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Universidade Federal de Santa Catarina

Centro de Ciências Biológicas


Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia
Ensaio de Imunologia
Aluna: Rafaela Carla Kachel Stolte

Efeitos fisiológicos do estresse e como refletem no sistema imunológico

Os crescentes avanços nas áreas tecnológica e científica possibilitaram um


aumento na qualidade de vida de muitas pessoas, mas, ao mesmo tempo,
amplificaram tensões como o estresse, a ansiedade, além da pressão psicológica
por rápido crescimento profissional e pessoal. De acordo com a Organização
Mundial da Saúde (OMS), o estresse é uma doença que atinge mais de 90% da
população do mundo. O estresse pode ter diferentes causas, podendo ser causado
por fatores físicos e emocionais, refletindo em respostas pelo organismo que o
preparam para “luta ou fuga” ​(Fonseca et al, 2017)​. Acredita-se que a maior fonte de
estresse seja o excesso de medo que permeia a vida das pessoas, seja no âmbito
pessoal quanto profissional, o medo de um encontro com alguma pessoa, uma
entrevista de emprego, a apresentação de um trabalho, dentre outros. Uma possível
solução seria mudar a maneira de enxergar as situações problema, mas não é
assim tão simples conseguir chegar a este patamar de entendimento sobre os
medos, que acabam sendo encarados como uma situação real de perigo pelo
cérebro. Diante de situações de estresse, o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA)
induz o córtex-adrenal a liberar cortisol, como resposta primária, mas caso haja
liberação excessiva, ou em momentos equivocados, como no estresse crônico,
pode haver uma predisposição do indivíduo a infecções por conta da
imunossupressão que ocorrerá por consequência. Enquanto que uma liberação
insuficiente destes hormônios pode levar o indivíduo a desenvolver doenças
autoimunes, como o lúpus ​(Marques-Deak e Sternberg, 2004)​.
Há diversas evidências de que o sistema imunológico sofra influência do
estresse, onde incluímos a saúde mental do indivíduo como um todo e
consideramos as respostas que causam no corpo. Sabendo disso, é preciso
entender como estes processos fisiológicos e imunológicos se relacionam.
As reações emocionais de um indivíduo são percebidas pelo diencéfalo que
transmite estas informações ao hipotálamo, que é responsável por desencadear
meios de liberação de catecolaminas, adrenalina ou noradrenalina. Como o corpo
trabalha sempre no sentido de preservar a vida, há vários mecanismos que são
desencadeados em situações necessárias a manutenção do bom funcionamento do
organismo, como as respostas de defesa. Em casos de estresse, o corpo reage de
maneira a controlar a ameaça a que está submetido, neste caso produzindo
adrenalina, que causa no organismo algumas ações como taquicardia,
vasoconstrição, aumento de glicose no sangue, da pressão arterial e da frequência
respiratória e uma série de outros fatores ligados a este hormônio no corpo.
Ademais, é necessário entender que muitas vezes as pessoas sentem-se
estressadas sem estarem sujeitas a situações de perigo (Bottura, 2007). Em
condições normais de funcionamento do corpo, o estresse é um fenômeno
fisiológico necessário à vida e não prejudica as funções vitais, porém ele torna-se
patológico quando não há um desligamento do eixo HPA, com liberação em
excesso de cortisol e outras substâncias.
A liberação de cortisol, conhecido como o hormônio do estresse, reduz a
proliferação de linfócitos e inibe a migração de granulócitos e a produção de
anticorpos. É necessário entender que o cortisol é liberado apenas um tempo após
a ativação do sistema nervoso autônomo simpático. Esse último é que realiza ações
no sentido de elevar o número de neutrófilos e manutenção dos linfócitos, elevando
a resposta imunológica em situação aguda de estresse. Com a liberação de cortisol
é esperado que os níveis de glóbulos brancos volte ao normal, mas em situações de
estresse crônico, o excesso de secreção leva a imunossupressão, que aumenta
episódios de doenças infecciosas (Zuardi, 2014).
O sistema imunológico funciona como uma rede colaborativa entre órgãos,
células e moléculas. Esse sistema é comumente dividido em imunidade inata e
imunidade adaptativa. Na imunidade inata uma resposta rápida é gerada, sem levar
em consideração qualquer exposição prévia ao agente a ser combatido. Nesta
primeira reação são comumente liberadas as citocinas, que são moléculas solúveis,
e que são liberadas também na resposta imune adaptativa, que apresenta como
características a especificidade e diversidade de reconhecimento, além de memória,
entre outros fatores. As citocinas são proteínas produzidas em resposta a antígenos
ou microrganismos e que irão regular a resposta imunológica e inflamatória. Dentre
suas diversas funções podemos citar a liberação de sinais para a maturação de
células dendríticas, neutrófilos e ativação de outras células efetoras, crescimento e
desenvolvimento de linfócitos, além de poderem influenciar a produção de outras
citocinas. As citocinas relacionam-se também às células ​natural killers (NK), que
constituem uma linha de defesa inespecífica que reconhecem e lisam as células
infectadas, liberando citocinas pro-inflamatórias. Ao mesmo tempo, a expansão e
ativação das NK é induzida por outras citocinas, sintetizadas por macrófagos. ​Há
estudos que demonstram uma desregulação nos genes que codificam as citocinas,
portanto, a predisposição genética seria mais um fator, além do estresse, para a
liberação delas (Alves e Palermo-Neto, 2007)​.
De maneira simplificada, em situações normais de estresse, o corpo tende a
empregar esforços para manter a homeostase e, assim, faz com que os
mecanismos e células de defesa entrem em ação. O cortisol, por sua vez, é liberado
tardiamente para fazer com que os níveis de células e moléculas de defesa voltem
ao normal, mas quando sob estresse constante, este hormônio irá deprimir o
sistema imune do corpo. Deste modo, podemos inferir que ambientes estressantes
e que prejudicam a saúde mental dos indivíduos têm ação também na imunidade
das pessoas.

REFERÊNCIAS

FONSECA, Neura Cirqueira; GONÇALVES, Jacqueline Coimbra; ARAUJO, Graziela


Silveira. INFLUÊNCIA DO ESTRESSE SOBRE O SISTEMA IMUNOLÓGICO.
Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa​, Brasília, [2017]. Disponível em:
http://nippromove.hospedagemdesites.ws/anais_simposio/arquivos_up/documentos/
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MARQUES-DEAK, Andrea Marques-Deak; STERNBERG, Esther.
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BOTTURA, Wimer. Psiconeuroimunologia. ​Rev Med​, São Paulo, 2007.
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ALVES, G. J.; PALERMO-NETO, J. Neuroimunomodulação: Sobre o diálogo entre
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KRAYCHETE, D. C.; CALASANS, M. T. D. A.; VALENTE, C. M. L. Citocinas
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