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Claude Fischler

OBESO BENIGNO
OBESO MALIGI{O*

Nossa ópoca olha att'avcssado parn o gordo. E, no cntanto,


ccrtos gordos continurm il pltssiu por "bons gordos". Como l'r:n-
ciona o irnaginiírio social dtt gorclut'it c da obcsiclado'/

Jacques Chitac declarou um dia que, dentro de sua carrelra po-


lítica, seu lísico "seco" havia sido unta desvantagem. Os eleitores,
segllnclo ele, preferem os políticos "mais cheios de corpo"/. Essa arfir
mação é em parte corroborada pelos dados de várias pesquisas, enr
vários países, que indicam qLle as pessotls conl o [ísico um pollco
arredondado são, viit de regra, percebidas como de convívio nlais
amável, mais abertas à comunicação e à empatiit do que as magras.
Ela parece tambérn confirmada pela popLrlaridade de ttm ccrto papa
gordo, bem superior àquela do papa magro que o precedera. Os gor-
dos parecem, pois, gozar de um preconceito lavorável junto a uma
signi ficatrva parcel a da população.
no entanto, geralmente se está de acordo quando se diz que
E,
uma das características de nossa época é su4 lipofobia,lsua obsessãtl
pela magreza, sua rejeição quase maníaca à obesidade: "A sociedade,
dizia o nutricionista Jean Trémoliàres, cria os obesos e não os tole-
ra." Nos Estados Unidos, um grupo de defesa dos gordos constituiu-

'l' Publicado em ALlÍremenÍ, setembro, 1989.


PorÍr'rces oo Cottpo 71
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para nós, legitimamente ou não, na distribuição da riqueza social.


se há alguns anos. Sua presidente declarou à imprensa que, em seu
Nosso corpo é um signo imediatamente interpretável por todos de
país, "é mais duro ser gordo do que ser negro". As discriminações
nossa adesão ao vínculo social, de nossa lealdade às regras da distri-
são reais, segundo todas as aparências, e não somente nos Estados
buição e da reciprocidade. Uma suspeita pesa, portanto, sobre os
lJnidos: em 1984, um eletricista de Rennes, na França, foi despedido
gordos. Mas se não podem emagrecer, eles têm uma possibilidade de
porque seu peso ( I 23 kg) tornava-o, de acordo com seu empregador,
se redimir dessa suspeita: precisam proceder a uma espécie de resti-
"inapto para o trabalho"2. O caso, ao que parece, não é excepcional.
tuição simbólica, aceitando desempenhar os papéis sociais que se es-
Muitas pesquisas americanas, realizadas desde os anos 60, tra- peram deles.
taram da maneira como as crianças obesas eram espontaneamente
percebidas por seus pares ou pelos adultos. Numa delas, por exerrl-
plo, mostrou-se a meninos de seis a dez anos silhuetas de crianças
magras ou obesas. As silhuetas obesas atraíram uniformemente apre- A ambivalência do gordo
ciações bem negativas ("trapaceiro", "preguiçoso", "sujo", "mau",
"t-eio", "besta", etc.). Já as silhuetas esguias eram uniformemente No âmbito cle uma pesquisa recente, cntrevistei uma vintena de
julgadas de forma positivar. Na maior parte dos países desenvolvi- pessoas na França sobre sua percepção cla gorclura masculina. A aná-
dos, uma grande proporção da população sonha ser magra, mas vive lise das conversas mostrava nitidamente a existência de uma clupla
gorda e aparentemente sofre com essa contradição. Na França, em inragem dos gordos. De um lado, eles eram mais frequentemente des-
I9T9,umapesquisa indicava que24o/o dos homens e40a/o das mulhe- critos como "bons vivants". A eles atribuía-se a alegria, o bom hu-
res consideravam-se muito gordosr. De acordo com diversas enquetes, mor, o gosto pela boa mesa e pelo convívio. Mas por trás dessa
realizadas a todo momento, entre um quarto e um quinto da popula- sinrpatia, sentia-se fàcilmente perpassar uma imagem negativa do
ção está em regime. Na Itália, em 1916,33o/o dos homens queriam corpo gorclo. A iovialic'laclc dos gorclos era freqncntemcnte suspeitzr
emagrecer, contra 4'7o/o das mulheres; hoje eles são respectivamente cle niro ser mzris do que uma fachada por trás da qual se dissimulavit
427o e 47o/o. trnr sofrirncnto ou a lrislez:r.
Como explicar tal contradição entre a simpatia aparentemente De fato, os retratos clue emcrgiram clas respostas confirmam a
evocada pelos mais cheios de corpo e a recusa quase fóbica que pare- existôncia de r-rm duplo estereótipo clo gorclo. O primeiro ó o de urn
ce se manifestar, hoje particularmente, contra a gordura? O que ó homem roliço, extrovertido, dotado para i1s relações sociais, bancall-
verdadeiro? Amamos os gordos, ou os odiamos? Somos lipófllos ou clo voluntariamente o brincalhão, contando histórias no fim dos ban-
lipófobos?... Nem um nem outro e os dois ao mesmo tempo: de fato, quetes, sofiendo provztvelmcnte por sua corpulêtlcia etn sett foro
nós ,suspeitamos cleles. A fonte principal do paradoxo é que a ima- íntimo, mas nada deixando transparecer. O scgLrndo é bem diÍ-erente.
gem do gordo é profundamente ambivalente. Os homensó gordos não É um cloente ou um clepressivo, um egoísta desenlreado ott um irres-
são percebidos de maneira unívoca. O propósito deste artigo é mos- pclnsível sem controle sobre si mesmo. O primeiro é r-rm gordo sim-
trar que essa amhivalência é provavelmente um fato de todos os tem- pático. O segundo, um obeso que só susciter a reprovação, quzttlclo
pos, talvez universal, e isso por pelo menos uma razão fundamental: não a aversão. No universo das mitologias ou da Íicção, essa dupla
através de nosso corpo, em especial de nossa corpulência, passam iclentrclade do obeso é ainda mais claramente visível. De um lado,
significados sociais muito profundos. Um dos mais importantes é o encontra-se, tle tato, a série de bons gordos bufões à FalstafT, de ou-
seguinte: a corpulênciaÍradtz aos olhos de todos a pafte da comida tro, os obesos parasitas ou exploradores, essa linhagem cle tiranos
que nós nos atribuímos, isto é, simbolicamente, a parte que tomamos bulímicos ou ofegantes que desemboca erl Ubu Rei.
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Psqt!?§--q9-ç98!-'

12 ocupações urbanas
aos €otlot'-:l]t" as
pareciam mais apropriadas os políticos' os rela-
um benigno' o' tt'gféq-d-e- co4inha'
Se existem assim dois estereótipos
da obesidade - citadas encontravam-'"
a orofissão ou a iunção
do
permite Mais-uinà*luundo
se coloca é saber o que etc'
outro maligno - a o;;;;;" q'" O que faz com que uma pessoa
ções-públicas.
sujeito gordo implic.ava
que ele exercesse um trabalho
tlS1f'o;i3re a
reconhecê-los dentro Ja realiãade' obeso' e s1m como
que de outro? não o viam mais çomo
corpulenta "up,o^i*"lii
a" o* estereótipo' mais do física, certos
"n*"'"tudás Vassili Alexeiev'
do corpo tl*;;;;; do alterof,ilista soviético
de uma característica física forre.Diante d" um entrevis-
Trata-se de um fator objetivo' aliás bastante considerável'
ou se trata de um elemento homem de uma adiposidade \'
;;;rd"; É ;;"'tao i" iáportamento?
não existe. senáo no olhar dos
obser-
tado disse-m"' "Cturo'
*te tembarriga' mas é sobretudo
músculo' náo
subjetivo, de atgumaã;;ô* que o dife-
um "gordo bom" e o que é é gordura." ô.rni
vadores? Como ,,".""Jnt,""" orrâ
--^^-r^ sua ocupaçao' '!'
rencia do "gordo *urii À
pnmeira úpótese que surge ó'
seguramente'
Assim, o qte;p!-gyoq do gordo (por exemplo'
de sua própria obe-
I

o obeso maligno' não seria simplesmente itir'"'.,21g1-"-S9 vemos


a do peso. O "gordo *uul" na pesquisa
sua imagem
'o"iur;iff" desde logo' ffiãg"tn social não influ-
bom"? Um dos entrevistados sidade. Podemos peiguntar'
mais gordo do que "r"'at "o
estético que dirigimos
à aparência' o
"
u"ií"ol;i;;;ror" o timite inferior da obesidade também
*ui. '--'encia ";i;;;o ; n
*ü*";;'fd^",i ;r;,
mencionada
ele segue uma tradição bem
estabelecida' , l:i"::;,:l l"ffi
3':1ltl;!illT3
situava em 1 00 kg... Nisso, : ocarí
se
mágicas' Tal como o luüu.r' se ela não permite prever
que atribui uo, "'ú*J'àt tta*aot'.:'::ld"t rears' con-
a encarnar o futuro e a ;;;;;iit'";;; ser eretuada com personagens
ano 2000, que mesmo próximo' "?ntil:u a rotundidade
#;.
-'-temporân"o', *u'"nlàu i*p"a" também de aplicá-la a personagens
;;jil;"'da de 100 kg significa uma
hipermodernidade, g pt""it"' pois' ao que parece' que ex-ista
absoluta. míticos ou ficcionaiJ'
dá oú"so e sua corpulência'
-_t) 1éo certa adequaç'n "li'""ui*"í",3-t".iid qual
Maséclaroquenãotemosnecessidadedeperguntarqua como "gordo bom"' Mas
qoui' no'.esbarramos na vida
cotidiana' para que ele seja;;;il' "tuí'rrcuao simbólico
peso das pessoas
";;-;; se sáo obesas ou não' se nos simpá-
são adequação? E* ;;"çã" à** critérios' de qual çaráúet
para então poa"'*o' àecidir
por "p"t:-' a mass'a
ticas ou não. Mesmo se entendemos
permanece nitidamente
-t];li' " "
insufictente'
subjacente?

dimensão da silhueta'o critério


e que ultrapassam' no
en-
Há gordos que saof igados Positivamente por exemplo'
tanto, muito largamenie os
100 kg' como o demonstra' Inocência ou culpa
e de um bom número de adultos Obesidade e glutonaria:
o cantor Carlos, íd;l;;;"tiançãs podem dellmfe-
na França. Ceftos t"*f"làgicos específicos
:::* :ffi ffi::: 1T ;l'i ::: : ff i;,
as- -
"'çtt
nhar um papel decisivo: barriga'
queixo duplo' textura dapele' A grande ou9 s tã9 o'.:9l
u

to'etc' (todos esses elementos


tes sobrã obesidade'
científicos ou nao'
pecto "mole" ou "rlt["i do tecii-o tif tão culpados ou vítimas?
São vítimas
Mas' ainda aí' esse critério não a uma interrogaçãl';;;;;t glutoneria?
são os citados p"to'-"nt'"uistados)' J" ti"^t'"*aitariedaJe' ou
culpados de
reais' de suas "gnnounll' são percebidos como
;;; da, conia de todas as situaçõesobeso na categoria positiva ou A enquete *o"'u q*ã' na
maioria dos. casos' eles
s s ão
De fato, a classificação de
um Em outro s termo s' ele
;úão'
mas da"re- o s Snrc gs,199r"t'4y;üil;; contro-
negativa resulta, ati'iau' não de um traço particular' coÀem muito e são incapazes dese
'"* e a.imaf to"o' da pessoa' por exem- gordos, n*t"-'áln"-iú é' portanto' um
julgamenlo' mo-1LlUue fre-
lação entre os traços físicos ,n! de obeso lar. De manelÍa implícita'
de certas iunçoes' a condição
plo, sua profissão:'no Lx"rcício hipótese pe- quentement" áo"*u eles' Comá o psiquiatra-psicanalista
tornar-se-ia mais ou menos
incongruente' Eu testei essa
que lhes
'";;;;"
cli,.o aos para me*incricar certas prolissõcs
"ntr"ri'rloão,
PorÍttces oo CouPo l5
14
mas nos luta-
uma vez, trata-se aqui somente da gordura masculina)'
Bernard Brusset justamente notouT, os gordos são considerados corpulência resulta de uma
dores japoneses de sumô, cuja formidável
transgressores; eles parecem violar constantemente as regras que go- comunidade onde reina
vernam ocomer, opÍazet, o trabalho e o esforço, avontadee ocon-
-"tódica e iniciática no seio de uma
"ngoáu
,Ã r"g.u de vida quase ascética. Existem algumas versões ociden-
trole de si. Dito de outro modo, o obeso (seu corpo o trai) passa por
tais secularizadas com os esportistas "pesados" (halterofilistas,
alguém que come mais do que os outros, mais do que o normal, numa peso pesado' etc')'
lançadores de peso, lutadores de catch,boxeadores
palavra: mais do que a sua parte. com a
Eles também, por força de sua função mediática (e' parece'
Assim, a obesidade remete à glutoneria e esta é percebida, mui- ajuda de anabolisantes), escapam ao estatuto de obesos
to profundamente, como uma violação às regras da divisão dos ali- "rt"ráid"*
para aceder ao de "gigantes profissionais"'
mentos. Ora, a divisão da comida, na maior parte das sociedades,
Na falta de força, o gordo pode restituir seu débito à sociedade
simboliza a essôncia mesma do vínculo social. De sorte que o glutão maior parte
sob a forma de espetáculo e de zombaria (exercida' na
(o obeso, em consequência) está implicitamente sob a acusação de teatrais do catr:h
das vezes, em seu próprio detrimento)' Os lutadores
ameaçar os próprios fundamentos da organização social, o que o re-
francês ou dowresÍllrg americano ocupam um estalulo intermediário
mete à animalidade. Nada de espantoso, pois, em se esperar dele uma ..gigantes profissionais" e a comicidade dos htstriões. Porque
entre os
contrapartida disto que nele vemos em excesso. A chave está numa sua
a segunda solução que se abre para o obeso é a de apresentar
forma de reciprocidade: é preciso jogar o jogo do potlatchx social: é no iegistro cômico e/ou espetacular' Um grande número
preciso restituir à coletividade, sob uma forma qualquer, este excesso "orp-ulên"iu um
de atores cômicos capitalizaram sua corpulência para construir
de cornida tornado excesso de peso e, de um só golpe, compensar a (para citar apelllrs antericanos'
personárgem invariírvel e quase mítico
ausência de participação. É em função dessa troca simbólica que o
i.n"ginÃo, W. C. Fielcls, Oliver Hardy, Zero Mostel' Red Skelton'
obeso será classificado como benigno, maligno ou ambíguo. f azendo-
etc). Outros utilizaram sua obesidade em papéis compostos'
clas cria-
os oscilar entre os dois polos, maligno e benigno' ao sabor
Orson Welles, Raimu, o Marlon Brando do
ções: Wallace Beery,
puros per-
A transação simbólica período recente, etc. Observemos que mesmo os cômicos
*r,,"""* ambivalentes: eles apóiam-se frequentemente sobre umer
suspeita de saclismo, como o gordo Hardy que tiraniza
o pequeno
Quais podem ser os termos da troca? O que o obeso pode resti- Laurel e o irascível W. C. Fields' Mas a parte maligna neles é anula-
tuir à coletividade? Primeiro, como tínhamos visto, a força. O traba- punido' E' ele
da pelas desventuras que ela lhes atrai: Harcly é sempre
lhador que usa a força, mesmo com um peso considerável, não é obeso,
qu"m r""ebe os balclei de água ou os tijolos na cabeça' as tortas de
ou não é considerado como tal. Que ele carregue pesadas cargas, que
creme no rosto e os pontapés no traseiro'
desloque móveis, pianos ou containers; assim o gordo vê sua gordura qual
Na vida cotidiana, o gordo deve transigir com o grupo no
se metamorfosear mitologicamente em músculo, sua voracidade se americano Ervirrg
se insere, sob pena de ser rejeitado' O soclólogo
transformar em bom apetite e seu apetite se justificar pela necessida- acuidade notável' descre-
Goffmann ilustrou esse aspecto com uma
de de reproduzir a força de trabalho. detidttt (aproxima-
vendo o "gordo bom" sob os traços do in-groult
Existem sociedades em que certos indivíduos são de alguma for- que um grupo
damente, o..desviante integrado,,): "É muito frequente
ma institucionalmente engordados para preencher uma função alta- um de
ou uma comunidacle estreitamente unida ofereça o exemplo de
mente valorizada. Não penso aqui na engorda quase experimental de por seus atributos'
seus membros que desvia. seja por seus atos, seja
mulheres em certos grupos tradicionais, como os Tuaregues (mais
Por-Írrces r-lo Conpo 71
16

tram-se os glutões desenfreados, como o gordo gato deste conto


ou pelos dois ao mesmo tempo. Por conseguinte, esse exemplo passa
aÍricano: enquanto sua proprietária está ausente, ele come o mingau,
a desempenhar um papel parlicular, ao mesmo tempo símbolo do grupo
a tigela e a concha. A dona volta e lhe diz: "Meu Deus, como você
e representando certas funções bufas, enquanto que lhe é negado o
está gordo!" O gato: "Eu comi o mingau, a tigela e a concha e agora
respeito devido aos membros de pleno direito. De modo característi-
é você que eu vou comer." Ele a devora, deixa a casa, cruza com
co, um tal indivíduo cessa dejogar ojogo das distâncias sociais: ele
outros animais que devora também, antes de morrer finalmente de
invade e se deixa invadir à vontade. Ele representa frequentemente
indigestão.
um foco de atenção que liga os outros num círculo de participantes,
do qual ele é o centro, mas do qual ele não partilha todo o estatuto"e.
Do mesmo modo que o engraçadinho do batalhão, o idiota da peque-
na cidade, ou o bêbado do "pedaço", o "pequeno gordo" do pensionato Os vasos comunicantes
(fat .fraternity boy), ele está no centro do grupo, simultaneamente
como bufão, mascote, confidente e saco de pancadas, mas não pode-
Nessa mitologia cla obesidade maléfica, metáfora das relações
rá.jamais tornar-se verdadeiramente um membro como os outros. É o
de lorça, clo poder clesenfreado, da dissolução do vínculo social, é
preço que deve pagar para não ser totalmente re-leitado.
impressionante constatar que se e ncontra implicitamente uma mesma
concepção fundamental, aparentemente bastante arcaica e talvez uni-
versal, cla ligação social, filndada sobre a divisão dos alimentos e,
O obeso maldito portanto, da riqueza. Sociedades tradicionais ou países clescnvolvi-
dos, todos nós carregarnos aparentemente essa representação
imemorial: a comida, portanto a riqueza, existe em quantidade Íinita.
No lado oposto das diversas representações do "gordo bom",
Elas não são criadas, mas divididas. A co[rscquência é clara: quirl-
encontram-se os estereótipos que colocam em cena o obeso que recu-
quer unl que consuma mais do que sua parte privâ outrem desse tan-
sa a transação simbólica, que descarta deliberadamentc as regras clo
to. É desse tipo cle representação que se origina o que podemos chamar
iogo social. Os avatares do obeso maligno podem percorrer todas as de estereótipo dos vasos comunicantes. Encontrzr-se âí uma infinida-
nuanças da mitologia negativa, do grotesco à f'erocidacle, passando representações atravós do tempo e em todas as épocas: ela colo-
cle cle
pela perversidade. O ápice, aliás, é atingido quando o gordo não se ca em cena dois personagens, dos quais um é sempre gordo e
limita mais à acumulação e à retenção de bens materiais (conro nos gorduroso, o outro sempre famélico e ossudo. Rico e pobre, médico e
estereótipos do gordo aproveitador do mercado negro, traficante e cloente, explorador e explorado: a simples.iustaposição de dois perso-
açambarcador), e se atira à carne e ao sangue de outrern, tornando-se nagens basta parer significar qtle Llm se nutre, de fato, da própria
devorador, vampiro ou carniceiro. Encontra-se sempre essa temática substânciu do oulro. vampiriza-o.
nos estereótipos revolucionários do capitalista feroz, de uma voraci- países desenvolvidos,
A clistribuição social da gordura, nos
dade que pode arrastá-lo até o canibalismo, pelo menos metaforica-
mudou totalmente. No passado, nesses países (hoje ainda, no terceiro
mente: a carne e o sangue dos explorados. Ele se aproxima. assim, do
mundo), o popctlo grasso ocupava os extratos superiores. e o Popçlo
pcrsonagcm do bicho papão, um mito que também pode servir de
n7(tgro, as camadas mais baixas da hierarquia social' Hoje, são os
metáfora social, como no caso do senhor sanguinário Gilles de Rais, pobres que são gordos e os ricos que sào magros: desde 1962, um
personagem real mas legendário, que "consumia" as crianças do
estudo realizado com uma amostra dos habitantes de Nova York ti-
campesinato local. Em numerosíssimas mitologias do mundo, encon-
'79
PorÍrtcas oo ConPo
78
que a percep-
sem dúvida alsuma'
num gru- Esses elementos confirmam' afas-
nha revelado que a obesidade
era sete vezes mais frequente du uou
*udo'' No-sso mod"elo dominante
inferior do que num grupo ção social "o'ffiiu là"tr" XIX' daquele que imperaainda
n"ã" *"fft"res de nível sócio-econômico dos tou-se daquele n'" '"'iãtJ* em certos estratos de
nossas socle-
ocidental moderno' a metáfora *"'*o
de nível superiorio. Nã contexto para o hoje em certas culturu' " apressadamen-
mais' Mas ela transpôs-se como se:eTJor vezes'
vasos comunicantes não funciona rela- dades. Mas isso não srgnifica' a obesidade' ou
para representar a
no"o' ancestrai's amavam
plano planetário: serve agora constantemente o mundo te, tendência adizer'q:o" Confor-
Norte e o Sul' o mundo rico e di;i';" entre a robustez e a obesidade'
ção de exploração "ni*"o oue eles não faziam na
um obeso ocidental e um esfai- há sem dúvida universalidade'
pobre. Ela apresento
'nàtio'"t*ente à" s" uir, há também i"tÃã"ê'"i'' srm-
mundo' pesa sobre o gordo' Consideremos
mado do terceiro suspeita de transgres;ã;ô" correntes para descre-
dà c"ttos termos mais
plesmente a etimologia Do latim
c-111taeões negativas'
ver o corpo uaipo'o' ttl;;il;;s deu origem a gras'so em
crasstts,que significa espesso' grosseiro'
asse' e crass eín in-glês'
A medida da desmedida italiano, graisse"*l;';;'ut';;itambi1," antiga em favor
parece indicar uma inclinaçáo
Essa proximidade náo passado (obesus)
em torno da seguinte pro- da gordura. Quanto
i#;;' #t.o*m do particíprotem também o sen-
O acordo parece hoje quase unânime devorar' mas
*t desenvolvidos' os gor-
puit"t ocidertais de obeclere,qu" "o'u'*i''
poriçáo: t a urn século, "rn'"f'*
erodir'
países' amam-se os magros' Há tido de solaPar, - Ãr^'
dos eram amados;hoje, nos mesmos ascategorias^ proprla-
-.:

essa tese' As sociedades moder- É preciso pois, em suma'


distinBfir
certamente argumentos para apoiar gordas.
1ntt"
o' Limites'ou seja' a medida
gordura nem as pessoas muito mente ditas (magro';;;á;'
obeso'
nas, é claro, não amam n"* u "ú; eles'
" os critérios' medidas'
as
No tempo em que o' 'i"o'
go'dos' uma rotundidade razoável que uma dada cultur:"i;il;;;;;ra relal^r]:lTente
"'im à saúde' à prosperidade' à As categoriat pa1""'eT
era muito bem vista' fiu asõciada os limiares varlam fortemente' Era prectso sem
"'u também ao capricho satisfeito' Dizin- qu" lh"t atribui'
respeitabilidade plausível, mas mais estávei' d" d;;;;;i"tiao '" julgado obe-
que ele eÍa "bem feitoll' enquanto
que a go'dà do q'e hoje para ser
se de um homem gordinho dúvida, no pu"uao''';t "l"t;
que a doença (o definhamento)'
a mal-
so e bem menos -;;;;;;;;
;* considerado magro'/r
fil,agrezanão sugeria mais dá César"
emJúli'o
dade ou a ambiçãodesenfreada' shakespeare o ilustra'

are fat;
Let me have rnen about me thctt
sleep o'nights'
Sleek-headed rnen' crnd such as
and hmtgry look;
Yontl Cassius has n lecLn
too much; sttch men are tlangerotts'tl
He thinks
etimologia e o sentido re-
Existe em fiancês uma palavra cuja ao
Esse substantivo apareceu'
cente são reveladores; enbompointl2' de
que tudo indica, no século XVI'
com con-otações muito positivas
de-
que a acepça: moderna da palavra
boa saúde. O paradoxo quis hoje
signasse o ããtl';uã" condiiío" inicial; se se quiser
"ont.a,io que ela designa é, sem dúvida'
colocar em acordo a paravra e a colsa
malenpoint que será preciso inventar'
80

NOTAS

1. Le Momle,20 de novembro de 1984.


2. Le MonrLe,4 de outubro de 1984.
"A Study of Social Stereotype ol Body hnage in Children"'
Jean-Jacques Courtine
3. J. R. Sl.affieri,
JotLrncrl. o.f PersonaLity and Socittl Psltcfullorr,196'7,7,1, pp' l0l-104

4. L'Express,30 dejunho de 1979.

5. I-a Rept.tbblica. T2 clc dezembro de 1986. OS STAKHANOVISTAS DO NARCISTSMO


6. Não se tratará aqui senão da corpulência masculina A maior parte das Body-building e puritanismo ostentatório
discussões atuais soble a magreza aborcla indistintamente o masculino e o Iêmi-
nino. Ora, tudo indica que se trata dc dois universos muito dil'erentes' na cultura americana do corPo*
7. Bernard Bt'usset, l.'Assiette et l,e miroir, Toulouse, Privat, 1977'
8" O potlatch é um ritual de troca dos índios Kwakiutl cla costa Noroeste mineiro: Alexis
Mcu íclolo não cra um bocly-bLriltler' c sim um
ria América do Nortc no qual o presente cria uma obrigação recíproca para aquele Soviéiica Ern 3l cle outubro de 1935' ele
Stakhanoff, da União
que o recebc. o ritual compofta unla certa dose de agressividadc, na medida em ultraprssando 14
extraía 102 tonelaclas de carvãto em 6 horas'
que cada um pode se esÍbrçar paÍa exageri:lr na "gcnerosidade", aunrcntando as-
vezes o normal
sim a obrigação do parceiro-adversário. Sanr Fussel,
9. GofÍ'man, Erving ( 1968) , Stigma - No[es ort the MrutcLgernent o.[ SpoiLed Mttscte: The Confesrion ol'on UnLikel1t Bodybuilder'
Identity, Harmondsworth, Penguin Books. New Yolk, Poseidon Pross, I99t, p 47

10. M. E. Moore. A. Stunkard, L. Srole, "Obesity, Social Class, irnd Men-


tal Illness", Jottntal of the Ant.ericnn Medical Associatiott, 1962, l8l, pp' 962'
966.

11. Jú.lb César, ato I. cena II.


Angeles' os traços
Em Venice, um dos bairros litorâneos de Los
12. Litcralmente, "Em bom ponto". (N. Org.) inventaram llo curso
de diferentes culturas que os E'stados Unidos
13.conjunto dessa contribuição dcsenvolve os temas presentes em "Lâ
o à beira mar' num curloso
dos últimos trinta anos foram reagrupados
Symbolique du gros", artigo apresentado na revista Communicotions, no 46, 1 987, da contracultura dos
pp. 255-278. parque de diversões. Nesse espaço, fragmentos
do Vietnã se encontram
àrot OO e 70, hippies mumificados e náufragos
yuppies em movimento, joggers' ciclistas'
patinadores'
com a legião de
surfistas. A multidão de curiosos se comprime'
Centrodo espetáculo:
de músculos "levantam
um recinto gradeado, onde corpos inflados

Publicado na revista Communications, n' 56'


1993'
'F