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Educação Unisinos

11(2):103-110,maio/agosto 2007
© 2007 by Unisinos

As atas de reuniões enquanto fontes para a


história da educação: pautando a discussão a
partir de um estudo de caso

Meeting minutes as sources for the history of


education: A discussion based on a case study

Rosimar Serena Siqueira Esquinsani


rosimaresquinsani@upf.br

O documento é monumento. Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao


futuro – voluntária ou involuntariamente – determinada imagem de si próprias.
Jacques Le Goff.

Resumo: O texto percorre fragmentos da trajetória recente de uma rede municipal de


ensino, através de elementos garimpados de atas/registros de reuniões. Tais atas, encaradas
como fontes documentais, referem-se a reuniões entre uma Secretaria Municipal de Educação
e a equipe diretiva das escolas desta Rede Pública Municipal de Ensino, entre os anos de
1989 e 2004. Foram utilizadas 228 atas redigidas no livro oficial da mantenedora, que,
arroladas em temáticas recorrentes, deram origem a oito categorias à luz das quais foi
analisado o material empírico. A partir das categorias, foi elaborado um esquema de
interpretação das atas enquanto registro das decisões e dos processos de gestão da Secretaria
Municipal de Educação, que são comunicadas à rede de ensino afeta a sua gestão tendo
como porta-voz a equipe diretiva das escolas. Escrever, pois, a história recente desta educação
na rede municipal de ensino através da recomposição, leitura e análise de atas foi
significativamente um gesto de transformar em documento aqueles objetos que, restritos a
sua finalidade precípua, nada são além de registros solenes de um encontro, mas que
podem subsidiar ricamente a reconstrução de processos históricos no campo da educação.

Palavras-chave: história da educação, registro, ata, gestão, educação.

Abstract: The article discusses fragments of the recent history of a municipal school network
on the basis of elements collected from minutes of meetings, which are seen as documentary
sources. These are minutes of meetings between a municipal education department and
the directorship team of the schools of that municipal network from 1989 to 2004. 228
minutes recorded in the pertinent official documents were examined. This gave rise to
eight categories in whose light the empirical material was analyzed. Then an interpretation
scheme of the minutes was worked out on the basis of the categories. The minutes are
records of the decisions and processes of management by the municipal education
department. These decisions are communicated to the municipal school network through
the schools’ directorship teams. Thus, to write the recent history of the education provided
by that network means to turn into documents objects that, if restricted to their main
purpose, are just solemn records of a meeting, but can also help to reconstruct historical
processes in the field of education.

Key words: education history, record, minutes, management, education.

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Rosimar Serena Siqueira Esquinsani

Introdução vilegia a leitura de quatro administra- enganamo-nos quando pensamos


ções municipais: 1989-1992; 1993- que o fazer, a prática, se explica a par-
As atas elaboradas para / em / a 1996; 1997-2000 e 2001-2004. tir do que é feito”.
partir de reuniões, podem ser qualifi- Tratando, pois, as qualificadas Em resumo, os objetos que servem
cadas enquanto registros formais de atas como fontes documentais, par- de documentos ao pesquisador pre-
um encontro promovido por um ór- to do princípio de que são estas fon- cisam ser pensados à luz da história,
gão, associação, entidade ou grupo tes de pesquisa que permitem/favo- pois não escrevemos a historia de
de sujeitos, tanto com seus pares recem a passagem do saber senso- forma neutra. Somos também sujei-
quanto subordinados, visando deli- comum (suposições, achismos) para tos históricos, sendo que o conheci-
berar sobre assuntos de interesse uma construção científica acerca de mento do passado sofre a interven-
comum ou repassar informações. como e por quais caminhos foi con- ção e a interpretação do presente. A
Encaradas como potenciais docu- duzida a rede municipal de ensino ao leitura do passado é sempre dirigida
mentos de valor jurídico, as atas têm longo da história recente da educa- por uma leitura do presente (Certeau,
a necessidade de consubstanciarem- ção no município foco de estudos, 1982). Ou, tomando ainda as palavras
se enquanto um fiel registro do que ainda que se trate uma construção de Certeau (1982, p. 46), trabalhar com
ocorreu na reunião (deliberações, sobre fragmentos. História da Educação é “reconhecer
decisões, discussões). Por outro No que tange em específico às fon- o presente no seu objeto e o passa-
lado, atas também podem servir como tes documentais, é preciso tratá-las do nas suas práticas”.
uma rica fonte documental, sobrema- como objetos não naturais, a fim de Visando corroborar no processo de
neira para a história da educação. leitura sobre a história da educação
Dentro desta perspectiva, a ata é en- [...] perceber uma certa prática, muito no município analisado no período de
bem datada, que os objetivou sob um 1989 a 2004, utilizei 228 (duzentas e
tendida como um lugar de memória
aspecto datado como ela: pois é por vinte e oito) atas redigidas pela SME
(Nora, 1993) que, do ponto de vista
isso que existe [a] “parte oculta do
científico, metodológico ou historio- no livro oficial de atas da mantenedo-
iceberg”; porque esquecemos a prática
gráfico, pode ser mais ou menos ri- para não mais ver senão os objetos que
ra e que dizem respeito às reuniões
gorosa, mas, ainda assim, um lugar a retificam a nossos olhos. Façamos desta com a equipe diretiva das esco-
de memória. então o inverso. (Veyne, 1995, p. 154). las da Rede Municipal de Ensino.
Para realizar a interpretação dos
Os lugares de memória nascem e vi- Um documento não é, portanto, documentos, arrolei as temáticas re-
vem do sentimento de que não há me- neutro. Ele foi construído para aten- correntes nas atas dispostas à análi-
mória espontânea, que é preciso criar der a uma determinada finalidade, se, tais como: rupturas com projetos
arquivos, organizar celebrações, man- dentro de uma dada prática (entendi- instituídos; formação de professores;
ter aniversários, pronunciar elogios eventos promovidos pela mantenedo-
da como ação, momento) histórica e
fúnebres, notariar atas, porque estas
pertenceu/e a um determinado grupo, ra; relação SME X Escola em diferen-
operações não são naturais. (Nora,
1993, p. 13 – grifo meu). o grupo que o forjou, que o legitimou. tes contextos (documentação legal,
Sobre esta prática histórica, data- supervisão, orientações de cunho
Destarte, o texto que segue conta da que forja/ou os objetos, diz Veyne pedagógico), além de duas aborda-
fragmentos da história da educação (1995, p. 157-158) que podemos “cha- gens tácitas: o personalismo apresen-
de uma rede municipal de ensino, sob má-la ‘parte oculta do iceberg’ [...] tado na escrita das referidas atas e as
o ponto de vista do órgão adminis- simplesmente porque ela partilha da vozes presentes e ausentes no texto
trativo, através de elementos garim- sorte da quase totalidade de nossos oficial. A partir de tais temáticas, fo-
pados em atas de reuniões. comportamentos e da história univer- ram elencadas oito categorias, à luz
As atas mencionadas referem-se sal: temos freqüentemente consciên- das quais analisei o material empírico:
a reuniões entre a Secretaria Munici- cia deles, mas não temos o conceito a) os rituais da reunião (aspectos for-
pal de Educação (SME) de um muni- para eles”. mais de produção das atas); b) pre-
cípio de porte médio no interior do Diz Veyne (1995, p. 164), ainda, senças e ausências; c) elementos con-
Rio Grande do Sul e a equipe diretiva que as práticas são raras, pontiagu- textuais; d) rupturas e permanências;
(diretor, vice-diretor, coordenador das, específicas e são elas que for- e) relação da SME com a rede de esco-
pedagógico e orientador educacio- jam os objetos. E ele continua sua las: f) ingerência da mantenedora no
104 nal) das escolas da rede pública mu- reflexão ensejando que “o que é fei- cotidiano das escolas; g) temáticas
nicipal de ensino, entre os anos de to, o objeto, se explica pelo que foi o ordinárias; h) temáticas extraordinári-
1989 e 2004. Tal recorte temporal pri- fazer em cada momento da história, as desenvolvidas nas reuniões.

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A partir destas categorias, elabo- taria e, por fim, alguma recomendação um convidado), há uma preocupação
rei um esquema de leitura das atas de caráter burocrático. excessiva com a redundância de ter-
enquanto registros das decisões e Os ritos1 das reuniões com a man- mos e designações e pouco registro
dos projetos gestionários da Secre- tenedora eram arquitetados a partir sobre o conteúdo do que foi dito.
taria de Municipal de Educação, que de seqüências e arranjos que permi- Outro elemento ritualístico carac-
são comunicadas à rede de ensino tiam vislumbrar a reunião a partir de terístico da confecção de uma ata são
afeta à sua gestão, tendo como “por- um sujeito, um dono: a Secretaria as assinaturas, que vêm logo após o
ta-voz” a equipe diretiva das escolas Municipal de Educação, representa- aviso de que a ata será assinada pelo
(diretor/a, vice-diretor/a, coordena- da sempre pela mais alta figura hie- redator e por todos os demais pre-
dor/a pedagógico, orientador educa- rárquica (o/a secretário/a, quando sentes. As assinaturas ou autógra-
cional), denotando a possibilidade de presente, ou a chefia do departamen- fos garantem, pelo menos precaria-
se contar a história da educação atra- to pedagógico ou administrativo). mente, a autenticidade do registro do
vés da leitura de atas. Esta figura era o símbolo focal da reu- que foi dito na reunião. Contudo, no
nião, que dava sentido ao “estar lá”. material empírico analisado, perce-
O que há de comum... as Os aspectos formais na elabora- bem-se diferentes tratos para a ques-
leituras de cunho geral ção das atas parecem ser um dos prin- tão das assinaturas, pois há casos
cípios de continuidade entre as qua- em que apenas o/a redator/a assina a
Tendo como norte de reflexão as tro administrações examinadas. Algu- ata; casos em que apenas a equipe
categorias de análise, é possível pon- mas questões, como quem redigiu as da SME assina a ata; raros casos em
tuar uma leitura geral, ou os ingredi- atas, são comuns, pois em geral o re- que dois ou três participantes assi-
entes presentes nos 16 anos em rele- dator era um professor de língua por- nam a ata, mas há um espaço em bran-
vo. Apesar de considerar inviável a tuguesa (denotando a escolha por um co (seis ou sete linhas, em geral) re-
leitura pasteurizada das atas redigi- profissional que conheceria, em tese, servado supostamente para autógra-
das no período – o que equivaleria a dos meandros técnicos do documen- fos que seriam colhidos em outra
tratar de forma homogênea quatro to) ou um funcionário técnico de um ocasião; mas, na maioria dos casos,
administrações municipais seqüenci- setor que constava no organograma há um considerável número de assi-
ais e distintas –, possível tecer con- da SME, denominado “Programação” naturas. Através das assinaturas im-
siderações mínimas sobre os tais do- (Esquinsani, 2004), setor sobre o qual pressas na maioria das atas, é possí-
cumentos, independentemente da recaía a função de logística das reu- vel fazer ainda uma observação: os
administração a que se referem. niões, providenciando local, água, autógrafos seguem, em reuniões di-
A primeira consideração diz respei- café, etc., bem como organizar o re- ferentes, a mesma seqüência: quem
to ao caráter ritualístico das reuniões gistro formal da reunião. redigiu a ata, os presentes represen-
entre a mantenedora e as equipes di- Outra questão que merece desta- tantes das escolas e a equipe da SME.
retivas das escolas. Quase sem exce- que diz respeito à produção escrita Em relação à incidência de reu-
ção, as reuniões ordinárias (mensais) das atas. Examinando o texto escrito, niões realizadas, é possível acompa-
seguiam uma pauta presumida, que chama atenção o vocabulário reduzi- nhar ainda que, nas quatro adminis-
incluía as boas-vindas aos presentes; do, a falta de uma finalização adequa- trações municipais estudadas, no pri-
palavras do (a) secretário (a) de edu- da para as frases, além de uma redun- meiro ano da administração ocorreu
cação; eventualmente uma mensagem dância em se tratando de expressões. a realização do maior número de reu-
de estímulo/incentivo ao trabalho das Geralmente quem redigiu as atas niões com a equipe diretiva das es-
escolas; a participação e a fala de con- analisadas o fez sob o calor do mo- colas municipais, ao passo que o úl-
vidados externos à Rede; agradeci- mento, sem muita reflexão sobre quais timo ano da administração acolheu o
mentos por participações em determi- eram os melhores termos para expres- menor número de reuniões realizadas.
nados atos da administração (como sar o que estava sendo dito, tampou- No primeiro ano da administração,
festas, gincanas, eventos e promo- co preocupado com as possibilidades as reuniões realizadas serviam prin-
ções); alguma diretriz pedagógica (não de leitura futura sobre o que estava cipalmente para apresentar alguma
presente em todas as reuniões); infor- registrando. Quando da fala de algu- política, ação ou programa da secre-
mes dos diferentes setores da secre- ma “autoridade” (como o prefeito ou taria; anunciar o fim de algum projeto

105
1
A etimologia da palavra “rito” significa ordem. Ritus, em latim, está associado à idéia de uma ordem prescrita; a raiz ar deriva do indo europeu védico
(rta, arta) e remete à ordem do cosmo (Riviére, 1997, p. 326). Rivière, na obra citada, analisa uma variedade de ritos que podem ser observados no
dia-a-dia: os ritos de chegada, ritos de ordem e ritos de atividades.

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do governo anterior; informar altera- escola falava, raras vezes tinha o seu melhor” para retificar erros cometi-
ções no organograma da SME; tra- nome registrado. Normalmente era dos na redação da ata. Tais descui-
çar diretrizes de ação e gestão da rede identificado pelo nome de sua esco- dos, entre outros aspectos observá-
de escolas, e/ou para ouvir palestras la, ou então havia o uso indiscrimi- veis, demonstram a pouca atenção
temáticas. Nas quatro administrações nado do sujeito oculto: “alguém fa- ao caráter documental e/ou formal de
em foco, o/a secretário/a foi o/a pa- lou”; “houve questionamentos”, etc. uma ata.
lestrante da primeira reunião, anun- Também não são mencionadas as Da mesma forma, é visível certa
ciando os seus colaboradores dire- evoluções das discussões em torno precariedade na rede de escolas e em
tos e suas crenças na educação. dos “questionamentos” feitos nas reu- sua gestão, expressa em atas onde
Já, no último ano, a temática mais niões. Eles são mencionados de forma há o registro de que “se houver falta
recorrente era a exaltação e desta- rápida, não sendo elencados e nem de serventes, os diretores deverão
que aos feitos da administração. Tal qualificados; tampouco as eventuais solicitar ajuda das mães para a distri-
temática vigorava até o mês de outu- respostas estão anotadas nas atas. buição da merenda” (Ata 03/1989, de
bro, sendo que nas parcas reuniões Estas leituras levaram a reflexões 17/02/1989). Mais adiante, ainda na
que ocorriam a partir do mês de ou- sobre o caráter da ata enquanto do- mesma ata: “[...] quanto às serven-
tubro (em geral uma única posterior, cumento/registro oficial, bem como tes, as mesmas não devem ir para sala
em dezembro), havia o agradecimen- sua função / finalidade de servir como de aula atender alunos ou substituir
to do/a secretário/a pela participa- assentamento de decisões, significan- professores, pois as mesmas são
ção e colaboração de todos na admi- do o lugar onde é possível identificar contratadas para serviços de meren-
nistração que se encerrava. quem tem voz dentro de uma determi- deira, conservação e limpeza da es-
Ainda quanto aos termos de de- nada administração, através das opi- cola, e não para dar aula”.
signação/qualificação dos presentes: niões que são registradas, dos perso- Paradoxalmente, mas ainda rea-
há uma preocupação com o tratamen- nagens que estão presentes no regis- firmando a precariedade da rede de
to dispensado às autoridades pre- tro (SME, Prefeito, secretário, profes- escolas, em outra ata é possível ler o
sentes em uma reunião. Invariavel- sores – quais – e com qual incidên- seguinte trecho: “[...] foi salientada
mente, o/a secretário/a é tratado cia), sendo viável concluir que, como a importância de que o aluno não fi-
como “o/a senhor/a secretário/a mu- a ata é um registro oficial, somente as que sem aula, mesmo que pessoas
nicipal de educação, professor/a...”, vozes oficiais estão nela presentes, alheias à classe tenham de assumi-
em quase todas as circunstâncias em sendo fácil identificar quem são os la” (Ata 09/89 de 16/03/1989), ou ain-
que seu nome é citado, mas, sobre- sujeitos da reunião e quem é a platéia da em outro período: “a dificuldade
tudo, antes da fala do/a mesmo/a, assistente. que está enfrentando a equipe de
demonstrando a importância do re- supervisão [da SME] de se locomo-
gistro personalizado da autoridade As atas elaboradas entre ver até determinadas escolas” (Ata
como incremento legitimador, via 1989 a 1992 03/90, de 06 de julho de 1990).
poder hierárquico, do que acontece- A relação da Secretaria Munici-
ria na reunião. Há certa precariedade visível no pal de Educação com a rede de esco-
Essa situação contribui para evi- período em questão, tanto no aspec- las mantidas apresenta alguns pon-
denciar presenças e ausências regis- to de confecção do documento ou a tos importantes desnudados na lei-
tradas no documento. Nas quatro escrita das atas; quanto se depreen- tura das atas, como o caráter externo
administrações, está patente que pes- de a mesma análise para a gestão da impingido ao trabalho pedagógico
soas representavam a mantenedora, rede de escolas (pois, na época, o na escola. O tom de justificativa para
que cargos ocupavam e o que fala- município não estava organizado em qualquer ação realizada na escola –
ram na reunião. Da mesma forma, as sistema de ensino). desde as mais prosaicas até decisões
autoridades ou convidados eventu- Tal precariedade, sob o ponto de estruturais –, podia ser percebido nas
almente presentes à reunião mereci- vista formal, está clara no registro das narrações das escolas, em forma de
am caráter de distinção, seja no regis- atas, com assinaturas em azul; atas prestação de contas à SME.
tro personalizado de sua presença, escritas parte em azul, parte em ca- Outro elemento presente no pe-
seja no registro trabalhado de suas neta da cor preta; atas escritas em ríodo analisado são as inúmeras ori-
falas. forma de itens: a); b); c); frases sol- entações passadas à rede de esco-
106 Tal lógica não se aplica, entretan- tas e desconexas; além da utilização las nas reuniões registradas. Invari-
to, aos demais participantes. Quan- indiscriminada de expressões como avelmente, tais orientações valiam-
do algum representante de alguma “quer dizer”, “em tempo”, “digo”, “ou se do paradigma da “uniformidade”:

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todos deveriam fazer a mesma coisa, O contexto macro também esteve As atas elaboradas de
do mesmo modo, com a mesma in- presente nesta administração, pois, 1993 a 1996
tensidade. Este paradigma “unifor- entre a década de 1980 e os primei-
me”, presente em diversas atas, pro- ros anos da década de 1990, são di- No período posto em relevo, al-
blematiza a autonomia das unidades vulgados entusiasticamente aqui no guns elementos característicos assi-
educativas partícipes da rede muni- Brasil os estudos psicopedagógicos nalam a história da rede municipal
cipal: a presença de tal princípio e a baseados nas idéias de Piaget e em estudo, como a prática de avalia-
intensidade do mesmo. Vygotsky, estudos que defendiam o ções externas na rede de ensino, com
A autonomia e a participação en- processo de ensino-aprendizagem a ênfase no controle externo e na
quanto princípios de trabalho parecem em uma perspectiva mais inovadora comparação/competição entre as es-
ter assinalado, de forma avessa, a ad- do que as idéias e ideais da escola colas da rede. Tal prática é, ao mes-
ministração 1989-1992. Pela leitura das tecnicista ainda em voga. É o adven- mo tempo, causa e efeito da preocu-
atas produzidas no período é possível to do chamado “movimento constru- pação crescente com a aferição da
marcar esta administração na história tivista”, que entra em cena contes- qualidade do ensino.
da educação municipal pelo forte tom tando as práticas pedagógicas de As ações e políticas desencadea-
de ingerência da mantenedora na rede abordagens superficiais, envolven- das por esta administração objetiva-
de escolas. Tal situação pode ser exem- do o apelo à memorização pura e sim- vam reverter o quadro de reprova-
plificada através do registro contido ples dos conteúdos, não raras vezes ção nas escolas municipais, buscan-
em uma ata redigida no final de um ano, desconectados do cotidiano, sendo do consolidar um perfil de qualidade
onde se faz uma avaliação do trabalho a escola vista como uma “repassa- para a rede municipal de ensino. Isto
da SME com diretores e coordenado- dora” de conteúdos. era feito, sobretudo, a partir do fo-
res pedagógicos das escolas. Neste A rede de escolas municipais pa- mento à competição, com a escolha
momento pode-se ler: “[...] Prega-se rece ter “abraçado” o construtivismo das “escolas destaque”, que eram
muito a participação do aluno na sala como alternativa mais adequada à selecionadas por critérios meritocrá-
de aula, mas nega-se a participação dos condução das práticas pedagógicas ticos, mas também por se ajustarem
diretores na SME e muitas vezes são encetadas nas unidades educativas, aos ditames do órgão administrativo
usados como cobaias. O papel do su- visto que constantemente a equipe (Ata 34/95, de 04/10/1995), o que de-
pervisor é nos acompanhar, nos orien- diretiva das escolas era lembrada dos senhava um caráter de centralização
tar [mas o que há é] fiscalização e falta estudos construtivistas que estavam das orientações e da condução das
de acompanhamento nas escolas pela sendo desenvolvidos (Atas 23/92 e escolas da RME.
supervisão da SME” (Ata 16/90, de 24/92 de 1992, de 18/05/1992 e 25/06/ Contudo, nenhum outro tema é
14/12/1990). 1992, respectivamente). mais patente e característico desta
Outra questão diz respeito ao pro- Outro olhar inaugurado pela dé- administração quanto as avaliações
saico, ao cotidiano que escapa de cada de 1990 e presente nas atas externas (Ata 09/1993, de 04/08/1993
consensos internos aos grupos e as- redigidas pela administração 1989- e ata 37/95, de 20/12/1995). Peça cen-
sume ares de relevância, a ponto de 1992 diz respeito à infância e à ado- tral dos mecanismos de controle es-
ser discutido em reuniões com regis- lescência. O Estatuto da Criança e tatal sobre o produto da escolariza-
tro formal de decisões. Se para o his- do Adolescente – Lei nº 8.069, de 13 ção, a avaliação externa foi alvo dos
toriador da educação tal questão é de julho de 1990 –, introduz mudan- mais ferrenhos ataques à política edu-
um prato cheio que aguça nosso ape- ças significativas em relação à le- cacional organizada no município es-
tite pela leitura contextual, do ponto gislação anterior, o chamado Códi- tudado, sobretudo por supostamen-
de vista da gestão de uma rede de go de Menores, instituído em 1979. te deslocar o foco de atenções dos
ensino tal assunto demonstra proble- Crianças e adolescentes passam a processos para os produtos, através
mas na organização interna da rede. ser considerados cidadãos, com di- da simples verificação da ação da es-
O exemplo que segue foi retirado de reitos pessoais e sociais garantidos, cola, certificando sua qualidade.
uma reunião da qual participou a equi- desafiando administrações públicas A relação da SME enquanto ór-
pe diretiva de todas as escolas e os em diferentes níveis a implementa- gão condutor da rede de escolas é
coordenadores de diversos setores rem políticas públicas especialmen- marcada por tons de cobrança de re-
da secretaria de educação: “[...] fica te dirigidas a esse segmento. Tal sultados e alinhamento aos ditames
lembrado novamente o fumo na SME. desafio esteve presente nos regis- da mantenedora, como nos exemplos 107
Fumar só no horário previsto” (Ata tros da administração municipal em que seguem: “solicita-se maior res-
08/90, de 17/09/1990). curso. ponsabilidade dos professores par-

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ticipantes em cursos promovidos mais com a estrutura societal do que chance de formação: “[...] [em deter-
pela SME, porque observa-se o des- com o cotidiano da sala de aula. minado evento] não houve a partici-
caso e a não participação dos mes- pação desejada, considerando que
mos, bem como a não observância As atas elaboradas de os temas abordados são de interes-
no horário [...] Os professores que 1997 a 2000 se das escolas. Lamenta-se a pouca
não comparecerem aos encontros participação das escolas” (Ata 98/
deverão justificar os motivos” (Ata Neste período, há uma sensível 99 de 29/10/1999).
27/95, de 12/04/1995).; “a professora alteração na linguagem adotada para A redatora das atas permaneceu
[...] cobrou o porquê da ausência de o registro das atas: do modo impera- sendo uma pessoa ligada a SME,
09 escolas na reunião de superviso- tivo utilizado no tratamento para com uma assessora ou cargo de confian-
res do dia 12/04/1995” (Ata 28/95, de as escolas, adota-se, agora, formas ça (assim, o órgão continuou com o
17/05/1995); e ainda: “segunda-feira mais amenas de referência às mes- controle do que seria registrado). Há,
será dia letivo normal e recomenda- mas. Palavras como representação, entretanto, uma diferença percebida:
se que os professores cumpram ri- participação, autonomia e processo várias vezes a ata foi redigida por
gorosamente o horário nas escolas” passam a compor a narrativa. Elabo- uma coordenadora pedagógica, o
(Ata 33/95, de 06/07/1995). rar em conjunto, construir, trabalhar que dava um caráter mais “despoja-
Os elementos contextuais macro em função do coletivo (idéia de rede) do” para tal documento, com a eco-
também estão assinalados na admi- e sugerir configuram-se como ativi- nomia dos termos de designação e a
nistração 1993-1996. Isto porque a dades rotineiras nas reuniões. preocupação acentuada em relatar as
década de 1990 nasce sob o impacto “A rede municipal tem necessida- discussões pedagógicas travadas no
da Conferência Mundial sobre Edu- de da visão do todo” (Ata 71/97, de decorrer da reunião.
cação para Todos, realizada em Jom- 22/07/1997) era aclamado em uma reu- Da mesma forma, seguidas vezes
tien, Tailândia, em março de 1990, e nião, para dar idéia da urgência de as atas narravam a discussão que
que vai desembocar, no Brasil, na alinhavos na identidade comum havia sido travada, fornecendo sub-
construção do Plano Decenal de Edu- (apesar das especificidades de cada sídios quase completos sobre o que
cação Para Todos, datado de 1993. comunidade escolar) que a rede pre- foi falado na reunião, não se redu-
Neste sentido, tanto o documen- cisava consolidar. zindo aos encaminhamentos dados.
to produzido pela Conferência Mun- Outra diferenciação diz respeito Ainda é preciso enfatizar que esta
dial sobre Educação para Todos quan- ao papel desempenhado pela SME administração desenha-se, no cam-
to documentos produzidos tendo em em relação às escolas. Pelo menos po educacional, sob o impacto de
vista a construção do Plano Decenal enquanto discurso ou registro, se três eventos: a nova Lei de Diretri-
(Ata 21/1994, de 01/07/1994) definem altera o papel da SME, que não é mais zes e Bases da Educação Nacional;
o tema central na agenda de estudos mencionada como órgão de supervi- o relatório Jacques Delors e a proxi-
e formação docente realizados por são, de fiscalização, mas sim como midade (quase) “mítica” do final do
esta administração. uma aliada no desenvolvimento das milênio.
Nota-se, claramente, um “aumen- atividades das escolas. Os anos subseqüentes à homo-
to” de eventos, ações e de discus- As cobranças referentes à parti- logação da LDB 9.394/96 foram mar-
sões para/sobre a formação de pro- cipação das escolas em eventos ou cados por uma intensa mobilização
fessores nos últimos dois anos da ao cumprimento de determinadas dos educadores no estudo de tal lei,
administração (Ata 45/1996, de 26 de normas, assumem outra conotação sobretudo nos aspectos tocantes à
junho de 1996). Tais eventos e ações no texto das atas, sendo que há o sua exeqüibilidade (jurisprudência).
estavam articulados às políticas edu- “convite” e a “solicitação’, que to- Tal contexto provocou nos educa-
cacionais no nível macro, ligando mam o lugar dos verbos no modo dores a ânsia por formação continu-
diretamente o município em foco às imperativo adotados nas redações da ada, tanto na perspectiva de apro-
principais tendências educacionais administração anterior, assim como priação do texto legal quanto para
e acontecimentos nesta área no Es- as sanções também assumem ares dar conta de temas e situações até
tado e no país. Este parece ter sido o diferenciados, sendo que se troca o então pouco discutidas em redes e
grande mérito da administração: en- discurso imperativo por palavras unidades educativas, como: o Proje-
xergar a educação de uma forma glo- mais amenas. Se o professor não foi to Político-Pedagógico; a articulação
108 bal, para além dos “bairrismos lo- a um encontro, por exemplo, não lhe das unidades educativas com a co-
cais”, pensando em políticas educa- seria imposta nenhuma sanção, mas munidade e todos os demais temas
cionais e ações que se articulavam o lamento por haver perdido uma atinentes a essas novas possibilida-

Educação Unisinos

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As atas de reuniões enquanto fontes para a história da educação: pautando a discussão a partir de um estudo de caso

des: discussões de currículos, pla- do se pede que as críticas sejam fei- gicos das escolas (Ata 106/2002, de
nos de estudos, recuperação e pro- tas pessoalmente, se marginaliza e se 20/02/2002), reflexo contextual dos
blemas de aprendizagem, entre ou- retira a legitimidade de outros fóruns encaminhamentos da LDB 9.394/96.
tros. (Atas 59/97, de 18/04/97 e 55/97 de discussão sobre os eventuais pro-
de 27/02/97). blemas da rede ou das ações da man- Algumas conclusões
O Relatório Jacques Delors – Re- tenedora.
latório para a UNESCO da Comissão Ao longo desta administração, as A laboriosa atividade de garimpar,
Internacional sobre a educação para atas ainda possibilitam, por vezes, a separar e catalogar as atas analisa-
o século XXI, sob o título “Educa- interpretação de que a SME (ou algu- das remete à ponderação de Certeau
ção: um tesouro a descobrir” –, inici- ma ação desenvolvida/promovida por (1982, p. 81): “[...] em história, tudo
ado em março de 1993 e concluído esta secretaria) estaria sendo questi- começa com o gesto de separar, de
em setembro de 1996, toma o cenário onada ao longo das reuniões, mas reunir, de transformar em ‘documen-
da globalização das relações econô- nunca se chega a registrar as eventu- tos’ certos objetos distribuídos de
micas e culturais e o transforma no ais críticas ou ponderações. Este en- outra maneira”.
palco que reconfigura o papel da tendimento fica relativamente claro Escrever, pois, fragmentos da his-
educação. nas atas 109/2002, de 18/06/2002, e tória recente da educação em uma
Tal relatório, divulgado e publi- 112/2002, de 04/10/2002, mas destaco rede municipal de ensino através da
cado no Brasil na seqüência da LDB que o registro, neste caso, é sempre recomposição, leitura e análise das
de 1996, foi a “obra-referência” para muito vago: “[...] a SME não permite atas qualificadas ao longo do texto
educadores comprometidos com os que as escolas achem espaços para foi significativamente um gesto de
novos ‘ares’ educacionais que vi- palestra...”, ou ainda “houve retorno transformar em documento aqueles
nham no bojo da então nova lei e da ao assunto inicial, quando houve a objetos que, levados ao seu contex-
proximidade do final do século XX e questão de não mais existirem os pó- to e restritos à sua finalidade precí-
do 2o milênio, tornando-se também los de estudo...”. Desta feita, retomo pua, nada são além de registros so-
elemento importante nas discussões a idéia de que as reuniões que gera- lenes de um encontro. Eis a função
encetadas nas reuniões desenvolvi- ram as atas analisadas, neste caso, do historiador da educação: “[...]
das pela administração 1997-2000. eram espaços para a legitimidade do transformar alguma coisa, que tinha
Isso contribuiu para uma predispo- que a administração fazia e não para sua posição e seu papel, em alguma
sição simbólica e mesmo uma expec- discussões coletivas. outra coisa que funciona diferente-
tativa de mudanças e inovações no As reuniões com a equipe direti- mente” (Certeau, 1982, p. 83).
cenário educativo. va das escolas da RME – em compa- Não coloco em dúvida, de forma
ração com as administrações anteri- alguma, o status de fonte documental
As atas elaboradas entre ores –, foram reduzidas significati- de uma ata. Contudo, o olhar do his-
os anos de 2001 e 2004 vamente no período em análise, res- toriador da educação precisou agu-
tringindo-se, na maioria das vezes, a çar-se, a fim de retirar daquele regis-
Em geral, as atas redigidas nos reuniões para repasses de informa- tro elementos significativos para re-
quatro anos enfocados nesta admi- ções e comunicações. A situação construção da história da educação
nistração, apresentaram característi- teve a seguinte justificativa oficial: na rede municipal ao longo de 16 anos.
cas similares às atas redigidas nas “[em razão das] inúmeras atividades
administrações anteriores, aliás, há das escolas, as reuniões com os di- As fontes resultam da ação histórica
uma continuidade dos redatores, retores ficaram reduzidas” (Ata 102/ do homem e, mesmo que não tenham
sempre pessoas ligadas ao órgão. 2001, de 07/06/2001). sido produzidas com a intencionali-
Percebe-se, no entanto, certa ne- Destaco ainda e de forma positiva, dade de registrar a sua vida e o seu
mundo, acabam testemunhando o
cessidade de validação para a admi- que palavras como “solicitação”, “su-
mundo dos homens em suas relações
nistração vigente nas atas encontra- gestão”, “parabenização” e seus des- com outros homens e com o mundo
das. Em registros como: “[...] a ética dobramentos continuaram a compor os circundante, a natureza, de forma que
é fundamental, as críticas e suges- tons da narrativa, demonstrando uma produza e reproduza as condições de
tões serão feitas pessoalmente” (Ata cordialidade presente nas reuniões. existência e de vida. (Lombardi, 2004,
108/2001, de 08/01/2001), tanto pode Também de forma positiva mere- p. 155).
se perceber este sentido de valida- ce destaque o empenho encetado por 109
ção, como certa intimidação a possí- esta administração em organizar os Mais trabalhoso ainda foi o fato
veis manifestações contrárias. Quan- planos de ensino e projetos pedagó- de transformar em fonte histórica um

volume 11, número 2, maio • agosto 2007

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Rosimar Serena Siqueira Esquinsani

documento sobre o qual há espar- da forma como a rede pública muni-


sos estudos específicos2, deixando cipal de ensino em questão se confi-
entreaberta a possibilidade de ensaio gurou ao longo dos tempos, permi-
e erro do pesquisador. tindo perceber nuances do perfil de-
Como conclusão, aponto alguns senhado pela rede em sua história
entraves à pesquisa com atas en- recente, a partir da relação das esco-
quanto registro da história da edu- las com o órgão administrativo.
cação, tomando por base o estudo
de caso em relevo: primeiro, a apa- Referências
rente falta de organização no regis-
tro destes documentos nas quatro BAUER, W. 1957. Introducción al estudio
administrações analisadas: datas tro- de la história. 3ª ed., Barcelona, Bosch,
cadas; números de atas repetidas e/ 626 p.
CERTEAU, M. de. 1982. A escrita da his-
ou descontínuas; diversas atas re-
tória. Rio de Janeiro, Forense Univer-
petidas (passadas a limpo); erros
sitária, 352 p.
crassos de língua portuguesa; infor- ESQUINSANI, R.S.S. 2004. As leituras de
mações que faltam (como determina- uma prática: a análise das políticas
das datas no corpo do texto e outras no âmbito da educação municipal –
lacunas que parecem ter sido ali dei- um estudo de caso. São Leopoldo, RS.
xadas para serem preenchidas de- Tese de Doutorado. Universidade do
pois); inúmeros adendos “em tem- Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS.
265 p.
po” logo após a conclusão de uma
LOMBARDI, J.C. 2004. História e
reunião e a assinatura dos partici- historiografia da educação: atentando
pantes; atas rasuradas; apontamen- para as fontes. In: J.C. LOMBARDI e
tos a lápis feitos no interior dos re- M.I.M. NASCIMENTO (org.), Fontes,
gistros, além de outras questões for- história e historiografia da educação,
mais que dificultam a validação e a Campinas, Autores Associados, p. 141-
fidedignidade de algumas informa- 176.
NORA, P. 1993. Entre memória e histó-
ções ali contidas.
ria: a problemática dos lugares. Revista
Outro entrave diz respeito à forma Projeto História, 10:7-28.
fragmentada e parcial com que diver- RIVIÈRE, C. 1997. Os ritos profanos.
sas idéias e registros foram feitos; Petrópolis, Vozes. 326 p.
apenas quem já tem certa intimidade VEYNE, P.M. 1995. Como se escreve a
com a estrutura da rede é capaz de história. 3ª ed., Brasília, Editora da
decodificar o que tal citação quer di- UnB, 198 p.
zer, quem está sendo referido, como
deveria ocorrer tal evento. Para en-
tender algumas informações, é preci- Fontes documentais
so ser um grande conhecedor da rede
pública municipal em questão e das Livro de Atas das reuniões entre a Secreta-
ria Municipal de Ensino de Passo Fun-
práticas instituídas naquele espaço.
do e a equipe diretiva das escolas da
As atas elaboradas, até onde o traba- Rede Municipal de Ensino, 1989-2004. Rosimar Esquinsani
lho empírico permite ver, foram trata- Universidade de Passo Fundo,
das enquanto registros periféricos, Faculdade de Educação, Programa de
Pós-Graduação em Educação
não como um documento, mas en- Submetido em: 19/03/2007 CAMPUS I, BR 285, km 171, Bairro
quanto uma praxe, uma rotina menor. Aceito em: 11/05/2007 São José, Caixa Postal 611, 99001-
970 Passo Fundo RS, Brasil
Apesar dos reveses, tais docu-
mentos possibilitam a visualização

110
2
Dentre os poucos estudos específicos, destaco Bauer (1957).

Educação Unisinos

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