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Universidade de Brasília

Instituto de Humanas – Departamento de História


História do Brasil IV
Profª: Ione Oliveira
Aluno: Adriano Yamaoka

Resenha:
FICO, Carlos. O Grande Irmão – da Operação ‘Brother Sam’ aos anos de chumbo. O
governo dos Estados Unidos e a ditadura militar brasileira. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2008. 334 p.

Neste livro, Carlos Fico aborda o golpe militar e a participação americana neste
processo histórico, que de forma nenhuma, como pode ser visto no livro, se restringiu
simplesmente ao período final do governo de Jango e muito menos ao simples planejamento e
execução da vontade do governo estadunidense. O golpe de 64, deflagrado e orientado por
personagens brasileiros, teria sido, então, resultado de um longo processo de desestabilização
do governo de João Goulart viabilizado por entidades norte-americanas de auxílio econômico
e social e da própria embaixada americana diante do temor comunista; por organizações
nacionais de direita contrárias ao governo de Jango e ao mesmo tempo pela radicalização da
esquerda que anseava pelo atendimento de suas demandas. É com grande autoridade que
Carlos Fico, diante de sua já vasta experiência neste assunto, ditadura militar, e após ter
publicado diversos livros sobre o mesmo, nos apresenta estas conclusões. Além de professor
da Universidade Federal do Rio de Janeiro na área de História do Brasil e coordenador do
programa de pós-graduação em História Social o autor é também coordenador do Grupo de
Estudos sobre a Ditadura Militar da UFRJ. Este livro em particular nasceu da coleta de dados
no Arquivo Nacional dos Estados Unidos e principalmente da disponibilização de documentos
até então inéditos.

Comumente, em se tratando de história do tempo presente a experiência subjetiva, a


memória do sujeito, interfere na construção ou mesmo na compreensão de seu tempo
histórico. Como afirma o autor Memória não é História e ao mesmo tempo que, de forma
nenhuma, esta última deve se pretender detentora da verdade absoluta, a memória deve ser
devidamente ponderada como fonte e não como materialização da realidade. Foi sob a
constante “disputa de memória” que se discutiu a real importância da participação
estadunidense no golpe de 64. Ora tido como fator proeminente de todo o processo do golpe,
ora como aspecto coadjuvante, sendo mesmo por vezes reduzido a quase zero. O autor
argumenta que apesar de ter sido concebido e deflagrado por brasileiros, completamente
conscientes de suas ações, o golpe de 64 e a sua consolidação receberam, inegavelmente, o
apoio norte-americano. A operação “Brother Sam” em si foi a manifestação do apoio
americano que visava mais especificamente assegurar a validade e integridade de um governo
alternativo fruto da rebelião civil-militar fornecendo meios e instrumentos para tal, do que
necessariamente uma manobra política do governo americano orientada para instalar um
governo ditatorial no Brasil. Não é negada em momento nenhum a cumplicidade do governo
americano, o que o autor categoricamente afirma é a imprescindível liderança de personagens
brasileiros em todo o processo.

Durante o início do governo Castelo Branco, a relação entre EUA e Brasil era marcada
pela mútua concordância: por um lado a aceitação e valorização do regime militar bem como
a constante tentativa de desqualificá-lo como ditadura e por outro lado o alinhamento
incondicional do Brasil à politica externa americana. O autor ressalta ainda a constante
preocupação americana com “os excessos anti-democráticos” do regime militar, bem como a
repercursão destes na mídia e no congresso norte-americano. Esta preocupação foi, com o
tempo e com o acirramento da ditadura, ganhando força e se transformou, após o AI-5, em
uma política de distanciamento do regime.

Por fim, esta obra nos dá uma idéia mais clara da participação americana durante o
regime ditatorial brasileiro na medida em que novas informações são apresentadas e antigos
pontos-de-vista são revisados sob uma nova ótica. Um dos aspectos mais destacados no livro
de Carlos Fico talvez seja a real preocupação americana com a conseqüência da associação
entre EUA e um regime ditatorial, bem como a crescente onda de anti-americanismo
resultado, em boa medida, do acirramento da repressão.

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