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Tipos de viola e afinações

SETEMBRO/2013EDIÇÃO 86 - VIOLA CAIPIRA

A viola pode ser encontrada em diferentes versões e mais de 20 afinações


A viola é um dos instrumentos musicais mais populares da cultura brasileira. Utilizada pelos
caboclos, principalmente em festas religiosas, se mantém viva na cultura do País há mais de
500 anos. O que a destaca dos demais instrumentos é que o ponteio da viola utiliza muito as
cordas soltas, o que resulta num som forte e sem distorções, se estiver bem afinada.

Violas de cocho em exposição no Museu do Morro da Caixa D’Água Velha, em Cuiabá/MT – Banco de
Imagens/Ministério do Turismo

Em sua dissertação de mestrado “A viola caipira, a modinha e o lundu”, o pesquisador Eric


Aversari Martins, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo
(ECA/ESP), escreve que “atualmente a viola tem tido um papel importantíssimo na cena
musical brasileira, deixando de ser tipicamente popular, onde é primordialmente utilizada para
acompanhamento, para fazer parte do movimento da música ‘séria’ do país, como instrumento
solista”. Ressalta ainda que o instrumento tem sido alvo de estudos mais aprofundados e
adotado por concertistas com formação acadêmica equivalente aos de músicos eruditos.

A viola tem cordas duplas agrupadas em cinco ordens. Segundo o pesquisador Ivan Vilela é
possível encontrá-la também com doze cordas sendo três pares de duas cordas triplas,
mantendo assim a idéia das cinco ordens. “O braço é dividido em espaços chamados casas ou
pontos. Fracionam a escala em semitons. O bojo, ou corpo é construído, normalmente com
dois tipos de madeiras. Uma, mais macia, no tampo (frente). E outra mais dura nos lados e
fundo do instrumento. Hoje em dia são utilizados diversos tipos de madeiras na confecção das
violas, embora o modelo mais usual seja o de pinho, no tampo, e de jacarandá nos lados e
fundo”, explica Vilela.

As denominações para a viola caipira variam de lugar para lugar no Brasil: viola sertaneja, viola
cabocla, viola brasileira, viola de pinho, viola nordestina, viola cantadeira, viola de dez cordas,
viola chorosa, viola serena, entre tantas outras. Pelo interior do País há, no entanto, outros
tipos de viola, que apresentam características específicas, entre elas estão: a viola de Queluz,
a viola machete e a viola de cocho.
Mestre Alcides Ribeiro em Cuiabá/MT, onde ensina a arte de fazer viola de cocho, um Patrimônio Cultural
de Natureza Imaterial do Brasil – Coleção Alcides Artesão Viola de Cocho

A viola caipira, aquela que é um dos símbolos da música popular brasileira, é produzida em
fábricas do ramo ou por luthiers. Possui dez cordas agrupadas em pares, portanto cinco pares
ou ordens. Tais pares são dispostos e afinados da seguinte forma: os três pares superiores,
mais graves são oitavados, ou seja, suas cordas possuem oitava diferença; já os dois pares
inferiores, mais agudos, possuem notas uníssono.

A mais famosa viola artesanal do Brasil é a de Queluz, que recebeu esse nome em alusão à
cidade na qual era produzida no final do século passado, atual município de Conselheiro
Lafaiete/MG, onde havia várias oficinas. Considerada uma referência, a viola de Queluz é feita
de pinho, tem dez cordas de aço, trastes no bojo e cravelhas de madeira.

José Vitório dos Reis, o Zé de Lelinha (1923-2008), foi um mestre na viola machete – Luiz Santos/ Acervo
Iphan

Já a viola machete é um tipo raro: tem pouco mais de 50 centímetros de comprimento, dez
cordas dispostas em cinco duplas e um timbre mais agudo do que o da viola caipira e mais
grave do que o do cavaquinho. Hoje a machete é indispensável nos sambas-de-roda do
Recôncavo Baiano.
Violas de Queluz representam Minas Gerais no universo musical brasileiro – Arquivo Marchetaria e
Restaurações Ana Queiroz

A viola de cocho é encontrada nos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Recebe
esse nome por ser confeccionada artesanalmente em tronco de madeira inteiriço, esculpido no
formato de uma viola e escavado na parte que corresponde à caixa de ressonância.
Nesse cocho é afixado um tampo e as partes que caracterizam o instrumento, como o cavalete,
o espelho, o rastilho e as cravelhas. A viola de cocho possui sempre cinco ordens de cordas,
denominadas prima, contra, corda do meio, canotio e resposta. São afinadas de dois modos
distintos: canotio solto (de baixo para cima, ré, lá, mi, ré, sol) e canotio preso (de baixo para
cima, ré, lá, mi, dó, sol).

Graças aos esforços da pesquisadora Julieta Andrade, que em 1981 publicou o livro “Cocho
Mato-Grossense: um alaúde brasileiro”, e do maestro e pesquisador Abel Santos, que em 2002
lançou o livro “Uma melodia histórica”, retratando a história deste instrumento típico da região,
o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) designou Roberto Correa e
Elizabeth Travassos para realizarem um trabalho investigativo a respeito da viola de cocho.
Como resultado da pesquisa, o modo de fazer essa viola foi registrado no Livro dos Saberes e
recebeu a titulação como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Brasil em 2005.

Afinações

Estima-se que existam aproximadamente 20 maneiras de se afinar a viola no Brasil, e a


escolha é de acordo os costumes da localidade. As afinações têm nomes distintos: Paraguaçu,
Boiadeira, Meia Guitarra, Natural, Cebolinha, Rio Acima, Rio Abaixo, Cebolão, Cana Verde,
Paulistinha, entre outras. A maioria das denominações dadas às afinações está relacionada
com o meio rural e a natureza.
Empresa Rossini lançou a “viola Tião Carreiro”, réplica de uma das violas favoritas do cantor e compositor
– Arquivo Rossini

O Cebolão é, sem dúvida, a afinação mais usada no Brasil e conhecida de todo violeiro que se
preza. Ela tem duas variações: em mi maior, que é a mais comum; e em ré maior, um tom
abaixo do tradicional. “Encontramos o Cebolão em diversas alturas. As mais usuais são
Cebolão em mi, cebolão em ré e cebolão em mi bemol. Já no Norte de Minas e região da
capital mineira usa-se com mais frequência a afinação chamada Rio Abaixo”, destaca o
pesquisador Vilela.

O Rio Abaixo é uma afinação de origem portuguesa, presente no Brasil também nos Estados
do Ceará e Rio Grande do Norte, especialmente nas localidades que tratam como santo o
beato português Gonçalo de Amarante, padroeiro dos tocadores de viola. Em Rio Abaixo, como
a viola é afinada em sol maior, é possível notar a diferença logo no primeiro acorde: o
instrumento ganha sonoridade única, com um som forte e encorpado. Já em Rio Acima, a viola
recebe afinação em dó maior.