Você está na página 1de 265

Fundação Universidade de Brasília

Reitor Timothy Martin Mulholland


Vice-Reitor Edgar Nobuo Mamiya

EDITORA

UnB
Editora Universidade de Brasília
Diretor Henryk Siewierski
Diretor-Executivo Syivio Quezado

Conselho Editorial Beatriz de Freitas Salles


Dione Oliveira Moura
Henryk Siewierski
Jader Soares Marinho Filho
Lia Zanotta Machado
Maria José Moreira Serra da Silva
Paulo César Coelho Abrantes
Ricardo Silveira Bernardes
Suzete Venturelli
O capital da
esperança
A experiência dos
trabalhadores
na construção
de Brasília

Gustavo Lins Ribeiro

EDITORA

UnB
Equipe editorial
Supervisão editorialRejane de Meneses
Acompanhamento editorial Sonja Cavalcanti
Daniele Thiebaut
Preparação de originais e revisão
Projeto gráfico e capaJoe Rodrigues
Diagramação final Heonir Soares Valentim
Acompanhamento gráfico Elmano Rodrigues Pinheiro
Crédito das imagens Fotos gentilmente cedidas pelo Arquivo
Público do Distrito Federal
Desenhos Desenhos feitos em CAD por Levi Batista
de Carvalho sofreram atualização de
programação visual feita por Joe Rodrigues

Copyright © 2008 by Gustavo Lins Ribeiro


Impresso no Brasil
Direitos exclusivos para esta edição:
Editora Universidade de Brasília
SCS Q. 2 - Bloco C - n9 78
Ed. OK-19 andar
70302-907 - Brasília-DF
Tel.: (61) 3035-4211
Fax: (61) 3035-4223
www.editora.unb.br
www.livrariauniversidade.unb.br
e-mail: direcao@editora.unb.br

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte des­


ta publicação poderá ser armazenada ou repro­
duzida por qualquer meio sem a autorização por
escrito da Editora.

Ficha catalográfica elaborada pela


Biblioteca Central da Universidade de Brasília

Ribeiro, Gustavo Lins.


R484 O capital da esperança : a experiência dos trabalha­
dores na construção de Brasília / Gustavo Lins Ribeiro.
— Brasília : Editora Universidade de Brasília, 2008.
276 p. ; 23 cm.
ISBN 978-85-230-0924-3
1. Construção de Brasília. 2. Desenvolvimento.
3. Interiorização. 4. História operária. 5. Grandes
obras. 6. Fronteiras em expansão. I. Título.
CDU 94(817.4)
André Malraux chamou Brasília de
“A Capital da Esperança”.
Dedico este livro à memória de
Eric R. Wolf e à de Roberto Cardoso
de Oliveira, dois grandes mestres.
Sumário

10 Prefácio - Duplas memórias

18 Introdução

64 Capítulo 1 - Os trabalhadores

124 Capítulo 2-0 acampamento

150 Capítulo 3-0 trabalho

208 Capítulo 4 - Os conflitos

262 Conclusão

270 Referências
Prefácio
Prefácio

Duplas memórias

O capital da esperança foi originalmente escrito há mais de um quar­


to de século e se manteve inédito até agora. Inédito, mas não por
isso deixou de ser lido como dissertação de mestrado, orientada
por Lygia Sigaud e apresentada ao Programa de Pós-Graduação em
Antropologia da Universidade de Brasília, em 1980. De fato, tem
sido densamente utilizado por quem se interessa por uma mirada
diferente daquela que caracteriza a matriz discursiva sobre a cons­
trução de Brasília. Tal interesse talvez se deva ao seu caráter de
estudo que se afasta do ponto de vista dos poderosos, dos políticos,
dos arquitetos, dos engenheiros e dos administradores, e se baseia
na experiência cotidiana de milhares de trabalhadores migrantes,
anônimos, que construíram a cidade a tempo de ser inaugurada em
21 de abril de 1960. Trata-se, na verdade, de um cruzamento entre
antropologia e história, uma história vista na ótica das camadas
populares como atores principais. É um trabalho antropológico na
medida em que se preocupa em absorver a perspectiva dos que es­
tiveram efetivamente envolvidos na ação, apesar de suas versões
poderem parecer até inverossímeis para outros. É um estudo de
história porque reconstrói o cotidiano de umas dezenas de milha­
res de pessoas, cujo trabalho definiu uma realidade hoje vivida por
milhões. Creio ser essa combinação de uma postura antropológica
e uma perspectiva histórica que faz com que O capital da esperança
conserve sua vitalidade até hoje. Essa feliz combinação se expressa,
sobretudo, na riqueza da fala dos trabalhadores que leva o leitor a
se situar em meio aos mais de 60 mil migrantes que se dirigiram
ao Planalto Central brasileiro para, entre 1956 e 1960, construir a
nova capital.
Mas, além de um registro da memória dos trabalhadores, O capital
da esperança também é um índice do momento em que foi escrito,
do contexto mais amplo que caracterizava a antropologia e a vida
acadêmica brasileiras, assim como da minha própria inserção ne­
les. Vejo duplas memórias neste livro que encarna parte do passado
de Brasília e do meu próprio. Na década de 1970, boa parte dos
antropólogos brasileiros se dedicou a estudar as classes populares,
camponeses, trabalhadores rurais, operários, o setor informal, etc.
13
0 capital da esperança
Diferentemente de outros países sul-americanos que à época atra­
vessavam ditaduras militares, no Brasil o marxismo não foi total­
mente proibido nas universidades. Apesar do risco, ser marxista era
para muitos uma opção teórica e metodológica, e também política,
uma demonstração de oposição ao regime autoritário. Eu mesmo,
jovem, barbudo e cabeludo, estudante de pós-graduação em antro­
pologia, em 1977, fui preso e processado pela tristemente famosa
Lei de Segurança Nacional.
Além do próprio Karl Marx, Antonio Gramsci e Louis Althusser
eram fontes de inspiração freqüentes. Antropólogos brasileiros
como Lygia Sigaud, José Sérgio Leite Lopes, Eunice Durham e
muitos outros, fizeram estudos memoráveis com uma orientação
marxista, em maior ou menor grau heterodoxa. E possível sugerir
que a antropologia brasileira fez “estudos subalternos”, tão cele­
brados posteriormente pela riqueza dos trabalhos de cientistas so­
ciais indianos, avant la lettre. Não se dizia que era preciso “deixar
os subalternos falarem”, mas era comum, nos trabalhos de antro­
pologia, encontrar a transcrição de relatos, “discursos” dos sujei­
tos etnográficos. Na verdade, se tratava de atravessar a “ideologia
dominante” e revelar as contradições de classe que estruturavam a
realidade social, política e econômica, encontrando os “verdadei­
ros sujeitos da história”. O marxismo provia uma certeza que, hoje,
em uma época pós-pós-moderna, provoca uma certa nostalgia ao
mesmo tempo que aponta para um certo distanciamento crítico dos
meta-relatos salvíficos do século XIX. De toda forma, e creio que
esse livro é um tributo a isso, a capacidade heurística do marxismo
produziu, e continua produzindo, muitos projetos de conhecimento
que certamente revelaram mais do que distorceram. O capital da
esperança se insere plenamente nesse universo intelectual.
O presente volume é uma versão pouco modificada da dissertação
de mestrado escrita em um período no qual obter o título represen­
tava uma tarefa muito maior do que na atualidade. E um esforço
de ir além das ideologias dominantes sobre a transferência da capi­
tal para Brasília, uma epopéia que se prestava como poucas à (re)
construção de ideologias nacionalistas. Nas páginas que se seguem,
os trabalhadores apresentam suas versões. A partir delas, percebi
que era possível fazer algo mais do que um estudo sobre ideologias.
Intuí que estava frente a um sistema, fato que me levou durante uma
14
Minas Gerais
1 5 '^ 0 '0 0 '

Distrito Federal: situação em 1960


0 capital da esperança
década a estudar uma forma de produção que denominei de “gran­
de projeto” (RIBEIRO, 1987). Ao terminar O capital da esperança,
pensei, como se vê na conclusão deste livro, que no futuro compa­
raria a construção de Brasília com a da hidrelétrica de Tucuruí, na
Amazônia brasileira. Não podia imaginar que, na verdade, escreve­
ría uma tese de doutorado sobre outro grande projeto, Yacyretá, a
hidrelétrica argentino-paraguaia (RIBEIRO, 1991). Esta experiência
me converteu no único antropólogo brasileiro que, em meados dos
anos 1980, fez sua pesquisa de doutorado na Argentina, algo que me
brindou também com muitos colegas e amigos com quem continuo
mantendo excelentes relações. Talvez essa seja uma das razões por­
que O capital da esperança foi publicado primeiro em espanhol, em
2006, através da Editorial Antropofagia que se consolida, cada vez
mais, como difusora da antropologia na Argentina.

BJfi » * 1

Rodoviária de Brasília, futura interseção dos Eixos Rodoviário e Monumental (1958)

É, igualmente, um grande prazer ver meu trabalho, tantos anos


depois, chegar a um público leitor brasileiro mais amplo. Fico es­
pecialmente feliz por aparecer pela editora da minha universidade,

16
Prefácio
dando início a uma série de publicações em homenagem aos 50
anos da inauguração de Brasília. Durante a preparação deste livro,
resolvi incluir fotografias da época, algumas das quais tomadas por
Mário Fontenelle, fotógrafo da Presidência da República, a cuja
verdadeira visão etnográfica se deve a existência de muitas das me­
lhores fotos da construção da cidade. As fotos formam parte do
acervo do Arquivo Público do Distrito Federal no qual trabalham
pessoas como Flávia Cohen, cujo entusiasmo pela história da cida­
de se percebe imediatamente e facilita muito o trabalho do pesqui­
sador. Agradeço ao Arquivo Público do Distrito Federal a licença
para utilizar esse material. O mapa do DF e os croquis que também
ilustram o volume foram gentilmente preparados por Levi Batista
de Carvalho, pioneiro da construção da cidade, que também se
entusiasmou com o livro. Por iniciativa própria, Levi Batista de
Carvalho se transformou em pesquisador e conseguiu croquis de
outras áreas (como de uma na qual se localizava a Novacap) que es­
tão reproduzidos mais adiante. Durante o período em que me dedi-
quei a esta publicação, continuei como professor do Departamento
de Antropologia da Universidade de Brasília e como pesquisador do
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq).
André Malraux, o célebre escritor francês, em sua visita às obras
da cidade, chamou Brasília de “A Capital da Esperança”. Felizes as
línguas em que uma mera mudança de artigo permite a um autor
alterar todo o significado de uma designação.

17
Introdução
1

Introdução

Neste trabalho estudo a construção de Brasília entendida como a


concretização de um grande projeto da construção civil. A reflexão
sobre a história desta obra levou a perceber um conjunto de especi-
ficidades que se articulavam e apontavam para a existência de uma
forma de produção cuja recorrência pode ser verificada em outros
locais e momentos. A partir de um caso paradigmático, procuro con­
figurar uma totalidade complexa, dominada basicamente pela tarefa
de executar um trabalho de volume excepcional.
Uma distinção inicial essencial, para diferenciar a construção de
Brasília de outras grandes obras realizadas em meio urbano (como
metrô, por exemplo), é o fato de ser um trabalho realizado em áreas
relativamente isoladas. É comum que um grande projeto seja execu­
tado obedecendo mais a decisões políticas do que econômicas. No
caso de Brasília, um dos objetivos era interiorizar uma parcela da
população brasileira mediante seu deslocamento para uma área do
território nacional que deveria integrar-se ao resto do país. Essa pre­
tensão produziu reflexos ideológicos, especialmente porque se anuncia
o grande projeto como algo que redimirá uma região. Ao mesmo tem­
po, o relativo isolamento do território da construção constitui-se em
•, uma marca fundamental que determina várias outras. Um trabalho
|
Marco Zero: cruzamento dos Eixos Rodoviário e Monumental (1957). Foto: Mário Fontenelle
0 capital da esperança

desse tipo é normalmente organizado por uma empresa estatal que


passa a ser a representante do Estado na área, de tal forma que o
território da construção adquire aspectos de enclave, tamanhas as
particularidades do cotidiano dos indivíduos que nele residem e são
submetidos aos interesses das companhias construtoras.
Um grande projeto implica uma articulação de várias obras parciais
cujo resultado é o produto final, operando como um todo. Como
se dá em áreas relativamente isoladas, seus primeiros trabalhos são
geralmente dedicados a criar as condições de chegada dos milhares
de trabalhadores que se dirigem para o local. Sendo muito grande o
volume da obra que será realizada, surge quase repentinamente uma
grande oferta de empregos e, é claro, de salários. Acorrem, assim,
milhares de trabalhadores para se engajar em um trabalho temporá­
rio. O marco dessa temporariedade é a data da inauguração da obra.
Os trabalhadores são selecionados, então, de forma que praticamen­
te explicita o tipo de operário requerido e que viverá em alojamen­
tos coletivos de grandes acampamentos: homens jovens, com saúde e
sem família. Este é o contingente que define o perfil dos trabalhado­
res presentes no grande projeto cuja necessidade por trabalho leva à
instauração de um ritmo de produção que se concretiza na explora­
ção incomum da força de trabalho.
O que mais chama a atenção na construção de um grande projeto,
como a construção de Brasília, é a situação extraordinária que nele
se vive. Em um território cujo cotidiano é dominado pela intensa
atividade produtiva, milhares de homens sem família e sem mulheres
trabalham ao extremo. Praticamente não existem opções de lazer e
os operários tornam-se clientes de uma florescente zona de prostitui­
ção. Aglomerar uma grande população operária para realizar uma
obra gera uma situação em que se pode ver como os trabalhadores
são tratados em determinada sociedade. Há que resolver problemas
fundamentais como o fornecimento de alimentação e moradia para
os trabalhadores.
E justamente aqui que surgem as faces mais negras da situação de
grande projeto, a tal ponto que os conflitos mais sérios são por me­
lhores condições de vida. O foco de tensão no território da constru­
ção não é a questão salarial. Em termos gerais, os trabalhadores em
um grande projeto recebem salários relativamente maiores do que

22
Introdução ■)

os recebidos em suas experiências anteriores, pois se subme­


tem a formas de exploração necessárias ao ritmo intenso dos
trabalhos. Essas formas de exploração implicam o pagamen­
to de quantidades de horas agregáveis aos salários individuais.
É uma obra onde se ganha mais, porém trabalha-se muito mais.
A inauguração do grande projeto é o momento em que ocorre, re­
pentina ou gradualmente, a desmobilização da forma de produção
anterior e revela outra característica central do grande projeto: a sua
temporariedade. Entretanto, enquanto dura, ocorre uma situação so­
cial que envolve milhares de pessoas durante alguns anos. Tal situa­
ção não pode ser comparável mecanicamente aos empreendimentos
realizados em áreas que contam com um desenvolvimento econômi-
co-social mais amplo e diferenciado. Ressalte-se que o setor da cons­
trução civil é o ramo industrial mais propício a deslocar milhares
de trabalhadores e concentrá-los em um determinado ponto. Isso se
deve basicamente a duas razões, relacionadas entre si: o pouco nível
de qualificação necessário, em geral, para a maior parte das ativida­
des e o grande número de operários requerido para obras de grande
porte.
Podemos pensar que na construção de um grande projeto como
Brasília ocorre uma escala ampliada das formas de produção da
construção civil (talvez levadas ao paroxismo), combinada com as
especificidades de construir uma obra fortemente marcada por ra­
zões e decisões políticas, uma obra da dimensão de uma nova capital
federal no interior do país.
Para montar o quadro do entendimento da construção de Brasília,
visando perceber a perspectiva dos agentes que estavam diretamente
engajados na produção, elegi a experiência do operariado da constru­
ção civil na edificação da cidade. Esta opção deveu-se ao fato de se­
rem os trabalhadores o maior contingente populacional envolvido no
processo. A escolha desse caminho de investigação levou a ver que,
em termos gerais, o que se sabia da história de Brasília era apenas o
relato oficial dominante. Ocorre que na história oficial, que expressa
com toda evidência seu conteúdo ideológico, o proletariado nunca
aparece enquanto força presente ou, quando o faz, aparece desempe­
nhando um papel subordinado ao sabor de iniciativas e interpelações
dos setores dominantes. A história da construção da capital federal

23
0 capital da esperança

confirma a regra. Assim, procurando também desvendar as constru­


ções ideológicas existentes sobre o tema, minha intenção tornou-se
recuperar as grandes linhas da experiência histórica dos trabalhado­
res na construção de Brasília. Para tanto, delimitei o período de 1957
a abril de 1960, quando da inauguração da cidade.

A investigação da história do operariado


da construção civil em Brasília
O presente livro baseia-se em pesquisa realizada no final da década de
1970. Ao iniciar, em meados de 1977, o estudo da história da cons­
trução de Brasília, passou a ficar clara a manipulação ideológica que
se fazia em torno da construção da cidade, bem como daqueles que
formaram o maior contingente populacional envolvido no processo:
os operários. Ao mesmo tempo em que os relatos vinham mesclados
de idéias nacionalistas, identificando a construção da cidade com um
grande projeto da nacionalidade, o papel desempenhado pelo opera­
riado da construção civil entrava, quando muito, como um contrapon­
to em face das iniciativas das elites, sobretudo dos membros que deti­
nham o poder no Estado. Juscelino Kubitschek, em seu livro Porque
construí Brasília, fornece várias passagens ilustrativas desta afirma­
ção. Citarei apenas a seguinte:

Operários chegavam de todas as regiões do país em busca de trabalho. Eram


os candangos, que derivavam do Nordeste, do interior de Goiás e dos muni­
cípios das fronteiras de Minas e de Mato Grosso, a fim de “dar uma mão”,
na obra de desbravamento do Planalto (KUBITSCHEK, 1968, p. 68, grifos
meus).

Ora, a construção de Brasília surgiu em determinado momento his­


tórico (1956-57) e para efetivá-la era necessário um enorme número
de trabalhadores. Mas onde estava a história destes trabalhadores?
A história do seu cotidiano, de suas condições concretas de re­
produção da vida, de suas lutas, de uma população que era, en­
tão, eminentemente formada pelo operariado da construção civil.
A história de um operariado que, em boa medida embalado pelos sonhos
nacionalistas que recobriam toda a motivação ideológica da construção
Introdução

da nova capital, se identificava com as diversas tiradas realizadas pelos


políticos de então. Do Presidente da República aos assessores da compa­
nhia governamental encarregada das obras (Novacap), todos caminha­
vam “democraticamente” pelas ruas empoeiradas ou enlameadas do

Praça dos Três Poderes e Esplanada dos Ministérios (1957)

antigo conglomerado de barracos que era o grande acampamento


chamado Cidade Livre (hoje, a cidade-satélite Núcleo Bandeirante).
A história de um operariado que vivia em alojamentos e acampa­
mentos com precárias condições de alimentação e moradia, en­
frentando uma polícia escolhida na rua e composta, em grande
medida, por ex-companheiros de trabalho, pelo único motivo de
serem mais fortes fisicamente. A resposta a estas nossas preocupa­
ções é simples: esta história não estava em lugar nenhum.
Com efeito, a maior parte da literatura existente até a década de
1970 a respeito da construção da cidade era formada por depoimen­
tos escritos em perspectivas carregadas de uma visão idealizada

25
0 capital da esperança

do processo. Talvez os exemplos mais típicos deste tipo de registro


possam ser considerados como o livro Porque construí Brasília, de
Juscelino Kubitschek, e o Diário de Brasília, uma coleção organiza­
da e editada em 1960 pelo Serviço de Documentação da Presidência
da República. Estes formariam o carro-chefe que se seguia de outros
como: Brasília: diálogo com o futuro, de Antônio Carlos Osório;
A mudança da capital, de Adirson Vasconcelos; A história de
Brasília, de Ernesto Silva; Taguatinga: pioneiros e precursores, de
Alberto Bahouth Junior; para ficar apenas nestes exemplos. Dos li­
vros, digamos, não-acadêmicos foi possível contar com um que si­
tuou a história da cidade em perspectiva crítica: Brasília e sua ideo­
logia, de Geraldo Joffily.
Paralelamente, a pequena literatura acadêmica existente sobre
Brasília, à época da minha pesquisa, era ainda insuficiente face à ex­
tensão do objeto. Até onde pude constatar, a maioria das publicações
de urbanismo abordava Brasília como uma ruptura para o desen­
volvimento da arquitetura. Por outro lado, apenas na dissertação de
mestrado, Operários e política (1978), de Nair Bicalho, e na tese de
doutorado Brasilia plan and reality (1973), de David Epstein, encon­
trei a perspectiva da classe operária. Mas não eram trabalhos total­
mente dedicados ao período da construção da cidade. Havia, ainda,
a tese de mestrado Natureza de classe dos sindicatos no Brasil: um
estudo de caso (1977), da socióloga Maria Teresinha Ribeiro que se
destinou basicamente a tentar provar a natureza burguesa do sindi­
cato da construção civil de Brasília. Estava, também, um estudo fei­
to pelo antropólogo Orlando Pilatti, como dissertação de mestrado,
intitulado Representação urbana: o caso de Brasília (1976). Nele o
autor ateve-se principalmente à questão da representação espacial.
Por último, podemos lembrar a análise formal de José Pastore no seu
livro Brasília: a cidade e o homem (1969). Enfim, restava muito por
ázer em termos de registro e análise da história da cidade, sobretudo
à perspectiva dos trabalhadores.
or onde começar, portanto? Em meados de 1977, realizei uma rápida
esquisa no Núcleo Bandeirante (antiga Cidade Livre) onde existia o
ior aglomerado populacional na época da construção. Entrevistei
radores que lá residiam desde então. Esta cidade sempre foi mar-
tamente destinada ao comércio. Assim, encontrar informantes
dizados para fornecer relatos na perspectiva da experiência do
Introdução

operariado, embora possível, revelou-se tarefa bastante árdua. Nesta


pesquisa, além de comerciantes, entrevistei também um juiz do tra­
balho. Foi uma primeira aproximação na qual pude formar um qua­
dro inicial que serviu de guia para outros locais onde era maior a
probabilidade de encontrar trabalhadores que haviam participado
da construção da cidade antes da inauguração. Além disso, a partir
desta pesquisa, passei a contar com uma série de informações que
apontavam para várias especificidades relativas ao período da cons­
trução e que seriam objeto de posteriores investigações. O próximo
passo foi dado nos meses finais de 1979, quando entrevistei trabalha­
dores que, em sua maioria, residiam em antigos acampamentos ain­
da existentes (como a Vila Planalto e a Candangolândia, vide mapa
no Prefácio). Fui várias vezes, durante aproximadamente seis meses,
a alguns acampamentos, quando geralmente realizava entrevistas in­
formais que foram de extrema valia ao passar a gravar os depoimen­
tos dos trabalhadores. Tais entrevistas só foram registradas quando
supus já possuir um quadro que permitisse controlar idiossincrasias
dos entrevistados ou problemas como a idealização do passado. Esta
precaução, além de dever-se ao fato de trabalhar com as formulações
operárias enquanto fonte, era duplamente necessária, pois eu bus­
cava a reconstrução de uma experiência que, se bem extremamente
marcante para os indivíduos, ocorrera há cerca de 20 anos.
A questão das possíveis distorções individuais nos relatos sempre foi
um ponto ao qual dediquei a maior atenção. Desta forma, entre a
primeira pesquisa de campo e a última, realizei investigações na li­
teratura existente sobre a história da cidade e, especialmente, em
jornais. Fiz a leitura mais abrangente do material encontrado, recor­
rendo inclusive à leitura de periódicos de arquitetura e urbanismo.
No mês de agosto de 1979, li, na Biblioteca Nacional no Rio de
Janeiro, jornais da época, incluindo a coleção do jornal A Tribuna,
editado no Núcleo Bandeirante no período da construção. Essa foi
uma fonte primordial, pois nela encontrei informações relativas ao
cotidiano no território da construção. Como o eixo do trabalho pas­
sa pela experiência operária, li também, naquele mês na Biblioteca
Nacional, os periódicos A Voz Operária e Novos Rumos, do Partido
Comunista Brasileiro, à procura de registros sobre a situação dos
trabalhadores na construção da capital federal. No entanto, o ope­
rariado engajado na construção de Brasília raramente era alvo de
27
0 capital da esperança

matérias nestes jornais. Apenas com a proximidade da inauguração


da cidade, Brasília e seus trabalhadores aparecem nos jornais com
maior freqüência. O próximo passo, em termos das fontes escri­
tas a que recorri, foi dado em fevereiro de 1980 quando, na sede
do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção e do
Mobiliário de Brasília, pesquisei as atas das primeiras assembléias da
entidade. Em março de 1980, passei uma semana na cidade goiana
de Anápolis, a de maior porte mais próxima à Brasília, para, no mu­
seu local, pesquisar os jornais da cidade, visto sua importância para
a construção da capital federal. Registrei, então, principalmente as
notícias publicadas em O Anápolis. A última fonte escrita que uti­
lizei foi talvez a mais rica delas e, lamentavelmente, a que se encon­
trava mais destruída. Tratava-se de uma grande coleção de recortes
de jornais do país inteiro com notícias sobre a construção de Brasília
antes da inauguração, organizada pela então Divisão de Divulgação
do Setor de Documentação, da Companhia Urbanizadora da Nova
Capital (Novacap). Pesquisei-a durante o mês de abril de 1980 no
arquivo do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal que,
por falta de recursos, já tinha perdido vários volumes da coleção,
comidos por traças. Ressalto que, nesse conjunto de recortes de jor­
nais, se destacavam, por suas denúncias, as notícias publicadas em
A Tribuna da Imprensa, jornal da oposição udenista ao governo de
Kubitschek. Apesar de essas fontes escritas exprimirem, de modo ge­
ral, positivamente os grupos de interesse que representavam, elas au­
xiliaram na formação de um quadro mais preciso, permitindo situar
melhor as formulações dos trabalhadores que entrevistei, amenizan­
do minhas preocupações com distorções provocadas pela idealização
do passado.
Foi possível, ainda, juntar ao material de pesquisa mais uma fonte
fundamental para entender e confirmar várias especificidades rela­
tivas à construção da cidade: o Censo Experimental de 1959, reali­
zado em Brasília pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Esse censo levou o nome de Experimental porque foi realizado como
teste para o Censo Nacional de 1960. E assim que alguns itens que
pela primeira vez seriam investigados em um recenseamento brasilei­
ro, apareceram com referência ao quadro populacional do território
da construção de Brasília, em 1959. Talvez poucas áreas pudessem
contar com um trabalho censitário da qualidade desse. Há de incluir
Introdução

também como fontes os filmes e as fotografias da época, uma vez


que essas informações visuais foram de grande valia para compor
um quadro mais acurado.
Como dito anteriormente, o período sobre o qual concentrei minha
atenção compreende-se entre 1957 e 21 de abril de 1960.1 A esco-

Vista aérea com o traçado inicial da cidade (1956-1960)

lha não é aleatória. Os primeiros trabalhos para a construção da


cidade só se iniciaram nos primeiros meses de 1957. O ano de 1956
foi dedicado quase exclusivamente a iniciativas para formar um ar­
cabouço, no plano político e jurídico, que possibilitasse a constru­
ção e a transferência da capital federal. Naquele ano ocorreram, pc-r

1 Eventualmente algum acontecimento, como o desenlace da questão do status provisório


do Núcleo Bandeirante, pode estender-se além desse período. No entanto, suas determinações
encontram-se vinculadas à época anterior à inauguração e são, portanto, parte relevante para
o seu entendimento.

29
0 capital da esperança

exemplo, a promulgação da lei que criava a Novacap (Companhia


Urbanizadora da Nova Capital do Brasil), e que lhe concedia poderes
para providenciar a construção, sem consultas prévias ao Congresso
Nacional; articulações para que os políticos da região Centro-Oeste
assumissem o projeto da construção, independentemente de filiação
partidária; a estruturação de concurso público para escolha do Plano
Piloto, etc. Para se ter uma idéia, foi apenas em outubro de 1956 que
o Presidente da República esteve pela primeira vez na área onde iam
se desenvolver as obras. Privilegiarei, portanto, os primeiros grandes
movimentos efetuados com vistas a propiciar as condições concretas
iniciais para trabalhar no local.
Já o término do período, abril de 1960, engendra outros raciocínios.
Privilegiar um determinado período histórico é também perguntar-
se por que não ir além dele. Certamente não foi apenas o fato de
existir uma divisão do tempo já definida pelo dia da inauguração que
me levou a tomar esse período como o centro do estudo. Mais do que
isso, a opção deveu-se à constatação de que a data da inauguração,
ao definir um prazo para o término da obra, passou a ter implicações
concretas no andamento dos trabalhos e, portanto, acabou confun­
dindo-se de várias maneiras com as especificidades da produção do
grande projeto. O dia da inauguração é um rito de passagem ao qual
subjaz, no plano econômico, a passagem de um grande projeto da
esfera da produção para a esfera do consumo. Daqui decorre uma
consequência fundamental: a inauguração, ou o fato de dar por ter­
minados os trabalhos (já que o produto final está pronto para operar
e passa a necessitar de trabalhos de manutenção ou obras comple­
mentares), implica uma desmobilização da forma anterior de produ­
ção característica do grande projeto. É um momento importante. Da
mesma forma que para o início do trabalho se necessitava repenti-
namente de milhares de trabalhadores, no seu final, igualmente de
maneira repentina, milhares de trabalhadores eram liberados.
Para a construção de Brasília, há que relativizar um pouco essas afir­
mações, visto tratar-se da edificação de uma cidade. De fato, em 21
de abril de 1960, a cidade estava pronta para operar, com várias
deficiências. Mas seu traçado urbano e as grandes construções carac­
terísticas da sua função de sede do poder da República estavam basi­
camente prontos. De qualquer modo, após a inauguração sobreveio
um grande desemprego no já, então, Distrito Federal. Entretanto,
30
)
í
E

)
)
■)
)
)

Esplanada dos Ministérios e Congresso Nacional, em setembro de 1959

apesar desta crise significativa, ainda restavam milhares de constru­


ções individuais a serem feitas e que foram realizadas no decorrer
da existência da cidade (até hoje, na Asa Norte existem projeções de
quadras e terrenos ainda vazios). De qualquer modo, após sua inau­
guração, certamente a cidade não mais assistiu ao desempenho do
ritmo de trabalho que a notabilizou: o ritmo Brasília.
Este livro é também uma contribuição para pensar a construção de
Brasília mais além da mitologia que a recobriu. Deve estar claro que,
quando realizei a pesquisa de uma perspectiva relativamente nova,
se impôs a necessidade básica de precisar o conhecimento no nível
do senso comum, perfurando-o. Nesse contexto, cabe destacar uma
contradição que permaneceu como uma das mais significativas para
o entendimento da realidade social do Distrito Federal: a ausência

31
0 capital da esperança

dos operários do espaço urbano do Plano Piloto. Dito de outro


modo, a questão do porquê aqueles que construíram a cidade não
tiveram o direito de nela permanecer. Esta contradição é geralmente
percebida pela constatação de que o operariado, grosso modo, habita
nas cidades-satélites, enquanto o Plano Piloto permaneceu intocado
e exclusivo para a pequena burguesia ligada à administração fede­
ral. Uma expectativa forjada pelo plano original da cidade, segundo
a qual os operários compartilhariam o mesmo espaço urbano que
os funcionários federais, criou, mesmo na literatura acadêmica, um
estranhamento referente à ausência no Plano Piloto daqueles que o
construíram (ver, por exemplo, OLIVEIRA, 1976, p. 87-88).
Mesmo a resposta mais imediata, que poderia ser buscada no fato
de que no capitalismo aquele que produz não é aquele que se apro­
pria do produto do trabalho, é preciso ser mais elaborada. De cer­
to modo, supor que a construção de Brasília ocorrería, ou deveria
ocorrer, em moldes diferentes é deixar-se perpassar pela pretensão
urbanística que supostamente deveria orientar a construção e a uti­
lização da cidade, já que se supunha um convívio democrático entre
as classes sociais no mesmo espaço urbano. Afirmar que este fato,
rotulável como contradição entre o Plano Piloto e as cidades-saté­
lites, obedece à lógica do capitalismo, é um passo. Mas um passo
marcadamente abstrato no sentido de que caberia para entender a
questão da habitação do operariado da construção civil em Brasília
tanto quanto em muitos outros lugares. Postular o entendimento do
problema em Brasília nestes termos não faria entender a especificida­
de da sua concretude local. Para tanto, a história do operariado da
construção civil no Distrito Federal, sobretudo no período anterior
à sua inauguração, revela a extensão do problema, assim como seu
desenrolar, à medida que deixa ver os diversos pontos de ruptura que
determinaram que o Distrito Federal tenha o atual tipo de ocupação
social do espaço (veja RIBEIRO, 1980).
Montar um quadro da história do trabalhador da construção civil
em Brasília fez surgir uma face tão importante quanto desconhecida
da nossa história contemporânea e que certamente permitirá equa­
cionar uma série de personagens e fatos. Apresentarei rapidamente
os principais aspectos da conjuntura nacional na época e, em segui­
da, colocarei duas importantes especificidades ligadas à construção
da cidade: a ideologia de grande projeto e a ambigüidade jurídica.
32
Introdução

Principais aspectos da conjuntura


Desde o Brasil colônia até o presente, a interiorização do país vem
sendo efetuada, obedecendo às particularidades de diversas conjun­
turas históricas, mas tendo como guia um fio condutor: a lógica da
penetração do capitalismo, no sentido de transformar terras “impro­
dutivas” em valores econômicos de mercado. Do Bandeirantismo à
Transamazônica defrontamo-nos com um movimento que ainda não
se esgotou. A transferência da capital federal do país para o interior
vem no bojo desse grande movimento. Idéia das mais antigas toma
forma com maior força no século XIX, a tal ponto que passa a figu­
rar na primeira Constituição republicana (1891) como parte das atri­
buições do Congresso Nacional (veja JOFFILY, 1977). Paralelamente
a tentativas organizadas em maior ou menor grau por diversos go­
vernos no sentido de promover o deslocamento do eixo econômico
do país mais para o interior, permaneceu o preceito constitucional
de transferir a capital para o Planalto Central. Desta maneira, várias
comissões e grupos de trabalho formaram-se e sucederam-se com
vistas a atingir tal objetivo. Durante a Ditadura Getulista (1930-45)
mais uma iniciativa foi forjada no sentido de interiorizar o país, a
Marcha para o Oeste, deixando claro que, então, o objetivo prio­
ritário para a interiorização era o Centro-Oeste. Brasília pretende
fechar este ciclo uma vez que se postulava que sua construção seria o
“trampolim para a Amazônia”. Em suma, a construção de Brasília se
insere em um dos processos mais fundamentais para o entendimento
de nossa história: a interiorização econômica do país. A construção
da capital federal, além de ser um antigo projeto expresso em várias
conjunturas, encarnava sobremaneira os grandes movimentos pelos
quais passou e ainda passa o Brasil. Ademais, mostrava-se como o
limiar de duas etapas: a integração do Centro-Oeste à economia na­
cional e o início da penetração da Amazônia em larga escala.
A construção da nova capital ia se desenrolar em um contexto bas­
tante dinâmico, tanto política quanto economicamente. O suicídio de
Getúlio Vargas, em agosto de 1954, se impediu um golpe de Estado,
instalou no poder o governo transitório de Café Filho, que mal pôde
esconder suas ligações com a União Democrática Nacional (UDN) e
interesses estrangeiros. É, com efeito, na questão da sucessão presiden­
cial para o período de 1956 a 1961 que os conflitos entre as diversas

33
0 capital da esperança
if
forças político-econômicas emergem intensamente. Ganha a eleição,
por JK e Jango, sobrevêm realmente em novembro de 1955 uma ten­
tativa de golpe identificado com forças políticas e militares ligadas
a interesses estrangeiros em um momento em que o nacionalismo
era uma grande questão ideológica. Graças à intervenção do general
Lott, a legalidade, com o conseqüente direito de posse aos eleitos, é
mantida (veja, por exemplo, SKIDMORE, 1975, especialmente da
página 188 a 198, e BENEVIDES, 1976, p. 23-24). Skidmore chega a
afirmar que “poucos presidentes brasileiros tomaram posse sob con­
dições políticas tão pouco auspiciosas como Juscelino Kubitschek”
(1975, p. 203). Remarquemos o fato de que a posse do novo governo
é associada à mobilização das “forças nacionalistas, antigolpistas e
antiimperialistas”. Para a esquerda, o nacionalismo era uma forma
de luta contra o imperialismo. A polêmica entre “nacionalistas” e
“entreguistas” era de tal ordem que no Congresso Nacional se for­
mou uma Frente Parlamentar Nacionalista, apoiada pelas chamadas
forças populares (sindicatos, União Nacional dos Estudantes, por
exemplo), que fiscalizava questões como a penetração do capital es­
trangeiro, a permissão para o território de Fernando de Noronha se
transformar em base de teleguiados norte-americanos, a exportação
de minérios (com destaque para os atômicos) e a defesa da Petrobrás.
A importância da questão também se refletia no número de artigos
escritos em jornais, bem como em revistas de intelectuais, como a
Revista Brasiliense que, em seus números 12, 14, 23 e 24, de 1957 e
1959, trazia contribuições sobre o tema de autores como Fernando
Henrique Cardoso, Otávio Ianni e Caio Prado.

Do ponto de vista econômico, o período foi de grandes transforma­


ções. A implementação do Programa de Metas de Kubitschek, no
qual Brasília era chamada de Meta Síntese, promoveu um crescimen­
to da economia nacional bastante significativo:

O período Kubitschek tornou-se conhecido por suas realizações econômicas...


A base para o progresso foi uma extraordinária expansão da produção in­
dustrial. Entre 1955 e 1961 a produção industrial cresceu 80% (em preços
constantes), com as porcentagens mais altas registradas pelas indústrias de
aço (100%), indústrias mecânicas (125%), indústrias elétricas e de comunica­
ções (380%) e indústrias de equipamento de transportes (600%). De 1957 a

34
Introdução

1961, a taxa de crescimento real foi de 7% ao ano e, aproximadamente, 4%


per capita (SKIDMORE, 1975, p. 204).

Segundo Leôncio Rodrigues foi justamente nessa época em que


a nação

quase que abruptamente... ganhou consciência da necessidade de industriali­


zar-se a todo custo. [...] a industrialização passa a ser percebida não só como um
processo econômico, mas como um modo de vida, como o caminho através do
qual a nação atingiría sua independência econômica, marcaria sua soberania.
O desenvolvimento se afirma como ideologia nacional (RODRIGUES, 1966,
p. 178).

Em suma, esse é tido como um período desenvolvimentista durante


o qual ocorreu um grande crescimento econômico fundamentado
em boa parte na internacionalização de setores básicos da econo­
mia. É um período propício para a chamada ideologia nacional-
desenvolvimentista.2

A ideologia de grande projeto


É em um universo dividido em “nacionalistas” e “entreguistas”, “le­
galistas” e “golpistas”, que toma dimensão mais concreta o antigo
projeto de interiorização da capital do país, agora parte de um projeto
desenvolvimentista sob o rótulo de Meta Síntese. Caberia perguntar:
síntese por quê? Porque de fato poucas realizações poderiam ser tão
recobertas com a densidade ideológica desenvolvimentista quanto a
construção de Brasília. Ver a construção da cidade como um grande
projeto leva à necessidade de entendê-la no contexto de uma decisão
de ordem político-econômica do Estado, em uma determinada con­
juntura. A grande obra é fruto de uma decisão do Estado que acaba
por implicar uma articulação ideológica legitimadora da necessidade
da sua construção. Todo grande projeto tem a sua história em termos
ideológicos. Mas as diferentes versões relativas a cada caso possuem

2 A literatura a este respeito é razoavelmente extensa. Remeto o leitor, por exemplo, ao livro
já mencionado de Maria Victória de M. Benevides (1976) e aos livros Ideologia do Desenvolvi­
mento: Brasil JK-JQ (1977), de Miriam Limoeiro Cardoso; e ISEB: fábrica de ideologias (1977),
de Caio Navarro de Toledo.
35
0 capital da esperança

ao menos um ponto em comum: uma ideologia de redenção regio­


nal ou nacional, conforme o projeto e suas dimensões. Assim, tudo
passa a ser como se o tempo para uma região ou para a nação fosse
definido por antes ou depois do grande projeto cuja presença de fato
implica uma série de transformações. Há que frisar ainda que a deci­
são tomada pelo Estado não necessariamente é guiada pela tentativa
de se implementar um projeto econômico rentável a curto prazo.
À primeira pergunta feita pode ser acrescentada uma indagação corre­
lata: se a construção de Brasília insere-se no âmbito de um movimento
que vem ocorrendo historicamente no país - a penetração para o inte­
rior à procura de terras a serem incorporadas em um grande mercado
nacional (substrato, aliás, de toda a propaganda governamental que
reza a cartilha da interiorização e integração) - por que, ao invés deste
tipo de investimento, não foram realizados outros como grandes pro­
jetos de agroindústria ou de colonização do Centro-Oeste (como foi o
caso da bastante malograda Marcha para o Oeste de Getúlio Vargas,
realizada mais ou menos duas décadas antes)?
Saliento que, em um primeiro momento, a explicação juscelinista
leva a crer que a cidade foi construída graças a uma interpelação
feita por um popular durante a campanha de JK para a Presidência
da República, na cidade goiana de Jatai:

Tudo teve início na cidade de Jatai, em Goiás, a 4 de abril de 1955, durante


a minha campanha como candidato à Presidência da República. [...] No
discurso que ali pronunciei, referindo-me à agitação política que inquietava
o Brasil e contra a qual só via um remédio eficaz — o respeito integral às
leis-, declarei que, se eleito, cu mprir ia rigorosamente a Constituição. Contudo,
era meu hábito... estabelecer um diálogo com os ouvintes, após concluído o
discurso de apresentação da minha candidatura. [...] Foi, nesse momento, que
uma voz forte se impôs, para me interpelar: “O Senhor disse que, se eleito, irá
cumprir rigorosamente a Constituição. Desejo saber, então, se pretende pôr
em prática o dispositivo da Carta Magna que determina, nas suas Disposições
Transitórias, a mudança da capital federal para o Planalto Central” [...]
A pergunta era embaraçosa. Já possuía meu Programa de Metas e, em nenhu­
ma parte dele, existia referência àquele problema. Respondí, contudo, como
me cabia fazê-lo na ocasião: “Acabo de prometer que cumprirei, na íntegra,

36
Introdução
a Constituição e não vejo razão por que esse dispositivo seja ignorado. Se
for eleito, construirei a nova capital e farei a mudança da sede do governo”
(KUBITSCHEK, 1975, p. 7-8).

Dessa forma, a necessidade de construção da cidade surge do “povo”


no seu afã de ver os preceitos constitucionais - todos - respeitados,
inclusive aquele transitório que determinava a transferência da capi­
tal federal para o interior. Brasília, então, no quadro do desenvolvi-
mentismo de JK é acrescentada ao seu Programa de Metas.
Um dos caminhos para entender por que a construção é denominada
de Meta Síntese é recordar, sempre no quadro do arranque desen-
volvimentista do período, que a cidade logo passaria a ser tida como
o “trampolim para a Amazônia”, situando-se, de fato, no centro de
um projeto que, batizado de “cruzeiro rodoviário”, tinha a base da
cruz fincada não na virgem Porto Seguro dos anos 1500, mas no
virgem Planalto Central dos anos 1950, ligando pelo interior Norte
e Nordeste ao Centro-Sul (vide Belém-Brasília, Brasília-Fortaleza,
Brasília-Acre, Brasília-Belo Horizonte-Rio de Janeiro, Brasília-São
Paulo-Porto Alegre). Mais tarde diria Juscelino:

A construção da capital e as freqüentes viagens que eu empreendia, sobrevo­


ando todos os quadrantes do nosso território, faziam com que se ampliasse o
plano que tinha em mente, de promover uma autêntica integração nacional.
Brasília seria a base - o ponto de irradiação dessa política (KUBITSCHEK,
1975, p. 73).

Aqui está um dos principais elementos sempre acionados pelo Estado


ao explicar a construção de Brasília: a sua organicidade para a inte-
riorização e integração nacional. Decisão política e econômica de tal
dimensão não tarda a se tornar um dos alvos da oposição udenista
parcialmente cooptada por JK ao transformar a transferência em um
projeto regional (de estados interioranos e não-hegemônicos) passível
de ser assumido por todos os partidos. Mas, de qualquer forma, era
preciso que o Estado passasse a legitimar o empreendimento recor­
rendo a toda uma elaboração ideológica.
Como já mencionado, os Diários de Brasília, relativos à constru­
ção da cidade, bem como o livro de Kubitschek, Porque construí

37
0 capital da esperança

Brasília, constituem precioso material de análise uma vez que


são uma espécie de matriz cujos juízos de valor, avaliações, en-
cadeamento e ordenamento de fatos históricos, bem como artifí­
cios legitimadores destes, repetem-se parcial ou quase totalmente
na literatura de acesso mais imediato que relata ufanistamente a
construção da cidade. Em grande medida expressam como o poder
encarava, elaborava e legitimava todo um sistema de explicações
a respeito da necessidade e viabilidade da construção da capital.
O livro de JK é o discurso do “pai fundador”, verdadeiro herói
mítico. Já os Diários de Brasília foram encomendados e prepara­
dos por um órgão do governo diretamente ligado ao Executivo,
o Serviço de Documentação da Presidência da República. Assim,
a própria seleção do que devia fazer parte do Diário é um índice
da orientação que presidiu e informou sua confecção. Problemas
cotidianos enfrentados pelos trabalhadores ou fatos extremamen­
te marcantes ocorridos durante a construção, como um sangrento

Pais fundadores: JK, Lúcio Costa, Israel Pinheiro e Oscar Niemeyer examinando o projeto da
Praça dos Três Poderes, novembro de 1958. Foto: Mário Fontenelle
Introdução

conflito envolvendo a polícia e operários, em fevereiro de 1959 (veja


o Capítulo 4), não estão, evidentemente, registrados neste chamado
Diário. Trata-se certamente de um diário, mas um diário do poder.
Assim, privilegiarei a utilização desses dados, não por considerar
que a Presidência da República exprimisse por si só o quadro ideo­
lógico legitimador da construção da capital federal. Mas principal­
mente por encontrar, como já referido, recorrência do conteúdo e
forma desses elementos em outros trabalhos, inclusive em alguns de
perspectiva mais crítica. O jornal de esquerda Novos Rumos, por
exemplo, publicou:

Brasília é uma cidade turbilhão. Dia e noite trabalha-se. É impossível sopitar


um sentimento de orgulho ao contemplar esta obra grandiosa. Ali está o que
de melhor produziu a arquitetura brasileira: desde o Plano Piloto de Lúcio
Costa, aos projetos saídos do cérebro prodigioso de Oscar Niemeyer. E tudo
isto transformado em realidade pelo candango, sinônimo de brasileiro. Sim,
porque os homens que estão tirando Brasília do nada outros não são senão
os simples camponeses brasileiros, sobretudo do Nordeste. Muitos jamais
haviam pegado numa colher de pedreiro, quanto mais num soldador elétri­
co para estrutura metálica. É impressionante sua capacidade de adaptação à
moderna técnica da construção civil. Acima de quaisquer considerações, a
construção de Brasília é um testemunho irrefutável da inteligência e da capa­
cidade realizadora do trabalhador colocado a serviço de uma arquitetura de
vanguarda (NOVOS RUMOS, Rio de Janeiro, n. 54, 11-17 mar. 1960).

Todo o esforço discursivo do Estado e de sua propaganda na época,


tomado aqui nos seus reflexos presentes também em obra de um dos
autores de Brasília, desemboca na legitimação da construção da ci­
dade como um objetivo da nacionalidade brasileira, indistintamente.
Objetivo este que o Estado, sensível aoS anseios dos brasileiros, vinha
apenas implementar. Nesse sentido, destacaram-se duas intenções: 1)
neutralizar a atuação da oposição política, pois propugnar contra a
construção seria estar contra um projeto nacional e, portanto, ser
antibrasileiro; 2) aumentar a dedicação dos trabalhadores, expressa
pelo aumento da intensidade do trabalho (o que fica mais claro quan­
to mais próxima a data da inauguração), algo que seria resultante do
reconhecimento de que estavam participando de um grande projeto
de redenção nacional.

39
0 capital da esperança

Para dar substância a esse quadro, o material mais útil foi a história
oficial do país. A própria história da idéia da transferência da capital
para o interior era facilmente capaz de ser remetida, pelo menos, ao
século XVIII com os inconfidentes e sua intenção de mudar a capital
para Barbacena. Vejamos como isto se deu.

Da Primeira Missa do Brasil a Brasília via


Bandeirantismo e a Marcha para o Oeste
Como o grande substrato deste movimento é a fronteira em expan­
são em direção ao interior do país, é freqüente a recorrência a ana­
logias com momentos históricos que implicavam interiorização e in­
tegração, ou seus corolários, tais como civilização e modernização.
Os portugueses, como elemento colonizador, “civilizador”, desde
sua chegada no país, passam a gozar de uma posição privilegiada
que pode ser percebida em contextos diversos, em diferentes discur­
sos e mesmo em atos concretos. JK fez questão que o presidente de
Portugal, na época Craveiro Lopes, fosse o primeiro chefe de Estado
a visitar a construção de Brasília, em 2 de junho de 1957. O primeiro
embaixador a apresentar credenciais em Brasília foi também pro-
positadamente o embaixador português, em 30 de junho de 1958,
logo após a inauguração do Palácio da Alvorada. O significado deste
privilégio sugere que, tendo sido os portugueses os primeiros euro­
peus a chegar ao Brasil, deveriam ser também os primeiros a chegar
oficialmente a Brasília.3
Nessa perspectiva, existe um acontecimento que indica nitidamen­
te o intuito de reconstituição de um fato do passado - a Primeira
Missa do Brasil - transpondo seu valor simbólico dentro da mitolo­
gia da nossa história para uma Primeira Missa de Brasília, realiza­
da em 3 de maio de 1957. Tenta-se, intencionalmente, reconstituir o
passado, desta vez dramatizado em rito da nacionalidade, casando
a própria organização real da cerimônia com os efeitos simbólicos
e evocações imaginárias que se pretendia produzir. Frisemos que
esta missa não era realmente a primeira realizada no território da
3 Ver a esse respeito no Diário de Brasília, 1956/1957 (p. 97) o discurso de despedida
oficial feito por JK para Craveiro Lopes em Recife, no dia 26 de maio de 1957; ver tam­
bém no Diário de Brasília, 1958 (p. 72 e seguintes) a entrega de credenciais do embaixa­
dor português e os consequentes discursos.
Introdução

construção, já que houve antes dela pelo menos duas outras mis­
sas celebradas em maio ou junho de 1956 {DIÁRIO DE BRASÍLIA,
1956/1957, p. 31-32) pelo bispo Dom Abel Ribeiro e, em 24 de
março de 1957, no Santuário Dom Bosco. Esta última aparece no
Diário de Brasília sob o eufemismo de Primeira Missa vespertina de
Brasília (idem, p. 74). Reproduzo, em seguida, um trecho em que
Juscelino descreve a Primeira Missa:

Primeira Missa de Brasília, rezada em 3 de maio de 1957. Foto: Mário Fontenelle.

Havendo estabelecido as bases materiais e humanas da cidade [Núcleo


Bandeirante], julguei que havia chegado o momento de proporcionar aos pio­
neiros um pouco de conforto espiritual, promovendo a realização da primeira
missa no local onde se erguería a nova capital. Escolhi a data de 3 de maio
por me parecer a mais expressiva, já que recordava a missa mandada dizer
por Pedro Álvares Cabral. As duas cerimônias se equivaliam em simbolismo.
A primeira assinalava o descobrimento da Nova Terra; e a segunda, quatro­
centos anos mais tarde, lembraria a posse efetiva da totalidade do território
nacional (KUBITSCHEK, 1975, p. 76-77).

41
0 capital da esperança

E continua:
Após a cerimônia, teve lugar a homenagem em que os índios carajás [trans­
portados da Ilha do Bananal pela FAB] desejavam me prestar. Foi um espetá­
culo tocante e digno de registro. Os silvícolas ofertaram-me lanças, bodurnas,
tacapes e flechas. O cacique fez-me uma saudação, chamando-me de ‘Grande
Chefe’, e enquanto a assistência aplaudia, os demais índios gritavam. Olhando
em torno, deslumbrei-me com o contraste oferecido por aquela concentração
humana. De um lado, os carajás vestidos de penas, e de outro, as elegantes
da sociedade carioca exibindo as últimas criações dos costureiros de Paris.
Brasília já nascia como um fator de aglutinação dos desníveis nacionais. Os
dois pólos da vida ali se encontravam, dando origem à nova etapa na evolução
do país. E, pairando sobre todos, uma projeção democrática de nivelamento,
enovelava-se a poeira vermelha - a característica do mundo novo que estava
em gestação (idem, p. 78).

É claro que quando a democrática poeira baixou, as elegantes ca­


riocas já se encontravam no Rio de Janeiro e os carajás de volta a
Bananal. A presença destes “dois pólos da vida” na cerimônia apon­
ta para o significado que se desejava dar ao acontecimento: construir
a ilusão de que as diferenças sociais e culturais seriam neutralizadas,
homogeneizadas por meio de uma categoria comum e indistinta, a
nacionalidade brasileira que se exprimia em uma obra comum a to­
dos. Não obstante, a presença dos carajás parece estar revestida de
outro significado fundamental. São eles os elementos mais tangíveis
de identificação entre a cerimônia realizada pelos portugueses em
1500 e pela “nacionalidade brasileira” em 1957. Estão ali a rememo­
rar os índios que teriam assistido a Primeira Missa do Brasil. Temos,
então, um elemento humano concreto, vinculado ao simbolismo da
penetração e do estabelecimento do cristianismo (que aqui pode ser
substituído por qualquer dos seguintes termos: civilização, moderni­
dade, progresso) nas terras “virgens” tanto do Brasil de 1500, quan­
to do Planalto Central da década de 1950.
Vejamos outra narrativa permanentemente utilizada e vinculada à
idéia de interiorização e integração. Talvez mais importante do que
os portugueses (vistos como elemento colonizador), fato sugerido pela
maior recorrência de analogias construídas com esses elementos, seja
a utilização do Bandeirantismo. Serve até mesmo como parâmetro
Introdução

de comparação imediata para a formação das categorias de pioneiros


ou candangos, categorias indistintas que podiam designar desde o
Presidente da República até o servente de uma firma qualquer. Chega
a ser monótona a repetição de alusões e analogias feitas entre o pro­
cesso histórico das Bandeiras, segundo - sempre - o relato histórico
oficial, e o período do governo JK, marcadamente, claro, no que se
refere a Brasília. Limitar-me-ei às duas seguintes citações extraídas
de discursos feitos por Kubitschek:

Perdoai-me a imodéstia, mas não há que ocultar a realidade: o papel que o


meu governo está representando com o prosseguimento da viagem da nacio­
nalidade até Brasília, o que se está realizando, o que tenho a honra de influir
para que seja executado nesta hora, é continuar o feito de vossas [dirigia-se a
estudantes paulistas] bandeiras retomando o caminho heroicamente percor­
rido pelos vossos desbravadores, é estender o Brasil, com o poder da técnica
do mundo de hoje, até onde o conduziu o vosso Anhanguera. [...] ergo-me
para anunciar convosco que recomeçou a Era das Bandeiras (DIÁRIO DE
BRASÍLIA, 1956/1957, p. 200).
O que nós agora estamos fazendo é fundar a nação que os bandeirantes con­
quistaram. O esforço que Brasília representa é, exatamente, o de integrar, na
comunhão brasileira, brasileiros e territórios que nada hoje influem no pro­
gresso e na riqueza deste país. [...] E o que lhes quero dizer é que a mentalida­
de que eles [os Bandeirantes] deixaram felizmente não desapareceu do Brasil,
e aqueles que quiserem percorrer milhares de quilômetros para conhecer o
que o Governo está realizando em pleno coração do Brasil irão aí encontrar o
mesmo espírito e a mesma decisão daqueles que, há mais de três séculos, co­
meçaram a desafiar o mistério insondável deste imenso continente (DIÁRIO
DE BRASÍLIA, 1959, p. 23).

Juscelino também deixa entrever que houve uma certa intenciona-


lidade no preparo dessas analogias quando faz afirmações do tipo
“reli a história dos Bandeirantes”, “anotei o roteiro desses desbra­
vadores”, “fixei o argumento de Fernão Dias”, etc. (KUBITSCHEK,
1975, p. 73). Com efeito, os Bandeirantes, como elementos que se
relacionam com a expansão das fronteiras do país para o interior,
tornam-se ponto focal na articulação do discurso propagandis-
ta do Estado relativo à explicação e legitimação da construção da
capital federal. Sua eficácia, real ou imaginária, tinha sido trazida
0 capital da esperança

à luz em movimento que, mais uma vez, visava deslocar parcelas


consideráveis da população para o interior. É fato que a eficácia do
Bandeirantismo como uma forma de movimento histórico utilizável
na formulação de um projeto ideológico de interiorização já tinha
se expressado anteriormente no projeto varguista da Marcha para o
Oeste. Neide Esterci (1972) em seu trabalho O mito da democracia
no país das bandeiras, apontou, no que diz respeito à utilização das
Bandeiras, para a articulação de um discurso legitimador tanto da
ordem política estadonovista quanto da necessidade de interioriza­
ção, o seguinte:

A Bandeira é um operador semântico adequado porque já faz parte da memó­


ria social do brasileiro como fenômeno meio fabuloso. O que o autor [refere-se
a Cassiano Ricardo e seu livro Marcha para o Oeste: a influência da Bandeira
na formação social e política do Brasil] precisa fazer nesse sentido é apenas
reforçar esse caráter de fábula, de grandioso, reconstruindo o modelo ideal
que convence, não pelo raciocínio crítico, mas sim através do apelo ao caráter
da excepcionalidade, a imagens e a um símbolo já interiorizado. Neste sentido
a narrativa associa o bandeirante a ‘herói’... Bandeira é um operador adequa­
do ainda num outro sentido: remete à mobilidade espacial (op. cit, p. 46).

E importante explicitar a semelhança do discurso de Juscelino com o


varguista. Passo a palavra mais uma vez à Esterci:

Vargas percorreu, então, vários estados do Brasil, sempre estimulando as mi­


grações para o oeste e para a Amazônia: ‘Deste modo o programa do ‘Rumo
para o Oeste’ é o reatamento da campanha dos construtores da nacionalida­
de, dos bandeirantes e dos sertanistas, com a integração dos modernos pro­
cessos de cultura’ [discurso pronunciado por Vargas, em Goiânia, em 8 de
agosto de 1940] (op. cit., p. 26).

E realmente a Marcha para o Oeste a última peça utilizada do ar­


senal da história dos grandes movimentos de interiorização e inte­
gração na montagem do discurso do Estado sobre a construção de
Brasília. Porém, este vastíssimo arsenal ainda fornecia várias armas
estratégicas: heróis da nacionalidade e os contextos em que atua­
ram, sobretudo quando explicitamente vinculados de alguma forma
ao projeto antigo de mudança da capital. Citaremos apenas os mais
Introdução

freqüentes. Entram em cena, então, repetidamente os inconfidentes


mineiros, dentre outras razões pelo projeto de mudança da capital
para Barbacena; José Bonifácio, o Patriarca da Independência, quan­
do, por exemplo, sugere aos constituintes do Império a transferên­
cia da capital, com o nome de Petrópolis ou Brasília; os constituin­
tes de 1891 que estabelecem a mudança da capital como preceito
constitucional.
Lúcio Costa parece ter percebido bem a articulação dos elementos re­
ferentes à interiorização e integração com os mitos da nacionalidade.
Fazendo uma leitura do que se requeria, ele começa a exposição do
seu projeto de Plano Piloto, vencedor de um concurso nacional, com
uma epígrafe onde relembra que José Bonifácio sugeriu, em 1823, a
mudança da capital, com o nome de Brasília, referindo-se, logo em
seguida, à tomada de posse de um território, gesto que inspiraria a
forma básica a ser adotada pelo Plano Piloto: “Dois eixos cruzando-
se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz” (DIÁRIO DE
BRASÍLIA, 1956-1957, p. 213-214). Epstein também chama a aten­
ção para algumas implicações ideológicas da construção da cidade,
bem como o ajustamento do Plano Piloto de Lúcio Costa a este uni­
verso: “As atitudes oficiais em Brasília podem ter sido influenciadas
pela função ideológica especial da nova capital como um símbolo
da nacionalidade brasileira e de progresso sócio-econômico” (1973,
p. 16-17). E prossegue, em outro lugar:

O desejo real de comandar, ‘tomar posse’, como coloca Costa, inspirou o


simbolismo do plano [...] Em todos os seus escritos Costa parecia preocupado
com as funções especiais de Brasília como capital e símbolo. Brasília pode ser
analisada em termos dessas suposições e dos imperativos políticos e culturais
subjacentes à sua construção (1973, p. 51).

Em síntese, as narrativas vinculadas à transferência e edificação da


capital devem ser entendidas como resultantes de uma fusão, uma
condensação de elementos advindos tanto da conjuntura nacional-"
desenvolvimentista que se atravessava, quanto da rearticulação ex­
plícita de momentos, processos e personagens da história brasileira
que possibilitavam a armação de um quadro legitimador. O Estado
tornou-se um amplo divulgador dessas formulações e o Presidente da
República o seu maior arauto. Conferências, exposições, seminários,
45
0 capital da esperança

caravanas de integração nacional são algumas das promoções ofi­


ciais tendo como leitmotiv a “nova era que instauraria Brasília”, rea­
lização da “nacionalidade brasileira”. Entre os “pioneiros” é comum
encontrar-se a demonstração da persistência desses discursos. Disse-
me um pedreiro:

- Brasília provou a capacidade do nosso povo, a capacidade do nosso povo de


realizar uma obra, uma obra... inclusive no prazo que foi realizada, né, com
uma técnica nossa, com a nossa tecnologia sem importar tecnologia de fora,
né, uma obra monumental daquela, construída com gente passando fome.

Um comerciante, ao comentar o ritmo de trabalho que ele presenciou


na construção respondeu:

- Todo mundo tinha um grande entusiasmo. Achava-se realmente que tava


participando de uma grande coisa e que de fato era. Vamo dizer, imprantar a
capital do país aqui nesse pranalto central que num existia nada anteriormen­
te, era uma coisa arrojada.

Ambigüidade jurídica
Brasília foi construída com um enorme capital que o Estado decidiu
investir em determinado ponto, política e economicamente estratégi­
co, do território nacional. Em realidade, para efetuar os trabalhos de
um grande projeto é comum estabelecer-se uma grande companhia
estatal que gerencia toda a obra e empreita os serviços de diversas
companhias particulares que participarão da construção. Estas obras
como geralmente são destinadas, ao menos hipoteticamente, a pro­
mover o “desenvolvimento” do país, ou de uma região se realizam
em pontos relativamente isolados do território nacional. Inclusive
porque uma de suas funções, como sabemos, é estimular com sua
presença a integração de uma área a sistemas regionais e nacionais
mais amplos. Um órgão federal, então, recorta o terreno e passa a
realizar os trabalhos concretos para a instalação dos requisitos ne­
cessários ao desempenho da obra. Dado o volume do empreendi­
mento, a companhia governamental, ao ser criada, já nasce com um
Introdução

certo gigantismo. Possui uma estrutura administrativa e hierárquica


de tal porte que o estabelecimento da sua composição e organização
torna-se evidentemente uma questão de Estado e, necessariamente,
política, visto inclusive o capital que manejará e o trânsito que seus
administradores, em postos hierárquicos altos, terão com outros ór­
gãos governamentais no cotidiano.
No entanto, a configuração do território da obra, decidida por pla­
nejadores, encontra-se com outros recortes concretos já existentes na
realidade da região que receberá o grande projeto. Um órgão federal,
geralmente com uma estrutura de poder resultante de combinações
políticas próximas aos chamados altos escalões do Executivo, con­
fronta-se repentinamente com municípios e autoridades municipais
bastante distanciadas daqueles escalões e, em geral, positivamente
impressionadas com a presença do projeto que irá “redimi-los” do
seu histórico “atraso” (visão de fácil difusão frente à eficácia das
ideologias tipicamente redentoras dos grandes projetos). E comum a
subordinação dos interesses locais; mesmo porque não é difícil ima­
ginar uma tendência da população local a desejar o grande projeto
que traz consigo estradas, casas, “movimento”, enfim “desenvolvi­
mento” e, sobretudo, uma grande oferta de salários que, normal­
mente, são maiores do que os pagos na região. Problemas como a
desapropriação de terras, a ruptura da estrutura fundiária, de for­
mas camponesas e indígenas de produção são levados pelos tratores
ou pelas águas da obra.
Do confronto do recorte arbitrário do território da construção com a
realidade da área, mediatizado pelo poder da grande companhia es­
tatal, surge o que designamos ambigüidade jurídica que espalha suas
conseqüências em diversos níveis. Trataremos agora de delimitar o
que entendemos por ambigüidade jurídica e qüais suas implicações,
enfatizando sua funcionalidade como mais uma forma extra-econô-
mica, típica da lógica interna de um grande projeto, que acaba por
redundar em uma maior exploração da força de trabalho.
Em Brasília, a grande entidade criada foi a Companhia Urbanizadora
da Nova Capital (Novacap). A aprovação da Lei n° 2.874, de 19 de
setembro de 1956, que a constituiu, foi fruto de articulações po­
líticas para que se pudesse contar com uma empresa vinculada ao
Poder Executivo com a maior autonomia possível. O responsável

47
0 capital da esperança
pelo rápido andamento desta Lei no Congresso Nacional foi um
deputado da oposição, da UDN de Goiás (bastante interessada na
transferência da capital). Por outro lado, é bom notar, como chama
a atenção Maria Victoria Benevides (1976, ver, por exemplo, seu ca­
pítulo V), em seu trabalho sobre o governo Kubitschek, a existência
de uma tendência concentradora de poder no Executivo mediante a
criação de várias empresas e grupos de trabalho relativamente au­
tônomos do Poder Legislativo. Segundo Benevides, há que acentuar
“o papel do Executivo, que assume gradativamente todas as funções
referentes à política econômica, principalmente em detrimento do
Legislativo, o qual não participa praticamente do processo decisó-
rio” (BENEVIDES, 1976, p. 208).

Assinatura da lei que fixa a data de mudança para a nova capital. Rio de Janeiro,
1a de outubro dp 19S7
Introdução

Assegurou-se, porém, estrategicamente, a participação da oposição


udenista na Novacap. Vejamos o que diz a Lei:

Artigo 12 - A administração e fiscalização da Companhia serão exercidas por


um Conselho de Administração, uma Diretoria e um Conselho Fiscal, com man­
dato de 5 anos e o preenchimento dos respectivos cargos far-se-á por nomeação
do Presidente da República, com observância dos parágrafos seguintes:

(...]
§ 6a - Um terço dos membros do Conselho de Administração da Diretoria e
do Conselho Fiscal será escolhido em lista tríplice de nomes indicados pela
Diretoria Nacional do maior partido político que integrar a corrente de oposi­
ção no Congresso Nacional (DIÁRIO DE BRASÍLIA, 1956/1957, p. 171).

Apesar de assegurada a influência direta da Presidência da República


e a maioria absoluta de votos na composição dos órgãos com maior
poder de decisão administrativa, a oposição udenista atuou várias
vezes. A frustrada iniciativa udenista de instaurar uma Comissão
Parlamentar de Inquérito - sempre bloqueada pela eficaz, porém,
eventualmente vacilante aliança governista entre o Partido Social
Democrático (PSD) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) -
preocupava o Governo e aparece no livro de Juscelino em capítulo
denominado “Tentativa para paralisar as obras”. Sobre isto escre­
veu o ex-presidente:

Brasília, com menos de dois anos de idade, já se transformara em objeto


de uma batalha a ser travada entre a esmagadora maioria governamental
e uma pequena, mas aguerrida, oposição. Ao contrário do que se poderia
prever, dada a desigualdade das forças em choque, as perspectivas, contudo,
não eram animadoras. E isso porque em face dos sucessivos atritos entre o
PSD e o PTB - os dois partidos de sustentação do governo nas duas casas
do Congresso - era de se temer que as divergências ocasionais, surgidas na
apreciação de questões isoladas, pudessem transformar-se, com o tempo, em
atitudes de franca hostilidade, fendendo, de alto a baixo, a aliança que nte
levara à Presidência da República (1975, p. 201).

De fato, durante todo o período do governo JK, a questão Brasília


foi constante, chegando ao ponto de um deputado federal do

49
0 capital da esperança

próprio partido do Presidente da República (PSD) realizar, por


motivos pessoais, um discurso em sessão extraordinária noturna
da Câmara dos Deputados (3 de novembro de 1959), com várias
denúncias quanto a irregularidades cometidas na construção. As
acusações, feitas numa sessão bastante agitada como se depreende
dos seus registros, posteriormente foram respondidas formalmente
pelo próprio presidente da Novacap - Israel Pinheiro (DIÁRIO DE
BRASÍLIA, 1959, p. 226).
Na Lei que criou a Novacap, foi igualmente importante estabele­
cer a autonomia financeira para liberar a Companhia dos entraves
que certamente apareceriam no desenrolar da obra, por iniciativa da
oposição. É assim que um dos artigos da lei que autorizou o governo
a constituir a Novacap assegura-lhe, em domínio vital, uma ampla
margem de liberdade:

Artigo 21 - Nos contratos de obras e serviços, ou na aquisição de materiais a


pessoas físicas ou jurídicas de direito privado, a Companhia deverá:

a) determinar concorrência administrativa para os contratos de valor superior


a Cr$ 1.000.000,00 (um milhão de cruzeiros), até Cr$ 10.000.000,00 (dez mi­
lhões de cruzeiros), sendo facultado, todavia, ao Conselho de Administração,
por proposta da Diretoria, dispensar a exigência, em decisão fundamentada
que constará da ata;
b) determinar concorrência pública para os contratos de mais de Cr$
10.000.000,00 (dez milhões de cruzeiros), ficando permitida ao Conselho de
Administração a dispensa da formalidade, com as cautelas da alínea ante­
rior, dando-se dessa decisão ciência, dentro de 5 (cinco) dias ao Presidente da
República, que poderá mandar realizar a concorrência (op. cit., p. 173).

Era tal a elasticidade deste diploma, que Juscelino chegou a afirmar:


Como se vê, o trabalho [elaboração da Lei] de Santiago Dantas era perfeito.
A diretoria da Novacap, a ser nomeada por mim, dispunha de poderes amplos
assistindo-lhe o direito de tudo providenciar para a construção da nova capi­
tal, sem qualquer nova audiência ao Congresso (1975, p. 41).

Mais adiante Kubitschek escreve: “A Lei 2.874, que autorizara a


transferência da capital, dava-me liberdade para agir como entendesse
Introdução

ficando excluído do seu texto apenas a data que se daria a mudan­


ça, sobre o que o Congresso deliberaria oportunamente (op. cit.,
p. 44)”.
Com esta Lei, estava pronta para passar a operar a companhia gover­
namental que decidiría os caminhos da implantação daquele grande
projeto, a “obra do século”, a nova capital federal. A União, por meio
de uma poderosa empresa pública federal, intervinha maciçamente
em municípios relativamente isolados. Esta intervenção se fez com
tal intensidade que o poder de Estado, na prática, passa a ser exer­
cido pela estrutura da companhia federal administradora da obra
que não encontra apoio concreto suficiente, ou competição possível,
nos aparatos de Estado porventura existentes na área. Relembremos
que o atual Distrito Federal é um resultado do desmembramento de
partes dos municípios goianos de Luziânia, Planaltina e Formosa
(Codeplan, 1976, p. 25) todos, então, bastante isolados inclusive da
capital do estado, Goiânia.
Na construção de Brasília, o poder da companhia governamental
adquire graus superlativos por estar construindo uma obra de alcan­
ce nacional, a futura capital federal do país, e porque a construção
desta cidade, devido às qualidades próprias de suas funções, impli­
cava o estabelecimento de mais uma unidade especial da Federação,
o futuro Distrito Federal. A constituição deste, em realidade, só se
realizaria quando a cidade atravessasse o rito de passagem da sua
inauguração. Entendo a inauguração como um rito de passagem
uma vez que as cerimônias que a compõem, marcadas para ocorre­
rem em 21 de abril de 1960, transformam radicalmente a qualidade
institucional do território da construção de Brasília. Este, se antes
se debatia com a ambigüidade de ser o território da construção da
capital federal sujeito em diversos níveis à tutela de municípios goia­
nos, após a inauguração passa a ser uma nova e especial unidade
federativa, o Distrito Federal, com todo um status jurídico e político
que o distanciava frontalmente da situação anterior. Achamos que o
entendimento das cerimônias realizadas no dia mesmo da inaugu­
ração (missas, desfiles militares e civis, festas de gala e populares,
peças de teatro, etc.) constituem-se por sua diversidade e conteúdo,
um objeto de reflexão a ser desenvolvido. A conceituação clássica de
rito de passagem pode ser encontrada no livro de van Gennep (1978).
Nesta obra, segundo seu autor, tenta-se “agrupar todas as sequências
0 capital da esperança

cerimoniais que acompanham a passagem de uma situação a outra, e


de um mundo (cósmico ou social) a outro” (1978, p. 31).
Assim, a partir de 21 de abril de 1960, passaria a existir o novo
Distrito Federal e o território da construção encontraria o seu ver­
dadeiro destino jurídico institucional. Porém, enquanto esta data
ainda era um acontecimento no futuro, o território da construção
encontrava-se sujeito à cerrada polêmica sobre o seu estatuto jurídico
no sentido mais amplo possível. No caso de Brasília, a ambigüidade
jurídica é ainda mais notável uma vez que a Constituição do Estado
de Goiás estipulava a separação da área do futuro Distrito Federal
desde quando promulgada a lei que fixasse a mudança da capital (JK
sancionou esta lei em l2 de outubro de 1957). Em sua edição de 25
de maio de 1958, o Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, publicou
o seguinte artigo:

Não se tem devidamente focalizado no problema da mudança da capital as


questões transitórias relacionadas com a situação jurídica atual de Brasília.
Com efeito, de acordo com a Constituição do Estado de Goiás, feita a delimi­
tação da área respectiva e decretada a transferência da capital, o que se teria
verificado ex-vi da lei que lhe fixou a data, considerar-se-á aquela faixa de
terra desligada da jurisdição estadual e consequentemente dentro dos limites
da competência das autoridades da União. A natureza dessa integração parece
que ainda não foi convenientemente examinada. No entanto, dela decorrem
importantes consequências assim teóricas como práticas.
Se é evidente que não poderia a Constituição de Goiás ter criado território
federal algum, também não padece dúvida que o citado dispositivo terá ha­
vido mais do que um ato jurídico de ordem patrimonial tendo por objeto
extenso latifúndio. O patrimônio da União, regulado pelos princípios do
Direito Privado não recebeu qualquer acréscimo no conjunto dos seus bens
dominicais. Estivéssemos diante de uma simples operação imobiliária, como
seria se, por exemplo, a União adquirisse terras para construir a sua Capital e
desaparecería o problema, continuando a área que servisse ao futuro Distrito
Federal, até à sua ascensão a sede do Governo, sob a mesma jurisdição esta­
dual. Tudo, pois, começa a tornar-se problemático do ponto em que se aceite
a interpretação corrente quanto à aplicação do dispositivo da Constituição
goiana, isto é, desde que se admita que Brasília não mais integra o território

52
Introdução

de Goiás. Então caberá indagar em benefício de algumas situações de direito


em que condição jurídica ou sob que regime de competência aquela área atual­
mente se encontra. A questão, como é fácil de compreender, não é meramente
teórica; do ponto de vista prático urge que se resolvam certos problemas,
já postos, e ligados à ordem pública, como por exemplo o do juízo a que se
atribua competência para resolver os litígios ali ocorridos e que venham a
ocorrer nesse período intermediário; o dos Tribunais aos quais se interporão
os recursos; o dos magistrados e processos relativos às futuras eleições de três
de outubro.

Os impasses foram tratados em diferentes ocasiões, como indica


a ocorrência de uma reunião realizada no Palácio Rio Negro em
Petrópolis (RJ), especificamente convocada para tratar do assunto:

Convidados para jantar ontem com o presidente no palácio Rio Negro em


Petrópolis lá compareceram o deputado Emival Caiado e vários juristas para
trocarem os rumos com referência a legislação suplementar de Brasília. Sabe-
se que o professor Santiago Dantas defendeu a tese da criação do território
de Brasília até que se opere a 21 de abril de 60 a mudança da capital federal.
Contra esse ponto de vista insurgiu-se o deputado Emival Caiado com apoio
em constitucionalistas de nomeada. Prevaleceu afinal a tese do parlamentar
goiano ficando decidido pelo presidente Juscelino que o Executivo baixará
decreto regulando a administração da área de Brasília e entregando-a ao Dr.
Israel Pinheiro e bem assim cuidando da instalação aí de órgãos federais.
Ficou convencionado também que a união fará acordo com o Estado de Goiás
para este continuar ali a exercer a Justiça. Tal acordo deverá ser retificado
(sic) oportunamente pela Assembléia Legislativa e Congresso Nacional. Por
último defendeu o deputado Emival Caiado a necessidade de uma emenda
constitucional que discipline a administração do futuro Distrito Federal após
a mudança notadamente cortando a possibilidade de levar para Brasília a
Justiça do Rio de Janeiro. Foi acolhida também essa idéia do parlamentar
goiano e este incumbido de oferecê-la ao Congresso. Ditas providências de­
correm do dispositivo da constituição goiana que considera automaticamente
desmembrada do Estado a área escolhida para Capital a partir da data da
decretação da mudança. Lei Emival Caiado que decretou a mudança para 60
a região de Brasília ficou desincorporada do Estado de Goiás há vários meses”
(Telegrama publicado em O ANÁPOLIS, 20 fev. 1958, Anápolis-GO; mes­
mo texto encontra-se em A TRIBUNA, Núcleo Bandeirante, 28 fev. 1958).

53
0 capital da esperança

Emival Caiado é o mesmo parlamentar udenista goiano responsável


pelo andamento da lei que constituiu a Novacap. Engajou-se tam­
bém em outros movimentos de apoio à transferência como líder do
Bloco Parlamentar Mudancista, de caráter interpartidário.
Vê-se que os encaminhamentos das soluções redundavam em fortale­
cimento intencional do poder da Companhia Urbanizadora da Nova
Capital que, vinculada ao Executivo, dominava totalmente a área em
detrimento dos outros poderes da República, agora notadamente o
Judiciário. Para os problemas de ordem jurídica, desde crimes como
assassinatos até questões trabalhistas, estava o território da cons­
trução subordinado concretamente à tutela das vizinhas e pequenas
cidades de Luziânia e Planaltina (sobretudo esta última) que, como
seria de se supor, não estavam aparelhadas a contento para dar conta
do volume de problemas.
Geraldo Joffily (1977) diz que:

Teoricamente a organização judicial do município goiano de Planaltina deve­


ria amparar os habitantes de todo o quadrilátero de Brasília, até a mudança
da Capital Federal; o que, de modo algum, se poderia realizar, pelo acréscimo
da população e precariedade de pessoal e material de que dispunha aquela
comarca. Os casamentos e óbitos eram registrados nos cartórios de Planaltina
ou Luziânia. Alguns processos criminais ou cíveis, iniciados naquela época,
eram de tal modo deficientes, que não se podiam identificar como elementos
do Poder Judiciário. E que faziam os trinta advogados encontrados na Cidade
Livre por volta de 1959? A resposta simples é que bem desempenhavam uma
das mais delicadas e valiosas funções, parlamentando com os delegados, su­
plicando influências, ameaçando levar os casos à imprensa, redigindo sus-
peitíssimas escrituras de terras, orientando os comerciantes na obtenção dos
‘comodatos’ concedidos pela Novacap para edificação de estabelecimentos de
madeira a título precário, enfim, mil e um ‘negócios’ juridicamente absurdos,
e todavia válidos, naquela vivência (p. 54).

Reproduzo, a seguir, trecho de uma entrevista com um juiz do tra­


balho da região:

- Antes da inauguração, o território estava sob a jurisdição do Juiz de Direito


de Planaltina que era da magistratura goiana. Ele fazia às vezes de juiz do

54
Introdução

trabalho. Quer dizer, sob o ponto de vista legal, a lei civil era aplicada pelo
Juiz de Direito, casamento, questões de ... enfim, qualquer outra questão seria
dirimida ou decidida pela Justiça goiana até 21 de abril de 1960, quando foi
criada então a Justiça ordinária. Agora, logicamente a Justiça de Goiás teria
que ter jurisdição sobre o Distrito Federal, sob pena de ficar inteiramente, essa
região, acéfala, sem nenhuma prestação jurisdicional.

- E isso de fato ocorreu ou não?


— Ocorreu de fato. [...] Criou-se aqui, a Novacap é que administrou isso aqui.
Na realidade, no estado de fato...
— Ela criou até uma polícia, né?
— Ela tinha uma própria polícia [...] Agora a Novacap que era a administrado­
ra da construção, chamou a si, por assim dizer, o poder de polícia. Ela tinha
uma guarda, tinha polícia, tinha cadeia e dirimia até mesmo conflitos traba­
lhistas. Posteriormente, com a instalação, vieram guarnições do Exército, até
que essa força foi extinta, não, substituída por tropas do Exército, da Polícia
do Exército.

Na prática, os problemas ligados à segurança pública foram tratados


obedecendo ao poder concentrado em mãos da Novacap o que atesta
a criação da polícia vinculada a esta empresa estatal e que foi respon­
sável pela insegurança da população:

Com a organização da Novacap foi criado um organismo paramilitar, que


se chamou Guarda Especial de Brasília, conhecida pela sigla GEB, espécie de
grupo de segurança ou guarda policial, infundindo mais temor do que res­
peito. Era comandada por um general reformado e alguns oficiais militares,
atuando, de fato, pela orientação rotineira de alguns delegados ou comissá­
rios vindos das polícias de Minas Gerais ou Goiás. Os praças eram escolhidos
entre os candangos de maior porte e alguns ferozes elementos da polícia goia­
na. De início, aproximadamente 300 homens, que usavam uniforme amarelo,
aproveitado das sobras do antigo fardamento da FAB. [...] Um policiamento
organizado de modo tão primário representava os poderes do próprio Estado
(aceito ou imposto, não cabe agora discutir), com um mínimo de estabilidade
e equilíbrio para o único objetivo que se tinha em mira: construir Brasília. [...]
Como era de se esperar, estes primitivos métodos iriam favorecer toda sorte
de abusos de autoridade, prosperando as violências, extorsões, subornos e
prevaricações (JOFFILY, 1977, p. 52-53).

55
0 capital da esperança

Inicialmente é a necessidade de salvaguardar os depósitos de mate­


rial de construção que leva a Novacap a chamar para si o poder de
polícia, segundo explicação do seu primeiro comandante:

No mês de janeiro de 57, conversava com o Dr. Israel Pinheiro, em seu gabi­
nete de trabalho no Rio de Janeiro, quando surgiu a idéia de ser instalado um
policiamento oficioso em Brasília, para manter vigilância sobre o material
pesado das companhias que se achava espalhado pelo acampamento, pois,
já havia ocorrido alguns casos de furto. Ficou, então, estabelecida a criação
da “Divisão de Segurança Pública da Novacap”, isso aconteceu no dia 20 de
fevereiro de 1957 (JORNAL DE BRASÍLIA, 23 abr. 1978, p. 28).

É também em um universo onde o álcool e a prostituição consti-


tuem-se em alternativas de lazer que ressalta a necessidade de se esta­
belecer um policiamento eficaz para controlar, em todos os sentidos,
uma população maciçamente masculina e adulta. Está claro que o
Estado de Goiás não dispunha dos meios concretos de policiar uma
área cuja população crescia em ritmo inusitado. Deslocar policiais
goianos para a área em número suficiente para a quantidade de habi­
tantes iria sem dúvida prejudicar o policiamento de outras regiões es­
taduais. A Companhia Urbanizadora da Nova Capital, então, como
visto, resolveu criar a Guarda Especial de Brasília (GEB). A violência
policial foi fartamente registrada pela imprensa:

Ambiente de Jagunçada e Prepotência em Brasília [segue-se um texto que


reproduz trechos de uma carta enviada ao jornal por um engenheiro] Ou
Brasília começa, desde já, a civilizar-se, ou não suportaremos, por mais tem­
po, esse ambiente de jagunçada e prepotência que favorece alguns poderosos,
em detrimento dos trabalhadores. Que a voz da imprensa moralize Brasília
[...] A Novacap, encarregada de manter, inclusive, o policiamento da futura
capital do país... está investindo na função de policial indivíduos comple­
tamente desprovidos de condições para tanto, analfabetos, pode afirmar-se,
truculentos, e que estão cometendo uma série de arbitrariedades (O GLOBO,
Rio de Janeiro, 20 maio 1958).

Os criminosos de Brasília são remetidos para a cidade de Luziânia. Afirma-se


que, presos em flagrante e enviados para aquela comarca, no dia seguinte apa­
recem tranquilos nas ruas da Cidade Livre, em colóquio com a polícia. Esta

56
Introdução

Soldados da GEB em frente à administração da Novacap

é a chamada guarda da Novacap. Tem 51 integrantes, dos quais apenas três


são goianos e 6 mineiros. O restante é composto de nordestinos. Ganha, cada
um 5 mil cruzeiros, além de adicionais. Extremamente violenta, encaminha
quase todos os dias as suas vítimas para o hospital e dizem, por brincadeira,
naturalmente, que no exame de seleção o comandante - um coronel reforma­
do da polícia carioca - exige apenas que o candidato levante um saco de 70
quilos para provar se tem ou se não tem força. Um dos últimos atos violentos
da Guarda da Novacap foi o espancamento de um trabalhador. Acabaram
furando-lhe os olhos e ficou por isso mesmo (A HORA, São Paulo, 14 jun.
1958, idem).

Acrescento algumas outras manchetes que bem indicam a intensida­


de do problema:

Novacap Terceira República do Brasil. A polícia da Novacap Assalta o Direito


Constituído da Democracia Humana. Ditadura Implantada por uma Corporação
Inconstitucional (A TRIBUNA, Núcleo Bandeirante, 27 jul. 1958).

57
0 capital da esperança

A Polícia da Novacap está exorbitando suas Funções. E Faz Espancamentos


em Moças e Menores (O ANÁPOLIS, GO, 26 mar. 1959).

Todos os entrevistados quando se recordavam da atuação da GEB


sempre se referiam à sua violência e arbitrariedade:

-Judiava com nego. Eu vi eles pegar um cearense que roubou na Vila Amauri
e correu praquela beira de largo (lago) afora e eles pegaram estrada afora aí e
foram cercar ele lá perto do Palácio da Alvorada. E o sujeito enfrentou a polí­
cia, a polícia enfrentou ele, meteu o pau, e pearam ele, e veio tirando ele piado
até aqui na delegacia que ... meteram o couro, viu (operário de manutenção
de máquinas).

- A polícia chegava, o sujeito tava brigando, a polícia chegava e metia o cace­


te, a polícia atirava, matava, era desse jeito (carpinteiro).
- Ah, o sr. foi convidado pra trabalhar na GEB?
- Fui. Eu fui, num quis. O pessoal chegava do Norte, que aqui tinha pouca
praça pra GEB, ele (um capitão) convidava o povo pra vir. Mas gente que
fosse... que num tivesse medo de nada, que fosse malvado mesmo, num tivesse
medo de nada. Porque aquilo era pra pegar e o pau comer. Que nos quarter
tinha escrito: é mentiroso o preso que entrou aqui e dizer que num apanhou
(servente).

Assim, havia uma polícia que exercia repressão violenta e impu­


ne, acobertada pela necessidade de “manter a paz” no território
da construção, pela ambigüidade jurídica que caracterizava a área,
pelo grande poder concentrado em mãos da Novacap, pela neces­
sidade de inaugurar a obra no prazo previsto. A repressão poli­
cial é um dos fatos mais marcantes na memória dos informantes.
Esta atuação policial levou mesmo a uma atmosfera de terror que
se cristalizava sempre sob a ameaça de “ir buscar a GEB”?AMuitas
vezes a simples menção disto era suficiente para dissolver um con­
flito. Nesse clima, a Guarda Especial de Brasília tornou-se uma
intermediária constante nas relações entre os indivíduos e o Estado,
isto é, a Novacap.
Nesta situação, a ambigüidade jurídica produziu os mais variados
resultados. No período anterior à inauguração encontramos desde

58
Introdução

estelionato até abusos policiais cotidianos.4 Um grande golpe foi


dado por americanos encarregados de uma série de montagens de
estruturas metálicas (O SEMINÁRIO, n2 192, de 9 a 15 de janeiro
de 1960, matéria de última página com a seguinte manchete: Os
norte-americanos da Raymond. Concret Pille deram um rombo nos co­
fres de Brasília). O comércio de material de construção também era
propício para certos tipos de negócios escusos como o seguinte: com
uma viagem apenas de caminhão de areia, dava-se entrada de três a
quatro notas de fornecimento (A TRIBUNA, na 62, de 18 de outubro
de 1959; ver também Epstein, 1973, p. 62-63). O deputado federal
Elias Adaime (PSD), em polêmico discurso no Congresso Nacional,
em 3 de novembro de 1959, ao qual já me referi, alinhava uma série
de denúncias que vão desde o caso da areia até locupletação com ver­
bas públicas, passando por desperdício inusitado de material.

Há inquérito dentro da Novacap sobre consumo de areia. As faturas acusam


o número de 40 mil m3. O empregado e encontrado em estoque foram de
8 mil. Onde estão os 32 mil m3 de areia que custaram 760 cruzeiros o me­
tro? São 25 milhões de areia desviados?! (DIÁRIO DE BRASÍLIA, 1959,
p. 258-259)

A detalhada resposta elaborada pela Novacap e tornada pública em


10 de novembro de 1959 pretendia cobrir todos os itens. O discur­
so do deputado do PSD vinha de encontro aos anseios udenistas de
instaurar uma Comissão Parlamentar de Inquérito e teve grandes
repercussões. Sobre o inquérito que mencionou o deputado, afirmou
Israel Pinheiro:

É bem uma demonstração da vigilância da Administração da Novacap, punin­


do os responsáveis e reduzindo o quanto^possível a ação inevitável dos aven­
tureiros de toda ordem, que proliferam, atraídos pelas atividades pioneiras.
Esses processos são apurados e instruídos pelo Departamento de Segurança
... e em seguida encaminhados ao Departamento Jurídico, que, depois das
instruções finais, na esfera administrativa da Novacap, remete-os à Polícia de
Goiás. Em todos os três processos, os culpados foram devidamente punidos
(DIÁRIO DE BRASÍLIA, 1959, p. 289).

4 0 Diário da Noite, do Rio de Janeiro, em 28 de maio de 1958, publica uma matéria com a
seguinte manchete: "Brasília, um paraíso dos estelionatários". As implicações da ambigüida­
de jurídica no tocante às questões trabalhistas serão vistas no Capítulo 3.

59
0 capital da esperança
No entanto, no livro de um ex-diretor da Novacap sobre a história
da cidade encontramos a seguinte passagem:

Durante a construção de Brasília, a Novacap não tinha Departamento


Jurídico. Para falar com franqueza, o Departamento foi organizado em fins
de 1959, mas só funcionou realmente após a mudança. A Novacap dispunha
apenas de um advogado [...] que ganhava uma gratificação de vinte mil cru­
zeiros, e um Consultor ... Certo dia (o advogado) ponderou ao Israel sobre
certa cláusula de determinado contrato. O Dr. Israel retrucou: - “Olhe, [...] eu
quero um advogado para me ajudar e não para complicar as coisas. Para fazer
o que está na Lei, eu não preciso de advogado; vou fazendo sem a opinião de
vocês. Eu preciso de advogado é para justificar o que não está claro na Lei”.
E assim, sem as filigranas dos longos pareceres, foi construída a cidade
(SILVA, 1971, p. 259).

A ambigüidade jurídica também implicou problemas em outras áreas


como no tocante ao processo eleitoral de 1958 quando se tardou a
definir a situação dos eleitores existentes no território da construção:

Presentemente a situação jurídica e política de Brasília ainda está condicionada


às fronteiras do Estado de Goiás, o que tem suscitado diversas controvérsias
mormente agora, quando se esboça o movimento político, tendente a substitui­
ção dos postos eletivos do Estado mediterrâneo. A posição de Brasília ainda não
está definida (A TRIBUNA, Núcleo Bandeirante, n° 5, 16 mar. 1958).

Enquanto não se define a situação jurídica de Brasília dentro do plano fede­


ral, os residentes desta capital se inscreveram como eleitores nos municípios
goianos de Planaltina e Luziânia. Exerceram o dever 4.081 cidadãos, os quais
compareceram às urnas instaladas na Novacap e no Núcleo Bandeirante,
para elegerem o governador, deputados, o representante de Goiás no Senado
Federal, prefeitos e vereadores das duas localidades a que nos referimos
(A TARDE, Salvador, BA, 7 out. 1958).

Não é difícil imaginar o que significou para essas cidades goianas


terem como eleitores e alguns eventuais candidatos para suas câma­
ras municipais e prefeituras indivíduos sem maiores vínculos com a
realidade cotidiana dos municípios.
Introdução

Outra questão que logo afloraria, e que teria repercussões mais ime­
diatas no dia-a-dia do território da construção, era aquela que diz
respeito ao pagamento de impostos pelo comércio da área. Como
se verá, o não pagamento de impostos foi uma das maneiras en­
contradas para incentivar o afluxo de comerciantes bem como seu
estabelecimento na Cidade Livre, Núcleo Bandeirante. No entanto,
por causa do grande volume de negócios realizados, tornou-se in­
teressante taxar essas transações comerciais e o governo do Estado
de Goiás, tentando manipular a ambigüidade jurídica do território,
passou a pretender exercer direitos fiscais na área. Os comercian­
tes do Núcleo Bandeirante, que já contavam com uma Associação
Comercial, protestaram vigorosamente, ameaçando inclusive reali­
zar greves. Vejamos o que diz sobre a questão um dos jornais da
cidade na época:

Em um acordo estabelecido entre o Estado de Goiás e o governo federal, ficou


resolvido que não seria cobrado impostos às mercadorias que se destinassem
a Brasília, o que infelizmente não vem acontecendo. Com a quebra da promes­
sa, vários transtornos têm surgido, de vez que os caminhões transportadores
de mercadoria para a praça de Brasília são detidos nos postos fiscais, quan­
do não efetuam no local o pagamento exigido, prejudicando grandemente o
abastecimento de Brasília (“Os comerciantes do Núcleo Bandeirante estão
sendo considerados mascates”, A TRIBUNA, n° 11, 30 jun. 1958).

Continua causando sensações a questão da cobrança de impostos em Brasília.


Os comerciantes aqui estabelecidos, amparados pela Associação Comercial
desta cidade, têm lutado no sentido de conseguirem a isenção de impostos
para as mercadorias destinadas à nova capital, ato que tem encontrado reper­
cussão em todas as classes aqui sediadas.[...] Se Brasília estivesse de fato livre
da cobrança de impostos, as cidades de Planaltina e Brazilândia (sic), situa­
das em terrenos do novo Distrito Federal, estariam automaticamente livres de
qualquer pagamento idêntico. No entanto, o comércio daquelas cidades paga
o imposto aos cofres do governo goiano. Existe, porém, uma solução acertada
para tão cruciante problema. Se o comércio de Brasília efetuasse o pagamento
dos impostos, automaticamente poderia exigir o cumprimento da lei, no que
diz respeito aos direitos de que tal pagamento outorga juridicamenre falando,
o trabalho bem realizado da Associação Comercial de Brasília, poderá não
encontrar apoio nas entidades de outras cidades de estados diferentes, por ser
uma Associação que, embora trabalhe e lute em prol da classe comercial de

61
0 capital da esperança

Brasília, fato que merece irrestritos aplausos, está ainda sob a orientação do
Governo do Estado de Goiás, porque como dissemos isto aqui ainda é Goiás.
[...] As greves programadas, que encontram apoio da Associação Comercial,
não constituem o meio adequado para a solução do problema. Estas greves
não afetarão à Novacap nem ao governo de Goiás, e sim ao povo de Brasília,
aos habitantes desta cidade que sofrerão as conseqüências de tais atos. [...]
Fazemos o apelo em nome do povo aos dirigentes da Associação Comercial de
Brasília, no sentido de ser prontamente normalizada esta situação, para que
a população pioneira não sofra as conseqüências das greves programadas.
(A TRIBUNA, Núcleo Bandeirante, n° 16, 25 ago. 1958).

Uma greve de açougueiros chegou a ser realizada. A Associação


Comercial tomou, então, medidas legais para assegurar a isenção de
impostos dos comerciantes do Núcleo Bandeirante:

A Associação Comercial já impetrou mandado de segurança contra o Estado


de Goiás, no dia 16 do corrente, por intermédio do dr. ... Não há razão de ser
... para a cobrança dos impostos em Brasília ... Procuramos ouvir a palavra de
vários juristas ... que foram unânimes em apoiar a nossa resolução. Segundo
a Constituição Federal, seria marcado um dia para a transferência da capital
para o planalto central e, de acordo com a Constituição do Estado, artigo 54,
Goiás perderá os direitos sobre a área onde está sendo construída Brasília.
Ora, a data da mudança já foi fixada para 21 de abril de 1960, portanto, o
estado já perdeu os direitos sobre esta área. (...) Pelo direito ... somente a união
poderá efetuar legalmente a cobrança dos impostos em Brasília, não o Estado
de Goiás, como pretende o atual governo (A TRIBUNA, Núcleo Bandeirante,
n° 18, 2 out. 1958, declaração ao jornal do presidente da Associação, Gileno
Mendes de Andrade).

E a própria temporariedade da ambigüidade jurídica que fez com que


surgissem soluções ad hoc e paliativas e, por isto mesmo, se trans­
ferissem as soluções definitivas para quando o território da constru­
ção encontrasse sua definição jurídico-institucional após a inaugu­
ração. Enquanto isto não ocorre na prática, “A Justiça de Brasília
é a Novacap” (manchete do JORNAL DO BRASIL, 11 set. 1959).
Estamos, então, diante de uma situação aparentemente contraditória
- a presença de uma poderosa companhia estatal federal e a ausência
de uma definição institucional sobre o território da construção cuja

62
Introdução
funcionalidade para a produção de um grande projeto só pode ser
entendida no âmbito de uma polaridade permitida pela ambigüidade
jurídica: de um lado, o maior controle que se podia exercer sobre a
população, de outro, o desrespeito à legislação trabalhista.
Capítulo 1

Os trabalhadores
Capítulo 1 | Os trabalhadores

Um passo inicial para melhor compreender a composição do opera­


riado de um grande projeto é situar o território onde se desenvolve
a construção. É característico deste tipo de trabalho o fato de serem
obras de proporções gigantescas desempenhadas em áreas relativa­
mente isoladas. O território da construção de Brasília, e sua área
mais abrangente que no futuro se convertería no Distrito Federal,
tinha uma densidade populacional de um habitante por quilômetro
quadrado em 1956 (IBGE, 1959, p. 4), localizando-se em área per­
tencente a três municípios goianos: Formosa, Planaltina e Luziânia
(CODEPLAN, 1976, p. 25), todos bastante isolados até mesmo da
capital do estado, Goiânia. Segundo o Censo de 1959 “ainda em
1950, o povoamento do território revelava-se rarefeito; admitindo-
se que a área abrangida tenha permanecido imutável desde 1890”
(IBGE, 1959, p. 3). A densidade demográfica no período 1956/1959
evoluiu da seguinte forma (idem, p. 4):
Dezembro/1956 ....1 hab./km2
Julho/1957........... 2,1 hab./km2
Março/1958 ......... 4,9 hab./km2
Maio/1959 ............11 hab./km2
Vê-se que o impacto demográfico do projeto foi intenso. Por se tratar
de uma área de povoamento “rarefeito”, chegar até ela era bastante
difícil. Um carpinteiro relata sua experiência de viagem, em precá­
rias estradas, de Goiânia para o território da construção, no princí­
pio de 1957:
)
Eu vim lá de Goiânia praqui pra construir o acampamento do aeroporto. Nós
saímo de Goiânia com os caminhão de madeira e viemo praqui. Então aqui,
quando nós chegamo aqui, a gente vinha por Corumbá, Brazlândia, Campo
Limpo [lugarejos da região]. Gastamo cinco dia de Goiânia aqui para vir com
a madeira. Num tinha estrada, num tinha nada. Era um negócio meio difícil
pra vir, né.

Tratava-se, portanto, de uma área praticamente desprovida de traba­


lhadores em quantidade que possibilitasse suportar a presença repen­
tina de uma empreitada tão grande quanto a construção de uma cida­
de. Esta situação tem duas implicações fundamentais e altamente re­
lacionadas entre si: 1) torna-se imperioso criar as condições concretas
)
67 )
Construção de uma "ponte" para chegar a Brasília (1956)

para a realização do trabalho (por exemplo, construção de estradas


para acesso ao local, de trabalhadores e materiais; construção de pré­
dios destinados a residências de trabalhadores, armazenagem do ma­
terial e prestação de serviços; 2) aglomerar e imobilizar no território
um grande número de trabalhadores para se engajar na obra.
Tornou-se necessário atenuar ou terminar, o quanto antes, o isola­
mento relativo da região. Uma das primeiras obras realizadas foi a
construção de um campo de pouso para aviões que eram, evidente­
mente, naqueles momentos iniciais, o meio de transporte que podia
assegurar a mais rápida via de acesso à área, com menos esforço
possível. Por outro lado, também é evidente a inviabilidade de cons­
truir uma cidade usando como único meio o transporte aéreo. Deste
modo, a necessidade de construir acessos por terra, para fazer che­
gar a grande e necessária quantidade de material e trabalhadores,
leva ao começo da construção de estradas, principalmente da es­
tratégica Brasília-Anápolis. Esta cidade goiana, localizada a cerca
de 140 quilômetros de Brasília, desempenhou importantes funções
68
Capítulo 1 | Os trabalhadores
i
vis-à-vis o território da construção uma vez que era a de maior porte
próxima ao local. Além disso, era o ponto final da estrada de ferro
que levava ao sul do país, sendo, portanto, via privilegiada de trans­
porte de materiais e trabalhadores. Por Anápolis chegava-se a São
Paulo, restando então como prioridade construir uma estrada até
Belo Horizonte que conectaria o território também ao Rio de Janeiro.
A Brasília-Anápolis foi a primeira rodovia asfaltada que ligou a
área da construção a outras do país. A inauguração da sua pavi­
mentação foi em junho de 1958. Não cabe dúvida que representou
a principal via de ligação efetiva do território da construção com
outros centros do país.

0 pequeno avião ajudou a trazer os primeiros que chegavam. Fazenda do Gama (1956-1960)

Os trabalhos destinados a prover as necessárias vias de acesso não se


dão isoladamente, no sentido de que não se espera que terminem para
que outros sejam iniciados. Em realidade, foi utilizando-se precaria­
mente as pequenas estradas existentes, que recebem alguns melho­
ramentos provisórios para sustentar o tráfico. Concomitantemente
a este tipo de trabalho, é necessária a execução de vários outros

69
0 transporte aéreo é essencial à colonização de novas áreas.
Aeroporto de Brasília (1957-1960)

trabalhos ligados ao provimento de habitação e serviços para os que


começam a chegar em fluxos consideráveis. Segundo o Censo de
1959, a população teria decuplicado em menos de três anos (IBGE,
1959, p. 3).
& A Companhia Urbanizadora da Nova Capital divide, então, o ter­
ritório da construção em três grandes áreas com atribuições espe­
cíficas para o desenrolar dos trabalhos: uma destinada à iniciativa
privada, ou seja, principalmente aos comerciantes que passariam a
servir a população trabalhadora; outra para o acampamento central
da própria Novacap, com alojamentos diversos, armazéns, depósi­
tos, escritórios e outros equipamentos; e, finalmente, áreas para os
acampamentos das companhias construtoras particulares. Este é o
recorte inicial realizado para dar conta dos diversos problemas bási­
cos relativos aos primeiros momentos da obra: a) instalação dos mi­
lhares de trabalhadores que iriam se engajar na construção; b) oferta
de serviços para essa população; c) instalação da administração que
irá controlar a área e sua população; d) armazenagem do material de
construção a ser utilizado.
A área destinada à prestação de serviços fornecidos pela iniciativa
privada torna-se a Cidade Livre ou o Núcleo Bandeirante. O grande
loteamento que deu lugar à Cidade Livre, se inicia no final de 1956,
70
Capítulo 1 | Os trabalhadores

destinando-se, em geral, a receber e fixar os particulares isto é, so­


bretudo os comerciantes e, residualmente, os trabalhadores que che­
gavam ao território sem nenhum vínculo imediato com a construção.
Chamava-se Cidade Livre justamente por ser, inicialmente, a única
área onde se podia entrar livremente para estabelecer residência ou
desempenhar uma atividade e por ser uma área para atividades pri­
vadas na qual se incentivava o estabelecimento de comerciantes me­
diante a isenção de impostos. A intenção era formar um núcleo de
comércio para atendimento da população imigrante.
Os lotes eram distribuídos em regime de comodato, devido ao cará­
ter temporário que se pretendia para o assentamento. Imaginava-se
transferir a população da Cidade Livre a partir do dia da inauguração
de Brasília, quando então passaria a ser “ilegal” a permanência no
local. Deste modo, só se permitia construir casas de madeira, o que
acabou por dar à cidade uma aparência de grande acampamento, de
“cidade de faroeste”, e acarretou problemas diversos de infra-estrutu­
ra urbana como a ocorrência de grandes incêndios que se alastravam
facilmente. Para impedir que o fogo atingisse maiores proporções era
preciso destruir alas inteiras de barracos, terminando, assim, com a
continuidade do madeiramento. Em 1959, este núcleo populacional
contava com 11.565 habitantes (IBGE, 1959, p. 40).
Anápolis

Cidade Livre em 1959


Rodoviária
Zona de prostituição, placa da Mercede$
Avenida Central
Hotel Buriti
Segunda Avenida
Associação Comercial
Cine Brasília
Hotel Jurema
Mercado
Cine Bandeirante
Colégio La Salle
Travessa Dom Bosco
Acampamento da Metropolitana
Igreja Dom Bosco

Córrego Riacho Fundo

Plano Piloto

Córrego Vicente Pires

Novacap
Capítulo 1 | Os trabalhadores

A Cidade Livre encontrou-se marcada desde o começo pela função


de cidade comercial. Sendo a única localidade do território da cons­
trução que se considerava de ocupação “livre” era ali onde se pro­
curava hospedagem (daí o grande número de hotéis até hoje existen­
tes), lazer (proliferam os bares, restaurantes, boates e uma zona de
prostituição), bem como serviços em geral (correio, bancos, médicos,
advogados, feira livre, comércio a varejo e a atacado, com os seus de­
pósitos, igrejas, escolas, etc.). Com uma movimentação permanente
relativa a toda a área do território da construção, mais a pressão pro­
veniente da continuação da imigração massiva, a Cidade Livre logo
passou a ser um problema quase inteiramente desgovernado.

Candangolândia, área residencial da Novacap (1957-1960)

A segunda área que nos interessa é aquela destinada às instalações


da Companhia Urbanizadora da Nova Capital. Situou-se próxima
à Cidade Livre e, conhecida como Velhacap, centralizava os servi­
ços necessários ao exercício das atividades da companhia, as mora­
dias dos seus funcionários e engenheiros. Nela estavam, além dos
diversos departamentos ligados à administração da companhia, o
maior hospital do território da construção (o Hospital do IAPI), um
grande restaurante do SAPS (Serviço de Alimentação da Previdência
Social) que atendia milhares de trabalhadores, instalações policiais,

73
Gjníidngõiândid

Aeroporio-

Sede da Novacap até 1960


Escola Júlia Kubitschek
Residências
Olaria
Escritórios
Posto de Saúde
Garagem
11__ _ Presídio da GEB
Armazém
Adm. Central da Novacap
Cartório
Correio
Lanchonete
3
-J
1 Barbeiro
Restaurante SAPS
JJ

17 Restaurante e clube social


18
Alojamento eng. solteiros
Res. para funcionários
Alojamentos solteiros
Alojamentos solteiras
Casas para engenheiros

B F'l-i.140
Plainaltina Cidade Livre

Plano PiFoto

- 6-elo Horizonte
Anápolis
Capítulo 1 | Os trabalhadores

etc. Imediatamente próximo deste conjunto de prédios com funções


administrativas ou de residências de engenheiros, foi construída a
Candangolândia que, como o nome indica, era destinada às resi­
dências e alojamentos de trabalhadores da Novacap. A população
total da Velhacap era, em 1959, de 4.186 habitantes (IBGE, 1959,
p. 40). Com a Cidade Livre, a Velhacap formava um núcleo central
da organização da vida no território da construção (ver mapa após o
Prefácio). Essas localidades intercambiavam suas funções em termos
de orientação dos trabalhos da construção: uma como sede das tran­
sações comerciais e, a partir de certo momento, como um mercado
de compra e venda de força de trabalho; a outra como sede do poder
do Estado que era representado pela Novacap.
Nas margens dessas localidades estava o terceiro conjunto planeja­
do para definir a ocupação territorial da área da construção: o dos
acampamentos das companhias privadas. Estes eram até certo ponto
dispersos. Podiam ser encontrados próximos à Cidade Livre, assim
como em alguns pontos onde havia obras do que seria, no futuro,
o Plano Piloto. No entanto, em termos de representatividade numé­
rica, a mais importante aglomeração foi a que se tornou conhecida
como Vila Planalto. Sua localização era propositadamente próxima
à área central, o Eixo Monumental, onde se construía a Praça dos
Três Poderes e a Esplanada dos Ministérios, obras que concentravam
trabalhos de grande volume de terraplenagem e de edificação ligados
à construção de palácios, blocos ministeriais, Rodoviária e o Teatro
Nacional, por exemplo. Do conjunto maior da Vila Planalto faziam
parte acampamentos de empresas como Construtora Rabelo, Pacheco
Fernandes Dantas Ltda., Construtora Pederneiras e Construtora
Nacional. Aí se instalaram milhares de trabalhadores, vinculados
à forma de moradia acampamento que, como veremos no próximo
capítulo, é característica central dos grandes projetos.
Os três tipos de áreas que descrevi sucintamente resultaram da solu­
ção estabelecida para receber o afluxo de trabalhadores que passou
a se dirigir ao território da obra, logo que a notícia da construção
de Brasília foi divulgada e seus atrativos veiculados. O esquema de
moradias para trabalhadores em grandes acampamentos não previa
residências para famílias em número suficiente. Assim, praticamen­
te apenas os operários mais graduados na hierarquia do ramo da
construção civil obtinham moradias que possibilitavam trazer seus
75
0 capital da esperança
familiares. Desse modo, a Cidade Livre inicialmente era o único nú­
cleo habitacional onde as famílias podiam se instalar. Levando-se
em conta que era destinada a ser basicamente um centro de comér­
cio, vê-se que no decorrer do tempo o afluxo de comerciantes con­
jugado ao de operários logo tornou difícil, especialmente para estes
últimos, a obtenção de uma moradia no local. Relembremos ainda
que, de acordo com as intenções iniciais, esse núcleo habitacional era
de caráter provisório destinando-se, futuramente, sua área a outras
funções. A Novacap tentou conter o crescimento da cidade, proibin­
do, a partir de 31 de dezembro de 1958, novas construções na área
sem, contudo, conseguir deter de fato o processo.
Para os operários que continuavam a chegar, ficavam as alternativas
de se submeterem aos altos aluguéis existentes na Cidade Livre, di­
vidindo muitas vezes uma só casa com várias outras famílias; tentar
conseguir por meio da manipulação de relações pessoais com polí­
ticos ou administradores um terreno para construir, passando por
cima de proibições formais; ou, a solução mais comum que inau­
gura um processo existente até hoje, ocupar áreas não destinadas a
suas residências. A questão da habitação logo encontra seu clímax.
Começam a surgir as “soluções” do tipo construção de cidades-saté-
lites como Taguatinga, em junho de 1958, ou vilas operárias “livres”,
como a Vila Amauri, também em 1958, em uma área que futura­
mente seria coberta pelas águas do Lago Paranoá.
O surgimento de uma grande obra acaba atraindo números crescen­
tes de trabalhadores. As viagens para a área eram estafantes e basica­
mente feitas em transportes precários como caminhões pau-de-ara­
ra. Até Anápolis, Goiás, podia-se chegar em trens superlotados sem
condições de higiene e alimentação.1 Por causa do estado de relativo
isolamento do território da construção, o tempo gasto nos percursos
poderia variar de dezesseis dias desde o distante Ceará, por exemplo,
até, em época de chuva, cinco dias da próxima Goiânia (antes de ser
inaugurada em 30 de junho de 1958 uma estrada asfaltada).

1 Ver, por exemplo, as seguintes matérias:"Sertanejos de malas prontas rumo a Brasília!", da


Gazeta de Notícias, Fortaleza, 6 de janeiro de 1959; "Inic encaminha centenas de trabalha­
dores para Brasília. Ao que parece, todavia, não dispõe de verba para atender devidamente
aos imigrantes", e "Representantes do Inic dão explicação", em O Anápolis, de 21 de março
de 1960 e 25 de março de 1960, respectivamente. 0 cálculo de tempo que se segue baseia-se
em depoimentos de informantes.
Todos os caminhos levavam a Brasília (1957-1960)

Além de a existência de um grande projeto estimular o afluxo de


grandes quantidades de trabalhadores que vêm em busca de melho­
res salários, no caso de Brasília, tratou-se de divulgar formalmente
pelo país o volume da obra e o que isso representava em termos de
oportunidades para quem quer que nela buscasse trabalho. Juscelino
Kubitschek afirma:

Divulgando-se a notícia de que havia trabalho para todos em Brasília, avo­


lumavam-se cada semana as levas de trabalhadores que lá chegavam. Vinha
gente de todas as regiões do país. Era uma verdadeira torrente humana, que
os caminhões canalizavam para o Planalto. Pobres de todas as latitudes em
busca da Terra da Promissão (KUBITSCHEK, 1975, p. 81).

A articulação de uma propaganda para estimular o afluxo para o


território da construção fica clara na seguinte passagem de Epstein
(1973, p. 140):

Nos primeiros dias de Brasília, grandes gastos governamentais numa área


onde virtualmente não existia oferta de trabalho estimularam um grande e

77
0 capital da esperança

crescente afluxo de imigrantes. Entidades oficiais tanto quanto os meios de co­


municação contribuíram para a atração de muitos dos migrantes para a nova
capital. Relata o antigo diretor da Novacap Ernesto Silva: “O Inic (Instituto
Nacional de Imigração e Colonização), de acordo com suas obrigações, em
todos os cantos do Brasil apontava o caminho para Brasília e facilitava o
transporte” (CORREIO BRAZILIENSE, 4 jun. 1967).

O afluxo de trabalhadores, esta “torrente humana” de que fala


Juscelino, se em princípio aparentaria ser uma massa informe, ao
analisarmos as formas pelas quais os trabalhadores compunham esse
afluxo, eram recrutados e selecionados para o trabalho, surgem con­
tornos que apontam para uma caracterização específica da força de
trabalho que se engajou na grande obra. De fato, as especificidades
relativas à composição da população em Brasília aparecem constan­
temente no Censo de 1959. Especificamente sobre as características
do mercado de trabalho, o Censo chama a atenção para o que classi­
fica de condições anormais:
O território está sendo povoado com vistas à construção de um grande centro
metropolitano; todas as atividades da população confluem, em consequência,
para a indústria de construção, de que, direta ou indiretamente, a grande
maioria da população aufere rendimentos (IBGE, 1959, p. 57).

Chegada, recrutamento e seleção


As trajetórias realizadas pelos trabalhadores individuais que se dirigiam
para o território da construção são relevantes, pois expressam inten­
ções subjetivas. São sociologicamente mais importantes ainda quando
se imbricam com as formas de recrutamento e seleção que terminam
por compor a força de trabalho que participou da obra. E fundamental
estabelecer uma distinção entre o que designo afluxo desorganizado e
afluxo organizado, para efeito de análise da formação e composição do
operariado que se engajou na construção de Brasília.
Afluxo desorganizado é aquele em que a decisão de ir para o território
foi tomada pelo indivíduo sem a presença de um aliciador de mão-
de-obra. Ao mesmo tempo, esta categoria significa que o trabalhador
tomou conhecimento da construção por outras vias extrapropagan-
da governamental, o que relativiza a importância desta e chama a
atenção para redes sociais mantidas pelos trabalhadores. Além disso,
78
3
Capítulo! | Os trabalhadores 3
e talvez mais importante, significa que a trajetória dos trabalhadores
individuais não foi organizada ou orientada por nenhum órgão do
Estado (ou por nenhuma empresa particular), vinculado aos interes­
ses do planejamento da produção do grande projeto.
Já o afluxo organizado se define basicamente por oposição à catego­
ria anterior. Nele, o trabalhador tem como mediador da sua traje­
tória um aliciador de mão-de-obra, uma empresa particular ou um
órgão governamental com as mesmas funções. É encaminhado ao
território da construção por um órgão do Estado com funções explí­
citas de regularizar a formação e composição da força de trabalho
dentro dos limites ajustados às necessidades da produção do grande
projeto e sob cujo controle o trabalhador pode permanecer desde a
saída do seu local de origem até sua chegada e ingresso na atividade
produtiva. Além disso, o indivíduo se intera da presença da constru­
ção e das suas oportunidades com os órgãos governamentais ou as
empresas de construção particulares, nas quais já trabalha ou não,
que o transferem para a área.
Esta diferenciação deve ser entendida como um artifício analítico,
pois se nos primeiros momentos da construção da nova capital fe­
deral todo o afluxo aproximava-se mais da caracterização de afluxo

Homens chegando a Brasília (janeiro de 1959)


0 capital da esperança

desorganizado, com o decorrer do tempo, sobretudo por passar a


existir no território um incipiente e próprio mercado de trabalho lo­
calizado basicamente na Cidade Livre, o afluxo desorganizado passa
a ser relativamente reprimido e a conviver cada vez mais intensamen­
te com um afluxo organizado. Isto indica inclusive uma tentativa dos
responsáveis pelo território de controlar uma superpopulação, tanto
em termos da quantidade necessária à obra quanto em termos da
possibilidade de prover habitação para os que chegavam.

O afluxo desorganizado
Tudo indica que esse tipo de afluxo foi predominante nos primeiros
momentos da construção de Brasília, quando a área ainda se encon­
trava bastante isolada. O acesso ao local era, então, de tal forma
difícil que os primeiros trabalhadores a se dirigirem para o territó­
rio para realizar os trabalhos iniciais de construção de alojamentos,
depósitos, campo de pouso, vinham quase exclusivamente de áreas
circunvizinhas, sobretudo do Estado de Goiás. Esses trabalhos ini­
ciais não implicavam a presença de um número muito grande de
trabalhadores. Era necessário construir, além de alguns primeiros
prédios vinculados às atividades da Novacap, as primeiras estradas
de serviço internas ao território com suas obras relativas como pe­
quenas pontes.
Lembremos também que nesta época (fins de 1956, começo de 1957)
não se conhecia qual seria o traçado da cidade. O Plano Piloto só
seria definitivamente escolhido em concurso público nacional, cujo
resultado foi decidido em março de 1957. A esta altura, os trabalhos
ligados à construção da cidade, propriamente dita, só tinham come­
çado em seus aspectos logísticos. O Censo de 1959, em tabela relati­
va ao “lugar e situação do domicílio anterior”, deixa ver claramente
que a composição da população do território foi, desde o princípio,
marcada pela predominância de goianos e, logo em seguida, de mi­
neiros (IBGE, 1959, p. 98-99, e também p. 52).
São os primeiros operários que vêm ao território para tarefas espe­
cíficas que passam a veicular, nos seus locais de origem, a existência
do grande projeto e, por conseguinte, a grande necessidade de tra­
balhadores para a sua realização. Assim, muitos operários não se
Capítulo 1 | Os trabalhadores

informam do início das obras pelos mecanismos formais de divulga­


ção e propaganda articulados pelo governo, nem são persuadidos a
dirigirem-se para o local da construção por aliciadores profissionais
ou órgãos governamentais vinculados à obra. O que opera nesses
casos, como canais informativos, são as redes sociais estabelecidas
pelos trabalhadores, vinculadas tanto à atividade produtiva em que
estão inseridos quanto à sua vida social mais ampla:

Porque ele [um amigo] ganhou muito dinheiro aí, que a companhia pagou
muito bem pago, muito dinheiro. Bom, aí ele ficou lá em Goiânia assim, que
ele era carpinteiro muito bom, né. Aí vortou. Quando um dia ele chega lá na
oficina: rapaz, aquela Cidade Livre começou e eu vortei pra lá, tou trabalhan­
do lá, então lá tem muito serviço. Você quer ir trabalhar lá? Aí eu falei assim:
rapaz, eu vou (carpinteiro).

Nós tava em Centralina, na divisa de Goiás. Aí um conterrâneo meu, amigo


velho, de criança, muito conhecido, meu amigo, ele veio praqui em fevereiro.
Aí eu pedi quando vortasse lá pra ele levar notícia pra ver como é que tava.
Foi quando houve aquela missa aqui, mês de maio, né. Aí, depois da missa ele
foi lá e me contou tudo. Como é que tava aqui e tal. Foi e me informou. Eu
fui e vim cá (servente).

Estes trabalhadores individuais quando chegavam ao território da


construção não vinham vinculados a nenhum emprego e permane­
ciam algum tempo à procura de um. Como havia uma grande neces­
sidade por trabalhadores, geralmente não tardavam muito para en­
contrar uma ocupação. Um comerciante do Núcleo Bandeirante, em
Brasília desde os primeiros dias de 1957, quando perguntado para
onde se dirigiam os trabalhadores quando chegavam afirmou:
<4
o r X Aqueles que é operário, vamo dizer, braçal sem profissão qualificada ia pras

companhia. E também os operário especializado que não queria cuidar da
vida comercial era só chegar que tinha serviço nas companhia. Podia escolher
ou uma ou outra companhia. Tinha várias. A oferta tinha oportunidade para
escolher. Quem pagava melhor salário, quem tinha melhor alojamento. Então
daí a razão porque constantemente ia chegando grandes levas de pessoas a
Brasília. Porque chegava aqui tinha oportunidade de se começar a trabalhar.
Ou com comércio particular, ou na sua profissão, ou como simples operário
braçal. Tinha serviço para toda espécie.
81
0 capital da esperança

É claro que a afirmação “só chegar que tinha serviço nas compa­
nhia” necessita ser relativizada, sobretudo porque, como veremos
mais adiante, existiam requisitos que, via formas de recrutamento
e seleção, definiam as características do conjunto de operários que,
em termos gerais, eram engajados na obra. Se era grande a necessi­
dade por serventes, os trabalhadores menos qualificados dentro da
construção civil, a procura por profissionais era relativamente maior,
o que facilitava ainda mais, para esses trabalhadores, a entrada em
empregos.

Quando eu cheguei em Brasília fiquei completamente surpreendido com a


procura principalmente de profissionais, né. Pedreiro, carpinteiro, armador.
Esses aí chegava lá não tinha problema pra arrumar emprego (pedreiro).

Nessa época era fácil arrumar emprego. Me ocuparam como apontador fiscal.
Quem soubesse ler e escrever, naquela época eles ocupavam como apontador,
fiscal. Tivesse uma certa facilidade de escrever qualquer coisa, né. Tinha mui­
ta falta de mão-de-obra, e falta de encarregado de obra, que conhecesse de
obra, essa coisa toda (apontador).

Os carpinteiro que fazia soalho de peroba era só arguns. Porque tinha muitos
homens que trabalhava mas num sabiam fazer um soalho de peroba, aquele
soalho bem feito. Ele (um patrão) mandou eu fazer. Falou: ó, pois você que vai
fazer isso pra mim, é o único que vai dar conta de fazer porque todos que eu
mandei fazer aqui num presta. Fiquei fazendo (carpinteiro).

É comum, nos mercados de trabalho, haver uma superabundância


de trabalhadores não-qualificados. No caso das grandes obras, a es­
cassez de profissionais pode ser maior porque o mercado de trabalho
está em formação e tem uma necessidade enorme por trabalhadores
qualificados. De fato, por ser muito grande o número de profissio­
nais repentinamente requeridos para se engajar nos trabalhos, au­
menta a desproporção entre a presença de trabalhadores qualificados
e não-qualificados existente regularmente nos mercados de trabalho.
Há que se considerar também que a necessidade por profissionais é
diferenciada no sentido que se requer um número maior de pedreiros
do que eletricistas, por exemplo. Assim, pode-se ter uma situação em
que encontrar determinado tipo de profissional seja mais difícil do
82
Capítulo! | Os trabalhadores

que outros. Visto ainda que a situação salarial de um profissional é


melhor do que a do servente, já que o preço da sua hora de trabalho
é mais alto, pode-se supor que a tomada de decisão por parte do
trabalhador profissional de dirigir-se para o território da construção,
envolvesse maiores cálculos individuais dado que sua carreira dentro
da construção civil poderia se encontrar em situação mais estável.

A Cidade Livre era um ponto ativo do mercado de trabalho (agosto de 1959)

Segundo Coutinho, existem, na construção civil, basicamente três


modalidades de recrutamento: “a) recrutamento direto, feito pelo
mestre-de-obra e por meio de anúncios afixados na porta da obra ou
de indicações pessoais; b) feito pelas firmas especializadas, median­
te anúncio em jornais; c) feito pela construtora ou pelas empresas
(contratadas para a execução das distintas fases da obra pelas em­
presas especializadas em locação de mão-de-obra)” (COUTINHO,
1975, p. 31).
Os trabalhadores que vinham para o território da construção por
meio do afluxo desorganizado, por não estarem ainda vinculados a
83
0 capital da esperança

empregos, chegavam inicialmente na Cidade Livre que logo se trans­


formou no ponto privilegiado para o mercado de trabalho. A partir
de uma determinada demanda por trabalhadores, as transações en­
tre empregadores e empregados passaram a ocorrer tanto nas formas
mais comuns de recrutamento quanto nas formas mais próximas às
especificidades do cotidiano de uma população engajada em uma
grande obra que estende seus interesses para todas as esferas da vida
social, levando-os até o escuro das salas de cinemas. Uma indica­
ção da disputa que havia por força de trabalho eram as formas de
recrutamento por meio de anúncios publicitários das firmas, feitos
em sessões de cinema na Cidade Livre, em que apareciam os salários
pagos por hora para distintas categorias, bem como o número de
trabalhadores que se requeria.

No cinema eles faziam aquela propaganda de procura de operário, era a ma­


neira prática que eles tinha de fazer anúncio: propaganda das firmas, de casa
de comércio, convidava o pessoal pro trabalho, caminhão pra fichar, essas
coisa assim (operário de manutenção de máquinas).

Um método bastante utilizado foi a transmissão, através de serviços


de alto-falantes, das necessidades das firmas:

A cada instante, alto falantes, possantes, colocados nas esquinas do “Núcleo


Bandeirante” ou “Cidade Livre”, reclamam a presença de pedreiros, serven­
tes, carpinteiros, marceneiros, indicam os escritórios que devem ser procura­
dos (DIÁRIO DA NOITE, São Paulo, 26 jan. 1960).

Este método podia também ser utilizado em outros locais como, por
exemplo, nas proximidades dos canteiros de obras:

Coisa que não fartou aqui foi trabalho. Fartou trabalhador, mas trabalho não.
A gente via nas obras, nos alto-falantes por aí o pessoal anunciando: precisa-se
trabalhador e tal. Esses alto-falantes de parque, de cinema, em cima do carro
justamente para fazer esses convite (operário de manutenção de máquinas).

No entanto, progressivamente a escassez de operários, especialmente


de serventes, diminui. Passa-se, assim, a um controle do afluxo de
Capítulo 1 | Os trabalhadores

pessoas para a área. Os trabalhadores individuais que se encami­


nhavam para Brasília sem encontrar maiores ordenamentos nas suas
trajetórias de viagem, defrontam-se, então, com um órgão do Estado
com funções explícitas de regularizar a composição do operariado
da área.

O a fluxo organizado
É este tipo de afluxo, com suas formas próprias de recrutamento,
encaminhamento, seleção e controle dos operários, que acaba por
definir, por sua contribuição decisiva na formação da população
do território da construção, os traços básicos da força de trabalho
que se engajou na obra de Brasília. Temos de entender as funções
desempenhadas pelo órgão do Estado que tinha as atribuições de
regularizar o afluxo, a chegada e a seleção de operários, bem como
a inserção deles na atividade produtiva. Tratava-se do Instituto
Nacional de Imigração e Colonização (Inic), situado na Velhacap,
nas proximidades da Cidade Livre.
O Inic instala-se no território da construção apenas no final de 1957
quando já havia um mercado de trabalho relativo a uma população
de aproximadamente 18 mil pessoas (IBGE, 1959, p. 3-4). O nú­
mero de trabalhadores que afluía para o local tornava obrigatória a
sua presença para atender “ao crescente movimento de candidatos
a emprego nas obras de construção da futura capital” (DIÁRIO
DE BRASÍLIA, 1956/1957, 1960, p. 132). Operando nacional­
mente, contava em sua estrutura com Postos de Colocação, Postos
de Distribuição e Hospedarias de Trânsito que formavam cadeias
de recepção e encaminhamento de trabalhadores e se localizavam,
preferencialmente, em locais estratégiços como entroncamentos ro­
doviários e ferroviários. Para desempenhar suas funções regulado­
ras no tocante à formação da população trabalhadora em Brasília,
o Inic, em atuação conjunta com a Novacap, contava com um Posto
Auxiliar em Anápolis, cidade que desempenhava importantes fun­
ções vis-à-vis o território da construção. Aqueles que chegavam
através desta cidade goiana já haviam passado por uma triagem
inicial e vinham de certo modo encaminhados.

85
0 capital da esperança

Tinha o Inic que dava a gente aqui (em Anápolis) um cartão de apresenta­
ção. Você chegava lá apresentava ao Inic de lá. Entende? Dava ao Inic lá em
Brasília. E lá de acordo com a sua profissão eles mandavam pra determinadas
localidades de serviços de determinada obra.

-Então o sr. já saiu daqui empregado?


-Não, num é bem empregado assim. Mas é praticamente com a perspectiva de
chegar lá e se colocar, não é isso? Então o Inic de lá mandava o sujeito procu­
rar a profissão. Aí você ia, lá na parte burocrática de lá tinha um lugar onde o
sujeito vacinava, tirava, fazia exame de sangue, tirava chapa de pulmão. Mas
você tinha que ter a carteira profissional, né. Quem num tinha, então tinha
que tirar lá. Lá mesmo tirava. Então, outra hora tinha que tirar em Luziânia,
na cidade mais próxima. Então, aí do Inic você ia na polícia, identificar-se na
polícia, uma burocracia. Dali eles te davam um cartãozinho te mandando pra
obra tal.
- Quer dizer que não foi o sr. que escolheu entrar numa companhia?
- Não, o Inic que mandou. Então cheguei lá na obra apresentei o cartão (pe­
dreiro, entrevista realizada em Anápolis-GO).

86
Capítulo 1 | Os trabalhadores

O depoimento desse pedreiro é marcado pela perspectiva dos profis­


sionais. A demanda por carpinteiros, pedreiros, bombeiros e outros,
sendo proporcionalmente maior do que por serventes fazia com que
eles encontrassem trabalho mais facilmente. Paralelamente, pela sua
própria condição profissional, esses trabalhadores submetiam-se à
seleção mais rigorosa, por meio do Inic ou da própria companhia
que os contratava, com testes práticos para comprovar sua identida­
de profissional:

Cheguei e fui ver onde tinha vaga lá no Inic. Todo mundo tinha que tirar esse
cartão. Tudo era ligeiro. Dentro de três dias ele já tava prontinho. O Inic era
na Velhacap. O caminhão deixava a gente na frente dele. Eu disse: olha, che­
guei do Rio agora. Como é que tá aí? o sr. tem vaga aí pra carpinteiro? Aí ele
disse: tenho. O sr. quer fazer exame lá? Eu disse: faço. Tinha que pegar uma
tábua de cedro toda torta e deixar prontinha. Aí eu deixei tudo pronto. O sr.
já tá com a carteira? O sr. pode arranjar a sua acomodação e daí há dois dias
o sr. vem aqui (carpinteiro).

Cabe frisar que os trabalhadores que viessem tanto por meio do aflu-
xo desorganizado quanto do afluxo organizado, submetiam-se igual­
mente ao Instituto Nacional de Imigração e Colonização nas suas
funções de seleção, documentação e inserção na atividade produtiva.
Essas atribuições do Inic, portanto, atravessavam as duas categorias
analíticas que construí, ressalvando-se os casos de trabalhadores in­
dividuais que vinham para Brasília transferidos por companhias nas
quais já trabalhavam anteriormente.
Já o servente, ou melhor, o pretendente a servente, isto é o trabalha­
dor que, em geral, chegava diretamente de uma condição camponesa
para inserir-se neste mercado de trabalho, encontrava trabalho pas­
sando também pelo Inic. Mas atravessava um processo mais lento e
menos seguro que o dos profissionais, basicamente por formar um
contingente de trabalhadores muito maior e por não contar ainda
com atributos tanto em termos de treinamento, quanto jurídicos
para melhor colocar sua força de trabalho no mercado:

Não, eu num tinha não (carteira de trabalho). A gente quando vem da lavoura
num traz nada. Aqui que foi tirado tudo. Traz só o registro de nascimento,

87
0 capital da esperança

de casamento, né. [...] quando eu cheguei mesmo a gente tirava um cartão da


Inic, um cartãozinho de identidade, dava aquele cartãozinho. A identidade
da gente era aquela (ri). E dali é que depois a gente ia arrumar os documento
devagar. [...] Porque ninguém explicava nada pra gente, ninguém podia te
informar um serviço melhor e a gente que tinha que ficar procurando, sabe?
Procurando o cargo que a gente queria, porque serviço se quisesse enfrentar
qualquer coisa assim ia chegando e pegando (servente).

Em trechos dos depoimentos aparecem indicações da atuação con­


junta do Inic com a Novacap. Sendo dois órgãos do Estado vincula­
dos diretamente ao desempenho da obra, articulavam seus serviços
em termos das necessidades da construção da nova capital. As indi­
cações a que nos referimos estão ligadas à documentação dos ope­
rários no território da construção, que era realizada pela “polícia”,
ou seja, pela Divisão de Segurança da Novacap. O controle do ope­
rariado, que passava pelo poder de polícia do qual estava investida
a própria Novacap e que certamente começava pela documentação e
identificação dos indivíduos, era realizado, nesse contexto, sob duplo
argumento: aparelhá-los legalmente para o trabalho e proteger o ter­
ritório da construção de aventureiros e possíveis contraventores que,
de modo comum (DIÁRIO DE BRASÍLIA, 1959, p. 289) apareciam
na área, visando a levar proveito de uma situação onde a ausência
de redes sociais mais profundas implicava pouca informação sobre a
vida anterior das pessoas.
Porém, é com a grande seca de 1958 que ocorreu no Nordeste do
país, expulsando levas de milhares de flagelados, que a articulação,
no controle do operariado, entre a Novacap, companhias particula­
res e o Inic, apareceu claramente, ao mesmo tempo em que facetas
relativamente ocultas do recrutamento e seleção realizados por este
órgão saltaram ao primeiro plano. Com a ocorrência da seca, inicia-
se uma alocação dessa força de trabalho nordestina pelas diversas
frentes de trabalho existentes então, como, por exemplo, a constru­
ção da Barragem de Três Marias, em Minas Gerais, e Brasília que
reforça a sua condição de ponto de convergência mais procurado.
A partir deste momento, a função de recrutamento desempenhada
pelo Inic passa a se confundir cada vez mais com a de repressão ao
fluxo para o local e com uma exacerbação da seleção dos migrantes e
possíveis trabalhadores em Brasília. Vai ficando cada vez mais claro
Capítulo 1 | Os trabalhadores

o tipo ideal de trabalhador para atuar em grandes obras: jovem, sem


problemas de saúde, sem família e quanto mais qualificado, melhor.
Eis o que fartamente informavam alguns jornais da época:
Os 220 retirantes nordestinos que continuam na Ilha das Flores (Rio de
Janeiro) deveriam seguir para Brasília. Entretanto o Inic resolveu mandá-los
para São Paulo porque o “mercado em Brasília está muito saturado pela imi­
gração espontânea”. As companhias que estão fazendo as obras da futura
Capital, informaram ao Instituto Nacional de Imigração e Colonização, que,
pelo menos por enquanto, as obras de Brasília não comportam maior número
de mão-de-obra. As companhias construtoras da nova capital exigem ainda
que os retirantes que forem mandados para lá sejam solteiros, pois não dis­
põem de alojamentos para casados (JORNAL DO BRASIL, Rio de Janeiro,
10 jun. 1958, “Mais 1.500 retirantes vão para o Paraná este mês: Brasília já
está saturada”).

Notícia de Goiânia anuncia que não está sendo permitida a entrada de flagela­
dos nordestinos em Brasília. [...] Essa providência visa proibir a avalancha de
pessoas e a construção de favelas, bem como a invasão de lotes da Novacap.
Centenas de famílias estão ao relento, proibidas de ingressos na área de
Brasília. [...] os flagelados chegam nas proximidades da área da Novacap e
encontram soldados armados que lhes impedem a entrada (A HORA, São
Paulo, 14 jun. 1958).

Geralmente os que vêm para a nova Capital, o fazem atraídos pela necessária
publicidade em torno de Brasília. Para tanto, já contamos inclusive, com uma
emissora de rádio, de farta penetração em todo o Brasil. E não são poucos os
forasteiros que aqui chegam diariamente, notadamente operários procedentes
de regiões flageladas do país, que esperam encontrar em Brasília o amparo
que lhes falta nos estados de origem. Acontece que toda essa massa humana
que se dirige para a “Obra do Século” está sendo espantada. Sim, espantada
sob a alegação de que não possuímos ainda condições de acomodação para
as levas de trabalhadores que se destinam a Brasília. Dessa forma, é muito
comum vermos a polícia da Novacap impedindo a entrada de famílias ope­
rárias na nova capital, com explicações que, verdadeiramente não satisfazem
(A TRIBUNA, Brasília, Núcleo Bandeirante, 2 out. 1958).

Telegrama do Rio de Janeiro chegado à Delegacia do Inic nesta capital pede a


suspensão imediata de todas as passagens para Brasília tiradas por intermédio

89
0 capital da esperança

daquele Instituto de Imigração. A medida, segundo a versão oficial, foi toma­


da visando ao não encaminhamento de pessoas que não tenham profissão ou
que tenham mas que não disponham de emprego certo na Capital do Planalto.
Com efeito, a reportagem esteve hoje nas dependências da Hospedaria Getúlio
Vargas (do Inic), e colheu que a ordem está sendo mantida a pedido de elemen­
tos da administração da Novacap [...] (“Governo manda fechar os caminhos
de Brasília”, TRIBUNA DO CEARÁ, Fortaleza, 16 jan. 1960).

A partir do momento em que grandes levas compostas por trabalha­


dores acompanhados de suas famílias passam a pressionar a capaci­
dade de absorção de força de trabalho do território da construção,
o caráter do recrutamento e da seleção aparece nitidamente com os
traços definidores das necessidades da produção do grande proje­
to. Vários deles já surgiram nas matérias transcritas acima, como se
requerer trabalhadores com algum treinamento anterior e livres de
impedimentos, como uma família no local (basicamente pelas impli­
cações relativas à habitação, alimentação e fixação destes grupos).
Ainda neste contexto, existe uma matéria de jornal na qual, pelas de­
clarações de um diretor do posto do Inic em Anápolis, vários aspec­
tos relativos ao afluxo organizado são explicitados, especialmente
aqueles definidores da faixa etária que constituía o intervalo ótimo
para o recrutamento:

Em Brasília de acordo com as determinações da Novacap, só poderão traba­


lhar as pessoas maiores de 18 anos e menores de 45. O posto auxiliar sob a
sua direção não pode, presentemente, enviar famílias para a futura capital do
país, dada a absoluta falta de acomodações que se observa ali [o jornal passa
a transcrever uma nota distribuída à imprensa pelo Inic] “Com a finalidade
de esclarecer a opinião pública a respeito do problema dos flagelados nordes­
tinos informamos a V.S. o seguinte: l9) O Posto do Inic em Anápolis é um
Posto Auxiliar do Posto de Brasília; 2°) Foi instalado para atender re-encami-
nhamento de trabalhadores procedentes do Rio e de Minas Gerais (encami­
nhados pelo Inic) para as obras da Nova Capital e de Brasília (acidentados,
velhos e menores) para o local de procedência; 39) O Inic trabalha entrosado
com as autoridades da Novacap, as quais estabeleceram os limites de idade
fora dos quais seu Serviço de Segurança Pública não permitirá seja fichado
nenhum operário em qualquer firma que opere na área da Nova Capital;
4°) Em apenas 18 meses de atividades em Goiás os Postos do Inic em Brasília

90
Capítulo 1 | Os trabalhadores

e Anápolis prestaram assistência a mais de 20.000 trabalhadores migran­


tes [...]” (O ANÁPOLIS, Anápolis-GO, 5 fev. 1959).

O Censo Experimental de Brasília (1959), no tópico referente à ida­


de da população aponta “sensíveis distorções” com a “participação
elevada de pessoas adultas em detrimento de crianças e adolescentes
e de pessoas idosas”, configurando uma “distribuição absolutamente
anormal nas condições brasileiras”. A interpretação dos dados afir­
ma que a “acentuada migração de trabalhadores responde, de fato,
pela divergente distribuição por idades da população relativamente
à brasileira. Por isso, a curva distributiva, fortemente ascensional
entre os 20 e 39 anos, sofre progressiva inflexão depois dos 40 anos”.
A média de idade encontrada para a população masculina foi de 23,7
anos (IBGE, 1959, p. 10).
Quanto à questão da boa saúde do trabalhador como uma das ca­
racterísticas procuradas na formação do operariado para a constru­
ção de Brasília, em que pesem os exames médicos realizados no ato
da seleção e o fato do Inic devolver aos seus pontos de origem os
acidentados e velhos já indicarem a busca de uma força de traba­
lho em condições ótimas de produzir, o discurso seguinte de um
apontador mostra que este fator continuava operando no seio mesmo
da produção:

Era um ritmo de trabalho acelerado que exigia o máximo do homem, né,


num queria saber se ele tinha condições físicas ou não tinha, né. Aqueles que
tivessem menas condições físicas e que não satisfaziam na altura, a empresa já
mandava embora pra outro canto, né.

As necessidades diferenciadas por força de trabalho dentro do terri­


tório da construção como um todo, e das diversas companhias em
momentos distintos da produção de obras parcelares, regulavam,
mediante atuação do Inic e da Novacap, tanto o acesso dos trabalha­
dores ao território da construção quanto a sua inserção no processo
de edificação da cidade. Desta forma, quando o número de traba­
lhadores à procura de empregos passou a ser excessivo, buscou-se
frear o afluxo para o local. Este controle vinculava-se também ao
problema da escassez de moradias para famílias operárias que fazia
com que os trabalhadores recém-chegados e acompanhados dos seus
91
0 capital da esperança

dependentes ocupassem áreas previstas para outras funções dentro


do esquema da futura cidade, levando a questão da habitação a uma
situação limite. Para ordenar o afluxo, como se viu, lançava-se mão
da repressão em barreiras policiais. Isto não impedia o surgimen­
to de estratégias eficazes: como o caminhão pau-de-arara tomar
desvios ou os próprios trabalhadores e suas famílias descerem dos
veículos embrenhando-se pelo cerrado, visando evitar o encontro
com as forças policiais (TRIBUNA DA IMPRENSA, Rio de Janeiro,
5 fev. 1960).
Eventualmente, de acordo com a necessidade de um maior número
de trabalhadores - isto sob a ótica da necessidade de uma ou outra
companhia em um determinado momento da sua produção - o aflu­
xo organizado de grupos de trabalhadores podia ser efetuado pelas
próprias firmas construtoras. Estas, quando não competiam entre
si mediante oferta de salários mais altos, o que obviamente tinha
limite, envolviam-se no recrutamento de operários fora do território
da construção:

Quanto ao migrante encaminhado para Brasília, o sr. Aníbal Teixeira (chefe


do Departamento de Migração do Inic) declarou que são inúmeros os que pre­
ferem a futura Capital do país, acrescentando: “Há muito interesse pelo mi­
grante em Brasília, a ponto de certas firmas emprestarem seus caminhões para
o transporte de homens que irão trabalhar em construções como pedreiros,
marceneiros, etc.” (CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 30 dez. 1958).

Agora, cearense aqui veio 30 e tantos caminhão de cearense pra trabaiá aqui
em Brasília. A Espiral (nome fictício de construtora) mandou buscar, que era
o engenheiro da Espiral que era o dono das obras, que era cearense e que
mandava os caminhão ir ver. E quem num podia vir ele trazia pra trabaiar
aqui em Brasília (servente).

Este envolvimento direto das companhias no recrutamento fora do


território da construção aponta para interesses das empresas, espe­
cialmente por trabalhadores qualificados. Evidencia-se que a repres­
são ao afluxo de trabalhadores dirigia-se quase exclusivamente ao
contingente de trabalhadores não-qualificados que a partir de certo
momento passaram a formar no território um excedente de força de

92
Capítulo 1 | Os trabalhadores

trabalho. O interesse por trabalhadores na sua variante da procura


fora do território da construção, pode ter sido o motor da forma de
afluxo organizado, o tráfico de trabalhadores, que implica a media­
ção concreta de aliciadores profissionais. Uma maneira dos alicia-
dores realizarem suas transações passava por um circuito em que a
força de trabalho aparece como uma “estranha mercadoria” passível
de ser comprada a preços muitos mais baixos e submetida na sua
circulação e venda a uma subordinação de tal forma extremada que
torna trabalhadores “livres” comparáveis a escravos. Note-se que os
trechos de notícias de jornais que reproduzo a seguir apontam para
conexões entre aliciadores e fazendeiros, tanto no momento inicial
do tráfico quanto em eventuais paradas no trajeto antes da chegada
no território da construção:
O tráfico já se tornou um comércio comum nas cidades vizinhas a Brasília,
tais como Luziânia, Cristalina, Posto Fiscal, Alexânia, etc. Empreiteiros, fa­
zendeiros ou mesmo famílias, quando querem comprar nordestinos, se diri­
gem aos caminhões procedentes do Nordeste e fazem a transação. Os preços
variam de Cr$ 500,00 a Cr$ 2 mil, de acordo com o estado físico de cada
um. Os alfabetizados, coisa rara, custam mais. No ato da venda, o motorista
entrega ao comprador os documentos da estranha mercadoria (carteira pro­
fissional, certidão de nascimento, etc.) e os nordestinos passam a ser escravos
de seus compradores. Quando reclamam salários de seus donos, estes alegam
ter pago a passagem ao motorista que os trouxe e que terão de trabalhar até
amortizar a dívida que não acaba nunca (trecho da matéria “Baiano vende
e troca escravos em Brasília”, TRIBUNA DA IMPRENSA, Rio de Janeiro,
5 fev. 1960).

O Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, na mesma data, fazia a mes­


ma denúncia com mais detalhes e com o seguinte título: “Quadrilha
negocia retirantes nordestinos na futura capital”. Mais tarde, na sua
seção “Brasil por Dentro”, o semanário Liga, no seu número de 21
de agosto de 1963, em matéria denominada “Candangos”, definia o
termo da seguinte maneira:

Vocábulo que se tornou mais vulgar a partir da construção de Brasília, pois foi
nessa fase da nova capital que veio a nu a anatomia do comércio de braço escra­
vo em Brasília [...] A carência de braços no Centro-Oeste se tornou mais aguda

93
0 capital da esperança

com a construção de Brasília [...] O impacto infra-estrutural haveria de ser vio­


lento, trazendo como consequência imediata, evidentemente, o impacto popula­
cional na área circunvizinha ao novo Distrito Federal. Surgira assim de maneira
clara - não mais clandestina - o comércio de braço escravo. [...] Não somente
caminhões, mas até modernos ônibus “Mercedes Benz” de poltronas estofadas
e conversíveis, rumaram para o Nordeste, aonde os agentes, antecipadamente,
aliciavam os pobres camponeses. Desmanchando-se em propósitos “humani­
tários”, os donos de terras, os “coronéis” se prontificavam a “financiar” os
seis ou oito mil cruzeiros da passagem de quem quisesse ir “tentar a vida” em
Brasília. Para os camponeses carregados de dívidas, a oferta “generosa” do la­
tifundiário era uma benção ou uma ordem acionada no encargo financeiro que
lhe iria pesar ao costado. E, arrumando o “matulão” sobe no ônibus deixando
a esposa com a penca de filhos famintos como garantia da nova dívida que terá
que pagar, parceladamente, à medida que o novo patrão for descontando, em
folhas de pagamento, as promissórias que o infeliz emitira ao latifundiário.
O sr. feudal realiza, aí, negócio altamente rendoso. Recebe de vinte a trinta mil
cruzeiros por pessoa fisicamente apta ao trabalho braçal de qualquer natureza,
não excluindo os menores. E não satisfeito com o lucro do agenciamento, o “co­
ronel”, além disso, extorque no preço da passagem do “candango”. Este na sua
miséria e ignorância seculares, em nome de Deus, ainda agradece ao “coronel”
por lhe ter facilitado a viagem e ao empregador brasiliense por lhe ter reservado
algum serviço (JULIÃO, 1969, p. 381-382).

Conseqüências demográficas
Já contamos com uma visão suficientemente ampla das formas de re­
crutamento e seleção. Os tipos de constrangimentos objetivos em que
implicavam levaram a qualidades específicas na formação e composi­
ção da população do território da construção de Brasília. Destaquemos
aíguns aspectos centrais fornecidos pelo Censo Experimental de 1959.
Em uma população total de 64.314 habitantes, aproximadamen­
te 90% eram migrantes. O contingente de pessoas economicamen­
te ativas (35.201), sendo maior em relação às não economicamente
ativas, constitui, segundo o Censo, “fenômeno peculiar às condições
de Brasília, nesta fase de seu desenvolvimento” (IBGE, 1959, p. 54).
Deste contingente, 19.149 pessoas estavam ocupadas diretamente na
construção civil. Aqui cabe citar um trecho do texto do Censo:
Capítulo 1 | Os trabalhadores

Como era de esperar, os dados censitários positivaram a importância da in­


dústria de construção na economia territorial, mostrando que mais de metade
(54,5 %) das pessoas economicamente ativas trabalham nesse setor de ativi­
dade. Em verdade, a construção civil ocupava contingente maior da mão-de-
obra, visto que as pessoas empregadas da Novacap - em grande maioria, liga­
das à atividade - foram computadas no grupo “Outras Atividades”. A contri­
buição de servidores da Novacap na constituição desse grupo residual atingia
mais de 80%; dada a finalidade primordial da Companhia Urbanizadora,
seria também aceitável classificá-los na indústria de construção, que dessa
maneira alcançaria quota equivalente a duas terças partes da mão-de-obra
territorial (IBGE, 1959, p. 58).

Internamente a estas 19.149 pessoas classificadas como imediata­


mente ocupadas na construção civil, encontramos um conjunto de
8.084 profissionais típicos (pedreiros, 2.274; armadores, 1.042;
carpinteiros, 3.253; eletricistas, 451; encanadores, 427; operadores
de máquina, 314; pintores, 220; soldadores e ferreiros, 103), cor­
respondente a 42,2% desta população trabalhadora. A maior con­
tribuição individual para a formação do conjunto estava por conta,
evidentemente, dos serventes de pedreiros, em uma proporção de
36,9% equivalente a 7.066 operários. Somados os profissionais com
os serventes, encontramos uma porcentagem de 79,1% destes tra­
balhadores dentro da população total engajada na construção civil.
Os controladores da produção típicos (apontadores e capatazes, 381;
engenheiros, 105; inspetores e fiscais, 23, mestres, 216) perfaziam
apenas 3,7% do total. O restante da população era composta por
categorias residuais que podiam ser classificadas como profissionais
ou serventes, ou estavam certamente ligadas às especificidades dos
acampamentos de então (como garçons, amas e copeiros, padeiros,
etc.)(IBGE 1959, p. 95). ...
O fato de, no computo geral, o conjunto de profissionais ser nume­
ricamente superior ao de serventes, tem implicações para o entendi­
mento da situação da população operária. Em realidade, a aprendi­
zagem de uma profissão na construção civil é feita internamente à
própria atividade produtiva que, em sua escala industrial, é tipica­
mente urbana. Deste modo, em que pese o fato de que vários possam
ter passado à categoria de profissionais após a sua inserção na ativi­
dade produtiva em Brasília, é razoável considerar que na formação

95
0 capital da esperança

da população trabalhadora engajada na construção havia uma pre­


dominância de indivíduos com uma experiência urbana anterior. De
fato, ao apresentar os dados relativos à procedência da população
total do território da construção, após várias ressalvas para resguar­
dar a qualidade da afirmativa (como questionar a concepção de “ur­
bano” que poderia permear as respostas), o Censo mostra que:

A grande maioria das pessoas imigradas para Brasília provinha de áreas urba­
nas. A proporção entre as pessoas procedentes de cidades ou vilas e as do meio
rural era de 4 para 1, desprezada a quota residual (1,8% do total) concernente
às que nada declaram a respeito (IBGE, 1959, p. 49).

É claro que na composição total da população de 64.314 habitan­


tes (considerando também os não economicamente ativos) há que
computar o peso relativo da contribuição de outros ramos de ati­
vidade extra-construção civil que poderiam implicar um núme­
ro considerável de indivíduos com experiência urbana anterior.
Exemplifiquemos: na classificação censitária de “indústrias de trans­
formação” estavam ocupadas 1.170 pessoas; no “comércio de mer­
cadorias” 1.634; na “prestação de serviços” 3.579; em “transportes
comunicações e armazenagem” 785; em “atividades sociais” (basica­
mente professores e atividades administrativas correlatas), 482; em
“profissões liberais”, 113; em “serviços administrativos governamen­
tais” 198; em “defesa nacional e segurança pública”, 342 (op. cit.,
p. 94-95). De qualquer forma, está clara a experiência urbana prévia
que teve uma razoável quantidade de trabalhadores da construção
civil presentes no território.
Vistos estes aspectos centrais das características da população no
território da construção, passo agora a enfatizar duas delas que são
reflexos diretos da eficácia das formas de controle, realizadas via
recrutamento e seleção, na formação desta população.

A ausência relativa de famílias e mulheres


A construção civil é um ramo da produção que utiliza, quase de
forma absoluta, uma força de trabalho masculina. Em grandes pro­
jetos, as formas de recrutamento acabam por criar uma situação

96
Capítulo 1 | Os trabalhadores

onde surge uma desproporção entre o número de habitantes pre­


sentes com famílias e aqueles sem famílias. Passa a existir uma
ausência relativa de famílias no território (IBGE, 1959, capítulo
10). Como seria de se supor, esta situação traduz-se em uma des­
proporção entre o número de homens e aquele de mulheres (IBGE,
1959, capítulo 2). Nas grandes obras, então, rompe-se frontalmente
a relação entre as quantidades de famílias e as de pessoas de sexos
distintos a que estavam sujeitos os indivíduos nos quadros de suas
experiências anteriores. Tal rompimento transforma-se em uma sé­
rie de particularidades da vida social.
Como já sabemos, as formas de recrutamento e seleção estrutu­
ram os contornos básicos definidores do tipo de trabalhadores que
se requer: homens jovens fortes, solteiros, ou que tenham deixado
suas famílias nos seus locais de origem. A combinação destes fato­
res, em especial dos dois últimos, configura uma situação em que a
ausência de mulheres torna-se fonte de conflitos determinados basi­
camente pela dificuldade de se manter relacionamentos com o sexo
oposto - namoros, casamentos, relações sexuais, e - especialmente
para o operário casado que tenha deixado a família no seu local de
origem - obter prestações de serviço desempenhadas pelas mulhe­
res no âmbito de uma divisão sexual do trabalho. Deste modo, toda
uma esfera importante para a reprodução da vida social e para a
reprodução da força de trabalho - a esfera doméstica - encontra-
se reprimida ou praticamente inexistente. O imbricamento entre a
ausência relativa de famílias e a ausência relativa de mulheres são
faces da mesma questão aqui apresentadas separadamente apenas
para efeito de exposição.

"Os casados tiveram boca rica aqui. Quem teve boa


vida aqui foram os casados porque tinha a casa de­
les" (operário de manutenção de máquinas)
A ausência relativa de famílias no território da construção de Brasília
surgiu desde o começo dos trabalhos e atravessou todo o período
estudado. Nos momentos iniciais da obra, esta ausência devia-se ao
fato de ser praticamente impossível vir para a área acompanhado
de família, diante da inexistência quase completa de habitações e

97
0 capital da esperança

serviços urbanos que atendessem a uma população que não fosse


basicamente adulta, masculina e, principalmente, que não estives­
se engajada diretamente nos trabalhos. Relembremos que primeiro
chegaram operários e engenheiros que acampavam em barracas de
lona e comiam ao relento com a tarefa de construir os primeiros
barracos para comportar tanto os escritórios da Novacap quanto
depósitos de material de construção, residências, além de efetuar
outras realizações como começar a construir um sistema viário, o
aeroporto, reservatórios d’água e instalar geradores de energia. Após
estes momentos iniciais, entraram em cena modos de conter o afluxo
de trabalhadores com famílias. Este controle expressou-se tanto via
formas de recrutamento e seleção, quanto pela escassez (deliberada
ou não) de moradias para famílias. Desta maneira, passou a existir
no território da construção uma situação que, para grande parte da
população trabalhadora, poderia ser definida como de não-família.
A importância da família para o trabalhador tem sido alvo de abor­
dagens diferenciadas. Veja-se, por exemplo, Fausto Neto (1977),
Leite Lopes (1976, 1979), Leite Lopes e Machado da Silva (1979).
Mas é incontestável o caráter complementar e estratégico do tra­
balho doméstico para a manutenção da família operária como um
todo. Segundo Eunice Durham:

A família pode ser definida como unidade social onde se realiza a reprodução
do trabalhador. Dizer unidade de reprodução implica dizer unidade de consu­
mo - não o chamado consumo produtivo, mas o consumo propriamente dito,
aquele através do qual o trabalhador repõe a energia consumida pelo capital e
no qual a mercadoria se realiza como valor de uso. A família assegura o con­
sumo de duas maneiras diversas: de um lado, colocando no mercado de tra­
balho alguns de seus membros, que vendem sua força de trabalho em troca de
salário com o qual compram mercadorias. Na medida em que, como é comum
nas famílias proletárias, as necessidades de consumo não podem ser satisfeitas
apenas com o salário do chefe de família mas exigem também o emprego da
esposa ou dos filhos, a família se organiza como unidade de rendimentos, isto
é, grupo no qual a formação de um fundo coletivo através da soma de salários
individuais permite assegurar um determinado padrão de consumo. De outro
lado, o consumo é assegurado através de uma atividade produtiva auxiliar
que se dá fora dos moldes da produção capitalista e que consiste, essencial­
mente, em preparar, modificar, preservar e consertar mercadorias adquiridas

98
Capítulo 1 | Os trabalhadores

no mercado de modo a adequá-las à satisfação de necessidades definidas so­


cialmente. Cozinhar, lavar, passar, remendar, cuidar das crianças são todas
atividades que não produzem mercadorias mas permitem sua utilização como
valores de uso e são indispensáveis, a curto e a longo prazo, para a reposição
da força de trabalho consumida no processo produtivo. [...] a família se estru­
tura a partir da articulação entre a produção doméstica de valores de uso e a
venda da força de trabalho (DURHAM, 1980, p. 5-6).

Portanto, é preciso entender a situação de não-família na perspec­


tiva dos trabalhadores engajados na construção de Brasília. Aqui a
própria diferenciação mais comum, solteiros/casados, é impossível
de ser mantida, uma vez que existia uma grande quantidade de tra­
balhadores casados que pareciam ser solteiros, mas, na verdade, se
encontravam sem suas famílias. Estar com ou sem família torna-se
uma polaridade básica. E ela que define estratégias variadas para ob­
tenção de moradias; a remessa do salário, ou de um montante dele,
efetuada pelo operário para fora do território da construção ou o seu
uso na reprodução do grupo doméstico internamente ao território;
o acesso a serviços femininos realizados internamente ao grupo do­
méstico; a utilização de outros membros do grupo doméstico como
fontes complementares do orçamento; a freqüência ou não de rela­
cionamentos sexuais com prostitutas, com implicações tanto para
o salário do trabalhador quanto para sua saúde (doenças venéreas).
Desta polaridade básica surgem três grandes linhas de experiências
distintas conforme a situação familiar em que se encontravam os
indivíduos: aquela do trabalhador solteiro; a do trabalhador casado
sem família, isto é, cuja família permanecia no seu local de origem;
a do trabalhador casado com família. Vejamos alguns componentes
destas experiências.
Os trabalhadores solteiros, o contingénte que, em termos de situa­
ção familiar, relativamente sofria menos repressão no seu afluxo
para o território, tiveram basicamente como residências aquelas
fornecidas pelas companhias em seus acampamentos (IBGE, 1959,
p. 14). Existiram soluções residuais como alugar um quarto na
Cidade Livre (o que onerava o salário do trabalhador) ou, quando
possível, agregar-se a algum grupo doméstico com o qual a pessoa
mantivesse relações de parentesco ou de amizade definidas ante­
riormente no seu local de origem. Essa última opção vinculava-se à
0 capital da esperança

forma de recrutamento pela qual passava o operário. Se o seu acesso


à área tivesse sido mediado por suas redes sociais originárias, o indi­
víduo podia contar com algum apoio no local. Mas a grande maioria
encontrava-se de fato isolada espacialmente das redes sociais de que
provinha. Estes trabalhadores, conjuntamente com os casados que
se encontravam sem família, constituíam o contingente ideal para
se engajar na construção do grande projeto. Relembremos que em
diversos momentos o desimpedimento familiar foi explicitado como
requisito para o acesso ao mercado de trabalho da obra de Brasília.
Antes de deter-me sobre os trabalhadores casados sem família, há que
explicitar que para os trabalhadores casados sem família e para os ca­
sados com família esta podia transformar-se em um problema a mais
que tinham de enfrentar. Trazê-la ou mantê-la no território da cons­
trução implicava questões nem sempre fáceis de resolver. Para aqueles
que, sendo casados, se encontravam sem suas famílias e pretendiam
trazê-las para a região, a questão era resolver o acesso às escassas mo­
radias. Para os casados acompanhados de suas famílias no território,
a questão era zelar pela segurança dos membros femininos (indife­
rentemente se residiam em acampamentos ou não) que, como se verá,
dada a grande quantidade relativa de homens, podiam inclusive ser
agredidos fisicamente nas ruas.
Direcionemos o foco para os trabalhadores casados sem família.
A contribuição deste contingente tanto poderia se dar na formação
dos quadros de serventes (em número relativamente menor do que os
solteiros, suponho), quanto mais marcadamente na composição do
segmento de profissionais, por serem indivíduos mais velhos e com
maior experiência na construção civil, o que, a princípio, lhes pos­
sibilitaria uma qualificação maior. Este trabalhador compartilhava
várias características próprias à situação do solteiro como a residên­
cia em alojamentos coletivos, a ausência da esfera doméstica e o en­
vio para fora do território de parcelas substanciais de seus salários.
Contudo, por ser o chefe de uma família elementar, tinha expecta­
tivas distintas quanto à sua experiência no território da construção.
Os seus cálculos individuais eventualmente podiam incluir a transfe­
rência de sua família para a área. O depoimento de um pedreiro traz
vários elementos pertinentes às expectativas relativas à transferência
de sua família para Brasília.

100
Capítulo 1 | Os trabalhadores

Casas de trabalhadores próximas à construção da Superquadra Sul 108 (setembro de 1958).


Foto: Mário Fontenelle

Nunca levei minha família pra lá [entrevista realizada em Anápolis, Goiás],


porque eu nunca achei ambiente. Inicialmente era um lugar difícil pro sujeito
ter a família, né? Não tinha condições de fazer um barraco. Depois que co­
meçou as invasões, você, pra construir um barraco tinha que ter o material,
tinha que ter madeira, não sei o quê, né? Porque pro casado é o seguinte, se
ele não arranjasse um alojamento na companhia, como tinha lá, alojamento
de casado da companhia, ele teria de entrar numa invasão daquelas. E pra ele
entrar numa invasão ele teria que ter material pra construir e tudo. Então o
sujeito que aventurou mais, e teve coragem, levou a família, morava de qual­
quer jeito.

- Mas era mais fácil você chegar lá sem família?


- Ah, era melhor chegar sem família. Era melhor chegar sem família. Porque
se chegasse lá com família onde é que eu ia ficar? Não é isso? Num tinha lugar
de ficar, num tinha nem condições. E mesmo os que levaram família, primeiro
ele ia lá trabalhava uns tempo, depois é que levava a família. Mas pra ele che­
gar com a família lá, não tinha condições. Chegar com mulher e filho, ainda
mais arrumar emprego. O sujeito recebia fim de mês lá. Então pro sujeito
guentar um mês sem receber dinheiro, ele sozinho comia na cantina, né? Mas
com a família, não tinha onde morar e não tinha onde comer (pedreiro).

101
0 capital da esperança

Já a situação do trabalhador casado com família e residindo em acam­


pamentos de construtoras era a menos problemática no sentido de que
a permanência do grupo doméstico no território da construção estava,
ao menos imediatamente, assegurada. Porém, apenas a partir da con­
dição de profissional em diante é que o trabalhador tinha acesso a re­
sidências não coletivas para ele e sua família. Mesmo assim, o número
de profissionais que tinha a possibilidade de receber casas era pequeno
em comparação com aquele de controladores da produção que tinham
acesso a este bem tão escasso na área (veja-se o capítulo seguinte sobre
o acampamento). São estes trabalhadores na posição onde antigüidade
combinava-se com maior qualificação, que tinham mais estabilidade
em sua situação familiar no território da construção.
Como é evidente, muitos operários estavam fora desta caracteriza­
ção. Para estes restava basicamente submeter-se aos altos aluguéis
da Cidade Livre, do Núcleo Bandeirante, iniciar uma “invasão” ou
incorporar-se a uma já existente. O trabalhador casado com famí­
lia, residindo na Cidade Livre ou em “invasões”, tanto podia ser um
trabalhador que se dirigiu para a obra inicialmente só, mas com pla­
nos de trazer sua família e por algum meio conseguiu uma área para
construir seu barraco, quanto um trabalhador que já chegou acom­
panhado de sua família. Esse tipo de ocorrência passou a ser mais
freqüente com a seca de 1958 que expulsava famílias do nordeste do
país. E, em realidade, a partir deste momento que a questão da habi­
tação no futuro Distrito Federal passa a atingir pontos dramáticos.
A criação da primeira cidade-satélite do Distrito Federal,
Taguatinga, em junho de 1958, é uma expressão dessa conjuntura
(veja Capítulo 4).
Este tipo de imigrante foi o que encontrou as maiores dificuldades
para se estabelecer. Era comum terem que acampar no cerrado com
a família protegidos apenas por precárias estruturas de papelão ou
de saco de cimento e, quando muito, lona. Essas famílias tiveram
as mais variadas experiências de realização de “invasões”, sobre­
tudo em áreas periféricas da construção da cidade, em especial na
proximidade da Cidade Livre, até que, como mais uma tentativa de
“solucionar” o problema da moradia destas pessoas, as autoridades
locais permitiram e inclusive incentivaram a sua concentração na
denominada Vila Amauri, localizada em área que iria desaparecer
com o enchimento do lago artificial de Brasília, o Lago Paranoá.
102
Capítulo 1 | Os trabalhadores

Um dos pontos principais da questão familiar dos trabalhadores


passava pela perspectiva de poder assegurar uma residência para
seu grupo doméstico. Trazer a família para o território da cons­
trução era um problema a ser resolvido, mas não configurava uma
desvalorização da família aos olhos do trabalhador. Pelo contrário,
nesta situação de não-família os trabalhadores que se encontravam
com as deles eram considerados privilegiados. Ao contrastar a ex­
periência de “solteiros” e casados, isto aparece claramente:

Eu senti que a vida de solteiro aqui naquela época seria muito boa, mas muito
difícil. O sujeito solteiro não tinha com que divertir. Era tudo cheio demais,
tumultuado. Então acho que a parte do sujeito casado era mais interessante.
O sujeito casado tinha a casa dele para comer, para dormir. Lar feliz. Agora o
solteiro tinha que enfrentar a cantina, aquele horário, a comida. Às veze falta­
va lavadeira, o sujeito tinha que lavar a roupa dele (operador de máquina).

A formulação deste operário aponta para vários significados da au­


sência da esfera doméstica. Não poder contar com um “lar feliz” im­
plica deixar de possuir um espaço onde o indivíduo não se encontre
imediatamente subordinado à esfera da produção, aos controladores
da sua produção. Esta questão é central para entendermos melhor o
porquê da repressão à família em um grande projeto. Nele ocorre a
subordinação dos trabalhadores a um intenso ritmo de trabalho. Os
administradores da obra procuram ajustar as características da força
de trabalho às necessidades da produção por meio de mecanismos
diversos que passam pelas formas de moradia em alojamentos co­
letivos, a repressão ao operariado realizada por uma polícia violen­
ta, a preferência por trabalhador sem família e outros mecanismos.
A família estabelece um universo cotidiano para o indivíduo no qual
pode desligar-se do poder imediato do controle sobre sua vida exer­
cido pelo patrão ou por seus intermediários. Assim, ela não é inte­
ressante para uma forma de produção que requer uma subordinação
quase total do trabalhador.
O trecho da entrevista acima aponta também para o fato que, do
ponto de vista individual, estar sem família implicava a perda de
uma série de serviços desempenhados dentro do grupo doméstico por
seus membros femininos e para os quais o trabalhador não foi social­
mente treinado, ou percebia como encargos socialmente destinados a

103
0 capital da esperança

mulheres, como cozinhar e lavar roupa. Além disso, com a ausência


da família deixa de existir a possibilidade de ela produzir enquanto
unidade que desempenha atividades e estratégias econômicas para
sua reprodução como um todo. Há que considerar também toda uma
dimensão de afetividade que permeia as relações de parentesco. A fa­
mília é uma instituição ambivalente. É tanto fonte de prazer quanto
de conflito e punição. Porém, a comparação com uma situação de
alojamentos coletivos masculinos submetidos a regras que retiram
dos indivíduos sua capacidade de serem sujeitos de larga parcela do
cotidiano extra-atividade produtiva, leva a destacar a dimensão de
afetividade que permeia as relações de parentesco, bem como a fa­
mília como centro de atividades de lazer. Assim, não poder contar
com este idealizado lar feliz, além de roubar dos indivíduos uma
considerável parcela de suas relações sociais cotidianas, acaba por
subordiná-los quase completamente aos interesses e controles da es­
fera da produção.
Parte do raciocínio anterior inspira-se no já mencionado trabalho de
Eunice Durham (1980) que apresenta a família também como um
núcleo de atividades coletivas em oposição ao mundo do trabalho:

Centro de vida coletiva e de “liberdade”, grupo no qual as necessidades indi­


viduais são satisfeitas (mesmo que precariamente), a família é portanto, não
apenas núcleo de tensões e conflitos (embora seja também isso) mas institui­
ção dentro da qual as pessoas obtém o seu prazer: alimentação, sexo e diver­
são. Se, da ótica da produção, a família constitui o núcleo de reprodução da
força de trabalho e, portanto, condição da produção, para o trabalhador, ao
contrário, ela é o fim para o qual o trabalho é um meio (op. cit., p. 11).

Para Durham a família é ainda uma “instituição ‘privada’ por ex­


celência, isto é, aquela onde as pessoas estão mais abrigadas da in­
gerência direta do Estado e onde encontram um pequeno espaço de
manobra ante as pressões do sistema econômico”, e “lugar onde se
concentram informações sobre a sociedade e onde se elabora a inter­
pretação dessas informações” (idem, p. 13-14).
Eunice Durham acrescenta que embora seja óbvio que a família seja
uma instituição inadequada para a elaboração de uma visão com­
preensiva da sociedade, no caso brasileiro, onde a industrialização é
ainda recente e a mobilidade ocupacional muito grande, o convívio
104
Capítulo 1 | Os trabalhadores

familiar reúne pessoas de experiência ocupacional bastante diversa.


Desse modo, permite a troca de experiências diferentes e alarga o
âmbito do conhecimento sobre a sociedade (ibidem, p. 15).
De fato, a situação de não-família tinha efeitos diretos na explora­
ção a que era submetido o operário. Principalmente no tocante à
subordinação mais intensa a que estava propenso o trabalhador sem
família, com suas implicações na maior disponibilidade para sua uti­
lização em jornadas de trabalho extensas:

As piores horas de trabalho eram das dez às seis da manhã porque com chuva
ou sem chuva tinha que pegar as máquinas pra dar pros operadores às sete e
meia, oito horas da manhã. Eles paravam às dez horas da noite. Agora o povo
da manutenção de máquina não tinha hora, era de enfiada. Carpinteiro era de
enfiada também. Quem era casado vinha tudo dormir. Dava dez horas, vinha
tudo dormir. Agora os solteiro ficava embaixo da chuva. Os casado tiveram
boca rica aqui. Quem teve boa vida aqui foram os casado porque tinham a
casa deles (operário de manutenção de máquinas).

Em que pese que de fato o operário sem família estava sujeito a uma
subordinação maior, algumas formulações operárias que explicam
os privilégios de alguns trabalhadores pelo fato de terem famílias ne­
cessitam ser relativizadas. A situação familiar cruza-se com a lógica
interna ao ramo da construção civil no sentido de que os serventes
são os novos trabalhadores que ingressam no setor, podendo-se su­
por, grosso modo, uma coincidência entre a juventude do operário
e sua condição de servente. Nas suas trajetórias individuais de en­
velhecimento social vão subindo na hierarquia interna por meio da
aprendizagem de profissões dentro das obras. Este paralelismo entre
o “crescimento” internamente à atividade produtiva e o envelheci­
mento social do indivíduo em todas as esferas da sua vida social
(constituição de um grupo doméstico e tudo que isto implica, por
exemplo) pode levar a confusões de interpretações entre alguns ope­
rários, no sentido de que podem confundir um relativo bem estar de
uma pessoa mais velha, já na condição de profissional, encarregado
de turma, ou até mestre de obras, com o fato de ela ter família e não
com o fato de estar em uma posição da hierarquia da construção
civil que lhe dá um maior poder de barganha junto à administração
das construtoras, poder este definido na esfera da produção.

105
0 capital da esperança

Não é acaso que essa análise sobre a questão familiar privilegie suas
vinculações com a questão da habitação. O fio condutor da manu­
tenção desta situação familiar dos trabalhadores parece ser um diá­
logo entre a perspectiva dos operários e aquela dos interessados na
produção da grande obra, no caso Novacap e companhias particu­
lares, que oscila entre dois temas básicos: a questão da habitação
para as famílias proletárias e sua implicação lógica que é a fixação
desse contingente no território da construção (com suas decorrên­
cias, como o crescimento do volume de serviços urbanos, da criação
e oferta diferenciada de empregos, por exemplo). No entanto, o pano
de fundo que se choca com tudo isto é a temporariedade implícita
na forma de produção de um grande projeto que sempre possui seu
momento de desmobilização, geralmente marcado por sua inaugu­
ração. Neste momento, a grande quantidade de empregos existentes
deixa de existir nas proporções em que repentinamente surgiu. Estes
trabalhadores, agora excedentes, não encontram mais empregos no
território da construção. Parte deles reflui para seus locais de origem,
parte destina-se a outros grandes projetos em execução, enquanto
outros se dirigem à procura de distintos mercados de trabalho que os
absorvam. Contudo, um segmento permanece na área constituindo
um “problema social”, pois que compreende um número considerável
de desempregados pressionando por empregos ou, no caso concreto
de Brasília, ocupando áreas rurais periféricas (veja, por exemplo, no
semanário Liga, de 23 de janeiro de 1963, p. 6, a matéria “Posseiros
de Taguatinga enfrentam Inic na lei e o enfrentarão na marra”. In:
JULIÃO, 1969). A não-fixação da massa de trabalhadores que par­
ticipa de um grande projeto, característica sistêmica desta forma de
produção, se expressa e viabiliza, em grande medida, por meio da
repressão à presença de famílias, pois elas são um fator de sedenta-
rização enquanto atuam como unidades de reprodução da força de
trabalho e da vida social.

"Mas no começo não existia mulher. Era só homem.


Só existia homem" (carpinteiro)
Um resultado imediato deste tipo de situação familiar é a ausência
relativa de mulheres que marcou todo o período da construção de
Brasília. Uma ausência narrada jocosamente pelos operários que,
106
Capítulo 1 | Os trabalhadores

com freqüência, pareciam rememorar alguns momentos não com-


partilháveis, mas cujo quadro mais geral podia ser confiado já que
tínhamos as mesmas identidades de gênero. Comecemos registrando
o que nos informou a mulher de um carpinteiro, residente na Cidade
Livre, para depois passar a palavra a um servente:

Em 57 foi que começou a vir muita gente. Cinquenta e sete a gente num podia
nem sair na rua (ri). [- Por quê?] Ah, os home pegava a gente (ri). É. Nessa
época tinha umas três mulhé aqui em Brasília, né? Então nós ajuntava as três
mulhé e ia de noite lá pra beira do córrego, de noite, lavar roupa, mas tinha que
os hôme ficar lá perto porque (ri) ... invadia, sabe? Às vezes eu saía assim na
porta da rua que tinha um restaurante, era bem na esquina, né, eu saía assim
na porta pra olhar assim, né, pegar um ar livre. Aí os hôme vinha agarrava no
braço da gente saía puxando pela rua abaixo (ri). Nós gritava aí os hôme saía
correndo pra acudir, eu vou te falar uma coisa (ri), ô lugar terrível.

Só peão. Aqui só morava peão. Quando vinha mulher aqui [no acampamento]
todo mundo ... era uma gritaiada maior do mundo, uma berradeira, era grito,
era assobia, isso e aquilo outro. As mulher num queria vir praqui não. Família
num queria vir praqui não. Num tinha muié, num tinha nada. Num tinha
coisa nenhuma de muié. Vinha umas nega véia lá de Luziânia, de Formosa
[cidades goianas próximas] naquele 28 [rótulo operário para o anexo do
Congresso Nacional], naquele ministério que tava fazendo. E fazia fila. Pega,
agarrava na mão d’um, um em cima e o outro esperando. Era no cerrado,
porque aquilo era tudo cerrado.

Em geral, em toda sociedade existe certa relação entre o número de


indivíduos de cada sexo. A alteração destas proporções tem impli-

contribuição presente na literatura antropológica, geralmente pelo


estudo de sistemas de parentesco, no tocante às relações qualitativas
e quantitativas entre os homens e as mulheres em sociedades indí­
genas e outras. Roque de Barros Laraia (1963) apresenta o caso de
uma depopulação causada por uma gripe que atingiu basicamente os
membros femininos da sociedade Suruí. Segundo Laraia, “por este
motivo a sociedade indígena procurou criar um mecanismo capaz
de satisfazer aos homens solteiros e viúvos, evitando a repetição de
graves conflitos ocorridos no passado” (op. cit., p. 72).
107
0 capital da esperança
Na construção de Brasília a proporção de mulheres solteiras era,
em algumas áreas, de 17 para cada grupo de 100 homens solteiros
(IBGE, 1959, p. 13). Estes se encontravam em grande parte residindo
em alojamentos coletivos e submetidos a longas jornadas e dura dis­
ciplina. O que poderia ser chamado de “a questão feminina” tornou-
se fonte de conflito, interna e externamente ao conjunto dos traba­
lhadores. Milhares de indivíduos depararam-se com uma situação
incomum em termos das proporções entre homens e mulheres que
formavam suas experiências sociais anteriores. Em face disto, surgiu
uma grande e movimentada zona de prostituição na Cidade Livre
que, por força da sua própria dinâmica interna, foi palco de várias
rixas quando, sob forte efeito de álcool, os operários competiam dis­
putando prostitutas atraídas por aquele grande mercado:

A caminho do trabalho próximo ao Congresso Nacional (setembro de 1959).


Foto: Mário Fontenelle

Aqui no fim da Avenida Central aí havia uma zona, um meretrício. Então


havia esse meretrício. Embora era um mal, mas um mal necessário. Porque
a grande quantidade de operário, e certos operários especializados, traba­
lhavam nas companhia, num truxeram as suas família. A grande maioria de

108
Capítulo 1 | Os trabalhadores

operário era homem sozinho. Então por isso houve a necessidade. Aí é que às
veze sempre dava umas confusãozinha porque mulher, jogo, cachaça, nunca
deixava de dar alguma confusão (comerciante da Cidade Livre).

Então vinha essas mulheres de Anápolis, Goiânia. Chegando, fazia lá na


Cidade Livre um... e só dessa mulheres. Agora essas mulheres eram inteligente
porque eu nunca vi uma ser presa não. Da Paraíba, da Bahia, de Pernambuco.
Ia lá só os dias de domingo, dia de sábado prá domingo quando tava de folga.
E lá era roubado, ou gastava dinheiro todo em bebida e voltava na segunda-
feira pra trabalhar (servente).

Mas a ausência relativa de mulheres não estava expressa apenas na


existência dessa grande zona de meretrício que era controlada com
rigor pela polícia da Novacap. Foi também fonte parcial de legiti­
mação da violência policial que caracterizava a repressão mais am­
pla na área, para controlar uma situação onde milhares de homens
adultos estavam praticamente impedidos de terem relacionamentos,
como namoros e relações sexuais, com mulheres que não fossem
prostitutas. Este fato levava a população trabalhadora masculina
da “licenciosa Brasília” a pressionar ao limite a população femini­
na que se via, por conseguinte, impedida de realizar uma série de
atividades que em outros contextos sociais poderia desempenhar,
uma vez que até sair na rua poderia representar um perigo. Um jor­
nal carioca chegou a publicar a matéria seguinte com as manchetes
“Falta de respeito às senhoras” e “Uma cidade licenciosa”:

Ainda há pouco, houve o caso de um candango que dirigiu a palavra a uma


jovem que passava, filha de um comerciante. Um guarda da Novacap ouviu,
prendeu o candango e aplicou-lhe uma tremenda coça, indo ele diretamente
para o hospital receber curativos. A verdade é que Brasília é uma cidade
licenciosa, imoral (O GLOBO, Rio de Janeiro, 16 jun. 1958).

A ausência relativa de mulheres refletia-se ainda na falta de presta­


ção de serviços domésticos por elas desempenhados. Os operários,
sobretudo aqueles que eram casados e encontravam-se sem suas
famílias, ressentiam-se por não poderem contar com, por exem­
plo, a lavagem de roupas, o que lhes obrigava a gastar parte do
pouco tempo livre ou do salário recebido com esta atividade. Se
109
0 capital da esperança

considerarmos que, em geral, o uniforme de trabalho inexistia, per­


manecendo esse gasto sob responsabilidade do próprio operário e
ainda que o material com o qual se trabalhava (cimento, areia, tá­
buas com farpas ou pregos expostos, etc.), bem como as condições
naturais de trabalho (sol, chuva, poeira, lama) destruíam ou expu­
nham a vestimenta a um desgaste rápido, poderemos avaliar me­
lhor o que significa para um operário não contar com os serviços
de conservação e manutenção da sua roupa. Alguns reclamavam
ainda de terem que se sujeitar, por estarem sós, à comida de pés­
sima qualidade que era produzida nas grandes cantinas existentes.
Finalmente um carpinteiro que, à época do seu relato procurava
sair da condição de operário para passar à de comerciante, deixa
ver que a ausência de atividades e saberes femininos tinha implica­
ções maiores do que as restritas à intimidade da casa:

Aqui em Brasília era muito difícil pra se trabalhar, era gente demais, você num
achava uma pessoa pra te ajudar, uma mulher, por exemplo, né? Porque as
mulher aí era contada. Quem tinha uma mulher aí era rei. Mulher era só mes­
mo... era a minha, a mulher do Pereira, e a do velho lá do Guará, que chegou
na época, a Dona Teca, e... era poucas. E cada um tava cuidando do seu, né?
Então, olha, eu inventei a comprar capado em Luziânia pra vender pro SAPS
(restaurante coletivo) da Novacap... Eu matava três, quatro capados. Dez,
doze arrouba. E caçava um que queria a barrigada, pra limpar ela pra mode
de ficar com a barrigada, num achava. Jogava fora. Você veja bem.

- Por quê?
- Uai, porque ninguém... num tinha mulher. Num tinha ninguém que cui­
dava disso. Num tinha tempo pra isso. A mulher que tinha aí era uma lava­
deira. Cê vê, uma barrigada de um porco de doze arroubas ela dá meia lata
de banha, né, e ainda tem fussura esse negócio todo pro pessoal comer. Eu
pegava jogava fora. Tá vendo?

Para apreender o perfil dos trabalhadores no território da constru­


ção, há que prosseguir expondo outras distinções.
Capítulo 1 | Os trabalhadores

Algumas diferenciações internas ao operariado


A mais fundamental das distinções que levava a experiências dife­
renciadas na construção de Brasília advinha da hierarquia própria
ao ramo da construção civil, definida por uma oposição interna bá­
sica: a de serventes e profissionais. Como se sabe, é por meio de
sua experiência na categoria de servente que o novo trabalhador vai
aprendendo, em tarefas de auxiliares, os métiers que lhe permitem
fazer carreira:
um bom entrosamento entre os serventes e o profissional, é uma maneira de ten­
tar a “carreira”. A via informal para obter a “arte”, acentua o papel do canteiro
como a “escola profissional” da construção (BICALHO, 1978, p. 74).

A “aprendizagem” de um semi-oficial leva, em média, dois anos, período cor­


respondente à duração de uma obra. Em determinados casos, pode levar menos
tempo. Sua valoração do trabalho como “ofício” ocorre no próprio processo de
aprendizagem, pois quanto mais rápido e melhor ele aprender, maior oportuni­
dade ele terá de sair daquela obra como “oficial” (COUTINHO, 1975, p. 57).

Em Brasília, a procura repentina por um grande número de profis­


sionais levou o caráter de escola profissional, desempenhado direta­
mente pela atividade produtiva em si, a adquirir uma dimensão bem
maior. A escassez de trabalhadores especializados levava as compa­
nhias a estimularem os seus profissionais a treinarem serventes que
individualmente demonstrassem estar imediatamente mais aptos a se
tornarem novos pedreiros, carpinteiros, eletricistas. Desta maneira,
muitos operários aprenderam suas profissões na construção da cida­
de o que significou uma ascensão social, para boa parte deles:

— Foi feito muito profissional em Brasília.


- Como é que fazia o profissional?
-Você pegava aqueles servente, aqueles ajudante mais inteligente, mais velho
de casa, gente que já tava há quatro, cinco mês trabalhando. Eu mesmo lá na
obra que eu tava trabalhando um dia faltou pedreiro. Chegou uma compa­
nhia que instalou nova lá e pagando salário melhor. Saiu muito pedreiro de lá
e veio pra cá. Então, o mestre de obras, que eu tava sem pedreiro, diz: ó, faz
pedreiro aí. Então ele entregou pra cada um de nós, pedreiro, um servente pra

111
0 capital da esperança

ensinar. Fez muito profissional, Brasília teve esse lado também, foi um apren­
dizado, foi uma escola de aprendizagem. Formou muita gente tecnicamente
assim na construção civil (pedreiro).
Aqui em Brasília, 95% do pessoal, aprenderam aqui mesmo, trabalhando
como servente, passaram a profissional... O problema é a pessoa ser inteli­
gente (servente).

Estar na condição de servente é estar na condição mais subordina­


da dentro e fora da sua atividade produtiva. Os serventes, subme­
tidos a todos os demais membros da hierarquia do setor da cons­
trução civil, viam-se obrigados a morar nos piores alojamentos dos
acampamentos, bem como, na prática, a comer nas cantinas uma
comida de qualidade inferior à dos profissionais. Poderiam ainda
ser um contingente de trabalhadores recém-saídos da sua condição
camponesa ou pessoas com experiência urbana anterior muito me­
nor à do profissional que já, presumivelmente, havia passado pelo
processo de aprendizagem que se realiza nas obras enquanto uma
atividade, em geral, urbana. Assim, muitas vezes os serventes não se
encontravam aparelhados para melhor venderem sua força de tra­
balho, seja por falta de alfabetização que lhes capacitaria, em cer­
tas instâncias, ao acesso a informações úteis para contraporem-se à

Na construção dos Ministérios


Capítulo 1 | Os trabalhadores

administração em conflitos determinados (principalmente cálculo de


horas devidas), seja pela ausência de um saber sindical, trabalhista,
que lhes qualificassem a uma melhor defesa coletiva. Neste sentido,
não é um acaso o fato da Associação Profissional dos Trabalhadores
nas Indústrias de Construção Civil e do Mobiliário de Planaltina,
Luziânia e Formosa, primeira denominação do futuro Sindicato de
Brasília, ter sido formada em julho de 1958 por profissionais com
grande experiência anterior.
Testados na prática cotidiana do trabalho, alguns serventes conse­
guem romper as fronteiras de sua categoria, passando para aquela
dos profissionais. Interessante como inteligência aparece com recor­
rência como um sinônimo de maior treinamento na atividade pro­
dutiva ou maior treinamento em termos sociais mais genéricos (edu­
cação formal, por exemplo). Como em várias lógicas de passagem
através de uma estrutura hierárquica, o funil vai se estreitando nos
limiares do trânsito para encarregados de turma e mais ainda no
ápice da carreira do operário da construção civil quando se chega à
posição de mestre-de-obra. A estas posições o operário pode chegar
pela demonstração de habilidade individual na prática produtiva, pe­
las relações pessoais com administradores ou com outros trabalha­
dores que se encontrem em postos mais elevados. A eficácia de rela­
ções pessoais extra-esfera da produção, sobretudo laços de amizade
ou de origem regional, pode ter sido definidora do recrutamento e da
trajetória pessoal do operário no território da construção:

- Como é que o sr. passou para encarregado?

- Eu tinha um rapaz que construiu a igreja da minha cidade e ele era um


mestre de obra muito bacana. Eu sei que nessa viagem que eu fui no Rio, eu
conheci ele lá, trabalhei com ele três meses. Aí, com 6 meses e 28 dias é que
ele me encontrou nessa obra [já em Brasília], Aí ele falou: tá trabalhando de
quê? Aí eu falei: de servente. Aí ele disse: não, vou lhe passar a encarregado.
Aí ele me passou pra encarregado.
- O sr. estava falando que Brasília para uns foi uma rosa, para outros o espi­
nho. Por que foi uma rosa?
- Porque muitos chegaram aqui por intermédio de conterrâneo que tem.
Então teve gente que chegou aqui nunca viu uma lampa acesa. Chegava aqui,
como era conterrâneo do seu fulano de tal, entrava como eletricista, ou como

113
0 capital da esperança
encarregado, apontador fiscal. Pra fichar. Aí, o sujeito ganhava mais dinheiro
(capataz de arrebite).

Ao entrar para a categoria de profissional o operário, de imedia­


to, recebe tratamento diferenciado, como alojamento distinto e, em
alguns casos, refeitórios especiais dentro das cantinas. Além disso,
começa a gozar de contato mais estreito tanto com a administração
quanto com os trabalhadores que lhe são superiores, já que passa a
mediar a relação entre o encarregado de turma e os serventes.
Para cada nova categoria que se entre (profissional, encarregado,
etc.), as relações mantidas pelos trabalhadores se tornam mais com­
plexas já que a trajetória de ascensão pode acompanhar a transfor­
mação do operário até em controlador da produção, caso típico das
passagens para posições acima da categoria de profissional. Assim,
os trabalhadores em posições mais altas travam contatos mais fre-
qüentes com mestres-de-obras, engenheiros, administradores. Além
disso, em cada nível que se encontre o operário, à medida que for su­
bindo, o número de trabalhadores sob seu comando vai aumentando
e, em consequência, sua importância para a atividade produtiva e seu
prestígio em termos do seu peso de barganha com a administração.
O trabalhador vai gradativamente tornando-se alguém que pode in­
dicar trabalhadores em categorias “inferiores” para categorias “su­
periores”, passando a “fazer” profissionais, por exemplo.
Adquirido um estágio do treinamento da sua força de trabalho que
lhe permitia vendê-la mais cara, bem como negociar vantagens,
muitas vezes extra-econômicas, o trabalhador passava a receber os
rendimentos dessa condição. É assim que os alojamentos para pro­
fissionais eram construídos, levando já em consideração um respeito
à individualidade do operário. Era freqüente os alojamentos de pro­
fissionais serem quartos para duas pessoas enquanto os de serventes
eram galpões coletivos sem divisórias. Em Brasília, dependendo do
valor estratégico de um determinado operário, ele passava a poder
negociar uma casa para si e sua família. A partir do nível de encar­
regados de turma, no qual se encontram trabalhadores em um deter­
minado momento do ciclo de desenvolvimento do seu grupo domés­
tico em que é presumível já ter formado família, o trabalhador tinha
a possibilidade de ter acesso a residências que davam conta da sua
moradia e dos seus dependentes nos acampamentos. As vantagens
Capítulo 1 | Os trabalhadores

extramonetárias podiam ser conseguidas e instrumentalizadas por


meio dos contatos mantidos com trabalhadores em pontos mais al­
tos na hierarquia. Além disso, pela implementação da identidade da
posição ocupada, alguns trabalhadores podiam ter certas regalias
como entrar no acampamento sem submeter-se a revistas no portão
de entrada. Assim, podiam introduzir, por exemplo a tão procurada
quanto proibida cachaça e até mesmo negociá-la com outros ope­
rários (o que reforçava o prestígio individual, aos olhos dos outros
trabalhadores, do eventual distribuidor da bebida):

Os guarda (vigias do acampamento) tomava a pinga. Agora tinha uns cara lá


que bebia e era caixa alta, né. Esses entravam. Então a gente entrava através
desses. Tinha um encarregado, o seu Roberto, bebia pinga. Tinha pra ele à
venda (pedreiro).

Esta maneira de diferenciar os trabalhadores particulariza o trata­


mento individual com os operários, fazendo com que eles almejem
encontrar-se em posições privilegiadas onde possam instrumentali­
zar relações pessoais para auferir ganhos. A particularização dos
operários, sua diferenciação por meio de relações pessoais mantidas
com a administração das companhias, passando por um sistema de
favores concedidos individualmente a este ou aquele operário, po­
dia servir como instrumento legitimador da ideologia da ascensão
individual, ao mesmo tempo que dificultava a associatividade dos
trabalhadores. Esta situação aumenta a competitividade entre os
operários, na medida em que como categoria o operariado se defron­
ta com a administração das companhias como um todo, que medeia
sua relação de compra e venda de força de trabalho. Em suma, assu­
mir, em todos os níveis, o papel de “bom operário” é uma maneira
de se submeter à particularização detefminada pela companhia e de
facilitar, por intermédio desse artifício, a ascensão na carreira, as­
sim como o bem-estar imediato. A particularização dos operários,
por meio de uma teia de favores que leva a uma competição interna
entre os trabalhadores, foi estudada por Leite Lopes na indústria do
açúcar:

A administração provoca uma certa competição entre os operários pelos


seus “favores”, geralmente sob a forma personalizada de um determinado

115
0 capital da esperança

empregado concreto. A administração tende assim a interpor-se na relação


entre os operários, dificultando seu relacionamento horizontal e favorecendo
a relação vertical com ela. A associatividade espontânea entre os operários
vê-se assim prejudicada (LEITE LOPES, 1976, p. 182).

Não podemos esquecer que se tratava de trabalhadores migrantes.


O deslocamento efetuado não é apenas espacial. Para o migrante
implica separar-se de uma rede social extensa e sedimentada, com
a qual mantinha relações cotidianas definidoras para sua vida. Ao
chegar ao novo local de trabalho, sobretudo nos momentos iniciais
que podem se prolongar diferenciadamente, está contraditoriamente
solto, no sentido de que se subordina, agora, não a uma rede social
na qual foi socializado, mas às relações pertinentes quase exclusiva­
mente à esfera da produção. Desse modo, o operário encontra-se em
um mundo dividido no qual está afastado da sua rede social e ca­
rente da sua esfera doméstica. Neste mundo vigoram basicamente as
determinações e necessidades da atividade produtiva que desempe­
nhará. No caso de um grande projeto como Brasília, as divisões de­
terminadas pelas necessidades da atividade produtiva atingem níveis
superlativos já que a própria composição do operariado, obedecendo
às necessidades inerentes à obra, está perpassada por qualidades do
tipo desproporção do número de homens e mulheres, ausência relati­
va de família, imobilização em acampamentos com residências cole­
tivas e disciplinas próprias, etc. Ao se encontrar nesta situação nova,
carente de uma rede social que lhe apóie e que interprete o mundo
em outras dimensões que não a do trabalho, o trabalhador migrante
passa a construir um artifício que repõe, de certo modo, a ausência
de sua extensa rede originária. Surge assim o regionalismo. Este é o
primeiro caminho que o migrante trilha para estabelecer relações de
amizade e compor um grupo de solidariedade para enfrentar situa­
ções adversas.
Especificamente com relação ao operário da construção civil, setor
que absorve grande número de migrantes, há, na literatura, referên­
cia à existência do regionalismo:
i
I As ligações com o lugar de origem ainda se mantêm durante muito tempo,
nos primeiros estágios de sua incorporação ao centro urbano, mesmo porque
a migração se faz dentro de um universo de referência organizado a partir da
I
116
Capítulo 1 | Os trabalhadores

comunidade em que viveram. Os operários entrevistados, em sua quase tota­


lidade, confirmam que vieram para o Rio ou Niterói por indicação de paren­
tes ou amigos, que lhes arranjaram, direta ou indiretamente, uma ocupação
inicial, geralmente no próprio lugar em que trabalhavam. É interessante notar
que esses laços com a comunidade de origem são reforçados na obra, onde os
grupos se formam, invariavelmente, em função dos conterrâneos. Na verdade,
a primeira estratificação da obra, estabelecida antes mesmo que as outras se
evidenciem é a estratificação regional (COUTINHO, 1975, p. 42).2

Na citação anterior, faz-se referência ao papel das relações de paren­


tesco como forma de apoio ao migrante para se estabelecer no novo
local. No caso de Brasília, ou de qualquer grande obra cuja existên­
cia no tempo ainda não tenha permitido a presença ou o desenvol­
vimento de redes mais ou menos extensas de parentesco, a ausência
relativa de parentes sendo um fato, ao menos inicialmente, deixa o
migrante mais propenso a utilizar sua identidade regional como es­
tratégia. Epstein constata:

Onde tais redes [de parentes para dar apoio e assistência em momentos de
dificuldades] não estão presentes ou são relativamente fracas, é comum as
pessoas tentarem improvisar redes substitutas de cooperação recíproca. Um
instrumento ideológico poderoso para criar tais relações é o regionalismo. Na
neotérica sociedade de Brasília, o estado ou cidade de origem dos migrantes é
uma parte importante da identidade social (EPSTEIN, 1973, p. 135).

Em realidade, o regionalismo aparece como uma construção do tra­


balhador migrante para escapar, em alguma medida, das divisões
impostas pela esfera da produção. Ser paraíba, baiano, carioca ou
goiano é bastante diferente de ser servente, carpinteiro ou encarre­
gado. O rótulo estadual ou regional leva a uma homogeneização nos
atributos diferenciais definidos na esfera produtiva, podendo ser es­
trategicamente utilizado em situações de conflito ou carência. Assim,
o regionalismo seria o primeiro passo no sentido de reconstruir uma
nova rede social que substitua, ao menos em parte, aquela deixada
no local de origem e que possa se contrapor à situação encontrada.

2 Para mim, a primeira "estratificação"da obra com a qual se defronta o trabalhador é a estru­
tura objetiva determinada pela divisão do trabalho própria ao setor, que já está dada e na qual
se insere compulsoriamente o operário "antes mesmo que outras se evidenciem".

117
0 capital da esperança

No caso de Brasília, não parece nada aleatório o fato que uma das
primeiras festas populares surgidas no território da construção fosse
uma em que as pessoas se organizavam em torno dos seus estados
de origem, em barracas para consumir comidas e bebidas típicas e
relembrar nostalgicamente suas terras natais:

- Então nós estando aqui resolvemo fazer festa também pra divertir o nosso
povo e que tivesse alguma utilidade. Então nós começamo aqui a festa junina
com três barracas: a barraca de São Paulo, a barraca de Goiânia e a barraca
do Piauí.

- Por que elas tinham esses nomes?


- Porque as pessoas que tavam patrocinando essas barracas tinham seus bair-
rismos. Então acharam por bem colocar o nome nas barracas dos seus estados
que representava. E a arrecadação da primeira festa foi pra distribuir, pra
cobertores pra esse pessoal que vinha do Nordeste e tinha necessidade desse
tipo de material.
- Como é que foi realmente organizada essa festa?
- Essa festa, justamente isso, foi um primeiro ano organizado com essas três
barracas e no ano seguinte aumentando o número de adesão de cada estado
e isso foi durante uns cinco ou seis anos mais ou menos. Essa festa era reali­
zada aqui na Cidade Livre que depois transformou no Núcleo Bandeirante.
Mas no ano do Congresso Eucarístico, foi 63 ou 64, eles resolveram fazer a
mesma festa lá no Plano Piloto. Então pediu a colaboração aqui do Núcleo
Bandeirante que já estava, vamo dizer, gambaritado pra fazer a festa e nós,
a maioria do pessoal, foi colaborar. E depois passou a fazer só lá no Plano
Piloto (comerciante do Núcleo Bandeirante).
i
Estamos diante do surgimento da Festa dos Estados, incorporada ao
calendário de festejos de Brasília e tradicionalmente promovida, com
fins assistenciais, durante o inverno, com a influência e colaboração
. I direta do governo do Distrito Federal.
I

Como se isso não bastasse, o primeiro grande movimento popu­


lar político que aconteceu em Brasília, o Movimento Pró-Fixação e
Urbanização do Núcleo Bandeirante, cujas raízes remetem à ques­
tão da permanência da Cidade Livre no local em que até hoje se
encontra, tinha por estratégia reunir a população, por estados de
origem. Destes grupos saíam os líderes representantes que passavam,
118
Administração da Novacap

respaldados por seus conterrâneos, a pressionar os parlamentares


dos estados que representavam. É uma indicação clara da eficácia do
regionalismo e de como ele foi percebido e implementado por parte
da população em um momento de luta política (veja mais sobre este
assunto no Capítulo 4).

Companhia pública versus


companhias privadas
Uma outra distinção que rapidamente exporei, que implicava igualmen­
te experiências diferentes para os operários, é aquela existente entre o
trabalhador da Companhia de Urbanização da Nova Capital-Novacap
e o trabalhador de firmas particulares. A Novacap, como companhia
governamental que empreitava as companhias particulares, executa­
va mais obras de infra-estrutura e oferecia ao trabalhador uma ex­
pectativa de emprego mais estável. A segurança que proporcionava
trabalhar para o Estado era o principal fator de atração para esta
companhia embora eventualmente pagasse relativamente menos do
que as firmas particulares:

119
0 capital da esperança

- E qual era a diferença de trabalhar na Novacap e trabalhar numa empresa


particular?

- Nas empresas particular se ganhava mais devido o serão e devido o salário


ser melhor, né. A Novacap pagava menos pela razão por ser uma autarquia.
Ou num era autarquia na época? Então parece que na Novacap tinham mais
direitos assim, referentes a direitos trabalhistas, né? (apontador).
Aí eram os funcionário da Novacap, era o pessoal que trabalhava mais em
topografia, né, trabalhava no serviço da Novacap. Era um serviço mais geral.
Mas tinha muito funcionário da Novacap. E existia muito empreguismo, você
sabe, isso existiu. O funcionário da Novacap era um funcionário considerado
como funcionário público, e o da companhia era considerado um sujeito, um
sujeito particular. E a Novacap não tinha condições de empregar todo mun­
do que chegava que ela não tocava as obras. Ela empreitou as obras, ou deu
as obras em administração. Ela não tinha condições de tocar as obras. Ela
não tinha quase engenheiros, só tinha mesmo pra fiscalização. A Novacap
empreitava o serviço e fiscalizava, isso. Trabalhar na Novacap era melhor,
porque a Novacap seria uma perspectiva de emprego a longo prazo, né. Ela
não ia extinguir. Porque o sujeito que entrou pra Novacap depois passou a
ser funcionário do governo do Distrito Federal. E o da construção civil, da
companhia, terminou a obra ficava sem serviço (pedreiro).

Ser funcionário, interessante notar a substituição dos termos traba­


lhador ou operário por este, da Novacap implicava também morar
em outra área residencial: na Candangolândia, acampamento próxi­
mo à Cidade Livre. Como vimos, para alguns operários era melhor
trabalhar na Novacap do que em firmas, sobretudo pela estabilida­
de, já que pelas próprias características desta companhia seus tra­
balhadores, ao término de obras específicas, não eram dispensados
em massa, como acontecia geralmente com a maior parte dos traba­
lhadores em empresas particulares, mas eram realocados em outras
obras ou atividades, o que lhes permitia uma expectativa de futuro
mais segura. Para outros, o cálculo econômico continuava determi­
nado principalmente pela possibilidade de aumentar seus salários por
meio de horas extras e viradas dentro das construtoras particulares.
Flá indicações de que os trabalhadores da Novacap encontravam-se
majoritariamente com família. Todos os trabalhadores da Novacap
que entrevistei eram casados à época da vinda para a construção.
Capítulo 1 | Os trabalhadores

O Censo Experimental aponta a Candangolândia, o acampamento


de “funcionários” da Novacap, como o local com a maior taxa de
casados do território da construção (IBGE, 1959, p. 13). Além disso,
um carpinteiro nos informou:

Quem ficou mais na Novacap foi casado que veio com família. Porque a
Novacap teria mais segurança do que qualquer outra firma.

Ademais, a Novacap, como responsável pelo andamento das obras e


como empresa do governo, estava sujeita, ao menos formalmente, a
certas regras, definidas fora do território da construção, que pode­
ríam beneficiar seus “funcionários” e às quais não necessariamente
submetiam-se as companhias privadas. Em que pese a relativa fra­
queza do partido de oposição, União Democrática Nacional (UDN),
no controle da construção da nova capital, talvez a fiscalização mais
importante a que se submetia a Novacap tenha sido aquela que se ex­
pressou politicamente através da oposição udenista. Em grande parte
contra a transferência da capital, a UDN denunciava com freqüência,
no Congresso Nacional, irregularidades cometidas pela companhia
governamental cuja administração era composta principalmente
por membros de confiança da coligação no poder à época (Partido
Social Democrático - PSD e Partido Trabalhista Brasileiro - PTB).
A UDN permaneceu longo tempo tentando articular uma Comissão
Parlamentar de Inquérito para investigar a atuação da Novacap. Seus
intentos eram sempre barrados pela situação política de então, ex­
pressa na aliança PSD-PTB. E provável que a utilização desta em­
presa do governo para empregar correligionários fosse além da sua
alta administração, como insinua o depoimento do pedreiro que fala
em empreguismo.

Eram os operários vinculados às diversas companhias particulares


empreitadas pela Novacap que formavam o quadro numericamente
mais significativo da composição do operariado que se encontrava
no território da construção, se submetia aos grandes acampamen­
tos existentes e administrados pelas empresas privadas ou recorriam
às outras áreas residenciais como a Cidade Livre e as “invasões”.
Foram eles, assim, o alvo privilegiado da investigação e da reflexão.

121
0 capital da esperança

Internamente aos trabalhadores de companhias privadas encon-


tram-se diferenciações de acordo com a companhia para a qual se
trabalhava (condições de alojamento e alimentação, correção do
pagamento, disciplina mais ou menos rígida nos acampamentos,
etc.). As diferentes maneiras das companhias agirem com os ope­
rários, apontam para diferentes estratégias das administrações das
empresas. Não obstante, todas partilhavam uma área idêntica de
atuação no tocante às condições gerais de exploração da força de
trabalho. Desse modo, traços comuns persistem fazendo com que
as nuanças se apaguem já que, em última instância, a estrutura
utilizada foi a mesma: a exploração intensa de uma força de traba­
lho masculina, ligada basicamente a um único ramo da produção
e que se encontrava em um território relativamente isolado, sem
suas famílias e sem mulheres, sujeita, na sua maior parte, ao con-
finamento em residências coletivas em acampamentos rigidamente
controlados por seus patrões.

Trabalhador na Esplanada dos Ministérios (1957)

•»
o

Capítulo 1 | Os trabalhadores
í )
Com este quadro geral de características centrais da formação e da
composição do operariado que trabalhou na “obra do século”, di-
rijamo-nos a mais um ponto nuclear para o entendimento da expe­
riência dos trabalhadores: o acampamento.
()

i \

.» )
/ )
()
*'*)
)
>
f )
» )

- )

123
Capítulo 2 | O acampamento

A necessidade de mobilizar milhares de pessoas para participarem


da construção de um grande projeto é um dos fatores que torna a ha­
bitação uma das questões principais que caracterizam a implementa­
ção deste tipo de empreendimento. No capítulo anterior, vimos con­
tornos básicos para entender a questão da habitação no território da
construção como um todo. Agora, passarei a tratar especificamente
de um dos corolários centrais da equação de um grande projeto que
é a presença obrigatória de grandes acampamentos para dar con­
ta da moradia dos milhares de trabalhadores que acorrem ao local.
Fornecerei um quadro que permitirá perceber o acampamento como
uma forma de moradia que contribui para uma maior exploração da
força de trabalho à medida que, sendo uma forma ajustada à lógica
da atividade produtiva, implica uma efetiva subordinação da quase
totalidade do cotidiano do operariado nele residente aos interesses
da esfera da produção.
Como esse tipo de grande projeto é realizado em áreas praticamente
desertas em termos populacionais, atraindo trabalhadores migrantes,
a construção de acampamentos é obrigatória. De outra forma, dei­
xariam aos que chegam a decisão de construir suas habitações onde
pretendessem, o que acarretaria um sem número de problemas, dado
que a relativa dispersão populacional que presumivelmente ocorre­
ría, poderia implicar até a ocupação de áreas destinadas à edificação
da obra. Mais do que isso, a dispersão dos trabalhadores implicaria
não poder efetivamente subordiná-los a um controle cotidiano ajus­
tado aos interesses da atividade produtiva, o que é garantido pela
imobilização da força de trabalho no acampamento. Podemos imagi­
nar também que a não concentração de trabalhadores em pontos es­
tratégicos implicaria aumento da necessidade de trabalhos e serviços
para manter a população na área. Por exemplo: um maior número
de estradas ligando os principais pontos do território da constru­
ção, mais reservatórios de água, geradores de energia, delegacias de
polícia (por conseguinte, mais policiais), restaurantes coletivos, etc.
A dispersão implicaria, ainda, que um único núcleo destinado à pres­
tação de serviços seria insuficiente. Deste modo, seriam necessários
diversos núcleos menores, mais difíceis de serem controlados e cujas
edificações custariam mais. Assim, vemos que a concentração da po­
pulação em pontos estratégicos para o desempenho da construção é
altamente instrumental para um grande projeto.

127
I
0 capital da esperança
A obrigatoriedade do acampamento, que em um primeiro momento
I
poder ser considerada como um investimento de capital fixo do tipo
I não-produtivo (LEITE LOPES, 1976, p. 110), no desenrolar dos tra­
balhos demonstra sua grande funcionalidade para a manutenção das
características mais amplas necessárias à exploração inusitada que
I
ocorre internamente em um grande projeto. Relembremos que, no
caso da construção de Brasília, os capitalistas individuais, represen­
a tados pelas diversas empreiteiras, não tiveram que computar em seus
gastos as despesas com a construção de acampamentos, uma vez que
foram assumidas pelo Estado via Novacap. O presidente desta com­
I
panhia governamental ao explicar o relacionamento mantido com as
l companhias privadas afirmou:
Acresce ainda a vantagem, pelas condições peculiares das construções em
í Brasília, que os acampamentos, que representam percentagem apreciável no
I custo das obras, são de propriedade da Novacap, que os utiliza para outros
serviços sem necessidade de novo investimento para esse fim (DIÁRIO DE
I
BRASÍLIA, 1959, p. 274).
I
Leite Lopes e Machado da Silva (1979, p. 13-14), ao analisarem o
que designam situação de fábrica com vila operária, apontam para
l
uma situação de completa dependência do capital que se refere
I
não somente àquela que se estabelece entre o produtor direto e o seu patrão
1
ao nível do trabalho, mas também à que se estabelece, entre esses mesmos
I atores, ao nível da moradia; não somente, portanto, em relação à produção,
II
Acampamento da construção do Palácio da Alvorada (1958-1959)

mas o capital controlando também a própria materialização da reprodução


do trabalhador.

A construção civil, notadamente nos grandes projetos, é uma ativi­


dade produtiva que acaba por demandar uma imobilização da força
de trabalho passível de ser classificada como situação de completa
dependência do capital. Contudo, esta dependência não se realiza
pela forma vila operária (dado o próprio caráter “itinerante” deste
ramo da produção), mas pela forma alojamento provisório, ou por
sua forma mais agigantada e complexa, acampamento. É conheci­
da a presença dos alojamentos como forma de moradia operária do
ramo da construção civil. Leite Lopes, ao mencionar a presença de
grupos domésticos na vila operária, afirma:
No entanto, podemos vir a pensar no caso da manutenção, por parte do pa­
trão, de alojamentos para trabalhadores individuais sem família, materia­
lizados nos galpões e barracas em empreendimentos como obras públicas,
construção de estradas, barragens, construção civil, etc., e mesmo de certas
fábricas (1979, p. 44-45).

De fato, mais adiante veremos a clara predominância de trabalhado­


res sem família nos acampamentos. Sobre alguns aspectos da imobili­
zação da força de trabalho na construção civil pode-se ver, por exem­
plo, Lourdes Pimentel (s/d, sobretudo p. 23 e seguintes) e também a
tese de livre-docência de Ronaldo do Livramento Coutinho (1975).
129
0 capital da esperança

Assim, se os alojamentos são comumente encontrados nos canteiros


de obras de construções individuais, em uma grande obra, um com­
plexo articulado de várias construções parcelares, deparamo-nos
com a presença de diversos grandes acampamentos. Estes, além de
terem a função de prover residência para os trabalhadores, incluem
também outros equipamentos ligados à reprodução da vida no terri­
tório da construção, tais como, cantina, posto de saúde, armazém,
etc. Os acampamentos são consideráveis aglomerados localizados
em territórios bastante carentes de maiores prestações de serviços.

Organização e características internas


Em Brasília, os grandes acampamentos vão sendo montados à medi­
da que a intensidade dos trabalhos aumenta e novas empresas par­
ticulares engajam-se na construção. Como resultado das caracterís­
ticas do conjunto da população que se dirige para o território e é
selecionada para trabalhar na obra, o objetivo maior é prover habi­
tações coletivas para o grande número de trabalhadores sem família.
De fato, nos acampamentos é onde se encontra a menor proporção
de mulheres para homens. Neles chega a ser de 179 mulheres por mil
homens (IBGE, 1959, p. 7). A baixa presença de mulheres é indica­
tiva de ausência relativa de familiares (ver, mais adiante, as cifras do
que o Censo de 1959 classificou como grupos familiares e grupos
conviventes).
A importância numérica dos acampamentos é visível no Censo de
1959 que dividiu o território da construção em Acampamentos
(28.020 habitantes), Núcleos Provisórios (17.761 habitantes), Núcleos
Estáveis (6.277 habitantes) e Zona Rural (12.256 habitantes) (IBGE
1959, p. 40). Os habitantes dos acampamentos formavam 43,5% da
população total do território de 64.314 pessoas, ou, ainda, retirando-
se desta cifra a população da zona rural, 53,8%. Lembremos tam­
bém que o Núcleo Bandeirante, totalmente marcado pela presença
de comerciantes, contribuía com uma população de 11.565 pessoas.
Mas uma das melhores maneiras de ver o que significava a presença
dos acampamentos é procurar entender sua organização interna e seu
funcionamento para seus moradores. Pesquisei mais detalhadamente
um acampamento que era da construtora que chamo de Redonda.

130
Capítulo 2 | 0 acampamento

A escolha deste acampamento específico deve-se ao fato de fazer par­


te do conjunto maior, a Vila Planalto, que estrategicamente se locali­
zava perto da Praça dos Três Poderes e da Esplanada dos Ministérios,
onde grande parte das principais obras públicas se desenvolvia: as
sedes dos três poderes, ministérios, Rodoviária e Teatro Nacional.
Além disso, este era um dos únicos acampamentos ainda existentes
que, com relativa facilidade, permitia tanto encontrar pessoas que lá
viviam desde a época da construção quanto reconstruir da melhor
maneira possível sua configuração espacial original.
Os dados provêm de anotações de campo, fruto de diversas idas ao
local, quando observava a disposição dos prédios existentes e sua
destinação. Nestes momentos, várias entrevistas informais com anti­
gos habitantes foram realizadas. Para a elaboração do croqui da pá­
gina 132 foi imprescindível a colaboração de um operário, com quem
várias vezes percorri a área originalmente pertencente ao acampa­
mento da Redonda. Ele identificou, além das construções ainda exis­
tentes no momento da pesquisa, as marcas de cimento que indicavam
as bases de prédios já derrubados.
Aqui registro meus agradecimentos ao arquiteto Lúis Augusto
Jungman Andrade que me acompanhou várias vezes à área para
confeccionar os croquis apresentados a seguir e a Levi Batista de
Carvalho quem os desenhou. E claro que não pretendo que o croqui
seja uma reprodução fiel do antigo acampamento da Redonda, visto
que modificações no seu contorno e interior foram introduzidas no
decorrer do tempo. Além disso, há que ter em mente que sistema­
ticamente foram derrubadas casas de acampamentos periféricos,
da época da construção, causando grandes transtornos para seus
habitantes e desfigurando profundamente algo que deveria ser pre­
servado como exemplo concreto de uma forma central da organiza­
ção da vida no período da construção da capital federal. Esclareço
também que, apesar de ser um exemplo típico, o acampamento da
Redonda, em termos de disponibilidade de serviços internos, pare­
ce ter sido um dos mais equipados, talvez justamente por ser um
dos maiores. Acredito que podia abrigar uma população de 2 mil
a 3 mil pessoas. Seguramente outros acampamentos dispunham de
organização interna com separações e diferenciações espaciais e so­
ciais muito mais rígidas.

131
Croqui de um
acampamento da época
Casas profissionais com família
Alojamentos serventes sem família
□□□□□□ Alojamentos serventes sem família
Alojamentos profissionais sem família
□ □□□□□□ Administração
Açougue
5 O Cantina
Estacionamento
Cinema
Armazém
Farmácia
Casas de profissionais (encarregados)
Clube dos operários
Igreja
Gerador
Clube dos engenheiros
Médico e dentista
Alojamento para funcionários
Casas de engenheiros
Casas:
mestre-de-obra
administradores
encarregados
chefes
engenheiros
Reservatório d'água
Engenheiros
Casa do proprietário da firma
Lago Paranoa Entrada

Palácio Alvorada
Praça dos Três Poderes

Plano Pilo-
Capítulo 2 | O acampamento

Os resultados obtidos nessa precoce arqueologia, mesmo com os


equívocos que porventura tenha, permitiram perceber como especi-
ficidades relativas a uma grande obra da construção civil refletem-se
na organização espacial interna do acampamento, condicionando-a.
A configuração do acampamento reflete basicamente duas linhas ad­
vindas tanto da lógica da atividade produtiva quanto das particula­
ridades da população presente no território (que já sabemos serem
determinadas pelas características da força de trabalho própria para
o desempenho de uma grande obra). Destaco, em primeiro lugar,
a similaridade imediata da organização espacial do acampamento
com a hierarquia própria ao ramo da construção civil, sobretudo no
que diz respeito às distinções entre serventes e profissionais e entre
este conjunto de trabalhadores e os controladores da produção. Em
segundo lugar, salta aos olhos a ausência relativa de mulheres e fa­
mílias, gerando concentração espacial diferenciada segundo a desti-
nação das casas: unidades coletivas para trabalhadores sem família,
unidades individuais para trabalhadores com família. Um trabalha­
dor chegou a dizer que no acampamento
só tinha a separação aqui de sorteiro e com família. Daqui pra riba, família.
Daqui pra baixo, sorteiro.

Um servente, residente no mesmo acampamento, relembra que


toda a vida a firma trazia separado. Sorteiro de um lado, família de outro.
Nunca morou junto. Não morava peão sorteiro morando com família, essa
mistureira. Naquela época tinha muito respeito, por isso que separava.

Se é possível pensar a configuração espacial do acampamento como


um continuum permeado pela lógica da hierarquia da construção
civil e pela ausência relativa de mulheres e famílias, vê-se que há
uma ruptura nesse continuum que define a existência de dois lados.
A manifestação concreta desta ruptura era um grande espaço vazio,
definido pelo estacionamento de caminhões e pelo campo de futebol,
que separava um lado basicamente masculino e sem família, forma­
do por serventes e profissionais, de um outro basicamente reservado
aos controladores da produção (encarregados, mestres-de-obra, en­
genheiros, administradores, etc.) com suas famílias. Portanto, com
uma presença feminina.

133
0 capital da esperança

É certo que a presença de algumas casas de profissionais com famí­


lias no “lado masculino” do acampamento polui um pouco a divisão
do espaço de acordo com o sexo. No entanto, a presença destes pro­
fissionais com família confirma a divisão básica entre trabalhadores
e controladores da produção e deve ser entendida tendo em mente o
número reduzido destas residências, comparativamente ao número
de profissionais em alojamentos coletivos masculinos (calculamos
um número máximo possível em torno de 550 deles). A referida pre­
sença minoritária deve ser entendida também em relação ao fato da
totalidade de controladores da produção ter acesso a habitações in­
dividuais com suas famílias. É como se de certa maneira a condição
de profissional não remetesse ainda a uma posição na hierarquia da
construção civil que permitisse o acesso de todos os trabalhadores
nesta categoria a habitações individuais. Sobretudo àquelas locali­
zadas no lado “privilegiado” do acampamento, livre da incômoda e
freqüentemente perigosa, para suas famílias, vizinhança dos aloja­
mentos coletivos com suas grandes populações masculinas.
É certo que os acampamentos não primavam pela segurança dos seus
habitantes:
- Mas não tinha muita ordem naquela época aqui, não?
- Tinha ordem o quê! Tinha ordem o quê... dentro desse cinema (do acam­
pamento) mesmo aí ó, no tempo da Redonda aí, um sujeito deu um tiro num
aí, esgotou sangue pra danar. Isso aí toda vida foi bagunçado. Que o povo do
norte, cê sabe, bebe pinga e quer pôr faca nos outro mesmo. Eles num tem dó
de ninguém. Pega um dinheirinho aí, já dana nos boteco beber pinga, jogo e
rasta mala (operário de manutenção de máquinas).
Na própria Oval [nome fictício do acampamento de empreiteira], um encar­
regado lá matou um soldado, fuzileiro naval aqui em Brasília, trabalhando
de eletricista em obra! Um fuzileiro naval! Chefe de uma seção, né, que eles
chamam, né? Foi consertar lá uma lâmpada e foi obrigado a desligar a luz do
alojamento de um encarregado lá, pra poder fazer a ligação, que ele não ia
fazer com a luz ligada. Ele foi, desligou, chegou o cara e perguntou: “Quem
foi que desligou a luz lá?” - Foi eu pra fazer essa instalação aqui. “Então des­
ce da escada”. O cara desceu, pensou que era pra conversar. Chegou, ele deu
seis facada nele. Sem saber, sem conversar. [...] Porque era 4 mil homens que
trabalhavam nessa obra. Nesses 4 mil homens talvez tivesse 3 mil marginais
(servente).

134
Capítulo 2 | 0 acampamento

A grande maioria das habitações individuais ser destinada aos con­


troladores da produção e, no caso do acampamento em questão, re­
sidualmente aos profissionais (em detrimento de todos os serventes)
parece refletir, ainda, o maior poder de barganha destes operários
por força da própria lógica da hierarquia da construção civil e o fato
de que, em geral, os trabalhadores, ao estarem em nível mais qualifi­
cado de seu treinamento, encontrarem-se também em um momento
de suas vidas onde têm famílias constituídas. Assim, contratar tra­
balhadores mais qualificados para a construção de Brasília implicava
pensar também no alojamento dos seus familiares sob pena de não
possuir argumentos (extra-salários) convincentes para o recrutamen­
to, dadas as difíceis condições de vida vigentes no território.
Detenho-me, agora, nas características internas a cada um dos lados
definidos anteriormente. O lado passível de ser classificado como re­
lativo à imobilização da força de trabalho sem família (serventes e
profissionais), embora tivesse uma população relativamente bastante
maior, ocupava um espaço físico muito menor. Os alojamentos de
serventes eram compostos de grandes blocos sem maiores divisões
internas que abrigavam muitas dezenas de operários. Como já dito,
tudo indica que à medida que o trabalhador situava-se em ponto
hierárquico mais alto, mais se respeitava a sua condição individual.
Assim, os profissionais contavam com pequenos quartos ocupados
no máximo por dois operários (ver croqui da página 137). Mas os
serventes tinham que utilizar espaços comuns para dormir, com
grandes implicações para a higiene interna dos alojamentos.
Vejamos o que diz um servente sobre o alojamento coletivo de outro
acampamento, o da Oval:
- Porque aqui dormia uma camada embaixo, outra mais em cima, outra
mais em cima... Então eles fizeram tipo beíicho assim, que dá pra um homem
sentar, mais ou menos uns 80 centímetro [entre uma cama e outra]. Rapaz,
ali dava tudo quanto era tipo de peste: rato, percevejo, pulga, tudo quanto
era tipo de imundiça você podia encontrar naquela época aqui em Brasília.
Doença, eu vou falar uma coisa, você nem imagina o quanto que a pessoa
sofria sem saber o que é que tava sofrendo. E tudo, tudo. Era um negócio que
você nem imagina.
- O sr. tinha sua cama?

135
0 capital da esperança

- Minha cama era numerada. A minha cama era 46. Eu chegava lá, botava
aqueles lençolzinho que eu trouxe lá do Norte, todo branquinho. Eu dormia
uma noite nessa, na outra noite eu olhava, eu tinha nojo. Sabe por quê? O per-
I cevejo já tinha me chupado tanto que o lençol tava todo vermelho de sangue.
I [...] Eu não dormia não - ficava a noite todinha com a luz acesa, olhando eles
em cima dos outros chupando os outros. [...] E eu olhando eles chupando os
outro. O cara morto de trabalhar, lavava só os pés, os braço, as mãos, o rosto.
I Coragem de tomar banho ele não tinha, porque era a água fria. [...] Mas o
I cansaço era tão grande que ele trabalhava, dava tudo dele, o dia e a noite, o
pedaço da noite. E o resto da noite o percevejo chupava o sangue dele.

I Na Redonda, os alojamentos de serventes e profissionais tinham o


I mesmo tipo de equipamento à disposição no que diz respeito às ne-
I cessidades fisiológicas, higiene pessoal e lavagem de roupas: um box
de serviço com três sanitários, três chuveiros e três tanques, numa
proporção de um conjunto destes para cada dois blocos de alojamen-
| tos. No caso dos profissionais, atendia a uma população de oitenta
, homens. Não é difícil imaginar o déficit destes serviços. Não foi pos­
sível estabelecer um número aproximado de moradores por blocos
de alojamentos de serventes. Estavam bastante destruídos. Várias
| habitações individuais foram posteriormente construídas sobre suas
antigas bases. Dada a usual utilização de camas beliche e mesmo
redes, assim como a ausência de quartos individualizados, o número
de serventes por alojamento seguramente era de algumas vezes o nú­
mero de profissionais por alojamento.
A presença da administração da companhia imediatamente ao lado
| do conjunto de alojamentos de trabalhadores sem família é sinto­
mática. Eram estes os operários mais subordinados ao controle e
disciplina impostos na esfera da produção, fatores que acabavam
H. migrando para a organização do acampamento onde residiam.
| A administração da empresa, como veremos, controlava não apenas
a esfera da produção, mas também a vida extra canteiro e intra-
acampamento dos trabalhadores. Assim, a proximidade física da
administração com os grandes alojamentos coletivos masculinos
é também um indicador do maior controle e vigilância a que esta-
, vam submetidos os operários que aí habitavam. A cantina situava-se
igualmente ao lado do conjunto desses alojamentos. Este era o local
ideal para sua localização, visto que no outro lado do acampamento
li '
/ 136
D4
=> 5 Íp
D
-i
3 7 -

Cortes
Alojamentos de profissionais sem família

1 Dormitório -tamanho3 mx2m


2 Vestiários
3 Banco
4 Lavatórios
5 Sanitários
6 Tanques
7 Chuveiros
0 capital da esperança

a grande maioria se alimentava em suas próprias casas com comida


feita por suas famílias, notadamente por seus membros femininos
adultos. Presumimos que o açougue, localizado nos fundos do acam­
pamento e próximo a uma pequena rua de serviço, destinava-se ba­
sicamente ao atendimento da cantina.
Atravessemos agora o grande pátio formado pelo estacionamento
e pelo campo de futebol e dirijamo-nos ao outro lado do acampa­
mento, aquele onde residiam, em sua maioria, os controladores da
produção acompanhados de suas famílias. Chama a atenção, de ime­
diato, a concentração dos equipamentos de serviço em uma espécie
de praça localizada ao lado de casas de encarregados e em frente
às casas de engenheiros. Aí estavam: cinema, armazém, farmácia,
gabinete de saúde, gerador, clube dos engenheiros, igreja e clube dos
operários. Este último, segundo uma pessoa que nele trabalhou, foi
fundado apenas nos fins de 1959, para responder e contrabalançar a
pressão que faziam os trabalhadores sobre o clube de engenheiros, de
existência mais antiga, e que queriam freqüentar.
A diferenciação interna neste lado também refletia a hierarquia do
ramo da construção civil. Passava-se de um setor de casas individuais
menores, destinadas em geral aos encarregados de turma, para um
setor de casas que eram cada vez maiores na medida em que se des­
tinavam a postos hierárquicos mais altos. Dos mestres-de-obras aos
chefes e engenheiros, passamos ao ponto culminante do continuum
da configuração espacial do acampamento: a casa do proprietário
da firma.1 Essa residência destinava-se à permanência esporádica do
proprietário da companhia no território da construção. Verdadeiro
castelo de madeira separado do conjunto maior por cerca de arame
farpado, possuía sua saída privada para fora do acampamento, deso­
brigando seu morador a passar pelas vias comuns aos caminhões de
serviço e aos peões, possibilitando-lhe uma saída estratégica.
Neste lado do acampamento encontravam-se também alojamen­
tos coletivos para funcionários dos escritórios da administração da

1 A categoria chefes pode incluir desde o chefe do acampamento (seu administrador prin­
cipal) até funcionários graduados da administração do escritório da companhia. No setor de
casas de encarregados (que obviamente são profissionais), eventualmente podería ser encon­
trado algum profissional que teve acesso ao local por meio da manipulação de relações pessoais
com indivíduos que lhe pudessem liberar o acesso a este espaço.

138
Capítulo 2 | 0 acampamento

companhia que por suas qualidades de treinamento (dominar relativa­


mente a linguagem escrita, ter noções de contabilidade e de adminis­
tração, por exemplo) e por estarem efetivamente vinculados ao contro­
le da força de trabalho, tinham suas residências coletivas localizadas
aí e não próximas aos alojamentos masculinos coletivos de serventes e
profissionais. Eram dois blocos que se repartiam internamente em pe­
quenos quartos. Finalmente, ainda deste lado, situava-se o reservatório
de água que servia ao acampamento. Sua localização parece dever-se
às características físicas da área do acampamento, já que se trata de
um ligeiro declive em direção ao Lago Paranoá.
Estas eram, em termos gerais, as linhas da configuração espacial
do acampamento da Redonda. Em realidade, o acampamento, sua
construção, configuração e utilização é universo privilegiado para
perceber a estruturação do espaço de acordo com as diferenças de
classe e, concomitantemente, às diferenças internas a um determina­
do ramo da produção. Dos miseráveis, sujos e apertados alojamentos
coletivos dos serventes até a espaçosa casa do proprietário da com­
panhia, a divisão do espaço é claramente orientada pela lógica da
esfera da produção expressa concretamente no ramo da construção
civil. A existência de um lado destinado basicamente a residências
masculinas e outro a residências mistas (portanto, um lado também
feminino) reflete, ainda, a ausência relativa de famílias, característi­
ca do território da construção que surgiu, como vimos no capítulo
anterior, obedecendo às necessidades da produção da grande obra.
É evidente que os dois lados do acampamento mantinham relações
entre si, já que eram partes de um mesmo todo. Passemos, então, a
entender essa totalidade. O acampamento, visto como uma unidade,
definia-se pela cerca que marcava seus limites territoriais e sociais.
Acampamentos vizinhos, subordinados a companhias diferentes, po­
diam possuir regras distintas relativas à organização da vida. Tais
regras em grande medida determinavam o cotidiano de centenas ou
até milhares de pessoas e tinham por matriz o poder exercido pe­
las administrações de cada empresa. O acampamento, então, tinha
sua administração interna, geralmente uma estrutura hierárquica na
qual existia um cargo de chefe que contava com diferentes subordi­
nados. Como parte do quadro hierárquico mais amplo da estrutura
da companhia, a administração do acampamento subordinava-se ao
corpo administrativo maior diretamente vinculado ao controle do
139
0 capital da esperança
processo produtivo. Assim, é claro que a administração do acampa-
1 mento é passível de ser classificada como uma extensão da adminis-
1 tração da atividade produtiva. Pela mediação da administração in-
I terna, as necessidades da esfera da produção passavam a determinar
vários aspectos da vida dentro do acampamento.
Ressalto, por exemplo, a possibilidade de despertar vários operários
de uma só vez, garantindo a pontualidade e assiduidade, bem como
I impondo uma permanente disponibilidade para tarefas do interesse
| da companhia. Uma das indicações mais visíveis disto era o ajuste
I da atividade da cantina aos diferentes horários de turmas, horários
determinados pelas necessidades da atividade produtiva que neces-
1 sitava ter organizadas a entrada e saída dos trabalhadores na obra
I para assegurar a continuidade do trabalho. Assim, o horário da ofer-
I ta de alimentos na cantina era definido de acordo com a saída das
diferentes turmas. Estas, em geral, voltavam ao acampamento para
realizar refeições intermediárias (normalmente o almoço) ou as últi-
I mas refeições do dia. Deste modo, a cantina oferecia vários horários
I começando o café da manhã às cinco horas, o almoço às dez horas
da manhã e o jantar às quatro da tarde.
O ajustamento do fornecimento de alimentos às necessidades da or­
ganização do trabalho fica ainda mais evidente quando, para as tur-
1 mas que realizavam jornadas do tipo virada que demandavam suas
| presenças a noite inteira na obra, eram levadas refeições intermediá-
I rias ao local de trabalho, para não perder tempo com o deslocamen­
to dos operários até a cantina. Retomarei estas questões no Capítulo
II 4 onde veremos a alimentação como um dos principais focos de con-
|l flito na época da construção.
I1 No domínio da influência da administração da companhia no co-
ll tidiano do acampamento, ressalta o fato de que as formas possí-
veis de lazer também situavam-se em um quadro que escapava ao
controle e deliberação dos trabalhadores. A companhia administrava
I virtualmente o escasso tempo livre dos operários. Neste contexto, não
II é absurdo supor que a programação do cinema local era orienta­
da pela administração, obedecendo tanto aos seus interesses quanto
às concepções que por ventura tivessem de quais filmes seriam da
predileção dos trabalhadores. O clube dos operários provavelmente
II era passível de um controle mais explícito, pois seu funcionamento
lli
140
I
Capítulo 2 | O acampamento

não deveria quebrar regras disciplinares da rotina do acampamento,


como promover festas que se estendessem noite adentro, ou nas quais
os trabalhadores se embriagassem. Uma das formas de lazer mais
presentes em diversos acampamentos era o time de futebol incentiva­
do pela administração. A torcida pelo time de futebol da companhia
expressa um artifício em que pessoas em posições diferentes dentro
de uma hierarquia dirigem suas energias para um mesmo objetivo.
Note-se que freqüentemente o nome do time era o mesmo da firma,
o que certamente levava a torcida, um coletivo agora socialmente
indiferenciado, a gritar e desejar que a companhia vencesse. Ou seja,
na torcida pelo time as fronteiras e diferenciações sociais eram mo­
mentaneamente desfeitas e todos passavam, durante certo período,
a se identificar com um ideal comum. Friso apenas que o que domi­
nava este ideal era a vitória do time da companhia. Neste instante, a
companhia deixava de ser uma unidade diferenciada para adquirir a
aparência de um todo homogêneo, com interesses igualmente assu­
midos por seus membros.
E Erving Goffman (1974) que, no âmbito da distinção entre diri­
gentes e internados em instituições totais, qualifica as cerimônias
institucionais como práticas “que exprimem solidariedade, unidade
e compromisso conjunto com relação à instituição, e não diferenças”
e “através das quais os internados e a equipe dirigente chegam a ficar
suficientemente perto para ter uma imagem um pouco mais favorá­
vel do outro, e a identificar-se com a situação do outro” (p. 85). Ele
chama a atenção para o fato de que, nos chamados esportes internos,
ao “torcer pela equipe da casa, a equipe dirigente e os internados
mostram uma participação semelhante na entidade institucional”
(P- 95).
Porém, há um campo mais privilegiado ainda para entender o poder
da administração do acampamento e sua subordinação aos interesses
da atividade produtiva: trata-se do controle e da vigilância perma­
nentes realizados por agentes da administração, aos quais estão sub­
metidos os operários no seu cotidiano interno ao acampamento. Este
controle e esta disciplina podem ser encontrados logo na entrada do
acampamento, onde uma guarita vigia o movimento, assim como
revista os operários à procura de armas (geralmente peixeiras) ou da,
proibida e controlada, cachaça. Vejamos como isto se dava no acam­
pamento da construtora Oval segundo o relato de um pedreiro:
141
0 capital da esperança

Era expressamente proibido entrar bebida alcoólica, era proibido o sujeito


ter arma de qualquer espécie, ou faca ou canivete. Tinha uma guarda da
companhia formada lá, de serventes mesmo que eles formava a guarda pra
dar plantão lá no portão pro sujeito entrar. Os guarda era pra justamente
isso: o sujeito abrir portão pra entrada de carro no alojamento e revistar
mala do sujeito quando o sujeito chega. Pra ver se ele entra com cachaça
ou arma, e também ver algum tumulto, algum possível tumulto que surge
dentro do alojamento. O sujeito entrava com a mala eles revistavam a mala
na entrada e tudo, né. Assim mesmo nego quebrava a vigilância e entrava
com cachaça, tinha... né?

Outras expressões da disciplina são as filas para utilização de ba­


nheiros, bem como aquelas de entrada na cantina. Nesta última,
o trabalhador segue uma ordem estabelecida para conseguir sua

Operários em fila no canteiro de obras da Superquadra Sul 105. Foto: Mário Fontenelle
Capítulo 2 | O acampamento

alimentação. Estas formas de controle e disciplina interna são realiza­


das por quadros de funcionários e vigias diretamente vinculados à ad­
ministração. Estes últimos têm uma dupla função: além de manter
a ordem de centenas de homens em uma situação social incomum
marcada pela grande estafa do trabalho conjugada com a subor­
dinação a várias regras ordenadoras do seu cotidiano e à relativa
ausência de mulheres; denunciar eventuais lideranças que se for­
massem em conflitos específicos.

Acampamento de grande projeto: instituição total?


A situação inusitada que cria a forma de moradia acampamento
refletiu-se no Censo Experimental de 1959 quando ele classifica,
“de conformidade com a natureza do vínculo de convivência”, as
famílias censitárias, “conjunto de pessoas moradoras em domicí­
lio (unidade de habitação), seja particular ou coletivo”, em grupo
familiar, basicamente definido por parentesco, e grupo convivente
que se definia “quando o vínculo de convivência fosse mais relacio­
nado com o interesse comum, disciplina ou finalidade da própria
instituição a que pertencessem os seus componentes - como é o
caso de religiosos em conventos, hóspedes em hotéis e similares,
militares em quartéis, estudantes em internatos, asilados em ins­
tituições de assistência ou de amparo, etc.” (IBGE, 1959, p. 67).
E tão marcante a presença dos, assim chamados, grupos convi-
ventes, que mais adiante encontramos no texto do Censo que “em
Brasília, a importância dos grupos familiares na constituição da
população decresce consideravelmente, dada a elevada participação
de grupos conviventes formadores dos acampamentos de obras”.
Evidentemente, os acampamentos possuíam altos índices de grupos
conviventes em detrimento dos grupos familiares. Aqueles que for­
mavam a região da Vila Planalto, na qual se situava o acampamento
da Redonda, tinham uma proporção de 70% de grupos conviventes
para 30% de grupos familiares (idem, p. 68). A influência deste
tipo de conjunto de moradias para a caracterização do território da
construção era tal que o Censo chegou a considerar Brasília como
um vasto acampamento (ibidem, p. 70).

143
I

Acampamento da Candangolândia em 1958

Além de informações de ordem quantitativa, o Censo, ao classificar


os acampamentos com seus alojamentos como grupos conviventes,
também chamou a atenção para aspectos qualitativos, já que nesta
categoria qualificou também situações passíveis de serem inseridas
na categoria de instituições totais. Sem dúvida, esta classificação
censitária remete imediatamente para a constatação de uma situação
residencial com particularidades próprias que lhe atribuem especifi-
cidades encontradas nas instituições totais. A caracterização dessas
instituições está feita por Goffman (1974, p. 16):
Toda instituição conquista parte do tempo e do interesse de seus participantes
e lhes dá algo de um mundo; em resumo, toda instituição tem tendências de
“fechamento”. Quando resenhamos as diferentes instituições de nossa socie­
dade ocidental, verificamos que algumas são muito mais “fechadas” do que
II outras. Seu “fechamento” ou seu caráter total é simbolizado pela barreira à
h
relação com o mundo externo e por proibições à saída que muitas vezes estão
incluídas no esquema físico - por exemplo, portas fechadas, paredes altas,
arame farpado, fossos, água, florestas ou pântanos. A tais estabelecimentos
M dou o nome de instituições totais (p. 16).

144

J
Capítulo 2 | O acampamento

Ao classificá-las, em geral, em cinco agrupamentos, Goffman men­


ciona “as instituições estabelecidas com a intenção de realizar de
modo mais adequado alguma tarefa de trabalho, e que se justificam
apenas através de tais fundamentos instrumentais: quartéis, navios,
escolas internas, campos de trabalho, colônias e grandes mansões
(do ponto de vista dos que vivem nas moradias de empregado)”
(p. 17). Para Goffman, as características centrais das instituições
tocais são:
(...) todos os aspectos da vida são realizados no mesmo local e sob uma única
autoridade; cada fase da atividade diária do participante é realizada na com­
panhia imediata de um grupo relativamente grande de outras pessoas, todas
elas tratadas da mesma forma e obrigadas fazer a mesma coisa em conjunto;
todas as atividades diárias são rigorosamente estabelecidas em horários, pois
uma atividade leva, em temp^ predeterminado, à seguinte, e toda a seqüência
de atividades é imposta de cima, por um sistema de regres formais explícitas
e um grupo de funcionários; as várias atividades obrigatórias são reunidas
■ um plano racional único, supostamente planejado para atender aos objetivos
oficiais da instituição (idem, p. 18).

Além disso, para ele, o “fato básico das instituições totais” é o “con­
trole de muitas necessidades humanas pela organização burocrática
de grupos completos dc pessoas”, o que necessariamente implica vi­
gilância, portanto, presença de indivíduos com funções de vigias, de
guardas. Certamente devido ao caráter das instituições que Goffman
estudou, algumas generalizações que estão implícitas em sua defini­
ção podem ser questionáveis em análises de casos concretos. No to­
cante ao acampamento de um grande projeto da construção civil há
que relativizar certos pontos. Primeiramente, nem todos os aspectos
da vida são realizadc ’ no mesmo local e sob uma única autoridade,
visto que a atividade produtiva dos trabalha lores é obviamente efe­
tuada fora do acampamento e algumas atividades de lazer também.
No entanto, devido ao vínculo orgânico mantido entre acampamen­
to e canteiro de obras e à grande ausência de tempc livre, o acampa­
mento pode ser considerado como uma extensão do canteiro (por se
ajustar às determinações deste), ou pode ainda ser considerado como
uma forma agigantada dos alojamentos existentes em obras indivi­
dualizadas e que aqui, sim, compartilham a mesma unidade espacial
da atividade produtiva. Deve-se notar também que a entrada e saída
145
0 capital da esperança
dos indivíduos, se bem controlada, não é formalmente impedida
como acontece no caso do internado.
Por outro lado, as famílias, ainda que em número bastante redu­
zido e isoladas de suas redes de parentesco mais extensas, estão
presentes e sabemos que Goffman as considera incompatíveis com
as instituições totais (op. cit., p. 22). Entretanto, a presença de fa­
mílias não incompatibiliza a caracterização da forma de moradia
acampamento como instituição total, uma vez que aí se encontram
em número reduzido, o que acaba gerando várias especificidades
para seu cotidiano nestes locais. Uma delas, e básica, refere-se a
restrições ao comportamento dos seus membros femininos, dada a
grande desproporção entre homens e mulheres nos acampamentos.
O depoimento que segue é um exemplo onde se combina o poder
do chefe do acampamento de dirimir conflitos pessoais dos mora­
dores, com a questão da relação entre gêneros no acampamento,
que era bastante controlada pelo temor de que o grande número
de trabalhadores sem família pudesse redundar em ataques sexuais
às filhas ou esposas dos controladores da produção. E claro que a
próxima fala deve ser entendida também em um contexto onde a
representação sobre as mulheres está bastante permeada por no­
ções de “honra”, “castidade” e “virgindade”:
Tinha confusão aqui diariamente. Carlão [chefe do acampamento] porque
era quente. Andava com uma camionete aí [...] quarquer coisa eles corria
na casa dele ali ... Tinha um sujeito que comeu uma moça perto daquele
armazém ali. Ele morava aqui. Aí o guarda com vergonha de falar aquilo
e programar... Um dia o guarda explicou um veio lá. O guarda chorando:
ô fia da puta [imita o guarda chorando], aqui perto de mim e tal e coisa.
A moça saiu aqui pra baixo chorando e o rapaz. Aí logo ele corre lá e chama
o Carlão. Carlão desceu com a camionete aqui pra baixo fedendo azeite. Aí
falou com o rapaz: como é seu sévergonha, você comeu, num comeu? Então
cê casa, viu, cê vai casar, aqui num é assim não, comeu cê tem que casar, uai.
Largar a moça à toa, num fica não. Cê vai casar ou num vai? - Não, eu caso.
Então tá certo. E ocê num foge não hem? Se fugir nós te busca. Carlão era o
quente (operário de manutenção de máquinas).

A similaridade de formas de habitação proletárias construídas por


capitalistas com as instituições totais foi alvo de considerações

146
4

Capítulo 2 | O acampamento

anteriores por parte de autores como Leite Lopes e Machado da Silva


(1979, p. 15-16). Estes autores estavam preocupados fundamental­
mente com o entendimento das relações fábrica/vila operária que
certamente mantêm semelhanças com as relações acampamento/
grande projeto da construção civil. Contudo, a temporariedade da
existência dos acampamentos, que se expressa inclusive no material
de construção neles utilizado, cria especificidades que lhes diferen­
ciam qualitativamente das vilas operárias. Uma comparação entre
estas formas de habitação proletária é feita por Leite Lopes:
Esses casos de alojamento pela própria empresa de mão-de-obra solteira,
sem família, lembram as características das chamadas instituições totais
(Goffman, 1971) ... uma aproximação dessas características com as barracas
e galpões da construção civil, das obras públicas, da construção de estradas,
etc., seria mais remota em virtude da breve permanência desse “proletariado
nômade” nesses trabalhos, sua mobilidade e mudança constante de patrões
atenuando a submissão temporária no controle da empresa sobre a totalidade
de sua vida cotidiana. Comparado com esse “proletariado nômade”, a situa­
ção do proletariado estável das fábricas e minas que habita com suas famílias
nas casas de propriedade do patrão se aproxima mais das características das
“instituições totais” pela submissão à empresa nas várias esferas do trabalho,
da moradia, do tempo livre e do lazer e pelo maior fechamento ao longo
do tempo. No entanto, a própria presença da família no caso desse proleta­
riado estável é incompatível com as características das “instituições totais”
(LEITE LOPES, 1979, p. 45).

Cabem aqui alguns comentários sobre esta última citação. Logo em


seguida, Leite Lopes reconhece que durante o período que o proleta­
riado nômade (noção que toma emprestada de Marx) está sedentário,
realizando um trabalho, o controle exercido pelo patrão seria maior
ainda do que aquele realizado na vila operária com um operariado
estável “o qual contaria com a existência da família a colocar limites
ao controle da empresa sobre a esfera doméstica do operário” (idem,
p. 46). De fato, em uma situação de grande projeto, que certamente é
temporária, os acampamentos estão muito mais próximos à caracte­
rização das instituições totais do que as vilas operárias. Isto é assim
dada a presença extremamente reduzida de famílias e a elas estarem
praticamente impedidas de realizar várias atividades típicas da vida
doméstica, tanto no que diz respeito ao lazer, quanto às estratégias
147
0 capital da esperança
econômicas que poderíam desempenhar como unidades de reprodu­
ção da força de trabalho.
A afirmação de que as características de instituições totais dos
acampamentos de obras da construção civil são mais atenuadas do
que as presentes nas vilas operárias pode, como notou Leite Lopes,
ser feita apenas considerando-se a duração no tempo de cada uma
destas formas de imobilização da força de trabalho. Mas é claro que
durante o período no qual um proletariado nômade executa uma
obra são visíveis nos acampamentos as dinâmicas das instituições
totais, operando durante um tempo considerável. Quando tratamos
especificamente de grandes obras, os períodos são mais longos do
que em geral se imagina, como, por exemplo, na construção de gran­
des hidrelétricas. Além disso, a experiência transitória dentro das
instituições totais pode ser diferenciada segundo o caso e segundo
os indivíduos, mas é característica de várias delas, como os manicô­
mios, hospitais e prisões.
No senso comum também são recorrente^ as analogias que compa­
ram os acampamentos com prisões ou campos de concentração (cf.
TRIBUNA DA IMPRENSA, Rio de Janeiro, 13 jun. 1958) ou que
indicam um tratamento desumano dispensado aos seus internados:
Todos os acampamentos que tinha aqui era cercado. Tinha guarda e portão.
O sujeito não entrava assim e liberdade, não. Pra entrar tinha guarda e por­
tão. O senhor era dono de um acampamento, a sua turma, os seus peão tava
tudo dentro do seu cercado. De vez em quando passava um peão pra olhar se
a cerca tava boa (servente).
- Quer dizer que o pessoal que morava no alojamento tinha uma vida
diferente?
- Diferente dos outro. Era uma vida isolada, uma vida lá... do preso, né. É um
preso, com condições só de trabalhar e receber o dinheiro e sem condições de
sair (carpinteiro).

Em síntese, os acampamentos são objeto de reflexão central neste


estudo porque: 1) têm existência obrigatória e em quantidade nu­
merosa em um grande projeto; 2) sua presença, ao concentrar os
trabalhadores em unidades separadas entre si por cercas de arame
farpado ou por grandes espaços, facilita o controle da população do
território; 3) são um local básico de realização das pequenas parcelas
148
Capítulo 2 | O acampamento

extra-atividade produtiva do cotidiano dos trabalhadores; 4) impli­


cam subordinação dos trabalhadores à mesma administração que
controla o uso de sua força de trabalho, de tal forma que as pequenas
parcelas do cotidiano extra-atividade produtiva se vêem penetradas
e dominadas pelos interesses da esfera da produção; 5) é visível em
suas configurações espaciais a influência da ausência relativa de fa­
mílias e mulheres; 6) implicam regras de comportamento e divisões
sociais do espaço nitidamente vinculadas às especificidades da pro­
dução de uma grande obra da construção civil, o que os aproxima da
caracterização de instituição total.
Vista a forma de moradia típica das necessidades de realização de
um grande projeto, passo agora a situar o trabalhador na sua ativi­
dade produtiva dentro da construção, por meio do entendimento de
como se dava a exploração da força de trabalho.

149
Capítulo 3

;; <?;/í?y • <:i • *-j

O trabalho
Capítulo 3 | O trabalho

Um grande projeto cria, quase repentinamente, uma grande oferta


de empregos em uma determinada região. Ao mesmo tempo, o volu­
me de trabalho que vai ser realizado requer uma organização da pro­
dução que permita o cumprimento do prazo fixado para a entrega da
obra. É necessário que o trabalho seja feito constante e intensamente.
Em face da enorme necessidade por trabalho, a utilização de formas
comuns de exploração dos trabalhadores da construção civil ocorre
de maneira exacerbada. A frequência e recorrência destas formas são
o núcleo definidor da especificidade da construção de Brasília, em
termos da exploração da força de trabalho. São formas vinculadas
a um aumento da exploração via extensão ou via intensificação da
jornada (viradas e tarefas, por exemplo) que permitiram instaurar o
ritmo de trabalho, possibilitando a inauguração da capital federal
em 21 de abril de 1960. Este ritmo adquire uma excepcionalidade
tamanha que passa a ser conhecido com o rótulo do produto final: o
célebre ritmo Brasília.
O recurso às formas de exploração mencionadas implica o pagamen­
to de horas que geralmente têm preço mais alto do que as da jornada
de trabalho legal. Em Brasília era grande a oferta destas horas mais
caras, o que evidentemente atraía os trabalhadores. Em um primeiro
momento, poder-se-ia pensar que os custos imediatos dos capita­
listas individuais, com os salários dos trabalhadores, aumentavam.
Mas estes custos podem ser em certa medida relativizados porque
as empreiteiras, nos seus contratos com a Companhia Urbanizadora
da Nova Capital (Novacap), recebiam uma comissão de cerca de
12% sobre todas as despesas relativas à construção (DIÁRIO DE
BRASÍLIA, 1959, p. 274).
A possibilidade de aumentar salário com um grande número de horas
extras aparece claramente como o grande atrativo econômico para
a massa dos trabalhadores que se dirigiu a Brasília, se consideramos
a variação, que então existia em âmbito nacional, do salário míni­
mo. Nesta época, o maior salário mínimo, fixado em 14 de julho de
1956, era o da capital federal, o Rio de Janeiro, no valor de Cr$ 3,8
mil. O salário da primeira sub-região de Goiás, Cr$ 2,4 mil, o míni­
mo mais alto do estado, era também maior do que todos os salários
mínimos vigentes no Norte e Nordeste (exceto a primeira sub-região
de Pernambuco com Cr$ 2,7 mil), sendo, no entanto, mais baixo do
que o de Minas Gerais, de Cr$ 2,85 mil até Cr$ 3,3 mil. Os salários
153
r
I

il

Canteiro da construção do Congresso Nacional (julho de 1958)

mínimos do Estado de São Paulo variavam de Cr$ 3,2 mil até Cr$
3,7 mil (A VOZ OPERÁRIA, ns 497, 13 dez. 1958).
Assim, o salário mínimo da área em que se realizava a construção
não representava um forte atrativo para trabalhadores de várias
partes do país. Desta forma, o atrativo econômico do território da
construção foi, para os trabalhadores, a possibilidade imediata de
agregar aos seus rendimentos um grande número de horas a serem
pagas, o que tornava as quantias recebidas no computo final salá­
rios incomuns para a construção civil. Diz um juiz do trabalho com
uma grande experiência na região, antes mesmo da construção de
Brasília:
O ritmo imposto para a construção da cidade criou aqui um sistema de tra­
i
balho inusitado no resto do país. E até desumano. Porque todo trabalho da
maioria dos operários da construção civil era feito na base da tarefa. Eles
ganhavam altíssimos salários. Houve operário pedreiro que ganhava o meu
salário de juiz do trabalho.

154

i
Capítulo 3 | 0 trabalho

O volume do trabalho

“Aqui foi tocado dia e noite, ninguém dormia. Ninguém, ninguém aqui” (ope­
rário de manutenção de máquinas).

Existe certo consenso sobre o volume do trabalho que significou a


construção de Brasília. Não é um acaso que a construção da cidade
tenha sido designada como a obra do século. Mas alcançar o objeti­
vo predefinido da inauguração tornou necessário um esforço cons­
tante e contínuo. A Tribuna, jornal editado no Núcleo Bandeirante,
registrava o desenrolar da obra da seguinte maneira:

Num trabalho ininterrupto de 24 horas por dia prosseguem as obras da nova


capital do país, que se intensificam à medida que nos aproximamos do dia 3
de maio, quando o presidente Juscelino Kubitschek deseja inaugurar nada me­
nos de 23 empreendimentos de Brasília. Essa a informação que nos oferecem
elementos ... observando ser realmente impressionante a azáfama que se nota
hoje no planalto goiano, transformação, na parte relativa à nova metrópole,
numa verdadeira colméia humana (20 abr. 1958).

É clara a prevalência de representações que classificam o período da


construção da cidade como quase exclusivamente dedicado ao traba­
lho. A recorrência de afirmações como “aqui não parava não”, “aqui
era trabalho dia e noite”, “o trabalho era direto”, “aqui não podia
parar não”, mais a ausência relativa de tempo livre e da vida do­
méstica, indicam um universo cotidiano totalmente dominado pelo
trabalho. É interessante notar, nas formulações operárias, a alusão
freqüente aos ruídos inerentes à atividade produtiva para demonstrar
a continuidade ininterrupta do trabalhb:

Mas, sôr, é a coisa mais bonita quem viu Brasília começar igual nós vimo,
era um trem bonito demais. O corre-corre. Olha, não dormia, num tinha., cê
podia acordar, cê deitava e dormia, acordava assim, era assim ó: [reproduz ru­
mor de atividade intensa], aquele baruio. Direto. Porque num parava não. Era
o caminhão corria a noite todinha e peão na rua de toda maneira, um saindo
pro serviço, o outro chegando, o outro chegando num sei daonde. O outro
saindo. Mas era um corre-corre danado e o pessoal trabaiando. Trabaiava

155
II 0 capital da esperança

noite e dia. Num tinha essa hora que você abria o ouvido assim você num
escutava o martelo bater, o caminhão correr, o trator zoar (carpinteiro).

Nessa construção de bloco aí era direto. Aí num tinha dia e noite, era direto.
A gente deitava tava escutando martelo a noite inteirinha. Martelo, serro­
te, escutando, ouvindo o serrote serrar a noite inteira, o martelo e tudo [ri]
(servente).
Qualquer hora da noite que você chegava em Brasília a impressão que você
tinha é que era de dia, porque o barulho de martelo trabalhando - pá, pá,
pá. Era a mesma coisa tá de dia ou de noite que tinha a turma, as turma que
virava. Tinha as turma da noite e além disso tinha as turma que tava fazendo
virada. Então era, era um suor até divirtido, pra falar você a verdade, era um
troço que eu nunca vi na minha vida nem sei se vou ver, um ritmo de trabalho
daquele tipo. Não é isso? Era até bonito (pedreiro).

A continuidade e intensidade do trabalho são percebidas por um pris­


ma que dissolve barreiras naturais para o desempenho de atividades
produtivas. Subjacente às formulações, existe uma igualdade feita
entre o dia e a noite do tipo: aqui não tinha nem dia nem noite, era
tudo a mesma coisa. Isto é, uma vez que o período imediatamente
classificável como destinado ao repouso - a noite - era incorporado à
atividade produtiva com a mesma intensidade do período socialmen­
te tido como típico para o trabalho - o dia - tanto fazia, do ponto de
vista daqueles que estavam engajados no processo produtivo, ser um
ou outro. Noite e dia tornam-se a mesma coisa, homogeneizados que
foram pela extensão e generalização da atividade produtiva para o
período noturno. Isto implicará especificidades relativas ao trabalho
verdadeiramente fulltime que se desempenhava. A mais visível delas
é o horário das refeições que podiam ser feitas tanto durante o dia
quanto durante a noite, dependendo em que turno os trabalhadores
estivessem engajados ou de estarem em uma virada ou em tarefas.
A esfera da produção redefine, assim, tanto o tempo social quanto o
individual. Muitos trabalhadores passam períodos significativos de
tempo a viver à noite e dormir de dia, com implicações individuais
distintas. Não parece, portanto, aleatório o fato de vários exemplos
relativos ao ritmo do trabalho referirem-se ao período noturno.
Um operário, que trabalhava nos interstícios das jornadas dos
seus colegas, por sua atividade ser de manutenção de máquinas,

156
F

Superquadras Sul 108 e 208, com a Igrejinha Nossa Senhora de Fátima (1958-1960)

lançava mão de estimulantes para dar conta do seu ritmo de trabalho.


A continuidade deste procedimento chegou a um ponto em que pas­
sou a ter sérios problemas nervosos quando caía repentinamente no
solo, sem ação. Foi aposentado por invalidez. Este trabalhador tam­
bém fala do uso de comprimidos por outros operários para resistir
à jornada:

O povo aqui num vinha do trabaio. O povo aqui trabaiava um dia, uma noite,
uma noite ia até... Era controlado, parava dez horas da noite. Mas quem parava
dez horas da noite era os chefe. Operário mesmo num parava. Principalmente
picareteiro. Picareteiro e pazeiro às vez já tinha trabaiado aquelas hora toda
aí vin ha um tal, os fiscal e falava: não, vamo trabaiá um pouco, vamo trabaiá
mais um pouco e ganhar tantas hora. Aí os coitado metia o peito a trabaiá,
continuando. Tomando café e aqueles comprimido perventivo, né, pra não
dormir.

157
0 capital da esperança
A contrapartida, nos discursos dos operários, da totalização re­
alizada pela atividade produtiva era a abundância de dinheiro.
Quando se referiam ao montante de dinheiro que circulava no ter­
ritório, em geral, afirmavam enfaticamente que dinheiro era “o que
não faltava e corria demais”:

Quando chegou aqui em Brasília, dinheiro era panhado com gancho. Num
é? Então nós criado lá em Goiânia que pro mode de rumar três conto num
arrumava, né, chegou aqui e viu aquela quantidade de gente, de dinheiro cor­
rendo. E tinha muita facilidade de dinheiro, era aquele corre-corre medonho.
Mas rapaz! Corria dinheiro num era brincadeira não. Ocê vê, mulhé tava bo­
tando dinheiro no banco. Mulhé [sua esposa] que nunca tinha visto dinheiro
(carpinteiro).

Rapaz, dinheiro aqui eu vou te falar procê: corria, dinheiro [enfático]. Era um
ouro. Ó, eu vou te falar pra você: eu nunca vi um movimento na minha vida
como eu vi aqui nesse, nesse Bandeirante (carpinteiro).

A percepção, registrada na memória, que mostra o período como


de fartura de dinheiro, leva a algumas variantes. Uma, a mais
imediata, remete à situação de migrantes dos trabalhadores. Para
uma boa parte dos operários, qualificados ou não, o salário pago
já representava uma quantia maior do que aquelas recebidas em
suas regiões de origem. Outra variante sugere que a idéia de abun­
dância de dinheiro vincula-se ao grande número de horas extras
executadas cotidianamente. O acréscimo de várias horas à jornada
de trabalho, indo mais além do legalmente permitido, assim como
a existência de outros mecanismos de exploração como a tarefa,
mais a presença naturalizada do trabalho noturno, imbricam-se
com o salário relativamente maior (comparativamente a algumas
regiões) que se pagava no território e com a percepção, por parte
do operariado, do grande volume da obra sendo realizada, o que
permitia trabalhar um maior número de horas para agregá-las ao
salário. Estes são os formadores do caudal que permitirá entender
as formas de exploração dos trabalhadores.

158
Capítulo 3 | 0 trabalho

Formas de exploração da força de trabalho


A construção civil é, tradicionalmente, um dos setores onde a explo­
ração do operário se faz de maneira flagrante (BICALHO, 1978). No
que diz respeito a uma grande obra, que implica a maioria da popu­
lação dependente direta ou indiretamente da mesma atividade pro­
dutiva, mais uma vez as características inerentes a este ramo da pro­
dução chegam ao paroxismo. Assim, as formas correntes de explora­
ção da força de trabalho, no caso em estudo, adquiriram dimensões
superlativas. O aumento desta exploração se dava não apenas pela
extensão da atividade produtiva fora dos limites das jornadas legais,
mas também pela extensão a dias de não-trabalho, como domingos e
feriados. E uma situação clara de ausência de tempo livre e inexistên­
cia do período de férias. O tempo livre desaparece tanto internamen­
te ao dia do trabalhador, como à sua semana e ao seu ano. Durante
o dia, os períodos de tempo que sobram são apenas intervalos entre
as partes da jornada de trabalho, dedicadas à reprodução do tra­
balhador (basicamente alimentação e repouso). Tomando a semana
como unidade de tempo, para muitos apenas a tarde de domingo
era manifestadamente “livre”. Para outros, o trabalho neste dia era
uma forma de receber mais salário devido ao maior preço da hora.
Tomando o ano como unidade de tempo deparamo-nos com a ausên­
cia das férias. A transformação do tempo livre em tempo de trabalho
aumenta a exploração do trabalhador tanto quanto a subordinação
da sua vida cotidiana à esfera da produção.

Há que situar esta subordinação do trabalhador em um contexto


onde se combinam a necessidade das construtoras por trabalho e a
busca dos operários por uma maior quantidade de horas trabalhadas
para aumentar seus salários. Daqui surge uma particularidade sem­
pre presente na representação que se faz da época: há muito trabalho
e se pode ganhar muito dinheiro. Porém, para se ganhar mais há que
se trabalhar mais. Esta equação explica por que, naquele período,
os operários assumem o ritmo de trabalho de tal maneira que o que
seria um constrangimento imposto pelas necessidades da construção
da obra - o grande número de horas trabalhadas - aparece freqüen-
temente como uma opção, ou um “desejo” do trabalhador. Ao mes­
mo tempo, é fácil supor que os trabalhadores individuais que não se
159
0 capital da esperança
submetessem ao ritmo imposto defrontar-se-iam com as necessida­
des objetivas da atividade produtiva:

A vida era chegar e dormir. Chegava, vinha o carro deixar pro armoço, ar-
moçava, iam s’embora. Quando era de tarde vinham, jantavam, tomava um
banho, jantava ia dormir. É. Não tinha esse negócio de boa vida não. Aqui
num tinha dia de folga não. Nem no domingo aqui num parava não. Aqui
parava no domingo quem queria. Mas quem vinha a trabalho num parava
porque domingo era dois dias. E feriado era dois dias. Quem ia parar? Quem
veio ganhar dinheiro num tinha isso não (servente).

Então tinha que trabaiá das seis do dia, o dia, a noite, e trabaiava no outro dia
talvez, e até dez horas da outra noite. E aí eu vinha dormir. Dormia das dez
até seis da manhã e pegava novamente. Domingo eu parava, dia de domingo
aqui, duas horas da tarde. Feriado ninguém tinha. Feriado isso aí num tinha
domingo, num tinha feriado, era direto. Isso num tinha nada disso. (...) Mas
naquele tempo da construção de Brasília ninguém tirava férias não. Ninguém
dava férias (...) Vendia as férias (operário de manutenção de máquinas).

Os mecanismos de exploração internos à construção civil obede­


cem, claro, à lógica da extração de sobretrabalho no capitalismo.
Há que entendê-los para, em seguida, apresentar como operavam
concretamente nas jornadas de trabalho realizadas no território da
construção.
As formas que estão vinculadas ao acréscimo de horas à jornada de
oito horas são, basicamente, na construção civil, as horas extras e a
virada. Em seu trabalho, de 1978, Bicalho afirma que:
Para os trabalhadores da construção civil a jornada de dez horas diárias de
trabalho é considerada “normal”. Juntamente com o contrato usual de oito
horas, assinam também a aceitação da prorrogação de duas horas de trabalho
diárias. Entretanto o ritmo intensivo do processo de trabalho exige um pro­
longamento ainda maior desta jornada (1978, p. 109).

A mesma autora fala ainda da existência do serão, mecanismo pas­


sível de ser classificado como mais uma forma de exploração por
acréscimo de horas, uma vez que implica prolongamento da jornada.
No entanto, não foi possível saber se, durante o período que estudei,
160
Capítulo 3 | 0 trabalho

o serão correspondia a um prolongamento além das duas primeiras


horas extras permitidas pela legislação ou se, ainda, era uma forma
intermediária não-legal entre as horas extras e a virada. Por outro
lado, encontrei identidades feitas pelos trabalhadores entre o serão e
as horas extras e entre o serão e a virada. Desta forma, visto ser, no
âmbito deste trabalho, uma categoria dificilmente delimitável, mas
que está sujeita à determinação comum do fato de ser uma extensão
da jornada de trabalho, decidi ater-me ao quadro de entendimento
das formas horas extras e viradas.
Estes mecanismos têm como característica comum o fato de serem
um prolongamento maior ou menor da jornada do trabalhador.
Possuem uma diferença formal na medida em que, sobre a jorna­
da legal de trabalho, a legislação permite, num primeiro momento,
acréscimo de duas horas, remuneradas com um aumento de pelo me­
nos 20%. É possível, assim, mediante acordo escrito entre emprega­
dor e empregado, ou contrato coletivo de trabalho, a existência legal
de uma jornada de dez horas diárias (veja Consolidação das Leis do
Trabalho, artigo 59). Excepcionalmente, a legislação trabalhista, em
vigor desde 1943, permite um acréscimo de mais duas horas sobre a
jornada de dez horas, desde quando se configure “necessidade impe­
riosa”, “motivo de força maior”, a necessidade de “atender à reali­
zação ou conclusão de serviços inadiáveis ou cuja inexecução possa
acarretar prejuízo manifesto”. Semelhante ritmo de trabalho deve
ser comunicado “dentro de dez dias à autoridade competente em ma­
téria de trabalho, ou antes desse prazo, justificado no momento da
fiscalização, sem prejuízo dessa comunicação” (veja CLT, artigo 61).
Neste caso, a remuneração da hora excedente será superior àquela
da jornada de oito horas. Esta prorrogação é unilateral, podendo,
assim, ser imposta pelo empregador. Em suma, há suficiente espa­
ço no texto da Consolidação das Leis do Trabalho para permitir o
aumento em 25% da jornada legal, até dez horas, já que a extensão
da jornada normal em no máximo duas horas extras é reconhecida
como legal. A partir daí, salvo as exceções mencionadas, qualquer
extensão é ilegal. E bom frisar que não é legal qualquer jornada que
ultrapasse, por motivos extraordinários ou não, o limite excepcio­
nal de 12 horas. A jornada de 12 horas tampouco pode se estender
indefinidamente.

161
0 capital da esperança

Não pretendo aprofundar-me em exegeses da legislação trabalhista.


O que quero deixar claro é que até dez horas diárias, pode-se confi­
gurar a legalidade do número de horas da jornada de trabalho, sendo
este um fator importante que diferencia o uso limitado das horas
extras do uso da virada que, como se verá, ocorre totalmente fora de
qualquer legitimidade jurídica.
Na construção de Brasília, o grande número de horas extras foi mar­
cante e fez parte da lógica de exploração típica do grande proje­
to, na medida em que foi um dos artifícios que permitiu instalar o
ritmo intenso de trabalho requerido para a execução, a tempo, da
obra. A normalização de jornadas extremamente extensas foi tama­
nha que até mesmo a mais alta autoridade do país, o Presidente da
República, chegou a afirmar: “O ano de 1957 foi de intensa atividade
no Planalto. O regime de trabalho ah era contínuo. As turmas se su­
cediam, cada uma trabalhando cerca de 16 horas” (KUBITSCHEK,
1975, p. 80, grifos meus). O respeito à legislação trabalhista seria
classificado como expediente burocrático quando, em discurso no
dia 11 de outubro de 1958, JK diz que em Brasília “não há horário
burocrático para o serviço, trabalha-se dia e noite” (DIÁRIO DE
BRASÍLIA, 1958, p. 115).
Já para o trabalhador, a possibilidade de acrescentar ao seu salário
os rendimentos advindos das horas extras torna-se o caminho que o
leva a submeter-se e mesmo a desejar trabalhar sempre além da jor­
nada legal. Não é por outra razão que, eufemisticamente, uma repor­
tagem encomendada pelo governo atribui aos operários a requisição
da extensão da jornada além das oito horas:
É interessante o que se observa em Brasília com relação ao número de horas de tra­
balho. Tratando-se de um centro de atividade de natureza absorvente, o trabalha­
dor, em começo, recusava oferta de serviço para o horário de 8 horas. Alegavam
que tinham ido para Brasília com dois objetivos: construir a capital e ganhar di­
nheiro. Assim, se lhes dessem trabalho apenas no regime normal de 8 horas, se­
riam obrigados à ociosidade sem ter em que consumir o tempo. Daí, a tentação
de passeios à Cidade Livre, com o seu cortejo de inconvenientes conhecidos. Por
essa forma, nasceu do próprio trabalhador a idéia de produzir por maior número
de horas, fato que hoje em Brasília é tido como base normal de trabalho. Depois
de 14 horas de produção intensa o operário não tem muita vontade de passear
(A verdade sobre Brasília, DIÁRIO DE BRASÍLIA, 1958, p. 214).

162
Capítulo 3 | O trabalho

O esquema básico da produção na construção civil se realiza median­


te a divisão do trabalho por turmas que são unidades compostas,
geralmente, por um número de trabalhadores não especializados, os
serventes, vinculados a um número menor de trabalhadores especia­
lizados, os profissionais, e a um encarregado. As diferentes turmas,
sobretudo quando se trata de uma grande obra, podem estar, em
um momento da produção, realizando jornadas de trabalho diferen­
tes. Quer dizer, ao se investigar um período da atividade produtiva
pode-se defrontar com várias turmas em momentos distintos das
suas jornadas de trabalho, ou perfazendo-as com números de horas
distintas. Podem ser as turmas da noite trabalhando horas extras du­
rante o dia, ou. vice-versa. Podem ainda ser turmas que se encontram
realizando viradas ou tarefas. De qualquer maneira, encontra-se um
mesmo fato em comum, sobretudo no tocante aos mecanismos de
exploração que implicam extensão da jornada, que é a normalização
das horas extras. As implicações deste fato são bem expostas por
José Sérgio Leite Lopes ao analisar a situação dos trabalhadores de
usinas de açúcar:

[...] em um respeito deferente e formal à jornada de trabalho legal, as quatro


horas além das oito são consideradas horas “extras” - ressalvando-se, no en­
tanto, que a jornada de trabalho na fabricação é tal que provoca uma inversão
entre o “extraordinário” e a “normalidade” -, pois que a jornada de trabalho
“extraordinária” realizada pelo conjunto de mudas seria equivalente à jorna­
da “normal” de oito horas de mais uma turma de mudas (isto é, o conjunto
das “horas extras” trabalhadas pelos dois turnos de operários da fabricação
daria lugar potencialmente a mais um turno) (LEITE LOPES, 1976, p. 74).

Vemos, então, que cada duas turmas, ou cada dois trabalhadores


individuais, ao acrescentarem à sua jornada mais quatro horas estão
suprindo, com isso, o trabalho que seria realizado por uma outra
turma ou por mais um operário, perfazendo uma jornada legal de 8
horas. Assim as firmas economizam a contratação de outros operá­
rios pela exploração maior dos já empregados. Por outro lado, para
o trabalhador, como se sabe, as horas extras passam a ser parte ne­
cessária da sua jornada de trabalho, de tal forma que não lhe parece
interessante ou possível dispensá-las.
Capítulo 3 | 0 trabalho

Mas o que é a virada na construção civil? É um mecanismo ile­


gal de exploração, realizado por meio da extensão da jornada de
trabalho e passível de ser considerado a forma aguda deste tipo
de exploração. Normalmente implica trabalho durante 24 ho­
ras ou mais. Entrecortadas apenas por períodos dedicados à
alimentação, freqüentemente realizada na própria obra. A sua desig­
nação já aponta para a extensão da jornada noite adentro, uma vez
que “se vira a noite”. Segundo Nair Bicalho, lança-se mão da vira­
da com maior freqüência em determinados momentos da produção
ligados ao encerramento de certas etapas da obra, principalmente em
fases de concretagem. A utilização deste recurso vincula-se ainda à
necessidade de apressar a atividade produtiva para cumprir os
prazos de entrega da obra. Deste modo, os operários são obrigados
a participar da virada que, na pesquisa daquela autora, é avaliada
negativamente, por seus efeitos nocivos sobre a saúde já que causa
a exaustão física aumentando o risco de ocorrência de acidentes do
trabalho (BICALHO, 1978, p. 117-120).

Na construção de Brasília, segundo depoimentos de vários ope­


rários, aconteciam freqüentemente três viradas por semana.
A manutenção deste ritmo de trabalho se completa com várias
horas extras trabalhadas nos outros dias em que não se executavam
viradas e com a intensificação da exploração da força de trabalho.
Tal ritmo leva a uma dilapidação da força de trabalho dos operá­
rios que passam a estar cada vez mais sujeitos a acidentes em uma
obra que não primou pela segurança nos canteiros. Encontrei dados
relativos ao crescimento absoluto do número de acidentados
atendidos pelo IAPI, em matéria visivelmente oficiosa na edição
conjunta, de 21 de abril de 1960, dos jornais Correio Braziliense,
Estado de Minas, Folha de Goiaz e O Jornal, comemorativa da
inauguração de Brasília. Estes dados indicavam o atendimento de
342 acidentados de agosto a dezembro de 1957, 1.974 acidentados
em 1958, 10.927 em 1959 e 1.028 nos dois primeiros meses de
1960. Apesar de, ao que tudo indica, 1959 ter sido realmente o ano
do pique da obra, o enorme salto entre 1958 e 1959 no número de
acidentados parece absurdo, uma vez que indicaria uma proporção
de quase um acidente para cada grupo de seis pessoas da popu­
lação total. Não me detive em tentar correlacionar o aumento de
165
A falta de segurança era visível
Capítulo 3 | O trabalho

Mas o que é a virada na construção civil? E um mecanismo ile­


gal de exploração, realizado por meio da extensão da jornada de
trabalho e passível de ser considerado a forma aguda deste tipo
de exploração. Normalmente implica trabalho durante 24 ho­
ras ou mais. Entrecortadas apenas por períodos dedicados à
alimentação, freqüentemente realizada na própria obra. A sua desig­
nação já aponta para a extensão da jornada noite adentro, uma vez
que “se vira a noite”. Segundo Nair Bicalho, lança-se mão da vira­
da com maior freqüência em determinados momentos da produção
ligados ao encerramento de certas etapas da obra, principalmente em
fases de concretagem. A utilização deste recurso vincula-se ainda à
necessidade de apressar a atividade produtiva para cumprir os
prazos de entrega da obra. Deste modo, os operários são obrigados
a participar da virada que, na pesquisa daquela autora, é avaliada
negativamente, por seus efeitos nocivos sobre a saúde já que causa
a exaustão física aumentando o risco de ocorrência de acidentes do
trabalho (BICALHO, 1978, p. 117-120).

Na construção de Brasília, segundo depoimentos de vários ope­


rários, aconteciam freqüentemente três viradas por semana.
A manutenção deste ritmo de trabalho se completa com várias
horas extras trabalhadas nos outros dias em que não se executavam
viradas e com a intensificação da exploração da força de trabalho.
Tal ritmo leva a uma dilapidação da força de trabalho dos operá­
rios que passam a estar cada vez mais sujeitos a acidentes em uma
obra que não primou pela segurança nos canteiros. Encontrei dados
relativos ao crescimento absoluto do número de acidentados
atendidos pelo IAPI, em matéria visivelmente oficiosa na edição
conjunta, de 21 de abril de 1960, dqs jornais Correio Braziliense,
Estado de Minas, Folha de Goiaz e O Jornal, comemorativa da
inauguração de Brasília. Estes dados indicavam o atendimento de
342 acidentados de agosto a dezembro de 1957, 1.974 acidentados
em 1958, 10.927 em 1959 e 1.028 nos dois primeiros meses de
1960. Apesar de, ao que tudo indica, 1959 ter sido realmente o ano
do pique da obra, o enorme salto entre 1958 e 1959 no número de
acidentados parece absurdo, uma vez que indicaria uma proporção
de quase um acidente para cada grupo de seis pessoas da popu­
lação total. Não me detive em tentar correlacionar o aumento de
165
Construção do Congresso Nacional (1958)

atendimento de acidentados com o aumento da população do


território da construção. Eis como se recorda desta questão um
carpinteiro:

Acidente sempre constantemente tava tendo. Sempre foi fatal. Naquela época
o trabalho era muito perigoso. Acidente de trabalho o senhor sabe que até
hoje é muito difícil de evitar. Principalmente naquela época que todo mundo
trabalhava apressado, na correria, então acontecia muito acidente. Teve vários
acidentes de morte. A gente sabia que existia muito acidente, mas a respeito de
morte a gente ouvia falar muito, mas num dava tempo de saber se era verdade
mesmo. Tinha tanto acidente assim pela correria, por muita pressa e era muita
gente junta. E ainda tinha muitos coitado que nem sabia o que tava fazendo.
Tava chegando do norte num sabia e aí vinha aquele problema de acidente.
O sujeito era inexperiente e mais com a correria, a maneira de fazer a
capital.

A falta de segurança tornou-se flagrante. Sobretudo na construção


do anexo do Congresso Nacional que era o prédio mais alto (vinte e
oito andares, sendo por isto conhecido entre os trabalhadores como
o vinte e oito). Conforme vários operários entrevistados, neste pré­
dio morreu um grande número de trabalhadores devido, em larga
166
Capítulo 3 | O trabalho

medida, à inexperiência da maioria deles com trabalho em grandes


alturas e à falta de segurança adequada. Segundo alguns relatos, os
corpos quando caíam do “28” eram imediatamente cobertos com lo­
nas e retirados apressadamente do local para não criar um ambiente
de comoção entre os operários:

Do jeito que eles construíram aquele 28 ali, principalmente a estrutura, foi um


troço criminoso. Porque ali teria que fazer o abajur.

- Que é isso?
- Abajur é uma cerca que você faz por fora, faz uma cerca pra poder não cair
nada, né. Pra cair num tablado, né isso? E ali não tinha nada. Então era sol-
tinho. Inclusive o teste que fazia ali era o sujeito andar em cima de uma viga
de 15 centimetrozinho, andar nela com uns dez metros de altura. O sujeito
passasse nela, passava no teste. Podia ser ele analfabeto. Aí ele ia trabalhar na
montagem. Pagavam três vezes mais do que um pedreiro ganhava. Mas tam­
bém o sujeito tava correndo o risco, qualquer hora... O caboclo ali, por exem­
plo arribitando uns prego, uns parafuso, uns arribite grosso, com a marreta,
ele batendo lá em cima. Desequilibrou pronto. Caía lá embaixo. Já jogava no
caminhão, levava lá pro necrotério lá (pedreiro).
-Eu era fazedor de caixão na Novacap. Tinha dia que morria 20, 30. Às veze
eu tava dormindo e chegava uma camionete: vambora pra carpintaria. E o
pau quebrava lá. Era eu que mexia com a máquina, então morria lá uns cara
na construção e então me chamavam pra fazer caixão. Então eu ia. Não cus­
tava. Era quase todo dia que eu fazia caixão. Eu já fazia e empilhava pra não
me chatearem. Ali no 28, despencou um elevador que foi nove de uma vez.
E naquela época o cemitério era em Luziânia (carpinteiro).
- Eu tenho um primo que até hoje tá aleijado que caiu do 28, com seis. Ele
conseguiu escapar e os outros seis morreram. Ele ficou não sei quantos dias
em coma. E a mulher dele lá no Nordeste ésperando ele mandar dinheiro e
morrendo de fome. A muié do engenheiro, muito boa, mandou um enxoval
completo pra ela. Ele aposentou. Foi se tratar no Rio. E quando voltou pra cá
todo aleijado foi aposentado (esposa de comerciante).

A extensão cotidiana das jornadas de trabalho por meio de horas


extras e viradas, a ausência de segurança no trabalho, mais as con­
dições próprias à produção da construção civil que expõem o tra­
balhador a sol e chuva, a calor e frio, tudo isto leva a um ponto

167
0 capital da esperança

em que o operário, para não se encontrar desempregado, ainda que


temporariamente, força-se a “agüentar” o ritmo e as condições de
| trabalho e, em conseqüência, se “arrebenta”. A utilização destes dois
termos, presentes em várias entrevistas, indica que em alguma me­
dida os operários tinham consciência de que estavam sujeitos a um
ritmo imposto pelas empresas que, em última instância, dilapidava
i seus corpos. A primeira formulação abaixo, feita por um operário ao
rememorar sua experiência de encarregado de turma, mostra clara­
mente este entendimento:

Esses home vieram morto de lá, sem condições. Já deram tudo que tinha que
dar lá no Norte, chega aqui acaba de morrer. Um cara desse chega, eu es-
trompo ele aqui ele morre, aí a mulher dele fica esperando que o meu marido
mande dinheiro lá. Cadê? Manda! Ele já morreu. Eu matei ele!

Na obra do Palácio da Alvorada eu trabalhei assim: trabalhava 24 horas e


descansava 24 horas. Com uns meses eu esgotei e fui pra São Paulo. Num
dava pra dormir. A gente ia querer dormir era aquele calor, poeira, baru­
lho, ninguém conseguia. Aí eu esgotei, não aguentei mesmo e fui m’embora.
Esse ritmo de trabalho foi mais ou menos seis meses na terminação da laje
(servente).

Construção do Palácio da Alvorada


Construção da Estação Rodoviária

Dos rapaz que guentou aqui, igual eu, Virgulino e o tal Caduca, num saiu um
prestando. O Caduca é doente. E atrapaiado. Tá no INPS. O tal Virgulino, um
pretinho, que é dos três que guentou o serviço na mão mesmo segura, aqui, adoe­
ceu, coitadinho, e foi pro Piauí. Até hoje eu lembro disso o coração dói. Porque é
de se doer. Seu companheiro firme ali e ser desvalido. [...] Mas sofria. Sofria que
todo mundo saiu doente. Carpinteiro ali dentro daquele túnel (da Rodoviária), ali
foi chuva, rapaz, que tava chovendo foi a noite toda, e caindo água, o sujeito com
aquelas capa de lona ali batendo pranchão, pra fazer aquele túnel da rodoviária
(operário de manutenção de máquinas).
Mas naquela época o sujeito se rebentava. Tinha pouca gente e o contrato cer­
to pra nova capital tinha que ser real, não podia fugir da carta. Tinha que ser,
tinha que inaugurar de qualquer maneira, tinha que inaugurar de qualquer
maneira, tinha que ser inaugurado Brasília. E então todo mundo trabalhava
(capataz de arrebite).

Vê-se como as formas de exploração por meio da extensão da jorna­


da de trabalho implicam um desgaste físico passível de sérias conse-
qüências imediatas ou futuras. Entretanto, alguns operários podiam
desenvolver estratégias individuais para não se submeterem total­
mente à exploração imposta:

Tinha gente que dormia com a tábua nas costa pra que não fosse pego no
flagra, encostava numa coluna... você olhava... Eu cansei da minha turma,

169
0 capital da esperança

passar por ele, velhinho, tinha um velhinho da Paraíba que trabalhava co­
migo, de Monteiro - não tem um cidade de Monteiro? - 64 anos de idade,
dormindo com uma tábua nas costa. Eu chorei! De desgosto (carpinteiro).

- Aí encontrei com esse carpinteiro e falei: o sr. trabalha? - Na Redonda. - De


quê? - Carpinteiro, num tá vendo eu com o martelo aqui e o prego? Falei: e
o sr. tá por aqui? Que o serviço era lá na rodoviária, tava pro lado do teatro
(Teatro Nacional). Aí ele pegou o martelo assim (levanta o braço como se
fosse golpear um prego) falou assim: cê tá vendo esse prego? Tá vendo esse
martelo? Você acha que eu vou judiar com esse coitadinho aqui (o prego), eu
vou judiar com ele o quê rapaz; essa firma aí tá roubando dos operário mais
do que pode, que o dr. Juscelino e todas firma rouba. Agora quem num souber
roubar, for andar honesto aqui, sai tomando na cabeça [...] Ele pegou no cabo
do martelo e falou assim: esse coitadinho (prego) ó, esse coitadinho sofrer
uma marretada aqui...

- Mas os servente também conseguiam enrolar?


- Enrolava, rapaz. Tinha nego que fazia choça de tábua assim, lá pro lado
do teatro ali era uma montoeira de, de taba ali, eles vinha defecar em cima
daquelas tabas, aquelas coisa e eles dormia ali mesmo. Para num vir pra casa
drumir porque tava ganhando. O cartão tava marcando, né? (operário de
manutenção de máquinas).

Os modos de exploração por meio da extensão da jornada de traba­


lho podem ocorrer juntamente com as formas que exploram a inten­
sificação da utilização da força de trabalho, como a chamada tare­
fa. Assim, as últimas podem se confundir com os primeiros quando
impliquem jornadas extensas, além da jornada legal. Igualmente,
ambas as formas podem associar-se ao longo do contínuo do pro­
cesso produtivo. Quer dizer, uma mesma turma de operários pode
estar produzindo em regime de tarefa cujo término lhes recolocará
no regime de jornadas extensas; esta turma pode ainda continuar no
sistema de tarefas, começando uma outra. Dentro do processo pro­
dutivo se estabelece, então, uma continuidade ou descontinuidade da
utilização destes tipos de exploração. Mais adiante, veremos como
isto aparece nas formulações dos trabalhadores. Em um determina­
do momento da construção, também podem ser encontradas diver­
sas turmas trabalhando, umas em tarefas, outras em viradas.

170
Capítulo 3 | O trabalho

As formas que se realizam pela intensificação da exploração da for­


ça de trabalho têm início quando, no ato de contratar um serviço
específico, as partes envolvidas negociam antecipadamente o preço
de um determinado trabalho. Existem basicamente duas formas, in­
timamente relacionadas, que se distinguem pela diferença do cál­
culo envolvendo o pagamento do trabalho e pela maior ou menor
funcionalidade de suas aplicações para determinados momentos da
produção na construção civil. São a tarefa e a empreitada. Na tarefa
o contrato é negociado em termos do tempo que as partes imagi­
nam que o trabalho levará. Trata-se de definir uma maior ou menor
quantidade de horas para o desempenho do serviço. Na empreitada
a remuneração do trabalho é fixada em termos do produto final.
Nela, o preço do trabalho é calculado diretamente pelo produto final
e não pelo número de horas que se imagina necessário para realizá-
lo. Quer dizer, as partes contratantes não discutem um maior ou
menor número de horas que serão trabalhadas. Mas o trabalho será
remunerado de acordo com o que se imagina valer o produto final.
É claro que ambas as formas têm como denominador comum o fato
de, em última instância, o preço combinado levar em consideração,
implícita ou explicitamente, o cálculo do número de horas tidas
como necessárias para efetuar o trabalho.
Na verdade, essa diferença pode ser entendida ao vermos a forma
de pagamento da tarefa como mais próxima ao salário por tempo
e a empreitada como mais aproximada ao salário por peças que,
segundo Marx, nada mais é que “a forma transfigurada do salário
por tempo, do mesmo modo que este, por sua vez, não é mais que a
forma transfigurada do valor ou preço de trabalho” (MARX, 1975,
p. 462). Mais adiante Marx acrescenta:
É evidente que a diferença de forma quanto ao pagamento do salário não
altera em nada a natureza deste, ainda que uma forma seja ou possa ser mais
favorável que a outra para o desenvolvimento da produção capitalista [...]
O salário por empreitada não expressa diretamente, na realidade, nenhuma
proporção. O valor de cada peça não se mede pelo tempo de trabalho mate­
rializado nela, mas ao contrário: o trabalho invertido pelo operário se mede
pelo número das peças que produz. No salário por unidades de tempo, o
trabalho se mede pela duração direta deste; na empreitada, pela quantidade
de produtos na qual o trabalho se condensa durante um determinado tempo
(idem, p. 463).

171
0 capital da esperança
Ao mesmo tempo, a definição de cálculo econômico que José Sérgio
Leite Lopes dá é bastante útil:
As operações mentais dos operários, ligadas à sua prática econômica cotidia­
na, pelas quais eles se orientam para tomar atitudes referentes à inter-relação
entre o tempo de trabalho e o esforço despendido durante esse tempo, por um
lado, e, por outro, a sua renda e sua subsistência (que se constituem do salário
do operário, mas também das “concessões não monetárias” de que usufruem
ou podem vir a usufruir) (LEITE LOPES, 1976, p. 75).

Um operário diferenciou a tarefa da empreitada como segue:


A empreitada eu pego por uma quantia exata. A gente cobra por valor da­
quele trabalho. Não é por hora. Você vai pegar uma empreitada faz o cálculo
e dá o preço que você não quer perder dinheiro. A tarefa é por quantias de
horas. Aí às vezes o sujeito ficava dois, três dias. Questão de vantagem de
horas. Geralmente naquela seção que tinha tarefa todo mundo gostava. Era
mais a parte de carpinteiro, pedreiro, serventes, era os que tinha mais tarefa.
É assim, essa tarefa vai equivaler 20 horas. Se o senhor terminou dentro de
20 horas tá terminado. Se não, trabalho 20, 30, 40 horas e só recebe as 20.
Se terminar com 5 horas recebe também as 20. É mais interessante. Trabalha
mais, mas também ganha mais (operador de máquinas).

Em ambos os casos, o cálculo econômico pressupõe um grande co­


nhecimento do volume do trabalho e do que ele implica em termos de
tempo de utilização da força de trabalho, de tal forma que um ope­
rário definiu o momento de negociação como uma barganha onde
existe “cobra comendo cobra, quem for mais esperto ganha”. É claro
que a situação de barganha da tarefa onde quem está demandando
o serviço reduz ao limite o número de horas é um caso extremo. Se
o trabalhador percebe que .não poderá realizar a tarefa em menos
tempo do que o aprazado (e se não for constrangido a aceitá-la), ela
não lhe interessará porque deste modo desapareceria a vantagem que
o trabalhador supõe existir neste mecanismo. O que realmente está
em jogo na utilização destas formas é a intensificação do ritmo de
trabalho que faz com que em uma mesma unidade de tempo esteja
presente mais trabalho despendido. Assim, para o capitalista tam­
pouco é interessante que a prospecção realizada na barganha não se
concretize dentro dos limites imaginados uma vez que para a mesma

172
Capítulo 3 | 0 trabalho

quantia de dinheiro com a qual deve pagar o trabalhador, estaria


correspondendo a mais tempo gasto com menos trabalho nele.
Por demandar explicitamente uma contagem de número de horas a
serem pagas pelo empregador, a tarefa, leva à necessidade de registrá-
las, para efeito de controle da administração da companhia do total
de horas trabalhadas por cada trabalhador individual, o que deter­
minará o valor do seu salário. Deste modo, o fato de o pagamento
ser, em geral, calculado em horas, parece reforçar a tarefa como uma
forma mais ajustada a contratos de trabalhos nos quais os trabalha­
dores mantenham uma relação legal com os empregadores, relação
esta que tem por pano de fundo a administração e seus agentes.
Já a empreitada, forma que se aproxima nitidamente do salário por
peças, desde há muito propicia a presença de intermediários que ar­
regimentam trabalhadores com os quais não mantêm qualquer vín­
culo legal, oferecendo o trabalho deles para um capitalista, depois
repartindo o preço combinado já devidamente diminuído da parte
que se auto-atribuiu pela intermediação.

[...] a empreitada facilita a interposição de parasitas entre o capitalista e o


operário, com o regime de subarrendamento do trabalho {subletting labour).
O ganho dos intermediários nutre-se exclusivamente da diferença entre o pre­
ço do trabalho afiançado pelo capitalista e a parte que vai parar nas mãos dos
operários (MARX, 1975, p. 464).

Nair Bicalho, ao explanar artifícios freqüentes da burla da legislação


trabalhista, afirma:
A questão do registro [da Carteira de Trabalho] dos operários fica mais gra­
ve, quando se esclarece a presença de'subempreiteiros sem idoneidade econô-
mico-financeira, que se colocam como intermediários entre a empresa e os
operários. Estes subempreiteiros algumas vezes são pequenas empresas, em
outras, não passam de pessoa física (arregimentador de força de trabalho).
São conhecidos como “gatos” (...) O uso dos “gatos” pelas grandes empresas
é um recurso freqüente, principalmente nas ocasiões de acelerar o andamen­
to da obra. Nestes momentos, a possibilidade de arregimentar rapidamente
um grande número de trabalhadores, sem encargos trabalhistas para a cons­
trutora, resulta em uma preferência pelos atravessadores de mão-de-obra
(BICALHO, 1978, p. 129).

173
0 capital da esperança

Em uma grande obra da construção civil, o número de contratos reali­


zados por empreitada possibilita o surgimento de uma quantidade de
subempreiteiros:
Tinha gato aqui que não acabava mais. E o causo da empreitada. O gato era um
empreiteiro. A firma tinha muito trabalho e não dava conta. Então dava pro
gato. Ele empreitava e depois fichava esse pessoal. Existe gato bom e gato sem-
vergonha. Naquela época muito gato aqui deixou o pessoal olhando pro tempo
e foi s’embora com o dinheiro do pessoal. Teve muitos deles que fez isso, muitos
deles que fez isso. O cara podia ir trabalhar com gato às veze por ignorância, e
às veze porque o gato prometia mais pro operário. O gato quando quer enro­
lar o operário ele promete mais e depois vai embora (operador de máquinas).

- Todo mundo que trabalhava aqui naquela época tinha carteira assinada?

- Pela firma tinha carteira assinada. Agora, pelos empleiteiros, que chama
gato, não tinha carteira assinada. Por exemplo: uma firma que nem a Oval,
ela tinha o empleiteiro hidráulico, parte de água, né? Tinha empleiteiro da
parte elétrica, esses aí, esses empleiteiros, arrumava operário sem fichar...
Tinha um fulano de tal S... M..., esse foi o pior carrasco pra humanidade aqui
de Brasília. Ele ficou três semana sem pagar os operário - pagava por semana,
não é?... O começo de Brasília era a coisa mais triste do mundo, porque hoje se
tem um gato trabalha com 50 home, ele já tá com medo, né? E naquela época,
trabalhava com mil home sem medo (servente).

Em última instância, a tarefa e a empreitada, por mais que esta últi­


ma possa adquirir aparência de não ser medida em horas, podem ser
vistas como uma barganha de horas, a unidade padrão do pagamen­
to do trabalho na construção civil. O consenso surge justamente de
uma ilusão para o operário, composta tanto da maior autonomia que
ele passa a gozar quanto da “vantagem” de terminar antes:
-Nós passamo a preferi’mais por tarefa. Porque trabaiava mais, acabava mais
cedo né. Ia embora mais cedo, tirava mais (servente).
- Tarefa era o melhor que existia porque se você tinha um encarregado ba­
cana, que te dava tarefa, como eu trabalhei a maior parte na obra aí dando
tarefa pros meus próprios operário. Eles cansaram de, três horas da tarde,
tomar banho, estar de roupa trocada, cabelinho penteado... Já tinham termi­
nado uma tarefa, praticamente de dois dias... ganhavam mais, desocupavam
mais cedo... A tarefa é o seguinte: você pega, por exemplo, um trecho, uma

174
Capítulo 3 | O trabalho

delatação por 500 horas de serviço, né? Eu trabalhava com 36 home. Pegava
uma delatação de bloco por 564 horas. Eu tirava em 225 horas, 230 hora.
- E o pessoal trabalhava mais?
- Trabalhava mais porque aí ele mandava já pegar outra tarefa para eles au­
mentar, né? Então ali eles trabalhava mais, trabalhava na hora que quer, por­
que ninguém manda neles. Isso é o que o operário gosta: é não receber grito,
né? Não tem ninguém gritando: faça isso, deixe isso, faz aquilo. Cê faz um
operário ficar louquinho, é você começar a mandar ele fazer uma coisa: deixa
isso aqui, faz aquilo. Então os operário que eu trabalhava com eles fazia isso:
terminava antes do prazo, mandava eu pegar outra, e o dinheiro é mais. Eles
mesmo exigia: pede tarefa que é melhor.
- Quem?
- Os operário. Os carpinteiro, os servente... porque aí é só você que manda.
Não tem mais gente mandando em nós, né?
- Aí o sr. pedia pra quem?
- Eu pedia pro engenheiro, pra esse meu mestre, esse que me passou a encar­
regado, ele me dava tarefa. [...] Eu ganhava da firma pra mandar neles, né?
Então, era interessante eles fazer isso, né? Eles chegava... fulano, dividia tan­
tos, carpinteiro ganha tanto, servente ganha tanto, tem tantas horas. Dividia,
entre eles tudinho, o carpinteiro ganhando mais, o servente menos, né? Mas
um servente ganhava naquela época... tinha servente que o salário de nove
conto e sessenta ele tirava oito e vinte por semana, por causa de tarefa, né?
Porque eles fazia mesmo, eles trabalhava com amor mesmo, com prazer (car­
pinteiro, encarregado de turma).

Operários na Estação Rodoviária


0 capital da esperança

Tendo que contar com muito trabalho durante determinadas fases


da obra, ou que apressar sua entrega visando a cumprir prazos, o
empregador aceita como resultado da barganha um número de horas
que pode até ser maior do que o necessário porque sabe que mesmo
pagando as horas não-trabalhadas, no sentido de que durante este
tempo os operários não estariam em “cima da obra”, terá ganho, já
que os trabalhadores aumentam a intensidade de trabalho. O fato
de a intensificação do ritmo de trabalho não ser visível em termos
de horas, produz uma contabilidade de tempo que leva o operário a
acreditar ter ganho na tarefa por não ter trabalhado algumas horas
que foram recebidas. Um controlador da produção de pintores de
parede deu um exemplo de um artifício utilizado para aumentar a
produção das turmas nas tarefas. Para um mesmo volume de traba­
lho estipulava a competição entre as diversas turmas, estabelecendo
um número maior de horas a ser recebido pela turma que terminasse
em primeiro lugar e um número menor de horas para aquela que
chegasse em segundo lugar nesta corrida do salário, e assim sucessi­
vamente. A eficácia da tarefa é muito grande, uma vez que faz com
que o operário se auto-administre, tornando-se também interessado
no aumento do ritmo do seu trabalho. Cria, ainda, a possibilidade
de fazer crer que o trabalhador está, nestes momentos, relativamente
independente do controle e da disciplina impostos pelo capitalista.
As formas de exploração pela extensão da jornada de trabalho po­
dem deixar perceber a apropriação de trabalho não pago por par­
te do capitalista quando, por exemplo, ocorre o não pagamento de
horas extras por parte das empresas ou o pagamento das horas ex­
tras como se fossem horas comuns. As formas que realizam uma
intensificação da força produtiva do trabalho, além da aparência de
independência relativa, dão ao operário a ilusão de que recebe horas
não trabalhadas (como se estivesse também espoliando o capital).
Contudo, Marx, ao refletir sobre a intensificação do trabalho, de­
monstra que:
A hora intensiva de uma jornada de trabalho de dez horas encerra tanto ou
mais trabalho, quer dizer, força de trabalho despendida, que a hora mais
porosa de uma jornada de doze horas de trabalho. Portanto, o produto da pri­
meira tem tanto ou mais valor que o produto da hora e 1/5 de hora da segunda
jornada. Prescindindo do aumento de mais-valia relativa ao intensificar-se
a força produtiva do trabalho, temos que agora 3 e 1/3 horas de trabalho

176
Capítulo 3 | O trabalho

excedente, por exemplo, contra 6 2/3 horas de trabalho necessário, fornecem


ao capitalista a mesma massa de valor que antes forneciam 4 horas de traba­
lho contra 8 horas de trabalho necessário (MARX, 1975, p. 337-338).

Ao entrar no circuito das tarefas, o operário pode passar a usar as


“x” horas que “economizou” anteriormente, como o tempo inicial
de uma outra tarefa que lhe dê mais “x” horas aparentemente não-
trabalhadas, e assim sucessivamente. Criando um sistema no qual
parece haver ganho de horas não-trabalhadas, o capitalista assegura
que este mecanismo seja desejado pelos próprios trabalhadores que,
de fato, passam a sair de uma tarefa para outra visando a obter mais
horas “não-trabalhadas” que, no computo geral, são horas trabalha­
das uma vez que as últimas “x” horas “não-trabalhadas” de uma
tarefa podem tornar-se, total ou parcialmente, as primeiras horas
trabalhadas de uma outra tarefa, ou de um dia normal de trabalho
acrescido de horas extras.

A jornada de trabalho
Vemos que o universo produtivo no qual o trabalhador se inseria era
dominado por formas de exploração da força de trabalho expressas
na grande presença de horas extras, viradas, tarefas e empreitadas,
o que de fato tornava o salário pago ao trabalhador relativamente
maior. A combinação dos interesses dos empreiteiros por um ritmo
acentuado de trabalho com os interesses dos operários por maiores
salários foi o principal fator a possibilitar a instauração do “ritmo
Brasília” e o domínio absoluto do universo do trabalho no período
deste estudo.
Não existe ponto mais privilegiado para percebermos esta conjunção
do que a própria representação feita sóbre a jornada de trabalho de
então. De imediato, nas entrevistas, chama a atenção o número de
horas trabalhadas diariamente que, em geral, oscila entre um míni­
mo de 12 e um máximo de 22 horas. A exploração da força de traba­
lho parece variar entre as diferentes companhias. Não obstante, uma
vez que havia para o operário a possibilidade de se engajar várias
vezes em viradas ou tarefas (afora a presença constante das horas
extras) era quase obrigatória a adesão a jornadas muito extensas,
como sugere o depoimento deste servente:

177
0 capital da esperança

- O sr. virava de segunda pra terça, aí descansava a terça-feira?

- Quem queria descansar. É quem queria descansar. Num tinha esse negócio
não. É quem queria descansar. Eu vi muito cabra doido que trabaiou os seis
dias da semana.
- Seis dias? Direto?
- Seis dias. Trabaiava. Porque trabaiava três noites e trabaiava três dias. Eu vi
muito cabra doido que trabaiou os seis dia da semana.

A submissão a uma exploração maior está relacionada à diferença


entre categorias hierárquicas na construção civil (é patente a subordi­
nação distinta existente, por exemplo, para profissionais e serventes),
tanto quanto ao fato dos operários terem entrado em momentos dife­
rentes de obras diferentes. Exemplifiquemos. É sabido que na fase de
concretagem a necessidade por trabalho aumenta. A necessidade de
trabalho para realizar a concretagem da Rodoviária da cidade ou do
Congresso Nacional é claramente maior do que a de blocos de apar­
tamentos de seis andares. Além disso, a exploração pode variar tam­
bém entre as diversas categorias profissionais em distintos momentos
da produção quando um carpinteiro passa a ser mais requisitado que
um pedreiro, ou vice-versa (para um entendimento das diferentes fases
de uma obra ver Bicalho, 1978, p. 86 e seguintes). Fatores extra esfera
da produção, como o fato de o operário ser casado ou manter re­
lações pessoais diferenciadas com controladores da produção podem
contribuir também para a diminuição da subordinação de operários

Construção da Estação Rodoviária


Construção do bloco A da Superquadra Sul 308. Foto: Mário Fontenelle

individuais à exploração. Finalmente, deve-se ter em mente que aqui


reproduzimos depoimentos de vários indivíduos que podem homoge­
neizar seus passados, reportando uma parte do período de sua vida
na época da construção como se fosse válido para o período inteiro.
De todas as maneiras, mais além das possíveis distorções individuais
que foram devidamente criticadas durante a análise do discurso dos
operários e de outros dados, mais do que a possível diferença entre
uma companhia e outra no tratamento dos trabalhadores, o que se
destacou foi o consenso sobre o volume de trabalho a ser feito e, em
consequência, sobre o ritmo de trabalho necessário.
Passo a analisar o exemplo de um operário que, certamente, tinha
uma jornada mais atípica, pois trabalhava na manutenção de máqui­
nas quase sempre durante os poros das jornadas de outros trabalha­
dores. Ele nos descreveu uma semana com uma média de mais de 19
horas diárias de trabalho.
í
Seg. Ter. Qua. Qui. Sex. Sab. Dom. Totais

Horas de trabalho 18 22 18 22 18 24 14 136

Horas de não-trabalho* 06 02 06 02 06 00 10 32

(* Inclui períodos usados para se locomover para o trabalho, alimentar, banhar, dormir e
cinco horas livres no domingo.)

179
0 capital da esperança

O fato de este trabalhador manter este tipo de registro das jornadas


de trabalho da época (por ele confirmado em sucessivas checagens)
tornou-se mais um indício da existência de um tempo tão dominado
pelo trabalho que o indivíduo, ao rememorá-lo, remete nada mais que
ao desempenho de atividades produtivas. Deste modo, a descrição da
sua semana de trabalho praticamente exclui os períodos dedicados à
alimentação, quando informa apenas seis horas semanais dedicadas
às refeições. Essa quantidade de horas incluía, ainda, o tempo para
sua higiene pessoal. A exclusão do tempo necessário à alimentação
vincula-se certamente ao fato de este trabalhador alimentar-se no
seu local de trabalho:
Nós num vinha comer. Comia lá mesmo. Bolo e café. Quando era casado a
mulher ainda levava a marmitinha, mas pra solteiro não tinha nada disso não.
A seção de máquina num tinha hora de jeito nenhum, num tinha hora pra
comer. Era quando dava.

Do restante das 32 horas classificadas como de não-trabalho, três


seriam gastas em transporte, 18 para dormir e cinco nos domingos
para visitar uma amiga na Vila Amauri, próxima ao seu acampa­
mento, ou para descansar no acampamento, tentando dormir:
Porque ninguém dormia mesmo com a baruiada de gente. Ninguém conta que
aqui todo mundo usava a preventiva, a coisa de comprimido. Hoje eles não
vende mais aquilo. Tá proibido.

Outra pessoa, um servente, forneceu um exemplo de uma semana


de trabalho com três viradas realizadas da segunda para a terça, da
quinta para a sexta e do sábado para o domingo. A primeira e se­
gunda viradas compartilham uma organização do tempo idêntica.
O operário levantava-se às 5 da manhã despendendo duas horas
com higiene pessoal, alimentação e transporte até o seu local de tra­
balho. Iniciando sua jornada às 7 horas da manhã, permanecia no
trabalho até às 11 horas, quando se deslocava para a cantina para
almoçar. Às 12 horas reingressava na obra, permanecendo até às 17
horas quando mais uma vez se dirigia à cantina para um jantar de
uma hora. Às 18 horas reiniciava sua atividade produtiva com uma
rápida parada de 15 minutos para um café à meia-noite, quando
continuava trabalhando até às 7 horas da manhã da terça-feira.

180
Capítulo 3 | 0 trabalho

O total de horas desde o início da virada até seu término é de 24


horas. Descontados os períodos relativos à alimentação do operá­
rio e ao seu transporte da obra à cantina e vice-versa, encontra-
se como tempo despendido diretamente na atividade produtiva 21
horas e 45 minutos. Frise-se que ao término da virada, aqueles que
“agüentassem” retornavam ao trabalho, após café da manhã na
cantina.
Este trabalhador, ao sair da virada de segunda para terça-feira,
podia permanecer 24 horas recompondo-se, dormindo e alimen­
tando-se. Assim reingressava no trabalho na quarta-feira às 7 horas
da manhã, quando desempenhava uma jornada que se estendia até
à meia-noite. Portanto 15 horas de trabalho, intercaladas com duas
horas para refeições, de 11 ao meio-dia e das 17 às 18 horas. No
dia seguinte, quinta-feira, inicia-se uma virada idêntica àquela da
segunda-feira. Ao término de mais esta virada, passa, então, mais
24 horas fora do trabalho para o qual retorna na manhã do sábado,
quando começa a última virada da semana. Esta, segundo o mesmo
operário, diferenciava-se das duas primeiras por ser mais extensa:
25 horas e 45 minutos trabalhados. Após o café de 15 minutos
na primeira hora de domingo, o operário trabalhava até às 6 da
manhã quando parava uma hora para se alimentar e reingressar
no trabalho indo das 7 horas até o meio-dia. As horas restantes do
domingo seriam seu “tempo livre” onde, geralmente, encontrava-se
obrigado a descansar para reiniciar, na segunda-feira, mais uma
virada. Notemos, com Leite Lopes, que nesta situação “o ‘tempo
livre’ dos operários, esse tempo mínimo de descanso fisiológico e
culturalmente indispensável ao próprio ‘funcionamento’ da força
de trabalho, tende a não passar de um estado de disposição e ‘pron­
tidão’ permanente para o trabalho” (1976, p. 207).
Em um total semanal de 168 horas, o trabalhador permanecia 84
horas e 15 minutos trabalhando. O restante do seu tempo era usado
para atividades estritamente vinculadas à reposição da sua força
de trabalho ou, em menor escala, ao seu deslocamento até o local
da obra. Ou seja, 72 horas e 45 minutos da semana eram basica­
mente o tempo disponível para dormir (49 horas), alimentar-se e
transportar-se para o trabalho (23 horas e 45 minutos). No domin­
go restavam 11 horas que eram utilizadas como “tempo livre” ou
para dormir.
181
0 capital da esperança

Esta é a descrição de uma semana de trabalho da época da constru­


ção fornecida por um servente. Provém da terceira de três entrevistas
onde, em cada uma, o operário relatava uma jornada um pouco dife­
rente da exposta. Optei pelo registro desta versão por ter sido obtida
em uma melhor situação de entrevista: já havia estudado os dois
relatos anteriores, fato que permitiu precisar mais algumas questões.
Mas ao refletir sobre o quadro que formavam os três relatos, impôs-
se a seguinte questão: por que aquela pessoa percebia de pelo menos
três maneiras distintas a semana de trabalho de então?
O caminho que leva às possíveis respostas passa pelo entendimento
da própria ordenação interna da construção civil. Nela a produção
é realizada por turmas de trabalhadores cuja principal distinção é
serem diurnas ou noturnas. Geralmente o sistema de turmas é uti­
lizado encaixando-se o término da atividade de um turno com o
princípio da atividade do outro. Mas em um universo fortemente
dominado pela presença de mecanismos como a virada e a tarefa, a
sobreposição de diversas jornadas passa a ser cotidiana, justapondo-
se e combinando-se, dentro de uma mesma obra, diversas jornadas.
Nesta situação, a linearidade de jornadas de trabalho não existe.
O próprio sistema de produção leva à existência de turmas perfazen­
do jornadas em turnos distintos. Junte-se a isto o fato de, em deter­
minados momentos, uma turma específica poder estar realizando
uma virada ou tarefa negociada para um determinado volume de
trabalho e a sobreposição surge quase necessariamente com as jor­
nadas de outras turmas presentes no mesmo momento da produção
e que estivessem percorrendo, por exemplo, uma jornada de trabalho
legal com mais duas horas extras.
Havia, ainda, a existência de operários que individualmente decidiam
sua permanência no trabalho, visando a adicionar mais horas extras
ao seu salário. Como no caso das tarefas depende-se basicamente da
intensificação do trabalho para executar o previamente combinado,
não se pode estabelecer os momentos precisos em que terminam as
diferentes jornadas de turmas trabalhando neste regime. Isto ocor­
re também porque a composição qualitativa das diversas turmas é
distinta. Assim, apesar de formadas com a mesma quantidade de
trabalhadores, cada uma das turmas pode render diferenciadamente
diante do mesmo volume de serviço. Neste quadro de várias jor­
nadas justapostas e imbricadas, ao remeter-se ao passado em três
182
Capítulo 3 | O trabalho

momentos distintos o operário que descreveu uma semana típica do


seu trabalho poderia estar exemplificando três tipos diferentes de
jornadas vivenciadas ao longo do período, ou dando versões sintéti­
cas das mesmas.
Estamos diante de um quadro em que a existência da oferta de horas
agregáveis ao salário e sua avaliação positiva feita pelos operários
levam a crer em uma grande eficácia do fetichismo do salário. Utilizo
essa noção como Leite Lopes em sua análise da experiência dos ope­
rários em usinas de açúcar. Ao examinar a concepção do salário de
uma determinada categoria destes trabalhadores Leite Lopes (1976,
p. 101) diz:
Os profissionistas pensam a vinculação, para eles indissociável, entre salário
e horas de trabalho. Todo o discurso dos profissionistas sobre a dureza de
suas condições de trabalho parece emudecer-se diante desta vinculação que
privilegia o salário: os profissionistas parecem não colocar na balança o salá­
rio por oposição ao esforço despendido durante a jornada de trabalho. Todo
esforço marginal é compensatório. Há, assim, por outro lado, uma dissocia­
ção entre o discurso profissionista sobre a insalubridade, a periculosidade e a
duração excessiva do seu trabalho e o seu discurso sobre o salário. [...] Esse
desequilíbrio entre salário marginal e esforço marginal configuraria, entre os
profissionistas, um certo fetichismo do salário-hora. Nesse sentido, existiria
uma tendência, na prática dos contadores de horas, no sentido de que a hora
deixe de ser uma medida de tempo - tempo em que um determinado esforço é
utilizado - e passe a significar simplesmente uma medida do salário.

Em uma escala maior, a homogeneização do dia e da noite, feita pela


extensão da atividade produtiva com a mesma intensidade para os
dois períodos, é um indicador também da transformação da hora
em unidade de medida de salário em detrimento da sua qualidade de
medida de tempo.
Uma grande obra é uma situação onde há uma grande eficácia do feti­
chismo do salário, até mesmo porque os operários estão informados da
sua transitoriedade pelo significado sempre presente da data da inaugu­
ração. Esta eficácia pode ser percebida refletindo-se sobre a represen­
tação que os operários fazem da época da construção. Como se sabe,
para eles é um período totalmente dominado pela esfera da produção.
O predomínio das referências a horas trabalhadas, em detrimento de

183
0 capital da esperança

quaisquer outras, deve ser visto no âmbito da compreensão de horas


trabalhadas representando salário. Considerar o total de horas traba­
lhadas como o equivalente a salário e a disponibilidade dos próprios
operários na busca de mais horas trabalhadas para complementarem
seus salários reforçam o entendimento de tratar-se de um universo em
que o fetiche do salário se apresenta fortemente. Este fato contribuiría
para fazer parecer mais necessário trabalhar quantas horas mais os
operários conseguissem. Em especial, porque a partir de uma data no
futuro (a inauguração) aquele sistema de trabalho, com sua grande
quantidade de horas agregáveis ao salário, seria desmobilizado, de
uma só vez ou gradualmente. Assim, a grande obra, também pela
sua temporariedade, é um período de trabalho em que a sujeição aos
mecanismos de exploração que extrapolam a jornada legal é desejada
pelos trabalhadores que podem, até mesmo, imaginar recompor suas
forças após o término da obra, quando sairiam do “ritmo Brasília”
que, paradoxalmente, lhes matava e fazia viver.
Quanto à eficácia “pura” do fetichismo do salário há de se registrar
a seguinte ressalva de Leite Lopes:

Esse aparente fetichismo ao nível do discurso pode paradoxalmente exprimir


um conhecimento intuitivo e incorporado das condições reais do mercado de
trabalho e da correlação de forças com a administração da usina, paradoxo
para o qual um observador externo, afeito ao formalismo lógico e discursivo,
poderia estar pouco atento. Esse conhecimento interiorizado, que se exprime
nas atitudes e na prática cotidiana dos operários mais do que na clareza e na
coerência formal do discurso, refere-se a determinadas condições e constran­
gimentos objetivos em que os operários estão inseridos para ganharem sua
subsistência (LEITE LOPES, 1976, p. 103).

Apelos ideológicos e exploração em uma "terra sem lei"


As formas econômicas de exploração da força de trabalho não se
desempenhavam no vazio. Eram também acompanhadas de outros
mecanismos que podiam ser instrumentalizados como maneira de
legitimar ou aumentar a exploração a que se submetia o operaria­
do. Estes mecanismos têm sua matriz na ideologia de grande obra,
característica de Brasília, e na ambigüidade jurídica que assegurava
184
o
• )
Capítulo 3 | 0 trabalho

poder de Estado à Novacap no território da construção. Os aspectos


mais definidores destas duas questões fundamentais foram apresen­
tados na Introdução deste trabalho. À medida que for necessário,
reapresentarei algumas características para melhor situar a discussão.
)

Obra da nacionalidade e democracia de fronteira


Um dos pontos centrais do universo ideológico criado em torno de
Brasília remetia ao entendimento da construção como uma obra da
nacionalidade, indistintamente, que iria inaugurar uma nova era na
história do país. Assim, posicionar-se contra Brasília seria, em últi­
ma instância, uma atitude antibrasileira. Como sabemos, uma das
intenções subjacentes a esta formulação do Estado era aumentar a
dedicação dos trabalhadores expressa pelo aumento da intensidade
do trabalho, um reconhecimento de que estavam participando de
uma grande obra de redenção nacional. De fato, a homogeneização
dos interesses dos brasileiros sugerida pela propaganda do governo,
amplamente difundida na época, encontrou no território da constru­
ção um meio propício para se desenvolver.
À época da construção, eram todos pioneiros. Candangos que parti­
cipavam da grande obra, contribuindo, cada um com seus trabalhos
específicos, para a sua realização. Na verdade, em algumas partes
do mosaico próprio ao território da grande obra estavam todos sub­
metidos à precariedade e ao desconforto. Desde a ausência relati­
va, mesmo que diferenciada, de certos serviços de lazer e saúde, por
exemplo, até os incômodos causados pela poeira, lama e, também,
a estafa proveniente do ritmo acelerado dos trabalhos. É assim que
surgiu o que já foi chamado de “democracia de fronteira” (EPSTEIN,
1973, p. 62): um aparente desaparecimento das diferenciações sociais
quando linhas informadoras de clivagens são atenuadas.
Um pedreiro sugere claramente que a ausência de sinais de identifica­
ção da classe social a que pertenciam os indivíduos é uma fonte dessa
aparência de igualitarismo:

- Por que tem gente que diz que naquela época não tinha esse negócio de dife­
rença não, que era todo mundo a mesma coisa?

185
0 Presidente da República reforçava a "democracia de fronteira"

- Não, o sujeito não distinguia porque ali era o seguinte, não tinha o clube
para dizer... Não tinha o soçaite, também não tinha, né. Então lá os enge­
nheiro morava no acampamento deles, não é isso [refere-se aqui à parte do
acampamento destinada aos engenheiros], Você via o engenheiro tava do mes­
mo jeito que o operário, vestido de calça esporte, de bota e tudo, né. Não via
assim... [bem vestido].

i
Todos, de alguma maneira, estavam engajados na obra ou a ela rela­
cionados. Segmentos ociosos, dependentes diretamente da explora­
ção da força de trabalho, não existiam em proporções comparáveis
, às de uma situação urbana estável:

Todo mundo trabalhava. Não era só... tinha o engenheiro, não pense que o
i engenheiro tinha boa vida não. Ele também dava duro, ele também tinha que
i tá lá na obra. Era, todo mundo tava lá. Agora tinha outros que tinha outras
i vantagem, vantagem de emprego, o elemento de escritório. Mas o próprio
engenheiro mesmo se rebentava também (capataz de arrebite).

J 186

J
Capítulo 3 | 0 trabalho

Nestas condições, não se podia identificar imediatamente o “soçai-


te” e suas formas de vida. Além disso, todas as residências eram de
madeira. Obviamente a qualidade das casas ia modificando-se. quan­
do se tratava de distinguir, por exemplo, casas para engenheiros de
casas para serventes. No entanto, se é certo que estas seriam, grosso
modo, as categorias mais polares existentes no território da constru­
ção, sua determinação provém diretamente da atividade produtiva
em que ambas participam. Isto possibilitaria explicar os diferentes
privilégios, como os de residência e de alimentação. Já no caso de
uma cidade historicamente desenvolvida onde a configuração espa­
cial urbana reflete o desenvolvimento histórico das relações entre as
classes, as diferenciações da ocupação social do espaço urbano po­
dem permitir a classificação de determinadas áreas da cidade como
destinadas aos “ricos” e outras aos “pobres” (em minhas pesquisas
em Brasília, por exemplo, o espaço do Plano Piloto hoje é sempre
classificado por operários como o espaço onde vivem os “ricos”).
Esta repartição da realidade urbana, no entanto, não pode ser ex­
plicada diretamente pela diferenciação interna da atividade de um
único ramo da produção. Na construção de Brasília, as diferenças
perceptíveis de residências eram explicáveis pela própria ordenação
hierárquica interna à construção civil.
A aparência de solidariedade, que muitas vezes é criada pelo estabe­
lecimento de relações supostamente igualitárias (como engenheiros
manterem boas relações pessoais informais com operários), é fun­
cional para o desempenho da produção na construção civil. Atua
como um incentivo à cooperação dos trabalhadores individuais em
suas turmas, ou como um incentivo à cooperação das diversas tur­
mas entre si já que, por meio de artifícios como este, tornam-se mais
ajustadas à hierarquia própria da atividade produtiva. Constitui-se
também em estratégia fundamental para o engenheiro que é respon­
sável pelo bom andamento da obra que controla dentro de prazos
estipulados. As boas relações pessoais com os operários, além de
estímulo a trabalhar mais, podem significar uma garantia até mesmo
da segurança pessoal do engenheiro, que passa a ser respeitado por
seus operários. De acordo com um engenheiro entrevistado, simular
um acidente, sobretudo em obras de grandes proporções, pode ser re­
lativamente fácil. Ao mesmo tempo, entre os custos de uma atuação
mais repressiva e controladora dos trabalhadores haveria que incluir

187
0 formal e o informal conviviam no mesmo espaço

a diminuição do ritmo do trabalho, pois “operário descontente” tra­


balha mais lentamente, perdendo-se desta forma em aproveitamento
da intensidade da força de trabalho.
Assim, a existência da chamada democracia de fronteira, na qual
pioneiros e, secundariamente, candangos constituem-se em catego-,
rias indistintamente designativas dos participantes da construção,
remete às especificidades das necessidades de produção do grande
projeto. Mas é necessário notar que, mesmo neste período em que
“arquitetos, administradores, e simples trabalhadores da construção
estavam ombro a ombro, vivendo sob condições similares, e usando
o mesmo tipo de roupas informais” (EPSTEIN, op.cit.), é claro que,
em última instância, as diferenciações sociais continuavam a vigorar
no cotidiano. Se alguns constrangimentos objetivos relativos à gran­
de obra eram compartilhados por todos, ou quase todos, certamente
sua vivência era atenuada, conforme a posição dentro da atividade
produtiva.

188
Capítulo 3 | O trabalho

Visitais institucionais
No território da construção, o pano de fundo da ideologia da grande
obra onde estavam engajados os “pioneiros” vinha também acompa­
nhado por um tipo de atuação concreta realizada com contornos que
nitidamente apontam para a tentativa de aumentar o nível de explo­
ração da força de trabalho. Neste plano incluíam-se as quase mitoló-
Ígicas visitas que fazia Juscelino Kubitschek às obras e à Cidade Livre
(A GAZETA, São Paulo, 7 maio 1958):

Na Cidade Bandeirante, o presidente Kubitschek, quando ali aparece, é re­


cebido como chefe da nação que é. Todos o cumprimentam respeitosamente.
O mesmo, no entanto, não se verifica nos agrupamentos perto dos grandes
edifícios. Quando o sr. Juscelino visita alguns desses lugares, ou deles vai se
aproximando, ouvem-se logo frases como essas: “Ó Manuel, capricha aí que
o Juscelino vem vindo” - ô Juscelino, como é que vai o senhor? Está aqui
outra vez?

O Presidente, com seu sorriso largo, cumprimenta a todos sem tomar conhe­
cimento dessas frases que ouve em cada obra, cinco a seis vezes. Todos lhes
querem muito bem e ele, ali, não é o Presidente da República mas o chefe da

Festa da cumeeira em um bloco da Superquadra Sul 108, em março de 1958.


Foto: Mário Fontenelle
0 capital da esperança

empreitada. O Presidente Kubitschek, em Brasília, anda só, desprovido de


guardas e tem vida normal, como todo e qualquer cidadão: entra e sai dos seus
aposentos à hora que quer; conversa com todo mundo, atendendo a todos sem
protocolo e fica satisfeito quando a conversa gira em torno de Brasília.

Vejamos como se recordam destas visitas três de nossos entrevistados:

Era o tipo da pessoa, tão querida que nem Juscelino Kubitschek, né. Na inau­
guração daqueles bloco de apartamento, ele desceu lá, no dia do churrasco,
comeu churrasco, junto com a gente, abraçou todo mundo... pediu pra nin­
guém lavar as mão pra ir cumprimentar ele, né? (carpinteiro).

No tempo de JK num tinha também esses carros acompanhado aí de poliça,


e guarda em roda dele, não. Ele andava sozinho aí. Ele almoçava lá no SAPS
junto com a turma. Aí no SAPS eu vi ele muitas vez. Agora no Catetinho ali,
eles almoçava era no fundo, mas meus colegas foram, né, uns foram lá com
ele. Aqui em cima desses bloco ali, ele num tava lá na hora, moço, o pessoal
tava fazendo valeta aí do DAE, ele desceu do bloco, ele tem um bloco ali em
cima, tinha né. Ele desceu ali foi lá conversar que o pessoal tava abrindo vale­
ta fazendo encanação. Ficou lá junto com eles lá batendo papo... (servente).

Juscelino andava na obra, ele mais uns cinco assessores, só. Ele não anda­
va acompanhado de batedor, essa coisa toda, polícia. Meia-noite, isso eu vi,
ele chegar ali, ele mais dois carros, três carros, pessoas nos outros carros ele
apeava fazia a rodinha lá com os mestres-de-obra e tudo.
- E o pessoal gostava dele?
- Gostava. Se um peão quisesse conversar com ele, ele conversava com o peão
lá na obra. Eu vi ele conversar muito com peão lá na obra. Então era um ho­
mem desse tipo (pedreiro).

A figura de Juscelino Kubitschek é positivamente avaliada entre os


trabalhadores da construção civil que um dia foram pioneiros como
ele. Bicalho chega mesmo a afirmar que no tocante à representação
do passado “a figura principal é Juscelino Kubitschek (que) criou
em torno de si uma imagem de benfeitor que se propaga através de
gerações” (1978, p. 152).
Mais uma demonstração da imagem positiva de Juscelino foi, sem
dúvida, a grande concentração popular ocorrida em Brasília por
190
JK em uma de suas muitas visitas
0 capital da esperança

ocasião do seu funeral. Carolino Leóbas -“O Poeta do Povo”-, após


a morte de JK em 1976, escreve O meu encontro de Juscelino e o
pedido que ele me fez, folheto de literatura de cordel, do qual trans­
crevo um trecho:
Se eu ouvir uma pessoa
Falar mal de Juscelino
É um brasileiro ingrato
E tem o coração ferino;
Desde já também lhe digo
Nunca pode ser amigo
Do poeta Carolino.
Fale mal de quem quiser
Tenha ou não defeito
De mim querendo falar
Pode falar que eu aceito;
Mas lhe peço por favor
Não fale de um Senhor
Que tudo que fez foi bem feito.

Por outro lado, Kubitschek deixa entrever, em seu livro, os objetivos


das visitas mencionadas anteriormente: “Eram visitas de inspeção,
com o objetivo de estimular os operários, fazendo com que eles ba­
tessem records de velocidade na execução das obras de que estavam
encarregados” (1975, p. 59). Os procedimentos do Presidente são
claramente explicitados em outro trecho:

Durante dois anos, fiz 225 viagens desse gênero. Sentia-me bem, vivendo
a emoção de assistir ao nascimento de uma metrópole, só tornada possível
pelo espírito de determinação que me é característico. [...] Cada obra osten­
tava uma tabuleta, com os dizeres: “Iniciada no dia tal. Será concluída no
dial tal”. Conversava com os operários, lembrando-lhes a necessidade de
que a cidade ficasse pronta no prazo pré-fixado. A advertência era positiva,
mas cordial, e quase sempre levada a efeito através desse diálogo: “Como é,
meu velho, vai me dar essa obra na data marcada?” Um largo sorriso ilu­
minava o rosto do operário. E a resposta vinha pronta, como se já estivesse

192
Capítulo 3 | 0 trabalho

desde muito na ponta da língua: “É claro, presidente. Pra que a gente ‘tá
dando esse duro’?” Batia-lhe nas costas e fazia o teste, que era uma doutri­
nação de extraordinária eficiência: “Então dá nova olhadela na tabuleta”.
O candango olhava desconfiado e eu contemplava o seu olhar, para verificar
se se dirigia, de fato, para aquele tosco quadrado de madeira. Em seguida,
encerrava o teste, pedindo-lhe que repetisse a data, para ver se ela estava de­
corada. E vinha a resposta: “15 de setembro de 1957!” Sorria, batendo-lhe
de novo nas costas: “Isso, meu velho. Nesse dia, virei aqui para lhe dar um
abraço” (KUBITSCHEK, 1975, p. 81).

Um entrevistado tem uma visão bastante crítica destes fatos:

Um dia um peão foi falar com Juscelino: Juscelino o sr. podia dar um direito
a nós assim, assim, assado. Ah, [responde Juscelino] operário já tem muita lei,
vou dar lei nada. E no princípio, tava no duro aí das correria aí. Até peão que
tava dormindo lá no cabo da pá, aí. Juscelino pra tapear operário aí, ainda
pegou uma pá lá um dia, ajudando. Viu que o peão tava dormindo no cabo
da pá, empurrou terra dentro da valeta ainda. Ele pegou o cabo da pá e foi
empurrar. Procês verem o que é o carrancismo na mão dele. Queria ser muito
bom pra operário, mas debaixo do teto tava chicoteando (operário de manu­
tenção de máquinas).

0 Eixo Rodoviário Sul no dia da inauguração


0 capital da esperança

Em realidade, muitas destas visitas são como “exibições institucio­


nais” que revertiam concretamente em mais dispêndio de energia
por parte dos operários que, estimulados, aumentavam o ritmo do
trabalho. Goffman (1974, p. 90) delimita situações onde as visitas a
instituições totais passam a ser programadas e construídas para o vi­
sitante como se este estivesse percorrendo uma vitrine onde tudo está
bem arrumado e funcionando a contento criando uma “dinâmica de
aparência” (idem, p. 94). A prática de um Presidente da República,
mesmo nos quadros do populismo, em visitas a obras, instituições e
em inaugurações pode ser classificada, pelo seu tipo de preparação,
como estas cerimônias denominadas exibições institucionais que fa­
zem com que o visitante tenha uma imagem construída de maneira
positiva daquilo que vê. Após sua presença retiram-se os cenários,
termina-se a farsa e o drama passa a correr como de fato é. O tempo
cerimonial é o momento da visita. Tanto quanto o antes, o depois
torna-se fundamental para entendê-la:

E a gente trabalhava de virar noite, virar. Isso era comum e normal lá. Ainda
mais sempre acontecia isso quando Juscelino tava pra chegar. Parece que os
mestres-de-obra ia mostrar serviço, então aí apertava a peãozada. Juscelino
marcava, Juscelino vai chegar tal dia. Então a turma já sabia, né: vamo traba­
lhar até mais tarde hoje. O dia que Juscelino ia visitar a obra, a gente ficava
até meia noite. Dia de ele ir lá na obra, era dia de nego batalhar mais. [...] Às
vez Juscelino ia lá então eles resolvia fazer um serviço e dar por acabado o
serviço lá. Então acabava aquilo de qualquer jeito assim e tal só pro presidente
ver. Depois o presidente ia embora, desmanchava, a gente demolia tudo pra
fazer de outro jeito, né (pedreiro).

Mais uma evidência destas exibições institucionais - que eram fre-


qüentes também com visitas de autoridades estrangeiras, presiden­
tes, ministros, etc. - está em matéria do jornal A Tribuna, Núcleo
Bandeirante, de 20 de abril de 1958, que, ao reclamar da “bura-
queira” da cidade, afirma: “Nota-se também que só quando o
Presidente da República está na cidade, é que aparecem as máquinas
niveladoras”.
Capítulo 3 | O trabalho

Data da inauguração
O denominador comum que costura diversos artifícios utilizados
para aumentar a exploração da força de trabalho no território é o
prazo da inauguração da obra como um todo (um pouco menos de
quatro anos para construir a cidade). Para o cumprimento dos prazos
parcelares, Kubitschek já nos deu informações sobre o significado de
suas visitas. E fato conhecido que o cumprimento do prazo de entre­
ga acaba intensificando a exploração dos trabalhadores (BICALHO,
1978, p. 109). Nestes casos, o prazo a cumprir vincula-se ao contra­
to de entrega de uma obra ou de várias obras específicas. Na constru­
ção de Brasília, o prazo vinculava-se ao projeto de entrega da cidade,
pronta para operar em 21 de abril de 1960. O estabelecimento desta
data foi uma decisão política em um período governamental em que
se pretendia fazer o país avançar “50 anos em cinco”:

O objetivo único, que predominava sob qualquer outra consideração, era a


construção rápida, no prazo, da capital. Isso talvez, é claro, para que ao en­
tregar o governo ela já fosse irreversível. Porque outro governo que viesse
poderia protelar até... (juiz do trabalho).

Fixada politicamente, a data da inauguração passou a ser o fantas­


ma cotidiano de todos no território da construção. Bater recordes
de velocidade, entregar a nova capital federal ao país em abril de
1960, tudo isso é incorporado de tal maneira ao dia-a-dia que a data
da inauguração pode realmente ter adquirido aparência de instaurar
uma nova era no futuro. Enfim, seria ela quem definiría o Brasil de
antes e depois de Brasília. O dia 21 de abril de 1960 passou a estar
presente em quase tudo. As obras, como sabemos, tinham placas
anunciando seus prazos. O jornal A Tribuna, por exemplo, editado
no Núcleo Bandeirante no período da construção, trazia em todos os
seus números na primeira página um selo no qual avisava: “Faltam
exatamente ‘x’ dias para a transferência da capital”. Vejamos o que
informa um periódico da época:

De tudo que se fez e se fará em Brasília, o candango é, sem dúvida, o herói


principal. Embora a maioria deles ganhem a miséria que oscila entre 18 e 25
cruzeiros por hora, os construtores da cidade foram tomados de verdadeiro
entusiasmo com a sua entrega na data prevista.

195
0 capital da esperança

- Vamos rapaz, força. Olha que dia 21 é quinta-feira.


Frases como esta se tornaram comuns entre os candangos às vésperas da inaugu­
ração, uns estimulando os outros para assegurar um ritmo de trabalho até então
desconhecido no Brasil (NOVOS RUMOS, n9 61, 29 abr. a 5 maio 1960).

Durante todo o período da construção a premência de tempo consti-


tuiu-se como um fator naturalizador de uma série de irregularidades
trabalhistas (recordemos a classificação da jornada legal como ho­
rário burocrático). É um ex-diretor da Companhia Urbanizadora da
Nova Capital quem afirma:
Durante mais de três longos anos, a preocupação dominante de todos, sem
exceção, consistiu em dedicar um esforço sem limite, para entregar a cida­
de em condições de ser inaugurada a 21 de abril de 1960. Para atingir esse

Operários desfilam na inauguração da cidade. Foto: Mário Fontenelle


Capítulo 3 | O trabalho

objetivo era imprescindível que trabalhássemos como se cada hora fosse a


última hora concedida e a madrugada viesse iluminar o dia festivo da inau­
guração. Era necessário que abandonássemos os estilos normais de trabalho,
para que as vigílias e as prorrogações de horário se tornassem o trivial do ser­
viço. Era necessário que não fossem tomados em consideração o pó, a lama,
o frio, a soalheira, as intempéries, a fadiga e o desconforto. Não bastava que
cada um desempenhasse bem os seus encargos regulamentares. Era condição
de vitória que todos multiplicassem o esforço, para saldar, no vencimento,
o compromisso assumido com a Nação, levando, se preciso, seu entusiasmo
pelo trabalho e sua identificação com a obra até o limite crucial do próprio
sacrifício. Éramos verdadeiros escravos, MAS ESCRAVOS DE UM IDEAL
(SILVA, 1971, p. 11, grifos no original).

É a proximidade do término desse prazo, muito mais político do que


econômico, que desnuda totalmente o modelo:
A anunciada inauguração a 21 de abril, provocou o aceleramento no ritmo
dos trabalhos. É comum encontrar operários notadamente na chamada praça
dos Três Poderes, em atividade durante 20 e 30 horas seguidas {DIÁRIO DA
NOITE, São Paulo, 26 jan. 1960).

O prazo da construção, como parte do cotidiano, recoberto do sig­


nificado da inauguração de obra que “representava os anseios da
nacionalidade”, imbrica-se claramente com as formas econômicas de
exploração da força de trabalho, conforme se percebe também nas
formulações abaixo:

- Como os operários conseguiam ganhar salários mais altos?

- Isto porque, pela pressa, pela imposição do curto prazo contratual para a
entrega da obra, as empresas davam tudo por tarefa. E o operário chegava a
trabalhar 16, 18 horas por dia (juiz do trabalho).
Com essas hora, o Juscelino com a Redonda aí, firma que num tava güentan-
do tocar o serviço, a Redonda ia lá e tomava. Porque tinha que tocar e entre­
gar pra negorar [inaugurar]. A firma não güentava, então entrega. Entrega.
A Redonda toca (operário de manutenção de máquinas).

A assunção da ideologia de grande obra com os corolários que ela


implica custou um preço para quem dela participou. Este preço tanto
197
0 capital da esperança

pode ter sido tornar-se “escravo de um ideal”, ou seja, submeter-se


ao ritmo intenso do trabalho, quanto, anos mais tarde, descobrir que
estava construindo a “capital da ilusão”.
- Isso aqui é a capital não é da esperança, é da inlusão, mestre, até hoje, capi­
tal da inlusão. Então muita gente veio inludido...
- Qual era a ilusão que o pessoal tinha?
- A inlusão de ele esperar uma coisa, né, fazer Brasília, capital da República, né.

Ambigüidade jurídica
Como sabemos, para a construção de um grande projeto cria-se
uma grande companhia estatal. Na prática, esta companhia passa a
atuar como se fora o Estado no território, tal seu poder ante o po­
der local dos municípios, relativamente isolados, em que geralmente
ocorrem essas construções. Na Introdução, vimos como a ambigüi­
dade jurídica (rótulo que utilizamos para designar esta situação onde
a responsabilidade do Estado para com os habitantes na área, de
fato, é indefinida) teve várias implicações para os candangos. No
entanto, em termos da compreensão da sua eficácia como uma forma
cuja presença legitima ou aumenta a exploração da força de traba­
lho, o que mais chama a atenção é que, sendo uma obra federal, o
Estado tenha se deslocado fortemente para uma área isolada, trazen­
do consigo um poderoso órgão ligado ao Executivo, mas, em última
instância e de fato, tenha deixado ausentes os órgãos cujas funções
seriam mediar o conflito entre capital e trabalho (tanto do Executivo,
Ministério do Trabalho; quanto do Judiciário, Justiça do Trabalho).
O juiz do trabalho entrevistado, com sua larga experiência na região,
recoloca aspectos centrais da situação jurídica e aponta para a inten-
cionalidade desta ausência seletiva do Estado:
- O sr. acha que há omissão do Estado, do governo federal, dentro de uma
região para a qual havia sido discutido anteriormente se teria estatuto de ter­
ritório nacional?
- Você tá falando em omissão. Não. Não foi propriamente omissão. Foi talvez
uma deliberação de manter esse estado anômalo. Por exemplo, a lei não pede
que alguém trabalhe mais de dez horas por dia, eles trabalhavam 16 e 18. Só
isso é o bastante. E o governo queria que isso acontecesse.

198
Capítulo 3 | O trabalho

- Então era deliberado?


- É. Eu acho que era uma deliberação do governo em criar um estado sem
uma definição muito certa, nem muito rigorosa, entregando à Novacap, prati­
camente à própria Novacap a administração de todas as obras e a fiscalização
e deliberação sobre localização de acampamentos e mais. Tudo isso dependia
dela, né.[...] Não havia interesse da parte de ninguém, a não ser talvez do
operariado, por uma proteção legal e efetiva. Não só trabalhista, mas também
contra a polícia, contra o poder de polícia, as arbitrariedades que podiam
fazer. Porque, de certo modo, sem querer justificar nenhum ato arbitrário, a
situação era perigosa. Nós tínhamos aqui dezenas de milhares de operários,
vindos praticamente de todo o país, se houvesse um distúrbio, um tumulto
qualquer, não teria nenhuma força que pudesse conter. O objetivo único que
predominava sobre qualquer outra consideração era a construção rápida, no
prazo, da capital.

Assim, a aplicação da lei trabalhista na área da construção era, na


prática, totalmente inexistente e os empregadores estavam como que
liberados para explorar o operariado como bem entendessem:
Aos homens do Governo que estão à frente da construção de Brasília atri­
bui-se esta frase: a Justiça do Trabalho não deve atrapalhar a construção...
Em outras palavras: não deve haver limites para a exploração dos trabalhado­
res (NOVOS RUMOS, Rio de Janeiro, na 56, 25 a 31 mar. 1960).

Para alguns operários essa intencionalidade da ausência dos órgãos


incumbidos formalmente da proteção do trabalhador não passou
despercebida:
- E ninguém fiscalizava a obra?
- Ó, que fiscal! Tinha o quê, que fiscal o quê.
- E, por exemplo, não tinha nada do Ministério do Trabalho?
-Tinha o quê [enfaticamente]. Diantava nada. Faziam o que queriam; bagun­
çado (operário de manutenção de máquinas).
- Quais eram as maiores reclamações que os operários faziam?
- As reclamações variava, né, em torno de alimentação péssima... Então, ha­
via reclamações diversas, né, capataz sem capacidade de ter contato assim
com o operariado. Era muito hostil, né. Quer dizer tratavam o operário de
qualquer maneira.

199
0 capital da esperança

- E a Justiça do Trabalho?
- Estava em Goiânia, Delegacia do Trabalho e Justiça do Trabalho. Mas pou­
co podia fazer pelo operário nesse tempo. Porque a influência do administra­
tivo, do poder político era grande. O objetivo era construir Brasília e aquilo
podia se tornar um empecilho. Qualquer coisa que o operário tentasse reivin­
dicar era prejudicial às obras. Assim encaravam as empresas. Num era todas
as empresas, mas 90% assim, né (apontador).

Sindicalismo em um grande projeto


Os operários tomaram para si a tarefa de construir suas próprias
defesas. No tocante ao conflito direto com as companhias buscaram
a constituição da forma mais comum em outras situações concretas
- o sindicato - que nasce marcado pela experiência que alguns ope­
rários possuíam em lutas políticas e trabalhistas anteriores:

A necessidade de um organismo de defesa capaz de discutir e encaminhar os’


problemas operários, pouco a pouco foi ganhando força entre os trabalhado­
res. Alguns deles tinham experiência com sindicatos e ajudavam a impulsio­
nar a proposta de organização. A Associação Profissional dos Trabalhadores
nas Indústrias de Construção Civil e do Mobiliário de Planaltina, Luziânia
e Formosa, fundada em 27 de julho de 1958, foi resultado do esforço de um
grupo de operários, que se empenharam na tarefa de despertar os trabalhado­
res para a busca de alternativas face aos problemas vividos nos canteiros-de-
obra da cidade (BICALHO, 1978, p. 20).

A Associação passa, então, a trabalhar no território da constru­


ção, encontrando oposição à sua atuação. Obviamente um dos seus
primeiros objetivos foi a obtenção da carta sindical do Ministério
do Trabalho, o que aconteceu em julho de 1959 (BICALHO, op. cit.,
p. 22). Diante do reconhecimento das dificuldades e prejuízos causa­
dos aos trabalhadores pela ausência dos órgãos do Estado responsáveis
pela mediação do conflito entre capital e trabalho, um dos primeiros
itens presentes nas reivindicações sindicais foi justamente a criação
de uma Junta de Conciliação e Julgamento (NOVOS RUMOS, Rio
de Janeiro, nQ 56, de 25 a 31 mar. 1960; BICALHO, op.cit., p. 23).
Porém, os esforços do Sindicato foram em grande medida ineficazes.
200
r

Capítulo 3 | 0 trabalho

A Junta, de fato, só passa a operar após a inauguração da cidade, o


que por si só já determinaria sua criação, pois a nova cidade tratava-
se da capital federal. A criação do Distrito Federal tornaria a vigên­
cia da ambigüidade jurídica inexplicável.

Operários na construção do Congresso Nacional (novembro de 1958)

A capacidade de mobilização da entidade no período não parece tèr


sido muito grande. Em parte estava a eficácia do fetichismo do salá­
rio: a quantidade excepcional de horas extras que se podia trabalhar
fazia com que a grande maioria dos trabalhadores recebesse acima
do salário mínimo. Por outro lado, estava a repressão à atividade po­
lítica dos trabalhadores no território da construção. A reivindicação
por maiores salários não encontrava muito eco entre os operários,
visto as baixas freqüências das assembléias da categoria marcadas
para tratar deste e outros assuntos (BICALHO, 1978, p. 20), assim
como a ausência de maiores referências a lutas concretas no período,

201
0 capital da esperança

tendo o salário por objeto. Eis o que informam operários que tive­
ram experiência sindical na época:

Houve necessidade de organizar um sindicato devido às arbitrariedades das


empresas, né? Não havia fiscalização. Eu cheguei até ser do sindicato como
delegado sindical uma temporada. Era permitida a entrada nas obra pra ve­
rificar se havia alguma irregularidade. Mas a gente não tinha condições de
fazer nada. A hostilidade dos capataz ou dos engenheiros da empresa era
grande, né? Prejudicava um pouco o ritmo do trabalho e Juscelino não ficou
satisfeito com a fundação do sindicato, como o Israel Pinheiro. Eles torna­
ram até hostil, assim, às pessoas ligadas ao sindicato. Sabia que o sindicato
geralmente defende os direitos dos trabalhadores e nessa altura prejudicava
o ritmo de trabalho de Brasília, porque havia muita arbitrariedade, né, nas
empresas. A gente não tinha a força mínima. Era uma verdadeira desilusão.
Só encontrava hostilidade da parte das empresas, quando se identificava, que
podia entrar dentro daquela obra, que os canteiros da obra era fechado ali, ou
com vigia na porta. Já a recepção desde o vigia já não era muito boa, né, para
que a gente verificasse, perguntasse algum operário sobre alimentação, sobre
o trabalho, se tavam pagando as horas extras direito, qualquer coisa. E a GEB
sempre estava por perto. Eles telefonavam, de imediato aparecia dois ou três
policiais da GEB e eles ficavam às vezes na porta da empresa, demonstrando
que a empresa tava em segurança. Era isso que a gente tinha (apontador).

- Eu quando fui pra Brasília já tinha minha consciência política formada.


Por isso eu ajudei a fazer lá em Brasília o sindicato da construção. Quando eu
cheguei já tava formada a Associação. Naquela época não existia Justiça do
Trabalho lá, se encaminhava pra promotoria em Planaltina.

- E o sindicato era forte?


- Não existia uma necessidade do cidadão conhecer o sindicato, né. Num
era muito procurado. Existia um sindicato grande, mas não era assim... não
existia muito trabalho para o sindicato.
- Isso é porque, como o sr. tava falando antes, o operário não sentia
necessidade...
- Porque ele tava trabalhando mais em obras do governo. E o pagamento ele
recebia uma quantidade que ele achava razoavelmente que tava bem, pelo que
ele ganhava no seu estado de origem. Ele achava que ganhava muito bem.
E tava todo mundo naquela ilusão, achando que o negócio tava bom. Mas

202
Capítulo 3 | O trabalho

depois da mudança (da capital) aí que terminou as obras oficiais, obras do


Estado, obras do governo. E então passou a surgir o desemprego e uma sé­
rie de coisas, aí o sindicato teve que atuar (pedreiro, entrevista realizada em
Anápolis, GO).

Canteiro de obras da Superquadra Sul 108, em 1958. Foto: Mário Fontenelle

Expostos à exploração inusitada da força de trabalho, os operários


da construção civil dispõem, então, em um território juridicamente
indefinido, de uma entidade de defesa da categoria obstaculizada
na sua prática. Está, também, a “ilusão” de que fala o pedreiro,
composta tanto pelo fato de os trabalhadores receberem salários re­
lativamente mais altos, quanto pela eficácia da ideologia de grande
obra própria à construção de Brasília. Eventualmente, poder-se-ia
supor uma atuação não muito eficiente das lideranças sindicais. Não
obstante, há que se remarcar que a associação surge apenas em ju­
lho de 1958, isto é mais ou menos um ano e meio após o início

203
0 capital da esperança

dos trabalhos, e transforma-se em sindicato em julho de 1959 (quase


dois anos e meio decorridos do começo das obras) quando faltavam
apenas cerca de nove meses para a inauguração da cidade. Neste
contexto, a atuação sindical foi a tal ponto limitada que para vários
trabalhadores o sindicato não existia ou não tinha função alguma:
- E o sindicato não atuava?
- O sindicato não existia aqui. O sindicato mais próximo que existia aqui era
em Belo Horizonte (carpinteiro).
- Mas ninguém falava em sindicato aqui?
- Não. No começo não. Depois é que pegaram a falar. Depois começou lá
no Bandeirante que ia começar o sindicato lá. Mas eu e muitos aí nem num
mexeu com isso.
— Não fazia falta não?
- Fazia não. Aí começou com, passou uns três ano para começar a apare­
cer sindicato aqui. Naquele tempo não precisava não [ri]. Corria tudo bem
(servente).
— E nessa época como era a questão assim de sindicato?
— Naquela época nem se falava, você só queria era trabalhar. Trabalhar, co­
mer e pronto... Mandar dinheiro pra família. Isso que a gente queria fazer.
Nada de... Num teve esse problema (capataz de arrebite).

Na história do sindicato dos trabalhadores na construção civil de


Brasília parece haver apenas um fato mais marcante no período
anterior à inauguração que é o encaminhamento pela entidade de
denúncias e protestos relativos aos sangrentos acontecimentos ocor­
ridos no acampamento da Construtora Pacheco Fernandes Dantas,
em fevereiro de 1959 (BICALHO, 1978, p. 20-21). Veremos no pró­
ximo capítulo este episódio que ficou conhecido como o massacre da
Pacheco. Sobre este assunto informou-nos um pedreiro:

Aí o sindicato assumiu exigindo a punição dos culpados, né. Fizemo uma


grande assembléia com os funcionários da Pacheco. O sindicato exigindo res­
peito para a vida humana, respeito ao ser humano. Exigia também punição
dos culpados, abrir comissão de inquérito, apurar. Mas ficou mais na propa­
ganda porque naquele tempo num tinha juiz, era lá em Planaltina, juiz tinha
lá em Planaltina, então não tinha assim jeito de ocê... era só o protesto, né.

204
Capítulo 3 | 0 trabalho

Mas, em 1960, a questão salarial tornou-se foco mobilizador dos


operários, sobretudo pela passagem do território da construção à
condição de Distrito Federal, o que implicava, entre outras coisas, o
direito de ser o maior salário mínimo do país e, também, pela pro­
gressiva desmobilização da grande obra, surgindo, assim, um acen­
tuado e crescente desemprego. O sindicato assumiu, então, papel
preponderante. A equiparação do salário mínimo vigente antes de
21 de abril de 1960 com aquele que vigorava no Rio de Janeiro (já en­
tão ex-capital federal) tornou-se, até novembro de 1960, quando se
conquistou este direito, um motor capaz de aumentar sensivelmente
a freqüência das assembléias sindicais (ver BICALHO, op.cit., p. 26
e seguintes). As atas do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias
da Construção e do Mobiliário de Brasília (Sticmb), por mim pes­
quisadas, indicavam, para o período, uma visível tendência de cres­
cimento da freqüência nas reuniões. Vejamos. Em 31 de julho de
1960, registrava-se na pauta proposta de extensão do salário míni­
mo do Rio de Janeiro para Brasília, presentes 295 associados. Em 9
de outubro, para uma reunião de discussão de assuntos burocráti­
cos, havia 17 presentes. Em 30 de outubro, uma Assembléia-Geral
Extraordinária, convocada para saber a posição dos trabalhadores
de Brasília ante a decretação de novos níveis do salário mínimo, teve
presente 259 associados e cerca de 2 mil assinantes. Em 6 de novem­
bro, estavam presentes 141 associados e mais a assistência de cerca
de 3 mil trabalhadores que discutiram as medidas a serem adotadas
ante a resposta que o governo desse ao pedido do novo mínimo. Nesta
assembléia criticou-se o último resquício de manipulação da ambi­
güidade jurídica de Brasília: a afirmação do Ministro do Trabalho
de que Brasília estava ligada a Goiás para efeito do salário mínimo.
A assembléia decidiu, ainda, entre outras coisas, aprovar a proposta
de constituição de Comissão de Greve que seria deflagrada no dia
11 de novembro, caso o governo não respondesse aos operários a
contento. A greve não chegou a ser realizada. Mas comícios sucede­
ram-se e uma passeata decidida nesta mesma assembléia para o dia
10 de novembro foi realizada na Esplanada dos Ministérios. A mo­
bilização conseguida levou à vitória da reivindicação. Porém, em 27
de novembro de 1960 a primeira assembléia, convocada após o êxito
conseguido, apresentou uma freqüência no total bastante inferior: 117
associados mais a assistência de 400 trabalhadores. A vitória desse

205
0 capital da esperança
movimento reivindicativo parece ter selado, para os trabalhadores
da construção civil, o término da vigência da ambigüidade jurídica
tal qual acontecia antes de abril de 1960.

Em suma, o fato de o Estado criar uma gigantesca companhia fede­


ral para administrar a grande obra criou uma série de especificidades
que refletiam no cotidiano da população engajada nos trabalhos. Ao
tornar-se de fato o Estado no território da construção, a Novacap,
por sua própria condição de companhia diretamente interessada no
andamento dos trabalhos, acaba por favorecer, propositadamente ou
não, uma situação em que a população trabalhadora está pratica­
mente à mercê do ritmo intenso de trabalho, o qual visa a obedecer
cronogramas estabelecidos pela própria companhia governamental.
A ausência de atribuições de responsabilidade formais e legais extra-
âmbito da companhia estatal (por omissão, por deliberação ou por
insuficiência de recursos) é a matéria-prima da insegurança da popu­
lação do território da construção, no sentido mais amplo, variando
de questões policiais até trabalhistas. O controle era efetivamente
desempenhado por uma polícia subordinada à própria Novacap que
atuava também no controle político do operariado. Já vimos, segun­
do o relato de um ex-delegado sindical, que a GEB era requisitada
para “garantir a segurança dos canteiros” quando ele realizava visi­
tas às obras. No próximo capítulo, descrevo a atuação desta polícia
em acontecimentos como “invasões” de áreas e rebeliões vinculadas
à má alimentação. O controle político do operariado era feito tam­
bém por uma cooperação entre vigias dos acampamentos e a Guarda
Especial de Brasília:
)
Então o mês atrasou o pagamento e o pessoal resolveu parar o serviço pra for­
çar o pagamento sair, né. Aí, que eles fizeram? Eles procuraram localizar mais
ou menos os líderes daquele movimento e no outro dia a polícia veio e pegou
todo mundo. Prendeu todo mundo, puseram no avião e levaram. Prendeu,
acertaram com os cara, pagaram e puseram no avião. Tinha muita gente que
era do Rio, eles puseram no avião.

- E a polícia das construtoras também fazia isso?

206
Capítulo 3 | O trabalho

- Não, não. Apenas entregava. Eles não lutavam com ninguém. Quando a
polícia chegavam, falava: é aquele, aquele, aqueles conhecidos (pedreiro).

No que concerne às infrações à legislação trabalhista, as burlas não


encontraram maiores empecilhos e quando surgiu uma organização
operária para tentar coibir os abusos, defrontou-se tanto com o po­
der da mais interessada no cumprimento das obras - a companhia
governamental - quanto com a ausência no território de órgãos capa­
citados a encaminhar e solucionar por vias legais os impasses resul­
tantes do conflito entre capital e trabalho. A ambigüidade jurídica,
pela ausência de maiores fiscalizações que implicava e pela presença
de um grande controle sobre o operariado, constituía uma forma
que legitimava e ou aumentava a exploração da força de trabalho,
de extrema valia para a construção de um grande projeto, já que
praticamente acabava por liberar às companhias o exercício de uma
dominação extremada em todas as esferas.
Mas os conflitos obviamente existiram. Dada a eficácia do fetiche do
salário com a abundância de horas extras, os conflitos no período
não passavam pela questão salarial. Vinculavam-se, basicamente, às
condições de vida a que estavam sujeitos os trabalhadores. Eles são
objeto do capítulo seguinte.

207
Capítulo 4 | Os conflitos

“Duas coisas que não faltaram na construção de Brasília: foi sangue e menti­
ra” (depoimento de um operário, JORNAL DE BRASÍLIA, 20 e 21 abr.
1980).

As questões centrais relativas às condições de reprodução da vida


cotidiana com que se defrontavam os trabalhadores, e que acabaram
implicando diversos conflitos, diziam respeito ao lazer, à alimenta­
ção e à habitação. A elas correspondiam certas formas de reação
que, para efeito de exposição, ordenei em um crescendo de intensi­
dade dos conflitos envolvidos: do lazer para a alimentação e, enfim,
a habitação. Este crescendo exprimiu-se tanto em termos de quan­
tidade como de qualidade. Isto é, implicou, progressivamente o en­
volvimento de um maior número de pessoas, ao mesmo tempo que
correspondeu, politicamente, a formas de reação e organização mais
nítidas. Assim, houve um crescimento do número de interessados em
cada questão, levando a ações cada vez mais coletivas e organiza­
das. De reações individuais localizadas a confrontos específicos com
a Guarda Especial de Brasília (GEB) passou-se a reações coletivas,
fruto de solidariedade coletiva - construída pela vivência de uma
mesma situação e ou de interesses comuns - e que acabaram expres­
sas em formas também coletivas de confronto com os representan­
tes da dominação vivenciada pelo operariado. Chegou-se, enfim, a
formas claramente coletivas, organizadas, com lideranças, contando
com a participação e ou intervenção de políticos. Situações em que
os trabalhadores confrontaram politicamente o Estado e obtiveram
resultados para suas ações por meio de canais políticos. Esclareço,
de início, que é a polícia a representante mais freqüente do Estado
nos diversos conflitos.

Lazer

“A diversão daqui é beber cachaça. Era beber cachaça e depois ficar brabo”
(servente).

Como vimos, a demanda por trabalho na construção de Brasília


era tamanha que o tempo livre para os trabalhadores era quase ine­
xistente. Em um território no qual se constrói um grande projeto,

211
0 capital da esperança

provavelmente uma das questões menos conjeturadas por parte de


quem controla e administra o trabalho refira-se ao lazer. Pensar no
lazer dos trabalhadores só se torna uma questão quando sua ausên­
cia torna-se um problema com reflexos na produção, na ordem e na
disciplina que ela requer. Para uma população majoritariamente de­
dicada à mesma atividade produtiva e sujeita à escassez de uma série
de bens e serviços, a organização da vida cotidiana passa a impor
algumas estratégias que geralmente não são consideradas em outras
situações.
Em um grande projeto, as atividades de lazer não comunitárias estão
comumente vinculadas ao consumo de mercadorias (álcool e filmes)
ou de serviços sexuais (prostitutas). É claro que para ter acesso a
esses tipos de lazer, é preciso dinheiro. Todo trabalhador obtém di­
nheiro mediante salário. O dia do pagamento torna-se o momento
ideal para o consumo de mercadorias e serviços, inclusive, lazer. No
território da construção de Brasília, pagar uma grande quantidade
de trabalhadores no mesmo dia podia acarretar problemas de certo
modo inusitados em outros locais:

Brasília era um troço, um troço espetacular. Você chegava por exemplo, fim
do mês ali pro dia dez, dia dez era dia do pagamento ... sempre eles num fa­
ziam pagamento no mesmo dia. Quando uma pagava hoje, a outra pagava daí
a dois, três dias.

- Por que era assim?


- Tava ocorrendo, vamo dizer, o seguinte: aí todo que tava com dinheiro
vinha ao centro comercial que era a Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante.
Então teve uma vez lá que duas companhias fez pagamento no mesmo dia,
a Quadrada e a Triângulo. Pagaram no mesmo dia, um dia de sábado pra
domingo. Então eu vim pra Cidade Livre, eu vim mandar dinheiro pra casa.
Você chegava na Cidade Livre não achava um bar, um banco procê sentar e
tomar um refrigerante. Tava assim de gente: hôme, hôme. Só via hôme, hôme.
Parecia festa. Aí também bebia. Também aí tinha zona de meretrício. Incrível!
Saía todo dia lá um com a cara quebrada (pedreiro).

Diante da desproporção entre os serviços prestados e seus consumi­


dores, havia que procurar certo equilíbrio. Uma maneira de contro­
lar o problema foi a alternância dos dias de pagamento. A escassez
Capítulo 4 | Os conflitos

de tempo livre implicava os trabalhadores maximizarem os pequenos


intervalos de tempo que não eram utilizados imediatamente para o
repouso. Assim, acorriam maciçamente para os locais onde podiam
encontrar o lazer possível. No entanto, para estes pequenos interva­
los de tempo existiam parcas opções. Afora a zona de prostituição,
a qual era mais que uma opção de lazer, restavam apenas algumas
sessões de cinema na Cidade Livre (alguns acampamentos também
dispunham de pequenos auditórios e clubes), jogos de futebol, bara­
lho e a proibida e reprimida cachaça.

No fim de semana dependia muito do espírito da pessoa. Uns saíam por essas
cidades passeando, outros arrumando o quarto, passando a roupa, escreven­
do pros familiares. Aí dependia muito do espírito da pessoa. Diversão aqui
era muito mínima. Diversão aqui era aquela zona no Núcleo Bandeirante ou
então um cineminha. Aqui o cara ou tinha que fazer isso ou tinha que tá tra­
balhando. Às veze existia um timinho de pelada (operador de máquina).

Olha, ele não tinha pra onde ir. Então ele saía, aquela turma de cinco, seis pra
não ir menos, com medo, eles iam pra Vila Planalto ou ia pra Cidade Livre.
Mas, chegava lá, não encontrava nada que ele queria procurar, ele comprava
às vez uma calça, um calçado... e encostava logo direto num bar. A diversão
daqui sempre foi o boteco. Não tinha um lugar onde você fosse pescar, não
tinha uma bica pra você tomar um banho, uma cachoeira... Não tinha... você
parava assim, pensava, pra onde é que eu vou meu Deus? Nós vamo ali em tal
parte. Vamo tomar uma cerveja. Aí saía, era oito amigo, seis, né? Cada um
pagava duas, quando saía dali já tinha tomado praticamente umas dezesseis
garrafas de cerveja. Aí depois, não tinha ninguém bebo, tomava cada um uma
cachaça em cima. V’ambora. Aí saía (servente).

A proibição formal da cachaça dentro do acampamento ou a repres­


são ao seu uso durante o dia de trabalho engendraram formas de
disfarçar o seu tráfico e consumo. Nos acampamentos, como já men­
cionado no Capítulo 1, podia-se fazer entrar garrafas por meio de
algum operário graduado que não fosse sujeito a revistas na guarita
de entrada. Já durante a jornada de trabalho, o disfarce do consumo
podia ser feito tomando-se a bebida como se fosse cafezinho, nas
pequenas tendas que se instalavam ao lado dos canteiros de obras:

213
0 cinema era uma das poucas opções de lazer. Cidade Livre (setembro de 1959)

- Tomava cachaça como?


- Numa xícara. Chegava, pedia um cafezinho numa barraquinha dessas ali
pegado nos ministérios. Aí a gente gostava de uma pinga e dizia: bote um
cafezinho. E aí já sabia: quando pedia cafezinho era uma pinga, pingava lá a
pinga (servente).

Na pesquisa encontrei várias manchetes como as seguintes: “Tiroteios


e assaltos impedem que famílias morem em Brasília. A cachaça ven­
dida em Brasília provoca cenas do oeste americano” (TRIBUNA DA
'i
IMPRENSA, Rio de Janeiro, 2 jun. 1958); “Farwest em Brasília, ca­
pital do crime! Torrente de sangue e cachaça” (A HORA, São Paulo,
14 jun. 1958, idem). De fato, a bebida alcoólica tornou-se uma fonte
constante de conflitos entre os operários, entre estes e a polícia, cuja
atuação cotidiana revelava suas violentas facetas:
Porque muitos iam pra Cidade Livre e quando vinha pra esses alojamento
aqui, já vinham bebo, já vinham fazendo desorde. Aí a polícia dava voz de
prisão, ele não queria se render...

214
Capítulo 4 | Os conflitos

- E não podia beber não?

- Nada, podia beber, mas não esculhambar. Isso aqui tinha orde. Era difícil
haver uma briga. Mas aqui tinha um quartel bem ali de junto do Tamboril pra
frente ali. Ali tinha um quartel. Que eu trabalhava pertinho dele ouvia era os
berro de noite. Que era os nego na chibata (servente).

Ele [um amigo] tava lá no bar do Maracangaia tomando umas pinga lá. E a
polícia quando via o sujeito bebendo num lugar, a própria polícia, essa polícia
pegada a laço aí, insurtava o cara. Ela merma caçava com que fazer encrenca
com o sujeito, né? E ele era um cara forte, um sujeito disposto, né, e tinha um
poliça de cara chupadinha assim ó ... um branquinho, e era o mais invocado
que tinha aí dentro do Núcleo Bandeirante que ficava ali, né. Invocou com ele,
ele pegou o soldadinho e bateu. E ele tinha um colega, e aí veio mais um poliça
pra ajudar a bater nele, no tar do Severino, chamava Severino, o baiano, né?
Mas o baiano não era brincadeira não. Aí ele pegou esse sordadinho e deu
uma pisa. Deu um bocado de tapa nele e veio outro sordado e o companheiro
dele, do Severino, juntaram os dois no poliça e pegaram o poliça e deram
bastante no poliça. Aí eles correram lá na Novacap e chamaram o capitão pra
mode de vir com a poliça pra prender eles, né?

- Dona Maria: Não, mas você pode crer que as polícia daqui, quando aconte­
cia isso era igualzinho quando tinha um Judas na rua, sabe? Juntava a polícia
todinha pra bater. Então nós forno lá na rua, pegamo o colega nosso truxemo
pra casa e trancamo dentro de um quarto. A polícia quebrou a janela e entrou
pra dentro, sabe? Entrou pra dentro e tirou o rapaz e bateu demais nele, sabe?
Judiaram demais das pessoas. Então aqui era... aqui não tinha lei não. Aqui
era... só o que tinha era covardia terrível. Poliça mais covarde que teve, que
existe no mundo foi essa que começou aqui (carpinteiro e esposa).

Aqui às vez havia uma briguinha, um matava outro, quando embebedava.


Mas aqui tinha orde da polícia. Tinha orde. A orde aqui era severa, aqui num
tinha tudo não. A polícia era dura. O nego que fosse valente apagavam logo.
Num tinha esse negócio não (servente).

A violência da atuação da Guarda Especial de Brasília já foi con­


siderada na Introdução deste livro. No tocante exclusivamente à
atuação da GEB na repressão ao lazer operário, podemos perceber
pelos depoimentos anteriores que os conflitos eram, em geral, per­
sonalizados, particularizados. Isto é, normalmente se davam entre
215
0 capital da esperança

um indivíduo e a polícia. Tinham como motivo inicial a cachaça


ou seu abuso em locais que potencialmente eram propícios para o
surgimento de conflitos, como bares e casas de meretrício. Assim, a
repressão ao lazer, por acontecer de forma particularizada e envol­
vendo acontecimentos que muitas vezes eram mal vistos por signi-
ficante parcela do operariado (a embriaguez, a prostituição e seus
conflitos), não chegava a despertar entre os trabalhadores, malgrado
toda a percepção da violência, um esprit de corps, uma solidariedade
que permitisse uma união para colocar limites na atuação policial.
A solidariedade que existia era também personalizada. Passava, por­
tanto, muito mais por relações pessoais que eram mantidas com a
vítima do que por uma posição tomada a respeito da qualidade da
repressão como um todo. Isso pode ser visto claramente no caso do
trabalhador que após luta corporal com alguns policiais é escondido
na residência de amigos para ser, logo em seguida, encontrado pela
polícia e violentamente espancado.
Para finalizar este tópico, sublinhemos que a utilização por parte do
operário do tempo de não-trabalho como tempo de lazer não entra
necessariamente nos cálculos dos capitalistas individuais como algo
necessário para a manutenção e reprodução da força de trabalho.
Isto é ainda mais visível quando se trata de utilizar uma força de tra­
balho por um período definido a priori, em uma situação tão especí­
fica quanto a de um território de construção de um grande projeto no
qual, para se oferecer maiores prestações de serviços, são necessários
grandes investimentos. Assim, faz sentido que o lazer tenha sido re­
legado a segundo plano, uma vez que não tem um peso determinante
para a manutenção da força de trabalho que está sendo utilizada no
processo produtivo de um grande projeto. Isto já não acontece com
a alimentação e a habitação. Sem comer não se pode trabalhar. Sem
morar, tampouco.

216
Q
Capítulo 4 | Os conflitos
D
Alimentação

CARNE EM BRASÍLIA se tornou um privilégio de poucos. CÃES DE RICO


PASSAM MELHOR QUE OPERÁRIO EM BRASÍLIA. (A TRIBUNA,
Núcleo Bandeirante, 8 nov. 1959, grifos no original).

Uma questão das mais prementes na implantação e desenvolvimen­


to de um grande projeto é prover alimentação para as milhares de
pessoas que acorrem à área. Surge, quase repentinamente, uma grande
concentração populacional em lugares que praticamente se dedicavam
à agricultura de subsistência. Assim, de imediato não se pode esperar
que a produção agrícola próxima às obras dê conta do provimento
de uma grande quantidade de alimentos para responder à demanda
súbita e inesperada. Some-se a isto o relativo isolamento do território
da construção, sobretudo nos momentos iniciais, o que faz com que o
transporte aéreo torne-se imprescindível. Vemos que o abastecimen­
to da área é bastante problemático. As soluções são as mais diver­
sas. Desde deixar em livre curso a atuação dos comerciantes (como na
instalação da Cidade Livre) até o estabelecimento de grandes restau­
rantes coletivos mantidos pelo governo, como o restaurante do SAPS
(Serviço de Alimentação da Previdência Social), no acampamento da
Novacap, que atendeu milhares de trabalhadores a preços razoáveis.

Restaurante do SAPS i
0 capital da esperança

Instalado em 26 de dezembro de 1956 e oficialmente inaugurado em


21 de fevereiro de 1957, o restaurante fornecia uma média diária de
1,2 mil refeições (cf. DIÁRIO DE BRASÍLIA, 1956/1957, nas datas
respectivas). Em setembro ou outubro de 1958 foi inaugurado um
outro “novo e moderno restaurante do SAPS” (A TRIBUNA, Núcleo
Bandeirante, 2 out. 1958):

O SAPS também é uma coisa que interessa contar, porque aquilo foi a maior
mãe do povo, né. Era pequenininho, um galpão pequeno, aqueles bandejão,
a refeição era pequenininha, quer dizer era as bandeja grande, e a refeição o
preço que era quase nada, era uma mixaria que a gente pagava. Não sei nem
explicar o tanto que a gente pagava de pouco que era. Depois a gente adquiria
aqueles talãozinho da própria Novacap que pagava aquela refeição e descon­
tava no fim do mês (servente).

O primeiro SAPS era pequeno. A gente tinha que comprar uma ficha no es­
critório. Por mês. Almoçava com uma ficha e dava outra na janta. Era em
bandeja. Aí tinha briga na entrada era aquela confusão danada. Aí entrou um
tal de Dr. ... e acabou com esse SAPS velho. Fez um SAPS automático. Panela
de esmalte. Panela de feijão, de arroz. Descascador de batata. Na inauguração
do SAPS Juscelino foi lá inaugurar o SAPS novo. Descia por um lado, subia
pelo outro. Aquilo tudo na maior harmonia. Comia tanta gente. Tinha dia
que a fila ia lá no Bandeirante. Tinha briga na fila. No SAPS o doutor dizia: o
que não se comportar aqui eu mando prender. A comida era boa: batatinha,
carne, arroz, feijão, macarrão, carne de porco. Ainda podia repetir. Agora no
SAPS velho era duro. Saía muita briga porque era apertado e os nego tinha
horário, aí começava a briga. Vinha a GEB e acabava (carpinteiro).

É claro que o restaurante do SAPS não solucionava totalmente a


questão da alimentação, tudo indica que ele era prioritariamente di­
recionado aos funcionários e trabalhadores da Novacap. Para aqueles
trabalhadores que não estavam vinculados a uma companhia (uma
relativa minoria), com seu acampamento e respectiva cantina, resta­
vam os restaurantes da Cidade Livre - que cobravam preços muitas
vezes inacessíveis para o orçamento operário - e as pensões. Afora
isso, mais como uma estratégia de complementação de refeições mal
feitas ou de substituição das que não puderam ser realizadas por
constrangimentos advindos da esfera da produção (participação em
218
No restaurante do SAPS

viradas, sobretudo) restava ao operário lançar mão das pequenas


barracas que se instalavam ao lado dos canteiros e vendiam café,
bolo e alimentos semelhantes:

Tomava muito era café, né. Café com... aqueles donos de boteco, eu punha
água pra fora pros donos de boteco e eles me dava café com pedaço de bolo...
eles me dava de graça. Porque num tinha água praquele povo de boteco ali por
fora, que eles morava todo naqueles barraquinho. Eu botava a mangueira por
fora ali pra eles encher água pra eles, né. Aí eu gritava um café lá, eles ia lá e
pronto me arrumava café e um bolo e num cobrava não. Eu tinha cooperação,
eu sei conviver com o povo, né? [...] Aí é aonde eu alimentava um pouco era
com bolo. Era desse jeito (operário de manutenção de máquinas).

Mas as cantinas dos acampamentos eram a solução mais utilizada


para a alimentação dos operários. Comumente todo acampamen­
to possuía uma cantina. O que variava era a qualidade da comi­
da. Geralmente as cantinas eram arrendadas a empreiteiros pelas
companhias que descontavam do salário do trabalhador a quantia

219
0 capital da esperança

equivalente ao número de refeições feitas no período. Em alguns


acampamentos, as cantinas tinham separações especiais que obede­
ciam à lógica da hierarquia da construção civil. Existiam basicamen­
te duas grandes divisões: uma parte onde comiam os serventes e ou­
tra onde comiam profissionais, encarregados, etc. A comida servida
em cada seção podia ser de qualidade distinta.
Freqüentemente, na cantina, vários conflitos surgiam e se desenvol­
viam. Grande parte deles era provocada pela má qualidade da comida
apresentada aos operários, objeto de matérias nos jornais de então:

Passam fome os trabalhadores em Brasília - Esteve em nossa redação o carpin­


teiro Pedro Ignácio da Silva, que nos relatou que foi contratado para trabalhar
em Brasília pela firma norte-americana “Planalto”, como carpinteiro ganhan­
do um salário de Cr$ 27,00 por hora. Entretanto, foi obrigado a regressar
porque a aludida empresa fornece nas refeições apenas feijão com arroz e sem
sal. Acrescentou o referido carpinteiro que as demais empresas procedem da
mesma maneira e cobram pelas refeições Cr$ 900,00 mensais. Por este mo­
tivo, muitos trabalhadores vão regressar de Brasília pois não agüentam mais
passar fome (IMPRENSA POPULAR, Rio de Janeiro, 15 mar. 1958).

Operário come o pão que o diabo amassou - [...] Operários da Companhia


Saturnino de Brito, a responsável pelo Serviço de Águas e Esgotos de Brasília,
de longa data vinham se queixando da comida servida pela cantina daque­
la companhia. Dia 2 foi nos exibida uma imunda e pequena “MARMITA”
dentro da qual só existia (POUCO FEIJÃO E ARROZ) (sic). O aspecto era
repugnante, sem sal, sem gordura e sem tempero, sendo ainda de péssima
qualidade. Um absurdo, simplesmente, um abuso. Nós que pudemos ver a
dura e revoltante realidade, não sabemos como pode um homem trabalhar
DOZE HORAS DIÁRIAS, com alimentação de tal categoria. Quanto a carne
nem ao menos é bom pensar. CARNE EM BRASÍLIA se tornou um privilé­
gio de poucos. CÃES DE RICO PASSAM MELHOR QUE OPERÁRIO EM
BRASÍLIA: o conteúdo daquela marmita se destinava a um operário e era
denominada (sic) de refeição. Absolutamente não concordamos com tal apeli­
do, aquilo bem poderia se chamar LAVAGEM PARA PORCOS, pois cães de
rico não a comeríam (A TRIBUNA, Núcleo Bandeirante, 8 nov. 1959, grifos
no original).

220
Talvez o exemplo extremo de total desrespeito à alimentação dos
operários tenha sido dado por este lubrificador de máquinas:

Até a porca morta que pariu aí eles mataram e puseram o peão pra comer. Os
leitão foi pra sabão, né. Carne, do jeito que caía no chão eles jogava dentro do
tacho para cozinhar.

O fato da exploração das cantinas estar em mãos de empreiteiros


que faziam o seu investimento e tinham a alimentação como fonte de
renda, foi a causa da oferta, à mesa dos trabalhadores, de alimentos
em condições inadequadas. Tradicionalmente, a cantina é fonte de
insatisfação, pois nela perdura a exploração sobre a-alimentação dos
operários (cf. BICALHO, 1978, p. 123). Nos grandes projetos, ele­
mentos típicos da exploração do setor da construção civil chegam ao
paroxismo. Neles a cantina é a solução responsável pela alimentação
de grande parte da população trabalhadora. Assim, os conflitos que
ocorrem nas cantinas adquirem caráter fundamental para o entendi­
mento das relações que se dão no território da construção.

221
0 capital da esperança

O horário de funcionamento e atendimento da cantina estava, como,


mencionado no segundo capítulo, imediatamente ligado às necessi­
dades determinadas pela atividade produtiva. Algumas delas eram
administradas durante as 24 horas do dia quando se revezavam duas
ou três turmas para realizar os trabalhos necessários à manutenção
das instalações e à produção dos alimentos. As refeições eram ofe­
recidas tentando ajustar o horário de saída de turmas de operários
que chegavam do trabalho ao número disponível de lugares e uten­
sílios necessários à alimentação. O ajuste nem sempre funcionava a
contento. Proliferavam as grandes filas que deixavam trabalhadores
famintos e cansados, por um período estafante de trabalho, expos­
tos ao sol e à poeira por algum tempo. A própria fila de espera já
representava um fator negativo a se somar à grande lotação da can­
tina e à péssima qualidade da comida. Assim, já fora da cantina, ao
longo das filas, conflitos surgem e têm um contexto propício para
se desenvolverem dado o desconforto de estar de estômago vazio ao
sol, ou a pressa (advinda da subordinação do horário da cantina ao
horário da produção nas obras) de almoçar para retornar ao traba­
lho em tempo de ‘picar’ seu cartão na hora devida. A dificuldade de
utilizar os serviços prestados pelas cantinas podia ser tamanha que
individualmente o operário podia optar por não usá-los:

Muitas vezes eu não ia almoçar não. De manhã cedo quando saía, pegava
três pães enchia de manteiga, pegava marmelada e na hora do almoço comia.
Pra vir almoçar tinha que enfrentar a poeira dos caminhões, que a gente nem
via os caminhões, só via a nuvem de poeira. Depois quando chegava, tinha
uma fila enorme de peão para entrar na cantina e debaixo daquele sol forte.
Às vezes dava confusão, briga ... Aí eu preferia levar pão pra comer na obra e
ficar direto (carpinteiro).

A chegada na cantina, quando desciam dezenas de operários dos


transportes, podia ser palco de incidentes graves:

Quase num morreu dois aí, pra pegar cantina, porque com pressa de comi­
da chegava aquela tourada danada, e esses dois pularam de um caminhão e
outro de um ônibus. Caíram e quase morreram (operário de manutenção de
máquinas).

222
Cantina no canteiro da Superquadra Sul 108 (maio de 1958). Foto: Mário Fontenelle

O ajustamento do horário das atividades das cantinas e a sua subor­


dinação às necessidades advindas da esfera da produção aparecem
claramente, como relatado no Capítulo 2, durante a realização de
viradas. Nestes momentos, os alimentos produzidos eram transpor­
tados em grande quantidade até os locais de trabalho para não in­
terromper o ritmo da produção com o deslocamento dos operários
até a cantina. Vejamos o que informa, sobre a prática de produção
e distribuição de alimentos da Redonda, um servente que trabalhou
em uma cantina:

Cinco horas da manhã começava o café. Café, pão e manteiga. De vez em


quando tinha leite. Porque leite era mais custoso. Só vinha leite enlatado. Ia
até sete horas o café. A turma que fazia virada tinha café pra eles toda hora.
E armoço no horário deles. Dez horas dava um armoço. Tinha a turma que
comia às 10 horas e outra às 11. Depois vinha os escriturário de meio-dia a
meio-dia e meia. O café dos escriturário era depois do peão que eles pegava
oito horas, né? A comida dos escriturário era feita em panela menor. O café
também. Eles eram pouco. A comida era a mesma mas feita de pouco. Jantar
tinha de quatro e seis horas da tarde em diante, que era a hora que picava

223
0 capital da esperança

cartão lá. Fora os que fazia virada que voltava depois do jantar. Aí de noite
ia café lá pra eles. Café com pão e manteiga. O peão tirava quanto pão ele
queria. Ia um mundo de pão, né. Aqueles latão. Enchia os caneco. Parava a
obra e enchia todo mundo pra tomar café em redor do caminhão. Ia bóia pra
todo canto onde o povo tivesse trabalhando. Porque os que não podia vir aí
ia a bóia. Na cantina a turma da noite ficava lavando a cantina que era muito
grande. Descascando verdura. Cozinhando feijão pro outro dia. Ficava tra-
baiando descascando batata, xuxu, mandioca, o que tivesse.

Este trecho de entrevista acima aponta com nitidez a dominação


exercida pela esfera da produção que, pelo controle de uma cozinha
coletiva, intervém diretamente na ordenação do cotidiano dos indi­
víduos levando-os a obedecer uma ordem no horário das refeições e
um espaçamento entre elas relativos não às suas necessidades indivi­
duais ou ao horário costumeiro definido socialmente, mas às neces­
sidades da continuidade da produção da obra no ritmo intenso que
se requeria. Não é apenas a organização do tempo e seus intervalos
destinados à alimentação que se vêem afetados. É também o próprio
local onde se realiza o ato de comer. Nos momentos em que mais
se necessita do trabalho, como vimos, os operários são deixados a
fazer refeições na própria obra. São normalmente refeições noturnas
constando de café e pão com manteiga. Além disso, há a suspeita da
utilização da alimentação, ao combiná-la com “química”, para au­
mentar a capacidade física do trabalhador e, em consequência, a sua
resistência ou adequação ao ritmo de trabalho a que estava exposto:

Levava aqueles pão com manteiga, assim margarina, o sujeito pro resto enjoou
daquilo, jogava fora. Copo, tinha peão marvado aí, como esmartado do tipo
desses aí, ó, jogava pra lá. Eu juntei foi rosário de copo a três por dois porque
os peão enjoou daquele café. Aquele café parecia que tinha uma coisa dentro
dele que o peão enjoou. Então jogava aqueles pão pra lá com copo e tudo.

- Que foi que tinha dentro?


- Eu num sei o que é que eles punha dentro desse café.
- Mas tinha gosto diferente, é?

- Tinha gosto diferente. Café meio ralo, assim gosto forte, né. E o peão bibia
aquilo arritava o corpo [faz um movimento imitando uma convulsão]. Aquilo
tinha uma química naquilo.

224
Capítulo 4 | Os conflitos

- Que quando a pessoa tomava o que é que acontecia?


- Ele tomava e ia trabaiá, né... Tomava comia aquele pãozinho, se comia, se
num comia também tomava só um gulim daquele café, vortava e ia trabaiá o
resto da noite (operário de manutenção de máquinas).

São poucas as evidências sobre a existência de estimulantes na ali­


mentação. No entanto, decidi mencioná-la como forma de manter
registrada a possibilidade de se ter lançado mão de tal artifício. Além
disto, parece-me que quando há um controle exercido por uma admi­
nistração na alimentação de uma coletividade pela cozinha, o manu­
seio da comida ou da bebida (sua adulteração ou composição) pode
ser utilizado como uma forma de controlar ou estimular certos com­
portamentos ajustáveis aos fins para os quais trabalha o corpo admi­
nistrativo. O primeiro presidente da Associação dos Trabalhadores
da Construção Civil declarou ao Jornal de Brasília, no seu número
de 20 e 21 de abril de 1980: “Contam que algumas firmas botavam
salite na comida da peãozada pra tirar o desejo por mulher. Lembro
que uma vez a turma descobriu isso e até começaram a quebrar um
alojamento”.
Em um cotidiano quase inteiramente permeado pelo trabalho, a ali­
mentação tornou-se uma das questões centrais, tanto internamente
ao operariado quanto em sua relação com os controladores de sua
vida no território da construção (os administradores das companhias
privadas e a Novacap). São numerosos os conflitos tendo por cen­
tro essa questão. Geralmente se expressaram em rebeliões operárias
que exprimiam seu descontentamento, destruindo as instalações das
cantinas e agredindo os seus trabalhadores ou responsáveis:

Inclusive a comida era muito ruim. Comidahnuito ruim. Descontava no paga­


mento. E a comida ruim de vez em quando a gente reclamava. Houve muito
quebra-quebra por causa da comida, por causa da comida ruim (pedreiro).

Teve quebra-quebra por comida. Não cheguei a presenciar nenhum. Mas na


Quadrada houve um feito pelos armadores, os armadores que fizeram um
quebra-quebra lá. Mas um quebra-quebra o seguinte: umas mesa, umas coisa.
Depois veio a turma do deixa disso: não, a mesa vai melhorar, vai melhorar
a comida. Então teve uma época que o ambiente tava muito tenso, chegou o
pessoal a tirar comida lá com mosca e tudo, levaram pra Novacap, a Novacap

225
0 capital da esperança

mandou lá uma pessoa fiscalizar e tal. Aí a comida melhorou (pedreiro).


Aqui na Redonda, quando tava construindo o Alvorada, a cantina de lá era
muito boa, mas num é que houve um quebra-quebra lá por causa da comida.
Aqui na Quadrada também, na Retângulo também. Quase todas as firmas
que tinha cantina aqui teve desse problema. Daqui prali os peão quebrava
tudo (servente).

Os “quebra-quebras” eram uma forma coletiva de contraposição a


uma situação insustentável para os trabalhadores. Supunham a exis­
tência de uma solidariedade que permitia o desenvolvimento de ações
que geralmente redundavam em repressão. Lourdes Barreto Pimentel,
em trabalho sobre conflito relacionado também à alimentação em
uma obra no Rio de Janeiro, se propõe a pensar “os quebra-quebras
das cantinas dos canteiros de obras não como manifestações explo­
sivas, desordenadas, caóticas, etc..., mas como algo que segue uma
lógica, que tem sua própria história, como um movimento de operá­
rios da construção civil, que se traduz em algumas ações tais como a
destruição de instalações a eles destinadas” (PIMENTEL, s/d: 6). Já
Moisés e Martinez-Alier, em A revolta dos suburbanos ou ‘patrão o
trem atrasou3 afirmam:

Se essas revoltas, por uma parte, são limitadas e não têm uma estrutura or-
ganizatória prévia, por outra constituem uma deslegitimação das autoridades
estabelecidas e têm um significado e efeitos políticos nítidos: a escolha dos
seus alvos não é arbitrária; as revoltas respondem a anseios coletivos, dados
por condições estruturais semelhantes - a condição de força de trabalho dos
usuários - e, finalmente, exigem uma definição por parte do próprio Estado
(MOISÉS; MARTINEZ-ALIER, 1977, p. 30).

A complexa questão da espontaneidade de tais movimentos deve es­


tar sujeita à análise de vários casos concretos para poder reconstruir,
da maneira mais fiel, o desencadear dos fatos, seus sujeitos, seus al­
vos, seus resultados, as formas de negociação e repressão, etc. Não
obstante, é bastante rica a conclusão de Moisés e Martinez-Alier:

Na medida em que essa espontaneidade viabiliza alguma forma de ação, es­


sas massas começam a experimentar sua própria potencialidade como força
social e política. É a sua prática, desorganizada ou não, que coloca para eles
Capítulo 4 | Os conflitos

a possibilidade de se fazerem presentes, com algum grau de vontade própria,


diante do resto da sociedade (idem, p. 55).

Os quebra-quebras nas cantinas da construção de Brasília podem ser


encarados como movimentos espontâneos no sentido de que surgiam
de um conflito qualquer, localizado no quadro de um conflito latente
mais amplo, que se tornava o estopim, canal liberador de um descon­
tentamento profundo e cotidiano. Isto se torna patente quando uma
ação individual desencadeava uma imediata solidariedade e ação
coletiva baseadas na vivência de uma situação comum (como visto
anteriormente, isto não ocorria nos conflitos relativos ao lazer). Os
quebra-quebras implicavam certo tipo de cooperação para desempe­
nhar uma ação e não obedeciam necessariamente a uma estrutura
ou objetivo prefixados anteriormente nem a lideranças formalmente
designadas.
Entretanto, a percepção de que essa forma desorganizada de rebe­
lião podia se transformar em forma organizada e ou se revestir de
conteúdo político evidente teve implicação dupla. Por um lado, em
função da sua importância para as condições de vida do trabalhador,
a questão da alimentação foi assumida como reivindicação das orga­
nizações obreiras e incorporada à pauta de luta dessas entidades. Na
construção de Brasília, ela passou a ser veiculada pelo sindicato:

Nossa reportagem apurou junto à Diretoria do Sindicato dos Trabalhadores


na Construção do Mobiliário de Planaltina, com base territorial em Brasília,
e, constatou a veracidade de uma denúncia que vinha sendo feita, a que dizia
estar o operário de Brasília sendo vítima de exploração e mau trato alimentar.
Assim é que como prova irrefutável, foi nos apresentado o corpo de delito
(uma marmita) do crime que vem sendo praticado por elementos responsá­
veis pela alimentação de operários. [...] Conforme declarou-nos a Diretoria do
Sindicato, esta iria tomar as devidas providências para coibir o abuso e punir
os culpados (A TRIBUNA, Núcleo Bandeirante, 8 nov. 1959).

Por outro lado, os controladores do território da construção tendiam


a classificar esses conflitos como subversão e agiam no sentido de
isolar as lideranças que surgiam no processo. Assim, a possibili­
dade de se tornarem pontos aglutinadores de um coletivo rebelde
levava imediatamente à necessidade de controlá-los e reprimi-los.

227
0 capital da esperança
As formas utilizadas para tanto variaram bastante, indo desde nego­
ciações diretas com os operários em situação, até a violência policial
tout court.
A atuação da Guarda Especial de Brasília era marcada por sua ca­
racterística de polícia de uma companhia imediatamente interessada
no andamento das obras da capital e, por conseguinte, no controle
do operariado. No tocante aos confrontos vinculados à alimentação,
a atuação da GEB chegou a um limite extremo de violência na noite
de 8 de fevereiro de 1959, durante um carnaval. Chamada a intervir
em uma rebelião de operários no acampamento de uma construto­
ra, seus policiais espancaram vários trabalhadores e mataram pelo
menos um.
Existem diversas versões desse acontecimento que a memória po­
pular registrou de tal forma que quando eu indagava qual a pior
coisa que tinha acontecido na época da construção, na maioria
das vezes me relatavam os sangrentos acontecimentos da noite de
8 de fevereiro de 1959. Deste modo, sempre que formulava essa
pergunta esperava tal resposta. Foi quase impossível recuperar
com absoluta clareza o que se passou naquela noite, sobretudo
porque os detalhes do confronto foram encobertos pelas autorida­
des que deram versões que, de maneira geral, contradiziam fron­
talmente as informações não-oficiais. Na literatura sobre Brasília,

Guarda Especial de Brasília


Capítulo 4 | Os conflitos

conhecemos apenas três registros: o de Joffily (1977, p. 53-54), o


de Bicalho (1978, p. 20-21) e o de Epstein (1973, p. 65). Vários jor­
nais da época registraram os acontecimentos daquele domingo de
carnaval. Também aqui existem versões distintas que parecem advir
do fato de as matérias terem sido escritas com informações obtidas
diretamente no local ou com informações fornecidas por autorida­
des. Ver, por exemplo: “Carnaval em Brasília não deu para parar as
obras” (ÚLTIMA HORA, Rio de Janeiro, 12 fev. 1959); “Conflito em
Brasília” (O ESTADO DE S. PAULO, 13 fev. 1959); “Grave incidente
em Brasília” (DIÁRIO DE PERNAMBUCO, Recife, 13 fev. 1959);
“Trucidamento em Brasília” (A NOTÍCIA, Rio de Janeiro, 13 fev.
1959); “Presos vinte e seis policiais do destacamento de Brasília”
(O GLOBO, Rio de Janeiro, 13 fev. 1959); “Foi ver que houve mes­
mo em Brasília” (JORNAL DO BRASIL, 14 fev. 1959); “Conflito
de Brasília é caso de lá” (idem); “Presos os implicados nos aconte­
cimentos de Brasília” (CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 14
fev. 1959); “Solicitada a extinção da polícia de Brasília” (CORREIO
PAULISTANO, São Paulo, 15 fev. 1959). Na edição de 20 e 21 de
abril de 1980 do Jornal de Brasília, o jornalista Jorge Frederico publi­
cou pesquisa sua sobre o assunto.
Malgrado a diversidade de relatos, uma estrutura comum pode ser
construída. Ela aponta para problemas centrais que são confirmados
pelas variantes que ocasionalmente se desviam de uma versão síntese
que elaborei a partir do cruzamento de vários depoimentos ou de maté­
rias de jornais. Após explicitar esta versão sintética, passarei a recupe­
rar algumas variantes relevantes. Minha intenção não é esgotar anali-
ticamente o relato deste fato, compreendendo exaustivamente tudo que
nele está em jogo. Para contextualizar, cabe lembrar que os operários
da firma construtora não tinham sido pagos ainda naquela semana
para evitar que, com o carnaval, grande1 número deles abandonasse
os canteiros de obra em busca de diversão. Além disso, já vinham, há
muito, insatisfeitos com a cantina e a falta de água no acampamento
em que viviam. Vejamos a versão sintética que elaborei:

Noite de carnaval. Operários (três no máximo) chegam do trabalho para co­


mer na cantina e não encontram comida que deveria ter sido provida pela ad­
ministração. Resto lhes é servido, comida de má qualidade. Irritam-se, ou um
deles se irrita e arremessa o prato no encarregado da cozinha, no cantineiro,
0 capital da esperança

ou no cozinheiro. Os outros operários se solidarizam. Alguém (o agredido,


um sargento, um engenheiro, o chefe da cozinha, o dono da cantina, “gen­
te da alta”) chama a polícia. A polícia enviada é pouca. Os operários não
deixam seus companheiros serem presos. Um reforço de grande número de
soldados chega atirando. Grande tiroteio. A polícia não pergunta nada, já vai
atirando contra os alojamentos. Mataram muita gente. Muitos morrem em
suas camas. Outros são despertados violentamente e colocados em fila com as
mãos na cabeça, espancados e humilhados. Não se sabe se morreram vinte,
quarenta, oitenta, cento e quarenta. Mortos são transportados em caminhões
basculantes para uma vala no meio do cerrado. Não há divulgação do que
realmente aconteceu. Em Brasília era duro. Tinha ordem, a GEB era para isso
mesmo. Não houve providências.

Esta versão exprime o desencadear dos fatos e suas rupturas mais


importantes segundo o registro existente entre os trabalhadores.
Não se coloca a questão da sua veracidade ou falsidade total ou par­
cial. O que interessa, em especial nas versões obtidas por meio de
entrevistas, é que elas apontam para a gravidade do acontecimento.
Além do mais, esta violenta forma repressiva utilizada para conter
e debelar mais uma rebelião parece ser o resultado de várias deter­
minações advindas das forças que se encontravam em conflito na
situação de grande projeto, a saber: o grande controle exercido pelas
firmas nos acampamentos; os problemas cotidianos ligados à can­
tina; o estafante ritmo de trabalho; o poder de polícia dado a uma
corporação que mantinha vínculo orgânico com a proprietária da
obra (o fato de ser estatal aqui é irrelevante); presença, assim, de uma
polícia com funções evidentes de controle do operariado entendido
inclusive como força política. Não se pode esquecer que no território
da construção o Estado era basicamente a Novacap, a companhia
governamental que, agindo de comum acordo com as empreiteiras
particulares, visava a realizar uma grande obra que tinha um prazo
fixado politicamente que resultou em exploração e subordinação in-
comuns dos trabalhadores.
A partir da versão apresentada, que expressa razoavelmente a me­
mória dos trabalhadores, quero destacar uma variante que pode ser
considerada como a versão oficial. Na realidade, para acontecimen­
tos deste tipo, evidentemente não encontrei registro na historiografia
que faz a apologia da construção da cidade. Foi apenas mediante

230
Capítulo 4 | Os conflitos

consulta de jornais que pude levantar a versão do poder. É impor­


tante a reprodução da manchete abaixo. Ela, no seu movimento re­
gressivo, parece tentar induzir o leitor a sentir-se aliviado porque não
morreu tanta gente como fazia crer a “balela”:

“EM BRASÍLIA, APENAS U’A MORTE. PRIMEIRA NOTÍCIA: 40


MORTES; SEGUNDA, 13, TERCEIRA, 9; ÚLTIMA NOTÍCIA: APENAS
UMA MORTE”

[...] Em Brasília, segundo o despacho que nos chega daquela cidade, houve um
distúrbio entre a polícia e operários, tendo morrido uma pessoa, três outras
ficado feridos (sic).

Pois bem: correu nesta cidade a notícia de que haviam sido massacrados nada
menos de quarenta pessoas! Depois, esse número baixou para treze. Outra no­
tícia, já nos dava conta de que apenas nove pessoas tinham morrido, havendo
mais de quarenta feridos (sic). Tudo balela. Tudo mentira. [...] [Passam a trans­
crever um telegrama enviado pelo diretor do Departamento Regional de Polícia
no território da construção, ao Secretário de Segurança de Goiás, na época]:

Em resposta ao vosso Rádio nB 51, de 11 do corrente, informo que o incidente


ocorrido na noite do dia 8 entre elementos policiais e operários da firma cons­
trutora Pacheco Fernandes resultou em um morto e três feridos. Situação está
completamente normalizada não havendo greve ou qualquer perturbação e os
culpados estão todos presos, inclusive os vinte e sete policiais. Foi instaurado
inquérito. (O ANÁPOLIS, Anápolis-GO, 15 fev. 1959).

Anos depois, este mesmo diretor diria a um jornal:


Quando o motorista da Pacheco chegou ao destacamento da GEB o comis­
sário que estava de plantão era um novato, inexperiente. Ele juntou 10 ou 12
homens e foi para a Pacheco. Quando os soldados entraram, começaram a
atirar para o ar e uma das balas feriu um homem que estava dormindo e outro
que estava correndo no meio do alvoroço. Os policiais que participaram da
invasão do acampamento da Pacheco foram expulsos da corporação, porque
o principal fato - quem atirou no operário - não foi possível ser apurado.
Então todos pagaram. Aquilo foi um negócio tão maluco que nem os próprios
soldados sabiam porque estavam atirando (JORNAL DE BRASÍLIA, 20 e
21 abr. 1980, grifos meus).

231
0 capital da esperança

No mesmo jornal, um ex-capitão da GEB dá a sua explicação:


Quem foi chamar a polícia aumentou muito o que tinha acontecido na can­
tina. Por isso, na minha opinião, o temor maior era dos próprios policiais
que ao chegarem e encontrando tudo em silêncio, pensaram que os operários
tinham preparado uma cilada para eles. Por isso é que eles atiraram (idem).

O que pode ser chamado de versão oficial demonstra claramente como


é possível construir diversas explicações sobre um mesmo aconteci­
mento atendendo a interesses distintos. Não é o número de mortos,
por exemplo, o que conflita, em termos qualitativos, com o da versão
“popular”. A diferença fundamental entre uma versão e outra é a ma­
neira de encadear e avaliar os fatos. Uma quantidade maior ou menor
de mortos não desfaz a gravidade do acontecimento. O registro para
alguns trabalhadores de até 140 mortes é a expressão de como uma
violência em grande escala ficou registrada na memória.
Quando relativizo a importância do número de mortos, o faço por­
que, apesar da diferença de escala de um para 140 poder alterar
qualitativamente o julgamento moral e político do acontecimento,
qualquer que seja o número, ele é o resultado de uma estrutura de
violência que operou em um determinado momento em um acampa­
mento. O número de mortos advém de uma mesma estrutura cuja
compreensão é mais importante do que as versões sobre os seus re­
sultados. As diferenças de versões, que aqui tomo expressas na dife­
rença do número de mortos, mostram também que o lado agredido
enfatiza a dimensão da agressão por meio de grandes quantidades.
Já o lado agressor tenta minimizá-la pelo mesmo elemento, o número
de mortos.
A versão oficial veio fortemente carregada de aparência de verdade
uma vez que foi veiculada pelas autoridades constituídas, fazendo
com que a suposta neutralidade do Estado fosse o aval de sua veraci­
dade. Não obstante, o sigilo e a atmosfera de mistério permaneceram
quando o trabalho da imprensa, por exemplo, foi obstaculizado jus­
tamente pela possibilidade de apresentar outra versão formalmente
legítima aos olhos da população.
Seu Alfredo também lembra que a segurança da Pacheco não deixou que a
notícia fosse divulgada. “Teve um moço que foi lá no outro dia, tirou uns
Capítulo 4 | Os conflitos

retratos, dos buracos de bala nas tábuas dos alojamentos (eram cinco, de 100
metros de comprimento, por 50 metros de largura, cada um), quando ele tava
indo embora, cercaram ele e tomaram o filme” (JORNAL DE BRASÍLIA,
20 e 21 abr. 1980).

Trechos de discursos de alguns entrevistados apontaram para a mes­


ma direção:

Aquele fato não foi apurado. Foi simplesmente abafado. Negado. Eu não es­
tava aqui na época, né, eu só conheço do fato por ouvir dizer, né, por relatos
ou por informações. O que se procurou fazer foi justamente isso, né, abafar
a coisa. Aquilo foi feito inteiramente fora de qualquer lei e acima de qualquer
lei. Entre 57 e 60, praticamente, Brasília foi um acampamento de obra admi­
nistrado por uma empresa. O juiz ficava do lado de fora, né, e ela que tinha
polícia aqui, tinha o poder de polícia e pronto (juiz do trabalho).

Agora providências da Novacap não houve nenhuma. Ficou tudo abafado [...]
porque aquilo transpirava assim como se não houvesse acontecido nada. Não
era permitido imprensa, nem repórter, nem nada, né. Brasília nessa época...
Aquilo ficou abafado (apontador).

O Estado se reservava, assim, o poder de possuir a versão verdadeira


que se contrapõe àquela que ficou registrada entre os trabalhadores
como memória popular e que está sujeita, principalmente quando
entra o trabalho da dimensão tempo, a uma série de deformações.
Assim, a história passa a ser contada como: eu ouvi dizer que..., di­
zem por aí que... etc. Torna-se mais uma “estória” popular à qual, do
ponto de vista da classe dominante, não se pode dar muito crédito,
pois as versões são tão distintas quanto, algumas vezes, até fantásti­
cas. Vemos aqui claramente o registro da história como o registro da
classe dominante.
Refletir sobre as diferenças de versões evidenciou o fato de ser o do­
minador quem registra, escreve e impõe ao resto da sociedade a sua
história. A história do dominado não consegue alcançar ares de le­
gitimidade por se impedir até mesmo o seu registro. Ela permanece,
geralmente, nesses casos, como tradição oral, memória popular, “mi­
tologia” popular, presente no cancioneiro e na literatura popular. Ao

233
0 capital da esperança

comparar essas formas com o conhecimento das academias, ressalta-


se sua desorganização, seu caráter mítico, contraditório e fantasioso.
Assim, esses relatos não são verdadeiros. A história é a história da
classe dominante que tem acesso, até mesmo, às maneiras eruditas
de legitimar-se como em um ciclo de auto-elogio. Outras forças for­
madoras da sociedade ficam, grosso modo, como se evidencia no
caso em estudo, sem suas histórias, por elas escritas e narradas como
sujeitos de si mesmas.
Os acontecimentos de 8 de fevereiro de 1959 foram vistos, ainda,
como uma forma de estabelecer uma lição, um paradigma da violên­
cia da repressão, visando a frear o aumento da mobilização operária
em torno da luta por melhores condições de alimentação. Este au­
mento se fez sentir, no decorrer do período, tanto pela freqüência dos
conflitos (quebra-quebras) nas diversas cantinas quanto pela adoção
por parte da Associação dos Trabalhadores da Construção Civil da
questão da alimentação como uma das prioridades do movimento
operário:

Quando um destacamento da polícia local, em fevereiro do ano passado, me­


tralhou covardemente o acampamento dos operários da construtora Pacheco
Fernandes, é possível que o tivesse feito como um escarmento aos trabalhado­
res. Estes apenas protestavam contra a qualidade da alimentação. Seja como
for, apesar do assassinato de pelo menos um operário e de vários outros terem
sido feridos, a verdade é que o tiro saiu pela culatra [...] O Sindicato fortaleceu-
se consideravelmente. Ampliaram-se muito os seus quadros e sua autoridade
(NOVOS RUMOS, Rio de Janeiro, ne 56, de 25 a 31 mar. 1960, grifo meu).

Vários entrevistados também associam estes fatos a um fortalecimen­


to do sindicato que canalizou os protestos (a Associação Comercial
também se posicionou fortemente na ocasião) ganhando, assim, em
legitimidade aos olhos dos trabalhadores. É importante frisar que é
em um momento de luta por melhores condições de vida, que o sindi­
cato cresce. Vejamos o que informa um pedreiro que teve experiência
sindical na época:

Aí o sindicato assumiu exigindo punição, dos culpados, né. Fizemos uma


grande assembléia com os funcionário da Pacheco. O sindicato exigindo

234
Capítulo 4 | Os conflitos

respeito para a vida humana, respeito ao ser humano. Exigia também punição
dos culpados, abrir comissão de inquérito, apurar. Mas ficou, ficou mais na
propaganda porque naquele tempo num tinha juiz, era lá em Planaltina, então
não tinha jeito de ocê...era só o protesto, né (pedreiro).

Sem dúvida, é uma leitura importante sobre a repressão no domin­


go de carnaval de 1959 aquela associada diretamente a movimento
político. Aparecem com recorrência nas formulações operárias as
designações de revolta, rebelião e até mesmo greve para classificar a
postura dos trabalhadores naquele conflito:

O que mais marcou foi aqui, teve uma greve também aqui na Pacheco, essa
também num vi. É a tal história que eu tou dizendo, eu ouvi contar, né, que
por causa de uma refeição dizem que saiu até morte da polícia (servente).

E lá na Pacheco houve uma, uma, uma greve, ou um protesto, podemo dizer


assim, e eles chamaram a polícia, e pelo que a gente soube a polícia chegou a
assassinar gente lá. E o outro dia, no outro dia a gente chegou até ... naque­
le tempo já existia a Associação dos Trabalhadores de Brasília que hoje é o
Sindicato da Construção Civil. Então no outro dia já foi pro Sindicato, pra
Associação, já protestou, aí começou o Sindicato a aparecer, né (pedreiro).

O fato de o confronto ocorrido se manter registrado na memória ou


ser designado de greve faz pensar em duas hipóteses. A primeira que
há uma confusão por parte dos entrevistados do significado do ter­
mo greve. No caso do segundo informante, pedreiro com experiência
sindical, há ainda a alternativa de se rotular o acontecimento como
protesto. A utilização do termo greve - advenha de uma confusão
ou não - mostra que a posição dos operários ficou registrada como
uma forma de se opor a uma situação, e uma forma que pode se re­
vestir de conteúdo de confronto político, como seria inerente a uma
greve. A segunda hipótese é que se pode supor que o confronto tenha
sido resultado de uma história anterior bem mais extensa do que
fazem crer os relatos obtidos. Isto é, com a permanência do que era
experimentado pelos operários como abusos relativos à alimentação
na cantina do acampamento, abusos estes cotidianamente viven-
ciados, os protestos dos operários foram se repetindo de tal forma
que possibilitaram o surgimento de uma solidariedade em torno do
235
0 capital da esperança

mesmo problema e de uma mesma reivindicação, ao mesmo tempo


em que se formavam lideranças informais e, em conseqüência, uma
estrutura organizativa mínima para se contrapor aos sujeitos que
materializavam os abusos.
Está claro que um conflito como este possui conotações políticas.
Foi uma forma concreta de um grupo de operários, na busca de seus
interesses, se contrapor aos representantes da dominação a que se en­
contrava subordinado. Considerando-se ainda a qualidade que essas
manifestações têm de revelar lideranças, bem como de demonstrar
na prática aos seus atores um potencial, geralmente desconhecido,
de força coletiva, vê-se também que ambos os lados envolvidos em
conflitos desta natureza passam a considerá-los como uma forma
de protesto passível de ser capitalizada em termos políticos. Deste
modo, buscando compreender a qualidade do acontecimento que re­
sultou no confronto da Pacheco Fernandes, não me parece descartá­
vel a possibilidade de que a dimensão política tenha, para ambos os
lados, pesado sensivelmente no encaminhamento do fato e nos seus
resultados.
Foram, no entanto, os conflitos relativos à questão da habitação no
território da construção que redundaram em organizações nas quais
os operários participaram com nítidas propostas políticas.

Habitação

“Tinha casas de a água já estar debaixo da cama, e a gente arrancando assim


as últimas tábuas e a água aproximando” (apontador).

A questão da habitação no território da construção remete de imedia­


to à falência do projeto do Estado que pretendia dar conta da fixação
provisória da população que chegava, a saber: um território livre
basicamente para estabelecimento de comerciantes (Cidade Livre),
uma área de acampamentos ligados à Novacap (Candangolândia)
e áreas de acampamentos para construtoras particulares (como a
Vila Planalto). O rompimento deste esquema inicial se deu em di­
versos momentos e esteve pontilhado de conflitos que envolviam a
participação intensa dos operários da construção civil. Na maioria

236
Capítulo 4 | Os conflitos

dos casos que vamos apresentar, os trabalhadores são os principais


interessados nos resultados dos movimentos políticos vinculados à
escassez de moradias. Em um deles, o Movimento Pró-Fixação do
Núcleo Bandeirante, os trabalhadores estão claramente em aliança
com os comerciantes que lideram o processo e acabam sendo, em úl­
tima instância, os mais beneficiados com os êxitos obtidos. Passemos
a expor quais foram os problemas ligados à questão da habitação.

Cidade Livre ou Núcleo Bandeirante


Como sabemos, a Cidade Livre, ou Núcleo Bandeirante, deveria dei­
xar de existir a partir da inauguração de Brasília. Inicialmente, era o
único local onde se podia entrar livremente e procurar uma residên­
cia ou uma atividade. Mas cresceu vertiginosamente e logo se tornou
uma cidade que não comportava as crescentes levas de migrantes
que invadiam a sua periferia ou pressionavam de tal maneira o mer­
cado imobiliário que os aluguéis passaram a ser proibitivos e obri­
garam várias famílias a dividirem casas entre si. Segundo o Censo
Experimental de 1959, a Cidade Livre cresceu, de julho de 1957 a
março de 1958, de 2.212 habitantes para 7.033 (217,9%), chegando
deste mês até maio de 1959 a 11.565 habitantes (o que dá um incre­
mento de 64,4% neste período). A diminuição na taxa de crescimento
)
Cidade Livre (setembro de 1958)

)
)
Riacho Fundo,

Escola Júlia Kubitschek


Aeroporto
Igreja S.José

Residências para funcionárjos

Córrego do Guará
Novacap

Alojamentos

II Campo de futebol
Posto Petrobrás

CANDANGOLANDIA
Capítulo 4 | Os conflitos

da Cidade Livre, a partir de 1958, pode ser explicada pelo surgi­


mento, naquele ano, de outras localidades como Taguatinga e Vila
Amauri. Surgimento causado pela grande pressão demográfica que
se desencadeia com a chegada de migrantes expulsos pela seca no
Nordeste. Há que considerar, em menor escala, o impacto da proibi­
ção formal da Novacap de novas construções na área a partir de 31
de dezembro de 1958.
Com apenas dois anos de existência, a Cidade Livre tinha se tor­
nado, inclusive, um mercado alternativo de trabalho à medida que
vários oiperários passaram a se dedicar quase exclusivamente à cons­
trução e à manutenção dos barracos da área. Aqui começaram a se
desenvolver as formas tradicionais de trabalho de biscate, bem como
a esperança individual dos operários de “sair do pesado” para entrar
no comércio.
É de fato com a seca de 1958 no Nordeste que a cidade demonstra ter
chegado ao seu limite: o projeto inicial de núcleo transitório começa
a transbordar visivelmente. Os acampamentos que eram construí­
dos e cuja responsabilidade passava a ser das empresas que estavam

Dentista popular na Cidade Livre (dezembro de 1958)

r
0 capital da esperança
participando da obra, evidentemente não eram alternativa para so­
lucionar a questão. Tem início o processo de “invasão” das áreas
periféricas da Cidade Livre e dos acampamentos agravando mais
ainda o problema de uma localidade já sem grande infra-estrutura
urbana. No decorrer da construção de Brasília, as “invasões” foram
comuns e se faziam notar principalmente quando, ao término de al­
guma obra específica no Plano Piloto, destruíam-se os alojamentos
existentes para os trabalhadores que ficavam com a única alternativa
de engrossar a fileira dos “invasores”:

Justamente cada vez que uma companhia terminava o seu serviço, que tinha
que demolir o seu acampamento porque precisava da área livre, então surgia
as invasões. E daquela época pra cá passou a ter muito confrito, com o go­
verno e o operariado. Porque o operariado precisava morar em argum lugar
porque eles não tinham condições mais pra voltar pras suas cidades de origem
e não tinha aonde ficar. Então ele tinha que partir pra uma solução e a solução
era a invasão. Mas sempre essa invasão, era contestada, como sempre foi, né
(comerciante do Núcleo Bandeirante).

A Novacap, como já mencionado, tentou reprimir o afluxo dos reti­


rantes da seca de 1958 com barreiras policiais nas principais estra­
das do território da construção, mas não conseguiu. Ao chegar, os
retirantes procuravam se instalar da maneira que podiam. O nome
de algumas invasões, como Sacolândia (veja SILVA, 1971, p. 185),
aponta para a precariedade dos materiais utilizados na construção
dos abrigos das famílias: sacos, já utilizados, de cimento, papelão,
restos de material de construção conseguido em obras, etc. Além dos
que chegavam, havia os que, pagando altos aluguéis para comparti­
lhar uma casa na Cidade Livre, viviam na expectativa de obter um
lote para construir sua moradia:

Aquela parte era cerrado. Duma noite pro dia que eu tive aqui, você sabe
ali onde tem aquele viaduto que passa ali perto daquele posto de gasolina...
duma noite pro dia fizeram pra mais de 3 mil barraco ali. Uma noite pro dia.
É gente que, por exemplo, o senhor, aqui chegava, tava morando num quarto
de aluguel, numa pensão... inicia uma invasão dessa o senhor invadia também

240
o
Capítulo 4 | Os conflitos
■o
pra fazer um barraco pra você, pra num pagar aluguel. A polícia, naquele
tempo era a GEB que se chamava, a polícia chegou e mandou derrubar tudo. 9
Arrancou aquilo ali (carpinteiro). 3
9
A exemplo da Cidade Livre, para alguns, sobretudo para os carpin­
teiros, a construção de barracos em “invasões” passou a ser uma
A
alternativa viável de trabalho. As “invasões” apareciam, cresciam, )
desapareciam e reapareciam, apesar da repressão policial e da tenta­ )
tiva de invisibilizá-las. Veja o que a imprensa publicava:
)
No último recenseamento de Brasília, a Inspetoria Regional de Estatística )
de Goiânia constatou a existência de favelas na área destinada à nossa capi­
)
tal. Deixou, porém de registrá-las em seus boletins, a pedido do sr. Juscelino
Kubitschek, que receia uma onda de protestos dos deputados e senadores da
)
oposição. Apesar disso, o sr. Israel Pinheiro, em telegrama cujo texto vem sen­
do mantido em sigilo, pediu ao Instituto Nacional de Imigração e Colonização
providências no sentido de evitar o deslocamento de nordestinos para a região
de Brasília, em busca de trabalho, tendo em vista a saturação de mão-de-obra.

)
Barracos de sacos de cimento
)
0 capital da esperança

Esse pedido veio completar as informações colhidas pela Inspetoria Regional


de Estatísticas de Goiânia, segundo as quais numerosas famílias estavam
acampando nos arredores da área da nova capital. Em seu telegrama ao Inic,
o sr. Israel Pinheiro confessou-se “assustado pelo nascimento de favelas antes
mesmo de Brasília” (TRIBUNA DA IMPRENSA, 16 maio 1958).
A notícia de um homem e do seu barraco levantado em qualquer parte das
terras do Planalto se propaga imediatamente. Dá-se, então, o fenômeno deno­
minado a “invasão”: centenas de candangos, sozinhos ou acompanhados de
suas famílias começam a seguir o mesmo roteiro. E em poucos dias, um novo
bairro de gente pobre está plantado em Brasília. Esse é um aspecto do drama
da habitação para os candangos na Nova Capital. O outro salienta-se pelo seu
colorido trágico, e é marcado pela brutalidade da polícia que investe impie­
dosamente contra esses aglomerados humanos, derrubando os seus barracos
e expulsando os moradores que passam novamente a perambular pela cidade,
olhando os luxuosos edifícios que se constroem com o dinheiro dos institutos,
dinheiro do trabalhador, mas onde não podem morar (NOVOS RUMOS,
n9 70, de 1 a 7 jul. 1960).

Vila Sarah Kubitschek e Taguatinga


Em junho de 1958, o território da construção recebeu uma leva enor­
me de retirantes nordestinos que se instalaram ao lado da Cidade
Livre, no lado direito da estrada Brasília-Goiânia. Com a intenção
de atenuar a provável repressão que sofreriam, denominaram essa
nova grande “invasão” de Vila Sarah Kubitschek. Para lá foi tam­
bém uma grande quantidade de pessoas que se encontrava à espera
de uma residência. Passemos ao relato de Ernesto Silva, diretor da
Novacap na época da construção:
A cada dia, novas levas aqui desembarcavam. A construção de acampamentos
de madeira não podia mais atender a demanda. Passou, então, essa multidão,
a se alojar em torno dos acampamentos, ao longo da Avenida W3 e nas me­
diações do Núcleo Bandeirante.
Era um sábado, Juscelino estava em Brasília e fora convidado a jantar no res­
taurante JK, na Cidade Livre.
Ao cair da tarde soubemos que grande massa popular, que estimamos em
4 mil pessoas, empunhando cartazes (“Queremos ficar onde estamos”, “Viva

242
Capítulo 4 | Os conflitos

o Presidente Juscelino”, “Fundamos a Vila Sarah Kubitschek”) se postava à


frente do restaurante, onde, às 20 horas, jantaria o Presidente.
A excitação era enorme.
Israel Pinheiro nos pediu que fôssemos ao local. Estivemos lá. Ambiente de
expectativa, de exaltação.
Subimos em um caixote de madeira e dirigimos a palavra aos manifestan­
tes. Dissemo-lhes que a Novacap já providenciara a criação de uma cidade-
satélite, a 25 quilômetros do Plano Piloto, e que, nesse local, cada trabalha­
dor teria seu próprio lote e poderia adquirí-lo por preço acessível, a longo
prazo. Combinamos, com a comissão de representantes da já batizada VILA
SARAH KUBITSCHEK, uma reunião para o dia seguinte - domingo, às sete
da manhã - quando mostraríamos a planta da nova cidade planejada e estu­
daríamos o modo pelo qual seria feita a mudança.
Juscelino cancelou o jantar. A multidão dispersou-se [...].

Mas o que era a Vila Sarah Kubitschek?

Ao longo da estrada Brasília-Goiânia, à direita de quem se dirige à capital


goiana, defronte da Cidade Livre, cerca de quatro mil pessoas se instalaram
em menos de oito dias. Moravam de maneira mais precária: barracões de
madeira velha, de lata, de folhas de zinco, de sacos de cimento. Não havia fos­
sas. Nem água. Promiscuidade e falta de higiene. Tudo construído em poucos
dias, principalmente durante a noite para burlar a vigilância dos fiscais.
Cumprindo o prometido, às sete horas da manhã de domingo, comparecemos
à Vila Sarah Kubitschek e parlamentamos com os representantes da comuni­
dade. [...]
Embora aparentemente os argumentos os tivessem convencido, a dúvida e a
desconfiança perduravam.

É preciso frisar que alguns comerciantes da Cidade Livre estimulavam tais


invasões junto àquela cidade, pois, assim, auferiríam lucros e vantagens com
a venda de materiais e de alimentos. Tais indivíduos, que sempre aparecem em
toda coletividade, muito dificultaram os entendimentos e estavam sempre pre­
sentes entre os trabalhadores, açulando-os à indisciplina e à resistência. [...]

243
O capital da esperança

Mas a resistência era enorme.

Em resumo: no primeiro dia, só conseguimos transferir uma família. Nessa


noite, um grupo de cerca de cem pessoas saiu em desfile à frente dos escritó­
rios provisórios da Novacap, reivindicando ainda a permanência no local, en­
quanto alguns, mais exaltados, queriam atear fogo aos pavilhões de madeira,
onde funcionava a administração da empresa (SILVA, 1971, p. 230-231).

Da Vila Sarah Kubitschek surgiu Taguatinga, a primeira cidade-sa­


télite de Brasília:

Então o povo num coube mais aqui dentro do Núcleo Bandeirante aí fizeram
uma invasão dali ó, do lado da estrada ali. Fizeram uma invasão ali [a Vila
Sarah Kubitschek]. Inclusive eu morava na 4â Avenida aí, no lote do colega aí,
e pedi uma lona desse tio meu. Eu falei: vou receber um lote também na tal
de Taguatinga. Aí armei a lona lá (na Vila). Então coloquei a lona lá, botei
umas panela, umas parteleira véia lá, e botei a muié debaixo. Tá bem. E eles
vinha. Aí vinha a poliça, o sujeito do exército, né. Aí o exército lá tomando
nota do pessoal: como é que ocê chama? Cê é mulher de quem? O seu marido
é quem? E tal. Aí tomava nota. Deu o nome e tal. É casado. Aí... então tal dia
vai rançar vocês e levar pra Taguatinga. Tá bem. Eu fiquei aguardando, né. Aí
o caminhão veio. O pessoal arrancando barraco e levando. E eles foi levando
o pessoal pra Taguatinga, ali naquela beira de córrego. Chegaram me jogaram
num lugar, eu larguei minha lona. E eles receberam... uns receberam lote e
tal, os que foram que num tinha barraco, porque os que tinha barraco ia pro
lugar certo, né. Mas eu como não tinha barraco eles ficaram meio na dúvida
de entregar. Porque era uma lona (carpinteiro).

Diante da importância deste momento, assim como da existência da


efêmera Vila, para a futura configuração urbana do Distrito Federal
reproduzirei uma extensa descrição publicada à época que indica a
existência de um movimento por moradias que levou à criação de
Taguatinga:

Há poucos dias, os “candangos” tentaram uma nova tática de invasão. Não


há dúvida de que essa vez eles tinham um grupo organizado no comando,

244
Capítulo 4 | Os conflitos

tentando conseguir lotes. Da noite pro dia, uma grande extensão de terra ao
lado da rodovia Anápolis-Brasília, paralelamente à Avenida Central, e a uma
quadra de distância (bem no centro, portanto) apareceu coberta de faixas:

“Salve a Vila Sarah Kubitschek!”


“Viva dona Sarah!”

Quando se espalhou a notícia da existência da “Vila Sarah”, e quando correu


o boato de que era só marcar um terreno para ter o direito de posse sobre
o mesmo, “Por ordem de dona Sarah Kubitschek”, foi um Deus nos acuda,
pois quem não acreditava muito na tal de Vila, resolveu acreditar, diante da
possibilidade de ganhar um terreninho; milhares de pessoas lá chegaram, com
tábuas embaixo do braço e um serrote e pregos na mão. Nessa ocasião, agra­
vando mais o caso, chegavam alguns caminhões de “pau-de-arara” ...

Praticamente, a vida parou na cidade, dominada pela sensação do momento,


ganhar um terreno na invasão! Surgiram negociantes de todo tipo: gente que
marcava um ou dois terrenos, bem perto da faixa de rodagem, e que ficava
aguardando, sem nada construir, apenas cuidando para que outros não cons­
truíssem em suas “marcas”. Os que chegavam atrasados, e que, nessas alturas,
só poderíam marcar um terreno muito longe a dois ou três km de distância,
aceitavam as propostas de venda dos oportunistas, comprando os terrenos
“marcados” a dez, quinze ou vinte mil cruzeiros...

Durante alguns dias, a “Vila Sarah” foi plenamente vitoriosa. Os dirigentes


da Novacap e a prefeitura pareciam ignorar a sua existência, e nenhuma me­
dida foi tomada contra ela. Isso lhe deu uns ares de existência legal, e parecia
aos invasores, acostumados a fugirem sempre, que a polícia não se atrevia a
bulir com eles... Ou talvez, as autoridades tivessem receio que a vila houvesse
mesmo sido autorizada por dona Sarah Kqbitschek, e era isso que o comando
da invasão queria dar a entender, com aquelas faixas “frias”... Era tal o ta­
manho da Vila, que já parecia impossível tirar dali tanta gente, sem grandes
conflitos.

Armazéns improvisados, “botecos” de lona, centenas de famílias, gente pobre


ao extremo, que o único que tinham bastante era filhos, filhos e mais filhos...
Terrenos onde já havia pilhas de material para construção à venda, como te­
lhas de zinco, madeiras, pregos - e quase cinco mil invasores!

245
li
0 capital da esperança
Afinal a prefeitura se mexeu, e veio a ordem da Novacap para a evacuação
e demolição da “Vila”. O policiamento foi reforçado, deu-se um prazo aos
invasores e, ao mesmo tempo, enfrentou-se o problema, que era a falta de
moradias, a Novacap pôs à venda lotes na Vila Taguatinga, que fora cria­
da expressamente para esse fim, e situada a doze quilômetros de distân­
cia do Núcleo, em mensalidades de Cr$ 200,00 (CORREIO DO POVO,
Porto Alegre, 17 ago. 1958).

Indicações de um processo que dependeu de lideranças podem ser


obtidas no livro Taguatinga: pioneiros e precursores (1978), no qual
Alberto Bahouth Junior registra, na sua ótica, os acontecimentos li­
gados à história daquela cidade-satélite:
Cesar Trajano de Lacerda [...] lembra que a ocupação de Taguatinga [...] de­
correu da invasão que se instalara em frente à “Cidade Livre” [...] por ele
denominada de Vila Sarah Kubitschek, designação que, além da homenagem
à Primeira Dama do país, tinha a intenção de refrear a ação intempestiva e
violenta do chefe da Guarda Rural, o Dr. Ferreira, que sempre alcoolizado e
armado de um revólver 45, exigia que os barracos fossem desmanchados, co­
metendo, além do mais, numerosas prisões arbitrárias. É ele quem conta:
)
Trabalhador construindo sua casa em pleno cerrado (1959). Foto: Mário Fontenelle
Capítulo 4 | Os conflitos

- A idéia do nome dado à invasão vingou e mandamos confeccionar, no pin-


tor-letrista Hamilton, quinze grandes faixas com o nome da Primeira Dama
e marcamos uma grande concentração, às 20 horas, em frente à Churrascaria
JK, na Avenida Central da Cidade Livre. Enviamos convite a Juscelino, que
prometeu comparecer ao local, o que não aconteceu. Portavamos placas e
pequenas faixas de saudações e apelos. E aí eu já contava com um grande
companheiro e meu lugar-tenente, o João de Amargar, e recebíamos o apoio
de diversas pessoas, dentre as quais um jovem professor e arquiteto, Mário
Daher.
A decepção pela ausência de JK foi grande, mas não perdemos as esperanças.
Diversas prisões foram feitas no dia seguinte e entre os presos estava Mário
Daher. Eu mesmo fui ameaçado de prisão pelo truculento Dr. Ferreira, e di­
versos barracos foram desmanchados.
No terceiro dia fui chamado à Novacap e, para surpresa minha, ali estavam
reunidos Juscelino, Israel Pinheiro e o Maciel, este último já programando o
loteamento e o traçado da cidade. Haviam informado ao Presidente e ao Dr.
Israel que aqueles invasores só aceitariam ficar no local da invasão e não se
deslocariam para nenhuma outra área programada.
Realmente, eu havia sentido essa reação na maioria daqueles pioneiros. E fui
chamado à presença daqueles três personagens para falar sobre a situação e
cooperar na tarefa de remoção para o local ora denominado de Tabatinga,
ora de Taguatinga (que só existia no papel). E já havia ordens para máquinas
abrirem ruas, etc., etc. (BAHOUTH JR., 1978, p. 53-54).

As forças sociais que se encontravam no território da construção


fizeram ruir, antes mesmo da inauguração da cidade, a intenção ori­
ginal do projeto de Lúcio Costa que previa a construção de cidades-
satélites apenas quando o Plano Piloto estivesse completo, com uma
população de 500 mil habitantes. A partir deste momento, ficou es­
tabelecida a ausência do operariado da área do Plano Piloto. Mais
tarde passariam a surgir outras cidades-satélites como Sobradinho e
Gama, resultados de processos semelhantes de retiradas de acampa­
mentos e ou “invasões”.
Do processo de formação da primeira cidade-satélite, total mente
marcado pelo déficit habitacional do território da construção, cabe
ressaltar as indicações evidenciadas nos longos trechos reproduzidos
anteriormente. Neles podemos ver que havia entre os habitantes da

247
0 capital da esperança
Vila Sarah Kubitschek uma organização que mediava os interesses
dos “invasores” negociando-os junto à administração da Novacap.
Foi necessária uma demonstração de massa na Cidade Livre, apro­
veitando uma ocasião em que o Presidente da República se encontra­
va no território da construção, para transformar a questão da habi­
tação em uma questão política junto aos representantes do Estado.
Havia uma “comissão de representantes da comunidade”, um “gru­
po organizado no comando”, indicação de que em alguma medida
essa população se organizou, preparou uma demonstração pública
utilizando inclusive faixas e cartazes de propaganda e encaminhou
suas questões por meio de lideranças que, respaldadas pelo grande
número de “invasores” e pela gravidade do problema, foram acei­
tas como representantes legítimos para negociar uma solução. Deste
modo, acredito que Taguatinga, primeira cidade-satélite construída
precipuamente para solucionar uma pressão demográfica resolvendo
a questão da habitação do proletariado que aqui se encontrava, foi
resultado de um movimento político. Entretanto, existe afirmação
contrária segundo a qual a Novacap já tinha a intenção de construir
uma cidade-satélite para os trabalhadores (cf. SILVA, 1971, p. 230).
De qualquer forma, foi a mobilização popular que de fato engatilhou
o surgimento concreto de Taguatinga.

Vila Amaury e Sobradinho


No mesmo ano do surgimento de Taguatinga, que desafogou um pou­
co o déficit habitacional dos trabalhadores com família, surgiu uma
outra localidade para a residência de trabalhadores: a Vila Amauri.
Tinha este nome em alusão ao funcionário da Novacap Amaury de
Almeida, que teria liderado o estabelecimento desta Vila tipicamente
proletária nas proximidades da Praça dos Três Poderes e do Palácio
da Alvorada, em área destinada ao Lago Paranoá:
No princípio de 1958, o sr. Amaury de Almeida sentiu o drama de cerca de 20
mil habitantes, e, aí, quando percebeu que a tendência deste povo era conti­
nuar ao relento, revoltou-lhe a consciência, e embora recebendo protesto e até
mesmo injúrias, conseguiu uma área livre nas proximidades do Plano Piloto,
à margem do Córrego do Bananal, futuro lago de Brasília, minorando assim
o sofrimento desse povo, originando-se daí a denominação de Vila Amaury
(A TRIBUNA, Núcleo Bandeirante, 25 out. 1959).

248
Capítulo 4 | Os conflitos

Amaury de Almeida tinha pretensões políticas e a população residente


na Vila foi objeto de suas campanhas, visando eleger-se deputado esta­
dual pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) (A TRIBUNA, Núcleo
Bandeirante, 20 set. 1959). Esta Vila proletária foi outra que surgiu de­
vido às pressões advindas do crescimento de “invasões”, inclusive nas
proximidades de obras dentro do Plano Piloto {FOLHA DA NOITE,
São Paulo, 23 jun. 1959). Existe uma especificidade marcante no es­
tabelecimento da Vila Amauri, que é o fato de estar propositalmente
localizada em terreno a ser inundado. Em novembro de 1959, Israel
Pinheiro, respondendo a uma série de denúncias relativas à constru­
ção de Brasília, feitas no Congresso Nacional por um deputado pes-
sedista em crise com o seu partido, afirma:

A localização do acampamento dos trabalhadores na construção dos


Ministérios, na zona a ser inundada pelo lago teve em vistas ocupar uma
zona completamente livre de qualquer serviço de urbanização uma vez que
essa zona só será atingida pelas águas em janeiro ou fevereiro, de acordo com
a intensidade das chuvas (DIÁRIO DE BRASÍLIA, 1959, p. 282).

Prossegue dizendo que os problemas serão devidamente soluciona­


dos com o saneamento, obstrução de fossas e a transferência dos
operários para cidades-satélites. O próprio presidente da Novacap
reconhecia a intencionalidade da localização.
Tal fato permite ver melhor como era tratado o problema da habita­
ção de milhares de pessoas (há várias estimativas indicando até 20
mil habitantes, cf. SILVA, 1971, p. 183), no território da construção.
Esse tipo de solução revela um aspecto importante na construção de
grandes projetos que é a temporariedade que se imagina da partici­
pação de grande parte da população que neles trabalham. Ao se ima­
ginar que no ato da inauguração da obra esses trabalhadores aban­
donariam a área de volta para seus locais de origem ou em busca de
outra frente de trabalho, acertam-se soluções temporárias como os
núcleos habitacionais provisórios que fatalmente devem desaparecer
após terem desempenhado suas funções de residências para trabalha­
dores. Especificamente no que diz respeito à Brasília, como se tratava
da construção de uma cidade, e de uma cidade marcada por uma

249
0 capital da esperança

concepção urbanística onde supostamente todos teriam acesso ao


Plano Piloto, havia ainda a suposição ideológica de que no futuro os
trabalhadores também morariam no espaço urbano da nova capital,
fato que jamais se concretizou efetivamente.
No caso da Vila Amauri a intenção de expulsar os trabalhadores
foi flagrante, já que irremediavelmente o avanço das águas do lago,
com o fechamento da barragem do Paranoá em 12 de setembro de
1959, expulsaria os habitantes daquele local. Mais uma vez, então, a
questão da habitação tornou-se uma questão política. A população
se organizou e passou a lutar não pela permanência propositalmente
impossibilitada, mas por uma transferência organizada e que con­
tasse com o apoio da Novacap. Surge uma associação de moradores,
em cuja direção se encontrava o próprio Amauri de Almeida. Diz um
dos seus ex-dirigentes:

O objetivo da Associação Beneficente da Vila Amauri era organizar o ope­


rário, famílias e mesmo solteiros, quem quiser se associar, através dessa
Associação, com o objetivo de reivindicar os lotes que seriam definitivos mais
tarde, moradia, transferências, assim das invasões para os lugares definitivos.
Assistência social, remédio, médico, nós tínhamos um médico, tínhamos uma
farmácia que o medicamento era doado. A Associação foi criada em 59, durou
até o lago encher e a gente mudar pra Sobradinho. A Associação foi ao Rio
duas vezes, falar com Jango, com Israel, reivindicando caminhões da Novacap
para mudança e assistência àquelas famílias que mudavam e se desemprega­
vam nesse período, e alojamento de caráter provisório, oitenta alojamento,
pra localizá-la até que ela construísse o seu barraco. Que desmontavam um
barraco de tábua, de 40 tábuas, então ela ficava às veze em 20 tábua, né, os
pedaço, né. E tinha que construir novamente em seu lote definitivo. Naquele
período que ele construía seu barraco ele perdia o emprego nas firma, na
companhia, e entrava num período difícil pra essa família. Então o objetivo
da associação era fiscalizar desde a mudança na parte de saúde, localização de
lote, e condições, alojamento, e entregar de novo meio de transporte que não
havia de Sobradinho para o Plano Piloto.

O motor do surgimento dessa organização política popular foi a


questão da habitação. Porém, isto não impedia que outras atividades
assistenciais (cursos de corte e costura, assistência médica e fune­
rária, etc.) fossem desempenhadas como atrativo para mobilizar o
Capítulo 4 | Os conflitos

maior número de operários em torno da questão imediatamente cen­


tral para eles. Registremos, pela palavra de um dos seus líderes, mais
algumas informações sobre a Associação:

- Como foi o processo de eleição?

- Não, o processo... convocamos verbal. Verbal. Havia um serviço de alto-


falantes na Vila Amauri, utilizamos esse serviço de alto-falantes para a con­
vocação. Então no ato da fundação dele, acho que reuniu mais ou menos
isso, uns duzentos operários. Aí foi exposto o plano, qual era o objetivo da
Associação. Umas duzentas pessoas que sabiam que futuramente o lago iria
encher, né, as comportas seriam fechadas, e o sistema de mudança tinha que
ser através da Novacap porque cada um operário não ia ter condições de pa­
gar um caminhão pra deslocar para as futuras cidades-satélites. Então aquele
grupo discutiu e achou que se organizando através de uma Associação, teria
força para o presidente da Novacap Israel Pinheiro ceder os caminhões da
Novacap, como cedeu, e colocar, fazer essas mudanças em condições mais
humanas. E sendo oferecido o trabalho da Novacap, exigido pra que ela ofe­
recesse o trabalho, os carpinteiros, no desmontar os barracos e a montagem,
colaborando com as famílias...

- Sim senhor, aí o senhor foi ao Rio de Janeiro numa caravana...


- Na caravana. Falamos pessoalmente com Jango (então vice-Presidente da
República) por intermédio do deputado Resende Monteiro e o Jango pro­
meteu que faria tudo pra amenizar aquela situação, ia segurar um pouco as
comportas para que a água não fosse subindo assim progressivamente, né.
Mas isso não aconteceu. Conforme a gente ia tirando fileiras de casa, aquelas
ruas de casa, e trabalho acelerado, a água ia tomando. Aí cobra, em grande
quantidade, sapo, largato e as fossas enchiam d’água e misturava resto de fos­
sa, de fezes, dentro das casas, crianças pisando. Uma verdadeira barbaridade.
Promiscui... Como é? Promiscuidade. Isso aconteceu. Tinha casas de a água já
estar debaixo da cama, e a gente arrancando assim as últimas tábuas e a água
aproximando (apontador).

Sobradinho, em seu começo, foi a cidade-satélite que recebeu a maior


parte dos expulsos pelas águas. Mais uma vez são as pressões advin­
das da falta de moradias para operários que os levam a se organi­
zar em movimento político. É de fato esta questão que basicamente

251
0 capital da esperança

domina, em termos de movimentos políticos populares, o cenário


onde se desenrola o drama da construção da capital federal antes da
inauguração. Esse drama obviamente se estende após 21 de abril de
1960, chegando seus últimos atos até o presente. Uma das cenas mais
definidoras, contudo, foi aquela que se realizou na Cidade Livre, no
Núcleo Bandeirante, palco para o qual nos dirigimos novamente.

Fixação do Núcleo Bandeirante


O Núcleo era o assentamento provisório que deveria deixar de exis­
tir no dia da inauguração de Brasília, pois se tornaria ilegal. Como
se decretá-lo ilegal fosse o bastante para erradicar uma cidade que,
no dizer de seus próprios habitantes, já tinha se tornado uma cidade
de fato, mas não de direito. Já em 1959, com a proximidade da inau­
guração, a questão da permanência no local passou a preocupar os
seus habitantes, notadamente os comerciantes possuidores de gran­
des interesses na área, estrategicamente localizada próxima ao Plano
Piloto. A Associação dos Comerciantes começou uma discussão e
apresentou reivindicações e sugestões à Novacap, em nome da popu­
lação do Núcleo Bandeirante:
1) Integração do Núcleo Bandeirante no plano urbanístico de Brasília como
bairro da futura capital da República, com a denominação de “Bairro
Bernardo Sayão”.
2) Que seja elaborado pela Novacap com a cooperação desta Associação um
plano que, entre outras coisas, fique assegurado o seguinte:
a) a venda ao proprietário de benfeitoria no Núcleo do respectivo terreno que
ocupa;
b) que essa venda seja efetuada por um preço razoável, sem entrada, para ser
paga a longo prazo;
c) que o produto da venda desses terrenos seja empregado na urbanização do
futuro bairro Bernardo Sayão;
d) que seja atribuído somenteum terreno a cada proprietário de benfeitoria
existente atualmente;
e) fica reservado à Novacap o direito de vender ou não, um terreno, como
imóvel alugado desde que seu legítimo dono nele nunca residiu e jamais tenha
residido em Brasília;

252
Capítulo 4 | Os conflitos

f) a Novacap, dentro do plano mencionado no ponto dois acima, assegurará a


cada habitante pioneiro do Núcleo Bandeirante, comprovado realmente como
tal, a preferência para aquisição de terrenos excedentes ou dos que vierem a ser
demarcados no futuro bairro (A TRIBUNA, Núcleo Bandeirante, 20 set. 1959).

Foi no ano de 1960 que as pressões se avolumaram. Logo após a inau­


guração de Brasília, em 21 de abril, o governo começou a pressionar
para retirar o Núcleo Bandeirante daquele local. O jornal Correio
Braziliense, no seu segundo número, em 22 de abril de 1960, estam­
pava a seguinte manchete na segunda página: “Núcleo Bandeirante
é ilegal desde ontem”. A intenção era distribuir sua população em
cidades-satélites (a data oficial da implementação de Sobradinho é
13 de maio de 1960, enquanto a do Gama é 12 de outubro do mes­
mo ano). Porém, eram fortes os laços do Núcleo Bandeirante com o
recém-inaugurado Plano Piloto.
No início da década de 1960, como era de se esperar, a maior par­
te do comércio de Brasília se localizava no Núcleo Bandeirante.
O Plano Piloto dele dependia para se abastecer de material de constru­
ção, eletrodomésticos, roupas, peças e serviços para automóveis, e até
de gêneros de primeira necessidade obtidos em uma grande feira livre
que lá existia. E claro que os moradores não queriam abandonar suas
residências, nem seus estabelecimentos comerciais para serem trans­
feridos para as distantes cidades satélites. JK assumiu uma posição
ambígua: por um lado fez declarações favoráveis e recebeu lideranças
como que a apoiá-las, por outro, terminou o mandato sem resolver
a questão. O jornal Cidade Livre, em seu número 4, de 7 de julho de
1960, trazia em sua primeira página a seguinte declaração de JK:

Ninguém melhor que o Presidente sabe do sacrifício da gente que para aqui
veio formar o Núcleo Bandeirante. Por essa razão não poderia deixar de
atender àqueles que ajudaram a construir Brasília. Haverá lugar para todos.
O Núcleo Bandeirante devidamente urbanizado, ficará onde está, mesmo que
eu tenha que fazer o impossível. Esta é a melhor homenagem que o meu go­
verno presta aos que me ouviram e em mim confiaram.

Em suas páginas centrais trazia ainda as seguintes palavras pronun­


ciadas pelo Presidente da República a um grupo de pioneiros que com
ele se avistou a fim de tratar do problema do Núcleo Bandeirante:
253
0 capital da esperança

“Jamais permitirei que se jogue fora o bagaço depois de espremida e

Aula ao ar livre no Núcleo Bandeirante (1958)

No governo Jânio Quadros (1 de fevereiro de 1961 a 21 de agosto


de 1961), as pressões pela remoção do Núcleo Bandeirante aumentam
fortemente, apesar das promessas, do então candidato, de realizar uma
série de melhoramentos na cidade. Desta vez, no entanto, o governo
defronta-se não apenas com o operariado, como já tinha ocorrido nos
conflitos relativos à Vila Sarah Kubitschek e sua transformação em
Taguatinga e na transferência da Vila Amauri. Nestas ocasiões, nem
todas as reivindicações foram atendidas, já que o peso de barganha
do operariado encontrava limites mais imediatos que aqueles defini­
dos para os comerciantes. E assim que, responsável pelo abastecimento

254
Capítulo 4 | Os conflitos

do território da construção, um comércio forte passou a liderar, em


aliança com o operariado, o Movimento Pró-Fixação e Urbanização
do Núcleo Bandeirante, o maior movimento popular organizado no
Distrito Federal até 1961, quando a conjuntura política nacional pas­
sou a mudar como um todo. É importante frisar a hegemonia no mo­
vimento dos comerciantes e seus interesses. Epstein (1973, p. 77) in­
forma que:

Muitas firmas especialmente de vendas a atacado e armazéns, não seriam de­


salojadas tão facilmente da Cidade Livre. Esses interesses comerciais - alguns
com importantes conexões políticas - lançaram uma campanha contra a re­
moção da Cidade Livre: o Movimento Pró-Fixação e Urbanização do Núcleo
Bandeirante. Esse conflito provocou um prolongado debate na Câmara dos
Deputados. [...] Vários comícios foram realizados na Cidade Livre, e o apoio
era mobilizado através de grupos de estudantes, o Sindicato da Construção
Civil [...] várias improvisadas associações de moradores de várias áreas da
Cidade Livre, e, significativamente, a Associação Comercial de Brasília.

O Movimento Pró-Fixação chegou a contar com vários departamen­


tos, como o de relações públicas, o cultural e, inclusive, um departa­
mento de propaganda que realizava filmes sobre as manifestações de
massa que ele patrocinava. Estes filmes eram, depois, projetados em
praça pública para discussão e manutenção da mobilização. Além
disso, contavam com um jornal, O Núcleo Bandeirante, órgão ofi­
cial do Movimento Pró-Fixação, que veiculava o andamento das ges­
tões realizadas pelas lideranças, bem como mantinha a população
informada dos principais acontecimentos ligados aos objetivos do
Movimento. A organização interna do Movimento era constituída por
uma diretoria, constando de um presidente,
íp três vice-presidentes, se-
cretaria e tesouraria. Até onde sabemos à presidência do Movimento
só tiveram acesso comerciantes. A estratégia e a dinâmica da atuação
eram retiradas, em parte, das especificidades existentes no seio da
população (veja a parte sobre regionalismo do Capítulo 1), como
deixa perceber o relato de um líder da época:

Aqui o Movimento Pró-Fixação e Urbanização do Núcleo Bandeirante nós


organizamo assim uma espécie de, vamo dizer, de colônia de cada Estado.
Todos pertencia ao Movimento de Pró-Fixação: comerciante de toda classe,

255
0 capital da esperança

operário que morava aqui, profissional. Todos que morava aqui uniu num só
ideal - fixar a cidade. Um ideal unânime, não havia ninguém em contrário.
Todos pensava do mesmo modo. E então nós partimo para o Congresso e or-
ganizamo assim uma espécie de colônia de cada Estado. Então formava assim
um líder de cada Estado e ia atrás dos deputado, dos senador, de ministro dos
seus Estado. E com isso nós lideramo e veio a fixação. Aí veio a Lei 4.020. Ela
veio no fim de 61 e foi publicada no Diário Oficial de 8 de janeiro de 1962.
Aí oficializou como cidade-satélite. De modo que é a única cidade-satélite ofi­
ciada por lei assinada, sancionada pelo Congresso e assinada pelo Presidente
da República, é o Núcleo Bandeirante. Que as outras tudo foi criada por por­
tarias. Na época a nossa campanha mais séria foi na saída do Juscelino e na
entrada do Jânio. Porque o Jânio quando fez a campanha política prometeu,
pra angariar voto, prometeu a transformar o Núcleo Bandeirante numa ver­
dadeira Vila Maria. Mas, quando ele foi pra Presidência, ele aderiu ao mesmo
plano que tinha Israel Pinheiro - tinha saído JK, tinha saído Israel Pinheiro
e estava na frente da administração Paulo de Tarso. Paulo de Tarso também,
foi eleito pra deputado, também fez a campanha, fez a mesma promessa, mas
uma vez sendo nomeado prefeito de Brasília também aderiu, vamo dizer.
O presidente queria, vamo dizer, acabar com o Núcleo Bandeirante. Transferir
isso aqui. [...] Basta dizer o seguinte: nós conseguimo uma coisa que é difícil
de se conseguir em qualquer Congresso: conseguir a urgência, urgentíssima
pra ser votado um processo. Então nós conseguimo isso por causa do trabalho
de equipe, de liderança que nós fizemo junto aos parlamentar da nossa região.
Nós levamo e fomo vitorioso e vencemo. Então no 14 de dezembro daquele
ano de 61, que nós fomo vitorioso no Congresso, o próprio Presidente da
República veio assinar, veio com os seus ministros, com a equipe toda, veio
assinar - nós instalamo um palanque muito grande aí na Avenida Central,
palanque de madeira mas muito bem construído, coberto de toldo de lona - e
o presidente, que era o Jango na época, veio sancionar a lei aqui no Núcleo
Bandeirante. Nós fizemo uma grande festa, matamo umas 40 vaca, demo
um churrasco pra todo o povo, fizemo uma festa de arrombar. Demo muito
barril de chope, muitas caixa de guaraná, pão. Nós distribuímo pão para toda
criança, para todo povo. Fizemo uma festa que foi quase igual a da inaugura­
ção de Brasília” (comerciante, Núcleo Bandeirante).

Mais uma vez um movimento político ligado diretamente ao proble­


ma habitacional define a existência, no caso - mais apropriadamente
- a permanência, de uma cidade-satélite. São, assim, as forças sociais
Capítulo 4 | Os conflitos

que se defrontaram nesses conflitos que determinaram a existência


do Plano Piloto enquanto espaço urbano basicamente destinado ao
funcionalismo federal, profissionais liberais e comerciantes: a peque­
na burguesia. Já as cidades-satélites ficaram definidas como, grosso
modo, e sobretudo nos seus inícios, o espaço urbano destinado aos
trabalhadores. O Movimento Pró-Fixação não desapareceu, porém,
com o êxito conseguido. Continuou, a partir daí, na luta pela urba­
nização da cidade, esmagadoramente constituída por barracos sem
os serviços urbanos básicos necessários. O seu final veio em abril de
1964 quando, com o golpe militar, as reuniões populares de caráter
reivindicativo passaram a ser mal vistas e perseguidas.
Notemos, ainda, que a conjuntura que esse Movimento atravessou é
bastante significativa para o seu entendimento. Em termos políticos
foi um período bastante agitado. Em menos de um ano o país passou
por três presidentes: JK, cujo mandato expirou em 31 de janeiro de
1961, Jânio Quadros que renunciou em 21 de agosto de 1961 e João
Goulart que tomou posse em 7 de setembro de 1961.
Tudo indica que a fixação do Núcleo Bandeirante acabou benefi­
ciando o lado mais forte da aliança que formava o Movimento Pró-
Fixação: os comerciantes. Havia um grande número de pessoas que
vivia em “invasões” do lado direito da rodovia Brasília-Goiânia e
que foram retiradas da área devido ao tipo de projeto de urbanização
que se efetuou para o Núcleo Bandeirante, localizando-o apenas do
lado esquerdo da rodovia. Além disso, como era uma cidade na qual
com freqüência encontrava-se mais de uma família por casa, havia
um maior número de famílias do que lotes a distribuir por proprie­
tários. Esta população excedente também foi excluída. Por último,
sendo uma cidade que era mais um loteamento do que o produto de
planejamento urbano, quando este foi implantado, definindo setores
e suas funções, muitas residências foram destruídas e seus moradores
relocalizados, em geral, em outras localidades. Não é por acaso que
o Núcleo Bandeirante tenha permanecido uma cidade fortemente de­
dicada ao comércio.
*** **

Os fatos que apresentamos relativos à questão da habitação dos tra­


balhadores no período da construção desembocaram em movimen­
tos políticos de maior ou menor eficácia. Foi realmente a habitação a
257
0 capital da esperança
grande fonte de conflitos, em termos mais amplos, na época. Bahouth
(1978), por exemplo, toma como questão central a falta de moradias
no período da construção e dedica vários capítulos a registrar de­
poimentos seus e de outros “pioneiros”. É significativo o número de
vezes que a polícia aparece nos relatos para coibir invasões, defron-
tando-se com grupos populares que frequentemente tinham líderes à
frente. De fato, os nomes de várias vilas proletárias que surgiram em
momentos distintos e como resultado de diferentes histórias, como a
Vila Amauri, Vila Dimas, Vila Tenório e Vila Matias, remetem aos
nomes dos indivíduos que estavam à frente dos diferentes processos
de suas fundações. A Vila Tenório, “invasão” ocorrida ao lado do
Núcleo Bandeirante, seria a única que se desviaria um pouco deste
padrão, mas acabaria por obedecer à mesma lógica, já que seu nome
não se refere ao do seu presumível fundador, mas ao fato dele então
ser, ou ter sido, motorista do, àquela época, deputado federal Tenório
Cavalcanti (EPSTEIN, 1973, p. 79). “Invasões” ocorreram também
na periferia de Taguatinga, a recém-formada cidade-satélite, como
foi o caso da Vila Matias que foi criada com lances dramáticos de
conflito entre forças populares e a repressão:

A única coisa que falta àqueles muitos postados dia e noite em frente à sub-
prefeitura (à espera de um lote em Taguatinga) ... era alguém que desse a
largada, para que fosse iniciada a ocupação de uma área qualquer. E apareceu
um: Raimundo Matias. Mineiro do interior, ele viera com a mulher e filhos
trabalhar em Brasília. Fichado na “Pacheco Fernandes”, fora um dos que es­
caparam àquela escaramuça com a polícia, a mais sangrenta de toda a história
de Brasília.

Talvez até por esse motivo ele tenha tomado a decisão de liderar a “inva­
são” das terras localizadas depois da passarela, “onde dava para todo mundo
morar”.
A idéia surgiu na véspera do Natal de 1959. E, no dia 4 de janeiro, teve início
a maior invasão de terras ocorrida em Brasília.

“No dia 16 eu era preso pela primeira vez e levado pela Guarda Especial de
Brasília para explicar. Mas explicar o quê?” lembra Matias. - “explicar que
eu e aquela gente toda queria morar ali?”. Depois dessa, ele foi preso mais
doze vezes.

258
Capítulo 4 | Os conflitos

Tinha início a “invasão”. Os barracos erguidos durante um dia eram derruba­


dos na manhã seguinte. Porém, já não havia mais força que impedisse aquela
avalanche. O número de construções noturnas era superior ao poder de derru­
bada diurna, por conta da Novacap (BAHOUTH JR., 1978, p. 105-106).

Na invasão que originou a Vila Mathias, como a Polícia foi solicitada a in­
tervir, Matias colocou os homens em primeiro plano (dizia ele que deveriam
morrer primeiro), depois as mulheres, e por último, as crianças, colocadas
juntos a um grande mastro em que foi hasteada a Bandeira Nacional (só que
de cabeça para baixo) (idem, p. 57).

Os partidos políticos que atuavam no território da construção perce­


beram a importância da questão da habitação e envolveram-se direta
ou indiretamente na organização e dinamização desses movimen­
tos. Há indicações visíveis do envolvimento do Partido Trabalhista
Brasileiro na Associação de Moradores da Vila Amauri (por meio
do próprio Amauri de Almeida) e do Partido Socialista Brasileiro no
Movimento Pró-Fixação do Núcleo Bandeirante, pelo envolvimento
de vários partidários e, em especial, do Deputado Federal Breno da
Silveira que era o principal defensor do Movimento no Congresso
Nacional. Há indicações esparsas e dificilmente confirmáveis do en­
volvimento do Partido Comunista Brasileiro em ambos movimentos.
Quanto ao movimento da Vila Sarah Kubitschek foi impossível iden­
tificar até que ponto nele havia ou não algum envolvimento político-
partidário. De qualquer modo, retenhamos o fato de que a questão
da habitação era a forma que expressava o conflito mais geral, mais
abrangente e central na época da construção, sendo ela que real­
mente permitiu e até mesmo estimulou o surgimento de movimentos
políticos populares com formas de organização mais definidas e de
caráter nitidamente reivindicativos. Nestes termos, o período é forte­
mente marcado pela luta por melhores condições de moradia.

Sumarizo agora os principais pontos relativos aos diversos conflitos


que expusemos, vinculados ao lazer, à alimentação e à habitação na
época da construção de Brasília.
Os problemas ligados ao lazer, apesar de incidirem sobre um gran­
de número de pessoas, não levaram, ao que tudo indica, a reações

259
0 capital da esperança
coletivas espontâneas ou organizadas. Além das práticas de lazer vi­
gentes serem vividas diferencialmente pelos trabalhadores, na medida
em que nem todos se viam necessariamente impelidos às alternativas
do álcool e da zona de prostituição, havia uma certa indiferença, em
termos coletivos, à repressão. Podemos supor que esta indiferença
advinha do caráter específico dos tipos de lazer a que nos referimos,
os quais, ao mesmo tempo em que se apresentavam de maneira qua­
se exclusiva para aquela grande parcela da população marcada pela
ausência relativa de mulheres, implicavam comportamentos passíveis
de ser classificados como desviantes e cuja contrapartida era um con­
trole muitas vezes não questionado.
Já os conflitos ligados à alimentação tocaram aquela parte da po­
pulação trabalhadora localizada nos acampamentos e abrangeram
um número ainda maior de trabalhadores. Ocorreram em cenários
como cantinas, não propícios a comportamentos considerados des­
viantes. Por outro lado, a alimentação, estando diretamente vincula­
da à reprodução imediata da vida, ao se tornar uma questão atinge
um número significante de trabalhadores (justamente os totalmente
subordinados à lógica de uma grande obra através da moradia em
acampamentos), em um espaço, a cantina, cujo cotidiano é atravessa­
do pela influência da esfera da produção. Além disso, a alimentação
é um aspecto da reprodução da força de trabalho cujo fornecimento
muito abaixo do que é socialmente esperado pode ser identificado
com espoliação do salário. Deste modo, essa questão permitiu a mo­
bilização dos trabalhadores por meio de formas políticas não muito
bem definidas, nem organizadas, como rebeliões e quebra-quebras.
Relembremos que neste âmbito, além destas formas de resistência,
protesto e reivindicação, surgiu um violento confronto (cuja radicali­
zação parte do Estado por meio da polícia) que teve como desdobra­
mento o crescimento da organização dos trabalhadores no seu sindi­
cato. Assim, no tocante à questão da alimentação surgiram reações
coletivas, espontâneas ou parcamente organizadas, passíveis de ser
encaminhadas politicamente.
Os problemas ligados à habitação, a partir da saturação da proposta
inicial imaginada pelo Estado, passaram a abranger quase toda a po­
pulação do território da construção. Isto se deu porque a questão da
habitação penetrou inclusive as diversas casas da Cidade Livre que
várias famílias ocupavam à espera de residências próprias. Há que
260
Capítulo 4 | Os conflitos

considerar também a chegada de milhares de retirantes nordestinos,


em geral acompanhados de suas famílias, assim como o contingente
de operários residindo nos acampamentos das construtoras, em ca­
sas coletivas, que pretendia trazer suas famílias para o território da
construção. Foi, assim, a questão mais abrangente existente na época.
Em termos de capacidade de mobilização política dos trabalhadores
da construção civil foi mais importante até mesmo do que a luta por
melhores salários sobre a qual, no período anterior à inauguração,
na verdade não temos nenhum registro. A questão da habitação foi
aquela capaz de aglutinar, pelos mesmos interesses, o maior número
de trabalhadores, levando-os a se organizar em entidades diversas,
com processos de escolha de lideranças e estratégias de atuação de
caráter nitidamente político. Aqui os partidos políticos, pelo seu en­
volvimento ou dos seus militantes, passaram a fazer parte, muitas
vezes explicitamente, dos diversos movimentos.
Neste Capítulo, pretendi apreender a qualidade dos conflitos em que
se envolveram os trabalhadores, mediante a construção de um qua­
dro onde se relacionavam as condições de produção da vida, exem­
plificadas no lazer, alimentação e habitação, a atuação da polícia e as
diversas formas engendradas para se contrapor a estas questões.

261
0 capital da esperança
população na área, sobretudo no que diz respeito à alimentação e
habitação. As formas utilizadas pelos controladores do empreendi­
mento para responder a estas questões (o acampamento e a cantina,
basicamente) ajustam-se, mais uma vez, aos interesses das ativida­
des produtivas, predominantemente realizadas por um contingente
de trabalhadores jovens e desacompanhados de suas famílias. As
implicações desta subordinação extrema à esfera da produção são
várias, e se fazem sentir, por exemplo, na presença de uma gran­
de zona de prostituição e nos conflitos relativos à alimentação e
habitação.
Movimentar-se no contexto das relações que rapidamente resu­
mi anteriormente, e que foram detalhadamente expostas nos ca­
pítulos precedentes, certamente levará a encontrar, no estudo de
grandes obras como Itaipu e Tucuruí, recorrências com a totali­
dade analisada referente à construção de Brasília. Com efeito, um
dos fios que permeiam a grande subordinação existente no terri­
tório de grandes obras é a repressão cotidiana do contingente de

Congresso Nacional e Esplanada dos Ministérios (1959-1960)


Conclusão

trabalhadores residentes nos acampamentos das companhias cons­


trutoras e, portanto, submetidos aos vigilantes das firmas.
Em realidade, foi um conflito ocorrido entre estes quadros de vigias
internos e os trabalhadores, que chamou a atenção da imprensa
nacional para as condições de trabalho e de vida a que estavam
submetidos os operários que participavam da construção da hidre­
létrica de Tucuruí, no Estado do Pará. Refiro-me a um confronto
ocorrido em 4 de abril de 1980, no qual os trabalhadores se defron­
taram com a segurança de uma das grandes empreiteiras da obra,
resultando feridos (um a bala), espancamentos, depredações, etc. O
que segue no texto está baseado em notícias publicadas no Jornal
do Brasil, Rio de Janeiro, de 7 de abril de 1980, na revista Veja, São
Paulo, de 16 de abril de 1980 e, sobretudo, em extensa reportagem
do Jornal de Brasília, de 27 de abril de 1980.
A construção de Tucuruí, um trabalho de grande porte, destinou-se
a produzir uma das maiores hidrelétricas brasileiras. Sua realiza­
ção foi coordenada por uma grande empresa estatal, a Eletronorte,
que contratou empreiteiras. Foi construída uma cidade que, na
verdade, pode ser entendida como um enorme acampamento.
A grande influência das determinações da esfera da produção na
organização social do espaço desta “cidade” certamente é um re­
flexo da subordinação da questão da habitação no território da
construção de Tucuruí aos interesses da edificação da grande
obra.
De fato, as informações provenientes de dados secundários permi­
tem perceber que o padrão de residências nesta “cidade” obedece
exclusivamente aos critérios definidos pela hierarquia da atividade
produtiva. Nota-se, também, que se frata de uma população tra­
balhadora geralmente sem família e que parcialmente se envolveu
em um sério conflito onde se combinavam reivindicações operá­
rias relativas à falta de lazer, às condições precárias de alimenta­
ção e habitação e aos abusos cometidos pela guarda de segurança
da empreiteira (JORNAL DE BRASÍLIA, T7 de abril de 1980).
O contexto deste conflito foi assim descrito na revista Veja, de 16
de abril de 1980:

267
0 capital da esperança
O isolamento na selva, as precárias condições de trabalho e a violência
dos guardas de segurança estiveram no epicentro da explosão de revol­
ta registrada no último dia 4, sexta-feira Santa, no canteiro de obras da
Hidrelétrica de Tucuruí, 300 quilômetros ao sul de Belém do Pará.

Registre-se também a presença de uma grande zona de prostituição


na qual “nos dias de pagamento dos operários da obra o número
sobe de 200 para 800. São oriundas de cidades vizinhas” (JORNAL
DE BRASÍLIA, 27 de abril de 1980). Além destas características,
já por nós conhecidas dos grandes projetos, existem outras. Destaco
indicações de que o ritmo de trabalho imposto implica grandes jor­
nadas para os trabalhadores. Primeiramente a jornada de trabalho
está em torno de 12 horas diárias. O Jornal de Brasília publicou
um contracheque, do mês de março de 1980, de um trabalhador
da obra no qual se vê que os acréscimos além do “salário normal”
(Cr$ 1.764,35), relativos a “salários extra” e “adicional noturno”,
perfaziam um total de Cr$ 1.467,49, ou seja, mais de 40% dos
vencimentos brutos (Cr$ 3.484,84). Além do “salário normal”, o
“salário extra” e o “adicional noturno”, aparece creditada, sob o
rótulo “valor prêmios”, a quantia de Cr$ 253,00. Do total dos seus
vencimentos brutos, o operário recebeu Cr$ 1.880,00, por força
de uma série de descontos em que o débito maior refere-se à sua
alimentação e aparece rotulado como “refeitório”.
Enfim, ao que tudo indica, a recorrência da totalidade que de­
signo de grande projeto, é altamente provável.2 Mais ainda, tal­
vez a situação de subordinação a que se encontram submetidos
os trabalhadores nas grandes obras da construção civil possa ser
encontrada em outros contextos não imediatamente ligados a este
ramo da produção, como em projetos da dimensão do Jari ou do
Trombetas (veja SAUTCHUK, 1980, sobretudo p. 29 e seguintes;
veja também a matéria “Trombetas será um projeto viável somen­
te em 1983”, do JORNAL DE BRASÍLIA, de 29 de outubro de
1980). Parece também que grandes empreendimentos agropecuá­
rios que contaram com incentivos fiscais da Superintendência do
Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) guardam similaridades,

2 Minhas pesquisas posteriores sobre a construção do Canal de Suez (1854-64), Canal do


Panamá (1904-14) e outras grandes obras, confirmariam essa afirmação e me levaram a propor
a existência de uma forma de produção denominada "grandes projetos" (RIBEIRO, 1987).

268
Conclusão

ao menos parcialmente, com características que apresentamos no


decorrer deste trabalho. Referimo-nos a trabalhos que são desen­
volvidos por “homens, solteiros principalmente, e, se casados,
apartados temporariamente da família”, sujeitos a “imobilização
física por meio do confinamento espacial e/ou da força armada
acionada pelas empresas”, em que boa parte do trabalho é remu­
nerada por produção, surgindo um grande número de empreiteiros
ou gatos, conforme se vê no “Projeto de pesquisa - um estudo so­
bre peonagem na Amazônia” (1978), de Neide Sterci. Esta autora
chama o corpo de vigilância das empresas, formado por jagunços,
de a “força armada das empresas”.
De qualquer forma, espero que este trabalho tenha mostrado que,
ao se estudar grandes projetos, não apenas por se tratar de obras
da construção civil, o melhor método de pesquisa será, mais uma
vez, começar pelo concreto.

269

Referências

BAHOUTH JUNIOR, Alberto. Daguatinga: pioneiros e precursores.


Brasília: Copyright do autor, 1978.

BENEVIDES, Maria Victoria de Mesquita. O governo Kubitschek.


Desenvolvimento econômico e estabilidade Política. 2. ed. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1976.

BICALHO, Nair H. Operários e política (estudo sobre os trabalhadores


da construção civil em Brasília). Dissertação (Mestrado em Sociologia)-
Universidade de Brasília, Brasília, 1978.

CARDOSO, Miriam Limoeiro. Ideologia do desenvolvimento. Brasil JK-


JQ. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

CODEPLAN - Companhia de Desenvolvimento do Planalto Central.


Diagnóstico do espaço natural do Distrito Federal. Brasília, 1976.
COUTINHO, Ronaldo do Livramento. Operário de construção civil: ur­
banização, migração e classe operária no Brasil. Tese de livre docência em
Sociologia, UFF, Rio de Janeiro, 1975.

DIÁRIO DE BRASÍLIA. Serviço de Documentação da Presidência da


República: Rio de Janeiro, 1960.

DURHAM, Eunice. Família operária. Consciência e ideologia. Dados -


Revista de Ciências Sociais, v. 23, n. 2, 1980.
EPSTEIN, David. Brasília, plan and reality: a study of planned and
spontaneous urban development. Berkeley: University of Califórnia
Press, 1973.

ESTERCI, Neide. O mito da democracia no país das Bandeiras. Análise


dos discursos sobre colonização e migração no Estado Novo. Dissertação
(Mestrado em Antropologia Social)-UFRJ, Rio de Janeiro, 1972.
------- . Um estudo sobre peonagem na Amazônia. Projeto de pesquisa.
1978. Mimeografo.

FAUSTO NETO, ANA MARIA QUIROGA. A família operária e a re­


produção da força-de-trabalho. Dissertação (Mestrado em Antropologia
Social)-Universidade de Brasília, Brasília, 1977.

GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Editora


Perspectiva, 1974.

273
0 capital da esperança

IBGE - INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA.


Censo experimental de Brasília. Comissão Censitária Nacional,1959.
JOFFILY, Geraldo I. Brasília e sua ideologia. Brasília: Thesaurus. 1977.

JULIÃO, Francisco (Org.). Ligas camponesas: outubro 1962 - abril


1964, Cuadiernos n. 27, Centro Intercultural de Documentación, Cidoc,
Cuernavaca, México, 1969.

KUBITSCHECK, Juscelino.Por que construí Brasília. Rio de Janeiro:


Bloch Editores, 1975.
LARAIA, Roque de Barros. Arranjos poliândricos na sociedade suruí.
Revista do Museu Paulista, São Paulo, Nova Série, v. 14, 1963.
LEITE LOPES, José Sérgio. O vapor do diabo: o trabalho dos operários do
açúcar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
------- . Fábrica e vila operária: considerações sobre uma forma de servidão
burguesa. Mudança social no Nordeste: a reprodução da subordinação.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

LEITE LOPES, J. S.; MACHADO DA SILVA, L. A. Estratégias de tra­


balho. Formas de dominação na produção e subordinação doméstica de
trabalhadores urbanos. Mudança social no Nordeste: a reprodução da su­
bordinação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
LEÓBAS, Carolino (o poeta do povo). O meu encontro com Juscelino e o
pedido que ele me fez. Cordel, Ceilândia, Distrito Federal, s./d.
MARX, Karl. El capital. 7. ed. México: Fondo de Cultura Econômica,
1975.
------- . Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Martins
Fontes, 1977.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Lisboa: Editorial


Presença, 1974.
MOISÉS, José Álvaro; MARTINEZ-ALIER, Verena. A revolta dos subur­
banos ou “patrão o trem atrasou”. Contradições urbanas e movimentos
sociais. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
OLIVEIRA, Chico de. Brasília ou a utopia intramuros. Cadernos de
Debate, O banquete e o sonho, São Paulo, n. 3, 1976.
OSÓRIO, Antonio Carlos. Brasília: diálogo com o futuro. Brasília:
Thesaurus, 1978.
Referências

PASTORE, José. Brasília: a cidade e o homem. São Paulo: Editora Nacional


e Edusp: 1969.
PILATTI, Orlando. Representação urbana: o caso de Brasília. Dissertação
(Mestrado em Antropologia Socialj-Universidade de Brasília, Brasília:
1976.

PIMENTEL, Maria de Lourdes Sá Barreto. Os peões da Village: uma reflexão


sobre movimentos de operários da construção civil, s./d. Mimeografado.
RIBEIRO, Gustavo Lins. Arqueologia de uma cidade. Brasília ano 20.
Brasilia: Ágil, 1980.
------- . Cuanto más grande mejor? Proyectos en gran escala, una forma
de producción vinculada a la expansión de sistemas econômicos. Desarrollo
Econômico, Buenos Aires, v. 105, 1987.
------- . Empresas transnacionais: um grande projeto por dentro. São Paulo:
Marco Zero; Rio de Janeiro: Anpocs, 1991.

RIBEIRO, Maria Teresinha. Natureza de classe dos sindicatos no Brasil.


Um estudo de caso. Dissertação (Mestrado em Sociologiaj-Universidade de
Brasília, Brasília, 1977.

RODRIGUES, Leôncio. Conflito industrial e sindicalismo no Brasil. São


Paulo: Difusão Européia do Livro, 1966.

SAUTCHUK, Jaime et al. Brasil. Projeto Jari. A invasão americana. São


Paulo: Brasil Debates, 1979.

SILVA, Ernesto. A história de Brasília. Brasília: Editora Brasília, 1971.


SINDICATO DE TRABALHADORES NA INDÚSTRIA DA
CONSTRUÇÃO E DO MOBILIÁRIO DE BRASÍLIA. Atas de Assembléias
do Sindicato. Brasília, s./d.
SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Getúlio a Castelo. 3. ed. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1975.

TOLEDO, Caio Navarro de. ISEB: fábrica de ideologias. São Paulo: Ática,
1977.

VAN GENNEP, Arnold. Os ritos de passagem. Petrópolis: Vozes, 1978.


VASCONCELOS, Adirson. A mudança da capital. Brasília: Copyright do
autor, 1978.

275

Você também pode gostar