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Disciplina de Português

Ano Letivo 2017 -2018

Teste de Avaliação – 7.º Ano


Outubro de 2017

Leitura e Educação Literária

Texto A
Lê o texto.

Gisela João: O fado é música de intervenção romântica

O fado é música de intervenção romântica. Quem o diz é Gisela João, que gosta de se ver como
uma espécie de “doutora do coração”. Porque quando canta intervém nos assuntos do
coração, do nosso coração, que todos somos capazes de sentir e que todos sentimos de
maneira diferente. Como ela que, garante, nunca canta um fado da mesma maneira. O que
5 levou a menina de Barcelos a apaixonar-se pelo fado foi a forma como este “dá toda a força à
palavra” e como textos simples conseguem dizer tanta coisa. A conversa decorreu numa
amena tarde de inverno, no Lux, em Lisboa, onde Gisela João falou que se desunhou.

O que sobra hoje da menina de Barcelos que gostava de cantar sozinha no duche?

Independentemente de sermos cantores ou não, vamos sempre tornando-nos pessoas


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diferentes, vamos crescendo e amadurecendo. Continuo a mesma pessoa, mas com uma
tensão maior nas costas, de responsabilidade. Por causa da expectativa que as pessoas têm
quando ouvem o meu nome.

E do facto de teres perdido anonimato?

Sim. Aflige-me muito quando vejo aqueles programas, estilo “Ídolos”, e oiço os miúdos
15
dizerem que querem ser famosos. Não querem ser cantores, querem ser famosos. Isso é
muito vago. E é vazio porque o ser conhecido é vazio. Mas sim, esse lado da privacidade é o
que se perde. Mas a pessoa em si, falando de mim, é que tem de controlar essa parte da
privacidade, perceber o que é que dá, até que ponto.

Vendo a história de tantos cantores, parece contar muito mais a perseverança e o trabalho
20 do que o talento. Mas, quando olho para ti, tenho a sensação de que não tiveste de
contrariar nada e que as coisas aconteceram naturalmente.

Eu tive de batalhar muito, filhote [responde quase zangada]. Muito. Eu venho de Barcelos.
Canto desde pequenina. E cantando fado, eu não era da cidade do fado. Quando cheguei a
Lisboa, não sabia como eram as dinâmicas das casas de fado, como era o meio, há toda uma
25 linguagem que eu desconhecia. Quando cheguei, fui cantar para o Sr. Vinho e quando gravei o
disco, aí sim, é que as coisas aconteceram naturalmente. As pessoas gostaram, e ainda bem...
Porquê o fado? As meninas e adolescentes de Barcelos não andavam com certeza a cantar,
nem sequer a ouvir, fado…

Divirto-me sempre a contar essa história. Eu era miúda e sou a mais velha de sete. E tomava
conta dos meus irmãos. Lembro-me de que éramos ainda só quatro e eu andava na segunda
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ou terceira classe quando ouvi o “Que Deus me perdoe” e achei que aquele poema era sobre
mim. Era um poema [de Silva Tavares, que fez também a letra da “Casa da Mariquinhas”]
cantado pela Amália. Sim. Achava que aquela senhora estava a cantar sobre mim: se a minha
alma fechada/se pudesse mostrar/o que eu sofro calada/se pudesse contar/toda a gente
veria/quanto sou desgraçada/quanto finjo alegrias/quanto choro a cantar. Foi o poder da
35 poesia que me fez prender ao fado. Um texto muito simples pode dizer tanta coisa e falar de
tantas vidas ao mesmo tempo! Naquele momento, quando ouvi aquele poema, ouvi a minha
vida. Eu que era pequenina e queria brincar e fazer as minhas birras de criança, não podia
porque tinha de ser o exemplo para os mais novos. Se as pessoas soubessem o quanto está cá
dentro, o quanto choro a cantar, quando eu cantava havia qualquer coisa que se libertava cá
dentro. Sabes quando estamos a desabafar com alguém? Quando canto, sinto que estou a
desabafar. Já sentia isso quando era miúda. E então apaixonei-me por aquilo! Comecei a
cantar nas festas de escola, de fim de período, de Natal, e numa espécie de minichuva de
estrelas que uma senhora dos círculos católicos barcelenses organizava na cidade.
Manuel Esteves in www.jornaldenegocios.pt, edição de 3 de fevereiro de 2017

[texto com supressões, consultado em 26 de julho de 2017]

Para responderes a cada item (1. a 4.), seleciona a opção que permite obter uma afirmação
adequada ao sentido do texto.

1. Gisela João afirma que a fama

(A) alterou completamente a sua vida porque as pessoas a conhecem bem.

(B) alterou completamente a sua forma de ser por causa da responsabilidade.

(C) não mudou a sua forma de ser, mas atualmente encara com outra seriedade as suas
ações.

(D) não alterou a sua forma de ser, mas passou a ter problemas psicológicos de tensão
nervosa.

2. Gisela João teve sucesso no mundo do fado porque

(A) gravou um disco.

(B) o talento sobressaiu após um trabalho imenso.

(C) conhecia bem o meio.

(D) o trabalho se impôs ao talento.


3. Quando afirma ser “doutora do coração” (l. 2), Gisela João pretende afirmar que

(A) a sua música age sobre sentimentos.

(B) diagnostica problemas.

(C) incentiva os cuidados cardíacos.

(D) a sua música é sempre diferente.

4. A palavra “perseverança” (l. 19), no contexto em que é utilizada, significa

(A) perseguir alguém obstinadamente.

(B) coragem de fazer algo.

(C) continuar a fazer algo, insistindo.

(D) força para continuar a fazer algo.

Texto B

Lê o texto. Se necessário, consulta as notas de vocabulário.

O ermitão1 e o ladrão

Num ermo, morava um virtuoso2 Ermitão ao qual se chegou um salteador3 de caminhos,


dizendo-lhe:
– Vós rogais a Deus por todos; rogai-lhe que me tire deste ofício4 que trago, senão hei vos
de matar.
5 E indo dali tornava a fazer o mesmo que dantes, e outra vez tornava a vir ao padre,
dizendo:
– Vós não quereis rogar a Deus por mim, pois hei vos de matar.
Tantas vezes fez isto que uma vez veio determinado para matar o padre, o qual lhe pediu
e lhe disse:
10 – Já que me quereis matar, tiremos primeiro ambos uma lájea5 que tenho sobre minha
sepultura e, morto, lançar-me-ás dentro sem muito trabalho.
Ele o aceitou, e assim foram ambos a erguer a lájea; porém, como o salteador trabalhava
quanto podia por erguê-la, assim trabalhava o padre Ermitão por que não se erguesse, e desta
maneira ambos não faziam mudança na lájea. Atentou o salteador no caso, e disse assim:
15 – E se vós não ajudais, como posso eu erguê-la? Que ainda que eu erga da minha parte,
vós fazeis da vossa com que não aproveite o que faço.
Antes que passasse adiante, disse o padre Ermitão:
– Vês aí, irmão, o que eu te digo. Que me presta a mim rogar a Deus por ti, pedindo-lhe
que te tire do pecado e mau ofício que trazes, se tu não te queres tirar e estás muito de
20 propósito perseverando nele?
Teófilo Braga, Contos tradicionais do povo português. Porto, Porto Editora, 2015, pp. 103-104.
VOCABULÁRIO
1 ermitão: religioso que não vive em comunidade, mas num lugar de isolamento e de retiro.

2 virtuoso: que tem virtudes, caritativo.

3 salteador: ladrão.

4 ofício: destino, obrigação natural.

5 lájea: o mesmo que laje (pedra lisa e retangular para cobrir sepulturas).

5. No início do conto estabelece-se entre as duas personagens uma relação de oposição.


5.1 – Esclarece essa oposição, justificando a tua resposta.
5.2 – Identifica o objetivo dessa oposição entre as duas personagens.

6. Explica a intenção do Ermitão, ao afirmar “Vês aí, irmão, o que eu te digo.” (l. 18).

7. O conto transcrito, “O ermitão e o ladrão”, é um conto tradicional e, como tal,


transmite uma lição de moral.
7.1 - Apresenta a moral deste conto.

8. Para responderes aos itens de 8.1. a 8.3., escreve o número do item e a letra que identifica
a opção escolhida.

8.1. O pronome “Vós” (l. 3) refere-se a


(A) “Ermitão”.
(B) “salteador de caminhos”.
(C) “Deus”.
(D) “todos”.

8.2. A afirmação “senão hei vos de matar” (ll.3-4) constitui


(A) uma confissão.
(B) um desabafo.
(C) uma incitação.
(D) uma ameaça.

8.3. Ao afirmar “Tantas vezes fez isto” (l. 8), o narrador pretende mostrar que
(A) o Ermitão rezou muitas vezes a Deus.
(B) o ladrão disse muitas vezes ao padre que o mataria.
(C) o ladrão pediu muitas vezes ao padre que rogasse a Deus, acrescentando que o
mataria.
(D) o ladrão falou com o padre e regressou à sua atividade muitas vezes.
Gramática
1. Associa a palavra sublinhada nas frases da coluna A à classe e subclasse que lhe
correspondem na coluna B.

Coluna A Coluna B
(A) No mundo, existem muitos homens como este (1) Adjetivo numeral
que falava com o Ermitão. (2) Preposição
(B) Ele fez três tentativas para levantar a laje. (3) Pronome demonstrativo
(C) A primeira ideia do Ermitão foi a de lhe dar uma (4) Determinante demonstrativo
lição.

2. Para responderes a cada item (2.1. a 2.3.), seleciona a opção que completa cada
afirmação.
2.1. A única frase que não integra um advérbio é
(A) O ladrão não deixou de roubar.
(B) O Ermitão teve muita paciência.
(C) Foi lá no ermo onde viva que ele lhe ensinou uma verdade.
(D) O Ermitão pediu durante algum tempo pelo ladrão.

2.2. A única frase que integra um nome comum coletivo é


(A) Um grupo de ladrões não seria mais inteligente que o Ermitão.
(B) O ladrão persistia em roubar os bens das pessoas.
(C) As orações eram feitas pelo Ermitão todos os dias.
(D) Os pedidos do ladrão eram constantes.

2.3. A única frase que não inclui adjetivos é


(A) O primeiro pensamento do Ermitão foi para Deus.
(B) O jovem ladrão revela cada mais a sua personalidade.
(C) O esforço do ladrão não surtia efeito naquela situação relacionada com a laje.
(D) O Ermitão alertou o ladrão para o falso pedido que ele lhe dirigia.

3. Identifica todas as frases em que o constituinte sublinhado corresponda ao sujeito.


(A) Em Deus encontrou o ladrão a ajuda que queria.
(B) O Ermitão e o ladrão procuravam levantar a laje.
(C) O ladrão dizia-lhe: “Padre, reza por mim!”
(D) Ao ladrão deu o Ermitão uma lição de vida.
4. Completa cada uma das frases seguintes, conjugando o verbo nos tempos e modos
indicados entre parênteses.
4.1. O ladrão ____________ (gostar, pretérito perfeito simples do indicativo) que Deus o
ajudasse a mudar de vida.
4.2. O Ermitão ____________ (ficar, imperfeito do indicativo) com medo do ladrão, não lhe
daria uma lição.
4.3. Ele ____________ (poder, futuro do indicativo) mudar de vida.

Escrita
Imagina que o ladrão decidiu mesmo mudar a sua vida. Como o terá feito? Que
dificuldades enfrentou? Que tipo de vida escolheu?
Escreve a possível carta que o ladrão escreveu ao ermitão, com um mínimo de 150 e um
máximo de 220 palavras, em que narres os acontecimentos, em que o ladrão dá a conhecer ao
ermitão tudo o que aconteceu, até ao momento em que se transforma num homem
diferente.

Antes de escreveres o teu texto, atenta nas indicações que se seguem:


– respeita a estrutura formal da carta;
– seleciona um vocabulário variado e adequado ao género textual;
– redige frases claras e coerentes;
– aplica conectores do discurso;
– respeita as normas de ortografia;
– pontua corretamente o texto;
– revê o texto que escreveste e corrige-o, se necessário.
CRITÉRIOS DE CORREÇÃO

Compreensão do Oral
Pontuação

1.1. (A) 2

1.2. (B) 2

1.3. (B) 2

Total parcial 6 pontos

2. Criar/inventar:
País – EUA (Norte de Filadelfia) 3
Problema – Terreno abandonado num bairro perigoso e degradado
Resolução – Construção de uma horta; distribuição de alimentos frescos
e ocupação dos jovens

OU

Criar/inventar:
País – Nigéria
Problema – Doenças por problemas na recolha de lixo
Resolução – APP para recolha de resíduos por carros ecológicos
Inovar:
País – Turquia 3
Problema – Poluição citadina, em grande parte pelos plásticos feitos à
base de petróleo
Resolução – Plástico natural feito de casca de banana e facilmente
reciclável

OU

Inovar:
País – Índia
Problema – Gasto excessivo de água das sanitas (6 litros por descarga)
associado ao aumento da população e dos seus resíduos
Resolução – Retrete que poupa metade da água em cada descarga (3
litros)
Total parcial 6 pontos
Leitura e Educação Literária

Pontuação

1. (C) 3

2. (B) 3

3. (A) 3

4. (C) 3

Total parcial 12 pontos

5. Entre o Ermitão e o salteador estabelece-se um contraste, pois o primeiro é


um padre que é descrito positivamente, estando ligado ao Bem; já o 6
segundo, sendo ladrão, tem um caráter negativo e está ligado ao mal.
6. A frase do Ermitão permite-nos compreender que a situação da “lájea” foi
criada para que o ladrão pudesse perceber que só sairia dos maus caminhos
se assim o quisesse, pelo que não bastaria que o padre pedisse por ele se
7
ele teimava em manter este tipo de vida. Assim, tal como a lájea não saía do
lugar porque as forças eram contrárias também a vida do salteador não se
alteraria.
7. Este conto pretende demonstrar que é preciso ter vontade para fazer
qualquer coisa na vida. Se o próprio nada fizer no sentido da mudança, não 7
adiantará pedir ajuda a Deus a ou qualquer pessoa.
8.1. (A) 2
8.2. (D) 2
8.3. (D) 2
Total parcial 26 pontos

Gramática
1. (A) – (4); (B) – (1); (C) – (2) 3
2.1. (D) 3
2.2. (A) 3
2.3. (C) 3
3. (A), (B) 3
4.1. gostaria
4.2. ficasse 5
4.3. puder
Total parcial 20 pontos

Escrita
Total parcial 30 pontos
TOTAL 100 pontos