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4 de Novembro de 2019

Tipos de interpretação

Limonge França em seu livro Hermenêutica Jurídica, 1988, nos


introduz ao tema dizendo que “a interpretação não se restringe tão
somente aos estreitos termos da lei, pois conhecidas são suas limitações
para o bem exprimir do direito, o que, aliás, acontece com a generalidade
das formas de que o direito se reveste”.

Segundo o doutrinador a interpretação pode ser dividida em 3 critérios, a


saber:

a) Agente da interpretação;

b) Natureza;

c) Extensão.

Vejamos o quadro sinótico da interpretação conforme definição de Limonge


França:

Agente

Interpretação Pública Autêntica

Interpretação Pública Judicial

Interpretação Privada Doutrinária


/
Natureza

Interpretação Gramatical

Interpretação Lógica

Interpretação Histórica

Interpretação Sistemática

Extensão

Interpretação Declarativa

Interpretação Extensiva

Interpretação Restritiva

Interpretação Progressiva

Interpretação Analógica

Tourinho Filho escreve sobre outras 2 interpretações que não são


abordadas pelo doutrinador Limonge França, a saber: Interpretação
Progressiva e Interpretação Analógica, no qual, para fins estudantis, eu as
acrescentei no critério quanto a extensão.

A seguir veremos a explicação para cada tipo interpretação.

QUANTO AO AGENTE

Interpretação Pública Autêntica

/
É aquela oriunda do próprio órgão que favoreceu a lei. Se o Poder
Legislativo declara o sentido e alcance de um texto, o seu ato, é uma
verdadeira norma jurídica, e só por isso tem força obrigatória, ainda que
ofereça interpretação incorreta, em desacordo com os preceitos basilares da
hermenêutica.

O professor Tourinho exemplifica a interpretação autêntica através do art.


150, § 4º e § 5º do CP em que o próprio legislador procurou estabelecer os
contornos da palavra “casa”.

Art. 150 - Entrar ou permanecer, clandestina ou astuciosamente, ou


contra a vontade expressa ou tácita de quem de direito, em casa alheia ou
em suas dependências:

§ 4º - A expressão "casa" compreende:

I - qualquer compartimento habitado;

II - aposento ocupado de habitação coletiva;

III - compartimento não aberto ao público, onde alguém exerce profissão


ou atividade.

§ 5º - Não se compreendem na expressão "casa":

I - hospedaria, estalagem ou qualquer outra habitação coletiva, enquanto


aberta, salvo a restrição do n.º II do parágrafo anterior;

II - taverna, casa de jogo e outras do mesmo gênero.

Interpretação Pública Judicial


É aquela realizada pelos juízes ou Tribunais (órgãos do Poder Judiciário)
em que aplicam a lei no caso concreto. Oportuno anotar que as decisões
reiteradas formam a jurisprudência e, por conseguinte, atraves do efeito
vinculativo, formam as Súmulas.

/
Interpretação Privada Doutrinária
É aquela interpretação, ligada a uma questão do direito científico, realizada
pelo doutrinador que demanda pesquisas em que são apresentadas especial
significado sobre o assunto interpretado.

QUANTO À ESPÉCIE

Interpretação Gramatical
Limonge França bem diz que a interpretação gramatical é aquela que tem
como ponto de partida o exame do significado e alcance de cada uma das
palavras do preceito legal, ou seja, o próprio significado das palavras.
Contudo, importante dizer que em casos de dúvida entre os vários
significados de uma frase ou palavra, o intérprete gramatical deve aceitar o
significado comum, salvo se puder demonstrar um uso linguístico especial.
Se os significados variam, é decisivo aquele dominante ao tempo da
elaboração da lei, alerta Fenech.

Os autores, ainda acrescentam que a interpretação gramatical, atualmente,


é insuficiente para conduzir o intérprete a um resultado conclusivo, pois,
pode haver textos ambíguos, anfibiológicos ou até mesmo a imprecisão do
legislador ao elaborar o texto da lei, por isso, é necessário que os elementos
por ela fornecidos sejam articulados com os demais, propiciados pelas
outras espécies de interpretação.

Por fim, insta dizer que a interpretação gramatical também é conhecida por
interpretação literal ouinterpretação filológica.

Interpretação Lógica
Esta interpretação leva em consideração a finalidade da norma jurídica. Ela
é subdividida em critério subjetivo e objetivo. No primeiro caso, leva em
consideração qual foi a intenção de o legislador ao elaborar a norma

/
jurídica, analisando principalmente o processo legislativo da sua criação. Já
o segundo leva em consideração a finalidade da lei.

A interpretação lógica também é conhecida por interpretação Teleológica.

Interpretação Histórica
Tourinho Filho salienta que é a pesquisa do processo evolutivo da lei, a
história dos seus precedentes, auxilia o aclaramento da norma. Os projetos
de leis, as discussões havidas durante sua elaboração, a Exposição de
Motivos, as obras científicas do autor da lei são elementos valiosos de que
se vale o intérprete para proceder à interpretação. Limonge França,
complementa, dizendo que a interpretação histórica é aquela que indaga
das condições de meio e momento da elaboração da norma legal, bem assim
das causas pretéritas da solução dada pelo legislador.

A interpretação histórica também é conhecida por interpretação histórica


sociológica.

Interpretação Sistemática
Procura extrair o conteúdo da norma jurídica por meio da análise
sistemática do ordenamento jurídico. Uma vez que este não é lógico. Quem
irá colocar lógica no sistema é o interprete ou o cientista do Direito. Parte-
se sempre da interpretação gramatical, analisando-se os vários dispositivos
legais até se chegar a uma conclusão interpretativa.

Limonge França divide esta interpretação em dois aspectos diversos:

1) Quando é feita em relação à própria lei a que o dispositivo pertence; e

2) Quando se processa com vistas para o sistema geral do direito positivo


em vigor.

/
No primeiro caso, revela considerar o caráter geral da lei; o livro, título ou
parágrafo onde o preceito se encontra; o sentido tecnológico-jurídico com
que certas palavras são empregadas no diploma, etc. Já no segundo caso,
importa atender à própria índole do direito nacional com relação as
matérias semelhantes à da lei interpretada; ao regime político do país; às
últimas tendências do costume, da jurisprudência e da doutrina, no que
concerne ao assunto do preceito etc.

Tourinho Filho nos ensina que o interprete recorre a este tipo de


interpretação quando a dúvida não recai sobre o sentido de uma expressão
ou de uma fórmula da lei, mas sim sobre a regulamentação do fato ou da
relação sobre que se deve julgar. Aqui o intérprete deve colocar a norma em
relação com o conjunto de todo o Direito vigente e com as regras
particulares de Direito que têm pertinência com ela. O intérprete poderá,
inclusive, lançar mão da analogia e dos princípios gerais do Direito.

A interpretação sistemática também é conhecida por interpretação Lógico


Sistemática.

Interpretação Comparativa
Extrai-se o conteúdo da norma jurídica fazendo uma comparação com o
ordenamento jurídico de outro país.

QUANTO À EXTENSÃO

Interpretação Declarativa
É aquela interpretação que chega ao mesmo resultado da lei, ou seja, aquilo
que está escrito na norma. O interprete chega nesse resultado utilizando-se
dos vários métodos de interpretação supracitados.

Interpretação Progressiva
/
Diz-se progressiva a interpretação quando o intérprete, observando que a
expressão contida na norma sofreu alteração no correr dos anos, procura
adaptar-lhe o sentido ao conceito atual. Por exemplo, o CPP não cuidou do
mandado de prisão via fax, justamente porque o CPP é de 1941 e o primeiro
sistema de fax ocorreu em 1949 no Japão. Hoje, entretanto, é muito comum
os Tribunais, quando a condenação é por eles decretada, ordenar a
expedição de mandado de prisão por esse meio. Trata-se de interpretação
progressiva conforme preceitua Tourinho Filho.

Interpretação Extensiva
É aquela que amplia o sentido da norma, pois, a norma disse menos do que
ela queria, por isso o interprete deve ampliar o sentido ou alcance delas.
Geralmente o interprete utiliza-se do método teleológico.

As leis penais também admitem a interpretação extensiva? Tourinho Filho


aponta a posição de Maggiore, a interpretação extensiva nada mais
representa senão a reintegração do pensamento do legislador, e, por
conseguinte, é aplicável também à penal. No mesmo sentido a lição de
Aníbal Bruno, Magalhães Noronha é, também desse sentir. Como exemplo
de interpretação extensiva no campo penal, aponta Hungria o art. 235 do
CP no qual incrimina a bigamia. Dai conclui-se que também a poligamia
também é objeto de incriminação.

A interpretação extensiva também é chamada de interpretação ampliativa.

Interpretação Restritiva
O contrário da interpretação extensiva é a restritiva. Esta interpretação
restringe o sentido da norma jurídica. Isso quer dizer que a norma jurídica
disse mais do que ela queria dizer. Há uma superabundância normativa.
Nesse sentido, vem o interprete e faz uma interpretação teleológica para
restringir o alcance daquela norma jurídica, de modo a dar uma
interpretação menos ampla àquela norma jurídica.

/
Interpretação Analógica
Tourinho Filho ensina que ao lado da interpretação extensiva e mantendo
com esta certa similitude, está a interpretação analógica. Não se deve
confundir, contudo, interpretação analógica com analogia. A primeira é
forma de interpretação; a segunda é integração. Quando se pode proceder a
interpretação analógica? Quando a própria lei a determinar. Por exemplo,
quando o art. 61, II, c, do CP fala em “à traição, de emboscada, ou
mediante dissimulação, ou outro recurso que dificultou ou tornou
impossível a defesa do ofendido”, pergunta-se: que outro recurso poderá
ser este? Evidentemente deve ser um “recurso” semelhante, análogo à
“emboscada”, à “traição”, à “dissimulação”, em molde a dificultar ou tornar
impossível a defesa do ofendido. Não teria sentido que o legislador ali
catalogasse todas as hipóteses que guardassem semelhança com a
“emboscada”, com a “traição”, com a “dissimulação”. Já a analogia é a
integração. A doutrina entende que o ordenamento jurídico apresenta
lacunas, vazios e devem ser preenchidos, e o processo de preenchimento,
chama-se analogia.

O doutrinador ainda complementa dizendo que analogia é um princípio


jurídico segundo o qual a lei estabelecida para determinado fato a outro se
aplica, embora por ela não regulado, dada a semelhança em relação ao
primeiro.

E finaliza: "Como se percebe, nítida a diferença entre a interpretação


extensiva e a analogia. Naquela, o intérprete conclui que a lei contém a
disposição para o caso concreto, mas, como a expressão é mais defeituosa,
procura-se adaptá-la à mens legis. Já na analogia, parte-se do
pressuposto de que a lei 'não contém a disposição precisa para o caso
concreto, mas o legislador cuidou de um caso semelhante ou de uma
matéria análoga'. Nítida a diferença, também, entre interpretação
analógica e analogia. Ali, a vontade da lei é abranger os casos análogos
àqueles por ela regulados. Aqui, não há essa voluntas legis, não existe essa
vontade, mas o intérprete, assim mesmo, preenche o meato, o claro, o
vazio."

Considerações finais: Todas as menções realizadas aos ilustres


doutrinadores Tourinho Filho e Limonge Franca foram retiradas,
respectivamente, dos livros: Processo Penal, volume 1, ano 2012 /
eHermenêutica Jurídica, 2º edição, 1988.

Até a próxima!

Disponível em: https://ergovaniabrito.jusbrasil.com.br/artigos/346229695/tipos-de-interpretacao