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Como a Picaretagem Conquistou o Mundo

Publicado em 08.04.2012 por gilvas

Na prateleira do sebo, apaixonei-me perdidamente pela capa deste livro. A fotografia de Steve
Smith, pinçada de um repositório online de imagens, retrata uma manada de ovelhas em um
registro de pouca profundidade de campo.

A princípio, não dá para ter certeza se as ovelhas estão indo ou vindo; o que se percebe,
imediatamente, é que o conjunto de animais felpudos se transmuta, conforme a profundidade,
em formas que remetem a cabeças de seres humanos. Preciso explicar o resto da metáfora?

Vale ressaltar que esta imagem é exclusiva da edição brasileira. A edição original não é tão feliz
em sua capa.

Frances Wheen poderia ser apelidado de Francis “Mean”, tamanha a sua fúria iconoclasta. Longe
de se tratar de um volume pesado ou rancoroso, Como a Picaretagem Conquistou o Mundo
extrai uma média de uma gargalhada a cada duas páginas. Claro, é importante manter um
distanciamento conceitual, ou tu vais perceber que Wheen fala do nosso mundo, e aí pode rolar
uma bad trip.

Ele começa em 1979, analisando a conjunção da derrubada do xá Reza Pahlevi no Irã e a chegada
de Margaret Thatcher ao número 10 de Downing Street. É o prenúncio de uma era dominada
pelos conservadores, como Wheen exemplifica ao mostra que os governos de Irã e Inglaterra
não diferiram, nos anos oitenta, no grau de tacanhice.

O livro perde um pouco de impacto por estar focado na Inglaterra, mas, pela mesma razão,
permite um ponto de vista diferente. Reagan, o par de dança perfeito de Thatcher, está presente,
até porque é crucial para entender aquela década bizarra, mas é um coadjuvante de luxo.

O objetivo de Wheen é semelhante ao de Carl Sagan em O Mundo Assombrado pelos Demônios.


Há, inclusive, alguns assuntos em comum, como o misticismo de Nova Era. Wheen, entretanto,
está mais interessado em economia e política. Quando ataca os cristais e a homeopatia, o faz
porque nossos governantes são presas fáceis de charlatães, principalmente os “inovadores” que
criam novos paradigmas de gerenciamento.

Ah, e o mercado de ações! Wheen dispara cruelmente sobre os gurus de Wall Street e sobre os
propagandistas do livre mercado. As bolhas de 1987 em Wall Street e das ponto.com às portas
do século XXI são devidamente compilados e esculhambados. Entretanto, falta ao autor a
percepção da inevitabilidade de o ser humano ser enganado por mais um embuste.

Explico: Dia desses, um colega, engenheiro eletricista bem formado e competente, mostrou-me
um esquema de geração de energia pela composição não-muito-simétrica de alguns imãs em um
cilindro. O dispositivo era claramente um moto-contínuo, principalmente quando se lia a
descrição mágica de suas funcionalidades. Entretanto, lá estava meu colega disposto, como Fox
Mulder, a acreditar. Porque o ser humano quer acreditar.

O ser humano também quer facilidade. O ser humano quer atalhos, quer ser Neo, que tem as
lições de como pilotar um helicóptero baixadas para seu cérebro como se fosse um aplicativo em
uma dessas maquininhas portáteis com tela de toque que transformam jantares de amigos
numa orgias de tuítes e instagramas irrelevantes. Este impulso par a malandragem nos
transforma em alvos fáceis para os malandros profissionais, que estão lá fora, fazendo vídeos
falsos de alienígenas ou manipulando as bolsas para ferrar com os pequenos investidores.

A picaretagem a que Wheen se refere pode estar na transformação de uma princesa plebéia
insípida em um ícone do feminismo falsificado e esvaziado. Ele lança um luz totalmente nova aos
eventos que são descritos no premiado filme A Rainha. Stephen Frears já tinha se mostrado um
cineasta menor e piegas com seu Dirty Pretty Things, e eu, inocentemente, havia engolido A
Rainha como se fosse cinema, uma espécie de redenção do diretor. Diabos, é horrível ser
enganado!

A mesma picaretagem abunda num mundo em que Ronald Reagan toma suas decisões baseado
uma astróloga. Deus, eu vivo em um mundo onde o regime de imposto pode depender do que
uma maluca, ou um maluco, do tipo que se embebeda com idiotices óbvias como O Segredo,
intui ter visto em algumas cartas.

O livro de Wheen é um atefato necessário para atravessar esta negra era de misticismo que
atravessamos. Segue um trecho exemplar da página 145:

(…) Quem defende os horóscopos como diversão inofensiva nunca explica o que há de divertido
ou inofensivo em promover uma empulhação que se nutre da ignorância e do medo. O professor
Richard Dawkins assinalou que um fabricante de produtos farmacêuticos que comercializasse
uma pílula anti-concepcional sem nenhum efeito demonstrável sobre a fertilidade seria
processado nos termos da Lei de Descrições de Produtos Comerciais, bem como acionado pelas
clientes confiantes que se descobrissem grávidas. (…) Quando o Times iniciou seu flerte com a
observação dos astros, escrevi um artigo curto e leve, sugerindo que seis meses em cana
poderiam levar o editor a recobrar os sentidos. Isto provocou outro editorial de jornal antes
conhecido como O Trovejante, acusando-me de ser um desmancha-prazeres convencido: “Uma
divisão duodecimal arbitrária da população mundial, de acordo com a hora do nascimento, é
exatamente isso: arbitrária. Mas acontece que é uma especulação predileta no Ocidente:
divertida, por ser muito flagrantemente irreverente diante de tudo o que conhecemos e
prezamos neste mundo racional”. Onde ficava este mundo racional? Claramente, não era o lugar
habitado pelo editor do Times, nem por milhões de outras pessoas da Grã-Bretanha. Como que
para comprová-lo, a mesma edição do jornal publicou uma reportagem de capa enaltecendo a
Loteria Nacional, esse monumento ao irracionalismo e à imbecilidade cujo primeiro ganhador
deveria ser sorteado naquela noite. (…)

Por fim, achei uma imagem excelente, que passarei a utilizar toda vez que alguém tentar me
impingir o clássico 171: