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DESTAQUE DA HISTÓRIA DA MATEMÁTICA EM LIVROS DIDÁTICOS E FORMAS

1
DE RESOLUÇÃO DE EQUAÇÕES DO SEGUNDO GRAU

Hiury Helmer
Orientadora: Circe Mary Silva da Silva Dynnikov
Programa de Pós-Graduação em Educação
Universidade Federal do Espírito Santo

A compreensão histórica é parte fundamental de uma pesquisa que busca entender as nuances
do desenvolvimento de uma ciência, ela evidencia as transformações ao longo do tempo e
oferece ao pesquisador uma visão mais abrangente de como um determinado elemento
científico se configura na atualidade. Embora seja impossível conhecer toda a trajetória de
uma disciplina ao longo do tempo, buscamos neste artigo abordar alguns elementos históricos
relevantes ao estudo de equações do segundo grau. O caminho percorrido baseou-se
principalmente na análise de livros didáticos — final do século XIX até os dias atuais —
observando quais eram os métodos usados para a demonstração da fórmula resolutiva de
equações do segundo grau, bem como, se havia ou não inserção de elementos históricos
referentes à Matemática e principalmente ao conteúdo de equações quadráticas.

A História da Matemática, durante algum tempo, deixou de ser um recurso utilizado em livros
didáticos, contudo, quando nos debruçamos sobre manuais de diferentes épocas, percebemos
que muitos autores se valiam de informações que sugerem uma contextualização histórica do
conteúdo estudado. Atualmente encontramos uma preocupação em retomar tais elementos a
fim de possibilitar ao aluno uma visão de que a Matemática é uma disciplina em
desenvolvimento, fruto das necessidades humanas e como tal não se desenvolveu de forma
linear, mas sim influenciada por fatores sociais, econômicos, políticos, filosóficos.

Exploraremos nas páginas seguintes as inserções históricas realizadas pelos autores dos livros
didáticos, cujas publicações abrangem o final do século XIX até o final da década de 1940.
Além disso, investigaremos os diferentes métodos para se chegar à fórmula resolutiva de
equações do segundo grau.

1
Esse artigo é parte de minha Dissertação de Mestrado intitulada Equações do Segundo Grau: Métodos de
Resolução e Análise em Livros Didáticos Antes e Durante o Movimento da Matemática Moderna.
No livro Elementos de Álgebra de André Perez Y Marin, de 1923, aparecem elementos
históricos, muitas vezes em notas de rodapé, que descrevem a vida de matemáticos e os
respectivos métodos por eles desenvolvidos. Um desses exemplos trata das Equações
diophantinas e numeros pythagoricos. Vejamos:

[....] Equações diophantinas são aquellas cujo numero de incognitas excede o


numero de equações, e que devem ser resolvidas em numeros inteiros. Uma das
equações mais celebre de Diophante (*) é a seguinte: x² + y² = z², cujas soluções em
numeros inteiros chamam-se numeros pythagoricos, porque os triangulos
construidos com essas soluções são rectangulares, e foi Pythagoras quem descobriu
o facto de haver uma infinidade de triangulos rectangulos cujos lados são
proporcionaes a numeros inteiros. (MARIN, 1923, p. 170)

Notamos que o autor realiza uma junção entre elementos históricos e o conteúdo de
Matemática, apresentando os matemáticos e seus feitos. Há em seu livro outras notas de
rodapé que exploram características históricas referentes aos matemáticos e sua origem, data
de nascimento e de morte, além de suas descobertas.

André Perez Y Marin em Elementos de Algebra, de 1911, resolve a equação completa do 2º


grau de três maneiras distintas, atribuindo a cada uma delas fatos históricos. Mostraremos
inicialmente o método que ele atribuiu a Bhaskara, depois aos árabes e por fim a Viète.
Vejamos:

146. Resolução da equação completa


ax² + bx + c = 0
Para resolver esta equação, é conveniente transpor o termo conhecido para o
segundo membro, o que dá
ax² + bx = - c
Multiplicando os dois membros por 4a, acha-se:
4a²x² + 4abx = - 4ac;
e sommando b² aos dois membros, obtem-se:
4a²x² + 4abx + b² = b² - 4ac.
O primeiro membro, sendo o quadrado de 2ax + b, pode-se escrever:
(2ax + b)² = b² - 4ac.
Extrahindo a raiz quadrada, tem-se:
2ax + b = ± b ² − 4ac ;
donde se deduz:
− b ± b² − 4ac
x= (*). (MARIN, 1911, p. 184/185)
2a

Em nota de rodapé, o autor escreve: “(*) Este methodo de resolução, notavel pela sua
simplicidade, é devido a Bhascara, mathematico indio do seculo XII.” (MARIN, 1911, p.
185).
Quanto ao método árabe, expõe:

Póde tambem resolver-se, dividindo-se por a os dois membros da equação ax²


+ bx = - c, e calculando depois a quantidade que devemos sommar ao primeiro
membro para formar um trinomio quadrado perfeito.
Assim, dividindo os dois membros por a, vem:
b c
x ² + x = − (1)
a a
Representando por y² o termo quadrado que falta ao primeiro membro para
formar um trinomio quadrado perfeito, ter-se-á:
b
x ² + x + y ² = ( x + y )² = x ² + 2xy + y ² ,
a
donde se deduz successivamente:
b b b²
2xy = x, y = , y² = .
a 2a 4a ²

Sommando aos dois membros da equação (1), acha-se:
4a
b b² b² c
x² + x+ = − .
a 4a ² 4a ² a
Extrahindo a raiz quadrada dos dois membros, tem-se:
b b² c
x+ =± − ,
2a 4a ² a
b b ² − 4ac
ou x + =± ,
2a 2a
donde se deduz, finalmente:
− b ± b ² − 4ac
x=
2a
Este methodo é devido aos arabes. (MARIN, 1911, p. 185/186).

Tanto o método dos árabes, como o método atribuído pelo autor à Bhaskara, assemelham-se
quanto a forma, já que ambos são desenvolvidos por meio de completamento de quadrados. A
diferença surge no início da demonstração: o primeiro, consiste em multiplicar ambos os
membros da equação por 4a, enquanto o segundo, é realizado por meio da divisão de ambos
os membros da equação por a.

Depois de expor o método dos árabes, Perez Y Marin apresenta uma terceira maneira de se
chegar à resolução de equações do 2º grau. Novamente ele faz uma menção histórica trazendo
a existência de um método notável para se chegar à solução de uma equação, atribuindo-o a
Viète. Apesar da preocupação do autor em informar o nome do matemático que desenvolveu
tal método, ele não entrou em detalhes sobre sua vida. O método de Viète apresentado por
Perez Y Marin é o seguinte:

[...] fazendo x = y + k, sendo y a incognita auxiliar e k a indeterminada, teremos


substituindo-se na equação ax² + bx + c = 0.
a (y + k)² + b (y + k) + c = 0.
Effectuando as operações indicadas e ordenando, achamos:
ay² + (2ak + b)y + ak² + bk + c = 0. (1)
Suppondo agora 2ak + b = 0, o valor de k será:
−b
k= , [...]
2a
Substituindo k pelo seu valor na equação (1) obtem-se, feitas as reduções:

ay ² − +c = 0,
4a
donde se deduz:
± b ² − 4ac
y= ;
2a
e, substituindo y e k por seus valores na equação x = y + k, tem-se finalmente:
− b ± b ² − 4ac
x= . (MARIN, 1911, p. 186/187).
2a

Notamos, na apresentação destes três métodos, que o autor procurou mostrar diferentes
maneiras para se chegar à fórmula resolutiva de equações do segundo grau. Vimos também
que o livro trazia referências históricas junto aos métodos. Na quinta edição, do ano de 1923,
verificamos que Perez Y Marin suprimiu o método de Viète mantendo apenas o dos árabes e o
atribuído a Bhaskara. Nessa edição, ele aumentou o número de notas de rodapé que
contemplam elementos históricos.

A menção que André Perez Y Marin fez à Bhaskara como descobridor do método que
desenvolvemos a pouco, pode ter sido a primeira apresentada em livros didáticos brasileiros.
Porém, essa denominação ganhou força apenas em meados da década de 1970 com o
Movimento da Matemática Moderna e impulsionada pelo livro do Benedito Castrucci e
Geraldo dos Santos Lima Filho de 1960. Vejamos:

Com relação ao surgimento de tal hábito, pudemos identificar que, embora ele tenha
a sua primeira manifestação na década de 202 do século XX, no livro Elementos de
Álgebra de André Perez Y Marin, seria a partir da Segunda metade da década de 70,
que ele se firmaria no cenário nacional, sendo o livro Curso de Matemática, para a
4ª série ginasial, de 1960, dos autores Benedito Castrucci e Geraldo dos Santos Lima
Filho, provavelmente um grande incentivador de tal hábito. (CARVALHO et. al.,
2002, p. 166)

No livro Algebra Elementar de Sebastião Francisco Alves3, de 1918, são apresentadas


algumas menções históricas referentes às equações do segundo grau, de maneira semelhante a

2
Os autores estão colocando década de 20 porque analisaram um livro de 1928. Nossa análise foi realizada no
livro de 1911.
3
Aluno do Dr. Antonio Gabriel de Moraes Rego, autor do livro Elementos de Algebra de 1886, também
analisado nessa pesquisa.
que vimos no livro do André Perez Y Marin. Alves comenta sobre um método mais antigo
utilizado pelos árabes e um outro, elaborado por Viète para resolver as equações do tipo ax² +
bx + c = 0, conforme descrito abaixo:

Passemos agora á resolução da equação completa representada de um modo geral


por ax² + x + c = 0 . Para resolver este typo foram instituidos dous processos
diversos, um mais antigo, pelos arabes, e outro mais moderno, por Viète. (ALVES,
1918, p. 251).

O autor realiza o desenvolvimento dos dois processos que não serão apresentados por serem
análogos ao que vimos em Perez Y Marin. Ao final da demonstração do método de Viète, o
autor comenta o porquê desse nome. Vejamos:

Esta transformação de uma equação em outra privada do segundo termo, que


acabámos de particularisar para o segundo grau, estende-se a um grau qualquer
assim como a um termo qualquer, como se vê no estudo da algebra superior, onde
ella toma o nome Viète, que foi quem a instituio. (ALVES, 1918, p. 254).

O método dos árabes e o de Viète são as únicas referências históricas que o autor apresenta
em relação às equações quadráticas, mas em alguns conteúdos ele comenta outros fatos
históricos. Podemos citar como exemplo a introdução do conteúdo de logaritmos, que é feita
com uma abordagem sobre a descoberta realizada por Neper e a evolução desenvolvida por
Briggs:

A descoberta dos logarithmos feita por Neper no começo do seculo XVII e


completada mais tarde por Briggs veio simplificar extraordinariamente os calculos
numericos e augmentar os recursos algebricos necessarios ao calculo exponencial,
como teremos occasião de observar. (ALVES, 1918, p. 339).

No livro Elementos de Algebra ou calculo das funcções derivadas, do ano de 1886, dos
autores Alfredo Candido de Moraes Rego e Antonio Gabriel de Moraes Rego, encontramos
várias discussões históricas no decorrer dos textos. Os autores utilizam referências contextuais
para justificar a introdução do estudo das equações quadráticas com as equações incompletas
e, posteriormente, partir para as completas. Assim:

As equações do segundo gráo a uma incognita podem ser representadas pela


formula geral ax² + bx + c = 0 (1)
Este caso apresenta um typo mais simples representado pela equação
incompleta ax² + c = 0 (2) cujo estudo foi feito no ultimo seculo da evolução grega e
mais tarde completado pela elaboração arabe com o estudo do typo completo
trinomio. Historicamente, pois, o estudo da equação (2) deve preceder ao da equação
(1); e tambem dogmaticamente, pois, a equação (2) representa um caso mais
simples. (REGO e REGO, 1886, p. 462/463).

Argumentam, ainda, que possivelmente o estudo da equação incompleta do tipo ax ² + c = 0 ,


precede ao estudo das equações completas, da forma ax² + bx + c = 0, dessa forma, justificam
que assim como aconteceu na História, deveria acontecer no ensino. Percebemos nesse fato a
concepção de se proceder, em sala de aula, de forma semelhante ao que possivelmente
aconteceu na História, conhecido como método genético.

Sobre as equações do segundo grau os autores também recorrem aos métodos utilizados pelos
árabes e por Viète. O método árabe apresentado é desenvolvido de maneira semelhante ao que
vimos com Perez Y Marin, contudo, a forma utilizada para completar quadrados é diferente.
Para entendermos o desenvolvimento utilizado pelos autores, é necessário verificarmos como
fatoram um trinômio4. Vejamos abaixo:

Para obter o primeiro termo do binomio raiz basta extrahir a raiz quadrada do
primeiro termo do desenvolvimento, ordenado em relação a mesma letra x a que se
acha a expressão da raiz. Obtido este termo eleva-se ao quadrado e subtrahindo do
desenvolvimento resulta o resto [...].
Para obter, pois, o segundo termo da raiz divide-se este resto pelo dobro da
raiz achada e o quociente será o segundo termo procurado. (REGO e REGO, 1886,
p. 388/389).

O método dos árabes consiste no seguinte: os autores partem da equação


b c
ax ² + bx + c = 0 dividindo os dois membros por a obtendo a equação x ² + x = . Observe que o
c a
sinal do termo desconhecido continua positivo. Depois disto, os autores buscam determinar o
b
valor de m para que a expressão x ² + x + m seja um quadrado perfeito. Para tal, procedem da
a
seguinte maneira:

Divisão de polinômios. (Fonte: Rego e Rego, 1886, p. 466)

4
Eles denominam raiz quadrada de um trinômio.
1
− b  b ² + 4ac  2
O resultado obtido após as devidas substituições é o seguinte: x = ±  (REGO e
2a  4a ² 

REGO, 1886, p. 466)

O livro não apresenta a fórmula resolutiva da maneira como é vista atualmente e o termo 4ac
aparece com sinal positivo, fruto da omissão do sinal negativo de c no início da resolução. Os
autores não fazem nenhum comentário sobre esse fato.

Quanto ao método de Viète, é apresentado pelos autores de modo semelhante ao que foi visto
no livro de André Perez Y Marin, mas a apresentação da fórmula também não é feita
1
− b  b² c  2
conforme hoje em dia. Vejamos: x = ± +  (REGO e REGO, 1886, p. 470),
2a  4a ² a 

novamente o sinal do termo desconhecido aparece positivo, sem qualquer comentário dos
autores.

De uma maneira geral os autores desse livro apresentam os conteúdos concomitantemente


com os fatos históricos e filosóficos. O livro é bastante textual e constantemente refere-se a
matemáticos e a filósofos que trabalharam com os conteúdos, abordados por eles.

Outro livro que apresenta temas históricos é de Aarão Reis denominado Curso Elementar de
Matemática II. Álgebra (Calculo das formações diretas), volume I – Algebra fundamental,
datado de 1914, com primeira edição em 1902. Ele apresenta os conteúdos matemáticos quase
sempre relacionados a elementos históricos, e realiza diversos comentários sobre a vida dos
matemáticos, como onde nasceram ou morreram, seu país de origem, suas contribuições às
ciências, entre outros. Quase todos os elementos históricos são expostos em notas de rodapé
que, por muitas vezes, ultrapassam metade da página do livro.

Num parágrafo destinado ao estudo de “Noções gerais sobre as equações algébricas”, Reis
apresenta comentários sobre as formas de expressão dos termos algébricos e expõe a forma
como os algebristas escreviam equações e, posteriormente a cada escrita, realiza a tradução
para a simbologia algébrica. Segundo ele:
Os Gregos e os algébristas da edade média exprimiam por meio de termos
particulares as quantidades que figuravam numa equação. Só mais tarde introduziu-
se, como temos já visto, o uso das letras e dos sinais. Eis, segundo MATHIESSEN,
alguns exemplos de equações escritas na antiguidade, com as respectivas traduções
em linguajem algébrica moderna:
Census et quinque radices aequantur viginti quatuor, x² + 5x = 24;
MOHAMMED BEM MUSA (830);
[...]
16 census et 2000 aequales 680 rebus, 16x² + 2000 = 680 x;
REGIOMONTANUS (1470);
1 Q + 5 N sint aequales 24, x² + 5x = 24;
BACHET DE MÉZIRIAK (1621). (REIS, 1914, p. 212).

Outro fato histórico apresentado por Reis surge durante a introdução do capítulo sobre
equações do segundo grau. Em mais uma nota de rodapé o autor elabora um texto em que
realiza comentários sobre os métodos algébricos empregados pelos hindus e pelo método
geométrico utilizado pelos gregos e árabes, conforme podemos ver abaixo:

1. – Os hindús, que cêdo atinjíram á bem notavel dezenvolvimento nas aplicações do


cálculo abstrato, rezolviam as equações do 2º gráo e as de gráos superiores por meio
de operações méramente algébricas, quando os grêgos e os árabes recorríam ainda á
procéssos geométricos. Para eles, as equações do 1º gráo constituíam um grupo á
parte, ao qual reduziam todas as outras equações; escreviam os dous membros duma
equação por baixo um do outro, superpondo os termos semelhantes; e quando num
dos membros faltava um termo semelhante á outro do outro membro, repetíam este
multiplicado pelo coeficiente 0. (REIS, 1914, p. 375/376).

Além desses comentários, o autor descreve que os hindus tinham noção de quantidades
negativas desde o século VI e que sabiam que o radical do segundo grau deveria ter duplo
sinal.

A respeito da forma de escrever uma equação do segundo grau, Reis comenta sobre o
matemático Thomas Harriot que passou a escrever as equações igualadas a zero. Segundo ele:

1. – Ao géometra inglez THOMAS HARRIOT (nac. em Oxford em 1568 e falec.


Em Londres em 1621) cabe a prioridade de ter dado ás equações a fórma de
expressões egualadas a zéro; assim, em vez de x = b, escrevia x − b = 0 ; em vez de
escrever x² − 20x = 9 , escrevia x² - 20x – 9 = 0. Só depois dele, porém, tiraram os
algébristas deste novo modo de considerar as equações – sobretudo as de gráos
superiores ao 1º - todo o partido de que era sucetível. (REIS, 1914, p. 376)

Encontramos que a data de nascimento de Thomas Harriot refere-se ao ano de 1560 e não
1568 como apresentada por Reis, revelando que pode haver equívocos e até mesmo
discordância entre estudiosos, com relação aos fatos históricos.
Mais adiante, na página 380, o autor apresenta um levantamento histórico destacando os
matemáticos Bhaskara, Aryabhata e Sridhara. Em relação aos dois primeiros, Reis aponta que
ambos utilizaram uma forma diferente da apresentada pelos árabes para resolver as equações.
Ainda sobre Bhaskara, ressalta que o matemático atribuiu esse método a Sridhara. O texto
apresentado, em nota de rodapé, contém os seguintes dizeres:

1. – O matemático hindú ARYABHATA (nac. em 475) e, tambem, BHASCARA


(nac. em 1154) não uzavam dividir, como os árabes, ambos os membros da equação
do 2º gráo pelo coeficiente de x²; e seguiam, para a rezolução, uma regra que
− b ± b ² − 4ac
corresponde á atual fórmula x= . BHASCARA, adotando
2a
procésso que atribúe a um tal doutor CRIDHARA, rezólve a equação do 2º gráo
reduzindo-a ao 1º gráo, observada a seguinte regra: - 1º) tornar o termo x² quadrado
perfeito; 2º) completar o quadrado do 1º membro; 3º) efétuar a radiciação quadrada
de ambos os membros; e 4º) rezolver a equação resultante do 1º gráo. (REIS, 1914,
p. 380)

Reis apresenta um capítulo destinado a outros métodos e artifícios para a resolução das
equações quadráticas, nele o autor, além do Procésso Viète, traz o Procésso Diofante, e o
Procésso geométrico. Não descreveremos o processo de Viète por ser análogo ao já visto
anteriormente, contudo, o Processo Diofante será abordado por ser diferente dos apresentados
até então. Vejamos:

423. – Procésso Diofante. – Na infancia da ciencia algébrica, DIOFANTE – que lhe


traçou os primitivos e rudimentares lineamentos – aplicava á rezolução das equações
do 2º gráo a uma só incógnita curiozo procésso indiréto, que pódemos denominar –
das trez indeterminadas.
Apliquemol-o – como estúdo – á atual fórmula geral das equações do 2º gráo a uma
só incógnita
ax² + bx + c = 0.
Tomando 3 indeterminadas m, n e r, por exemplo, façamos
ax² + bx + c = (mx + n)² - r, (α)
ou
ax² + bx + c = m²x² + 2mnx + n² - r (β)
Mas, para que seja safisfeita a egualdade (α), é mistér que seja
(mx + n)² - r = 0,
donde
mx + n = ± r ,
e, portanto,
−n± r
x= . (γ)
m
E, da egualdade (β), rezulta:
a = m²,
 
 m = a ,
 
  b b
b = 2mn, donde n = = ,
  2m 2 a
  b² b ² − 4ac
 r = n² − c = −c = .
  4a 4a
c = n² − r ²
Substituindo estes valores de m, n e r no valor (y) de x, temos:
b b ² − 4ac b b ² − 4ac
− ± − ±
2 a 4a 2 a 2 a
x= = =
a a
− b ± b² − 4ac − b ± b ² − 4ac
= = , que é a mesma fórmula geral determinada
2 a a 2a
(393) pela REGRA GERAL DE REZOLUÇÃO. (REIS, 1914, p. 433/434)

Esse processo envolve a introdução de três letras denominadas indeterminadas e por meio de
um processo semelhante a um sistema de equações, comparam-se os coeficientes do
polinômio gerado pela transformação e, fazendo algumas substituições, chega-se à fórmula
resolutiva de equações do segundo grau.

Embora não realize demonstrações ou resolva um problema para exemplificar o método, Reis
diz que se pode determinar as raízes de uma equação quadrática por meio do processo
geométrico, argumentando que as soluções dessas equações podem ser representadas por
linhas. Ao comentar o processo, introduz uma nota de rodapé com elementos históricos
referentes a Viète e aos árabes:

1. – Si á VIÉTE cabe a glória de, imajinando as equações literais, ter tido a


verdadeira concépção da ALGEBRA MODERNA, é fáto que já os árabes no 9º
século sabíam reprezentar gráficamente as fórmulas de rezolução, nomeadamente os
ilustres MOHAMMED BEM MUSA AL-KIVARIZMI, os trez irmãos MUSA BEM
SCHAKER (MOHAMMED, AHMED E HASEN), TABIT-BEM-KORRA e outros.
(REIS, 1914, p. 436)

Durante seu texto, o autor apresenta o conteúdo de equações do segundo grau juntamente com
apontamentos históricos, com isso, Reis deixa a impressão de que seu objetivo é trabalhar
também os aspectos históricos dos conteúdos e fazer com que o leitor fique familiarizado com
a História que o tema traz. Além dessas notas, apresenta dois problemas abordados no
Tratado de Aritmética (Lilavati) de Bhaskara. Neles, o autor deixa a impressão de ter o intuito
de trabalhar aspectos motivacionais. Vejamos:
[...] 3º) – Dum grupo de macácos, que cabriolavam em uma mata, o quadrado da
oitava parte pulavam de gálho em gálho dezordenadamente, mas doze, no ponto
mais elevado, limitavam-se a uma gritaria unizona infernal. - ¿ Quantos eram? [...]
4º_ - Dum enxâme de abêlhas tomou a raiz quadrada da metade, observai que oito
nônos da totalidade voltêjam alegres pelos ares em torno do cortiço mas, que uma,
triste e solitária, ouve pezaroza o zumbido queixozo do companheiro que, atraído
pelo cheiro duma planta, ficára prêzo, e dizei quantas era, ao todo, as abêlhas. [...]
1. – os enunciados destes dous problemas, aliaz muito ao sabor da época, são do
tratado de ARITMÉTICA (Lilavati) de BHASCARA, matemático hindú do 12º
século. (REIS, 1914, p. 470/471).

Com esses dois problemas, o autor quer ressaltar as questões que eram trabalhadas em
algumas civilizações antigas. Além disso, parece querer dar motivação ao aluno para trabalhar
com as equações quadráticas, uma vez que os problemas apresentam elementos que despertam
a atenção de quem os lê, como a algazarra dos macacos e a poesia encontrada no problema
das abelhas.

No livro Algebra Elementar de S. L. de 1936 são apresentados dois métodos para se chegar à
fórmula resolutiva de equações do segundo grau. O autor afirma a existência de vários
métodos para resolver uma equação quadrática, contudo, diz que irá apresentar os dois mais
conhecidos. Segundo ele: [...] Há varios methodos de resolução dessa equação. Daremos os
dois mais conhecidos: o chamado methodo arabe e o methodo Viète.” (S. L. 1936, p. 132).
Não os apresentaremos pois são análogos aos métodos já vistos anteriormente. Apesar disso,
vale ressaltar que S. L. denominou como método dos árabes um que se aproxima mais do
mencionado por Bháskara na obra Vijaganita, do que do árabe al-Khowarizmi. S. L. completa
quadrados por meio da multiplicação de ambos os membros da equação ax² + bx = -c por 4a
acrescentando b² a eles, conforme veremos a seguir:

Para que o primeiro membro da equação [...] se torne igual ao quadrado


perfeito [...], é preciso multiplicar essa equação por 4a e depois sommar b².
Multiplicando por 4a: 4a²x² + 4abx + b² = - 4ac; sommando b² [...] (S. L.
1936, p. 133)

Bento de Jesus Caraça, no livro Conceitos Fundamentais da Matemática de 1998, com


primeira edição em 1941, apresenta, antes do início de equações quadráticas, elementos da
História Geral com a História da Matemática. O autor parece querer deixar o aluno à par do
processo Histórico pelo qual passou a Álgebra. Em seu texto, apresenta a importância do livro
Aljebr w’al mûqâbalah de ibn Mûsâ al-Khowârizmi para o desenvolvimento da Matemática,
dizendo que esse tratado foi um elo de ligação entre a Matemática hindu e a Europa e que
lidava basicamente com equações do 1º e do 2º graus.
Um fato que nos chamou a atenção foi o método utilizado por Caraça para resolver uma
equação quadrática, conforme podemos observar abaixo:

Uma equação algébrica do 2º grau é da forma geral


(5) ax² + bx + c = 0, a ≠ 0.
[...]
Substituamos, em (5), a variável x pela variável y, ligada com ela pela
relação
y − b −b + y
(7) x= = .
2a 2a

[...] substituindo, temos a.


(y − b )2 + b. y − b + c = 0 , [...]
(2a )2 2a
Multiplicando ambos os membros desta igualdade por (2a)² [...] obtém-se
a . (y – b)² + b . (y – b) . 2a + c . (2a)² = 0;
efectuando as operações e notando que
(y – b)² = (y – b) . (y – b) = y . (y – b) – b . (y – b)
= y² – by – (by – b²) = y² - 2by + b²
e que
(2a)² = 2a . 2a = 4a²,
vem
a . (y² - 2by + b²) + 2ab . (y – b) + 4a²c = 0
ou, dividindo por a,
y² - 2by + b² + 2b . (y – b) + 4ac = 0,
ou seja
y² - 2by + b² + 2by – 2b² + 4ac = 0.
Daqui resulta, por ser – 2by + 2by = 0 e + b² - 2b² = - b²,
y² - b² + 4ac = 0,
ou seja (al-jebr!) y² = b² - 4ac. Esta é uma equação do 2º grau em y [...]
Entretanto agora com estes valores de y na relação (7) têm-se as duas raízes
da equação (5) [...] isto é,
− b + b ² − 4ac − b − b ² − 4ac
(8) x1 = , x2 = ,
2a 2a
que se podem escrever conjuntamente sob a forma
− b ± b ² − 4ac
(9) x= . (CARAÇA, 1998, p. 147/148)
2a

Esse método é diferente dos apresentados até agora, entretanto, sua resolução assemelha-se
com o método de Viète, apresentado em Perez Y Marin, contudo, a incógnita x foi substituída
y −b
por e não há a necessidade de fazer o polinômio de grau um, resultante da
2a

transformação, igual a zero, como no método de Viète.

Realizamos um levantamento sobre elementos históricos abordados pelos livros didáticos e as


diferentes formas para se chegar à fórmula resolutiva das equações do segundo grau. Os
manuais analisados apresentam uma variedade de métodos de resolução: método Viète,
método dos árabes, método de Diofanto, método de Sridhara, método Caraça. Descobrimos
que alguns livros chegavam a trazer de dois a três desses métodos em seu texto. Se
compararmos com os livros didáticos atuais, percebemos que a quantidade de métodos para
demonstrar a fórmula resolutiva de equações do segundo grau diminuiu. Infelizmente muitos
autores atualmente ainda não exploram os métodos abordados nesse artigo, o que poderia ser
um recurso a mais para o professor abordar o conteúdo historicamente.

REFERÊNCIAS

ALVES, Sebastião Francisco. Algebra elementar. 4. ed. Rio de Janeiro, São Paulo, Belo
Horizonte: Francisco Alves & Cia. 1918.
CARAÇA, Bento de Jesus. Conceitos fundamentais da matemática. 2. ed. Lisboa:
Gradativa, 1998.
CARVALHO, F. et al. Por que Bhaskara? História & educação matemática. V. 2, n. 2,
jun./dez. 2001, jan./dez. 2002, p. 123-171.
MARIN, André Perez Y. Elementos de algebra. São Paulo: 2. ed. Escolas Profissionais
Salesianas, 1911.
_____. Elementos de algebra. São Paul: 5. ed. Escolas Profissionais de Lyceu Coração de
Jesus, 1923.
REGO, Alfredo Candido de Moraes; REGO, Antonio Gabriel de Moraes. Elementos de
algebra. Rio de Janeiro: Editor J. J. de Sousa Peixoto, 1886.
REIS, Aarão. Curso elementar de matemática – Álgebra. 2. ed., Rio de Janeiro: Livraria
Garnier, 1914.
S. L. Algebra elementar: theorica e pratica. 2. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1936.

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