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N.

CHAMADA

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CARLO GINZBURG

Nenhurna ilha
11
e urna una
Quatro visöes da literatura inglesa

Traduçâo
Samuel Titan Jr.

COMPANI-1IA DASLETRAS

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Copyright © 2000 by Carlo Ginzburg
Obra publicada corn a contrthuiç4o do Ministério das Relaçóes Exteriores da Itália
Sumário
Titulo original
Nessuna isola è un'isola - Quattro sguardi sulla letteratura inglese

Capa
bao Baptista da Costa Aguiar
Irnagern de capa
Retrato drum cartuxo (c. 1446) de Petrus Christus. Nova York,
Metropolitan Museum of Arts

Traduço de termos latinos


AngélicaChiappetta
Indice remissivo
Luciano Marchiori

Preparaçäo
Eugènio Vìnci de Moraes
Paulo Werneck

Revisâo
Isabel Jorge Cury Agradecimentos ...................................................................... 9
Denise Pessoa Introduçâo ............................................................................... u
Dodos Intrniacionaís 4e COLaIOga.ÇAO na Publicaç5o ICIP)

(cantora Bruikira do Unro, sp. Brasil)


1. OVeiho e o Novo Mundo vistos de Utopia ......................... '7
Ginthuz,Carks 1935- 2. Identidade como alteridade................................................. 43
so Gtnzbur; traduç5o Samuel Tetan Ir.
I Carlo -
Nenhunta itha é Onu. lita quoten vis&o da literatura inBk-
São Paulo: 3. Em busca das origens ........................................................... 64
Conepanhia du Leteas, 2004.
4. Tusitala e seu leitor polonés ................................................. 91
Titulo origmal: Nessuna sola é un'isola quattro sguardi
sullo kitepolura inglese.
151*5 85-359-05499
Notas ........................................................................................ 115
I. Crilka literiria 2. Literatura inglesa - Crltko e intei'pre-
taçlo e. TItulo. u. Titulo : Quoten visóes do Serratura inglese
Indice remissivo ....................................................................... 39
04-5893 retS-820,9

Indice para raMIngo sistematico:


t. Uteratura inglesa Ilistoria e critica
:
820.9

(20041
Todos os direitos desta ediçäo reservados à
EDI'R3RA SCHWARCZ LThA.

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A Vittorio Foa

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Agradecimentos

Os quatro ensaios que apresento aqui foram lidos na Italian


Academy de Nova York, em fevereiro e marco de i 998. Agradeço a
Richard Brilliant o convite para urna temporada depesquisa na Casa
Italiana, que ele dirige. Passei dois meses belíssimos em Nova York.
Os temas de que trata este livrinho haviam sido objeto das
Con ferências Clark que proferi em Cambridge, numa versão ligei-
ramente diferente, em janeiro de 1998. Sou grato a Amartya Sen e
a Emma Rothschild por sua hospitalidade no Trinity College.
Muitas pessoas me ajudaram, de diversas maneiras, em Cam-
bridge como em NovaYork; seria impossível citá-las todas. Recorda-
rei apenas Franco Moretti, corn quem levei adiante, em longas carni-
nhadas e conversas noturnas, urna discussâo que já vem de anos.

LosAngeles,junho de 1999

Na versão italiana, corrigi erros, modifiquei o texto aqui e ali


e acrescentei algurnas mençoes bibliográficas nas notas aos dois

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primeiros capitulos. Agradeço a Adriano Prosperi pelas observa-
Introdução
çöes e sugestOes e a Grazia Cassaria pela preciosa assisténcia na
preparação do manuscrito.

Los Angeles, junho de 2002

Estes ensaios propöem urna visào nao insular da literatura


inglesa em quatro capítulos ligados por um tema comum: a ilha,
real ou imaginária, evocada no título. Mas a unidade do livro nao
é apenas (e talvez nern sequer principalmente) de ordern temática.

-scm que eu me desse conta de imediato -


Um mesmo procedimento ou princIpio construtivo tern guiado
tanto minhas pesqui-
sas como o modo de apresentá-las. Tentarei analisar em retros-
pecto algumas de suas características.
Na origem, há sempre um achado proveniente das margens
de investigaçoes inteiramente diversas. Foi o acaso, nao a curiosi-
dade deliberada, que me fez dar corn os comentários do bispo
Vasco de Quiroga à Utopia de Thomas More ou corn a Defesa da
rima Defence ofryme] de Samuel Daniel, e assim por diante. Em
E

cada circunstância, tive a súbita sensaçâo de ter encontrado al-


guma coisa, talvez até alguma coisa de relevante; ao mesmo
tempo, tinha consciéncia aguda da minha ignorância. As vezes,
urna resposta relampejava: a intuiçäo de urna afinidade morfoló-
gica entre Trist ram Shandy e o Dicionário de Bayle, por exemplo.

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Mas näo sabia quai era a pergunta. Somente a pesquisa
permitiu sòes entre amigos nas quais se reconhece a origem remota do gê-
formulá-ta.
nero Como recorda Jean Starobinski, a própria etimo-
ensaístico.2

Nao sei se retroceder a partir do final, da soluçâo, é um hábito


logia da palavra "ensaio" (do latirn medieval exagium, "balança")
corriqueiro no trabaiho intelectual. Tenho a impressao de que, no associa essa forma literária à necessidade de submeter alguma
meu caso, essa propensao se acentuou corn o tempo,
por motivos coisa a verificaçào! Mas o termo sempre oscila entre test e endea-
tanto objetivos como subjetivos. "
your, como na passagem famosa de Montaigne: Enfin, cette fricas-
Começo pelos primeiros, ligados às imposiçöes do género sée queje barbouille icy n'est qu'un registre des essais de ma vie"
ensaistico que tenho praticado na última década quase exclusiva-
(Ensaios iii, i3). Trata-se de urna ambigüidade eloquente, ainda
mente. Como observou Adorno, o ensaio
que nao isolada: basta pensar no termo italiano prova. Nenhuma
verificaçäo pode ser fida por definitiva: a propósito do ensaio,
torna-se verdadeiro ao longo de seu percurso. E. . .1 Seus conceitos
Adorno adverte que a«auto-relativizaçao é imanente à sua forma'?
são iluminados por um terminus ad quem oculto aopróprio ensaio,
o andamento tortuoso, caprichoso e descontInuo do ensaio
nao por um terminusaquoevidente.'
poderia parecer incompativel corn o rigor de um teste. Mas talvez
essa mesma flexibilidade tenha éxito em captar conflguraçòes que
Nessa e noutras passagens, Adorno sublinha o elemento nao
tendem a escapar as maihas das disciplinas institucionais. Talvez
dedutivo que é próprio ao género ensaístico. Para quem lê um
seja instrutiva a divergência entre Quentin Skinner e este autor a
ensaio, a meta, o terminus ad quem de um percurso em geral tor-
propósito do género a que pertenceria a Utopia de Thomas More
tuoso, é por definiçâo desconhecida, donde a surpresa que acorn-
(capítulo i ). Seria possível objetar que a Utopia constitui um caso
panha a leitura dos meihores espécimes dessa forma literaria. Para
especial, tratando-se de um dos raros textos que inauguraram um
quern escreve, porém, a meta é conhecida, muitas vezes antes que
se comece a escrever. Supor que possa ser conhecida antes mesmo
género literário. Mas eu me pergunto por quai motivo urna polê-
mica à primeira vista técnica sobre a dignidade da rima, que
do inicio da pesquisa significa exasperar as possibilidades
propi- irrompeu na Inglaterra elisabetana (capítulo 2), foi treslida a
ciadas pelas características formais do ensaio. E o que julgo ter
ponto de se ignorarem suas raízes continentais, a começar por
feito, mesmo que nao de caso pensado.
Montaigne. Seria fácil encontrar muitos casos do mesmo teor. Na
Mas serão estes ensaios genuinos? Quem pensar na tradiçao
majoritariamente inglesa, inaugurada por Addison e Lamb
urna conversa urbana e cosmopolita, elegante e informai, sobre
- partida de xadrez da pesquisa, as majestosas torres disciplinares se
deslocarn implacavelmente em linha reta; o género ensaístico, ao
contrário, move-se como o cavalo, de modo imprevisivel, saltando
temas que muitas vezes são meros pretextos-, negará o atributo
de urna disciplina para outra, de um conjunto textual para outro.'
a estas páginas tao pouco ligeiras,
carregadas de observaçoes eru- Mas minhas preferências subjetivas também entraram na
ditas. Mas quem identificar a espinha dorsal do género ensaístico
construçao dessas investigaçoes. Há vinte anos, num ensaio inti-
na linha que vai de Montaigne a Diderot e além nao se assustará
tulado "Sinais", lancei urna hipótese, "obviamente indemonstrá-
corn a presença de notas de rodapé. A erudiçao domina as discus-
vel' sobre a origem da narraçâo que suscitou o interesse de alguns

12
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raya eu - -
teóricos da literatura (Terence Cave, Christopher Prendergast,
Antoine Compagnon). A própria idéia de narraçäo conjectu-
de Quiroga, leitor de Luciano e Thomas More; Thomas More, lei-
tor de Luciano; George Puttenham e Samuel Daniel, leitores de
talvez tivesse nascido numa sociedade de caçadores, a Montaigne; Sterne, lei tor de Bayle; e assim por diante. Em cada um
fim de se transmitir por mejo de traços infinitesimais um evento desses casos, procurei analisar nao a reelaboraçäo de urna fonte,
que nao se podia testemunhar diretamente: "Alguém passou por mas algo mais vasto e fugidio: a relaçao da leitura corn a escrita, do
a1i" Corn esse modelo venatório (ou, se projetado no futuro, divi-
presente corn o passado e deste corn o presente.
natório), que defini como «paradigma indiciário' eu tentava con-
ferir sentido a meu modo de pesquisa, inserindo-o numa pers-
pectiva histórica longuíssima e mesmo Retorno
plurimilenar.7

àquele ensaio, que desde entäo tern continuado a alimentar sub-


terraneamente o meu trabaiho, porque a hipótese sobre a origem

rativas históricas -
da narraçäo ali formulada também pode lançar luz sobre as nar-
voltadas, ao contrário das outras, para a
busca da verdade, e contudo modeladas, em cada urna de suas
fases, por perguntas e respostas elaboradas de forma narrativa.'
Lcr a realidade às avessas, partindo de sua opacidade, para nao
permanecer prisioneiro dos esquemas da inteligéncia: essa idéia,
cara a Proust, parece-me exprimir um ideal de pesquisa que ins-
pirou também estas páginas.'

Comecei a praticar o oficio de historiador examinando textos


nao literários (sobretudo processos da Inquisiçäo) corn auxilio dos
instrumentos interpretativos desenvolvidos por estudiosos como
Leo Spitzer, Erich Auerbach, Gianfranco Contini.'° Era talvez me-
vitável que, mais cedo ou mais tarde, eu acabasse por me ocupar
também de textos literários. Mas essa nova experiência de pesquisa
levou em conta as liçoes aprendidas no passado. Corn o moleiro
friulano Domenico Scandella, dito Menocchio, condenado à
morte pela Inquisiçao por causa de suas idéias, aprendi que o
modo como um ser humano reelabora os livros que lé é multas
vezes imprevisivel." Numa perspectiva semeihante, abordei Vasco

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14 15
1.0 Veiho e o Novo Mundo
vistos de Utopia

o sucesso é urna força capaz de cegar. Diante da extraordiná-


ria fortuna da Utopia, os estudiosos tentaram situar o livro de Tho-
mas More em seu contexto histórico. Contudo, as alternativas mais

cussâo -
ou menos convincentes que por muito tempo dominaram a dis-

-
medieval ou renascentista,jeu d'esprit ou reflexão poll-
tica séria, e assim por diante acabaram por deixar de lado as
dimensôes múltiplas de um texto facetado e fugidlo.
Num ensaio bastante conhecido, Quentin Skinner seguiu
outro caminho. Ele parte do «conteúdo geral do livro", anunciado
"desde o frontispIcio, que reza assim: De optimo reipublicae statu
deque nova insula Utopia. O tema em pauta nao é apenas, nem se-
quer principalmente, a nova itha de Utopia, mas 'a melhor forma
'
de Estado' Esclarecido esse ponto, Skinner sugere

um modo de abordar a complexidade do texto de More. Se a Utopia


é um exemplo de um género bem conhecido da teoria politica

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renascentista, mais valerá começar, antes do texto de More, pelos
postulados e convençòes que caracterizam o género em seu con- -
vra frstivus que por ora traduzirei como "jocoso, agradável" -
quam elegans' A terceira ediçao retornou à versäo original. A pala-

junto. nâo parece condizer com a austera tradiçao da ifiosofia política à


qual, segundo Skinner, pertenceria a Utopia. Na verdade, como
Skinner observa que diversas passagens da Utopia de More tentarei mostrar, a Utopia de More é urna árvore que pertence a
remontam ou aludem a textos largamente lidos pelos humanistas
e ligados às discussòes sobre a meihor forma de Estado entre- urna floresta de género bem diferente. Segundo penso, tanto os
dois adjetivos, "nec minus salutaris quam festivus' como sua rela-
eles o Dos deveres De officiis] de Cícero. More, segundo Skinner,
E
çao mútua vinculam-se a urna tradiçäo diversa daquela sugerida
demonstra que, "se a virtude constitui a única nobreza verdadeira,
por Skinner.2
pode ser contraditório limitar-se a subscrever a justificativa tradi- Seria de pensar que, ao sublinhar a importância da palavrafes-
cional da propriedade privada'' Analogamente, os argumentos de
tivus, eu nao faça outra coisa senäo seguir o convite de Lewis a nao
Platao em prol da aboliçäo da propriedade privada mostrariam a
tomar o livro de More au grand sérieux, corno fez a major parte dos
incoeréncia da tradiçâo humanística baseada em Cícero.
leitores modernos.3 Penso, ao contrário, que quern quiser entender
A presença de ecos de Cícero e Platäo na Utopiade More me-
o significado complexo da Utopia sempre deve ter em mente seu
gavel; mas, feitas as contas, a argumentaçao de Skinner nao me lado sério e mesmo terrível. Minhas condusOes seräo diferentes das
parece muito convincente. Em um plano geral, Skinner certa-
de Lewis; mas o caminho que seguirei correrá por perto do que ele
mente tern razâo ao exigir que os textos do passado sejarn lidos em
urna ótica contextual. Mas é de questionar sea Utopia de More ca- sugeriu há tanto tempo. Também eu partirei das epístolas e dos
documentos incluidos nas prirneiras ediçoes da Utopia, escritos
be por inteiro no género da teoria política renascentista que se ocu-
por Thomas More e por seus amigos e conhecidos.4
pa de definir a meihor forma de Estado. A estratégia contextuali-
zante de Skinner parte do título da Utopia, que, entretanto, ele cita
de forma curiosamente incompleta. O título integral da primeira
edição, publicada em Louvain por Dierk Martens em fins de 1516,
diz o seguinte:
A primeiríssima ediçao saiu aos cuidados de Erasmo. Por
Libellus vere aureus nec minus salutaris quamfestivus de optimo rei- mejo de seu epistolário, podemos acompanhar, quase dia a dia, o
publícae statu, deque nova insula Utopia.-
modo como recolheu (e presurnivelmente submeteu a revisão) as
[Livrmho verdadeiramente áureo, nao menos útil que agradável, epístolas introdutórias, acrescentou notas para esclarecer ou
sobre a meihor forma de Estado e a nova ilha de Utopia]. comentar passagens obscuras e recomendou o livro a humanistas
de peso corno Guillaume Budé, que em seguida escreveu urna
Na segunda ediçäo, publicada em Paris, em 1517, as palavras longa epístola, incluIda na segunda edição.' Voltaremos a esse
"nec minus salutatis quam festivus" tornaram-se "non minus utile envolvimento íntimo de Erasmo corn o projeto. Vejamos, antes de

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mais nada, que aspecto tmha a primeira ediçâo da Utopia, o
pequeno in-quarto publicado em Louvain no ano de 1516.6
A página de rosto exibia um mapa rudimentar de Utopia,
12 VTOPIAP IHSVLAF TARVLA, intitulado Utopiae lnsulae Tabula (fig. 1 ) . A página seguinte conti-
nha o alfabeto utopiano, um poema em lingua utopiana e a corres-
pondente versäo latina, Tetrastichon vernacula Utopiensium lingua
( fig. 2). Seguia-se um outro poema em utopiano: "Seis versos sobre

a ilha de Utopia escritos por Anemólio, poeta laureado, sobrmho


de Hitlodeu por parte de irma" (Hitlodeu é o viajante a quem se
deve a descriçäo das leis e dos costumes da liha, no segundo livro
da Utopia de More). Eis o texto:

Os antigos me chamaram Utopia [Lugar Nenhum] por meu isola-


mento; agora sou emula da República de Platâo, e talvez a supere: de
fato, o que cia traçou apenas corn palavras [deliniavit], eu mostrei
'

.
J.'i . [praestiti] corn as pessoas, os bens, as ótimas leis, de tal modo que
.

': mereço ser chamada de Eutopia [Lugar Feliz].

"Deliniavi "praestitf': a República de Platäo é sobrepujada


,r. pela Utopia de More, assim como urna descriçäo pitoresca é ven-
' cida pela realidade. Mas a Utopia de More nao urna descrição
.. 4 '

também? Sim, mas se trata de urna descriçäo que comunica a quem


a lé a sensaçäo de ter estado lá. O texto que, na prirneira edição, vem
.

:/
logo a seguir, a epístola que Pieter Gulls, prirneiro-secretário da
f*.
: ___ cidade de Antuérpia, endereçou a Jerome Busleyden, preboste da
igreja de Aire, insiste corn énfase nesse ponto:

Há poucos dias, carissimo Busleyden, enviou-me o famoso Thomas


1. 0 mapa de Utopia (Utopiae insulae tabula) conformese via napdgina de
rosto da ediçäo deLouvain ( 1516) da Utopia. More ...] a ilha de Utopia, até agora por poucos mortais conhecida,
F

mas tAo digna ou mais até do que a platônica de que todos desejem
conhec-la, sobretudo por ter sido por homem tao eloquente de tal
modo reproduzida, ornamentada, lançada sob nossos olhos, que

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quanto mais a lelo, tanto me parece v-1a mais nitidamente do que
quando ouvi o próprio Rafael Hitlodeu (pois estive, corn More,pre-
sente à sua fala) fazendo soar suas palavras E...]. E, nao obstante,
VTOPUNSIVP ALPHATVM. quando contemplo as mesmas coisas agora ornamentadas pelo pin-
*bcdefghikIma.pqfItaz cel de More [Mori penicillo depicra], fico de tal modo afetado, que
Öe000c8LuLr1oswoo algumas vezes pareço eu mesmo estar vivendo em Utopia!
TETgASTICHON VERNACVLA VTO-
PIENSIVM LINGVA. "Lançada sob nossos olhos", «sic oculis subiectam": era esse,
Vcopo ha Boccac peula chama. segundo a tradiçäo retórica grega, o fito da ekphrasis. Por mejo de
EnLrLBcÓ eLDDOB rooÓ cDCÖO urna descriçao repleta daquilo que os gregos e os romanos teriam
poka charnaan chamado de enargeia e evidentia in narrationee que nós chamada-
ILODJÖ oeÖÖÖJ. mos de vividez, objetos ausentes (em geral, obras de arte, reals ou
Barçol he rnaglorni baccaii

O6'oOL CO ÖOL eo(Da)ÓJ ficticias) ou acontecimentos do passado eram evocados, propor-


(orna cionando ao leitor urna estranha sensaçao de rea1idade. Gillis,
gymnofophaon
LIÖ 3DJL8LrCOLJ. humanista conhecedor do grego e do latirn, elogiou o livro de
Agrarna gmnoCophon labarrrn More como exemplo rematado de ekphrasis. Mas o efeito de reali-
ÖDDÓÖ DJL8LCLJ OeÖciot dade obtido pela eloqüência de More é reforçado pela exibição de
hacha bod.zmdomrn
eÖocö eLoo:LL.J. provas documentais que provêm diretamente da ilba de Utopia.
Voluala barchin Gulls informa a Busleyden (e assim ao leitor) que o breve poema
hetnan (a
OLDÖÖ eÖ9cDaJ coÖJ CO em utopiano chegara a suas mâos da parte do próprio Rafael Hitlo-
Iauokiola dranimc pagloni. deu, "depois da partida de More' E acrescenta:
COE]L9LCÖ ODOAo r6OLJ.
HORVM VERSVVM AD VERBVM HAEC E apesar de More se inquietar quanto à localizaçäo da ilha, por certo
EST SETENTZA. Rafael nao se calou de todo sobre isso, embora tenha falado pouco e
Vtopus.uac duz cx non iníuia feat infularn. apenas de passagem, como que guardando-a para outro momento.
Vai ego mararn omnium abfq phdolophsa.
Ciuwacrm phllofophic2zn cxprcíli monal&bw. E, na verdade, nao sei como um infeliz acaso nos atrapalhou a

nicanon gral:aum acnp.o meliøt*. ambos. Pois quando Rafael falava disso, aproximou-se de More um
be dos escravos, que the disse nao sei que ao ouvido; e a mim, que por
isso mesmo escutava tanto mais atentamente, um dos presentes,
2.0 alfabeto utopiano, a poesia em lingua utopiana e sua raduçao latina. tossindo muito alto, julgo que por causa de um resfriado apanhado
durante urna viagem de navio, cortou-me várias vezes as palavras
do orador. Mas nao descansarei até que conheça por inteiro tam-

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bém esse ponto, de modo que possa dar-te nao só a localizaçâo da
ilha, mas até a sua latitude, desde que o nosso Hitlodeu esteja são e
salvo.'

Essa passagem, muitas vezes descartada como mera brinca-


deira, merece antes urna análise atenta, ao lado das epístolas, dos
poemas, dos mapas e dos alfabetos que enquadrarn a Utopia de
More. Qual será a relaçao entre esses paratextos, como os chaina-
ria Genette,'° e o texto propriamente dito?
A expressäo "que enquadram a Utopia de More" comparece

aqui de caso pensado. Poderiamos comparar a testemunha que


tosse à mosca figurada em trompe-l'oeil na moldura pintada do
espléndido Retrato de um cartuxo, de Petrus Christus (fig. 3). Nos
dois casos, um detaihe minúsculo, banal, figurado com máxima
verossimiihança, é postado no próprio umbral do quadro scia
-
aquele pintado"pela pena de More" ("Morepenicillodepicta"), se-
ja aquele pintado por Petrus Christus -a
fim de provocar o espec-
tador. More pode bem ter visto urna imagem do género quando
esteve em Flandres, no mesmo período em que o projeto da Uto-
pia começou a tomar forma. Corn toda a probabiidade, conhecia
a passagem das Imagens de Filóstrato (i, 23) que, segundo urna
hipótese convincente de Panofsky, pode ter inspirado Petrus
Christus: um pintor "apaixonado pela verossirnilhança" pintara
"uma abeiha pousada sobre flores" corn tal minúcia que era im-
possível saber se "urna abeiha de verdade fora enganada pelo qua-
dro, ou se urna abelha pintada havia enganado o espectador''
Na ficçao jocosa encenada por More e seus amigos, podemos
distinguir dois gestos contraditónos: de um lado, sernear os pró-
3. Retrato de um cartuxo (C.
prios escritos de detaihes concretos, voltados a comprovar a vera-
1446), dePetrus Christus. Nova York, Metro-
politan Museum ofArts.
cidade dos mesmos; de outro, dar a entender, por vários expedien-
tes, que se tratava de narrativas completamente inventadas. Esse

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autodesment ido era formulado corn recurso a estava
estratégias bastante que o jogo se propunha como a linha que separava quem
complicadas. Vejarn-se dois exernplos. dentro e quem estava fora dele:
Em primeiro lugar, More dedicando a
Utopia a Gillis:
Um homem agudíssimo formulou a propósito da minha Utopia
Assirn, até onde recordo, Hitlodeu dissera este dilema: se a história se apresenta como verdadeira, encontro
que a ponte que cruza o
Anidro na altura de Amaurota tern quinhentos nela algumas coisas pouco menos que absurdas; se se apresenta
passos de largura,
mas meu John sustenta
que devemos subtrair duzentos, porque como falsa, entäo há pontos em que More nao tern juizo coerente.
naquele trecho o rio nao passa de trezentos passos.
Peço-te que ten-
tes recordar esse dado, pois, se estiveres de acordo corn Na verdade, replica More, quando "duvida se a coisa é verda-
ele, consen-
tirei e confessarei meu erro; se, ao contrário, nao recordares deira ou inventada, é ele que me parece falto de juízo" Mas por que
nada,
escreverei, como já fiz, o que recordo por conta
própria, pois, como urna dúvida assim nao seria admissivel? A resposta vem numa pas-
cuidarei para que no livro nao haja nenhuma
falsidade, assim, sagern que descreve no subjuntivo urna série de opçOes hipotéticas
diante de dúvidas eventuais,
preferirei dizer coisas que nao são ver- que More tena evitado:
dadeiras a mentir, porque me é mais caro ser honesto
que ser sábio.'2
se tivesse decidido escrever sobre o Estado I si de republica scribere
Erasmo comentou a última frase, calcada em urna
passagem decrevissern] e me tivesse ocornido um mito [fabulai desse género,
de Aulo Gélio, corn urna irónica talvez nao tivesse hesitado em me servir de urna invençâo seme-
observaçäo à margern: "Observar
a distinção teológica entre mentir e dizer urna
falsidade" ("Nota ihante, capaz de insinuar um pouco mais suavemente a verdade nas
theologicam differentiam inter mentiri et mendacium dicer?).'3 almas, quase besuntando-a corn mel. Mas decerto tena temperado
Um trompe-l'oeil pressupoe sempre um clin d'oeil, urna as coisas de modo que, mesmo abusando da ignorancia do vulgo,
pis-
cadela. Oscilar entre o plano da realidade e o da
muito divertido a More, Erasmo e a seus leitores mas nao a
todos os leitores. A brincadeira só era divertida
-
ficção parecia tivesse ao menos incluido para os mais cultos algum indicio que tor-
nasse fácil desvelar meus propósitos.
porque alguem
nao a entendia. O "religiosíssirno professor de Urn momento. "Se tivesse decidido escrever sobre o Estado":
teologia que arde
de desejo de aportar em Utopia" e tornar-se o seu mas More nao tinha escrito justamente um livro sobre o Estado,
bispo era prova-
velmente urna invençao de More. Mas o intitulado De optimo reipublicae statu? Mais urna vez, More troçava
gorducho que, corno
escreveu Beatus Renanus a Wihibald Pirckhejrner em 23 de feve- corn gosto de seus própnios leitores. No caso, declarando, por meio
reiro de 1 5 1 8, acreditava que More tivesse se limitado a de um período hipotético, a puna e simples verdade: nao apenas o
transcre-
vero relato de Hitlodeu parecia ridículo
porque era (ou sejulgava que havia feito, mas aquio que tencionava fazer.'5 E continuava:
que fosse) urna pessoa de carne e osso.'4 Nurna epístola a Pieter
Guis, inserida como apéndice na segunda Assim, nao fosse pon outra razäo, pelo menos tena colocado nomes
ediçäo de Utopia, More
revelou, de rnaneira caracterjstjcamente tortuosa, tanto o fim a no príncipe, no rio, na cidade, na ilha, tais que pudessem alertar aos

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é
mais doutos que a ilha se encontra em
lugar nenhum, a cidade é eva- tentar compreender o significado do livro que ele escreveu ques-
decidiu declarar suas pró-
nescente, o rio, scm água, o prtncipe, scm poyo; o que tena sido fácil tao mais complicada.2 Por que More
brincaihona
prias intençöeS de maneira tao tortuosa? ficçäo
de fazer e muito mais agradveI do que o que fiz, eu A
que, se a credi-
biidade da história nao me constrangesse, nao seria estúpido de encenada por More e seus amigos era um mero expediente literá-
usar nomes bárbaros e que nada signfficam, como Utopia, Anidro, rio, ou algo de mais sério?
Amaurota, Ademo... Esta última questäo já foi formulada no passado; e mesmo o
será proposta aqui
começo (mas apenas o começo) da resposta que
devere-
Essa passagem foi curiosamente ignorada pela maioria dos soará familiar. Para compreender o significado da Utopia
mos inserir o livro de More na tradiçäo literária que remonta
a
estudiosos, talvez porque até há pouco tempo a segunda epístola
de More a Gillis nao fosse incluida nas ediçoes modernas da (ito- Luciano de Samósata.
ia.'7 Mesmo o erudito seiscentista
Gerhard Vossius escreveu a
Sorbière para the comunicar o significado dos nomes da ilha de
Utopia, scm perceber, ao que parece, que fora precedido pelo pró-
prio More.8 Mais recentemente -e isto é mais significativo na -,
discussao sobre as (supostamente) "misteriosas" intençöes de o caráter luciânico do Elogio da loucura [ Encomium moriae,
e da Utopia de More, publicada sob a
More parece ter sido esquecida a passagem recém-citada. Quando que Erasmo dedicou a More,
sabido há tempos.2 Vale a
substituimos o subjuntivo pelo indicativo, as
mtençôes de More supervisäO atenta de Erasmo, é bem
da coletânea de escri-
tornam-se claríssimas: decidira escrever sobre o Estado; ocorrera- pena retomar o exame da questIo, partindo
mais pre-
the urna história, um mito (fabula); decidira servir-se dela tos de Luciano traduzidos por Erasmo e More em i 505, e
para no ano
tornar mais atraente a verdade que quena transmitir aos leitores. cisamente do titulo da pnmeira ediçäo, publicada em Paris
de Luciano, homem de
Embora estivesse decidido a se aproveitar da ignorância da gente seguinte: Vários opúsculos agradabilissimos
comum, More dava urna piscadela aos mais doutos (litteratiores), grande eloqüência [Luciani
viri quam disertissimi complurima
foram cdi-
para Ihes dar a entender que a história era inventada. Quem tivesse opuscula longefestivissimal . Esses opusculafestivissima
dessas cdi-
um conhecimento elementar de grego perceberia o conteúdo tados nove outras vezes antes da morte de More. Urna
de i 5 1 9 pelos herdeiros de
paradoxal dos nomes de Utopia, a começar pelo da ilha e daquele çöes, publicada em Florença no ano
alérn dos
que transmitira as inforrnaçöes a seu respeito: Hitlodeu, o que é Filippo Giunta, é particularmente importante porque,
Corno
«versado em patranhas'° Um minúsculo pormenor basta para escritos de Luciano, incluía a Utopia de More, em latim.
a
demonstrar que o jogo de More baseava-se no dominio do observou Carlo Dionisotti, entre aqueles que leram corn atençâo
grego.
Na primeira ediço, ele usara por descuido, o senado coletânea também estava, corn toda a probabiidade Maquiavel.24
para designar diverso:
de Utopia, um termo derivado do latim mentirr "in senatu Menti- Mas o volume também pode ser lido de um ponto de vista
texto de
rano". Nas ediçòes seguintes, lê-se"in senatuAmaurotjco".2° corno um contexto, no sentido mais literai do termo, do
As intençôes explicitas-. ou quase- de More são claras. Mas Utopia.

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De 1530 em ¿jante, o termo "luciânico" é usado por toda a
gregos charnavarn eirón, [assirn] conhecemos Sócrates'28 Erasmo,
Europa (entre outros por Joäo Calvino) como sinónimo de "des- que era fascinado por Sócrates, reencontrara a mesma disposiçäo
crente, ateu'25 Que significado teriam Luciano e os termos 'rincu- irônica em More, "amigo carissimo, corn quem adoro misturar
lados a ele para Erasmo e More, poucos decénios antes? Ternos coisas sérias e brincaihonas [ qui cum libentersoleo seria, ludicraque
urna resposta a essa pergunta nas dedicatórias que os dois miscere] », e em Luciano, que "mescia seriedade e frivolidade, e fi-
amigos
antepuseram à maloria de suas traduçöes dos escritos de Luciano volidades a coisas sérias'
(entre outras, duas dedicatOrias couberam a Johannes Paludanus "Talvez näo tivesse hesitado em me servir de urna invençao
e a Jerome Busleyden, dois personagens
que mais tarde se viram semelhante' dedarou ambiguamente More na segunda epístola a
envolvidos na publicação de Utopia). Na dedicatória a Alexander, Pieter Gillis, "capaz de insinuar um pouco mais suavemente a ver-
seu pseudomanti.s (Alexandre ou o falso adivinho), Erasmo escre- dade nas almas, quase besuntando-a corn mel' Seria inútil seguir
veu que ninguém era mais útil ( utilior) que Luciano quando se tra- insistindo sobre os aspectos divertidos, agradáveis, luciânicos da
tava de pôr a nu as mentiras daqueles que se aproveitam da
gente Utopia de More, "libellus vere aureus nec minus salutaris quam frs-
comum, lançando mao de artes mágicas ou de superstiçoes: urna tivus' Mas o termo festivus também tinha um outro significado,
óbvia alusäo às superstiçòes eclesiásticas. Luciano nao é
apenas que nao se referia à forma do livro, mas a seu conteúdo; nao ao mel,
útil, continuava Erasmo, mas é tambérn divertido, e por isso mas à verdade velada pelo mel. Tambérn esse significado nos
mesmo mais que condizente corn o caráter de René d'ffliers, remete a Luciano.
bispo
de Chartres, a quem a traduçao era dedicada: "Vós, Excelencia, sois
douto em estudos dificeis e austeros; e todavía, tendo um espIrito
alegre e modos extraordinariamente afáveis [propter summam 4
ingeniifestivitatem, miramque morum iucunditatem] , nao fugis às
Musas mais elegantes, e sabeis mesciar estas bagatelas úteis o significado primário de festivus está obviamente ligado a
àque-
las árduas preocupaçöes'26
festum, festa. Na dedicatória (datada de Londres, l de janeiro de
Utilis,festivus, elegans. os adjetivos usados por Erasmo nesse i 506) a Toxaris, de amicitia,
diálogo que abre a já citada coletânea
escrito de circunstância comparecem de novo nos títulos das de escritos de Luciano, Erasmo dirigia-se a Richard Foxe, fundador
pri-
meiras ediçôes de Utopia. Era urna constelaçao verbal que do Corpus Christi College, nos seguintes termos:
desig-
nava um conjunto de valores partilhados por Erasmo e More. Em
Luciano, os dois viam o exemplo mais elegante (elegans) do pre- Há um hábito que perdura da Antiguidade aos dias de hoje, senhor
ceito horaciano de mesciar "utile dulci ' utilidade e deleite, utili-
bispo: enviar pequenos presentes nas calendas de janeiro, no pri-
dade e diversão (festivitas).27 A brmcadeira podia transformar-se meiro dia do ano novo. Acredita-se que tais presentes dêem sorte
em urna máscara que velava urna verdade superior, como no caso' tanto aqueles que os recebem como aqueles que os enviam.
exemplar de Sócrates. Dele, Cícero escrevera que era "doce, espiri-
tuoso, de conversa divertida, esquivo em tudo que dizia, o que os "Procurei entre meus bens' continua Erasmo, mas "só en-

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contrei papel. Vejo-me assim forçado a enviar um presente de antigo deus itálico, em Roma a festividade era chamada de satur-
papel' isto é, a traduçao do diálogo de Luciano.30 nais-o termo que Erasmo escolheu para titulo de suas trés tra-
Allen, editor do epistolário de Erasmo, fez mençäo a esse texto duçöes). Luciano sublinha tanto as características igualitárias da
ao formular a hipótese de que a primeira ediçäo da Utopia de festa de Cronos como sua natureza simbólica e eférnera.
More, em fins de dezembro de 1516, tenha sido publicada "a fim de
ser usada como strena"." More tena sido instigado por urna reedi- «A minha regna". explica Cronos, «reduz-se a jogar dados, bater pal-
çao recente dos Opuscula de Luciano, publicada em Paris, em
junho de 1514, incluindo mais três escritos, de argumento co-
-
mas, cantar, embriagar-se, e mesmo isso apenas por sete dias. No
que toca às questoes mais importantes de que faJas eliminar a
mum, traduzidos por Erasmo: Saturnalia Cronosolon, idestSatur- desigualdade, para que sejam todos pobres ou todos ricos-, quem
nalium legurn lator, e Epistolae Saturnales. Em urna versäo revista sabe se Zeus nao ha de se ocupar delas?'"
da dedicatória a William Warham, terminada tarde demais para
ser incluIda na ediçäo de Paris, Erasmo comparou os Saturnalia de Na Utopia, More tratou justamente daquelas questoes que
Luciano a urna "literaria strenula", um pequeno presente literário Luciano, por mejo do sacerdote de Cronos, definia como impar-
de ano-novo, "um livrinho, salvo engano, nao despido de espIrito tantes: "eliminar a desigualdade, para que sejam todos pobres ou
[libellum irisi fallor nec infestivum], que nao dediquei a ninguém todos ricos". O libellus de More era sem dúvida festivus, também
mais; e servirá a seu firn se der vontade de nr".32 porque fora presurnivelmente pensado como strena, como um
O alvo da ironia de Luciano nesses trés escritos ligados entre presente vinculado a urna festa que, na Antiguidade, tinha conota-
si é a desigualdade social: çòes subversivas, ainda que em larga medida simbólicas. Um leitor

-Porque tens o ar tao abatido, Cronosolon? - perguntou Cronos


douto e inteligente como Guillaume Budé nao deixou escapar as
características saturnais da Utopia de More.Ao subscrever a tese de
More segundo a quai urna sociedade despida de ganância seria
-
ao sacerdote.
NAo tenho todas as razöes de estar assirn, senhor -
respondeu muitas vezes mellior, Budé afirmou: "Certo, a ganancia, que per-
Cronosolon, o sacerdote -,
quando vejo veihacos torpes e baixos, verte e corrompe tantas mentes de resto nobres e elevadas, desapa-
inverossimilmente ricos, que levarn urna boa vida, enquanto eu e os receria por inteiro, e retornaria a idade de ouro de Saturno [et
demais homens cultos como eu ternos por companhia a pobreza e o aureum seculum Saturnium que rediret]".
desespero?
Seria possível objetar que Budé nAo fazia nada além de aludir
à célebre passagem de Virgilio: "Redeunt Saturnia regna" (Ecloga
A essa triste situaçao Luciano contrapöe, de um lado, a idade iv, 6). Mas Budé também captava a inspiraçâo luciânica do livra de
de ouro, o reino mitico de Cronos, e de outra, seu ritual respectivo: More: "Utopia". observou, "encontra-se além dos confins do
a semana de festejos durante a qual as hierarquias sociais eram mundo conhecido. E urna das lJhas Afortunadas, talvez próxima
subvertidas e os escravos eram servidos por seus senhores (urna aos Campos Elisios: o prOprio More declara que Hitlodeu nao
vez que os romanos haviam identificado Cronos a Saturno, o indicou sua localizaçäo exata".'4

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A descriçao dos Campos Elisios está no centro da segunda diversâo e gravidade, alegria e seriedade, retrata corn eficácia oscos-
parte de Urna histó ria verdadeira, de Luciano: a descriçäo de urna tumes, as emoçöes, as paixoes humanas, como se usasse um pincel,
viagem a inúmeros mundos estranhos. Entre os homens famosos e nos convida menos a 1er que a ver corn nossos próprios olhos".
que viviam nos Campos Elísios, Luciano nomeava vários filósofos,
entre os quais os seguidores de Sócrates e Epicuro. Em seguida,
observava corn ironia:

Platäo era o único que nao estava la: circulavam rumores de que Ja se afìrmou multas vezes que se deve 1er a Utopia inteira, ou
morava na cidade que inventaTa para si, onde vivia segundo a cons- entäo o livro segundo, ou ao menos as passagens mais perturbado-
tituiçäo e as leis que redigira pessoalmente (...]. As muiheres so ras do livro segundo (a defesa da eutanásia, por exemplo) como
comuns a todos e ninguém tern ciúme do vizinho: nisso, há que exemplos de dec1arnatic.r um género retórico baseado em argumen-
reconhecer, todos são "ultraplatonicissimos"; até mesmo os rapazes taçôes inteiramente imaginárias." Em apoio a essa tese, pode-se
se oferecem a quem os deseja, scm oposição." recordar que, por duas vezes no curso do século xvII, a Utopia de
More foi publicada junto ao Elogio da loucura de Erasmo, no
o débito da Utopia de More para corn a República de Platão é volume de Caspar Dornavius intitulado Anfiteatro da sabedoria
explícito. Mas, como observou Pieter Gillis, a Utopia era"plus quarn socráticajoco-séria, isto é, encômios e cornentários de autores, quer
de
platonicarn' mais que platónica, ainda que nao no sentido dos amigos, quer dos rnais recentes, nos quais assuntos tidos corno vis
Luciano. O entrelaçamento de Platão e Luciano é apenas um dos ou danosospara o vulgo, corn o auxilio de engenhosa pena, são trata-
muitos paradoxos do paradoxal livro de More. Na epístola a Gillis dos e ornamentados; obra pública e privadamente muito útil para
inserida na segunda ediçao do livro, More afirmou ter usado "os aprender os mistérios da natureza, para todo deleite, sabedoria, vir-
nomes bárbaros e absurdos" de Utopia (cujo significado acabava de tude [Amphitheatrum sapientiae Socraticae joco-seriae, hoc est,
revelar) porque se sentia obrigado à "fidelidade histórica" (fides his- encornia et commentaria autorum, qua veterum, qua recen tiorum
toriae). Nessa afirrnaçäo irónica, enquadrada por urna mentira, os prope omnium, quibus res, autpro vilibus vulgo aut damnosis habi-
mais doutos ( litteratiores) terão reconhecido urna outra alusäo a tae, stylipatrocinio vindicantur, e,xornantur, opus ad mysteria natu-
Luciano: a passagem que abre Urna histOria verdadeira. Sou um rae discenda, ad omnem amoenitatem, sapientiarn, virtutem, publice
mentiroso, declarava Luciano, mas as minhas mentiras são mais privatirnque utilissirnumj, urna antologia composta de escritos
honestas que os milagres e as fábulas escritas pelos poetas, historia- jocosos de vários autores, entre os quais Luciano, em louvor da
dores e filósofos, "pois ao menos sou verídico ao dizer que minto' febre, das moscas, do nada, do sim e do nao, e assim por diante.39

Como os habitantes de Utopia, More era obviamente "fascinado Mais urna vez, Luciano e a literatura luciânica formavam o contexto
pelas argúcias e gracejos de Luciano' Mas fascinava-se também literal e metafórico da Utopia de More. Mas, no caso do livro de
corn a capacidade que tinha Luciano de combinar o jogo e a serie- Dornavius, pode-se supor urna tentativa de atenuar a agressividade
dade, a mesma que havia entusiasmado Erasmo: "Misturando do livro de More, escondendo-o em mejo à massa de textos inó-

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cuos. Essa hipotética estratégia obliqua faz pensar que urna pes-

zacnca ber t'íe ro fíen 'mt' ma quisa sistemática sobre a recepçäo européia da Utopia de More tena
mi resultados interessantes, sobretudo se abrangesse testemunhos
ngt1tigm Comuncnon bcr p1utetcsiibit
wt.U. t'. iuq. crfdcmcti/vñ t'ngc. indiretos1 subterráneos. Eu me limitarei a um exemplo, declarada-
;u'ciffett rdn'nnbcrp4rhd)ct mente conjectural. Em fins de i 524, Leonhard Reynmann publicou
bing gcptrtn u'crbcn. urna Practica astrológica: um dos muitíssimos prognósticos susci-
fl«.cn vnb Sab.8ufn «bi
tados pela iminente e nefasta conjunçao de todos os planetas no
t4'
¡n 3r(fl n.ib AITU?CT1 bt t'ciba WIG. +fl f (6o1s.

signo de Peixes. No frontispicio ilustrado do prognóstico (fig. 4),


via-se o deus pagao, seguido por urna fileira de campone-
Saturno1

ses que brandiam como armas os próprios apetrechos de trabaiho;


ao lado, o papa e o imperador contemplavam a cena, aterrorizados.
Em um ensaio famoso, Aby Warburg escreveu a propósito
dessa imagem de Saturno: «O antigo deus das semeaduras parecia
ter sido criado na medida [ wie geschaffen] para ser o símbolo de
seus ifihos em revolta'° Contudo, se o símbolo era tao óbvio, por
que jamais fora usado antes? Podemos indagar se essa figuração
.91 agressiva do retorno iminente da idade de ouro como símbolo de
A igualdade social nao tinha algo a ver corn a publicaçâo, ocorrida no
p .#- mesmo ano de i 524, da traduçäo alema do livro segundo da Uto-
pr.rlUb
tr'
pia (o primeiro, como aconteceu corn a traduçäo italiana, foi taci-
tamente deixado de lado). Lembremos que Guillaume Budé subli-
nhava em sua epístola que a aboliçäo da ganância nos reconduziria
à idade de ouro de Saturno. Eu nao tena como provar que o fron-
,.... 't S4'b. /1IVE I tispicio do prognóstico de Reynmann era um comentário à Utopia
de More. Mas permanece a questao mais gera! a que deveríamos
responder: como terá sido lida a Utopia de More na Alemanha,
logo antes das guerras camponesas?
4. LeonhardReynmann, Practica ( 1524 ),frontispício; reproduzido de C. Ginzburg, Em contrapartida, sabemos como foi lida no Novo Mundo,
Il nicodemismo. Simulazione e dissimulazione religiosa nellhEuropa del '500
mais ou menos no mesmo periodo, por um leitor bastante espe-
(Thrim, 1970).
cia!: Vasco de Quiroga, urn juiz que veio a se tornar bispo de
Michoacán. Ele usou o livro de More corno modelo (até mesmo
quanto à comunhäo dos bens) para as reformas que introduziu em

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dois hospitals, ou missôes, nas cercanias de Santa Fe. O exemplar
da Utopia de More utilizado por Quiroga (o quai chegou até nôs)
pertencera antes a Juan de Zumárraga, bispo do México um -
frade franciscano profundamente influenciado por Erasmo.4'

escravizar os indígenas -
Num parecer legal que tentava demonstrar que nao era licito
Información en derecho I...] sobre algu-
nas provisiones dei Real Consejo de Indias (1535) -,
Quiroga afir-
mou que More, "un varón ilustre y 4e ingenio más que humano",
demonstrara que as populaçOes do Novo Mundo, em sua natureza
simples, eram justamente como as da idade de ouro. "Esse autor,
Thomas More, conhecia muito bem o grego", explicou Quiroga.

Era doutlssimo, e traduziu do grego para o latim algumas obras de


Luciano que descrevem as leis, a vida e os costumes da idade de ouro
e de suas gentes simples, como se pode ver pelo que More afirma a

respeito em seu livro sobre o Estado e Luciano em seus


Saturnalia.42

Poucas páginas antes, Quiroga havia citado um longo extrato


dos Saturnalia de Luciano para demonstrar que aquela idade de 5. Os embaixadores, Holbein. Londres, The National Gallery.

ouro, tao similar àquela "idade de ouro do Novo Mundo' nao


conhecera nem a escravidäo nem a propriedade privada. Mas a dimensao jurídica nao é absolutamente alheia à interpreta-
Vasco de Quiroga leu a Utopia de More e os Saturnalia de çâo da Utopia de More. Um termo do direito romano, monopo-
Luciano como se fossem textos paralelos. Será então que a leitura
de Quiroga sustenta minha interpretaçao da Utopia? Sim e nao. contemporánea, oligopolium
-
1juni, levou More a discernir, por analogia, urna nova realidade
ainda que o correlato inglés do
Sim porque a leitura paralela de More e de Luciano demonstra que termo só tenha entrado para o OxfordEnglish Thctionatyna ediçäo
minha interpretaçäo, ainda que nao necessariamente fundamen- mais recente ( no passado, foi excluido como termo meramente
tada, ao menos nao é anacrônica. E, todavia,a leitura unidimensio- técnico, quase dejargao)." Um mito oufabula (definiçäo utilizada
nat que Quiroga faz de More e de Luciano passa longe da oscilaçâo pelo próprio More para a sua Utopia) inspirado nas argumenta-
do
sutil e irónica de ambos (mas sobretudo de More) entre o plano da çöes ficticias de Luciano acabou por exercer, como as fictiones
flcçâo e o da realidade. Quiroga nao percebeu a complexidade dos direito, um influxo conceitual sobre a realidade.'
textos de More e de Luciano, ou limitou-se a usar ambos como
armas em sua bataiha legal? Nao é o caso de tentar responder aqui.

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ri que leva em conta tanto as "perspectivas incompatíveis" que
Greenblatt ressalta, como também o "complexo enquadramento"
A Utopia de More é um "livro bifocal", afirmou R J. Schoeck. que os intérpretes debateram longamente. No centro deste último
Numa perspectiva semeihante, Stephen Greenblatt propôs urna debate está a tese de Hexter sobre o "parágrafo fora do lugar'
brilhante comparaçäo entre a Utopia de More e Os embaixadores segundo a quai o parágrafo do livro primeiro da Utopia que pro-
de Holbein (fig. 5): os "deslocamentos sutis, as distorçoes, mudan- mete urna descriçäo da ilha seria urna espécie de "remendo' indI-
cio mal escondido de urna fase anterior do projeto de More, visto
cas de perspectiva [do livro] constituem o equivalente mais pró-
ximo, na prosa renascentista, do virtuosismo anamórfico" do qua- que a descriçâo sO comparece no livro segundo." No entanto,
dro."More e Hitlodeu, como personagens literários, conversarn no quando se lé a Utopia no contexto da tradiçao luciânica, tao dada a
mesmo jardirn, mas, como no quadro de Holbein, a sombra de contradiçoes lógicas e textuais, a tese de Hexter parece muito fra-
gil. "Mas contarei as minhas aventuras no outro continente no
seus corpos se estende em direçoes diferentes; em aspectos cru-
próximo [ivro' lé-se no fim do segundo e último livro de Urna his-
dais, urn é cego ao outro", escreve Greenblatt. Donde "a sensaçäo
tória verdadeira, de Luciano. "A major mentira de todas' comen-
de perspectivas incompativeis, entre as quais o leitor ondula sem
tou secamente um escriba grego, à margem de sua cópia."
descanso". Certamente, essa inquietude parecerá familiar a um lei-
Outro estudioso, G. M. Logan, declarou que a influência de
tor do século xx: mas ¡sso bastará para explicar as repercussôes
um escritor satírico como Luciano seria incompatível corn as pas-
profundas e duradouras da Utopia de More? Parece ser esta a pro-
sagens "absolutamente sérias da descriçao de Utopia' O livro de
posta de Greenblatt ao fim de seu ensaio: More, adverte Logan,"apesar de ser escrito de forma arguta e indi-
reta, é urna contribuiçao séria à filosofia política'° Mas os elemen-

-
quatro séculos, os críticos tém tentado tao assidua-
Se, por mais de
mente apropriar-se do libellus em nome da Igreja, do Imperio
tos sérios e cómicos da Utopia seräo tao opostos assim? Ao rejeitar
esse dilema, Thompson perguntou-se:"Não poderlamos ficar corn
Britânico, da Revoluçâo e mesmo da Democracia Liberal-, isso se as duas Certo, mas como? O que está em pauta é a
alternativas?'5'

deu, de um lado, porque a Utopia insiste em vincular toda interpre- relaçao entre as duas faces do livro. "Apesar de ser escrito de forma
taçao ao ponto de vista do leitor e, de outro, porque a aposta em jogo arguta e indireta", escreveu Logan; eu nao dina "apesar' e sim "por
é surpreendentemente ser escrito' Como se sabe, More começou a escrever pelo que vina
alta.'7

a ser o livro segundo, isto é, a descrição de Utopia; em seguida,


Greenblatt decerto tern razAo em sustentar que a maioria dos acrescentou o livro primeiro, a descriçâo da Inglaterra. Tenho a
intérpretes deixou escapar "a sensaçâo de perspectivas incompatí- impressâo de que, neste caso, post hoc e propter hoc coincidem. Os
veis" que tern tarnanha importância no livro de More. Mas esse ele- paradoxos de Luciano devem ter descortinado a More um campo
mento formal, por importante que seja, pode ser identificado de possibilidades que modificou o seu projeto Hipóte-
original.52

como o núcleo do livro? ses extravagantes e puramente imaginarias levaram-no a contem-


A abordagem que proponho ultrapassa esse dilema, urna vez piar a realidade de um ponto de vista insólito, a fazer perguntas

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obliquas à realidade. O que aconteceria se (como imaginou 2. Identidade como alteridade
Luciano) as várias filosofias fossem a lei1äo?' Oque aconteceria se
a propriedade privada fosse abolida? Antigos rituais de inversäo Um debate sobre a rima na era elisabetana
como as saturnais levaram More a imaginar urna sociedade fictI-
cia, na qual o ouro e a prata eram usados para fabricar penicos e os
embaixadores estrangeiros carregados de correntes de ouro, por
engafo, eram tidos por escravos. Os mesmos rituais de inversäo
ajudaram-no a entrever pela primeira vez urna realidade parado-
xalmente às avessas: urna ilha em que as cabras devoravam os
homens»

"A fim de descobrir a verdadeira natureza da poesia' escreveu


o jovem Gerard Manley Hopkins, "é preciso antes de nido obser-
var a estrutura do verso. A parte artificial da poesia, e talvez mesmo
de qualquer artifIcio, se reduz ao princIpio do paralelismo.A estru-
tura da poesia caracteriza-se por um paralelismo contInuo, que vai
dos chamados paralelismos técnicos da poesia hebraica e das anti-
fonas da música eclesiástica aos meandros do verso grego, italiano
ou inglés."
Roman Jakobson citou essa passagem no inIcio de um ensaio
muito técnico ("O paralelismo gramatical e seu aspecto russo"),
notando a amplitude corn que Hopkins formulara a questao.2

Parto da mesma passagem para indicar o que nao farei. Entre o


final do século XVI e o inicio do xvii, os "meandros do verso grego,
italiano ou ingles" foram objeto de debates acalorados em muitos
paises europeus, sobretudo na Inglaterra. A história é bem conhe-
cida, mas ainda resta algo a dizer sobre suas implicaçOes.'

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43
Houve um tempo em que a Itália e Roma sabiam, para grande bene-
ficio dos que vivemos hoje, gerar e criar os homens mais dignos que
Podemos começar por um texto que pertence a um gênera já houve no mundo, nao apenas por suas sábias paiavras, mas tam-
literário menor: o latim sem lágrimas. o que Roger Ascham, tutor bém por sua conduta em todos os negócios públicos. Mas agora esse
da rainha Elizabeth e secretário latino da rainha Mary, prometia no tempo já se foi, e, muito embora o lugar permaneça, os costumes
titulo de um livro publicado em I 570, dois anos após sua morte: O antigos e os de hoje diferem tanto quanto o preto e o branco, a vir-
mestre-escola, ou modo simples eperfeito de ensinarcrianças a enten- tude e o vicio I... J. A Itália de boje nao é a Itália de outrora. (23r-v)
der, escrever efalar a lingua latina, dedicado sobretudo à educação
privada dejovens de casasfidalgas e nobres, e igualmente útil para Ascham condena a Itália presente por dois motivos. De um
todos que esqueceram a lingua latina cgostariam, por si sós, scm um lado, ressaltava a corrupçäo moral e a increduiidade religiosa
mestre-escola, em pouco tempo e corn pouco esforço, recobrar a profi- dos inglesi italianati, isto é, daqueles fidalgos ingleses que, tendo
ciência em entender, escrever efalar latim The Scholemaster: or
E passado algurn tempo na Itália, haviam absorvido seus hábitos e
Plaine andperfite way ofteachyng children to understand, write and maneiras. De outro, lamentava a recente voga de traduçoes in-
speake the latin tong, but specially purposedfor the private brynging glesas de livros italianos, "vendidos em qualquer loja de Lan-
up ofyouth in Gentlemen and Noble mens houses and commodious dres, recomendados por títulos honestos, de modo a corromper
alsoforailsuch, as haveforgotthe Latin tonge, and would, by themsel- mais rapidamente os bons hábitos, e dedicados sem escrúpulos
ves, without a Scholemaster, in short tyme, and with small paines, a figuras virtuosas e honradas, de modo a enganar mais facil-
recover a sufficienthabilitie, to understand, write, andspeake Latin] . mente as almas simples e inocentes" (26r-v). Ascham exortava
Nao há como saber se alguém de fato conseguiu aprender ou «OS que têm autoridade» a impedir que se publicassem novas

recobrar algum latim servindo-se do Scholemaster de Ascham. traduçòes de livros italianos. "Nos últimos meses' observava
Mas esse propósito prático ligava-se a um tema mais ampio, ao ele, "foram publicadas na Inglaterra mais traduçöes do que se
quai o título do livra nao fazia mençao. SirRichard Sackviile pedira viu em decênios."5
a Ascham "que declarasse, corn toda a seriedade, o que pensava das Duas obras, publicadas em i 566 e i 567, pouco antes da morte
viagens freqüentes de ingleses à Itália". Ascham, protestante con- de Ascham ( i 568), correspondem mais ou menos a essa descriçao.
victo e homem de sólidos princIpios morais, tinha idéias muito Urna é O palácio do prazer [ The palace ofpleasure] , de William
precisas a respeito: anos antes, passara alguns dias em Veneza, Painter, urna antologia em dois volumes dedicada a Ambrose,
experiéncia que ihe deixara duradouras memórias de pecado. conde de Warwick, e a sirGeorge Howard, compreendendo textos
Ascham elogiou a lIngua italiana, que disse "prezar e amar mais de Boccaccio, Bandello, LIvio e outras autores clássicos e moder-
que qualquer outra, logo depois da lingua grega e da latina" Mas nos. Entre as"histórias e novelas agradáveis"dedicadas aos leitores
contrapôs o estado presente da Itália, em especial o de Roma, ao elisabetanos, encontramos as de "Coriolano", "Timon de Atenas'
"A duquesa de Amalfi' "Romeu e Julieta' "Os dois cavaiheiros de
que fora o seu passado:
Verona" A outra obra é A história de Ariodante e Ginevra [The his-

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tone ofAriodanto afld Jenevraj , extraída do Orlandofurioso. E corn Em um espIrito näo muito diferente, Aharn contrapunha
Ariosto chegamos ao debate sobre a rima. «os dignos poetas de Atenas e de Roma, que se preocupavam em
satisfazer o discrímen de urna pessoa culta, em vez de se esfalfarpa-
ra saciar o capricho de urna multidäo grosseira" nas "lojas de Lon-
2 ches [ ...J abarrotadas de rimas grosseiras e lascivas" (60v). A recusa
das"rimas grosseiras, dignas de pedintes" fazia parte de urna estra-
Segundo Ascham, "as rimas grosseiras, dignas de pedintes", tégia consciente para transformar a Inglaterra em um país verda-
foram deiramente civilizado, em condiçâo de suceder a Itália corno her-
deiramais digna da tradiçao greco-romana, sem cair na corrupçäo
introduzidas na Itália pelos godos e hunos, que destruiram ali toda moral e religiosa dos italianos. Em urna passagem reveladora,
a boa poesia e as letras; em seguida, foram levadas à França e à Ale- Aschani deixou de lado por urna única vez a sua atitude reverencial
manha, e por fim foram acoihidas na Inglaterra por homens enge- diante dos clássicos latinos, a fim de contestar urna mençao à Bn-
nhosos, mas de pouco saber e menos discrimen nessa matéria. (60r) tânia em urna das cartas de Cicero a Atico: "Em toda a ilha nao se
encontra nem urna onça de prata, nem um individuo que tenha
Nesse "ataque à rima' Lewis viu urn único elemento digno de alguin conhecimento das belas-letras' Ascham revidou:
nota, a "perversidade' Mas urna análise mais de perto sugere um
juízo menos desdenhoso. Ora, mestre Cicero, em nome de Deus e de Jesus Cristo, seu litho,
Ascham via na rima um expediente bárbaro e mesmo bestial: que jamais conhecestes, t ... posso bem dizer que há mais baixelas
I

"Seguir a rima dos godos em vez da genuina versificaçäo dos gre- de prata em urna cidade da Inglaterra do que em quatro das mais
gos seria comer bolotas corn os porcos em vez de comer päo na famosas cidades italianas, inclusive Roma.
companhia de homens" (60r).
E urna afirmaçäo enfática, que boje pode parecer estranha. Quanto às letras,
Mas vale a pena recordar urna observaçAo de Ernst Gombrich:
scm mencionar o conhecimento de todas as línguas cuitas e das
A etimologia do termo cl4ssicolança urna luzdivertida sobre a histó- artes liberais, na Inglaterra de hoje vossos prOprios livros, Cícero,
ria social do gosto. Um auctorciassicusé, em sentido estrito,um autor sao mais prezados, mais amados, mais verdadeiramente seguidos
que paga impostos.Na sociedade romana,somente osbem-nascidos do que são oujamais foram em qualquer parte da Itália ...J . E, para
E

pertenciam à classe dos que pagavam impostos, e, segundo o gramá- me vangloriar um pouco, Cicero, se vos acontecesse de hesitar sobre
fiCO romano Aulo Gélio, o autor aspirante devia emular aqueles que alguma questäo erudita de vossa própria lingua, muitos na Ingla-
falavain e escreviam urna lingua culta, näo os "proletários". Nesse terra de hoje saberiam resolver vossas dúvidas tanto em matéria
sentido, o clássico era propriamente "um sujeito de dasse".' douta como em boa conduta. (62r-v)

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Assim, segundo Ascham, a Inglaterra havia superado a Itália, dissidentes. Entre estas últimas, a de sirPhiip Sidney, que, em sua

latim. Naquela data -


fosse na ostentaçäo do luxo, fosse no conhecimento do grego e do
1568 -,urna observaçäo desse genero era
Defesa da poesia, observou corn alguma impaciencia que "em
ambos listo é, na rima e no verso quantitativo] há doçura; nenhum
pouco mais que um desejo. Quanto à mençâo aos doutos ingleses, dos dois é privado de urna certa majestade. E a lingua inglesa, mais
o próprioAscham convidava a nao levá-la muito a sério. Mas a ati- do que qualquer outra lingua vulgar, presta-se a ambos" Mas, ao
tude ambivalente de Ascham diante da Itália aparece daramente destacar a reveréncia que se reserva à poesia entre "todos os poyos
nos elogios reservados aos experimentos métricos do sienés Felice do mundo" inclusive na Turquia e na Irlanda, Sidney notou que
Figliucci, em seu livro Os dez livros da filosofia moral, a partir dos mesmo
dez livros da Etica de Aristóteles [De la filosofia morale libri dieci,
sopra li dieci libri de l'Ethica d'Aristotile]: os Indios mais bárbaros e grosseiros, que nao conhecem a escrita,
têm os seus poetas, que compoem e cantam cançoes chamadas de
Escrevendo sobre a Etica de Aristóteles em italiano corn exoelência Areytos, dedicadas aos feitos dos antepassados e ao louvor dos deu-
jamais alcançada,segundo penso, nern em grego, nem em latim, ele, ses. E isso basta para mostrar que, se alguma vez o saber se propa-
entre outras coisas, investe decididamente contra a grosseira versi- gasse entre eles, o espirito duro e inerte de seus bardos se tornaria
ticaçäo italiana em rimas; e, quando cita os preceitos de Aristóteles, mais brando e sutil pelas doces delicias da poesia.°
acompanhados de passagens tiradas de Homero ou de Eurípides,
ele as traduz nao à maneira das rimas de Petrarca, mas adotando um Por trás dessa passagem, vemos surgir um aspecto do debate
genero de versos perfeitos, contados em pés e quantidade das stia- sobre a rima que até agora nao foi suficientemente estudado. Ten-
bas, análogos aos que conhecia da lmgua grega; e exorta com vigor ternos entender suas implicaçoes, partindo da palavra aréytos.
os italianos a abandonar a rude barbarie de suas rimas, para seguir A referência mais antiga aos aréytos nas línguas européias
à risca os excelentes eemplos gregos e latinos de versificaçao encontra-se na Historia general de las Indias de Oviedo. Mesmo
genuIna. (61v) nao sabendo escrever, os mndios"conservam urna memOria das coi-
sas passadas" graças a cantos acompanhados de danças que cha-
Os ingleses, que "jamais tinharn ido além das escolas estran- mam de aréytos, baseados nas vidas de seus chefes ou caciques.
geiras de Petrarca e de Ariosto, nem, para ficar em casa, de Chau- Oviedo definiu os aréytos como «urna espécie de história" e os
cer", bern poderiam ter tomado Figliucci por modelo.9 comparou, de urn lado, as danças dos etruscos por ocasião de sua
visita a Roma, registradas por Livio (vii, 2), e, de outro, aos cantos
em lIngua espanhola ou italiana em torno de acontecimentos his-
3 tóricos.0 Como é óbyio, os europeus do século xvi abordaram o

Novo Mundo por mejo de esquemas conceituais radicados tanto


A peroraçäo passional de Ascham contra a rima e em prol do na sociedade de que provinham como na Antiguidade greco-ro-
verso quantitativo suscitou ampia discussäo e urnas poucas vozes mana. Esse encontro teve repercussôes de longo prazo sobre a Eu-

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ropa e sobre a percepçao que a Europa tinha do próprio passado, Sidney comparava o historiador a um poeta e, de modo mais geral,
sobre as quais vale a pena it2 A palavra aréytos, por exemplo,
a "um autor de discursos, nome que damos a quem fale non simpli-

acabou por sugerir urna nova definiçäo da história, diferente da citer delano, sed de qualitatibus et circurnstantiisfacti [de um fato
tradicional. nao de modo absoluto, mas levando em conta as qualidades e as
'
Na introduçäo a sua tradução de Plutarco (um dos livros que circunstâncias] Bauduin utiizara as mesmas palavras em apoio
mudaram a Europa), Jacques Amyot falou da Antiguidade e da à tese oposta: os historiadores devem ir além da mera descriçäo de
nobreza da história; e informou a seus leitores que as populaçoes um fato e de suas circunstâncias ("factum aliquod [...] cum suis cir-
das Indias Ocidentais, bárbaras e ignorantes da escrita, eram capa- cumstantiis"), tentando evitar tanto os exageros dos"novos orado-
zes de recordar acontecimentos que remontavam a oitocentos res" como a liberdade de invenção concedida a poetas e artistas
anos antes, graças a cantos memorizados durante a
infância.3

(afìrmaçâo que remete a um famoso verso de ái' Mas, ape-


Alguns anos depois, o erudito espanhol Sebastián Fox Morzillo sar das divergéncias, Sidney deve ter ponderado corn interesse as
descreveu um manuscrito mexicano presenteado ao imperador idéias de Bauduin sobre a história.
Carlos y, o CódexMendoza, e comparou suas imagens aos hierégli- Bauduin, católico de nascimento, convertera-se ao calvinis-
fos. Ou seja, nao a urna escrita propriamente dita; contudo, Mor- mo e tornara-se secretário de Calvino. Na seqüência, retornou ao
zifio adinitia quase a contragosto que até mesmo aquele relato nao catolicismo e desenvolveu urna atividade de mediaçao entre as
escrito do passado podia ser definido como "história" ("quam igrejas. E provável que fosse ele o alvo de um violento opúsculo
appellare historiam, licet non scriptam,
possumus").14

que Calvino publicou logo após o coloquio entre católicos e calvi-


Nem Amyot, nem Morzillo faziam mençäo aos aréytos. Sid- nistas que teve lugar em Poissy, em setembro de 1561, no qual
Bauduin desempenhara um papel importante (Resposta a um
ney pode ter lido a tradução francesa do livro de Oviedo, publicada
em Paris, em 1577: L'histoire naturelle ergenerale des Indes, isles et cauto e astuto mediador [Response à un cauteleux et rusé moyen-
terrefrrme de la grand mer Mais provavelmente, leu um
Oceane.5

neun )." O De institutione, dedicado a Antoine, rei de Navarra, foi


tratado do famoso jurista François Bauduin, professor na Univer- escrito às vésperas do coloquio de Poissy. Bauduin tratou, de urna
sidade de Arras, redigido a partir de urna série de preleçöes em Hei- perspectiva comparativa muito ampia, de urna série de questöes,
delberg: Sobre a instituiçäo da histOria universal e sobre suas re!açóes algumas das quais corn implicaçöes religiosas inflamáveis: por
corn ajurisprudência [Deinstitutionehistoriae universaeeteiuscum exemplo, a superioridade dos testemunhos de prirneira mao
sobre aqueles de tradiçao indireta. Outro dos argumentos em
iurisprudentia coniunctione] Esse escrito, publicado pela prirneira
vez em 1561, foi incluido no Anis historicae penus, urna antologia pauta era a confiabilidade de relatos transmitidos por via oral em
em dois volumes de escritos sobre a arte da bistória, publicada em eras ou partes do mundo desprovidas de tradiçäo historiográfica.
Basiléia, em 1579.16 A carta que Sidney escreveu ao irmão Robert Bauduin partiu da fase mais antiga da história romana, na quai,
em outubro de 1580 sobre o modo de escrever a história foi certa- como Cícero informa no Brutus, cantavarn-se cantos conviviais
mente instigada pela publicaçao recente da antologia de Basiléia. ou carmina (que já nao existiam quando ele escrevia) para louvar

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as açöes de homens famosos. Bauduin aproximou dessa passagem ("Nam etfas est et ab hoste doceri' Ovidio, Metamorfoses, 4, 428).
deixa
de Cícero duas passagens de Tácito: "celebram em antigas can- Mas essa traduçao do verso de OvIdio nao é adequada, porque
escapar a contigüidade entre hostis, "inimigo' hospes, "hóspede'
e
çöes, pois entre eles é o único gthero de memórias e anais" ("cele-
brant carminibus antiquis, quod unum apud illos memoriae et Bauduin, profundo conhecedor do direito romano, sabia muito
annalium genus est"; Germania, 2, 3) e" [Armmnio] é cantado ainda bem que o antigo hostis significava "estrangeiro' como, por exem-
um estrangeiro, a deter-
hoje entre os poyos bárbaros, esse desconhecido dos anais
dos pio, na passagem das Doze tá buas "Contra
rs us hostem aeterna auctoritas
gregos, que estimam apenas seus próprios assuntos" («caniturque minaçâo legal será perpétua" ("Adve
cantos eram
adhuc barbaras apudgentis, Graecorum annalibus ignotus, quis sua esto"). Bauduin notava que, em todo o mundo, os
tantum mirantur"; Annales, 2, 88, 4) E observou: o que acontecera
.
usados para transmitir a memória do passado, e prosseguia assirn:
corn os antigos germânicos deve ter se verificado também em da
a
outros poYos. Recordou a passagem em que Eginhardus descreve E nôs seremos tao degenerados para nem desejar ouvir cançäo
história De resto, nao podemos entendé-la a menos que
Carlos Magno transcrevendo e memorizando "barbara et anti- pátria?
também tenhamos a memória desses que são chamados bárbaros.
quissima carmina", isto é, antiqüíssimos cantos bárbaros que con-
Se somos gauleses, britânicos, germânicos, espanhóis ou italianos,
tavam os feitos e as proezas guerreiras dos antigos soberanos. E
nao ignorar a história
prosseguia: "recordarei um outro exemplo, nao
menos nobre" para que possamos falar dos nossos é preciso
E
dos francos, dos anglos, dos saxöes, dos godos, dos longobardos.
("Recitabo alterurn non minus nobile exemplum"), as populaçôes os sarracenos e
já que muitas vezes os nossos estäo envolvidos corn
indígenas recém-descobertas, que transmitem a memória do pas-
os turcos, por certo é born nao desconhecer a história sarracena
ea
sado servindo-se de desenhos comparáveis a hieróglifos egipcios
ou de cantos (cantiones) que acompanham as danças. Esses can- turca.'
tos misturados a danças (choros) são chamados de aréytos -a de
Essa página extraordinária parece antecipar as pesquisas
palavra retomada por
Sidney.2°

corno Muratori, nao falar dos man i-


para
Arnaldo Momigliano fez referéncia a essa passagem de Bau- antiquários setecentistas
festos políticos e intelectuais (muitas vezes de fôlego multo curto)
duin em urna nota de rodapé de seu esplendido ensaio "Perizonius,
dos nacionalismos Fazia muito tempo que os historia-
europeus.24

Niebuhr e o caráter da primitiva tradiçäo romana". Mornigliano


observou que a descoberta de um passado transmitido oralmente dores franceses do direito haviam começado a estudar aquilo que
transformou a imagem da história romana, lançando as premissas chamamos de "Idade Média' Mas Bauduin conferiu a essas pes-
incluía até mesmo bárba-
da chamada "teoria das Mas nem mesmo Momigliano
baladas".23

quisas um largo fôlego cosmopolita, que


deu o relevo adequado à amplitude da comparaçäo e à atitude de- ros e inimigos, como hostes, "estrangeiros". A defesa da rima for-
xvii
cididamente nao eurocéntrica do escrito de Bauduin. Após deda- mulada na Inglaterra entre o fim do século xvi e o inIcio do
rar que os cantos dos Indios americanos forneciam um exemplo inspirou-se em idéias análogas.
"nao menos nobre" que os carmina dos antigos romanos, Bauduin
comentou: "Pois é sempre possível aprender, até corn o inirnigo"

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4 Bauduin e Sidney haviam falado, respectivamente, de cantio-
nese cantos, nao da rima. Nenhum dos dois havia aludido à oposi-
Em suas reflexOes sobre a transmissäo oral do passado, Bau- çào entre natureza e arte que servia de eixo à argumentaçao de Put-
duin questionou de modo implicito urna série de suposiçöes lar- tenham. A arte da poesia inglesa contrapunha duas séries de
gamente difundidas sobre o primado atribuido à tradiçAo clássica. valores: de um lado, o antigo, o natural, o bárbaro (ou selvagem),
O tratado anónimo A arte da poesia inglesa [The arte of english poe- o universal, o nu, o ignorante; de outro, o recente, o artificial, o civi-
eJ,de 1589, atribuido a George Puttenham, retomou a argurnen- lizado, o particular, o vestido, o douto. Sabemos pouco da biogra-
fia de Puttenham; parece, entretanto, que passou algum tempo na
taçäo de Bauduin em um âmbito mais circunscrito, transfor-
mando-a em ataque à versificaçao grega e latina. Uma das páginas corte francesa! E verossimil que tenha conhecido os Ensaios de
mais vivazes e atabaihoadas de Puttenham merece ser citada por Montaigne, publicados pelaprinieira vez em 1580. Assim como no
inteiro: ensaio de Montaigne «Sobre os canibais' a palavra "bárbaros"
figura em A arte da poesia inglesa corn grande destaque e corn trés
significados diversos: relativo, negativo e
positivo.27

Parece entäo que nossa poesia vulgar foi comum a todas as naçöes do
mundo que os latinos e sobretudo os gregos chamavam de bárbaras. Puttenham explica que"bárbaro",antes de tudo,é um conceito
E todavia fti essa a pthneira poesia, a mais antiga e a mais universal: puramente relativo, um insulto gerado pelo orguiho nacional:
duas qualidades que em geral däo näo pouco crédito às invençoes e
atividades humanas. Isso é provado pelos testemunhos de mercado- Esse termo nasceu do grande orguiho dos gregos e dos latinos, no

rese viajantes,que recentemente, corn suas navegaçôes, percorreram tempo em que erarn os dominadores do mundo e pensavam que
o mundo inteiro e descobriram paises imensos e estranhos poyos nenhuma lingua fosse comparável às suas pela doçura e o refina-
selvagens, afirmando qup os americanos, os peruanos e mesmo os mento, e que todas as naçoes fossem comparativamente grosseiras
canibais cantam e dizem as coisas mais elevadas e mais sagradas em e incivilizadas, ou, como diziam, bárbaras. E... ] Corn arrogância

versículos rimados, nao em prosa. E isso prova também que a poesia semeihante, os italianos de hoje chamam os franceses,os espanhóis,
os holandeses, os ingleses e todas as outras populaçoes que vivem
vulgar é mais antiga do que a poesia artificial dos gregos e dos lati-
nos, pois a nossa provém de um instinto natural que precede a arte além de suas montanhas de Appennini, Tramontani Isic], isto é, de
bárbaros.2'

ou a observaçao e se encontra entre os selvagens e os poyos incivili-


zados, anteriores a toda cithcia ou civilizaçäo, assim como o nu é
anterior aovestido e o ignorante é anterior ao douto. Portanto, a poe- Mas, alérn desse significado relativo, Puttenham usa o termo
sia natural, socorrida e emendada pela arte, e nao completamente
alterada ou ofuscada, de tal modo que dela permaneça algum indi-
-
Em urna digressao sobre a história da rima -
"bárbaro" como sinónimo de grosseiro, tosco, scm refinamento.
a prirneira do

cio (ao passo que os gregos e os latinos näo deixaram traço nenhum género, como já se aponto&' Puttenham atribuiu, como fizera
dela), nAo é menos licita e recomendável que a deles. Ascham, a comipçao «da poesia métrica dos gregos e dos latinos"
aos "conquistadores bárbaros que os invadiram, subjugando-os

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corn enxames inumeráveis de poyos estranhos' Mas, talvez insti- formando a rima, geralmente desprezada por bárbara, em legi-
gado pelo interesse de Bauduin pelos «cantos bárbaros e antiqüls- timo tema de Cinqüenta anos depois, o crítico e
investigaçäo.3'

sirnos' recordados por Eginhardus em sua vida de Carlos Magno, poeta francês Jean Chapelain defendeu a importAncia histórica de
Puttenharri dedicou urn capítulo de seu livro a uma discussäo um romance medieval como o Lancelote em termos que parecem
sobre a poesia rimada dos"tempos de Carlos Magno e depois de1e' ecoar as palavras de Puttenham: "Os médicos analisam os humo-
Como era de prever, Puttenham falou da "excessiva autoridade dos res corruptos de seus pacientes a partir de seus sonhos; da mesma
papas", da "bárbara grosseria dos tempos' da "ociosa invençao dos maneira, podemos analisar os costumes e as atitudes dos hornens
monges" e de urna "idade dada às fábulas" Um "longo poema em do passado a partir das fantasias descritas em seus Desse
livros"'2

corn ¿ obra do monge Ugobaldo, era -


louvor de Carlos, o Calvo, em que todas as palavras começavam
observou Puttenham - género de investigaçäo antiquária surgiriam a histOria
histOria das mentalidades.
social e a

"um exemplo de habilidade nada desprezível E... por mais que nao
J Mas o termo "bárbaro" tinha para Puttenham, como para
seja outra coisa senão um exercício extravagante e sem razäo de ser, Montaigne, ainda um terceiro significado, inteiramente positivo.
senâo a de tornar os versos harmoniosos para os ouvidos grossei- A rima, sendo "incivil" e bárbara, por um lado, e universal, por
ros daquela idade bárbara' Todavia, no fim do capítulo, Putte- outro, era Mas mesmo a "poesia natural' segundo Put-
"natural'33

nham explicou por que valeria a pena ocupar-sede produçoes lite- tenham, devia ser "socorrida e emendada pela arte, nao completa-
rárias tAo toscas: mente alterada e obscurecida, de modo que dela permaneça algum
sinai (ao passo que os gregos e os latinos nao deixaram nenhum)'
Assi.m se poderAo observar os
humores e os apetites humanos, e Na última parte de A arte da poesia inglesa, Puttenham esclareceu
como mudam segundo as novas maneiras, por mais que sejam pio- os termos desse compromisso. Reformulou a oposiçâo entre natu-
res que as antigas; e isso vale nao apenas para o modo de viver e de reza e arte, partindo da idéia formulada no inicio de seu livro: que
vestir, mas também para as letras, as artes e sobretudo as linguas.° o poeta é, corno sugere a etimologia, urn artifice ( maker). Como
artífice, ele é comparável, dentro de certos limites, a um carpin-
Havia born tempo que os modos, as vestes, as letras, as artes e teiro, a um pintor, a um escultor, a um jardineiro:
as línguas eram considerados ternas
dignos de antiquários, nAo de
historiadores. Até mesmo a conexäo entre a rima e os "humores e Quanto àquio em nosso artífice ou poeta que depende somente da
apetites' sugerida por Puttenham, nAo era novidade: no Schole- concepção e deriva apenas de urna invençào rápida, aguda e exce-
master, por exemplo, Roger Ascharn opusera as "rimas grosseiras e lente, auxiliada por fantasia e imaginaçao clara e brilhante, ele nao
lascivas" que atuihavarn as lojas de Londres aos "dignos poetas de é comparável ao pintor, que simula o natural por efeitos análogos
Atenas e de Roma, que se preocupavam em satisfazer o discrimen mas nAo iguais, nem ao jardineiro, que ajuda a natureza a produzir
de urna pessoa culta, em vez de se esfalfar para saciar o capricho tanto o igual como o análogo, nem ao carpinteiro, que produz efei-
[humorl de urna multidâo grosseira". Contudo, graças à curiosida- tos inteiramente diferentes, mas sim à prOpria natureza, que produz
de antiquária, Puttenham inverteu a hierarquia tradicional, trans- por virtude própria e instinto adequado, nao por exemplo e medi-

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taçäo ou exercício, como todos os demais artifices, e ele é mais admi- sobre a arte da poesia inglesa Observations in the art ofenglish poe-
E

sie] , onde afirmava que a versificaçäo classica convinha lingua


à
rável quando é mais natural e menos artificial.TM
inglesa bem mais que o "uso vulgar e grosseiro da
rima'" Mas os
só eram discuti-
o poeta como criador: ao sublinhar as raízes neoplatónicas argumentos técnicos empregados por Campion
dessa idéia, M. H. Abrams citou algumas passagens paralelas de dos na última parte da Defesa da rima. A maior parte da resposta
Sidney e de Vale recordar que, em 1585, Giordano
Puttenham.35
de Daniel enfrentava questöes mais amplas, a começar pela supe-
Bruno publicara em Londres Dosfurores heróicos [Degli eroici rioridade da arte sobre a natureza, afirmada por Campion. Para
fi4roriJ, dedicando-o a sirPhiip Sidney. Os elementos neoplató- Daniel, a tese de Campion estava às avessas. E, depois de ter evo-
nicos em A arte da poesia inglesa são bastante evidentes; mas ao cado "o costume, que precede toda lei, a natureza, que está acima
louvar a poesia "como a própria natureza' Puttenham talvez evo- de toda arte' Daniel prosseguia assim:
casse também a sprezzatura de Castiglione, isto é, a espontanei-
dade reencontrada por mejo da arte e além da arte. Assim se expli- Nao devemos medir todos os nossos conhecimentos tomando por
carla por que Puttenham, após um capítulo intitulado "Sobre o metro a Grécia e a Itália. Como eles, somos filhos da natureza [ ... J.
Toda a sua poesia, toda a sua filosofia nao valem nada se, no
que torna nosso discurso agradável e digno, e sobre o que os lati-
nos chamavam de decorum", passa a discutir o comportamento a momento de ser postas em prática, nAo fizermos uso da luz judi-
ser observado rias cortes, em um capítulo intitulado "Sobre a ciosa da inteligéncia. Nao são os livros que facultam ao homem jul-
decéncia nos modos, ainda no que tange ao poeta ou arti fice' gar,mas tâo-somente o grande livro do mundo e a graça dos céus
quechovesobrenós [...].'°

II literal do ensaio
IR
Seguia-se logo adiante urna citaçäo quase
"Sobre os canibais' de Montaigne.' Muito embora o nome de
o timbre incon-
"Essa poesia animalesca [...], esses versos de ferraiheiro que Montaigne nao fosse mencionado explicitamente,
chamamos de rima' lé-se no Discurso sobre a poesia inglesa Dis- E
fundivel de sua voz nao terá escapado aos leitores contemporâ-
course on english poetry] de William Webbe ( i 586). São palavras neos. A primeira traduçäo inglesa dos Ensaios de Montaigne foi
de Da-
que vale a pena ter em mente para entender corn dareza as impli- publicada em i 603, o mesmo ano em que surgiu o opúsculo
caçöes polémicas da insistência de Puttenharn sobre o decorum niel. Daniel estivera envolvido direta e indiretamente nessa tradu-
cunhado e
social e estilístico e seu desejo de fazer da rima (ao mesmo tempo çäo, através do tradutor, John Florio, de quem era
em que se fazia o
que sublinhava seus aspectos naturais, bárbaros, selvagens) um amigo. Daniel dedicou a Florio um longo poema,
audazes pala-
recurso respeitável, digno até mesmo das cortes. Em sua Defesa da elogio de Montaigne, entre outras coisas,"por suas
rima, de 1603, Samuel Daniel desenvolveu essas contradiçöes apa- vras/ sobre o hábito, poderoso tirano do mundo,! em cujo Serralho
rentes em direçao diversa." servimos, dir-se-ia,! desde a mais tenra infancia, por obra da edu-
Um ano antes, Thomas Campion publicara suas Observa çòes caçao

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o Montaigne de Florio era o Montaigne de Shakespeare. O francesa, teve urna funçao importante na construçäo de urna iden-
tidade inglesa contra "um novo sistema dominante, baseado na
estado utópico descrito na Tempestade ("nao permitirei comércio
de nenhum gênero/ e, dos magistrados, nem sequer o nome" ato
H, cena i ) fazia eco ao ensaio "Sobre os canibais' traduzido
- Europa continental" e cujo eixo era a França.
Essa leitura inglesa de Montaigne ressoa na Arte da poesia
por John
E possível que os Ensaios de Montaigne, tao eivados de pri-
Florio.43

inglesa de Puttenharn e, de maneira


ainda mais evidente, na Defesa
mitivismo, tenham fascinado particularmente os leitores ingleses. da rima de Samuel Daniel. A recusa da centralidade da tradiçäo
fenómeno bárbaro
Na Itália, por exemplo, onde Montaigne foi traduzido em 1590, o grega e romana e a importância atribuIda a urn
eco de suas reflexöes foi muito esparso.« Essa divergéncia, apesar de como a rima levaram Daniel a pôr em questäo, num espirito bem
"Se dissés-
previsível,lança alguma luz sobre a recepçâo inglesa de Montaigne. digno de Montaigne, a superioridade geral da Europa:
Carlo Dionisotti considerou a traduçäo italiana de Mon- sernos que a China, que jamais ouviu falar de anapestos, troqueus,
taigne urna "reviravolta decisiva' pois mostrava que, "na histOria tríbracos, é um Estado rude, bárbaro e incivil, a experiência nao
das relaçôes literárias entre a Itália e a França, inaugurava-se urna vina nos desmentir?'
nova era [... J . A Itá.lia finalmente tornava consciência da existência Nesse ponto, Daniel insere um elemento ausente em Mon-
de Idade Média:
de urn novo sistema dominante, baseado na Europa taigne, a vindicaçäo daquilo que chamamos
continental'45

Vale a pena incluir nesse quadro a traduçao inglesa de


Montaigne,
tambérn proveniente de um ambiente intelectual italiano. O tra- Os godos, os vándalos, os longobardos, que segundo a opiniäo
dutor, John Florio, assim como seu pai, deixara a Italia por moti- comum submergiram como um dilúvio a gloria das letras na
leis e os seus costumes, que
vos religiosos. Em seu prefácio, Florio recordava que havia quem Europa, deixaram-nos entretanto as suas
visse nas traduçöes urna "subversäo das universidades"; e, a esse são os originals de que depende a maior parte das constituiçöes pro-
propósito, citava seu"velho amigo, o Nolano' que afirmara e ensi- vinciais da cristandade.
nara publicamente que "todas as ciéncias originaram-se de tradu-
çôes' urna vez que os gregos haviam aprendido todas as suas ciên- Daniel questionava a idéia entâo corrente de que o latim
cias dos egIpcios, que por sua vez as haviam aprendido dos tivesse sido ressuscitado por Reuchlin, Erasmo, Thomas More:
"hebreus ou dos caldeus' O "Nolano" era obviamente Giordano Petrarca, bem antes deles, escrevera em latim versos e prosa de
de sua fama den-
Bruno, nascido em Nola e queimado em Roma como herege trés grande valor, por mais que, em seu lugar origern,
anos antes. John Florio, um dos personagens do diálogo bruniano vasse dos poemas italianos. Daniel elencava vários humanistas ita-
A ceia das cinzas [Cena di cenere], evocava o amigo morto corn lianos que haviam seguido os passos de Petrarca, e acnescentava:
palavras que fazern pensar na figura do mago hermético traçada "Contudo, rnuito antes de todos estes, e em direçâo convergente,
por Frances Mas na traduço inglesa nao ha nenhum traço
Yates.46

nossa naçao nao era inferior em espIrito e dignidade, mas estava à


da subordinaçäo intelectual diante da França que Dionisotti altura da meihor parte do mundo culto'
detectava na traduçäo italiana de Montaigne. Ao contrário. Mon- Daniel citava Beda, Walter Map, Bracton, Bacon, Ockham
taigne, que nos parece hoje um dos símbolos da tradiçäo literaria

6o . 6i
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e um número infinito de homens excelentes, a major parte dos quais falar dos nossos é preciso nao ignorar a história dos francos, dos an-
viveu há cerca de quatrocentos anos e deixou atrás de si monumen- glos, dos saxöes, dos godos, dos longobardos.
tos de sabedoria e de doutrina em todas as cithcias. São portanto as
nuvens que obscurecem nosso julio e nos levam a supor que todas Na Defesa da rima, Daniel retomou, de urna ótica especifica-
as idades diversas da nossa viveram envoltas em trevas, e a grande mente inglesa, o programa delineado por Bauduin.
distância nos faz imaginar homens longmquos a ponto de parece-
rem despreziveis em comparaçâo a nôs [...J.

A paixao antiquaria de Daniel estendia-se até mesmo a nomes


Ja se quis 1er urna antecipaçao do Romantismo no começo do
obscuros, como aquele Aldelmus Durotelmus, louvado como "o
meihor poeta de seu tempo" e que florescera por volta de 739. De vigésimo capítulo da Defesa da rima.' Urna conclusäo simplista:
dado que Daniel era um anticlássico, viu-se nele urn protorno-
qualquer modo, a vindicação da Idade Média conduzia Daniel
demo. "Moderno" é muitas vezes um termo vago, mas nao inteira-
além da Inglaterra: "Erasmo, Reuchlin e More, corn as palavras que
mente deslocado neste contexto. A querelle des anciens et des
inventararn, nao trouxeram ao mundo mais sabedoria do que
modernes nao corneçou na França, mas na Inglaterra, inflamada
havia antes, nem propiciaram um teólogo mais profundo que San-
pelo debate sobre a rima, no ámbito de urna redeflniçào das rda-
to Tomás, um jurista mais grandioso que Bartolo, um lógico mais
çòes da Inglaterra corn o continente: em primeiro lugar, corn a
agudo que Duns Scot' Mas retornava em seguida à preocupaçào
França e, em plano mais simbólico, corn a Itália. A recusa da
que o dominava: "Paremos por aqui e observemos o grandioso edi- métrica quantitativa, baseada nos modelos gregos e latinos, em
ficio constituIdo por este Estado da Inglaterra, e consideremos se nome da rima levou a urna dedaraçao de independência intelec-
os tempos que puderarn the conferir tal forma foram tempos tuai em relaçao ao continente. "Bárbaro" tornou-se urn termo
deformados'
positivo, um sinai de orgulho, justamente no momento em que as
Mas paremos por aqui, urna vez que o escrito de Daniel é frotas británicas preparavam-se para a conquista do mundo.
conhecidfssimo.A originalidade de sua vindicaçäo da Idade Média E depois, como escreveu Fernand Braudel, a Inglaterra tor-
foi assinalada repetidas No contexto apresentado aqui, cia
vezes.47

nou-se urna Paradoxalmente, o historiador que associou o


ilha.49

parece menos espantosa. "E nós seremos tao degenerados para próprio nome à longue durée referia-se a um tipico événement,
nem desejar ouvir a cançäo da história pátria?' escrevera François ainda que provido de urna carga simbólica: a conquista francesa de
Bauduin. Calais. Mas a insularizaçao da Inglaterra foi um processo, nao um
evento: um processo longo, corn raízes em urna auto-reflexao que
De resto, nAo podemos entendê-la a menos que também tenhamos se desenvolveu em vários planos. Desse processo faz parte também
a memória desses que são chamados bárbaros. Se somos gauleses, a defesa da rima de que se falou aqui: um episódio menor, mas nao
britânicos, germânicos, espanhóis ou italianos, para que possamos destituido de significado.

62
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63
Em busca das origens Tristram Shandy, publicados em rápida sucessäo entre 1760 e
3.
1761, obtiveram enorme sucesso. Ao final do sexto volume, no
Relendo Tristram Shandy capitulo 40, Sterne lançou um olbar retrospectivo sobre o livro que
estava escrevendo (fig. 6):

Começo agora a avançar bastante na minha obra; e corn a ajuda de


urna dieta vegetariana, acompanhada de algumas sementes fias,
nao tenho dúvida de que conseguirei ir adiante corn a história do
meu tio Toby, e corn a minha própria, seguindo urna linha razoavel-
rnente reta. Assirn,

( «a )

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Nos dois primeiros capítulos falou-se de ilhas ilhas inven-
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tadas, como a de Utopia, ou reais, como a Inglaterra de urna


perspectiva nao insular. Contra o lugar-comum corrente segundo IAM t..
CHAP. XL
I, p, ..i .
o quai todas as narrativas pertenceriam em alguma medida à esfera t.'
I&f t.tè.
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ItIpdt wtubl,
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4.
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Eath .y.ak Z.)..I,tq. ..d

da ficção, procurou-se mostrar que existe urna relaçao complexa . i.kbk t-I.t N.. h..,

entre as narrativas inventadas e as narrativas corn pretensäo à ver-


dade.A ilha imaginária de Utopia permitiu que Thomas More per-
cebesse (e denunciasse) as extraordinárias transforrnaçöes em
curso na sociedade inglesa. A defesa da rima como procedimento
literário diante das acusaçöes de barbárie tinha lugar em urna
ideologia imperialista nascente, voltada a acentuar a distância cul-
tural e política entre as ilhas britânicas e o continente europeu.
Verdade e ficçao, examinadas de urna perspectiva nao insular,
encontram-se igualmente no centro deste terceiro capítulo, dedi- 6. L Sterne, The life and opinions ofTristram Shandy,gentleman, inWork.s (Lon-
cado ao Trist ram Shandy de Laurence Sterne. dres, 1770),VOLII,p. 116.
Os seis volumes iniciais de A vida e as opiniöes do cavaiheiro

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65
-
Estas foram as quatro linhas que segui no meu primeiro, segundo,
terceiro e quarto volumes. No quinto, fui muito bem, sendo esta
meiros dentros e foras que ocorrem nas vidas dos maiores ministros
de Estado, eque, quando comparados corn o que os demais homens
a linha precisa que nele descrevi:
BD - -
tém feito, ou corn as minhas próprias transgressôes nas letras A
tornam-se em nada.
-
Neste último volume, portei-me ainda meihor pois desde o
C 'i'
) fim do episódio de Le Fever até o corneço das campanhas do tio
Thfr'h.Ñ..h.. Iede,iPl*v
*b
Toby,- mal cheguei a afastar- me urna jarda do caminho.
-
A.4. *.r,4. ..d ..&...-l. I.

.eI.._ t -1, ... r'.-Ii pu


I

I.... .t.h.. h. t.hth


continuar a corrigir-me nesse passo, nao é impossivel
Se eu

(c
-coma benévola permissâo dos demônios de sua graça de Benevento
que eu possa chegar doravante à perfeiçao de prosseguir assirn:

ß .h.d. M i)..
. .4... t ..h
*.hh.4..tM.Mk .4 I

.h L.4 D.i. 4 M.
th, 1r.-t l'al. .4
.ab..
C.4.
M.l
il'.

.M,ô 1.4
.4
ih. .I',J-, 'i

.. t.. ....k4
M' D-M
M t.. .. - k
oque é a linha mais reta que pude traçar corn o auxilio de urna régua
l.'a l.J..d tI.. h... o(
h. t..Itt. .4 IU. ..d. b., t....4
- M,.. de mestre de caligrafla (que tornei emprestada para tal firn), scm
Ll .t 1h. ki.., A U D....h,y iI M,.
MI '..b... I t.,b.. bitt.. II$--4-
I. tbk
dk JMWt' *aitdi.u, t curvas nem para a direita nem para a esquerda.
4
M-b
4. D...4 k1..

-a
..4
If I
I....
.áu IM. .,.
.4 M,
It t. .
.4 P....,.. .kbi.-M.
Ib.
L

-
Esta linha reta senda por que os cristAos devem seguir! dizem
*I'a os teólogos
-
.
I..

-O emblema da retidão moral! diz Cícero


il..(M4r,5h.
tl-....,t
I ...I
tjI..
M,.ftI'
-A meihor linha! dizem os plantadores de couve -é a mais
Th. .ak.-ih. í. Ch..M...t,

-Th curia, diz Arquimedes, que possa ser traçada de um a outro ponto
Hj
dado.

7. The life and opinions of Tristram Shandy, gentleman, in Works (Londres,


Antes de comentar esta passagem, vale a pena esclarecer a
1770), volume h.p. 117.
menção irónica ao sexto volume, ao longo do qual "mal cheguei a
afastar-me urna jarda do carninho". O volume inclui, entre outras
Por cia se evidencia que, exceto na curva assinalada A, onde dei um coisas, urna digressäo provocada por urna discussão entre o sr. e a
pulo até Navarra, -e
na curva denteada B, que corresponde ao sra. Shandy sobre os calçöes do fliho, que ocupa todo o capítulo 19.
breve passeio ao ar livre em que acompanhei a Dama Baussière e seu
pajem,- nao fiz nenhuma cabriola digressiva, até os demônios de
A discussâo começa assim:

-
Joâo de la Casse me compeirem à volta que vedes assinalada corn
um D pois quanto aos ccc são apenas parénteses, e os costu- cc1
Depois de ter debatido o problema dos calçoes corn minha mae,
meu pai consultou Albertus Rubenius a respeito; e Albertus Rube-

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mus tratou meu pai, na consulta, dez vezes pior (se possível) do que romance se apresenta a nôs como um género caracterizado pela
meu pai tratara minha mae. Pois, tendo Rubenius escrito um reflexäo sobre si mesmo, e Dorn Quixote nos parece ser o primeiro
volume in-quarto exp ressa mente sobre o assunto, De re Vestia ria romance moderno. Chldóvski, que de resto nao se interessava pela

pai.
-
Veterum, cumpria ao dito Rubenius ter dado algumas luzes a meu

-
Pelo contrário, poderia antes ter este pensado em extrair as
pergunta sobre «como Tristram Shandy se tornou possível", nao
deixou de citar Cervantes. Nisso, nao fazia mais que retomar o pró-
sete virtudes cardinais de urna barba comprida do que extrair de prio Sterne, que, corn sua voz inconfundível, irônica e terna, evo-
Rubenius urna palavra que fosse sobre o problema.
Acerca de todos os demais artigas do vestuário antigo, Rubenius
mostrou-se muito comunicativo para corn meu pai; deu-ihe urna
cara corn muita segurança seus prOprios antepassados literários:
-
"Pela tumba de Luciano, se é que eta existe se nao, pelas suas cm-
zas! pelas cinzas do meu querido Rabelais e do meu queridíssirno
explicação completa e satisfatória acerca de Cervantes..
A Toga ou veste frouxa.
Algumas das características mais evidentes e mais desconcer-
ACl4mide. tantes das páginas citadas mais acima podem ser vistas como den-
O Efod.
vaçoes de Rabelais (o uso irônico da erudiçäo) e de Cervantes (a
A Túnica, ou Casaco...' E, certamente, tanto Rabe-
presença intrusa da voz do
narrador).4

lais como Cervantes teriam sido inconcebíveis sern a redescoberta


A lista segue adiante por duas páginas: esgotada a questao dos
de Luciano de Samósata por obra de Erasmo e Thomas More, no
calçöes, passa-se à dos sapatos. inicio do século xvi. Mas nem Rabelais nem Cervantes (nem se-
Os leitores que leram essas páginas em 1761 viram-se diante
quer Luciano) podem ser invocados como predecessores daquela
de urna coisa estranhíssima, que transgredia alegremente boa
que é a característica mais clamorosa de Tristram Shandy : a ausén-
parte das expectativas ligadas à leitura de um romance e talvez de
qualquer livro. Mesmo boje, Tristram Shandy continua a parecer
estranho. Será mesmo um romance? E como Tristram Shandy se
tirada de PlInio, o Jovem (y. 6) -
cia de urna trama propriamente dita.A epigrafe do sétimo volume,
"Pois esta é a própria obra, nao

tornou possível?
urna digressao dela" -, pode ser estendida ao romance inteiro.
Sterne partilhava corn Hogarth a idéia de que beleza significa
variedade, e que a linha que representa a beleza é a linha serpen-
teante. Sem a menor hesitaçâo, Sterne tenia subscrito a frase atri-
buIda a William Kent, o inventor do jardim à inglesa: "A natureza
Em 1917, ao final do ensaio "A paródia no romance: Tristram tern horror à linha reta' Tristrarn Shandy é um romance feito de
digressoes Voltemos à questäo: como Tristram
irnprevisíveis.6

Shandy' integrante do volume Urna teoria da prosa, Viktor


Chklóvski declarou sem mejas palavras: "Tristrarn Shandy é o Shandyse tornou possível?
romance mais ti pico da literatura Hoje em dia, essa afir-
mundial'2

maçao soa menos insolente que há oitenta e poucos anos. O

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69
3 nem urna verdadeira moral, nem um auténtico dominio da espé-
cje hurnana sobre a ureza''°
"o Ensaio sobre o entendimento humano de Locke' escreveu Nao é claro a quem, e em quai medida, se deve atribuir esse
Graham Petrie, ecoando o que foi por muito tempo urna opiniào discurso sobre a filosofia de Locke: a Sterne, a Suard ou a Garat." O
bem aceita pelos críticos, "formulou urna série de teorias sobre a testemunho é tao indireto que mal parece confiável: muita coisa
sucessão das idéias que tiveram profunda influência sobre Sterne acontecera, na França corno na Europa, desde aquele i 764 em que
e constituem a base da estrutura aparentemente arbitrária de Tris- tenia ocorndo a conversa entre Sterne e Suard. Na atmosfera poli-
tram Shandy.'" Essa opiniao fundamenta-se, ao que parece, sobre tica da Restauraçäo, devia ser forte a tentaçäo de apresentar Locke
urna passagern em que o narrador apresenta a associaçäo, descrita como urn ifiósofo piedoso e prudente -o contrário dos phi loso-
no inicio do romance, entre dar corda em um relógio e ter urna phes.A voz deYorick, o alter ego literário de Sterne, soa menos reve-
relação sexual como um exemplo daquelas "estranhas combina- rente:
çôes de idéias" que "o atilado Locke, o quai decerto compreendia,
meihor do que muita gente, a natureza dessas coisas, afirma ter E...]engenho e juizo nunca andam juntos neste mundo, visto
produzido mais açoes errôneas do que todas as dernais fontes de
danos conhecidas' Mas dai a vincular toda a estrutura do e oeste. - -
serem duas operaçöes muito diferentes entre si, tanto quanto leste
Assim é, diz Locke assim também são peidar e solu-
romance à influéncia do pensamento de Locke há urna bela dife- çar, digo
eu.'2

renca.
Urna visäo bem mais enfática sobre a importância que Locke Em um livro dedicado à retórica filosófica de Sterne, J. Trau-
tena tido na formaçao de Sterne emerge das memórias publicadas gott dedara que o Ensaio sobre o entendimento humano de Locke
em i 82 1 pelo escritor e politico francés Dominique-Joseph Garat. foi a "causa formal de Tristram Shand Mas o mesmo Traugott
Durante urna conversa em Paris, mejo século antes, Jean-Baptiste- acaba por admitir que "as digressôes de Sterne (e em seu livro nao
Antoine Suard, tradutor francés de Hume, tena pedido a Sterne há senäo digressoes), por mais que sejarn o resultado de alguma
que the revelasse o segredo de sua prOpria originalidade. Sterne te- associaçao de idéias -e
nao podia ser de outra maneira, urna vez
ria mencionado trés coisas: 1) a irnaginaçäo e a sensibilidade de
que conectar idéias significa associá-las -, são multo diferentes
que era dotado; 2) a leitura cotidiana da BIblia; 3) o «estudo pro- das associaçöes de idéias em Locke' E o mesmo autor atribui a
longado de Locke, iniciado na juventude e prolongado por toda a Sterne um desenvolvimento das idéias de Locke em direçäo cé-
vida' Quern estiver familiarizado corn o pensarnento de Locke, Mas, se o Ensaio sobre o entendimento humano de Locke é,
tica.'3

tena dito Sterne a Suard, saberá reconhecer sua inspiraçao "em creio eu, urna pista falsa, quai direçao deveríamos tornar a firn de
cada página, em cada linha, em cada A filosofia de Locke,
paJavra".9

retraçar nao propriamente a "causa forma1' mas o desafio contra


tena acrescentado Sterne, era urna "filosofia religiosa demais para o qual se cristalizou o projeto de Sterne?
ousar explicar o milagre das sensaçöes E...filosofia sagrada, sem a
I

qual nao seniam possíveis nem urna verdadeira religiâo universal,

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4

Creio que a resposta seja muito simples. Conforme tentarei .


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demonstrar, Tristram Shandyé a resposta romanceada a urna série
de possibiidades abertas seja no plano do conteúdo, seja no
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plano da forma pelo Dicionário histórico e crítico [Dictionnaire I .

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historique et critique] de Pierre Bayle. A conexäo entre Sterne e


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Bayle nAo é urna novidade. Algum tempo atrás, em um ensaio lito- .-
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vador (mesmo que substancialmente ignorado), F. Doherty per- -


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guntou-se como Sterne tena reagido à traduçäo inglesa do Dido- 0 -


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nário de Bayle, que tomou emprestada à Minster Library em 1752


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e conservou consigo por dez meses. Eis a resposta: Sterne =- .

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percebeu e apreciou as possibilidades cômicas abertas pelo uso de -


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citaçôes chulas ou obscenas tiradas do Dicionário de Bayle a fim de


- I dfr
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complicar as narrativas de Tristrarn Shandy, contemplou a vasta
obra de Bayle como um monumento grandioso aos absurdos
r
t--:
humanos, e viu no desfile de erudiçào um digno paralelo da Anato- =:=.::: V.
;
mia da melancolia de Burton. E, sobretudo [concluiu Doherty),
urna vez que o sr. Shandy é justamente o tipo de homem que Tris-
tram tende a associar a esse gênero de erudiçäo excéntrica e ponde-
rosa, Sterne se diverte em usar Bayle contra o "meu
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pai".'4

- - -- . - - =. - - - . fr V-. V.

Deixemos de lado este último ponto: é daro que a perspectiva


do narrador nAo coincide necessariamente corn a de Sterne.
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Quanto aos demais, direi apenas que as conclusöes de Doherty -'.z.::hz


-t --
E
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referem-se só ao conteúdo do romance, cuja dimensão formal ele Lfr:.r - c__ -
.;fr._._
_. .*. nt

deixa totalmente de lado. Ao contrário, you me ocupar somente


desta última. Examinarei três pontos: a) as digressoes; b) as obsce- 8. Página do Dicionário de Bayle.

nidades; c) o modo de tratar o tempo.

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!i1iiIpi11inIiIu!Ir
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E
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il
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5 tada, inspirada no Talmud, e o Digesto anotado, ou seja, a grande I,

coletânea de leis romanas ordenada por Justiniano (figs. 8, 9 e 1O)2


A paixao de Bayle pelas digressoes é bem conhecida. Em seus Mas as analogias entre a apresentaçâo tipográfica dessas
Pensamentos diversos sobre o cometa [Pensées diverses sur la comè- obras são, feitas as contas, enganosas. Na Biblia, no Talmud e no
tel, ele confessou corn orguiho: Digesto a relação entre texto
e comentários é centrípeta, magneti-
zada pelo texto. No Diciondrio de Bayle a relação entre texto e notas
Nao sei meditar ordenadamente sobre urna coisa: passo de urna a é centrífuga. O próprio Des Maizeaux, em sua reverente biografia
outra corn facilidade; multas vezes desvio de meu assunto; salto de Bayle, reconheceu que,"em alguns casos, o texto parece comple-
para onde mal se adivinha um caminho, e sou muito inclinado a tarnente subordinado às notas' Essa subordinaçäo era ditada
fazes perder a paciéncia a um doutor que exija método e regulan- pela prudência, que induzia Bayle a esconder algumas de suas for-
dade em toda parte." mulaçöes mais audazes em longas notas a verbetes marginais. Mas
a hipertrofla das notas tern ainda um outro motivo: o de oferecer a

Essas indinaçöes puderam se desafogar no Dicionário histó- qualquer leitor a possibilidade de controlar Bayle no ato de contro-
rico e crítico, a obra que deu fama a Bayle em toda a Europa. O pro-
lar cada data, cada dado, cada citaçäo, tomando parte no percurso

jeto original de Bayle tinha urn ar aparentemente modesto: elencar retrógrado (e oblIquo) de Bayle rumo às fontes da verdade ou do
erro. Nao obstante, é sempre Bayle que conduz o jogo, um déspota
urna série de inexatidòes em obras enciclopédicas compiladas por
terceiros, a começar pela de Moréri. Anos de trabaiho incessante e que ignora todo limite e toda regra. Um verbete do Dicionário
solitário produziram (na edição que consultei, publicada na Basi- pode se alongar por dezoito páginas in-fólio (como aquele sobre
léia em i 74 1 ) quatro volumes in-fólio, em um total de 3269 pági- Spinoza) ou ter apenas urnas poucas linhas. Quem vagar pela fo-
resta de notas de Bayle pode encontrar de tudo: pode, por exemplo,
nas, em sua maioria impressas em caracteres diminutos ou dimi-
dar corn um exame da cosmologia cartesiana no verbete "Ovídio'
nutíssimos.
ou corn urna discussão sobre a possibiidade de viver virtuosa-
A fisionomia de cada página do Dicion4rio era modelada
pela mente sem nenhuma crença na Providência divina no verbete
de
paixäo Bayle pela verdade, começar pela verdade factual.Ib O
a
"Sornmona-Codom' dedicado a um obscuro religioso do Sião.
texto de cada verbete do Dicionário é literalmente circundado por
O romance de Sterne goza da mesma liberdade e da mesma
um tríplice sistema de notas, designadas respectivamente por
auséncia de constriçöes que o Dicionáriode Bayle. A busca das pró-
minúsculas (a, b, c...) para as notas ao texto principal; por rnaiús-
prias origens empreendida por um sujeito de nome Tristrarn
culas (A, B, C...) para os comentánios mais longos; e por números
Shandy procede de forma retrógrada e obliqua, segundo um mo-
( 1, 2, 3...) para as notas às notas; em alguns casos, a bem da dareza, delo que transpöe para o plano da ficçao romanesca o percurso er-
acrescentavam-se sinais tipográficos como asteriscos ou cruzes. rabundo da investigação erudita de Os diagramas de Ster-
Bayle.'9

Essa apresentaçao tipográfica retomava, aperfeiçoando-os, dois ne são urna homenagem brincalhona ao Dicionário de Bayle. O
modelos antigos, prestigiosos e talvez interligados: a Bíblia ano- duplo sistema de notas (A, c) evoca o tríplice sistema de Bayle

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(fig. 7). No comentário que Sterne faz sobre seu proprio diagrama, discussão sobre a suposta lasci via da comédia precedente do
«
Doherty descobriu urna alusäo oculta ao Dicionárw: [...] nao fiz mesmo Molière, A escola de mulheres, diz urna das précieusec.
nenhuma cabriola digressiva, até os demônios de Joäo de la Casse
me compelirem à volta que vedes assmalada corn um D [...]' - Essas obscenidades todas, o céu que me perdoe, aparecem às da-
ras na comédia. Nern sequer urn véu transparente as cobre, e o olho
teo, escrevera na juventude -
Giovanni della Casa, arcebispo de Benevento, autor do Gala-
como recordou Bayle no verbete mais impudente se horroriza diante da nudez [...] Basta citar a cena
deAgnes,quandodizquelhetiraraina... Basta! [...J Umafrasecomo
dente -
dedicado a ele, em tom de escándalo que deixa entrever o riso evi-
um Capitolo dei forno [Capítulo sobre oforno] , no qual a de Agnes nao ultraja o pudor?
Urna outra précieuse retruca assim:
admitia ter praticado algumas vezes a sodomia.2°

- Nao, de modo algum. Ela nao diz urna única palavra que nao
seja em si mesma decente; e se a senhora quiser entender outra
coisa, é a senhora, nao ela, que se suja, urna vez que cia fala apenas
de urna fita que ihe tomaram.

E corn isso chegainos ao segundo ponto: as obscenidades de


-Ah, urna fita,poisbem; mas aquele a... em que elase detém nao
está alipor acaso.Aquele a... suscita pensamentos estranhos.Aquele
Bayle. Doherty merece o reconhecimento dos leitores de Tristram
a... faz um escándalo furioso; e, diga o que clisser, a senhora nao tern
Shandypor haver deciftado a alusäo criptica de Sterne. Mas o tema
como defender a inocéncia daquele a... (...j ele é de urna obsceni-
das obscenidades tern implicaçoes bern mais importantes, pois se
dade intolerável...23

liga nao ao conteúdo desta ou daquela passagem, mas à propria


construçäo do romance.
Bayle cornentou esse diálogo duas vezes, em rápida sucessao. Em
Muitos verbetes do Dicionário de Bayle incluem longas cita-
urna nota, escreveu: "Devo ressaltar que, naquela parte da comédia
çoes, multas vezes divertidíssirnas, geralmente em latim, de con- de Molière, os espectadores e os leitores esperam que Agnes diga
teúdo obsceno. Nelas, Elisabeth Labrousse quis ver, corn ou sem
que ihe tiraram a virgindade, o que suscita idéias intoleravelmente
razâo, indicios de urna atitude puritana diante do O queme
sexo.2'

obscenas".
interessa aqui é a longa explicaçao de Bayle (que ocupa mais de Todavia, continua Bayle, agora no prOprio texto, «essa passa-
vinte páginas na traduçao inglesa in-fOlio lida por Sterne) sobre
gem, apesar de ousada, seria decente e honesta segundo o seguinte
"Se ha obscenidades nesta obra, elas são de tal natureza que nao
principio: todas as imagens que conspurcarn a imaginaçào deno-
podern corn boa razâo ser censuradas' Aqueles que afirmavam tando um objeto impudico, devem ser
banidas".24

que urn escritor deveria abster-se de palavras torpes ou de expres- ApOs haver desenvolvido as implicaçoes desse principio até o
söes lascivas, Bayle replicou corn urna argumentação paradoxal, absurdo, Bayle conclui em torn triunfante que nao há nenhuma
baseada na Crítica da Escola de muiheres [Critique de l'École des diferença entre as expressôes mais obscenas e as mais pudicas: nido
femmes] de Molière. Nessa peça, um grupo deprécieusesinicia urna depende das reaçöes do leitor (ou do ouvinte). Sterne valeu-se

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-Tri! me-trU ese ritea..y sicir Bndgrt. coStoro-
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-uhr e-imponl wT can euh thc bottom of Pr:
)Fr90_lheth(n op&d tir: hrart urd totd bort ail.
CHAP. XXX.

nocleTnbyattdtht eororilhidgnørcoit.
.i_vI paraelywthttcu peri!ucosthecoteIpsit

i i The life and opinions


- ofTristram Shandy, gentleman, in Works (Londres, 12.The life and opinions ofTristram Shandy, gentleman, in Works (Londres,
1770), volutnell,p. 114. 1770),Ïolurne iI,p. 266.

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dessa idéia das maneiras mais diversas: da página em branco em quarto volume -e apenas ao meu primeiro dia de vida- fica claro
que se pede ao leitor de Tristram Shandy que imagine as formas que tenho, sobre que escrever, trezentos e sessenta e quatro dias mais

-
sedutoras da viúva Wadman ("Sentai-vos, senhor, e pintai-a como
quiserdes tao parecida quanto puderdes corn a vossa amante-
-
do que tinha quando principiei a escrever; assim, em vez de avançar
na minha tarefa, como os escritores comuns, à medida que you

-
tao diferente de vossa esposa quanto a consciencia vos permitir
para mirn dá tudo na mesma cuidai tao-sO de deleitar vossa fan-
escrevendo este volume, eu, ao contrário, se forem tao afanosos
quanto este todos os dias de minha vida, estou outros tantos volu-
-
tasia») à fileira de asteriscos que conclui a corte do cabo Trim à -E
senhorita Bridget (figs. 11 e 12).26
mes em atraso.
girem, uns e outros, igual descriçäo.
-
por que nao? se os sucessos e as opiniöes cxi-
Por que razao deveriam ser
Nesses casos, como em muitos outros, vemos operar um abreviados. E como, neste passo, viverci 365 vezes mais depressa do
princIpio gera!, formulado, em tom diverso, em uni dos sermöes
deYoricic
quanto mais escrevo, mais terei de escrever -
que escrevo, segue-se, se vossas senhorias me permitem dizé-lo, que
e, por conseguinte,

quanto mais vossas senhorias lerem, mais vossas senhorias terâo de


Imagine-se o esboço de urna histOria; permita-se que o mau humor 1er."
ou o pudor tomem do lápis e eles a retocarão corn traços tao duros e
cores tao sujas que a candura e a cortesia hâo de se retorcer ao con-
templá-Ia.27
Essa página extraordinâria - urna " reductio ad absurdum da
forma romanesca como tal", como a definiu Ian Watt's transpöe
o célebre argumento sobre Aquiles e a tartaruga para as relaçoes
A participaçäo ativa do leitor na produçào do texto contraba-
entre narrador e leitor. O segundo Aristóteles,
lança o capricho despótico de um narrador que nao conhece
argumentos

remonta a Zenao de Eléia, a quem Bayle dedicou um dos verbetes


freios.
mais densos, do ponto de vista filosófico, de todo o Dicionário. E
mesmo a anedota, que Bayle, ao fim do verbete "Zenäo' rej cita

7
corn um único gesto -
como apócrifa, segundo a qua! o cinico Diógenes tena reftitado
começando a caminhar os argumentos -
As relaçôes entre narrador e leitor estäo no centro daquela sutis que negavam o movimento, pode ter inspirado o famoso cpi-
sOdio do cabo Trim, que exclama: "Enquanto o homem é livre [...]
que é talvez a característica mais discutida de Tristram Shandy: o
modo como Sterne trata o A distância entre o tempo
tempo!9
fazendo um floreio corn o seu bastao", seguido do comentário:
vivido pelo leitor e o tempo ficticio encenado pelo narrador cul- "Um milhar dos silogismos mais sutis de meu pai nao poderia ter
mina em urna passagem muitas vezes citada: dito mais em prol do celibato" (fig. 13).32
As implicaçoes do argumento de Zenäo e as dificuldades que
Este ms estou um ano inteiro mais veiho do que à mesma data doze este suscita são ampiamente discutidas na nota F, que (como Bayle
meses atrás; e tendo chegado, como vedes, quase à metade do meu fez notar) pode ser lida como suplemento a um outro verbete do

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Dicionário, dedicado a Pirro. Mas, antes de citar um trecho, gosta-
ria de me permitir também urna digressao.

C '4
)
8
a manfrTC-Cri4d the corporJ!,
k I
oiir-ili with hi Uck

"Nos estudos mais recentes' comentou Ian Watt alguns anos


atrás, "encontramos muitos elementos a favor da interpretaçäo
que vé no Tristrarn Shandya maior expressäo literária de um movi-
mento cujo máximo representante filosófico foi David Hume."3
Até onde sei, ninguém jamais sugeriu que a obra de Hume tenha
exercido influéncia direta sobre Sterne antes do encontro entre os

. dois, que se deu em Paris, em 1764. As analogias entre Hume e


Sterne explicam-se, penso eu, de maneira diversa: como respostas
independentes, mas em parte semelhantes, a um estímulo intelec-
tuai comum, o Dicionáriode Bayle.
o encontro do jovem Hume corn a obra de Bayle na "grande
via ramo ao pirronismo", como reza o título de uma coletânea de
A thcmtand nf m'y firb& moft fubde fylloi(mi ensaios reunidos por Richard Popkin, é hoje considerado um
cuud cot ha laid mare ír
reflbacy. acontecimento decisivo na história do pensamento europeu.
My unc'e Toby Iooke,I eamcft!y towar! liii cot-
tag. acd bi6 bowinggtren.
Thecorpori1 had unwarily ctanurrd up the fpirit of
Cinqüenta anos atrás, em um livro pioneiro, Norman Kemp Smith
t.lcuhiion with hit wand; and he had noihing to do, examinou de que maneira Bayle contribuiu para a elaboraçäo das
hut i onjure him dawn ag.in with his ftory, anti ¡n
this bem of exorcilrn naalt onecekfiaticaily did thc idéias de Hume sobre o espaço e o tempo, sobretudo por meio do
corporal doit.
verbete do Dicionário dedicado a Zenâo de Eléia.'5 Mas o verbete
C H A P. V.
dedicado a Pirro, em sua nota B, lança ainda mais luz sobre a lei-
Tern's placr, an' plcifc your honour, was
As -ar.i weather warm-t
the
himfdl the
pitt him upon
tura de Bayle por parte de Hume.
iltinking of
lerioufly fettling ¡n world ; and Recorrendo a um expediente literário que the era particular-
as it (cH out about tiust Lune, that i Jrw, who kept a
fsufagc mente caro, Bayle pôs em cena um diálogo ficticio entre

dois abades, urn dos quais ignorante, ao passo que o outro era um
13. The Iilè and opinions ofTtistram Shandy,gentleman, in Works hábil filósofo. [...] O primeiro observara, superficialmente, que
(Londres, 1770), volumelLp. 234.
podia perdoar aos filósofos pagäos que oscilassem na incerteza de

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suas opiniOes, mas nao conseguia entender como podiam existir que a obrigaçäo inerente às promessas é urna invençäo no interesse
céticos em urna era iluminada pela luz do Evangetho. O outro repli- da sociedade, ela assume novas formas à medida que esse interesse
cou: Engana-se ao raciocinar assirn. Se Arcesilau voltasse ao mundo o exige, e chega mesmo a incorrer em contradiçoes diretas para näo
e lutasse corn os nossos teólogos, seria mil vezes mais temível do que perder de vista o seu fito.
foi para os filósofos dogmáticos da Grécia amiga: a teologia crista o
incitaria a argumentaçoes irreftitáveis! No caso dos sacramentos católicos, explica Hume, a ausência
de uni firn social permite que operem segundo urna mera lógica
À primeira vista, o significado da passagem é daro. Ao assina- interna:
lar a debilidade da teologia crista diante dos argumentos da filoso-
fia cética, Bayle sublinha a incapaddade da razo humana de pene- Mas como aquelas doutrinas monstruosas são apenas invençôes de
trar os mistérios da fé.31 Mas a passagem também pode ser lida de padres e nao se voltam verdadeirarnente para o interesse público,
outra maneira: a teologia crista, alimentando a tradiçao cética seu desenvolvimento é menos perturbado por obstáculos novos, e é
grega e romana, tornou-a muito mais profunda e radical. Um preciso reconhecer que, dado o absurdo de partida, seguem em
argumento análogo, salvo engafo, é formulado indiretamente por linha reta o curso da razào e do born senso. Os teólogos sabem muito
Hume na seçao do Tratado da natureza humana dedicada ao dever bem que a forma externa das palavras, como mero som, precisa de
moral: alguma intençao para ter alguma eficácia."

Observarei ainda que, como toda nova promessa impôe um novo Assim, a teologia crista é vista como o terreno ideal para
dever moral à pessoa que promete, e como esse novo dever deriva de experimentos mentais. Era essa a posiçäo de Bayle, como mostra
sua vontade, essa é urna das operaçôes mais misteriosas e incom- o diálogo já citado entre os dois abades. O abade de boa formaçao

preensiveis que se podem imaginar, em tudo comparável à tran- filosófica demonstrava scm dificuldade que os mistérios da reh-
subs ranciaçao e à ordena çäo, pela quai urna certa fórmula verbal,
acompanhada de urna certa intençäo, transforma por inteiro a na- çäo ou da Trindade
dos céticos:
-
giao crista -por exemplo, a doutrina católica da transubstancia-
eram mwto mais vuineráveis aos ataques
tureza de um objeto externo e até mesmo de urn ser humano.

Hume logo assinala os limites da comparaçäo, por si só bas- É evidente que duas coisas que nao diferem de urna terceira nao
tante surpreendente. Nao quer sugerir que os deveres morals e os diferern umada outra: éesseo fundamento detodos os nossos argu-
sacramentos católicos tenham urna origem comum, ao contrário: mentos; é o que fundamenta os nossos silogismos; todavia,sabemos
corn certeza, graças à revelaçäo do mistério da Trindade, que esse
Contudo, por semeihantes que pareçam ser, é de notar que diferem axioma é falso [...] . E evidente que nao há diferença entre indivIduo,
largamente em outros aspectos, e que se pode considerar essa dife- natureza epessoa contudo, o mistério mencionado nos convence de
rença corno urna sólida prova da diferença de suas origens. Urna vez que as pessoas podern ser multiplicadas scm que os individuos e as

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naturezas cessem de ser unos. Ê evidente que um corpo
[... I
Sligmac e onde estou sentado a compor rapsÓdias sobre todas estas
humano náo pode estar em vários lugares simultaneamente, e que
sua cabeça nao pode ser penetrada, assim como todas as suas outras -
questöes.
Permiti que eu me refaça [let me collect myself] e continue
partes, por um ponto indivisivel; nâo obstante, o mistério da Euca- minha viagem.4°

ristia nos ensina que essas duas coisas acontecem todo dia: donde
segue que nem eu nem o leitor podemos saber corn certeza se somos Vem à mente a famosa definiçäo do eu em Hume: "Nao somos
distintos dos outros homens e se neste momento nAo estamos no mais que feixes ou coleçöes [ collections] de diferentes percepçöes
serraiho de Constantinopla, no Canadá, no lapao, em qualquer que se sucedem corn rapidez inconcebível, em perpétuo fluxo e
cidade do mundo, em várias condiçoes em cada um desses lugares.39
movimento"4' Mas Hume nao respondia também a Bayle? Os
paradoxos de Bayle baseados na definiçäo de pessoa no dogma da
Trindade podem ter desempenhado funçao importante no desen-
9 volvirnento da critica que Hume formula à noçäo de identidade
pessoal. Talvez mesmo a famosa afirmaçáo de Hume, para quem
Voltemos ao Tri stram Shandy. Em urna reflexâo espantosa, "todas as questôes sutis e delicadas a propósito da identidade pes-
Sterne transpoe para termos romanescos mais urna vez o soal jamais poderao ser resolvidas, e devem ser consideradas mais
experi-
mento mental baseado na Trindade: como dificuldades gramaticais do que como filosóficas",42 ecoe o
modo como Bayle falara de alguns dogmas cristãos fundamentais.
O debate sobre a relação entre a natureza humana e a natureza
1... pois desde o capitulo anterior, pelo menos na medida em que
1

me ajudou a atravessar Auxerre, empreendo duas diferentes divina de Cristo, encerrado pelo Concilio de Efeso em 43 1 , é mera
ao mesmo tempo e corn o mesmo
traço de pena- viagens
visto que sal
questäo verbal, declarou Bayle no verbete "Nestório" do Diciond-
rio. Cirilo, que condenou Nestório como herege por haver negado
inteiramente de Awcerre nesta viagem acerca da qual ora escrevo, e
a chamada "uniäo hipostática" das duas naturezas na pessoa de
ainda estou em vias de deixá-la na outra
crever. - viagem que passarei a des-
Em todas as coisas, só se consegue um certo grau de per-
Cristo, poderia ter poupado à Igreja um born punhado de dissabo-
res, continua Bayle: bastaria que "tivessem começado por oferecer
feiçäo, e corn tentar ir além dele, eu me meti numa situaçäo que
reciprocamente urna definiçäo adequada das palavras de que se
nenhum outro viajante teve de enfrentar antes de mini, pois neste
serviam".43
momento estou atravessando a p& em companhia de men pai e de
Percebe-se um eco desse lamento em urna outra passagem do
meu tio Toby, a praça do mercado de Auxerre, de volta à
hospedaria romance de Sterne:
para jantar- e, no mesmo momento, estou entrando em Lyon corn
-
minha carruagem de posta desfeita em mil pedaços e, ademais,
t...que de tumultos e balbúrdias em CONCIUOS acerca de oi'ota e
j

encontro-me neste momento num belo pavilhao construido por tóatctotç; e nas ascoLcs dos doutos, acerca do poder e acerca do
Pringello às margens do Garona, que me foi emprestado por Mons. espirito, acerca de esséncias e quintesséncias, acerca de substAncias

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e de espaço. Quanta confusão, em majores TEATROS, a propósito de
palavras de pouco significado e de sentido indeterminado. - 4. Tusitala e seu leitor polonês

Quando consideras isso, nao estranharás as perplexidades do meu


tio Toby; derramarás urna lágrima piedosa sobre sua escarpa e con-
tra-escarpa, seu glaciz e seu caminho coberto, seu ravelim e sua
meia-lua. Nao por idéias, oh céus!, mas por palavras é que sua vida
era posta em perigo.«

Mas o narrador sabe muito bem que o uso de termos mais


simples nao basta para esclarecer a intricada relaçao entre as pala-
vras e a realidade. Mesmo perguntas inocentes podem se tornar
sumamente problemáticas, como mostra o estupendo diálogo
entre o agente do correio francés e Tristram:

- Meu born amigo - eu-,


disse tao seguro quanto estou de eu ser

- - -
eu mesmo, e vós vós mesmo...
-E quem sois? perguntou ele. Robert Louis Stevenson começou a usar o pseudônimo de
Nao me confundais respondi-1he.' Tusitala, que na lingua das ilhas Samoa significa"aquele que conta
histórias' na primavera de 1892.' Poucos meses antes, um de seus
Esta última frase, como já se observou, tern um sabor decidi- contos,"O demônio da garrafa" ["The bottle imp"] tinha saldo no
eP
damente humiano. Mas me pergunto se o embaraço de Tristram suplemento dominical do New Yorkfferaldentre 8 de fevereiro
nao esconde, por sua vez, uma alusäo a urna outra resposta, de março de 89 , além de ser traduzido para o samoano repro-
1 1
e

refreada, à pergunta do agente do correio: urna resposta que repli- duzido na revista missionária O Le Sulu Samoa [A Tocha de
caria a tautologia precedente («tAo seguro quanto estou de eu ser Samoa]. Stevenson trabaihara na traduçao (seu primeiro texto
publicado em samoano) corn um missionärio local,A. E.
Claxton.2

eu mesmo") corn um "eu sou quern sou'


Nao tenho como provar essa hipotética alusâo ao Exodo, 3:14 Em dezembro de 1892, Stevenson escreveu a seu editor, Sid-
"O
(«Eu sou aqueJe que é"); pouco importa. Oque espero ter provado ney Colvin, a quem era ligado por urna antiga amizade, que
é que Bayle e suas preocupaçòes teológicas lançam alguma luz demônio da garrafa" era a peça mais importante da coletânea
tanto sobre a personalidade particularmente cindida que diz "eu" Seröes das lihas [ Island nights' entertainments] , então em vias de ser
Steven-
lançada. Um ano mais tarde, em urna outra carta Colvin,
no Tristram Shandy como sobre a própria estrutura do romance. a
son voltou a comentar o relato: "Você sempre imaginou que eu
menosprezasse 'O demômo da garrafa'; nao consigo entender por

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quê; sempre me agradou de maneira especial -é
urna das meiho- recompra a garrafa, volta para casa e esposa Kokua. Mas tern o
res coisas que fiz, difícil de coraçao partido, pois sabe que rnorrerá condenado ao inferno.
igualar'3

Para compreender meihor as razòes de urna opinião tao Kokua, ao contrário, está disposta a lutar:
incondicionalmente positiva da parte de Stevenson, é preciso inse-
rir "O dernônio da garrafa" em um contexto mais ampio. - Que história é essa de cents? Mas nem todo mundo é americano.

-
Na Inglaterra, eles tém urna moeda que charnam de farthing, que
vale mais ou menos metade de um cent. Oh, céus exclama da-,
isso nao methora muito as coisas, pois o comprador se condenará, e
nao encontraremos ninguém tao corajoso quanto meu Keawe!
Em primeiro lugar, a trama. Keawe, um jovem marinheiro nas- Mas resta a França: la eles tém urna moedinha que charnam de cen-
cido nas ilhas do Havai, caminha pelas ruas de San Francisco. A certa time, e cinco dessas fazem um cent, ou algo assim. Nao podia ser
altura, vé urna bela casa e pensa consigo que bern gostaria de ter urna meihor para nôs. Vamos, Keawe, vamos para as ilhas francesas; va-
igual. Um homem de ar triste, que descobre ser o dono da casa, mos ao Taiti tao rápido quanto os barcos possam nos levar. Lá tere-
começa a conversar corn Keawe e ihe diz possuir urna garrafa mira- mos quatro centimes, trés centimes, dois centimes, um centime mais
culosa. Em seu interior vive um demônio corn o poder de realizar quatro vendas possiveis, e dois de nOs para fechar o negocio.
qualquer desejo do proprietario da garrafa, exceto um: o de prolon-
gar a vida. A garrafa "só pode ser vendida corn prejuízo": caso con- As últimas palavras anteciparn o desenlace da trama: nao
trário, voltará infalivelmente às maos de quern houver transgredido encontrando comprador, marido e muiher enganam-se urn ao
a regra. "Quem morrer antes de vendê-la' explica o sujeito de ar outro, por meio de dois intermediários, para salvar o ente amado
triste, "deverá arder para sempre no No passado, a garrafa
inferno'4

dos castigos infernais. Mas o último intermediário, um bêbado,


custara muito caro; agora, está à venda por urna pechincha. decide ficar corn a garrafa rniraculosa: arderá no inferno, e o casal

-
Após algurna hesitaçäo, Keawe dá ao desconhecido tudo oque
tern no bolso cinqüenta dólares -e leva a garrafa. Em conse-
viverá feliz.

qüência de urna série de circunstâncias imprevistas, torna-se pro-


prietário de urna bela casa nas ilhas havaianas. Desfaz-se da gar- 3
rafa, vendendo-a a um amigo por quarenta e nove dólares, e vive
feliz por aiguni tempo. Mais tarde, conhece urna moça, Kokua, por Quando foi publicado pela primeira vez, no suplemento
quem se apaixona; gostaria de esposá-la, mas descobre que tern dominical do New York Herald,"O demônio da garrafa" vinha pre-
lepra. Para recuperar a saúde, Keawe procura reaver a garrafa. Vai cedido de urna nota:
a Honolulu, segue as pegadas das "dádivas do demOnio" e encon-
tra o último dos proprietários. Nesse meio-tempo, porém, o preço Qualquer estudioso daquele produto tao pouco literário, o drama
da garrafa despencou: custa agora dois centavos apenas. Keawe inglés do começo do século, reconhecerá aqt.0 o nome e a idéia ori-

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gina! de urna peça outrora popular pelas maos do temível O. Smith. rável do demônio: "Nao, a moeda corn que me compraste é a
A idéia original é a mesma, e permanece identica, mas espero ter menor do mundo'
feito algo de novo a partir dela. E o fato de o conto ter sido conce- O"temível O. Srnith' que, como recorda Stevenson, desempe-
bido e escrito para um público polinésio pode conferir-the algum nhava o papel do demônio, era o ator Richard John Smith, falecido
interesse adicional entre nÓs.5

em 1855.bn Quando o viu em cena, Stevenson tinha cinco anos. Se-


gundo urna descriçao contemporánea, Smith trajava "urna rnatha
Ao preparar a publicaçâo dos Serôes das ilhas, Stevenson apertada, verde-oceano, chifres na cabeça e máscara de demônio,
pediu a Sidney Colvin que suprimisse a nota introdutória, substi- asas largas, do punho à cintura, abrindo-se ou dobrando-se con-
tuindo-a por um subtítulo: "O demônio da garrafa. De um vetho forme o caso'.0 Na origem de "O demônio da garrafa" de Steven-
melodrama' Colvin suprimiu o subtítulo e manteve a A nota.6 son talvez houvesse urna recordação de infância.
nota nao consta de alguinas ediçöes recentes! Faz muito tempo 1-lá algum tempo, "aquele gênera tao pouco literário que é o
drama inglés da primeira metade do século xix" tornou-se urna
que a pesquisa erudita identificou as fontes do relato de Stevenson.
o entrecho deriva substancialmente de dois motivos do folclore provincia bern precisa da história literária. Peter Brooks investi-
germánico: de um lado, o "homúnculo da forca" (Galgenmünn- gou em um belo livro as repercussOes do melodrama francês e do
"estilo excessivo" na obra de Balzac e na de Henry James. O melo-
lein), nascido do semen de um condenado à morte; e, de outro, a
drama inglês, destinado a um público ainda mais popular, foi
garrafa mágica que sÓ pode ser vendida a preço inferior ao prece-
dente. Os dois motivos já se encontram combinados no romance igualmente capaz de gerar produtos literários refinados, como "O
dernônio da garrafa" de Stevenson. Feitas as contas, as transfor-
Trutz Simplex, de Grimmelshausen, pub!icado em 1670, no qua!
maçöes da "idéia fundamental" do conto em "algo de novo E...],
comparecia ainda o tema da busca por urna moeda de valor infe- concebido e escrito para um público polinésio' foram bastante
nor em terra estrangeiraJraças ama série de mediaçoes literá-
limitadas, até porque o entrecho original baseava-se em um
rias, o entrecho chegou à lnglaterr. O "vetho melodrama" men-
motivo muitíssimo difundido e até mesmo transcultural: o do

da garrafa -
cionador.reiisohjáföi identificado: trata-se de O demônio
Romance melodramático em dois atos The bottle imp.
E
auxiliar mágico, analisado na Morfologia do conto maraviihoso de
Propp.
A melo-dramatic romance in two actsl de R. B. Peake, encenado no Em urna nota a seu ensaio sobre as fontes de "O demônio da
Theatre Royal, English Opera House, em jutho de i 828. 0 texto foi
garrafa' Beach citou O diabo coxo Le diable boiteux] , de Cazotte,
E

publicado a partir da versâo utilizada pelos atores; a ediçâo que A pele de onagro La peau de chagrin] , de Balzac, e o genio aprisio-
E

consultei saiu dez anos Entre os pitorescos personagens


depois.9

nado das Mil e urna noites, observando que tais paralelos "nao nos
que entram em cena, há um judeu de nome Shadrack, de "chapéu levam muito Mas urna comparação corn A pele de onagro
longe'4

hebraico de aba larga e calota vermeiha, casaco e calçôes marrons, de Balzac ilumina o conto de Stevenson corn urna luz inesperada.
e mejas negras' Na última cena, o protagonista, Nicola, grita:
'
"Posso vender-te de novo, canaiha! A cortina caià resposta inexo-

94 95
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4
-
Mas nem sequer os cientistas -
um zoólogo, um fisico, um qui-
mico conseguem deter o encolhimento da pele de onagro. E
A pele de onagro foi publicado em i 83 1 . Goethe, que então urna derrota que tern um significado simbólico. A pele de onagro,
contava oitenta anos, exprimiu-se a respeito corn adrniraçâo nao escreveu Balzac ao autor católico Charles de Montalembert, "des-
despida de complacência, urna vez que Balzac claramente se inspi- contados os elementos individuais, é a fórmula da vida humana
rara no Mas na trama de A pele de onagro nao figuram
Fausto.'5

[...] nela, tudo é mito e figura [toutyest mythe etfigure]'20 À


nem o demônio nem a danaçao. Raphael de Valentin, o protago-
entrada do romance, o leitor encontra o sinai traçado no ar pelo
nista, obtém da pele de onagro poderes ilimitados, o preço que cabo Trim, o personagem de Tristram Shandy, posto ali para ressal-
deve pagar no entanto, nao é sua alma, mas sua vida. Na França, o tar tanto "as bizarras ondulaçöes do destino les ondulations bi za r-
I

Fausto de Goethe transformara-se a princIpio em pantomima e res de la destinée] "21 como o poder das forças irracionais sobre os
depois em melodrama. A reelaboraçao de um motivo fáustico por individuos e sobre a sociedade: um tema que atravessa toda a
Balzac obedece ao espirito do melodrama, género que inseria ele- Comédia humana. "Como tornar aceitável um afresco como este'
mentos sobrenaturais em um contexto ii'6 Esse contraste perguntou-se Balzac,"sem os recursos do conto árabe, sem a ajuda
entre sobrenatural e cotidiano é um dos temas principais do de titas sepultos? Na tempestade que grassou por cinqüenta anos,
romance. Quando Raphael encontra um veiho misterioso, que havia gigantes que controlavam as ondas, ocultos sob o estrato
vem a ser o proprietário da pele de onagro, o narrador comenta: mais baixo da Segundo Balzac, é preciso lançar mao
sociedade."22

"Essa visäo dava-se em Paris, no cals Voltaire, no século xix, tern- "dos recursos do conto árabe' servindo-se de "mitos" e "figuras"
Pos e lugares em que a magia deveria ser impossível"'7

corno a pele de onagro, a fim de descrever de forma adequada as


A casa de Voltaire -"onde havia expirado o deus da incredu-
forças que plasrnam a sociedade moderna.
lidade francesa"- contrasta corn o símbolo do presente: Raphael Marx e Engels eram grandes admiradores de Balzac. Paul
sente-se "agitado pelo pressentimento inexplicável de um poder
Lafargue declarou que Marx, de quem era genro, propunha-se
estranho [...j essa emoçao assemeihava-se àquela que todos nós escrever um livro sobre Balzac tao logo terminasse O capital (do
sentimos diante de Napo1eao' Mais tarde, vendo o encoihimento
qual nao chegou ao fim) Em várias ocasiöes, Marx e Engels fala-
23

mágico da pele de onagro que anuncia o encolhimento do tempo ram corn entusiasmo de Balzac e de seus dotes extraordinários de
que Ihe resta viver, Raphael grita, indignado: observaçào social. Mas Marx sentia-se igualmente atraído pelo

-
lado visionário da obra de Em urna passagem famosa do
Balzac.24

Como! F...] em um século de luzes, quando aprendemos que os dia- Dezoito Brumário "a tradiçäo de todas as geraçôes precedentes
mantes são cristais de carbono, urna época em que tudo se explica,
pesa como um pesadelo [ einAip] sobre o cérebro dos vivos"-, um
em que a policia levaria um novo Messias aos tribunais e submete- estudioso perspicaz reconheceu o eco de urna passagem do Coro-
ria seus milagres à Academia de Ciéncias, um tempo em que só acre- nel Chabertde Balzac: "o mundo social e jurídico pesava-the sobre
ditamos nas firmas dos notários, eu deveria acreditar em urna espé- o peito como um pesadelo'Y' A seçào do Capital sobre "O feti-
cje de Mané, Theke!, Pharès? Vamos ver o que dizem os cientistas.' chismo da mercadoria e seu segredo", corn sua insisténcia no lado

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scu temperamento, como era born e poderoso. Mas nunca simples
místico das mercadorias e suas "sutilezas metafísicas e fumos teo-
ou claro. Nao aceitava o tedioso, e acabou por sé-lo. Näo deixava
lógicos': assim como na importância dos elementos irracionais na
sociedade capitalista, bem poderia ser um eco indireto da pele de nada sem desdobrar, e assim se afogou sem terra à vista na miriade
de detalhes clamorosos e incongruentes. Jesus, só ha urna arte: orni-
onagro de Balzac.lb

tir! Ah, se eu soubesse omitir, nao desejaria outra sabedoria. Um


de um jornal
sujeito que soubesse omitir fana urna Ilíada a partir
diánio2'

Nas aulas de literatura francesa e inglesa que deu para um


Ê verossi mil que Stevenson nao tenha lido Marx; mas leu Bal-
em
zac. Com pouco mais de vinte anos de idade, enviou a um amigo, grupo de amigos, Giuseppe Tomasi di Larnpedusa professou,
tom semizombeteiro, urna teoria sobre escritores "gordos" e escri-
Charles Baxter, urna imitaçâo dos Contos burlescos [Contes drolati-
tores urna oposiçâo estilística que, no caso de Balzac e
"magros":3°

ques] de Balzac.17
A paródia de um escritor por outro é sempre ins-
Stevenson, tornava-se quase corporal. Balzac, corn sua irreprimí-
trutiva, como mostra o exemplo (excepcional sob vários aspectos)
vel abundância de detalhes, ajudou Stevenson a encontrar a pré-
das versöes proustianas de "L'affaire A postura ambi-
Lernoine"2

pria identidade literária, ensinando-o a "omitir' Eis aqui dois


valente de Stevenson diante de Balzac emerge em urna bell ssima
exemplos da arte da omissâo em Stevenson, tirados de"O demónio
carta, escrita em 1883 a seu primo Bob Stevenson:
da garrafa" Keawe, o protagonista, antes de vender a garrafa a seu
amigo Lopaka, declara o seguinte:
Reler Balzac, como eu tenho feito, iria ajudá-lo multo a limpar seus
olhos. Eis um homem que jamais encontrou o seu método. Um Sha-
kespeare inarticulado, sob o peso de detalhes forçosos e fracos. Para
- Mas eu mesmo estou curioso.Vamos lá, senhor Demônio, vamos
dar urna olhada nosenhor.
urna cabeça mais madura, é espantoso ver como ele é ruin-i, como é
Assim que se ouviu isso, o demônio esgueirou-se para fora da
fraco, como é falso, como é tedioso; e, é claro, quando se entregava a tìcaram
garrafa e de novo para dentro, rápido como um lagarto; e ali
Keawe e Lopaka, petrificados. A nolte desceu por inteiro antes que
La Peau de chagrin um deles arranjasse algo que dizer e a voz para dizé-lo; e entäo
Lopaka empurrou o dinheiro e pegou a garrafa.

o outro exernplo comparece poucas páginas adiante. Keawe


recebeu o dorn que pedira ao demônio da garrafa, a bela casa em
um
que mora. Está feliz; pede ao criado chinés que ihe prepare
STERpE (Tristram Shandv, ch. cccxxii
banho:
14. FrontispIcio deA pele de onagro, de H. de Balzac.

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I
Entäo o chines recebeu ordern de se levantar e acender as fornaihas; o ambiente e o entrecho são completamente diversos. A imagina-
e enquanto ele labutava embaixo, junto às caldeiras, ouviu seu çäo de Stevenson pode ter sido posta em marcha pela passagem do
patrâo cantar e festejar mais acima, nos cómodos iluminados. romance de Balzac que descreve o momento em que o velho mis-
Quando a água começou a esquentar, o chinés gritou para o paträo: terioso dá a Raphael a pele de onagro:
e Keawe dirigiu-se à sala de banhos; e o chinés o ouviu Cantar

enquanto enchia a banheira de mármore; e ouviu-o cantar e inter- Depois continuou: "Scm forçá-lo a implorar, scm the causar rubor,
e scm the dar um centime da França, um parat do Levante, um tari
romper a cançäo enquanto se despia; até que, de repente, cessou a
Cantoria. O chinés escutou e escutou: gritou para dentro da casa da Sicilia, um Heller da Alemanha, um copeque da Rússia, urn
far-
para saber de Keawe se tudo estava bem, e Keawe respondeu-the thingda Escócia, um único sestércio ou óbolo do mundo antigo,
"Sim' e disse-ihe que fosse para a Cama; mas nao houve mais canto- nem urna piastra do novo, scm the oferecer nada em prata, ouro, lin-
ria na Casa Brilhante; e por toda a noite o chinês ouviu os pés de seu gotes, papéis ou o que seja, quero torná-lo mais rico, mais poderoso
e mais reverenciado que um rei
patrao indo e vindo pelas varandas, scm repouso.
constitucional".32

As duas passagens são escritas corn grande sabedoria, ainda Esse elenco cumulativo - um procedimento caro a Balzac
mostra que o velho nao pede dinheiro, nem sequer a menor moeda
-
que um leitor meticuloso pudesse desejar urna omissâo mais: as
palavras "enquanto se despia' cujas associaçöes visuais contradi- que se possa imaginar. Mas a alusão ao Heller alernäo e ao farthing
zem a perspectiva rigorosamente auditiva que norteou a descri- escocés deve ter feito assomar à memória de Stevenson a histOria
do demônio da garrafa. O protagonista de urna das versôes, publi-
çao. Além disso, essa pequena imperfeiçäo ganha realce involuntá-
rio pela repetiçäo das mesmas palavras na frase seguinte: cada em Contos e rotnancespopulares das naçoes do Norte [Popular
talesandromancesofthenorthern nations] (1823),paga um Heller
Ora, a verdade era esta: enquanto se despia para o banho, Keawe pela garrafa, após o que "a coisa mais importante do mundo passa
a ser a procura, onde quer que seja, por urna moeda
notou em sua pele urna mancha semeihante a urna mancha de que vaiha
liquen sobre a rocha, e foi entäo que parou de cantar. Pois conhecia
menos que um Heller; por ¡sso o apelidarn de buco do mejo HeI-
bem a aparéncia da mancha, e sabia que tinha contraído o mal chi- ler'Y' Em "A mandrágora' outra versão da mesma histOria, in-
nés [alepra]!' clulda na antologia Os romancistasalemäes [ Thegerman novelists j,
Reichard, o protagonista, consegue livrar-se do demônio ven-
Nao custa muito esforço imaginar a torrente de emoçöes que, dendo a garrafa por um "miserávelfarthin(M No conto de Steven-
em um romance de Balzac, tena sido desencadeada pela apariçäo son) no quai comparecem tanto o farthing quanto os centavos, o
do demónio da garrafa e pela descoberta da lepra por parte do pro- objeto mágico deve ser trocado no interior de um circuito mofle-
tagonista. Mas para quem, como Stevenson, tendia sobretudo à tário, caracterizado pelo prejuízo, que se estende através dos
concisào, Balzac era urn desafio. Como A pele de onagro, também mares, cobrindo distâncias enormes: de San Francisco às ilhas do
"O demônio da garrafa" parte do motivo do auxiliar mágico: mas HavaI, e delas ao Taiti.

PDFUN1CA lo'
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i 1I ç_. t'ti-
P4 O tom dos dois diários é completamente diferente. O primeiro é
repleto de descriçoes líricas de paisagens, sobre as quais Mali-
"o demônio da garrafa" de Stevenson foi publicado nas ithas nowski projeta desejos sexuais, reflexöes metafísicas, sensaçöes e
Samoa em 1892. Vinte e cinco anos depois, muitos milhares de pensamentos de todo género. Ao fim da travessia iniciada em
milhas a oeste, Bronislaw Malinowski, um antropólogo nascido na Mailu, onde pela primeira vez fizera pesquisa de campo, Mali-
nowski anotou, sob a data de 4 de marco de 1914 (chegava aos
Polônia e que seguia sendo súdito austro-húngaro, mesmo vivendo
trinta anos):
havia anos na Inglaterra, empreendeu urna pesquisa de campo nas
ilhas Trobriand. Essa fase da vida de Malinowski, queviria a ter con-
Gostaria de fazer urna smntese desta viagem. A verdade é que as vi-
seqüências proftindas tanto para ele como para a disciplina que ele söes maravilhosas encheram-me de urna alegria nao criativa.
contribuiu para formar, pode seracompanhada dia a dia, a despeito
de algumas longas interrupçôes, através de um duplo filtro: seus Enquanto contemplava, tudo ecoava dentro de mim, como ao ouvir
música. Além do mais, eu estava cheio de planos para o futuro. O
diarios e a correspondência corn a noiva (e depois esposa), Elsie
mar éazul, absorvendo tudo, fundindo-se corn o céu. Em cenas
A primeira fonte suscitou muitas d.iscussôes. Os diários
Masson.3

ocasiôes, as silhuetas rosadas das montanhas surgem através do


de Malinowski, publicados em 1967 sob o título (escoihido pelo
nevoeiro, como fantasmas de realidade em mejo ao oceano azul,
organizador) de Um diário no sentido estrito do termo, nao haviam como as idéias inacabadas de alguma força criativa juvenil.'
sido escritos para ser publicados. A postura abertamente racista de
Malinowski diante dos indígenas das ilhas Trobriand foi recebida Essa é a voz de um jovem, talvez à beira da linha de sombra (a
porvários críticos corn urna mistura de constrangimento e conster- referência a Conrad é, por muitos motivos, inevitável). No se-
naçäo. Um resenhista, I. M. Lewis, observou corn pasmo que nos gundo diário, as descriçoes de paisagens são mais lacónicas; as
diários há "poucas reflexöes teóricas sobre dados ou técnicas de
anotaçöes têm muitas vezes um caráter pratico; as "idéias macaba-
pesquisa de campo E...] de tanto em tanto encontram-se observa- das" são agora postas à prova, a "força criativa juvenil" encontrou
çöes teóricas e metodológicas em forma muito condensada e elip- urna direção. Malinowski trabalha corn afinco em um projeto
tica, mas em geral trata-se de observaçoes tao crípticas que é difidil etnográfico que se cristalizou em torno de um terna: o kula. Em um
compreendê-las (e multo menos avaliá-1as)' artigo preliminar, publicado na revista Man de julho de 1920,
Quero me deter justamente sobre tais passagens crípticas. Malinowski trata o kula como urn sistema específico de trocas que
Os diários cobrem dois períodos bem distintos da pesquisa de cobria urna imensa área geográfica, definida por ele como "o ch-
campo de Malinowski: o primeiro, do início de setembro de 1914 culo do kula", e baseado em "dois tipos de objetos de grande valor
ao início de agosto de 1915, deu-se na ilha de Mailu; o segundo, do mas sem uso efetivo ... braceletes e colares feitos de discos de con-
L I

fim de outubro de 1917 à metade de juiho de 1918, teve lugar pri- chas vermethas' Essas trocas previam urna série de rituais muito
meiro na ilha de Samarai e depois nas ilhas Trobriand. Um único complexos. Malinowski havia cogitado escrever um livio intitu-
trecho, de poucas linhas, refere-se à primeira viagem às Trobriand. lado O kula: Um relato do empreendimento e da aventura dos nati-

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vos dos mares do Sul [Kula: A tale ofnative enterprise and adventure esquema total de sua estrutura social E Nem mesmo o mais inte-
... I
in the South Seasj, que acabou por se tornar, em 1922,
Argonautas ligente dos nativos faz urna idéia clara do kula como urna constru-
do Pacífico çao social vasta e organizada, muito menos de sua função e sua
Ocidental.39

Até entäo, a literatura antropológicamal-e-mal mencionara o importância sociológica. Se Ihe perguntássemos o que é o kula, ele
Nao é claro em quai momento Malinowski percebeu a responderia fornecendo alguns detaihes, mais provavelmente a
kula.4°

importância da prOpria descoberta.41 Em seu livro, Malinowski partir de sua experiénda pessoal e de suas visôes subjetivas do kula,
recordou haver assistido a urna transaçao segundo as regras do mas nada que se aproxime da definiçao dada ha pouco. ...] Pois a E

kula pela prirneira vez em fevereiro de 1915, sern compreender de visâo integral näo existe em sua mente; ele está imerso nela, e nao
que se tratava, durante aviagem de regresso à Austrália, ao término pode ver o conjunto de fora.
da primeira expediçäo à Nova Guiné.42 Durante o ano que passou A integraçào de todos os detaihes observados, a sfntese socioló-
nas ilhas Trobriand, entre majo de 1915 e majo de 1916, Mali- gica de todos os vários sintomas relevantes é tarefa do etnógrafo. Em
nowski recolheu material sobre o kula para escrever um artigo. primeiro lugar, ele deve perceber que certas atividades, que à pri-
Mas o tom deprimido de urna carta a Elsie, escrita de Samarai em meira vista poderiam parecer mcoerentes e desconexas, tém um sig-
lo de novembro de 1917, dá a entender
que ele ainda procurava nificado. ...] O etnógrafo tern de construira visäo da instituiçào in-
E

urna salda: tegral, muito à rnaneira do fisico que constrói sua teoria a partir de
dados experimentais, que sempre estiverarn ao alcance de todos,
Creio que o artigo sobre o kula seguirá inacabado até meu retorno mas que careciam de uma interpretaçao
consistente.4'

E...]. Além disso, parece-me tao absurdo escrever a respeito do kula

quando qualquer negro perambulando pelas ruas em um la va lava Essas observaçoes condiliam-se mal coni o velho estereótipo
sujo deve saber tao mais do que que vé em Malinowski um agudo observador que coleta dados e
eu!4'

em seguida os aplica em urna teoria funcionalista bastante rígida.


Sobre este último ponto. Malinowski mudou completamente Deve ter sido justamente a experiéncia da escrita do diário que o
de opiniao, corno mostra urna página dos Argonautas do Pacífico ajudou a reconhecer o papel desempenhado pela teoria na inter-
Ocidental que tern saborde auténtico programa teórico: pretaçäo de dados dispersos, transformando-os em fatos dotados
de significado. Em 13 de novembro de 1917,Malinowski anotou
Assim sendo, o kulaé urna instituição rnuito vasta e complexa, tanto em seu diário:
por sua extensâo geográfica como pela multiplicidade dos fins que
persegue. E...] Contudo, deve-se ter ern mente que o que aparece Idéias: escrever este diário retrospectivo sugere muitas reflexôes:
para nós como urna mstituiçao extensa, complicada, mas bem- um diário é urna "história" de acontecimentos inteiramente acessi-
ordenada, é o resultado de muitissimas atividades e ocupaçoes, con- veis ao observador, e, nao obstante, escrever um diário requer
duzidas por selvagens que nao possuern leis, metas ou estatutos conhecirnento profundo e tremo completo; transformaçao de um
delineados corn precisäo. Eles nao tém nenhum conhecimento do ponto de vista teórico; a experiéncia da escrita leva a resultados

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-
inteiramente diferentes, mesmo que o observador permaneça o mas tAo adorável -e além disso você vai se interessar por sua luta
mesmo que dizer quando há diversos observadores! Por conse- contra a saúde frágil.47

guinte, nao se pode falar em fatos objetivamente existentes: a teoria


cria os fatos. Por conseguinte, nao ha nenhuma "história" como Dois meses mais tarde, pela metade de dezembro, Malinowski
ciencia independente. A história é observaçâo de fatos segundo recebeu as cartas de Stevenson (corn toda a probabiidade as Car-
urna certa teoria; urna aplicaçâo dessa teoria aos fatos à medida que tas de Vailima Vailima ¡ettersj , organizadas por Sidney Colvin).As
E

são gerados pelo tempo.' conjecturas de Elsie sobre as reaçöes do noivo eramjustas. Em 23 de
dezembro de 1917, Malinowski escreveu-lhe:
São palavras que trazem à mente os ensaios juvenis de Mali-
nowski sobre Nietzsche e Mach ou, em termos mais gerais, a tradi- Li um born pedaço das cartas de Stevenson.Vocé tinha toda a razâo
çäo intelectual polonesa, conhecida sobretudo graças ao influxo elas me fascinaram, ao menos em parte. O interesse egoísta de Ste-
que Génese e desenvolvimento de umfato científico, o livro de Lud- venson por sua saúde e seu trabalho é tao terrivelmente parecido
wig Fleck dedicado à reaçao de Wassermann, vina a ter, 25 anos corn o meu que nao posso deixar de encontrar passagens que eu
mais tarde, sobre A estrutura das revoluçóes científicas, de Thomas mesmo quase já disse. [...] O egoísmo de R. L. S. por vezes me parece
S. Kuhn. O título do livro de Fleck é por si só significativo." "Ateo- eslavo demais e efeminado demais. Mas temo que minhas cartas
ria cria os fatos": a frase que Malinowski escreveu no diário reapa- tenham o mesmo tom. Fiquei impressionado corn urna passagem
rece nos Argonautas, là onde se dia que o etnógrafo deve construir em que ele faz o louvor de seu herotsmo persistente e paciente na
o 'kula "mais ou menos como o fisico constrói a sua teoria a partir luta continua contra a saúde frágil e no esforço de prosseguir o tra-
dos dados experimentais". De que maneira Malmowski logrou balho a despeito da doença, da depressäo e das forças minguantes.
Ja me senti muitas vezes assim e, na verdade, se nao tivesse percebido
construir urna teoria capaz de inserir os dados dispersos sobre o
a nota de heroísmo nesta bataiha ignóbil, em que as armas são urna
kula em urna configuraçäo dotada de significado?
injeçâo E...] pastilhas e tisanas, tena sido impossivel seguir adiante.
,

L...] E possivel que exista urna virtude espontânea e um fluxo fácil de


energia criativa, derivado de urna superabundAncia de forças. Mas
o caso trágico de um homem de ambiçâo e talento, que tern um
fardo valiosfssimo para carregar até determinado lugar, e a quem
Em 26 de outubro de 1917, Elsie Masson escreveu ao noivo:
falta a força física para fazê-lo, esse caso é tao digno de consideraçAo
quanto o outro, e temo que tudo isso conduza invariavelmente a
Vou mandar as cartas de Stevenson para que vocé tenha urna idéia
esse interesse pronunciado por si mesmo, a essa extrema autocons-
delas. O estilo de pensarnento dele talvez ¡he pareça pueril, mas acho
ciéncia de cada feito, a essa tendéncia a insistir nele e contá-lo a
que vocé nao terá como nao gostar de sua personalidade. Era tao todos os amigos. E...]
desprovido de fanatismo, tao genuino, débil em vários sentidos, Tambérn foi divertido 1er aqui, à margem da laguna e à sombra

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dos coqueiros, as descriçöes que S. faz de Samoa e de Honolulu, sua Questôes como essa nao têm nada de despropositado: Mali-
percepçao muito vivida e autoconsciente da estranheza exótica de nowski, leitor voracIssimo, trouxera de Melbourne urna notável
sua nova existência em contraste corn as rodas literárias da Londres quantidade de livros, aos quais se somavarn de tanto em tanto
civilizada onde Colvm vivia. Eu tainbm vivi esse contraste e essa aqueles emprestados por conhecidos europeus que viviarn nas
estranheza corn muita intensidade e autoconsciência.4

Trobriand. Dos diários se depreende que leu Maquiavel e a Legenda

Essa auto-identificaçäo corn Stevenson ficou à sombra de


urna tirada de Malinowski, muitas vezes citada, contida em urna
-
áurea, Racine e Kipling, George Meredith e Victor Hugo, e assim
por diante além de um born número de romances de segunda
categoria, que devorava corn forte sentimento de culpa (nos dia-
carta escrita alguns anos mais tarde a Brenda Seligman: « [W. H. R. j nos, fata mais de urna vez de pensamentos lascivos e de tais roman-
Rivers é o Rider Haggard da antropologia; eu serei o Conrad" ces corno tentaçöes a evitar totalmente). Em "O demOnio da gar-
Malinowski ficara profundamente impressionado corn os livros rafa' Malinowski tena encontrado a descriçao romanesca de urna
de Conrad, apesar de ter escrito no diário que terminara O agente troca rnonetária caracterizada pelo prejuizo, vinculada a imposi-
secreto "corn urna sensaçao de Todavia, no piano pes-
desgosto"49

çöes simbólicas precisas, que permitiam a circulaçao de um objeto


soal, diante dos próprios problemas de saúde ( reals e imaginarios), de muito valor por urna série de ilhas dispersas em urna enorme
Malinowski sentiu-se rnuito mais próximo do egoísmo de Steven- extensão de oceano. A analogia entre essa descriçâo e a imagern
son: urna proxirnidade sublinhada de maneira paradoxal corn a complexa do kula formulada pelo etnógrafo, tao diversa da per-
fórmula "eslavo dernais e efeminado demais". Malinowski encon- cepçäo parcial dos atores envolvidos, é evidente. O que o conto de
trou nas Cartas de Vailima de Stevenson urna iniagem que espe- Stevenson tena a oferecer a Malinowski era obviamente menos o
Ihava sua própria situaçao: um indivIduo civilizadíssirno, às voltas conteúdo de sua descoberta que a capacidade de vê-lo corno urn
corn a«estranheza exótica de sua nova existência' Passagens como todo, como urna Gestalt, graças a um salto imaginativo: a capaci-
aquela em que Stevenson.descrevia, corn grande riqueza de deta- dade de construí-lo, corno Malinowski escreveu mais tarde, "mais
Ihes etnográficos, a partilha cerimonial das oferendas de alimento ou menos como o fisico constrói a sua teoria a partir dos dados
devem ter suscitado o interesse de Malinowski, que justo naquele experimentais'
momento procurava compreender a função das oferendas nas Nâo tenho corno provar que Malinowski leu "O demônio da
ilhas Trobriarid. Fotheando as Cartas de Vailima, talvez Mali- g&rafa' Mas, em 12 de dezembro de 1917, cinco dias após a che-
nowski tenha dado corn a carta em que Stevenson informa Col- gada das cartas de Stevenson, Malinowski escreveu em seu diário a
vin da iminente traduçao para o samoano de "O demônio da gar- passagem que segue:
Malinowski já lera o conto de Stevenson? E, se nao o havia
rafa".5°

lido, será possível que tenha buscado satisfazer a eventual curiosi- Despertei por volta das quatro, muito cansado. Lembrei de urna
dade suscitada pela nota de Colvin que registrava "a adrniraçäo e o passagem das cartas de Stevenson em que ele fala de urna luta
entusiasmo" corn que o conto fora lido por muitos leitores em herOica contra a doença e a exaustäo. .. Passei o dia ansiando pela
L . I

Samoa? civilizaçäo. Pensei em amigos de Melbourne. À noite, no bote, pen-

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samentos agradavelmente ambiciosos: corn certeza serei um 'demi- Voltei às 12h30 - -
os Nu'agasi estavam a ponto de partir nem -
nente estudioso polonês' Esta será minha última escapada etnoló- pude fotografá-los. Cansaço. Deitei-me tranquei minha mente,
gica. Depois desta, you me dedicar à sociologia construtiva: meto- e, nesse momento, revelaçôes: pureza espiritual.
dologia, economia politica etc., e posso levar a cabo minhas
ambiçôes na Polônia mais que em qualquer outro lugar. Forte - Segue urna passagem entre aspas, impressa em itálico.
contraste entre meus sonhos de vida civilizada e minha vida entre Segundo os critérios adotados por Norbert Guterman, tradutor e
os selvagens. Decido eliminar os elementos (comnentes) de pre- editor do Didrio, isso indica que a passagem deve ter sido escrita
guiça e ócio em minha vida presente. Nao you ter romances senão em outra lingua que nao o polonés, talvez em inglês:
quando necessário. Tentarei nao esquecer idéias criativas.s1

Considera corn atençäo as almas aiheias, mas nao te enterres nelas. Se


o que me impressiona nessa passagem são menos as fantasias forernpuras, elas reflerirao a Beleza impereclvel do mundo, e entao por
de ser reconhecido como estudioso (era um tema sobre o quai já se queolharpara a itnagenz refletida, se podes ver a propria coisa, face a
detivera antes)" que a alusAo, que nao emergira antes nos diários, face? Se forem tornadas pela mixórdia de intrigas mesquinhas, é
às "idéias criativas" que começavam a surgir naquele momento melhor näo saber nada a respeito.
(naturalmente, os romances que nao devia 1er eram os romances
de segunda que tanto o atralam). Poucos meses mais tarde, essas Essa passagem, aparentemente urna citaçäo, que nao pude
idéias paredani ter assuniido urna forma mais precisa. Em um tre- identificar, deixaclaras as conotaçöes religiosas das"revelaçöes"de
cho datado de 6 de março de 1918, Malinowski se perguntou se
suas hipóteses poderiam influir sobre a coleta de dados
tema que, significativamente, nao havia jamais mencionado:
um - Malinowski em urna linguagern que mistura Platão (a Beleza
iniperecível) e so Paulo (i Corintios, 13, 12). Segundo o diário,
Malinowski tomou o bote e remou em torno do promontório.
Naquele momento, como depois escreveu nos Argonautas, deu-se
Novo ponto teórico. (1) Definiçao de urna dada cerimônia, espon- conta do peso do elemento ritual em que o kula estava imerso:
taneamente formulada pelos negros. (2) Deflniçäo alcançada após
«bombardeá-los"comperguntassugestwas. (3) Definiçáo alcançada A noite, depois de um dia cansativo, e como a tua estava cheia, sal
por meio da interpretação dos dados concretos.M

para um longo passeio em um bote. Muito embora já tivesse ouvido


relatos nas Trobriand sobre o costume da primeira parada, five urna
Poucas semanas depois, urna reviravolta. Em 20 de abril, de
maneira retrospectiva, Malinowski fata a respeito, apontando para
- -
surpresa quando, contornando uni prornontório rochoso, fui ao
encontro da multidAo de nativos de Gumasila que haviarn par-
a "alegria sentida em Nu'agasi, quando de repente o véu se rasgou".' tido no kula naquela manhâ sentados em urna praia à luz da lua
A passagem do diário datada de 25 de março comunica o evento cheia, a urnas poucas milhas da vila que haviam deixado corn tanto
em toda a sua imediatez: aparato dez horas antes.

no
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In
No diário, o relato de Malinowski é ao mesmo tempo mais culo do kuli, observando que, na medida cm que ultrapassa a per-
eliptico e mais emotivo: cepçao dos atores, ela "contém urna boa quantidade de ficçao".
Leach exortou os "especialistas em estudos melanésios" a ser "mais
Entâo remei ao redor do promontório, a lua escondida atrás das funcionalistas, no sentido malinowskiano. o KULA nao existe".'3

nuvens. [...] Sensaçao nitida de que, além deste oceano real, dife-
Malinowski, o platOnico mascarado, nao concordaria.
rente a cada dia, coberto de nuvens, chuva, vento, como urna alma
mutd ve! é recoberta pelos estados deânimo- que, além deste, ha urn
Oceano Absoluto, marcado mais ou menos corretamente no mapa,

à observaçäo. -
mas que existe além de todos os mapas e além da realidade acessfvel
Origem emocional das Idéiasplatônicas." O kula, escreveu Malinowski nos Argonautas, refutava as
idéias, então correntes, que viam no homem primitivo um "ser
Em um ensaio conhecido, Ernest Geilner definiu Malinowski racional que nao deseja outra coisa além de satisfazer as necessida-
como o "Zenão de Cracóvia' A passagem que citei (surpreenden- des mais elementares, segundo o principio econOmico do mínimo
temente ignorada pelos intérpretes, salvo engafo) faz pensar antes
esforço'M O outro alvo do livro era a chamada"concepçäo materia-
em um "Platão de Cracóvia": um aspecto de sua personalidade lista da histOria» (Malinowski provavelmente ignorava que tinha
intelectual que Malinowski, cuidadoso, manteve oculto.'° O que Marx a seu lado). Mas as implicaçôes da descoberta de Malinowski
Malinowski viu naquela noite fatal foi alguma coisa acima da rea-
ultrapassavam em muito o ámbito da chamada "economia primi-
lidade: a idéia platonica do kula, um reflexo da "Beleza imperecível tiva' como mostra a sua progênie tardia, do ensaio de Mauss sobre
do mundo' a dádiva à Grande transformaçao de Polanyi ou ao ensaio de E. P.
Malinowski escreveu no diário:
Thompson sobre a economia moral (no quai, todavia, a ligaçâo é
mais O que de fato estava emjogo era a noçao de homo
indireta).'5

De repente, recaio no ambiente real corn o quai tainbém estou em


oeconomicus, ainda hoje bem viva. Mas o arquipélago de Stevenson
contato. Então, mais urna vez, os nativos deixam de existir em sua e o de Malinowski estäo ali para nos lembrar que nenhum hornem
realidade interior, eu os vejo como algo de incongruente, mas artís- é urna ilha, nenhuma ilha é urna ilha.
tico e selvagern, exótico = irreal, inrangível,flutuando na superficie da
realidade, como urnafigura colorida sobre uma sólida parede incolor."

Urna obra de imaginaçao como "O demônio da garrafa» de


Stevenson tena talvez propiciado a Malinowski a possibilidade de
chegar a essa "sólida parede incolor'
Vale a pena recordar que Edmund Leach, refletindo sobre o
kula sessenta anos depois de Malinowski, recusou a noçäo de "ch-

11_z
_
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w

Notas

INTRODUÇAO [pp. 11-5]

I . T.W. Adorno,"ll saggio come forma» ( 1958), trat it. in Notesulla lettera-

(ura. 1943-1961 (Turim, 1979), p. 18. [Há traduçâo brasileira em Notas de litera-
flua I (São Paulo: Editora 34 2003).)
2. Ateneu, Deipnosofistar, cf. M. Bakhtin, "Dalla preistoria della parola
romanzesca", in Estetica e romanzo, aos cuidados de C. Strada Jovanovic (Turim,
1979), pp. 407-44, esp. p. 421. [Ha traduçäo brasileira: Questoes de literatura e de
estética (São Paulo: Unesp, 1993).]
3. 1. Starobinski,"Peut-on définir l'essai?' in Jean Starobinski, núnseroespe-
cia! de Cahierspour un temps (Paris, 1985), pp. I 85-96.
4. M. de Montaigne, Oeuvres complètes, ediço de A. Thibaudet e M. Rat
(Paris, 1962), p. 1056: "Toda esta mixórdia que eu garatujo aqw nao é mais que
um registro dos ensaios de minha vida".
5. Adorno, «II saggio come forma", ed. cit., p. 21.
6. Cf. V. Chldóvski, La mossa del cavallo ( 1923), trad. it. de M. Olsoufieva
(Bari, 1967),eV.Foa,Ilcas'alloela torre(Turim, 1991).
7. C. Ginzburg, "Spie", in Miti, emblemi, spie. Morfologia e storia (Turim,
1986), pp. 158-209, esp. pp. 166-7. [Ha traduçào brasileira: Mitos, emblemas,
sinais (Sio Paulo: Companhia das Letras, 1990).] "Um gesto digno de um caça-
dor neo1ftico' comentou divertidamente Italo Calvino (La Repubblica, 21 de
janeiro de 1980). Cf.T. C.Cave, Recognitions. it study inpoerics(Oxford, l988),pp.

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l
250-4; C. Prendergast, The order of mimesis (Cambridge, 1986), pp. 220ss; A. 6. Para urna descriçäo pormenorizada, cf J. H. Lupton, Thi, UtupI. «f Er

Compagnon, Le démon de la théorie (Paris, 1998), pp. 139-40. Thomas More (Oxford, 1895), pp. Lxivss.
8. Desenvolvo esse ponto em Rapporti di forza. Storia, retorica, prova (Mi- 7. "Superioribus hisce diebus, amantissime Buslidi, misit ad me Thoniai
lao, 2001). Retornei à narraçäo e às suas implicaçöes na condusäo de Storia not- Monis [...] Utopiam insulam, paucis adhuc mortalibus cognitam. sed dignam
turna. Una decifrazione dei sabba (Turim, 1989). [Ha traduçoes brasileiras: Rela- imprimis quam ut plus quam platonicam omnes velint cognoscere, praescrtim ab
Øes de força (São Paulo: Companhia das Letras, 2002) e História norurna (Sao hominefacundissimo sic expressam, sic depictam, sic oculis subiectam, ut, quoties
Paulo: Companhia das Letras, 1991).J lego; aliquantoplus mihi videre videar, quant
rum ipsum Raphaekm Hythlodaeum
9. C. Ginzburg, Occhiacci di legno. Nove riflessioni sulla distanza (Milâo, (nam ei sermoni aeque interfui at Morus ipse) sua verba sonantem audirem [...j
1998), pp. 15-39, esp. pp. 29ss. (Há traduçào brasileira: Olhos de madeira (São Attamen eadem haec quoties Moripenicillo depicta conteinplor» sic afficior, ut mihi
Paulo: Companhia das Letras, 2001 ).] videar nonnunquam in ipsa versan Utopia"- Utopia, ediçao de E. Surtz s e J. H.
10. Id., Miti, emblemi, spie, ed. cit., pre&io. Hexter (New Haven/Londres, 1965), in The complete works ofSt. Thomas More,
11. Id., Ii formaggio ei vermi. Il cosmo di un mugnaio del'500(Turim, 1976). vol. iv, p. 20 (doravante"cw"). Cf. também Jerome de Busleyden, His lifr and wri-
(Ha traduçäo brasileira: O queijo e os vermes (Sao Paulo: Companhia das Letras, tings,org. de H. deVocht (Turnhout, 1950), número 9 dasérie Humanistica Lova-
1987) .1 niensia,
8. C. Ginzburg, "Montrer et citer", in Le Débat 56 (setembro-outubro de
1989), pp. 43-54.
"
I. O VELHO E O NOVO MUNDO VISTOS DE UTOPIA (pp. 17-421 9. Utopia, cw, vol. iv, p. 22: Tetrastichum vernacula Utopiensium lingua
scriptum, quod a Mori discessuforte mihi ostendit Hythlodaeus, apponendum
Q. Skinner, "Sir Thomas More's Utopia and the language of Renaissance
I. curavi, praefixo eiusdem gentis aIphabeto turn adiectis ad margines aliquot anno-
humanism", in A. Pagden (org.), The languages ofpoliticai theory in Early Modern ratiunculis. Nam quod de insulae situ laborar Morus, ne id quidem omnino tacuit
Europe (Cambridge, I987),pp. 123-57, esp. pp. 123, 125, 155. Veja-se ainda, sem- Raphael, quanquam paucis admodum ac velut obiter attigit, velut hoc alu
servans
prede Skinner,a discussAo cerrada à margem daediçaoYaleda Utopia, in Pastand loco. Atque id sane nescio quomodo casus quidam malus utrique nostrum invidit.

Present38 (l967),pp. 153-68. Siquidem, aim ea loqueretur Raphael, adierat Morum efamulis quispiam, qui iii
2.Somentedepois de terescritoestas páginastomeiconhecimento doótimo nescio quid diceret in aurem; ac mihi quidem tanto attentius auscultanti comitum
ensaio de S. Rossi,'Profilo dell'umanesimo enriciano. Erasmo e Thomas More" in voces ali-
quispiam darius, obfrigus opinor navigationecollectum, tussiens, dicentis
Ricerchesuli'UmanesimoesulRinascimento in Inghilterra (Milâo, 1969), pp.26-63, quot intercepit. Verum non conquiescam, donechancquoquepartein adplenum cog-
que contém observaçoes incisivas sobre o termo "festivitas". Veja-se ainda S. Dres- novero, adeo utnon solum situm insulae, sed ipsam etiam poli sublationem sim tibi
den,"Erasme,Rabelaiset1afesrivitashumaniste'in Colloquia Erasmiana Turonen- ad unguein re4diturus, si modo incolumis sis foster Hythlodaeus"
sia, vol.t (Paris, 1972), pp. 463-78, queme foi indicado por Ofer Nur. l0.G.Genette, Seuils(Paris, 1967).
3. C. S. Lewis, English literature in the sixteenth century excluding drama I I . OE o catálogo da mostra Pen-us Christus. Renaissance master of Bruges
(Oxford, 1954),pp. 165ss,esp. p. 167-recolhido in RS. SylvestereG. P. Marc'ha- (NovaYork, 1994), organizado por M. W. Ainsworth, corn contribuiçöes de M. P.
dour (orgs.), Essential articlesfor the study of Thomas More (Hamden, Connecti- J.Martens, pp. 93-5; A. Chastel, Musca depicta (Miläo, 19M); Filóstrato o Velho,
cut, 1977), pp. 388ss, esp. p. 390. Immagini (Lecce, 1997), 22 [231 ; E. Panofsky, Early netherlandish painring(Prin-
4. Veja-se particularmente P. R Allen, "Utopia and european Humanism: ceton, 1955), pp. 488-9, nota 5. Cf. também J. B. 'frapp, "Thomas More and the
The function of the prefatory letters and verses' in Studies in the Renaissance 10 visual arts' in Essays on the Renaissanceand the classical tradition (Londres, 1990),
(1963),pp.9l-107. pp.27-54. A cornparação entre a passagem de More e Petrus Christus foi sugerida
5. P.S. Allen, Opus epistolarum des. Erasmi Roterodami, doravante "Allen" indiretamente por S. Sandström, Levels of unreality (Uppsala, 1963).
(Oxford, 1910), vol. eplstolas 461,467,474,477,481, 484, 487,491,499, 502,
II, 12.cw,vol.iv,p.40.
508,513,524,530, 534,537. 13. "E como me preocuparei muito corn que nada haja de falso no livro,

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entäo, se algum ponto for incerto. aines direi urna mentira do que mentirei, pois podeser aediçao in-octavoda Utopia, publicada em Paris em 1517-cf. Erasmus,
preferiria ser born a ser prudente" ("Nam ut maxime curabo ne quid sit in libro Man ofletters (Princeton, 1993), pp.40-1.
falsi, ita si quid sit in ambiguo, potius mendacium dicam, quanz mentiar, quod 18. G.Vossius, Opera,voL iv (Amsterdam, 1699), pp.340-1.
rnalim bonus essequamprudens" ( Utopia, p. 40). Segundo Aulo Gélio (NoctesAtti- 19. Id., Ibid.
cae i 1.1 1.1-4), Públio Nigídio costumava dizer "Ha difrrença entre dizer urna 20. A Prévost, L'Utopie (Paris, 1978), pp. cn-citi.
mentira e mentir. Quern mente, ele próprio nao é enganado, esforça-se por enga- 21. Cf. J. Tully (org.), Meaningand context. Quentin Skinner and his critics
nar um outro; quem diz urna mentira, ele próprio é enganado" ("inter menda- (Londres, 1988).

qui mendacium dicit, ipsefallitur") -


cium dicere etmentiridistat. Qui mentitur ipse nonfallitur, akerumfallere conatur;
cf Utopia, cw, vol. iv, p. 292.
22. T. S. Dorsch, «Sir Thomas More and Ludan: an interpretation of Uto-
pia' in Archivfür das Studium der neueren Sprachen und Literaturen 203 (1966-
14.cw, iv, 252-3. 1967), pp. 345-61, escreve justamente, nas pegadas de C. S. Lewis, que "a paixAo
15. Sobre a importAncia dos argumentos hipotéticos na obra de More, c1 de More por Luciano indica a meihor abordagem de Utopia" (p. 347). Mas a con-
w. R. Davis, "Thomas More's Utopia as fiction' in Centennial Review24 (1980), clusilo de Dorsch, para quern More convidaria o leitor a recusar as leis de Utopia,
pp. 249-68, e S. Greenblatt, "At the table ofthe great: More's self-fashioning and é certamente insustentável: cf. D. Duncan, Ben Jonson and the lucíanic tradition
self-cancellation", in Renaissanceseif-fashioning. From More to Shakespeare (Chi- (Cambridge, 1979), pp. 52-76, sobretudo p. 69. Sobre o mesmo tema, veja-se
cago e Londres, 1984), pp. 1 1-73, sobretudo pp. 32-3: urn ensaio rico de observa- ainda J. K. McKonica, English humanistsand reformationpolitics underHenry VIII
çÔes penetrantes, näo obstante a indiferença ao contexto. and Edward VI (Oxford, 1965), p. 15; C. Robinson, Lucian and his influence in
16. cw,vol. iv,pp. 249-5 1 :"si res utveraprodita est, video ibiquae4am suba b-
Europe(Londres, 1979),esp.pp. 13 1-3.
surdo. Sificta turn in nonnullis exactum illud Mori iudiciurn requiro [...] si vulgi 23. Cf. Thomas More, Translations ofLucian, cw, vol. ni, ediçilo de C. R.
abuti ignoratione vellem litteratioribus saltem aliqua praefixissem vestigia quibus
Thompson (New Haven e Londres, 1974), p. xxxv. Cf. R. W. Gibson, Sr. Thomas
institutum nostrurnfacilepervestigarent[...1 ¡taque si nihil aliud ac nomina saltern
More: aprelirninarybibliographyofhis worksandofMoreana to the year 1750(New
principis,fluminis urbis insulae posuissem tafia, quaeperifiores admonerepossent, Haven e Londres, 1961 ), que, infelizmente, As vezes nAo cita os títulos in extenstx
insulam nusquam esse, urbem evanidam, sine aquafluvium, sinepopulo esseprin- a traduçilode Luciano publicada em I 506, porexemplo,é indicada simplesmente
cipem, quod nequefactufuisset difficile et multofuisset lepidius quam quo ego feci, como "Lucianus, Opuscula".
qui nisi mefides coegisser hystoriae non sum tarn stupidus ut barbaris illis uti nomi-
nibus et nihilsignificantibus, Utopiae, Anydri, Amauroti, Mcmi voluissern"
17. Cf. cw, voL iv, pp. 248ss. E. Surtzsj,"More's Apologia pro Utopia sua' in
24. C. Dionisotti, Machiavellerie (Tunm, 1980), pp. 2lOss. A aIUSAO desde-
nhosa à Utopiade More no Sommario della istoria d'italiade Francesco Vettori -
in Scrittistorici epolitici, ediçAo de E. Niccolini (Bari, l972),p. 145- talvez guar-
Modern Language Quarterly 19 ( 1958), sublinha a irnportância da epístola, mas
dasse um eco das conversas entreVettori e Maquiavel.
deixa escapar completamente seu significado. Mais precisa é a rápida rnenço de
25. L Febvre, Leproblèmede l'incroyance au XV!' Siècle. La religion de Rabe-
J. M. Levine, «Thomas More and the english Renaissance: history and fiction in
¡ais (Paris, 1942), passim.
the Utopia' in D. R. KelleyeD. H.Sacks (orgs.), Thehistoricalimagination in Early
26. Cf. Allen, vol.199, pp.430-1.
1,
Modern britain: history, rhetoric, andfiction, ¡500-1800 (Cambridge, 1997), pp.
27. Cf. Allen,voLr, I 93, pp. 424-6, carta a Christopher Urswick; More, carta
69ss; e veja-se a nota de L. Firpo à sua traduçäo da Utopia (Vicenza, 1978), p.314.
a Thomas Ruthall ( Translations ofLucian, pp. 2ss). O termofestivitas acabou por
Em sua ediçäo fundamental (Oxford, 1895), Lupton escreveu que as adiçoes à
setornar parte da defluiçilo corrente de Luciano. Na introduçäo à ediçilo das
segunda ediçâo "foram incluidas na de I 5 8 e são reproduzidas conformemente"
1

obras completas de Luciano em latim, que indula as traduçoes de Erasmo e de


( The Utopia, p. i.xvnt). Nao tendo notado que a segunda epistola de More a Pieter
Gillis foi deixada de fora da terceira, nao a indwu em sua propria ediçao (veja-se More, Jakob Moltaer, professor da Universidade de Heidelberg, escreveu: «Est
enim omnino autor hic taus, ut eadeni elegantia, eadeinquefestivitate reddi prorsus
igualmente p. xx). Lisa Jardine propos identificar a segunda epístola de More
corno aquela que Pieter Gihis tern em milos no retrato de Metsys: urna hipótese nequeat" (Luciani Sarnosatensis opera, quac quidem extant omnia, e Gracco ser-
nao muito convincente, dado que o pequeno volume in-quarto sobre a mesa nAo mone in Latinum, partim iam ohm diversis autoribus, partim nuncper Jacobum

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Micyllum translata, Lugduni 1549, praefiuio). Mydøus pseudonimo de Moltzer são em Knox, Ironia, p. 93. CI. A. Hauffen, "Zur Literatur der ironischen Enka-
é o nome de um personagem de Gallus, um dos diálogos de Luciano.
mien' in Vierteljahrschriftfur Literaturgeschichte 6 ( 1893), pp. 1 61-85; A. S.
28. Cf. De officüs i, 30, 108: "dukein erfacetumfestiviquesermonis atque in
Pease, «Things without honor", in Classical Philology 2 1 ( 1926), pp. 27-42; G.
omni oratione simulatorem, quem efrén Graeci nominarunt, Socratem accepimu?
Thompson, "Erasmus and the tradition ofparadox' in Studies in Philology 61
[Há traduçäo brasileira: Dos deveres (São Paulo: Martins Fontes, 1999).J Cf. D. ( 1964), pp. 41 -63; R. L. Colic, Paradoxia epidemica. The Renaissance tradition
of
Knox, Ironia: Medievaland Renaissance ideas on irony (Leiden/Nova York, 1989),
paradox (Princeton, 1966).
pp. 98ss.
29. AlIen, vol. i, 19 1 , pp. 422-3, carta a Richard Whitford, sobre a dedama- 40.A.Warburg,"Heidnisch-antikeWeissagungin Wort und Bild zu Luthers
Zeiten", in Ausgewählte Schriften und Wurdigungen, org. de D. Wuttke (Baden-
çAo de Erasmo em resposta ao Tyrannicidade Luciano; vol. i, 193,pp. 425-6, carta
Baden, l9BO),pp. 228-9; em traduço italiana,"Divinazioneantica paganain testi
a Christopher Urswick, sobre o Gallus. e immagini dell'età di Lutero' in La rinascita
delpaganesimo antico (Florença,
30.Allen,vol. i, 187,pp. 416-7.
l996),p. 336. Cf. igualmente R. Klibansky, E. Panofsky, E Sazi, Saturno ela melan-
31.AlIen,vol. ii,461, p. 339. colia (Thrim, 1983), p. 126; L. Bertelli, «L'utopia greca", in L.
32. Allen, vol. i, 293, pp. 561-2. A traduçäo dos Di4logos de Luciano foi Firpo (org.), Storia
delleideepolitiche economicheesociali(Turim, 1982), pp. 463-581,sobretudo pp.
publicada por Joue Bade em 1 dejunho de 1514; cf. Ph. Renouard, Imprimeurset 52 1 -2. Sobreo frontispicio de Reymnann, cf. C. Ginzburg, Il nicodemismo. Simu-
librairesparisiensduXVl'siècIe,p. 25 1. Cf.Allen, vol. 1,261, pp. 5 12-3, sobreadedi- lazioneedissimulazione nell'Europa del '500 (Turim, 1970), pp.33-4. Em geral, ci
catória de Erasmo a William Warham, datada de 29 de abril de 1512. Segundo p. Zambeli, «Fine del mondo o inizio della
Allen (p. 56 i ), "o longo intervalo entre o prefácio e a publicaçäo exigia urna nova propaganda?", in Scienze, credenze
occulte livelli di cultura (Florença, 1982); P. Zambelli (org.),
«Mtrologi halluci-
epístola"; mas Erasmo tena podido limitar-se a mudar a data da epistola prece- nati' StarsandtheEndoftheWorldinLuther'stime(BerlimJNovayork, 1986). Um
dente. Talvez a traduçào do diálogo Saturnalia tenha sido a última da série. desses prognósticos reelabora textos de Luciano: cf. A.-M. Lecoq, "D'après
33. Luciano, L I , 25. Cf. também M. I. Finley, "Utopianism ancient and
Pigghe, Nifo et Lucien: le rhétoriqueur Jean Thénaud et le déluge à la cour de
modern", in K. l-L Wolfe B. Moore Jr. (org.), Thecritica!spirit. Essays in honorof France", in "Astrologi", ed. cit., pp. 2 15-37.
HerbertMarcuse (Boston, 1968), pp. 3-20, esp. pp. 9-10.
4 1 . S. Zavala, Ideariode Vasco deQuiroga (México, 194 ); S. Zavala, Sir Tho-
1

34.cw,vol.rv,p. 12. mas More in New Spain (Londres, 1955); F. B. Warren, "Don Vasco de Quiroga
35. Luciano, Urna hisrória verdadeira, in Raccontifantastici, trat de M.
utopien",in FestschriftforE. F Rogers. Moreanaxv-xvi ( 1967), pp. 385-94. Cf. par-
Matteuzzi (Mi1ào, 1995), pp. 307ss.
ticularmente R. Dealy, The politics ofan erasmian lass'er: Vasco de Quiroga.
36. cw, vol. w, p, 183.
Humana Civilitas 3 (Malibu, 1976), e A. Pagden, "The humanism ofVasco de
37.Allen, vol. t, 193, pp. 425-6, carta a Christopher Urswicic "sicseria nugis,
Quiroga's Información en derecho",in The uncertaintiesofempire. Essays in iberian
nugas seriis miscet; sic ridens vera dicit, vera dicendo ridet; sic horninum mores, and ibero-american intellectual history (Aldershot, 1994),
pp. 133-42.
affectus, studia quasi penicillo depingit, neque legenda, sed plane spectanda oculis 42. Información en derecho del licenciado Quiroga sobre algunas provisiones
exponit...". deiRealConsejodeindias, ed. de C. Herrejón-Peredo (México, l985),pp. 199-200:
38. Cf. C. R. Thompson, mtroduçäo a More, Translations ofLucian, in cw, «este autor Tom4sMorofuegrandgriegoygran
vol. ill, 1 , pp. xxxv-xXXVI; S. F. Bonner,Roman declamation in theLateRepublicand expertoydemucha autoridad, y tra-
dujo algunas cosas de Luciano degriego en latín, donde, como dicho rengo, se ponen
Early Empire (Liverpool, 1949). Ao publicar o escrito de Lorenzo Valla sobre a las leyesy ordenanzasy costumbres de aquella edaddorada ygenres simplecísi mas y
doaçao de Constantino, Ulrich von Hutten a defmiu como declamatio; mas cf. W. de oro della, segün que parece y se colige por lo que en su republica dice de éstos,
Setz, Lorenzo VallasSchriftgegen diekonstantinischeSchenkung(Tübingen 1975), y
Luciano de aquéllos en sus Satumiales, y debiérale parecer a es varón
prudenti-
pp.46-7. simo, y con mucha cautela y razón, quepara talgente, tal arte y estado de república
39. C. Dornavius, Amphirheatrurn sapientiae... (Hannover, 1619; republi-
convenlayera menester. yqueen sola dllayno en otra sepodla conservarpor las raw-
cado em Frankfurt, 1670). Sobre o Amphitheatrum de Dornavius e sobre os nes todas quedichas son' Cf. M. Bataillon,
encômios burlescos como "género intrinsecamente ir6nico' cf. a breve discus- Erasmeetl'Espagne nova ediçào em trés
volumes corn texto estabelecido por D. Devoto, editada aos cuidados de Ch.

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Amiel (Genebra, 1991 ), vol. nI: "Erasmo et le Nouveau Monde", pp. 469-504, esp. 5. Um catálogo abrangente encontra-se em M. A. Scott, Elizabethan tra,u-

pp. 488-9. lationsfrom the Italian (Nova York, 1916), ainda muito útil.
43. Información en derecho, pp. 19 sa, p. 197.
1 6. C. S. Lewis, English literature in the sixteenth century, p.281.
44. Cf. J. A. Schumpeter, History ofEconomicAnalysis (Nova York, 1954), 7. E. H. Gombrich, The ideas ofprogress and their impacton art(NovaYork,
1971 ), p. 10, que cita Aulo Géllo, Nocte,sAtticae, xix, 8, 15; E. R. Curtius, European
p.305.
45. c. Ginzburg, Occhiacci di legno, pp.40-81. literature and the latin MiddleAges (Nova York/Evanston, 1953), pp. 247-72. [Ha
46. R. J. Schoeck, «A Nursery...' in EssentialArticles, pp. 281ss, esp. pp. traduçao brasileira: Literatura européia e Idade Média latina (São Paulo: Edusp,
285ss. 1996).)
8. A referéncia de Ascham (AdAtticum, iv, I 7) nao é exata ( mas vale recor-
47.Greenblatt, art. cit., pp. 22-3, 58.
dar que Thescholemasterfoi publicado postumamente). A primeira parte da cita-
48. J. H. Hexter, More's Utopia. The biography of an idea (Princeton, 1952),
xviii-xx. çao provém de urna epistola de Cícero a C. Trebacius Testa, de malo de 54 (Epis-
pp.1 8-21; id., introdução a Utopia, cw, voi iv, pp.
tulae a4farniliares, vu, vn): «Ouço dizer que na Britânia näo ha nem ouzo, nem
49. Urna história verdadeira, ed. cit., p. 333; para a glosa, cf. a ediçâo dc
Luciano na Loeb Classical Library, vol. "p.357. prata" C' In Britannia nihil esse audio neque aun, neque argenti").
9. Eis aqui um exemplo de sua traduçäo em versos de urna passagem de
50. G. M. Logan, The meaning of More's Utopia (Princeton, 1983), pp.7, n. "
Hesfodo: Chi per se stesso ben discorrendo risolveJ Il meglio, a' gli altri va sempre
6,eix.
com'ottimo innanzil Buono amico è quegli, ch'obedisce a i saggi ricordi./ Ma chi né
51. Cf. C. R. Thompson, introduçào, cw, vol. ru, t, p. L, n. 1.
essa conexão escapou à maioria dos estudiosos que se ocupa- ntendepersé né ntendeperaltri,/ Ben ch'oda, opensi, dei tutto disutikparmi", in F.
52. Creio
que
Figliucci, De lafilosofia morale libri dieci, sopra li dieci libri de ¡'Ethica d'Aristotile
ram da Utopia
(Roma, l551).p. 18.
53. Luciano, "Vidas em leiláo", in Works, vol. Ii (Loeb Classical Library).
Smith, Elizabethan criticalessays, i, p. 153.
lo.
pp. 450ss. G. Fernández de OviedoyValdés, Historiageneralynaturaldelas Indias,
1 I .
54. Cf. a passagem famosa da Utopia.
c
ed. de J. Perez de Tudela Bueso (Madri, 1959), i, pp. 1 12-6; igualmente José de
Acosta, Historia naturalymoraide laslndias,ed. de B. G. BeddaU (Valéncia, 1977),
vi, 28, p. 447 (ambos recordados por Smith, Elizabethan critical essays, i, p. 348.
2. IDENTI DADE COMO ALTERIDADE [pp. 43-631 12. A. Grafton, New worlds, ancient texts (Cambridge, Mass./Londres,
1992).
1. Thejournalsandpapers ofGerardManleyHopkins. ed. de H. House, con- 1 3. J. Amyot, Les vies des hommes illustres Grecs er Romains, comparées l'une
clulda porG. Storey (Londres, 1959), p. 84 ("an essay writtenfor the master ofßal- avec l'autrepar Plutarque de Chaeronee, translatées de Grec en François, à Paris, de
1865»).
liol[fl, l'imprimeriedeMiche! de Vascosan, MDLIII; consultei uni exemplar em pergami-
2. In LanguagexLfl ( 1966), pp. 399-429. alio, outrora propriedade de Mlle. De la Vallière, hoje na Biblioteca Nacional de
3. Cf. R. Helgerson, Forms ofnationhood, theelizabethan writing of England Paris: "Aos leitores: nao quero, portanto, discutir a exce1ncia e a dignidade da
recoihidos em G. G.
(Chicago, I 992), pp. 25-40. Os textos mais importantes estào coisa em si, urna vez que nào apenas eta é mais antiga que qualquer outra espécie
Die
Smith, Elizabethan critical essays (Oxford, 1904), dois volumes; F. Zschech, de escrita que jamais existiu no mundo, mas tanibérn teve curso entre os homens
Kritik des Reims in England. in Berliner Beiträge zur germanischen und romanis- antes mesmo que se estabelecesse o uso das letras, de modo que os vivos pudes-
chen Philologie, fascículo 50, seçäo germânica. n« 37 (Berlim, 1917) depende, no scm deixar a seus sucessores a memória das coisas passadas em cançoes que for-
essencial, de Smith. çavam os seus flihos a aprender de cor, como se pode ver em nossos tempos entre
4. Cf. também L. V. Ryan, Roger Ascham (Stanford, 1963), bem como sua os bárbaros habitantes das terras novas das Indias Ocidentais, que, scm nenhum
the per-
ediçao de The schoolmaster (Ithaca, 1967);T. M. Greene,"RogerAscham: conhecimento das letras, tinham conhecimento de acontecimentos de oitocen-

-
fect end of shooting". in English Literary History. xxxvi (1969), pp. 609-25. tos anos antes" ("Aux lecteurs: 'Je veux donques laisser à part l'excellence et la dig-

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Cornélio Tácito du que os antigos Germanos ignoravam os segredos das letras,
nité de la chose en soy, veu que non seulement elle est plus ancienne que toute autre mas usavarn cançöes antìgas e entre eles esse tena sido o único gênero de memó-
espèce d'escripture qui onques ait esté au monde, mais aussi qu'elle
a eu cours entre
rias e anais. De onde, no Livro ii, falando deArmmnio: ' cantado ainda boje entre
les hommes, avantque ¡'usagedes lettres mesmesyftst,pourcequelors les vivans ¡ais- os poyos bárbaros, desconhecido dos anais dos Gregos' O qué, entäo? Eginhar-
sayent à leurs successeurs ¡a mémoire des chosespassées, en chansons qu'ils faisoyent dus, certamente boa testemunha do que agora quero dizer, a respeito de seu que-
apprendrepar coeur de main à main à leurs enfans, ainsi que ion a pu voir de nostre rido Carlos Magno, dix: 'Cançöes bárbaras e antiqtklssimas, nas quais os feitos e as
temps par l'exemple de barbares habitans és terres neufres Occidentales, qui sans guerras dos amigos reis cram celebrados, escrevi e guardei para a memótia' Apre-
conserve d'aucunes lettres avoyent la cognoissancedes choses advenues bien huit cent sentarei outro exemplo nao menos nobre. Nas novas, isto é, nas recentemente
ans auparavant"). descobertas Lihas das Indias Ocidentais, dizem que há homens tao iletrados e,
14. S. Fox Morzillo, De historiae istitutione. Dialogus (Antuérpia, 1557), p.
todavia, tao cultores das letras e dos Deuses, que quando souberam que os nossos
i I r-1 2r; essa passagem me foi assinalada anos atrás por Alessandro Taverna.
Cristaos, corn os ausentes, conversavam entre si por carta, de modo que um
15. "A Paris, de ¡'imprimerie de Michel de Vascosan, demeurant rue Sainct
entendia o outro, corneçaram a adorar as cartas fechadas nas quais diziam estar
Jaques, 155?'; do tradutor, conhecemos apenas as iniciais, C. D. A. guardado algum génio mensageiro divino. Eles, homens tao iletrados, conservam
16. Artis historicac penus, ed. de J. Wolff (Basiléla, 1579), i, pp. 593-742; ao
a historia de muitos séculos e a memOria de seu poyo, em parte ao acaso, corn
tratado de Bauduin seguia-se o de Fox Morzillo, De historiae istitutione. Cf. D. R.
alguns símbolos forjados, como os Egipcios corn seus sinais hieroglíficos, em
Kelley, Foundations ofmodern historicalscholarship. Language, law,
and history in
parte corn suas cançöes, que uns ensinam aos outros e cantam repetidamente nas
the French Renaissance (Nova York/Londres, 1970), pp. 1 16-48; M. Turchetti, suas danças, as quais chamam de areyto? ("etquod Germanis (utde alus nunc non
Concordia o tolleranza? François Bauduin (1620-1573) e i "moyenneurs" (Gene-
loquar) ohm accidit, multis populis accidisse. Corn. Tacitas ait veteres Germanos
bra, 1984).
ignorassequidern secreta litterarum, sedanniquis carminibus usas esse,fuissequehoc
17. Ph. Sidney, Correspondence, ed. deA. Feuillerat (Cambridge, 1923), pp.
unum apud eos memoriae et annaliurn genus. Unde et ¡ib. JI loquens de Arminio:
130-3,esp.p. 131. Canitur (inquit) udhuc barbaras apudgenres, Graecorum annalibus ignotas. Quid
18.Bauduin,in Artis historicaepenus,i, p.665-6:"Depois quea história tiver
igitur tandem?Eginhardus, bonusprofecto rius rei, quam dicere nunc volo, testis, de
descrito algum feito corn todas as suas particularidades, se bem que circunscrita a suo Carlo Magno: Barbara (inquit) etantiquissima carmina, quibus veterum regum
urn limite generoso. gostaria que a cingisse certo coro erudito de todas as letras: actus et bellica canebantur, scripsin memoriaeque mandavit. Recitabo airerum non
todavia nao mduzirei os novos oradores a exagerar no que depois será apresen-
minusnobileexeniplum. In novis, hocest, nuperrepertislndiaeOccidentalisinsulis,
tado ao público. Pois as ampliflcaçóes e excursos de hornens ociosos que, como os nani dicuntur esse hommes illiterati, et literarum tarnen, tanquam Deorum culto res,
poetas e os pintores. arrogarn para si o direito de ousar e fingir o que quer que seja, ut curn audirent riostros ibi Christianos alioqui absentes, sic inter sese per epistolar
devern ser nao menos censurados que as alegorias ineptas dos ineptos bajulado-
colloqu ut alter alterum intelligat, epistolas ilias clausas adorarint, in quibus dice-
res" ("Posteaquam historiafactum aliquod descripserit cum suis circumstantiis, etsi batir inclusum esse aliquem divinum internuncium geniurn. 1111 (inquam) tam illi-
earn liberali custodia septam, vellem cingeret omnium literarum eruditas quidam reran hommesmultorum seculorum hisroriatn suaegennis niemoriamque conserva-
chorus: tarnen rherores novos ad id, quod recitatum erit, exaggerandurn non mvi- runt, partim quibusdam temere effictis synibolis, utAegyptii riotis Hieroglyphicis,
tabo. Nani amplifican ones atque excursiones ociosorum hominuin, qui, ut poeta et
partim suis cantionibus, quas alu alios docent, et in suis choraeis cantillant, quales
picrores, quidlibet audendi arque fingendipotestatem sibi arrogant, non minus cho ros vocant areytos".
quarti ineptas allegorias ineptorum concionatorurn, praecidendas esse senno"). 21. A. Moinigliano,"Perizonius, Niebuhr e il carattere della tradizione
Sobre o dito de Horácio, cf.A. Chastel,"Le Dictum Horatiiquidiibetaudendipotes- romana primitiva", in Journal of Roman Studies (1957), agora in Sui fondamenti
tas et les artistes (xnle-xvle siècles)", in Fablesformesfigures (Paris, 1978), pp. t,
della storia antica (Thrim, 1984), p.271-93. Ap. 270,
g
6, Momigliano atribui a
363-76. Justo Lípsio a combinaçao de Tácito e Eginhardus que na verdade lora sugerida
19. 'Furchetti, Concordia, pp.209-to passim.
por Bauduin.
20. Bauduin,Artis hi stori caepenus, i, pp. 648-9:"e oque aos Germanos (para
22.E. Benveniste, Le vocabulaire des institutions indo-européennes (Paris,
agora näo Mar de outros) aconteceu outrora, a muitos poyos tambérn aconteceu.

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1969); traduçáo italiana: Il vocabolario delle istituzioni indoeuropee (Thrim,
erpolicez par loix, constitutions et coustumes, mais non pas semblables et pareilles
1976), pp. 64-75, esp. p. 68. [Ha traduçao brasileira: O vocabul4rio das institui-
1,

¡oie ou coustumes").
çöes indo-europé.ias (Campinas: Unicamp, 1995) voI. 1.J
32. Cf. Chapelain, Opuscules critiques, ed. A. C. Hunter (Paris, 1936),p. 222;
23. Bauduin, Artis historkaepenus, i, p. 623: "Et non erimus tam degeneres,
e veja-se a respeito meu"Fiction as historical evidence.A dialogue in Paris, 1646",
ut ne audire quideni velimuspatriac hisroriae carmen? Caeterum Id intelligere non
in The Yale Journal ofCriticism 5 ( 1992), pp. 165-78. CI. igualmente J. B. Fischer
possumus, nisi si et eorutn, qui barbari dicuntur, memoriam tenea,nus. Si Galli, vel
von Erlach, Entwurfeiner historischen Architectur in Abbildung unterschiedener
Britanni, ve! Germani, ve! Hispani, ve! Itali sumus, ut de nostris loqui possimus,
necesse est nos Francoruin, Anglorum, Saxonum, Gorhorum, Langobardorum his-
berühmten Gebäude desAltertums undfremder Völker (1721), introduçao: "Os
toriam non ignorare. Cumque nostri cum Saracenis et Turcis saepe congressi sint, ne desenhistas veräo que os gustos das naçôes nao diferem menos na arquitetura que
nescire quidem licetSaracenicam et Turci cam". na maneira de vestir ou de preparar os alimentos, e, comparando uns aos outros,
24. Kelley, Foundations, N. Edelinan, Attitudes poderao fazer urna escoffia judiciosa. Finalmente, perceberao que, na verdade, o
of seventeenth-century
France toward the MiddleAges (Nova York, 1946). costume pode autorizar cestas bizarrias na arte de construir, como são os orna-
25. [G. Puttenham] , The arte ofenglish poesie (Londres, I 589; reed. Mens- mentos à vista do gótico, as abóbadas de ogiva corn arco agudo, as torres de igreja,
ton, 1968), t,v, p.7. os ornamentos e os tetos à indiana, sobre as quais a diversidade de opinióes é täo
pouco sujeita à disputa quanto a dos gostos" I"Les dessinateurs y verront, que
les
26. Id., ibid., p.251.
de
27. C. Ginzburg, "Montaigne, cannibals and grottoes' in History andAn- goûts des nations ne difèrenfpas moins dans l'architecture, que dans la manière
thropology6 ( 1993) pp. 125-55, eap. pp. 146-8. s'habiller ou d'aprêterles viandes, et en les camparant les unes auxautres, ils pouront
28. [G. Puttenhain], op. cit., pp. 209-10. Cf. D. Hay, "Italy and barbarian enfaireun choixjudicieux. Enfin ilsyreconnoitrontqu'à la véritélusagepeutautho-
Europe' in E. F. Jacob (org.), Italian renaissance studies. A tribute to the late Ceci- riser certaines bisarreries dans l'art de bâtir, comme sont les ornaments ò jour du
lia M. Ady(Londres, 1960), pp. 48-68. Gothique, ¡es voûtes d'ogives en tierspoint, les tours d'Eglise, les ornements et les toits
29. E. Norden, La prosa d'arte antica, traduçao italiana de B. Heinemann à l'indienne, où la diversitédes opinions estaussipeu sujete à la dispute, que ccl ledes
Campana (Roma, 1988), u, pp. 875-6, n. 90; mas todo o apèndice sobre a história goûts"I; cf. Occhiacci di legno, ed. cit., p. 143.
da rima (pp. 815-912) é fundamental. Cf. igualmente L. A. Muratori, Antiquitates 33. Cf. o comentário seco de L. Magnus, organizador da antologia Docu-
italicaem (Mediolani, 1740),diss. xi., De rythmica veterumpoesietorigineltalicae ments IllustratingElizabethan Poetry, bySir PhilipSidney, GeorgePurtenham, Wi!-
poe.seos, col. 683-712; e cf Norden, Laprosa, p. 815, nümero 1. ham Webbe (Londres, 1906), p. 128, nota 7: "A tese esposta neste capítulo aäo é
30.[Puttenham),op.cit.,p. 11. convincente. Se a rima nao é outra coisa senâo um expediente mnemónico de sel-
31 .Cf. meu "Montaigne, cannibals and grottoes' Mas teja-se Santo Agosti- as
vagens desprovidos de escrita, útil no sentido em que a nudez é mais útil que
nho, doctrina christiana ¡n, 20: 'Assim, corn efeito, vestir túnicas até os torno-
De roupas, a defesa da rima se destrói sozinha. Major antiguidade näo significa
zelos e corn mangas era urna infârnia entre os amigos romanos; hoje em dia, por necessariamente arte major".
outro lado, para os nascidos nurn lugar idóneo, quando vestem túnicas, nao té-las 34, [Puttenharnj, op. cit., p. 257.
desse modo é que é urna infmia" ( "Sicut enim talares et manicatas tunicas ha bere 35. M. H. Abrams, The mirrorand the lamp. Romantic theory and the enti-
apud Romanos veteresfiagitium erat, nunc aufem honesto loco natis, cum tunicati caltradition (Oxford, 1953),pp. 273-4.
sun t, non eus ha be re flagitium ed'). Cf. tambérn P. Ayrault, Discours de la nature, 36. F.Yates, Giordano BrurwandtheHermeticTi'adition (Chicago, l964),pp.
va riet et mutation des loi in F. Grimaudet, Paraphrase du droict de retraict ligna-
275-90. [Ha traduçäo brasileira: Giordano Bruno e a tradiçäo hermética (São
ger, recueillie des coutumes de France (Paris, 1567): "Os homens vivem em todos os Paulo: Cultrix, 1988).J
paises, mas nao da mesma carne e do mesmo alimento; do mesmo modo, nao 37. [Puttenham] , op. cit., pp.218-49.
houve lugar em que nao fossern regidos e regrados por leis, constituiçoes e costu-
38. S. A. Tannenbaum, Samuel Daniel, a concise bibliography (Nova York,
mes, mas nao por leis semeihantes ou iguals" ("L.es hommes vivent en tous pais,
1942); M. MacKisack,"Samuel Daniel as historian", in The Review ofEnglish Stu-
mas non pas de la inesme viande et nourriture; aussi n'a il lieu, ou ilz ne soyent regia
dies xxiv (1947), pp. 226-43; C. Seronsy, Samuel Daniel (Nova York, 1967); P.

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Spriet, Samuel Daniel ( 1563-1619). Sa vie, son oeuvre (Paris, 1968); J. L. Harner,
3. BM BUSCA DAS ORIGENS [pp. 64-90]
Samuel DanielaudMichael Drayron, a referenceguide (Boston, 1980).
I. L. Sterne, The life and
opinions ofrristram Shandy, gentleman, ediçâo de
39. Cf. The works ofThomas Campion, ed. de W. R. Davis (Londres, 1969),
G. Petrie, corn urna introduçào de C. Hicks (Harmondsworth, 1984), pp. 453-5,
pp. 287-3 17; G. Saintsbury, A history ofenglish criticism (Edimburgo/Londres,
191 1; reed. 1962), pp. 39ss, 7Oss; E. Lowbury, T. Salter, A. Young, Thomas Cam- 424. [Citado segundo a traduçâo brasileira de José Paulo Paes: A vida cas opiniôes
do cavalheiro Tristram Shandy (São Paulo: Companhia das Letras, 1991 ).1
pion, poet, composer, physician (Londres, 1970), esp. pp. 76-89; D. Attridge, Well-
2. V. Chklóvski, Una teoria dellaprosa (Bari, 1966), pp. 143-78, cap. p. 178.
weighe4 syllables: elizabethan verse in classical metres (Cambridge, 1974); W. R.
Davis,Thomas Campion (Boston, 1987), pp. 104-13. 3. Sterne, Tristram Shandy, pp. 201. Seria possivel acrescentar Montaigne à
40. S. Daniel, A panegyrike with a Defence ofRynie (Menston, 1969), c. G6v. lista: cf. J. Lamb,"Sterne's use ofMontaigne". in ComparativeLiterature32 (1980),
Sobre o livro da riatureza, cf. Curtius, op. cit., pp.319-26. pp. 1-41.
4 . Daniel, op. cit.: "Os gregos consideravam bárbaras todas as naçòes,
1 4.T. W. Jefferson,"Sterne and the tradition oflearned wit", in Essays in Cri-
exceto a sua própria, e todavia Pirro, ao ver a martha bern-ordenada dos roma- ticism I (1951);W. C. Booth,"The self-conscious narrator in comic fiction before
nos, que ¡he revelou seu erro presunçoso, disse que aquele modo de se conduzir Tristram Shandy", in Publications ofthe Modern Language Association 67 (1952);
era tudo, menos bárbaro"; cf. J. I. M. Stewart, "Montaigne's Essays and A Defence B. L. Greenberg, "Sterne and Chambers' Encyclopaedia' in Modern Language
ofRyme' in Review ofEnglish Studies tx ( 1933), pp. 3 1 1-2. A importância dessa Notes69 ( 1954), pp. 560-2.
passagem escapou aos estudiosos mais recentes: R. Helgerson,op. cit., pp. 25-40, 5. Sterne, Tristram Shandy, p. 20 , para urna remissáo à Andlise da beleza
1

analisa a discussäo sobre a rima na era elisabetana scm mencionar Montaigne.


( 1753) de Hogarth, cujo moto, tirado do Paraisoperdido de Milton (ix, 516-518),
Em contraste, cf. Spriet, op. cit.
alude à beleza da serpente, isto é, de Satanás. O moto de Kent é mencionado por
42. M. de Montaigne, The essayes or rnora!4 politike and millitarie discourses
Walpole, em seu History ofmodern taste in gardening, corn introduçáo de J. D.
[...] Thefirstbooke (Londres, 1603). 0 poema de Daniel é dedicado"Ao meu caro
Hunt (Nova York, 1995), p. 49; cf. M. Jourdain, The work ofWilliam Kent (Lon-
irmào e amigo sirJohn Florio".
43. J. Feit, Shakspere audMontaigne. An endeavour to explain the tendency of dres, 1948), pp. 20-4. Sterne naturalmente conhecia o chamado ha-ha inspirado
nas fortificaçôes, isto é, um fossa que circundava o jardim e substitula os muros,
Hamletfrom allusions to contemporary works (Londres, 1884), pp.61-2.
44. R. Romeo, Le scoperte americane nella coscienza italiana del Cinquecento e que foi considerado o "golpe de mestre" de Kent; cf. Jourdain, op. cit., pp. 74-5,
a propósito de Le Blond, Gardening, traduçao de G. James (Londres, 1712). Sobre
(Nápoles, 1971).
45. C. Dionisotti, Europe insixteenth centuryitalian literature The taylorian o ha-ha, vejam-se as brilhantes observaçoes de G. Carabefli, Intorno a Hume
lecture, I 1.02. 1971 (Oxford, 1971 ), pp. 18-9, republicado in Lezioni inglesi, ed. T. (Milao, 1992), pp. 83ss.
Provvidera (Turim, 2002). mtroduçäo a esse tema fundamental, consulte-se W. B. Piper,
6. Para urna
46. Cf. F.A. Yates, John Florio (Cambridge, 1934), p. 89. Sobre a
traduçao de "Ttistram Shand/s digressive artistry", in Studies in English Literature 1.3 (verso
Florio, veja-se amda F. O. Matthiessen, Translation: An elizabethan art (Cam- de 1961), pp. 65-76.
bridge, l93l),pp. 103-68. 7. Sterne, Tristram Shandy, pp. 616-7. Cf. também G. Petrie, ibid., p. 617:
47. Cf. S. Daniel, Poemsanda defenceofryme(ChicagofLondres, I 930; reed. "Sterne serve-se deste último conceito [a associaçäo de idéiasj para explicar boa
1972), p. xxxv, onde o editorA. C. Sprague recorda urna passagem da History dc parte dos comportarnentos excêntricos e dos discursos de seus personagens, bem
Daniel (iv, 21 3) sobre as"imponentes estruturas"erigidasno século xii por Roger, como para justificar grande parte dos saltos bruscos no tempo e no espaço que se
bispo de Sarum: "testemunho de sua magnificencia e de seu espirito aberto, verificam no romance". Cf. P. M. Briggs, "Locke's essay and the tentativeness of
escrito em notas de pedra' Tristram Shand/', in Studies in Philology82 ( 1985), pp. 493-520. Chamadas à pm-
48. G. Saintsbury op. cit., pp. 39ss, 7Oss.
dthcia forain formuladas por D. Maskell, "Locke and Sterne: or, can philosophy
49. F. Braudel, Civilisation matérielle économie et capitalisme, XVI-XVII?
influence literature?". in Essays in Criticism 23 ( 1973), pp. 22-39;W. G. Day,"Tris-
siècles, voL 3: Les temps du monde (Paris, 1979), p. 302.

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tram Shandy. Locke may notbethe key in V. G. Myer (org.), LaurenceSternc rid- kritische Untersuchung des Artikels 'Lipsius (Lipse, Juste)", in Lias 20 ( i 993),
dies and mysteries (Londres, I 984), pp. 75-83. pp. 193-226. Cf. em geralA. Grafton, Thefootnote. A curious history (Cambridge,
8. Sterne, Tristram Shandy, p. 39. Mass., 1997).
9. K. MacLean) John Locke and english literature ofthe eighteenth century 17. Digestum Vetus (Veneza: Nicolaus Janson, 1488-90), c. b recto.
(New Haven, 1936), p. 1 7, que cita W. L Cross, Life and tim ofLaurence Sterne I 8. Des Maizeaux,«The life ofmr. Bayle", in P. Bayle, Thedietionaryhistori-

(New Haven, 1929), pp. 301-92, que por sua vez cita D.-]. Garat, Mémoires histo- cal and critical, traduçâo de Des Maizeaux em cinco volumes (Londres, 1734-
riques sur leXVIIIème siècle, et sur M. Suard (Paris, 1821), vol. u, pp. 148-9. CI. 1738), vol. i, p. i.xxvi. Esta remissào, corno as seguintes, refere-se à traduçâo
tambm J.-CL David, «Un voyage en Suisse en 1784: Quatorze lettres inédites de Dic-
inglesa consultada por Sterne; as traduçòes foram feitas a partir da ediçâo do
Jean Baptiste Antoine Suard et de sa femme", in Studies on Voltaire and the Eigh- tionnairehistorique etcritiquepublicada na Basiléia em 1 74 I , em quatro volumes.
teenth Century292 ( 1991 ), pp. 367-422. 19.As implicaçoes dialógicas (e portanto, dirla eu,potencialmente narrati-
lo. Garat,
op. cit., pp. 148-9: "Aqueles que sabem reconhecer essa filosofia vas) da nota de rodapé foram notadas corn perspicácia por H. Kenner, Flaubert,
hi onde cia se encontra e discretamente dirige tudo saberào dar por da em cada 39-41.
Joyce and Beckett. The stoic comedians (Londres, 19M), pp.
página em cada linha, em cada palavra; essa filosofia religiosa demais para ousar 20. Doherty, art. cit., p. 343. Cf. Bayle, Thel)ictionaty,verbete«Vayer (Fran-
explicar o milagre das sensaçoes, mas que, nao obstante, por melo desse milagre, cis de la Mothe le)' nota E, vol. y, p. 422 (Dictionnaire,voL iv, p. 410).
de que näo pede explicaçao a Deus, desvela todos os segredos do intelecto, evita 21. E. Labrousse, PierreBayle (Hala, 1963), vol. t, pp. 150-1, 253.
os erros, atinge as verdades acessfveis; essa filosofia sagrada, scm a qual näo seriam 22. Bayle, The Dictionary, vol. y, pp. 837-58 (Le Dictionnaire, vol iv, pp.
possiveis nem urna verdadeira religiao universal, nem urna verdadeira moral, 637-54).
nern um autentico dominio da espécie humana sobre a natureza' 23. Molière, La critique de ¡'École desfemmes, in Oeuvres, ediçao de E. Des-
mot
I I . Consulte-se a
respeito B. McCrea, "Stories that should be true? Locke, pois (Paris, I 876),vol. tu, pp. 325-6:" Uranie'Non, vraiment. Elle neditpas un
Sterne, and Trisrram Shand/ in M. New (org.) Approaches to teaching Sterne's qui desoi nesoitfort honn&; etsi vous voulez entendre dessous quelque autre chose,
Tristram Shandy (Nova York, 1989), pp. 94-100, esp. p. 98. c'est vous quifaites l'ordure, er non pas elle, puisqu'elle parle seulement d'un ruban
ce le où elle s'arrête
12. Sterne, Tristram Shandy, pp. 202-3.
qu'on lui a pris Climène 'Ah! ruban tant qu'il vous plaira, mais
13. J.'fraugott, Tristram Shandy's world. Sterne»hilosophicai rhetoric (Ber- n'est pas mis pour des prunes. il vient sur ce le d'étranges pensées. Cc le scandalise
keley/Los Angeles, 1954), pp.30,45,40. furieusement et, quoi que vous puissiez dire, vous ne sauriez défendre l'insolence de
14. F. Doherty «Bayle and Tristram Shandy. 'Stage-loads ofchemicai nos- ce le' Elise '11 est vrai, ma Cousine, je suis pour Madame, contre ce le. Ce le est inso-
tru,ns andperipateticlumbe,", in Neophilologuss8 ( I 974), pp. 339-48, esp. p. 339. lent au dernierpoint, er vous avez tort de défendre ce le Climène 'Il a une obsceniti
in
Parece-me significativo que o ensaio näo seja mencionado no já citado Approa- qui n'estpas supportable...'". «Molière jamais é lúbrico", afirmou Auerbach
ches to teaching Sterne's Tristram Shandy, colet.nea publicada pela Modern Lan- Mimesis ('l\iriin, 1953), p. 399: julzo que, ao menos desta vez, nao soa convin-
guage Association of America. cante. [Hátraduçao brasileira Mimesis (São Paulo: Perspectiva. 1976).]
i 5. «Je ne sais ce que c'est de méditer reguiièrenient sur une chose jeprens le 24. Bayle, The Dictionary, vol. y, p. 842 ( Dictionnaire, vol. iv, p.641).
changefort aisérnent;je m'ecarte très-souvent de mon sujet; je saute dans des lieux 25. Sterne, Tristram Shandy, pp. 450- I . Cf. também Carabelli, op. cit., pp.
donton auroitbien de lapeine à deviner ¡es chemins. etjesuisfortpropreàfaireper. 128-9, que fala de censura e espaços brancos citando Coqudey de Chaussepierre,
"
drepatience à un Docteur qui veut de la méthode et de la regulnritépartozd' -P. Le roué vertueux ( I 770), que nao pude 1er. Cf. igualmente R. Alter, Tristram
Bayle, Oeuvres diverses ( I 737), vol. w, p. 9, apud R. Whelan, The anatomy of Shandyand the Game ofLove", in American Scholar37 ( 1968), pp.316-23.
superstition. A study of the historical theory and practice ofPierre Bayle (Oxford, 26. Sterne, Tristram Shandy, p. 609. Cf. também Chklóvski, op. cit., pp.
l989),p. 185. 174ss, a propósito de eufemismo e estranhamento.
16. E.Cassirer, La filosofia dell'illuminismo (Florença, l935).pp. 283ss. [Ha 27. Sterne, Works (Dublin, 1774), vol. iv, p. 264, sermäo xvm, sobre Juizes,
traduçâo brasileira: A filosofia do iluminismo (Campinas: llnicamp, 1995).1 Cf. 12,1-3.
M. Völkel, «Zur 'Text-Logik' im Dictionnaire von Pierre Bayle. Eine historisch- 28. Cf. E. H. Gombrich,Artand iilusion.A study in the psychologyofpictorial

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representation (Londres, 1962),pp. 154ssa propósitodeA. Cozens, A new method 40. Sterne, Tristrarn Shandy, p. 492, trecho citado também por R. Gorham-
ofassisring the invention in drawing original composition oflandscape- um
Davis,"Sterne and the delineation ofthe modem novel", in Cash e Stedniond, The
desenvolvimento pictórico ligeiramente posterior (1783) da interaço entre
artista e público. winged skull, pp.21 -41, esp. p. 32.
41. Hume,A treatise, i.4.6,p.252.Cf. também Carabelli,op.cit.,p. 140,onde
29. Cf. por exemplo Sterne, Trístrani
S/sandy, pp. 122-3. se aproxima a Hume A viagem sentimental de Sterne.
30. Sterne, TristramShandy,p. 286. Cf. Chklóvski, Una teoria
dellaprosa,op. 42. Hume, A treatise, 1.4.6, p.262.
cit., pp. 143-4; J.-J. Mayoux,"Variations on the time-sense in Tristram Shandy' in
43. Bayle, Thedictionary,vol. iv, verbete"Nestório" notaA, p. 347 (Diction-
A. H. Cash e J. M. Stedinond (orgs.), The winged skulL
Papersfrom the Laurence
flaire, vol. tu, pp. 490- 1). Cf. Whelan, op. cit., pp. 3 isa.
SterneBicentenary Conference ( Londres. 197 1 ), pp. 3-18, esp. p. 14.
31. 1. Watt, The rise ofrhe novel. Studies in Defoe, Richardson and
44. Sterne, Thstram Shandy, p. 108.
Fielding
(Londres, l967),p. 292 [ha traduçaobrasileira: A a.ccensäodo romance(So Paulo: 45. Sterne, Tristram Shandy, p. 500; cf. tambérn Watt, Tite' rise ofthe novel,

Companhia das Letras, 1990)J,que remete a J.11augott, Tristram Shandy's world, ed. cit., p. 291.
e E. Thveson, The imagination as a means ofgyace (Berkeley/Londres, 1960).
32. Sterne, Tristram Shandy. p. 576. Cf. igualmente
Bayle, The Dictionary,
' SEU LEITOR POLONfS pp. 91-113]
voLv,verbete"Zenão de Eléia",nota K, pp.618-9 (Dwtx onnaire,vol. iv,pp. 545-6). 4. TUSITALA E

33. 1. Watt, "The comic syntax of Tristram Shandj/', in H. Anderson e S.


J.
Shea (orgs.), Studies in criticism and aesthetics, 1660-1800. Essays in honor I . The works ofRobert Louis Stevenson, Swanston Edition (Londres, 1912),
of
Samuel HoitMonk (Minneapolis, I 967), pp.315-31. doravante Works, vol. xviii, pp. 414ss; Letters toyoungpeople: to miss B... (Vailima
34.R. H. Popkin,«Bayle and Hume'in Thehigh roadtopyrrhonism,aoscui.. Plantation, primavera de I 892), p. 418, assinada"Tusitala lAquele que conta his-
dados de R. A. Watson e J. E. Force (San Diego, 1980), pp. 149-59. tóriasi "; seguem-se duas cartas assinadas por"Tüsitala"; id., The letters, ediçäo de
35. N. Kemp Smith, ThephilosophyofDavidHume (Londres, 1941), sobre- B. A. Booth e E. Mehew (New Haven, 1994-1995), doravante Letters, vol. vu, p.
tudo o apthdice C ("Bayle"), pp. 325-38. Cf. também G. Paganini, "Hume et 300, nota 2415: em malo de 1892, informa a Sidney Colvin que os nativos o cha-
Bayle: conjonction locale et immaterialité de l'âme", in De ¡'Humanisme aux mam de«alii Tusitala'Y'o chefe que escreve as informaçóes"
Lumières, Bayle et leprotestantisme. Mélanges en l'honneur d'Elisabeth Labro tuse 2. Leuers, voL vn, p. 95, n. 2307.
(Oxford, 1996),pp. 701-13. carta a Sidney Colvin, 28 (?) de dezembro
3. Letters, voL vu, p. 461 , n. 25 1 4,
36. Bayle, The Dictionary. vol. iv, verbete "Pirro", nota B, 654 (Diction- de 1893,Vailima.
p.
naire, vol. "
III,
pp. 732-3). 4. Citamos a partir do texto de The bottle imp" in Works, vol. xvii.
37. Cf. por exemplo Bayle, The Dictionary, vol. v,"Elucidaçao : Como se 5. The Works, voL xvii, p. 274.
deveinterpretar o que sedisse sobre as objeçoes dos Maniqueus' pp. 81 5-29 (Dic- 6. Letters, vol. vn, p. 436, carta a Sidney Colvin, dezembro de 1892.
tionnaire, vol. iv, pp.620-31). "
7. Cf. por ecemplo R. L. Stevenson, The bottle imp' in The strange case of
38. Cf. D. Hume,A treatiseofhuman nature [Londres, I 7391 ediçâo de L.A.
Di Jekyll and Mr. Hyde and other stories, ed. de C. Harman (Londres, 1996), pp.
Selby-Bigge (Oxford, 1955), r!I.2.5,pp. 524-5. [Ha traduçao brasileira: O tratado 225-50.
da natureza humana (Sào Paulo: Editora Unesp/Imprensa Oficial, 2001 )4 Con-
8. Grimmeishausen Werkein vierBünden (Weimar, 1964),vol. ni: TrutzSim-
suite-se igualmente Carabelli, op. cit., pp. 156-7, nota i 8, sobre a Eucaristia.
ple:c, oderAusführliche und wunderseitsame Lebensbeschreibung derErzbetrügerin
39. Bayle, The Dictionary, vol. w, verbete "Pirro", nota B, p.654 (Diction-
und Landstörzerin Couräsche..., cap. xviii, pp. 84-90; cf. A. Ludwig, "Dahu, Fou-
flaire, voL ¡u, p.732-3). Urna análise mais recente do diálogo entre os dois abades,
notável pela absoluta falta de perspectiva histórica, ignora a leitura que Hume fez qué, Stevenson", in Euphorion 17 ( 1910), pp. 606-24, esp. pp. 613ss.
9. En The acting national drama (Londres, 1838), vol. ii, organizado por B.
de Bayle: T. M. Lennon, "Bayle's anticipation of Popper' in Journal of the History
Webster cf. J. W. Beach,"The sources ofStevenson's 'The bottle imp" in Modern
ofIdeas (1997), pp. 695-705.
LanguageNotesvol.xxv (janeiro de 1916). Os dados eruditos foram reunidos por

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'33
K.irt1ey,The devious genealogy ofThe bottle imp' plot", in American Notes
B. F. 1975),vol. i,pp. 86- 101 ; S.Weber, UnwrappingBalzac.A readingofLapeau de cha-
and Queries9 (janeiro de 197 ), pp. 67-70.
1
grin (Toronto, 1979), examina a questào de um ponto de vista inteiramente
10. Letters, vol. iv, p. 97, n. 1083, carta aW. E. Hen1ey abril de i 883. diverso.
i 1.Apudßcach, op. cit.,p. 13. 27. Letters,vol. i, n. 96, pp. 219ss, carta a Charles Baxter, Edimburgo, 28 de
2. P. Brooks, The melodramatic imagination. Balzac, Henry James, melo- marçode 1872.
drama and the mode ofexcess (New Haven/Londres, 1976). 28. M. Proust, Pastiches et mélanges (Paris, 1948), pp. 11-87.
13. CLPropp, Morfologia dellafiaba (Turim, 1997), p. 1 13. Cf. F. Moretti, 29. Letters, vol. iv, n. 1 148, pp. 168-9, 30 de setembro de 1883.
Atlantedel romanzo europeo, 1800-1900 (Torino, 1997),p. i 13. [Ha traduçoes bra- 30. F. Orlando, Ricordo di Lampedusa Ç'lXirim, 1996), pp. 45-7.
sileiras: Morfologia do conto maraviihoso (Rìode Laneiro; Forense, 1984) eAtlasdo 31. Stevenson,"The bottle imp", in Works,vol. xvn,pp. 232, 235-6.
romance europeu 1800-1900 (Sao Paulo: Boitempo, 2003).J 32. Balzac, op. cit., p. 57.
14.Beach,op.cit.,p. 14,notal0. 33. Popular tales and romances ofrhe northern nations (Londres, I 823),
15. G. Lukács, Il marxismo e la critica letteraria (Turim, 1964), p. 395. p. 107.
16. P. Brooks,op. ciLp. 86. Cf. iguahnenteA. Pieyre de Mandiargues, intro- 34. T. Roscoe, Thegerman novelists, s. d., pp. 294-3 lO.
duço a Balzac, Lapeau de chagrin (Paris, 1974), p. 13; Brooks, op. cit., pp. 14-5. 35. B. Malinowski, A diary in the strict sense ofthe term, traduçäo de N.
17. Balzac. op. cit., p. 53: "Cette vision avait lieu dans Paris, sur le quai Vol- Guterman (Stanford, 1989), doravante A diary e The story ola mariage. The let-
taire au dix-neuvième siècle, temps etlieuxoù la magie devaitétre impossible". te.rs ofBronislaw Malinowski and Elsie Masson, organizado por H. Wayne (Lon-
18. Balzac, op. cit., p. 53: "la maison où le dieu de l'incredulité française avait dres/Nova York, I 995), em dois volumes.
expiré [...1 agité par l'inexplicable pressentiment de quelque pouvoir étranger [...1 36. 1. M. Lewis, in Man, nova série,3 ( 1968),pp. 348-9.
cette émotion érairsemblableà celeque nous avons tous éprouvée devantNapoléon' 37. Malinowski, A diary, p. 99.
19. Balzac, op. cit., p. 289: "Quoi! [ ... j dans un sièclede lumières où nous avons 38. B. Malinowski, "Kula: The circulating exchange ofvaluables in the
appris queJes diamants sontles cristauxdu carbone, à uneépoque où touts'explique, archipelagoes ofEastern New Guinea", in Man xix (julho de I 920), pp. 47-105.
où la police traduirait un nouveau Messie devant les tribunaux et soumettrait ses 39. R J. Thornton, "'Imagine yourself set down...': Mach, Fraser, Conrad,
miracles à ¡'Académie des Sciences, dans un temps où nous ne croyonsplus qu'aux Malinowski and the role ofimagination in ethnography", in Anthropok,gy Today
paraphes des notaires,je croirais, moi!, à une espèce de Mané, Thekel, Pharès? ... J I , 5 ( 1985), pp. 7- 14.,
especialmente p. 11.
Allons voir les savants". 40. Urna alusao ao kula (nao mencionado explicitamente) da parte do rev.
20. Apud J. DeBois King, Paratextuality in Balzac's La Peau de Chagrin Gilmour in The British New Guinea annual reportfor 1904- 1905; ci Malinowski,
(Lewiston, I 992), p.21. Argonautsofthe Western Pacific (NovaYork, 1961 ), doravante Argonauts,p. 500.
2 Balzac, op. cit., p. 416 (introduçâo aos Etudesphilosophiques, 1834, assi-
1. 41. R. Flab (org.), Man and culture. An evaluation ofthe work of Bronislaw
nada por Félix Davin, mas reelaborada por Balzac); F. Moretti, Segni e stili del Malinowski (Londres, 1957),especialmente R. Firth,"The place ofMalmowski in
moderno (Turim, 1987), p. 200: "De resto, a oposiçâo entre a 'via reta' e a 'via the history ofeconomic anthropology", pp. 209-27; J. P. Singh Uberoi, Politics of
tortuosa' é um dos paradigmas principais de toda a obra de BaIzac' the kula ring. An analysis ofthefindings ofBronislaw Malinowski (Manchester,
I'
22. Brooks,op. cit.,p. 118. 1962); M.W.Young (org.), TheethnographyofMalinowski.The Trobriandislands,
23. Colloqui con MarxeEngels, organizadoporH. M. Enzensberger (Turim, 1915- ¡918 (Londres, 1979); J. W. Leach e E. R. Leach (orgs.), The kula. New peTs-
19T/),p. 245. pectives on rnassim exchange (Cambridge, 1983); R. Ellen, E. Geilner, K. Kubica e
24. Retomo urna famosa tirada de Baudelaire in "Théophile Gautier", in J. Mucha (orgs.), Malinowski between two worlds: Thepolish roots ofan anthropo-
Oeuvres complètes, ed. Claude Pichois (Paris, 1976), vol.11, p. 120. logical tradition (Cambridge, 1988); R. J. Thornton e P. Skalnlk (orgs.) The early
25. S. Petrey, «The reality of representation: Between Marx and Balzac", in writings ofBronislaw Malinowski (Cambridge, 1993), corn urna introduçâo rica
Critical Inquiry 14 (1988), pp. 448-68. em informaçöes.
26. K. Marx, Il capitale, livro i, traduçào italiana de D. Cantirnori ('Thrim, 42.Malinowski,Argonauts, p. 477.

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'35

I
43. The story ofa marriage, vol.
p. 48; cf. igualmente pp. 61 e 63 (Mali-
i,
60. 0 estudioso que mais se aproximou desse ponto é A. K. Paluch, "The
nowski procura recoiher informaçoes sobre o kula em Samarai e em urna ilha polish background ofMalinowski's work", in Man, nova série, 16 C 1981 ), pp. 270-
85. Mas consultem-se ainda algusnas referencias interessantes nas cartas de Mali-
vizinha, Sariba).
nowski a Elsie Masson, The story ofa marriage, vol. pp. 59, 65, 12 1-2.
t,
44. Malinowski, Argonauts, pp. 83-4 (grifos do autor).
61 . Malinowski, Argonauts, p. 235 (itálicos no original).
45. Malinowski, A diary, p.114.
62. P. Skalnik,"Bronislaw Kasper Malinowski and Stanislaw lgnacyWitkie-
46. L. Fleck, Entstehung und Entwicklung einer wissenschaftlichen Tatsache
wicz: Science versus art in the conceptualization of culture", in U . F. Vermeulen e
(1935). A.A.Alvarez Roldan (orgs.), Fieldworkandfootnotes: Studies in the history of euro-
47. The sro,y ofa marriage, vol. p. 37. Poucos dias depois (2 de novembro
pean anthropology (Londres, 1995), pp. 129-42, formula questöes interessantes,
i,

de 1917); "Nao acha que urna viagem marítima a dois seria magnifica, Bronio?
por mais que tenda a minimizar a importância da obra de Malinowski.
Voce sabe muito hem que R. L. S. navegava pelas lihas dos mares do Sul usando
63."The kula: An alternative view", in The kula. Newperspectives, pp. 529-
todo tipo de navios veihos, e mesmo assim tudo seguia seu curso normal, ele con-
38, esp. pp. 534, 536.
seguia conciliar amor, interesse e saúde" (p. 40). 64. Malinowski,Argonauts, p. 516.
48. Thestory ola marriage, vol. pp. 75-6.
i,
65. M. Mauss, Oeuvres, ediço de V. Karady (Paris, 1968- 1969), volume nl:
49. Malinowski,A diary, p. 199. Cf. igualmente Thestoryofa marriage, vol. "L'extension du potlatch en Mélanesie" ( 1920), pp. 29-31 ; "Une forme ancienne
I, p. 1 10, carta de Oburaku, I 3 de fevereiro de I 9 1 8: "Em Gusaweta li O agente
decontrat chezlesThraces" ( 1920),pp.35-43;"L'obligation à rendrelesprésents",
secreto de J(oseph) C(onrad). e me pareccu um 1Mo menor, até mesmo odioso".
pp. 44-5;"Gift" ( 1924), pp. 46-5 1;"Sur un texte de Posidonius: Le suicide, contre-

brio dos diários de Malinowski" -


Recentemente, M. W. Young escreveu que Coraçäa das trevasé«urn subtexto som-
cf. Malinowski's Kiriwina: Fieldwork photo-
prestation supreme" ( 1925), pp. 52-7; e ainda o "Essai sur le don", in Sociologie er
anthropologie (Paris, 1950), pp. 145-279. [Há traduçào brasileira: Sociologia e
graphy 1915- 1918 (chicago, 1998), p. 13. antropologia (São Paulo: Cosac & Naify, 2003).l
50. Vailinia letters: Beinga correspondenceaddressed byRobertLouis Steven-
son to Sidney Colvin, November 1890- October 1894 (NovaYork, 1 896), p. 61.
5 1 . Malinowski,A Thary, pp. 109- 10, 10 de novembro de 1917: «Pensamen-
tos lascivos... Quanto ao ftituro. E. R. M. é minha noiva, e mais, só eta existe para
mirn, ningum mais näo devo 1er romances, a nao ser que esteja doente ou em
depressäo profunda".
52. Malinowski,A diary, pp. 160-1.
53. Malinowski,A diary, p. 128, 23 de novembro de 1917, Malinowski faja a
Leonard Murray sobre"a importancia do meu trabalbo [...] Tentei me controlar
e lembrar que trabaihava corn vistas à imortalidade e que dar atençâo a essa gen-
talha simplesmente banaliza meu trabatho".
54. Malinowski,A diary, p.217.
55. Malinowski,A diary, p. 257 (it1icosno original). Cf. igualmente p.244,
5 de abril de 1918: «impressóes ligadas ao kula (mais urna vez sentimentos de ale-
gria etnográflca)'
56. Malinowski, A diary, introduço de N. Guterman, p. xxi.
57. Malinowski, Argonauts, p.211.
58. Malinowski, A diary, pp. 234-5.
59. E. Geliner, "'Zeno of Cracow' ou 'Revolution at Nemi' or 'The polish
revenge': A drama in three acts", in Malinowski between two worlds, pp. 164-94.

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i
Indice remissivo

Abrams, M. H., 58 Argonautas do Pacífico Ocidental (Ma-


Addison, Joseph, 12 Iinowski), 104,111,113, 135n
agente secreto, O (Conrad), [08, 136n Ariosto, Ludovico,46,48
Alexander, seu pseudomantis (Eras- Aristóteles, 48,83
mo),30 Arquiniedes, 67
arte da poesia inglesa, (Puttenham),
Allen, P. S., 32
55,59
Ambrose, conde dc Warwick, 45
Anis histori cae penus, 50
A,nphirheatrum sapientiae.. (Dor-
Ascham, Roger: e a rima, 46-8; ea tra-
navsus),35, 120n
diçáo cjássica, 44-8; e os inglesi ita-
Amyot, Jacques, 50 lianati, 45; Scholemaster, The, 44;
Anais (Tácito), 52 The Scholeinaster, 44,56
Anatomia da melancolia (Burton), 72
Ático, Tito Pompónio, 47
antecedentes literários: de Balzac, 96,
Auerbach, Erich, 14
97; de Malinowski, 108, 109, 110,
111, 112,113; de Sterne,69, 70-2, Bacon, Roger,61
77-8,85,88-9; de Stevenson, 94-5, Balzac, Honoré de: pele de onagro, A
98-101; deThomas More, 15,17- (La peau de chagrin), 95-7; antece-
9,21,23,25,28-35,37-42 dentes literários de, 89, 96-7; e
Antoine, rei de Navarra, 51 Marx, 97; e Stevenson, 98-102
arytos(cantos dos Indios da América), Bandello, Matteo, 45
49-50,52 "bárbaros", 55-6; cantos, 52; como

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hosres, 53,62-3; ea tradiçào dássi- Cave,Terence, 14
ca, 49-50, 54-5, 128n; versículos em argumentaçôes imaginarias), Durotetmus, Aldelmus, 62
Cazotte, Jacques, 95
rimados, 54 ceia das cinzas,A (Bruno), 60 35,39, 120n
Bartolo de Sassoferrato, 62 Cervantes, Miguel de, 69 Defesa dapoesia (Sidney), 49 Eginhardus, 52-6, 125n
Baudurn, François, 50-6,62, 124n Chapelain, jean, 57 Defesada rima(Daniel), 11,58,61,63 ekphrasis, 23
Baxter, Charles, 98 Della Casa, Figliucci, 78 Elizabeth i, rainha da Inglaterra, 44
Chaucer, Geoffrey, 48
"demônio da garrafa, O" (Stevenson), Elogio da loucura (Erasmo),29,35
Bayle, Pierre, 15; Dicionário histórico e Chklóvski, Viktor, 68
crítico, 11,72-4,76-9, 83, 85,89- Christus, Petrus, 25, 1 17; Retrato de 91-2, 108-9,112; antecedentes li- embaixadores, Os (Holbein), 40
90; e a Bíblia, 77,90; e a teologia um cartuxo, 24-5 terários, 93-5; como melodrama, Engels, Friedrich, 97
crista, 85-90; e Hume, 85,89, 132; 94; e Balzac, 99-101 ensaio, 11-4
Cícero, 18, 30, 47, 67; Brutus, 51; De
e Sterne, 72,88-9
Des Maizeaux, Pierre, 77 Ensaio sobre o entendimento humano
officiis, 18
Beach, j. w.» 95 Cirilo, 89 Descartes, René, 77 (Locke), 70-1
Beda, oVenerável, 61 Dezoito Brumário (Marx), 97 Ensaios (Montaigne), 13, 55; tradu-
Claxton,A. E., 91
Boccaccio, Giovanni, 45 Codex Mendoza, 50 diabo coxo, O (Cazotte), 95 çöes, 59
di4rio no sentido estrito do termo, Um Epicuro, 34
Bonaparte, Napoleao, 96 Colvin, Sidney, 91,94, 107-8
Bracton, Henry de, 61 Compagnon, Antoine, 14
(Malinowski), 102, 111 EpistolaeSaturnales (Luciano), 32
Braudel, Fernand, 63 Concilio de Êfeso, 89 Diciondrio histórico e crítico (Bayle), Erasmo, 61-2, 69; Alexander, seupseu-
Brooks, Peter, 95 I 1, 83, 85; apresentaçäo tipográfi- domantis,30;ea Utopía, 19,26,29-
Conrad,joseph, 103, 108, 136n
Bruno, Giordano, 58,60 Contes drolatiques (Balzac), 98 ca, 73, 76; busca pela verdade, 76- 30; Elogio da loucura, 29; tradu-
Brutus (Cícero), 51 7: como antecedente literário de caes de Luciano, 29-32, 20n
1
Confini, Gianfranco, 14
Budé, Guillaume, 19,33,37 Tristram Shandy, 72, 89-90; estru- Estado, I 7-8,27-8,38,61
Coraç4o das trevas (Conrad), 136n
Burton, Robert, 72 Coriolano (Shakespeare), 45 tura, 72; obscenidades em, 78-9; estrutura das revoluçôes científicas, A
Busleyden, jerome, 21,23,30 Coronel Chabert(Balzac),97 traduçao inglesa, 72,78 (Kuhn), 106
Diderot, Denis, 12 etruscos, 49
Critique de l'École des femmes (Mo-
Calvino, joào, 30,51 hère), 78 Digesto (coletânea de leis romanas), Euripides, 48
Campion, Thomas, 58 Cronosolon, id est Sasurnalium legum 75,77
cançòes, 49-56; como história, 49-52; lator (Luciano), 32 digressáo, 67,69,72,78,85 fabula (mito), 27-8,39
dos Indios da América, 49,52; em Diógenes, 83 Fausto (Goethe), 96
Dionisotti, Carlo, 29,60 Fernández de Oviedo y Valdés, G., 49-
lingua vulgar, 49,54 Daniel, Samuel, 15, 59, 61 -2; Defesa da
cantiones (cantos), 55 Discursosobreapoesia inglesa (Webbe), 50
rima, 11,58,61,63
58 festivus, 19,30-1,33
capital, O (Marx)» 97 Deinstitutionehistoriaeuniversaeeteius
Capitolo del forno (Giovanni della cum iurisprudentia coniunctione DocumentslllustratingElizabethan Poe- Figliucci, Felice, 48, 123
Casa), 78 (Bauduin), 50-1,63 try, 127n
Carlos Magno, 52,56 Doherty, F., 72,78 Galateo (Giovanni della Casa), 78
Delafilosofia morale libri dieci, sopra li
Carlos V, imperador, 50 dieci libri de l'Ethica d'Aristotile dois cavaiheiros de Verona, Os, 45 Garat, Dominique-joseph, 70
Carlos, o Calvo, 56 Dom Quixote (Cervantes), 69 Gellner, Ernest, 112
(Figliucci), 48
carmina, 51-2 De officiis (Cícero), 18 Dornavius, Caspar, 35, 120 Génese e desenvolvimento de um fato
Cartesius ver Descartes, René Deoptimo reipublicaestatu (More), 27 Dosfurores her&os (Bruno), 58 científica (Fleck), 106
declamatio (género retórico baseado Duns Scot, john, 62 Genette, Gérard, 25
Castiglione, Baldassarre, 58
duquesa deAmalfi, A (Webster), 45 german novelists, The, 101

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litteratiores (os mais doutos), 28,34 Mauss,Marcel, 113
Germania (Tácito), 52 Imagens (Filóstrato), 25 melodrama, 94-6
Livio, Tito, 45,49
Gilhis,Pieter,21,23,26,28,31,34, ltSn indigenas da América, 38,49-50,52 Locke, John: Ensaio sobre o entendi- Meredith, George, 109
Giunta, Filippo, 29 Informacian en derecho (...J sobre algu- mento humano, 70-1; influéncias Mil e urna noites, 95,97
Goethe, Johann Wolfgang von, 96 nas provisiones del Real Consejo de Molière, Jean-Baptiste, 78
literárias, 70
Gombrich, Ernst, 46 Indias (Quiroga), 38 Momigliano,Arnaldo, 52, 125n
Logan, G. M., 41
Grande transformaçao (Polanyi), 113 Inglaterra, 13; anticlassicismo, 53-5, Londres, 108 Montaigne, Michel de, 12-3, 15, 57,
Grande via rumo ao pirronismo (Pop- 58,61,63; descriçäo da, em Utopia 60-1, 128m Ensaios, 55, 60;"Sobre
Louvain ver Utopia: primeira ediçáo
kin), 132n (More), 41; identidade insular da, Luciani viri quam disertissimi complu- os canibais", 55,59-60
Greenblatt, Stephen, 40-1 44-5,60-1,63-4 rima opuscula longe frstivissima Montalembert, Charles de, 97
Grmimelshausen, Hans Jacob Chris- inglesi italianati, 45 More,Thomas, 11, 13, 17-21,23-42,
(Luciano), 29,31
toph von, 94 Inquisiçáo, 14 Luciano de Samosata: como inspira- 61-2, 64, 69; antecedentes litera-
Guterman, Norbert, 111 ironia, 26,31-2,34,38,67, 120n nos, 15, 17-9,21,23,25,28-35,37-
ço para a Utopia, 29, 31-5, 41,
Itália, 44-8,55 I 19n; história verdadeira, Urna, 42; e a ironia, 26, 31, 34, 38; e Lu-
Haggard, Rider, 108 34,41; Opuscula longefestivissima, ciano, 15, 29-35, 37-8, 40-1; e o
Hexter, J. H., 41 Jakobson, Roman, 43 29; Saturnalia, 32, 38; Toxa ri s, de paradoxo, 34, 41 ; e o uso do grego,
Histéria: em forma poética,49-50; sob James, Henry, 95 28,38
amicitia, 31; tradiçào literária, 15,
a forma de diário, 105; transmis- Justiniano, imperador bizantino, 77 29-35,38,4 1, 69; traduçoes, 29, 32, Morfologiadoconto naravilhow(Propp),
sáo oral, 49-54,62 95
120n
histó ria de Ariodanrç e Ginevra, A (A- Kent, William, 69, 129n Morzillo, Sebastián Fox, 50
Lyra, Nicholas de, 74
riosto), 45 Kipling, Rudyard, 109 Muratori, L A., 53
Historia general delas Indias(Oviedo), Kuhn,ThoniasS., 106 Mach, Ernst, 106
49-50 kula (sistema de troca em uso no Pad- narrativa: auto-consciència na, 68-70,
Magnus, L, 127n
história verdadeira, Urna (Luciano), fico), 103-6,109,111-3, l35n, 136n, 88, 107-12, 129n como melodra-
Malinowski, Bronislaw, 102- 13; Argo-
34,41 137n nautas do Pacífico Ocidenta4 104, ma,94-6;verdadena ficçao, 14,25,
Hogarth, William, 69 1 13; diario no sentido estritodo ter- 27-31,34,38,64
Holbein, Hans, Jr., 40 L'affaire Lemoine (Proust), 98 neoplatonismo, 58, 1 1 1-2
mo, Um, 102;diáriosde, 102-6,108-
Homero, 48 Labrousse, Elisabeth, 78 12, 136t; e a tradiçao intelectual Nestório, 89
Hopkins, Gerard Manley, 43 Lafargue, Paul, 97 New YorkHerald,91,93
polonesa, 106;eo kula, 103-6,109,
Horácio, 30,51 Lamb, Charles, 12 1 1 1-3, 136n; e Stevenson, 106-8, Nietzsche,Friedrich, 106
Howard, Sir George. 45 Lancelote, 57 136n nas ilhas Trobriand, 102, Nolano ver Bruno, Giordano
Hugo, Victor, 109 Leach, Edmund, 112 108, 111
humanistas, 18-9,23,61-2 Legenda áurea (Jacopo da Varazze), o lesulu Samoa, 91
mandrágora, A, 101
Hume, David: e a teologia crista, 86-7; 109
Observaçôes sobrea artedapoesia ingle-
Map, Walter, 61
eBayle,85,89, 132n;eo Tratadoda Lewis,C.S., 19,46
Maquiavel, Nicolau, 29, 109 sa (Campion),58-9
natureza humana, 86; e Sterne, 70, Lewis, I. M., 102 Ockham, William de, 61
Martens, Dierk, 18
85,89 [inguagem: e o uso de obscenidades, Marx,Karl,97-8, 113 Opuccula longefestivissima (Luciano),
72, 78-9; e o uso do grego e do 29
Mary, rainha da Inglaterra, 44
"idade de oum' 32-3,37-8 latini, 38, 44, 47, 55, 57, 78; em Masson, Elsie, 102, 104,106, 136n Orlandofurioso (Ariosto), 46
Idade Média, 53,61-2 Utopia, 21-2, 28

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OvIdio, 52-3,77 Prendergast, Christopher, 14 ciondrio históricoecrltico 76-7; do
Oviedo verFernándezdeOviedoyVal.. Sidney, Sir Philip, 49-52, 55, 58, 127,s
Propp, Vladimir, 95 Tristram Shandy, 66,76,80-2.84
"Sinais" (Ginsburg), 13
dés, G. Proust, Marcel, 14,98
Skinner, Quentin, 13, 17-9 Tomás deAquino, Santo, 62
Puttenham,George, 15,57-8,61, 127n Tomasi di Lamusa, Giuseppe, 99
Painter, William, 45 arte da poesia inglesa, A, 54-5; e a Smith, Norman Kemp, 85
Smith, Richard John, 94-5 Toxaris, deAmicitia (Luciano), 31
pal4cio doprazer, O ( Painter), 45 história da poesia, 54-6
«Sobre os canibais" (Montaigne), 55, traduçâo, I I 1; do francés, 59-60, 72,
Paludanus, Johannes, 30
59-60 78;dogrego,29,31-2, 120n do ita-
Panofky, Erwin, 25 Quiroga, Vasco de, bispo de Michoa-
Sócrates, 30-1,34 liano,45; em francés, 70; cm italia-
paradoxo, 28,41-2,89 cán, 11,14-5,37-8
Sorbière, Samuel, 28 no,60;em samoano,91, 108
"paralelismo gramatical e seu aspecto
Tratadoda nature.za humana (Hume),
russo, O" (Jakobson), 43 Rabelais, François, 69 Spinoza, Baruch, 77
86
paródia, 68,98 Racine, Jean, 109 Spitzer, Leo, 14
Paulo, São, apóstolo. Iii Renanus, Beatus, 26 sprezzatura, 58 1augott, J., 71
Peake, R. B., 94 René d'llliers, bispo de Chartres, 30 Starobinski, Jean, 13 Tristram Shandy ver vida e as opiniöes
Sterne, Laurence, I 5,64-90; auto-cons- do cavalheiro Tristram Shandy, A
pele de onagro, A (Balzac), 95; inspira- República (Platào), 21,34
ção no Fausto de Goethe, 96 Resposta a um cauto e astuto mediador ciência,68,88, 107, 129n (Sterne)
Pensamentosdiversossobreowmeta(Bay. (Calvino), 51 Sterne's philosophical rhetoric (Trau- Ttobriand,ilhas, 102,108-9,111
Ie),76 Retrato de um cartuxo (Petrus Chris- gott),71 trompe-l'oeil, 25-6
"Perizonius,Niebuhre o caráterda pri- tus), 24-5 Stevenson, Robert Louis,91-113; an- TrutzSimplex (Grimmeishausen), 94
mitiva tradiçao romana" (Momi- Reuchlin, Johannes, 61-2 tecedentesliterários,93-5,98-101; Thaitala verStevenson, Robert Louis
guano), 52 Reynmann, Leonhard, 36-7 "demônio da garrafa,O", 91-5,99-
Petrarca, Francesco, 61 rima: como um «expediente bárbaro", 102, 108-9, 112;eaarteda omis- Ugobaldo, monge, 56
Petrie, Graham, 70 46,48-51,54-6,61,64, I27nhistó- são, 99- 100; e Balzac, 98- 102; Ma- Utopia (More), 1 1, 17-42; alfabeto
Pirckheimer, Willibald, 26 ria da, 55-6; na Inglaterra, 13, 46- linowskie, 105-7, 136n Seroes das utopiano, 21, 25; como paradoxo
PIatäo, 18; República, 21,34 7, 62-3, 128n lihas, 91, 94; Vailima letters, I 07-8 literário, 28, 34, 4 1 ; como teoria
Plinio, o Jovem, 69 Rivers, W. H. it, 108 strena, 32-3 politica, 17-8,41 ;e a influéncia so-
Plutarco, 50 Romeu e Julieta (Shakespeare), 45 Suard, Jean-Baptiste-Antoine, 70-1 bre Quiroga, 38; e a tradiçAo luciâ-
poesia: como história, 49-50; deco- nica, 29, 30-7; ekphrasis, 23;"pers-
rum, 58; e a oposiçâo entre natu- Sackville, SirRichard, 44 pectivas incompativeis" em, 40;
Tácito, 52, 124-5
reza carte, 49, 55-8; co neopla- saggio comeforma, Il (Adorno), 12 Talmud, 77 primeiraediçäo (Louvain), 18,19-
tonismo, 58; etimologia, 57; na Saturnalia (Luciano), 32,38,120 21, 28, 32; segunda ediçâo (Paris),
Tempestade (Shakespeare), 60
Inglaterra, 43,49,56,58; paralelis- Scandella, Domenico (Menocchio), 18, 26, 34; traduçäo alema, 37; tra-
mo na,43 teologia cristâ, 86-90
14
teoria da prosa, Urna (Chklóvski), 68 duçao italiana, 37; uso do grego
Polanyi, Karl, 113 Schoeck, R. J., 40 em, 28, 38
The bottle imp. A melo-dramatic roman-
Popkin, Richard, 85 &holemaster, The (Ascham), 44 Vailima letters (Stevenson), 107-8
cein twoacts(Peake),94
Popular tales and romances of the nor- Seligman, Brenda, I 08 vida e as opiniòes do cavaiheiro Tris-
thern nations, 101 Seròes das lihas (Stevenson), 91,94 Thompson, E. P., 113
Thompson, C. R., 41 tram Shandy, A (Sterne), 64-90;
Postilla (Lyra), 74 Shakespeare, William, 60,98
Timon deAtenas (Shakespeare), 45 diagramas em, 66, 77, 80-2, 84, 97;
Practica (Reynmann), 36-7 Sidney, Robert, 50
tipográfica, apresentaçào, 74; do Di- digressöes em, 66, 69, 71-2, 78;

'44
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145
estrutura, 68-70,72,82,90; o tern- Watt, Ian, 83,85
Po em, 72, 82, 129; obscenidades Webbe, William, 58, 127n
em, 72, 78-9
Virgilio, 33 Yates, Frances, 60
Voltaire, 96
Vossius, Gerhard, 28 Zenäo de Cracévia (Gdilner), 112
Zenäo de Eléia, 83,85
Warburg, Aby, 37 Zumárraga, Juan de,bispo do México,
Warham, William, 32, 120n 38

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