for.
0 FamíIia comoGrupo
Primordial
LUIZCÀRLOSOSORIO

EM BUSCA DE UM CONCEITO OPERATIVO DE FAMILIA

Família não éum conceitounívoco.Pode-sedizerque a família não é uma expressã


passívelde conceituação,mas tão somentede descrições,ou seja, é possíveldescre
ver as várias estruturasou modalidadesassumidaspela família atravésdos tempo
mas não defini-la ou encontraralgum elementocomum a todasas formas com que
s apresentaesteagrupamenlohumano.
Mesmo se a considerarmosapenasnum dado momento evolutivo do process
civilizatório temosdificuldadesem integraro proteimorfismo de suasconfiguraçõe
numa pautaconceìtualO. que terá em comum nos dias atuais,por exemplo,um
famflia de uma metrópolenorte-americanacom a de um vilarejo rural da China? Ou
a de um kibbutz israelensecom a de um latifundiário australiano? Que similitude
encontrarentre a de um retirantenordestinoe a de um lapão da Escandinávia?Ou a
de um porto-riquenhoque vive num guetonova-iorquinocom a de um bem-sucedid
empresáriosuíço?Ou, ainda,como equiparara de um siciliano mafioso com a de
um muçulmanopaquistanense?Ou a de um bérberenorte-africanocom a de um
decaden lordeinglês?
Sãotantasas variáveisambientais,socrars,econômicas,culturais,políticaso
religiosasque determinamas distintascomposiçõesdas famílias até hoje,que o sim

pÌescogitar abarcá-lasnum enunciadointegrador nos paralisao ânimo e tolhe o
propósito.Não obstante,como não podemosprescindirde uma definição, ainda qu
precáriae limitada, que nos facilite a comunicaçãoe nos ajude a discriminar o funda
mentaldo perfunctório,vamosà procurade um conceitoque possaseroperativopar
asfinalidadesdestecapítu1o,valendo-nosparatantodascontribuiçõesde outros autore
que sedebruçaramsobrea ingentetarefade encontrarumanoçãode famíliasuficiente
menteabrangentepara servir-nosde parâmetroaqui e agora.
Dizer que a família é a unidade básicada interaçãosocial talvez seja a form
nais e sintéticade enunciá-la;mas,obviamente,não basta para situá-l _genérica
:u1moagrupamentohumanono contextohistórico-evolutivodo processocivilizatóri
Escardóobserva-nosque "a palavra/amílíanío designauma instituiçãopadrão
:-:ree invariável.Atravésdos tempos,a famíia adotaforïnase mecanlsmossumamen
5888 ersos,e na atualidadecoexistemno gênerohumanotipos de famflia
constituídosso
::: princípiosmoraisepsicológicosdiferentese aindacontraditóriose ilconciliáveis".
50 . znrmve,Na osonro

0 estruorafamiliar varia,portanto,enormemente,conformea
latitude,asdis tasépocashistóricase osfatoressócio-políticos,econômicosou
religiososprevale numdadomomentoda evoluçãode determinadacultura.
SegundoPichonRivtère,"a,famíliaproporcionamarcoadequadoparaa de
gãoe conservaçãodasdiferençashumanas,dandoformaobjetivaaospapéisdis
tos, mas mutuamentevinculados,do pai, da mãe e dos filhos, que constihle
papéisbásicosem todasasculturas".
ParaLéviStrauss,sãotrêsostiposderelaçõespessoaisqrueconírguramaf lia:
aliança (casal),filiação (paise Írlhos) e consangüinidade(irmãos).lsso nosc duza
outroreferencialintimamentevinculadoà noçãode famflia: o parentesc O
parentescoconsistenumarelaçãoentrepessoasque sevinculampelo c mentoou
cujasuniõessexuaisgeramfilhos ou, aind4 quepossuamancestra
muns.Nestaconcepção,maridoe mulhersãoparentes,independentementeg rem
filhos,assimcomoo sãoos paisde umacriança,emboranão sejamlegalm
casados;por outrolado,doisindivíduosquevivammaritalmentesemqueessar ção
sejaoficializadalegalmenteou quedelaresultemfilhosnão sãoparentes.
Frcud,emToteme taòu,assinalaqueo "parentescoéalgomaisantigodo q
vidafamiliare, naìã-oria dassociedadesprimitivasquenossãoconhecidas.fa
lia continhamembrosde maisde um parôntescoComo.veremosmaisadiante
não se conhecero papeldo pai na reprodução,n_ospovo_sprimitivoo-
sparentesc restrito à linhagem matema.
NÌo o6Bkúiteã no-çãóãafamíliarepousesobrea existênciado casalqlLelh origem,
considera-seque suaessênciaestejarepresentadana relaçã,opais-filhn quea origeme o
destinodesteagrupamentohumanocoincidemno objetivode g e criarfilhos.
. ,A,c,on(içã! neçtênicada espéciehumana,ou seja,a impossibilidadede
descendênciasobreviversemcuidadosao longo dos primeirosanosde vida, foi,
pelo
dúvida,responsável surgimentodo núcleofamiliarcomoagentedeperpetu

da vida humana,o que igualmenteocorrecom outrasespéciesanimais,cujap


tambémnecessitada provisãode alimentose proteçãopor parte de indivíduosa
tos,enquantonão podefazêìapor seusprópriosmeios.A famfliatoma-se,as
tantono homemcomoem outrascategoriaszoológicas, modelonaturalparaa
gurara sobrevivênciabiológicadaespécie;a pardestafunçãobásica,propiciasi
taneamente matriz parao desenvolvimentopsíçico dos descendentes a apre
zagemda interaçãosocial.
Em realidade,nãopodemosdissociar funçãobiológicada funçãopsicoss
da família;seé fato quea finalidâdebiológicade conservar eèpécieestána ori
da formaçãodafamíia, éigualmentepertinentedizerquea famíliaé um-grupoe
ctârrTaoonallgguçaooe pessoascomvlnculospecultares queseconsutulnace
orimordialde todae qualquercultura.
Cõm6seiãèmàntoi introdutórios já estamosem condiçõesde formular u defnição ad
hoc, de cunhooperativo,paraos propósitosaqui presentes:

Farnília é uma unidadegrupal ondesedesenvolvemtrês tipos de relaçõespess


aliança (casal),filiação (pais/filhos)e consangüinidade(irmãos) - e que a pa dos
objertvosgenéricosde preservara espécie,nutrir e proteger a descendên fornecer-lhe
condiçõespara a aquisiçãode suasidentidadespessoaisdesenvo
atravésdos temposfunções diversificadasde transmissõode valores éticos, es
cos,religiosose culturais".
Consideraremos,ainda,que a famíliapode se apresentar,grossomodo, sob trê
S formatos básicos:a nuclear (conjugal), a extensa(consangüínea) a abrangente.
Por família nuclearentenda-sea constituídapelo tripé pai-mãe-filhos;por fam lia
t- extensaa que se componhatambém por outros membros que tenham quaisqu
t- laçosde parentesco, a abrangente que inclua mesmoos não-parentesque coabite
rs Convencionaremosquedoravantesempreque nos referirmosà famflia, a meno que
se particularizea modalidadede agrupamentofamiliar considerada,o estarem
t- fazendotendoem menteseuformato nuclear,prevalentena modemacivilização oci
t- dental,quebalizao cotidianoexistencialdaqueles quemsedestinaestelivro.

t-
F {S ORIGENS DA FAMÍLIA
t-
te famíliaé uma instituiçãocujas origensremontamaosancestraisda espéciehuma na
ì- e confundem-secom a própria trajetóriafilogenética.
A organizaçãofamiliar não é exclusivado homem;vamosencontrá-laem outra
a espéciesanimais,quer entre os vertebrados,quer, mesmo sob formas rudimentare
ú- entre os invertebrados.
lÍ Assim como na espéciehumana,encontram-sedistintasformas de organizaçã
familiar entreos animais.Há famíliasnasquais,apóso acasalamento, prole fica ao
cuidadosde um só dos genitores,geralmente,a fêmea; mas também poderá ser
lá macho quem seencarregados cuidadoscom os descendentes,como em certasesp
iéL cies de peixes.Algumas espéciesentre as aves vivem em família durantea épocad
reproduçãoe em bandosduranteas demaisépocasdo ano. Os pais podem perman
cerjunto aosfilhotespelavida toda,masessesgeralmenÍedeixamos paisantesqu
la nasçamoutrasninhadas.Há também entre os animaisfamílias ampliadas(ou exten
m sas),onde os jovens ajudam a criar os irmãos. As abelhasoperárias,que são filha
io estéreisdas abelhasrainhas,constituementre si uma fratria ou comunidadede irmã
,te com funçõesde mútuos cuidados,proteçãoe alimentação.
'l- Essabreve referênciaaos comportamentosfamiliares de certos animais tem
n. propósito de enfatizar o caráter universal dos agrupamentosfamiliares e chamar
e- atençãopara suâonipresençanão só ao longo da evoluçãoda
rl- espéciehumana,mâsn de outros seresdo reino animal.
ti- Curiosamente,a origem etimológicada palavrafamília nos remeteao vocábu
latinofamulus, qrl'esignifica "servo" ou "escravo", sugerindoque primitivamente s
al consideravaa família comosendoo conjunto de escravosou criadosde uma mesm
m pessoa.Parece-me,contudo, que essaraiz etimológica alude à natureza possessi das
- relaçõesfamiliares entre os povos primitivos, onde a mulher devia obedecerse marido
Ia como se seu amo e senhorfosse,e os filhos pertenciama seuspais, a que deviam
suasvidas e conseqüentementeessessejulgavam com direito absolutosobr elas.A
noçãode possee aquestãodo poderestão,portanto,intrinsecamente,vinculad
origem e à evoluçãodo grupo familiar, conforme veremosmais adianteao trata
mos dos mitos familiares.
us
Há váriasteoriassobrea origem da família: umas a fundamentamem suasfu ções
rir
biológicas; outras, em suasfunções psicossociais.Foram formuladas as mai diÏersas
e hipóteses,tendocomo ponto de partida questõesatinentesà parentalidad ou seja,aos
?u papéispatemo e matemo como estruturadoresdo grupo famiÌiar.
Ìi- O vértice evolutivo - que consideraque a família, talqual os seresque a com
poem,necessitapassarpor etapassucessivasno cursode seudesenvolvimento- te
sido a pedrade toque na fundamentaçãodas diversasteorias que tentam explicar
52 . zmsnve" * oso*to

origeme a estruhlraçãodo grupofamiliarcomoo encontrâmosao longodo


pro civilizatórioe nasdistintasculturas.
As famíliasoriginalmenteseorganizavamsoba formamatriarcal,aoquep
pelodesconhecimentodo papeldo pai na reproduçãoEssa.explicação,contud
consensualentreosantropólogosNo. entanto,é o quenospareceocorreremc
sociedadesditasmatrilinearesaindaencontradasemnossosdias- taiscomoos
nésiosestudadosporMalinovski- , ondea autoridadepatemarecaisobrea figu tio
matemo(aúnculo), que,entreoutrasatribuições,tema de "concedera mão
sobrinhasaoseventuaispretendentesacomelassecasaremEssa."transferên tio
matemodosdireitose devereshabirualmenteatribuídosao pai provém,a tudo
indica,do referidodesconhecimentodo papeldo homemna reproduç
temposidos.Esseshábitosmilenaresdosmelanésioscomrelaçãoao papelavun
teriamsubsistidomesmoapósa revelaçãodafunçãoreprodutorapatema.
O matriarcado,segundooutrasfontes,seriauma decorrêncianaturalda
nômadedospovosprimitivos,pois,enquantoos homens- desconhecendoain
técnicasprópriasao cultivo da terra- tinhamque sair à procurade alimen
mulheresficavamnosacampamentoscomosfilhos,quecresciampraticament
influênciaexclusivadasmães,a quemcabiaaindafomecerummínimodeesta
de sociala estesnúcleosfamiliaresincipientes.
Comodecorrênciadessapreponderânciada figuramaterna,em certasso
desmatriarcaisasmulherestinhamo direitode propriedade certasprerrog
poÍticas,comoentreosiroquesescanadensesestudadospor Morganno séculopas
Entreeles,asmulherespossuíamasterrascultiváveis ashabitações,podend a
eleiçãode um chefe,emboranãoocuparum cargono conselhosupremo.
Paraosevolucionistas,desenvolvimentodaagriculturaeo conseqüentead
do sedentarismoforamosresponsáveispelainstalaçãoprogressivado patriarc
Em fins do séculopassadoe princípiosdestehouveum verdadeiroboo
estudosantropológicossobrepopulaçõesprimitivas,sustentando emergên
múltiplastesessobreo comportamentodos gruposfamiliares.No entanto,é
temeráriotirar-seconclusõessobrea origemda famfliaa partir da observaç
tribosprimitivas,poisa noçãode evoluçãoculturallinearnãoó maisaceitaent
antropólogosIsso.querdizerqueospovosditosprimitivosquenossãocontem
neosnão necessariamenteestãoreproduzindoformasde agrupamentofamili
contradasno passadoremoto.Aindaassim,a constataçãode quecertospadrõ
reiteradamenteencontradosemtempose lugaresdiversospermitequesetome
válidasmuitasdasafirmaçõesfeitascom basenessesestudos.
Ao discutir-sea origemda família,umaperguntainicial que insistente
nosocorreé sea instituiçãofamiliaré universal.
Em 1949,o antropólogonorte-americanoG .P.Murdockpublicouseue
transculturalsobreparentesco,confirmando hipótesedauniversalidadeda fa
ParaMurdock não apenasa família emgeral,masa famflia nuclear,em
particu universal,concluindoquenenhumaculturaou
sociedadepodeencontrarum s tuto adequadoparaa família nuclear.
A famflianuclear,segundoesseautor,apresentaquatrofunçõeselement
sexual,a reprodutiva, econômicae a educativaEssas.funçõesseriamrequ
paraa sobrevivênciade qualquersociedadeE. baseando-nessefato queMur
afirma ser a família nuclearuniversal.
Há quempossaobjetarcom a observaçãode quetemosemnossostemposes ras
sociaisquenãoincluema famflia,como,por exemplo,os kibbutzde Isra
entanto,comoobservaSpiro,estasociedadeessencialmentevoltadaparaa cri
COIIIOTRABALHAMOSCOMCRUPOS ' 53
embora do ponto de vista estrutural pareça constituir-senuma exceçãoà idéia da

universalidadeda família, serve


para
confirmáìa do
ponto de vistafuncionale psicoló-
gïco.Nokibbutz,acomunidadeinteirapassaa serumagrandefamília extensaSoment.
o numa sociedadefamilial como o kibbutz, afirma Spiro, seria possívelnão haver a
ts famílianucleardesempenhandosuasfunçõesindispensáveis.
t- A questãoda origem da famflia conduz-nosnaturalmenteà discussãodasques-
/o tões relativas ao pârentesco,as relaçõesentre o tabu do incesto e a exogami4 e a
ls instituição do casamento. que
lo L.H. Morgan,advogadonoÍte-americano na segundametadedo séculopassa

le do se interessouvivamente pela observaçãoda vida dos aborígenesque viviam na


m fronteira dos EUA e Canadá,tomou-se o fundador da modema antropologia com
ar seus estudospioneiros sobre as relaçõesde parentesco.Embora seu enfoque
da evolucionistapossasercontestadopelosavançosulterioresda investigaçãoantropoló-
gica, sua tipologia familiar perÌnanece ponto de referênciapara o estudo das como

as estruturasfamiliares e das teoriassociológicassobrea família.


as SegundoMorgan havia originariamenteuma promiscuidadeabsoluta,semqual-
DA quer interdição para o intercurso sexual entre os sereshumanos.Este teria sido o
la- peíodo da família consangüínea,estruturadaapartir dos acasalamentosdentro de
um mesmogrupo.
la- A seguir,pelo surgimentoda interdiçãodo relacionamentosexualentre pais e
tas filhos e posteriormenteentre irmãos, atravésdo tabu do incesto, surgiu a famflia
do. punaluana,onde os membrosde um grupo casamcom os de outro grupo, mas não
Íar entre si. Assim, os homensde um determinadogrupo sãoconsideradosaptosa casar
somentecom as mulheresde um outro determinadogrupo, e essesdois grupos intei
nto ros casam entre si. Essa estruturafamiliar é também conhecidacomo família por
o. grupo.
de Na famflia sindesmáticaou de casal, o casamentoocorre entre casais que se
de constituemrespeitandoo tabu do incesto,mas semcondicionarsualigação à obriga-
lgo toriedadedo casamentointergrupos.Essasfamílias, encontradasentre os primitivos
das povos nômades,caracterizam-sepela coabitaçãode vários casaissob a autoridade
:os matriarcal,responsávelpelacoesãòcomunalatiavésda economiadomésticacompar-
lrâ- tida.
en- A repartiçãode tarefasadvindasdo desenvolvimentoda agricultura teria dado
são origem à famíliapatriarcal,fundadasobrea autoridadeabsolutado patriarcaou "che-
rmO fe de família",que em geral vivia num regimepoligâmico, com as mulhereshabitual-
mente isoladasou confinadasem determinadoslocais (gineceus,haréns).
Finalmente,temosa família monogâmica,paradigmáticada civilização do oci-
dente,cujas origenssevinculam ao desenvolvimentoda idéia de propriedadeao lon-
udo go do processocivilizatório. A fìdelidadeconjugal como condiçãopara o reconheci-
ília. mento de filhos legítimos e a transmissãohereditáriada propriedade,bem como o
estabelecimentoda coabitaçãoexclusiva demarcandoo território da parentalidad
)sti- são os elementosemblemáticosdestaque, ainda hoje, é o tipo de família prevalente
no mundo ocidental.
Engels,o colaboradorde Marx na elaboraçãodasbasesprogramáticasdo movi-
;itos mento comunista, apoiando-senas idéias de Morgan, sustentousua tese de que a
lock famflia monogâmicateria sido a primeira famflia fundada não mais com base em
utu- condiçõesnaturais,massociais,jáquea monogamiaparaelenãoseriauma decorrência
do amor sexuale, sim, do triunfo da propriedadeindividual sobreo primitivo comunis-
.No mo espontâneoA. monogamiaé visualizadasob a ótica do materialismohistórico
nç4, porém
não como uma forma mais evoluídade estruturafamiliar. como a suieicão de
54 . ,*u*"on s oso^,o

um sexo ao outro a serviço do poder econômico.Como a inclinação natural do h


mem seria a liberdadede intercâmbio sexual, a monogamiateria sido responsá pelo
incrementoda prostituiçãoe pela falência dessesistemafamiliar nos dias atua Sobre

as relaçõesde parentesco,podemos considerá-lassob duas apresen ções: a


consangüinidadeem linha direta, que ocoÍTeentrepessoasque sejam u
descendentedireta da outra, e a consangüinidadeem linha colateral,que se dá ent
pessoasque descendemde antepassadoscomuns,mas não descendemuma da out
Enquantoessasrelaçõesde parentescoseriamas determinadaspelanatureza,aque
baseadasno casamentoseriamas estabelecidaspeÌasconvençõessociais.Marid
mulher são parentesem função do contratosocial que os uniu.
As relaçõesde parentescotidas como primárias ou fundantesdas estrutu
familiaresseriamasseguintes:maridoe mulher,paise filhos,e irmãos.
Lévi-Strauss,antropólogocontemporâneoformadona escolasociológicafranc
sa,aplicoua perspectivaestruturalistaà antropologia,descrevendo quechama"
estÍuturaselementaresdo parentesco".Partindo da noção de que a estruturaé u
sistemade leis que regeastransformaçõespossíveisnum dadoconjunto,LévlStrau
procurou estabeÌeceras relaçõesconstantesna estruturafamiliar que determin
nãosó suaaparênciafenomênicaem determinadoinstantehistórico,como suas po
síveismodificaçõesao longo dos tempos.
Tomandocomo ponto de partida a teoria da "troca ritual do dom" de Mauss
(u de seus mestresna escola sociológicafrancesaacima mencionada)e bebendon
fontes da psicanálisee da lingüística,ramosdo conhecimentoapenasemergentes
época de seus primeiros estudos,Lévi-Straussprocurou determinar que elemen
subjazemaos padrões relacionaisque configuram a família desde suas fundaçõ
mais arcaicas.
Cada elementodoado implica a obrigaçãode sua restituiçãopelo receptor,di
nos a aludida teoria de Mauss. Assim, na famflia estruturalmentemais simples
supostamenteanteriorao conhecimentodo papeldo pai na reprodução),ao tio mat
no (avunculus)catseria função de "doar" mulheresà geraçãoseguinte.Ao atribu se
tal função ao tio matemoestava-sesimultaneamentecriando a interdição do ince
to, pois a sobrinhasó poderia ser doadapelo tio a quem não pertencesseao círc
endogâmico(pai, irmãos).
proibição do incestoentão instaladaé a regra da reciprocidadepor excelê
cia, pois a troca recíprocade mulheresasseguraa circulaçãocontínuadas espos
filhas que o grupo possui.Com o tabu do incesto,a família marcaapassagemdo fa
natural da consangüinidadeao fato cultural da afinidade e a relaçãoawncular é, p
assimdizer, o elementoaxial a partir do qual se desenvolverátoda a estruhrrasoc
do parentesco.
tabu do incestoe a exogamiaque lhe é conseqüenteestariam,segundoLév
Strauss,nas raízesda sociedadehumana.A exogamia,ou seja,o casamentofora grupo
familiar primordial, funda-sena "troca", que é a basede todasas modalidad da
instituiçãomatrimonial. O laço de afinidadecom uma família diferenteassegur domínio
do social sobreo biológico, docultural sobreo natural (por isso a afirmaç de Lévi-
Straussde que com o tabudo incestoa famíliamarcaa passagemda nature
cultura).
exogamia,como a linguagem,teria a mesmafunção fundamental:a comu
caçãocom os outros.E dessacomunicação possibilidadede que surja um no nível
de integraçãono relacionamentohumano. A partir dessepropósito, é que
exogamiadá origem à instituiçãomatrimonial.
COIúOTRABALHAMOSCOMCRUPOS . 5!

instituição matrimonial nasceuvinculada aos ritos de iniciação que marca-vâm


a passagemda infância para a idade adulta. Nos povos primitivos, tais ritos
geralmenteculminavam com a cerimôniado casamento.
Os costumesligadosà instituiçãomatrimonial variaram muito atravésdos tem-
pos, mas desdeo advento da noção de propriedadeestiüeramde uma forma ou de
outra relacionadosà idéia de uma "transação"ou "troca". Talvez a forma mais ele-
mentar desta permuta tenha sido a de uma mulher por outra, onde o homem que
quisessecasar-seofereceriasuairmã, sobrinhaou servaem troca de uma noiva, de tal
soÍteque o pai destateria compensadaperdada filha pela aquisiçãode outra mulher
que pudessesubstituí-lanos afazeresdomésticos.Posteriormente,essatroca física foi
substituídâpor um equivalenteem bensou dinheiro.
A comprade uma noiva foi, portanto,a forma mais primitiva de contratomatri-
monial. Essamodalidadede matrimônio, onde a mulher é tratada como mercadoria,
prevaleceusobretudonas famflias de organizaçãopatriarcalreferidasanteriormente.
Um remanescentecultural desteconsórcioem que a mulher é tida como propriedade
do marido estáno costumeocidentalde a mulher trocaro nome do pai pelo do marido
(ou apor ao do pai o deste)por ocasiãodo contrato matrimonial.Nos paísesde língua
espanhola,essacondição é explicitada pela partícula "de" entre o nome próprio da
mulher (seguidoou não do sobrenomede solteira)e o sobrenomedo marido, como a
indicar a quem pertencedoravantea nubente.
O dote é outro subprodutodestaconcepçãodo casamentocomo uma transação
comercial: sua instituição obedeceao propósito original de ressarciro noivo (ou a
famflia deste)pelos custosposteriorescom a manutençãoda esposa.E ainda hoje a
aspiração,largamentedifundida entre os pais, de um "bom partido" para seusfilhos
ou filhas assinalaa persistênciadestereferencialeconômicoparabalizar a instituìção
do matrimônio.
À medida que o casamentose subordinoua interessesligados à propriedadede
bens materiaisou patrimoniais,sua instituiçãofoi saindoda esferamístico-religiosa
paraa do direito civil. A partir da IdadeMédia e por muitos séculoshouve no mundo
ocidental uma acirrada disputa entre o Estado e a Igreja para determinar a quem
caberiaa prerrogativade estabelecero contratonupcial.Só a partir do adventoda Era
Contemporânea,o poderlaìco e o religiosopassarama exercersemmaioresconflitos
suasrespectivasesferasde influêncianas questóesatinentesà instituição dc matrimô-
) nlo.
) O casamentosemprefoi um terreno propício ao exercíciodo poder. Mesmo
I
onde não existam interesseseconômicosem pauta (como na classeproletária), ou
I onde não são os sentimentôsreligiosose tão apenasa força da tradição e da cultura
que preside os ritos matrimoniais, o poder parental se faz presente,manifesta ou
subrepticiamente,na determinaçãoda escolha dos cônjuges. E até quando obje-
tivamenteo casamentose funda no amor e mútuo consentimento,sem a explícita ou
implícita interferênciadospais, pode-sesupor que tal poder estejaatuantenas iden-
tificaçõese motivaçõesinconscientesque subjazemà eleiçãodos cônjuges.

É n muÍr,n o cRUPoPRIMoRDIAL?
Eis aí uma questãotranscendentalde Íespostanão tão fácil como seria de se
supor.Emborao sensocomum e um raciocínio rudimentarnos levema concluir que
homem, mulher e filho devam ter se constituídono mais elementar agrupamento
56 . ZMERMAN& OSORIO

humano,nãohá qualquerindícioarqueológicoou inferênciaantropológicaque


assegureter estacomposiçãode sereshumanosconfiguradoo que se entend
famflia,comospapéise funçõesquelhe sãopertinentesna concepçãoquefoi
ad rindo ao longodo processocivilizatório.
simplescoexistênciaprimevadessastrêsfigurasrepresentacionaisdaun de
familiarbásicanãoconstituiargumentosuficienteparaqueseos visualizec
poftando-senumcontextofamiliar.Talveza verdadeirapassagemda naturezap
culturatenhaocorridoquandoessestrêspersonagensde nossaproto-históriare
ramsuanecessidadeinteÍaçãosociale deramorigemaosafetoscimentador
relaçõesfamiliares.
Sea famíliaé o pontode tangênciaou intersecçãoentrea natureza a
cult conformepostulamosantropólogos,nãopodemosdeixardeconsiderá-
la,parap melhorentendêla,a luz da evoluçãodosmodelosculturais.
M. MeadconsideratÉs tiposou modelosculturaissegundoos quaiso
ho serelacionacom seusaÍìtepassadosoudescendentes.
O primeirodelescorrespondeàsdenominadasculturaspós-figurativas,qu
tnìemsuaautoridadedo passado,baseando-numa consensoacítico e na leal
inequívocadecadageraçãoque a precedeuNessas.culturas,ascriançase osjo
apreendemprimordialmentecomosadultos,e o futuroé visualizadocomoum pro
gamentodo passado,ou seja,o passadodosadultosé o futurode cadageraçã
nessasculturasumafalta de "consciênciade mudança",e o mito prevalenteé
ancião comofonte do sabere dos valoresa serempreservados transmitid
geraçõesfuturasEsse.é o modeloculturalvigenteatéo adventodaeracontem
neae aindahoje encontrávelem agrupamentoshumanosprimitivosou isolad
portanto,à margemda ondacivilizatóriadesencadeadapelarevoluçãoindustri
O segundodessesmodelosé chamadopelaautoracitadadeculturasco-figu
vas,ondeháumareciprocidadeinfluênciasentrejovens adultosPelo.surgim de
novasformasde tecnologia,paraasquaisosmaisidososcarecemde inform
ascamadasmaisjovensda populaçãopassama deteruma significativaparce
poderde influênciaproporcionadopeloconhecimentoNessas.culturas,o prese o
que conta,e o mito nelasprevalenteê o do adultoprodutivo.Esseé o mo
predominanteno mundoatuale que,partindodo ocidente,tendea globalizar
medidaem queascivilizaçõesorientaissãopoÍelecooptadas.
Finalmente,temoso modelodasculturaspré-figurativas,ondeo futuro n
maisum simplesprolongamentodo passado,mastem suaprópria(e desconh
identidade,prevalecendoasexpectativasfuturassobreasrealizaçõespassadas
sasculturashá uma exacerbaçãodos conteúdosrevolucionários das tendê
iconoclastasepodemosencontrálasnãoapenasem naçõesqueestãosofrend
dançasradicaisemsuaestruturasócio-política,mastambémsoba formade"bols
culturaisquerdo ocidentecomodo orienteNessas.culturas,o mito dominanteé
poderjovem.
E no contextodasculturaspré-figurativasque apontamparaa civilizaçã
terceiromilênio que a famflia do futuro se inseree adquireseuscontomos
famfliaondeosjovenschamam si o papeldemediadoresentreseusmembros
idosose a sociedadeemprocessode transmutaçãotecnol6gica.
Recolocando questãosobresera família ogrupoprimordial e arregimen
argumentosparaconfirmartal assertiva,encontramosnassagasmitológicaso
importantesubsídioparasustentartal afirmação.
Na gênesedosmitosprimitivoshá semprereferênciaa situaçõesquetom
contextofamiliar comomatéria-primaparasuaelaboraçãotemática,e os per
gensque nelesse movem o fazem incorporandopapéis familiares e desempenhand
sua representaçãosimbólica a partir deles.
Tomemos,por exemplo, a vertentemitológica greco-romanae acompanhemo
por instantessua versãoda criaçãodo universo e dos seresque o habitaramem seu
primórdios.
No princípioera o Ccos de onde originarum-seErebo e sua irmã e
esposaNoile (tal q,lal Adão e Eva na antropogênesebíblica).
Erebo e a Noite procriame dão origem a Eter e ao Di o, que,por sua vez, são
o pai e a mãe do céu (Urano) e da tena (Gaia\.
Urano gera,entreoutros,trêsfilhos: 7Ìrã, Saturnoe Oceano.Essesse revoltam
contra o pai, mutilam-no e o impossibilitamde ter filhos.
Satumo, frlho segundode Urano e Gaia, obteve de seu irmão, o primogênito
7itá',a permissãode reinarem seu lugar desdeque sacrificassetodos os seusdescen
dentesmasculinosa fim de assegurarque a sucessãoao trono fossereservadaa seu
próprios filhos. Salarno desposouRála, com quem teve muitos filhos e a todos devo rou
logo que nasciam,cumprindo o acordo feito com seu irmão (cumpre-seassim o ritual
cíclico doparricídio/infanticídioquemais tardeseráo tema central do mito de Edipo). Uma
nova aliança configura-seno universo mítico: a da mãe com o filho contra o pai. Ráia
consegue,através de um ardil (substituir o filho por uma pedra entãoengolida por
Satumo), salvarseu filho Jripiter de ser devoradopelo pai. Com idêntico
estratagema,ela salva outros dois filhos, Nenno_e Plutão. Júpiter declar gueÍÍaa
Satumo e vence-o,humilhando-o,tal qual estefizera com seu pai, Urano. Mais
tarde,aconselhadopor T/lis, a prudência,com quem casaraainda adolescent Júpiter dâ
uma beberagema SaÍurno,e êste vomita, além das pedrasengolidas,os filhos
anteriormentedevorados.Depois, temerosode sofrer o mesmo destino na mãosdos
filhos que resultassemdessaunião, renunciaa seuamor por lálls. Casa-se então,com
Juno, suairmã gêmea,com quem mantémum relacionamentoque prelu-dia todos os
conflitos das relaçõesconjugaisentreos mortais:Juno o apoquentacom seusciúmes e
contestasuaautoridadedoméstica,enquantoJúpiter agecomo marido rabugento,por

vezesviolento, maltratandoJuno.
Creio que seráfácil aos leitoresidentificar nestefragmentoda mitologia greco
romanaa presençado contextofamiliar como pano de fundo para as açõesmíticas.
Se é o conflito entre pai e filho ou entremarido e mulher que se toma manifest
nessasconcepçõesmitológicas da origem dos seres,na versão bíblica é a rivalidad
entre os irmãos Caim e Abel que comparecepara aludir às vicissitudesda vida
fami-liar; por outro lado, podemosinterpretara expulsãode Adão e Eva do
paraísocomo expressãodo repúdio do pai aos filhos criados quândo estesnão se
comportam de acordo com as expectativaspatemas.
De uma forma geraÌ,todasasmitologias,aodaremsuasversõesda antropogênes
logo que criam o homem o colocam numa situação relacional no seio do núcleo
familiar. E não só nos mitos de origem como também nos que retratamdramas ou
conflitosdo périplo existencialvamosencontraros protagonistasimersosem su
circunstânciafamiliar: o solitário Narciso, mirando-senas águas,vê, mais além de sua
imagem refletida, as entranhasmatemaspara onde desejaretomar,e Édipo per corre
seucalvário balizadopelasculpasincestuosasnum complexo interjogo de rela

çõesfiliais,conjugaise parentais.
Ora, se as sagasmíticas com talreiteraçãouniversalizama presençada famíli
em seusconteúdose se são elas a proto-representaçãodo mundo real, não se
poder daí inferir a condiçãoprimordial da família como agrupamentohumano?
58 . ,,",n*noNu uso*,u

REFERENCIASBIBI,IOGRAFICAS
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THE Ncw Enc]cÌofleJìr IJ.:i.lÌr:lrüClri...ìSoI990..
GruposEspontâneos:
As Tirrmase Ganguesde
Adolescentes
DAVID E. ZIMERMAN

ser humano é essencialmentegregário. Por essarazão, semprehaveráuma busca


naturaldaspessoasentresi, com a inevitável formação espontâneados mais distintos
tipos de grupos.
O que importa consignar,no entanto,é que todo e qualquergrupo, quer tenha
sido formado espontâneaou artificialmente,quer tenhaum ou outro tipo de finalida-
de, sempreestarásujeito a uma mesmasérie de fenômenospsicológicos, tanto cons-
cientescomo inconscientes,os quais se reproduzemde forma análoga em todos os
camposgrupais formados,com algumasvariantesespecíficas,é claro. Assim, é útil
lembrar a diferença que existe enlÍe ospequenosgrupos, que pertencemà área da
psicologia,e os grandesgrupas, como são os das comunidades,sociedades,nações,
seitase multidões,e que pertencemtanto ao campo da psicologia como da sociolo-
gia.

formação dos diferentes tipos de grupos. O grupofan i/lar nuclearpode ser


consideradoo protótipo de todos os demaisgrupos.De fato, em qualquerfamília há a
existênciade um campo grupal dinâmico por onde circulam todos os fenômenosdo
campo grupal, tal como estesúltimos foram descritosno capítuloreferenteaos fun-
damentosteóricos.
Destarte,acompanhando conceituaçãoformulada paraa caracterizaçãodo que
um grupo, pode-sedizer que uma família, muitomais do que uma somaisoladados
indivíduosque a compõem,constitui-secomo uma novâ e abstrataentidadepeculiar;
existe uma vivência de experiênciasemocionaise uma interaçãoafetiva entre todos
(com os ingredientesda ambivalência:amol agressão),assimcomo tambémhá uma
interação comunicativa entre cada um e todos; existe uma hierarquia de posições,
jogo
funçõese desempenhode papéis; há um contínuo de projeçõese introjeções;e
existe, sobretudo,uma formação de identidades,resultantesdas identificaçõescom
os valores,predições,proibiçõese expectativasdos pais,e destescom os seusrespec-
tivos pais, em uma combinaçãode, no mínimo, trêsgerações.De acordo com estes
aspectos,as famflias estruturam-secom um perfil caracterológicovariável de uma
para outra,porém com uma especificidadetípica de cadauma delas,que, por exem-
plo, pode ser de naturezaexcessivamentesimbiótica ou de característicaspredomi-
nantementeobsessivas,narcisistas,paranóides,fóbicas,psicossoma
psicóticas,psicopáticas,etc, ou, naturalmente,apresentam-secomo
famí estruturadassadias.
dinâmicapsicológicadasmultüões obedecea um esquemadifere
quanto,conformeosestudosdeFreud,diantedesituaçõestraumáticas
depulsõesinconscientes-como,porexemplo,diantedeum tumultosocial,
emrecintofechado,um estadodeindignaçãocoletiva,etc.- , osindivíduos
controlesobreos seusvaloreshabituaise, ou entramem um caótico"salve
e comopuder",ou seguemcegamenteuma liderançaforte.Um comprov
assertivaó o de gruposqueseestruturamem moldesde fanatismoem tom
líderde funçãoaltamentecarismática,poÍadorde um conteúdoideaciona
inspiraçãomísticae messiânica.
Doisexemplosservemparaclareara dinâmicadosgruposfanáticos:
manhahitleristae o do episódiodo suicídiocoletivoocorridohá algunsa
GuianasEste.últimofatoilustrao quantoumamultidãodefiéis,fixadosemu de
um predominanteprimitivismono desenvolvimentobiopsicossocial,po
formaordeirae disciplinada,sacrificara própriavidaemtrocade promesia
asprovindasde um líderpsicótico(no caso,o pastorJ . Jones),quediziaque
representavaoingressoem um mundomuitomelhor,o paraísocelestial.
O exemplodo fanatismoocorridonaAlemanhasoba liderançadeHitle
siqlificativo queo anterior,porquantoa multidãofanatizadanão eracomp
indivíduos,separadamente,primitivos;muito pelocontrário.O que ocorre
Atravésda montagemde umafantásticamáquinade propagandaqueprod
altaeficiênciaa ilusãocoletivade umajustae nobrecausade reivindicação
(no
mínimodiscutível),acúpulahitleristaconseguiuatingiro núcleoíntim
indivíduoque não toleravainjustiças,que queriaresgataro que perdeuo
roubado,e assimelesmobilizaramumaindignaçãodatotalidadeda socieda
da época.A partir daí, opassoseguintefoi o de escolherum bodeexpiat
fosseo portadorda projeçãode todaa maldade,iniqüidadee
sededepoder: pj9, gssgpapelfoi depositadonoscomunistase, logo a
seguir,aosjudeus eliminados,abririamo
caminhoparaumaraçasuperior,umarianismopuroqu tia serum novoéden.
Essaloucaorganizaçãofanáticafoi fortementeconsolidadacom o em
recursosquefacilitamumahipnosecoletiva,comosãoos auditivose visuai
de comíciosgigantescos,hinosmarciais,bandeiras faixasmulticolorida
lanquequeficassenumaposiçãoalta,de formaquea multidãoficasseapeq
infantilizada,olhandode baixoparacimae com a forteluz dosholofotesno
enquanto fala místicapenetrandopelosouvidosíaprovocandoum estad
lumbramento,ou sej4quandoumaluzé fortedemais- tal comoa deum faro
um carroquevememdireçãocontráriaànossa-,priva-nos("des")daluz ("lu

FORMAçÃO DE TURMASE GANGUES


Comonão cabeaquiesmiuçarcom maiorprofundidadeos gruposantescita
mosnosater,emparticular,na formaçãodosgruposespontâneos,comoo da
e gangues,demodomaisrestritono âmbitodosadolescentes.
Antesdemaisnada,cabefazerumabreverevisãosobreasprincipaisca
ticasda adolescêncianormal.
coMo TRABALHAMoScoM cRUPos . 61

A etimologia da palavra "adoÌescência",compostados prefixos latinos ad (para


a frente) + dolescere(crescer,com dores),designaclaramenteum períodode
mutação,portânto, de crise.
A palavra"crise", por sua vez, deriva do étimo grego krinen, que quer dizer
"separação" (daí o sentido de palavrascomo crivo, critério, discriminar, etc.). De
fato, o adolescenteestá fazendo uma importante separaçãoentre o seu estado de
criançaem dependênciados pais e a suapreparaçãopara a condição de adulto
eman-cipado.Além disso,ele estáfazendoseparações modificaçõesde
jetos
seusvalores,pro- e de sua corporalidadee sexualidade.
O termo adolescênciaabrangetrês níveis de maturaçãoe desenvolvimento:a
puberdade,a adolescênciapropriamentedita e a adolescênciatardia, cadauma delas
com caracteísticaspróprias e específicas.
Assim, a puberdade,no períododos l2 aos 14 anos,caracteriza-sepelasmudan-

çascorporais, como,por exemplo,o aparecimentode pêlospubianos(e, daí, o termo


"púbere"). A adolescênciapropriamentedita se estendedo períododos 15 aos 17
anose a sua característicamais marcanteé a das mudançaspsicológlcas. A adoles-
cência tardia é a que vai dos l8 aos2l anose secaracteriza,sobretudo,pela buscade
uma identidadeprópria, não só a individual e a grupal, mas também a da identidade
social.
Essasinevitáveismudançasnormais comumentesão acompanhadasdas se-
guintes manifestações:
. Uma buscade "si mesmo" atravésdos processosde diferenciação,separação de
. individuação.
Uma testagemconstantede como ele é visto e recebidopelos demais,devido ao
fato de que, como toda criatura humana,tambémeles se reconhecematravésdo
reconhecimentodosoutros.É importanteassinalarque, muitas vezes,as condu-
tas bizarrasindividuais ou grupaisque tanto provocampreocupaçõesnos famili-
aresvisam a essatestageme à necessidadede seremreconhecidoscomo pessoas
. autônomas.
Uma necessidadede fantasiar,intelectualizare criar.
. Uma atitude de idealizaçãotanto de pessoascomo de crenças,assimcomo tam-
bém de uma permanentecontestaçãoAs. dificuldadespara adaptar-seàs mudan-
ças do mundo intemo os levam a querermodificar o mudo fora de si mesmo,sob
. a forma de quererreformar a humanidade,atravésda filosofia, religião, etc.
Uma inconstânciade humor e tomadade posições.
. Há uma certaconfusão quantoà imagem corporal e não é raro que isso atinja um
. grau de surgimentode sentimentosde despersonalìzação.
Decorredaíuma supervalorizaçãodo corpo, aqual setraduzna buscado impacto
estéticoou, pelo contrário, pela antiestéticaTanto. uma como a outra costumam
se rnanifestaratravésde roupas,penteados,uso de espelhosdurantehoras,even-
. tuarstatuagens,etc.
Incremento do estadode paixões, assim como o de uma ambivalênciaentre os
. sentimentosde amor e de ódro.
Costumahaver um estadode taràulência com os pais. Isso se deve tanto ao fato
de os adolescentesnecessitaremtestara flexibilidade, a sensibilidadee o grau de
interessedos seuspais por eles,assimcomo uma forma de se diferenciaremde-
les. Portanto,é de importânciafundamentalo comportamentodos pais diante das
crises adolescentesquanto à determinaçãoda qualidade estruturanteou
desestruturante,na passagempara â condiçãode adulto.
62 . ZMERMAN& osoF.lo

. pontoprincipalda influênciadospaisna formaçãoda identidadede seu


consisteno fato dequeelessãoos principaismodelosde identificação.
. Noscasospatogênicos,asprincipaisfalhasdospaisresidememfatoresco
dequerer,à força,modelarosseusfilhossegundoasuaimageme feição,se do
o modelodosseusrespectivospais,numaverdadeiracompulsãoà rep
atravésdasgeraçõesUm. outro fator, muito comume igualmentepreju
consisteno fato dospaistentaremcompletarsuasambiçõesnão-realizad
vésdosseusfilhos,criandoassimum clima de expectativasque,muitasv
sãoimpossíveisde seremrealizadasOutros.problemasequivalentespodem
deumamãemuitosimbiotizanteou deprimida,deum pai ausenteou superin
rante,depaisincoerentesnadeterminaçãodoslimitese daslimitações,nades

ção depapéisa seremestereotipadamentecumpridosao longoda vida,na


lha de um filho comoo bodeexpiatórioou porta-vozda patologiafamil
assimpor diante.
. Em funçãodosfatoresatéaquiapontados,éimportantereconhecerquea t
condutadesafiadora provocativapor partedosadolescentespodedever
propósitoinconscientedeserempunidos,assimaliviandoassuasculpase
fo cândoa tesede quesãovítimas,o quejustificariaa suaposiçãoagressiv
círculoviciosoquepodesetomârcrescente intermirúvel.
. Outraconseqüênciaimportanteé queo adolescentepodepreferirserumna
ninguéma ter queassumirum feixede identidadesquelhe
estãosendoimp de formascontraditóriase fragmentadas.
. Por último, uma característicamaÍcanteda adolescência que se
consti principalenfoquedestecapítuloé oquediz respeitoà
suafortetendênciaà palidade.

Desdelogo,é necessáriodiscriminaros trêstiposbásicosde gruposform


espontaneamentepor adolescentes:osnormais,osdrogativose osdelinqüent
Osgruposnonnaisassumemascaracterísticastípicasqueconespondemà f
etáriadasuaadolescênciaAssim,.no gntpodepúberesprevalece linguagemc
ral e lúdica,de acordocomassuasmudançascorporais,comoantesfoi frisad
conseguinte,écomumqueasmeninasandemde mãosdadase criemum espa
jogoscoleúvos,enquantoosmeninossenotabilizampelacomunicaçãopor me
empurrões,socose de espoíesmaisagressivos.
Naadolescênciapropriamenteditae naíardia,prevalecea linguagemver
tipo contestatório,a não-verbalatravésdasatuaçõesnasatitudese condutaO.
to de vistafundamentalé que se leveem contaa diferençaentre"agressivid
"agressão"Explico.melhor:o verbo"agredir"seoriginadosétimoslatinosad a
frente) + gradior (movimento)e isso correspondeao fato de que a agressiv
não só é natural,masé indispensávelparao serhumano,da mesmaforma q
reinoanimal,comoum recursode lutapelasobrevivênciadeumamelhorqual
sucessona vida. O termo"agressão",por suavez,designaa predominânc
intentosdestÍutivos.
Como se observa,a agressividadeconstrutivâe a
agressãodestrutivatant dem semanifestarde forma claramentedelimitadae
diferenciadauma da outÍa podemtangenciar,altemar,confundir-seentresi e
assumirformasqueconfun observadorextemo.
Um exemploclarodesteúltimoaspectopodeserdadopelâcostumeiracon
ção veementequeum adolescentepossaestarfazendocontraosvaloreshabitu
establishmentdos pais,escolae sociedadeEstaní.essacontestação,nasmúlt
formas como pode se apresentar,a serviço de uma agressãodestrutiva, ou ela pode
estarsignificando movimentosimportantesde uma agressividadevoltada para o ob-
jetivo
de uma auto-afirmaçãona construçãode sua identidadede adulto?
Transportandopara um plano sociológico, creio ser válida uma comparação
com as guerrasde independênciadas nações(como as do continenteamericanono
século passadoou as africanasneste)contra os paísescolonizadores,quando elas
atingemum grau adolescentede desenvolvimentoe de identidadede cidadania.
Vale a penainsistir nesteponto,pois ele é de fundamentalimportância na discri-
minação, nem semprefácil de ser feita, entre a agressividadesadia dos indivíduos
nos grupose o da patologiada violência, tanto a auto quantoa heterodestrutiva.Por
conseguinte,um cuidadoespecialque os educadoresdevemexerceré o de evitar um
apressadorótulo depreciativoao caráterbelicosodo adolescente,pois a imagem que
devolvermosa eles é a que subsistiráe formará a sua própria imagem e, portanto, a
sua identidade.
Cabeuma outra analogia,agoracom uma quedad'água: força avassaladorada
mesma tanto poderá destruir tudo o que ela atingir como poderá ser utilizada para
fins benéficos- por exemplo, quandoa energiamecânicaé devidamentedrenadae
canalizada,ou é transformadaem alguma outra forma de energia,como, por exem-
plo, a térmicaou a luminosa.Aliás, essaparidadeentreenergiaconstrutivae destrutiva
está bem expressanas palavras"vigor" e "violência", ambas originadasdo mesmo
étimo
latino vrs, qu.equ'erdízerforça.
Da mesmamaneira,em grandeparte,competeaoseducadoresa responsabilida-
de pelo destinoconstrutivoou destrutivoda energiado adolescenteO. passoinicial é a
de que os educadores- pais, mestres,etc. - entendamo porquê da formação de
gruposem condiçõesnormaise sadias,ainda que aparentementedoentias.Paratanto,
vamos listar algunspontos mais relevantes:
. O grupo é o àabitat naf:'l,raldo adolescenteNos. casossadios,vamos denomina
turmas, e nos que são destrutivos,Bangues.
.
grupo funciona como um objeto e um espaçotransicional,ou seja,ele permite a
saudávelcriação de uma zonaimagináriaonde ainda existeuma mesclado real
com um forte sentimento,ilusão e magia onipotente.A diferençaé que, nas tur-
mas, essaonipotênciaé transitória, e, nas gangues,peÍÍnanecemais intensa e
permanente.
.
Dessaforma, a turma propicia a formaçãode uma nova identidade,intermediária
entre a família e a sociedade,com a assunçãoe o exercício de novospapéis.
Igualmente,a turma cria um novo modelo de superegoou de ideaisde ego quan-
do os adolescentessentemque não podem,ou não querem,cumprir com os valo-
res e ideaispropostose esperadospelos pais.
Costuma haver - por vezes com um colorido manifestamentehistérico - uma
busca por ídolosque consubstanciemuma imagem - não importa se fabricada
pela mídia- de alguémque sejaportadore porta-vozdos ideaisdos adolescentes
tanto sob a forma de belezaquantode prestígio,talento,riqueza ou de contesta-

ção libertária.
A tendênciaa se agruparemtambém se deve ao fato de que: sentem-semenos
expostosàs críticas diretas;discriminam-sedos adultos;confiam mais nos valo-
res de seuspares;diluem os sentimentosde vergonha,medo,culpa e inferiorida-
de quandoconvivem com outrosiguais a eles;reasseguram auto-esÍimaatravés
da imagem que os outros lhe remetem.
64 . z-"*na*l a osonro

grupo propicia um jogo de projeçõese introjeções,de idealizaçõese


mentos,de múltiplas dissociações integraçõesDa. mesmaforma, o está
ancoradona fantasiade que a "união faz a forçt", e com isso ele se mais
forte, e a sua voz ressoamais longe e mais potente. Ao mesmo temp turma
possibilita que cadaum reconheçae sejareconhecidopelos outros, alguém
que, de fato, existe como um indivíduo, eque tem um espaçopróprio A turma
orooicia o fortalecimentoda identidadesexual ainda não definida fácil
. que
entender a "turma do Bolinha", cuio lema é o de "meninasnão entra ou
a contraDartena "turma da Luluzinha" atestamnão uma ho latenteque um
juízomais apressadopoderiapressupor,mas,sim, como formade fugir
do sexoopostoEssa.fugatantoserveparamarcar
as diferençasentre os gênerossexuais,e assimconsolidara suaidentidade
al, comotambémparaproteger-sedosriscosinerentesàsrenascentes
fantasiasligadasà reativaçãohormonal-libidinal.
. Uma outra forma de as turmas firmarem a sua diferenciaçãocom os adulto
pela via da obtençãode um reconhecimentopropiciado com sinars como são
as roupas-uniformes,o uso de motos potentes,a exibição de
de surf, o uso de insígnias,ospenteadosaìgo bizarros,um tipo de músic
moda, etc. Nessescasos,pode-sedizer que, muitas vezes,as "modas" toma
lugar das identidades,enquantoestasainda não estãoclaramentedefinidas.
. Nas turmas que denominamosdrogativos - é diferentede drogadictos -,
estar acontecendoque se trate de um grupo normal, no qual a droga está
menteservindocomoum modismo,umaespêciede grffi decoragem
çãojunto aosrespectivospares.Nessecaso,as drogasestariam
na atualidade,o mesmopapelque a proibiçãorigorosado cigarro
para as geraçõesmais antigas.Assim, paradoxalmente,a drogapode estar
um fetiche que une e integra a turma.
que
. Dessaforma. é imDortanteassinalar a tendênciaantissocialda turma
centereferidoanteriormente,princípio,não é preocupanteOs. indivíduo
grupoassimespontaneamenteformadonecessitamapenasseremcontidos
seusexcessosnas transgressõesdas leis que regem a
sociedade,sem los para uma orientaçãoadulta.

A FORMAÇAO DE GANGUES
Tal como antesfoi consignadoo. aspectomaiscaracterísticode umagangueé o
predominânciadaspulsõesagressivo-destrutivas,muitasvezescomrequintesde
versidade e de crueldade. Por oue isso? A resoosta não é fácil. oois as
determinantesnãosãoúnicase nemsimples,pelocontrário,sãomúltiplas,com
psiquismo
xas e abrangemfatores tanto da naturezado intemo como aqueles
dizem respeitoàscircunstânciasda família,os aspectossócio-culturais,econômic
oolíticos e também a influência da mídia.
Sabemosque existeuma constanteinteraçãoentre o indivíduo e a sua soci
de, e que a identidadedo sujeito - especialmentea do adolescente- fica seriam
ameaçadaquandohá um incrementode angústias,quer as provindasde dentro d
quer aquelasque, vindasde fora, abatem-sesobreele com exigênciase privaçõe
todaordem.
F Assim, uma primeira e óbvia razãoé a de que uma gangueagressivarepresenta
vn grito de desesperoe de protesto contra uma sociedadeque não só não os
entende,como ainda os desampara,humilha, mente, corrompe e degrada.Vale
a assinalarque, nessabuscadesesperadapor uma libertação,forma-seum grande
o paradoxo,porquantoa organizaçãoda ganguesegueum tão rígidocodigo de leal-
dadeaos seusvalores,que ele próprio acabapor se constituirnum novo cativeiro.
E Como a maioria das ganguesse forma no seio das classesmais humildes, temos
uma tendênciaem aceitar essa explicaçãode naturezasócio-econômica como
suficientepara entendero porquê da condutapredatóriadessasganguescontra a
E sociedadeburguesa.No entanto, em classesmais favorecidas,essefenômeno
também não âconteceraramente,o que comprovaque o extravasamentode senti-
l- mentosde ódio, inveja destrutivae ímpetosde vingançacruel não é exclusivida-de
ls de classese de pessoaseconomicamentecarenciadasA. carênciaé mais pro-
funda e sériado que aquelaunicamenteeconômicae diz respeitoàs privaçõesde
ordem afetiva e do caosemocionalde certasfamílias.
Outra causaexplicativa da empáfia arrogantee onipotenteque caracterizacada
ls um dos indivíduosque pertencemà gangueconsisteno fato de que, muito refor-
la çada pela antesaludida idéia de que a união faz a força, exacerba-seuma
sensa-ção de onipotênciae prepotência.Sabemostodos que, muitas vezes, o
sujeito necessitarecorrerao recursomágico da onipotênciacomo uma forma de
fugir da depressãosubjacente,do reconhecimentoda sua fragilidade e da
dependência dos outros.Da mesmaforma,um grupofavorecea diluiçãodo fardo
de responsabi-lidadese de culpas de cadaum, separadamente,em relaçãoaos
danoscausados aos outros.
Um aspectoimportantea ser levado em conta é o fato de que, assim como, nas
turmas sadias,a supervalorizaçãodo tipo de vestimenta,penteado,gosto musi-
cal, etc., pode estar sendo o emblema designativoda sua diferenciaçãocom o
establishment- ou,nasturmasdrogativaso fetichesupervalorizado diferenciador
seja representadopela droga nas ganguesdeliquenclals,a violência, por si mes-
ma, pode seconstituir como insígniaprincipal. Dessaforma, o ideal da ganguese
organizaem tomo daidealizaçãoda violência,a qualnáo só não é criticada pelos
pares,como ainda o seu propósito antisocial é significado por eles como uma
demonstraçãode audáciae valentiae, portanto,como um passaportepara a acei-
tação e â admiraçãodos demais.
Modelo de uma cúpula diretiva corrompida,sejano âmbito familiar, sejano nível
govemamental.
influência da mídia como um fator modeladorda formação de ganguesnão deve
ser exageradapor partedos estudiososdo assunto,porém também não deve ser
depreciadae está por merecerum estudomais profundo.
Por último, um aspectomuito importanteé aqueleque diz respeitoà dificuldade
em se conseguirmodificar a progressivaexpansão,numérica e destrutiva, das
ganguesnascidasnasclassesmarginalizadasPrendem.-seao fato de que os
indiví-duos nasceme crescemem um ambienteque tem uma cultura própria,
com o cultivo de valores outros que não aqueleshabitualmenteconsideradospor
nós como sendoos construtivose saudáveis.Eles se organizamem uma
sociedade paralelae, por isso,a regraé que eles não se sentemcomo
marginalizados,mas, sim, como orgulhososportadoresde uma cultura
diferente,umâ anticultura,com um código de valoresmorais, éticos e jurídicos
inteiramenteà parte dos valores vleentes.
66 . zrt.,tenr,aeLosonro

COMO EMRENTAR O PROBLEMA?


Estaé a partemaisdifícildo presentecapítulo,especialmenteno quetangeaos
vesproblemasdasganguesdeliquenciaisTalvez.nenhumoutroproblemade
conseqüênciÍìssociaise econômicastenhamerecidotantosestudos,conferências,
gressose divulgaçãoem todosveículosda imprensae tantotenhamobilizadoa
paçãonacionalcomo esteque serefereàs criançasmarginalizadase abandonad
comoconseqüênciadireta,à formaçãodebandospredatórioscadavezmais
Apesarde tudoisso,o problemacontinuacrescente,semsoluçãodefinitivaà vista.
No entanto,algumacoisapodeserditae feita.
Assim,em relaçãoàslrrmas quetantocostumampreocuparospais,a prime
medidaqueseimpõeé a de propiciarinstrumentosquepossibilitemuma
dosvalorese dosproblemasdos"mal-entendidos"entreasgerações,de modoa
gataro diálogoentrepaise Íìlhos.
Uma forma de favoreceresseintercâmbioafetivo e atenuaro crucial
do mal-entendidona comunicaçãoconsistena promoçáode grupos de reflexão,
denadospor técnicosbem preparados,não necessariamentegrupoterapeutas.
grupospodemsercompostosexclusivamentepor adolescentes,ou apenaspelosp
ou ainda serem constituídos iuntamenteoor diferentes adolescentese
pais.Os problemassãocomuns,e a trocade experiênciaspodeclarearmuita
reduzir culpase temoresexagerados,bem como abrirum espaçoparaa tolerância
respeitorecíproco.
Um dos aspectosmais importantesem relaçãoàs atitudesdos pais consiste
queestestenhamcondiçõesde perceberque,muitasvezesa. aparênciade
desaforo desafiopor partedosfilhos representaum saudávelintentode
de suapersonalidadeinstávele que a bizarriada turma do seufilho secomporta
um espaçointermediárioentreo seumundofamiliare o mundosocialadulto.
outraspalavras,ospaisdevementenderqueosconflitosinerentesàsmudanças
nassãoprojetados atuadossoba formade mudançasextemas.
Em relação àstanz as drogativas com adolescentes,antesde mais nada é
sávelestabelecerdiferençaconceitualentreasexpressões"drogadiqto'e"drogati No
primeirocasotrata.-sedeumaadicçãoquímic-ponantoa,de.umadóençaaltame
preocupanteNo. segundocaso,trata-sedo usode drogasativas,as quaispor.
estão sendoconsumidasnão pela compulsoriedadede um vício (em cujo caso,já
estabeleceuum círculovicioso entreo organismoe o psiquismo,de sorteque a
requeruma saciedadeurgentee irrefreável),mas,sim, o adolescenteda turma
expe menta a droga como um ilusório ritual de passagemà condição de adulto
livre reconhecidopelos seuspares.
perguntamaisprovávelquedeveestarocorrendoao leitorcostumaser
Não há o risco de um adolescentedrogativo passarà condição de drogadicto?
responderiaque sim e que não, tudo dependendoda estruturaemocional básica
cadãadolescèntesem particularÉ. a meì-a coisaqueperguntarpor que a maio
daspessoasbebecervejaou vinho,socialmente, somentealgumasdelas parao
alcoolismo?Porque,entretantaspessoasquejogamcartaspor lazer,
delassetomamjogadorescompulsivos?E assimpor diante.
A estruturabásicadecadaadolescente,porsuavez,depende
de comofoi e comocontinuasendoforiadona suafamílianuclearComo.o
da relaçãogrupalentrepaise filhosé muitoextenso,nãocabeaquio seu
mento, mas bastadizer que um fator de primeira importânciaé o tipo de modelo
condutatransmitidopelos pais. Assim, é muito comum encontrarmosuma
COMOTRABALHAMOSCOM CRUPOS . 67

cia entre o que os pais dizem,Íazem,e o que, de fato, eles rdo. Por exemplo, os pais
podem pregar verdadeirosdiscursosde alertacontra os vícios,ao mesmotempo que
ostensivamentecultivam o seu vício ao cigarro, à comida,ou a remédios,etc.
que essencialmentediferenciaâ existênciade uma turma e de uma gangueé que,na
primeira,alémdeuma buscasadiapor emancipação,prevalecemos sentimentos
amorosos,ainda que essesestejamcamufladospor uma capa de onipotência e de
pseudo-agressãoA. turma se dissolve ao natural, porquanto os seus componentes
crescem,tomam diferentescaminhosna vida e ficam absorvidospelo eslúlishment.
diferente nas gangues:neste câso, há a predominânciados sentimentosde
ódio e vingança, com a ausênciamanifestade sentimentosde culpa e de intentos
reparatórios,ancoradosque aquelesestãona idealizaçãode sua destrutividade.Em
casode dissoluçãoda gangue,os seusmembrosseguema mesmatrilha de delinqüên-
cia ao longo da vida, tantoporqueos conflitos sócio-econômicosestãocontinuamen-
te reforçandoe justificando a violência como porqueo processode separaçãoentre

elesnãofoi devidoa um Drocessonaturaldecrescimentomas.. de


um foco infeccioso,cadaum delesvai inoculandoo vírus nas
o
ter a violência provinda das ganguesorganizadasem tomo de líderesque fazem da
crueldadeo seu ideal de vida. Mesmo em paísesdo primeiro mundo, com todos os
recursoseconômicose com técnicosespecializadosà disposição das autoridades,o
desafiodo problemadeliqüencialnão está sendovencido; pelo contrário.
Não se pode esquecer,no entanto,que, melhor do que simplesmentecruzar os
braçosou fazer o inútil jogo da retórica bonita - é efetivar uma real tomadade inici-
ativasque sedirijam não tantounicamenteà necessáriaaçãorepressivadirigida isola-
damentea indivíduosou algumasgangues,mas sim ao investimentoem processos
educacionais,de tal sorteque,desdemuito cedo,a criançamarginalizadapossarespei-
tar, admirar, e assim incorporar novos modelos de valores provindos de técnicos,
educadores.
desnecessárioesclarecerque a ênfase aqui tributada à educação de forma
nenhumaexclui a necessidadesimultâneade uma açãorepressivapor partedasautori-
dades competentes,especialmenteporque a melhor maneira de mostrar amor por uma
criançaou adolescenteé saberimpor limites adequadosà sua onipotência.
As outrasmedidasque idêalmentepoderiamsolucionaro problemadasgangues
violentassãoutópicase totalmenteinviáveis para a nossarealidadeatual,porém não
custafazer algumascogitações:
.
Uma mudançana mentalidadedas classesdirigentese na elite econômica,de tal
soÍe que o modelo que vem de cima para baixo não viesse impregnadocom os
.
valoresda hipocrisiae da comrpção.
Uma profunda modificação na distribuiçãode renda, de maneiraque se propici-
.
assecondiçõesde vida, no mínimo dignas,principalmentepara as crianças.
Uma participação mais profunda do Estadojunto às comunidades,de forma a
propiciar a disseminaçãode grupos operativoseducativosdirigidos a crianças,
adolescentes,pais e educadoresem geral.

Embora a já mencionadaobviedadede que as duas primeiras cogitações são


totalmenteinalcançáveìsem nosso meio, a terceiradelas é bastanteviável e talvez
possibilitasse,mais precocemente,uma mudançade mentalidadenas classessociais
mais desfavorecidas,no sentido de substituir a idealizaçãoda violência por outros
valorese por uma outra ética de convívio grupal e social.
ProcessosObstrutivosnos
SistemasSociais,nosGru-
pos e nasInstituições
LUIZ CARLOS OSORIO

Qualquersistemasocial, sejaum casal,uma famíia, um gmpo terapêuticoou uma


instituição,nãoé um merosomatóriode individualidadesIsso.o sabemostodosnós,
mastê-lo em contana práxisde nossasatividadesgnpais nem sempreé tão
óbvio quantosepoderiasupor.
Sabemos,portanto,queum sistema(nocaso,o sistemagrupal)nãoé a somade
suaspaÍes.E o chamadoprincípioda não-somatividade,umadaspedrasangulares
da teoria dos sistemas,mencionadopor Watzlawick(1967). O conceitopsicológico
de "gestú" deriva-sedesteprincípioe sinalizaa importânciadeconsiderÍìr-osegÍu-po
comoumaentidadepeculiar,cujo perfìl psicodinâmiconão podesersimplistamente
reduzidoà resultantêdos vetoÍespsicológicosde seuscomponentes.
Logo, os grupostêm suadinâmicaprópria e leis inerentesa seufuncionamento.
Não podemoscompreendê-lostão somentea partir da dinâmicaintrapsíquicade seus
membros.Não obstante,sendomeu vértice de aproximaçãoao estudodos gnrposo
psicanalítico,éa partir de certascaracteísticaspsicológicasdossereshumanose que
semanifestamem suasinteraçõssociaisqueprocuroentendero funcionamentogrupal.
Sefiz a ressalvainicialé paraquenãosesuponhaqueingenuamentetenhoa preten-
sãode abarcartodo o universodasmanifestações vicissitudesdasatiüdadesgrupais
apenassoba óticada psicanáIise:essa,comoasdemaisabordagenspropostaspelos
estudiososdo comportamentosocialdossereshumanos,é apenasumadasinúmeras
vias de entradaà compreensãodos processosgrupais.
fenômenoque centralizaa atividadede qualqueragrupamentohumanoé a
interaçãoentreseuscomponentesNa. dinâmicadessainteraçãoé quetemosquefocar
nossointeresseespeculativo,independentementedo vértice teórico sob o qual nos
posicionamos,paracompreendertantoosaspectosconstrutivoscomoosobstrutivos da
atividadegrupaldosindivíduos.
Diz-sequeo Homemé um sergregário,aludindo-secom issoà suainatatendência
a agrupar-separa íuisegurarsua identidadee sobrevivênciacomo espécie.Mas, ao
contráriode outrasespéciesanimais, o Homemnáo se agrupaapenaspíuadefender-
sedosperigosnaturaisou paramultiplicar suacapacidadede prover sustentoe prote-
ção para a prole. O Homem tambémse agrupapara instrumentalizarseudomínio e
podersobreseusiguais,mesmoquandoestedomínionãoestávinculadoa questõ€s
70 . zuenurNaosonlo

de sobrevivênciaou preservaçâodaespécieE. é quandoissoocorrequenos


tamoscom osmecanismosobstrutivosnossistemassociais,gruposou instit
Os sistemassociais,asinstituições os gruposem geralsãosempre-
seusobjetivosespecíficos- instrumentosde buscae manutençãodo Pode
mesmo,maiusculado,paraenfatizarsuamagnitude inadjetivadoparacar
suaabrangência)Essa.aspiraçãoou desejode
Poderestáligadoàsorigensda ção humanae é o
substratodinâmicoparaasvicissitudesdosindivíduosna s de relação.
Sabemosqueossereshumanossãocapazesdeinibirseudesenvolvime co
e comprometerseriamenterealizaçãodeseusprojetosdevidaa partirdem mos
autodestrutivos,que vão desdeas "inofensivas"somatizaçõesque af
indivíduosemgeralatécondutasfrancamentesuicidas.
De formaanáloga,poderíamosdizerquetambémos sistemassociais"
lam-se"ou "suicidam-se"Aí. estáa desintegraçãodo LesteEuropeucomoe
contemporâneadessesprocessosautodestrutivosnum sistemasocial.Em
es nor, os gmpostambémse autoflagelam,como nasdissidênciasou
fragm institucionais.
Porémnão é a essasformasextremasde aniquilaçãoinstitucionalqu
nosreferirnestetextoe, sim,aosprocessosobstrutivoslentos,insidiosos,c
nemsempreperceptíveisqueestãocontínuaereiteradamentedebilitandoos
mosgrupaise minandoseusobjetivosimanentesTais.processosseriamcom
àsdetençõesno desenvolvimento,ou aosfenômenosregrgssivosnosindivíd
quiséssemoscontinuarna analogia,diríamosque seestendemnumagama
desdeasfronteirasda normalidadeatéo nívelpsicótico,quenãocontempl
gênciasdarealidade acabaconstituindo-senuma"morteemvida"pelaimpos
dede darcursoa um projetoexistencialPara.lhesdarumaidéiamaisclarad
queme refiro aqui,precisorecorrera algunsconceitos noções,aparente
parsase desconexas,mas que aos poucosserãoarticuladaspara dâr suste
estaexposição.
Paraum psicanalist4falar em processosobstrutivosou autodestrutiv
carinevitavelmenteidéiadeum instintoou pulsãodemorte,tal comoorigi
te a formulouFreud(1920).Esseé sabidamenteum dosmaiscontroversos
da teoriapsicanalíticaehá quemafirmequenemmesmoFreudseconven
suaprópriaaÍgumentaçãofavor de suaexistênciaO.saggggqpsicanalis-
adotaramçqnó ferramêntaepistemológica- M. Klein èìÍlóçlõ:ìãfr gur
de tal sortequeDoucolembraa formacoúo Freudinicialmenteo concebe -Èì:meìa

meómílibèidãdèdé transTorm-raÇãoõoèonieito ilara aÌtíp


objetivosdestecapítuloTomarei,.então,o instintodemoÍenãocomoum hi
impulsoao auto-aniquilamento,mascomoumaformade inérciaao movim
direçãoà vida,aocrescimento,àevoluçãoe suasexigênciasdediferenciação r
cimentodapresençado Outro- comoalgo,enfim, boicotaou sabota des
que
mentopsíçico do indivíduo. poetas essessutisantecipadores conhe
Sirvo-meda intuiçãodos -

científico- paradadhesumasintéticaidéiado instintode o vis


(1973):" A única morte possível
mortecomo

apresento Diz-nosM. _aqui. Quintana


é

nascido".E a estarecusaàsvicissitudesda existênciae ao desejodemanlerad


estadodeonipotênciaoriginalqueestoualudindoaquiquandomerefrroao de
morte.
\ÍAS O QUE VEM A SER O ESTADODE ONIPOTENCIA ORIGINAL
A\TES REFERIDO?
Suponhamos,para melhor entendê-lo,que o bebêdentro do útero matemo tem de si
e do que o rodeia a idéia de um todo fusionadoe indissociável.Se um feto pensasse,
diria:;'O Universo sou Eu"Essa.fórmula solipsistaresumea essênciapsicoiógicado
estadode indiferenciaçãoinicial do ser humanona vida intra-uterina.Essa fórmula
transforma-se,pelacontingênciado nascimento,na premissa"O Universo(Mãe)existe
em função de Mim", que serámantidaao longo dos primeiros mesesde vida do bebê,
em razáo de sua condição neotênica,ou seja, sua incapacidadede sobreviver sem
(maternagem).
cuidadosextemos
cisão primordial do nascimentoe a conseqüentenecessidadede adaptar-seàs
exigênciasde uma realidadeque confronta o ser humano com a evidência de sua
incompletude(e, posteriormente,com suafinitude) o levam a anelaÍo retomo aoque
chamamosestadode onipotênciaoriginal, representaçãomentaldo paraísonirvânico, sem
angústias,sem conflitos, sem desejosa demandarsatisfaçõese, conseqüente-mente, o
corolário da negaçãoda vida e suasvicissitudes.O impulso que se opõe à vida e às
suasmanifestações,tais como o desejode crescere aceitaros desafiosdo périplo
existencial,é o que aqui entendemospor instinto de morte, e seu objetivo
seria,portanto,o retomo ao estadode onipotênciaoriginal, cujo paradigmaé o narci-sismo
primário do bebêno "nirvana" uterino.
Narcisismo, noção intimamenterelacionadae articuladacom as anteriores,é
nossapróxima referênciaconceitual.Narcisismoque não é o amor a si próprio como
postulou-seinicialmente, fundamentando-sena expressãoplástica da lenda que o
inspirou como conceito metapsicológico,mas, sim, q incapacidadede amar até_asi
próprio, conteúdo que transcendea imagem de Narciso mirando-seno espelhodas
águasparaevocar o aspectoautodestrutivosubjacentena representaçãoalegóricada
voltâ ao estadoonipotenteoriginal, pela fusão com a Mãe, simbolizada nas águas
onde se deixa afogar.
Outra vez os poetasvêm em meu auxíliopara me adequarà necessidadede ser
breve.Destafeita é V. de Moraesquem nos alertaque "quem de dentro de si não sai
vai morrer semamarninguém".Narcisismoé, pois, como aqui o estamosconsideran-
do, esta impossibilidadede sair de dentro de si para a interaçãocom o Outro, esteja
esseOutro externalizadono seu mundo de relaçõespessoaisou intemalizado sob a
forma de representaçõesde objetosafetivos no aparelhopsíquico.
O narcisismo seria, então, a expressãoda libido represadae que no contexto
grupal se evidencia por uma menor disponibilidade às interaçõesafetivas e a uma
menor consideraçãopelos direitos alheios, alimentando,dessaforma, os processos
obstrutivospelo estancamentoda cooperaçãogrupal indispensávelà consecuçãoda
tarefa a que o grupo se propõe, seja qual for esta.Por outro lado, a libido represada
impedea admiração,porqueestaimplica o reconhecimentodo valor alheio. Destarte,
as posturasnarcísicasensejama eclosãode sentimentosinvejosos.
A inveja lançasuasraízesno soloque lhe é propício,o narcisismo,medraregada
pela hostilidadee se espalha,qual erva daninha,no pasto da mediocridade.Outros-
sim, a inveja articula-secom o instinto de morte por ser um sentimentoparalisante,
impeditivo do progressode quem o albergae que o deixa à margemdos movimentos
evolutivos de qualquergrupo do qual participe,aosquais irá sabotar,pois a emergên-
cia da criatividade grupal exarcerbao mal-estardo indivíduo invejosoque, via de
regÍa,pertenceà parcelamenostalentosaou criativa dos gruposou instituições.Como
sóiacontecerqueo invejosonãotenhaconsciênciada pr6priainveja(porque lo é
precisoteracessoaoprocessocriativoa quechamamoslnsrgftle esteestá
do pela açãodeletéria do instinto de morte enquantoagentebloqueador do
ou evolução)põe-seelea atacarosmovimentosconstrutivosdo
gmpo,i aspráticassabotadorasdastransformaçõescriativas.
Outrossentimentosou emoçõeshumanascomparecemcausam
na malhainterativadosprocessosgrupais,gerandoou exarceúando
que

obstrutivosa seufuncionamentoEntre.tantos deixaremosdemencionar tir


paranãoexcederos limitesconvenientesaestaexposição,destacaremo
relevânciapara o tema em pauta, a arrogância(outro subprodutonarcísic
contrapartida,servilismointeresseiro,umaformade mimetismocomasopi
intençõesdasliderançasgrupaise queconsisteemabrir-semãodadignidade
paraa obtençãodasbenessesdo podercirculanteno gmpoe aoqualo
postul sesupõecapazde ter acesso nãoser peloexpedienteda bajulação.
Taiscondutas,decorrentesquerda arrogânciade quemnarcisicâmen
bui um valorquenãoteme desqualificao méritoalheio,querdo peleguismod
se humilha para contemplar seu triunfo narcísicoespelhadono Outro, têm
estagnantessobrea evoluçãodo processogrupale, conseqüentemente,pod
arroladascomoelementosobstrutivosdossistemassociais.
hipocrisiaéoutroagenteobstrutivogrupalquenãopodemosdeixarde
nar.Comosugeremsuasraízesetimológicas,éa hipocrisiao redutodasatitu
subvertema mudançasocialpor manterabaixodo nível crítico(hipo-crisis)a
cia dosaspectosconflitivosinerentesa qualqueragnrpamentohumano.
Ao impedir-se,pelaviacínicaouintermediaçãohipócrita,quevenhamà
sentimentosconflitantes,tamponam-seartificialmenteascrisesinstitucionai
tam-seasiniciativaspaÍapromoverasmudançascapazesde assegurar de
dosprocessosgrupaise, conseqüentemente,amanutençãoda saúde
Recorde-se, en passanl, que a expressãocrise (do grego kri.ris - ato ou fa
de de distinguir, escolher,decidire ./ouresolver),como lembra Erikson (1968) não
padeceem nossosdias do significado de catástrofeiminente que em certo
chegoua constituir-seem obstáculoà compreensãodo real significadodo
Atualmente,aceita-sequecrisedesignaum pontoconjunturalnecessárioao
vimentotantodosindivíduoscomodesuasinstituiçõesAs. crisesmobilizam
riênciasacumuladase ensejamumamelhor(re-)definiçãode objetivospes
coletivos.
Todoe qualquersistemasocialé uma caixade ressonânciaque ampl
emoçõeshumanase asreverberana tramainterpessoalquelhe servede sust
Como,então,apresentam-seinteragern,na práxis societária,grupalou institu
elementoscomoos mencionadosinstintode morte,narcisismo,buscae man de
estadosdepoder,inveja,anogância,servilismo,hipocrisiae outrostanto
sugeridose não explicitamentemencionadosno texto? E como se exterioriz
processosobstrutivos?
Vamosnosvalera seguirde uma situaçãofictíciaquenospermita,atr
ilustração,preencheraslacunasda digressãoteórica.Apenasdescreveremo da
situação,deixandoaosleitoresa tarefade correlacioná-lacom osconteúd
osquaisestivemosa dissertaratéagora.
Imaginemosque estamosreunidosnum grupo informal pzrÍaestudÍtÍos
sosobstrutivosnasinstituiçõessociaisem geral.A motivaçãoquenosaproxi
curiosidadecompartidasobreessesfenômenos o desejode compreend
Ë- maiorprofundidadeTambém.compartilhamosconvicçãodequeé numgrupomu
z- tidisciplinarquemaiorproveitoadviránossointercâmbiode idéias.
rto Eis quandoalguémrepentinamentepropõe:" - E sefundássemosuma socie de
do paraestudaros processosobstrutivosnossistemassociaise pudéssemosatrav
delaveicularnossacontribuiçãoa tãorelevantequestãonosdiasqueconem?Ponh medesdejáà
ias disposiçãodo grupoparatomarasprimeirasprovidênciascabíveis"( proponentetrai
les assimseuinefreávelanseiode liderartal sociedadeAto.) contín outromembrodo
cu- grupo,salientandosuapréviaexperiênciacomocomunicador,s gereumasiglaparaa
ma nascenteinstituição:" - Chamemo-laSPEPOS(Sociedadepa o
a EstudodosProcessosObstrutivosSociais)",aoqueum terceiro,vocacionadopra
s e maticamentepara a codificaçãoinformática,contrapõe:" - Muito exten
oal Condensemo-paralaSPOSE. suficienteparaidentificá-lae soamelhor".
trão Entrementes,outroaspiranteà liderançado gruposugerequesecogitemnom
paracompora diretoria,e vai logo indicandodoisou trêsparacargosde secretií
úri- tesoureiro relaçõespúblicas,deixandoestrategicamentevacanteo de preside logo
EM preenchidocom seupróprionomepor propostado secretáriorecém-indica
itos antigocompanheirode lutaspolíticasnoutrosanaiais.O tesoureiro,confirmand
Lsef acertoda proposiçãode seunomeparao caÍgo,vai logo calculandoe sugerind
valordeumacontribuiçãoinicial paraossóciose ...pronto!Lá sefoi por águaabai
piG objetivooriginaldo grupo,carregadopelo desejocoletivode abrir espaçopar
que exercíciodosjogosde poder,a serviçodosnúcleosnarcísicosde cadaumdosco
gên- ponentesE. nãohá comoa promessadeum cargodiretivoparaacionarasvaida
circulantes preencheras valênciasnarcísicassempredisponíveisparauma no
EìOS tentativade resgatedo estadoonipotenteoriginal.
bor- O grupoinstitucionalpassa ser,então,o continentepropícioa estabuscairr
úda- freávelderestauraçãodo poderoriginalperdidoe que,noregistroexistencialdeca um
tnal. deseusmembros,jaz no passadoarcaicoqueremontaaoestadodeindiferencia inicial
úda- do bebê,ondeimperasoberanacondiçãonarcísicaprimordial,quenãorec nhecea
ique existênciado outroporqueissoimplicarevelara si própriosuafragilidad
Ento incompletude.
Abstraindo-seo carátercaricaturaldo exemploproposto,pode-seimaginarm lhor
rmo. pa
caldodeculturado quea institucionalizaçãodeum grupocomofoi descrito
rvol-
xpe- florescimentoda inveja,da arrogância,do mimetismoservilista,da hipocrisiaac
modatícia,dadesqualificaçãodo valoralheioe outrostantoselementospemicios
is ou integidadee ao progressode um sistemasocial?Sãoessesalgunsdosmecanis
obstrutivosque sabotam crescimentode um grupoe erosamseusobjetivosori
;a as
rção. nais,trazendocomoconseqüênciainérciae a estagnaçãoqueidentificama pres ça
onal, do instintode morte,na acepçãoem queo consideramos.
nção Sequisermoscorrelacionartaiseventoscom a teoriapsicanalíticadosgrup
,enas conformeenunciadapor Bion (1961),poderíamosacrescentar,estaaltura,que
nem processosobstrutivosseinstalamna vigênciadossupostosbásicosde dependên
iuta-e-fugae acasalamentomessiânico;ou seja,um grupodeixade cumprir se
és da objetivose apresentaum movimentodedetençãoevolutivaou
rludi- regressãosempreq abandona condiçãode grupodetrabalhoparatomar-seum
sobre grupode supostosbá cos,segundoa terminologiabioniana.
Umaúltimareflexãoà guisade conclusão:
0ces- Quandoum grupoinstitucionaliza-seaserviçodo podere do culto ao narci mo de
ouéa per
seusmembrose desvia-sede seusobjetivosoriginais,eleesclerosa-se,
)s em vitalidade,e,mesmoquenãovenhaa seaniquilare desaparecerpor inteiro,sofreu
lento,insidiosoe gradativoprocessodedegradação'Seesteprocessode institucio
Então- aÌguémpoderáindagar-se,fazcndoulnaleituraparcializadaou eq
cadado queestoudizendo- todo o processode institucionalizaçãoónocivo?
Obviamente,não.A instituição sejaelaa família,o clubeesportivo,o pa
políticoou a sociedadecientífica- é o arcabouço, esqueÌetodo corposociet
que o sustentac possibilitasuaestruturaçãoSem. dúvida,contudo,a instit
sofreum inevitávelprocessode pauliìtinaarÌtodestnÌiçãonamedidaem quesea de
seusobjetivosprecípuosparaserviraosintcressesnarcísicosde seusmembr
serestringea opcrarcomo meroinstrumentoparao exercíciodopoder.
A aceitaçãoda premissade queos gÌxpos,como os indivíduos,sãolimita
finitose quenão podemsujeitar-sea sacrificarsuasfinalidadesespccíficaspara
der às demandasnarcísicasde seuscomponentes à suaaspiraçãode resgat
poderilusórioé condítìosürcquír/ralÌpariìqueseatenuemos pÍoccssosobstr
quepossamvir a ameaçar sobrevivônciaoperativade qualquergrupo,instituiç
sistemasocial.
Em outraspalavras,nãosãoasideologias simos indivíduosquefracass
suastentativasde construirum mundomelhor,porquena suapri'txisinstitucion
mundonãoultrapassar fronteirasde seusprópriosegos.
PensoqueadquirirrnslgÀtdessesmccanismosobstrutivosvinculadosà bu
manutençãode estadosde podera serviçode pressupostosnaÍcísicosquesola
funcionamentodasinstituiçõeshumanase âmeâçamsuacontinuidade existê de
sumaimpoíânciaparatodosnósquctrabalhamoscomgrupos.E precisoiden
losconetae precocementepara,então,podermosintroduzirasmudançasneces
remoçãodospontosde estrangulamcÌ'Ìtoqueimpedemo fluxo criativodospr sos
grupais.Sem isso,os sistemassociaistornam-seantioperativos contri parao
mal-estarexistencialdosquenelesconvivem.

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Grupos
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vos
,ou

Lem válido partir do princípiode que, virtualmente,a essáncrados fenômenosgrupa a


este mesmaem qualquertipo de grupo, e o que determinaóbvias diferenças entre
distintos gruposé a finalidade para a qual eles foram criadose compostos. Assim,
cae em algumascircunstâncias,os fenômenospsíquicosde um campogru
mo estãoem estadolatente,subjacente,e, em outrassituações,é inerenteà naturez
grupo em questãoque haja a emergênciade ansiedades,resistências,transferênc
[ca- etc.,e que asmesmaspossamserinterpretadas trabalhadasConforme.fora finalid
lnas precípuado grupo, diferente também seráa camadadas pessoasque o compõe
ces- naturezadascombinaçõesdosetting,o esquemareferencialteóricoadotadoe o pro
uem dimento técnicoempregado.
amplo o lequede aplicaçõesda dinârnicagrupal,vastaa possibilidadede fa
arranjoscombinatórioscriativosentreos seusrecursostécnicose táticos,e, igualm
te, há uma certa confusãosemânticana áreada grupalidade;portânto,denomina
diferentespodemestardesignandoum mesmotipo de atividadegrupale, em contra
tida, uma mesmadenominaçãopode estarreferindodistintasaplicaçõespráticas.
dos essesfatos, acrescidosde tantasoutrasvariáveisfáceis de seremimaginadas
dem geraruma confusãoconceitual,inclusivecom um prejuízona comunicaçãorel
t976. va ao necessáriointercâmbiode experiências idéiasentreos diferentesprofission
Paraatenuaresseestadode coisas,impõe-sea necessidadede uma classifica
rmpo das distintas e múltiplas modalidadesde grupos.Como não tenho conheciment
nenhumaclassificaçãomais abrangentee que sejade utilização consensual,vou
permitir propor um modelo classificatóriodas modalidadesgrupais,com a evide
ressalvade que não há a pretensãode que ela sejacompleta ou rigorosamentece Da
mesmaforma que qualqueroutro intento de classificação,também este pod partir de
muitos pontos de vista, como, por exemplo: a possibilidadede toma
vertentesteóricascomo baseparauma classificação;o tipo de serllngque foi insti do e
que presideo grupo (grupos homogêneos,grupos abertose fechados,etc. finalidade
a ser alcançada;o tipo das pessoascomponentes;â área em que o gÍ está sendo
aplicado; o tipo de vínculo estabelecidocom o coordenador;o tipo técnica
empregada,e assimpor diante.
A classificaçãoque aqui estásendopropostasefundamentano critério dastna
dcdesa que sedestinao grupo, e ela partede uma divisão genéricanos dois
segui grandesramos: operalivos e psicotertipìcos.
informaçãosumaríssima,fim de situaro leitorno contextogeral,vistoqueto
modalidadesgrupaisa seguirmencionadasserãoobjeto,separadamente,decap
específicos,por partede colegasespecialistasnasrespectivasáreas.

GRUPOSOPERATIVOS
"gl'upo
opcrativo"e ó tão cxte
E tão ablangente conceituaçiroda expressão
gamade suasapÌicaçõcspráticls,que muitospreferemconsiderá-loscomo s
genericamentc,um continentedc todosos demaisgrupos,inclusiveos terapê
mesmoos especificamcntepsicanaÌíticosA. conceituação, divulgaçãoe a a
ção dos gruposoperativosdevenrmuito ao psiclnalistaargentinoPichon Ri
que,desde1945,introduziu-osc os sisteÌnatizouEsse.autorconstruiuo seu"e
ial 'considcrandoumasériede fatores,tantoco ma conceitualreferenc operativo

entescomoinconscientcsque.regema dinâmicade qualquercampogrupal,e q


manifcstamnastrêsáre.rs:mentc.aorDoc mundoexterior.
útil enÍììtizarquc u ativi.l.tdedó coordenrtìordosgruposopcrativosdev
centralizadaunicamentena tarefapropostasendo.que,somentenassituações
osfatoresinconscìen1Èsinter-rclrcionaisameaçarem intcgraçãoou evoluçãoex
do grupo,é quc caberloeventLriÌisintcrvençõesde ordenrinterpretâtiva,por
dirigidrsao plrrrtodo ìncon . cicrlt .
Em linhasgerais,os gnÌposoperativospropriamenteditoscobremos seg
quatro càmpos: ettsíno<tprentlizugent,ittslitttciortois,conruníttiriose terapêut

Ensino-aprendizagem,A ideologiafundamentaldestetipo de gÍupoé a d


essencialé "aprenderaprendcr", que"mais importantedo queenchera cab
conheciÌnentoséformarcabeças"Incontáveis.sãoasmodalidadesde aplicaç
gruposoperativos,sendoque muitasvezes,sob múÌtipÌasdenominaçõesdis
elesdesignamum funcionamentosimilar.
Especificamentecm relaçãoà tarefade aprendizageme treinamento,sãocon
dos os gruposT (truíníng-groups);os gruposF (essaletraé a inicial de free
fonnatiort,o que diz tudo acercada característicade taisgmpos);os gruposB (nomede
um renomadopsicanalistainglêsque realizavauma atividadesiste
com gruposde médicosnão-psiquiatras,visandoa dar-lhescondiçõesde desen
rem uÌnaatitudeemocionalempáticaparaqueelcspudessemexerceruma açã
coterápicâcom os seuspacientesclínicos);e entreoutrosmais,os"gruposde
xão", os quais,por suacrescenterelevância,serãoobjetode um capítuloespe

Institucionais,Cadavezmaisestaatividadeoperâtivaestá sendoutiliza
instituiçõesem geral.Assim,asescoÌâsestãopromovendoreuniõesquecong
pais,mestres alunoscom vistasa debaterem encontraÍemuma ideologiaco
parauma adequadaformaçãohumaníslicaO. mesmopode acontecernas div
associaçõesdc classe,como,por exemplo,nossindicatos,na igreja,no exércit
empresasEspecialmente,.estasúltimasestãomontandoserviçosdirigidospor ps
gos organizacionais,que sedestinama rìumentaro rendimentodeproduçãode
emprcsa,investindono pessoaÌda mesma,atrâ\,ésdegruposoperativoscentra
tarefade obtencãode um clima de harmoniaentreos seusdiversosescalões.
Comunitários. O melhor exemplodestetipo de grupo é o de sua crescente
aplicaçãoem programasvoltadospara a saúdemental. Partindo da definição que a
OMS deu à saúdecomo sendoa de "um completobem-estarfísico,psíquicoe soci-al",
ê fâcil entenderporque as técnicâs grupaisencontram(ou deveriam encontrar) uma
amplaáreade utilização,sobretudoem comunidadessociaisPode.servircomo
modelodissoo trabalhocom gruposque,há muitosanos,vem sendoaplicadona Vila
SãoJosé do Murialdo,em PortoAlegre,RS, comunidadecom uma populaçãoem torno
de 30.000habitantes,que se beneficiacom a utilizaçãode diversostìposde grupos- por
exemplo,os realizadoscom gestantes,crianças,pais,adolescentessadi-os,
líderesnaturaisda comunidade,etc.
Técnicosde distintas áreasde especialização(além de psiquiatras,também ou-
trosmédicosnão-psiquiatras,psicólogos,assistentessociais,enfermeiros,sanitaris-
tas,etc.) podem,com relativafacilidade,serbem treinadosparaessaimportantetare-fa
de integração de incentivoàscapacidadespositivas,desdequeelesfiquemuni-
camentecentradosna tarefapropostae conheçamos seusrespectivoslimites.

Terapêuticos.Tal como a denominaçãoindica,os gruposoperativosterapêutìcos


visamfundamentalmenteumameÌhoriade aÌgumasituaçãodepatologiadosindivÊ
duos,quersejaestritamenteno plânoda saúdeorgânica,querno do psiquismo,ou em
ambosao mesmotempo.
forma mais utilizadadestamodalidadegrupalé conhecidasob o nome de
gruposde auto-ajudae ela consisteno fato de comumenteser um grupo de formação
espontâneaentre pessoasque se sentemidentificadaspor algumascaracteísticas
semelhantesentresi, e seunificamquandosedãocontaquetêm condiçõesde ajuda-rem
reciprocamenteOutras.vezes,estesgrupos se formam a partir do estímulo inte-
gradorde algumprofissionalquecoordenao grupoaté queestesintater chegadoo
momentocertode caminharsozinho,entãoo profissionalseafastadefinitiva ou transi-
toriamente,mantendo-sedisponívelparao grupoqueeleajudoua formar.Podemos
citarcomoexemploa disseminaçãode gruposque,na maioriadasvezes,formam-se
espontaneamenteque são conhecidossob o rótulo de "Anônimos" (AÌcoólicos,
Fumantes,Neuróticos,etc.)
A utilização terapêuticado grupo de auto-ajuda,o qual também começa a ser
conhecidocomÕ "grupo de mútua ajuda", mereceser destacadatanto pela razãode
suaindiscutíveleficáciacomo também pelo largo âmbito das áreasbeneficiadas
pelasuaincrívelexpansão,muito particularmenteno campoda medicinaOs. grupos de
auto-ajudasão,portanto,compostospor pessoasportadorasde umamesmacate-goria
de prejuízose de necessidades que,de uma forma geral,podem serenquadra-dos nos
seguintesseistipos: Adictos (tabagistas,obesos,drogadictos,aÌcoólicos,
etc.),cuidadosprimáriosde saúde(programaspreventivosde saúde,comoum supor-te
parapacienteshìpertensos,diabéticos,reumáticos,etc.),reabilitação(infartados,
colostomizados,espancados,mutilados,etc.),sobrevivênciasocial(estigmatizados,
como os homossexuais,os portadoresdc defeitosfísicos,etc.),suporte(pacientes
crônicos,físicosou psíquicos,pacientesterminais,etc.),problemassexuaise conju-
gais(maisutilizadosnosEstadosUnidos).
Cadaum dessesseissubgrupospcrmitenovasramificações, dai é fácil con-cluir o
númeroquaseinfinito de possíveismodalidadesgrupaisdessanaturezâe, portanto,do
extensonúmerode pessoirsquepodeseratingido.E necessárioenfatizar,
entretanto,queessasmúltiplase distintasramificaçõesde gruposoperativos,naprática,
não são perfeitamentedelimitadas;aÌltes,elasmuitasvezesse interpõem,compÌe-
78 ZIMERMAN&osoRlo

mentam-see se confundem.Por exemplo: os gÍïposoperativoscostumam


um benefíciopsicoteriípicoe, da mesmaforma, os grupos psicoter,'ápicosse
do esquemareferencialoperativo.

GRUPOSPSICOTERAPICOS
Embora, como anteriormenteexplicado,os gÌuposoperativostambém tenham
indiscutívelaçãopsicoterápica,éútil reservar terminologiade"grupopsicoter
estritamentepara aquelasformas de psicoterapiasque sedestinamprioritariam
aquisiçãode insight, notadamente,dos aspectosinconscientesdos indivíduo
totalidadegrupal.
Não há um específicoe acabadocorpo teórico-técnicoque dê uma
sólida mentaçãoa todas as formas de grupoterapiasEnquanto.isso, elas vão
se de outrasfontes,das quaismerecemum registroà parte as quatro a seguir
a p sicodranuitica,a da teorin sistêmica,a da corrente
e, naturalmente,a de inspiração psicanalítica. Alémdessas,deve ser incluíd
grupoterapiade abordagemmúltipla holística, a qual consisteno emprego de
certa combinaçãodas anteriores.

Psicodramática. A corrente Dsicodramáticavem sanhandoum espaçoem


nossomeio. Criado por J. Moreno, na décadade 30, o psicodrama conservao
mesmoeixo fundamentalconstituídopelosseiselementosa seguir: rio,
protagonista,diretor, ego auxiliar, públíco e a cenaa ser apresentada.
A dramatizaçãopodepropiciarareconstituiçãodos primitivos estágios
do indivíduo. Assim, umaprimeira etapada dramatizaçáo(técnica da dupla) vi
reconhecimentoda indiferenciaçãoentre o "eu" e o "outro". Numa segunda
(técnica do espelho), o protagonistasai do palco e, a partir do público, ass
representaçãoqueuma outrapessoa,no papelde ego auxiliar, faz dele,e isso
lita que ele reconheçaa si próprio, assim como na infância ele percorreufase
reconhecera suaimagemno espelho.A terceiraetapa(técnicada inversãode
vai permitir que o sujeito possacolocar-seno lugar do outro, então desenvol
assimo sentimentode consideraçãopelosdemaisDeve.ficar claroque,no cu
tratamento,essasetapasnão sãoestanquesTambém.é útil que fique clara a
entre"psicodrama",tal comofoi antesresumido, o empregode
"dramatizaç quaispodemsereventualmênteutilizadascomoum
recursoauxiliar,no decu outÍasformasgrupotenápicas.

TeoriasistêmicaOs. praticantesdessacorrentepartemdo princípiode q


grupos funcionam como um sistema,ou seja,que há uma constanteinteração,
plementaçãoe suplementaçãodos distintos papéis que foram atribuídos e que
um de seus componentesdesempenhaAssim,. um sistema se comporta com
conjunto integrado,ondequalquermodificaçãode um de seuselementos mente
irá afetaros demais e o sistemacomo um todo.
terapiade família tem apresentadouma relevanteexpansãoem nosso
sendoque,fundamentalmente,seusreferenciaisespecíficossãoalicerçadosna
sistêmicaNo. entanto,issonão impedeque muitosterapeutasde família
utilizem o respaldooferecidopelosconhecimentospsicanalíticos,assimcomo
prego intercalado de técnicas de dramatizaçáo.
Cognitivo-comportamentalEssa.correntefundamenta-seno postuladodeque
todoindivíduoé um organismoprocessadorde informações,recebendoestímulos
dados,e gerandoapreciaçõesTrata.-sede uma teoriade aprendizagemsocial,na
qual,sobretudo,sãovalorizadasasexpectativasqueo sujeitosesintanaobrigaçãode
cumprir,a qualificaçãode seusvalores,assignificaçõesqueeleempresta seusatos
e crenças,bemcomoa suaformade adaptaçãoàculturavigente.
tratamentopreconizadopelosseguidoresda correntecomportamentalista
(behavioristas)partedo fatodeháumanecessidadeumaclaracogniçãodosaspec-
tosantesreferidose, a partirdaí,a técnicaterapêuticavisaa trêsobjetivosprincipais:
:umareeducação- em nível consciente-dasconcepçõeserrôneas,um treinamento
dehabilidadeicomportamentaisumamodificaçõono estilode viver'Éumatécnica
queestásendobastanteutilizadano tratamentodedrogadictosemgeral,ou noscasos de
adicçãosemdrogas,comoé, por exemplo,o tratamentoem grupocom obesos.
Nessescasos,é de fundamentalimportânciaquehajao desenvolvimentofunções do
egoconsciente,taiscomoa deantecipar,prevenir,modificar,alémde lidarcomas
situaçõesqueimplicamriscode reincidência.

PsicanalíticaA. conentepsicanalítica,porsuavez,abrigamuitasescolas:freu-
diana,teóricosdasrelaçõesobjetais(inspiradosprincipalmenteemM. Klein, Bion e
Winnicott),psicologiadoego(Hartmann,M . Mahler,etc.),psicologiadosef(Kohut),
estruturalista(Lacan,entreoutros)No. entanto,apesardaóbvia(e sadia)divergência na
conceituaçãoda gênesee do funcionamentodo psiquismo,e da fundamentação
dospostuladosdametapsicologia,teoria,técnicaepráticadapsicanálise,essasdiferen-
tesescolasconvergemno quehá de essencialrelativamenteaosfenômenosprovin-
dosde um inconscientedinâmico.
Particularmenteem relaçãoàs grupoterapiaspsicanalíticas,não há um único
referencialteórico{écnico,o importanteé queo grupoterapeutatenhaumaformação
psicanalítica,depreferênciade naturezamúltipla,isto é, de conhecermuito bemos
fundamentosbásicosdetodasasescolas,e, a partirdaí,construiro seuestilopróprio
autênticode trabalharpsicanaliticamente,fazendoas necessáriasadaptaçõesàs
peculiaridadesdo campogrupal,com assuasleis dinâmicasespecíficas.
O fato de queo grupoterapeutatrabalhecomum referencialde fundamentação
psicanalíticanãosignificaqueeledeverávisar,sempre,a um objetivorigorosamente
psicanalítico,no sentidorestritodessetermo.Assim,da mesmaforma como nas
psicoterapiasindividuais,tambémasgrupoterapiaspodemfuncionarporum período
de tempolongoou cuÍo, podemter umafinalidadeprecípuade lnsigÀrdestinado
mudançascaracterológicas,oupodemselimitarabenefíciosterapêuticosmenospre-
tenciosos,com a simplesremoçãode sintomas,alívio de angistiasouresoluçãode
crises.Além disso,essasgrupoterapiastambémpodemlimitar-seà buscaúnica de
umamelhoradaptabilidadenasinter-relaçõesfamiliares,profissionaise sociais,ou
podemobjetivara manutençãodeum estadodeequilíbriopsíquico(como,por exem-
plo,compsicóticosegressos),ou ainda,a de despeÍarasocultascapacidadespositi-
vas(comono casode gruposcom pacientesborderline,depressivos), assimpor
diante.
Um exemplodecomoo referencialpsicanalíticopodeestender-seaoutrasaplica-
çõesgrupaisquenãosomenteasdo clássicosztlingcompacientesneuróticosconsis-te
no empregoda"psicanálisedasconfiguraçõesvinculares",que,alémdosgrupose
instituições,encontraa suagrandeimportânciano atendimento casaise a grupos
familiares.
80 . zr,rmuer a oso*to

Todasasaltemativasatéaqui levantadasrequeremuma variabilidaded


dres,comoseráexpostoao longodo livro, inclusivecomum capítulodedic
cialmente à prática com grupoterapiapsicanalíticapropriamentedita, dir
insifl, com o propósitoprecípuode obtençãode mudançascaracterológic

ESTADO ATUAL DAS DIVERSASFORMAS DE GRUPOS


Seguindo esquemadeclassificaçãopropostonestecapítulo,pode-
sediz atualpanoramaéo seguinte:
Osgruposoperativos- como,por exemplo,os "gruposde reflexão"-
áreade ensino-aprendizagemcomonasdiversasinstituições,em distintasá
manísticas,emprogramascomunitáriosde saúdemental,etc.,têm mostra
crescimentovisível,emborapareçaqueaindaestãomuitoaquémdo quepo
deveriamestar.Cabeum registroespecialaosgruposde auto-ajudae mútu
poiselesvêmrevelando,nosúltimosanos,umanotávelexpansão inques
benefícios,sobretudoem inúmerasaplicaçõesna áreada medicina, como sã
poshomogêneosrealizadoscompacientesdiabéticos,hipertensos,aidéticosr
cos, colostomizados,pós-infartados,mastectomizados,deficientesffsicos,
um leoue ürtualmente sem fim de benefíciosteraoêuticos.
Em relação às gnrpoterapias,constata-seum significativo desenvolv
uma progressiva demanda de áreas como a de casais e a de família, o em
técnicaspsicodramáticas,grupos com psicóticos egressos,diversostipos d
homogêneos(com pacientesdepressivos,borderline,drogadictos,transt
mentares,etc.). àsgrupanálises,emnossomeiopelomenos,apóso i Quanto
suaaplicaçãona décadade 50 e o seu vigorosocrescimentona
décadad décadasde 70 e 80forammarcadaspor um
progressivodeclínio, a de 90 a estáclaramentedefinida.
À guisade conclusãofinal destecapítulo,cabemalgumassugestões
. Em atençãoàs peculiaridadesde um paíspobree populosocomoé o
utilizaçãodo recursogrupoterápicotemtudoparaserumaalternativade
perspectivas,até agoranão suficientementeexploradasO. aproveita
serviçosjá existentes,ou a criaçãode clínicasde grupoterapiaparape
médiae baixarenda,atenderia umainquestionávelnecessidade
. As instituiçõesformadorasde profissionaisdaáreadasaúdebiopsicosso
osmédicosem geral,psiquiatrasemespecial,psicólogos,assistentessoc
po de enfermagem,deveriamdedicarum maior espaçoao ensinoda dinâ
gmpo,inclusivecomumaeventualutilizaçãodetécnicasgrupaisdeensi
damentenos primeirosanosde formaçãoprofissionâ|.
. continuidadena promoçãode encontrosentretodosostécnicos,muit
anônimos,das mais diferentesáreasde especializaçãoque, de uma f
outÍa, estão empregando algum recurso de atividade gnrpal, em seus
camposprofissionais.Não restaa menor dúvida quantoà importância- c
ponto de partida,para uma necessáriaintegração- de se saberquem é q
que cadaum pensa,faz, por que e como faz, etc.

Finalmente,deve-
sedartodoapoioaosinstitutosformadoresde
de grupose àsentidadesrepresentativas,em suastarefasde,entreoutras,
cursos,programas,jomadas,algumasformasde intercâmbiode experiên
quisae produçãode trabalhoscientíficos,estímuloaoestabelecimentodeconv
com órgãosestataisde assistênciamédica,empresas,sindicatos,instituiçõesd
saio,entidadescongêneresaessase, sobretudo,promoveralgumaformaconsi de
diwlgaçãoe esclarecimentoao grandepúblico.

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Como Supervisionamos
Grupoterapia
LUIZ CARLOSOSORIO

ensinosoba formade trabalhosupervisionadoét^lveza mais antigaform


transmissãodeconhecimentosEmbora,.comum poucodeimaginação,sejapo
situarseusurgimentono estágiotribal do processocivilizatório- ondeos ma
lhos "supervisionam"os maisjovensna aprendizagemde formasrudimenta
sobrevivênciaatravésda caçâ,pescae obtençãode elementosnutritivosdo r
vegetal-, foi durantea IdadeMédiaquea supervisãoseinstitucionalizouatra
dinâmicapeculiarà relaçãodo mestre-de-ofícioeseusaprendizes.
No campodasciênciaspsicológicas,foi apsicanálisequeintroduziuemsuap
formativaa supervisãocomoum dos pilâÍesdo treinamentode novospsicanalis
Kusnetzoff(Groisman,1984),apósassinalar ausênciasignificativade
definiçãosobreo termo,na literaturasobresupervisão,define-acomo "um sis de
auditoria-assessoria,ondeum estudanteadquireashabilidades osconhec
tosnecessáriosparaum desempenhoadequadona tarefapsicotenápica".
Tendoa supervisãoda práticapsicoterápicaseoriginado- comose assi
antes- do modelode treinamentopsicanalítico,nãoseriade seestranharquee
apoiassena relaçãodual supervisor-supervisionadoprivilegiasseo relatov
dassessõesNo. entanto,em se tratantode grupos- como se verá adiante- ,
modeloobsolesceusetomouinsuficienteparaa desejáveltransmissãode con
mentos.
Como as distintastécnicasde supervisãoatualmenteempregadasem g
terapiasestãoestreitamentevinculadas suasmodalidades,elasserãoaprese
no contextode cadaumadessasmodalidades.

MODALIDADESDE ATENDIMENTOGRUPAL:SUASPECULIARIDA
CORRESPONDENTESTÉCNICASDE SUPERVISÃO
tarefaextremamentecomplexatentarqualquerformade sistematizaçãodasdi
tasmodalidadesde atendimentogrupal:orasepodereferilas às linhasteórica
lhesdãosustentação(psicanrílise,psicodrama,teoriadossistemas,teoriado c
grupal,teoriadacomunicaçãohumana),ora à faixaetáriaquetemcomoalvo(c

ças, adolescentes,idosos),ora ao tipo de pacientesem questão(paci


psicossomáticos,pacientesterminais,drogadictos,psicóticos),oraaocontextog
(casais,famílias,instituições),ora às dimensões do grupo (micro ou macrogr ora
aos objetivos a que se destinam(ensino,terapia,realizaçãode tarefasinstit nais), e
assimpor diante.Como se vê, nadafácil. Optou-se,então, por referir a
aquelasmodalidadesgrupaisem cujo contextosedesenvolveramos modeloso
(!as
nicasde supervisãoprevalentesnos dias atuaisno campô grupoterapiasem

Grupoterapia analítica
grupoterapiaanalítica é também referida como psicoterapiaanalítica de g
psicanálisede grupo, psicoterapiagrupal de orientaçãoanalítica.
Se nos ocupamosdela inicialmente,é porquecronologicamente psica foi
o primeiro marcoreferencialteóricoparao estudoe a compreensãodos agrup
tos humanos,visandoa instrumentarseuatendimento.Embora,a rìgor, opsico a
tenhaantecedidocomo método de abordagemgrupal, não a precedeucomo es
ra teórica a partir da qual se pudesseentenderos mecanismosgrupais e pres
uma açãopsicoterápicasobreos indivíduosquecompõemum grupo.
A grupoterapiaanalítica,introduzidaem nossomeio em meadosda déc 50,
experimentourápidaexpansãoem toda a AméricaLatina,a partir de se
irradiadorem BuenosAires,tendo,no entanto,apresentadoum acentuadode
nos aÌÌos70 - paraalguns,pela deserçãodos pioneirosem funçãodas press
instituiçãopsicanalíticacontraa psicoterapiacoletiva,soba alegaçãode quepsi
lise só é possívelnuma relaçãodual e, para outros,em decorrênciados sis
políticosautocráticosvigentesno continentesul-americanonôs anos60-70,
elesobviamenteantagonizandoquaisquermodalidadesde práticasgrupais,por
las fermentode atividadessubversivasSó. mais recentementea grupoterapiaa
ca voltoua representarumaalternativapsicoterápicade peso,no contextoglob
grupoterapiasem geral, mas já agora experimenÍadoum afastamentogradu
delineamentostécnicos originais, muito comprometidoscom a mera extrapo
dos eventos inerentesà relação dual do processoanalíticopara a situação g
Atualmente,a grupoterapiaanalíticavem incorporandoa sua prática e se dei
fecundar,em suasustentaçãoteórica,por elementosoriundosde outrasvertente
como a dinâmicade grupo,a teoriadosgruposoperativos, teoriada comun
humana,a teoria sistêmica,o psicodramae outras mais. Isso, ao que tudo in
deveráafetarsingularmentea práxis dasnovasgeraçõesde grupoterapeutasde l
gem psicanalíticae, conseqüentemente,a prática da supervisão,já não mais
apenascalcadano clássicomodelodo relato verbaldassessões,masenriquece
com a utilização do role-playÌng(contribuiçãodastécnicaspsicodramáticas),d
prego do espelhounidirecional e do vídeo(de uso correntenas supervisõesda
pias familiaressistêmicas)e da utilizaçãodo próprio gÍupoem supervisão
matriz do aprendizado(comonosgruposde reflexãosobrea tarefa,oriundosda p
com grupos operativos).
Como a imensamaioria, para não dizer a totalidade,dos que praticam a
g terapiaanalíticaem nossomeiopossuitreinamentoprévio em psicanáliseou ps
rapia analíticadegrupo',sua práxis clínicaé supervisionadasegundoos câno

'Estanão é, contudo, uma p€culiaridadede nossomeio. Foulkes (1972) assinalaque, num levnntamentoestatísticorealiz
AssociaçãoAmericaiâ de PsicoteÍâpiadc Crupo em 1961, 86% dos haviam sido previamente feinad
modalidâdesde âtendimenlo individual. Srupotcmpeu(âs
os), supervisãopsicanalítica,ondeo supervisionadotrazo relatoverbaldassessõ
cio- supervisordiscutecomele aspectosda compreensãodinâmicado grupo,da té
:nas empregada,do emprego adequaçãodasinterpretaçõesdo manejodossentim
Ìéc- transferenciais contratransferenciaisNão. existindoentrenós, até recente
:ral. umaformaçãosistematizadade psicoterapeutasdegrupo,o trabalhoassimsupe
onadoseconstituíanaquaseexclusivaformade transmissãode conhecimen
primeirageraçãodegrupoterapeutasanalíticos(décadasde50-60),comosóiac cer
com os pioneiros,foi de formaçãobasicamenteautodidática,emboraalgu
nhamrecebidotreinamentonão-sistematizadonoutroscentros(MaÍins, 198
segundageração(décadade 60-70),aindaquenaaquisiçãodosconhecimento cos
tpo,
continuasseem moldesautodidáticos,pôdeenriquecersuasvivênciasgm
sejacomopacientesdegruposanalíticosdecolegasdageraçãoprecedente,sejac
ilise
seussupervisionadosA .pardisso,a experiênciainstitucionalsubjacente seutr
len-
mentopsicoterápico,cadavez maisimpregnadapelastécnicasambientoter
Ììa
fomeceu-lhesubsídiosapreciáveisparaa familiarizaçãocom o atendimentodein
utu-
duosemgruposA. terceirageraçãoqueorasurge(décadade 80),alémdoselem de
ryor aprendizagemjá mencionados,passaa contarcoma possibilidadede sistem
seusconhecimentosteóricosenriquecerapráticasupervisionadacomoutrasmo
ide
dadesoriundasde distintosreferenciaisteóricos,conformesupracitado.
úlo
ínio Porrazõesquenãocabeaquidiscutit nãosetornouentrenós práticacorre a
exemplodo queocorreunoutroscentros- o empregodoobsenadordegrupoc
6da
umamodalidadedetreinamentoEmbora,.a rigor,nãosepossaconsideráJopro
má-
menteuma formade supervisãodo trabalhogrupal,poisseriao supervisor n
tÌìÍts
supervisionandoqueestariaatendendogÍupo, aprendizadoatendimentogr
rdos
atravésda práticadeobservar formacomoo grupoé conduzidoporum profiss
pc maisexperienteapresenta-se,porassimdizer,comoo "negativo"dasupervisãotr
[íri- cionale, portanto,ensejavivênciasqve, lato sezsu,permitemincluílo como
das
modalidadede supervisãoSupõe.-seque,pelocaráteranômalode semanterno po
dos
um membroinstitucionalizadocomo periféricoe não-paÍicipante,issocr
ção umadistorçãodadinâmicagrupalquetomabastantediscutívelo métodode apren
Pal. gemem questãoPara.alguns,sóa inclusãodo supervisionandocomoco-terap
ndo comdireitoimplícitoà iniciativana conduçãodo grupoe semdistingui-lofunci
tais mentedo supervisorperanteo grupo,permitirámanter-seo equilíbriohomeos
ção paraquedecorraprodutivamenteprocessogrupal.A co-terapia,aindaquele do-
k4 seem conta,no caso,a defasagemno nível de experiênciadoscoordena
ha- propiciaria,então,um veículomaisadequadoparaa aprendizagemsupervisio por
pra respeitar estruturafuncionaldo grupo.
>s€ supervisãoemgrupoterapiaanalíticapressupõe- a pardasdistintasman de
tÌF conduzi-la- queseiniciejá com a seleção o agrupamentodos pacientes vezquea
Ía- constituiçãodo grupoé momentocrucialparasuafuturaviabilizaçãoc
tÌto adequadocontinentepsicotenípicoHá. quemafiancequeem nenhumaoutrafas
ÌÍ:a processogmpala supervisãotenhapapeltão prepoderantedesempenharcomo
sesinstantespréviosaofuncionamentopropriâmenteditodo grupo,o quemetaf
Po- menteseexpressanesteaforismade Anthony(1968):"cadaterapeutatem o g
tre- quemerece"E. mister,então,selecionar agruparconvenientementeseusmem
rda respeitandonão só a compatibilidadedosindivíduosquedevemcompô-locom
idiossincrasiascontratransferenciaisdoterapeuta.
Parafinalizaressasconsideraçõessobrea supervisãoem grupoterapiaanal
ldâ consigne-seque,numavisãoprospectiva,estatarefaestácadavez maisimpreg dos
odD
modelosde supervisãoempregadosem outrasformasde atendimentogr
compreensão o manejodos grupos,masapenasinstrumentaa transmissãode con
cimentos,via utilizaçãode procedimentoscujaeficáciatenhasidocomprovada,so
tudo peladesmitificaçãoda figura do supervisorcomo agenteemissorde
conhecim tos e detentordo saberinstitucionalizadoparatrazê-loà
suarealdimensãode m catalisadordo processode auto-aprendizagem,pârtir da
experiênciaclínicaa desenvolvidapelo supervisionando.

Psicodrama
psicodrama,comoinstrumentopsicoterápico,desenvolveu-seapartirdo "teatr
espontaneidade"do sociodramamorenianosAlicerça.-sena "teoriadospapéis
seja,no conjuntode posiçõesimagináriasassumidaspeÌoindivíduo desde
primórdios,na relaçãocom os demars.
ParaMoreno( 1986),a psicoterapiagrupalé um métodoparatratâr,conscie
mente,e na fronteirade umaciônciaempírica,asrelaçõesinterpessoais os pro
maspsíquicosdosindivíduosde umgrupo.
O métodopsicodramáticoìJSa representaçãodramática(a cena)como ce de
suaabordagemdosconflitoshumanos,essarepresentaçãoune a ação à pala
privilegiandoa expressãocorporal,ao ladoda comunicaçãoverbaÌ.Daídecorre o
métodode supervisãopor excelêncìautilizadona formaçãoe no treinament que a
empregam- o role-pkrying consisteem procedimentosem que o relato ve da
supervisãoanalíticaé substituídopelaexperiênciarevivenciadado processo
coterápicoatravésdo "jogo de papéis".
Em queconsisteo role-playíng?
Muito sumarìamentediríamosqtl'eo role-pktying é um "como se" da se
psicoterápica,no qual,porexemplo,supervìsor supervisionando,assumìndoalt
damenteos papéisde terapeuta pacieÌ'ìte,possamjuntoscomporasváriasaltem
vas do processopsicoterápicoatravésdo revivenciarpsicodramáticode situa
oconidasna(s)sessão(ões)prévia(s)ou ensaiaros passosfìturosde sessõesvind
ras.Assim, nãos6 o role-playr)rgserviriaparapreencheras lacunascompreen do
materialde sessõesjáocorridas,comopossibilitaria antecipaçãoimaginária
eventospossíveisou prováveisno devirgrupal,ensejandoao supervisionandodo
nio dasansiedadesfrenteao novoe desconhecido,quetantasvezeso paralisaem
funçãopsicoterápica.
Ao dramatizarumasessãojá ocorrida,o role-playhgpermiteao supervisio do
revivenciá-la,experimentandodistintosângulosde (auto-)observaçãodo p que
desempenhou,bem como ampliar o enfoquecompreensivodo material aport
pelogrupo,atravésde suaobservaçãoespeculaqpelarotatividadede papéisiner à
próprianaturezadestatécnicade aprendizado.
Por outro lado, a representação,atravésdo "como se" dramático,de uma se
futura,oferece-lhea oportunidadede testarpreviamentesuasatitudese reaçõesfr te a
eventuaisemergentesgrupais,assimcomolhepermiteo confrontocom asvici tudes da
târefa, sem a sobrecargaansiogênicada realidadefactual
O caráterexperimentaldessamodalidadede supervisãoconfereìhe,analogicam
a funçãode retroaprendizagemquea pesquisaensejaa todae qualqueraçãoterapêu
E, portanto,um cadinhode nuancese possibilidadesda práticada supervisào.
O role-playing mostra-sede extremo valor no treinamentoprévio, ao iníci
trabalhopsicoterápicocom grupos;numacompitriìçãoquiçá um tanto inadequ
coMorR^BALH^Moscou cnuPos r

Itara dir-se-iaqueequivâleà realizaçãode condiçõessimuladasde práticascinÍrgic


)nhe- paciente.
tesde efetivá-lasem determinado
obre-
men-
mero Gruposoperativos
a ser
Os gruposoperativosforamintroduzidosna práxisgrupalpelopsicanalistaarg
PichonRivière,na suafamosa"experiênciaRosário",em 1957.Trata-se,sintetic
te, da inclusãodo vértice psicanalíticona leitura dosprocessosgrupais,feita ant
mentepor Kurt Lewin, no queseconvencionoudenominar"dinâmicados gru
ComoassinalaTubert-Oklander(1986),"grupooperarlvonão é um termo zável
tro da para se referir a uma técnicaespecíficade coordenaçãode grupos, nem tipo
s".ou determinadode grupo em função de seu objetivo,como poderiaser '
seus terapêutico','grupode aprendizagem'ou'grupode discussão',masserefere
forma de pensare operarem gÍÌpos quese pode aplìcar à coordenaçãode div
iente- tiposde grupos".
roble- Em nossomeio,institucionalizou-seumapríüicaequivocadade secontr
grltpo operativo ao analítìco,como sendoestetodo grupo manejadocom a té
ìentro instrumentalda interpretâçãodos conteúdosinconscientes,aqueleum grupo
üavra, ainda que empreguemoso referencialanalíticopara compreenderos fenômeno
re que nele ocorrem,não se utilizam interpretaçõesatnlíticas em seu manejo. Esta l
to dos equivocadados conceitosde grupo operotivo e analítico se deriva ou está a s
lerbal de uma compartimentzlïzaçíodopoder terapêúico: os gruposanalíticosseriam
,opsl- concepção,territóriode açãoexclusivados psicanalistas;todosos demaisg
coordenadospor não-psicanalistas,de acordocom estaóticadistorcida,cairi
vala comum dos gruposditos operativosDestarte,.só os psicanalistasdeter
;essão poderde realizaraçõespsicoterápicasem gÍuposcom o referencialpsican
Iema- circunscrevendo-seaaçãodos demaisà práticanos gruposoperativos,ente
:matl- assimcomonão-analíticos.
raçóes Como supracitado,tal concepçãoé errônea,poisjustamenteos gruposoper
ndou- se propõema vincular as noçõesoriundasda dinâmicados gruposao refer
nslvas psicanalíticoE,. conformesugerea observaçãode Tubert-Oklandertranscritaant
'iados mente,um grupo analíticoé um grupo operativoque sedestinaa tratar indivídu
domí- grupocom o referencialpsicanalíticoAlém. dos gruposoperativosterapêuticos,
m sua riam grupos operativosde aprendizagem,de reflexão sobreuma determinadat
grupal,de discussãode objetivosinstitucionais,e assimpor diante.
LO nAn - Feito esteesclarecimentoconceituaÌindispensável,face ao empregoinad
papel do da expressãogrupo opemtivo, vejamosqual sua contribuiçãopara a p
crtado supervlsora.
erente AindacitandoTubert-Oklander(1986):"Nos gruposoperativos, tarefain
exige que os membrosrealizemuma permanenteindagaçãodas operaçõesq
sessão realizamno seiodo grupo,em funçãoda relaçãocom a tarefaextema, vista
fren- organizadorado processogrupal". Esta atitudede "re-fletir(se)" sobrea experi
icissi- do própriogrupoenquantogrupoé o pontode partidadosassimchamadosgrup
reflexão, contnbuição da teoria e da técnicados grupos operativosà aprendiz
mente, supervisionadaem grupos.
êutica. Essesgrupos,ondeos supervisionandosutilizama própriaexperiênciad
ticiparcom membrosdeum grupodeensino-aprendizagemcomopartede seutr
cio do mento,derivam-sedoschamadosgruposT(traininggrorrps),introduzidosa pa
quada, 1949nos laboratóriossociaisde dinâmicade grupoinspiradosnasidéiasde L
Os grupos T -
groups), cujo objetivo primordial era adestrarpara a ação operativa e lassâram a õentrJizar
que próp
o aprendizadona indagaçãodo ocoÍreaos pantesenquantomembrosde um grupo
a per
de treinamento,revertendo ãdestramento,pois já não seriaum
ao pr
saberinstitucionalizadoexterno
fonte de aprèndizagem,mas, sim, os próprios fenômenos intragrupai partir da e em
grupal: o trein
dÌreçõoâ taÍefainerentea tal modalidade
tÉnninac onrnrìs
form
Na AmÈrica Larina,a primeìraexperiênciasistematizadacom tal
dizagemgrupal ocorreuem BuenosAires, a partir dos anos70, conforme um de
(
seusmentores,A . Dellarosa I 979).
Resumidamente,os gntpos tle reJlexãooporttnizam a aprendizage cas grupais
atravésdo própno grupo de aprendizadoinvolucrado na exp treiúmènto, de tal sorte
que a práxis supervisorainclua as vivências do com
nucleardo
seussupervisionados,destesentresi, como elemento
aprendizagem,

E miiter assinalarque,emborasejaobjetivodosgruposde reflexã patologiado


medi
processodetransmissão-aquisiçãodeconhecimentos, iaçao ãas
relaçõ
ansiedudesinerentesao pÍocessode aprendizageme às
qualquerutilizaçã
neieinvolucradas,estáinterditada,por óbviasrazões,
que se di
emergentenessesgrupospara assinalamentosou interpretações privada
dos participantes.
Os grupos de reflexão Íèmpor finalidade precípuadesenvolveras
dospartiõipántesde "pensar"o próprio grupoa partir de umaexperiênciac da
de apróndizagem,mantendo-se,contudo, uma cuidadosadiscrimin propost;
compreend
de utilizar os sentimentosemergentesno grupopara
nos grupais,simultaneamentedesenvolvendoas habilidadesde seusco qual-
seusmembros
queìoutra intençãode cunho psicoterápicodirigida a ção, ie*pre
que estiver presente,seja na mentedo(s) coordenador(es) ãemais
pãrticìpantes,seráentendidacomo uma interferênciaindesejáve prometé a
de apre
eficlência do grupo de reflexão enquantoinstrumento

Terapiado grupo familiar


familia
terapia do grupo familiar é também designadacomo terapia
família e gruPoteraPiafamiliar.
A teiapia do grupo familiar experimentou,nas últimas décadas,u fluxo, a partir
que fa
de suafundamentaçãona teoria sistêmica.Ainda a tenha sião
cor
anteriormenteabordadasegundoo referencialde outras cas, tais como a
a
psicanalíticae a comportamentalista,em verdadefoi sistêmicaa responsávelpor
às moder
sua definitiva incorporação psicoterípicasde maiorexpressão.
E em que consisteessaabordagemsistêmica?
pesquisas Batesone
A rupturaepistemológicaoconida a partirdas de res, no
chamadogrupo de Palo Alto, na décadade 50, nos EstadosUni uma
visualizad
mudançasubstancialno enfoquedas doençasmentais, entãonão màis
mas
como uma decorrênciados conflitos intrapsíquicos, dos indivíduosno
contextodo grupo familiar.
llfit/r: cibemética, teoriada comunicaçãohumanae a teoriageraldossistem os
trêsgrandesvérticesteóricosa partirdosquaissepassoua consìderar fun
ì'tr.i- mentodo psiquismohumanoem terÌnosinteracionais,não maisintrapsíqu
\J d . metáforacentral desteenfoqueé o registro da cnria negra dos sistemaseletrô
grup !i
"cérebro"
ondeo importantea considerarnão é o que estáno do sistema,ma
dos . ì seüsinputs e outpLús,o\ seja,as informaçõesaferentese eferentes.
lo em Ao considerar famíliacomoum sistema,o doentementaloupacienteide
cado(PI) passaa servisualizadocomoum emergenteou porta-vozda "doença"
ç:3:-- mica, o que muda o enfoquepsicoterâpicodo intrapsíquicoparao interacional,
nando-seaquelaquetalveztenhasidoa maiorrevoÌuçãonaabordagemdoscon
humanosdesdeo adventoda psicanálise.
Ao retirardo focodiagnósticoe terapêutico pacienteindividuale privile
estudode seugrupo de origem, a terapiafamiliar foi responsável,indiscutivelm
isor pelarevitalizaçãodo estudo,compreensão metodologiadasabordagenstera
sc d: casdosgruposem gerale, comonão poderiadeixaÍde ser,introduziunovase
lucionáriastécnicasde supervisão.
:om a uso do espelhounidirecional e do videoteipe,já empregadosanterior de
labo- forma tímida equaseclandestinana supervisãodas psicoterapias"clássica
ïmas institucionalizadoentre nós pela terapiafamiliar. A par do empregodos recurs
tinal modemâtecnologia,outrastécnicasauxiliaresforam sendoinseridas:o uso do i
L\ lda fone,permitindoa comunicaçãodiretado supervisorcom o supervisionadodur
própriasessão;a solicitaçãoda presençado supervisordurantea sessão,como
lades espéciede consultorativo;a eventualsubstituiçãodo terapeutapor seusupervi
tilha - conduçãode determinadasessão(ficando o supervisionandona salaou no outro
Luea do espelho,quandoissoocorrer);a ocorrênciade umainversãode papéis,funci
ôme- do ocasionalmente terapeutacomo "supervisor"de seu superviso(e assi
diante.
Dten- Todasessasvariantesdo modelode supervisáoalicerçadona práticada s
dos observadaao vivo e/ou gravadaem vídeo trouxeramuma mudançafundamen
:om- relaçãohierárquicasupervìsor-supervisionando,além de desmitificar a figura d
:m. rapeuta,outrora narcisicamenteentricheiradono segredoda prática de seu o
práticaessaagoraostensivamentereveladapelaobservaçãosimultânea,poden
passosdo terapeuta,suasinseguranças,titubeios,errosou acertos,seuestilo,e
revelar-sepor inteiroaosupervisor,do outrolâdodo espelhoou napantalhatelev
Com taisinovações,certasquestõeséticasforamsuscitadas,como a deco
:ade da necessidadede se apresentarà família o supervisore de notificá-la da pre
dos demais eventuaismembros do íeíÌr?psicoterápicopresentesno outro lad
in - espelho.
isae O sigilo profissional- que antes,quem sabe,serviamais aos propósit
.'on- protegero terapeuta,no expor seusequívocos,doque ao próprio pacienteem re
gem seusconflitos- precisouserrediscutidonestenovo contexto.
icas Podemosquestionar,aceitandoou não, tais modalidadesde supervisãointr
zida pela terapiafamiliar, masindubitavelmentenão podemosmaisdeixar de rec
cer sua vigência e a contemporaneidadede suaspropostâs.
ado- E possívelimaginar-seque,ao longodo tempo,o usodo espelhounidire e o
lsou emprego do videoteipe se generalizarãonas supervisõesde todas as form
rde psicoterapias,individuaisou grupais,e - heresiadasheresias!- na própriapr
rcão psicanalítica.
Infelizmente,a extensãoprevistapara estecapítulonãopermite que se vá

da simplesmençãodessasmodalidadesde supervisão,das quais são íntim
seucotidianoprofissional,os terapeutasde famíliase àsquaispoderã
demais,atravésda consultaà bibliografiaespecializada.

UMA EXPBRIÊT.ICU,PNSSOALNA SUPERVISÃODE


GRUPOTERAPEUTAS
Comoó deconhecimentogeraÌ, Íbrmaçãodegrupoterapeutasem noss
mentelevadaa cabo de forma não-sistematizadade cunho predo
autodidático,surgiuentre os psicanalistaslocaisque tambémse
grupoterapia,sejaem instituiçõcs,sejaem seusconsultóriosparticula
sãodos maisjovenspeloscolegasmaisexperientcs,segundoo mode
relatovisuaÌdas sessões,foi quiçíta pedrade toquedessesprimeiro
remontamà décadade 60.Desdeentão,com a paulatinadesativaçãoda
PsicoterapiaAnalítica de Grupo de Porto Alegre, entidadeque c
psicoterapeutasdegntpoemnosson]eio,a príticagnrpoterápicasuperv
cou-separaoutrasYertentesteóricns,taiscomoo psicodrama, anális
gestalterapiae, ÌÌìaisrecentementc,aterapiafamiliar.
Num esforçoparaÍesgatariì nratrizde origemda formaçãogrup nós, e
jovens
em funçãodc crescentessolicitaçõesdc colegasmaìs in príticr
comgrupos,criou-seuma entidade'destinada,entreoutroso senvolverum
nrodelode treinamentode novosgrupoterapeutasEste.mo no
tripéconhecimentos-habilidades-atitudes,suaestruturtinspirou-masde
educaçãocontinuadapatrocinadospelaAssociaçãoMédicado R Sul, nos
anos70-80,nos quaiscadamódulode ensinoconstade uma outra prática e
um grupo de reflexão sobre a tarefaem questão.
Ainda que muito recentc,os delineamentosbÍsicosdesteprogr

ção de grupoterapeutasestãoclaramenteesboçados nelesse privile


supervisionadoConsideramos.supervisãonãoapenaso trabalhodosal
respectivosgrupossoba orientaçãodo supervisor,mts igualmenteo a
parteprática,em queos temasteóricossão ilustradosa partirdasvivê
dos alunos,como tambéma experiêncianos gnrposde reflexão,onde
no item correspondenteaosgruposoperativos, própriogrupocollst nose
coordenadoreséum instrumentode aprendizagcm,atravésdasvi
partidase do pensârcooperanteem tomo da tarefade ensino-aprend
todosos membrosdo grupo.
Pretendemosgradativamenteir introduzindoÌlesteprogramaasp
visionadas quealudeo presenteartigo,colocandoa tônicana srTer pois
é em gnÌpoqueseaprendea trabaÌharcom grupos.
Independentementeda modalidadede atendimentogrupalque s
nar,astécnicassupervisionadasem qtestío (t olelkryin g, grupo de refle
nhamentode sessõesao vivo no espelhounidirecional,discussãodo r
deoteipes)enriquecemsobremaneira treinamentodossupervisiona
aspreconizamoscomoindispensáveisaqualquerprogramacontempor

çio de gÍupoterrpeutal
Como foi assinaladoanteriormente,estaexpcriênciacom superv
terapeutasem formaçãoé bastanterecentee não permiteaindaquede

'
Cen(ro de ProgrâmÂsde EducaçãoContinuada (CEPEC).
SSOOS elementosconclusivosou queseretroalimentemospressupostosenunciados;se
aqui é feita referência,é pelo caráterde atualizaçãodestelivro. Num futuro próx
poder-se-áretomar a essaexperiênciapessoalpara então focá-la apenasdo â
das expectativasainda por cumpriq mas submetendo-a uma análisecrítica.

CONSIDERAÇOES FINAIS
nicial-
mente super-vistio,como a etimologia do termo sugere,pressupõea existência d
ram à profissional mais experienteque lance um olhar soàre o trabalho de seu col
pervF menosexperiente geralmentemaisjovem - e que,da posiçãoprivilegiadade
ico do detém o saberdesejado,o oriente p eternoListÌcdnrcntenos meandrosdaprática
que fissionalem queslào,no casoa grupoterapiJ.
rdede A evoluçãoda grupoterapiaatravésdasmodaÌidadestécnicasresenhada artigo
iva os ensejou,conformevimos, profundasmudançasna concepçãoe na metodo do
desìo- trabalhosupervisionadoA. primeirae maisimportanteconseqüênciadessa dançasfoi
ciaÌ,a a desmitificaçãodo supervisorcomo portadordo sabergmpal realinhamentono
processode aprendizagemcomo modeloidentificatórioe catali do sabera
Lentre serbuscadopelosupervisionandoUma. segunda- e nãomenossign tiva -
los na conseqüência,foi a desmitificaçãoda própriafigurado terapeutacomo tante de uma
de- "torre de marfim", profissional a que só dá acessoatravésdo r verbal(conscienteou
seado inconscientementeincompletoou dìstorcido)de suaexp cia pessoalao
rc_qra- supervisor:ele agoraé despojadoda maÌhaprotetorade seusre
de do pelaexposiçãointegralde seutrabalhonatransparênciada observaçãosimultân
ónca, mesmo.Um terceiroefeito,intimâmentevinculadoaos anteriores,é o câmbi
própriasatitudesdo grupoterapeutadiantede seuspncientes,a quem não ma
DrTna- apresentariacomo detentordâ verdadee como líderincontestedo grupo,mas um de
balho seusparticipantes,cuja hierarquiaé determinadana medidaem que for
n seus hipótesescompreensivasconsensualmentevalidadaspelo grupo.Como conse cia, a
do na super-visaotransforma-senuma co-visão,onde o olhar mais experienten
ínicas , sariamentenãoé o quemelhorpercebeou discrimina,mastão-somente quea os
imos r caminhosjá palmilhados.
alu- A funçãodo supervisor- denominaçãoqueconservamospor consagra uso,
com- aindaque divergindode sua concepçãoorìginal- é basicamentese ofe
Ìum a comomodelode identificaçãoprofissionale,paratanto,devepermitirqueo su
sionandotenhaacesso,naprópriaexperiênciagrupalde ensino-aprendizadoco
;uper- tilhada,à observaçãodiretade seumodode sentir,pensare rgir.
etìva, Concluindo,queremosenfatizarumavezmaisa contribuiçãodasgrupote à
própriatécnicada supervisãodo trabalhopsicoterápicocom pacientesindivi ou
ensl- em grupo.
rmpa-
vi - r isso )

rTna- REFERÊNCIASBIBLIOGRÁFICAS
rupo-
ANTHONY, J. Reílectionson twcnty-lìvcycarsof group psychdhcíapyhúemational.Jour
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TUBERT-OKLANDER,J. e/ .Ì/. CruposopeÍativosIn:. OSORIOet al.
Grupoterapí gre:ArtesMédicas,1986p. . 135.
PoÍto

PARTE2
Prática com Grupo
Operativose
Psicoterápicos
ComoAgemos Grupos
Operativos?
JANICEB,FISCMANN

Sempreque ouvimos falar em gruposoperativos,imediatamentesurgemalgunsc


ceitosa respeitodos mesmosque não traduzemo seusignificadoe/ou abrangên
demonstramo quanto eles ainda são pouco conhecidosem nossomeio. A perg
mais ouvida é: os grupos operativossão terapêuticos?Muitos fazem essadistin
entre os mesmos,o que revelaa desinformaçãosobre essetema.
Todo grupooperativoé terapêutico,masnem todo grupoterapêuticoé opera
ParaPichon Rivière, "o grupo operativoé um instrumentode trabalho,um métod
investigaçãoe cumpre, além disso, uma função terapêutica". Todo grupo que t
uma tarefa a realizare que puder, atravésdessetrabalho operativo, esclarecer
dificuldades individuais, romper com os estereótipose possibilitar a identifica
dos obstáculosque impedemo desenvolvimentodo indivíduoe que,além diss
auxilie a encontrar suas próprias condiçõesde resolver ou se enfrentar com
problemasé terapêutico

IIISTÓRICO
Os grupos operativosforam introduzidospor H. Pichon Rivière na décadade 40
Argentina. Acho importantepara a compreensãode sua teoria sabermosalgo a
peitode seuautor:Pichonnasceuna Suíça,em Genebramaisprecisamente,em 1

Quando tinha 4 anos, sua família estabeleceu-sena Argentina,na região


Chaco, habitadapor uma cultura indígenaprimitiva. Pichon desdecedo enfrent
primeiros choquesde culturas.Aos 8 anos,vai com sua famíliapara Corrientes
saro ginásio,e aos l8 anosmuda-separaRosárioparaestudarmedicina. Desdeo
ginásio,Pichonidentifica-secom a psicanálisee a buscada desocult
dos mistérios e questionamentosque motivavam a condutados grupos que vinh
relacionandoPichon.refereno prólogo de seuclássicolivro,O processogrupal (19
"meu contato com o pensamentopsicanalíticofoi anterior ao ingressona faculd
de medicina e surgiu como o achadode uma chaveque permìtiriadecodificar aq
que era compreensívelna linguageme nos níveis depensamentohabituais".
Pichon (1986)considerao indivíduo"como um resultantedinâmico no interj
estabelecidoentreo sujeito e os objetosintemose extemos,e sua interaçãodialé
que
atravésde uma estrutura dinâmica Pichon denomina de vínculo". Ele defin
96 . znreruaerosonro

vínculo"comoumaestnrturacomplexaqueincluium sujeito,um objeto,e s


inter-relaçãocom processosdecomunicaçãoeaprendizagem'( 1988):apro
sedapsiquiatriasocial,é levadoà estudaro indivíduonãocomoum seriso
incluídodentrode um grupo,basicamenteofamiliar.
partirde suaobservação experiênciacom pacienteshospitaliza bia
quehaviaum interjogoevidentena relaçãoentreo paciente,o grupofam se
originavae a relaçãocom a instituiçãoque estavase tratandoPicho. entãoa
delinearconceitoscomoo de porta-voz,depositário,depositante
do,construindo,assim,suateoria,tendocomopremissaprincipalo indivíd
numgmpo,percebendoaintersecçãoentresuahistóriapessoalatéo mome
afiliaçãoa essegmpo(verticalidade)coma históriasocialdesseprópriogm
momento(horizontalidade)"A. verticalidade a horizontalidadedo grupo
gamno papel,necessitandoemergênciadeum a maisporta-vozes,que,ao
seuproblema,reatualizandoseusacontecimentoshistóricos,denunciao co
situaçãogrupalemrelaçãoàtarefa."(Osorio,1991)Isso.determinao quenó
mosdehorizontalidade,quepodeserentendidacomodenominadorcomu tido
pelogrupo,de maneiraconscienteou inconsciente(fantasiasbásicasu do
grupo).
Na minhapráticaclínicacom gruposoperativos,quandoum pacient
algumassuntono grupo,costumomeperguntar"Porqueesseassuntoestáa do
aqui-agora-comigocomesteexercíciodepensar?", entãoinvestigovi tos de
intersecçãoentrea verticalidadedo sujeitoqueenunciao problem
zontalidadedo grupo.Ao fazeruma colocaçãoque podeserentendidac
transferência,o pacienteintroduzuma possibilidadede explicitaçãodas
queestãobloqueandosuaatividadegrupal.
E impoÍantecompreenderque,paraqueum grupoevoluano propósito
ção detarefa,é fundamentalexplicitaÍessasfantasiasuniversaisparaperm
processodemudançaocorraEssamudança.vaicaracterizarograudesaúdeo
gia dessegrupo.Quantomaisplásticosforemos papéis,maissaudávelé o
quantomaisestereotipadosforemessesmesmospapéis,maispatológicoel
pornãopossibilitar rupturadosmecânismosestereotipadosdedelegação
depapéis.
Temoscomoexperiênciaem nossapráticaclínicaalgunsgruposque
semanterestereotipadosparapreservar estabilidadedo grupoqueestãoi Há
aproximadamente16anos,numaunidadedeinteraçãopsiquiátrica,coo
grupodenominado"grupooperativodelimpeza".Apósviíriassessões,per
unidadesemantinhalimpa,masqueo processoquesedavaparaqueess
fossealcançadonãoseenquadravano enfoqueoperativoO. gruporeunia-s
mentepara"combinar"as atividadesde limpeza.Fui percebendoque,na
daqueles12 integrantesqueparticipavamdo grupo,apenas1 realizavaa f
unidadeIsso.eradevido,certamente,àssuascaracterísticaspessoaisobses
que"estavamà serviço"do interesseda unidadequeele estavabaixado,p
bia-sequea unidade"semanterialimpa".
Quandotal mecanismofoi identificado,começou-sea trabalhar,ter
menteno grupo,a redistribuiçãodepapéis,a divisãodo trabalhoe a
explica funcionamentoA. unidadecomeçoua ficar suja,e a
equipecomeçoua recl o grupooperativonão estavafuncionandobem.
Percebe-se,nesseexemplo,quea formaprevisívelqueo grupovinha
volvendo"servia"paraa instituiçãomanterseusobjetivosimplícitosde
obsessivamenteosaspectosmobilizadospela situaçãode intemaçãode p
coMo c-oMo*u"u".
'RÂBALHAM''

múfta Se a unidade estivesselimpa, os aspectos"loucos" de cada um dos elementosn


Ìando apareceriamSe. formos pensârem termosde objetivos explícitos,reconhecerem
0,mas importância do aprendizadode atividades laborativasno sucessodo tratament
psicóticos,no entanto,com o exemplo anteriorpercebemosque nem sempreos ob
Perce- tivos explícitos têm ligaçãodireta com os implícitos. Voltemosao conceito de gru
ar que operativode Pichon Rivière ( 1988):"Caracterizao grupo como um conjunto rest
omeça de pessoas,que,ligadasporconstantesde tempoe espaçoe articuladaspor suamút
Posita- representaçãointema, propõe-se,em forma explícita ou implícita,a uma tarefa q
Eluído constitui suafinalidade,interatuandoatravésde complexosmecanismosde assun e
de sua adjudicaçãode papéis".
oatéo tarefa vai dependerdo campo operativo do grupo, ela trata de resolve
conju- denominadorcomum de ansiedadedo grupo que adquireem cadamembro caracte
unciar ticasparticulares.Por exemplo,sefor um grupo ensino-aprendizagem, tarefaser
lito da resoluçãodasansiedadesligadasà aprendizagemdessadisciplina se o grupo for te
àama- pêutico propriamentedito, a tarefa seráa cura da enfermidadeatravés da resolu do
Drnpar- denominadorcomum da ansiedadedo grupo que vai variar de indivíduo p indivíduo
versais dependendode suahistória pessoale suascaracterísticasparticulares.

tÍoduz "O grupo é o agenteda cura,e a tarefaseconstitui num organizadordos processo


Ìrecen- pensamento,comunicaçãoe ação que se dão entre os membrosdo grupo." (Oso
rs pon- r991)
hori-D
Uma Podemosentendercomo cura a mudançade pautasestereotipadasde funcio
ntasias mento e a integraçãodo sentir,do pensare do agir. Não podemosesquecerque to
mudança implica o surgimento dos medos básicosde perda e ataque (ansieda
Í€solu- depressivase persecutórias)que podem funcionar como obstáculosnesseproce
rqueo de mudança.Dessaforma, identificamostrês momentosde um grupo operativo:pr
patolo- tarefa, tarefa e projeto.
e
Fpo, Na pré{arefa se concentraa resistênciaà mudança;é c4ai que observamosn
toma gntpos o predomíniodas ansiedadese medos basicamentefrente ao desconhe
sunção que obstaculizamo "entrar na tarefa". Encontramostambémo predomínioda dis
ciaçãoentre o agir, o sentir e o pensar.
pcisam Vamostomar como exemplo de pré-tarefaum grupo operativoque trata obe
pridos. dade:essegruporeúne-sesemanalmente tem como objetivocomum o emagrecim
meium to.
bi quea Sabemosque o emagrecimentoé uma tarefa extema,explícita e comum a tod
Èjetivo Para que se emagreça,é necessáriomodificar hábitos: alimentares,familiares, ciais,
:Ínânal- etc.; isto é o que denominaremosde tarefainterna,pois consistenos movim tos que
erdade, os indivíduosdevemrealizarconjuntamentepara obter essamudança.Ent
xina na semanaapóssemana,cadamembro do grupo vem atingindo seuobjetivo explícito
as, mas emagrecer.
Íquesa- Um dos elementosconsegueum emâgrecimentonotadamentesuperior aos
mais e essapessoaé admiradae/ou invejada pelos outros membrosdo grupo. U
peutica- outra integraÌìte,por suavez, não apresentaa mesma"performance"na balança,m
desse relatae vivencia as profundasmodificaçõesque estãoocorrendoem suavida dev
mÍúque sua paÍicipação no grupo. O grupo pegaesseselementose questionasuasverb
zações,uma vez que ela não "perde peso". Reforçamo colegaanteriorque
Èdesen- estádim nuindo progressivamente pesona balança.
ontrolar A seguir,criam-se e são lançadosno gÍupo desafiose metasque objetiva
póticos. perdade peso.Todos,na semanaseguinte,"perdempeso",masnão conseguemse
98 . ZNERMAN& osoRro

nemobservarquemudançasde atitudesestãoobtendo.Issopodeserentend
um momento de préìarefa, pois o "perder peso" impede que reflitam s
hábitos,atitudese sentimentos.
Nessemomento,ocorrea claradissociaçãodo pensar,sentire agir.O g
paranão pensarnemsentir.
momentoda tarefaconsistena elaboraçãoda ansiedadeprovocad
dançae na integraçãodo pensar,scntire agir E nr tarefaqueseconseguea
objeto de conhecimentode forma a romper com as pautasestereotipadasq
cama mudançae bloqueiama comunicaçãoAqui. sedã o insighíatÍavésd

ção dosmedosbásicosO. projetoé o queapareceemergindoda tarefae qu o


planejamentopara o futuro.
No exemploanterior, gÍupoentrariana tarefano momentoem queao o
emagrecimentopudesseverbalizar,clarificare esclarecero processoem um,
de acordocom suascaracteÍísticaspessoais,alcançariaesseobjetivo.Tr do o
significadodo emagrecimentoparacadaum, bemcomoasmotivaçõe
paraatingiro objetivo,poderiamdessamaneira,chegarao projeto.
O papeldo coordenadorno grupo operativoé o de "coopensor",qu
designacomo aqueleque pensrjunto conì o grupo.ro mesmotempoque
pensamentogrupal,facilitandoa dinâmicadâ comunicaçãogrupal. A inte no
grupooperativopossibilitaa emergênciada fantasiabásicado grupoa
compreensáodo existente(explícito).
Serãoapresentados,seguiçalgunsexemplosde situaçõesde grupo vos
que ilustram o material abordadoaté aqui.

Exemplo1
Trata-sede um grupo operativo.cujl tlrefa e refletir sobrea formaçãode te
familiares,com alunosdeum cursode formâçãode terapiafamiliar.Ë terce do
grupo,ondeos terapeutasestãoseconhecendocomo grupo,logo apósu
dadedocentede laboratórioonde havia sìdo rcalizadoe filmado um ate
familiarqueo grupoassistiupelacâmerade TV No primeiroencontroapó gem,
percebe-seque compârecemâpenastrês participântesno horárioco
Começa-seo grupofalandosobrea pontualidade assiduidadeno cursoe d
veisrazóesparaasfaltasnaqueledia.
EnquantosedisconesobreesseteríÌ4,cadaum trazendosuasjustifica
soais,umadasintegÍantescomeçâdizendoqueestavamuitomobilizadaco
riênciaquetinhatido no diaanteriorcom o gÍupoReferiu.queficou muito a
assistira um entendimentode famíliaequehaviasesentidoincomodadaco de
estaremsendofilmadas.Esseassuntoé entãocolocadoao grupo,e co falarde
seustemoresem não "conseguirentender"as famíliasquandotiv atendê-
las,receiosde não conseguiremconcluiro cursopor não teremc para tal.
Lentamente,vai emergindono grupo a fantasiagrupal de não po expor para
não revelar suasfantasiasde incapacidadepara a tarefa que es propondo.A
coordenadoramostraque tiìlveztambémestejamfalandodo r seexporemno
grupo, temendonão podcrenrconcluir o cursode terapeutasfa ou de não
compreenderemseu papel naquelegrupo.
No momentoem que essafantasiaó expÌicitada,o grupoalivia-see c
entrar na tarefade forma mais tranqtiila.
COMOTRABALHAMOSCOMCRUPOS .

:omo Exemplo2
seus
Trata-sedeum grupodeegressosnumserviçopúblicode saúdemental,quesereú
ratua hámuitosanose temcomocaracterísticasprincipaisa participaçãodepacientesq
sofremdedoençamentale quejá tiverampelomenosumainternaçãopsiquiátric um
rmu- grupoheterogêneoquantoao diagnóstico,mashomogêneoquantoà cronicid
daro dadoençaSeu.objetivoé evitara reagudizaçãodasintomatologiapsicóticae evita
stan- reintemação,auxiliá-losa seressocializarematravésdavivênciado grupooperat
DOra- Nestegrupoháum pacientequenão é muito valorizadopelosdemaisparticipa
rmite por apresentarum defeitoesquizofrênicopersistentedefugade idéias.Semprequ
mesmofala algumacoisa,o grupofaz quenãoouvee nãovalorizasuaverbaliza Ao
mejar conversarmossobreo assuntodo dia,ou seja,a dificuldadequeos mesmos
câda temdeseremaceitosno seugrupofamiliare socialem funçãodo estigmaquecaÍ gam
úhan-
e têm por suadoença,elesdizemque se sentemrechaçados mal-compreend inclusivepor
seusprópriosfamiliaresEntão,.o pacientecitadocorta o assun começaa falar de
lchon que "os gatostêm sentimentos,que devemsentarà mesa,n
lgÍao cadeirinhas"(gesticulavacom a mãoem círculos,dirigindo-separaaquelecírc
lação queestávamossentados)Os.demaisintegrantesseolham,algunssecalamcomo
És da nãoentendessemou ignorandoessemembro.
Um outropacientecortao assunto,dirigindo-seaopsiquiatradogrupoecomeç
Érati- do a falar sobrea medicação,interrompendo,assim,a verbalizaçãodo colega.
partirdessesacontecimentos,coordenadorapassaa mostrarao grupoqu
queaconteceunaquelemomentofoi umademonstÍaçãodo assuntoqueelesestav
trazendoAli. elestambémestavamrevelando quantoeradifícil entenderemasdi
rençasqueexistiamentresi, no cursoda doençade cadaum. O pacienterechaç
denunciaque a conflitivaabordadano grupoestavaacontecendoali no grupota
bém.Fala,então,de suanecessidade serbemaceitocomoosdemaisO. falarso o
Futas
FSSAO
remédio,queé um assuntoconhecidopor todos,servecomoum impediment
rativi. apaÍecerseussentimentoscomrelaçãoa essetemae os temoresde nãoseremco
Erento preendidos aceitospelosterapeutaso grupo,e dessaformamodificaro proble
hlma-
inado.
possí- Exemplo3
pes- Trata-sede um grupo operativo que trata a depressão,em um serviço público
.expe- saúdemental. Este grupo tem uma história de 5 anos de tratamentocom a mes
DSaao coordenadora,que está para sair da instituição que trabalha,mas não havia ain
o fato colocadonem trabalhadotal assuntono grupo. Naquelasessão,estavainiciando u
Fma pacientenova que tinha como fator desencadeantede suadepressão afastamento
que seufilho que fora fazer um curso no exterior.A pacientepermanecequeixosae ch
üições rosano grupo. O temaperdaé comum a todos,os demaispacientesa recebemtent do
Em se tranqüilizá-lae contamsobresuasprópriasperdase os motivos que os trouxer a
am se essetratamento,bem como o quantoestavampodendoelaborarmelhor tais perd ali no
eio de grupo.Recebem-nacommuita receptividade,verbalizandoque"devemosapr der a
iliares deixar nossosfilhos fazeremsuasescolhasna vida". Dizem enfaticamenteq ela não
estavaperdendoo filho, mas, sim, ganhandoum filho mais satisfeitoe rea zado por
Eegue estarpodendocrescerem sua vida profissional.Esseprocessopermitiu
coordenadorintroduzir o assuntode sua saída,pois o grupo demonstravaque esta
começandoa "aprendera lidar melhor com suasperdas".
100 . ZMERMAN&osoRlo

COMENTÁRIOS
Podemosresumirasfinalidades objetivosdosgruposoperativosdizendoqu
atividadeestácentradana mobilizaçãode estruturasestereotipadas,nasdificu
de aprendizagem comunicaçãodevido ao montantede ansiedadedespert
todamudança"(Temas,.1984)
Com isso pode-seentenderque tal mobilizaçãoé terapêutica,e os
operativossão terapêuticospor promoveremmudançasnos indivíduosque o
põem.
Voltemos,então, à perguntatítulo deste capítulo: Como agem osg
operativos?"Um grupo,diz Taylor,apresentadadosobserváveisem seusdifd
momentose queemergemde formasimuÌtâneaou consecutivada complexac
no diálogoe na açáodos indivíduosque atuamem pares,trios ou outrascon
çóesinteçessoaissobreoutrosindìvíduosou sobreoutrasconfìguraçõesinterp
sobreo grupocomo totalidadeou sobreo analìsta,ou reagemcontraelespró
(Pichon .1988)
processoterapêuticodo qual o grupooperativoé instrumentoconsi última
instância,na diminuiçãodosmedosbásicosatravésda centralizaçãona do
grupo quepromoveo esclarecimentodasdificuldadesde cadaintegranteaos
culos .
O grupo operativoagede forma a fomecer aosparticipantes,atravésda t
operativa, possibilidadede sedaremcontae explorarsuasfantasiasbásicas do
condiçõesde mobilizare rompersuasestruturasestereotipadâs.

REFERÊNCIASBIBLIOGRÁFICAS
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BJBLIOTFCA
U/t///tlEP
: .'sua
dades
10
lo por
GruposComunitários
Íupos
com- SALVADORCELIA

:rupos
rrentes
)nduta
Ígura-
ssoais, mundo em que vivemos sempreapresentoucaracterísticaspróprias de cadate ou
prios." de cadaépoca,sendointeressantevermosalgumastradiçõesque, apesarde tu
conseguirampermanecer,enquantooutrasseperderam,sofreramtransformaçõe
;Ìe.em jeito
tarefa ,obstá- novos valoresforam introduzidosno de nos relacionarmosou de conviverm
Nunca houve,por certo, em todos os tempos,uma dinâmicade acontecime tão
rápidos,e com acessoa uma grandeparte da população mundial. Refiro-m
extraordinário avançotecnológico da assim chamada"Era das Comunicações"
técnica que a mídia televisiva,falada ou escrita,tomou-semais acessível.
. cnan-
Igualmente,a vida hoje - praticamentedependendodo computador- tro uma
série de novidadesaos nossoscostumes,muitas delas, inclusive, acarret
conseqüênciaspsicossociaisa todas as idadese camadassociaisdas populaçõe
nossoplaneta.
A assimchamada"Aldeia Global", queé o nossomundo,muitas vezesnão é
globalizada,pois a sociedadevive atualmentedificuldadesimensasde comunica
de convivência, apesarde todos os meios de informaçãoe acessosestaremdisp
vels.
De certo modo vivemos um paradoxo,pois todas essasnovidades ainda
rÌoDr H. contribuíramparaum melhor relacionamentoentreos sereshumanos.Pelo contrá
muitas vezestudo isso contribuiu para uma desintegraçãomaior da convivência
grupos,entre eles, o principal de todos, a família.
Muito da crise de valoresde referência,de saúdemental, para mim, passap
desagregaçãofamiliar em todos os sentidos.Fatorespsicossociais,culturaise eco
micos foram trazendonovas formas de convivência, sendoatualmentecomum
mos a existênciade numerosasfamíliasmonoparentais,onde,por exemplo,no Br
de hoje, 647odas mesmastêm mulherescomo chefe da casae de seugrupo
famil Ora, isso modifica toda uma situaçãodos papéis psicoÌógicosde uma
famflia, o iremos observaras conseqúências,por exemplo, da falta do pai na
criação e no senvolvimentoda personalidadedos filhos.
A diminuição da grandefamflia, o distanciamentodos avós,tios e outros, f
isso gera uma nova identidade,um novo padrão referencialde convivênciae de
senvolvimento.
Em função dessesaspectos,todas as sociedadessofrem, assim como sof
também com um fenômenouniversal charnado"Violência Social" que, atingin
tudo e a todos,não perdoaseusefeitos no comprometimentodo desenvolviment
bebês,criançase adolescentesque vivem nas áreasmenosdesenvolvidasde algu
cidades.Essa"Violência Social" decorrede vários fatores,porém leva a um gran
Assim - nos EUA por exemplo,um paísconhecidocomo do Primeiro Mund
encontramos,em algumasáreasurbanasdasgrandescidades,criançase adolesc
com problemaspsicopatológicos,e,conseqüentemente,dedesenvolvimento,sim
resaosde PortoAlegre,ião Paulo,Montevideo,BuenosAires,entreoutros.De f
diferençaestána formacomo issoacontece na suaintensidadePor. exemplo,s
maisraroencontrarem algunspaíses,como no Brasil- onde307odascriançasa
anosde idadesofremde desnutrição- secomparadascom as criançasamerica
quequasenãopassamfome,masque,tal comono Brasil,sofremde outrasforma
violênciaquetambémacanetamproblemasno seudesenvolvimentoRefiro.-me
exemplo,à violênciaurbanaexistentetantonos EUA como no Brasil,que pod
incidirde umaformacrônica,trazendofatorescomulativosqueirão prejudicarle
mentea personaÌidade criançae do adolescentede hojee o futurocidadãoad do
amanhã.
Diantede um quadrotãoameaçador de perspectivastãosombrias,valea p
referenciaraqui os estudosfeitos por algunspesquisadores,como Rutter,We.
Garmezye Haggerty,queestudarama correlaçãoentreos fatores protetorese a tu
chamada"Capacidadede Resistência"(Parker,.1995)Essesautoresinvestigar
descobriramquealgumaspessoas,criançase adolescentes,apesarde todauma s
açãoproblemática,sãocapazesde "resilir",de enfrentaros desafios,de crescer
mostraremcompetentes saudáveis,inclusivena suavida adulta.
"Resiliência"é uma força,uma perícia,uma habilidadeque algumaspes
possuemde se mostraremcorajosas,de poderemenfrentar"os desafiosnormai
vida" e mesmooutrosqueterminampor deixaro indivíduocom maisautoconfi mais
auto-estima,porque construíramum "ego resiliente".Ser maìs ou me
"resiliente",todavia,não é apenasuma questãode mágica,mas,sim, uma que que
tem a ver com o potencialde cadaum quepoderáserreforçado,melhorado,e só
deixarqueo mesmoocorrae sedesenvolvapeloacasoPois.esseé o granded fio do
profissìonaldas áreashumanísticas,como a dasaúde,educaçãoe direito, muito
poderão contribuir, atravésda compreensãoe desenvolvimentode atitu
favorecedorasàmelhorcapacitaçãoda resiliênciadascrianças.
Os resilientessãocriançase adolescentesque intrinsecamentepossuemfato
comotemperamentomaisflexível,curiosidade,auto-estima,sensodeque sãoca
zes de modificarseu ambiente,têm um controleintemo,boa saúde,inteligên
acreditamque as novas situaçõesou mudançasrepresentamuma oportunidadep
melhorareme se adaptarem,em vez de perdade esperançae expectativas.
Extrinsecamente,estabilidadeconjugalou pelo menosuma "aliança"ent
casalquerespeiteasfunçõesde parentalidade;sentimentosde competênciadosp
integraçãoe suportefamiliar entreos membros;famílias formadaspor até 4 pess
com intervaÌode nãomaisde 2 anosentreos irmãos;fortesvínculospelomenosc o
pai ou a mãe;estrutura predicabilidadedasrotinasdiárias;possibilidadesde porte
fora da família como avós, babás,igreja, professores,entre outros, sãofato
familiaresquepossibilitamo desenvolvimentoda resiliência.
Entre os fatores extrafamiliares,tais como a cultura e a vida na comunid
prevalecemaquelesque valorizam ascrianças,nasquaisaparticipaçãocomunitár
intensa,sejasocial,políticaou religiosa,no bom sentidoRefiro.-meaquiao mod
compreender,entendere oferecer apoio, suporte e inclusive locais para reuni
práticas,atividadessociais,recreativas culturais.
coMo TRABALHAMOSCoMGRUPos .

:Lia. Nessesentido,também a atividadepolítica propriamentedita é fundament


sentidode se oferecerespaçofísico e psicossocialpara as criançase adolesc
o-. desenvolveremseuspotenciais(algumascidadesamericanascom áreade violê
ntes urbana,como Chicago e Nova Iorque, apresentarambons indicadoresde
ÌiÌ a- saúdeq do várias poÌíticaspsicossociaisforam introduzidasem algunsbairros).
ato . Assim, reforçar,fomentare potencializaros indivíduosesuascomunidade
será forçaspoderosasparase diminuir o estresse a violênciasocialque abatemn
úé6 mundo.
nas. Gostariade lembraralgumasvivênciascomunitáriasdos últimosl5 anos,q do
rsde estiveparticipandocomó profissionalda equipede SaúdeMental da Secreta
. por Saúdedo Govemodo Estadodo RS, como assessorgovemamentalda áreas
derá (ProjetoVida) e (Centrodo Adolescente),e como cidadãovoluntiírioparticipan
:nta- ConselhoComunitárioda Cidadede Canela.
lulto Em todasessasatividadesquetinhama ver com "o humano",com o psicoss
a participaçãocomunitária foi fundamental.
ParticipaçãocomunitáriaenvoÌveum grupo de pessoasque sereúnemem b de
Pena
algocomum,quetema ver com seusdesejos,suasnecessidades,paraexerce viverem
--ÌÌer.
sslm melhor seuestadode cidadanìa,suaquaÌidadede vida. Dessareunião, d encontrode
arÌì e idéias,valorese cultura, nasceuma força que deriva da própria emer cia de
sltu- seuspotenciais,pois,não fosseassim,essasfamíliasdesfavorecidasnão
'ese seguiriamsobreviver.Produz-seuma "energiasocial" que é o somatóriodas pa
pações individuais e que quando bem direcionadadeixa essesgrupos mais "
isoas resilientes",pois conseguemse situar melhor e se adaptarnas suasinterações.
is da Essaenergiasocial é a mesma que também é encontradanos assim cham
rnç4, grupos de convivência,com fins terapêuticos,os mesmospodendoser formado
enos adolescentes,pais,idosos,gestantes,entreoutros.
estão No Projeto Vida, com a criação do Vida Centro Humanístico,localizad Zona
enão Norte de PortoAlegre,RS, um espaçofísicoprivilegiadoparaacolher,princ mente,uma
desa- comunidadecarenciadacomo a de bebês,crianças,adolescentes,mu res e idososem
r. que situaçãode risco, no sentido de lhes oferecerapoio e suporte
tudes desenvolveremsuacidadania,a participaçãocoletiva foi fundamental,além do d jo
govemamentalde implementaro Projeto.
IÌOres No coletivo, quero enfatizara participaçãodas entidadescomunitáriasdaq
capa- zona, como Associaçãode Moradores,Clube de Mães, organizaçõesrecreativ
incia, culturais que terminarampor formar o ConselhoComunitário, que reuniu 60 en
: para des com o poder de participar numa co-gestãocom a administraçãogeral indi
pelo Govemo.
]tÍe o Igualmente,a participaçãocomunitiíriados funcionáriosdo Centro, em m
pals; 130paraatenderquase15.000pessoas,às vezes,por mês,foi decisiva.
;soas, Uma proposta nova e inovadora só teria êxito se realmentefosse constr
scom apóster sido idealizada,secontassecom o apoio e a colaboraçãode todos,no se
ie su- da correçãonecessiíriaparaa realidadeda dinâmica que é a convivênciacomuni
ìtores nos seusaspectossociais,políticose culturais.
Dentro desseaspecto,o êxito obtido refletiu-sena melhora da auto-estim
ldade, seuEU, de suacidadaniaparaos que puderamabsorvere viver essafilosofia, co
.Ãriaé me a própria comunidademanifestoureiteradamenteTudo. isso foi mais que
do de políticade açãosocialcompensatória,poisproporcionoua muitoso espaçopsicoló
niões, necessáriopara o seu crescimentocomo "gente" que tem direitos e responsab
des .
104 . z-r*ror r,oso*to

co-gestãoresolveudiscutir os planos,apresentaÍsugestões ter o


decisóriosobreasatividadesrealizadasno Centro,alémde atingira possibili
gerir uma sériede atividadese decisõescomunitáriasválidas não só para a cl
do mesmo,mas também para as suasassociaçõesde bairros.
Vários gruposde atividadesforam criadosno Centro Humanístico,algu
mados"Convivência",como os das mulheres,crianças,adolescentes ido
verdade,todos no seufuncionamentose assemelhando gruposterapêuticosd
de Mental.
Na verdade,a "fiÌosofia comunitária" do Centro - que era acompanh
atividadesintegradasnas áreasda saúde,educação,lazer,cultura, esporte,ciê
tecnologia,alémdos direitos humanose o oferecimentode possibilidadesde
int humana entre viíriasgerações- viu-se acrescidada formação e das vivênci
gruposassimchamadosde convivência,com fins delimitadose clarosparaca
pa ou situaçãode vida.
Para se ter um exemplo do funcionamentono grupo de gestantes,as
mu participavam,alémdo gnìpopsicológico,de ginásticaespecializada,ativida
jurídico
turaise possibilidadede receberapoio parasuasituaçãoespecial,
reconhecimentode leis protetorasque muito lhes poderiam ajudar,e também

filhos futurosou existentes.
Nas atividadesfora do Centro,ou seja,nasvilas,um dosprogramasmais n
rios paraa realidadebrasileira,o da "Recuperaçãode BebêsDesnutridos",a
par ção da AssociaçãoComunitáriaocorreutambémde uma maneiraexpressi
melhorar a saúdemental das mãese bebêsdo programa.
Foi observadoque, numa área situadanão longe do Centro, mais de 20
criançasatéos 4 anossofriam de desnutriçãoNo. estudofeito pelostécnicosd
notou-seque uma sériede fatores psicossociaisacompanhavao estadode de

ção. Encontrou-setambém que os bebêsdesnutridosviviam com mães em


depressivo,o que tomava a interaçãomãe-bebê-mãedisfuncional. Entre os f
que levavamà depressão,estavaa migração (perdade raízes),o abandonoe a
gência na infância das mães, o tempo de aleitamentocurto, a falta do esp
comDanheiroentre. outros.
interessantenotar que, no grupo controle, entre as mães pobres da Vi não
tinham filhos desnutridos,a perdadas raízesera compensadapor terempa
próximos e por freqüentaremou peftenceremà Associaçãodos Moradores
Sentiam-seapoiadas,podiam interacionarcom a possibilidadeda Associação
volver o programajunto com o "Vida", colaborandocom o crescime
potencialidadesda entidade,tornando-semais forte e podendocontribuir de mente
para o programa integradode recuperaçãode criançasdesnutridas.As
depressivassentiam-seacolhidas,protegidas,participantes,melhorandosua d sãoe
a interaçãocom seusbebês.
Eis aqui um claro exemplode como sepodepoliticamenteajudare poten
a capacidadede resiliênciade determinadosgn.rpossociais.(Celia, 1992)
Um outro exemplo,muito signifìcatìvo,é o da participaçãocomunitária
tival de Teatrode Canela.Essacidade,conhecidapelo seupotencialturístico a
ser tambémum pólo cultural de referêncianão só estadual,mas nacional e i
cional, a partir de iniciativas tomadascom a participaçãocomunitriria.Tal ini
mobilizou a comunidadecanelense,a ponto de reforçar sua auto-estima,pa
após os primeiros eventosteatrais,a ser realizadorade outros acontecime
referênciaseducacionais,esportivase ecológicas.
)der Festivalsurgiuhá uma década,maisprecisamenteem 1987,num mome em
ede que se vivia a idéiade quenessacidade,quandocomparadacom a vizinhaG
mado,tudoeradiferenteEm. Canela,ascoisasnãoaconteciampor muito tempo
Itela
Num trabalhorealizadocomvárioscanelenses,sugerimosacriaçãode um "F tival
de TeatroComunìtário"que abrigasseasváriasmanifestaçóesda comunid as
cha- já
associaçõesde bairros,dosadolescentesseusprofessoresque sereuniam
Saú- festivaisnasescolas,entreoutrosexemplos.
Aliado à esperainconscienteda "almada cidade"em buscade sua"encanta
la de ou referência, mobilizaçãogrupalquepossibilitouasartescênicas,o esforçoc junto
cla e da comunidade,trouxeo Festival,a continuidadedo mesmoe a permanênc
motivaçãoe mobilizaçãocomunitáriasem váriasáreasdas atividadeshumaníst
dos Havia grupos naturaÌmenteformadosque necessitavamser apoiadose refor dos
aeta- parapotencializaremsuasações,pois Canelareuniaem suacomunidadebe
exemplosde liderançasassociativas,comogruposde professores,uniãode mora
heres res,uniãode jovense outrosquenecessitavambuscarespaçosparaa mostrade s
cul-)mo o talentose possibilidades(Celia,.1990)
I SeUS Nessesexemplosreferidosde participaçãocomunitária,desdesua própria or
nizaçãoe desempenhonasatividades,ou mesmopassandopelosgruposde conviv
cessá- cia, de apoio,de auto-ajuda,entreoutros,podemosavaliaraspossibilidadesdec
ticipa- rentesdas várias interaçõeshumanísticasque envolvem a áreaeducativa,de expr
a paÍa sãocultural, de favorecimentoda saúde,de proteçãodos indivíduos, enfim a luta
construçãode suacidadaniapelamelhorada qualidadede vida,formandotodos
das sescomponenteso que chamamos"Potenciaisde Saúde"
rVida, ; É na observação,na escuta,no auxílioem forma de apoio, oferecendoespa
nutri físicos epsicológicos,que se podem prepararestratégiaspara potencìalizaras at
estado dadesindividuaise coletivasexistentesnosgruposhumanos,parabuscaremsuaau
atores realização.
É função do profissionalde saúdeter essa visão ampla, social, ecológ
)so ou sistêmicadasociedade,dosindivíduose desuasorganizações;épelavisãohumaní
interativa, integradora,que ele poderá agir, favorecendoa "resiliência" dos gru
la que paraque sepreparemmelhorparaos desafiosdo dia-a-diae do próximo milênio
trentes
local.
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ro Fes-
passou
ntema-
ciativa
;sando,
tos, de
11
Grupos de Auto-ajuda
CARLOS .S.MDE.BARROS

- istoé a diütica da vida."


(lídeÍde um grupo)

Desavisadamente,podemos,numprimeiromomento,nãoreconheceraamplitudeda
agãoe o valor suportivodosgruposdeauto-ajudapelasfinalidadeseducacionaisde
apoiomútuo,porqueo cemeda açãoterapêuticanessesgruposé a
sugestão,sugestão essaquefoi necessáriaadequadamentediferenciadano
iníciodesteséculopeloPai daPsicanálise,quepostulouum
cientificismonaterapêuticaToma.-seoportunoescla-recer que este capítulo é
resultadode observaçõesrealizadasem grupos de auto-ajuda.
Estamodalidadegrupalé amplamentedifundidae faz partedo "ProjetoSaúde
paraTodosno Ano 2000', daOMS. Sãoos denominadosself-help,com seusma-
nuaisoperacionaisde fundamentoheurístico(conjuntode regrasque conduzemà
soluçãode problemas)com valorizaçãodo fenômenoda sugestãoparaauxiliar as
pessoas resolveremseusproblemasde saúdee educacionais,decorrentesde um
qualidade vida.

eventodesestruturadorda de

FUNDAMENTOS TEÓRICOS SOBRE GRUPOS DE AUTO-ÂJUDA

gmpo de auto-ajuda,self-help,de auto-sugestão,procuraauxiliar as pessoas


resolverseusproblemasrelacionadoseventostraumáticosdeconentesdo acometi-
mentodedoengasdenaturezaagudae,emespecial,crônica;aostranstornosaditivos;
àsincapacitações,situaçõesdecausasexistenciais a traumasSão.gmposhomogê-
neosno sentidode queseusparticipantespassampelomesmosofrimento.
Rootese Aanes(1992)conceituam grupode auto-ajudabaseadosem sete
critérios:sãode apoiomútuo e educacional, liderançavem do interiordo grupo, reporta-
sesomenteaum únicoeventodesestruturadorvida,osmembrosdo grupo
participamvoluntariamente,não têm interessesfinanceirosou fins lucrativos,
objetivamo crescimentopessoaldosintegrantes,têmcaníteranônimoe confidencial.
Osautorescitadoscaracterizamoito princípiosbásicosdefuncionamentodosgrupos de
auto-ajuda:experiênciacompartilhada,educação,auto-administração,aceitação de
responsabilidadepor si próprio,objetivoúnico, participaçãovoluntária,concordân-cia
na mudançapessoal,anonimatoe confidência.
108 r zrraenrvrmosonro

Zukerfeld(1992),enfatizando mudançapsíquicano próximo século,a


dapsicanálisedaauto-ajuda,valorizaosgruposself-help,dizendoque"oco lhar
experiênciascomunsproporcionaaosseusintegrantesumaenormeener pode
ser destinadaparaas exigênciasda vida, a ressocialização a recup (p.77).O
autorestabelecetrêshipótesesbásicasparacompreenderfuncion de auto-
ajudaNa. hipíteseda homogeneidade,por mecanismosde identificação a
coesáogrupal,com o surgimentode aliançasfratemaise a corresponde
transformadoraA. segundahipóteseéa chamadamodelizaçõo,ondeo mecani
auto-ajudaserámaiseficazquantomaiorfor o compromissoemocionalcompa
masou propostasexplícitasdemudançaou de algumaaçãodeterminadaEss.
hipóteses- a da lromogeneidadea da modelização- caracterizam,clinicam
funcionamentodastrêsanças:"a partirdassemelhançasgeraaesperançâau de
confiançadosindivíduosem suasprópriascapacidades"(p .80).
terceirae últimahipótesebásicaparacompreenderfuncionamentod
ajudaêa daconfrontação,qüeé anecessidadedosmembrosdo grupodepôr à
deconfrontarsuasubjetividadecomosdadosobjetivosoriundosdarealidadeb ca,
psicológicae social.Por isso,quantomaioré o enfrentamentocom a rea maior
a possibilidadede condutassaudáveisentreos membrosdo grupode
ajuda.
Zimerman(1993)assinala,quantoà formaçãodos gruposde auto-aju
elespodemser do tipo espontâneool incentivadopor algum técnico,com lid
transitóriaou eventual,ou comparticipaçãonão-diretivaou em disponibilida
quandoo gruponecessitarOfuncionamento.dessesgruposhomogêneosédec
ística autônoma.
Caracterizados gruposde auto-ajuda,é necessáriocitar que os Alco
Anônimos(AA) nortearamtodosos demaisgruposcom a filosofiade irma
Essafilosofiase refereà informalidadenasreuniões,trocasde experiência
seusmembros o usodaconfrontação,comum conseqüentealeÍa paraospre do
consumoalcoólicoe identificaçãodos mecanismosdefensivosusadospar ficar o
continuarbebendoA. filosofiada irmandadelevaâ umaatitudede auto
xão,dentrodeum climaem queosmembrosparticipantessesentemcompree
apoiadose respeitadospelosseuspares,coma melhorada auto-estima.

oBSERVAçAODOSGRUPOSDE AUTO.AJUDA
Trêsgruposde auto-ajuda- de pacientesartríticos,de mulheresmastectom
depessoassoro-positivasparaHIV - foramobservadosdurantecercade 2 me
caracteísticas,ofuncionamento os mecanismosde auto-ajudasãodescrit
guir.Inicialmente,foi feitoum contatocomoscoordenadoresdestesgruposd
ajuda,esclarecendo-osse motivosda observaçãocom a preservaçãodos pr
éticos.A propostafoi apresentadapelocoordenadoraosdemaismembrosdo
pos,quea aceitaramprontamente'.

'Agmdecemosaosgnrposobservados,à$p€ssoãsparticipantesem seuanoniÍÌÌatoe, em especial,àscoordenadoÍâs,pelaa


permitir qüe o observadordivulgue os benefíciosdosgÍuposde lulo-ajuda. TambémagmdecemosaosassessoÍesdos Íe
grupos,aos médicosÍeumâtologistâsFemandoAppel da Silva e Cârlos Albeío Von Mühlen, do GRUPAL, à enfeÍmei Colgberg
Rabin,do gÍupode Ínastectomizâdas,à psicólogaCláudiaOliveirâ Domelles,do EncontÍo Positivo.
cor\1(]TR^B^Ì-HA]ÍOSCOÀÍcRUpOS.

Grupo de PacientesArtríticos de Porto Alegre (GRUPAL)

GRUPALé um grupode auto-ajudafundadoem 3l de maiode I 98-1por inici de


dois médicosreumatologistasInicialmente,.funcionor:na salade esperad
consultóriomédicoe, posteriormente,na sededa AssociaçãoMédica do Rio Gr
do Sul. Estegrupoé o pioneiroem auto-ajudâcom artríticos,no Brasil.
De forma simplificadapodemoscaracterizaros artríticoscomoportador um
tipo de doençaauto-imune,com umâ etiologiaaindaindeterminadaNa. m
partedoscasos,a evoluçãoda doençaé crônica,tendocomocaracterísticainfl ção
articularA. conseqüênciadessainflamaçãoirá seexprcssaratravésde dificu de
funcional,sejaparadeambularou atéparasegurarpequenosobjetosA. dor é
queixamuito freqüente,mashá tambémos sinaisextemosde caÌor,rubore inc
articularA. artritereumatóideé uma dasformasde aÌlriteecostumaatingirpe de
qualquerìdade,manifestando-comse maisfrcqüênciaentreasdo sexofemi
quenecessitarãode tratamentomultidisciplinarporperíodolongoe,geralmenteu
do medicamentos.
Conformeo InformativoGRUPAL n" 5, de maio de 1991,o grupotem c
meta,em seusencontros,"a trocade informaçãoe o relatode experiênciaspes dos
membrosdo grupo,bem como a divulgaçirode soluçõescÍiativasencont
paraamenizaro problemae atingiruma vida normal.Nos encontros,os grupo vem
reforçarrecomendaçõescomo não fazerautomedicação,comparecerreguÌâr ao
reumatologista não tÍocarreceituáriosempréviaautorizaçãodo médico".
As reuniõessãosemanais,com duashorasde duraçãoe participaçãode 8
pessoas,em média.O climaé descontraídoalegreCada.participanteusaum cr
com o seunomee o logotipodo GRUPAL.Algumasusampulseirasmetálicas,
deradas,por elas,energéticasAo. clregar,as piìrticipantesdepositam,na mes
quenassacolasque contêmdocesou salgadosparzra hora do Ìanche.Na me
coordenadorase encontramlivros de auto-ajuda,de oraçõese de letrasde mús
alémde gravadore pequenosobjetos(artefatosutilizadosparaestimulaçãosens
motorado paciente,com o objetivode diminuir ir dor e melhorara função)p
realizaçãode exercícioscom asmãosduranteasreuniões.
Após os cumprimentos,a coordenadorainiciaa reuniãoindagando cadau
nominalmente,comofoi a semanaInformalmente,.passama reÌatarsituaçõesd
rotinade vida:família,tarefasdomésticas,visitas,assimcomoo usode pomada
ajudamnasdores,o usode outrosmedicamentos asconsuÌtasmédicas.
Na reunìãoapósum domingode Páscoa,os presentesde chocolatefor
assuntopredominanteAlgumas.fizeramcomentáriossobreos prejuízosacarre
pela ingestãoexageradade chocolateUma. disseque,na próxima reunião,fa
sorteiode um ovo de chocolate, que deixatodasem alegreexpectativaCom.
mentando,elareforçaqueo ovo serádadopor sorteioe nãoparaqucmfor a maisv
Podemoscompreender,pelaobservação,queo fatode serpor sorteioe não
privilégioda idadecaracteriza semelhança igulldadeentreeÌas.Em seguìd
senhoracomunicoua ausênciade outrapor tcr ido à coÌlsìiltamédica.Outracom queo
seufim-de-semanafoi maravilhoso,tomandochimarrãodebaixoda pain
:omendo"arrozdemãe,tãobom queé!",e quelbi muitofcliz naPáscoaSem.inter
per.umavai passandoììoutÍaosartefatosde massagearcom asmãos.Estemovi to
gmpalcaracteriza informalidade a interaçaÌoA .coordenadoradiz: "Esseg elevao
ânimo das pessoasvítimasda dor, atravésda dcscontração,da inform ,'ientífica,da
trocade idéias,dasatividadesmanuaise do lazerc. em espccial i:sabafo. istoé. a
didáticada vida".
110 . ZMERMAN&osoRlo

Nestemomento,é realizada,pela coordenadora, leitura científica de u


sobrea maturescênciafeminina. Ao finalizar, indagao que acharamda leitura
maneira estimulantepara compartilhar suas experiências.Um aspectoimp
observadoé que as pacientesvincularam ao tema lido fatos rotineiros relat
início da reuniãoe a suaprópria história feminina.
Uma dasparticipantesressaltaa importânciado convívio familiar, mas o
que também é importante ter a suaprivacidadee ficar sozinha.Assim, evita
quilíbrio. "É muito importanteparaìós receberafeto,exerceruma atividade os
outros."
Uma senhora,ao relataÍ a sua semanapara as demais, conta um son
situaçõestraumáticascom crianças.Após, indaga sobre o que fazer com os
ruins. Uma diz que "não deveficar ligada ao passado;procurarpreenchero te
casa, ocupâr-seé muito importante". Outra complementaa sua "interpret
sonho": "Tudo fica arraigadoem ti, por isso, voltar ao passadoé uma fase d
depois passa".E um arranjo sugestivo,levando a prevalecera razão e a oc
para não pensarno trauma.O grupo continuafalante,todasopinandosobreos
tos, fazendoexercícioscomos "instrumentosfisioterápicos".Em seguida,é r
uma crônica de jomal: "A moça que chorava na sinaleira". Logo, uma senh
menta que "o temporal (alusãoà doença acometida)muda o rumo da vida; t
sou chorona,até ao ouvir o hino nacionalaprendidono colégio". Várias cita

ções com as quais se emocioname enveredampelos temas escolares.O as


comentadopor todas,comparandocom o ensino atual, dos filhos e netos.
realizada,pela coordenadora, leitura de uma crônica que abordaas d

çasentreaspessoasOs. comentários,apósa leitura,sãonorteadoresdo


funcion grupal: "É importanteconversarmossobreo grupo, paraevitar
fofocas; somo as e cada uma é diferente, temos qualidadese defeitos e
podemos apren todas;devemosver o lado bonito das pessoas,por isso
sentimosfalta uma d para nos complementarmos".
A coordenadoradirige o olhar para o observadore relata que todas tê lista
com o nome, telefone,endereçoe a data de aniversário.Uma liga para
quandosentesaudadesUma. participantediz: "O nossogrupoé homogêneoe se
nal; por essaajuda mútua, somos energia circulante; quando uma está pm outra
mais pra cima, ocone o equilíbrio;assim a petecanão cai; muitas che grupo com
a dor nasjuntas, com o tempo essador desaparece;é a distraçãod
A coordenadoraencerraa primeira parteda reunião.Segue-sea hora do
do lanche.Todasse movimentim e alrumam a mesacom doies e salgados.É
lista para o pedido de refrigerantes,que são pagosindividualmente.
Inicia a segundapaÍe da reunião.A coordenadoradiz ser a hora da mú
cadernode letrasde músicasé distribuído,sendoentão escolhidauma músic
por
aquiescênciade todas.São cantadascom entusiasmoe alegria todas,incl
observador.No final de uma música, chegauma senhoraque é cumpriment
todas. A coordenadoÍaressaltaque esta senhoraé filha de uma ex-particip
grupo,já falecida,e que "veio mataras saudades,visitando".Nesteinstantea
nadora indica nova letra de música, a conhecida"não posso ficar mais um
sem você...". É expressiva a receptividade,a coesão grupal e a facilidade
com a dor. Depois dasmúsicaspopulares,foi ligado o gravadorcom canto re
Ocorre um movimento grupal em que âs participantesvoltam para si, numa
reflexiva.
iniciado um exercíciode visualização,segundoa orientaçãode um livr
"A imagem que cura". É um método de relaxamentoproprioceptivo e suge
corro r-R^Br\LHAÌ!Íoscontc*unos .
I anlgo melhorados problemase das dores,à medidaque as partesdo corpo são to

E uma pelosprópriosdedos,com os olhosfechados.


trtante Dando seguimento,é solicitadoque apaguemas luzese fechemas co
dosno Com a Ave Maria de Gounodcomofundomusical,é repetida,por todiìsuma.o
chamada"a bençãoda saúde",retiradade um livro queestavasobrea mesada
bsena denadoraE. feito um agradecimentonominal"aosmédicosque assistemaspe
) dese- presentes,às ausentes,à reuniãoe às falecidas que pertenciamao grupo".
aJudar Na segundareuniãoobservada, coordenadoratraz númerosdo jomal lrtfo
vo Grupal, com artigos esclarecedoressobrea doençae o tratamento,além d
n com coluna de perguntasdos leitores,que são respondidaspelos médicos assess
sonhos GRUPAL. Nessareunião,a primeira partefoi uma palestrainformal de um m
npoem residenteem reumatologia,que despertoumuito interesse,provocandoinúmera
do
ção guntas.
a vida . A coordenadoraesclareceque essaatividade é realizadaquinzenalmen
upação um médico que vem falar sobreum temapreviamentecombinado.Receboo av
ilsSun- que a reunião é suspensaquandochove ou faz muito frio no dia em que costu
elatada realizada(às segundas-feiras)Justificam.que o frio e a chuva são prejudic
oÍaco- artrítico.Nessasocasiões, contatoé telefônico.
ambém Na terceirareunião observada,as participantescontam sobrea importân
n situa- palestramédica,quandochegauma adolescente,membrodo grupo. A coorden
suntoé com o objetivode nãodificultaro andamentodos trabaÌhos,dizparaa jovem
um beijogeral".E esclarecidoqueelaé a maisjovemdo grupo,é a mascoteO.
liferen- fala dasdores,dasdificuldadesao deambular,ao realizaras tarefasdiáriase d
amento persistente. citam as deformidadese asdificuldadesem segurarobjeto
joelhos,
Quando

; pesso - t realizartarefasdiáriasapontamparaos pós, braçose mãos.No intu


eÍ com artríticopoderrealizara apreensãode colheres,facas,escovasde cabelo,etc.
a outra. cessárioqueessesobjetostenhammaisvolumedo que comumentetêm.Exis
aparelhoespecialpara enfiar os botõesnas casasdas roupas.Para as deformi
'muma dos pés,casasortopédicasfabricamsapatos
personalizados.
a outra E Ìembrada,de forma enfática,uma fraseexpressapor uma senhorado g
:nsacio- querealizavabonitostrabalhosmanuais,mesmocom asdeformidades:
"Não im
t'airoe o que asmãosmostram,mas sim o queelasfazem".Estasenhoracom artros
ao vergonhadasdeformidadesdasmãose no grupo fez uma reflexãoda suavida, r
sam
la doi' . dandodo cumprimentode seu papelcomo mãe, professora pessoa,deixa
recrelo. ladoa vergonhae semostrando.
1Ìelta a Uma senhoraparticipantediz que quantomais informações artrítico
familiarespossuírem,maispossibilidadesexistirãoparaqueasrelaçõespesso
isica .O jam maisharmoniosas,e a vida,maisdignade servivida.
acoma Nestareunião,o observadorlembrada combinaçãodo términode suapar
lusrveo çãoe agradeceE. lembradoque,parao GRUPAL,"você nãoestásozinho,suas
adapor e seusproblemassãonossostambém".
ante do
coorde- Grupo de Auto-ajuda de MulheresMastectomizadas
minuto
de lidar
ligioso . Esteé um grupode auto-ajudaquefuncionano Serviçode Mastologiado Hosp
. atltude ClínicasdePorto Alegre (HCPA),desdesetembrode 1983,por iniciativad
enfermeira,que mantémuma participaçãonão-diretivano funcionamentogrup
ro sobre reuniõessãosemanais,com umahorade duração,realizadasna salado ambul
stivode As mulheresparticipantespassampor um processode triagemfeito pelaenfe
bém de outrasinstituições,encaminhadâs,nessecaso,pela Legião Ass
Apoio ao Pacientede Câncer(LAAPAC) ou pelosprópriospacientesd
auto-ajuda.O tempo de permanênciano grupo varia de 6 mesesa 3 anos
tes realizamcontrolede saúdeambulâtorialperiódicoe recebemapoio
voÌuntáriasda LAAPAC, desdeo diagnósticodo nóduloatéo pós-opera
juntamentecom os familiaresAs. voluntáriaspr o caso,na faseterÍninal,
afetivoe ajudana aquisiçãode medicamentos,prótesesmamárias,roup
ção sobretrabaÌhosmanuais.
grupode auto-ajudadasmastectomizâdas,atravésda trocade e
entreasparticipantes de informaçãoadequada,tem como objetivos:op
expressãodos medose fantasiassobreo câncer,superaros problemasd
com a retiradada mamadoente,estimulara aderênciaao tratamentocom
procedimentos recomendações,cultivara espcrança,valorizara vida.
Antesdas reuniõesdo gmpo de auto-ajuda,as participantesreaÌi
uma hora,sobcoordenaçãodasvoluntárias,âtividadesde trabalhosma
sos,os quaissãoexpostosfora do HCPA e vendidospelaspróprias.
Eventualmente,atendendoàsnecessidadesdo gmpo,sãoconvidad
naisde saúdeparaprestarinformações dar orientaçãotécnicaàs partic
Quantoà participaçãonão-diretivada enfermeira,estaseconceitua mola
propulsorade ânimo".Uma voluntáriada LAAPAC participâdo gr
andocom informaçõesnecessáriasfacilitandoo movimentogrupal.
Foramobservadastrêsreuniõesconsecutivas,no mêsde abrilde 19
ocorrena mesmasalaondesãofeitosos trabalhosmanuaiscom as vol
cadeirassãodispostasem círculo.A minhapresençana condiçãode o
recebidacom alegriae curiosidadeE. feitaa apresentaçãonominalde tod
nadoo tempodemastectomiaA. participantecom l8 anosdecirurgiadiz,a
queestábeme dirige seuolharparaqìiatroìniciantesnogrupo.Uma deÌ
qucaindanãorealizoua extirpaçãodâ mama,estáem quimioterapia foi re
por seumédicoa participardo grupocomo umaformade preparação.
O temacentra-senosdepoimer'ìtosdasnovatas,queé o do impact
com a descobertado nóduloe a indicaçãoda cimrgia.O rnedode morre
Uma jovem senhoradiz que "estavana praia quandopercebeuo nód
imaginousercâncer".Após brevepausa,diz: "Vê comoé a vida;bronze
bonitinhae logo passandopor tudo isso".
O assuntoé angustiante,as veteranasdo grupoficam seolhando,e

com doisnlesesde mastectomia,levantao braçoe diz: "Eu estouassi
podialevantarosbraços,nemfazerquasenadapor causadador; fiz osex
estoubem melhor".Várias senhoraslevantame movimentamos braç
paÍaasnovatas,como sedissessem"vão melhorar",dandouma mensage
ça.A enfermeiracomplementacominformaçõestécnicassobreascomplic
muscularesda mastectomia, impoÍtânciada práticadosexercícios a v das
quejá passarampor essafasedo tretamentoE. mlrclnte o alíviod
expressoem tímidossorrisosao saberdo tempode sobrevidadasoutras

das relaçõespessoaisUma. delas assinalaparaa novataem quimio
aindanão rcalizoua mastectomiaque,sabendocomo serádepois,suado e
queterátodoo apoiono grupo.E enfatiza:"O grupoó maravilhoso"C.

mentoda cabeçae sorrisos,todasâs veteranasconcordam.Aqui ob
fenômenodastrêsanças: semelhança,esperança confiança.
COÀIOl RABALHAITIOSCOM GRUPOS ' 11.

grupo silenciaem atitudereflexiva,a enfermeìraestimulaa verbalizaç


I :: "Vamoslá, pessoal"Uma. iniciacontandoquejá sabiado diagnósticode câncerpe
) :: mamografiaDecidiu.fazerconsultaa outroserviçoparaa cirurgia.Entregouos ex
la:- mesparao doutor,queolhou,chamououtromédicoe ficaramafastados,cochich do.
I :-' Ela disse:"Doutor,não é precisocochichar,eu sei que tenhocâncer,o sen podefalar
:::: alto".Aceitoua indicaçãociúrgica e no dia seguìntefoi operadae "Aq estou,no
]:: grupo,e bem". Com rápidomovimentoaproximaa mãodo seio"que es com
l - :: -
prótese".Uma observação:todasâsmastectomizâdaspresentesusamuma próte
que,na maioria,é confeccionadapelasvoluntáriasem panocom painço(grãos
umagramínea,alimentoparaaves),e que,pelavisualização,nãoseconsegueiden
ficar qual a mama ausente.
Cadauma procuraverbalizaro impactocom a descobertado câncer,uma doe
i!. ça potencialmentefatal, e com a extirpaçãodo seìo- órgão sensívele carregado
afeto -, acompanhadada fantasia da perda do sentimentode feminilidade. Um
.:::: senhoramastectomizadadiz "que ficou torta, sem o peso da mama e, por vez
ficavasegurandono local". começoua usara prótesede painçomelhorou Quando
postura e fica de sutiã o tempo todo, tirando apenaspara o banho. Outra diz q
dormecom a prótese,sentindo-semelhordasdoresnascostasTodas.valorizamo u
i: . -
da prótesee os exercíciospara movimentaro braço do ìadooperado.Uma relata q
'lá antesda cirurgiaficava treinandoos exercíciospara diminuir o edema,a d
Ltl:
t\: . -
ensinaa gemer,por isso os cuidadoscom a saúde". Quandosentequalquermal-es
no tórax,ela consultano ambulatórioOutra.senhoracompleta:"E o medo do câ
cer".
Na semanaseguinte,é indagadoà novata,aindanão operada,como estava.El
ì -- , sorrindo,diz: "Melhorei,nãoseicomo".SorrisosgeraisUma. diz: "É porqueestí grupo,
ouvindo e falando sobrea doença,o tratamentoe o apoio queuma dá pra out
--
e:.:: recebemosaqui no grupo". Uma completa: "Todas passamigual". Uma senh com
dois anosde mastectomiasobcontrolediz queaindalembrada notíciado dia
ra - i
nóstico:"Ficavame perguntando,por queeu?".Diz que sente"um chororecoÌh ao
falar do câncer". A do lado faz movimentos para cima com os ombros e di "Deixa
pra lá, não fala mais nisso,procuralembraro quejá conseguistedepois
mastectomia".Uma delas, chamando-apelo nome, de forma afetiva, dizlhe: "T
Ì.ir.J r
foste empurradapelo grupo e melhoraste;não se pode esquecerdo câncer porq
todosos dias,no banhoe ao fazerexeÍcícios,agentelembra,masvai sevivendo
) >: ..
O grupo como que emergede uma atitude melancólica ao lidar com a du
realidadeda doençae valorizao permanecervivo. Logo, uma senhoracontacomo f
Elf,r .
parafreqüentara piscinado clube com os familiares.Já sai de casacom a prótesee
. nt . _
maiô de /ycra colantepor baixo da roupa.No clube não precisatrocar,pois "ningué
s3r:
precisasaber".Após sair da piscina,tranca-seno banheiroe troca de roupa.Uma d
participântesdiz que sentevergonhae que poderia ter uma piscina só delas.Tal pr
3tJn-
posiçãonão é aceitapor todas,que verbalizamsuadiscordânciaparaa proponente
SIa(.ì-
forma afetiva e convincente.É dito que,seassimfor, aumentao preconceitoe refor
':Ìtiì-i.
o medo do câncer.
No final de cada reunião é a hora da oração. A voluntária abre uma pági
sgarc
aleatóriado livro de precese passaparauma dassenhorasfazer a leitura de
qu:
otimism e de esperançaDiversas.senhorasusamos adomosde pulseiras,as
,ladtr
chamadasen géticas.
xo\i -
Na última reunião observada,predominou o tema da vulnerabilidadehuma
Ìos 0
com a doença.Uma senhorarelata a mudançaocorrida em si apóso diagnósticod
câncere a mastectomia:"Sentiquenãosomostãofortescomopensamosiagoraac
as mãos,direcionadaa todasdo círculo diz: "Todos somosiguais e frágeis;
nos leva a pensarno que somos,e o grupo é a prática". Conelacionei a e
"didática da vida", utilizada no grupo das artríticas,com a das mastectom
grupo é a prática".

Grupo de Auto-ajuda EncontroPositivo


Encontro Positivo é um grupo de auto-ajudapera pessoasinfectadascom
da AIDS, que funciona desdenovembrode 1995no GAPA - Porto Alegre,
grupo é coordenadopor três mulheres infectaras que foram treinadaspel
técnicado GAPA e que recebemassessoriade uma psicóloga.
O GAPA é uma instituição civil, sem fins lucrativos, que funciona
própria. O trabalhotécnico é voluntário.Atravésde plantáo de aconselham
ta domiciliar, serviço de apoio terapêutico- individual e em grupo - e de
auto-ajuda,presta-seapoio às pessoasinfectadasou com a doençamanifes
As reuniõesdo grupo de auto-ajuda,de periodicidadesemanale com du de
duração,ocorrem numa graÍìdesalado GAPA, às quartas-feirasà noite.
Antes da observaçãodas reuniões,foi feito um contatocon a psicólo
soradascoordenadoras,expondo-seos motivos e soli:itioa a permissãopar
ca.quefoi prontamenteaceitapor todos.
Na primeira reuniãoobservada,em abril de 1996,as 20 pessoasparticip
grupo foram divididas, por iniciativa de uma das coordenadoras,em dois s com
temáticasdiferentes:tratamentoaltemativo e boas-vindasaos novos p Fiquei
observandoo subgrupode tratamentoalternativo,constituídopor 12 Nas
extremidadesdo sâlão estavamos dois subgruposseparadose em cí
coordenadorainiciou, perguntandonominalmente,para cadaum, o que te berto
e executadocomo tratamentoaltemativo para a infecção.Um rapaz re
esteveem outro Estado,fazendo consultascom uma químicae comprou chás
com ervas de açãoterapêutica.Todos ouvem atentamenteEle. esclar
lhesquantoàficha preenchida,os depoimentosde "cura" e o nomede pessoa
das no meio artísticoque lá estiverambuscandoajudà.Uns indagamsobre c
lidadee segurança, outrosdizem que 'ludo é válido fazer". Asopiniões div
fluem, um não esperao outro terminar de falar. A coordenadoramaneja,
silêncio,e que deixem o falanteconcluir por ser importanteparatodos.Outro
dizendo da importânciada alimentaçãonatural,evitandocamesvermelhas
dos.Outro complementaqueatividadeao ar livre é bom. Novamenteocorrem
sasparalelas,a coordenadoradiz: "Pessoal,vamos ouvir o colega". Outro c há 4
anossabiaque estavainfectado,quandoseuparceirofaleceude AIDS.
1 ano e meio para fazer o exame.Quandofoi buscaro resultado,a médica p se
estavaacompanhado.Respondeuà médica: "Não preciso, já sei do re
Iniciou o AZT, interrompendopor passarmal com enjôose por voltar a tom
ja. Depois de um tempo,reiniciou a medicaçãoe a alimentaçãonatural.Outr
mente, valoriza o uso dos naturais,tomando a vida mais saudável.
De repente,um breve silêncio,e um honem diz que "O vírus veiopar
Logo, uma mulher não concorda.As conversasparalelasretomam, o clima
cursivo. A coordenadoramaneja,em tom de voz mais alto, dizendo:"Deixa
de suas coisas". Uma mulher diz: "São tuas culpas". Outro diz: "O sexo
bom". Risosgerais,opiniõesdiversas,movimentosde toquese caríciasafeti
coMorRAaALHAMoscur u*u"ur . LL5

os que estãosentadosjuntos. A coordenadoraretoma a palavra,estimulandoos de-


mais a falarem. O que primeiro relatouda viagem, buscandoremédioscom a quími-
ca, diz de forma bombástica:"O vírus é intrusivo na minha vida, ele causouestragos
como um alien saindode dentro". Encostaa mão no peito e afasta,dando a idéia de
perfuração torácica. Outro logo complementa:"Ele entrou sem ser chamado". As
pessoasmovimentam-sena cadeira,a forma dramáticade expressara infecçãovirótica
mobiliza grandeansiedade,como uma morte anunciada.A coordenadoradiz que a
cabeça(aludindoao psiquismo)ajudaou prejudicaa doença.Vários relatamexperiên-
cias de atendimentopsicoterápícoe uso de técnicasaltemativas. Com a mudança
temática,a ansiedadegrupal vai sereduzindo.E comentadaa buscade alívio e o uso
de terapiaaltemativa.Reconheçonaspessoasasmesmaspulseirasusadaspelos inte-
grantesdos outrosgruposde auto-ajudae um anelchamadoAtlanta, tambémconside-
jovem
rado energético.No breve intervalo, é oferecidocafé e chá. Uma participante,
para auxiliar seu sustento,traz docespara vender.
Os dois subgruposreúnem-seem círculo maior,sendofeita a apresentaçãonomi-
nal e mencionadoo tempo de infecção do vírus. Os novatosficam esperançosospelo
tempo longo de algunspresentesna reunião.O propósito destesegundomomento é a
trocadosassuntosdiscutidosanteriormenteUm. dosnovatosà reuniãorelata dificulda-
des pessoaisocorridasapós a infecção, perdendoseu empregoe tendo de mudar de
cidade. O seu relato deixa todos comovidos.Alguns se aproximam dos outros e se
tocam nas mãos,nos cabelos,e cochicham.A coordenadorado outro subgrupodiz:
"Pessoal,ele (o que relatou o efeito desestruturador)estáde aniversário",e inicia a
cantare baterpalmascom o "parabénsa você".O aniversariantechora,sendoacalenta-
do. E retomadoo temada influênciado estadoemocionalna infecção.A coordenado-ra
conta sua experiência com os tratamentose, com as mãos direcionadaspara si
própria, verbalizacalmamente:"Eu digo pra ele (o vírus), te aquieta".
Na reunião seguinteestáescrito no quadro de avisos: Como contar?Por quê?
Quando?Grupo de novos: recepção.Negociaçãoda camisinha.
grupo inicia no horário, com 10 pessoaspresentes,e a coordenadoralê os
assuntosagendadosOcorre. uma discussãosobrea responsabilidadeno uso da cami-
sinha e corno contar ao novo parceiro que a pessoaestá infectada.Todos emitem
opiniões diversas.Um diz, com movimentos de mãos, que está impotente e ficou
desinteressadosexualmenteapós saberda infecção. Vários sorrisose comentários
paralelos.A coordenadorainÍerrompe um comentáriopomográfico, dizendo: "Te
aquieta".O assuntoda transmissãoretoma. Alguém levantaa questãode "quem diz que
tem que dizer? Onde estáescrito?".Uma pessoaafirma que transarcom estranho
com camisinha, a responsabilidadeé de todos,de nós infectadose dos outros". A
coordenadoralembra a importância de evitar a reinfecção, que é prejudicial. Em
seguida,é feito o comentáriode que "o pau é esponja",pegandotudo. A coordenado-
ra lembra dos ferimentos,pelo atrito das relações,como porta de entradado vírus.
Em tom jocoso, outro diz que "tem de usar camisinhano dedo, na língua,para se
proteger". Ocorremrisos, a coordenadoraaguardae retoma aos temasagendadosO.
grupofaz comentáriossobrea atitudepreconceituosa de estigmasocialcom a AIDS.
"Quando é homem, é bicha; se mulher, é drogada ou prostituta". Os_participantes
relatam situaçõesde rechaçoocorridascom eles no convívio social. E relatadoque
um membro do grupo teve episódiodiarréico, com desidratação, foi conduzidopara
hospitalizaçãoOs. participantesficam pensativose procuramsaberdetalhes,interessa-
dos em ajudar.Em seguida,é assinaladoque uma participantegrávida necessitade
enxoval para a criança. Vários se dispõem a trazer ob.jetose roupas. O grupo se
anima de novo. Alguém dá notíciasde outros GAPAs. São mostradasreportagens
116 . ZMERMAN&osoRlo

com atitudesde militância dos direitos para todos.É sugerida a confecçãode


ca tas do Encontro Positivo e o que pode ser escrito.Uma pessoasugereum
logo a expressão"AIDS, Amor, Rebeldia,Aceitação". A coordenadorapropõe,
e aceitam,trazeras sugestõesde logotipos na próxima reunião.
Observoque uma das três coordenadorasanotanum cademo o nome
dos cipantese os assuntosdebatidoscom sugestões opiniões.
Finalizando, uma das coordenadorasinforma a alteração da data da pró
reunião,devido ao uso da sala para treinamentodo voluntariadodo GAPA. Ta
avisa que na próxima reunião do grupo será realizadauma palestrasobrenovo
dicamentos.A coordenadoraenfatiza para todos os presentesque, depende
necessidade interessedo grupo EncontroPositivo, são convidadosprofission
saúdepara realizarpalestraseducativase informativas.

COMENTÁRIOS DAS OBSERVACÕES


Os gmpos dos pacientesartríticos,mulheresmastectomizadas soro-vos
para o HIV satisfazemas característicasnecessáriasda auto-ajuda:são de
mútuo e educacional,a liderançaemergeentre os pârticipantescom a aceita
todos,os membrossãovoluntários,nãotêm interessepecuniário,procuramcresc
to pessoale têm caráteranônimo e confidencial.
A sugestãoé o pontocomumdosgruposde auto-ajuda,emergindodosfen
nos identificatóriosentre seusmembrose da força de coesãogrupal dos asse
dos.
Na buscado alívio do efeito desestruturador,causadopelo evento traum
da doençae seutratamento,o compartilharexperiênciasentre seushomogêneo
fator importante.
As coordenadoÍase osparticipantesdo grupo procuram fazer com q
demais, em especial os novatos, sintam-seconfortáveis, aceitos e estimula
verbalizarseusanseios.
Nos três grupos de auto-ajudaobservados,além da aderênciaao trata
especializado,todos utilizam, com uma maior ou menor crença,o recurso má
sugestivo,paraalívio do seusofrimenlo.
No grupo dos artíticos e mastectomizadasé valorizadoum momentod
ditação,com a leitura de precese oraçõesreligiosas.
Poderíamosdizerque o mecanismobásico suportivo no grupo de auto-
o fenômeno da sugestão,que procura "colocar uma pedra em cima", abafa
trama conflitiva individual, focalizandoa situaçãodesestruturadoraatual e a p
acometidajuntamente com todos: "Todos estão no mesmo barco". A lingua
única e familiar, buscandoo crescimentopessoalpor meio de aceitação,estí
apoio, porque o participanteé valorizadocomo uma pessoahumanacom
potencialidadespara enfrentaro efeito desestruturadordo transtomo acometi si
e com o apoiomútuo e solidariedadedos participantesdo gÍ1ÌpoEmbora.serec

ça os benefíciosdosgruposde auto-ajuda,estestêm caráteradaptatìvoe não-re


tivos.
Tialvezpudéssemosrefletir sobreasmensagensemergentesnosgruposob dos
- "didática da vida" (artríticos),"práticada vida" (mastectomizadas) "o v intrusivo"
(EncontroPositivo) -, dizendoque todos os eventostraumáticosqu
COMOTRABALHAMOSCOMCRUPOS . 117

samlevar ao desequilíbriosãointrusivosà homeostase à negaçãoda morte. A práti-


ca da vida é não viver preconceituosamente:Todos sãofrágeis e iguais como pesso
as,e a "didáticada vida" é o convívio humanoatravésda palavra,na buscado
entendi mento e aceitaçãodo "como ser,como estar", reconhecendoas
diferençasinevitá-veis, mas sob o prisma do respeitomútuo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ZIMERMAN,D.E. Fundamentosbásìcosdasgrupoterapias,PofioAlegre:ArtesMédicas,1993.
ZUKERFELD,R. Áctobulímico,cuerpoy terceratópica.BuenosAires:Ricardovergara,1992.
ROOTES,L .E.t AANES,D.L. Á conceptüal understandíngself-helpgroups:hospit
Írameworkfor
and communitypsychiaÍtc,washington,43(4):3'19-81,1992.

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T2
ComoAgem os
Grupos Terapêuticos
DAVIDE. ZIMERMAN

Em todo e qualquer campo grupal, sempreexiste a presençasimultâneade fatore


disruptivos e coesivos,harmônicose desarmônicos,da mesma forma que também
sempreestãopresentes,de modo concomitante,elementosconscientese também o
inconscientes,estesúltimos de aparecimentomanifestoou subjacente.
Cabeuma analogiacomuma orquestraem queosdiversosinstrumentos,execut
dos pelosrespectivosmúsicose sob a direçãode um mâestro,tantopodem interpreta
suaspartiturasem perfeita sintonia- quandoentão produzemum generalizadoesta
do de bem-estar- como podem entrar em desarmoniapela desafinaçãode algum
executanteou por falhasdo maestro,e todo conjunto pode desandar.
Da mesma forma, de acordo com o tipo e a finalidade do grupo constituíd
paÍicularmentecom a eficácia da direçãodo coordenadordo grupo em pauta,pode
ser construídosdistintos ananjos entre osfatoressadiose os patológicosde cadaum
do grupo como uma totalidade.Então, do que dependeum grupo para seu destin
ser de crescimento,estagnaçãoou de extinção?Fundamentalmente,ele dependedo
melhor ou pior aproveitamentoda potencialidadedos múltiplos vetores que faze
parteintegrantedo campo grupalístico,sendoque,utilizando a mesmametáforamu
sical,alguns"instrumentos"sãomaisúteis e mais "executados"em algumas"compo
sições grupais", enquantooutras composiçõesexigirão que outros instrumentoss
sobressaiam,emboratodoselesestejamvirtualmentepresentes conjugadosentresi
Este capítulovai se restringir a abordaros fatoresinstrumentaisdos grupos qu
estãoprecipuamentevoltadospara algumafinalidade terapêutica,quer estasejapró
pria de gruposoperativos,grupoterapialato senso,ou no sentidoestritode
grupoterap psicanalítica.
Antes de mais nada, é útil enfatizar que nem tudo que se passanum camp
grupal terapêuticodeveficar limitado à buscae à resoluçãode conflitos. O ser huma
no tem uma tendênciainatapara querersaber,criar, brincaq cuÍir prazerese lazere e
também para filosofar [vem dos étimos gregospàllos (amigo de) + sopàas(conhe
cimentos)], sob uma forma que está presenteem todasas culhrrashumanasconheci
das,que é a de conhecerde onde ele veio e para onde vai, o que ele é, por que e
par que vive; em resumo,todo indivíduo no fundoquer saberquem ele é, e qual é o
se papel no contexto grupal, social ou universalem que estáinserido.
Como esquemadidático de exposição,segueuma apresentaçãodos principai
fatoresque conconem parauma açãode coesão,harmoniae integração,com vistas
120 . zrvenunna osonro

um crescimentomental,ou, confolme a finalidade do grupo, a possibilidadescur


vas.

Setting. A organizaçãode um enquadreatravésda combinaçãode regrase n


mas que, emborapossamter algumaflexibilidade, devem ser cumpridase prese
das ao máximo vai muito além de uma necessidadenormativa unicamentede
ord prática. A açãoterapêuticado settlng consiste no fato de que ele estabelece:
.
Uma necessáriadelimitaçãoe hierarquiados indivíduosentresi e, principalm
te, a desejáveldistância que deve ficar mantida entre eles e o grupoterape
Esseaspectoé particularmenterelevantequandosetratade um grupo com pac
tesbastanteregressivos,pois elestêm tendênciaauma simbióticaindiscrimina
entreo "eu" e o "outro", e, por conseguinte,a noçãode limites estámuito prej
cada.
.
enquadre,estabelecidoe mantido, representaa criação de um novo esp
onde podem ser reexperímentadastanto as antigasvivênciasemocionaisque
ram mal resolvidascomo as novas experiênciasemocionais que o grupo
propiciando.
. Um grupo que permanececoesofuncionacomo sendouma nova família,e, es
cialmenteem gruposcom pacientesdepressivos,essefato representaa recons
ção e a restauraçãoda família originalque,nessespacientes,coshrmaestarinte
lizada em cadaum delescomo estandodispersae destruída.
. Em gruposcomo os de "auto-ajuda",a homogeneidadedos participantesfavo
ce que cadaum assumaa suadoença,ou limitação, com menor culpa e vergo
e com abrandamentoda terrível sensaçãode se sentir um marginal diante
pessoas"normais".
. A importânciado setting consisteno fato de que ele é um valioso "continen
das necessidades angústiasde todos.

Continente. Bion nos ensinou que em qualquer indivíduo, ou grupo, há


"conteúdo", representadopelo seucontingentede necessidades,angústias,emoç
ansiedades,defesas,etc., e, portanto,necessitade um "continente" que possaco
referido conteúdo (a palavra continentederiva de continei, que, em latim, q dizer
conter).Assim, desdeque nasce,o ser humanonecessitavitalmente que a
exerçaadequadamenteessafunçãode acolher,reterdurantealgumtempo,descodif
e dar um significado,um sentidoe um nome àsexperiênciasemocionaisvividas p
criança.
Na situaçãode terapia individual, cabe ao psicoterapeutaexerceressafunç
nasgrupoterapias,aconteceum fato novo: nãoé somenteo grupoterapeutaqueexe
estepapel,porém a própria gestaltgrupal como uma abstraçãofunciona com a a
terapêuticade servir de continentepara cada um em separado,e para a coesã todo
grupal.Notadamentecom pacientesbastanteregressivos(psicóticos,borderl
psicossomáticos,regressivosgraves,drogadictos,etc.), essafunção do grupo co um
novo continenteadquireuma importância de primeira grandeza.
A função "continente" antes referida também é conhecida como holdi
(conceituaçãode Winnicott), e o próprio Bíon também a chamava "capacidad
rêveie" e "função alfa". Esta última alude mais especificamenteao exercíci
funções que são fundamentaispara a estruturaçãodo psiquismo da criança e
devem servir como um modelo para o filho. E útil lembrar que, especialmentec
pacientesregressivos,como os anteriormentemencionados, função de um
grupoterapeutaéisomórficacom a doscuidadosmâtemaisoriginaiscom os filhos.

Modelo de identiÍìcaçãoA. importânciada mencionada"funçãoalfa'consi te no


fatode queumacriancasomentepoderádesenvolvercertascapacidadesde ego sea
suamãe (no sentidogenéricodessapalavra)asutilizoucom o filho. Assim.se mãenão
possuirumacapacidadede,porexemplo,serum adequadocontinenteceni. menteo
filho tambémnão possuiráessamesmacapacidadeO. mesmovale para maneirade
percebere lidar com os acontecimentosda vida, a forma de pensara
experiênciasemocionais,o tipo de significaçãoque emprestaaosfatos cotidianos,etc
Na situaçãode um campogrupal, é ao grupoterapeutaque cabeessafunção alfa de
modo que, indo muito além das interpretaçõespropriamenteditas, sob uma form
insensível,atotalidadedo grupo vai absorvendoo "jeito"e semodelandopela manei ra
como o terapeutaencaraas angústias,dúvidas, incertezas;de como enfrenta o conflitos;
qual a sua forma de se relacionar,comunìcar e, muito especialmente,d comoele
raciocinae pensaasexperiênciasemocionaisquesepassamna vida inter na, e externa,do
grupo.
Não é unicamente o grupoterapeutaque funciona como um indispensávelmo
delo de identificação;os própriospacientestambémpodem servircomo modelo uns
para os outros,de determinadosaspectos.
Ainda em relaçãoao processoda identificação,deve seracrescidoo fato de
que
em grau maior ou menor, todo indivíduoé portador de
identificaçõespatógenasqu ficam bemevidenciadasno cursodo gmpo.Nessecaso,a
maneiracomo o gnìpoag terapeuticamenteconsistena possibilidadede promover
des-identiJìcações, assi abrir um espaçona mente para neo-ìdentíficaçõemais.r
sadiase que favoreçam construçãodo sentimentode identidade.
essencialidadeda função de o terapeutaservir como um novo modelo d
identificação vale para qualquergrupo, ressalvandoas devidasdiferençasentre cad
um deles.
grupal
Função de espelho,Comumenteos autoresse referem ao campo com
jogo
uma "galeria de espelhos",a qual é resultantede um intenso e recíproco d
poi
identificaçõesprojetivas e introjetivas.Trata-sede uma expressãomuito feliz,
ela traduz a ação terapêuticado grupo que se processaatravésda possibilidaded
cada um se mirar e se refletir nos outros e, especialmente,de poder reconhecern
espelhodosoutrosaspectosseusqueestãonegadosem si próprio.Aliás,estafunçã de
reconhecimenta,se bem percebidae trabalhadapelo grupoterapeuta,nas quatr
acepçõesque seguem,exerceumadecididaaçãoterapêutìca,por permitirque:

. Cada um re-conlteça(volte a conhecer)aquilo que está esquecido ou algum


outr:Ìformade ocultamentoem si mesmo.
. Reconheçaao oulro como uma pessoaautônomae separadadele.
. Ser reconhecidoao outro (desenvolvimentodo sentimentode consideraçãoe d
gratidão).
. indivíduoreconheçaque,sobasmaisdiferentesformas,eletem uma necessida
vital de vir a ser reconhecidopeLosoutros.
. A conjugaçãode todosessesaspectosajudaa promovera passagemde um
estad de narcisismooara o de rm sociaL-ismo.
122 . zIlle*"or a oso*to

Sociabilização. Uma das característicasque diferencia a terapia indi


grïpal é que estaúltima oportunizaexcelentescondìçõesdeos indivíduosint
de uma forma menosegoísticaedefensiva,como comumenteacontece.Em
com pacientesregressivos,exageradamentedefensivose, por issomesmo
mesmados,quereÌantesou polemizadores,abre-seuma possibilidadede co
novosvínculos fundadosem uma mutualidadede confiânça,respeito,solida
amizade,inclusive com a eventualidadede alguns se tornaremamigos, me
da restritasituaçãogrupal.Tambémcontribuiparao desenvolvimentoda soci
fato de sesentiremcompreendidosum pelo outro em razãode compartilh
mesmalinguagem,o que facilita o importanteprocessoda comunicação.

Comunicação. Cabe repetir a afirmativa de que "o grandemal da hu


o problema do mal-entendido".Um dos fatores que melhor respondeà
"Como agem os grupos terapêuticos?"é justamente a oportunidadeque
grupal propicia para observare trabalharcom a patologia da comunicaçã
pessoasde um grupoqualquer.E no campoda terapiacom família- mais not
na terapiadecasal- que,com maiorevidência,manifestam-seos disnirbios
nicação:são pessoasque pensamque estãodialogando,quando,na verda
mais habitualmenteocorre é que há uma surdezentreelas, sendoque a pre
maior de cadaum do casalé a de fazer prevaleceras suastesesprévias e d
suaverdadesobreo outro.
Uma grupoterapiapropicia que o terapeutatrabalheno sentidode os in
perceberemque podem estar ditorcendo a intenção das mensagensprovi
outrose que tambémpodemestaremprestandosignificadosque não exis
mesmamaneira,o campo grupal estabeleceuma excelenteoportunidadep
lhar com aseventuaisformas complicadasde cadaum transmitir aquilo que
dizer ao outro, e isso se manifestacom freqüêncianuma gamaque vai da ti
um à arrogânciado outro, de um membro que funciona como um silencio
maz ao do outro que participa como monopolizadorcrônico, etc.
Particularmentenos grïpos homogêneos,como os de auto-ajuda,u
terapêuticoque deve ser valorizado é o fato de compartilharemuma lingu
mum, o quefaz com quemutuamentesesintamacolhidos,respeitadose, s
compreendidos.
Tambémé possívelevidenciarnos distintos camposgrupaisa presen forma
de comunicaçãoque podepassardespercebida,pois ela se processaa uma
linguagemnão-verbal,atravésde manifestaçõesindiretas,como, por
ondesentam,comovestem,sinaissutisde impaciência,enfadoou encanta
momentosem que outros estiveremfalando, assim como o surgimento d
individuaisou coletivos,etc.A descodificaçãodessalinguagemnão-verb
transformaçãoem linguagem verbal é uma ação terapêuticagrupal importa
Um aspectoque mereceuma atençãoespeciaì,notadamentepor
grupoterapeutade um grupodirigido à aquisiçãode inslghr,é o destinoqueos
dão às interpretaçóesque ouvem, à forma como os participantesde qualq
terapêuticose Iigam às intervençõesdo coordenador.

Intervençõesdo grupoterapeuta. O termo "interpretação",no seusen


to, estáconsagradocomo sendode uso exclusivo do referencialpsicanalí
essarazãoeu prefiro, nestecapítulo,empregarotermo mais genérico"interv
que é mais abrangente,de forma a englobar outras participaçõesve
grupoterapeutaque não só as clássicasinterpretaçõestransferenctals.
Ninguémcontestaque,nassituaçõespsicanalíticasquevisamfundamenta
aquisiçãodeinslgàtdasfantasiase conflitos inconscientes,tambémno campo o
uso das interpretações- muito particularmenteaquelasque revelam o uso d
tificações projetivas deuns dentro dosoutros-é consideradoo instrumentom
'e::, de acessoao inconscientedos indivíduos e do todogrupal. Não obstante,a int
le: tação não é o único instrumentocurativo. Num grupo, também agem como f
terapèuticosas intervençõesdo grupoterapeulaque propiciem:
\^::
tr]l: . Perguntas,não as interrogatórias,mas sim aquelas que provÕquem refl
com o estabelecimentode correlações .Assinalamentosde contradiçõese fal
ções,
da oposiçãoentre o real e o ilusório, paraque o grupo encontreum ca
paÍao importantíssimoaspectodo amor às verdades.Aberturade novos v
tni-: de observaçãodos mesmosfatos,com vistasa possibilitarque as pess
nP-- grupo mudemuma atituderadical e dogmáticapor uma outra mais flexível
. novas altemativasde oosicionamento.
:nla É recomendávelque o grupoterapeutanão perca de vista, em sua abor
mì.r- interpretativa,que! para todo lado infantil do grupo que ele estejaacent
também existe a contraparteadulta,e vice-versa;todo lado agressivo-de
çã.- não exclui o amoroso-construtivo,e vice-versa;que subjacentesà autod
or: existem potencialidades e capacidadesesperandoser reconhecidas,resga

. descobeÍasE. assimpor diante.


uos Ganhamuma crescenteimportânciacomo fator de açãoterapêutica as int
do: ções do terapeutadirigidas às funçõesdo ego conscientedos pacientes.
D: essas,vale enfatizar a importância da capacidadepaÍa pensar as experi
üa- emocionaise, a partir daí, conseguirverbalizá-las,e com isso se evita
nde emoçõesse expressempor formas primitivas de comunicação,como os a
rd . assomatizações,os bloqueiosde aprendizado,etc.Nestecontexto,podemo
Ìtu- derar como sendoum eficaz agenteterapêutico,particularmenteem gÌrpo
pacientesbastanteregressivos,queo grupoterapeuta,duranteaIgumtempo,e
juízo
)nte te ao grupo algumasdas suasfunçõesegóicas (pensar,conheceq críti
co- . continente,etc.) que nelesainda não estãosuficientementedesenvolvida
rdo. Faz parteda função interpretativado grupoterapeutaque,diante de certos
acontecimentos,ele confira significadosdiferentesdaquelesque as pess
rma grupocomumentevivenciamsob a forma de crendices,tabus,mitos (e ri
;de acima de tudo, de concepçõeserrôneas,tudo issocomo uma resultantedas
Plo. . ficaçõesinoculadaspelodiscursoeducativodos pais.
nos Uma outra vantagemevidenteproporcionadapela grupoterapiaconsisten
Ìgs, de que ela faculta a observação"ao vivo e a cores" do desempenhodos
sua que cadaum assumedentro do contextogÍupal.

do Papéis. Conceitualmente,o termo "papel" é sinônimo da palavra"rol', por


rÌes sua vez, deriva etimologicamentede rotuLus:aqvilo que um ator deve rec
lpo encenaçãoteatral.Isso pressupóea existênciade um texto - uma estruturana ator
vai ocuparum certo lugar e desempenhoque não é próprio dele,já que o re texto
também pode ser igualmenterecitadopor outros.Essametáforavale prin mente
para aquelesindivíduos, ougrupos,que agem semprecumprindo os m papéis,de
por uma forma compulsoriamenteestereotipadaEm. resumo,essefato d
fenômenopeloqual,em grause modosdistintos,todoindivíduoestásujeìt ordem
do de determinaçõesintemase desconhecidas,sob a forma de manda
proibições,expectativas,crençasilusóriase papéis a seremcumpridos.
124 . z*""ror a osonto

Tambémnesseaspectoparticular,o funcionamentode um grupo represe


significativa vantagemcomo potencial terapêutico,pois há uma riqueza eno
combinaçõesno desempenhode papéise ocupaçãode posiçõesque favoreceo lho
do grupoterapeutana tarefa de obtençãode mudançascaracterológicas forma, é
fácil perceberquandosistematicamentecabea um determinadopacie
"bonzinho" do grupo, a um outro assumir o papel de porta-voz da agre
todos, a um terceiro funcionar como o bode expiatório de tudo aquilo que os
não toleram perceberem si mesmos,a um quarto agir como um "atuador" do
jos inconfessadosdos demais,e assimpor diante.A experiênciados grupoter
confirma que os papéis desempenhadosno grupo, qual uma miniatura do
mundo,reproduzemos mesmospapéisque cadaum costumaassumirna suavid
Os terapeutasde casale de família trabalhamde forma consistentee prio
em tomo dos problemaspertinentesà delegaçãoe assunçãode papéis,e as
po que ficam distribuídasentreestesintimamentevinculadosentre si. Assim,
pa em um único exemplo, é comum que um casalevidencieque um deles se
co como o submetedor,sádico,enquantoo outro do par funciona como o
subm masoquista,sendo que essespapéis podem ficar
permanentementefixos, o uma gangoÌra,ser altemantes.Na situaçãode
terapia de família, vale enfa exemplo do chamado"paciente identificado",
que consisteno fato de um m geralmenteo mais frágil e regressivodo grupo
familiar, funcionar como dep dosproblemasemocionaisdosdemats.
De um modo geral,pode-seafirmar que um bom critério para avaliar a maisou
menosexitosadeum grupoé quando,respectivamente,ospapéisorigina
assumidosficam cambiantese sofrem transformações,ou se, pelo contrário, mantêm
inalterados.Dentre as transformaçõesdesejáveisvale destacaro desenvol to de uma
capacidadede solidariedadecoletiva,no lugar de um egoísmocentra

Possibilidade para reparações. A obtençãode uma solidariedadeentre


como antesreferido,constitui-senum agenteterapêuticopeculiardasterapiasg
PaÍicularmenteem gruposcompostospor pacientesbastanteregredidos,com
problemasdecorrentesdaspulsõesagressivasmal-elaboradase, por conseguin
mente desestruturantesdo psiquismo, a terapia grupal propicia uma oportu
ímpar,qual seja,a de um paciente,de alguma forma, poder ajudar a um outro
Esteúltimo aspectoageterapeuticamentenão só porqueauxilia o indivíd
reconhecer,e ser reconhecidopelos outros,como alguém que é útil, capaze,
d pertencenteao grupo,como tambémpossibilitao exercícioda importantíssim
dade de fazer reparaçõesaos danosque na realidadecometeramcontra os o
contra si, ou que, devido à interferênciadas fantasiassádico-destrutivas,eles
nam ter cometido contra importantesobjetosdo passadoe do presente.
necessáriofrisar que essafunção de reparare auxiliar os companhe
grupo não deve ser confundida com uma bondade samaritana.Para ser e
estruturante,ela deve vir acompanhadade outros elementospróprios daquil
escolakleinianadenomina"posição depressiva",ou seja,um reconhecimento
cela de responsabilidade de eventuaisculpaspelosacontecimentospâssado
de algumaforma se reproduzemno seugrupo, assimcomo pelo desenvolvim
sentimentosde consideraçãoe de preocupaçãopelo outro.
Não é samaritanismo,até porqueé desejávelque as pessoasdo grupo se
tam seremfrancasumas com as outras,e isso muitas vezesimplica uma atm
grupal de aparênciaagressiva.Cabe ao coordenadordo grupo não ficar as com
as manifestaçõesde franquezaagressivae, pelo contrário, servir como u
IT: delo da diferençaque deve existir entreagressividade(construtiva,a serviço de
sinceridade,leaÌdadee respeitopelo ovlro) e agressão,destrutiva (com o prop
de denegrighumilhar,etc.).A experiênciaclínicacomprovao quantocontribu o
crescimentomentala oportunidadequeum grupopropiciaparaaspessoassen
uma liberdadeparaseremverdadeirasconsigoe com os outros,semque daíresu
danosque não possamser reparados.

Função psicanalítica da personalidade, Esta expressãoé original de Bi


alude ao fato de ser inerenteao ser humanouma sadiacuriosidadeepistemofíli
direçãoao conhecimentodasverdadesEssa.pulsão epistemofílica,em muitos in
duos,fica entorpecida bloqueadapelosdiversosconflitosneuróticose psicó
porém ela pode e deve ser resgatada,pois a essafunção consisteestabelecerc
xõese correlaçõesentre realidadee fantasia,conscientee inconsciente,fatos pre
tes e passados,pensamentos sentimentos,o que é responsabilidadedele e o q
dos outros, a parte infantil com a adulta, os elos associativosentre os vínculo
amor, ódio, conhecimentoe reconhecimento),etc. E especialmenteimportan
exercíciodessafunção psicanalíticada personalidadeque o sujeitoconsigaesta
cer a integraçãoe a elaboraçãodos insights parciais,de modo a que eles
resulte verdadeirasmudançasintemase, por conseguinte,na condutaexterior.
Em resumo,a aquisiçãodessafunção,quejá preexisteem estadolatent
indivíduos,consisteem desenvolveracapacidade, o hábito,depensarasexpe
-: cias emocionaiscotidianase conseguirextrair um aprendizadocom as mesm
Í:: necess;lrioacrescentarque essa"função psicanalítica"somenteadquirelegitimi
i- se o indivíduo puder vir a exercê-la ao longo de sua vida, principalmente ap
E:--
términode suaterapiaformal. Uma grupoterapiapropiciaa aquisiçãodessacapaci
i-^i porquantocada sujeito do grupo faz contínuasintrojeçõesde como os demais I
com os problemas,sendoque a condiçãofundamentalé a introjeçãoda
maneirac o grupoteraputaexercea suafunção psicanaÌítica.
I!
Atributos do grupoterapeuta. No curso destecapítuÌo,ficaevidenteo qu
i;.
todosos itensenumeradosparaelucidara questãode "Como agemos
E-'
grupos?"inv velmentedestacama pessoado grupoterapeutae, não custa
repetir,não unicam como a repetiçãode uma figura transferencial,mas também
lsa
como uma pessoa como um importantemodelo de identificação.

l:-'. ( Embora tenhamosfeito em outros capítulosuma suficiente valorizaçã
icondições necessáriaspara um coordenadorde gn:po terapêutico,cabe enfati
\\,
ra3 importânciaimprescindjvel dele gostar de grupo e r/o seu grupo, ser verdadeir
empa.tia,funcionar como continente, sabercommúcar,leÍ sensode humor, ná
\ qêdo de sZ envolverafetivamente- sem,no entanto,f car envolvido-,ter capa '&!&jy!zo çritico,
discriminação e de pensar as sensações experiênciasem
a maneirade cada um ser como essencialmenteé, e sobretudo
= Jnais*rgs-peitar

tenhaumacapacidadede síntese integraçdo. -


Ë: -esLmo,
t3J-
---E-'r a p-esú do grupoterãpeúta,põr si só, pelo seu verdadeirose
na-seum agenteterapêuticofundamentalnos grupos.
,J: Conquantoestecapítulo não tenhaabordadodiretamentecomo agem os o
gruposque não os terapêuticospropriamenteditos (ensino,empresas,institu
tT;.1- etc.)- até porqueisso serátratadonos artigosespecíficos- creio ser legítimo af
eI-:
que, ressalvandoas óbvias peculiaridadesde cada modalidadegrupal em sepa
todaselasconservama mesmaessâncta a mesmavalidadedo queaqui foi enfat
em relaçãoaos gruposterapêuticosem geral.
I3
GrupoterapiaPsicanalítica
DAVIDE,ZIMERMAN

Háuma longapolêmicageradorados seguintesquestionamentos: grxpoterapiainspi-radae


processadaem fundamentospsicanalíticospode serconsideradauma "psicaná-lise
verdadeira"?Ela pode serdenominada"grupanálise"?Os autoressedividem nas
respostas,desdeos grupoterapeutas,que maisdiscretamenteadvogama simplesdeno-

minação "grupoterapia",atéaquelesqueassumemcom absolutanaturalidadeacondi- ção


de grupanalistas,como sãoos reconhecidamentecompetentese sérioscolegasda
Sociedadede Grupanálisede Lisboa. Nessacontrovérsia,não levo em conta a opi-nião
francamentecontráriaem relaçãoao método grupotenípicode pretensãopsicana-lítica,
que é provinda de psicoterapeutase psicanalistas,os quais, embora muitas vezesse
trate de profissionaisrespeitáveis,nunca trabalharamcom grupos.
Não vale a pena aqui nos aprofundarmosnessetópico, pois isso exigiria uma
discussãopor caminhoscontrovertidose complicados,algo que estáfora do propósi-to
do presentecapítulo;no entanto,euparticularmenteassumoa posição de que, não
obstanteexistam clarasdiferençascom a psicanáliseindividual em diversos aspec-
tos, não me restaa menor dúvida quantoà possibilidaderelativa à obtençãode resul-
tados autenticamentepsicanalíticos,com evidentestransformaçõescaracterológicas e
estruturaisdo psiquismodo sujeito.
Por outro lado, da mesmaforma como naspsicoterapiasindividuais, tambémas
grupoterapiaspodem funcionar psicanaliticamentecom uma finalidade voltada ao
lnslgàt destinado a mudançascaracterológicas,ou podem se limitar a benefícios
terapêuticosmenospretenciosos,como o de uma simplesremoçãode sintomas;além
disso,podem objetivar à manutençãode um estadode equilíbrio(por exemplo, com
pacientespsicóticosegressos,ou borderline, elc.); ou ainda ficarem limitadas unica-
mente à buscade uma melhor adaptabilidadenas inter-relaçõeshumanasem geral.
Há um outro aspectoque necessitaser registrado:o fato da psicoterapiagrupal
ser mais barataque as individuais está longe de ser reconhecidocomo um aspecto
alviçareiroe singularmentevantajoso,pela acessibilidadeque issopoderia represen-
tar para uma ampla fatia da população.Pelo contrário, ser mais barataa desqualifica
desvaloriza,em um meio sócio-cultural como é o nosso, no qual há um apelo ao
consumismodaquilo que melhor impressioneaos outros, pelo que possasignificar
um melhor s/a/ase, certamente,por um culto à propriedadeprivada.
O que importa consignaré que importantesautorestêm manifestadoa sua posi- ção
de que não sejustifica a existênciade uma concepçãopsicanalíticaquefaça uma
separação distinção profundaentreos problemasque sepassamno indivíduo e nos
grupos. Assim, podemos mencionar,dentre outros, o nome do próprio criador da
psicanálise- vistoqueem inúmerasoportunidadesFreudafirmouque"a
individuale a socialnãodiferemem suaessência"- o de Bion, quefoi
criadore entusiastada dinâmicagrupalem basespsicanalíticas,eo de J
Dougall,que,emumaentrevistaconcedidaàrevistaGradiva(n.41,p.16
estasurpreendentedeclaração:"- .- Etive o prazerde descobrìrque as
Í grupo tocavamemaspectosda personalidadeque não eram
notadosna p individual".
Existemmuitasvariaçõesna foÍÍna,no nível e noobjetivogrupot
quaisdependemfundamentalmentedosreferenciaisteórico-técnicosadot
respectivosgrupoterapeutasNa. AméricaLatinae em círculospsicanal
gunsoutrospaísesquesofreramumanítidainfluênciakleiniana,estesúlt
renciaisfundamentaramtodaa práticagrupoteriípicade sucessivasgeraçõ
terapeutas,issoprevaleceatéa atualidade,emboravenhaseobservandou
cia à adoçãode novosmodelosde teoriae técnica.
Particularmente,aindaconservo utilizo os principaisfundament
kleiniana,no entanto,semaquelaconhecidarigidezquea caracterizouem
ca, ao mesmotempoadoteiumalinhapluralistade referenciaisprovindo
escolÍìse, acimadetudo,fui sofrendotransformaçõesna formade enten
lharpsicanaliticamentecomgÍupos,à medidaquefui aprendendoqueo me
ensinavamna clínicaprivada.
Dessaforma,incorporo-meàquelesque pensamque a problemáti
"maisalém"daconflitivaclássicadaspulsões defesas,fantasiaseansied
. sãodestrutiva culpas,etc.O aspectopredominantenaatualidadeconsist
I reconheçaem cadaindivíduoe nogrupocomoum todo,alémda habitu
dos sintomase traçoscaracterológicos,desempenhode papeis,posiçõ

I
modelos,ideais,projetos,atitudes,configuraçõesvinculares,pressõesd
exterior,semprelevandoemcontaquea subjetividadepermanentement
é inseparáveldos processosda culturae da vida socialcontemporân
algum,issoimplicasubordinar terapiapsicanalíticaàscondiçõesda cul
mas,sim, em ajudaras pessoasdo grupoa se harmonizaremcom ela,
aquisiçãode uma liberdadeinternaOs.limitesda
pessoaseestendemaos da sociedadena qualestãoinseridosA.
ideologiagrupalpreconizaqueo c movimentoinicialde "eu frentea
eles"setransformegradativamenteem " aosproblemasdo mundo".
Achei ser necessáriofazer essaintrodução,porqueas consideraç
guemnestecapítuloacercados aspectoseminentementepráticosda gr
psicanalíticaem grandeparterefletema atualposiçãodo autore, porta
possívelquenão reflita exatamenteum consensoentreos grupoterap
americanos.
Em obediênciaà proposiçãodidáticadestelivro, utilizareium es
descrevaseparadamenteassituaçõesquedizemrespeitoàformaçãode u
finalidadepsicanalíticaeaosfenômenosqueseprocessamnocampogrupa
do, semprequepossível,ilustrarcom vinhetasclínicas.

FORMAçAODOGRUPO
formaçãoinicial de um grupodestanaturezapassapor trêsetapassuc
encaminhamento,2) seleçõo,3) grupamento.
coÀÍorRABÀLH^Iíoscou cnupos r 1

Encaminhamento.A etapada divulgação,junto a demaiscolegas,tendo vista


o encaminhamentode pacientesparaa formaçãode um grupo,é importa
particularmenteparaum teÍapeutaqueestejaseiniciandona práticade grupoter
aindanãotenhaumaexpressivaprocurapor partede pessoasinteressadasem tra
mentogrupal.O realcedesteaspectojustifica-sepelarazãode ser muito comum

muito frustrante,que o terapeuta tenhaum ou dois interessados,com o contr
terapêuticoalinhavadoe possadecorrerum períodode temposignificativoatéque
definaum terceiroe um quartoou quintopacientes,o quepodegerardesistênciad
primeiros,e assimpor diante.Nestescasos,é recomendávela práticade manteral
ma linha de comunicaçãocom os poucospacientesjá selecionados,inclusiveco
possibilidadede mantersessõesindividuaisparaosquesesentemmaisnecessit até
que se atinja o número mínimo de trêspessoasE. útiÌ fazera ressalvaacerca fato
de que alguns grupoterapeutaspreferem iniciar a grupoterapiacom qualq
número,inclusivecom uma única pessoa,enquantoaguardama entradade nov
elementos.
Esteimportantepassoinicialde um encaminhamentosatisfatório,aindaden da
hipótesede que se tratede um grupoterapeutainiciante,implicapreenchime no
mínimo,de umacondiçãobásica:a dequeele tenhaparasi uma definiçãomu
claraquantoao nível de seusobjetivosterapêuticose, portanto,de qual é o tipo
pacientequeeledivulgae aguardaquelhe sejaencaminhadoEssa.condiçãoé releva
na medida em que se sabeque um mesmopacienteborderline, por exemplo, po
funcionarexitosamente muito se beneficiarnum grupohomogêneo,enquanto
È\' podefracassarem um grupoformadoexclusivamentecom pacientesneuróticos,q
funcioneem um nívelegóicomuito maisintegradoqueo dele.
Um pontocontrovertidorelativÕà políticade encaminhamentodiz respeit fato
de que alguns autorestêm expressadouma preferênciano sentido de que, u vez
que lhe tenhasidoencaminhadoum pacientepor alguémde experiência,con
deram-noautomaticamenteincluído.evitandoentrevistá-loindividualmenteD
impedira "contaminação"do campogrupal.Pelocontrário,em nossomeio,de mo
geral,postulamosa necessidadede que o grupoterapeutaentreviste,uma ou m
vezes,o pacientequelhefoi encaminhadocomo objetivode cumprira segundaeta
da formaçãodo grupo:a seleção.

SeleçãoA. primeirarazãoquejustificaa indispensabilidadedo crivo de sele de


um determìnadopacientepara um determinadogrupo diz respeitoao delica
a: problemadasindicações contra-indicaçõesA .segundarazãoé a de evitarsituaç
e:: constrangedoras- por exemplo, o risco de compor o gÍïpo com a presençade du
pessoasque individualmentetenhamsido bem selecionadas,porémque na ses
inauguraltomamevidentea impossibilidadede virema setratarconjuntamenteU.
1--
terceirarazãoé a de diminuiro riscode surpresasdesagradáveis,como,por exemp
um permanentedesconfortocontratransferencial,uma insuperáveldificuldade do p
cienteparapagaros valoresestipulados,ou paraos diase horárioscombinados,et
assimcomo tambémo de uma deficientemotivaçãoparaum tratamentoque vai l
exigir um trabalhosério,árduoe longo.Esteúltimo aspectocostuma ser um d
fatoresmaisresponsáveìspelosabandonosprematuros.
Em relação às indicações considera-seque a grupoterapiade fundamenta
psìcanalíticaé,latosenso,extensiva todosos pacientesquenãoestiveremenqua dos
nascontra-indicaçõesabordadasadianteEm. sentidoestrito,pode-sedizer q em
algumassituaçõesa grupoterâpiase constituicomo tratamentode escolha.A
que
sim.

autores têm uma sólidaexperiênciano tratamentode Dâcientesadolesc


130 . ZMERMAN&osoRlo

tes, tanto individualmentecomo em grupos,preconizama indicaçãopriorit


tesúltimos.Uma outra indicaçãoquepodeserprioritáriaé quandoo próprio co
manifestauma inequívocapreferênciapor um Íratamentogrupal. Da mesm
sabemosque determinadospacientesnão conseguemsuportar o enquadr
terapiaindividual, devido ao incrementode temores,como, por exemplo,os
rezasimbiotizante,homossexual,com o terapeutaA. experiênciaclínicae tais
pacientesque fracassaramem terapiasindividuais por não terem supor
relaçãobipessoalíntimapodem funcionar muito bem em grupoterapia(é c
para outroscasos,a recíprocatambémé verdadeira).
Quantoàs contra-indicaçõesos. seguintespontosmerecemuma con
especialpara aquelespacientesque:

. Estãomal-motivados tânto em relaçãoà sua reaÌ disposiçãopara um tr


longo e difícil quanto ao fato de ser especificamenteem grupo. Não é
algumaspessoasprocuremum gÍïpoterapeutasob a alegaçãode que qu
uma oportunidadede "observarcomo funcionaum gupo", ou que vão u
te em buscade um gruposocialque lhesfalta,e assimpor diante.
. Sejamexcessivamentedeprimidos,paranóidesou narcisistas:os prime
que exigem atençáoe preocupaçãoconcentradasexclusivamenteem si
(é útil repetirqueissonãoexcluiquepossamevoluirmuitobemem grup
gêneos,compostosexclusivamentecompessousmaisseriamentedepri
segundos,pelarazãode que a exageradadistorçãodos fatos,assimco
atitudedefensivo-beligerante,podeimpedir a evoluçãonormal do grupo;
ros,devidoà suacompulsivanecessidadede queo grupograviteem to
queos levaa secomportaremcomo "monopolistascrônicos".
. Apresentemuma forte tendênciaa aclìngsde naturezamaligna.muit
envolvendopessoasdo mesmogrupo,como é o caso,por exemplo,da de
pacientespsicopatas.
. Aqueles que inspiram uma acentuadapreocupaçãopela possibilidaded
riscosagudos,principalmenteo de suicídio.
. Apresentemum déficit intelectual,ou uma elevadadificuldade de abst
de entrar em contatocom o mundo das fantasias(tal com costuma oco
pacientesexcessivamentehipocondríacos),pelarazãode quetodoselesdi
te poderãoacompanharo ritmo de crescimentodos demaisde seu grïp
. Aqueles que estãono auge de uma séria situaçãocrítica aguda,em cu
recomendávelo esbatimentoda crise por um atendimentoindividual pa
cogitarincluÊlonuma grupoterapia.
. Pertencema uma ceÍa condiçãoprofissional ou política quereprese
riscosparaumaeventualquebrado sigilogrupal.
. Apresentamuma história de sucessivasterapiasanterioresinterrompid
nos autorizaa pensârque setratede "abandonadorescompulsivos" (nes
há um sério risco de que estetipo de pacientefaça um
abandonopremat uma forte frustraçãopara todos do grupo).

Grupamento.Os termos,conceituâlmentesinônimos,"grupamento"
posição"designamum arranjo,um "encaixe"daspeçasisoladas,sendoque de
uma grupoterapia,referem-sea uma visualizaçãoantecipadade como será
paçãointerativade cadaum dos indivíduosselecionadosna nova organizaç
tica. Nestecontexto,o sentimentocontratransferencialdo grupoterapeutad
COMOI RAIIALHAN1oSCOM ORUPO5 ' 131

préviasentrevistasde seleçãofuncionacomoum excelenteindicadorquantoà prev


sãode como seráa complementaridadedos papéisa seremdesempenhados.
adequadoincluirum adolescenteem um grupocujatotâlidadeé compostapo
I adultos?E viávela inclusãodeum pacientehomossexualnum grupoem queelese o
úniconessascondições?PodemparticipaÍde um mesmogrupopsicoterápicoan
líticopessoasquetenhamalgumgraude conhecimentoou de parentesco?Estáindicad a
inclusãode um pacientequesejaescessivamentesilencioso?Ou queestejaatrave
I
sandouma criseaguda?Essassãoalgumasdasinúmerasquestõesquecoshlmams
levantadas,e cujasrespostasnão podemserdadascom regrasfixas, porém podem s

respondidas,em grande parte, atravésdo feelìng contratransferencialrelativo a


grupamento,para cada situaçãoem particular.
No entanto,muitas vezes,o sentimentocontratÍansferencialdespertadope
entrevistapreliminarcomum indivíduo,tendoemvistao grupamento,podeconduz a
Ë equívocosde seleçãoVale.ilustrarcom uma situaçãoda minhaclínicagrupal:po
ocasiãoda formaçãode meu primeirogrupode finalidadepsicanalítica,incluí um
pessoaque desdeo início se mostrouexageradamenteloquaz,debochada,jubilosa
com uma perÌnanenteirriquietude;enfim, um claro estadode funcionamentomaní
co quequaseimpossibilitouqueo grupotivesseum cursonormal.Decorridoalgu
tempo,perguntei-meo queteriame impelidoa umaseleçãotãodesastrosae, já ma

experiente,encontreia resposta:os outrospacientesque estavamseleciona
': antesdele apresentavamcaÍacterísticasmais marcadamentedepressivase de timi
dez,e inconscientementeeuestavaansiosocom a possibilidadede queo gruporesu
tasse"semvida"; assim,a presençade um "agitomaníaco"seriaa minhasalvaçã
É necessáriolevarem contaque asconsideraçõesanteriores respeitoda sel
ção e inclusão de pacientesem um gnrpo referem-seunicamenteà situaçãoda
com posição inicial de um grupo que vai começara funcionar, porquantoa conduta
e relaçãoa pacientesa seremincluídosnumgrupojá em
andamentoobedecetambém outros critérios.
Podeservircomo exemplodestaúltimaafirmativaa experiênciaque tive co um
pacientehomossexualquemeprocuroupâratratamentogrupalem duasocasiõ Na
primeiradelas,eu estavaselecionando compondoum gÍuponovo.com pacie
t: tesnormalmenteneuróticose, nãoobstanteeleter me despertadoumaempatia,dec di não
incluÊlono grupomovido por um desconfortávelsentimentocontratrans rencial ao
imaginá-lo entreguea uma possívelrejeição dos demais, uma rejeiçã extensivaa mim
também,com o riscodo grupologo sedissolverNa. segundaoc sião,quase2
anosapós,ele me procurounovamente,minhareaçãocontratransferenc foi de
absolutaaceitação, eu lhe propusa necessidadede declinaro seunomee
suacondiçãode homossexualparao grupopodercompartircomigo a decisãode
J:
serincluídoEle. aceitouessapremissa, duranteumasquatrosessõeso grupoana souas
respectivasangústiasque a situaçãonovadespertaria;após,foi incluído,pe
manecendonestegrupo por 5 anosaproximadamente,não só com um bom aproveit
):. mento,como tambéma sua participaçãoauxiliou todosdemaisa ressignificar

fantasias,tabuse preconceitosem relaçãoà homossexualidadeGuardo.umaconvi ção


de que,casoessepacientefosseselecionadona primeiraocasião,nãoteriahav do a
evolução favorável que houve,pois era muito forte a cargade ansiedad
sl paranóidesqueestavampresentesnos movimentosiniciaisdestegrupo.
t: -
132 . ZMERMAN&osoRlo

ENQUADRE (SETTING)GRUPAL
enquadreê conceituadocomo a soma de todos os procedimentosque
normatízame possibilitam o processopsicoterápico.Assim, ele resultad
junção de regras,atitudese combinações,como, por exemplo,local, horá
ro de sessõessemanais,tempo de duraçãoda sessão,férias, honoriários
pacientes,se seráaberto ou fechado,etc.
O enquadregrupal não se compoÍa como uma situeção meramen
formal, unicamenteparaa facilitação de aspectospráticos do funcioname
po; pelo contrário, eÌe estásujeito a uma contínuaameaçaem vir a ser de
servecomo um cenárioativo da dinâmicado campogrupal,que resultado
constantese múltiplas pressõesde toda ordem.Além disso, o estabeleci
setting, poÍ si só, também funciona como um agentede ação terapêutic
vista que ele assegurauma necessáriacolocaçãode limites, delimitaçãod
que
também pode funcionar como um "continente".Vale repetir uma
con ca paraque uma grupoterapiafuncione de forma adequadaé a de
que, ind mente da combinaçãodo enquadreno qual o grupo vai
trabalhag a sua sejapreservadaao máximo, semuma rigidez radical- é
claro,porém,que c firmeza.
Seguea enumeraçãodos principaiselementosque devem ser levad
na configuraçãodo sel/irg do campo grupal:

.
Homogêneo ou heterogêneo.Por grupo homogêneoentende-sea
compostopor pessoasque apresentamuma série de fatorese de caracte
em certo grau, sãocomunsa todos os membros.Essesgrupostambém co
chamados"grupos especiais".Podeservir como exemploum grupo que s
to unicamentepor pacientesdeprimidos,borderlíne,drogadictos,etc.
Grupo heterogêneodesignauma composiçãogrupal em que há um
versificação entreìs caracteiísticasbásicasde seus membros. É o ca
grupoterapiaanalítícaemque,por exemplo,um dos integrantessejauma
rica, um segundo,um senhorde meia idade,obsessivo,um terceiroé estu
ro com problemasde identidadede gênerosexual,e assim por diante.
claro que a conceihÌaçãode grupo homogêneoou heterogêneoé m va,
dependendodo aspectoque servede referencial,pois o grupo pode s neo
quanto à patologia(por exemplo,deprimidos)e, ao mesmotempo, s neo
quantoà idade,sexo,tipo e grau da doença,etc. A recíprocatambém ra, isto
é, um grupo heterogêneona forma de patologia (como antesexe pode ser
homogêneoem muitos outrosaspectos.
Na prática clínicapareceser consensualentre os gÍupoterapeutasq
grupoterapiaanalíticacompacientesneuróticos,é desejávelqueo grupo se
neo quantoaum certo tipo e grau de patologia,estilo de comunicaçãoe d
de papéis,para que se propicie uma maior integraçãodos indivíduos atr
q
complementaridadede suas funções; ao mesmo tempo, é necessário
mínimo de homogeneìdadenos níveisintelectuaise sócio-culturais Nã
sim, corre-seo risco de que falte uma possibilidadede entrosamento
idioma comum de comunicaçãoentreos integrantesdo grupo,bem como
bro mais "diferente" sejaexpulso,ou seauto-expulsedevido ao sentimen
nahzação.
coÌ!ÍorRÌ\BÀLHÂÌ!Íoscolr cnupos .

.
Aberto ou fechado. Por grupo abertoentendemosaqueleque não tem p
de término previamentefixado, ficando claro que,na eventualidadede havervag
grupo, ou diante da saída de algum membro, por interrupção ou por término
poderá vir a ser substituídopor um outro. Ao contrário, grupo fechadoalude ao
de que a combinaçãofeitâ com o grupo originário prevê que, uma vez compo
grupo,nãoentramaisninguém.
Virtualmente, todos os grupoterapeutasdiante de grupoterapiaspsicanaì
adotamo métodode trabalharcom gruposabertos,de duraçãoilimitada. No ent
podemocorrerduaseventualidades: primeiraé a possibilidadede que,apósdec
dos alguns anos,o próprio grupo queira se transformarem grupo fechado,até o
término.Aindanão tive essaexperiência,porém algunsautoresquea tiveramreco
dam que nessescasosdeveserfixadauma datade finalizaçãoA. segundaposs
dade,com a qualjá tive uma experiência,é a de fundir dois gruposque estavam
um número reduzidode integrantes,transformando-osem um grupo único. Cons
ro que foi uma experiênciabastanteinteressante que não trouxe maioresproble

.
Número de pacientes. Em caso de grupoterapiaanalítica, o ideal é q
número de participantesnão seja inferior a 4 e que não passede 9. Na verda
número ótimo deveser ditado pelo estilo particularde cadaum, o que varia muit
terapeutaparaterapeutaParticularmente,.trabalhomelhor com um número médi
6 pacientes.

.
Sexo e idade, Em relação ao sexo dos pacientespareceser quaseunâni
posição dos grupoterapeutasem preferir uma composiçãomista, o que propicia
sériede vantagensinegáveis.Os que se posicionamcontráriosa isso alegam qu
grupomisto representaum sériorisco de ocorrênciadeacírrgsde envolvimentoaf
e sexual,eventualidadeque nunca ocorreuao longo de minha prática.
Quanto à idade dos pacienteshá uma maior diversificaçãode opiniões, alg
defendendor . ;:recessidade manteruma homogeneidadede idade,enquantoou
preferemuma ampladiferençaetáriaparaque ocorramvivênciasmais completa
que cadaum poderáseespelharno outro. Inclino-me mais paraessasegundapos
desdequenão hajadiscrepânciasmáximas.

.
Número de sessõespor semanae tempo de duração da sessãoAlg.
grupoterapeutaspreferemrealizaruma sessãosemanal,porém de duraçãolonga
tros grupanalistasadotama realizaçãode três sessõessemanaiscomo uma form
manter um enquadreo mais similar possívelao de uma psicanáliseindividual
entanto, a maioria no nosso meio, entre os quais me incluo, trabalham com
sessõessemanais.
Em relaçãoao tempo de duraçãoda sessão,ela costumavariar de
acordoco númerode pacientes,o númerode sessõessemanaise o
esquemareferencialteó técnicodo grupoterapeutaAqueles.quetrâbalhamcom
umasessãosemanalgeralm utilizam um tempo que fica numa média de
noventa minutos (alguns preferem tempo de duas horas); os demais,
habitualmente,reservama duração de ses minutos por sessão.
.
Tempo de durâção do grupo,Um grupopode serde "duraçãolimitada" o
"duração ilimitada". A primeira situaçãodiz respeitoaos grupos fechados,enqu a
segundacomumenteacompanhaos grupos abertos.
L34 . znrerver*. osonro

Osgruposde duraçãoilimitadaprevalecemna clínicaprivadade cadag


rapeuta,coma ressalvadequeemdeterminadomomentoa totalidadegrupa
estabelecerumadataparao encerramentodefinitivo.Osgruposde duraçãol
geralmenteacontecemem instituições, podemadquirirduasmodalidad
meiraé a defuncionaremregimedegrupofechado deveráexistirumtipode
naçãorelativaao tempode duração, qualvariamuitoem funçãodasparti
desprópriasde cadainstituiçãoA. segundapossibilidadeéa de queo grupo

ção limitadafuncioneemregimeaberto(permiteo rodíziodepacientes),por um


pÍzrzocombinadode término,e nestescasosgeralmentese utiliza a t
combinarque,aofinal dadataprevista- digamos,2 anos- proceda-seaum
ção,com o direitode prosseguirempor maisum período,ou não.
Observadorco-terapeutasupervisor.A presençade um observad
mantivessemudodurantetodoo cursodagrupoterapiaqueeledeveriaassisti
ticâmentee se limitar a fazerapontamentoserapreconizadapelospioneir
umaformadeperceberoseventuaispontoscegosdo grupoterapeutadedin
dinâmicadocampogrupalatravésdo naturalsurgimentodasdissociaçõesquer
ziriamaquelasqueos filhos vivenciaramcom a dupladospais.Na atualid
recursoestáreservadoàssituaçõesdeensinoEu. mesmopasseipor essaexp
de serobservadorduranteo iníciodeminhaformaçãoe possotestemunhao
elaé útil.
: Quantoà co-terapia,elatem sidobastanteutilizada,principalmentepor
I quetrabalhamcomcrianças,adolescentesfamíliasParece.quedá bonsres
noentanto,é necessáriodestacarquedevehaverumaharmoniaentreosdoister
,l casocontrário,o gnÌpo,atravésde umjogo de identificaçõesprojetivasde s
ll priosconflitosnosgrupoterapeutas,podeú conseguircriar umaatmosferade ri
e competiçãoentreambos.
efetivaçãode uma supervisãosistemática,pirÍece-mequeninguém
deveserumatarefaobrigatóriaparaquemestáiniciando,e é recomendávelq
sigapor um bom tempoparaaquelesquedesejamampliaros seushorizon
queremficar presosnumaformaestereotipadade trabalharcom grupos.

Outras combinaçõesÉ.claro queexisteminúmerosoutrosdetalhesqu


ficar bem esclarecidos,como é o casoda modalidade da responsabili
pagamento,planodeférias,etc.Todavia,desejomereferirmaisespecifica fato
de queos grupoterapeutasnãosãouniformesquantoao procediment

çãoaomodocomoospacientesdevempaÍticiparnagrupoterapia,asregrasde
exterior,como,por exemplo,a importantíssimaquestãodo sigilo,etc.
Algunsgrupoterapeutaspreferemfazeruma longadissertaçãoinicial

çandodetalhepordetalheaquiloqueseesperadecadaume do quepresumi
virá a acontecerOutros,.no entanto,preferemfazerascombinaçõesiniciais e,
à medidaqueo grupofor evoluindoe situaçõesnovasforemaparecen-
sãodealgumpacientenovo,algumasformasdecctinSpreocupantes,proble
horáriosou pagamentos,necessidadede viagens,participaçãoexcessi
silenciosa,etc.vão), analisandoas situaçõesque surgeme, a partirdaí,est
algumascombinações mais.Eu me incluoentreestesúltimos.

Entrada de um novoelementoCabe.um registroquantoaoprocedi


entradadeum elementonovoem um grupojá em funcionamentoA. técnic
utilizo é a de que,umaveztendoselecionadoum indivíduoparaumavagae
coMo .RABÁLH^Ì!Í''cor o*uro"

rupotÈ- peçoa suapermissãoparadeclinaro seunomeno grupoe esperarpelade


resol\:1 deliberaçãodo mesmo.Aliás, umadasformasde avaliara evoluçãomais
imitadr exitosade um grupoé pelamaneiramaisou menosreceptivacom querec
pessoanovae aindadesconhecida.
combr-
rìanda-
le dura- MANEJO DAS RESISTÊNCIAS
im com
irica de resistênciacostumaseÍ definida como sendotudo o que no decorrerde mento
avalia- analítico- ou seja,atos,palavrase atitudesdo analisando- se opõe deste ao seu
inconsciente.No entanto,é de fundamentalimportância que
distinçãoentreasresistênciasrealmenteobstrutivasao livre cursoda análi las
que se que devem ser acolhidascomo bem-vindas,porquantotraduzema forma
,tstema- cadaum e todos se defendemdiante das suasnecessidades angústias.
como Na situaçãogrupalimportamuito discriminarquandoa resistênciaes do
Lrnizara de umapessoaem partìcular,ou seelaestásendocoletiva.Nestaúltima
eprodu- cabeao grupoterapeutase questionarse o gÍuponão estáreagindo a algu
oe.esse priedadesua.
eriência A experiênciaclínica comprova qtJeasfoftnas de manifestaçõesres
I quanto mais comuns, quer da paÍe dos indivíduosisoladamente,ou da totalida
costumamser as segulntes:
aqueles
ultados: . Atrasose faltas reiteradas.
apeutas: . Tentativasde alterar as combinaçóesdo setlin7 (por exemplo, continu
euspró- dos por mudançasde horários, telefonemas,intervençãode familiares
çalidade . por sessõesindividuais,etc.).
Prejuízo na comunicaçãoverbal atravésde silêncios excessivos,de r
duvida, . ou, ao contrário,uma prolixidadeinútil.
ue pros- Ênfaseexcessivaem relatosda realidadeexterior,ou em queixashipoc
ese não . com o rechaçosistemáticoda atividadeinteçretativadirigidaao inco
Manutençãode segredos:isso tanto pode ocorrer por parte dos indiv
relaçãoàs confidências que fizeram particularmenteao grupoterapeut
devem vista de seleção,mas que sonegamao restantedo grupo, como tam
rde pelo ocorrer por parte do grupo todo em relaçãoao terapeutadaquilo que
nenteao . menteeles falaram entre si, fora do enquadregrupal.
em Íela- Excessivaintelectualização.
conduta . Um acordo, inconsciente,por parte de todos, em não abordardetermi
. suntosangustiantes,como, por exemplo,os de sexo ou morte.
. esmlu- Complicaçõescom o pagamentoe horários.
relmente . Surgimentode um (ou mais de um) líder nopapel de "sabotador".
básicas o . Uma sistemáticatentativade expuÌsãode qualquerelementonovo.
(inclu- . Excessode ncrlngs,individuaisou coletivos.
mascom . O grau máximo da manifestaçãoresistencialé o da formação de
ramente terapêuticos,ou até mesmoo das tão temidas "reaçõesterapêuticasne
Lrelecem
As causasmaisprováveisquedeterminamo surgimentode resistênc
po grupal analítico costumamserâs seguintes:
nentoda
que eu .
Medo do surgimentodo novo (especialmentequando há o predomín
:xlstente, ansiedadeparanóide).
. ZIMERMAN&osoRlo

. Medo da depressão
(a
os leva a crer que vão se
ansiedadedepressiva

com um mundointemodestruído,
sempossibilidadede reparação)
. (de perdero controledasdefesasneuróticas,como
Medo da regressão
vas,por exemplo,e regredira um descontrole
psicótico).
. Medo da progressão(o progressodo pacientepode estar sendo pro
culpasinconscientes
que o acusamde "não mereci'llento").
. Excessivoapegoao ilusóriomundosimbiótico-narcisista.
. Evitação de sentir humilhaçãoe vergonha(de se r:conhecer e ser r
. como alguém que não é e nunca seráaquilo que ele crê ser ou apare
Predomíniodeuma invejaexcessiva
(e, por isso,não concedemao
. "gostinho"desteserbem-sucedidocom ele).
Manutenção da "ilusão grupal" (nome que designauma situaçãoes
dinâmica grupal, que se manifestasob a forma de "nosso grupo está
mo", "ninguémé melhordo quenós",etc.através)da qualo grupose
. auto-suficìente.
Por úttimo, vale dizer que a resistênciado grupo pode estarexpre
do grupoterapeuta.
sadiarespostaàs possíveisinadequações
Pelomenosseistiposde resistênciaquepodemsurgira partirde d
indivíduosmerecemum regìstroespecial:

silencioso:a experiênciamostraquea melhorformade manejarcom


pacienteé ter paciência,fazerpequenosestímulossempermitir umapr
rada;
2\ monopolízador:o manejo com essepacienteé o do contínuoassin
suaenormenecessidade servisto por todos,diantedo intensopâ no
anonimato,ficar marginalizado;
desvìadorde assuntos'como. o nome diz, trata-sede um tipo de p
j
"capta"o riscode certosaspectosansiogênicos,e conseguedar um
dar para assuntosmais amenos,emborainteressantes;
atuador: como sabemos,as atuaçõessubstituema desrepressãode re
as,a verbalizaçãode desejos conflitos,e o 2ensarasexperiência por
essarazão, tanto no caso de o indivíduo estar atuandopelos de
tratar de um dctlng coletivo, representauma importanteforma de re
sabotador:àmodade um lídernegativo,atravésde inúmerasmaneira duo
pode tentarimpedir que um grupo cresçaexitosamentee que os s
nentesfaçamverdadeirasmudarças,pois eleserevelacomoum
pseud
e prefereas pseudo-adaptações;
ambíguo:trata-sepacientequeapresentacontradiçãoem seusnúcleos
de,por issomanejaos seusproblemascom técnicaspsicopáticase co
uma confusãonos demais,ao mesmotempoem que
aparentaestarbe no gÌupo.

Manejo técnico. Como antesfoi referido, é de fundamentalimport


quada compreensãoe o manejo das resistênciasque, inevitavelmente
qualquercampo grupal; casocontrário, o grupo vai desembocarem des
numaestagnaçãoem impassesterapêuticos.
primeiro passo,comojá foi dito, é a necessidadede que o grupote
fazer a discriminaçãoentre as resistênciasque são de obstruçáosistemá
simplesmentesãoreveladorasde uma maneirade seprotegere funcionar
COMO

rontar segundadiscriminaçãoque ele devefazeré se a resistênciaé da to


grupal,ou seé por partede um subgrupo,ou de um determinadoindivíduo
)sessi- casohá duaspossibilidades:ou o indivíduoestáresistindotl, grupo,ou
representanteda resistênciado grupo.
I pelas O terceiropassodo grupoterapeutaé o de reconheceçe assinalarao gru
proces
estásendoresistido,por que,por quem,como e paro 4líeissoestáse
Finalmente,o quartopassoé o de queo coordenadordo grupoprocur parasi
hecido quala suaparticipaçãonesseprocessamentoresistencial, issonosr
. importantíssimoproblemada contra-resistência,a qual pode assumirmúlti
Eutao gr
masde o própriogrupoterapeutase aliaràs resistênciasdos pacientesdo

flcada
treotl- TRANSFERÊNCIAE CONTRATRANSFERÊNCIA
que
de consensoentreos psicoterapeutasqueo fenômenoessencialem se
uma processode qualquerterapiapsicanalíticaé o da transferência,termo qu
empregadono singulardeve ser entendidona forma coletiva,ou seja,co
Linados abreviaçãode múltipÌase variadasreaçõestransferenciats.
Particularmentenas grupoteraPias,as transferênciasaparecemde
tipo de form pla e cruzada,segundoquatrovetores:

:nto de de cadaindivíduo emreÌaçãoaogrupoterapeuta:


de cair do grupo,como umatotalidadegestáltica,em relaçãoao gÍupoterape
de cadaindivíduoem relaçãoaosseusparesl
ìre que de cadaum em relaçãoao gÍupo como um todo.Além disso,cadaum
formaspodeadquirirdistintosmodos,grause níveisde manifestações um
de mu- jogo permanentede identificaçõesprojetivase introjetivas

scênci- Não obstanteisso,na atualidade,acredita-seque em todo processote


:ionais: transferência,mas nem tudo deve ser entendidoe trabalhadocomo sendotr
cia. Assim,existemcontrovérsiasacercada concepçãode qualé o papeldo
;. ou se do
rapeutanessassituaçõesPara.algunsautores,ele, sempre,não é mais
indiví- per
:omPo-
mera figura transferencialmodeladapelasidentificaçõesprojetivasdos
que cadapacientecarregadentrode seuinterior.Paraoutros,o psicanalistâé
borador um objeto real, com valorese idissioncrasiasprópriase, como tal, ele v
introjetado.
lentida- Assim, cada vez maìs expressõescomo "pessoareal do analista"e
so gera terapêutica" estão ganhandoespaçonos trabaÌhossobre transferência.D
que
rcgrado forma, vem ganhandoforça o ponto de vista de autoresque crêem aa
do
analistaé em grandeparteresponsávelpelo tipo de respostâtransferencial
tes.
a a ade- Parauma compreensãomaisprofundado fenômenoda transferênci
façamosuma reflexão a partir destaquestão:O fenômeno transferencialé u Íe
tem em pos
r ias ou f]manecessidadede repetiçõo (nos termosclássicos,tal como Freud
passa
antes,é a expressãode repetiçãode necessidades(náo sâtisfeitasno
nasaiba pres
grupoterapiapsicanalíticapermiteobservarcom clarezao quantoestá
) as que gundapostulaçãoEsse.aspectorelativoà necessidadedaspacientesterem
ida real. espaçoe uma novaoportunidadede reexperimentaremantigase maì-res
grupo
periênciasemocionaisé muito importantequeestejabem claro parao
porquantoeledeterminaumaatitudepsicanalíticainternadenaturezamais
138 . r,*orol a oso*'o

Habitualmente,as transferênciassão classificadas,em função de sua quali


afetiva, como "positivas" ou "negativas".No entanto,essasdenominações,em
consagradasno jargão psicanalítico,não são adequadaspelo fato de conotarem
juízo
de valor moralístico.Ademais, sabemosque muitas transferênciasconsid
das "positivas" não passamde conluios resistenciais,enquantoque outrasmanif
ções transferenciaisde aparênciaagressiva,rotuìadascomo "negativas",podem
positivas do ponto de vista psicoterápico,desdeque bem absorvidas,entendid
manejadas.
tendênciaatual é a de consideraro fenômenotransferencialnão tanto p
afetosque veicula, mas muito mais pelos efeìtosque produz nos outros, atravé
mecanismoconhecidocomo "contra-identificaçãoprojetiva", quandoessasepro
sadentro da pessoado psicoteÍapeuta,caracterizandoo conhecidofenômenoda
c tratransferência.
A contratransferência,como antes foi ressaltado,resulta essencialment
contra-identificaçõesprojetivas dos pacientes,razão porque ela tanto pode s
como um instrumento de empatia como pode assumir característicaspatogên
caso o psicoterapeutase confunda e se identifique com os objetos parentais
projetados.
Tambémé indispensávelque tenhamosbem clara a distinçãoentre o que é
c tratransferênciapropriamentedita e o que é simplesmentea
transferênciapesso próprio terapeutaem relaçãoaos seuspacientes.Uma vez
que o analistatenhaco ções de fazer essa necessáriadiscriminação, então,
sim, ele pode utilizar os sentimentoscontratransferenciaiscomo um meio de
entenderqueessescorrespon a uma forma de comunicaçãoprìmitiva de
sentimentosque o pacientenão cons reconhecere, muito menos,verbalizar.
No processogrupal, é importante que todos os componentesda grupoter
desenvolvama capacidadede reconhecimentodos próprios sentimentoscontratr
ferenciaisque os outroslhe despertam,assimcomo os que ele despertounos ou
Isso tem uma dupla finalidade: uma, a de auxiliar a relevantefunção do ego de
c indivíduo em discriminarentreo que é seue o que é do outro; a segundarazáo
é necessidade,para o crescimentode cadapessoa,de que ela reconheça,por
mais noso que isso seja,aquilo que ela despertae "passa"para os outros.
Finalmente, cabe destacaro sério risco de que se formem surdos conl
transferenciais-contratransferenciais,sob modalidadescomo as de: um ilusório
de conta"; uma recíprocafascinaçãonarcisística;um vínculo depoder de natu
sadomasoquista,etc. Um conluio inconscienteque representaum sério prejuízo
uma grupoterapiapsicanalíticaé quandoo espaçodo campo grupal estáunicam
ocupadopela idealização,pois assimfica inibido o surgimentode sentimentosag
sivos contidosna chamada"transferêncianegativa",e sema análiseda agressão
agressividadeum tratamentoanalíticonãopode ser consideradocompleto.

COMUNICAÇAO
As grupoterapias,mais do que o tratamentoindividual, propiciam o surgimento
problemasda comunicaçãoe, portanto,favorecemo reconhecimentoe o tratam
de seuscostumeirosdistúrbios.
normalidadee a patologia da comunicaçãoabarcamum universo tão am de
configuraçõesque seriaimpossíveldetalhá-losaqui; no entanto,em estilo tele
fico, algunspontos devem ser destacados:
COMOTRABALHAITíOSCOM GRUPOS
'

.
Falarnãoé o mesmoquecomunicar;assìm,a fala tantopodeserutilizadac
)--:: instrumentoessencialda comunicaçãocomo,pelocontrário,podeestara se
- da lncomunicação.
e::- .
- Cadapaciente,assimcomo cadagÍupoterapeuta,temumestilo peculiardetra
a-a tir as suasmensagensque, de modo geral, traduz como é a sua persona
Li: (assim,pode-sereconhecero estilo arrogantedo narcisista,o dramáticodo hi
co, o detalhistae ambíguodo obsessivo, evitativodo fóbico,o falacio "falso
. self', o autodepreciativodos deprimidos,o defensivoJitigantedos nóides,o
-, ;
superlativodo hipomaníaco,e assimpor diante).
:ì- .
E de especialimportância que o grupoterapeutaobservedetidamenteo de
que as mensagensde uns ressoamnos outros, principalmenteo de sua
c:{ ativi intemretativa.
r. :: .
;li É igúalmenteimportante que o grupoterapeutaestejaatentoàs múltiplas fo
de comunicaçãonão-verbaìs(gestos,posturas,maneirismos,choro, riso, v
mentas,tonalidadede voz, somatizações,actrflgs,efeitos contratransfere
:!^: -
etc.).
tl

que deve ser enfatizadoé o fato de que, nas grupoterapiasem que o em


i
€'j
(gnìpoterapeuta) o receptor(grupo) não esfiveremsintonizadosnum mesmoc a
le:: comunicaçãonão se fará. Isso é particularmenteimportantepara os problem
interpretação.

ATIVIDADE INTERPRETATIVA
d:
Ainda que a interpretaçãonão sejâ o único fator terapêutico,ela é, sem dúvid
instrumentofundamental.No entanto,é útìl estabeleceruma distinçãoentre inte
tação propriamentedita e atividadeinterpretativa,tal como ela estádescritana
tervençõesdo grupoterapeuta"no capítulo destelivro que versa sobre "Como
Ia:
os grupos terapêuticos?".
'f:z
ÈZ! interpretaçãoconstade tÍês aspectos:o conteúdo,a forma e o estilo,
nr.: naturalmente,de um sólido respaldo teórico-técnico,e cada um desses perm
n t e uma alongadae relevanteabordagemsobrea sua normalidadee patoÌogia.Tod
rE\_ :d: não pretendofazê-la aqui, pois seriauma exposiçãorelativamentelonga, e ela
serlida em um outrotextosimìlar(Zimerman,I 993).
Creio ser útil partilhar com o leitor as profundas transformaçõesque vê
processandoem mim em relação à técnica interpretâtivanessesmeus 30 an
continuadapráticagrupoterápica.Assim, bem no início de meu trabalhocomgr
d! . : terapêuticospsicanaÌíticos,mantive-meobedienteaospostuladosque os
Inta ensinam vigentesna época postulavam:sempreinterpretaro grupo como um
todo, ìnc evitandoa nominaçãodos indivíduos;sempreinterpretarno aqui-
rplc agoratransfer e nunca na extratransferência;evitar incluir na interpretaçãoos
rrá- aspectosinfant passadopela razão de que o grupo é uma abstraçãoe,
portanto,diferentemen indivíduos, ele não tem uma história evolutiva desdea
infância; entendero c grupal sob uma óptica kleiniana,isto é, sob a égidedas
pulsõesdestrutivas respectivasansiedadesde naturezapsicóticâ.
Minha fidelidade a tais princípiosdurou pouco tempo: tudo me parecia
artificial e eu me sentiaum tanto violentadoe, ao mesmotempo,como que viole
do os pacientes.Aos poucos,e cadavez mais, fui me permitindo fazer mud

cn
ic
as
qu
an
to
à
ati
vi
da
de
int
er
pr
et
ati
va
no
s
se
gu
int
es
se
nti
do
s:
L40 . znaerue.aNosonro

Discriminar asindividualidades,aindaque sempreem conexãocom o de


dor comum do contextogrupal.
Uma maior valorizaçãodos aspectosextratransferenciais.
Não faço maisuso de uma formaJiJlemática de interpretarno aqui-
agora (com exceção, é claro, das situaçõesem que a
ansiedadeemergented estiveÍ,de fato, ligada amim).
Em contrapartida,utilizo mais uma atividadeinterpretativaconstantede
tas (que instiguem indagaçõese reflexões); clareamentos;assinalam
paradoxos,lapsos,desempenhodepapéis,formasde linguagemnão-ver
aberturade novos vértices de percepçãodos fatos; confrontos com a r
extenor, etc.
Uma maior importânciae utilizaçãoao assinalamentode como os pacien
zam as suas do ego,notadamenteas de percepção,pensament
funções
juízo
gem, comunicação, crítico e conduta.
Valorizo os aspectospositivos da personalidade,como, por exemplo, o
tão nas entrelinhasde muitas resistênciase atuações.
Enfatizo o desempenhodepapéis fìxos eestereotipadospresentesno gru
reproduzemos da vida lá fora.
Uma valorizaçãoespecialaos problemasda comunicação,em suasmúlti
nifestações.
Uma maior valorizaçãodos aspectoscontratransferenciaistanto porquei
ser um impoÍante veículo de comunicaçãoprimitiva como porquepode
risco de contrair conluíos inconscier?Íescom os pacientes.
Permitir e, de certaforma, estimularque os própriospacientesexerçamu
ção interpretativa.
Fazer,ao final de cadasessão,uma síntese(náo ê o mesmo que um res
púncipais experiênciasafetivas ocorridasao longo dela, semprevisand
integraçãoe coesãogrupal.

ACTINGS
Sabemosque os actingJ ocorrem como uma forma substitutivade não lem
pensar,não verbalizar,ou quandoas ansiedadesemergentesdos pacientesn
devidamenteinterpretadaspelo psicanalista.Por essarazão,eles se constitu
importantíssimoelementodo campogrupal,uma forma de comunicaralgo, q
pode serde naturezabenigna,e até sadia,como pode adquirir característica
malignas.
Dentre estasúltimas, além do risco não-desprezívelde que possaoc
envolvimento amorosoentre pessoasdo grupo, um acting qtu.devemosco
grave é o que diz repeito a uma quebra de sigilo do que se passana intimi
gÍupo,inclusivecom a divulgaçãopúblicade nomesdaspessoasenvolvida
uma convicção que muito do declíniodas grupoterapiasanalíticasse deve a
crédito que em grandepartefoi devido a essetipo de atuação,o qual costum
de uma seleçãomal feita.
Os actingstambémpodem estara serviçodasresistênciasdo grupo e se
dem com o desempenhode algunspapéis,tal como foi descritono tópico re
resistências.
CRITÉRIOS DE CURA
Conquantoeu estejaempregandoo termo "cura" por ele ser de uso correntena
pr ca analítica, creio que, acompanhandoBion, o conceito dessapalavra está m
ligadoà medicina,no sentidoúnico de umaremoçãode sintomas;por consegui
expressãomais adequadaseriaa de "crescimentomental".
Em termos mais estritamentegrupais,pode-seafirmar que um processoex
it da grupoterapiapsicanalítica,em uma concepçãoideal, deveria abarcaros
segui aspectosdasmudançaspsíquicas:

. Diminuiçãodasansiedadesparanóides depressivasIsso.implicaqueos ind


duospossamassumira parcelade responsabilidadepelo que fizeramou de
ram de fazerparaos outrose parasi mesmos.
. Desenvolvimentode um bom "espírito degrupo", com um sentimentogera
"pertencência"e de coesão.
. Capacidadede comunicaçãoe intemçãocom os demais,sema perdados ne
sárioslimites.
. Uso adequadodasidentificaçõesprojetivas,sendoqueissotantovai possib
uma menor distorçãode como eles percebemos demais,como o desenvolvi
to de uma empatia,ou seja,a capacidadede se colocar no lugar do outro.
.
E Ruptura da estereotipiacronificadade certospapéis.
t:
. Desenvolvimentoda capacidadede fazer reconhecintentos:de si próprio; do
tro como pessoadiferente e sepaÍadodele; ao outro, como uma express
consideraçãoe gratidão;e reconhecerÕ quanto cadaum necessitavitalment
reconhecidopelos outros.
.
s Em pacientesmuito regressivos,a passagemdo plano imaginário para o
É simb co, o que,por suavez,permitiráa passagemda posiçãode narcis-
ismopara social-ismo.
. Desenvolvimentodo sensode identidadeindividual,grupale social,assimc o
de uma harmoniaentreessas.
. Capacidadede elaborarsituaçõesnovas,com as respectivasperdase ganho
. Capacidadede fazer discriminaçõesentreaspectosdissociados:do que é
dele queédooutro;entreo pensar,o sentire o agir;entreaiÌusãoearealidad
. Capacidadede sepermitir ter umaboa dependência(é diferentede submissã
simbiose),assimcomoo de uma relativaindependência(é diferentede rebe
autoritarismoou de "não precisarde ninguém"). Aquisição de novos modelo
identificaçãoe, ao mesmotempo,umanecessáriades-idefiirtcaçãocomarc^i
modelos de identificaçõespatógenas.
.
n Desenvolvimentodascapacidadesde ser continentede ansiedades- dasde
tros e das suaspróprias.Transformaçãoda onipotênciaem capacidadeparap
scr,'da omnisciênciapelacapacidadede exÍrairtmaprendizado com asexpe
: ciasemocionais;da prepotênciapelahumildadeem reconhecera fragilidad
r . necessidadedos outros.
Desenvolvimenrode umafunção psicanalíticada personalidade,expressã
Bion quedesignaumaboaintrojeçãodo psicanalistae, portanto,umacapaci
para alcançarr'nslghts e, no grupo, poder fazer assinalamentosinterpretativ

Em resumo,um verdadeirocrescimentomentaldecadaindivíduodogrupoc
sisteno fato deleter tiradoum aprendizadocom asexperiênciasemocionaisviv
142 . ZMERMAN&osoRlo

nasrecíprocasinter-relaçõesqueo grupopropiciou,de modoa seposicionarn


pensandoque o realmentevalioso é adquirir a lìberdadepara fantasiar,deseja
tir, pensaÌ,comunicar,sofrer,gozlr e estürjuntocoirios outros.

REFERÊNCIASBIBLIOGRÁFICAS
ZIMERMAN, D.E.
Fundamentosbásicoslas grupotercpías.Porto Alegrc: Artcs Médicas, I99
I4
PsicanáliseCompartilhada
Atualizacão
GERARDOSTEIN

(Prática solidária que aÍnplia os alcâncesdo método)

De como o nutridor acabatambém poÍ ser nutrido.


Tratou-se,em seu começo,de uma variantetécnicadcstinadâa investigar o empregod
método psicanalíticono gÍupo.Essaexpectativaconlinua sendoaÍualmentesua propo ta:
investigar dc que modo é possíveÌ desenvolvimcntode processospsicanalític
ìndividuais em um contexto ÌnultipcssoaÌ.Seu exercício na clínicamostrou-secfica
como recursoterapêutico,por um Iado,e demonstÍou,por outío, setum campo fecund
em contribuiçõespara â psicanálise,também na terâpêuÌicaindividual, de família e d
grupos pré-formados.
Este encontÍo fundânteé uma mctáfora antecipadora:a psicanálisese propõe a alimen
taÍ a psicoterapiade grupo; a psicotcrapjadc grupo se dispõe a ser alimentada pe
psicanálise.
Na ação,as coisâsse tornam diÍe.cntcs do csperadora nutriz se toÍnatambém lactent
investigação,nestecampo de encontrosintersubjetivos,seráatravessadapela mesm
modalidade:veí-se-ácomo, no âmbito do intersubjctivo,o devir psíquicoé sempred
natureza imprevisível e c.iativa. O enconlÍo dc duas intencionalidadesgera semp
intencionalidadesnovas.Mais ainda, o parentescocom as gendoÍasda união costum
ficar muito disiante.Trata-se,cntão, de um modelo cuja propostafundacionalfoi e con
tinua sendoa investigaçãodc um modo possívelpara o desenvolvimentode process
psicanalíticosindividuais€ m um contextomultipcssoal.
Os conceitos mencionados,e mais uma breve narraçãode suas origens, explicaÍão
razõesquc me inspiraramsua denominação:psicanálisecompaÍtilhada'.

Iniciei a práticada psicoterapiapsicanalíticade grupona Policlínicade Lanús,e


meadosde 1959.
"O Lanús", nome que até o presenteidentifica o Serviço de Psicopatologi
fundado2 anosantespelo professorMauricio Goldenberg,iniciou uma mudan
revolucionáriana psiquiatriade nossopaíse de outrosda AméricaLatina:foi a pri
meira saídada Assistênciaem SaúdeMentalfora do manicomial.Constituiu-sen
entradainauguralda mesmano hospital geral.
investigaçãodo novo, sem outros limites do que a seriedadeda tentativa,er a
norma do que ali era possível.Seu chefe confiou essatarefa a um conjunto d
profissionaisjovens, constituídoscom ele em "Staff Diretivo" do serviço. Tïve

'
Termo original: psicoanálisiscompaÍido.
.
144 ZMERMAN&osoRlo

sorte de contar-meentre eles e, em pouco tempo, de assumira direção do


mentode grupos.
amizadedo Dr. Goldenbergcom o Dr. Enrique Pichon Rivière e me
junto com os de minhaequipe,de contarcomsuaajuda,outorgaram-nosp de
tê-lo como supervisorde nossatarefa.
Sua forma de trabalhar a psicanálisenesta matéria ofereceuexperiê
preendentesFazia.-nosler o materialclínico, semmencionaro nome de seu
fossepacienteou terapeutaAinda. mais, nãodevíamosdizerquandodeixav
lo um e começavao outro. Tomava todo o material como a associaçãoliv
único sujeito: o grupo. ,.
As interpretaçõesdeviam s'erdirigidas aogÌupo.Operava-secom o co
porta-voz.Se,por exempÌo,alguémdizia se sentir"uma pessoadescons
intervençãodo psicanalistaera:"O grupoexpressasentir-se'odesconsi
gruposdo Lanús".
Comecei a trabalharconforme seusensinamentos,o que foi feito dur
tantetempo,até que,em uma ocasião,sucedeuo inesperado: surpreendent
da psicanálise,quandoa eficáciado inconscientesepõe em evidência.
Transcorriauma sessãocomo tantasde meu primeiro grupo terapêuti
va-meacompanhadopor meusdois"observadoresnão-participantes"(naq
pos, a funçãode observadorera limitada:deviamregistrarpor escritoo m
nadamais).
Poucodepoisdo início,mostrou-sechamativaa agressividade Ma
Julia.Assistíamostodosimpotentesaestacenacruel.Um sentimentode pi
Juliapromoveuumatransgressãoimpensada:"Maria", disse-Ìhe,"Seriaim
que pensasse razãode sua raivade Julia".
situaçãose traÍìsfigurou,para surpresageneralizada;a própria agre
deu suaatitudecompungidae abatida,paraunir-seao olharde cadaum, cr
analista,inclusiveobservadoresnão-participantesEste. se sentiuinvadid
sentimentoforte.Algo assimcomoo queexperimentariaum religiosode q
passeum grito blasfemodurantea prática de uma missa solene.
A pessoaaludidalogo serecompôs.Em tom de mestra,repreendendobe
um alunodesencaminhado,disse:"Eu agredindo!...Doutor!,...Não!...É o g Maria
revelouo queatéentãoestâvaoculto.Enquantoo trabalhointe sedirigia"ao
grupo",seusintegrantesrealizavamsuaatividadeindepend
Pôs-seem evidênciâum pactoâté entãoinvisível.
Possodescrevê-lodo seguintemodo: enquantominha ocupaçãoera fa
grupo,as pessoasconversavamentresi. Paraeles,meu diálogocom "o g
tido poruma "ocupaçãomágica",daquelasquenãochamariam atenção-em
lugarde um psicanalistasetratassedeum "bruxo",dotadodosmisterio dos
da cura.Ele "devia sabero que fazia".A conseqüênciaera natural.N
senãoescutar,tambémem silênciorespeitoso,essediscursoa um interlocu e
sempresilencioso(pelomenosparaeles):"O GRUPO".Os efeitosdeste al"
seria"indubitavelmentebenéficosparatodos".
W. Bion ("Experiênciascom grupos") traz um enfoqueesclarecedo
suceder.Trata-sede um grupo operandosegundoo pressupostobásico do
mento.O casalgestanteda esperançamessiânicaacaboupor ser consti
psicanalistae por um serideal:"O Grupo".O Messiasalmejadoera"A Cu que
como Messiasdevianãochegar,e assimcumprir suafunção princip vlva a
esperança.
Enquantoisso,os pacientes diziam estarmelhor.Acorriam pontualmenteàs ses-

sões.A equipeterapêuticatinha, por suavez, evidênciasde melhora,em algunscasos


notórias.Seria a força da esperançamessiânicaa sustentaçãoilusória de tais efeitos
satisfatórios?Inclino-me a pensarem uma respostaafirmativa.
Porém, seria esta a única razão?Outros investigadoresdevem ter chegado a
uma perguntaidêntica, a julgar por sua afirmações'.
Em mim, esseacontecimentoe tais interrogaçõesproduziram efeitos.
Maria tinha feito um disparocontundentesobreminhasconvicções.A potência
de seu impacto as levou por um caminho sem retomo.
Seucomentáríoirônico operouao modo de uma interpretaçãopsicanalíticapro-
È funda. Entrou em interação com meus próprios questionamentosinconscientesàs
teorias sustentadasAli,. e a partir de entãoem minha consciência,eles puseramem
ação mudançasinsólitas.Arrasadosmeus pressupostosteóricos e técnicos,optei por
retomar ao mais conhecido:a psicanálise.Comeceisimplesmentea escutarsuascon-
r versasespontâneasem atençãoflutuante, tal como aprenderacom Pichon Rivière,
como seescutao livre associarde qualqueranalisandoIsso,.sim, esquecidodo "in-
terpretarpara o grupo", como mandato.Tal nível interpretativoseriaampliado, mas
somentequando o grupo manifestasseinquestionáveisevidências de estar funcio-
nandoem termosde pressupostobásico.Como iria definir mais adia_nte,funcionando
mais sob as leis da massa'",e não asdopequenogrupo de trabalho.E no âmbito deste
último que a psicanálisee sua escutanão tardarama me submeternovamentea suas
a surpresasEm. uma ocasião,um paciente"4" falou de algum problema aflitivo. Em
r seguidaoutro, a quem chamareide "B", iniciou comentáriosaparentementedescone-
xos em relaçãoaosde seu predecessorNão. obstante,seuconteúdo manifestoparecia
guÍìÍdaruma coerênciasutil com o primeiro. O que sustentoutal coerência?Muito
simples: se "A" tivessecontinuadoseudiscurso,dizendoele o expressopor "B", eu
nãoteriavaciladoem categorizá-locomouma associaçãolivre significativa.
Assim, tornou-setentadorinvestigara naturezae o posicionamentodo nexo ativo
entre ambasas produções.

Juana:"Hoje, como sempre,vim por obrigação.Há algo que devo confessara vocês.
Dr. já sabe,vocês tambémtêm o direito de saber.Eu venho porqueme manda-
ram. Na realidade,não acreditonestetratamento".
(Silêncio inusualmenteprolongado).
Valeria: "Adrián, recémme lembrei. Tu vinhasfalandoem adotarum bebê.Faz mui-to
tempo que não mencionaso tema. O que aconteceu?"
Adrián: "Eu não queriafalar. DecidimosguardarsegredoMas. aqui é diferente.Ago-
e ra que estãome perguntando,entendoque, em análise,não há razõespaÍasilen-
ciar sobre isso.Me decidi, e falei com minha mulher. Levei-a para um café. Ali
não poderia agir como em casa.Sempreinterrompe,por alguma coisa que tem
para fazer" .
Valeria: "Dissestea ela tudo o que estavaspensando?"

'Porexemplo:
"Na verdade,quem tmbalhacom grupossabeque o campo gÍupalé muito cal€idoscópicoe p€rmite uma gâmâ de

lressupostosinconscientesmuito mais complexâ e variada. Aliás, essaslinhas estavamescíitasquando me deparei com as
irlâvrâs do próprio Bion, âo ÍespondeÍa umaperguntâque lhe fizeram sobÍe â utilidade dos três supostosbrísicos.'SãoconÍru-
;ões, geneÍâlizaçõesgÍosseims,.e, se elas não me lembram a vida real, não me seÍvempâra nada'."(ConyeÌsandocoüÌ Bion,
1992,p- 62); (ZIMERM AN, D.E. Bìon: da teoria à prática - una leituru dìütica. Poío AleEÍ.. AÍes Médicâs, | 996.p. ?8).
STEIN, G. "A APA, uma massaaíificial" le Il. Tmbdhos apresentadoscadaum emÍeuniãocientífica da AssocicçâoPsicânâ-:úica Argentina (1986),
para sua discussãoem pleniíÍioe pequenosgÍupos.
146 o znlervlr a osonro

Adrián: "Tudo".
Valeria: "E?"
Adrián: "A verdade,aindanão possoacreditar.Ficou claro que ela estavaes
essaatihrdeminha.Estavadecididaa adotar,masnão me via genuinament
cido. Agora pensoque tinha razão".
Nadia: "Desculpem,maseu fiquei com o que Juanadisseno começo.Me inc
sua atitude.Escuta,Julia, se não tens vontadede vir, seriamelhor que tu
em casa".
Adrián: (dirigindo-se a Nadia) "Não vejo por que tomas isso destemodo, s
disse isso enquantose sentou,é porque deve quererfalar disso".

essaaltura da sessão,a expressãode Juanasetornaraeloqüente para o


ta. Viâ-se como estavaemocionadaNão. havia muitasdúvidas sobreseu
sign Devia sentir-sedescobertaem seusegredo,issode que não falava,
masera co por mint. Decidi, então,vir em seu auxílio.

Analista - Adrián: "Você acabade dizer: 'Juanadeve quererfalar disso'. Ép

. que ignore o verdadeiroalcancede suaspalavras.Em minba opinião, vo


mais do que acreditasabera respeitode Juana.Agora, certamentevão se cer
umastantascoisas.Juana:você e eu sabemosalgo que seuscompanh
análiseignoram.É possívelque considereque é chegadoo momento de f
Juana:(começaa soluçar,e depois de um tempo fala) "Não posso falar. Po
Dr., diga você".
Analista: "Juaname pede que lhes diga o motivo de sua presençaaqui. Tra
suaesterilidade.Valeria:Juanacomeçoufalandode "algo que queria con
vocês,que o Dr. já sabe":no manifesto,foi suafalta de motivação para vi
ro a forma com que seu inconscientea escutou.Mas é surpreendenteq
entãovocê tivesserecordadoo projeto de adoçãode Adrián. Demasiad
endenteparaconsiderá-locasual.Como se,em algum lugar de você, não
h se dúvidas a respeito de qual era a verdadeiraconfissão que Juana pr
fazer.A da esterilidade".
Adrián: "Você dissetambém que 'Aquinão há razões para guardarsegredo'
quandoestavase referindoà sua própria pessoa,pareceevidentehaver fu
do paraJuana,em ressonânciacom um desejopróprio a ela. Estoubasta
ro de que seus desejosderam mais força aos dela: os de deixar de gu
segredo".

Juanahavia iniciado suaanálisehavia 3 semanasRecorreu.a ela, queix


de esterilidadee por conselhode seu ginecologista.Estudosclínicos exau
nham se mostradoinfrutíferospara encontraras causas.Por tais razões,foi d
ticada de origem psicológica. Seu encaminhamentopara o tratamentopsica
foi recebidocom desagradotanto por ela como por seu marido. Incoçorei-a
equipe de psicanálisecompartilhada,integradapor 4 outros pacientes.Com
se esperar,suaparticipaçãofoi escassaduranteasprimeirassessõesEra. evid
desinteressePara. seus companheirosde análise,era um enigma o motivo
consulta,nunca havia mencionadosuaesterilidade.
Valeriareferiu-seao projeto de adoçãode Adrián. Este último pôs a de
um passo importante na compreensãode sua conflitiva inconsciente:seu
pela patemidadepor adoção,em aliançacom um sentimentoidêntico em sua
Mais adiante,aprofundar-se-iaa análisede Juana.Isso nos deparariacom um
descoberta:o rechaçoinconscienteda matemidadepor parte de Juana,possívelres-
ponsávelpor suaesterilidade.E difícil, apartir de um pensarpsicanalítico,atribuir à
casualidadeo sucedido.Resumindo:

A associaçãode Valeria, precipitandoo comentáriode Adrián.


A descobertade seu rechaçopela patemidadeadotiva,incluído no mesmo.
O prenúncio precocedaspossíveiscausaspsicoÌógicasda infertilidade de Juana
O desdobramento,entreNadia e Adrián, da conflitiva de Juana:a primeira, expri-
mindo o temor de investigar ("Seria melhor que ficassesem casa"); o segundo
seu desejoe necessidadede fazê-lo ("Ali não poderia agir como em casa"...e,
depois,"Deve quererfalar disso"). Isso foi eficaz de imediato. Considero-auma
intervençãopsicanalíticade primeira ordem: antecipa-nos,ao modo de exempli-
ficação,um ponto a desenvolvermais adiante:o exercícioda função psicanalíti
ca por parte de qualquerum dos analisandos.

Ainda hoje ignoro a linguagemempregadapor Juanapara informar o ocultadoe


que ocultavaparasi mesmaao inconscientede seuscompanheirosde análise.Freud
descobriuum sucedercapazde lançaruma luz sobreisso.Afirmou, em vários traba-
lhos, a existência,em todasas pessoas,de um dispositivo inconscientec apazde
rea-gir adequadamentena leitura do inconscientenos outros'. Depois de investigara
naturezae o posicionamentodo nexo ativo dessasproduções,no exemplo preceden
te, estacomunicaçãoentreinconscientesacabapor ser a explicaçãoque melhor pare-
ce dar conta destesobserváveis.
Neste exemplo, produziu-seo que defini como "ato fundante de psicanálise
compartilhada".Tal aspectoacontecequandoo profissional informa a algum ou vá-
rios (como nestecaso)de seusintegrantesque seupsiquismoinconscienteconseguiu
ser capaz de detectare "interpretar" eficazmentea produção latente escondidano
discursomanifestode um outro.
A partir dessesuceder,proáuz-seuma mudançana forma de intervir de cadaum
dos membrosda equipe.Sem exceções,começaa desdobrar-seum chamativo inte-
ressepor reconhecerassociaçõespessoaise comunicá-las,por alheiasque pareçam
ao cursoda "conversacomum", A "conversacomum" seenriquece,a partir de então,
com estenovo estímulo à intercomunicaçào,e sua riquezapara a escutaem atenção
fluhrante,por partedo analista,toma-semais matizada.
A uma associaçãocostumasuceder-seoutra.O analista,no tratamentoindividu-
al, recorrea suaspróprias associaçõesElas. sãoo derivado,em seusistemaconscien-
te, das ressonânciasque, em seupróprio inconsciente,terãodesencadeadoas produ-

çõesinconscientesdo livre associarde seupaciente.Essesderivadosjáforam


reconhe cidos por Freud,precocemente,como a matéria-primaparaa construçãode
suasinter-pretações("Recomendaçõesao médico"). No campoobservacionalque
estamosdes-crevendo, somam-seaos do terapeutaos derivadosproduzidos pelos
inconsciente dos outros. Isso determinauma conseqüênciainevitável. O objeto de
investigação é registradoe traduzidopor mais de um "receptor". As
conseqüênciasserão óbvias: a natuÍezadas associaçõesdos
receptoresgeranovasressonânciase fomece, portanto, informação nova a respeito
dos receptores.os quais passama operartambém como novosemlssores.

'
FREUD, S. Consejosal médico en el trutamientopsicoanalítico (1912).Madrir B. Nueva, 1948,tomo II; "Lâ disposición a la
:ìeuÍosisobsesiva"(1913), Id. tomo L'I-o ìnconsciente",Id. Tomo I.
148 . znar"ro" a osonlo

Taisevidênciasencaminharãoseguramenteoleitor paraumamelhorco
sãodo porquêda denominação"psicanálisecompartilhada".
Osachadosquesucederamaosmencionadosiniciaramnovasderivaçõe
sede contribuiçõessignificativasà própriapsicanálise:"de comoo nutridor
sendotamMmnutrido".
Primeirovou enumerar depoisdesenvolvercadaumade taiscontribu

. Circulaçãoda funçãopsicanalítica.
.
Exercícioespontâneode estiloscomplementaresfunçõessuplementa
.
Pulsãode sabere instintode cura.

CIRCULACÃO DA FUNCÃO PSICANALÍTICA

partir do ato fundante,não se passamuito tempo até que algum particip


anime a produzir uma intervençãotão eficazmentepsicanalíticacomo as m
produzidaspelo profissional.E indubitável que o pôde incorporar como mo
aprendizagem,evidênciainefutável de algo: sua identificaçãocom o método
nalítico. E imprescindíveldestacaresseponto, dado que tal identificaçãoé a q
qualquerpsicanálise,constitui a matriz sobrea qual irá se construindoa cap
futura de auto-análisedo sujeito,
Assim como está aprendendoa "ler" o inconscientede um outro, est
condiçõesde ler o próprio, com o auxílío de um outroqualquer,quandohouve
nado sua análise.Defino, neste sentido,a auto-análisecomo algo possível,
com a mediaçãode um outro. Se, manejandomeu automóvel, escuto o ins
outro motorista e possopensar,vencida minha raiva, "que terei feito para m
isto?",e descubroa transgressãoquecometide forma involuntária,estareiempr
o impropério do desconhecidocomo a intervençãode um companheirode
involuntário, que setomou disparadorde uma descoberta:meu "ato falho"
con do um carro. Talvez âté me esclareçasobreas causasdo mesmo.
Resumindoo que foi dito até aqui, deparamo-noscom o incrementona
ção e na comunicaçãode associações com o surgimentodo exercíciode
uma até então privativa do terapeuta,a de interpretar.Já que a presençade
dois de constitui o primeiro acessoà consciênciade um novo saber sobreo
inconsci um outro, tal função merece ser incluída na mesmacategoriaquea
criação d interpretação:ambasficam entãoconstituindo o que defino como
"exercício ção psicanalítica"O. reconhecimentoexplícito,porparte do
psicanalista,da v e eficácia de tais intervençõesfacilita seu
desenvolvimento,e a conseqüê "livre circulação da função psicanalítica".
Tambémme depareicom o risco da "banalização"no exercíciodestafu
possívelque qualquerpacienteacabevencido pela tentaçãode desfrutardos d de
acreditar "ser o analista", e comece a ÍealizaÍ umuso espúrio desta circ livre.
Isso não deve nos preocupardemais.Não tardarámuito algum comen por
exemplo - de outro companheirode análiseque o tragade volta à realidad uma
genuínainterpretação:"Pareceque estásacreditandoser o analista"."Pií
isso,jáestáspassandoda medida".E issoseguidoda aprovaçãogeral dos com ros.
Tais respostassó podem conduzir ao aprofundamentoda análisedas cau o terão
levado a uma condutatão ingênua.Estesúltimos comentáriosaponta uma
consideraçãobásica:a circulaçãoda função analíticanão deve ser consi uma
abdicaçãodo lugar do analista.Este lugar ficará inquestionavelmentepr
COMO'I'RÂtsÂLHAMOSCOMORUPOS '

do como garantiado processoda cura. Ocorrerá,não obstante,de modo inevitá


tal como ocorreem uma análiseindividual -, que algumasvezeso analista,em co
qüência do fragor do trabalhopsicanalítíco,percamomentaneamenteseu lugar.
outro tema a ser consideradoO. colegaque a esserespeitose considereimune
eventualidadeque atire a primeira pedra.
Eu não vi jamais um colega dessesNem. em meus analisandosdidáticos, em
meussupervisionandosdidáticos,nem em meusamigosprofissionais.Trata-um
temacuja abordagemé imprescindível:a neurosede contratransfeÍênciado an O
ideal é que issonão aconteça,masocorre.O importanteé sabero que fazer,qu nos
damoscontade quejá ocorreu.Suponhamosuma equipede aniílisecompar da, em
que um dos pacientesse dirige a mim nestestermos: "Dr., quando f Roberto,nota-
sequeestáaborrecido".Suponhamostambémqueesteavisome per reconhecera

veracidadedestaafirmação.Qual deve ser,então,rninhaconduta t ca? Em minha


experiência,apenasuma, o reconhecimentoda validadedo com rio: "Tens razão,me
dou conta agora que o disse.Estive aborrecidocom Rob Tentarei,por minha conta,
averiguarquais podem ser meus motivos privados p quais isso ocorreu.Não vou
informar a vocêsasconclusõesque obtive disso.Pr nho-me a aproveitaro que
ocorreuparacompreendermelhor o que estáacontec com o RobeÍo".

Isso não é uma "confissãocontratransferencial",que é sempredesaconsel O


que no exemplo precedenteocorreu foi que a "confissão contratransferenc havia
sido produzida, apesarda própria intençãodo analista, quando mostro sentir com
Roberto.O que fez depoisfoi simplesmentereconhecera "confissão
tratransferencial"previamenteproduzida, o que pôde fazer graças à interpre
adequadaque o pacientefez ao analista.Essemodo de proceder,longe de impli
perdade seulugarcomo psicanalista,constituia recuperaçãodo mesmo,anterior
perdido ao ser vítimade suaneurosede contratransferênciaAqui,. o analistamo
simplesmenteque ele é uma pessoaa mais,e, como qualquerum, também poss
inconscienteeficaz,cujasproduçõesàs vezestranscendemsuasmais genuínasin

ções: nestecaso,preservara regra de abstinência.As porçõesperceptuaisdo eg


pacientedenuncianteterão sido reconhecidas,e a capacidadeauto-analíticado lista
colocadaem evidência. O que terá sido preservado,sobretudo,vai ser em meiro
lugar a psicanálise.De uma maneira não-habitual,mas não por isso m eficaz,os
pacientesterãouma nova evidência da profundidadee da eficáciado m do. Terão,
além disso, a evidência de como o modelo é válido para o anâlista t quanto paÍao
analisando:a auto-análise,que, como sempre com o auxílio d outro, toma-seuma
função sem cujo desdobramentosuficientenão há cura pos

EXERCÍCrOESPONTÂNEODEESTTLOSCOMPLEMENTARESFUNç
SUPLEMENTARES
Compartilho com muitos colegasa seguinteconvicção:o estudomais exaustiv
pÍocessode êxito de uma análiselança uma compreensãolimitada sobre as ca
quedeterminammuitasde suasconquistasTransitando.pelainvestigaçãodessasc
que me depareicom os conceitosque intitulam estaparte do presenteescrito
David Liberman (comunicaçãopessoal,e seu livro Lingüística, interacció
municativa y procesopsicoanalítico, l97l ) realizou um achadoclínico formid os
estilos discursivoscomplementaresOs. descobriu,inVestigandoprotocolosc cos
de outroscolegas.Deve-seprestarmuita atençãoa isto: descobriuque os pr
150 . zuenueN* osonlo

os psicanalistasos empregamsem sabê-loe em suasmelhoresintervenções


provou que âs interpretaçõesmais eficazeso eram não apenaspelo fato de s
teúdo ser acertado.O eram porque o estilo discursivoempregadoem sua com

ção era complementarao utilizado até ali pelo analisando.O emergentede ca de


tais interpretaçõespermitia observar,além de uma mudançano conteúdoda
ciações,tambéma do estilo discursivodo paciente.Sustentou,assim,suahipó que
o empregoespontâneodestesestilosoutorgavaum maior poderde penetr
conteúdodo que era comunicadopelo profissional.
Ele fala de quatro estilos,interagindoaos pares:

Estilo lógico (obsessivo)- estilo de ação (psicopático)


Estilo demonstrativo(histérico)- estilo observadornão-participante(êsqu

Pus deliberadamenteentre parêntesesa versão patológica dos mesmo


adianteexplicareios molivosqueme movema isso.
Sinteticamente:o estilo lógico contribui com o estilo de ação,a aptidão tiva
de esperanecessáriaparaum processamentoadequadoentreo impulso e a
tendentesà sua satisfação.Reciprocamente,o estilo de açãocontribui para o com
a quota imprescindívelque o processomental do impulso requer,para deter na
dúvida obsessivae poder passar,então,para o ato, em buscada satis
O estilo demonstrativoprovê a erotizaçãofaltanteno agir'tientífico" d
vador não-participante,inibidorde uma suficientesatisfaçãodo desejo.Inversa

estilo observadornão-paÍicipante fomece ao demonsÍÍLtivo oquantumde ção


que limita a erotizaçãoexageradado demonstrativo.Estadosemais adequ
erotizaçãopermite tambémum prazermais desfrutávelpor parte do demonst O
sentidode colocar entreparêntesesa versãopatológicados estilos dirig
ressaltarum passoinaugural para uma nova propostaem psicanálise:o est
funcionamentosaudáveldo aparelhopsíquico.O conceito saúde não apare
escritosfreudianos,e essafalta fala por si mesma.As notáveisdescobeÍasde Lib
conduzemà descriçãode um encontrointersubjetivofuncionandode modo sa e,
conseqüentemente,também a de um aparelho psíquicooperandode igual
interaçãodinâmicae harmônicados quatroestilosnos processospensantesA. p lise
compartilhadatomou-se um espaçoprivilegiado no observacional:col
psicanálisefrenteao desdobramentode açõesdiagnósticase de exercíciosterap
espontâneos,provenientesdos pacientes.Vale de novo aquilo do nutrientese
formado tambémem nutrido. O desdobramentodos estilos complementares se
visível, de modo idêntico ao descrito nos analistas,entreos companhei
equipesde análisecompartilhada.Suaefìcáciatambém.Observarsuaatividad
âmbito permitiu-me compreendercomo sua ação transcendea observadap
descobridor:o empregoespontâneo,por parte de um interlocutor,do estilo c
mentardo outro, operapor si mesmocomo agentede mudançaprofunda.Apre nos
diálogosda conversaçãocomum, como as mudançasestilísticasseprodu
ausênciade conteúdosinterpretativosem seu discurso.Encontro-meem con de
asseguraro seguinte:estejogo discursivo,no espaçoda intersubjetividad ao modo
de aprendizageme desenvolvimentodasquatro aptidõesdiscursivas sujeito.Tal
operaçãopromovemudançasestruturaisno intrapsíquico.A nâtur mesmossó pode
ser explicadapelo desenvolvimentode funçõesegóicas até
relativamenteatrofiadas.As causasdestescrescimentosdeverãoser encontra
Aprendizagemvia identificação e práxis de sua eficácia comprovada em cada
ensaiocom êxito, duranteo transcorrerdo conversarcom o discursocomplemen-
tar do outro. Se me fossefeita agoraa crítica"Mas isto é pedagógico,não psica-
nalítico", poderia responder"E porque, se é pedagógico,não pode ser também
psicanalítico?".
o, Estesconceitoslevaram-mea outro: deparamo-noscom algo mais amplo do que
um discursocomplementar,trata-sedo exercício de uma"função suplementar". É,
de fato, tentadorsuspeitarque,na históriapretérita,algo deveter obstaculizado,
justamente
talvez por carênciarelativade tal funçãoem suafamília primária, este
desenvolvimentonecessário.
Estaanáliselevouao encontrode outrasnumerosasaçõesfacilmentecategorizáveis sob
a mesmarubrica. Um pacientepadecia,em sua fala, de um conflito particu-
larmenteincômodo para quem o escutava:pronunciadasalgumas poucaspala-
vras,requeriadaspessoasque o escutavamevidênciasde ter sido entendido,com
perguntasde tipo variado (Entendeu?,Me acompanham?)O. analista,entre ou-
tros,mais atentoao conteúdodo que à forma, apenasexperimentavatal fato como
uma interferênciaincômoda para o trabalhopsicanalíticoEm. certa oportunida-de,
encontrouseuinterlocutoresperadoUm. companheirode análise.Esterespon-dia
de modo genuínoe de maneiraafirmativa a cadauma de suasperguntasrecor-
rentes.Ninguém pôde notarnele indíciosde tédio ou aborrecimento,pelo contrá-
rio, eravistocomo autenticamenteinteressadoEle. seconverteu,assim,em seu
interlocutor ideal. Tal binômio passoua fazer parte do cotidiano no trabalho de
equipe,e ninguém seapercebeudisso.Tampouconos demoscontada diminuição
paulatina,até quasedesaparecer,das "perguntasincômodas".Paralelamente,o
l curso da análisedo pacienteem questãochegou a um ponto-chave:sua relação
com um pai capazdos atosmaissutilmentecruéisna desqualificaçãode suaca-
! pacidadede pensar.Recémentão alguém recordouo velho sintoma,ojá curado.
Foi evidente seu sentido. Acabou sendo também evidente o efeito terapêutico
operadosobreo mesmopelo exercícioda função suplementarde seucompanhei-
ro: tinhalhe dito,por meiode um proceder,algoassimcomo:"Falaparamim, eu
sei de teus temores,comigo não devestemer,interessam-metuas idéias".

Tinha suprido uma função patema falida. A esseexemplo ilustrativo poderia


acrescentarmuitos outros,masdeixo para a experiênciapessoaldo leitor o fascinan-te
encontrocom os próprios.
que levou tal pacientea buscara função e o que levou seu companheirode
análise a provê-la? Não hei de entrar na intimidade do sucederparticular dos dois:
prefiro respondera essaperguntacom o desenvolvimentodo tema seguinte.

PULSÃO DE SABER E INSTINTO DE CURA


Devo recordarnovamenteo "ato fundante" e, sobretudo,suasconseqüências:desdo-
bramentoespontâneoda função psicanalíticaO. que move sistemâticamenteas pes-
soasem psicanálisecompartilhada desenvolverestasatividades?Sãoinocultáveis
, as manifestaçõesde prazer geradasem cadadescobertaque atingem em seu exercí-
cio. Isso lhes outorgao caráterde satisfaçãode desejos?Se for assim,qual serásua
natureza?Opinoqueexiste,no psiquismo, desenvolvimentoprecocedeumaporten-
tosaatividade,dirigida a exercera curiosidadesobreo mundo que o constitui e que o
152 . zluenv,qnaosonro

rodeia. Do exercícioadequadodessaatividadedependeráa sobrevivênciao


sujeito, e, ao consegui-la,a qualidadepara desfrutara vida. Desta ordem d
pulsional, que aciona tais atividades.Saber sobre o inconscientede algué
sobreo inconscientedos outrosé partedestasabedorianecessária:a psican
malizou como ciênciauma função preexistentenas pessoas,tão bem exerci
outros,pelos "velhos sábios".Dessemodo, essapessoadubitativa,vítima d
precocesa seumodo de pensar,buscou,semsabêìo, e domelhor modo que p
seu interior, o diagnósticode seu padecimentomais profundo e o remédio q
mentefosseeficaz para suacura. E semdúvida o exprimiu incomodando.Si
vamente,suamaneirade exprimi-lo foi tão exasperanteque, salvo uma pess a
ignoraram. O pranto de um bebê é também incômodo. Mas ele carece
linguagempara informar suamãedo que suavida depende:"Diagnostiquei em
mim vai mal e precisade remédio,mas semteu auxílio aindanão sei nem nem
como se cura. O que sei, por minha dotaçãoconstitutiva,é que meu ch tém a
capacidadepotencialde te convocarem meu auxílio". A linguagemé dois. Toma-
selinguagem,quandose encontracom a linguagemdaquelequ
amor matemal,segundoGarcíaMarquez- "Essa amizadeque se desenv a
criação do filho" -, contém, por sua vez, em seusmandatosde ADN, o
matemal e, como parte dele, o de cura. Ele a guiará ao encontro do diag
tratamentoadequadosdo padecimentode seu bebê.Estimo que a pulsionali
jogo, motor paraa colocaçãoem marchado exercícioespontâneoda função
lítica, daprática dos estiloscomplementares do operarinconscientecom as
suplementares,deveráser enc,ontradaem instânciasradicadasnas porções i
ente do ego de cada sujeito. E fácil reconhecerseu parentescopróximo co
curadoraque apresenteianteÍiormenteSerá.funçãoda psicanáliselimpar de
los o acionamentode sua potencialidadecurativa. Vale novamenterecord
citando para modelizaro sentidoíntimo da curapsicanalítica,o refrão captu
ele no consultório de um cirurgião: "Je le pansai,Dieu le guérif", algo ass
ponho
"Eu -É as atâduras,Deus o cura".
importantedestacara escassaapariçãodo grupo operandoem termos
logizaçãonarcisística(grupo de pressupostobásico,por exemplo).Os organ
grupais,trabalhadospor R. Kâes,parecemoperarnasequipesde psicanálisec
lhadacomo sustentaçãoeficaz de suataÌefa:curar-curar-secom o emprego do
psicanalíticoO. desenvolvimentode processospsicanalíticosem cadaum
participantespaÍecegarantido,dessemodo, pelo reconhecimento,por part lista:

.
do desdobramentoparticular da função psicanalítica;
.
das funções suplementares;
.
das conseqüentesaptidõespara a cura, de cadaum dos pacientes.

empregodessesaspectosespecíficosda técnicaproporcionanutrição
cindívelpara o processode narcisizaçãotrófica dos pacientes:consideroes
como umapassagemineludívelem todoprocessopsicanalíticoencaminhados te
em direçãoà cura tanto em análisecompartilhadacomo na análiseindivid
psicanálisecompartilhada,é uma das explicações possíveispara o desdo
espontâneoe eficaz dos organizadoresgrupaismencionados.

'
N. d€ T. Dilo atÍibuído a AmbroisePare.
15
Grupoterapiadas
ConfïguraçõesVinculares
WALDEMARJOSEFERNANDES

"InvestigaÍa cesura;não o analista;


não o anaìisando;não o inconsciente;não o conscientei
não a sanidade;não a insanidade.
Mas a cesura,o vínculo, a sinapse,
(contratrans)ferência, humoÍ transitivo-intransitivo" Bion
(1964)

Ao consideraro objetivo maior deste livro, que é mostrar como cada profissional
trabalhaem sua área, pretendoabordarapenaso mínimo de teoria e dar uma idéia
para os leitores a respeitodas influênciasque tenho recebidoduranteos 25 anosem
que venho trabalhandocom grupos.
Minha primeira e mais importante influência vem do contato com Bemardo Blay
Neto, com quem tive 2 períodosde PsicoterapiaAnalítica de Grupo, num total de 12
anos.Fui seualuno no Instituto SedesSapientiaee no Instituto de Formaçãoda
SPPAG.Mais tarde,já seu amigo, tivemos oporhrnidadede escrever,em co-autoria,
um trabalho que envolvia questõesrelativasà transferênciae à contratransferência,
incluindo aspectosvivenciadospor ambosduranteo tempo em que foi meu analista.
Devo a Blay Neto, entre outras coisas,o estímuloà criatividade, o interessepelos
fenômenosligados à comunicaçãoe a falta de pressapara fazer interpretações.
Outra influência importanterecebide Manoel Munhoz, primeiro meusupervisor
amigo; depois, colega de consultório e companheirodurante os 14 anos em que
lecionamosna OSEC. Como lidar com os difíceis conceitosde Melanie Klein, Bion,
ou com a interpretaçãopsicanalíticadosmitos,de PaulDiel, de forma simples?
Munhoz erã capaz de passarinformações para os alunos, como passoupara mim,
tão bem digeridas,que imediatamentepareciamverossímeisOs. fatos ou
acontecimentosdo dia-a-diado grupo eram muito valorizadospor ele.
A terceira influência tenho recebido atravésdos contatos,infelizmente raros,
masmuito ricos,de David EpelbaumZimerman,que tambémtem a capacidade,como
tinham Blay e Munhoz, de transcreverum assuntode certa complexidadede forma
tal, que passaa ter maior possibilidadede compreensãoIsso. sedeve a anosde refle-

A!Íadeçoà Marina Durând e BeatÍiz Silverio Femandesaleitura prévia e as sugestõespâm â elaboraçãofinal destecapítulo.
xão e de preocupaçãocom a comunicaçãoclara, ao contrário de muitos, q
guemsermaiscomplicadosqueo autororiginaldo texto.
Vamos a algumasconceituaçõesSeria. difícil, atualmente,tentarmo
psicanáliseNa. verdade,há tantaspsicanálisesquantopessoasou entidade
defini-las. Não podemosdizer que estaou aquelaé a certa,e uma ou outra
O objetode conhecimentoem psicanáliseé a realidadepsíquica- de si me
outro.A buscada realidadepsíquicaé inerenteao serhumano(funçãopsi da
personalidade).
Atualmentehá um movimento,de âmbitomundial,no sentidode se
estudopsicanalíticoda grupalidadeTrata.-sedo que denominamospsica
configuraçõesvinculares,que é uma forma de organizarconhecimentosex
de abrir um campode estudocom visão mais amplaa respeitoda psica
terrenodos grupos,famílias,casrise instituiçõesE. chamadotambémp dos
vínculos.
Paramim, "vínculossãoestruturasrelacionaisondeocorreexperiênc nal
entreduasou maispessoasou partesda mesmapessoa;englobaa trans
contratransferênciaNessa.estruturaou espiìço,ocoÌÌemasarticulaçõe
inter,intrae transubjetivos".
ParaBion, na experiênciaemocionalocorridanos vínculos,podeme
emoçõesbásicas:conhecimento(vínculoK), entreum indivíduoquebusc um
objetoe um objetoque se prestaa serconhecido;amor (vínculoL), a
anterior,mas referenteao amare ser amado;e ódio (vínculoH). Zimerman
tou importantecontribuição- o vínculoR, vínculodoreconhecimento(co a si
mesmo,do outroe ao outro).
Chamamosconfiguraçõesvincularesà estruturaexistente,quandoh
maispessoasem interação,comoum casalcomseuanalista,porexemploNã.
do de lado o mundointemo,no trabalhocom as configuraçõesvinculare
mos a presençado outro real externo,que pode ser um obstáculoao eg

também necessáriapara sua evolução, que o outro "não é um mero pr
projeções,mastem existênciaprópria".Aqui residea especificidadetécn
proposta.
Pensoquecadaelementodo grupotraz,dentrode si, seugrupode r
suasmatrizesvincularese o registÍo às diferentesformas depertencerà gru em
quejá seinscreveuSendo.assim,cadaindivíduocompareceàsessãogr
suasconfiguraçõesmentaisdinâmicase mitos,enfim, com seupotencialpara cer
vínculosnos espaçosinter e transubjetivos,partir de sua intra-sub
Esseconteúdolatentevai emergirna sessãogrupal,em partepor necessid al,
mas também pela estimulaçãode estaragrupado,provocadaprincipalm
presençaespecíficadaquelescompanheirosde grupo,do terapeutae suatécn
issoocorreno aqui-e-agorada sessão dependedasressonânciasqueess
produz,tendoa ver aindacom a históriado grupoe a cultura.
Tal como facesda mesmamoeda,o indivíduoe ognrpoestãoali. De de
nossavisão,observaremos predominânciade um ou de outroaspecto

MATERIAL CLÍNICO
Passareiao relato de uma sessãogrupal, apresentadasinteticamenteFoi.
épocaem que ocorreu,e os nomesdaspessoasforam alteradosNo. relato, a
çío - l, 2,3 e 4 - refere-sea certos momentosda sessãoque utilizo para mostra
como trabalhocom grupos.
Trata-sede um grupo de 4 pessoas,que até 3 mesesantes,estavacom 5 pessoas
Lurdes, 42 anos,física,vida universitária,abandonouo grupo após2 anos,alegand
dificuldadescom a distânciade sua casae o trânsitocongestionadoTeve. períodode
anose meio no mesmogrupo,temposatrás,no consultórioanterior.Os atuaismem-
bros do grupo são:Armando, 43 anos,empresáriono setorde peçasautomobilística
há I ano e meio no grupo; Ana, 45 anos,é administradora,estáhá 8 anosno grupo;
Cristie, 32 anos,formadaem geografia,há 2 anose meio no grupo; Mariana, 35 anos
fisioterapeuta,com 4 anosde participaçãono grupo.
Nessasessão,Armando faltou sem avisar;esperávamosque tivessevoltado de
viagem. Estão presentesAna, Cristie e Mariana. Inicialmente, após breve silêncio
, Ana fala sobreo dia de folga que conseguiudias atrás.

Tenho o hábito de aguardaralguma comunicação,verbal, ou não-verbal, desdeque

o silêncio não seja muito prolongado,ou muito pesado.Tais avalia- ções,


subjetivas,dependerãodo grau de sintonia com que eu estejatrabalhand com o
gÌupo.Não há um limite numérico estabelecidopara que eu consider muito ou
pouco. Por vezes,eu pergunto:O que se passa?Possotambém fazer algum
comentário, do tipo: Estão um bocado sérios hoje... - Parecempensa tivos....E
extremamenteraro eu fazer uma interpretaçãoa partir de uma única
comunicação.Pensoque poderiatirar o grupo de seu rumo.

Ana: "EnquarÌtoos outrostrabalhavam,fiquei passeandocom uma amiga aposenta


da, visitamos algumaspessoasfizemos compras,vimos uma porção de lojas e
almoçamos.Foi uma delícia."(Cita que deve se aposentarem 10 meses.)

Cristie conta que seu trabalho temporário terminou. Pretendedar aulas, está
procurando o que fazer.
Mariana estásem trabalhar,mantém maior contato com os filhos, está preten
dendodar assessoriaem casamesmo.Lembra do empregoanterioç em que trabalha
va durantetodo o dia. "Eu trabalhavacomo um camelo,preparavaplanilhas,tabela e
mais uma papeladaque depoisninguém usava,era horrível."
Todoscomentamsobreo trabalhoinútil, desgastante,como isso é desagradáve
etc.
Ana conta que, com seussubordinados,costumadar tarefase depois verificar
como as realizaram,que dificuldadestiveram. Costumaperguntarparaeles se acham
que as coisasficaram bem feitas ou não e se precisamelhorar aqui ou ali. Eles gos
tam, sentemque estãotrabalhandojuntos e que o que é pedido para eles tem algum
valor.
Cristie tem observadoquenasconversascom aspessoasàs vezes"se empolga"
quando conheceo assunto,"dando verdadeirasaulas"... lembra então que Mariana
fez o mesmo na sessãoanterior com relação ao assuntopostura, trazido por Ana
(orientação).Passaa lembrarque ficou "horas" falandocom o namorado,explicand
para ele uma porção de coisas,referentesà geografia.'?iqueicontentepor ver que
não sou tão ignorante."

Mariana: "Antes daqueleemprego,dei aulase treinamentonuma clínica, mas ach


que me preocupavamais em exibir como fazia bem os exercíciose não tanto
com o aprendizado.Gostariade trabalharagoracom outro espírito".
. 7yspys1.1d,656p1s

O terapeutacomparaos diferentesrelatos:Mariana que trab


situações- numa não era considerada;na outra se exibia (inclusive
na or); Ana, que sereferiu a trabalharjuntos, considerandoque a
tarefâ t ce que necessitamde um atestadode que têm valor, um
reassegurame de ânimo". No casode Cristie, com o namorado("não
é tão ignorant de ânimo era auto-aplicada.

É comum essaatitude de minha parte. Procuro estabelecerp


gentes,diferentesou conflitantes,clarear as comunicações,faci
cobertasque poderãofazer a seguir,que,não necessariamente,
tes às minhas.Com freqüêncìaestãopercorrendocaminhosdife
Quandoperceboisso e verifico que não os perturbei,/azendosáb
çõesprecoces,fico muito satisfeito.No casocitado, nessemome
no vínculodo reconhecimento.

Passama comentarsobrea necessidadede, por vezes,sentir o re


alheio,lembramde sessõesem quejá haviamsentidotal coisa,com r
outrose com relaçãoaoterapeutaAs. vezesexageramnisso,por inseg
confiançaem si, etc.
*
(Terapeuta faltavapoucotempo....nosilêncioocorreram-medu
Ana se aposentando seguindoplanosjá relatados(vai semudar parar
secasar),deixará o grupo. Não digo nada (3), maspensoque precisa
sobre alta) 2" - Notei que a primeira observaçãosobre o dia de fo
comentários.

Em situaçõescomo essa,parto do princípiode que, se a pes


respeitodurante toda a sessãoe o resfo do grupo, incluindo o t
percebeu,é porque, provavelmente,há um importante process
curso, que só deveria ser desmontadoem outra ocasião,mas nu
minuto da sessãoCom. relaçãoao dia de folga, acheique poderi
assunto,mesmono final.

Terapeuta:"Ana, quandovocê informou sobreo dia de folga, suaapÕs


tinhaalgumacoisaem mente?"
Ana: "Sim, por um lado achomaravilhoso,pela liberdade,a folga.
honoroso, não sei como vai ser...tudo novo... apesarde que eu
uma sériede atividadesnovas..."(falaem tom choroso).

No último instanteas outras duas participantesperguntampara


você prefere,o que você quer no momento?".

Ana: No momento é descansar,ficar sem fazer nadamesmo!"


Terapeuta(4): Eu tambóm!"(rindo)"Vamosparando...queestána ho

Atitudes dessetipo, espontâneas,alguma brincadeira,etc., f meu


estiÌode trabalhoGeraÌmente.deixamo grupo mais aliviado que
percebemque estão na presençade um ser humano e que
estejamas coisas,podemosconversare tentaravançarjuntos.
COMENTÁRIOS FINÀIS
Tal comoOdilonde Mello FrancoFilho, acreditoqueo usode referenciaispsicana-
líticosparaabordaro grupopodesereficientee permiteelaboraçõespsicanalíticas
quenecessariamentenãoserãoidênticasàsde umaanáliseclássicaSão. doisproces-
sosdetrabalhodiferentes- a psicanáliseindividuale a psicanálisedasconfigurações
vincularesOs. resultadostambémnão serãoos mesmos,ambos os processossão
imperfeitos,maspoderão,eventuâlmente,seÍcomplementares.
Acreditoque naspsicoterapiasgrupais,assimcomo naspsicoterapiasbipes-
soais,muitasinterpretações-e entreelasasmaisimportantes- têm de serfeitasa
partirdasreaçõesemocionaisdo analistaPor.exemplo,no mesmogmpocitado,mas
em outrasessão,eu sentigrandemal-estarNão.entendiao queestavasendocomuni
cado,sentindo-meparalisadoApós. transcorrermais da metadeda sessão,veio à
minhamentea imagemdaEsfinge,maisum elementoparameperturbar!Acheique
serelacionavacomassuntosdeviagemao Egito,pirâmides,etc.,atéqueme ocoreu
EnigmadaEsfinge:"Decifra-meou te devoro!".Disseentãoparaeles:"Estiveme
sentindoquasequeobrigadoa lhesdizeralgumacoisa,maso fato é quenadaclaro me
ocoreu. Tenhode toleraressafalta de clareza,mastenhodúvidassobrecomo
vocêsestãose sentindonestasituação"Ana. diz: "Eu estavasentindomuita raiva
(Armando- "eu idem")com relaçãoa você,WaldemarAté. idéiasde agredi-lotive
como se não quisessenos ajudar.Tudo issome deixouaflita...".No decorrerdos
minutosfinais,ficouconfirmadoqueasreaçõesemocionaisqueeusenticorrespondiam
à experiênciaemocionalpelaqualo gÍupopassava.
O que acabeide expornão significaque acreditoque tudo o que passarpela
cabeçado terapeutadeveserdito, nemquequalquerreaçãoemocionaldo terapeuta
sejapuramenteprodutode projeçõesdosmembrosdo grupo.Interpretardeveriaser-
vir paraajudarosmembrosdo grupoa seperceberem,encontraremnovoscaminhos
amadureceremInfelizmente.podetambémserusadoparamostrarcomoo analista
inteligente,sensível,erudito,poderoso,etc.,o queé relativamentecomumaconte-
cer. Entendo,nestecaso,que é fundamentalpodermospercebero quantoestamos
trabalhandoem favordo desenvolvimentodosclientes,ou seo queestamosprocu-
randoé reforçar,narcisicamente,tendênciascaracterológicasdi auto- satisfação.
Há algunscolegasque consideramverdadeiramissãodo psicoterapeutainter-
pretaro tempotodo; nãoé o meucaso.Mesmointerpretandopouco,aindaassim,
muitasvezesatrapalhamosdesenvolvimentogrupal,tirandoo grupode seurumo.
Nessasocasiões,teriasidomelhorficar calado.
Blay Neto costumavalembrar,ironicamente,de colegasque em
seutrabalho davammagníficasinterpretaçõese, quandoos membrosdo
gruponão captavama mensagem-
discordando,argumentandocontrariamente,etc .-diziam:"Issoé resistên-cia!".
Ao contráriodo quepoderíamospensar,nãoé a resistênciaquenosimpedede
percebero inconscienteNa. verdade,quandoexistea resistênciaé quecomprovamos
existênciado inconsciente.
questãodossilênciosno início,duranteou no final dasessãoestádiretamente
relacionadacom a sensibilidadedo terapeuta,o quantoestápresentena sessão,qual
a naturezadosvínculosqueestabeleceucom o grupo,etc.No fenômenoda transfe-
rência-contratransferência,que é vincular,estabelecem-papéissecomplementares,
comomãe-filho,quenãoimpoÍampor si só.O importanteéa qualidade a "força" ou a
"fragilidade"do vínculo.Nem sempresilêncioé sinônimode resistênciaE. no
binômiotransfeÉncia-contratransfeÉnciaquefreqüentementeencontramos luz.
comunicaçõesnão-verbais,como gestose olhares,por exemplo.E
de voz que, com maior freqüência,encontro o matiz da experiên
confirma ou retifica a comunicaçãoformal.Por exemplo, em cert
começoua falar em tom pouco audível,relatandoumasérie de co
vir a acontecerO. grupoprestavaatenção,fazia perguntas,maso co
nicaçõesnão era esclarecedor,até que ficou mais evidenteque ela
pessoa moribunda no leito de mone. Assim que isso foi apont
passoua se desenvolverem torno da sensaçãode, em muitas
situa são vítimas indefesas,num mundo mau.O fio da meadapara
pode a respeitodisso foi o tom de voz
Compreendotransferênciacomo o conjunto de emoçõese co
tais despertadasnos pacientespela presençado analista. Na si
necessárioampliar o conceito paraas
reaçõesdespertadastambém outros membros do grupo.
Em minha maneirade ver, sejao que for que o
analistatragap ter alguma relaçãocom o material discutido ou
com as pessoasal assim, prefiro conceituarcontratransferênciada
seguinteforma: reaçõesemocionaise atitudesconscientese
inconscientesque exp relaçãoà partedos membros,ou ao
grupocomo um todo, inclusivef cia".
As transferênciasbipessoaisestão baseadasna matiz vinc
paÍir da relaçãodo bebêcom a mãe.As relações primitivas sãose
rede de outros e, no contexto psicoterapêutico,as relações pod
comunicaçõesque ocorrem na matriz de grupo, quer o
tratamento ação bipessoalou grupal.
rnaterialclínico apresentadonestecapítulofoi discutidonum do
NESME, em queestavampresentescercade 20 participantesFoi.
verificar como cada um captou aspectosdiferentese como, a pa
observaçõesdadaspor colegasque possuemcerto stdlrrj na instit
passoua existir, o grupo dos discutidores.O que fica evidentepo
muitas óticas existiriam paraanalisaras sessõesEntretanto,.só o an
vínculo transferencialpoderá trabalharno aqui-e-agora.Outr

analisabilidadeem grupo. Qualquerpessoapoderia se beneficiard


Talvez sim, embora tenhamosde respeitaras indicaçõese contra
cas,porém, como tudo na vida, não de forma absoluta.
Alguém pode ter um bom desenvolvimentocom um analist seja

nos grupos ou não. Todos nós tivemos a experiênciade co em
grupo e ele manifestar comportamentosinusitadoscom rela
mostrado,até então,nos contatosbipessoaisSuponho. que aspect
lidade até entãoocultos puderamemergiramplamenteapoiados n
sentido que Kaës relata em Elayage eI structuraciondu psychism
Finalizando,faço algunsposicionamentosO. terapeutade gru
plenamenteconscientede que não podecederà tentaçãodo
podero te à suafunção.Por outro lado, não pode tomar-
se"simplesmente do grupo".
Trabalhar com as configuraçõesvinculares também implica
conter,contratransferencialmente,cargasemocionaisde irritação
surgemcomentáriosdesfavoráveissobrenossocomportamento,o
sonalidade,coisasque são inevitáveisem nossotrabalho.
1.
t Além projeções
das de fantasiasonipotentes,o analistae os pacientessão pe
I soasreais
e como tais apresentamsemprealgum relacionamento não-intemretáve
Ê Sejacomo foç o foco de nossaatençãodeveestar..novínculo

a duo. Vínculo que é um espaço,verdadeiro e nãono indiv


ponto de contato que, tal como o hífe
f separae une".
{ REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
:
r BERNARD,M. et al. Desarrollossobregrupalídad:unaperspectívapsícoanalrrca.

LugarEditorial,I995, BuenosAjÍ
919\ Y-a!,DSrúrmações:
mudançado aprendizadoao crescirnenra.
,,Algumas
Rio dc Janeiro:Imago,

BLAY NETO, B. e FERNANDES,W. J.


19

consideraçõesrcspeito

terapeuta-grupo"Apresentado.pelos paulista psicoteÍapia


da rela çãoe"moci

Grupo,em Lindóia,1987, autoÍesnaIX Jomâda de


e peÌosegundoautoÍ,comohomenagem,
Analítica no II EncontroLuso_Brasi

de Grupanálise PsicoterapiaAnalíticade Crupo,em Lisboa,1993,após


ì\eto. o falecimentode Bl
FERNANDES' "La
w. J. interpreraciónpuedcestarar servíciodel narcisismodel psicoterapeu
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KAES, R. Apuntalamicnto múltiplee estrururacióndel psiquismo.RevAAppG,. tomo XV n" 3 e

BuenosAires.1991.
MUNHOZ,M. VisãoevolurivanapsicoreÍâpia analíticadegrupoReu.ABpAG,v.l, editadapelaAss

ciaçãoBrasileiÍade PsicoterapiaAnâlítica pauìo,


19g9. de CÍupo,São
ZIMERMAN, porto ZIME^RMAN,D.
D. E. Fundamentosbásicosdasgrupotercpías .Alegre:ArtesMédicas,1993. E. Bion: da
teoriaà prátíca- uma leíturadìdárìcaÉorto. Alegre:ArtesMédic
1995.
T6
Laboratório Terapêutico
FRANCISCOBAMISTA NETo

Os gruposde tempo prolongado,tambémconhecidoscomo maratona,laboratório de


relagõeshumanas,grupos I e outros,podem ser consideradoscomo uma experiên-
cia importantena buscade novos métodosde ensinoe aprendizagem,crescimentoe
desenvolvimentopessoal-
Vários tipos de experiênciaspodem ser encontrados,cujo objetivo se centrana
conduta, nos pensamentose sentimentosdos paÍicipantes como basepara a
aprendiza-gem e o crescimento.
Os grupos Synanon,universidadeslivres e grupos espontâneossão exemplos
de atividades que chegam a incluir medítação,yoga e grande quantidade de
exercíci-os não-verbaisque podemestarcentradosna agressão,no amor,na
inclusão,na rejei-ção e na competição.
O tempo varia entre um microlaboratório de quatro horas ou uma maratona de
quaÍenta horas a um programa residencial de duas ou três semanasque
compreende mais de cem horas com o mesmo grupo.
Um exemplo de laboratório sãoos gruposT (derivadode rrainin6). O gnpo se
reúnedurantemuitas horas,e cadapessoapode ampliar suacompreensãodas forças
que definem a conduta individual e a atuaçãode gnrpos e organizações.Como o
próprio nome diz, é uma forma de treinamentoeficaz, onde as pessoascentradasem
uma tarefa podem ter experiênciaspessoaisenriquecedoras.
Entre os centros mais famosos na realização de laboratórios está Esalen, proprie-
dade que ocupa c.incohectaresde terreno sobre o mar em Big Sur, costa oestedos
EstadosUnidos.E um local onde serealizamsériescontínuasde laboratórios,defini-do por
Rodrigué ( 1983)como "um gigantescocirco psicodraÍÍÌ.áticodeTrêsPistas.. .".
O laboratório terapêutico tem por objetivo o tratamento de grupos ou de
pessoas em gÍupo,e as pessoaspodemteç em períodosmuito cuÍos, experiênciasde
relação, intimidade, apreço e crescimento,bem como disposição paÍacorrer riscos,
busca, descobrimento,apoio e aceitação.
O laboratório oferece a possibilidade de formar um grupo primário instantâneo,
onde as pessoasterminam sabendobastante sobre os demais, nascendo uma lealdade
associadageralmentea amigosíntimos,velhoscompanheirosou membrosimediatos da
famflia. Entre as finalidades,uma é desestruturaÍos estereótiposhabioais. Apesar das
interpretaçõesindividuais e grupaisque realizamosduranteo tratamentode ori-entaçáo
analítica, tende-sea criar certospapéis fixos entre os integrantes.O tratamento
psicanalítico podecriaÍ estasestruturasfixas defensivas,que permanecem inconscien-tes
para ambosprotagonistas,ou seja,terapeutae paciente.
L62 r ztÀaeRì.{Áosonlo.Ì.,Ic

Relatandosua experiênciaem Esalen,Rodrigué (1983) diz


consideradoum lugar ótimo para realizar um serviço completo Mais
que atualização,pensemna amebaque,depoisde fomicar so tempo,
necessitada cópula genuínacom outra amebapara rejuve No grupo
intensivo,a pessoapode obter uma imagem clara de,
obtendoretroalimentaçãodos outrosmembros,em distintos m
volvimento do grupo. Isso inclui a compreensãodasigualdadese
com os outros,
Paraentenderinteiramenteo propósitoe o funcionamentode
sário que se tenha algumaexperiênciadireta. Por mais que se lei
filmes ou videoteipes,os acontecimentos as experiênciasde ca
pessoais,de forma que somentea vivência permitecompreendê
de.
Quando estamosselecionandopacientesde um grupo par
laboratório, e um pacienteque nunca participou perguntaa outr ram
"Como é que é", após vários minutos de tentativasde explica
resposta:"Você precisaparticiparpara sabercomo é que é".
O meu objetivo é procurar demonstrara partir de minha ex
trabalhocom grupos os princípiose o funcionamentobásicode u
pêutico.
Tenho realizadolaboratóriosde final de semana,no máximo
homense 5 mulheres,com idade entre25 e 45 anose carga hori
mente dezoito horas.Selecionopacientesde um mesmo grupo t
incluindo pacientesde outros grupos,pacientesde psicoterapiai
mo pacientesque estejamse submetendoà psicoterapiacom outr
Nunca aceitopacientesque não estejamse submetendoa um
tico. Se, por um lado, a pessoase encontraentreoutrasa quem lh
entendere oferecer ajuda, o laboratório pode criar ilusõese cas
como gerar tensõesque podem levar a surtos psicóticos. Este é
terapeutadeve ter e estaratentoa estaspossibilidades,que inviab

ção de pessoassem acompanhamentoterapêuticoem laboratório


As contra-indicações para um laboratório estão bem pró
grupoterapiaregular, levando-seem conta que no laboratórioes
clusivamentepessoasde bom nível de adaptaçãoneurótica.Não i
parpacientescom episódioatualdepressivo,com transtomofóbico
nem portadoresde transtomode personalidadee de comportame
Tenho trabalhadoem co-terapiae uma única vez trabalhe
suficienteparaprivilegiar o trabalhocom um ou mais colegas.Tra
tr€sfacilita a compreensãodos fenômenosgrupais,não permitind
envolva demasiadamente não caia nas armadilhasque todo gru
A presençade uma terceirapessoafacilita a compreensãoe até a
péis que se estruturamentre as defesasde pacientese terapeuta
formaçãode basepsicanalítica,fiz pârceriacom terapeutasdas m

ções, como bioenergética,holística,análisetransacionale psicod


Atualmente,tenhotrabalhadoapenascom colegascom afin
em que peseter consideradoválidas asexperiênciascom os outro
ram aospacientesa oportunidadede se submeterema outrastécni
nalítica.
Creio ser esseum ponto muito importante.Sabemosque a
único caminho para as pessoasque necessitamde ajuda psicológ
coMo TRABALHAMoScoM cRUPos . 163

quão restritiva ela é, daí existirempessoasque são analisáveise outras que não são.
Além da psicanálise,existem outrasformas de ajudar as pessoas,cujas dificuldades se
centram no corpo ou mesmo aquelasque simpÌesmenteforam submetidasa um
sistemaeducativoque não tenhadado oportunidadespara o descobrimento,explora- ção,
conhecimentode si mesmoe das pessoassignificativasna sua vida.
Se, por um lado, é muito importante entendere compreenderas motivações
inconscientesdo indivíduo, nem semprea técnicapsicanalíticaisolada é o melhor
instrumentopara a ajuda que o pacienteestá buscando.Durante o laboratório, usa-
mos técnicasda análisetransacional,do treinamentoautógeno,corporaise principal-
mentedo psicodrama,procurandoassociaro entendimentopsicanalíticocom a teoria
sistêmica.
dramatizaçãopassaa serum elementopassívelde ser introduzido a qualquer
momento duranteo laboratório.Ela é utilizada parafacilitar os emergentesnaturaise
espontâneosdo funcionamentogrupal. Usamosa dramatizaçãoquaardoasnecessida-
desde expressãoe elaboraçãoaparecemdentrodo grupo e percebemostais
necessida-dese o clima propícioa estaintervenção.
Psicanálisee psicodramajuntossão instrumentosmuito eficazesem um labora-tório.
Lebovici diz não haver contradiçãoaÌgumaentre a prática do psicodramae a conduçãode
uma cura psicanalíticae conclui: "A psicoterapiade expressãodramáti-ca não pode ser
compreendidaem todos os seusaspectose em todasas suasimplica-

çõessemusarosconceitosteóricosda técnicapsicanalítica"Por. outro lado,Pavlovsky diz


que há um melhor entendimentodos supostosbásicosde Bion quando se utiliza
os modelosdramáticosparainvestigá-los(Bouquet,.Moccio, 1971)
---p ,O labolatório tem como objetivo compreendere elaborartodos os emer&qnJes
de uqa ç1periência humana.Os terapeutasse incluem nos exercíciosgrupais com uma
atitudemais ativa,desempenhandoos mais diversospapéis.Durantetodo labora-
tório, os terapeutasconversamentre si. No iníciodos trabalhoso grupo é comunica-
do que issoocorreráe que,em algunsmomentos,elessairãoparaconversarsozinhos.
Os terapeutaspoderãoou não fazer as refeiçõescom o gÍupoou mesmo dormir na
mesmacasa,dependendodas circunstâncias.
local é escolhidode forma que possâasseguraraospacientesum mínimo de
conforto e privacidade.Geralmenteescolhouma casaampla, com muitos cômodos,
em algum lugar isolado ou de pouco movimento. Uma casa de veraneio, fora da
temporada,por exemplo,que tenhauma cozinhaequipadae com quartosque dêem o
confortonecessárioparaos participantesOutra.possibilidadeé um sítio ou uma fazen-
oa.
Peçoaosparticipantesque cheguema uma determinadahora.Todossãoinstruí-
dos para levarem roupade cama e comida. Digo a cadaum que leve o que quiser
ou o que goste. Na maioria das vezes,quando há alguns participantesde um
mesmo grupo, elescombinam entre si e levam provisõesque imaginam ser o
suficientepara todos.
Eu e o(s) colega(s)com quem vou trabalharchegamostrinta minutos antes e
passamosa observara chegadade cadaum. Alguns chegamsozinhos,outrosvêm em
dupla. Esseé um momento muito impoÍtante.Eles estãochegandonum local desco-
nhecido,sabendoque vão conviver durantedois dias com pessoasque nunca viram.
A forma como eles se acomodamna casa,o quarto que escolhem,a maneira
como se agrupaminicialmente,os que chegamprimeiro e os últimos a chegar,todos
esseselementossão indicativos que devem ser considerados.
Após todos estarempresentes,desdeque não haja um âtraso significativo de
algum dos participantes,iniciamos nossotrabalho.Raramentepedimos que se apre-
apresentação.
Um exemplo é pedir que cadaum se apresentecomo um anim
com que se acheparecido.No caso de solicitarmosa apresentação
animal, por exemplo, pedimos aos pacientes,após a escolha, que r
algunsminutos sobreascaracterísticasdo animal escolhido.Em segu
que se posicionem na sala, ou local onde estivermosreunidos,com
animal escolhido.Pedimosque, sem falar, passema se movimentara
uma posição na qual se sintam adequadosou confortáveis.A partir d
solicitamos que relatem como cada um percebeuo outro, procuran
animal escolhido.
revelaçãodas escolhase a discussãosobreo assuntopermite do
laboratório, que a pessoademonstrecaracterísticaspessoaisque
aparecemnas apresentaçõesformais, atravésde um conteúdosimbóli do
pela sua escolhae a forma como se posicionou em relação ao g
integraçãogrupal e fomece material para o trabalhoa ser desenvolv
Um exercícioquecostumofazerno primeiro dia é pedir aospaÍi
deitem no chão, fiquem relaxadose, com os olhos fechados,imagine um
avião que vai fazer uma viagem muita longa, que imaginem u objetivo
paraa viagem e que seatribuamum personagemque não o re cio pode
nos indicar os objetivos de cadaum em relaçãoao laborató cadaum
pretendedesempenhar,ou mesmocomo ele estáse situando
A experiênciapode definir-se como exploradorada situaçãopr
paciente,principalmentepela suamaneirade aplicar-seà tarefa (entra
como a exploraçãodas projeçõesfuturas.
A partir dos acontecimentosdo primeiro dia, o laboratóriovai s do,
semprebaseadona reaçãodos componentesdo grupo. Os exercí dos de
acordocom o momentodo gÍupo,ou de algum entre os seusm O início
do segundodia, após a primeira noite, sempreé muito com muito
material para ser trabalhado.Após o trabalho da noite, prepararo jantar.
A partir dessemomento,estabelece-seuma sériede como quem vai
cozinhaç quem vai determinaro que comer,quem vai as panelas,etc.
Tratando-sede um grupo de homens e mulheres, a
papéisassumidosterminam refletindo o cotidiano de cadaum, com su
frustrações,autoritarismo,preconceitos,controles,etc.
Em determinadolaboratório,apósa divisão dos quartos,quand
vam instalados,duaspacientesverificaram que a água quentede sua
s funcionando,então elas ocuparamo banheirode um pacientesoltei
bem-sucedidoprofissionalmente,que estavasozinhoem outrâ suíte.
No dia seguinte,as duas mulheres contavam divertidas como
impressionadascom a organizaçãoe a arrumaçãodo quarto e dasrou
no armário, e que tinham tido a impressãodele ter ficado muito desc
a presençadelasem seu quaÍto,o que foi confirmado por ele próprio
A partir desserelato, surgiu o material que nos possibilitou tra
controladorese invasivos das duas pacientes,bem como a dificulda
em dividir seuespaço,dificuldadeestaque serefletena suaimpossib
ter vínculosduradouros.
As oportunidadesde aprendizagem crescimentoestãomuito rel
a possibilidadede trocas.Quanto mais intensaé a correspondência
abertoestáo indivíduoparacompartir pensamentossentimentose pa
rentes facetas de si mesmo. Ao mesmo tempo, ele se mostra mais receptivo para
escutaras reaçõesdos demaiscom um mínimo de distorçãoou rejeição.
Durante determinadolaboratório,um dos participantes,a quem chamaremos G.,
passoutodo tempodandoopiniõese fazendocomentáriosacercadâs observações dos
outros,mas nuncase referindoa si próprio, nem colocandoseussentimentosNo. final
do último dia, apósa manifestaçãode determinadapesso4 G. começoua fazer
seuscomentários,com cunhoreligiosoe moralista.A medidaque ia falando,os mem-
bros do grupo (10) foram seretirando,ficando 3 ou 4 pessoasna sala.Após o retomo
dos que saíram, um deles,certamente representando o grupo, come{ou a falar, de-
monstrandÕtoda sua indignaçãopela participaçãodele no laboÍatório,por suasidéi-
as, considerando-oum "preconceihroso,machista,moralistae autoritiário".
Essasituaçãopermitiu que se pudesseverificar os dois ladosda moeda.Se, por
um lado, serviu para que o indivíduo tomasseconsciênciada reaçãoque provocava
nas pessoas,quando se imaginavadono de uma única verdade,também serviu para
que os outrossedessemconta dadificuldade que tinham em conviver com os contrá-
rios. A "porta-voz" do grupo em particular deu-seconta de quanto era intolerante
com as pessoasque pensavamdiferente dela e como isso estava atrapalhandoseu
relacionamentofamiliar e profissional,principalmÈntena função que exerce como
professora.Puderamver que o que mais criticavam no outro também existia em si
mesmos,só que de forma diferente.
Algumas vezes,durante o laboratório, evitamos as interpretações,principal-
mentetransferenciais,que,ao invés de setomarem operantes,termínamaumentando
a resistência.
As palavras,às vezes,estãoa serviço das defesase resistênciasdo paciente.
Uma pacientecom granderesistênciapara participar dos exercíciospropostos
rejeitava qualquertipo de interpretaçãoResolvemos.utilizar um exercício náo-ver-
bal, chamado"cabracega". A pacienteteve os seusolhos vendados,e um componen-
te do grupo, escolhidopor ela, levou-apaÍa passear,sem fâlar, mostrandoos objetos
queencontravamatravésdo tato.Duranteo exercício,apacienteficou ansiosa,experi-
mêntando muito desconforto. Após retomarem e f^zerem o relato da experiência,
ela pôde verbalizar o quanto era difícil confiar em alguém e, através das
associaçõesque surgiram,identificar as possíveisorigensda sua dificuldade.
O fenômeno resistência está presente no laboratório como em qualquer proces-so
terapêutico,com suasmúltiplas causase formas.Como diz Zimerman (1993): "E de
fundamental importância a adequadacompreensãoe o manejo das resistências que,
inevitavelmente, surgem em qualquer campo grupal; caso contrário, o grupo vai
desembocarem desistênciasou numa estâgnaçãoem impassesterapêuticos"-
No laboratório,como sugereZimerman, é importântesaberdistinguir "entre as
resistênciasque são de obstruçãosistemáticae as que simplesmentesão reveladoras
de uma maneira de se proteger e ft.rncionar na vida".
Determinadospaeientes,pelassuascaracterísticas,resistema revelar-seou, po-
deíamos dizer, "comprometer-se" durante os exercícios, de forma que somente no
último dia do laboratório,vencidospelo cansaço,eles se entregam.
Assim aconteceucom o pacienteG., a quem nos referimos anteriormente.Resistiu
durante os dois primeiros dias. Suas intervençõesresumiram-seem aconselharas
pessoas,e, como citado,com conteúdomoralista. Quasenão participou dos exercíci-os
propostos ou mesmo das atividades domésticas (momento em que os pacientesfica-
jogos,
vam sem os terapeutas,para preparar comida ou e conversas antes de do.rmir).
No último dia, domingo,próximo ao meio-dia,todosestavamexaustosA. exce- ção
destepaciente,tinham tido oportunidadede expor aspectospessoaisque foram
166 . zr'rsnr,r,cx*osoRto

examinadospelo grupo.Iniciamos a avaliaçãodo laboratório,qua


tes manifestouseu incômodo com a participaçãode G. e decidim
exercício.Colocamostodosos pacientesem pé, abraçados,e pedi
va de fora, que ele tentasseentrar no meio da roda e solicitamos
deixasseentrar,Após váriastentativasque levou quasetodos a e
,.r
guiu entrar.Finalizado exercícioe interrogadosobrecomo est
revelou o desconfortoe a angústiaque presenciouduranteo labo
mente naquele momento, quando pôde compartilhar com o gru
vida pessoalFicou. claro paratodosque seucomportamentoduran
vênciacom o grupo expressavaasmesmasdificuldadesque exper
vio com outraspessoasO. material surgidopossibilitou ao pacien
terapia individual questõesque não tinham aparecidoanteriorme
Como em qualquergrupoterapia,também nos laboratórioste
vel o surgimentode actings.' A seleçãodos pacientese o enq
maioria dasvezes,sãosuficientesparaevitar o aparecimentode "a
sempreisso é possívelCerta. feita, num laboratório,em que pese
de bebidasalcóolicas,um paciente,vasculhandoos armáriosda c
quenaquantidadede bebida.
Na última noite, quando muitos pacientesestavammobiliza
ele convidou as pessoasa beberem.Todos aceitaram,e alguns c
casapara comprzumais bebida (os terapeutasestavamausentes
fizeram um pacto de silêncio.
No dia seguinte,último do laboratório, o nível de ansieda
bem abaixo do que habitualmenteocoÍÌe,com poucospacientes
trabalho.Os terapeutasestranharama situação,mas nada foi rev
trazido nas sessõesposterioresde grupo ou individual. Entend
como umâ atuaçãodo grupo,ondeestevepresente"ódio e revide"
principalmentepor partedo pacienteque ofereceua bebidae que
vidade no grupo, que necessitavaaliviar a ansiedadeexistente.N
pacienteapresentavasentimentosde inveja e competiçãomuit
expressaramatravésde um acting maligno, com uma condutade
Os resultadosde um laboratório não são mágicos, as pes
nenhumacura milagrosa.
Imediatamente,após a realizaçãode um laboratório, as pe
referem à experiênciacomo "fantástica", "maravilhosa",atribuin
bilidade pela resoluçãode uma sériede dificuldades.É sempre f
laboratórioou quandoda sua avaliação,um pacientedizer:
"Aprendi mais sobremim mesmoemum fim de semanado q
com você em 4 anos".
Com o passardo tempo, verifica-seque o ganhoefetivo com
no maior conhecimentodo seu estilo pessoal,na capacidadede
sentido maior de autodireçãoe o tipo de relação que gostaria d
outras
Pessoas.
Em relaçãoao trabalho terapêutico,o laboratóriofunciona c
desarmedas amarraspresentesem um processoprolongado,mob
ou o gÌupoem aspectosaté então não-reveladosConcluo. com B
tem característicasnos indivíduoscujo significado sópode seren

'Ácting-ort:condutaqueseprocessacomosubstitutade sentimentosquenãosemanifestâmno cons


ende que se constituempartesdo seu equipamentocomo um animal grupal: e
cionamentodessesaspectossó pode ser percebidoao se observaro indivíduo
do grupo".

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BION,W. E peiêncíascomgruposRio. de JaneiÍo:Imago,1970.
BOUQUEï E.; MOCCIO,F. e PAVLOVSKY,EPsicodrama:.cuandoy por qué dramdÍÈar
AiÍes:PÍoteo,l97l.
MASSERMAN,J. CÍecimientopersonalmedianteexperienciasde grupo intensivo,ln: T
teraDeuticas,BuenosAires:Paidós1974..
RODRIbUÉ,E. Á liçaode Ondina.Riode Janeiro:Imago,1983.
ZIMERMAN, D. Fundornentosbásicosdas grupoterapiasPono.Alegre:Artes Médicas,199
17
Psicodrama
NEDÍO SEMINOTII

leitor a quem é destinado este capítulo é o estudante e o terapeuta de grupoterapia ou


coordenadorde gruposoperativosque têm motivaçãoe disponibilidade, mzìspou-ca
experiência com técnicas psicodramáticas ou psicodrama, necessitando de funda-
mentos essenciais e algumas recomendaçõesúteis para que a dramatização não seja
apenÍrsuma representâçãoteatral ou, por outro lado, um mero estímulo para atuação.
De possedessesfundamentose com pequenas,mas necessi4riasmodificações nas
estratégiase táticasdo método, pode-seaplicá-lo na terapiafamiliar (Seixas,1992),
nosgmposoperativose mesmona terapiaindividual verbal.(Seminotti,1994;Moccio, 1980)
Guiado por esseobjetivo, não abordoalgunsdeterminadosconceitosda teoria e técnica
psicodramática.Ao leitor que desejaruma leitura mais ampla e profunda, faço
indicaçãode bibliografia sobreteoria e técnica psicodramática.(Aguiar, 1988; Almeida,
1982; Gonçalves,1988)
Em minha prática de ensino é freqüente a indagação sobre os pressupostosque
norteiam o trabalhopsicodramáticoem grupos.Acho oportunÕ, por isso, esclarecer
previamenteque: a seleçãoe a composiçãodo grupo seguemos critérios usuais da
grupoterapia;tenhouma compreensãodinâmicados fenômenosgrupais,nos quaisos
ggnferídosinçonscientes, as fantasias, as identificações, os papéis, a transferência, etc.,
são levadosem consideração;não uso compulsóriae exclusivamente a metodo-logia
psicodramática(a psicanalíticaé usadarotineiramentetambém); as individuali-dadese a
gmpalidade são entendidasdentro de uma "totalidade dinâmica", significando que as
individualidades,a grupalidadee as relaçõessociais reproduzidasno campo gnrpal são
compreendidasdinamicamente; o psicodrama é umapsicot€rapia de insigÀt.
Status Nascendí. lnicialmente, toma-se necessáriaa menção de aspútóS
histó-ricos, filosóficos e de conceitos fundamentais do psicodrama, a sua
descrição além da devida definição.
Jacobl -evy Moreno (1889-1974),médico, foi seguidore líder do movimento
filosófico existencial que sepropuúa a uma vida baseadana autenticidade, não levan-do
em conta os limites da arte e ciência vigentes.Filiava-se,na religião judaica, ao
hassidismo, cuja noção de Deus propunha uma relação horizontal com o homem.
Essasidéias o inspiravam significativamente na criação doteatm espontâneo, chamado
de,poispsìcodramn Ele foi contempoúneo de Freud, em Viena, onde desenvolveu
alguns trabalhos significativos até a sua ida para os Estados Unidos em 1925. Entre
essesdestacoum trabalho de sociod.ramae orÍro depsicodranw mencionadossistema-
ticamente na bibliografia da obra de Moreno. Tais ensaios são marcoS referenciais na
história do sociodramae do psicodrama.(Marineau, 1989)
propostade debatera falta dc Ìiderançana Austriiì do pós-g
teatro,ondeno palcohaviaum trono,umacoroae um mantode pú
do públicoexercessea liderançae seentronizassena cadeiriìdo r
seu papel.O público,não acostumado essetipo de teatro,e M
dominara suatécnicacom segurança,determinaramqueaquelapro
zasse,gerandofrustraçãoe vaias.A noitefoi um fracassoNo. ent
marcouo nascimentodo sociodrirma,métodoque abordaas rela
intergrupais ideoÌogiascoletivas.
A descobeÍadopsicodramacomométodode vaÌorterapêut o
trabalhocom Barbarae os conflitos com Jorge,seumarido.Em 1
partede um grupode teatroque tinhacomo objetivorepresent
temasdo cotidiano.As notíciasdiáriaseramredramatizadasno t
uma dasatrizesdo grupo.Ela representavarotineiramente,com
papéis"ingênuos,heróicose românticos".
Apaixonou-seporum homemdaplatéia,quea assistiarotineir
fila, com grandcentusiasmoJorge.a admirava,surgindodaí um
casamentoNão. demoroumuito o marido veio a Moreno e lhe d
suave,angélico,que vocêstodosadmiram,âgecomo criaturaend
estáâ sóscomigo".Numa noite,MorenointerrompeuBarbaraem
naquelespapéissuaves propôsqueelarepresentâsseopapelde u
segundoa notíciaqueacabarade chegar,haviasidoassassinadp
mensnum bairropobrede Viena.Parasurpresageral,elateveum nho
no personagemda prostituta,dandoaos presentesa sensaç
passoseguinte,na descobeÍtadoteatroterapêutico,foi a subidad
co, passandode espectadorparaator,contracenandocom suaes
cotidiano,no qual estavamtambémÍepresentadascenasdo coti
casaÌ .
Aos poucosse acrescentou,na representação,aspectosda f
determinandonos espectadoresuma repercussão mobilizaçãom
segundodiziamos espectadoresMoreno,apóso espetáculo(M.
Vemosaqui como o scnpt dá lugar ao espontâneoparaque el
na representaçãodranuitícuAssim. ficampersonificados encen
humanossignificativosdo indivíduoem relaçãocomo mundo.

METODOLOGIAPSICODRAMÁTICA
São fundamentais,para a realizaçãoda sessãode psicodrama,a ob
pas, instrumentos,contextoe técnicasbásicas, com seusdesdob
estareia seguirdefinindo.(Aguiar,1988;Bermúdez,1970)
sessãoé divididaem trêsetapas:aquecimentoinespecífi
matização(ou representaçãodramática- RD) e compartilhament

AquecimentoinespecíficoE. um procedimentoptra mobili des


necessárias(não em demasia,nem de menos),para expres
processos produtossignificativosgrupais.
Se,por hipótese,o terapeuta(T) ou coordenador(C) de grupoel
psicodramática,elenecessìtaproporaçõesde aquecimentoPara.i
mão doschamadosiniciadores:físicos,mentaise sociaisIncluo.aindaos inìciadores
expressivos,os quais podem ser enquadradosem qualquerdas denominações.

Iniciadoresfísicos.Com esteprocedimentoestimula-see privilegia-se,naspes-


soasagrupadas,a comunicaçãoe a expressãonão-verbal.As pessoassão convidadas
abandonara expressãoverbal em benefíciode outrasformas (corporal,pré-verbal, etc.).Os
gruposde criançastêm multiexpressividadenatural,assimcomo os de adoles-

centes,emboranão tão pronunciada.Os de ãdultos, no entanto,precisamde orienta- ção


e estímuloparaabandonaremas formas mais elevadasde expressão.Um tipo de
atividadeiniciadora,que não exige do terapeutaou do coordenadortreinamentomai-or, é
sugerir ao grupo que suprimaa expressãoverbal (issoproduz ansiedadee talvez exija
que se insista para que façam silêncio) e, ficando imóveis, observem a sua
posturacorporal (como estãosentados,onde estãoas mãos,onde estãoolhando, seé
confoÍável a posiçãoou não, eventuaiscontraturasou dores),o lugar que ocupamna salae
que seindaguemsobreele (próximos e/oudistantesde quem) sempreem silên-cio. Um
próximo passo,para os terapeutasou coordenadoresque se sentem mais seguros,já que
isso vai gerar mais ansiedadeno gÍupocomo um todo, inclusive no coordenador,é propor
gue todos se levantem e façam pesquisacorporal enquanto caminhamem silêncio.E
comum nessesexercíciosamanifestaçãode conteúdosmen-tais
regressivos:aspessoastêm a sensaçãode serum bandode loucosou de crianças. Aquilo
queestáregistrâdona memóriacorporalé reativado,trazendoconteúdossigni-ficativos para
análise.

Iniciaìlores mentais.É o procedimentonatural, principalmentenos grupos de


adolescentesou de adultos. As pessoasvão falando, e o coordenadorou terapeuta
buscaaquilo que é o denominadorcomum. Podeemergir daí a cenapara representa-

ção dramática. Basta que se dê atençãoàs cenasdo relato verbal e, como procedi-
mento complementar,esclareça-sebem a cena,o cenário,o tema, os papéis e as
suas relações.Uma alternativade iniciador mental é o estímulopara que falem sobre
al-gum tema específico.

Inicindores sociaís.É a designaçãodada aos temas sociais (contexto social)


quedespertamansiedades produzem,nos grupos,discussãoou polêmica.Sãoexem-
plos os temaspolíticos,do gênero sexual,da comunidadeou de hábitos pessoais.
Exemplo: um grupo terapêuticodiscute com muita mobilização as tarefas do
homem e da mulher na vida atual.O terapeuta,vendo que essetema socialtem signi-
ficação na grupalidade,tanto entre os pacientesdo grupo e destescom o terapeuta,
sugere que as pessoasabandonemo debate e tentem identificar, no cotidiano, as
cenaspróprias de cadagênerosexual.A seguir,aspessoassãoestimuladasa comuni-
car as cenasvisualizadase elegeralgumasque caracterizammelhor o que é próprio
de cadagênero.Foram escolhidospara representaçãodramáticaas cenasfemininas
de matemidade,bem como "do clube", do gêneromasculino.Sucintamente,ascenas
continhamo seguinte:matemidade- um grupo de mãesesperandoos filhos na saída
dojardim de infância onde o temacirculanteé a relaçãomãe-filho. O clima é agradá-
vel. As mãesfalam da gratificaçãoque os filhos lhes dão. Clube - os homensreuni-
dos em clima de festafalam das mulheres(as outras),de futebol e políticae, por fim,
de terem que ir para casa,o que os desagradamuito.
Essascenasforam representadasdramaticamente,Ievandoo grupo à reflexãoe
à ressignificaçãodas peculiaridadesprópriasdos papéisfemininose masculinos.
Inicitdores expressivos. São formas altemativas de expressão, que facilitam
manifestaçãoe o conhecimentode aspectosdesconhecidosde si mesmoe dos out
favorecendo a empatia- Também percebe-sea altemância de papéis e suasconfigu

ções, além de estimulaÍ a expressãodo lúdico. Entre eles,estãoas expressõesgr


cas: desenhosindividuais ou coletivos; plásticos: moldagem, colagem; corpor
mímico, teatral,imagenspliísticas;literários:leitura ou produçãode textos.(Moc
l98o)
AquecimentoespecíÍicoIdentificado.o materialciÌculanteno grupo,enc nha-
separaa representaçãodramáticaO. aquecimentoespecíficoéum procedim
preparatóriopararepresentaçãodramáticadostemasjá mobilizadose identific no
aquecimentoinespecíficoque agorasãocanalizadasparaa cena.A cenaacon em
um certocenário,contémpapéisou personagenssuasrelações, circulae elesum
determinadotemaou focoprincipal.A observânciadesseselementosaux
paraqueseevite,nadramatização,atuação,ouseja,a simplesdescargamotora
poderáserestimuladanaturalmentepelaaçãoe interaçãocênicaSe,. por hipóte
temaé de configuraçãoedípica,ficam definidosos personagensda cena,as s
relaçõesSe. é obseÍvadotambémo cenário,teremostodos,no grupo,o conheci to
de contomose âncoradessacena,comumna vidae de conhecimentogeral.E
fundamentosdãoseguftrnçaparaa espontaneidade responsabilidadecoma on a
filogeniadesteconflito humanocenarizadoAssim,.comoo temaou foco sãoelem
tos determinantesdãolimitesde segurançaparaa dramatizaçãoenão paÌaa a

ção,poderãodarestamesmasegurançacena(deopressão,por exemplo),ospa
suasrelações(demedo)De. modogeral,um delessugereosdemais,dehnindoc
contomosclarososelementosdadramatização.

Quandoo grupofor operativo,o cuidadodeveser o mesmo,sejana rela


ensino-aprendizagem,dos gruposde ensinoou a relaçãofuncionalnos gmpo
treinamentonaorganizaçãoNestes,.écomumquea relaçãode poderdeteÍmine
tasansiedadesa pulsãoagressivado empregadobusquedescargano empreg
Nascenasem que sedramatizaestarelação,o diretor de cena,por identificaçãoc
os personagens,poderáatuarestimulandoou apenaspermitindo a atuação.No fi
do capítulo,faço recomendaçõespaÍaevitar a atuação.
Além da necessidadeda definição daqueleselementosbásicos,o diretor
deveauxiliar o gmpo paraque ele os visualize.E mister,também,definir se o
pr gonista(Pr) é o grupoou um indivíduodele.Noprimeirocasoseráo psicodr
propriamentedito. Seé o grupoo protagonistâ,seráum sociodrama.
Relembrandoos pressupostos,tenhoem relaçãoao gÍupouma compree
dinâmicalevandoemcontaa grupalidade a individualidadeem suasrelações
procasde compromissoO. protagonistaindividual é o emergenteou Íepresentân
grupoe, portânto,setemporaÍiamentefor dadaatençãoà suaveÍticalidade,issose
atentosà horizontalidadegrupale à verticalidadedosdemaisdo gmpo.
A escolhado protagonistaésemprereferidapelosalunoscomosendoumat fa
difícil. Achoque tão difícil quantoacharo denominadorcomumno grupoé ent der
dinamicamentealgumaansiedadegrupal e fazer uma inteÍpretaçãoverbal, ela
transferencialou outraforma de intervenção,própriasdo enquadrepsicanalí O
protagonista"sejao indivíduo ouo grupo, seráo emergentegrupal.
Dramatizaras ansiedadesda grupalidadeé a minha recomendaçãoem ge
poisseumanejoé maisfácil. Além disso,evitao riscodetransformaÌ protâgo no
depositáriodasansiedadesindesejáveisno grupoe dá mais segurançaao dire
Em paÍicular, o sociodrama'érecomendávelnos grupos terapêuticosem suasfases
iniciais, quandoa individualidadeaindanão tem lugar seguroe, em geral,nos gÍupos
operativos, em qualquer momento. Tanto num quanto noutro ocorre a emergência do
protagonistaindividual, fenômenonâturalda grupalidade,e o diretor tem a responsa-
bilidade de evitar que ele se ofereçacomo objeto de projeçõesmaciçasexcludentes.
Sugiro que se tome o fato como indicadorda dinâmica daquelegnrpo, que se defina
protagonistae a cenae que ela sejadramatizadapor todos,isto é, a cenaindividual
pírssa ser do grupo. O protagonistajá deu a suacontribuição trazendoa sua cena,o
tema e o ceniírio principal. O restante do gmpo faú os papéis, cenarizando. O
prota-gonistaficaÍá fora da cena,vendo-ase desenrolar,usando-separa isso uma
variante da técnìca do espelho.
Exemplo: num grupo de ensinocujo objetivo é aprendersobrerelações huma-
nas,um aluno apresentacomo exemplo pâÍaestudoa sua relação amorosa.Todos o
recebembem. O diretorrelembrao grupo dos objetivose sugereque a cenaamorosa,
jábem
definida em seutema,sejatomadaemprestada cenarizada,respeitando-seos
elementosbásicostrazidos por aquelealuno, mas agoratendo seu desenvolvimento
determinadopela criatividade e espontaneidadedaquelesque passarama desempe-
nhar papéis na cena.
Nos grupo operativos é recomendável que se pratique a chamada
dramatização temática. O grupo elege um tema, como, por exemplo, a resistênciaà
mudança, e define os personagensenvolvidosnele,cenário,papéise relações.Assim
se tem uma cenacoletiva, na qual as pessoaspodem exercitar-senos
diferentespersonagensque a compõem.

Quando se trata de grupo terapêutico e esse tem uma certa maturidade, as
cenasindividuais, sem esqueceros seussignificadosna grupalidade,podem ser dra-
matizadascom segurança.

Dramatização. Escolhidoo protagonista(Pr) e a cena,o diretor (D) se ocupará


da preparaçãoespecíficapara a dramatização,começandocom o cenário,ou o local
onde ocorreu a cena, quândo se trata de cenasde realidade, isto é, que de fato
ocorre-ram, ou, quandosãocenasimaginiárias,criandoo
cenárioimaginariamente.Configu-rar-se-àaqui o "como se" do
psicodrama,espaçoonde se personificam objetos e relaçõesdo mundo intemo e
extemo e personagensreaisou imaginários,no "aqui-e-agora"-
Uma pessoade 35 anos,que seráchamadaClaudia, tÍazao grupo terapêutico
um conflito que está vivendo com sua irmã mais velha. Diz estar incomodadacom
essairmã" que, segundoela, é cadavez mais metida e mandonanas questõesfamili-
ares. "Agora", diz ela, "até na relaçãocom o meu marido. O meu marido sempre
gostou de conversarcom ela e eu não me impoÍo. Agora, quererdar opinião lá em
casaé demais.Ela semprefoi assim".

T.: "Semorefoi assim?!"


Pr.: "É, sernpre.Eu lembro que lá na casado pai era assimtambém".

Faz um pequenosilêncio,dando sinais que estáentreguea fragmentosde lern-


branças.

'Não sociorútrico ãDlicado (Bustos.


deveser confundidocom um teste abÍeviadoe mal abÍeviado. rotineiÍamentenas escolâs. t979)
174 r zltusnt*eN& osoRlo

T.: "Tu estáslembrandode algumacena significâtiva?"


Pr.:"Não, nadaassimqueeu me lembrel( ...)(silênciocom tensã
T.: "Estás visualizandoalgum momentoem que tua irmã agiu ass

Quandoestimuladase ajudadas,as pessoasdão-seconta de


q do de cenasespecíficas,onde o conflito é vivido, e são
capazesde precisão(com sua precisão,é claro), permitindo que
todos "vejam como o sonho,tem característicasde condensação.

Pr.: "Uma vez, não sei porqueissome marcou,eu me lembro que


t na frente do outro, conversandoEles. sempre,quer dizer,
não conversavamEta.já maior.Bem maiorqueeu (...)".
T.: "Descrevea cenaque estásvisualizando".
Pr.: "E na cozinha. Ela e o pai estãode frente um pra o outro, e e
pai".

pacientedá sinaisde que estámuito envolvida com aquela


julga que,naquelacena,estãocondensadosaspectosimportantesd
daquelapacientee fenômenostransferenciaissignificativosdaquel

T.: "Vamos dramatizaressacena?"

Antes de dar prosseguimentoao proposto,são necessiários ção e


o examede algumasquestõesmetodológicase recomendaç
Considerandoa teoria da técnicapsicodramática,pressupõe-te,
sendo protagonista (Pr), protagonizará ou representaráa din
metodologiadopsicodramapermiteque,temporariamente,asatenç
especialmentedo terapeuta,sejamdadasa um indivíduo do grup
terapiade uma pessoaem grupo. Como disse,ela é emergentegru
relato do desenvolvimentoda cena,o tratamentotécnico dado par
essaquestão.
O terapeuta,no exercícioda tarefade dramatizarcenas,cha
assimo designareidaqui para frente.
O diretor e a protagonistalevantar-se-ãoe irão paÍao centro
tizandoo chamadocontextodramáticoou "como se". Ele tem regr
do um relaxamentodasregrasque atrelama pessoahumanaaosdet
ais, genéticos,temporais,etc. No 'tomo se", quem é do gênero
experienciaro feminino. A temporalidadenele, como na lógic
freudiano,não se cinge ao cronológico.A representaçãocênicatra
As emoçõese os sintomassão personificadose, tornando-sepers
interagir na cena (sintoma contracenacom a pessoaque se queix
plo). Chamo a atençãopara a ocorrência,contexto,de uma
regress riíria,que facilite a experiência,o lúdico e o criativo.

D.: "A cozinha poderia ser aqui?"


Pr.: "Poderia......digamos que aqui seria a porta que dí para a s
serviço.A mesaaqui".
D.: "O que mais tem de impoÍante aqui nacozinha?"
Pr.: "Não sei porque,mas essequadro aqui, nessaparede(aponta
sempreme chamaatenção.E a sagradafamília...(pequenosilê
da geladeira,a TV pequenaque o pai vê asnotícias ...queeu não gosto .... sempre
tem que ficar quieta.Não falar alto, pra ele ouvir uma notícia".

Imaginariamente(eventualmente,pode-secolocar algum objeto, mas não é ne-


cessário)todos os elementosdaquelacozinhasãodispostosna sala do grupo, delimi-
tando o contexto psicodramático.Quando se tem o cuidado de fazer com que todos do
grupo visualizemclaramenteo cenárioque está montadono grupo e que o respei-
tem como se concretamenteali estivesse(ninguém pode passaraonde existe uma
mesa),é o suficiente para circunscrevê-lo.

D.: "E a mesacomo é?"


Pr.: "Pequena,para 4 ou 5 pessoas".
D.: "Com cadeirasou outro...".
Pr.:"5 cadeirasO. pai sentaaqui.É o seulugar".
D.: "De frente para a TV?"
Pr.: "E... os outrosnão têm muito lugar fixo. A minha irmã estána frente do pai, e eu,
do lado (referindo-seà cenaem questão)".
D.: "Que dia e hora é agora que vocêsestãoaqui sentados?"
Pr.: "Acho que é sábado.E no café da manhã.São mais ou menost horas".

Este cuidado facilita o aquecimentoda protagonista,do terapeutae do restante


do grupo.
Essa é uma cena da realidade.Se for imaginária, é indispensáveltambém a
definição clara. Mesmo que às vezeshaja recusaem, imaginariamente,concretizar o
cenário,é desejávelque o diretor faça um investimentoparaque se visu alizeo cenâ-
rio virnral. O diretor não deve negligenciaresta questãoe os demaisprocedimentos,
para não correr o risco de tomar a representaçãodramáticauma mera teatralização,
despidada dramaticidade.
Ato contínuo,o diretor (D) fará o aquecimentoespecíficodospersonagensque
encenarão,
Vamosdar continuidadeà representaçãodramática.

D.: "Qual a tua idade,agora,aqui nestacozinha?"


Pr.: "Acho que tenho 5 anosmais ou menos".
D.: "Tu és pequeninhaentão?"
Pr.: "Sou".
D.: "E a tua irmã é maior, não é?"
Pr.:"É, elajá tem uns l0 anos,falatudocom o pai".
D.: "Vocês agoraestão,nestesábado,no café da manhã,estãoos três:tu, tua irmã
teu pai".

diretor (D) e a protagonista(Pr) olham para o cenário imaginário construído no


"como se".

D.: "Tu do lado do pai. Perto ou longe?"


Pr.: "Estou um pouco perto. Virada pra ele. Olhandoele falar com a mana".
D.: "Estásvendoa cena,não é!? Sentano teu lugar, no lugar que tu estáste vendo
aqui nestamesa",
Ela, então,senta-seem seu lugar e expressacorporalmente,at
olhar e expressãofacial, que estáem cena.O momentono grupo to
atenção.O diretor deve estâratento àquelesque não estãona cena,
que, de fato, quem está em cena protagonizao grupo. Se não es
dispersa,ou dará outros sinais indicadores.
protagonistaestá envolvida com sua intimidade dramátic que
"pensealto". Ele estáusandoa tácnicado solilóquio, de modo g vel
quando percek-se que a pessoa,em cena,está voltada paÍade
envolvida com fragmentossignificativosde suahistória.Pararespe
dadee dar maior dramaticidadeà cena,o diretor geralmentesugere

ça e penseâlto em sinal de recolhimento,e asseguraque ninguém


entendera todos que o dito nestacondiçãonão seráconsideradono
que venha a acontecer.

"A manaé boa em tudo. Ela faz tudo melhor que nós."
(Solilóquio da protagonista)

Pr.: "Não sei o que fazer pra que o pai me olhe". (Falandocom o di

Ao final da frase a expressãofacial, que era amaÍga,fica aleg

D.: "Vamos experimentaro lugar do pai e da mana.Chama alguém


papel".
Pr.: "4 Joana". (Colega de grupo a qual é a representantemaior,
grupo, da agressividade.)

Esta questãoé importantecomo veremosno andamentoda ce


escolhados elementosdo grupo que desempenharãoos papé ser
sempredo protagonista,propiciando que a rede de identificaçõ ou as
relaçõesco-inconscientes(Moreno) tenhamlugar e continênc ção
dramática.Inconscientemente,a protagonistadá sinaisde que s pode
ser realizada em cena, quando escolhe Joanapara repÍesenLála
Joanaentra no lugar de protagonista,e o diretor tem cuidado
d Joana,como ego auxiliar, adote a mesmaposturae
expressõescor contêm e expressama memória corporal, filo e
ontogenética,do d humano.
Esseprocedimentofacilita também o ego auxiliar na tomada
basepara criar sobreele, sem abandonara sua autenticidade.
Por definição, o ego auxiliar é a pessoaa quem o protagonista
nam papéis,para representá-losem cena.O ego auxiliar profissiona
penhadoporum técnico que,em algunsgrupos,existeespecificame Em
outros,o diretor faz essepapel quandoos colegasde grupo, por ais,não
consegueminteragir com o protagonistaconforme a dramat vezes,em
papéis agressivos,outros sedutoresficam vedadosao p
issoacontece,devemserconsideradosno processoterapêutico,mas que
se os substituapelos que conseguemrepresentarcom a dramat
Joanasentano lugar da protagonista.

D.: "Qual o papel que vais fazer agora2"(Dirigindo-se à protagoni


Pr.: "Do nai".
COMO'TRAtsALHÂMOSCOM GRUPOS . 177

D.: "Senta no lugar dele, então".

Já no papel do pai, a protagonistaolha para onde,imaginariamente,estáa filha


mais velha e não para a menor Desta ela fica a dois palmos, ao lado, deixando ver
que a atençãodada,nessemomento,é para a mais velha.
Não parecenecessário,ao diretor,todo o procedimentodo aquecimentodo pro-
tagonistapara o papel do pai. O aquecimentonestemomento da dramatizaçãojá é
suficientementebom e se manterána seqüênciada representaçãodramática.No en-
tanto, se for necessário,isto é, se a protagonistanão âssumeo papel,é precisoadotar
o mesmoprocedimentodescritoquandose preparoua protagonistapara cena.

D.: "Como é o seunome?" (Dirigindo-se à protagonista,no lugar do pai, ajudandoa


fazer o papel.)
Pr.: "Adão".
D.: "O Sr. está com suas filhas, neste sábado,no café. Isto é rotina aos sábados.
Vocêsse reúnem.O Sr. com suasfilhas?"
Pr.:"É... durantea semanatenho pouco tempo para a família. No sábadoelas sabem
que o pai estáà mão e entãoessasduas, principalmente,que são muito
juntos".
agarradas comigo, vêm tomar café
D.: "O Sr. tem outros filhos?"
Pr.: "Mais duasgurias,entreestasduas".

Definido o papel, o diretor a interrompe,pede que saiado papel e que escolha


alguém_parafazer o papel dele e que vá para o lugar, na mesa,destinadoà irmã mais
velha.E significativaa escolhade Pauloparao papeldo pai, o qual é considerado, pela
protagonista,o "paizão" do grupo. A protagonista,jáno papel do pai, é entrevis-tada
pelo diretor para que se conheçao scrlpl básicodo papel na cena.
protagonista,no papel da irmã mais velha, revela na suaexpressãofacial um
certo incômodo com a irmã e diz: "Venho conversarcom o pai, mas essaaí,que é
cheia dos ciúmes e muito mimada,fica miando pro pai".
Fala de maneiraenfáticae clara, causandorisos no grupo. Também porque,no
papel da irmã, esta pacientedestacaalgumascaracteÍísticassuasbem conhecidasdo
grupo.
O diretor tem o mesmoprocedimentoanteriore pedepara chamar alguém para
substituí-la e desempenharo papel da irmã. Para essepapel convida Angela. Ela
semprequer análisesprofundasracionalizadasBusca.paraisso o apoio do terapeuta.
O cenário,a cena,os papéis com seusJcr?ts básicos,assim como as relações
estãodefinidos e compreendidos.As pessoasconvidadaspara desempenharpapéis,
em cena,constituemum grupo familiar, no "como se", concretizandoa dramáticade
um indivíduo do grupo, a protagonista.Essadramáticatem um correspondentenas
relaçõesgrupais,como podemosver nas escolhasque a protagonistafaz para repre-
sentaras pessoasde sua família. A distribuição de papéis no grupo, incluindo o do
terapeuta,oferece outrâ hipótese para análiserespaldadana configuraçãoedípica e
que poderia ser objeto de interpretaçãotransferencial.A multiplicidade de vértices de
interpretaçãoabrangea verticalidadedos indivíduos e a horizontalidadegrupal. Na
vida comum de cadaum do grupo,essascenasfazem partedo cotidiano e de suas
histórias.Todasforam e são atoresnestascenas,ocupandoora um ora outro papel, e
em alguns com mais freqüênciado que em outros, porém semprefazendo parte da
relação,numaco-ação,co-experiênciae co-existência,na linguagemmoreniana,cons-
tituindo a matriz de identidarl:, na qual o ato é uma unidade composta por papéis
178 . zlrrnr.aex osonto

complementaresEstes.pressupostosautorizamo diretora p
gens,conhecendoreconhecendooselementosbásicosde c
expressãocorporal),possam,dentrodesteslimites,repres
ancoradosem suasexperiênciaspessoais,asquaissãotamb
repres.:ntaçãodramáticapropriamentedita seráago
nistainicia em seupapel.Osdemaissãodesempenhadospo
auxiliares)já definidosparaeles.A seguirserãorela.tados da
representaçãodramática.
O pai e suafilha maisvelhaconversamsobreo colég
tenta,com seusorriso,atraira atençãodo pai.Quandoolha,
temum olharfrio. Em seupapel,na cena,comunica-se rel
atravésdo não-verbalEnquanto. pai conversacomsuairmã
gio dela,a protagonistavai aproximando-sedo pai,buscao s
seubraçocomdiscrição,e, nessaprogressão,acabaenfiand e
por fim o abraça,revelandonessacondiçãouma carade
quemagoraolhacomar dedesdém.
Prossegue-seacenae, em seuandamento,oferece-
seà papéis(sendoa irmãe o pai),propiciando-
lheaexperiênci papéise a complementaridade relação.
protagonistasaido seupapel,substituídapelapesso
daporela (Joana)Propõe.-sea experienciaro papeldo pai.N
acolhendo filha que buscao contatofísico,abraçando-dia
tempoqueconversacom a outrafilha. Entrevistadapelo di
protagonistadiz: "As duassãomuito agarradascomigo,go
filha maisvelha,poisfico sabendocomoestáno colégio.A p
quersó paraela".
Entrevistaro protagonistaé umaestratégiaquepermit
comparáJacom a açãoe, quandonecessário,mantero
aque zaçãoNeste.casoespecífico,preparáJaparatomaro
papeld taÌa inversãoqueveremosadiante.
No papelde irmã mostra-sehostilcom a
protagonistae fica sefazendo",etc.
Voltaao seupapel,mantendo-sedentrodascaracterí
do.
O diretorpedeque Joanafique ao ladoda protagoni
papellivrementesemserestringirà caracterizaçãodadae de
gonistaCom.estadesignação,Joanapassaa serum duploda
seguiarpeloquea cenadespeÍa, assimmostra-seirritada do
pai, entreela e a irmã. Aos poucoscomeçaa protestar
sabeconversarcomaa irmã,acrescentando,depois,ataqu
mostraestudiosa interessadano colégio,só porquesabequ
suaexpressãoé de náuseaA. protagonistafica atentaao de
(comoum dublê),tendoem seguidaexpressõesde concordâ
apósmudaa sua expressãofacial,mostrando-seiradae, p
expressãoverbalparadialogarcomo pai e a irmã.
A funçãodo duploé principalmente de ajudara prot
papéispsicodramáticosque por seusconflitosnão conse
relembremos,pressupôsque,quandoa protagonistaescol
pressarsentimentoshostísnarelaçãocomopai.
coMoTRABALHAÀ{oS
corrrcnupos r 179

A protagonistaem cenapassa
. a ter expressõesverbaise corporais agressivas,
de palavrasparacom o pai,
::.-ti""^"::.:^lr: inesperadasno grupo, considerandoos
amlstosos,
papers melgose sedutoresque sempreassumiunele.
Pr.: "Tu não dá bola pra mim, pai,
queridinha'
só quer conversar

com a Rosa.F-ica

com ela então,


''"tua Tudo é a Rosa: como estuda,
Vira-se
... como os cademos

amrmadinhos...". entãopara a irmã Rosa e diz: ,,Sua dela são


falsa, diz pra ele À

que tu fala dele que


ele é pão duio, tu achanojenroo jeito Jele comer,,.^
protagonistacomeça
.Qyanag l a silenciar, o diretor propõe a ela que tome o
papel do pai. Joanaé repete as expressões
instruída parafazer o paper nesraúitima forma, ó assim ela verbais e
corporais agressivas.A protâgonista,_""a" p"ì,
cena se mostra
compreensivae tolerantecom aquelacondutida filha "^ nao
pàla'sua
verbal, mas pela corporal
expressão

_ Aqui te^mos a inversãode papel,que


permite vivenciar o outro extremo da rela-
personificando
ção, objetose vínõr.rlosintèmos
sas, o lugar
e externos,
seja nas relações amoro-

de trabalho, familiares, etc. do ort.o, ,io ."laçao,'de.enuoiu"


invariavelmentea -Ocupar empatiae a melhorìompree-nsão

A protagonistavolta ao
do outio.

seu papel, e o diretor lhe perguntase tem algo mais a dizer.

Pr.: "Não.
Lavei a alma',(soniso. franco.)
dire.to:plopõeentãoque
se encerrea dramatização.Cadaum retoma ao
- - .,como
con_ texto grupal.E sinalqueacabao se".
Compartilhamento. no
Ao diretorcabeconrinuardirigindo; querodizer que,como
aquecimento na drama(ização .
ele é execurorda .ãtoaoioju.
Neste momento. às vezes, cena e do
as pessoasquerem falar da unãlir" qo" fizeram da
protagonista. experienciam,das lembranças
euando são, no enìanto,estimuladasa faUr aaqrito que e
cenls reativadas,.orponiinoà u. suasvivências.

Registroa seguirasprincipaismanifesraçòesno Ëo- puniihu."nto.


Pr.: "Me senti meio estranha, brigandocom o pai. Eu estoulembrando
agoraque ele
com meus filhos é meio
impaciente,achaque filho incomoda,que não tem que
dar muitabola ... ".Continui a protagonis ta:

-C"." puiìqu_oo
estiveno papel
do pai), eu
fu.
não dei muira bolá paã minha filha. Achei ,. ataquede
ciúmes normal de criança. "ru
poucoassustada. euando eu comecei a Urigar lom o pai, fiquei um
Depoisfiquei aliviada.'.
Joana.Eu rive muiro ódio da Ràsa (irmã).
I euando Claudia ficava melosa,eu fiquei com raiva
I
dela também.
t Paulo(que fez o papeldo pai) para dar
"Na cena,no início,eu me sentidividido e pressionado
atenção
mais a uma ou outra. euando a Claudiu." *,ngou, achei natu_ ral, não esquentei".

Outraspessoasdo grupo:
"Lembrei dos.meus
filhos quandome pedematençãoe a gentênão quer ser injus_ to
como o Dai".
"Me vi ali napeledaClaudiaCom.o meupai temmuitodisso. fiqueido ladodo pai."

Aqui seencerra tarefado terapeutaou coordenadorcomodir


nossignificativosdaspessoasagrupadasserãointerpretados terãoum
to determinadopelosobjetivose referencialteóricodo terapeuta/
elepsicanalítico,humanista,pedagógicoou organizacional.

RECOMENDAçOES FINAIS

No aquecimento
Sintetizoalgunscuidadosfundamentais,já mencionados,que
faci missodramáticodasDessoasem cena:

Nãodescuidede qualquerdosprocedimentosde
aquecimentode a cenado relatoverbal,identifiquee
definao cenário,o tema relações).
Contrateadramatizaçãoquandosetratadeumprocedimentodein
desconhecidoatéentão.
Tomea iniciativade levantar-se,abandonandocadeiraou out
estejasentadoEssa.posturaé maisprópriado pensare analisa
ação(egoexperiencial)Estimule.o grupoa fazero mesmo.
Dramatizesomenteapósestarsegurode quetodostenhamclare
fundamentaisda cena.
Aqueçaespecificamenteospersonagensno "comose".Seaband
própriae se atribuempapéisimaginários,estesdevemserbe
(nome,idade,sexo,profissãoe atécâráter).

Na dramatização
Os cuidadosdescritosa seguirtêm preocupaçãoprincipal de evitar
a (Pavlovsky,1975):

"comose"é "aqui-e-agora",ajudeo grupoa semanterna fanta


ingressonela,falandoe agindode acordocomessacircunstân
grupocaracteriza-secomoalienígenasinvadindoa terra.Odiret
chamando-ospelonomede extraterrestres.
Delimiteo contextodramático,diferenciando-do grupal.Use
tipode sinal,indicadordamudançadecontexto:objetos,som,lu
sede queo grupotodoconheça respeiteesseslimites.
As cenaspodemsercurtasElas,.mesmoassim,produzem
ex dossignificativosgrupaise individuais.
Nãodeixeque,emcena,crie-seconfusãoQuando.todosno gru
zando(sociodrama),issopodeacontecerPonha.foco em subg
ficandoos demaisparalisadosLentifique.os movimentosqua
agitado,podendoseressalentificaçãoumasucessãode fotograf
('O}IO . I81
IRABÀLHÀTIOSCOTI CRUPOS

de palavras(solilóquio)que serãoreflexõessobrea ação.OfereçaimagenspÌásticas


(esculturasou fotografias),paracontere simbolizara ação.Impeçaos movimen-
tosde certaspartesdo corpo(braçoscruzados....dejoelhos....passoslimitados).
Ainda no sociodrama,sealguémnão querparticipardadramatização,é importante
que seja respeitadoe que, durantea dramatizaçáo,se for possível,seja-lhedado
um papelqueo incluano exercíciodramático.
Principalmentenas cenas(psicodrama),estimule a platéia a identificar cenasdo
seucotidianoquecontenhamrelaçõesequivalentesàsdo protagonista,e, sepossÉ vel,
na sessãoem andamentoou noutra,represente-asdramaticamenteEsse.prÕ-
cedimento ajuda a simbolizar e evita a projeção maciça no protagonista.
Essascenasidentificadaspodem ser cenarizadasou apenascompartilhadas.
contato físico pode ser invasivo e/ou abusivo. Fique atento aos limites das
pessoase, se for necessário,ofereça objetos que as substituampara contatose
descargasmotoras.
Se a pulsão estámobilizadae na iminência da descargamotora,use o solilóquio,
o espelho (substitua o protagonistae coloque-o vendo a cena), a inversão de
papel, para que tenha a noção da conseqüência.Exemplo: um pacientediz ter
vontadede estrangularsuamulher.Encena-seo seudesejo.Enquantose dirige a
ela, representadopor um ego auxiliaç pede-seque fale sobreo significadodaque-
le ato.

No compartilhamento
Nestaetapaé indispensávelque as pessoasdo grupo compartilhemo vivido durante a
dramatizaçãoCabe. ao diretor,como já explicado,estimulálas a fazer isso. A tare-fa
dele, tambémnestaúltima etapa, é executara metodologiapsicodramática.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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SEIXAS,M.R.D.SocíodrarnafamilìarsisrêrricoAleph.PubÌicaçõesAssessoriaPedagógicaLtda., 1992.
SEMÍNOTTI,N.A atitudepsicodramáticaIn:. CRANA. R. Técnicaspsicoter.ipícasna
adolescência. PoÍtoAÌegre:AÍtcs Médicas,1994
PARTE3
Prática com
GruposEspeciais
18
Grupoterapiacom
pacientessomáticos:
25 anosde experiência
JULIODE MELLOFILHO

estudodas influênciaspsíquicasnas doençassomíticasrecebeuo nome de


psicossomática,acrescentando-sedepoisos fatoressociais:sócio-psicossomáticoPro.-
curava-seassimalcançaruma visão abrangente,totaÌizadora,da doençae do doente,
por extensãoA. psicologiamédica,designaçãomaisatual,procurouestudara psico-
logia da doença,a da relação-médico-paciente daspráticasde saúdeem geral. Tudo
isso redunda no campo da psicologìamédica, aberto a qualquer especialidadeou
prática de saúde,onde se estudamváriasintervençõespsicoterápicasou de ensino,o
psicanalista,o especialista,o especialistapsiquiatraou qualqueroutro profissional não-
médico participanteda saúde.
Estetreìnamentodeprofissionaisquevìsaao manejode aspectospsicológicos do
pacienteprivilegiou,entretanto,até aqui as abordagensindividuais,até porque muito
pouco seensinasobretécnicasgrupaisem nossoscqntrosde medicinae psico-
logia.Assim,temosum gap muito grandeentreasnecessidades um pacientecrô-
nico,graveou muitoansioso,incluindoseusproblemasdefamíliaeaspespectivasde um
atendimentopsicológicovoltadoparaa realidade,principalmenteselevarmosem conta
as vantagensde um atendimentogrupal, quasenunca realizado por falta de
informaçãoou de preparotécnico.Na medicina,sobretudo,assistimosà tentativade
aplicaçãode técnicasindividuaisa instituiçõesgrupaisem nossoshospitaisAssim,.
ensinamostécnicasde abordagemde clínicaprivada,de duplamédico-paciente,em
instituiçõesde grupo,tais como ambulatórios,hospitaise todos os outroscentros
coletivosde práticasde saúde,como sãonossasinstituiçõeshojeem dia. Uma exce-

ção honrosaa tudo issoé o serviçosocial,onde profissionaishumanosaprendem cedo


e com profundidadeas regrasdo funcionamentogrupal, e são treinados para
coordenargrupos ondeolestablishn?ur?Ímédico permitir.
Nos hospitaisda redepúblicaouarivadahá muitostiposde grupoem funcio-
namento,principalmentenas áreasde diagnóstico (discussãode caso em equipe) ou
de administração(reuniõesde sÍdJïedemaismembrosde um serviço)Todavìa,.isso
nãoé feitocom conhecimentode aspectosde dinâmicagrupal,nemhá reflexãosobre o
queestásendofeito ou queoutroscaminhospoderiamsertomados.
No campode psicologiamédicaos recursosgrupaispropiciaramum enorme
cÍescimentoAs. reuniõesemgruposempreforampraticadasdesdeosprimeirostem-
186 ZIMERMAN & OSORIO

pos da psicossomática,principalmentequando se começou a trabal


de ensino (Alexander) e se necessitouda colaboraçãode vários es
poder discutir qualquer caso com rigor científico e visão multidis
sobretudo,foi muito feliz ao instituir gruposcom médicos generalis
pacientesdo sistemade saúdede Londres, os quais reuniam sema
quenosgrupos,mantendo-seos mesmos.Ele tambémestudouos mé
instituição grupal. Depois do seu falecimento,o grupo que continu
também em equipe, estudouos fatores terapêuticosmais relevante
médica comum (seis minutos para e pac., Enid Balint). Diga-se, a
b que Balint não tinha formaçãoem grupose que todo
seutrabalhofoi f te com criatividade e intuição.
As práticas de psicologia médica são calcadasem processos
muito pouco tenhaseescritoa esserespeitoaté hoje. Assim, a interco da
em pequenosgrupos, bem como são grupaisas reuniõesde equi
práticas reflexivas. Grupos com pacientessomáticossão realizados
cadavez maior.Todavia,aindasãomuito poucosem relaçãoàsneces
gicasdessespacientes diantedos resultadospositivosque se pod
prática. Ademais, pouco se conhecesobre seu funcionamentoe alc
médica e psicológica, inclusive. Em função desseaspecto,serãotai
maior destetrabalho.
Aindadirigíamoso Setorde Psicossomáticada disciplinade C
UFRJ (Serviçodo prof. LopesPontes)quando,em tomo de 1970,jun

Queiroz, decidimosnos reunir semanalmentecom os pacientesinte


ço. Essasreuniões,quevisavama discutirváriosproblemasligado
doençadestespacienteshospitalizados,estabilizaram-se foram ins Mais
tarde,no Hospital do Fundão,participamosde um trabalho co
pacientes,supervisionandogrupalmenteassistentessociais que fun
orientadorasdestasfamílias dianteda intemaçãodospacientes.O en as
situaçõesde ansiedade,dúvidas e perplexidade.
No HUPE - HospitalUniversitárioPedroEmesto- esse trabalho de,
desde 1980,e tivemos a oportunidadede organizar,coordenaro
gruposem enfermariasou ambulatóriosem várias áreas;criançasint
intemados,adolescentes(idem),cardiopatas(idem),cardiopatasem r
bulatório), hemodializador(enfermaria),grávidascardiopatas(amb

çasdiabéticase seuspais (ambulatório),homossexuaisportadoresde A


rio), portadoresde câncer de mama mastectomizadas(ambulatório
gêneos(várias patologias),grupos de hanseníase(ambulatório, gru com
DBPOC (ambulatório), grupos de hemofílicos(ambulatório), plantadose
doadores(ambulatório).
Desde 1975 conheçoEugênio Campos,terapeutade grupo co
voltado parauma práticapsicossomática,pelo que iniciamos vários
sasem comum, incluindo o trabalhocom gÍuposde pacientessomá
sim, seguirei neste capítuloas idéias expostaspor nós, separada
publicaçõesque resumemo que vem sendofeito nestesentidoem
elas:Grupos com pacientessonttiticos,Mello Filho, 1986,e O pacie
grupo terapêutico,PaesCampos, 1992.
Este campo é muito novo no Brasil e fora dele, pois ainda há
ções e trabalhospráticos a respeito.Mas, sem dúvida, constitui-sen de
maior alcance,pois abrangepraticamentetodo o terrenodos doe
COMO TRABALHAMOS CONI GRUPOS 187

ofereceoportunidadeparaoutrosprofissionais,não-especialistas,participarem'Será.
mesmo uma oportunidade,penso, para que a psicoterapiade grupo possa sair do
estadode estagnação desconhecimentono qual, absurdamente,há anosseencontra.

T{ISTÓRICO
Curiosamente,a psicoterapiagrupal como prática começoucom um trabalhode gru-
po com pacientessomáticos,embora,por muito tempo,essetipo de abordagemfosse
desconhecidoe, portanto,não praticado,nem estudado.
Atribui-se o início daspráticas terapêuticasgrupais a Pratt, um fisiologista de
Boston que, semqualquerformaçãopsicológica,começoua ministrar aulasespeciais
para pacientestuberculosos,em turmas de 20. Tais pacienteseram egressosde uma
mesma enfermaria, e as aulas eram seguidasde discussões,onde eram debatidos
vários temas,como a dieta, a alta, a vida fora do hospital.Assim se refere entre nós
David Zimmermann sobreo trabalhode Pratt: "Partiu da observaçãode convívio de
pacientestuberculosos...verificando que entre os mesmosse estabeleciamreações
emocionaisque tomavam os pacientesmais animados.Isso o inspirou a reun!los em
aulassemanaispara administrarlhes um curso...Nestasaulas,discutia a âtitude dos
doentesem face de infecçãotuberculosa,em relaçãoaosfamiliarese amigos; compa-
rava as váriasmaneirasde sedefrontaremcom a doença;davaconselhose esperança
de cura.As reuniõeseramconsideradasproveitosasporque,invariavelmente,ospacien-
tes melhoravam:tornavam-seotimistas e mais corajosos.Mais tarde,ele empregou
estatécnica com outrospacientescrônicos:cardíacos,diabéticose psiconeuróticos".
Na técnica de Pratt funcionava principalmentea sugestãoe a exortação.Era
uma técnicadita pelo grupo, isto é, que funcionavaatravésdo grupo, sem incluiruma
visão compreensivada psicodinâmicado pacientee do processogrupal.
Um passomuito importanteno estabelecimentode técnicaspsicoteriápicasgrupais
com pacientespsíquicosou orgânicosfoi o trabalhodos AlcoólatrasAnônimos (AA)
iniciadoem 1935porum médico(alcoólatra)e um corretorde imóveis.Essetipo de grupo
funciona âté os temposatuais,com muito sucesso,sendoa única terapia que ofereceuma
perspectivareal ao universo dos alcoólatras.A técnicatem em comum com o caso dos
pacientessomáticos:serempatologiascrônicascom inúmeras difi-culdadesde
recuperação;basearem-seno apoioe numa atuaçãoeventualsuperegóica; poderem atuar
no lastro familiar do paciente;estespacientescostumamser aditos a alguma coisa
(tóxicos, medicamentos,aquinas,pessoas,religiões)-
Depois do trabalhode Pratt, que ficou desconhecidopor muitas décadas,a psi-
coterapiagrupalficou silentepor muitosanose sósurgiucomoum trabalhoestruturado,
para neuróticose psicóticos,nos últimos 30 anos,a partir de psicanalistasinglesese
americanos,sobretudo(Foulkes, Bion, Slavson, Ezricl, Wolff, Schwartzman).Na
América Latina, estetipo de abordagemfoi lançadopor Grinberg,Lamgere Rodrigué,
que, todavia, como os demaispioneiros do movimento, praticamentenão se refer!
ram a grupos com pacientessomáticos.Também no Brasil, Walderedo Ismael de
Oliveira e David Zimmermann,pioneirosno Rio de JaneiroePorto Alegre,Íespectiva-
mente,tão trabalharamcom gruposde pacientessomáticos- Zimmermann,como se
pode vêi em seu importante livro sobre Psìcoterapiaanalítica grapal, divulgou o

'O ideâlmesmo,pensoeu, é quenestetipo de tmbâlhoo gruposejacoordenadopor umaduplaem co-terapia,formadapelo


especialistapsi e por um clíoicoconhecedordâsmãzelasdo corpodestesdoentes.
188 Z1MERMAN& OSORIO

trabalho de Pratt. Já o grupo de São Paulo, formado por analista


sólido enclavena psicossomática(Helladit Capisano,Luiz Miller
Paese OscarRezendede Lima), trabalhoucom gruposde pacient
divulgando este enfoque,que envolve a psicanálise(individual e
psicossomáticanuma prática comum e integrada.
As publicaçõessobre grupoterapiacom pacientessomático
algunstrabalhosesparsos,surgirammais consistentementenasdua
nos EstadosUnidos, principalmente,mas são aindamuito pouco si
importância do tema, ao nossover. Levando-seem conta a estrut
partedestespacientes(com poucarespostaà psicoterapia,portant
de que se dispõe,ambulatorialmente,para uma abordagemin
grupoterapiase impõem como prática de atendimentopara muit
uma sériede problemasde relacionamento,familiares,institucion
convivênciacom a doençade que são portadores.Esta dificuldad
uma terapia que é uma importantealtemativa para enfermidades
médica seexplica também pelo relativo desconhecimentoentrepr
de do que são as técnicasgrupais,seusresultados,suasperspecti
Em nossomeio, fomos os primeiros a divulgar essetipo de t
no Rio de Janeiro,trabalhandocom pacientesde um serviço de cl
pois, Eugênio PaesCamposdivulgou sua experiênciaem pacien
intemados,em Teresópoìis.Atualmente,no Rio de Janeiro,des
lhos em gruposcom pacientessomáticosno Hospital do Fundão,
sericórdia,Lagoa e outros.Tambémem São Paulo,Belo Horizont
Alegre são feitos vários dessestrabalhosenvolvendo pacientespo
cânceqcardiopatascinirgicos, entre outros,os quais,todavia,se di
gressosde psicologiamédica,sãoaindamuito poucopublicados

PACIENTE SOMÁTICO

---2 Pacientesomáticoé aquele que descreveou apresentauma alteraç


anatômicaou funções fisiológicas. Queixa -sedo corpo atravésd
cansaço,náuseas,vômitos,hipertensãoarterial,úlcerapéptica,edem te,
a origensdos sintomasseráde naturezadiversa:agentesfísicos, cos,
psíquicosou sociaìspoderãoestarna gênesedessasmanifes
obstante,serãopacientessomáticos.
Caberiadistinguir nesseuniverso aquelesque, de um modo
semos agentespsíquicospresentes(e,assim,sucetíveisdeuma inte
ca). De um dado ângulo, todos trazem a marca psicológica,pois
Reclamamde algo em seucorpo quenão vai bem, o que apresenta
cial ameaçaà integridadedo indivíduo. Sentir-sedoenteconstitui sica"
no dizerde Otelo CorreadosSantos(1986).Há, portanto,uma tos (de
angústias)despertadospelo sentir-sedoente.Ao falar em " fizemos
uma distinçãoevidencìávelpelos meios habituaisde diag doente é se
queixar de algo sem que qualquerlesão ou disfunção
Paradoxalmente,algumaspessoasestãodoentessem se sentirem
outrassesentemdoen(essemestaremdoentes.
Quem se sentedoentepode ou não estardoente.Na prática mente
encontramospessoasque trazem queixasfísicas semque quer
anomaliacorporal. Dizem as estatísticasque de um a dois te
COMO TRABALHAÌIIOSCOM GRUPOS
189
queprocuramambulatóriosmédicosou serviçosde emergênciaencontram-senessa
categoria.Afinal, o que têm? De que padecem?Pareceque as razõespsicológicas
ocupamlugar de destaqueSão.manifestaçõeshipocondríacas,histéricasou, generica-
mente,somatizações.
Entretanto,há os que se sentemdoentese estãodoentes.Também essespodem
ter Íazõespsicológicasinfluenciandoseu estadofísico.Os estudosde Slye sobre
estresse síndromegeralde adaptação, neurofisiologia, psicoendocrinologiaa psico-
himunologiatêm descrito,de modo cadavez mais específico,os caminhos
percorridosdesdeo sistemanervosocentralatéos váriosórgãose tecidosFinalmen.-te,
há os queestãodoentes nãosesentemdoentesO. queocorreriacom eles?Esta-riam
negandoa doença?Provavelmentesim, e essanegaçãoé um fato psicológico.
Concluímosquetodopacientesomáticotem,de algumaforma,um comprome-
timentopsíquicode maior ou menorrelevância,merecendo,pois,uma abordagem
psicológica.

EFEITOS DA DOENçA NO PACIENTE E SEU MEIO SOCIAL


EugênioCampos,em suabrilhantealocuçãopor nóscitada,fala do serdoente,estar
doentee todauma sériede complexidadesem reÌação,bem como da percepçãode
uma doençae suasváriassignificaçõesO. campoé muito amploe complexoe nos
interessade perto,poisa psicoterapiado pacientesomático,individualou grupal,vai
lidar com a históriade cadadoente,os prejuízosqueestadoençalhe causou,suas
chancesde reabilitação,suavisãoparticularde si mesmo,etc.E um campoextensoe
paradoxalquemuitosprofissionaisnão penetram,por não perceberemos sortilégios da
visãoparticularde cadaenfermoe seumundode significados.
Nossosef(Eu) seconstituia partiÍdasprimeirasreÌaçõescoma mãee o ambiente
seestruturade modo mais sólido ou frágil de acordocom o que se recebeude afeto,
adequação,respostas,coerênciaou ambigüidade.Contém um potencial hereditário
mórbido que irá ou não se expressarde acordocom as situaçõesde estresse má
adaptaçãoqueserãovividasposteriormente,nasváriasetapasda vida.
A históriapessoalde cadaum contéma presençade umaou maisenfermidades
que deixarãoou não seqüelasde acordocom a gravìdadedosprocessosmórbidose
com o apoiomaiorou menordo ambientecircundante,incluídosaproteçãomédica,
familiare social.A históriamédicade cadaum de nós contémas vivênciasde cada
doençado passado,próximo ou remoto,bemcomo a significaçãodasdoençasfamilia-
resde maiorimportância(pai,mãe,irmão,esposa,avós,filhos).No casodasdoenças
hereditárias- como o diabete,por exemplo- forma-seum mapade Iembranças,fanta-
siase percepçõesdo diabeteem cadafamiliar- porquefoi assim,porquefiquei doente
aÍìtesdos outros,nossopacientemorreu,porquenão estámiÌis vivo e eu estou,etc.
Os traumas,físicosou psíquicos,os errosdo desenvolvimentoa pressãodos
paissobrea sexualidadede umajovem, âs marcasdasdoenças,tudo issodeixaras-
tros, trilhos sobreos quaispoderãosedesenvolveroutrasenfermidadesSão. as séries
complementares,nomeadâspor Freud, isto é, sériesde acontecimentosdas várias
etapasda vida que se combinampara nos tornarmosvulneráveisa futuras patologias
sofridas.
A doença,principalmentese sofrida, demoradaou ameaçadora,nunca é bem
recebidapor qualquerum de nós. Mesmo aquelesque parecemmais adaptadÕstêm
umadosede revoltapor baixode suatolerância,poisnìnguémquerem últimainstân-cia
estaÍdoente,enquantoos demaisparecemtodossadiosEsse.é um dos sentilnen-
190
tos que acompanhao adoecer,são os sentimentosnegativos.Estamosnos referindo aos
vários outros,como as vivênciasde inferioridade, o medo,a raiva, a ansiedade,a
depressãoFalando.das vivênciassaudáveis,há a alegria,por exemplo,de ter enfren-tado
a doençae ter vencido, afinal. Mas estassituaçõesde triunfo sobre a doença, sobrea
morte, sãomuitas vezesfacilmenteesquecidas,pois no aÍã de superarÌnosum inimigo
vencido,para esquecê-loe abandoná-lo,pomos de lado, também,uma série de
percepçõese reminiscênciasde muita importância para nosso sefi preciosasem
embatesfuturos. Assim, se esquecemoscom facilidade os aspectospositivos, a vitó-ria,
semprenos recordamosde tudo que sofremos,as limitações,o leito, a febre, as dores.E
tudo isso surgecomo fantasmasnas doençasque se seguirão,sãofantasmas que pairam
em nossasmentes,muito emboranem semprese realizem.
doença vale por onde ela se localiza, por sua possibilidadede ficar e, por
último, de nos destruir. A localização faz a patologia mental, a terapia preencheo
grupo. É muito diferente o que se passanum grupo de nefropatas(doençainterna,
sem cura), de lúpus (várias patologiase localizações),de Hansen (doençade pele,
lepra - curada,mas sempreuma ameaçana mentedo paciente).
Os pacientescom Hansenjá entram parâ o grupo curados,mas desenvolvem
uma hipocondria ao mal de Hansen.peregrinamcomo os personagensda Bíblia,
tentandose livrar de um mal que nunca os deixará (em suasmentes).Os doentesde
lúpus convivem com lesões que ameaçamsua pele, sua imagem, o rosto, as partes
descobertas,o cabelo que cai. Temem perder sua beleza,seu encanto,seu poder de
seduçãoA. sexualidade,portanto,fica comprometida.Parao pacienterenal,o impor-
tante é a relaçãocom a máquinade hemodiálise.Seusrins seforam, desgastaram-se
não funcionam mais; felizmenteos médicosinventaram a máquina.Toda a terapia,o
grupo, centra-sena relaçãocom a máquina, se funciona, como funciona, quais os
perigos de funcionar enado, de não funcionar, quais os remédios,a dieta, tudo em
tomo da doençacrônica e da difícil sobrevivência.Alguns não têm mais potência,
ereção.Isso pouco importa. Outroscontinuamlutandopor mereceruma vida sexual.
Assim, a doença,como ela se apresentae como significa para a4ossa fantasia,
pode atingir nossoselí a auto-estima,aqualidadede vida, nossasperspectivasvitais e
de sobrevivência,nossasexualidade,a capacidadede amar, de ter esperanças,as
possibilidadese qualidadesde relaçõespessoais- desdeo cônjuge, os parentes,os
amigos-, as relações,imagens,no ambienteescolare profissional.Por vezes,a reali
dadedadoençaé quasecatastrófica,entrecolegasdeprofissãoPara.qualquerprofissio-
nal de saúde,em geral, a presençada AIDS num colega é motivo de desconfiança
distânciae desvalorizaçãoNuma. oportunidade,num hospital em que trabalhei,um
enfermeiro com AIDS foi motivo de tanta curiosidadeque os seuscolegasfizeram
uma imensa peregrinaçãoao seu quarto, quasemoribundo, sem condiçõesde nin-
guém receber.A doençado médico em geral provoca inicialmente revolta nos cole-
gas (porque,sendomédico, enfraqueceue adoeceu?)Depois descasoe rejeição.
Se ir a um médico pode ser estressante(o diagnóstico;o que vai ser prescrito),
mais ainda é o processode internação,a perspeótivade cirurgia, a medicaçãoe os
examesinvasivos e iatrogênicos.Nas enfermarias,os médicoscomuns pouco se li-
gam no sofriÌnentomentaldopaciente- só a dor física e os sintomasdetectáveispela
semiologia e examescorrentes.A enfermagem,por vezes,dá consolo espiritual ao
paciente;mas isso dependeda enfermeiraem si e de sua formação profissional.
Se há um serviço de psicologiamédica, de psiquiatriade ligaçãoou de psicolo-
gia hospitalar,muito pode ser feito por estespacientes,como um resgatede tudo que
não está sendovisto na relaçãomédico-paciente,nas demaisrelaçõeshospitalares,
familiares, profissionais,nas carências,rejeiçõese preconceitosda vida em geral,
COMO TRABALHAI\ÍOSCOM GRUPOS
191
desdeque se adoeceu.Mas, estetipo de trabalho,apesarda multiplicação de siglas
ainda é muito pequenopara atenderas necessidadespsicossociaisdestesmilhares
de pacientesque esgotamos leitos de nossoshospitaispúblicos e privados.
Ademais, quando se trata de ajudar um paciente a se adaptaÍ melhor a uma
enfermaria hospitalar,a poder tirar mais proveito em termos de saúdee relaciona-
mento de um processode intemação, o melhor, se ele tem condiçõesde saúde para
isto, é ajudá-lo a participar de reuniõescom os colegasde enfermaria.Isto é em si
terapêuticodiante da regressãoque pode acompanharo estar doente,e, ao mesmo
tempo, aumentaa consciência(necessária)da doençae amplia as relaçõespessoaise
seff-objetais(de dependênciasaudável),que podem se fazer numa enfermaria.

FENôMENOS SOMÁTICOS NOS GRUPOS TERAPÊUTICOS

Se considerarmosa chamadaIinhagemcorporalcomo um modelo arcaicode comuni-


caçãoonde operammecanismosinconscientesde caráterregressivo,seráfácil admi-tir
que o settinggrupal, qualquerque seja,pelo interjogo de emoções,troca de papéis
revivescênciade sihraçõesafetivas as mais diversas,constituindo-senum terreno
privilegiado em relação à ocorrênciadestasmanifestaçõesO. que aconteceé que
muitas vezestais fenômenospassamdespercebidos,como "doençascomuns", e não
são relacionadospelo terapeutaa tensõesintragrupaisou momentosespeciaisque
determinadopacienteestávivendo naquelegrupo. Assim, podemosinicialmente fa-

'lar d,esomatizaçõeshabituaìs,qruesurgemno decorrerdaspróprias sessões(cefaléias,


crisesde tosse,borborigmos,sensaçõesdispnéicas),ou ao longo do evoluir do processo
gmpal (crisesherpéticas,aftas,episódiosdolorosos,sintomasalérgicos,etc.) em pa-
cientesque têm ou não o hábito de somâtizar.Destemodo, expressam-seansiedades
particulares,mudanças,situaçõesde perda,luto, microdepressões,vivências transfe-
renciais em relação ao terapeutaou a qualqueroutro participantedo grupo. Por ve-zes,tais
situaçõestêm caráterrepetitivo - como o casode uma pacienteque todasas vezesque se
sentiana contingênciade "engolir" uma situaçãodesagradáveldentro ou fora do grupo
reagiacom uma crise de estomatiteaftosalocalizadana garganta.Ou, como aconteciacom
outrapaciente,que tinha necessidadeimperiosade urinar sempre que o grupo
experimentavamomentosde tensãoe conflitos entre seusmembros.
Essassomatizações,secompreendidas,podemrepresentaÍetapasde umprocesso
de elaboração,como foi o casode uma pacientemuito competitiva e reivindicadora,
que costumavafalar excessivamente,tomandoa vez dos demais.Numa oportunidade
em que assim procedeu- desconhecendo,inclusive, as necessidadesde uma colega
em depressão- foi criticadade modo construtivopor todo o grupo.Na sessãoseguin-
te, chegoucom a boca tomadade aftas.Dissemoslhes ser seu sintomaexpressãode
suaculpa pela voracidadee poucaconsideraçãocom os demaiscomponentesdo gru-
po. "Assim eu sou obriga{a a falar menos,dando mais oportunidadeaos outros",
acrescentou,de modo sincero,a paciente.
Essasexpressõessomáticasconfiguram-se,por vezes,como autênticosdctrng-
ouls corporais, que podem ocorrer dentro ou fora das sessões.Uma pacientecom
estruturahistérica e depressiva,que a levava a reagir com intensador mental aos
insights que começavaa experimentarno tratamento,numa oportunidadeem que
disse,literalmente,quenão queriaouvir o quelhe relatávamos,apresentouum
processo de otite agudano ouvido voltado para nós (sentava-seao nossolado).
Mudou para o outro lado e, tempos após, em situaçãosemelhante,teve nova
infecção'agudano ouvido oDosto.
de transferência".Tal aconteceu,por exemplo, com uma paciente
em que sentia seu pai como ausentee distante,tinha manife
urticariformesduranteos contatosque mantinhacom o mesmo,faz
própriâ as chamassede "alergia ao pai". Numa fase do grupo em
indiferente e estavamuito mais ligada a outros pacientes,também
reaçãoalérgica,quese iniciavaduranteas sessões.

ASPECTOSTÉCNICOS
l-A
teoriados grupossomáticosterapêuticoscompreendea contribuiç
analíticagrupal(principalmenteFoulkes),dachamadadinâmicagru a
teoriados gruposoperativos(PichonRivière)e os chamadosgÍ
(Delarossa)Como.já disseantes,estesgrupostêm uma estrutur
queestásendodefinida,elaborada publicadaEssa.é mesmouma
nossopróximo livro, sobreestetem , a serpublicadobrevementec
TaisapoÍesteóricossecombinamconformea instituiçãoond trabalho,
sobre o lipo de grupo (de ambulatório ou de enfermari
heterogêneo),sobreo objetivo (breve,de médio ou longo prazo), s
veis (informativo,de preparoprra exameou paraterapia,etc.)As
fazema técnica,e essadeveser sempreelástica,levandoem cont
graves naquelegrupo, qual a possibilidadedaquele(s)pacien
conscientizar(em)-se,poder(em)refletir.
Nos gruposde informaçãoonde preparo,os objetivos sãolimit
de informar, esclarecerdúvidas, realidades,fantasiascontribuir par
siedadesdo paciente,paraque esteentrenuma cirurgia,por exe
chancede ter uma complicaçãocardíacaou um distúrbio de compo
operatórioEstando.menosansiosoe hipocondríaco,poderáserma
catarsesempreé, por outro lado,um objetivo presenteE. o falar da
de algumacoisaquenãosesabedireito,o que- em seusprimórdi - é
sempreuma meta terapêutica,pois inclui âs fantasiassobrea d
vezesnuncaconfessoua ninsuém.
--?
No grupo de enfermarú. há que abordar as ansiedades,prep
para examese cirurgias, paÍamuitos examese uma longa perma
vezes,para conviver e enfrentar os sofrimentosque antecedema
trata-sede informar, apoìar,ouvi-los nas queixas (geralmentejust
equipe e à instituição, pois não vieram se intema para convivere
médicos ou com médicosmal-humorados.Inclu!se também ajudá
grupohomogêneo solidárioquepossaauxìliarcadaum nos mom
são,medo, ou mesmodesespero.
As ferramentastécnicase os procedimentosterapôuticosse to
plexosà medidaqueo tempodepermanênciado gruposetomamai
maisambiciososno sentidodeconhecerosmeandros ossignifica de,
as formas de conviver com o mundo e a perspectivade mudar
para melhor, conhecendo,também,do que se sofre e por que sofre
Assim, de uma terapia que foi mais de informação e suporte
uma finalidade mais de conhecimento(insight) e de reflexão. Pen
como é ter aqueladoença,sendoa pessoaque seé, com aquelafamí
COMO TRABALHAMOS COM CRUPOS
193
ge, aquelavida sexual,aqueletrabalho,pertencemais aosgruposhomogêneose hete-
rogêneos,quando essestêm finalidadespsicoterápicas.Aqui a psicanálisee a psi-
coterapiaanalíticadegrupo sãoos grandesreferenciaisem relaçãoaos outros.Diga-se,
a bem da verdade,que outrastécnicaspodem ser usadasem terapia grupal com
pacientessomáticos.Assim, acompanheium grupode asmáticosqueapresentoubons
resultadosterapêuticoscom técnicascorporaisutilizadas por Vera Cordeiro. Acredi-to
que a dramatizaçlaoe o role-playing (trocade papéis),que no ensinode psicologia
médica usamoscom muito sucesso,possamser muito úteis nestetipo de grupos.
interpretaçãonormalmenteé reservadapara as terapiaspsicanalíticas:a psi-
canáliseindividual e os grupanalíticaAqui. falo da interpretaçãocomo vínculo como
inconsciente,dirigida a aspectosinconscientesatéentãonão acessíveisao consciente
do pâcienteou só parcialmenteconhecidosdeste.A interpretação,obviamente,pelo
seu mecanismo,pode dispersarviírias reações,como medo,raiva, culpa, dor, deses-
pero. Também alegrias,euforia, momentosde criatividade.
Obviamente,não se usa interpretaçõesdestetipo trabalhandocom gÍuposcom
pacientessomáticos,pois estamosfazendopsicanáliseaplicadae não psicanálisepura,
em que se usam basicamenteinterpretaçõestransferenciais,relacionadascom o
terapeuta,com os sentimentosdo pacientepara com seu terapeuta.Estasinterpreta-

ções,ditas profundaspelasreaçõesemocionaisquepodem despertar,sào,mesmoem


parte, contra-indicadasnum pacientejá sobrecarregadocom uma doençasomática,
com a auto-estimabaixa, frágil, propensoa depressões atitudes auto-agÍessivas,
regredidomesmopor vezes.
Ao invés de interpretações,podemosusar intervençõesprévias a uma interpre-
tação,não tão profundas,todavia.São as clarificações- esclarecersobreo funciona-
mentopsíquicodo paciente,seusconflitos e defesas- e asconfrontações- confrontá-lo
com suascontradições ambigüidadesAcima. de tudo, assinalaras relações
intragrupaispor trás das quaisestãoas formas de se relacionarde cadapacientecom
os demaise com o grupo como um todo. Assinalarnão é interpretar,é apenâsmostraÍ
algo significativo para o pacientee o grupo. O grupo (e cadaum) vai, a partir disso,
pensar,refletir, sobreeste conteúdoe pode então por si só, ou como um conjunto,
chegara uma interpretaçãomaior, enfecharaquelagesral1,produzir um novo conhe-
cimento. Trata-se,mais do que interpretar,de possibilitar ao paciente(ou ao grupo)
que ele descubrae crie aquelainterpretaçãocom a ajuda do terapeuta,que agecomo
"ambientefacilitador" do desenvolvimentoda terapia,da vida, enfim. O grupo é um
excelenteespaçopara,junto, descobrir-severdades,aspectosde câdaum e de todos,
transicionalmente,diria Winnìcott.
A questãoda reflexão, que perpassaa filosofia, as práticasorientais,a religião,
foi redimensionadano ensino,na terapìae nosgrupos por Delarrosae Ferschutt,na
Argentina, na décadade 70. Eles partiram da prática do ensino de psicoterâpiâ de
grupo e criaram a expressão"grupos de reflexão", cadavez mais divulgada a partir
de então.Num grupo de reflexão se percebe,pensa-se,recoloca-se,escolhe-se,to-
(se
mam-sedecisões for o caso).
É este método que Balint elegeuparapossibilitara médicosdiscutir e ampliar a
prática e o conhecimentoda relaçãomédico-paciente.Posteriormente,Luchino cha-
mou estesgrupos de "clínicos" ou de "especialistas"de "grupos de relaçãoda tarefa
médica", designando-osdiretamentede gruposde reflexão e vinculando-osa todo o
exercícioda medicina e a relaçãocom as instituições de saúde.
A expressão"grupo de reflexão" é uma das que cabemais aos grupos homogê-
neos,que são aquelesque costumamter maior duraçãoe maior constânciade mem-bros,
favorecendoos mecanismosde identificaçãoe empatia que vão possibilitar a
194 ZIMERMAN & OSORIO

instalação de um grupo terapêuticovoltado para o pensar,pens


aquelassituaçõesvividas de um modo ou de outro por todos.Essa
se aplicam aosgruposheterogêneosambulatoriais,onde seenfoc no
de patologiasdiferentes,as questõesdo adoecer,da doençae vida
do paciente.

GRUPOSCOM PACIENTESSOMÁTICOS
Abordaremosaqui o trabalhocom gruposconstituídosapenaspor
em regime ambulatorial,hospitalizadosou prestesâ se submete
Enquanto o trabalho com gÍuposde neuróticosé realizado basi
privada, falaremosagorade gruposconduzidosem instituiçõesp
de um trabalho de maiores perspectivassociais, voltado para
previdenciário,de baixa renda.
Desde os primórdios da psicoterapiagrupal, fala-seem "gr
cos" de pacientescom problemasvários (diabéticos,ulcerosos,c
tensos,asmáticos,etc.). No clássicolivro de Grinberg,Langer e R
sive, uma boa abordagemdessetema, com referênciaa proble
importantesaté os dias atuais,como as dificuldadesdas instituiç
técnicas,os problemasde lidar com doentesgravesque freqüente
seustratamentose a importânciado trabalhoconjunto do psicote
na conduçãodessesgrupos.
Uma primeira questãodiz respeitoa classificarmostais gru
neos.Na realidade,sãohomogêneosem relaçãoà patologiados p
neosem relaçãoao sexo,idade,estadocivil, etc.
Outro problemaem abertodiz respeitoà técnicaa ser utiliza
grupos,a qual é extremamentevariável,conformea formaçãoteóri
denador(terapeuta,expressões,a nossover,nestecasoespecial,af
gia a ser abordada,objetìvosa seremalcançados,instituição ond etc.
De um modo geral,já não se pretendemais trabalhá-losana hoje
não faz mais sentido a recomendação,por exemplo, de Rodriguéde
interpretarsistematicamente raiva e a inveja que pa te
enfermostêm da saúdevisível dos terapeutasJá. se conheceb
narcísicase da auto-estimadessesenfermospara entendeÍque n de
se sentir profundamentehumilhadosdiante de colocaçõesdes gem
pode serfeita de outro modo, discutindo-sea vulnerabilidad no às
mais variadasdoençasou a necessidadede exaltarmosa for les de
quemdependemos,por exemplo.
Vários autoreschamam tais grupos de operativosou de t
trabalhamos,operamos,com a tarefade discutir problemascomu
e perspectivasde pessoasacometidasdos mesmosmaÌes,ou r mente
ções

a tarefa de preparar doentespara se submeterema tera


mutiladoras.Porém, ao mesmo tempo, damos oportunidadea el
muitos casos,pela primeira vez - do âmagodos seuspadecimen os
hospitaisnos quais estão intemados,e lhes damos apoio na l dores e
seussofrimentos,ao mesmotempo em que utilizamos a em prol do
amadurecimentode outros. Se o grupo progride, ma paraque todose
cadaum possammeditar,refletir, sobreo queé es o total gozoda
saúde,adaptar-seprogressivamenteaestasdoloros
COMO TRABALHAMOS COM CRUPOS
195
ciais com um mínimo de revoltae de sensaçãode excepcionalidadeAinda. conforme
preparoe os objetivos do coordenadore as possibilidadesde cadaum dos partici-
pantes,poderemosenveredarna trilha dos condicionamentosconflituosos que ali
mentam muitos sintomasfísicos,penetrandono mundo do inconscienteindividual-
grupal, e a partir daí buscaroutros inrigfttJe elaboraçõesNeste. caminho, técnicas
psicodramáticaspodem serutilizadasna buscade novaspercepçõese de experiênci-
as emocionaiscorretivas.Temos,assim,ao nossodispor um rico repertóriode técni-
cas, objetivos e recursosterapêuticos,que vão desde a catarse,o apoio, o suporte
mútuo, a realizaçãode tarefas,a reflexão,o trabalho focal, até a conscientizaçãoe o
insryftt, objetivos últimos de um manuseiopsicoterápico.

GRUPOSCOM PACIENTESHOSPITALIZADOS
Pacientesde clínicamédicaEm. fins dadécadade 60,prestávamosorientação
assistênciapsicológicaàsequipesdesaúde a pacientesintemadosemenfermarias
de ClínicaMédicado HospitalSãoFranciscode Assis,tendoconstatadoqueos doentes de
cadaunidadepassavampor sucessivassituaçõesde crise,motivadaspelainternação de
pacientes-problemas(reivindicadores,regressivos,psicopáticos),pela moÍe de
certospacientes,por modificaçõesdaschefias,por mudançasde gruposde residentes
de intemos, entre outras.Tais crisesse manifestavampor estadosde ansiedadeou de
depressãoporparte dos pacientes,agravamentosdos quadrosclínicos ou modifica-
çõesabruptasde comportamento,permanecendogeralmenteocultas,em
suasverdadei-ras causas.
Numâ dessasoportunidades,reunimos-noscom pacientesda enfermariamascu-
lina, onde tinha havido uma seqüênciade mortes inesperadasOs. doentes, por um
lado, pediamalta ou transferênciade enfermaria,e, por outro, faziam brincadeirasde
sortearo próximo a morrer.Após uma catarsegeral,foram prestadosesclarecimentos
sobre os óbitos e suas causas,desanuviando-seo ambiente, diminuindo o clima
persecutórioe o uso de defesasmaníacasNoutra. ocasião.reunimo-noscom pacien-
tes da enfermaria feminina, revoltadâs com a conduta de uma adolescentecom
cardiopatiareumáticaque,eufórica e exaltadacom o uso de corticosteróides,agredia e
ameâçavaas mais idosas.Foram dados limites à paciente,que foi encaminhadaa
uma psicoterapiaindividual.
Assim, nasceramas "reuniõesde crise", que nos estimularama promover reu-
niões regulares,semanais,com os pacientesintemados nas quatro enfermariasdo
Serviço, para as quais convidávamosum médico, a enfermeira-chefee a assistente
social. Sendoessaexperiênciapioneira em nossomeio em hospitaisnão-psiquiátri-
cos, fomos aprendendocom a experiênciae enfrentamosde início muitasdificulda-
desde cooperaçãoe participaçãodos pacientesEram,. via de regra,doentescrônicos,
por vezesidosos,pouco motivadosparaa nova técnica,que permaneciamsilenciosos
nas reuniões,traduzindotambéma posturahabitualmentepassivadestetipo de paci-
ente.Tal fato nÕsinduziu a trabalharo grupo mais operativamente,tentandorealizar
tarefascoletivas de melhoria das instalaçõesdas enfermarias,iniciar atividadesde
lazer,discutir seusproblemasprevidenciáriosporventuranão-resolvidosEssa.estraté-
gia rendeu poucos resultados,a não ser em relaçãoà organizaçãodo lazer, que foi
estruturadoem torno de uma sala com televisãoe jogos, que reunia os pacientesem
suaslongashorasde ociosidade.Predominava,todavia,o clima depressivodasenfer-
meiras,e o grupo funcionavanum pressupostode dependênciaou, por vezes,de luta
e fuga, evitando falar de situaçõesde saúdeou dos problemasdecorrentesde uma
L96 ZIMERMAN & OSORIO

hospitalização.Sabíamosque havia muitas críticas ao conte


porém, apesarde estimulados,temiam fazêlo. As reuniõesera
enfermarias,o que impedia que os pacientesmais gravespud
possibilitava a outros alegaremimpedimentospara estar pre
apatiaera maior nas enfermariasmasculinas,o que constâtâm

çõesem que realizamostal tipo de trabalho.Os homens,em


fechadosao contato do que as mulheres,mais inibidos para ta
quer que seja sua procedência,como também para tema psicol
Só a açãodo tempoe a persistênciade nossosobjetivos
modificar esseestadode coisas,enquantoestimulávamoso g
catártico e reforçávamosa comunicaçãoe os mecanismosde s
pacientes.Começamosentão a penetrar na intimidade do gr
afetivo,detectando,inclusive,um complexointerjogode expe
entes,entreelese o pessoaladministrativo,inclusivecomplica
sexuais,por vezes mesmo configurando o que poderíamosc
institucionais.Por outro lado,objetivosatéentãolatentespuder
te alcançadosOs. pacientescomeçarama relatarprobÌema
saúde,de medicamentosou dietéticas,iatrogeniasvárias,situa
desvio da rotina da enfermariaque puderamser diretamented
direçãodas enfermarias.
Outrosresultadosobtidosatravésdasreuniõesforam um m
gico dos pacientesparasubmeterem-seaexamescomplementar
dimentosciúrgicos, bem como discutirsobreas vìsitaçõesfa alta e
acompanhamentoambulatorial,com todasasimplicações
das.Mantivemos tais reuniõespor cercade 8 ânos e, durantee
treinarmédicos,estudantes,enfermeiras assistentessociai

grupos,atravésda seqüênciaobservador-co-terapeuta-coord ção


dessetrabalhopermitiu-nos,inclusive,abordargrupalmen da morte.

Mais recentemente,temosreaìizadosessasreuniõesno H
UERJ, também em enfermariasde Clínica Médica, atravésde
KennethCamargoJúnior. Estereuniu-secom pacientesde uma
semanalmente;porém, diferentementeda experiênciaanterior,
fermaria. Esta estratégiase, por um lado, permitiu que pacien
dessemparticipar,por outro trouxeuma sériede inconveniente
te interrupçãodo clima grupal atravésde intervençãoda equip
(retiradade pacientesparaexames,aplicaçõesde medicamento
nas,etc.).Em quepesemessasdificuldades,conseguimosalivi
dentro da enfermariae colaboramostambémparacriar um clim
pudessemseajudarmaisuns aosoutros.
Atualmente as reuniões são realizadasno HUPE, em e
médica,cardiologia, obstetríciae nefrologia com bons resulta
pendemda continuidadeda experiência,da construçãode um
próprios pacientespreparamos novos para a participação.

Pacientescirúrgicos. A perspectivade submeter-sea u


medo e ansiedade,os quais podem interferir antes,durante e
principalmente se essessentimentosnão são expressose con
refereque a intemaçãohospìtalare a expectativade um procedi
entre as experiênciasque mais elevam os índices hormonais
COMO TRABALHÂMOS COM GRUPOS
t97
cinírgicatradicionalnão inclui o preparopsicológicodospacientesparao ato,pois
acreditaque os resultadosserãomelhoresse a cirurgiafor realizadalogo e não for
dadomuito tempoparao pacientepensarsobreo assuntoPor. tudoisso,equipesde
psicologiamédicavêm trabalhandono preparopsicológicode candidatos umaci-
rurgia,individualmenteou em grupos,ou atuandonascomplicaçõespsiquiátricas
quepodemoconerno períodopós-operâtório.
No Hospitalde Clínicasda UERJ,num trabalhoconjuntocom o Serviçode
CirurgiaCardíaca,dirigidopor WaldirJazbik,realizamosgÍuposcom candidatos essetipo
de operaçãoSão. pacientesquevão sesubmeteracirurgiasde revasculari-
zaçãomiociárdica(pontedesafena),colocaçãode prótesesvalvulares,demarcapassos
decardiopatiascongênitasOs.gruposeramcoordenadospelosnossosentãoassisten-
tesPauloRobertoDias(psiquiâtra)e DulceMaria de Castro(psicóloga)e incluem, no
máximo,8 componentes,de ambosossexosO. fato dePauloDiasjá ter trabalha-do
nesteServiço,quandoestudante,possibilitavalhedarasexplicaçõesnecessiárias
sobreostiposdecirurgia,detalhestécnicos,funcionamentodo CTI, tempodeperma-
nênciano Hospital,etc.
A incidênciadecomplicaçõespsiquiátricasnascirurgiascardíacascéuaberto já
foi muitoalta,até307o,quandoseiniciouesseprocedimento,originando,inclusi ve, a
expressão"delíriopós-cardiotomia"Pensava.-sequeproblemascerebraisde-
correntesda circulaçãoextracorpóreafossem,em parte,responsáveispor essacifra
tãoalta.Todavia,todososestudiososadmitemquea faltadepreparopsicológicodos
pacientesaumentaenormementeapossibilidadedessascomplicações(estadoscon-
vulsionais,crisespsicóticas,crisesdepressivas,etc.).Noscentrosemqueesseprcpa-
ro vemsendofeito,o índicedecomplicaçõespsiquiátricasé apenasum poucosupe-
rior ao encontradonosserviçosde cirurgiageral.
Um dosaspectoscaracterísticosquetemosobservadonessesgruposé que,embo-
ra os pacientessemostrembastanteansiosos,negamconstantementemedoda ci-
rurgiae, principalmente,damorte.Issoseexplicaexatamentepelopavorquetal tipo de
cirurgiatendea provocar:abriro tórax,manipularo coração,submeter-sea uma
anestesiaprofundaSua.impressãoé de quesefalaremdo medodo qualsedefendem
estesetornaráinsuportávelE. o queaconteceé exatamenteo contrário.Quandoos
coordenadores grupopossibilitamqueo medoapareça,o mesmopodeserdiscuti-do e
bastantealiviado.Normalmente, medoda morteestádeslocadoparamedos menores:de
rejeiçãodeumaválvula,da anestesia,do quesepassaráno CTI, etc.
O problemada informaçãonessesgruposé da maiorimpoÍância.Atualmente,
tais cirurgiassãofeitascom um mínimode risco de vida e de complicaçõespós-
operatórias,masospacientesfreqüentementenãosabemdisso.Informaçõessobreo
índicedemortalidade,detalhesdetécnicaserecursosutilizadosparalidarcomcompli-
cações,costumamtrazeralívioquantoàsfantasiaspersecutóriasA. presençade
pacien-tesjá operadoscomovizinhosde quartoou de enfermariaspodeserútil
(depoimen-tos positivos)ou aumentarasansiedades,quandofalamde
insucessossemostram ressentidoscom os médicos.
Osdoisgruposprincipaisdepacientes(coÍonarianosevalvulares)trazemdúvi-dase
questõesdiversas, tambémsecompoÍamdemodoalgodiferenteOs.valvula-res
tememque as prótesesproduzamruídos,sejamrejeitadasou que precisemde
maisdeumaoperaçãoSão.muitomaisfacilmenteagrupáveismaisadaptadosàsua
doença,principalmentequandopassaramporlongasevoluçõesOs. coronarianosque-
remsaberdetalhesdaspontese comoessasfuncionamComo.têm,via deregra,uma
personalidadecaracterísticaque,inclusive,favorece evoluçãoda doença(ansieda-
de,competição,agressividade,impaciênciaebaixatolerânciaà frustração),compor-
198 ZIMERMAN & OSORIO

tam-sedestemodo no grupo e por tal motivo sãomenosagrupáve


outros e aproveitâm menosda experiênciascompartilhadasAssi.
quequis seretìrardogrupologo apósseudepoimentoteveum pós-o
do, no qual desenvolveuuma reaçãoparanóide:sentia-seenvene
mentose queria processaros médicos (ele era advogado).
Um ponto crucial 'ressascirurgiasé o preparopara as 48 hor
no CTI. Os pacientesacordâm da anestesiaentubados,sem pod
série de cateterese drenos.Sofrem dores,mal-estare precisamcol
numa série de manobras,como exercíciosrespiratórios.Temos a
de pacientesque foram operadosàs pressas,sem maioresinforma
no CTI, perplexoscom a situaçãoinvasiva,principalmentecom a i
secomunicar,reagiramcom crisespsicóticas.
Realizamosestetrabalhodurantecercade 1 ano,principalme

de Castro,que traziauma boaexperiênciade psicologiamédic
dos se explicam não só pelosgruposcomo tambémpelos atendim
pelasinterconsultas relacionamentoscom a equipemédico-cirurg
tência aos casospsiquiátricosera fundamentalpara a aproximaçã

GRUPOSSOMÁTICOS HOMOGÊNEOS
Como já vimos, a psicoterapiagrupal começoucom Pratt, quando
gruposde pacientestuberculososa sereadaptaremsocialmenteEs. ra
realizadode forma algo rígida e à basede doutrinações,foi u permitiu
o crescimentoda psicoterapiagrupalem múltiplas direçõe dadede
atenderem gruposdoentessomáticosportadoresde doença ra, ao
nossover, uma das direçõesrevolucionáriasde nossasprát
atendimentoem massade nossaspopulaçõesE. um trabalhoque
diante de enormespossibilidadesque se abrem ao seu futuro. O
teremos mesmostipos de patologias,sofrerempor problemassem
rem as mesmasvicissirudese necessidades,contribui para criar
coesãoe mútua solidariedadeentreos mesmos.Algo semelhante ma
de "universalidadede conflitos" faz com que os pacientes,lo no
grupo, sintam um enormealívio aoperceberque os outrostam tipo de
fantasias,passampelos mesmosdesânimos,em suma, tê eles
pensavamque só ocorriam com eles.Doentescom os sefs co em sua
auto-estima,têm oportunidadede se sentirem valorizad
sugestõesúteis aosseusparesde grupo.Ao mesmotempo,sentem
gidos, quando o grupo os amparae aconselhanos momentos de
desesperança.
experiênciade lidar com a doençae com o sofrimento f
detalhesadquiramuma importânciamáxima. Assim, o modo com
bolsa de colostomia,os aspectosdo funcionamentode uma máqui
ou as técnicasutilizadas para aliviar um tipo de dor crônica são c
os pacientesde grupo partilham entre si, numa experiênciade m
aproxima cada vez mais. Também a discussãode detalhessobre
em gestantesnormais ou a possibilidadede complicaçõesem ges
exemplosde como o agrupamentode pessoasconforme suascara
(homogeneidade)útil, sem provocar ameaçasou temoresdesne
estressesa sereminevitavelmenteenfrentados.
COMO TRABALHAMOS COM GRUPOS
199
Tais grupossão tambémchamadosde adaptativos(Demockere Zimpfe]. É
importantesalientar,entretanto,que,emborana maioriadasenfermidadesde curso
crônicoe com lesõesdefinitivasfuncionemcomotal, podem,em outrasopomrnida-
des,sercurativos,comono casode asmade fundopsicogênico,na fasede doença
aindafuncionale reversívelE,. no casodeumadoençacrônicajáestabelecida,como
uma coronariopatia,podemcontribuirparadar um novo rumo à suaevoluçãoao
ajudaro paciente lidar melhorcomoschamadosfatoresde risco(estresseemocio-
nal,fumo,vidasedentária,obesidade).
As funçõesdo coordenadorsãomúltiplas:favorecer comunicação,esclarecer
problemasespecíficosdesaúdeou conflitosem evolução,dar apoioao grupoou a
certosdoentesmaisnecessitados,promovera catarsee a reflexão,entreoutras.E
fundamentalque ele semprepossuaconhecimentosda doençaem questão,semo
queadquiriráumaposturateóricae perderáa credibilidadedo grupo.O trabalhoem
co-terapiaé de muita utilidade,permitindoaosterapeutasunir forçase enfrentaÍ
momentosdifíceisdaevoluçãogrupal.RecomenCa-queseum dosparticipantesseja
especialistanaenfermidadedosparticipantesdo grupo.Umapráticamuitoimportante
degrandealcancenaeconomiado tempodeatendimentoéa realizaçãodaconsulta
clínicadentrodo settinggrupal.Tal procedimentovsm sendofeito de rotina nos
gruposde hipertensos,em quea consultaclínica(comtomadadaPA) é realizadana
parteinicial do encontroe, depois,é realizada dinâmicagrupalpropriamentedita. A
comparaçãoentrea cifra tensionalde antese depoisda consultapodeinformar
sobreo estadoemocionaldo pacienteantesdo grupoe depoisdeste,paraavaliaro
efeitoda psicoterapiagrupalnaPA do paciente.

GRUPOSCOM PACIENTESDE DOENÇAPULMONAR


CRONICA OBSTRUTIVA
QuandoGersonPomp,pneumologistado HospitalPedroEmesto,procurou-nosparâ
discutirsobrea evoluçãodeum grupocompacientesportadoresdedoençapulmonar
crônicaobstrutiva,elecoordenando,relutei,deinício,emnosintegrârmosnestaexpe-
riênciaTemíamos.quepacientescominsuficiênciarespiratóriacrônica(enfisematosos,
bronquíticoscrônicos,asmáticoscom complicações)formassemum grupomuito
deprimido,apático,com pequenaspossibilidadesde evoluirterapeuticamenteFo. -
mos,todavia,contagiadospelaexperiênciaclínicae grandevitalidadede Pompe
concordamosemcontribuirnestatarefaA. equipeseuniuapsicólogaSimoneAntirnes.
Eraumgrupomisto,abeÍo,quefuncionavahá2 anos,comreuniõesmensaisdehora e
meiade duração,freqüentadopor 8 a l2 pacientesO. custooperacional físicodos
doentesimpediareuniõesmaisfreqüentesNossa.participaçãotem sidodiscutircom
colegaa experiênciaqueelevemconduzindobasicamentecom
seusrecursospes-soaise criatividade.
Gersondenominouessegrupode "Intertratamento"baseadono fato de queali
todossetratamunscomosoutros- pacientes,familiareseventualmentepresentes,o
terapeuta outrosprofissionaisde saúdequeparticipamdasreuniõesEle. partedo
princípiodequecadaexperiênciaali relatadaéimportante,pois,nestaespecialcondi-

ção de vidaem queatéandarconstituiumasobrecarga,cadaum dospacientesé um


sobreviventeEles.pagamum altopreçoporsuasvidas,quenãopodeserdesperdiçada.
PorissosuasexperiênciassãoricasparacadaumdosparticipantesO. papeldo coorde-
nadoré organizarasvivênciasapresentadas,representando-comse tudode útil que
sepossaaprender partirdaí.Umpacientediz que tem melhoradocom xaropede
200
mel e agrião.Pomp diz que,como médico,sabeque issodá certo,é
Pedeque ele ensineaosoutrosa preparareme discutea diferençae
ção domésticaeficientee produtosque agematravésda sugestãoe
lar. Alguém aprendea tornar aminofilina antesde comer; assimé
náuseas.
Os pacientessão orientadosa procurar os recursosassistenc
des em que vivem, em casosde emergência.Discute-sesobreas in
de, criticam-seseusaspectosnegativos,e o coordenadormostrao l
pessoasficam satisfeitasquandovocêsmelhoram.E todos contrib os
serventesde um Hospitaì".
Certostemascostumamestarsemprepresentes:a dispnéiae a
ao trabalhoe à vida sexual;a doençacrônicae o problemada depe
dios para o resto da vida, a questãoda tosse,a dependênciado
sessões,são ensinadosexercíciosrespìratórios como tirar prov
pacientesaprendema administrarsuadispnéiae a ansiedadeligad
programâr uma caminhada,com pontos de paradaque eles mes
quejá aprenderamensinamaosoutros.
Foi comovente,nas reuniõesem que tive ocasiãode assisti
falar de suasrelações sexuaiscom a esposa,de como conseguiu
melhor aprendendoa mudarde posiçãocom o grupo,de como foi i
poder experimentar,ele que quaseestava sem vida sexual, acu
tossee outraslimìtaçõesadvindasda doença.Ou a experiênciade o
ensinouum colegade grupo a poder tomar banhocom menosdisp
mento,
Discute-sea respeitoda doençae do medo da morte, porém
vidâ e a importânciada adaptação- daspossibilidadesinfindas
adaptaçãohumana. Ao cabo de cada reunião, os pacientes est
depressivosAo. fim de 2 anosnão há praticamentecasode abando
cia. Pacientesfrustradoscom tratamentosmédicosanterioresrga
vência de vida, de amor e de solidariedadecom todas as suasforç
N. é um pacienteenfisematosograveque chegouao grupo "u
"para morrer". A voz eratão fraca que o grupo mal o ouvia. Suaes de
falecer, e ele estavaprofundamentedeprimido. Pôde, então, viuvez
recentee foi aospoucosse apegandode novo à vida. Come
plantasque a mulher havia deixado e que a representavamsimbo faz
trabalhosde pedreiro,consertoutoda a calçadaem frente à su modo
que reconstruiuínternamenteaspartesque faltavam em sua

GRUPOSIIETBROGÊNEOS
Em 1995,coordenamosum trabalhode pesquisano HospitalU
Erneto, o qual foi financiado com verbasdo CNPQ e realizado
JaneNougueirae Deize Souza,com a colaboraçãode Luiz Feman va-
sede estudaro problema dos grupos somáticosheterogêneos( sobreuma
perspectivagrupanalíticafocal e breve.
Em trabalhoconcluídorecentemente,os autoresescreveram,
cia, as seguintesconsiderações:

BIBLIOTECA
UNIMEP
COMO TRABALHAÌíOSCOM CRUPOS
201
... Observamosum contingentecadavez maior (são flagelados,são pingentes,bal-
conistas)de pessoasque lotâm os ambulatórios públicos em buscade um remédio
para sua dor. Dor difusa que percorretodo o seucorpo, escolhendoum lugar para se
instalar,abrindo assimcaminho parasuapermanênciae cronificação nas instituições
de "previdência"...Tomamoso modelode grupo, porqueentendemosseressaprática a
que melhor favoreceriair na mão opostaa essecenário institucional,a que melhor
favorece a livre comunicaçãoentre as pessoase, em termos técnicos, a que mais
proporcionao aparecimentode uma multiplicidade de relaçõestransferenciais,visto
ser esseum espaçode atualizaçãode sentimentosligados à rede de relações
interpessoais...A gÍupoterapiaé na suaessênciaum trabalho solidário, um continen-
te seguropara os momentosde crise, espaçode trocas,de novas vivências e suporte
parareorganizaçãode novosconhecimentose da própria vida. Acreditamosque,sen-
do heterogêneo,a própria variação de patologiasfavorecea trocâ de experiênciase
maior aberturâa novos aspectosda vida. A heterogeneidadedas patologiasselou a
singularidadedo nosso trabalho...Formamos então um primeiro grupo de caráter
terapêutico.Depois de realizadasas entrevistas,iniciamos as sessões,com o número
de componentesincompleto.No contrato,foi abordadodentreoutrascoisas,o núme-ro
de integrantesdo trabalho,e a cadanovo membroera reafirmadoo contrato,exceto
em um segundogrupo, cuja falha técnicaveio a precipitarposteriormenteo esvazia-
mentodo mesmo,relato quefarèmosmais adiante.Constituímosum terceirogrupo...
Tomamoso referencialpsicanalíticocomo básico,e todos os conceitosdessateoria foram
consideradoscomo fronteiras entre o conhecimentoe a prática. O apoio na forma
conceitualfica paranós como registro,enquantoa experiênciatestemunhasua
legitimidade.Atransferência,aresistência,acontratransferênciaeaidentificação são
questõesque poderiam ser discutidascom inúmeros exemplos nas sessõesde grupo,

mas foram exaustivamenteapresentadasna literatura.Não trilharemosesse caminho
paranão sermosrepetitivos.As interpretações,como asconhecemosclassi-camente,não
fazem parte também do nossoprocedimentohabitual.Os conflitos são consideradose
enfrentadosno próprio grupo à medida que vão aparecendo,então vão sendo
examinadose possibilitam uma maior integraçãoe aperfeiçoamentoda relação grupal,
exigindo que se desarmee rompa uma sériede estereótipos,que em
algunscasosservemcomo defesasfrentea outrossereshumanose frente à coisastais
como elas são".

O GRUPO E OS DILEMAS DO LÚPUS E DÀ SEXUALIDADE


Trabalhavaaindacom clínica médicaquandotomei contactocom o lúpus eritematoso
sistêmico,uma espéciede câncerdo sistemaimune, naquela época,idos de 60. Hoje
lúpus ainda é um desafioclínico e terapêutico,apesarde se sabermaisda doençae
de como tratála. Doençacrônica,estigmatizante,ameaçadora,ideal para uma abor-
junto
dagem grupal, pensavaeu, e só mais recentementepude, com Valéria Nasci-
mento, no HUPE, concretizaressaexperiência.
Já naquela primeira época observavaa tendêncianatural das pacientesde se
ajudaremmutuamenteElas. freqüentavamum mesmoambulatório-eu tive oportuni-dade
de homogeneizar- e faziam visitas quandouma se intemava. Chegavamcedo ao
ambulatórioparaconversar,trocarexperiênciase seajudarmutuamente.Os médi-cosdo
ambulatórionãodavamatençãoa essesaspectosdo comportamentodaspacien-tes:só
interessavamos aspectosclínicos(riquíssimos)e a respostaaoscorticosteróides.
202 ZIMERMAN & OSORIO

Hoje, com a dedicaçãomuito grande de Valéria ao gÍlpo e


uma colaboraçãototal do Serviço de Reumatologiada UERJ, já c
nharo quesepodechamardeperfil psicossomáticoda pacientecom
L (957o)geralmentejovensquequasesempreiniciama doençacom
da, conflitos familiares),com agravamentopor exposiçãosoÌarou

ça inclui geralmentelesõescutâneas,quedeixammanchasescuras
de cabelo.Febre,perdade pesoe sintomasde acometimentogeral t
por vezeshá ainda reumatismo,o que dificulta andare realizar as
Em função disso, as pacìentes,prâticamenteem sua totalidade,pa
um quadrodepressivo,com intensocomprometimentoda auto-est
quedade cabelos)e da feminilidade,desleixando-senos cuidad na
exibiçãonatural.Em decorrência,há diminuiçãoda libido e da cap
comprometendoa vida sexualpor um períodode vários mesesger A
respostapositiva está na decorrênciado uso adequadode com
reversãodos sintomas.Muito importante,também,é a atitud
famflia, não rejeitandoa paciente.
Este quadro pode recidivar nas crises posteriores,podendoin
pulmonar ou cardíacae até mesmoacometimentocerebral.O qu
seusaspectospsicológicos,psicossomáticose somatopsíquico
estádescritona literaturamédica sobrea doença,apesarde suaqua
em nossospacientese em outrosciìsosde lúpusque vimos nesses3
ência.Parecequesóos aspectoslesonais,orgânicos,da doençasãol
deixando-sede lado o psíquico,o reacional,o subjetivo- apesard
passara partir de alteraçõesfísicas,bioquímicasou teciduais.No e
os resultadosdas reuniõescom pacientesde lúpus, que agoranáo
tratamentodessadoençasemum enfoquegrupalparalelamenteàs c
Assim, os pacientessabemdo grupo no ambulatório e vêm ao gru
neamente,só algunsnecessitandode um trabalhodo reumatologist
a nossasreuniões.
Se, por um lado, o LES é uma doençahomogênea(febre, artri
geral,lesãocutânea,quedade cabelos,tudoissoem mulherjovem
rogênea, pois uma pacientetem lesão renal, e outra pleuro-sica
neuroseassépticada cabeçade femuro e outra apresenta-sedepr
psicótica.Apesardessasmultiplicidadesde lesõesclínicas,a hom grupo
é impressionanteSão. mulherescom idadesaproximadasco ral,
articular e cutâneosemelhante,tratam-seno mesmo ambulató
regra,os mesmosexamese, principalmente,tomam cortisona,que l
raçõessemelhantes:acúmulode gordura,obesidade,irritação gástr
edade,agitação,aumentode apetite.O hábito de virem ao grupo, a a
confiançapossibilitamque essaspacientes,com suashistória
condiçõesde pobreza (por vezes),suas condições de crônicas, a
relatosaltamentecatárticos,dolorosos,ouvidos com atençãopelas de
sofrimento.Mas a disposiçãode setratar,muito grande,aumen os
testemunhosdas colegasque já passarampelo pior. "E preciso de
corticóides porque 'tá'com um problema dè lúpus no rim, en
(pulsoterapia).""A gentenão pode pegarsol por causado lúpus, a
A grandecoesãoalcançadapermitiu que sepudessediscutir pr
intimidade, como a vida sexual,a possibilidadede ter mais filhos
maridos.Acredito que as muÌherescomproblemassexuais,saindod
com um enfrentamentomais direto dos problemas,puderamsupera
Paraterminar,algunsdepoimentosde pacientesdo grupo que falam por si mes-
mos:

...Antesdo lúpus,eu eramagrinhatinhapaixãopor mìm mesmaHoje. tenhopavor de


me olhar no espelho,fujo dele até na rua. Me sinto uma baleia, cheia de estriâs.
EstoutodacomplexadaTenho.pavorde mim. Me achofeia,ridícuIa...".
"Adoro sol, praia, botar as pemasde fora. Já pensounão poder ir à praia, ficar com
carade lua cheiae ter que usarfiltro solaraté dentro de casa?E as estriasque
ficaram depois que emagreci.Hoje só coloco short com duas meias finas pra
disfarçar.Na hora de transar,peço a meu marido para apagara lluz..."
"Depois que fiquei doente,nuncamais me senti a mesmamulher.Fiquei fria, não ligo
maispra sexo..."
"Aprendi muito com o grupo. Lembra do dia que o senhor falou que meu marido
pareciameu filho? Pois é, chegueiem casae na primeira chancefalei para ele: 'Tá
pensandoo que, sou sua mulher, mãe dos seusfilhos, não sou sua mãe não'."
"Depois que eu vim ao grupo, minha cabeçaficou outra.Aqui eu falo de mim, escuto
que as outrastêm a dizer. Tambémme faz bem quandopossoajudaralguém.Acho
que muitas daquelasdoresque eu sentiao tempo todo era cuca."

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T9
Grupos com Portadoresde
TranstornosAlimentares
RUBÉNZUKERFELD

rNrnoruçÃoEBAsErnóruca.
Transtornos da alimentação e grupos

Os transtomosda alimentação(TDA) constituemum conjuntode patologiasnotavel-


mente desenvolvidase diagnosticadasna última década.A psiquiatria intemacional
(DSM-lyJ situa em um capítulo somentea anorexia nervosa (variante restritiva e
bulímica) e a bulimianervosa(variantecom purgase sempurgas),mas clinicamente
se incluem também aqui certas formas de obesidade,como o BED (Binge Eating
Disorder).
abordagemdestespacientesé interdisciplinar,e, dentro desteenfoque,foram
desenvolvidosdiferentestipos de sisÍemasgrupais,que possuempontos em comum
com os existenÍesparatoxicômanos,alcoolistase psicossomáticos.
Em Buenos Aires, iniciamos estessistemasna décadade 70, com pacientes
obesos,e posteriormenteforam desenvolvidasnovas modalidadespara bulímicose
anoréxicos.
Neste ponto, convém esclarecero que é minha idéia atual sobreessesgrupos:

Sãoterapêutìcos:desdeo momentoemqueexisteum objetivodemudançapsíqui-cd e


compoíâmental, estesgrupos,que costumamsercoordenadospor profissio-
naisde distintasorientações,têm uma finalidade terapêuticaque vai desdemodifi-
caçõessintomáticasaté mudançaspessoaissignificativas.
Incluem procedimentosdear.úo-ajudae educacionais.Os gruposde auto-ajudae os
que incluem rácnicasde auto-ajudasãomuito popularesem obesidadee TDA. E
importante não tomar como sinônimoshomogeneidadee auto-ajuda,porque,
emboratodo grupo de auto-ajudasejahomogêneo,nem todo grupo homogêneoé
de auto-ajuda.Muitos sistemasgrupais em TDA adquirem o estilo de grupo
operativo,de reflexão,de aprendizagemou psicoeducacional,à medida que exis-
ta uma baseinformativa a partir da qual se desenvolveo processogrupal.
Sáo homogêneos:estaé a característicaque lhes dá suapeculiaridadedefinitória.
Pode haverbulímicas,anoréxicase obesosem gruposheterogêneos,mas o habi-
tual é a homogeneidade, isso requerconhecerseusprincípiosgerais,no campo
da psicossomáticae toxicomanias(ver mais adiante).
206 ZÌMERMAN & OSORIO

Atualmente(ver figura 1), prefiro pensaressesgruposcomo estruturasque pos-


suemuma dinâmica que implica circular por quatro posições(4, 5, 6 e 7), a partir de três
pontosiniciais (1, 2 e 3), que sãodadospela ideologiados líderes,a estratégiade
tratamento,ascaracterísticasinstitucionaisou uma combinaçãode todosessesaspec-
tos.Essasposições,ou zonasde trabalho,sãoo resultadodasnecessidadesdos integran-tes
do grupo, em interaçãocom a intençãodos líderesHabitualmente,.os grupos são
propostosnas zonas 1, 2 ol 3, o que significa um predomínioda identificação,da

informaçãoou das intervençõesterapêuticasA. zona 1 , ou de auto-ajudapura, hierar-


quízao testemunhoe costumater modelos(ver mais adiânte)mais rígidos.A zona2, ou
educacional,é a de diversastécnicasde aprendizagem,q\e costumamorganizar-se como
programaspautadosde duraçãolimitada. A zona 3, ou psicoterapêutica, implica uma
tendênciaa produzir efeitosemocionaisno grupo, com uma liderança profissional.O
promotor de mudança,em l, é um "irmão", em 2, é um "docente" e, em 3, é um
"terapeuta",e o habitualé que secombinemessespapéisnas zonas4, 5 e
Estaszonasde trabalhosãoas mais comunse as mais produtivas,pois a abordagem ali é
múltipla, assimcomo múltiplos sãoos fatores que influenciamessaspatologias.

FIGURA 1. Homogeneidâdee zonas de lrabalho.

Princípiosteóricosgeraise fatorescurativos
No final da décadade 70, propusemosalgumashipótesesteóricas sobre a utilidade
clínica dos grupos homogêneos,e que logo sustentamoscomo princípios gerais
(Zukerfeld, 1979).Por outro lado, pensoque os chamados/ntorescurativos gn)pais
(Yalom, 1985)estãovinculadoscom aquelesprìncípios,e que isso possuiimpoÍân-cia
paraa abordagemdos pacientescom transtomosalimentares.Destemodo, defini-
remos três princípios,entre os quais se distribuem os fatores curativos, os quais,
como destacouYalom, sãoaquelesque,por consensode coordenadores participan-
tes de grupos,demonstraramter eficácia terapêutica.
COMO TRABALHAMOS COM CRUPOS
207

Princípio de semelhança

Estabelecea relaçãodiretamenteproporcionalentreo que é semelhantena problemá-


tica e a possjbilidadede mudança,e baseia-seno desenvolvimentode ide irtcações
primárias. E cumprido à medida que ali se desenvolvemos seguintescinco fatores:

Coesão: definida em um grupo como o equivalenteao vínculo na relação


individual, é algo assim como a atração que mantémos integrantesdo grupo como
pertencentesao mesmo. E uma pré-condição necessiíria,que implica interesseem
mostrar-sefrente ao outro, e que o outro igualmente se mostre, em um ambiente
protegido. Isso se obtém com mais facilidade em grupos de obesose bulímicos do
que com anoréxicas,que costumammanter-seem encerramentosnarcisistas.
Universalidade: é um padrãoque se define como a sensaçãode compartilhar
padecimentose/ou característicascom outrosintegrantesde um grupo, em oposição
ao sentimentode "particular", "especial" ou "secreto". Em pacientesbulímicas, a
possibilidadede compaíilhar condutasenvergonhantes ocultas tem importância
terapêutica,pois servepara aliviar as sobrecargasdo ocultamento.
Esperança: mencionamos,algures (Zukerfeld, 1992), que as três "anças":
semelhança,confiança e esperança,são a basedos procedimentosde auto-ajuda.O
problema que se coloca,paraestespacientes,é que todos compartilhama esperança
de controle do impulso e de mudançacorporal, mas com diferentescontatoscom a
realidade.Obesos,bulímicase anoréxicasdesejamemagrecer,mas só os primeiros o
necessitam,e mesmoassimdeve-seconhecerem que medida.Por isso,é importante
observar,na tarefa gmpal, o que se esperado grupo.
Altruísmo: apossibilidadede ajudaro outro, fomecida por um grupo, possui
grandevalor para a auto-estimadaqueleque buscaa ajuda,e para a de quem a ofere-
ce. Por isso, quando um pacienteconseguecolaborar para que outro melhore, por
exemplo, suarelação com a alimentação,sente-seem melhorescondições parafazê-
lo também.Essanoçãoé muito característicada fratemidadeprópria aos sistemasde
autogestãoe implica uma superaçãoda ambivalênciae da rivalidade de pares.
Imitação: é um fator que gera controvérsias,à medida que seu sinal varia.
Podem-seimitar condutassaudáveisou patológicas,mas não há dúvida de que o
primeiro casoé um ensaiono desenvolvimentodos processosde mudança.Isso
aconte-ce quando,em um grupo de obesos,um integranterelâtacomo pôde
começara cami-nhar, ou como pôde resolver uma situaçãoemocional que o impelia
a comer. Um exemplo opostoé o da anoréxicaque "aprende" a vomitar em um grupo
de "vomita-doras". Neste último caso, convém revisar se está sendo cumprido o
princípio de semelhança.

Princ ípio de modelizaç ão

Estabelecea relaçãodiretamenteproporcionalentrecLareza,explicitaçõoe consenso


em relação à propostaterapêutica- o modelo- e suaeficácia.Baseia-sena possibili-
dade de construir ideais desencarnados,com posterioridadeao encontrocom o se-
melhante,os quais,na prática, apresentam-secomo "programas"de cura ou de recu-
peração.Destemodo, o modelo possuiconteúdosde nível distinto(por exemplo,em
208 ZIMERMÀN & OSORIO

um grupo homogêneode hipertensos,"diminuir o sal" e descarregar agressividade";


em um de obesos,"caminhar três vezespor semana","diferenciar fome de outras
emoções",etc.). Estes programastêm objetivos e métodos que são periodicamente
revisadose incluem sempretrês fatores:

Informação: é impÕrtante compartilharnoçõesbásicassobre a doença,seu


processoterapêuticoe o próprio funcionamentodo grupo. Muitas vezes,esta infor-
maçãose dá por tradição oral, em outras,é formal e escrita,sendoàs vezes ad hoc,
mas deve ser sempre clara e compartilfuula: a tncerteza sustentadaé um fator
ansiogênicoque pode ser perturbador.Em todos os sistemasgrupais com TDA, de
qualquerorientação,existeaÌgumnível informativosobrea doença,temaspsicológi-cos
(auto-estima,manejoda agressividade,crençaserrôneas,etc.) e próprios do tra-
tamento(condutaalimentar,imagem corporal,etc.).
Ressocialização:todo modelo inclui a possibilidadede que os integrantesde
um grupo desenvolvamcapacidadesinibidase/ou registremasconseqüênciasde con-
dutas inapropriadasou estereotipadas,e realizemaprendizagemsocial. E muito ha-
bitual, nos gruposcom anoréxicas,a necessidadede trabalharsobreos modelos soci-
ais da esbelteza, desenvolveruma atitudecríticaem relaçãoaosmesmos.
Fator existencial: quasetodos os modelos que derivam do princípio geral
procuramestabelecer,nos integrantesdo grupo,uma visão global da vida e da morte,
e em especìala noção de responsabilidadeEste. é um conceito-chave,em especial
para aspatologiasque seautoperpetuam,por meio de comportamentosque implicam
níveis de decisão.Isso significa que se pode trabalhar muito tempo em um grupo
sobrecausas,conseqüências benefíciossecundáriosde estar gordo ou desnutrido,
yital
mas em última análisese trabalhasobre o conceitode escolha namanutençãode
um comportamento.

Princípio de confro ntação


Define-secomo a relaçãodireta entre ascondiçõesque um grupo fomece para poder
enfrentarrealidadesnegadase sua eficácia terapêutica.E importanteaqui ressaltar
que um grupo homogêneopode operarmuito bem contrao desmentidoe gerar mobi-
lizaçõesemocionaisqueimpÌicam:

Catarse: estefator deveser compreendidocomo a possibilidadeque o grupo


oferecede exprimir emoçõesfortes, mantendo-sea coesão.Não implica a descarga
por si só, e habitualmenteé um fator valorizado pelos integrantesdo grupo, embora
não esteja necessariamenteassociadoa mudançascomportamentais.O grupo atua
como suportee como um campo onde se realizauma verdadeiraexperiêncíaemoci-
onal corretiva, que implica um testar da,.realidadeatual, para percebera diferença
entre o presentetemido, o passadotraumáticoe o futuro desejado.
Aprendizagem interpessoal:esteé um conceito-chave costumaser a
culminaçãodo trabalho grupal. Consisteem poderaprendercom a experiênciareal o
que o intercâmbio com as pessoassignifica. Observe-seque há também aprendiza-
gem na imitação (princípio de semelhança)e na informação (princípio de
modelização),masneleshá maisrisco- em pacientescom TDA-de intelectualizações e
slogansou estereótiposno comportamento.Em troca, o componentede confronta-
COMO TRABALHAMOS COM GRUPOS
209
ção da aprendizageminterpessoalfavorecea luta contra pseudo-
aprendizagenscris-talizadas,e a possibilidadede verdadeirascompreensões.

CLÍNICA E TÉcNIcA

EÍicáciaterapêutica(ET)
Ter-se-áobservadoque os três princípìosdescritosse definem em função de uma
variável que é a eficácia teriìpôuticado grupo. A experiência clínica mostra que,
quantomaiorpresençadosfatorescorrespondentesaostrêsprincípios,maioresserão
asconquistasde seusintegrantes.
Em geral,e entendendotal eficáciaem relaçãoà patologiaem questão,existem
relaçõesdiretamenteproporcioneisentreo cumprimentodos três princípiose o su-
cessoterapêutico(ver figura2). Se semedisseteoricamente,por exemplo,o graude
coesão(princípiode semelhança),o de ressocialização(princípiode modelização)
de aprendizageminterpessoal(princípiode confrontação),seguir-se-iauma curva
I
evolutivaaté um ponto crítico(meseta),ondeé necessáriovariar recursos(x, x'),
dentrodo princípiogeralpararestabelecerum novocicloe detera decadêncianatural do
I grupo. Estas intenenções ntodificudoras são, por exemplo, a incorporação de

ri
210 ZIMERMAN & OSORIO

,,/
novos integrantese/ou rotação de coordenadoresem certos sistemas(variação do
princípiode semelhança),mudançasna âpresentaçãoe/ou conteúdoda proposta(va-
riação do princípiode modelização)e distintastécnicasde mobilização (variação do
princípiode confrontação).
Dessemodo, pode serdesenvolvidauma nova etapa,na qual, em um ponto (x'),
voltará a ser colocadoo mesmoproblematípicodos gruposde tempo limitado.
Na realidade- segundopenso- ,estaé a evolução geral dos gruposhomogêneos
(psicossomáticos,toxicômanos,etc.), que em muitos casospode passardespercebi-da, se
foi estabelecido um limite temporal. Nos pacientes obesos, bulímicos e
anoréxicos,convém primeiro definir o que seentendecomo eficáciaterapêutica(ET), para
depois ajustaro enquadramento o setting grupala esseobjetivo.
Em todos eles, a ET significa: a) diminuição de peso,ou aumentoaté um peso
razoável ou possível(Cormillot, 1984),b) mudançana relaçãocom o alimento e o
próprio corpo, c) mudançano modo de vida e valores pessoaise d) melhora nos
parâmetrosmédico-nutricionais.
Especificamentenos obesos,os programasgrupaisatuaisvão desdea auto-aju-da
pura, com modelosque se assemelhamaosdos Alcoólicos Anônimos, até os gru-pos
operativose educacionaiscom e sem tócnicasde auto-ajuda.Em todos eles, o modelo
inclui algum tipo de atividadefísica, além dosplanosalimentares,e estessão os
parâmetrosmais objetivos para definir sua eficácia. Quanto mais profissional se toma a
modalidadegrupal, mais se produz um ganhoe uma perda:aumentaa possi bilidade de
aprendizageme de um ceÍioinsight e diminui a importânciada mística e dos
testemunhospessoaisEm. minha experiênciapessoal,é difícil determinarcienti-
ficamente qual modalidadeé mais eficaz, mas diferentesinvestigadorestratam de
fazêlo, utilizando, sobretudo,procedimentosdefollow-up a médio prazo.

Habitualmente,os gruposde bulímicos e anoréxicoscostumamteruma orienta- ção


mais psicoterapêuticae é mais estimuladoo trabalhocom conflitos interpessoais, de tal
modo que sua eficácia é avaliada mais subjetivamente.Entretanto, existem
aspectosbastanteobjetivos de evolução posi6va, que se aproximam da seguinteor-dem:
diminuição daspurgas(vômitos),diminuiçãoem freqüência,quantidadee quali-dadedo
empanzinamento,modificaçãoda imagem corporal,aceitaçãoda necessida-de de
normalizar o peso.Esteé um antigo ponto de controvérsia,pois muitas vezes-como
condição de continuidadeem um gmpo - se estabeleceeste último aspecto, que passade
ser um objetivo para transformar-seem uma condição, nas situações
graves(desnutrição,hiperobesidade).

Técnicas gerais
Como assinalamosno princípio,há diferentestipos de gruposde pacientescom obe-
sidade e transtomos da alimentação.Suas variantes "puras" são em geral de três
tipos: auto-ajuda,programaspsicoeducacionais grupospsicoterapêuticosde distin-
tas orientaçõesNa. prática, isso significa que predominam,em maior ou menor
grau. um destestrês "i": identificação,informaçãoe intervenção.
Os grupos podem ser de duraçãoilimitada (como na auto-ajudapura e em al-
guns grupos psicoterapêuticos),ou, o que é mais habitual, podem ter prazose serem
estruturadosemprogramas interdísciplinares.Estesúltimos, com duraçõesem geral
de 3 mesesa um ano,permitem ser avaliadoscom maior rigor. Destemodo, pode-se
compararse,de acordo com os objetivos estabelecidos,é mais útil trabalhar sobrea
COMO TRABALHAMOS COM GRUPOS 2ll
dinâmicainterpessoaldo que à maneiracognitivo-comportamental,ou, então,seé
convenienteintensificartécnicasdinâmicasou corporaisou enfatizara auto-ajuda
freqüênciatradicionaÌé de uma reuniãosemanalcom uma horae meiade
duração,masmuitasvezesé modificadaparaduasreuniõessemanais,
àsvezess trabalhacom gruposintensivosdiários.Convémaquidiferenciaros
grupo5ambula toriaisdaquelesquesãorealizadosemumainternaçãoem
instituição,quecostuma serdiáriose variados.
Osprogramasinterdisciplinarespossuemumaestruturade reuniõescomcome ço
e finalizaçãopredeterminados,geralmente(figura3) seguemo quechamam de
"estiloem escada"Este.estiloconsisteem construir"escalões",que sãoas ses
sõesgrupaiscomabertura encerramentoprogramados'(Ae C), mascomdinâmic
abertano meiodo processo,queé o lugardasintervenções(B). Além disso,esper
sequecadaencenamentosejaconectadocoma aberturada próximareunião.A eficáci
dessasmodalidadesdependemuito da quantidadede integrantes da clarezado
objetivosPor. outro lado,é importante capacitaçãodoslíderesgrupaisprofissio naise
nãoprofissionais,no queserefereà maneiradedarinformação,aossentime tos
contratransferenciaisàs intervençõesDeste.modo,os gnìposcom pacient
obesos,bulímicosou anoréxicoscaracterizam-porumasenecessidadetécnicaconsta
te de manterum equilíbrioentreo trabalhosobreo alimentoe o corpoe o queest
relacionadocomoutrasáreasA. consignaquejápropúnhamosno final dosanos70 é:
"Sesefala só de comidaou de peso,o grupo vai mal- Senão se fala nuncade comid
ou de peso...tambémvai naf'. Muitossistemastratamde garantiresteequilíbri
utilizandoem(A) um materialescrito,queatuacomoinformativo,mastambémcom
"disparador"de temassobreos quaissão feitasreflexõespessoaisOutras.veze
tomam-seosemergentesindividuais,paraiç emum segundomomento,parao
traba Iho com o materialescrito,o quenãoé utilizado,em outrasmodalidades.
Habitualmente,asintervençõesvariamde acordocomo estiloe a formaçãodos
líderes,o modeloinstitucionalemjogo e o tipo de demanda,quepodeserdiferent em
obesidade,bulimiae anorexianervosaHá. técnicasgeraisde compromissoe de
mobilização,qlu.costumameseraplicadasemgeral,e
técnicasfocalizadasexclusiva menteem determinadaoroblemática.

.,

1
\

t \\
AberturaPautada
A c MeioJogoAbeÍto
EncerramentoPautado
\\

FIGURA3 . Enquadramentoprocessogrupal.

'
Ê semelhanteao modelode paÍtidade xadrez,queFreudutilizouparÂÍeferir-seò técnicapsicoterapêuticaindividuâÌ.
As primeiras incluem diferentesprocedimentos(geralmentecom o formato de
'Jogo" ou "experiência"),cuja ênfaseestáem obter coesãoem gruposdispersos,para
desenvolvimentoda tarefa,e em mobilizar grupos "estancados"em sua dinâmica. Se
se observarbem, ver-se-áque se trata de intervençõesvinculadascom o princípio de
semelhançae o de confrontação.
Isso implica entenderque a dificuldade existenteé independentedo modelo
(princípiode modelização)Ou. seja,a propostaterapêuticamantém-sefixa, e o trabalho é
estritamentesobrea dinâmica grupal. Outrasvezes,ocorreser necessáriomodificar o
próprio modelo; esseprocessoé geralmentemais complexo e prolongado,e nele influi a
evoluçãoda ciência, os costumese os paradigmasvigentes.Mudar o modelo significa
mudançanos objetivos e nas técnicas.Em obesidade,por exemplo, costu-mam
constituir-se"grupos de manutençãoou de recuperados",cujas problemáticae maneirade
trabalharsão muito distintasde quandoo objetivo é o emagrecimento.Há
tambémgruposde hiperobesos,bulímicase anoréxicascom modelosvariados.
As técnicasque chamamosde/ocalizndasconcentram-seem uma problemática
específica,que é consideradasignificativaparaos integrantesde um grupoem particu-
la-r(auto-estima,imagem corporal,descontrole,agressividade raiva, assertividade,
expressãode emoções,vínculosfamiliares,sexualidade,problemaslaborais,desenvol-
vimento de habilidades,etc.). Implementam-seem diferentesformatos, mais didáti-cos
ou mais vivenciais, dentro do programa habitual do grupo, ou como oficinas
especiais.O treinamentoe a criatividadedos líderesgrupaisé importantepÍrÍaperce-ber
asnecessidadesdo grupo, fazendouso de seussentimentoscontratransferenciais, seu
sensocomum e não esquecendo objetivo principal da atividade.
De maneirageral,minha forma atualde pensarsobrea coordenaçãodessesgru-
pos é hierarquizartrêscondições naturaise trêscapacidadesadquiridaspelo estudoe
experiência,acima da origem profissionalou ideológica.Não impoÍa tanto que seja
médico, psiquiatraou nutricionista,mas o que se esperadele:cordialidade, lideran-

ça e capacidadede sugestão,denrrode sua maneirade ser,e que estejacapacitadoa


dar apoio e informação, e realizar ceÍtasconfrontaçõescom a realidade.E
fundamental o conhecimentodaspatologias,o autoconhecimento a posiçãoética
frente ao tema, além do treinamentoem grupos.
muito útil, em minha experiência,o trabalhoem co-terapia,com papéisdiferen-
ciados,em que pcdem ser combinados,por exemplo, o psicanalistae o médico ou
nutricionista,ou (s* é o c^aso)com "o recuperado"da patologiaem questão,ou qual-
quer outra combinação;rofissional.

Vinheta clínica'
Trata-sede um grupo de 9 pacientesbulímicasmulheres,de 22 a28 anos,coordena-do
por uma psicóloga.

Integrântes
possuisobrepeso,antecedentesde ingestade álcool e comprimidos.Pouco comu-
nicativa, muito queridae cuidadapelo grupo.

'Agmdeço à Licenciada Gabíela Cassoli o material oferecido pela sup€Ívisão,do quâl foi extraídâeslâ vinheta clínica.
COMO TRABÂLHAÀÍOSCOI{ GRUPOS 213

baixo peso e purgas . Antecedentesde internação,está em tratamento


psicoterapêuticoindividual. Muito integradae comunicativa.
baixo pesoe purgas.Está casadae é psicóloga.Muito racional.
sobrepeso purgasÉ. professora realizapsicoterapiaindividual.
M, A.: muito curiosa,pesonormal,com purgasRecebe.medicaçãopsiquiátrica.
C: tímida,pesonormal, é a mais antiga.
estudantede psicologiacom dificuldadesde integraçãoBaixo. pesoe empanzina
mentos.
com dependênciade laxantes,falta freqüentemente.
sobrepesoe empanzinamentosBoa. integração.

Observe-se,nestabrevíssimaapresentação, grau de cumprimento do princí-pio


de semelhançr.Isto se avaliaria da seguinteforma: semelhançatotal em sexo e
idade, quase total em conduta alimentar (quatro integrantestêm purgas), 507o em
peso (aproximadamentea metadepode baixar de peso) e total também na condição
sócio-cultural.No modelo destegrupo,seusintegrantessãopesadospelanutricionista
essainformaçãodepoisé dada pela psicóloga,em termosde "subida", "descida" ou
"manutenção";é colocadaaênfasena expressãode
emoçõesvinculadasàproblemática alimentarou qualqueroutrotipo de conflitos.

:
Sessãoabreviada
I

A. perguntaa B. como está,e B, lhe diz que, no momento, não quer falar; propõe
I
falar depois.A coordenadoradá uma informação geral sobrea evoluçãodo peso,e L.
ü
diz que deve confessaralgo: pesou-sesozinha,antesque a nutricionista a pesass
Reconheceque não fez o qge devia e não sabese isto vai repercutirde forma
impor-tante no grupo. Os demais integrantesfazem alguns comentários,e a
coordenador toma o tema dasquestõesperigosas(balança'),durantea primeira parte
do tratamen to, e sobrea necessidade cumprirasregras.
A. contaque suamãea perseguiacom a balança,e relatauma brigamuito forte
com ela, na qual sua mãe lhe diz que pareceque, para que M. A. fique bem, é
necessárioque ela morra. A partir destasituação,M, A. decideficar fora de casanas
horasde comida. Faz suasrefeiçõesna casade seu namoradoou amigos.Conta que
suamáeestevedoente"com depressão",por 3 anos,diantedo queelatomoucontada
casaNesse.momento,querconsultarumapsicóloga,e seuspaisa levamao pediatra O
grupo assinalaa incoerênciade ser a "Senhorada casa" e ir ver um pediatra. A
coordenadoraobserva M. chorando,e M. diz que está muito mal, porque voltou a
comer compulsivamenteestasemanae isso a preocupaConta.que está prestesa
completar o primeiro aniversárioda morte de sua mãe. Diz que estátudo bem com
ela,menosos vômitose ascompulsõesA. coordenadoraperguntao quea deixamais
triste, M, começaa chorar e diz que se sentemuito só. O grupo lhe perguntasobrea
relação que tinha com sua mãe e como foi sua morte. M' fala de uma relação de

'i
\ r A FLr\É balanzâ", em castclhâno,târnbérnpodc ser entendidacom o scntido Íìgurado de forca.
2t4 ZIMERMAN & OSORIO

"cupinchas".Nos últimos tempos,viveu só com suamãe,compârtilhandoinclusive a


cama. Ali começa seu tratamentopsicológico e fica noiva. Começamas críticas de
sua mãe, acusando-ade abandono.Em seismeses,a mãe rnorre de câncer.Até aqui,
grupo escutaatentamente, não faz nenhumaintervenção.A coordenadorapropõe tm
exercício.M, aceita:apagam-seas luzes,pede-sea ela que feche os olhos e ima-gine
que tem a solidão sentadafrente a ela, e que lhe fale. Há um tempo em que M.
lamentaestarsozinha;depoisquer sentir que, emborasua mãe não esteja,pode reti-
rar de si a culpa que tem por dentro,por não ter podido despedir-sedela, por não ter
feito tudo o que teria que fazer para ajudá-la,por ter sido egoísta.
O clima do grupo é muito emotivo, vários integranteschoram.Terminao exercí-
cio, acendem-seas luzes e, durantealguns minutos, ninguém fala. A. oferecea M.
um lenço, senta-sea seu lado e a abraça.C. comentauma situaçãosemelhante,com
respeitoà morte de seupai, e lhe diz que não tem de sentir culpa, que fez tudo o que
pôdee atémais.
diz que não saberiao que fazer em uma situaçãodessas,e pouco pode dizer
M,, ela também sente culpa ao pensar que, fazendo determinadascoisas, possa
prejudicar sua família, dizJheque é importanteque tenhafalado.
J. diz que naquela semanamorreu um dos tios que a criou (sua mãe morreu
quando ela tinha 2 anos), e a única coisa que pôde fazer foi fechar-seem casa e
comer. Não pôde ir ao velório, nem despedir-sedo tio. Fala de sua dificuldade de
sentir e exprimir afetos.Diz â M. que ela teve a oportunidadede fazer algo por sua
mãe,ela (J.) não teve tempo.M. respondeque às vezesos pais não aceitamo cresci-
mento e que sua mãe morreu quandoela estavase desapegandopara fazer sua
vida. L, lhe diz que a única coisa que lhe faltou (a M.) foi morrer,junto com sua
mãe. P., muito angustiada,diz que, escutandoM,, identifica-secom ela, no que se
refere ao que aconteceatualmentecom sua mãe, que estáviva.
A coordenadoraperguntaao grupo pâra que acreditamque serviu o exercício.
A. dá prioridadeao que M. contou sobresuamãe, e o quanto estásó. Frente ao
tema das compulsõese vômitos, diz que é mais importanteque lhe causemais dor o
fato de enfrentaÍ a morte de sua mãe do que estar com compulsões.B. considera
impoÍante que M. pudessedesabafarL. . fala da relaçãoque existe entre a comida e
todasas mães,e diz aM. queela estáseenchendode comida,assimcomo gostariade
estarseenchendode mãe.Faladasdificuldadesque existemcom as mães,os desejos
que rebenteme as culpaspor essessentimentosJ. . diz que todo mundo, em
determi-nado momento,se sentesó. Diz que se leva estasolidão por dentro,e muitas
vezesa preenchemoscom comida. A. diz: "Que pequenapareceuma
compulsão,perto de tudo issoque estamosfalando!"...
M, diz que o exercícioserviu,para ela, para conectar-secom o que estavasen-
tindo e que lhe fez descaÌregartodo o choroque estavaacumulado.
A. relacionaa sensaçãode solidãocom as mãese a comida. A. mostra que
quantomais uma pessoacome,mais escapade situações,e volta a pedir aB. que
fale. Quandodo final do grupo, a coordenadoraassinalaque é necessáriofalar da
finalida-de do exercício, antesde terminaro grupo. Mostra a B. a dificuldade que
teve, ao longo do grupo, para ocuparum lugar e ser escutada.B. reconhecesua
dificuldade para falar no grupo. Pede-sea ela que fale disso no próximo grupo.
Também afirma que a finalidade do exercíciofoi sobreo que fazer com a
sensaçãode solidão, e são propostasas seguintesmetas:

é fixado um horário paraB,,no qual devecomeçara falar no próximo grupo; senão o fizer
nestehorário, uma companheiraescolhidapor ela (4.) a lembrarádisso.
COMOTRABALHAMOSCOMGRUPOS . 2I5

Indicam-seM. e M. A., quedeverãofalar por telefonedurantea semanasobr


aquiloquetiveremvontade, depoistrazerumasínteseparao próximogrupo.

Comentário
No materialclínicoapresentado,podem-seobservardiferentesexemplosda aplica

çãodosprincípiosgeraise dasmodalidadestécnicasantesmencionadasEm. primei ro


lugar,observe-sequeo momentodeiníciodestasessãoestána zona2, masrapida
menteo grupotrabalhana zona3, e depoiscirculaparaazona5.Influi nissoo grau de
coesão(princípiode semelhança),que é alto, e que permitiudesenvolveruma
experiênciaemocionale umaaprendizageminterpessoalem relaçãoà figura mater
na, as perdas,a solidãoe suarelaçãocom a condutaalimentarMuitos. gruposque
começamna zona2 circulamatéa 5, ondetambémconfluemos quecomeçaramna
zonaI (auto-ajuda)Observe.-setambéma estruturaquechamamosde "escada",em
queno princípioa terapeutadáumainformaçãoprópriado modelodetrabalho,omite
intervir sobreo desejode não falar de B. e tomao que propõeL. parafazerum
assinalamentogeralaogrupo,tambémvinculadoaomodelo(balança,etc.).
partirdaí,M.A. conectaaproposiçãogeralcomumasituaçãopessoalvinculad com
suamãe,seupapelem casae a alimentaçãoO. grupointerpretaum aspectode
seurelatoe ali a terapeutaintervém,aoobservar M. paratrazero quevai sero tem
centraldo "meiojogo" do grupo.
A coordenadorapropõeum exercícìo,qual,paraestegrupoe nestemoment
detrabalho,é oportuno,porseuefeitodemobilizaçãosobreosoutrosintegrantesDe.
distintasformas,G.,J.,P.e A. expressamsuaidentificaçãocomaspêctosdoexpressa (e
mostrado)por M. Observe-seque8., queno princípionão queriafalar,consider
importanteque M, possadesabafar, que L., que rompeuno princípiouma regr
básicado grupo,é quemrealizauma"interpretação"intelectualizadaEm. troca, J. ê
especialmenteA. exprimemde formamaisemocional.conexãoaentreosproblema
alimentâres emocionais.
No final,a coordenadoraretomaa finalidadedo exercício,confrontandoBcom.
suarealidade, propõetarefasvinculadascoma importânciadaexpressãoverbaldos
problemasObserve.-sequea intervençãosobreB. é
mais"comportamental",apro veitandoo vínculocomA., e, no casodeM. e M,
4., procura-sefortalecer identifi-caçãoe a auto-ajuda.
Quantoao conteúdoem si destasituaçãogrupal,em
relaçãoaostranstorno alimentares,podem-seapreciaros seguintesaspectos:

QuandoM, diz que"estátudobemcomela,menososvômitose ascompulsões abre-


seum tematípicoqlueé ondecolocara ênfaseno trabalhogrupal.Aqui, a
coordenadora-em outromomentodo grupo,ou em outrotipo de grupo- teria
podidoperguntarsobreos vômitose compulsões,ou participarao gmpo ess
tema,paradepoisfazeralgumassinalamentoEntretanto,.escolheintervirsobreo
estadogeralde M., perguntando-lheoquea deixatriste.Dali surgeo temado
luto não-elaboradoda solidão.Atravésdessecaminho- via exercício- traba
lha-setambémcomo problemadascompulsões.
Observe-secomo,pelabocade 4., de L. e de M. 4., exprimem-sediferente níveisde
conexãoentreo sintomaalimentare o estadoemocional:para 4., é
maisdolorosoenfrentar morteda mãe,e umacompulsãoé um mal-estarmuito
pequenoemrelaçãoa isso.Tal é um temahabitualdegruposemquehá paciente
216 ZIMERMAN & OSORIO

que magnificam o empanzinamentopela sensaçãosubjetivade


J. tomam o aspectosubstitutivodo cheio de comida, mas de ma
lhe atribui especificidade("mãe"), eJ. lhe dá mais generalidade("
escrevemosalgures(Zukerfeld, 1992), se a manifestaçãobulím
pode ser adequadaa intervençãode L,, porém, se não é, é const
nalização,em que a pacientecontinuarácomendo,dizendo que do
de mãe". Em ìVI.A., estámais marcadoo sintomaalimentar
secundáriopara evitar enfrentamentoscom a realidade.
Em geral,o trabalhogrupalcom empanzinamentosvômitos com ção
das circunstâncias(lugar, horiirio, quantidadee qualidade
anterior),a reconstruçãodo estadode ânimo e da forma de pens
tética, depressão,hostilidade,ansiedade,automatismo).Poster se a
valorizaçãosubjetivaque o pacientefaz do sintoma,suafor lo ao
grupo, seu efeito nos demais integrantes,o ocultamento ajuda,etc.

Como vários dessesaspectos haviam sido trabalha anteriores,a
coordenadorasedirige ao ponto de urgência,que er
Muito do materialque surgeneste,e em muitos outrosgrupos,não
grupo, mas no marco da psicoterapiaindividual. Um trabalh
equilibrado permïteproduzir temas,e destinálos ao campo in
justam
nutricional ou psicoterapêutico.Tinha sido interpretado
mês, sua tendênciaajejuar e a necessidadede lembrar-seda
inc para não ter empanzinamentosE. tambémhabituala
situaçãoinv do nutricionista ou intervençõesna
psicoterapia,que são traba Por isso, dizemosque, quandoum
grupo homogêneotrabalhab continentede diferentestemas.mas
produtor
também é de cont reno extragrupal.

pacienteN., de baixo peso, recebea indicaçãomédica de a


calórico de suaalimentaçãoTal. fato a angustia,e todauma reunião
contêJa. Mas, além disso, nessamesmasessão,trabalha-seseu
horr esclarecidoseutemor oculto de ficar parecidacom a mãe
obesa,tem para a psicoterapiaindividual. Tambémé
estabelecidoum sistemad coma o que é indicado, e surgeuma
sériede observaçõesque dever posteriormentecom a nutricionista.

CONCLUSÕES
trabalhoem grupo com pacientescom obesidadee transtomosda sido
muito difundido. Há importantesorganizações,em diferentesp
anostrabalhamgrupalmentecom obesos(Weight Watchers,Overea nos
EstadosUnidos, Al-CO e Dieta Club, na Argentina,etc.) e nume
paraanorexiae bulimia, nos EstadosUnidos, Inglaterra,Alemanha,F
Brasil e Argentina. Essesgrupos têm bons, medíocresou maus re
segundomeu critério, não deveriam ser avaliadosisoladamente,m
abordagensinterdisciplinaresmais amplas.Possuemsuasindicaçõe

ções,como qualquerrecursoterapêutico,e há controvérsiassobre qua


dadesmais eficazes.Nestesentido,não creio que a técnica (auto-aj
psicoterapêutica,etc.) sejao que define a evolução,mas o encontro e
coordenadoresem um contexto adequado:
COMOTRABALHAMOSCOM CRUPOS 217
.
Osintegrantesdo grupoestabelecemumacombinaçãoaleatóriade vínculos,com
suasdistintaspersonalidadesexperiênciasterapêuticas(suamaior ou menor
inclusãoem programasinterdisciplinares)o graude pressãosociale/oufamili-ar
que têm paramodificarsuacondutâe/ouseucorpo.Não se deveesquecer-
nesteúltimo sentido- queaspatologiasde quetrataestecapítulosãofortement
influenciadaspor fatoressociaistantoem suaconstituiçãocomo em seutrata-
mento.Destemodo,o grupohomogêneoémuitasvezesuma"ilha", com valores e
regrasopostosaosdo ambienteculturale familiardo pacienteSão.muito co-
nhecidososproblemasdospacientesperlencentesaatividadesvinculadascomo
balê,a atividadefísica,a nutrição,a moda,modelos,etc.,em quesechocamos
valoresdosdiferentesâmbitos.

R, de l7 anos,conseguiavero quãomagÍaestavadentrodo grupodeanoréxicos


graçasàsintervenções"em espelho"deoutrosintegrantes,quandoeramfeitasexpe-
riênciassobrea imagemcorporal.Porém,no colégio inglêsque freqüentava,lhe
comentavamqueeramagrade cara,mastinhamúsculosgordosEra. conhecidano
grupocomo"Penélope",porqueo que se"tecia"no grupose"desfazia"no dia se-
guinte,no lugarondepermaneciapor maisde 8 horasdiárias.

.
Oscoordenadorespossuemcaracterísticasdepersonalidade,treinamento papel
profissional(ounãoprofissional),conhecimentodosprincípiosgerais,criatividad e
também- comoalgoespecíficodestaspatologias- suaexperiênciapessoalem
relaçãoà alimentaçãoaocorpoEste.é umtemamuitoamplo,quenãodesenvolve rei
aqui,masé importantea influênciadascrenças,preconceitos sentimento
contratransferenciaisdosterapeutasem relaçãoàquelestemas.

Em umasupervisão,a psicólogaS .,comum certosobrepeso,relataqueassina


lou a uma integrantedo grupoqueestátendo"excessiva"atividadefísica,indo ao
ginásio4 vezespor semanaPode.-severlogoqueS. temum intensorechaçoà ativi-
dadefísica,por suaexperiênciapessoalfrustrante inclusiveumacertarivalidade
com a paclente.
Em geral,determinaro que é "muito" ou "pouco"na alimentação, o que é
"gordo"ou "magro"no corpo,possuizonasambíguas,ondeé decisiva experiênci
pessoaldo observador,oscostumessociaise os paradigmasvigentes.
Em definitivo,a tarefagrupalcom pacientescom transtomosalimentares,in -
cluídadentrode umaabordageminterdisciplinar,éum recursomuitoútil, à medida
que se conheçamseusprincípiosgerais,tenha-seclarezanosobjetivos,humildade
nasexpectativascriatividadenastécnicasDeste.modo,conseguir-setambém-
ádi-minuira improvisação,combateras seitase darhierarquiaà
solidariedade,na cons-truçãode subjetividades.

RETERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CORMILLOT,A. E. CommercialândseÌf-helpapproachesto weightmanagementcIn:. BROWNELL,


D. e FAIRBURN,C.G. EatfugdísordersandobesityNovalorque:.CuilfordPress,1995. YALOM, L D,
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Áctobulhnico,cuetpoy terceratópica.2.ed.BuenosAires:Paidós,199ó.
20
Grupoterapiapara
Alcoolistas
SERGÍODE PAULA RAMOS

Desdeque,no séculopassado,MagnusHussconceituoualcoolismocomodoença,
discute-sea forma mais eficazde tratá-la.Aliás, se faz oportunoreconhecerque,
apesardos desenvolvimentoshavidosnestecamponosúltimos 30 anos,a maioria
daspessoasquebebemde umaformaproblemáticaseguesemprocurartratamento.
O esquema1 (p- 220)tentailustraro quesepassana histórianaturaldestadoença.
Comopode-sedepreender,paraqueaschancesterapêuticasaumenteménecessá-
rio que o profissionalestejaaptoa reconhecer, a entender,a crisemotivadorada
procurade ajuda;saberformularcorretamenteos diagnósticosdo indivíduoe sua
família;traduzi-losde maneiracompreensivaaosmesmos,paraqueobjetivostera-
pêuticospossamsercompartilhadosentreo técnico,o paciente,e, semprequepossí-
vel,com suafamília.Dessacomunhãodeverásurgirumaclarapropostaterapêutica.
Parecequeosdesâfiosno tratamentodealcoolistassãotão grandesque,desdeo
eletrochoqueatéasterapiasde reposiçãode íons,desdea psicanáliseatéastécnicas
cognitivistasdeprevençãoderecaídas,forampropostoscomentusiasmopor diferen-
tesautores.
Esseespectrodealtemativas,partirdosanos70,começoua
sercientificamen-te avaliadoquantoà suaeficácia, hojeum
conceitobastanteatualé domctching,ou seja,reconhece-seque não existea
técnicaterapêuticamais efircazparatodosos casos,e o que seprocuraé
adequarum determinadoesquematerapêuticoparaum dadopaciente.
O esquema2 (p. 221)deveserentendidocomoum
esforçodidáticoparanortear asdiversasopçõesde tratamento.
Poresseesquemadevemosconsiderarsemprea severidadeda doença a
moti-vaçãoqueconseguimosdespertarem nossopaciente.
De uma maneirageral,pacientesmenosgravese bem
motivadospodemser muitoajudadosnumaterapiabreve,a
qualdeverásealicerçaremtécnicasde preven-ção da recaída,restringindo-
seao foco dasrelaçõesdo indivíduocomas bebidas alcoólicas.
no entanto,estamosfrentea um dependentegravee com muitosanos Quando,
deevoluçãode suaenfermidade,é poucoprovávelqueumaterapiafocaldê
contade ajudáJona complexidadede todosos seusproblemas.
presentecapítulodiscutequalo lugarquea psicoterapiadegrupoparaalcoo-
listascontinuatendono contextoaludido.
220 . ZIMERMÀN& osoRlo

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COMO TRABALH.\ÀÍOSCO]!ÍCRUPOS 221
Bem motivados Poucomolivâdos

Poucodependentes TerapìaBreve lnformação

de álcool CognitivaFocal
Muitodependentes Terapiamaisextensa Hospitalizaçào

dê álcool com aboÍdagemde outros


problemastambém

. Diferentespropostas
ESOUEMA2 terapêuticas a questãodo matching.
justo na
Inicialmente,é reconhecerquealcoolismoé umadoençaestigmatizadora,
qual portadores
seus pensam(onipotentemente)seremosúnicosa virienciaremtai situação.O
grupo passa que haveráde
entãoa ter a vantagemdo compartilhamentode experiencias,
facilitar
a meÌhorpercepçãodo funcionamentodo indivíduo,visto, poi identificaçãoprojetiva,
nos demaismembrosdo grupo.
Portanto,quando já indicaçãode
. alcoolistas forambemdiagìosticadose estãomotivados,a
grupo se
destaca,respeitando-seapenai as seguintescontra_indicações:
funcionamentopsicótico
pessoade reconhecimentopúblico
intoxicadosou pouco.onui.tosqurnlo à abstinência
grupo psicótico
Sendoum apenasde alcooÌistas,comoserádescritoadiante,um paciente
rapidamenteseráidentificado como "o diferente" do grupo e.marginaliza-do,
sendoquedesseprocessoninguémtira proveito.
umapessoaquesejabastanteconhecida(como,por exemplo,auto_ . _ _Igualmente,
grupo,
ridadese artistas),num acabaráficando exposta,iabido que o sigilo ã algo
nem sempremantido por para grupos
todo o tempo.No entanto,pareceque estacontra_indicação é em
geral e não apenaspara gÍuposde alcooliitas.
Porúltimo,pacientes têmios e ainda
aindaintoxicados,poucoconvencidosa manterem-seabs-
semvínculo rem por
maior com o terapeutabeneficiam-semais seperrnanece- argumtempoaindaem
atendimentoindividual,ondeseuacompanhamento poderásedar com a intensidadedevida.
Finalizando
o tópico, uma paravrasobreos introvertidos.Tâis pacientes dão-se
grupo que angustiando-secom
melhorem do em atendimentoindividuar,ondesentemobrigaçãode farar,
issoe interrompendoo tratamentoantesque algu;a;juda possa
lhesserdada.

OBJETIVOS
.{té quasea presente era a
década,o objetivode quaÌqueralcoologistacom seupaciente
abstinência, _
e as terapias- individuaisou grupais limitavam_sea ajudaro clientea manter-
seabstêmio.
O queum l1s própriasdo
. tempomostrou abstêmioquesemantenhadesadaptado,ou pelasseqüe_
alcoolismo
ou por dificuldadesneuróticas pii"ótica, iubjacenìes,
tem maioreschancesde recairno usodo álcoolqueum "

abstêmioadaptadoAdapta._
))', ZIMERMAN & OSORIO

do, aqui, compreendeo indivíduocapazde desenvolveruma interaçãocriativa com


seumeio.
Na prática,aìndaquea simplesabstinênciasejaum elementopropulsorde uma
melhor adaptação,posto que a expressivamaioria dos alcoolistasé constituída de
alcoolistasprimários, isto nem sempreacontece,e passaa ser objetivo do grupo a
elaboraçãode dificuldades pessoaisrelacionadascom o presentedo paciente,visan-
do a ajudá-lo a melhorar sua vida de relações.

O GRUPO
Alcoolistas são pacientesque necessitamse absterdo álcool numa sociedadeque
estimula seuconsumo.Dessefato, emanauma sériede peculiaridadesno tratamento
de tais doentes,as quaisnão se encontrâmem gruposde pacientescom outros trans-
tornos.Por isso,a experiênciaensinouque convómreuniros alcoolistasem gÍupos
homogêneos,ou seja,sóde alcoolistasNo. entantoem consultóriosem quea deman-
da não comportara existênciade um grupo exclusivo,a introduçãode dependentede
outrasdrogasnão acarretadificuldade técnicamaior.
Em um passadonão distante,além da hofnogeneidadenosográfica,também se
procuravahomogeneizar grupoqurntouo sexo.ao nívelsócio-econômicoà faixa etiíria.
Nota-se, atualmente,tendênciainversa,e a maioria dos técnicos que traba-lham com
alcoolismopensaser enriquecedoro grupo de alcoolistasser heterogêneo em todos
os outros aspectos,cabendoao próprio gmpo fazer suastriagensnaturais.
Outra questãoa ser consideradana formaçãodos grupos é seu tamanho.
Na literatura, encontram-sepropostosdesdegrupos com 7 pacientes(Brown,
l97l) até40 o\ 50. A leitura dessasdiferentespropostasesclarece,entrementes,que
tamanhodo grupo é em função de seusobjetivos.Um grupo que se restrinjaa serde
exclusivamanutençãoda abstinênciapode sermaior, masdeve-sequestionarseesses
macrogruposnão seriamsubstituídos,com vantagenseconômicase mesmo de eficá-
cia,pelosAlcoólicosAnônimos.

Quando os gÍuposse propõem a manter a abstinênciae melhor adaptar seus


membros,entãoo númerofica limitado até o máximo de 15 participantes;é notório e
importantesalientarque cadaterapeutiìtem um continenteintemo próprio para estes
grupos,uns preferindotrabalharcom 8 pacientes,outroscom 13,como é o casodo
autor destecapítulo.

O CONTRATO TERAPÊUTICO
Jásedissequeum contratobemfeìtoé meiocaminhoandadoNo. casodo alcoolismo
é2/31
Sendoo álcool uma substânciâneurotrópica,um pacienteque reincidir no seu
uso tem a tendênciade querer mudar as regras do jogo de acordo com sua visão
particular do mundo. Portanto,um contratodúbio, que fique apenasao nível do im-
justificar
plícito, é ocoÌrênciasuficientepara um fracassoterapêutico.Ao contrário
disso,o contratocom alcoolistasdeveserclaro,explícìto,e nãosãopoucosos auto-res
que sugeremque o mesmosejapor escrito e em duasvias (uma para o paciente,
outra para o gnÌpo), ou mesmo em três vias (incluindo-se o familiar significativo
como afiador do mesmo) (Vannicelli, 1982).Escrito ou verbal, o fato é que um bom
contratoterapêuticocom aÌcoolistasdeve,necessariamente,incluir os seguintesitens:
,.)
COMO TRABALHAMOS COM CRUPOS

I - objetivo do tratamento
- prazo mínimo de mútuocompromisso
- tentativade abstinência
- abstinênciano dia da sessão
- nenhum segredocom os membrosdo grupo
- sigilo com pessoasestranhasao gÍupo
- horáriose local das sessões
- avisoprévio nasimpossibiÌidadesprevistas
- honorários,dia do pagamentoe data dos reajustesperiódicos.

Essesitensdevemserdiscutidosum a um e
combinadosexplicitamentena( entrevista(s)individual(aìs)de admissãodo
pacienteao grupo, e reprisadosna pr sençade todo o grupo, posteriormente.
Uma palavrasobrecadaum dos itens antesde prosseguirmos.

- Objetivos: abstinênciae melhoria da qualidade de vida (adaptação).Nã


bastaque essesobjetivos estejamclaros para o terapeuta.E necessiírioque fique
igualmenteclaros para o paciente,principalmentequanto ao que concretamentee
suavida podeseentendercomo melhoriada qualidadede vida.
Esseitem, bem discutido, favorecerá,no futuro, a discussãosobrea alta.
Jáestáassentadona lìteraturaquedependenteslevesde bebidasalcoólicas,d
pois de uma desintoxicaçãoe períodode 6 mesesa I ano de abstinência,pode
tentar "beber sem problemas".Tais tentativasa meu juízo devem ser feitas ou n
contexto de terapia individual ou em grupos que, por terem apenasdependentesl
ves,podemter a ingestãocontroladacomo objetivocomum.
- Prazo mínimo de ntútuocomprontisso.'alcoolistasrecentementedesintoxic
dose principalmentesemexperiênciapréviade tratamentotêma têndênciade dese
volver um comportamentoarredio inicial com o grupo, expressoboa partedas vez
por um silêncio tenso.Tal situação,em pessoâsque freqüentementetêm um baix
limiar de tolerânciaà ansiedade,pode levar a um rompimento precoce.
Essefato é possívelde ser evitâdo se for combinado um prazo de 3 mesespa
ver se aconteceou não a adaptaçãoao gÍupo.Além disso,convém que também se
estabelecidoum tempo referencialde 2 anos,que pode ser maior ou menor, para
processoterapêutico.
- Tentatìvade abstinência:no contrato deve ser esclarecidoque terapeut
pacienteconcordamem que a abstinênciadeve ser tentadasinceramentepelo enfe
mo, constituindo-sequaseque num requisito(mais do que num objetivo) paraa
part cipaçãono grupo, ressalvandoo caso discutido no item l. Também deve ficar
cla que uma recaídaé possível,mas que o gÍupoesperaser avisadosobreela na
sess subseqüenteà ingestãode álcool.
- Abstinênciano dia da sessõo:alcoolismoé uma síndromede evoluçãocrôn
ca e, como tal, sujeito a recaídas.No entanto,se o pacìenteingerir álcool (qualqu
dose)no dia da sessão,elenãoestáem condiçõesde aproveitá-lae o melhorparas
bem como para os demais,é que não venha.
- Segredo: não há possìbilidadede que um processopsicoterapêuticose
levadoa cabose"certas"coisasnão puderemserfaladasno grupo.Portanto,é compr
misso do pacientenão exercer qualquer censuraconscientede seu material com
grupo,sejaminformaçõesreÌacionadascom o usodo álcool,ou independentesdele
224
- Slgila.'o comentáriosobrerevelaçõesfeitas em grupo fora dele compromet a
confiabilidade liquidacom aschancesterapêuticas.
- Horárìos e local das sessries:existemgruposde freqüência semanale outros de 2
vezespor semanaUm. pacìente,âo seÍintroduzidoem um dessesgrupos,precis
compreendera importânciada assiduidade,sendoindispensávelqueo gruposereún
sempreno mesmolocal.Regrafundamentalparaserviçosambulatoriais,nos quai
muitasvezesexistemvariaçõesnassalasusadas.

- Aviso de faltas previstas: a lalta de um membro, principalmentequando se


tratade um grupo novo, é sempremotivo de inquietaçãoSerá.que fulano bebeu
Devido a isso,espera-seque o pacientesempreaviseatémomentosantesda sessã
sobresuafaltae os motivos.
- Honorários, dia do paguntentoe rcajustes:é salsidoque o alcoolismo é uma
doençaconsumptivatambémdo ponto de vista econômico.A práticademonstr
entretanto,que os custosde um tratamentode gruposãosempreinferioresao gast
com a própria bebida.
O acertodo preço, dia de pagamentoe reajustesé feito como em
qualqueroutro contrato terapêutico.

PERIODICIDADE
Alguns autorespreferem trabalharcom duas sessõessemanais,de uma hoia cada
sentindo-semaisconfortáveisem acompanhar pacientede perto.AIém disso,com
uma freqüênciadessas,alegamtornar o processopsicoterapêuticomais fluente. Ou-
tros, entretanto,não vêem acréscimoqualitativo significativo e optam por uma única
sessãosemanal.
Este autor trabalhacom ambasas periodicidades,indicando o grupo semana
para pacientesmenoscomprometidos.

TÉCNICA
Forammuitasas tentativâsde entendimentoetiológicodo alcoolismoprimário nos
últimos 30 anos.Pesquisassobreo metabolismo(principalmentehepáticoe cere bral),
sobre a genética e sobre aspectossociológios foram as mais destacadasDe.
conclusivotemospoucacoisa,e a principaldelasé quenão pareceresidirno campo da
psicologiaa respostaetiológicadoalcoolismoprimário. Afastadâs,categoricament as
relaçõesentre oralidadee alcoolismo(como fator etiológico), a frase "tem proble-
masporquebebe" é mais aceitaatualmentedo que a antiga"bebe porquetem proble-
mas".
Com essavisão da síndromede dependênciado álcool é que se discutirão as
questõestécnicas.
De início, fica afastadaa técnicapsicanalíticae suasadaptaçõespara grupo
Aliás,interpretarumalcoolistaem atividade,ou abstêmiorecente,é fazercom quese
mobilize ansiedadeno paciente,a qual não poucas vezes o levará ao consumo de
álcool, sendoessaa razãodo insucessoda psicanálisecom a doença.
técnica que parece ser usadapela maior parte dos especialistasé algo que
po<li ser descritocomo uma terapiasuportiva,onde o mais importanteé um contínu
)
COMOTRABALHAMOSCOM CRUPOS

confronto entre o que o pacientediz estar vivendo e o que o grupo percebese


justificou
realidade.Tal procedimento que Glasseç1975,tenhadescritoessatécn
como terapiade realidade.
Um alcoolista,quando introduzido num grupo, encontra-seabstêmiohá pou
tempo, e necessitandoreaprendertodo um novo estilo de vida. A bebida,que lhe f
companhiaem quasetodasas situaçãovivenciadasnos últimos anos,ou mesmo
cadas,está proibida.
Ele chega ao grupo cheio de dúvidas quanto à naturezade suas dificuldade
ansiosocom a radical mudançade condutaque se lhe impôs. Sem dúvida, vive u
situaçãode luto, por ter perdido "a eternacompanheira".
Uma postura carinhosae receptiva que o estimule a falar, na velocidade q
puder, de suasnovas vivências é indicada, pois só assim se animará a esclarec
vontade que tem de bebeç o constrangimentoque sentiu ao recusaruma dose
bebidafrentea velhoscompanheiros,ou, ainda,a ansiedadeexperimentadana prime
festaem abstinência.Essesassuntos,compartilhadospelo grupo, serãoenriqueci com
o depoimentodos demaismembroshá mais tempoabstêmios,funcionandoco exemplo
incentivador.O que estávivendo não é privativo de sua vida, mas todos
demaispassarampor isso,e, o mais importante,hoje estãobem.
Ao mesmo tempo, reprisarestetipo de assuntoensejauma revisão nos dem
pacientessobreo grau de convicçãona abstinênciae a vontadede beber.
Nesta fase, onde o grupo não se furta ao secretodesejo de "embebedar
terapeuta,quando é tão repetitivo o assuntoálcool, vontade de beber,etc., cabe
terapeutasuportaro evento, intervindo, sempreque necessário,para explicar fa
sobre o alcoolismo, dando inclusive informaçõesteóricas. Há mesmo autoresq
preconizamaexistência,na salade grupo,de um quadro-negroparaaulasexpositiv
e outros que trabalhamcom videocassetecom o mesmoobjetivo (Brown, 1977).
De qualquerforma, o terapeutaterá em menteajudar o novato a perceberqu
são para ele as situaçõesde risco de uma recaída,ajudando-oeao grupo a evitar
t situaçõesquandoestáveise a aumentara sua auto-eficácia,para lidar com as sit
çõesinevitáveisde maiorriscode ingestãode bebidasalcoólicas.
Portanto,nestaprimeira fase de um grupo predominarãoas técnicasde prev
ção recaída.
da
Durante este período- e a revisãoaqui em fasesé puramentedidática -, m
cedo ou mais tarde,impreterivelmente,surgea perguntasobreos hábitos alcoólic
do terapeuta.
Um profissional inexperienteresponderáde pronto, ou mais afoitamenteain
devolveráa perguntapara o grupo.
examedo que o grupopensasobrecadauma daspossibilidadesé enriquece e
não pode ser atropelado.No entanto,no final, cabe ao terapeutarespondera p
gunta.
Frenteà questãosobreos hábitosalcoólicosdo terapeuta,pelo
menosduasimpr sões podem estar implícitas:"Se ele não bebe,o que entendede
beber para me t tar?", "Se ele bebe,por que quer que eu pare?".
Na elaboraçãodessasquestões,bem como de qualqueroutra,não se devenun
jamais
esquecerque alcoolistasem gÍupo não são pacientesde análise, devem
interpretadose carecede sentidouma posiçãoneutrapor partedo técnico.Ao cont rio,
indica-seuma atitude afetiva sugestiva,confiante e participante.
Após dois ou três mesesde sessões,cujo tema predominanteé o álcool, o gru
como que acordado pone, propiciandoa seusmembroscomeçarema olhar para s
para os outros, examinandoas relaçõesconsigo mesmose com os demais,não
226 ZIMERMAN & OSORIO

membrosdo grupo, como familiares,colegasde trabalhoe de lazer. Inicia-se, dessa


maneira, a fase terapêuticapropriamentedita, onde o pacienteserá ajudado a ver
realisticamentesua contribuição no estado de sua vida de relações.Aqui, há de se
preferir o enfoqueda atualidadee centradoem mudançasde conduta.De nadaadian-
ta, dentro desta técnica usada,trazer fatos de um passadodistante,o qual não será
possívelser elaborado.Sem dúvida, essafase é a mais demorada,e dela o paciente
sai para tratar de sua aÌta.
prática demonstranão estarindicado dar alta paraum pacientecom menosde
dois anosde abstinênciae seuscritériosserãodiscutidosa sesuir.
Quandoda altade um membro,o grupopassapor uma ciisede desligamento
como vivencia essacrise é um bom sinal para o terapeutaavaliar o prógressode
seus membros. Será adotando antigos procedimentosde retaliação mútua, ou com
uma conduta onde os sentimentosde perdapoderãoser reconhecidose verbalizados]
Tanto a terapiade apoio centradana realidade(Glasses,1977), quanto o grupo
operativo (Yalon, 1974), ou o psicodrama(Araujo, 1985; Blum, 1978) são úüto
usadospor especialistasem alcoolismoe, em qualquerdessastécnicas,essastrês
fasespodem ser percebidas.

RECAÍDAS

naturezacrônica do alcoolismofaz preverqueuma eventualreincidênciano uso do


álcool deva ser incluída no rol daspossibilidades.
Os pacientesque estejamengajadosnum grupo e recaiamtêm um prognóstico
benignoe, no mais dasvezes,o próprio grupo podelhes dar o suportenecessáriopara
retomar à abstinência.Entretanto,nem sempreisto acontecee, às vezes,o paciente
chegaa interromperseu tratamentopara "beber sossegado"(Vide. esquemal .)
Nessescasos,é boa práticaque algum membro do grupo telefonepara o pacien-te
e, na eventualidadedisso não ser suficientepara fazer o alccolistaretomar às ses-sões,
uma visita conjuntâ de dois ou três participantesdo grupo à sua casa pode resolver o
grupo,
problema.Como estaé uma ocorrência freqüenteem pacientesnovos no a
vergonha por teÍ bebido e ter de enfrentaros comn:nheiros é a alavanca motorada
condutade afastamentoO. saberque serávisita.io funciona como estímulo de
permanênciano gÍupo, pois o pacienteestá ciente que de qualquer maneira (no grupo ou
em suacasa)terá que conversarcom seusparceirosde tratamento.
E raro que pacienteem psicoterapiade grupo tenhauma rccaídasériao sufici-
enteparanecessitarhospitalizaçãoNo. entanto,quandoisto está indicado,um perío-do
curto com posteriorreintroduçãono grupo é boa conduta.
A recaídapode ser oÌhadatambémpelos demaismembrosdo grupo como uma
oportunidadepara se rever as convicçõesem torno da abstinência.

CRITÉRIOS DE ALTA
Um alcoolistaque estejapelo menoshá dois anossembebere que nessetempo tenha
se readaptadofrente à família, ao trabalho,ao lazer,bem como retomadosua saúde
física epsíquicaestá pronto para alta.
Estadeve ser sempreda inciativa do paciente,que discutiÍáesteassunto,tendo-
se em vista seusobjetivos pessoaisno grupo. expressono contrato de admissão.
)
COMOTRABALHAÀ1OSCOIlICRUPOS

Um fato que também aconteceé o pacientesentir-seapto â ter alta do gru


masquereriniciaruma terapiaindividualparatratar"coisasquenão têm a ver c
seualcoolismo"Havendo.condiçõesfinanceiras,estepacienteé um bom candi
para análise,desde que encaminhadopara um analistaque não questionesua ab
nência, ientandoa moderaçãol
Combinadaa alta, convém que a mesmaseja marcadapara dali a dois ou t
meses,paraquepossaserelaboradatantopelopacientequantopelogrupo.Por o
siãodamesma,é boapráticaincentivaro paciente visitaro grupo,casosintanece
dade.

GRUPO DE AUTO.AJUDÀ
Os maispopularesna Américado Sul sãoos AlcoólicosAnônimos (AA) e os clu de
ex-alcoólicosNo. Brasil,quesesaiba,existeapenaso AA.
Suaeficáciaé indiscutível a indicaçãoé universalparaalcoolistasO. qu nota,no
entanto,é uma resistênciade pacientesde nível econômicomaior em qüentar as
reuniões,bem como pâcientesque não foram tão longe em suascanei
alcoólicasa pontode seidentificarenrcom ashistóriasouvidasnumasalado AA
Cabetambémirosprofissionaisda saúdeajudara mudartal situação,ince
vando a que seu pacientenão tão grave, ou inculto, ao passara freqüentar o
mude,com o tempo,o perfil de seumembrotípico.
Por fim, cabesalientarque não há nenhumconflito entre a terapialeiga do
os grupos de psicoterapia,sendoboa condutaque os pacientesfreqüentemamb
simultaneamenteO. único cuidado é que o terapeutanecessitaráser experien
suficientepara evitar que o pacientevenhaao grupo discutir os problemasdo AA
no AA quererdiscutiro que senteem seugrupopsicoterápico.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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to3, t974.
2T
Grupos com Drogadictos
SILVIABRASILIANO

Ao longodasúltimasdécadas, psicoterapiade grupotem emergidocomoum dos


instrumentosmaispopularesno tratamentoda drogadicção,e em suasvariadasmo-
dalidadescostumaintegrarosmaisdiferentestiposdeprogramasterapêuticos(Dodes.
1991;Blaine,1990)A amplautilizaçãodessaabordagemestáembasadanoconsens dos
especialistasde que a psicoterapiade grupoé uma intervençãovaliosacom
drogadictosA. despeitodisso,contudo,nãosesabeaté o momentoqual orientaçã
psicoterapêuticaémaisefetivaparaestespacientes(Blaine,.1990;Pattison,1989
Woody,1989;Brandsma,1985)
Assim,quandosefala em psicoterapiade grupocom drogadictos,nãoestáse
falandode um campoúnicoe consensualmenteestabelecidoNa. realidade,as
psicoterapiassãotantasquantosãoas formulaçõesteóricasexistentes,os método
grupais,asmetasdo trabalhoe asorientaçõesde cadaterapeutaComo.conseqüên
cia,é fundamentalquecadaabordagempsicoterapêuticagrupalcomdrogadictoses-
pecifiquequaissãoos pressupostosquea embasam(Laufer,.1990)

PRESSUPOSTOS PARA UMA PSICOTERAPIA GRUPAL PARA


DROGADICTOS
Dentrodo âmbitodestetrabalhoutiliza-secomoreferencialteórico-técnicoparaa
psicoterapiagrupala psicanáliseNo. quediz respeitoàdrogadicção,essereferencia
implicaa noçãofundamentalde quea dependênciasedá na relaçãoqueo indivídu
estabelececoma droga,ou seja,nãoseconsideraquea drogasozinhasejaresponsá vel
pelasituaçãodo pacienteAo. contrário,pressupõe-seum sujeitoativo,quebusca
usae perdeo controlesobrea substância,tornando-seum drogadicto(Laufer,.1990)
DèSsaforma,o entendimentosedáa partirdo sujeito,emumarelaçãodialética,onde
seéverdadequenãoexistedrogadicçãosemdependênciaumadroga,por outrolado,
nãoé essadependênciaquevai definiro sujeito(Inem,.1993;Bittencourt,1993)
Assim,a droganãovai atacarqualquerindivíduo,independentementequem
eleseja,o quedesejaou queconflitostenhaA. drogadicçãoenvolvea globalidadedo
sujeitoemum inter-relacionamentointricadoe variávelparacadaindívíduo,que,se
por um lado não permiteinferir necessariamenteuma psicopatologiasubjacenteà
qualquerdrogadicção,por outro,aclaraquea categoriadrogadictoscomoum gÍupo
compostade indivíduoscomrealidadespsíquicasmuitodiferentesentresi.
(Inem, 1993;Bittencourt,1993;SilveiraFilho,1995)
230 ZIMERMAN & OSORIO

Nestaperspectiva,a psicanálisetem como objetivo primordial


do sujeito,e a açãopsicoterapêuticaorienta-sena buscae na apree
(Laufer,
droga_emsuavida. 1990:Cancrini.199| )
importante ressaltarque a propostapsicanalíticana clínic não
é simples e coloca ao terapeutauma série de impasses.Esta
pacientesem que a quei;^a- o uso de drogas- é geralmenteprazer
tem constituídoa suaúnica fonte de vida e de identidadeAdem.
egóicae a intolerênciaà frustração,aliada à dificuldade - ou ausê
zação,impõemmudançasà abordagempsicanalíticatradicional(.
Particularmentecom essespacientes,a principal mudançaa
respeitoà mobilidade do terâpeuta.Esseé um fator fundamentale
dois sentidosEm. princípio,sermóvelrefere-seà técnicaquecom
estarálimitadaà interpretaçãodaresistência da transferênciaTal. f a
utilizaçãoindiscriminadade qualquerinstrumentotécnico.Poré so
analíticosomenteporqueuma atitudemaispróxima e caloros
intervençãomais diretivafez-senecessáriaé no mínimo questio
significatambémo reconhecimentode quea abordagempsicanalí
importantescom drogadictos, que implicaa disponibilidadedo a rir-
seem outrosespaçosterapêuticose, principalmente,em um tr
multidisciplinar. Em suma, na relação com drogadictos,o settín
tanto mais resguardadoquanto maior for a possibilidadedo anal
ousar.(Birman,1993)
Nessesentido,é importantelembrarqueo próprioFreud,já e
queparadeterminadospacientesserianecessárioadaptar técnicaà
desdequeos ingredientesda análisea serrealizadafossemaquelesto
lise estritae nãotendenciosa(Freud,.l9l8)
Assim, desdea nossaperspectiva,paraque a essênciada psican
impositivo respeitarseu elementofundamental,ou seja,a "consi do
funcionamentopsíquicodos drogadictos,como condição sine
manejoterapêutico"(Birman,.1993)O rigor do processoànalític
exigênciade escutare sublinharo que estáem pautanestefunci
outros termos, é a própria escuta que vai delinear a ética e o s
psicoterapêutica(Brasiliano,.I 995)

DEFININDO OS NOSSOSGRUPOSCOM DROGADICTOS


objetivo de nossapsicoterapiacom drogadictosé o de criar um es
onde o pacientepossabuscar o sentido de suaspróprias vivência
encontrarumarespostadiferente,quenãoa droga,paraa transforma de.
Dessa forma, o terapeutanão se coloca como uma autoridad
sabe,entendee estálá paraensinar.Ao contrário,oferecendo-seco
fantasiasque nele possamser projetadas,seu lugar é de quem nã
abertoa escutare conhecer.(Mélega, 1994)
Estatarefanão é simples, pois é justamenteda vivência de sua
ca que a drogaprotegeo dependenteEssa.realidadeé sentidacomo e
a angústiaé de aniquilamento,destruição e morte. A droga fun
garantiapermanentede que o indivíduonão seconfrontarácom seu
exaltaçãoe grandiosidadedo ego que seuuso provoca.(Kalina, 19
COMO TRABALHAMOS COM GRUPOS
23
remeteo drogadictoà suaproblemáticainiciale ao inevitávelconfrontocom a
exD riênciado vazio,agoraacrescidodo desesperodaimpotência,frenteà
constataç de quea soluçãodrogadictivafalhou.(SilveiraFilho, 1995)
Os gruposque desenvolvemossó aceitampacientesdiagnosticadoscomo de
pendentesdedrogae sãomistosemrelaçãoao sexo,à idadee aotipo dedrogausad
As sessõesde grupotêm freqüênciasemanal,com uma horade duração,e
não é predeterminadoum tempoparaa finalizaçãodo processo.
grupoinicia-secompelo menos5 pacientes funcionade formaaberta,at que
o númeromáximode 10 paúicipantessejaatingido,quando,então,o grupoé
fechadoNo.
peíodoaberto,aentradadenovospacientesémensal,semprenaprimeir sessãode
cadamês.Se,no deconerdo tempo,um númeromaiorque 6 pacient
abandonarpsicoterapia,grupopodenovamenteseabrir,pordeliberaçãoconjunt do
terapeuta dospacientes.
grupoé conduzidoporumpsicólogocomformaçãopsicanalíticaesupervisi
nadosemanalmenteNão.há qualquercontatoindividualentreo paciente o terapeu
antesou no decorrerdo grupo.O encaminhamentoparaa psicoterapiaéfeito por
um membrodaequipe,emgeralum psiquiatra,queé responsávelpelo
atendimentoindi-vidualdo drogadicto.
Na primeirasessãodo pacienteno grupoé solicitadaaosparticipantesumabre ve
apresentaçãoé explicitadoo contratoterapêuticoEsse.momentoé especialme te
importante,pois drogadictostêm comocaracterísticaalteraras regrasde acord
comsuavisãode mundoPor.temeremo aprofundamentode suasquestõespsicológi
cas,distorcema percepçãodassituaçõesque vivem,estruturandomecanismosde
fensivosno sentidode adequara realidadeàs suasvivências.Assim,um contrat
terapêuticocomregrasabsolutamenteclarase bemdefinidasfuncionacomogaranti
inicialparaqueo trabalhopossaserdesenvolvido(Ramos,.1987;7nmel,1992'1
Nossocontratoterapêuticoinclui os seguintesitens:

Data. horário e local da sessão.


Número mínimoe máximo de participantes:cadagrupoterá no máximo l0
pacientes a sessãosóocorreráquandopelomenos2 estiverempresentes.
Fériasdo terapeuta.
Tempomínimo depermanênciano grupo: comoo pacienteé encaminhadoao
gruposemconhecê-lo- o queincluio terapeuta,écompromissadoqueeledever
freqüentá-loao menospor I mês,antesde decidir,sefor o caso,não continuara
psicoterapiaA. propostadesseperíodode experiênciatemcomometaauxiliaro
paciente enfrentaro medododesconhecidoabrira possibilidadedecriaçãode
um vínculoterapêutico.
Faltas e abandonos:casoo pacienteestejaimpedidode comparecer algum
sessão,devecornunicarcom antecedênciaao grupo.Se ele não justificar sua
faltaspor 3 sessõesconsecutivas,seráconvocado compaÍecerSe,.mesmoas sim
elefaltar,seráconsideradocomoabandono,ou seja,seráinferidoquenão há
interesseem participarda psicoterapiaNesse.caso,se,em algummomenro,o
pacientedesejarretomaro tratamento,serásubmetidoaumanovaavaliaçãoindi-
viduale encaminhadoparaum novogrupo.Estaregrafoi instituídaparaevitara
freqüênciaflutuantede muitosdrogadictosque,passadasasprimeirasdificulda
descom a abstinência,só comparecemao gÍupoquandorecaem.
Sigilo: todasas situaçõestratadasno gruponãodevemsercomentadasfora das
sessõesO. terapeutatambémmânterásegredo,poisnãoconversarácomfamilia-
res,amigosou colegasde trabalhodo paciente.
232 ZIMERMAN & OSORIO

Associação livre: o tema das sessõesé livre, não-restritoàs d


lhido pelo gÍupo- o terapeutanão sugerirá nenhum assunto
Uso de drogas: é incentivadaa abstinênciano dia da sessão. Q
o pacientecompromete-sea revelarseuuso,e o grupoem
conj decidirásobrea suâparticipaçàona sessào.
Esteitem é especialmentepolêmico,pois a posiçãodos
completamentediscordante.Alguns se colocam frontalmen
do pacienteintoxicado na sessão,enquantooutrosconsidera
uma exigênciaimpossívele até iatrogênica(Warks,.1989
nosso ponto de vista, a recaídanão possui o mesmo signifi
indivíduos e,portanto, é um contra-sensoestabelecera prio
paratodasassituações(Charles.-Nicolas,1991)Ao mesmote
gem grupal tem como uma de suasmetrs a progressivare
sujeito por sua vida, o que contradiz a deliberaçãoexclusiv
assuntoAssim,.o pacienteintoxicâdoé consideradomateria
grupo o direito de decidir permitecom que os membrosexper
lhase possamtrabalharcom os sentimentosidentificatórios
senta.Vamosapresentardois exemplos:
"C., umapacientejovemdependentede cocaína,comparec te
drogada.Antes que alguémfale, conta que se drogou para
vida". Diz que se droga porque sua irmã gêmeamorreu, ain
porque ela "roubou-lhe a vida, matando-apara poder sobre
culpa e do quanto drogar-seé ficar igual à irmã, morta. Cho
"de caralimpa",jamaisfalariadisso.O gruposilencia,e,dep
passaa dividir a sensaçãodejogo com a morte que també
drogam.Discriminados,podemfalar a C. que não vivem c
ninguém, mas sabemo que significa "morrer para pagarpe
sessão,todoo grupoparecemaisaliviado".
"Em outra sessão,M., dependentede cocaínainjetável, ap
agitadoe começaa faÌar semparar.Intenompe a todos, grit pela
sala. Todo o grupo parecemuìto incomodado,mas ni
terapeutaapontao incômodo e relembraa regra.D. sugere,e na
sessão,mas de costase sem falar nada.Ele obedece,e to
sobreo que ocorreuna semana,como seM. não existisse.O
quenegara presençade M. ó negaruma parteda vidade todo
estáincomodando,mas também paÍeceincômodo relembrar
ram como ele,atrapalhandoquemesteveao seulado.Há um
conta que uma vez atrapalhoua festade sua irmã por estardr
verdade,que não podem deixar M. de lado, e D., mostrando
que ele se vire e faÌe o que quiser.O teÍapeutaapontacomo
orientadaspelo tudo ou nada: ou esquecemo que houvem, o
ram tudo. Há uma nova discussãoaté que decidemque M. p
possarespeitaros outros.M. ainda tentainterromper,mas se ta
dizendo que ele não está podendo ouvir. No final da se
permanecidocalada,comenta "Puxa, como a gente é difere que
pensavaque eu eÍaum barato,na verdadeera muito cha
Pagam€nto: quando o atendimentoé privado, deve ser com
honoráriose definida com clarezaa datado pagamento.
momentode início de umgrupo de psicoterapiacom drogadictosé particularment
delicado.Embora possaser dito que em qualquergrupo há reaçóesfrente ao desco
nhecido,em um grupo de dependentesa ansiedadeestáacentuada,até porqueé para-
4oralmente negada.Esse distanciamentodefensivo da realidadeocot e,-e. iune, em função da
mobilização do drogadictoparao tratamento,pois sua buscasó oiorre
quando
se instalauma crise na sua relaçãocom a droga. Muitas vezesessacrise não
da naturezade um conflito angustiadoe trata-sesomentede uma ameaçafísica socialou
psicológicaque mobiliza o dependenteNeste.sentido,nem semprjo desejo do drogadicto é
curar-se ou reestruturarsua vida, mas sim livrar-se diameaça óu reequilibrar a relação
prazerosa,a lua-de-melcom a droga. que foi perdida.(Kãlina, 1988;Olivenstein,1988)Assim,a
negação, projeçãoe a racionalizaçãofuncionam como defesasfundamentais,pois
operamcomo uma forma de proteçãocontra a peÍ-cepçãoda dependênciae seussignificados.
(Brasiliano, 1993b)
_ Neste contexto, o processoinicial do grupo é marcadopela fala sobrea droga,
emboradois momentosdistintos possamser discriminados:
jardim
"O de infância":

Nesta fase,o discursodo grupo é repetitivo, vazio e desafetivizado.


"Na primeira sessãode um grupo,X. diz que começoua usarcocaínana escola,
pois "andavacom más companhias,que o levaramao vício". Roubou e traficou para
conseguirdroga, mas hoje sabeque perdeu tempo na vida e por isso vai deixãr o
vício. Questionado
pelo teÍapeutasobresuadecisão de buscarajuda,respondeimedi-

atamenteque "agorapercebeuque a drogaé besteira!".Na mesmasessão,Y . fala que


começoua tomar xarope "por bobagem,era gostoso,deixava-mecalmo". euando o terapeutaperguntao
que
ele pensaque ocorreupara aumentaro Uso,diz não saber,
"sua que parou
vida era boa e, afinal, brigar com a mulher ou com o chefe todo mundo faz!". Fala não
antesporque não quis, mas agoraque quer "vai ser muito fácil',
fala que usavamaconhapor causado pai, "com um pai como o meu, qualquerum fumariai' e
agoravaiparar porque finalmenteo pai saiu de casa.
Nestassessõesa história pessoalnão existe, pois se confundecom a história da
droga.Não existeum passado,um futuro ou problemasindependentesda substância.
parece
Não haver sofrimentopelo seu abandono,e a fala do dependenterestringe-
se a,uma descrição estereotipadade crise, onde a mágica da droga é
substituídapela idealizaçãoda abstinência,solução para todos os
problemas,pertinentesà drogá ou não.(SilveiraFilho, 1995;Bettarello,l99l )
"D,,
emuma sessão,fala longamentesobreasdificuldadesque tem com o sócio. ApesaÍ de ser
próprio,
seuamigo, descobriuque ele estavaroubando,fazendo negócios em benefício
levandocomissõespor fora, etc.Quandoquestionadopeló terapeuta como
imaginavaresolverestasituação,respondesem pestanejar:'ïáresolvi! Sem a droga vou
poder
conversarcom ele e resolvertudo. Antes eu não via nadacom clare-za,
agorapossoacompanhartudo e, como ele é meu amigo, tudo acabarábem".
Nesta dinâmica, droga como problema,abstinênciacomo solução, a interven-ção do
pôrem
terapeutadeve ser cautelosa.Não há como interpretaressemovimento, sem risco o
processo
terapêutico,pois aindanão há suporteparao aprofundamento psicológico.Assim,
que
suasintervençõessãodirigidassomenteao levantamentode ques-tões facilitem a
discriminação e ampliem a percepçãodas dificuldades ou dos recursosgrupals.
membroé estabelecerum vínculoexclusivocomo terapeuta,alvo e
j
discurso.Contratransferencialmente, terapeutasente-seem um cia,
onde, embora todas as criançasestejamjuntas para brincar, c
sozinhae não há qualquerconstrangimentoem arrancaro brinquedo
interessarmais. O terapeutanão pode se deixar seduzirnem por um
dual, nem atuar como a professoraque ordenaa brincadeira,dispon
fale em suavez.Suaatuaçãoprincipalé poderesperaro movimentogr
do nas situaçõesmais difíceis - interrupçõesconstantesda fala do
de ocupar toda a sessãocom seuproblema- para apontarcomo me
agem como drogados,ou seja, impõem a sua percepçãoindividua
própriarealidadevivida.(Brasiliano,1993b)

"A categoria dos drogadictos":


início destasegundafase ocorre quandojá há um bom núm
abstinenteshá algum tempo. A falta da drogacomeçaa tomar-seum
da,provocandosentimentosdolorososde desespero pânico,aosqu
ge intensae defensivamentecom manobrasque modificam a
configu forma de abordagemdo conteúdodroga.
A necessidadede preenchero vazio insuportávelda ausênciad
mente mobiliza o grupo a unir-se e transformaro jardim de infân
então, a categoria dos drogadictos,ou seja, contra a angústiade a
oferecidauma identidadesegura:a dos drogadosEssa.identidade
conduzindo,atravésda fusão, a uma sensaçãotemporáriade fortalec
(Brasiliano,1995)
Assim,pode-sefaÌarmaisespontânealivrementesobreadro de,
entretanto,não pode serconfundidacom movimento,pois a relaç ela
ainda é central e o que se modifica são os mecanismosde defesa
na cisãoe na projeção.
Nestecontexto,há inúmeras sessõesem que o grupo recordas
com a droga e o alívio e prazer que ela representavaSão. sessõe
calmas,onde se ri muito e há grandeparticipaçãogrupal. Todos que
episódios com a droga e mesmo as eventuais"tragédias" são colo
divertida. Nestassessões,o terapeutaquasenão tem lugar, e senten
rênciaosefeitosclarosde estarintoxicado(Bettarello,.1991)Após u
um terapeutacomentou:"Realmentenão consigodiscutir nada,estou
drogado".
A essassessõesaltemam-seoutrasem quea drogaestácolocad
me perseguidor,que tem o poder devastadorde atacarqualquerindi
quer momento,tomando-senecessário,então, extirpá-Ìada socieda
recursospara vincular seuuso à realidadesubjetiva,fala-semuito de
tes, eliminar todos os pipoqueirosque forçam as criançasa usar dr
prenderos profissionaisque receitamremédiosque contenhamdroga
Este momento grupal é particularmentedifícil, pois o espa
freqüentementeneutralizado(Brasiliano,.1995)O terapeutadevem
der esperar,evitandoas armadilhasque lhe sãohabitualmentecoloc
nas sessõesidealizadas,mobilizado pela angústia,ele tentarinterpre
destrutividadeda droga, cai na tentaçãode competir com ela, cuja
poderá superar.(Silveira Filho, 1995)Seu papelprincipal nestepeío
COMO TRAEALHAMOS COÌ{ CRUPOS 235

desmontagemprogressivada identidadefusional,lembrando-sesempreque sea ci-


são persisteé porque a ìntegraçãoainda não é possível.

DA TDEALTZAÇÃODA ABSTTNÊNCrAÀ rnnAr,ZlçÃO tO


TERAPEUT
Com o passardo tempo, a vivência da perdada relação com a droga impõe-se mais
intensamenteao grupo. Ademais,a abstinênciacomeçaa mostrar-seinsuficientepara
resolvertoda a problemáticado indivíduo, ou seja,perdeseucarátermágico idealiza-
do de soluçãoabsoluta.(Bettarello,l99l) O drogadictocomeçaa perceberque se
abandonara droga resolveualgumasdificuldades,outrasameaçamaparecer.
Essasdificuldadesgeram uma situaçãoinsuportável para o dependente,pois a
ameaçaé de desestruturaçãoAssim,.a angústiaque é mobìlizadapelosconflitose não
podeser relativizadapelasimbolização- o quepermitiriaa esperae possibili
taÍiatolerar as frustrações- manifesta-sesob a forma de atuações.(Birman, 1993)O
grupo torna-seextremamenteturbulento,já que a fala cedelugar aosactlng-outs.Em
rclaçío ao setting,estabeÌece-seumapersistentetendênciaà oposiçãoe à quebrade
normas:há questionamentosinfindáveis sobreo contrato, atrasosconstantes,faltas,
abandonose até mesmo saídasabruptasno meio da sessão.No que diz respeito à
drogadicção,os acting-outs manifestam-secomo recaídas,muito freqüentesneste
período.Ao mesmotempo, o terapeutaé demandadono lugar onipotentede satisfa-
ção de todasasnecessidades(Silveira.Filho, 1995)
Estesmovimentospodem,a princípio,parecercontraditóriosNa. verdade,são
todos manifestaçãoda mesmadinâmica, ou seja, diferentesformas de lidar com a
an$ístia, obturandoa vivência da falta e a abordagemde seussignificados.Assim,
questionaro grupo e suasnormas ou colocá-Ìo no lugar salvadorsão duas faces da
mesma moeda. As recaídastambém obedecemao mesmoprincípio: se a solução
mágica não vem do terapeuta,a droga volta a ocuparestelugar.
Neste sentido,a atuaçãodo terapeutadeve ser essencialmentefirme, interpre-
tando imediatamentetodasas tentativasque são feitas para impossibilitar a aborda-
gem das dificuldades.É claro que estanãó é uma tarefaÌácil para ele, pois os aorng-
ouÍs sucessivosprovocam sentimentosde raiva, frustraçãoou impotência.Entretan-
to, é somentequandoo terapeutapode recebera projeção da onipotênciasem atuá-la
que o grupoprogride.Ao interpretarqueestemecanismoestárelacionadoàsexperiên- -

òiasdas situaçõesgrandiosase à repetiçãoda buscade soluçõesmágicas, o


terapeuta pode devolver ao drogadicto suaspróprias vivências,abrindo caminho
para a inte-graçãodestasem seumundointemo.(SilveiraFilho, 1995)

VAZIO: DO GRUPO DE DROGADICTOSPARA O GRUPO DE INDIVÍ-DUOS


QUE SE DROGAM
Com a progressãodo trabalho psicoterapêuticoa configuração grupal e a relação
transferencialadquirem novascaracterísticasO. fortalecimentodo vínculo entre os
membrose destescom o terapeutacolocao grupo em um lugar estávelde continência
apoio,o quepermitesignificativastrocasafetivasexperienciais,facilitando,simul-
taneamente,que a angústiae os conflitos possamser verbalizadose não exclusiva-
mente atuados.Neste contexto,o terapeutatem a possibilidadede aprofundar-sena
236 ZIMERMAN & OSORIO

conflitiva individual e é solicitado a discriminar,nomear sentimentose apontarcor-


relações.(Silveira Filho, 1995; Garcia, 1993)
trabalho nesta fase é, entretanto,bastantecomplexo, pois atua na questão
básicada drogadicção,ou seja, o prazer e o êxtase,em detrimento do sentido e do
pensar.(Bittencourt, 1993)As dificuldadesaparecemem todosos momentosgrupais.
Se a impulsividadenão leva à açãoconcreta,aparececomo substituiçãoà reflexão.
"Em uma sessão,em que só homensestavampresentes,X., parecendotriste,
fala que está com problemascom a mulher: "Não conseguimosnos entender.Ela diz
que não consigoestarperto dela.Antes, quandoeu me drogava,ela tinha razão,mas,
agora,eu não sei o que é isso...".O grupo todo mobiliza-secom asdificuldadesdeX.
e diversoscomentáriosaparecem:"Mulher é sempreassim! Desistedela, você é um
cara bacana,trabalhadore, sem drogas,conseguea mulher que quiser! Se a mulher
não te apóia, você se separa,arruma outra, mais bonita". Enquanto todos falam e
riem, X. permanecequieto. Novas soluçõesaparecem,sempreno mesmo sentido,o
que não estábom, deve serextirpado.No meio da sessão,X. interrompea todos e
diz: "Vocês não entenderamnada,eu gosto dela!". Há um longo silêncio, até que C.
diz: "Ah, então não tem jeito!". O terapeutainterpretaa dificuldade do grupo em
refletir sobre o que oconia no casamentode X., pois a busca impulsiva de soluções
não deixava nenhum espaçopara tentar compreendero que ele pedia: entendero
que aconteciano seu relacionamento"

Quandoo grupo tem apossibilidadede refletir, a buscade sentidoparaa


vivência também é penosa,pois expõe o drogadicto à constataçãode que ele é
responsáve pela conduçãode sua vida. E se isso é fonte de alívio por retirar do
indivíduo sua sensaçãode completainsignificância frenteà realidade,ao mesmo
tempo,remete-oà sua finitude, ou seja,ao confronto com a angústiada escolhae
suasincertezas,que, senão sãoabsolutas,também não possibilitamo
controleonipotentede tudo. (Silveira Filho, 1995)
O terapeutadeve ter claro que o caminhode dar sentidoé totalmentenovo para
o drogadicto.Até o momento,ele age como se seumundo interno não existissee ele
não soubesseo que tem de se perguntaÌ,ou mais além, se é preciso fazer alguma
pergunta.Assim, a psicoterapiafuncionacomo um longo ptocessode aprendizagem
onde é necessiírioofereceraltemativas,para que a correlaçãoentre o vivido e o sen-
tido possaser percebida.
"Em uma sessão,E, fala que esta semanausou de novo a droga. O terapeuta
questionao que houve,masE. diz não saber:"Eu estavanormal". O terapeutainsiste
na questão,perguntandoem que dia foi, como ele estavanessedia, nessasemana.E.
só conseguedizer que: "Um dia, passandono ponto, deu vontade e não resisti". O
grupo reageimediatamente,dizendoquejá falou para E. não passarperto do ponto. O
terapeutarelembra a todos que E. passatodos os dias no ponto, pois ele fica ao
lado de suacasa,então algo poderiater oconido naqueledia da semanaque não nos
outros.E lembra-se,então,que nestedia seuvizinho foi despedido,mas "nem pensei
nisto". O terapeutaperguntase o que ele sentiunão foi angústiae medo.
Muitas sessõesseguemessemesmodesenvolvimento.Entretanto,tal processo
não é linear, já que em muitos momentoso vazio existencialé projetado no grupo,
operando-se,na transferência,sob a forma de regressãoa mecanismosanterioresde
idealizaçãoe tusão. (Brasiliano, 1995)
"Em uma sessãoem que vários pacientesiniciam falando,N. permanecequieto
e aos poucosdorme. Após algumastentativasinfrutíferasde aprofundarum tema, o
terapeutaapontacomo a situaçãodo grupo parecetensa.Uns reclamamdizendo que
não, que está tudo bem. Outros fazem brincadeirase contam piadas.Um paciente
COMOTRABALHAMOSCOM CRUPOS 237
incomoda-secom a atitudede N., quecontinuaa dormir,maslogo fala: "Se ele
não queraproveitar grupo,deixa...".O terapeutaapontaquecontarpiadase
brincaré igual a dormir,pois é como se o grandevazionão pudesseserdito,
massomente preenchidoou negado.
Em outrasocasiões, discriminaçãoeu-outrogeramecanismosdefensivosde
resistência evitaçãodo contatocom a conflitivapessoal.
"Doispacientesiniciama sessãofalandoquerecaíramCom.o trabalho,pode-se
perceberque,emum, a angrístiafrenteà suasolidão,traduzidana faltadeum projeto
de vidae na ausênciadeum grupode amigos,haviamobilizado-oa recairJá,.com o
outro,a percepçãodequemuitascoisaso incomodavamnamulher- "queeunemvia
quândoestavadrogado"- e suanecessidadediscutiro queocorriacom elacons-
tituíramo impulsoparaa droga:"Assimmeucasamentoficavabomcomoantes".O
terapeutaapontacomoem cadaum a recaídateveum sêntidodiferenteApós. esta
fal4 G., que tinha permanecidoquietoa sessãotoda,diz que tambémrecaiu.O
terapeutainterpretacomopareciadifícilparaele falar sobreisso,já quecolocaseu
problemasomentequandonão há maistempo paÌadiscuti-lo.Na sessãoseguinte,
quandoo terapeutachamao grupo,G. nãoselevantaO. terapeutarepeteseunome,
maselepermaneceimpassívelQuando.seaproximadele,G. diz "Oi" e, apontando
ouvido,fala:"Não entendio quevocêfalou,hojenão possoir aogrupo,estasemâna,
semmaisnemmenos,fiqueisurdol".
Estafasedo trabalhoédifícile cansativaparao
terapeutaMuitas.vezes,brincáva-mosem nossaequipede terapeutasquea
nossaabordagempoderiaserchamadade "psicanálisepedagógica:do nariz
paradentro,mundointemo,do narizparafora, mundoexterno!".
Quandoo grupopodeultrapassarosofrimentodesteperíodo, quenemsempre
ocorre,há uma nftidançaqualitativaem suadinâmica,poisjá é possívelcaptara
dimensãopsíquicadodrogar-se a articulaçãoreale simbólicadissocõmosaconteci-
mentosda vida de cadaum. (Charles-Nicolas,1991)A passagemdo grupode
drogadictosparao grupode indivíduosquesedrogam(oü sedrogavam)élenta,mas
õãminhoda transformação,queimplicao indivíduona buscade
suasubjetividade, esLáaberto.

CAMINIIANDO

Lentamente,o assuntodrogacomeçaa esgotar-seComo.diz Zemel(Zemel,1992),


passada faseda desintoxicação, grupopodefalar da angústiade viver,compor-
tando-secomoqualqueroutrogrupoterapêuticoO. episódiodrogapareceterminado,
agorase tratada abordagemdos sentimentosde i-nsatisfação,dos conflitos,das
pqrguntasqueficaramsemresposta...Éclaro queháum temaquepermeiaasvárias
situações: dependência,poisé ela que,emúltima instância, caracteriza,adrogadicção.
(SilveiraFilho, 1995)Contudo,essaproblemáticaintegrou-seà históriaindividuale ao
mundointemode cadasujeito,ou seja,a funçãodadrogajá podeserperdida...

CONCLUSÃO

complexidadedo processopsicoterapêuticocomdrogadictosconsisteprimordial-
mentena entradano jogo paradoxalqueo drogadictoestabelececom a morte,onde,
pga qle 9l.epossasealtorizara viver,é obrigatórioroçarou morrer.(SilveiraFilho,
238 ZIMERMAN & OSORIO

jogo,
1995) Neste a aberturapsicanalíticaofereceuma altemativ
sujeito, pois, se, em um extremo,a análisetambém lida no morre
caminhosa serempercorridossãooutros.Na psicanálise,tal com
repetiçãoé parte integrantedo processo.Entretanto,enquanto,na
ção opera a favor da emergênciado novo e da diferença,na
depe repetir é ter a certezada etemidade,onde sebuscaa
potênciaexte se o definitivo e o absoluto.(Jorge, 1994)
grande desafio da psicanálisecom drogadictosfunda-se
discurso, que pode mediar, através da simbolização,a relação
moÍe comoprovaconcretaSua.possibilidadeé de articularum s
seperdeu,ou seja,na experiênciacom a droga,ondenão há palavr
ção, e é impossívelaoindivíduo identificar comoseue de suavida
propostaremeteao despertarimpossívelpara o drogadicto,recon
dado anteriormente,maspode ser buscadoinscrevendoo antese em
uma históriapessoalde um sujeitoparticular(Iorge,.1994;P O
trabalhoaqui expostoé o relato do caminho de noss
drogadictos,que, se teve como baseos pressupostosda psicotera
po, fundamentou-seno aprendizadocom cada grupo. Suascoloc
dem e não devem serestabelecidascomo verdadesinquestionávei
moscoÌrero riscode, identificadoscom os drogadictos,tomá-la
nes,pois isso significaria a nossamorte enquantopossibilidadete
viva e mutável.
Tal como Oliveinstein(1982),acreditamosque "a verdad
verdadefixa, mas é o movimento geradoem volta que vai determ

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22
Grupo com Deprimidos
CILBERTOBROFMAN

Estetrabalhoé o resultadodanossaexperiência a dealgunscolegas,quepartilham


delaatravésde discussõessobreo temae atravésde seusprópriosgrupos,no
atendi-mentode pacientesdeprimidosutilizandoa técnicagrupal.
Inicialmente,conceituamos,de formabreve, doençadepressãoalgumasca-
racterísticascomunsaospacientesdeprimidosEm. seguida,examinamos grupo
atravésdosaspectostécnicosutilizadose ascaracterísticasgrupaisquenosparecem
importantesno tratamentodestespacientesFinalmente,.colocamosalgunsatributos
do terapeutaque sãoúteis paraum melhorresultadonestetipo de trabalho,aqui
apresentado.

A DOENÇA

termodepressãoabrangesituaçõesquepodemserbastantedistintasentresi. De-
pressãopodeexpressarum sintoma,umasíndromeou umadoençaPode.expressar
qrÌadroscurtose abruptoscomriscode suicídio- comoum episódiodepressivogra-ve -
ou duradourose menosintensos- comodistimiaou personalidadedepressiva.
Pode,ainda,representarsituaçõesevolutivas de amadurecimento-comoa posição
depressivadeM. Klein -, ou mesmoreaçõesà perda,comoo luto patológicoEsses.
poucosexemplosdãoumaidéiado quadroamploe variadoqueexistecoma denomi-
nação"depressão"A. explicaçãoprincipalparaissoé o quesedenominade a equa-

çãoetiológica,ou seja,dequeformae comqueintensidadeessesestadosdepressivos


expressamumaetiologiabiológica,psicológicaou social.Além disso,sabemosque os
váriosaspectosdessastrês veÍtentesnão são estanquesentresi, ao contriáÍio,
complementam-sese interpenetramPor. exemplo,podemoster um quadrocom
manifestaçõesgenéticas biológicas,mas,aindaassim,deveremostrataras reper-
cussõespsicológicase sociaisquea doençarepresentaparaaquelapessoa.
Aqui no nossotrabalhoutilizamoso termodepressão.
(oudeprimido)nestesen-tido amploe genérico.

O PACIENTE
Assim comofalar em depressãoimplicauma diversidademuito ampla,tambémo
pacientepodeseapresentârem grausbastantediferentesda doença, quevai deter-
minar a condutaa ser tomadaEle. podese encontrarnumafasemaisaguda,onde
242 ZIMERMAN & OSORIO

predominamas distorçõescognitìvase as alteraçõesmotoras(lentifìcaçãoou agita-


ção), ou numa fase crônica e constante,onde convive com conflitos e afetos de or-
dem depressivaque ao longo do tempo e do uso constantede mecanismosde
defesa podem gerar desdetraçosaté uma estruturaçãodepressivada personalìdade.
As situaçõesgravesda doençasãode fácil reconhecimentoPorém. há um gran-de
número de pacientescujos sinais de depressãosão tênuescomo sintomas, mas
expressivoscomo prejuízo parao funcionamentoe o bem-estardestaspessoas.Ci-tando
Zimerman, vemos que "apesarda variaçãode forma e de grau das depressões algunsde
seussintomase sinaisclínicossão de presençaconstante,como, por exem-plo, baixa auto-
estima,sentimentoculposo sem causadefinida, exacerbadaintole-rância a perdase
frustrações,alto nível de exigênciaconsigopróprio, extrema sub-missãoao julgamento
dos outros,sentimentode perdado amor e permanenteestado de que l.í- algum
desejoincançável".
combinaçãoe a intensidadedessesaspectose dos conflitos inconscientesé que
vai determinaro papel q]Jeestespacientestenderãoa assumir dentro de um grupo e
o convite implícito para que os demais se encaixem com ele, constituindo
assimuma configuração vincular. Nessesentido,o grupo se toma um "cenário" pri-
vilegiado ondepodemosvisualizare apreenderasnecessidadesdos nossospacientes.

OGRUPO
Como é a finalidadedestaobra,veremosa seguiruma forma de setrabalharem grupo
com pacientesdeprimidos,utilizandoprincipalmenteconhecimentosdt ârea da
psicofarmacologia,da dinâmica grupal e com um referencialpsicoanalíticoamplo.
Desdejá, cabeuma importanteressalva:estaé apenasuma dasformas de se abordar
tais pacientes,certamenteexistem outrascom referenciaisteóricos diferentes- por
exemplo,as teoriascognitivo-comportamentais€de aprendizagemTodas.elas têm a
sua validade,embora atuem em aspectose instânciasdiferentesdo paciente.Além
disso,mesmoutilizando o referenciaÌpsicoanalítico,pode-seter uma ampla variação
de técnicase objetivos,que vão desde a supressãode sintomasaté mudanças
caracterológicas.
objetivo destegrupo é oferecerum tratamentocombinado,isto é, uma psico-
terapia de orientaçãoanalíticadirigida ao insìghtaliadaao uso, quandonecessário, de
psicofármacos.

A TÉCNICA
Este grupo se reúne duas vezespor semanaem sessõesque tem a duraçãode uma
hora.Ele é abertoe homogêneo.Acreditamos que em função das característicasdes-
tes pacientesele não deve ser muito numeroso,7 a 8 membrosno máximo.
processode seleçãodos pacientesé um momentode grandeimportância,uma vez
que uma boa indicaçãoe agrupamentosão fundamentaispara o êxito do trata-mento do
indivíduo e, portanto, para o melhor andamentodo grupo. Os casos de abandonosou
fracassosterapêuticossão vividos com dificuldade pelos demaispaci-entes.Isso é válido
para qualqueÍtipo de grupo, mas especialmentepara o de depri-midos, em função de

suasvivênciasemocionais:eles podem experimentarum refor- ço na idéia de que de fato


não vão conseguirmelhoraalguma,podem se sentir culpa-
dos, achandoque expulsaramo colega que saiu, podem sentir proibições internas
paramelhoraremcasoalguémdo grupo estejapermanentementemal ou podem ainda
sentir que o terapeutanão é cap^z de lidar com êxito com as suasdificuldades.
seleçãoé feita atravésde entrevistasindividuais, nas quais algumastarefas
devemsercumpridas:a) o estabelecimentodeum diagnósticopsiquiátrico com deter-
minaçãoda necessidade,ou não, do uso de fármacosantidepressivos,estabilizadore
de humorou outros;b) de um diagnósticopsicodinâmico;c) da motivaçãodo pacien-te
para se tratar em grupo. Este último aspectotem sido apontadopor vários autores
como o melhor preditor de que o pacientepermaneçâno grupo até alcânçarresulta-
dos satisfatórios.
Feitaa seleção,podemoster: um pacientecom indicaçãoe agrupável,um paciente
que não desejase tratar em grupo (o que deveráser bem examinado,pois isso pode
representaÍuma conseqüênciada suadoença- por exemplo,temer entrarno grupo e não
ser bem recebidoou ser rejeitado)ou um pacienteque não pode entrar no grupo por se
encontrarem uma faseagudada doença.Nestecaso,ele necessitaum grau de atenção
que seria difícil no contextogrupal. Não vemos contra-indicaçãotécnica para que este
pacienteque está em fase agudaseja atendido pelo mesmo terapeuta que o trataráem
grupo, quandoele estiver em condições,mesmo que tenhadecorri-do, por exemplo,
algunsmesesem atendimentoindividual.

,- Outro aspectotécnico, referido e de grandeimportância,é o de por que trata-
mos os pacientescom depressãoem gÍuposhomogêneose não os agrupamosem
grupos heterogêneoscom pacientescom outras pâtologias ou estruturaspsicodinâ-
micas. Isso correspondeà nossaobservação,e a de algunscolegas que a corrobora-
ram, de que as pessoascom estruturasdepressivastrabalham melhor e se sentem
melhor em gruposhomogêneosVejamos.um exemplo:é um grupo heterogêneocom-
postopor 5 adultosjovens (22 a 34 anos).Um dessespacientes,Julia, 27 anos,é uma
profissionalliberalde nível superiorquevem a tratamentocom grauelevadode insatis-
fação com seu desempenhoprofissional e afetivo, além de uma âuto-estima muito
baixa. Descrevevários namoroscurtos e frustrantes,nos quais gemlmentese sente
pouco queridae por conta disso seseparaou gerauma separaçãoSeu. papel no
grupo se manteve relativamenteinalterado ao Ìongo dos 2 anos em que participou

dele. Quasesempreiniciava as sessões era quem tinha asfalas mais longase


suatemática dava voltas na sua desesperança sensaçãoque com ela tudo era mais
difícil, como am:mar namoradossatisfatóriosou ter mais sucessoprofissional.
Os outros membros do grupo por um longo períodotiveram uma postura de
consolo e um confronto carinhosocom esta "realidade" apresentadapor Julia. Nos
mesesque antecederama sua saídado grupo, além de ouvirmos alguns relatos de
feitos e conquistasde dois membros,começarama surgir sinais de desconfortoe
initabilidade no gÍupoem relaçãoao papel rígidoque Julia desempenhavaApesar.
dos constantesassinalamentos interpretaçõesfeitas pelo terapeutaacercada sua
condutâ repetitiva,Julia difícilmente fazia tm insight ou uma reflexão destesaspec-
tos e dos conflitos que os geravam,permanecendo"presa" em suasdistorções
cognitivas.Em uma ocasiãoem que ela apresentoudisposiçãodiminuída e alteraçõe
de sono, o terapeutapropôs e instituiu o uso de antidepressivosApesar. de ter tido
uma respostafavorável,Julia passoua se descrevercomo a única pacientedo grupo
que usava medicaçãoe, "portanto, uma prova de que com ela as coisasnão davam
certo mesmo".
Como já foi citado, 2 anosapós,Julìa deixou o grupo praticamenteinalteradae
caregando consigo um reforço de suascrençase que, provavelmente,o grupo e o
terapeutanão teriam gostadoo suficientedela.
244 ZIMERMAN & OSORIO

Acreditamosque Julia teria melhoresresuÌtadosnum grupo


algumas dificuldades suas seriam melhor manejadaspelo terap
Vejamos:

No grupo anterior,pelo fato de haver pessoascom o ego mais


Julia se viu compelida a estabelecerum papel monopolista(a
sasfalas),como a denunciara suanecessidadede receberaten
o grupo e o seutemor de que,casonão procedesseassim,pod
Num grupo de "iguaìs", Julianão se sentiriadiferente,e prova
tanta necessidadedestepapel e do vínculo que ele propunha
bros.
Pelofenômeno da ressonâncía,eÌapoderia comparÍilhar co
bastantemaior os seusconflitos e suasconseqüências,fazen
sentisse"especial", "a única".
Tal situação (o compartilhar) vale também para um uso "p
psicofármacos,isto é, um uso aceitoe incentivadopelosmem
vez que em um ou outro momentoquasetodoselestêm neces
mentose podem dividir os resultadosobtidos.
Neste tipo de grupo seriamais fácil paraJulia sentir-serecon ficar
que ela compartilha com um ou mais membros do gru
ansiedades- por exemplo, que não é tão agressiva quanto
função dessereconhecimentosentir-semembro efetivo do gr
coesãogrupal). Tal atitudefacilita bastanteque os pacientesp
com os outros a função analíticadapersonalidade(Bion), aju
criminar melhor suasrealidadesintemae extemae a corrigir di
como as que Julia apresentou.

Um último comentáriosobreaspectosda-técnicadiz respei


tante de psicofarmacoterapia psicoterapia,compondoo que tem
trotamento combinado (como ficou claro ao longo do texto, é a t
mos).
Tudo o que diz respeitoao uso dos medicamentos- tanto os
como indicação,efeitos colaterais,etc. - e os aspectospsicodinâ
nham o seuuso, tais como reaçõesde dependênciaao teÍapeuta,r do
paranóide, vivência de fracasso,etc. - são discutidos e exa setting
grupal sempreque necessárioou quandoapareçao tema. que os
próprios pacientesfaçam indicaçõescorretas para o uso para si
como para os demais membros,o que se deve à sua sen doençae
experiênciano usodosremédios.

AS CARACTERÍSTICASGRUPAIS
campogrupal propiciauma sériede fenômenosde funcioname
trabalhoterapêutico.A utilização dessesaspectosno tratamentoé
diferençasentre o âtendimentoindividual e o grupal. Embora
grupos,revisaremosagoraaÌgunsdestesaspectos,que são particu
tes, na dinâmica do grupo com pacientesdeprimidos.
Vamos começarcom um exemplo: Eduardo, 30 anos, com
fase de pós-graduação,vem a procura de tratamentoem grupo. T
Apósum breveperíodoinicial,emquepermanecemaisquieto,F/uardocom ça
deformacrescenteafazerrelatoscadavezmaislongose detalhadosde inúme
aspectosdo seudia-a-dia:comotinhatidoum ótimofim de semana,ótimospasse
comosesaíabemnosestudosnosesportes,mas,principalmente,oseurelatominuc
sodesuasconquistasdemulheresEstas.situaçõesobedeciamum padrãorepetiti
Eduardoseempenhavanaconquistae, assimquea pessoaseenvolviaafetivame
comele,vivia umafasede intensapaixão,porémnápida,e logoem seguidaacom
nhadapor um totaldesinteresse suaparte,quandoentãoseseparava.
As outraspacientesdo grupo(comexceçãodeEduardo,eramtodosmulher
passaram,por suavez,a ficar maisquietas,a formarumaplatéiaque ouviaaten
mente.Havia um certo prazerno grupocom a situaçãoque se criou a pontod
quandoEduardoestavamaisquietoou nãoiniciavaa sessão,alguémo convidav
fazêlo.
Essearranjoduroupor voltadeuns6 meses,ondeo grupoficou deslumbr
(semluz própria)com os relatose, portanto,submetidosà situaçãoSentiam.que
seustemasnãoerammaisimportantes,maso de Eduardosim.Aqui vemoscomo
podelidar de formasdiferentescomossentimentosdepressivosEnquanto. paci te
empregavadefesasnarcisistasparatentarpreenchersuasintensasexpectativas
quesupunhaqueosoutrosteriamdele,osdemaismembrosdo grupoempregava
submissão.
Apesardasinúmerasinterpretaçõesfeitas pelo terapeuta,o arranjonão sof
alteraçõessignificativasEduardo.aceitavaintelectualmentequetinhamuitasmulh
res,quetalvezfossebomter umanamoradafixa,masaomesmotempoâdmitiaqu
situaçãolhe davaprazere o colocavaem destaqueperanteos amigosAs. mudan
maisefetivasiniciaramquandoos membrosdo grupocomeçaram "secansar"d
relatosde Eduardoe a estabelecercríticasà suacondutade "Don Juan",algum
delascom agressividadeExpressavam.tambémumareclamaçãocom o espaçoe
cessivoqueo pacienteocupavano grupo,iniciando,então,a rompercomsuasubm
sãoao papelmonopolizadorqueEduardotinhaestabelecidono grupo,assimco
faziaem seus"gruposextemos"(amigos,colegas,família,etc.).
situaçãohoje,2 anose meiodepoisdo ingressode Eduardono grupo,é ba
tântediversaEle. pôdeabrandarsignificativamenteâsuaposturanarcísicae, dep
de duasou trêstentâtivas,temumanamoradaestávelhá 1 ano.Verbalizouao gru
que se não se sentisseno "máximo" de seudesempenhotemiaserum "chutad
(umafraude)e quenãotoleravaessaidéia.
Nesseexemplo,alémde algunsaspectospsicodinâmicosindividuaise
de u modalidadedeconfiguraçãovincularquesecriou,podemosver
algunsdosmecan mosgrupaisquesurgirame tiveramutilidadeterapêutica:

O grupofuncionoucomouma galeriade espelhos,ondeos pacientespuder


refletira imagemdeEduardo,ajudando-ao seconfrontarcomsuaimagemrea
a corrigirsuasdistorçõesIsso.estácontinuamenteocorrendonum grupoque
encontracoeso,
Ospacientestendema .escutarmelhoroscolegasdo grupodo queaoterapeut
medidaqueasváriasmensagensapontaramna mesmadireção,ficou difícilpa
Eduardomantersuasnegações onipotência.
246 ZIMERMAN & OSORIO

O estar em gÍupo é um elementofavorecedorde um aspectomuito importante para


o pacientecom depressão:o exercício da capacídadereparatória- Aluta
menteEduardopodeprestarmais atençãoaostemasdoscolegasdo grupoe ajudá-
los com colocaçõesimportantesEm. uma ocasião,ajudouum colegaem uma
situaçãoextemaao grïpo,com seusconhecimentosprofissionais.
Existemoutroselementosgrupaisnão tãoexplícitosno exemplo,masdegrand
importância:
O grupo funciona como um crntinente (Bion). Essafunção pode seestabele cer
com o grupo como uma abstração,com o terapeutae com os colegasdo
grupo. Tal aspectovai ajudar o pacientedeprimido, atravésdo processode
desidentificação/neo-identificação,recomporumafamíliaintema,quecom
muita freqüênciase encontradanificadaEle. passaa estabelecerum novo
sensode identidade:"Eu sou alguémdentro do meu grupo".
Pelofenômeno da ressonítnciuopacientetem facilitado o seucontatocom os
seussentimentosreprimidos,âtravésdo temacolocadopor outropaciente.
O estarnumgntpohomogôneopermiteo compartilharde umasériede aspec
toscomunsa estespacientesIsso.trazrepercussõescom efeitosterapêutico -

por exemplo:ele nãoestásó, o queé um sentimentocomumao deprimi-do
(como foi comentado,a pacienteJulia, descrita no primeiro caso, não
podeter o benefíciomaisamplodestesdoisúltimosaspectosrpor estarnum
grupo heterogêneo).
No grupo, o pacientepode exercitara sua capacidadede socialização(com
freqüênciaprejudicada),melhorandocom issoaspecto de conJìançabásìca

Pelo exposto,acreditamosque a técnica grupal constitui uma ferramenta


privilegìadaparao tratamentodosnossospacientescom depressão.

O TERAPEUTA
Que atributosdeve ter alguémque se proponhaa trabalharcom deprimidos?Em
primeirolugar,deveconhecera fundotodasasvicissitudesqueestadoençaamplae
multifacetadaapresentatantodo pontode vistabiológico(psicofarmacológico)como
psicológicoe sociaÌ,mas,principalmente,quesesintaà vontadeno seucontatocom
deprimidoe possamanterum interesseconstantepor ele. Isso é extremament
necessário,porque,ao longo do tratiìmento,que muitas vezesdura anos,o terapeut
seráquestionadoconscientee inconscientementese agüentaas desesperanças,
ambivalências,asagressõesdospâcientes,ou seja,seele,o terapeuta,tambémnãoé
frágil,deprimido.Em outraspalavras,eledeveexercerumafunçãocontinente(Bion) oD
de holdinq (Winnicott) firme e constantemente.
Por outrolado,atendero pacientenão significasó sersimpáticocom ele,usar
palavrasde estímulo,etc.,significaprincipalmenteentendê-lo,poisqualquerpesso que
sofre desejaser entendidomas o deprimido necessitamais que qualquer outro
doente.
E, fìnalmente,em relaçãoao tratamentoaquiexposto,é precisoque,como diz
Val, o terapeutapossater a capacìdadepara tolerar um certo grau de ambigüidade
(nosaspectosetiológicosda depressão) flexibilidade(nos métodosterapêutico para
poder oferecer rm tratamentocombinadocom convicção.
COMO TRABALHAIÍOS COTÍ ORUPOS 247

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BELTRÃO,S.iBROFMAN,G.;CORONEL,L . C.;FRAJNDLICH,R. AvançosemgÌupoterapiaTema.
apresentadono VII Ciclo de Avançosem ClínicaPsiquiátrica,1995.
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umarevisãoTemalivre.do lff CongressoLatino-Americanode PsicoterapiaAnalíticade G.upo,
t992.
PUGT, !. et al. El grupoy susconflSuracianesBuenos.Aires:LugaÍEditorial,Ì 991.
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Bion,da teorìaàprátìca:umaleituradidáticaPorto.Alegre:ArtesMédicas,1995. ZIMERMAN, D. E.
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Revistado Centrode EstudosPsicanalíticosdePortoAlegÍe,ano 1, n" I nov 1992.
'
23
Grupos com Autistas
SONIMARÍA DOSSANTOSLEWIS
VIVTANECOSTADE LEON

É possÍvnr,r
Pareceum paradoxoescreversobreexperiênciasde trabalhocom gruposde indivídu-
os autistas.Na verdade,é mais um desafio nesteenìgmaqtl'eé.o d,epermanecersó,
mesmo cercado pela família, ou por companhelros,ou simplesmentepor outros.
Aprendemosque o tratamentodo indivíduo autistaá uma tarefa de vida,portantu, o
qre esperamosé que os que estiverempróximos, de alguma maneira,de um indiví-
duo autistapossamcom estaleitura se sentir ajudadosa ajudar.
pníticaclínica com grupos de indivíduos autistasdeveráconsiderarinicial-mente
o conceitode tal patologia,bem como sua abrangênciano que diz respeitoao
continuumautista.
O caso de Donald, descritopor Leo Kanner em 1939 (Kannér, 1943), oferece-
nos uma clara idéia destetipo de patologia:

Ele perdia-se sorrindo, fazendo movimentos estereotipados com seus d,edos,cru-


zando-osno ar. Ele movimentavasua cabeçade um lado para outro, sussurrandoou
cantarolandoas mesmastrês notas musicais.Ele rodopiava com grandeprazer tudo
o que era possível... colocadoem uma sala, desconsideravacompletamente
Quando
yoltava
as pessoase instantaneamentese aos objetos, de preferência aqueles que
rodavam...Elefuriosamenteempurravaa ntão de quentestivesseem seucaminho ou
o pé de quempisasseem seusblocos".

Loma Wing descreveo que conhecemoscomo Tríadede l/ing: aspessoascom


autismo apresentamdéficits específicosnas áreasde irnaginação,socializaçõo e co-
municação.
Se hoje é aceitoo conceitode que existemníveis de autismo,bem como níveis
de retardo mental associado,podendoessenem estarpresente,seria natural pensar
emumcontinuumou espectromais amplode tal desordem.Se tal conceitoé aplicado
na prática, a ocorrênciadestequadrosobede 4 casosa cada 10.000nascimentospara
20, conforme estatísticasda escolainglesa.
Vê-se, portanto,que não se tmta de uma patologiamuito rara.

Agmdecemos com emoção aos pais, aos estudantese à equipe do CINH a possibilidâdede ter colabomdo nestaobm.
250 ZIMERMAN & OSORIO .. \\

Não há dúvidas de que os problemasna áreada socialização,em


autismo,sãoos mais pervasivos,complexose difíceis.Issotambémé
que o comportamentosocial apresentarequisitos tle linguagem,pen
tendimento(Mesibov e cols., 1986)e ocorreem todos os contextos:es.
e atividades fami Ii ares.
Desenvolvendocomportamentossociaisem pessoâscom autis
melhorar as suasrelaçõescom o outro e com o restodo mundo, o que fa
diferençana vida dessaspessoase de suasfamílias.Pesquisasrecente não
é somente o comportamentosocial atípico o que diferencia o auti
patologias,mas, além disso, a coordenaçãoe o uso dessashabilidad
mentaisem respostaà emìssiiodo outro.
Nas pessoasnormaise mesmonos indivíduoscom retardomen
masde autismo,existem muitasrazõesparaaprendera trabalha4 a pro
zar "trocas"; elas querem estar enxcontato, datr,receber,agradar ma
elas queremseu sorriso, elas querentser cornoeles...Contudo,essamo
na é origináriade um nívelimparcialde abstraçãosocial,objetivode b
dadeparaos autistasEntão,.seassimsetomanecessário,éfundament
comnmamotivaçõoexterna,um estímuIo motivadorconcreto.Esseimp
vo na práticaclínica,cuja finalidadeé potencializar vida diáriadest pode
ser alcançadoatravésda metodologiaTEACCH.
TEACCH - Treatmentand Edncation of Autistic and Related Co
HandicappedChildren(Tratamentoe EducaçãoparaAutistase Criança
Relacionadosà Comunicação)- é um programaqueenvolveasesferasd
educacionale clínico em umaprática predominantementepsicopedag
Ele teve suaorigem em 1966,nos EstadosUnidos, na Universida do
Norte (Escolade Medicina,Divisão de Psiquiatria)Foi. criado
Schoplere col., atravósde um projeto de pesquisaque procurou quest
clínicadaquelaépoca,na sociedadeamericana,em que seacreditava
tinha uma causaemocional. Para essegrupo de pesquisadoresincom
clássicareferenteaos pais: que essesseriamos agentescausadoresda
d filhos e que, portanto,deveriamficar colocadosfora do processotera
Em 1972,o ProgramaTEACCH recebeuautorização,atravésda As
ral do EstadodaCarolinadoNorte,paraqueentãofosseconstituídaaDivi
localizadano Departamentode Psiquiatliada EscoÌade Medicina, da U
Carolina do Norte, em Chapel Hill, EstadosUnidos. Esse foi o prim
estadualreconhecidocom baseem umprogramacomunitáriodedicadoa pr
nos serviçosvoltadosao entendimentoda patologiado autismoe suasc em
indivíduosportadoresda síndrome,bem como em seusfamiliares.
Divisão TEACCH tem desde então servido como modelo int como
estruturârlocais de atendimentoa indivíduosautistas.oDerand tros
regionaisna Carolinado Norte, abrangendoiíreascomoavaliaçõo,de to de
curriculwn individualizado, treinanlentode habilidades sociais de

atividadesvocacionais,aconselhameníopara pais e formação sobr


TEACCH para profissionaisda área. Além disso, a equipe clínic TEACCH
presta assessoria salasde auÌa, residênciasespeciaise ou
comunitáriosvoltadosao bem-estarde indivíduoscomautismona Carol
Também em 1972 o Programa TEACCH recebeu uma premi
AchievementAwarrl - pela AssociaçiroAmericanade Psiquiatria,por es
nível excelentede pesquisasprodutivas relacionadasa transtomosdo
mento e implantar uma efetiva aplicaçãoclínica do suporteteóricoest
COMO TRABALHAI\IOSCOTI GRUPÔS 25

Em 1980,na ConferênciasobreFamília, na CasaBranca(White House Conf


renceoíthe Family), o Instituto Nacional de SaúdeMental (Families Today) descr
veu o TEACCH como sendoo mais eficaz programade estadodisponívelnos EU
para indivíduoscom autismoe outros transtomosda comunicação.
No Brasil,a suautilizaçãoiniciou em 1991,no CentroTEACCH Novo Horizont
em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, e vem sendo ampliada para outros Estad
(Lewis,1995),seguindocom fidedignidadeos parâmetrosestabelecidosoriginaÌme
pelo Dr. Schopleç tendo recebido,inclusive, o seu apoio para a utilização do nom
"Centro TEACCH Novo Horizonte".
Os comportamentosadaptativossocialmentedesejadosque faltam no repertór dos
autistasvariam de indivíduopara indivíduo. Podemserhabilidadesacadêntic (ler,
escrever,discriminar cores,contar, etc.),ativ idadesde vida diária (vestir-se,alime tar-
se,ter controledos esfíncteres,etc.),soclcrs(sabermanteruma conversa,namor fazer

compras,andarsozinhona rua, etc.)oü prortssio[dis (ter um trabalhoou ocup ção).


Todosessescomportamentosadaptativosmerecemum progrâmaespecífico(in
dividualizado)paraserdesenvolvidono grupo,segundosuascompetências dificuldad
observadas registradas, nãoa partirdassupostas'taracterísticastípicasdasíndrom
atendimentoterapêuticosob forma de grupostem sido mais eficaz atravésd
técnicasde modificaçãode comportanerúo,mais precisamente,sob os princípiosd
metodologiaTEACCH, que associaa essastécnicaso estudoda psicolingüísticaD.
cadaabordagemforam retiradosdeterminadoselementosque,juntos, enriquecera e
deram suporteteórico à prática clínica do TEACCH.
A influência da psicoterapia comportamentalestáLclara na ênfasedada à estr
tura, paÍticularmentenos estágiosiniciais do aprendizadode repertóriosde condu
básicos,na especificaçãode comportamentos-alvo,bem como nas suascondições
conseqüênciasao se eliciar determinadaconduta e também ao propiciar aquisiçõ
de repertórioscom o uso de reforçadoÍesepronÌpt(realizarpelo e con o sujeito).
A preocupaçãofundamentaldesteenfoqueé trabalhardiretamentesobreos com
portamentosobserváveisdo indivíduo,tentandoaumentaro seurepertóriode compo
tamentosadequadose diminuir e/ou modificar os comportamentosinadequadosqu o
caracterizamcomo indivíduo autista.Procura-setransformarseu "funcionamen autista"
ou "anormal" de atuar no meio ambientefísico esocial, visando a diminu ou
neutralizaros efeitos negativosdo estigma.
Quanto à basepsicolingüística,essase evidencianas categoriasde comunic ção
propostase utilizadas pela metodologiae na importância atribuídaà escolhad objetivos
que sejamcompatíveis,o mais próximo possível,com a idade cronológic do
eshrdantecom autismo.
Constituímos,dessaforma, o que entendemoscomo princípiosnorteadoresd
nossotrabalho:
.
Busca de entendimentoexaustivo de como ,í, como pensa, como age, tanto
criança quânto o adolescenteautista.
Determinaçãode objetivosespecíficos claramentedefinidoscom relaçãoà terapi
Especificaçãodos repertóriosde comportamentoque a criança pode ou não de
sempenhar,sem fazer uso de rótulos, categorizações interpretações.
Elaboraçãode planosterapêuticosindividuais (que podem ser desenvolvidose
grupo) com clara definição da respostaesperada.
Atenção constantenaquilo que vemos a criança ou o adolescentefazer, com re
gistrosimediatos.
Seleçãocuidadosade comportamentosque sejamrelevantes.
14, ZIMERMAN & OSORIO

. Divisão do comportamentofinâl esperadoem tantospassosquantosforem neces

. sários,numa seqüênciaprogressivae repetida.


Utilização de reforçadorese de estímulosdepreparaçãocomo recursosdisponí
. veis ao plano terapêutico.
Uso de comunicaçãoalternativacomo: linguagemporfotos e cartões/linguage
gesíuaulinguagemverbal curta e objetiva.

Em termos práticos, apresentamosum exemplo de plano terapêutico indivi-


dzal. (Ver figura l.)
Segue-seum relatório mensaÌonde são realizadosos registros para posterio
estudoe elaboraçãode um gráfico com os comportamentosadquiridos,os comporta
mentosemergentese os comportamentosnão-adquiridos.(Ver figura 2.)
Finalmente,é possívelobservarque âs basesdo Método TEACCH - ou seja,a
psicoterapiacomportamentale a psicolingüística- convergempara os princípiosde
funcionalidade(expressapela visão comportamental)e da pragmática(expressapel
visãopsicolingüística).
Através do TEACCH, na nossaprática clínica,procuramosensinarcriançase
adolescentescom autismoa se comunicaremcom mais significado,em maior núme
ro de situações,e com mais propósito,em todasascategoriassemânticas:aonde/co
quem./dequeforma; e funçõesda comunicaçãoc omo: pedir/solicitar atenção/rejei
tar/comentar/dar e buscar i nfornta ções.
partir do levantamentodasáreasde habilidadese de comportamentosemer
gentes1â é possíveldar início ao trabalho terapêuticocom ênfase nas necessidad do
indivíduo.
O ideal é que ocoÍra em um retÍi?g estruturadodepsicopedagogia,pois é fato
comprovadopor pesquisadoresda Divisão TEACCH, da Universidadeda Carolin do
Norte, EUA, que a falta de estruturaaumentaa falta de objetivo na ação,e também
aumentamos comportamentosestereotipadosPor. settrnSestruturadoentende-seum
espaçofísicoque deva ser indicador de açõese atitudese qve a atividade propost
deva ser clara quanto ao que deveserfeito.
Em nossotrabalhodiário, sepropusermosuma atividadecom um materialcomo
massinhade modelar,por exemplo, é muito difícil que um estudantecom autism
entendao que é esperadodele naquelemomento/o quanto ele deverá realizarlo que
realizarádepois.Ao contrário, se a atividadepropostafor, por exemplo, de empare
lhamentode figuras iguais ou encaixes,aschancesde que suaperformance sejaade
quada são imensamentemais altas,pois há, na própria atividade, orientadorescon
cretos do que deve ser feito.
Por isso, no espaçode trabalho,há a necessìdadede uma organizaçãoclara e
previsívelque diferencierírea livre de área de trabalho, tanÍ.q\anto a de estímulo
orientadoresem rclaçãoà duração do traballn.
Como podemosinformar o tempo para os estudantescom autismo?
Através de sinalizadoresconcretoscomo Cespertadorou alarme utilizados no
pulso, relógio de paredeou na mesade trabalho,ou ainda uma sineta.
Lembramos que a utilização de estratégiasdessanaturezairá asseguraruma
qualidadede desempenhos a conseqüenteconvivênciano grupo com um mínimo d
alterações,seja na instituição seja em casa.
O grupo de autistasé um grupodiferenciadoem razãoda situaçãoem si, ou seja ter
que dividir espaço,material,atividadese lidar com a proximidadefísica do outro
elementosque já se constituemnum desafio para aquelesqtsetèm preferência pela
atividade solitária, repetitívae estereotìpada.
COMO TRABALHAMOS COM CRUPOS . 253
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254 ZIMERMAN & OSORIO

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COMO TRABALHÂI!íOS COÀt GRUPOS

FIGURA
3. Organizaçãovisualda atividade.

FIcURA
4 . Modelode instÍuçôesvisuais.

em grupo com autis.Ías dividir


,. . .Trabalhar não signijìcafazeras coisasjuntos. Significa
algumascoisas
.estarpróximo, trocú sinaii indicadoresde algo, cãm um
minrmode "crises". potencializar
Faz-senecessáriomantera atividadeindividualizãdaa fim de a
performancedo indivíduocomo um todo.
Sãofreqüentes tilação, quando as
._ os distúrbiosde comportamento,como crisesde birra e automu_
atividadesgrupaisnão estãosuficientementeestruturadase sob o
total controle do terapeuta. uma situaçãopor
Essastendema aumentar,se o indivíduo se encontraem
demaiscomplexa,da qual não consegueter o devido entendimento.
As
. relaçõeshumanasnão sãoprevisíveis,nãotêm regrasrígidas e dependemde
sinaissubjetivoscomotonalid.adeãa conversa,proxìmidãde .Sísiïa,

maneira d.eolhar
e escolhadaspalayras .
Os estudosda teoriade mentede Uta Frith e col., mais recen_
temented,eFrancesca
Happé, explicam por que estâsquestõessão tão problemáticas
para o rndrviduo
com autismo: a incapacidadede se colocar no htga-rdo outro, de
simbolizar e de atribuir
idéias, sentìmentos intençõespara aquilo que escutae vê.
256 ZIMERMAN & OSORIO

FIGURA5 . Alunosdaturmadosjovensematividade
individualizadacompartilhandoespaçoÍísico.

As criançase os adolescentescom autismo apresentamuma dificuldade extr


ma de entendere introduzir-se no pensamentodo outro, mesmo quando não tê
retaÍdo mental associado.
enigmapermanece,porém já temosmais clarezaquantoà naturezados tran
tornos: provavelmente estão ligados a transtornos específicosnas áreas d
mentalização, conexão e representaçtío
-
Portanto,já no contatoinicial, deve-selembrarque a baseda comunicaçãoco
uma criançaou adolescentecom autismoéda ordemdefrases simples,compalnvr
comunse objetivas,com apoio de gestose informaçõesvisuais comofotos ou cartõ
em murais de apoio, a fim de facilitar o entendimentoda linguagem falada, que
utiliza de signos que requeremum nível de simbolizaçãomuitas vezes demasia
paÍao autista.

FIGURA 6.MuÍalde apoio: organizaçãodas roupas.


AulorizadoporC. Gillberg,Md & T. Peeters,Áutism,1995;publicaçáo:JANssEN-CI
FIGUBA7. Boupasorgânizadasde acordocom a ìndicaçáodo muralde apoio.
AutorjzadoporC. Gillberg,Llld& T. PeeteÍs,Áullsm,1995;publicação:JANSSEN-CILA

FIGURAS .Muralde apoio:indicaçõesdo usoe organizaçãodos objetos.


AutorizadoporC.Gillberg,Md& Ï. Peeters,Áullsm,1995;publìcação;JANSSEN-C

Para o indivíduocom autismo,e.rÍarem grupo êumdesafio constante.É como


estarsemprena fronteira de um paísem que não se sabea línguae não
seconheceos costumes.
Parece-nosimportantetrazero relatode Donna Williams, autista,que revela em
sua autobiografia (Nobody Nowhere, 1992) que se trata de "uma história de duas
batalhas,uma batalhaparamantera/astadoo mundoe
outrabatalhapamcompartilhá-/o: "Eu tenho sido atravésde minha própria luta: ela,
você, Donna, para finalmente serEu mesma.Se você sentira distância,você não
estáenganadoEla. é real.Bem-vindo ao meu mundo".
Os tópicosde conversaçãode indivíduoscom autismotendema ser idiossincrá-
ticos: sapatos,músicas,carros,etc. Podemospartir desteponto inicial para mostrar
258 ZIMERMAN & OSORIO

como seinteragee seensinasinaisqueorientemo quântoo outroe


ressadoou não nestesassuntos.
No Centro TEACCH Novo Horizonte,iniciamosensinandoco
em grupo. Através de situaçõesextremâmenteestruturadas,partire
dividual,após,paraatìvidadesemdupla,depois,em trio,e assimsu
alcançarmoso repertório básico para que seja possívelrealizaralg
com todo o grupo terapêuticodo qual determinadoestudantefaz pa
indivíduos).
Entendemospor situaçõesextremamenteestruturadasaquela
mitação do espaçofísico, sendo muitas vezes necessáriocont
minimizaçãodos estímulosdo ambiente,indicadoresvisuais(fotos o
roteiro da ação esperada,demarcaçãodo tempo de trabalhoe, se
fo ção físicaparaqueo indivíduocom autismopermaneçana ativida
No trabalhoinicial, as respostastendema ser melhoresqua
feita um a um com o terapeuta,sentadosfrente a frente. Os com
compõemo repertóriobásicode condutasocialsãoos seguintes:
.
Emitir contatovisual.
.
Atender ao seu nome.
.
Respondera instruçõesvisuaisou verbaissimples.
.
Permanecersentadopor um períodomínimode l5 minutos.
.
Tolerar a proximidadefísica.
.
Sercapazde participarem atividadessimplescomoencaixes,o um
livro.

Como estímulosde apoio,faz-senecessírioo emparelhamen


posta com estímulosreforçadores(tudo o que for possívelobserva
para o indivíduoautista- por exemplo,música,revistas,quebra
comestíveis,um abraço,etc.).
Para que se alcanceo nível de interaçãodesejadonesteprim
trabalho,apresentam-seatividadesque sejammuito clarasquantoa
queestásendoesperadapelo estudantePor. exemplo:encaixessim
jogos queenvolvamtoquee som,ou atividadescorporais,como ba
Num segundomomento,o terapeutaincluina atividadeoutra
faixaetáriae com o mesmonívelde funcionamento,masaindase
quesejaumaatividadecooperativaentreambos.Caracteriza-seco
que se chamade ativìdodede brinquedoparalelo.
Comotodo o aprendizadohumano,a aquisiçãodo comporta
bém sedá lentamente em seqüênciaAs. vezes,esquecemosque i
parapessoascom atrasodo desenvolvimentoacabamospor inicia
clínica
pelo comportamentoJhnl: línguagemverbttl.
Essaseqüênciaenvolve:

. Treino da atividadesolitária.
. Treino da atividadeparalela.
jogos.
. Treinoda capacidadede dividir os materiaise os
. Treinoda atividadecooperativaem gÍupo.
COMO TRABALHAÀÍOSCO]!I GRUPOS 259
Efetivada a seqüênciasugerida,
po.st{9r à aquisição da capacidadepara per_
manecerem gÌupo
adequadamente,é dadaênfaseà interâçãoenrreseusparese não à
interação
inicial do indivíduovoltada para o obiero.
Podemospassarentãopara
momèntosde óompartilhartarefasdo cotidiano.
As atividadesaté aqui
. descritaspodemserrealizìdastantopor indivíduosautistas
verbaisquanto pelos não-verbars.
Através da culinária_(atividade
atividadede profissionalizante desenvolve
que
mos com todos os estudantes
d -oCTNH), podemós,por exemplo, trabalhardiversos aspectosenvolvidosna
in(eraçãosocial,como:

. Esperara sua vez.


. Dividir o espaçofísico.
. Realizar a tarefaem grupo.
. Compartilhar interessese finalidades.
. Atenderàs solicitações do outro.

. Trocar experiênciai (um poderá ser muito


bom em descascar

outroo é em separarou preparar


frutas, enquantoo
. chegara umaconclusão os ingredientes).
(refeição
conjunta(exemplo : sala dade frutas).

. Dividir o prazer do produto final feita em conjunto com o alimento


preparadopelo grupo).
O que sepropõe é que
a atividadede grupo seja realizadada seguinteforma:

' os gruposdevem ser.pequenos com uma

grcae nlversde ïunctonamento com idadecronoló-


média de 6 pessoas,

tantoquantopossível

. Deve haver uma rotina previsível qué p.op-"ion"


semelhantes.
uutonoÀiu e segurança

seusmembros. aos
. Deverá havermais momentos
de atividadcsgrupaisprogramaús do que ativida_

des grupaislivres (estas devem ser evitadas).

. Deveráhavermais momentos .Juntos,,,


individuais,mas do que
de..atividades

atividadesgrupaispropriamenteditas.
. 9:110^:."^r grupal,
essadeveráser de nívelleve de dificuldade,jamais
"jividade
atgonovo,a llm de quea atividade
o espaço da interação.
sejafacilitadora

' pontos
físicoe a proximidade

fÍsicicom o outrosàoos

dade em grupo,
Íbrtes
da ativi_

mas no caso,na maioria das uer"s,.udu u'Áestarárealizando


suaatividade,em
a

suamesa,com.oseumaterial,havendo,no entanto,a mediação


da
. terapeutapara que todos estejamem comunicação.
A convivência mais produtiva em grupos
com passos
segueum programa de treinamento
específicos determinados
individualmente,
ser cuidadosamente onãe cadaatividadedeve
estruturada.
,._._^ïl y]tli 9:r nossasexperiênciaspodemosafirmar, observan
do a performance
trvreoos tnotviduos com

envolverem. de recursósparase
autismo,que exisle-umaprecariedade

e aproveitaremqualquer
jogo,
ngura^tz, observa_se estaprecariedade
tipo de Èrinquedo ou atividade livre. Na
de recursoscomportamentals.
g terapêuricoé organizado
anuoes, e possÍvel buscando,". indi"odo. de ações,
-.,*.r^a:":O_.^:-,Ìitjrnobservar
maior envolvimento

como qualidade
do autistacom a atividade, te;

uma acentuadafrente a tal solicitação:


o contatovisual, seguimento

d€ arenção.todos esseselementos
9:llr.,.T"ï' ll"el se elevam e, por outro lado,

as
qrmrnuem

estereotlplas o comportamenlosde birra.


260 ZIMERMAN & OSORIO

g.Alunos
FIGURA da turmadosjovensem trabalhoindependentecom da
DorteraDeuta.

FIGURA10. Alunosda turmadosjovensem atividadede dupla.

FIGURA11.Alunosda turmado primárioem aìividadede dupla.


COTÍCRUPOS

FlGUBAl2. Alunosem atividadelivreevidenciandoestereotipias.

Porém issorequerconhecero paciente:


.
Saberque condutasadquiridasfazem parte de seurepertório.
.
Que comportamentosestãoemergindo.
.
O queaindanão estáadquirido.
fim de to e
favorecero entendimentodo queé esperadodo pacientenaquelemom
do que
exatamenteele deverá realizar, faz-se fundamãntal o planeiament trabalho.

FIGURA13. Sen/hgde trabalhoestrulurâdo.


262 ZIMERMAN & OSORIO

jovens
FIGURA14.Alunosda turmados ematividadede dupla.

seguir apresentamosum exemplo de setting de tÍaba,lhoestrut a


dupla de criançasque irá trabalharchegaao ambiente,a atividadejá da e
é em si esclarecedoraquanto ao que deve ser feito.
Quandoapresentamosatividadesaindadesconhecidasparao
estu mo quenãoestejamtotalmentedominadas,têm-
semelhoresresultados dualmente.
Em função dos resultadospositivosque temosobtido, reiteramo
da informaçãode que os estudantescom autismoentendemmelhor os
e ais (sinalizadoresde atividade),os quais respondema perguntasdo
ti quantotempo/comoEles. têm "horáriosde trabalho"e "horáriosliv
cuidadosamentemedidas,cadaum de acordo com suasnecessidade
Algumasatividadesde Iazersãoorganizadasalroximadamenteda ra
que tarefasde trabalho,só que os materiaissãoassociadose usadosc
estruturadasparaasseguraremarealizaçãoda atividadede forma motiva
No âmbitodo treinosocialda conversação,énecessáriotambé
absolutaclarezade que, antesde se trabalhara interaçãosocial (para

ções duais e grupais) em nível verbal econversacional,devemosenfa de


grupo querequeiramoperaçõesmentâisde baseconcreta,o que pod
do atravésde passos.
Aquelesque são verbaise que não têm comprometimentointele
derão passarpara a etapaseguinte,que envolve o treün da linguage
mentode interação social.
A linguagem, antes de mais nada, deve ser entendidacomo u
atravésdo qual se conseguecoisâsou modifica-se o contextodo qual
No primeiro passo,é precisoque o indivíduo com autismo seja l
contade queverbalizando"não" ele faz escolhas;nãoé maisnecess
chão, gritar, atirar as coisasou auto-agredir.Dizendo "não", apontan
"não quero" e/ou fazendo um gesto, ele tem a possibilidadede não
talvez f^zeÍ o\tr^ coisa,possivelmenteaquilo que estavaquerendo. No
segundopasso,é precisodar o nome,descobrira funcionalida
e ser capazde descreverações(suase do outro).

No terceiro passo, haverá possibilidadede trocar estasinfor outro
ou com o grupo.
COMO TRABALHÂTÍOSCOJ\íCRUPOS 263

Faz-se necessáriomostrar, vivenciaÌ, treinaro autista na busca exaustiva do


entendimentode queo nossocomportamentotambémvai dependerdo comportament
do outro e dos sinaisque ele nos manda,como, por exemplo:

. Gestos.
. Atenção (ficar olhando para os lados, para o relógio, arrumar-se,bocejar pode
significar que o nosso"papo" não estáinteressando).
. Postura.
. Pausas,silêncios.

Com essessinaisvamosregular o nossocomportamentoverbal-social.


Esta buscaexaustivausa passosque serão divididos em tantos quantosforem
necessários,de forma repetidae sistemática,como segue:

. Dar dicas de como se inicia uma conversa(atravésdo cumprimento social de


estendera mão, olhar para o outro, apertâra mão, sorrir, dizer "tudo bem ?").
. Contar um fato ocorrido ou perguntaralgo.
. Manter o contatovisual (olho no olho).
. Manter-sepróximo do outro.
. Neste momento, evitar rodopios, piscar os olhos, colocar as mãos na cabeça,
balançaras mãos,estalaros dedos,emitir sonsestranhose outroscomportamen-
tos estereotipados.
. toque na outra pessoasó é permitido se houver correspondêncianesta ação. Se
. quisertrocar de assuntodizer: "Vamosfalar sobreoutra coisa?"ou "Podemos
agorafalar sobrecanos?".
. Quando o outro disser"tchau", é hora de terminar a conversa.
. Se quiser terminar a conversa,dizer "khau" ou "Tenho que ir embora".

No âmbito mais espercíficodas atividadesmotoras que facilitam a interação


grupal, recorremosa algumasproposiçõescom ilustraçõestrazidas por Gillbert &
Peetersem Autism, 1995 (publicação da JANSSEN-CILAG), que nos mostram a
utllização de "sinalizadores",os quaísajudarãoos estudantesautistasa alcançar a
performance desejada.Tais atividadessão quasesemprerealizadasem gÍupo,mas
cadaestudanterecebeo seucaÍão sinalizador.
Um exercícioapenascolocandoos braçosatrásda cabeçae deitando,voltando a
sentarimediatamente,colocandoos braçospara a frente, não tem significado para

FIGUBAí5. Indicaçãoparao exeÍcícioabdominal.


AutorizadoporC. Gillberg,Md & L Peeters,Áutism,1995;publicação:JANSSEN-ClL
264 ZIMERMAN & OSORIO

os autistas,notadamente,sefor explicadoverbalmenteMas. seforem


rasatrásdo estudante, a cadavezqueeledeitar,pegarumavarae ao la
jír
em uma caixaque estáà sua frente,isso serábem maiscompr
autistae poderáserumaatividadecompatívelcom duplasou atémais
indicaçõesdo materialapontampara:
.
O que devo fazer?
.
Paraque fazer?
.
Como devo fazer?
.
Como se inicia?
.
Comotermina?

Essasperguntasjá estarãorespondidasno próprio"sinalizador"


Outroexemploé um exercíciode corrida.Dizerapenas"corra"nã
cado,não indica:
.
Ondecomeçar?
. P^r rht^ têmnô?
^,,
.
Para onde?
.
Por quê?

gË+^
^,k

effiJe7
FIGURAí6. lndicaçãoparao exercíciode corrida.
AutorizâdoporC. Gillberg,Md& T. Peeters,Autlsm,1995;publicação:

Começamospor ondeestáa bandeìra:

Pegauma boladestacaixa.
Dá uma volta.
Colocaa bolana outrâcaixa.

E novamente:

Pegaa outra bola.


Dá umaoutravolta.
Colocaa bolana outracaixa...
COMO TRABALHAMOS COM GRUPOS
26
..sinalizador"
As instruçõesdevemserepetira cadavez,como auxíliodo atéas

bolasterminaÍem.
A
_. seguirsãoapresentadosoutrosdoisexemplos,que sãoatividadesde dupla
(ogo),
ondesefaznecessi4riosinalizar,comoaparecenasilustrações(Gillberg, 1995)

FIGURA17. Indicaçáoparao iogode legoem dupta. C.Gi berg,Md& Ï.

Autorizadopor peeters,Áufism,i99S;pubticação:JANSSEN_C

FIGURA18. Indicaçáoparao jogocombolascotoridas.


Autorizadopor C.cillberg,Md&ï peeters,

Áut3rr,1995;publicação:JANssEN-

Quevãoresponderparao estudante:
j .
Como devo fazer?
.
Quepeçasdevopegar?
.
Ondedevocolocar?
.
O quemeucompanheirovai fazer?
.
O quemeucompanheiroesperade mim?

Nestasituação, cartãocoma figurasinalizatodaa atividade(iogo),facilitan_ do


"o jogar e o estarjunto".
O- apoiovisualfalapor si mesmo. que

. O o estudantedevefazer precisa

induzido.
não ser

.,habilidades
Pretendemos
duaise grupais", o leitor queas
comessesexemplosdemonstrarpara

apesar
de seconstituíremna áreadè para

maiordificuldade osindi_
víduosautistas,podemser"treinadas","exercitadas","aprendidas",atr
gias simples,que devemseguirpassosprevirmentepesquisados,org
qüencializados.
Em nossotrabalhocom a metodologiaTEACCH, buscamosum
do comportamentosocialem seusváriosestilose transformamosem
treinamentosocial", atravéstambém de vídeos/peçasde teatro (cria
dantes)/desenhos/música,procurandomìnimizar os aspectossutise a
veisde cadacontextopaÍticulâr.
Dentrenossastentativas,umaparticularmentemostrapromisso
portamentossociais- atravésde "cenírios"e"encenações"Os. princ
lizadores"sãoos mesmos,ou seja,tentamoscom os "suportesvisua
um "cenárioextemo" quedê a chanceaosestudantesautistasde "ler"
sit Os cenáriossociaistambémsãousadosparaprepararas pesso
paraaseventuaismudanças,e paralhesdizermaisenfaticamentequ
portamentoé esperadodelasem determinadassituaçõesAssim,. pa
autista,serámaisprovár'elmaisfÍcil "secomportarcom educação parte
das vezes,quandocausaproblemas,é porquenão entendeuo "c
esperado"Isso.porqueaindanão "r'iu"e "aprendeu"estecomporta os
seuspassose configurações,parapodercompreender queaspesso
do de si.
Em síntese,â preocupaçãofundamentalé trabalhardiretamentes
poÍamentosobservíveis" do indivíduo,tentandoaumentaro seu repe
portamentosadequadose diminuir e/ou modificar os comportâment
que o caracterizamcomo "autista", Procuramostransformar seu "f
autista"ou "anormal"de atuarno meio ambientefísicoesocial,visa ção
ou à neutralizaçãodos efeitos negativos do estigma.
Essaforma de abordagempode ser mal interpretadacomo "fria, da",
que "molda"o indivíduo ao sistema,mas,na verdade,éa maneiram
de resultadospositivosconcretosde dar ao "autista"condiçõesbás fruir
dessesistema",tendoacessoumavidao maispossívelfuncion
comoqualquerpessoaIsso.sósetomarápossívelna medidaem quee
requisitosmínimosde um comportamentosocialmenteaceitírvelpr
Enfim, considerandoaspropostasapresentadasnãosomenteem fu
dagensteóricas,mastâmbém atravésde nossaspráticasclínicas,co
respostaà questãoinicialdestecapítulo,semdúvida,é afirmativa.

"A essênciade tudoé a qualidade


de vida."

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24
Psicoterapiade Grupo para
PacientesInternadose
Egressos
JOSEONILDOB. CONTEL

pnluónoros
os DArÉcNrcn
psicoterapiade grupo e a psicoterapiade grupo em instituição,segundoa Associ-ação
Americana de Psicoterapiade Grupo, tiveram origem no grandeDepartamento de
Ambulatóriosdo MassachusettsGeneralHospital,em Boston,em 1905.Um médico
clínico,JosephH. Pratt, pressionadopelo grandenúmero de pacientestuberculosos
pobresa atendeqe na impossibilidadede intemáìos, matriculava-osem um sistema
de classesde 15 a 20 alunos,para os quais oferecia viírias atividadèsterapêuticas,a
seremdesenvolvidasduranteo tratamento.Dentre essas,uma vez por semana,reu-
nia-os e aplicavauma técnicaempíricade grupo.
Observouque a tuberculose,como doençacomum a todos os pacientes,favore-
cia uma grandeunião e camaradagementreeles, quandointeragiamno grupo sema-
nal. Consideravao grupo a parte mais importantedo tratamento.Nele, explicava os
métodosde cura da épocae exortavaos pacientesa colaboraremcom o tratamento.
Aqueles que seguiamsuaslições e apresentavammelhoras rápidastinham o privilé-
gio de seremapontados,durantea hora do grupo semanal,como exemplos para os
demais,tanto como prêmio como para encorajaremos outros a se animaremcom o
tratamentoe, também, pelo espírito de esperançaque infundiam em todos. (Pratt,
1992: Zímerman, 1993)
No entanto,só bem maistarde,durantea SegundaGuerraMundial, apsicoterapia
de grupo recebeuimpulso notávele definitivo. De novo, o grandenúmerode pacien-
tes a atender,representadospor baixasnas frentesde batalha,entre militares ameri-
canose ingleses,por motivo psiquiátrico,e o número insuficientede psiquiatrasparâ
atendêlos exigiram que inovaçõesurgentesfossem introduzidasno tratamentodo
pacienteintemado.
Surgiu daí,pela primeira vez, a aplicaçãointensiva,abrangente,compreensivae
modemados gruposnasunidadespsiquiátricaspara pacientesintemados.Menninger,
chefeda psiquiatriaamericanadurantea Guerra,impressionadopelosresultadosposi-

Sougratoà minhaesposâ,profâ.Drâ.EücléiaPritnoB. Contel,pelarevisãodo texto.


270
tivosda aplicaçãodo método,consideroua práticadosgrupos,no e
como umadasmaiorescontribuiçõesda psiquiatriamilitar à psiquiat
ger, 1946)

O GRUPOCOMO UM TODO: A IMPORTÂNCIADO INTERP


As primeiraspublicaçõesdessespsiquiatrase oficiaisdo exército,a
gemem unidadesde combate,descreveramo trabalhocom grupo
NorthfieÌdMilitary Hospital,dc Londres.Mostraram-seclarâmen
tremendainfluênciados fatoressociaisna fomação das experiê
afetivase comportâmentâisde soldadose oficiais.(Clark, 1974)
ThomasF. Main, um dosmaisinfluentes famosospsiquiatr
juntamente
ses, com W. R. Bion, S. H. Foulkese Maxwell Jone
sÕldadoaltamentetreinado,individualmente,eramaisvalorizadoain
buíapara o grupo de combatee para os propósitosdo mesmo,ou
se cia do grupocomoum todotranscendia vida de qualquerdosseu
duais.(Main, 1946)
A dissonânciaentretaisconceitos a formaçãopsicanalíticad
época,centradana concepçãoindividuale intrapsíquica,em detr
relaçõesinterpessoaìsem que ela estáinserida,deve ter sido ime
ocorre até hoje naquelesterapeutasque não têm a oportunidaded
poderososfatores interpessoais,freqüentandoum gÍupo terapêut
observadorou terapeuta.

HOSPITAL COMO UM GRANDEGRUPODINÂMICO: A T


PEQUENOSE GRANDESGRUPOS

Coube a Main inventaÍ â expressíoconunidadeterapêuÍicu.Desc


ma de mudar-sea imagemdo hospitalpsiquiátricocomo forâ con
Estabelecia-seapráticacom gruposcomo instrumentospotentes
mudançaRevolucionava.-seaformado oferecimentodecuidados,n
psiquiátricodo pacienteintemado.O hospitalpassoua ser visto,e
não maiscomo uma entidadepassivae deposìtáriade doentes,ÌÌ
instituição terapêDÍicaper se.
Nesta mesma época, W. R. Bion foi responsávelpela ala d
Northfield Military Hospital,pâra 300 a 400 homens,sofrendodo qu
naria estressepósìraumáticoDurante.6 semanas,conduziuum e
gruposqueficavamdisponíveisa todosospacientesTodos.oshom
membrosdeum ou maisgruposde atividadescomo:artesmanulis,c
pondência,carpintaria,etc. um poderiaorganizarum nov
Qualquer
o desejasse.
Estavaconvencidodequeo experimentoexigiriadisciplinado
hipótesede trabalho,convenceua todosquea disciplinaeranecess
perigocomumda neurosecomo uma incapacidadeda comunidad
alade reabilitação,com surpreendenterapidez,tomou-seautocrítica
desdeo iníciodo experimento,quetodosos soldados,todosos dias
l0 min, e estritamentedurante30 minutos,estariamreunidospar
comunicadose outrosassuntosda alade reabilitação(Bion,. 1970:Z
COMO TRABALHÂMOS COÀÍ CRUPOS
271
Inaugurava-seo que hoje denominamosde reunião comunitária. Como Bion
queria, estesgrupos tinham como uma das suasfinalidadespermitir aos pacientese
técnicoscomo que saíremda estruturadaunidadehospitalare examinaremo funciona-
mento dela com o desligamentode espectadoresIntuía.-seque toda unidadehospita-
lar que viessea trabalharcom grupose em comunidadeterapêuticanecessitariatanto
de um programade atividadescomo de um sistemade comunicaçõo.
Maxwell Jones,trabalhandono MiÌl Hill EmergencyMilitary Hospital,de Lon-
dres,com soldadosportadoresde dorprecordialsobestresse,tambémpassoua atendê-
los em grandesgrupos, dando aulas sobrea origem dos sintomas.No entanto,logo
percebeuo potencialterapêuticotantodo grandegrupocomo da comunidadehospitalar
e da própria sociedadeem funcionar como fator curativo. Os terapeutasdeveriam
' agir como facilitadoresdo processo.

Foi um acasoMain e Jonesdescobrirem,de modo independente,em hospitais


diferentese ao mesmotempo,a importânciade explorarmosos dinamismosdos peque-nos
e grandesgrupos,incluindo-senelespacientes,técnicose familiares.Eles funcio-
navamcomo subsistemas,querecebiaminfluênciase influenciavamum sistemamaior,
própria organizaçãohospitalar,vista no seuconjuntotambémcom finalidadestera-
pêuticasIntroduzia.-sena psiquiatriaa noçãode sistemas(Jones,.1952)
Main chegouàssuasconclusõesutilizandoum pontode vistapsicodinâmicode
inspiração psicanalítica,enquantoMaxweÌl Jonesse valeu de pressupostossócio-
dinâmicos. Ambos, pelo restode suasvidas,dedicaram-seao que foi denominadode
movimentoda comunidadeterapêuticaHoje,. no Brasil e no mundo,os asilosde
portas fechadas,repletos de desocupadossem esperançae de lunáticos andando a
esmo em pátios enormesestãodesaparecendoPequenas.unidadesem hospitais ge-
rais,hospitais-dia,laresprotegidos,núcleosde atençãopsicossocial,setorizadosgeo-
graficamente,tomam o antigo asilo cada vez menos necessário.Os pacientestêm
voz, e os usuiírios,pacientes,ex-pacientese familiares também opinam. Muito de
tudoissodevemosà intuiçãogenialdessesdoispioneiros(Clark,. l99l )

A DIFUSÃO DA TÉCNICA
Recuperava-sena psiquiatriamodemaos ideaishumanitáriosde Phillipe Pinel,aplican-do-
seinstrumentosteóricostantoda psicanálisecomoda sociologia(Whiteley,l99l ).
modelo sócio-dinâmicofoi mundialmente mais aceito tanto pela sua divulgação
carismáticae inovadorafeita por Jones(Rapoport,1991)como por suaassimilação
mais fácil para os terapeutassem treinamentopsicanalítico.Em duas ocasiões,em
1971,no SegundoCongressoBrasileirode Psiquiatria,em SãoPaulo,e, em 1977,na
I Universidadede Michigan, pudemosconstatarqueJones,como todo reformadorutó-
pico,pensava agia,ideoÌogicamente,pelasuafé inabalável convicçãocontagiante e
deixava de lado os princípiosaté então aplicadosao hospital.Era capazde simpli-ficar
e radicalizarsuasidéiasnovasparamelhordifundi-lase vencerresistências.
Os princípiosda comunidadeterapêuticacomeçarama ser divulgadose aplica-
dos precocementenos EstadosUnidos, em Topeka,Kansas,pela Clínica Meninnger.
O trabalho The hospìtalas a therapeutic instilution, que tomou Main famoso, foi
publicado pela primeira vez no Bulletin ofthe Menninger Clinic, em 1946.
Marcelo Blaya, psiquiatrabrasileiro,em meadosda décadade 50, durantesua
residênciade psiquiatria no Topeka StateHospital e seu Fellowship na Menninger
School of Psychiatry,em Topeka,aprendeutanto os princípiosda comunidadetera-
pêutica, com inspiraçãopsicanalítica,como a apÌicaçãocompreensiva,abran
intensivae modemados gruposao hospitalcom pacientesintemadosApÌic.
entãocom sucessonâ Clínica Pinel de PortoAlegre,de sua propriedadeM.
psiquiatras,entreosquaisnosincluímos,na medidaqueaprenderam técnica,
ram-sedivulgadoresna sua aplicaçãoem hospitaispsiquiátricosdo Brasil. (B
1960;Contelecols . ,1977;ContelecoÌs . ,1993)
Entendemoster sidoesta,senãoa única,ao menosa principalportade en da
aplicaçãomodernae duradouradestetrabalhocom pacientesintemados, bem do
seuprimeiroe definitivotestebrasileiroSeguiu.-sesuadivulgaçãopelo Bras
especialnasdécadasde 70 e 80,e suaconsolidaçãoem algunslocais,como tem o
casode RibeirãoPreto.(Contel,I 991)
Mesmocom 50 anosde existência,nestefinal de século,a comunidadeter
tica não é uma teÌ'Ìdênciadominanteem psiquiatriae psicoterapia:no .nta
psicoterapiade grupopassouiìservistiìcom importânciacadavez maior tant
pacientesinternadoscomo paraegressos.
que
Em recentelevantamento,o NatiottuLIttstituteoÍMental llecllà (USA) mo
mais da metadedos pacientesagudosou reagr:dizadosadmitidosem hos
psiquiátricosamericanosparticipoude algumaformade psicoterapia de grupo
nida.como uma reuniãoplanejadapara mais que dois pacientese que envolva mica
de grupo e ìnteraçõas.
No Brasil, a Portaria224 de 29 de janeìrode 1992,do Ministério da S
regulamentou trabalhocom grupose recomendousuaaplicaçãoem todosos s ços
parapacientesintemose externosque viessema serfinanciadospelo gove

A QUESTÃO DO ENQUADRAMBNTO EM PSICOTBRAPIA DE GRUPO

Autonomia, Iivre discussãocirculante e interpretação no grupo de


neuróticos

Entre1964e 1965,durante6 meses,umavezpor semana,pudemos,na condiç


observadormudosituadofora do grupo,acompanhar psicoterapiaanalíticad
po conduzidapelo Dr. Hernan Davanzo.Era um grupo de.pacientes
aeq$gicos
ao praticarema livre discussãocirculânteenìgrupo,produziammatèrialriquí sobreo
qual o terapeì.Ìtapodiautilizar da análiseda transferência(ConteÌ,.1 Lembramosde
jovem
um grupono qualum estudantede medicinateveseusat ao
quais
terapeutamotivados pelo exame dos seusatrasosfreqiientese injustificado
foram interpretadoscomo umiÌnova edição do conflito original com a fi
patemaEra.um grupocujospacientespermaneciampraticamente os mesmos,
mês,nas reuniõessemanaisde uma horae meiade duraçãoTinham.níveisest
integrados similaresde funcionamentodo ego.Vinhamao grupopor livre vo
logoestabeleciamum diálogoanimadoe ardorosasdiscussõesTinham.grand
juízo
tonomiasobrea escolhados temase do que faziamsobreos mesmos.M
vezeseramextremamenteunidos,noutrassedividiamirremediavelmenteOs. t
versavamsobreo cotidianode cadaum, tat'ìtofora como no g.upo. Às vezes era
unidosque era como se todostivessemos mesmospensamentosA. autonom
espontaneidadeeramnotáveisentreeles,e de todoscom o terapeuta.
Essesgruposdenominados,genericamente,de orientaçãointerpessoal dinâ como vimos
anteriormente,são compostospor membrosbastanteparecidosou
propostasmudançasno caráter,acompanhadaspor mudançasduradourasno compor-
tamentointerpessoalEgressos,.forado surto que motivou a intemaçãoe que tenham
as caracteísticassupracitadas,são candidatosparâ tratamentonessesgrupos como
profilaxia de futuros surtos.As psicosesreativasbreves,com fatoresdesencadeantes
psicológicospróximos e detectáveis,são um exemplo. (Vinogradov e Yalom, 1992)

A execuçãode tarefasconcretasem grupo de psicóticoscrônicosinternados

Com Azoubel, em 1964,durante6 meses,uma vez por semana,duranteduashoras,


experimentamospeÌa primeira vez trabalhar com gÍuposterapêuticosem hospital
psiquiátrico. Visávamosà reabilitação psicossocialde pacientespsicóticos cronica-
mente hospitalizados,pela aplicaçãode atividadeslúdicas.
Era um grupo que Yalom chamahoje de baixo nívelde funcionamento(Yalom,
1983; Vinogradov; Yalom, 1992).Encorajávamosa interaçãointerpessoalno grupo
pelacriaçãode conteúdos,indiretamente,atravésda atividadeprescritapelo terapeuta.
Os gruposdas oficinas teÍapêuticasde hoje, muitas vezesapresentadoscomo grande
novidade,baseiam-senesteprincípiobásico.Continuamcomo métodoútil e eficien-te
para a mobilização terapêuticadestespacientestanto enquantointemos como de-
pois, na condiçãode egressosA. terapiaocupacionalgrupal tem aqui grandeaplica-

ção, quandocombinadacom psicofarÍnacoterapia.


Selecionamos22 pacientesmasculinosque tinham em comum a capacidade
física e a disposiçãoparadeixaremo pátio de 700 pacientesanônimos,e exercitarem-
senas atividadeslúdicasoferecidas,aplicadase coordenadaspelo terapeuta.Impres-
sionavanelesapassividade,o anonimatoe um nívelquaseinsignificantede interações
verbaisinterpessoais,que,no entanto,aumentavamsignificativamentedurantea prá-
tica da atividade lúdica. Eram capazesde reaÌizar as tarefaspropostas,no entanto,
não pareciamexpressarentusiasmo.(Contel e Azoubel, 1966)

A agendainicial do grupo comotarefa a cumprir


Mais tarde, em 1967 e 1968. durante 2 ânos. tratamos na Clínica Pinel de Porto
Alegre, com intemação integral, uma média de 12 pacientesadultos por mês, em
geral agudamentepsicóticos.Atendíamos,dìariamente,emgruposque duravamuma
hora,das8 àst horasda manhã,5 vezesporsemanae enquantodurasseo intemamento
de cada um. Tratamos cerca de 200 pacientese conduzimos cerca de 400 destes
grupos. Como o intemamentoera curto, e a psicopatologia,muito variável de um
pacientepara outro, tinha-sesempreum grupo de granderotatividadee heterogenei-
dade.
Uma lista de assuntos,denominadaagenda,elaboradacom os pacientesnos
primeiros 10 a 15 minutos de cada sessão,orientavao uso do tempo no restanteda
hora.A partir dai e até o final da sessão,os pacienteseramsolicitados,com a
necessi{ria firmeza e energia,a cumprir a agendaacordadaentretodos,no início
daquelasessão. São gmpos que Yalom denominoude alto funcionamento,em
contrastecom o gÍupo de pacientescrônicos apresentadona experiênciaanterior.
Diante da constanteinstabilidadepsicótica do grupo, esta era uma forma de
estabelecermosuma ordem para o processogrupal, que estavapor se desenvolver.
274 ZIMERMAN & OSORIO

Era preciso, enquanto líderes, mantermo-nosíntegros,independe


diante de tanta fragmentação.
Na agenda,predominavamtemasde interesseimediatodos paci
fins de semanaem casa,medicamentos seusefeitoscolaterais,rela
familiares,conflitosinterpessoaisentrepacientes destescom ostécnic
nar a necessidadede ordem nestesgruposque têm como caÍacteústi
com o acting-oul psicótico do pacientemaníacoou deliranteperse
psicopatologiasgraves,expressasenquanto grupoestásendoprocess

O ajuste da técnicae a versatilidadeda psicoterapiade grupo

Estestrêstipos de grupos,aplicadosem popuiaçõesde pacientestão si,


mostramtantoa versatilidadedasaplicaçõesda psicoterapiade g
flexibilidadede objetivosE. possívelna aplicaçãoda técnica: l) se
paraanalisara transferênciaem buscado insightpsicanalítico,co
pacientesneuróticosdeDavanzo;2) sugerira expressãode papéislúd

ção concreta,como no gÍupo parapacientespsicóticoscronicamente


zadoem colaboraçãocom Azoubel;e 3) manteÍo enquadrament mo
diantede sintomaspsicóticos,diretamenteexpressosno grupo
agendaqueimpõeumaordeme um sentidoduranteo processamen
vimosnosgruposparapacientesagudosou reagudizados,da Clíni
Como generalização,e segundoos três exemplossupracitado
mar queo ajusteda técnicaestána dependênciadiretade cinco fato
grau de autonomiae sofisticaçãocognitiva, afetiva e comportamen
alvo;2) tipo e localizaçãodo enquadramentoemconsultórioprivad
saúdemental,hospital-dia,hospitalgeralou psiquiátrico,escolaou em
breve ou longa da terapiae da freqüênciae duraçãodas sessões;4)
ob ticos,mais ou menosambiciosos, seremalcançados;e 5) grau d
treinamento convicçãodaeficiêncìadatécnicaqueosprofissionai
nadaunidadehospitalarpossuem.

PSICOTERAPIA DE GRUPO PARA PACIENTESINTBRNADO

Mesmocom o impactodo avançoda psicofarmacologiaclínicaed de


permanênciacadavezmaiscurta,a psicoterapiade grupocontin de
importâncianasinternaçõespsiquiátricasApesar.da variaçãodo
terminologiasusadasnas grupoterapias,nota-seque toda e qualque
gÌupo parapacientesinternadostem em comum o objetivo de cria
terapeuticamenteútil e clinicamenterelevante.No presentetrabalho
necessidadedo ajusteda técnicasegundoos cinco fatoresantesr
partir daí,procuraremosapresentarmodelospráticose objetivos rea
forma de psicoterapia.

Grau de autonomia da população-alvo: a necessidadede estru


Entendemosquea técnicaseráaplicadaemumapopulaçãode pacient
integral,em uma unidadefechada,fez-senecessáriaem funçãode
patológicosgraves,de evoluçãoagudaou subaguda,para os quais falharam ou foram
utilizadas outrasinstânciasterâpêuticasou, se foram, o pacientenão resp deu
adequadamenteEnquadram.-seaqui todosou quasetodosos distúrbiospsicóti
que,presumivelmente,podemprovocardanosgraves,àsvezesirreparáveis,ao pac te, a
terceirosou ao patrimônio.
Perdema autonomia de ir e vir e são obrigados a conviver, temporariam
com outros pacientese técnicos,enquantoperdurara internação. Quanto maiore
prejuízossofridospelasfunçõesdo ego, mais desorganizadoe caótico o pacient
apresentarána unidade de intemâção.Estascaracteísticasdo pacienteexigem u
modificação essencialda técnica, que, por sua vez, deixa tais grupos radicalm
diferentes dos gnrpos tradicionais de longa duração para pacientesambulator
como vimos com Davanzo.
Para conviver com a desorganizaçãopsicótica e ao mesmo tempo tratá-la,
necessárioslimites, dentro dos quais o pacientetestaseu funcionamentomental.
extremo,podesernecessáriocontero pacienteem seuleito,de ondesairá,negoc do
a expressãofutura do seu comportamentocom seusterapeutas,sabendodo ri de
recair na contenção,casonão cumpra o combinado.
Todososdias,àssemesmopacienteestaráparticipandodo grupo,que,necess
mente, também terá limites para ele, como manter-sesentado,não fumar duran
sessão,ouvir e prestaratençãoenquantoos demaisfalam, chegarna hora do gr
começare ficar até o término da sessão,vestir-secom o mínimo necessáriode a
quação e higiene,contribuir com temasimportantese de interessede todos.
Nota-se que a população-alvo,quando em grupo, necessitade uma c
estruturaçãomaior ou menor,que varia em um mesmogrupo ou de um dia paraou
Nessesgrupos,paraofereceressaestruturaorganizamos,.nosprimeirosl0 a 15 nutos
iniciais, uma lista de assuntosem número variável de 3 a 5 e o tempo restan
dividido entrecadaum dos assuntos,de modo equivalente. Quantomais esseste
selecionadosforem importantese do interesseda maioria, mais atentostodos est e
mais coesoe terapêuticoseráo grupo.
Embora o advento e a aplicacãointensivade medicamentosantipsicóticos
nham mudado o quadro clínico da doencapsicótica, as pesquisasindicam qu
psicoterapiade grupo e a psicofarmacoterapiareforçamuma à outra. (Vinograd
Yalom,1992)

Tipo e localizaçãoda psicoterapiade grupo: a proteçãodo setting


unidadede intemaçãoque trabalhacom grupos,ou pretendevir a trabalhaqpre
caracterizar,com a maior clarezapossível,qualseráo tipo de grupo a serprocess
Começapor aí a orientaçãodo pacientee o seuconvencimento,bem como dos
téc cos da unidade sobreo tipo de tratamentoque seráoferecido.
Gruposque explorama origem dos sintomas,facilitam a intensificaçãodos a
tos e contam com liderançaque não ofereceestruturaem geral são grupos de
mé ou longa duraçãoe que ficam melhor colocadospara pacientesextemos.São
os g posclássicosde ambulatório.Foi o casodo grupode Davanzo,que
suportavaa inve gaçãoem profundidadedo conflito e assimilavainterpretaçõesde
inspiraçãopsica Iítica.
As unidadespara internâção de curto prazo para pacientesagudos c
heterogeneidadede psicopatologiase giro hospitalarrápido se dão melhor com g
276 ZIMERMAN & OSORIO

posestruturados,queexaminamasinteraçõesimediatasdospacientesentresi, c
ostécnicose os familiares.
apoioexplícitoe contingenteà situaçãoquemerecesuporteterapêutic
minimizaçãodo conflitodevemficarempúmeiroplano.Esseprocedimentofaz tido
porqueo pacientehospitalizado,emgeral,sente-sedesmoralizado,isolados
almentee combaixaauto-estimaAs. possibilidadesde interaçõessuportivasno po
secontrapõemessessentimentos.
A salado grupodeveoferecer mínimonecessiíriodeisolamentofísicoea tico
em relaçãoao ambientedo conjuntodaunidadeÉ. precisocaracterizarum e ço
próprio,comcadeiras tempodisponíveis,enquantodurarcadasessãoEssa.pr
çãofísicae acústicapodeindicaro quantoa psicoterapiadegrupoé levadaemcons
ração,porumadadaunidadeFechada. portaparao inícioda sessão,estabele wn
settingpróprio em conexão,mascom um delineamentoúnico e peculiar
personaliza distingueo grupodasdemaisdependênciasfísicase terapêutic
unidade.

Duração da terapia,freqüênciae duraçãodas sessões


Na ClínicaPinel,assessõeseramdirírias,de segundaà sexta,comduraçãode u
hora,e o tratamentodo pacíentedurava,emmédia,dequatroa seissemanasO. gr
eraprocessadodas8 às t horas.Era a primeiraatividade,colocadalogo depoi
cafédamanhãEram.esperadosno grupoentre12a 14pacientes,emmédiapartic
vamde 10a 12.O médico,nocasoum residentedo primeiroou segundoano,se
eraacompanhado,no grupo,por um auxiliardeenfermagem,quedepoisdavaas
tênciaàquelespacientesno restantedo dia hospitalar.
duraçãomédiadepermanênciabrevecaracterizava,portanto,umapsicote de
grupobreveou de tempolimitadode vinte sessões,naquelesquepermane
quatrosemanas, de trintasessões,naquelesquepermaneciamseissemanas.
Essabrevidadeexigiaquea técnicaacompanhasse,em temporeal,asvicis
desdo conjuntodo tratamentode cadapaciente,desdea melhoradossintomasfr
camenteagudosatéo progressivodesaparecimentooumitigaçãodosmesmos,N
momentojá seiniciavaa preparaçãoda alta.Poucodepois,começavatudode n
comosnovospacientesqueestavamchegandoNestas.condições, grupo,bemc
duzido,eraumareferênciadasmaissegurasparaos novose umaoportunidade
elaborar-sea despedidaparaaquelesquetinhamalta.
Entre1969e 1976,na coordenaçãoda residênciade psiquiatriado Hospita
ClínicasdeRibeirãoPreto,tentamosreproduzira técnicano HospitalPsiquiátric
RibeirãoPretoe, mâistarde,desde1974,instalamos trabalhointensivocomgÍu no
Hospital-Dia,paraa seguircolaborarmos,desde1978,paramantera técnic
EnfermariadePsiquiatriado HospitaldasClínicastantoparaa terapiadospacie
intemadoscomoparaa formaçãode especialistas.
Nessesquatrolocais,essesgrupostiveramem comum:início nocomeç
manhã;duraçãode uma hora;freqüênciasemanalde cinco sessões;aplicaçã
pacientescom sintomasagudosou subagudos;duraçãolimitada;erame contin
sendoobjetode ensinoparaasnovasgeraçõesdepsiquiatrase
psicoterapeutas(m de 200 em RibeirãoPreto,desde1971);em
geral,sãogrupospequenos;segu tradiçãodos gruposde agenda.

\L
COMO TRABALHAMOS COM GRUPOS
277
Objetivosterapêuticos
PaÍao tratamentode pacientespsicóticosagudoscom essatécnica,precisamoster
objetivosrealísticosqueofereçamum sentidoderealidadede comprovação mais óbvioe
imediatopossívelaopacienteintemadoPrecisamos.colaborarnareorganiza-
çãodasfunçõespsicológicassimplese complexasdeum egoamplae profundamente
desorganizadopelapsicoseA. compreensãopsicanalíticadosmomentosdeintegração
co€são,que se altemamcom momentoscaóticose de fragmentaçãodo
grupo,é bem-vindae útil parao terapeutaorientar-sena interyençãoa
tomarOs.conceitosde grupode trabalhoe de supostosbásicosde Bion
ajudama entenderessadinâmica. (Bion, 1970;Blaya, 1970; Zimerman,1995)
A interpretâçãodo grupocomoum todo ou do pacienteindividualno grupo,
visandoao insigàÍpsicanalítico,no entanto,costumaserum desastrequemais"bota
lenhana fogueira"da confusãopsicóticado quecontribuiparareorientaro paciente
parao pragmatismoda realidadedo dia-a-diaA. validaçãoconsensualda realidade,
peloconfrontodo conteúdomanifestono aqui-e-agorado grupoé a melhortécnica.
Objetivosmaissimplessãode assimilaçãomaisfácil e de resultadosceÍos para a
melhorasintomática,como:I ) promoçãodo engajamentoda expressãoverbal;2)
diminuiçãoe, se possível,a extinçãodo sentimentode isolamentoe exclusãodo
pacienteintemado;3) estimulaçãoda auto-ajudaentreos pacientesparamelhorara
auto-estimadiminuira tensãointerpessoaldentrodaunidade;4)colaboraçãoparao
pacienteformarum juízodo ambienteinterpessoalquefreqüentae da partequelhe
tocanaformaçãodo mesmo;5) oferecimentode oportunidadesparao aprendizado
experimentaçãode modelosmaisajustadosdeinteraçãocomosdemais;6) desmisti-
ficaçãodo processoterapêuticomaximizaçãodahabilidadedopacientepararespon-
sabilizar-sepor si mesmo;7) criaçãode umaexperiênciaterapêuticade sucesso de
esperançaqueencoraje paciente continuartrâtando-seapósa a'lta..Pacientesque
aprenderamsederambemcomo grupodeveriamcontinuaremgrupoquandoegres-sos.

Sempreé bomlembrarqueospacientescomegomaisintegradopodemganhar
maisatençãodos terapeutas,quetentâmcom elestécnicasmaisprofundas,emdetri-
mentodastécnicasestruturadasorientadasparaobjetivosquesabidamentebenefi
ciamos maisdesorganizados grupo.Umalistabem-elaboradade assuntosno co-
meçodo grupodevecontemplar maioriadospacientes,semdistinçãoparaum ou
outro integrado.
- mais
E precisoao coordenadormanter-secoladoao conteúdoe ao manifesto,em
cadasessãoO. nível de ansiedadede exposiçãodo paciente,enquantono gÍupo,
devesercuidadosamente,até ondefor possível,mantidodentrode limitesconfortá-
veis.Permitirexposiçãoexageradatendea piorar a desorganizaçãodo pacientee
tomaro grupoumaexperiênciadesagradávelatéiatrogênica.

Familiaridade, treinamento, liderança € convicção da eficácia da técnica

Desdeo tempodospioneiros, entusiasmonaaplicaçãoe a convicçãodaeficáciada


técnicaforam umaconstanteHoje. não é diferenteA. dinâmicae o processogrupal
sãoenvolventes estimulantestantoparapacientescomoparaterapeutasO. grupoé
um microcosmosocial,comodiz Yalom.Adoecemosnarelaçãocomoutraspessoas,
portanto,nadamelhorquea interaçãoem grupoparapercebermosem quepontoou
278 ZIMÊRMAN & OSORIO

até que ponto vai a nossaresponsabilidadepelasrespostasdo outro às nossasaçõ


ou omissões.Aprende-semelhor, no grupo, a graduar-sea distânciae a intimida
com as pessoas,em especialcom psicóticos,que estãoa confundir mundo intemo
mundo externo.
Adquirimos familiaridade com a técnica pelo treinamentoe, mais tarde, pe
liderançade um ou mais grupos. Aquelesque têm a oportunidadede ver terapeu

experimentadostrabalhandocom grupos recebemum modelo pronto, sobÍe oqu
acrescentarãosua criatividade,dando ao processogrupal o traço pessoal.
Ainda segundoYalom, os gruposparapacientesintemados,como os apresen
dos aqui, não têm lugar para uma liderança frouxa ou titubeante.Pacien
monopolizadorese agitados- e o maníaco é um exemplo- precisam obedece
agendado dia e, casorecusem,devem ser excluídos,sob risco de desorganizare
grupo a ponto de tomálo ântiterapêuticoComo. os grupossãodiários, o pacientes
sabendoque poderá tentar,de novo, no dia seguinte(Yalom, 1983).Expectativa
objetivosrealísticostambémsãonecessáriosparaprotegero terapeutade idealizaç
utópicase desmoralizantessobrea prática com essesgrupos.
presençano grupo de um psicoterapeutamais experimentado,ou de um o
servadorqualificado, pode aliviar dificuldades contratransferenciaisem potenci
em especialentre iniciantes.E preciso lembrar, também, que o grupo está imer
dentro da unidadehospitalar,como um ecossistema,com o qual o coordenadorde
estar atento,pois o grupo influencia e é influenciado, decisivamente,pelas carac
rísticasdinâmicase semipermeáveisdestainterface.

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PARTE4
Prâtica com
Gruposna Area
de Família
25
Casal:uma Entidade
Psicanalítica
JANINEPUCET

possibilidadede trabalharem um enquadramentopsicanalíticocom casaislevou


necessariamenteà revisão e depoisà ampliaçãode algumas hipótesesfundamentais.
A psicanálisefoi criada para compreendero funcionamentode uma única mente, à luz
do que lhe acontecia,no marco de uma relaçãoterâpêuticacom um analista,cuja
presençaproduzia modificações no comportamentoe nas associaçõesdo paciente.
Mas aqui "paciente" sereferia semprea um único sujeitoem contatocom um analis-ta.
Desse modo, deu-se um sentido limitado às projeçõesque incidissem sobre a
realidadeextema,conferindo-se,então,uma ênfaseespecialàs representaçõesmen-
tais que surgiamdo intercâmbioentrerealidadeextema,enquantoamplificadoradas
fantasiasinconscientes,e realidadeinterna.Daí surgiuo conceitode relação objetal,
fantasiainconscientee mecanismosde defesa,muito conhecidospglospsicanalistas,
com o predomíniode alguns,segundoas diferentesescolas.
Quandoiniciamos nossotrabalhocom grupos,casaise famílias, costumávamos
imaginâr que aquilo que sabíamos- a partir da psicanálise- tal como havia sido criada por
Freud e sucessorespodia ser suficientepara compreenderuma entidade
psicanalíticadiferente.Logo pudemosnos dar conta, cadaum a partir de diferentes
inquietaçõese elaboraçãode fracassos,que o simplestransladode modelose concei-tos
não era suficientepaÍaentendera complexidadedo vínculo. Issoimplica levarem conta o
que acontece,quandose toma como eixo a idéia de dois ou mais egosconec-tados entre
si, em uma relação na qual a extraterritorialidadede um e de outro é fundamental. Com o
tempo, englobamosasdiferentes entidadespsicanalíticírscompos-tasde vínculos,com o
termo configuraçãovincular, e em cadacasonos vimos diante da necessidadede
especificarse se trata de casal,famíliaou grupo. Cadauma dessas
entidadespossuiinvariantese tambémmecanismosespecíficosa ela, e, poÍanto, traz
consigo problemasigualmentepróprios.
Em conseqüência,estamoshá muitos anosempenhadosna tarefade revisarcon-
ceitos e propor modificações em nosso instrumentode trabalho, que é constituído,
porum lado, pela função analítica,exercidaem partepor meio da interpretaçãoou de
algum outro tipo de intervençãoterapêutica,e, por outro, pelo enquadramentoAs.-
sim, fomos levadosa ter que diferenciarquandoum sujeito fala em presençade um
ou de viáriosoutros que mantêmcom ele uma relaçãode extraterritorialidadee, por-
tanto, de serem alheios. Chamamosesta última unidade, a de dois ou mais egos
284 . zrue^tot r, osooto

conectados,de vínculo,e com issoconfbrmamosum conjunto


casalcomo a famíliae ogrupo.

VOLTAR A PENSARA CONSTITUIÇAODO APARELHOPS


Com basenisso,suponhoque a presençareal de dois ou mais
conseqüência criaçãode um esplço ürrer,ou sejr, um espiì
espaço,dá-seo encontroentreessesegosdiferentes,espaçoqu
necessáriaparaque haja intercâmbioe construçãoda subjetivi
vínculoé, então,uma entidadecom s/a/rs metapsicológicopró
constitutivade um espâçoou mundoao qualchamode intersub
diferencio-odo espaçono qualo sujcitoou o egoconstróirepres
quaisforam conceituadascomo fantasiasou relaçõesobjetaisq
tempoprecisemde um outro da realidadepara suiìcompletac
depoistranscorrernr ausônciade t;Ìi\represenliìntesexternosE.
objetaltambémpossuiseuprópriostrrtrrsmetapsicológico.
representaçãoquedoisou maisegosfazemdo espaçointer
no qual estãoindissoluvelmenteIigados,ocuplndolugarescorr
tos,vai sera basede nossotrabalhocom asconfigurirçõesvincu

ção não ocorrena ausênciade um outroie comotentiìtivade ela


construídiìna presençadesseoutro,e issoconstituia diferençaen
vínculo.Na relaçãoobjetal,ir representaçãoéuma construção
partirdo vaziodeixadopelooutro.E umamaneirade voltara repr te
o quefoi vivido, semqueo outrotenhatantoa ver con'ìtal co
criaumanovaforma,suscitadaprecisamentepeladorpelaausênc a
representaçaÌodeumvínculoé umamodelizaçiÌoquea mentese
possívelporqueo aparclhopsíquicodispõedc uma proprieda
a capacidadede serepresentarOnde.seencontramessasrepres e
por certopsíquicas,obrigaa pensarno aparelhopsíquicocom
ligadoa outros,e a abandonar idéiade poderimaginarum apar
sivamentesingular,individual.Issotomarírpossível,em troca,pr
qual caibamrepreserìtaçõesvincularesE. difícil.prra todosnós
madosa conhecero aparelhopsíquicodentrode um espaçoa
mente- e quepossuiumarepre