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EFICIÊNCIA ENERGÉTICA

autor
GUSTAVO JOSÉ LUNA FILHO

1ª edição
SESES
rio de janeiro  2019
Conselho editorial  roberto paes e gisele lima

Autor do original  gustavo josé luna filho

Projeto editorial  roberto paes

Coordenação de produção  andré lage, luís salgueiro e luana barbosa da silva

Projeto gráfico  paulo vitor bastos

Diagramação  bfs media

Revisão linguística  bfs media

Revisão de conteúdo  rildo cesar dias arrifano e bruno cavalcante di lello

Imagem de capa  ssuaphotos | shutterstock.com

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida
por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em
qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. Copyright seses, 2019.

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento


Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa
Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063
Sumário
Prefácio 7

1. Introdução e noções básicas sobre eficiência e


sustentabilidade energética 9
Definições elementares 10

Formas de energia 12
Energia primária 12
Energia secundária 13
Energia útil 13

Recursos energéticos 14
Carvão mineral 14
Petróleo 14
Gás natural 15
Urânio 15
Energia solar 15
Energia nuclear 15
Energia eólica (ar em movimento) 15

Aplicação da eficiência energética na indústria 16


Perdas nas instalações elétricas 16
Motores elétricos 16
Transformadores 17
Sistemas de Iluminação 17
Fornos elétricos e estufas 17
Ar-condicionado e ventilação 17
Sistema de ar comprimido 18
Sistema de refrigeração 18
Bombeamento de água 18
Elevadores e escadas rolantes 18
Fator de Potência (FP) 19

Sustentabilidade energética 19
Os pilares da sustentabilidade 20
O que é desenvolvimento sustentável? 22
O que é preciso fazer para alcançar o desenvolvimento sustentável? 23
Demandas por energia 23
Demanda contratada e consumo de energia elétrica 24
Demanda contratada: faturamento 24
Como reduzir custos com demanda contratada? 25
Indicadores de energia 26
PDCA para gestão energética 26

2. Geração distribuída e cogeração 31


Geração distribuída: conceitos fundamentais 33
O que é geração distribuída? 33
Quando foi regulamentada no Brasil? 33
Como funciona? 33
Vantagens da geração distribuída 34

Aspectos gerais da geração distribuída 34


O futuro do sistema de energia elétrica 36
Projetos no Brasil 39

Cogeração: conceitos fundamentais 41


Definição de cogeração 42
Definição de trigeração 43
Por que cogeração? 43
Mini e microgerações 44
Considerações gerais sobre biomassa e cogeração 44
Biomassa 46
Cogeração 46
Biomassa 47
Vantagens da biomassa 47
Desvantagens da biomassa 47
Vantagens da cogeração 49
Vantagens econômicas para o utilizador final 49
Desvantagens da cogeração 50
Aplicações da biomassa 50
3. Células a combustível 53
Princípio de funcionamento e tipos de células a combustível 54
As reações anódicas e catódicas 56
Eletrodos de difusão gasosa, unidades matriz/eletrodo e
empilhamento de células 57
A eficiência das células a combustível 58
A célula a ácido fosfórico 60
Células de alta temperatura de operação 61
A célula à membrana polimérica 62

Tecnologia de células a combustível 63


Células a combustível no Brasil 64

Hidrogênio como combustível 66


O hidrogênio 68

4. Análise econômica na eficiência energética 75


Análises da eficiência energética 78
Projetos de eficiência energética 78
Evolução da eficiência energética 81
Dificuldades para aplicação da eficiência energética 84

A eficiência energética e a indústria 84


O atual cenário da revolução energética brasileira 85
Captação de recursos para projetos de eficiência energética 86

Gerenciamento de projetos de eficiência energética 90

O projeto 90
Ciclo de vida de um projeto de eficiência energética 93
Custos e qualidade 96

5. Processos de modulação de equipamentos


para melhoria de desempenho energético 101
Terminologia associada à energia elétrica 103
Eficiência energética nas indústrias 106
Metodologia para gestão da produção visando à redução
do consumo de energia elétrica em unidade fabril 107
Modulação fabril 112
Tipos de modulação fabril 113
Programa de água e energia 115
Boas práticas operacionais e consumo de energia elétrica
nas ETEI/ETA 117
Ciclo PDCA 120
Prefácio

Prezados(as) alunos(as),

Entendemos que a permanente necessidade de aprimoramento profissional,


competitividade e a melhor utilização dos recursos naturais colocam, nos dias de
hoje, a Eficiência Energética como uma das principais ferramentas para a redução
de custos e, a consequente obtenção do desenvolvimento sustentável do setor pro-
dutivo ou de serviço.
Pensando nisso e visando, cada vez mais orientar os futuros profissionais quan-
to ao uso eficiente e seguro, é o nosso desafio a implementação desse conteúdo.
Promover a identificação de oportunidades de redução de custos operacionais e do
consumo de energia elétrica é um dos nossos compromissos com a sociedade e com
o meio ambiente.
Iremos retomar os principais conceitos relacionados às formas de energia, recur-
sos energéticos, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável, buscando entender
as diversas fontes renováveis e não renováveis, bem como seu campo de aplicação,
compreendendo a importância dos indicadores para bons resultados em gestão
energética e entendendo as principais questões relacionadas às demandas energé-
ticas com casos extremante importantes, visando facilitar a compreensão de toda a
abordagem teórica relacionada à Eficiência Energética voltada ao campo industrial.
O trato com questões relacionadas à Geração Distribuída que independente-
mente da tecnologia, fonte de energia ou potência fornecida, é caracterizada pela
geração de ser ofertada próxima ao consumidor, também será apresentada com um
enfoque em redes de comunicação para controle em redes elétricas inteligentes e
microrredes. No âmbito da cogeração, terão destaques conceitos, vantagens, des-
vantagens e campos de atuação. Conceitos tecnológicos de geração de energia são
discutidos a respeito das células a combustível em que serão tratadas questões e es-
quemas de funcionamento, além de suas principais tecnologias, conceitos e desafios
da implantação para melhoria energética das empresas com a devida compreensão
do cenário nacional do Brasil e o potencial no sistema de cogeração de energia a par-
tir desses princípios energéticos, além de entender como se dá o processo químico
para se gerar energia em uma célula a combustível.

Bons estudos!

7
1
Introdução e
noções básicas
sobre eficiência e
sustentabilidade
energética
Introdução e noções básicas sobre eficiência
e sustentabilidade energética

De muitas e diversas formas a energia está presente na vida das pessoas.


Ao usarmos qualquer tipo de equipamento ou máquina ou até mesmo ao nos
exercitarmos, quando nos movimentamos, quando nos alimentamos ou até
mesmo quando estamos parados.
Devido a isso tudo, a área de estudos energéticos é ampla, indo desde o uso
dos recursos naturais até aspectos relacionados ao desempenho de modernas
tecnologias, que permitem uma abordagem que considere temas de objeto técnico
ou ainda que envolva componentes sociais, econômicos e ambientais.
Para essa ampla área do conhecimento, procura-se neste capítulo efetuar uma
revisão das definições, das leis básicas e da terminologia utilizada

OBJETIVOS
•  Apresentar algumas definições importantes na área energética;
•  Apresentar algumas formas de energia e recursos energéticos que podem ser encontra-
dos na natureza;
•  Conhecer as principais definições de desenvolvimento sustentável;
•  Compreender a Energia no âmbito do desenvolvimento sustentável;
•  Apresentar os indicadores de sustentabilidade energética;
•  Compreender que a implementação de fontes renováveis poderá melhorar a produção e
impactar diretamente nos resultados comerciais para as organizações e garantir melhorias
ambientais de forma mais ampla, melhorando, consequentemente, sua imagem de mercado.

Definições elementares

Em uma definição usual, energia é conceituada como a medida da capacidade


de se efetuar trabalho. Se interpretada à risca, essa definição pode não ser totalmente
correta, pois se aplica apenas a alguns tipos de energia, como a elétrica e a mecânica,
que, em tese podem ser convertidas a outras formas de energia. No entanto, essa
definição de energia perde o sentido se aplicada ao calor, já que esse é um tipo de

capítulo 1 • 10
energia que é apenas parcialmente conversível em trabalho, pois quando está a
temperaturas próximas à do ambiente, o calor pouco vale como trabalho.
Maxwell, em 1872, propôs uma definição mais aceita que a anterior: “energia
é tudo aquilo que permite uma mudança na configuração de um sistema, em
oposição a uma força que resiste a esta mudança”. Essa nova definição de energia
refere-se a mudanças de condições e alterações do estado de um sistema incluindo
importantes ideias.
Dessa forma, para elevar um corpo até determinado nível de altura, ou ainda
aquecer ou esfriar um volume de um fluido gasoso, ou qualquer processo que
envolva alguma mudança, implica em se ter fluxos energéticos.
Com sendo um conceito básico e elementar, definir energia é difícil, porém
menos importante do que verificar sua existência, como sendo a causa e a origem
primeira de todas as mudanças. A maior parte das leis da física que governam o
mundo natural são no fundo variações das leis básicas dos fluxos energéticos, as
eternas leis de conservação, que estruturam todo o Universo.
Potência é a “velocidade” na qual a energia é produzida ou consumida, ou
seja, é a razão entre energia e tempo sendo com isso um importante conceito em
processos técnicos e econômicos, nos quais o tempo é essencial. Como exemplo,
uma máquina de 2 kW em funcionamento durante cinco horas consome a mesma
energia que um motor de 10 kW durante uma hora, mas permitem obter efeitos
bastante diferentes.
Em tese, qualquer capacidade instalada poderia atender qualquer necessidade
de energia, desde que lhe seja dado tempo suficiente, o que evidentemente não
atende às necessidades impostas pela realidade. Por isso, podemos afirmar que o
mundo moderno que busca atender suas demandas energéticas de forma rápida, é
tão ávido em potência quanto em energia.
A fim de explorar um pouco mais estes conceitos, poderia se pensar em nossos
usos diários de energia e verificar se para seu atendimento o tempo importa ou
não. Será imediato verificar que a taxa de utilização dos fluxos energéticos é tão
importante quanto sua real disponibilidade.
A eficiência energética tem o objetivo de reduzir o consumo de energia,
provendo o mesmo nível de serviço energético ou mantendo o consumo e aumentar
o oferecimento do serviço energético. É a característica de um equipamento ou
processo produtivo de entregar a mesma quantidade de produto final ou serviço,
a partir de uma menor quantidade de energia, quantificada como o inverso de sua
intensidade energética.

capítulo 1 • 11
Já o uso racional de energia é a utilização da menor quantidade técnica e
economicamente possível para a obtenção dos diversos produtos e serviços, por
meio da eliminação dos desperdícios, do uso de equipamentos eficientes e do
aprimoramento de processos produtivos.

Formas de energia

A energia elétrica é a forma de energia mais utilizada no mundo. Ela pode


ser obtida de várias maneiras, mas a principal fonte ainda provém das usinas
hidrelétricas. Como o próprio nome (hidrelétrica) já indica, a força da água é
responsável pela geração de energia, e o processo consiste em grandes volumes de
águas represadas que caem pelas tubulações, fazendo girar turbinas acopladas a
um gerador, produzindo dessa forma energia elétrica. As redes de transmissão são
responsáveis pela distribuição da energia elétrica para as diferentes regiões do país.
Nem sempre uma disponibilidade energética está na forma de como se
necessita, mas, felizmente, a energia pode ser convertida e armazenada. De uma
forma mais geral, os sistemas energéticos constituem-se de uma sequência de
processos, por meio dos quais se obtém, converte-se e, eventualmente, armazena-
se energia da natureza, visando à sua adequação em tempo e disponibilidade, para
atender aos diversos usos na sociedade.
Conforme sua posição nesta sequência de processos, podem ser definidos al-
guns tipos de energia, como se apresenta na figura 1.1.

Centros de Equipamentos de
Fluxo e Transformação Uso Final
estoques – Centrais elétricas – Motores Usuário
naturais Energia – Refinarias de petróleo Energia – Lâmpadas Energia
Primária – Des�larias de Álcool Secundária – Fogões Ú�l

Figura 1.1  –  Sistema energético. Gomes Neto, 2005.

Energia primária

Energia fornecida pela natureza, como a energia hidráulica, o petróleo ou a


lenha, podendo ser usada diretamente ou convertida em outra forma energética
antes do uso.

capítulo 1 • 12
Energia secundária

Corresponde à energia resultante de processos de conversão, no âmbito do


setor energético, visando aumentar sua densidade energética, facilitar o transporte
e armazenamento e a adequação ao uso, como a eletricidade, derivados de petróleo,
álcool, carvão vegetal etc. Eventualmente, a energia secundária pode ser ainda
convertida novamente em outras formas de energia secundária, como é o caso do
óleo diesel utilizado em centrais elétricas.

Energia útil

Corresponde à forma energética efetivamente demandada pelo usuário,


devendo ser algum fluxo energético simples, como calor de alta e baixa temperatura,
iluminação, potência mecânica etc. A relação entre a energia útil e a demanda
correspondente de energia secundária depende da eficiência do equipamento de
uso final, como uma lâmpada ou um motor.
As diferentes fontes de energia útil que podem ser encontradas na natureza
são classificadas basicamente em duas categorias, de acordo com a possibilidade de
manutenção e produção destas: as energias renováveis e as energias não renováveis.

Energias renováveis

São obtidas a partir de fontes que se renovam, isto é, que não se esgotam, não
são poluentes ou pouco poluentes e estão ao dispor do homem:
•  Energia solar •  Energia de biomassa
•  Energia eólica •  Energia geotérmica
•  Energia hidráulica •  Energia das ondas e marés.

Energias não renováveis

São aquelas que se obtêm de fontes que acabam por se esgotar porque se
encontram no subsolo em quantidades limitadas. São poluentes e a sua formação
orgânica (exceção ao urânio), pode levar milhões de anos até chegar ao seu estado
final.
Ex.: petróleo; carvão mineral; gás natural (combustíveis fósseis); urânio.

capítulo 1 • 13
Recursos energéticos

São recursos naturais utilizados para produção de energia. Em nível mundial,


os recursos energéticos mais consumidos são petróleo, gás natural e carvão mineral,
já os menos consumidos são a biomassa e a energia nuclear.

Carvão mineral

Ao contrário do petróleo, as reservas mundiais desta fonte energética são


elevadas, possibilitando ainda a sua exploração durante vários anos. No século
XVIII, foi um dos grandes responsáveis pela Primeira Revolução Industrial, na
Inglaterra. Até meados do século XX, o carvão foi a principal fonte de energia
utilizada nos transportes, a partir daí a sua importância foi diminuindo.
Atualmente, a principal utilização do carvão mineral como combustível é
na produção de energia elétrica nas centrais termelétricas, sendo os principais
produtores China, Rússia, Polônia e EUA.

Petróleo

O petróleo é um produto líquido composto por hidrocarbonetos. A sua


origem é marinha e resulta de transformações sofridas por matérias orgânicas.
Os hidrocarbonetos são, na nossa sociedade, a primeira fonte de energia, quer
utilizados diretamente, quer alimentando centrais termelétricas. São usados ainda
para obter produtos destilados como gasolina, gasóleo e óleo, por exemplo. Suas
aplicações na indústria química são variadas como na fabricação de vernizes, tintas,
óleos lubrificantes, pavimentos, isoladores, fibras sintéticas, plásticos, entre outros.
Dos principais produtores de petróleo destacam-se Arábia Saudita, EUA e
Rússia. A OPEP – Organização dos Países Exportadores de Petróleo – junta alguns
países produtores para defesa e controle das produções como a Arábia Saudita, Irã,
Venezuela, Emirados Árabes e Nigéria.
A subida do preço do petróleo implica em:
•  Aumento dos combustíveis, tornando os transportes/viagens mais caros e o
aumento do custo de mercadorias.
•  Aumento do preço da eletricidade com maiores despesas domésticas e nas
atividades econômicas, em geral.

capítulo 1 • 14
•  Aumento do preço de produtos como o plástico que leva ao aumento dos
preços de fibras sintéticas (vestuário mais caro) ou de materiais de construção e o
consequente aumento na construção civil.

Gás natural

O gás natural é igualmente um combustível fóssil, isolado ou acompanhado


do petróleo, cujo consumo tem aumentado por ser menos poluente que os demais.
É utilizado como recurso energético em indústrias. Os principais produtores, pela
ordem, são: Rússia e Estados Unidos.

Urânio

Atualmente, a aplicação mais importante do urânio (minério radioativo) é


energética – usado em centrais nucleares produtoras de eletricidade. A aposta na
energia nuclear tem tendência a aumentar, embora esse recurso esteja associado
a resíduos com radioatividade ativa durante muitos anos e o risco de acidente
nuclear.

Energia solar

É proveniente de uma fonte inesgotável: o Sol. Os painéis solares têm células


fotoelétricas que transformam a energia proveniente dos raios solares em energia
elétrica. Tem a vantagem de não produzir danos ao meio ambiente.

Energia nuclear

Energia térmica transformada em energia elétrica, é produzida nas usinas


nucleares por meio de processos físico-químicos.

Energia eólica (ar em movimento)

Ela já foi utilizada para produzir energia mecânica nos moinhos. Atualmente,
é usada com o auxílio de turbinas, para produzir energia elétrica. É atraente por
não causar danos ambientais e ter custo de produção baixo em relação a outras
fontes alternativas de energia.

capítulo 1 • 15
A energia elétrica também pode se transformar em outros tipos de energia ao
chegar às residências ou em indústrias.
A figura 1.2 apresenta um diagrama que envolve os processos de conversão
energética em diversos equipamentos.
Tubo Catódico, Lâmpada Fluorescente

Músculo

Coletor Solar Máquina térmica Dínamo alternado

Atrito Motor Elétrico

Energia Energia
Energia Energia Energia Energia
Térmica Térmica
Química Nuclear Mecânica Elétrica
(radiação) (E. Interna)

Fotossíntese Reator Nuclear


Termopilha
Reação Exotérmica Resistência
Quimioluminescência
Reação Endotérmica

Eletrólise
Baterias

Célula fotovoltáica

Figura 1.2  –  Processos de conversão energética. Santos, 2001.

Aplicação da eficiência energética na indústria

Segue na sequência algumas áreas na indústria que carecem de implantação


de um plano de eficiência energética, objetivando o que foi tratado em
tópicos anteriores.

Perdas nas instalações elétricas

O sistema elétrico de uma indústria pode ser distribuído de diversas maneiras,


de modo que seja escolhido e organizado em função de uma série de questões,
evitando fugas de corrente e com emendas feitas corretamente, além de respeitar
o equilíbrio de fases

Motores elétricos

No mercado, existem motores com alto rendimento, que reduzem as perdas de


energia, sendo esses mais caros que os modelos antigos. Entretanto, a longo prazo,

capítulo 1 • 16
o uso desse tipo motor pode se tornar rentável, uma vez que a massa do material
ativo, cobre e chapas metálicas, principalmente, foi aumentada, reduzindo as
perdas, por exemplo.

Transformadores

Caso os transformadores não estiverem funcionando em uma faixa desejável


de sua potência nominal, um rendimento útil não é obtido. Além disso, entre
outras questões ligadas aos transformadores, é importante ressaltar que, quando
estão mantidos sob tensão, não fornecem potência, de modo que as perdas no
cobre tendem a ser nulas. Entretanto, nessas situações, acabam ocorrendo perdas
no ferro, na maioria das vezes.

Sistemas de Iluminação

Na definição, o sistema de iluminação abrange todos os componentes


necessários para atender a demanda da iluminação. Posto isso, o bom desempenho
de tal sistema está associado aos cuidados no início do projeto elétrico, por
exemplo, de forma que envolva informações relevantes sobre luminárias e perfil de
utilização, assim garantindo a eficiência energética para indústrias.

Fornos elétricos e estufas

Os fornos elétricos e as estufas são equipamentos que consomem quantidade


expressiva de energia durante o processo de aquecimento nas instalações
industriais. Por mais que sejam considerados máquinas eficientes, algumas perdas
significativas costumam ser observadas no carregamento e transporte do material
aquecido, além das operações de aquecimento e fusão.

Ar-condicionado e ventilação

O uso indevido do ar-condicionado é extremamente relevante na perda de


energia elétrica. Sendo assim, utilizá-lo nas faixas de temperaturas apropriadas
para o ambiente e instalar cortinas de ar são algumas medidas importante para
evitar o desperdício no dia-a-dia. Além disso, é válido ressaltar que, na operação

capítulo 1 • 17
de compressores e chillers, por exemplo, a utilização à plena carga é indicada, em
vez duas ou mais máquinas com carga parcial.

Sistema de ar comprimido

A existência de compressores com vazamentos internos é frequente, ao passo


que isso acontece devido ao desgaste excessivo em anéis de segmento ou nas
válvulas, consumindo mais energia, além de produzir menores quantidades de ar
que a capacidade nominal do próprio compressor. Além disso, no que diz respeito
à distribuição e utilização do gás, é importante verificar se está havendo perda
de pressão entre os reservatórios e os pontos de uso dos fluidos. Esses são apenas
alguns exemplos dentre as inúmeras ações para aprimorar a eficiência do sistema
de ar comprimido, de acordo com a especificidade do caso.

Sistema de refrigeração

Manter o isolamento térmico das tubulações de líquido e gás é importante


para evitar a troca de calor entre o meio interno com o externo, sobretudo, por
exemplo, em câmaras frigoríficas e chillers, a fim de reduzir o gasto indevido de
energia nesses tipos de atividade.

Bombeamento de água

Antes de tudo, é primordial que o conjunto motor-bomba presente no


ambiente industrial seja adequado, isto é, se tem a altura manométrica e a vazão
requerida. Essa relação é muito importante, pois essas variáveis estão diretamente
relacionadas entre si e, consequentemente, com a potência da bomba.

Elevadores e escadas rolantes

Nos horários de pico, não é necessário que todos os elevadores sejam utilizados
simultaneamente e, além disso, controladores de tráfego são essenciais, a fim de
evitar que dois elevadores sejam deslocados após uma chamada. Entre outros
exemplos relacionados com tal situação, também é válido destacar a necessidade
de evitar sobrecargas, de modo que não haja risco de uso desnecessário de energia
e riscos para a estrutura.

capítulo 1 • 18
Fator de Potência (FP)

Caracterizado como a medida de eficiência de determinada instalação elétrica,


o fator de potência mostra qual é a porcentagem da potência total que está sendo
aproveitada no sistema elétrico. De acordo com a legislação brasileira, o FP
mínimo admitido é 0,92, e assim, caso o fator do consumidor esteja menor, a
concessionária da região fica responsável por aplicar multas.
Algumas maneiras de corrigir o fator de potência são: instalações de capacitores
em pontos primordiais dos circuitos alimentadores.
Dentre as principais causas de um fator de potência baixo, destacam-se:
•  Lâmpadas de descarga (fluorescentes, vapor de mercúrio e vapor de sódio) ao
utilizar reatores de forma inadequada, ou seja, que são de baixo fator de potência.
•  Transformadores que operam sem carga ou com carga muito baixa.
•  Grande quantidade de motores de pequena potência.

Assim, fica claro que os projetos voltados para eficiência energética para
indústrias tendem a aumentar gradativamente no Brasil, sobretudo devido aos
gastos crescentes com energia, que fica mais cara a cada dia que passa, ao mesmo
tempo em que representa grande parte do valor de custo de um produto.
Utilizar um projeto de eficiência energética para indústrias é uma opção
que pode oferecer um ótimo custo-benefício, otimizando os processos de sua
indústria, como nos tópicos abordados anteriormente, além de estabelecimentos
ou, até mesmo, em residências.

Sustentabilidade energética

A sustentabilidade é um ideal sistemático que se perfaz principalmente pela


ação, e pela constante busca entre desenvolvimento econômico e ao mesmo tempo
pela preservação do ecossistema. Podem-se citar medidas que estão no centro da
questão da sustentabilidade ambiental: a aquisição de medidas que sejam realistas
para os setores das atividades humanas.
Os pontos elementares da sustentabilidade visam à própria sobrevivência no
planeta, tanto no presente quanto no futuro. Esses princípios são: utilização de
fontes energéticas que sejam renováveis, em detrimento das não renováveis.
Pode-se exemplificar esse conceito com a medida e com o investimento que
vem sido adotado no Brasil com relação ao biocombustível, que por mais que

capítulo 1 • 19
não tenha mínima autonomia para substituir o petróleo, ao menos visa reduzir
seus usos. O segundo princípio refere-se ao uso moderado de toda e qualquer
fonte renovável, nunca extrapolando o que ela pode render. Em um quadro mais
geral, pode-se fundamentar a sustentabilidade ambiental como meio de amenizar
(a curto e longo prazo simultaneamente) os danos provocados no passado. A
sustentabilidade ambiental também se correlaciona com os outros diversos setores
da atividade humana, como o industrial, por exemplo.
A sua aplicação pode ser feita em diversos níveis: a adoção de fonte de energias
limpas está entre as preocupações centrais, algumas empresas têm desenvolvido
projetos de sustentabilidade, voltando-se para aproveitamento do gás liberado em
aterros sanitários, dando energia para populações que habitam proximamente a
esses locais. Outro exemplo de sua aplicação está em empresas, como algumas bra-
sileiras de cosméticos, que objetivam a extração cem por cento renováveis de seus
produtos. O replantio de áreas degradadas, assim como a elaboração de projetos
que visem áreas áridas e com acentuada urgência de tratamento são mais exemplos
que já vêm sido tomados.
Pode-se afirmar que as medidas estatais corroboram perceptivelmente com a
sustentabilidade ambiental. Sendo necessário não apenas um investimento capital
em tecnologias que viabilizem a extração e o desenvolvimento sustentável, mas
também contar com atitudes sistemáticas em diversos órgãos sociais e políticos,
por exemplo, a propaganda, a educação e a lei.

Os pilares da sustentabilidade

Atualmente, essa ideia é dividida em três principais pilares: social, econômico


e ambiental. Para se desenvolver de forma sustentável, uma empresa deve
atuar de forma que esses três pilares coexistam e interajam entre si de forma
plenamente harmoniosa.

Sustentabilidade social

Trata-se de todo capital humano que está, direta ou indiretamente,


relacionado às atividades desenvolvidas por uma empresa. Isso inclui, além de seus
funcionários, seu público-alvo, seus fornecedores, a comunidade a seu entorno e
a sociedade em geral.

capítulo 1 • 20
Desenvolver ações socialmente sustentáveis vai muito além de, por exemplo,
dar férias e benefícios aos funcionários. Deve-se proporcionar um ambiente que
estimule a criação de relações de trabalho legítimas e saudáveis, além de favorecer o
desenvolvimento pessoal e coletivo dos diretamente ou indiretamente envolvidos.

Sustentabilidade econômica

Para que uma empresa seja economicamente sustentável, ela deve ser capaz de
produzir, distribuir e oferecer seus produtos ou serviços de forma que estabeleça
uma relação de competitividade justa em relação aos demais concorrentes do
mercado. Além disso, seu desenvolvimento econômico não deve existir à custa de
um desequilíbrio nos ecossistemas a seu redor.
Se uma empresa lucra explorando as más condições de trabalho dos
funcionários ou a degradação do meio ambiente da área à sua volta, por exemplo,
ela definitivamente não está tendo desenvolvimento econômico sustentável, já que
não existe harmonia nas relações estabelecidas.

Sustentabilidade ambiental

Por fim, o desenvolvimento sustentável ambientalmente correto se refere


a todas as condutas que tenham, direta ou indiretamente, algum impacto no
meio ambiente, seja a curto, médio ou longo prazos. É comum vermos empresas
adotando medidas mitigatórias, como promover ações de plantio de árvores, após
a emissão de gases poluidores, como se uma coisa compensasse a outra.
O desenvolvimento sustentável busca, em primeiro lugar, minimizar ao
máximo os impactos ambientais causados pela produção industrial. Caso não seja
esse o objetivo, provavelmente estaremos falando muito mais de estratégias de
marketing do que de sustentabilidade de fato.
Importante ressaltar, mais uma vez, que a sustentabilidade precisa de
planejamento, acompanhamento e avaliação de resultados, pois seus três pilares
devem estar alinhados com os objetivos da empresa, não podendo ser definidos
com base em ações pontuais ou simplesmente compensatórias.
O desenvolvimento sustentável é um caminho trilhado diariamente, com
respeito mútuo e consciência de que todas as empresas, comunidades, pessoas e
demais seres são partes integrantes de um único ecossistema. Assim, para que haja
equilíbrio, é necessário que cada parte leve em consideração o todo, entendendo

capítulo 1 • 21
que é só uma pequena parte de um universo infinitamente maior, mas que pode
ser afetado por suas ações.

O que é energia sustentável?

É aquela que é gerada e fornecida de modo a atender as necessidades atuais,


porém sem comprometer a capacidade das futuras gerações de satisfazerem as suas
necessidades. As principais fontes de energia sustentável são as renováveis e limpas,
com nenhum ou muito pouco índice de geração de CO2 (dióxido de carbono) e
outros gases do efeito estufa.
As tecnologias usadas para melhorar a eficiência na geração, no armazenamento
e na transmissão de energia também são importantes neste contexto. Em resumo,
o uso de fontes de energias renováveis e a busca da máxima eficiência energética
possível são os dois pilares da energia sustentável.
Subestação de
Subestação de transmissão
energia Usina de energia

Transformador
Linhas de transmissão
de alta voltagem

Tambor do transformador
Postes de
energia

Figura 1.3  –  Sistema de transmissão de energia. Reis, 2003.

O que é desenvolvimento sustentável?

A definição mais aceita para desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento


capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade
de atender as necessidades das futuras gerações. É o desenvolvimento que não
esgota os recursos para o futuro. Essa definição surgiu na Comissão Mundial sobre
Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada pelas Nações Unidas para discutir e
propor meios de harmonizar dois objetivos: o desenvolvimento econômico e a
conservação ambiental.

capítulo 1 • 22
O que é preciso fazer para alcançar o desenvolvimento sustentável?

Para ser alcançado, o desenvolvimento sustentável depende de planejamento


e do reconhecimento de que os recursos naturais são finitos. Esse conceito
representou uma nova forma de desenvolvimento econômico, que leva em conta
o meio ambiente.
Muitas vezes, desenvolvimento é confundido com crescimento econômico,
que depende do consumo crescente de energia e recursos naturais. Esse tipo de
desenvolvimento tende a ser insustentável, pois leva ao esgotamento dos recursos
naturais dos quais a humanidade depende.
Atividades econômicas podem ser encorajadas em detrimento da base de
recursos naturais dos países. Desses recursos depende não só a existência humana
e a diversidade biológica, como o próprio crescimento econômico.
O desenvolvimento sustentável sugere, de fato, qualidade em vez de
quantidade, com a redução do uso de matérias-primas e produtos e o aumento da
reutilização e da reciclagem.
O desenvolvimento econômico é vital para os países mais pobres, mas o
caminho a seguir não pode ser o mesmo adotado pelos países industrializados.
Mesmo porque não seria possível. Caso as sociedades do Hemisfério Sul copiassem
os padrões das sociedades do Norte, a quantidade de combustíveis fósseis
consumida atualmente aumentaria 10 vezes e a de recursos minerais, 200 vezes.
Ao invés de aumentar os níveis de consumo dos países em desenvolvimento,
é preciso reduzir os níveis observados nos países industrializados. Os crescimentos
econômico e populacional das últimas décadas têm sido marcados por disparidades.

Demandas por energia

É chamado de demanda contratada o valor de demanda de energia que a


unidade consumidora irá utilizar dentro dos seus processos de consumo de energia
elétrica. O sistema elétrico brasileiro é composto por redes de distribuição e
subestações de concessionárias que alimentam cargas de diversos consumidores de
energia elétrica, tais como: motores, inversores, transformadores, iluminação etc.
Para que haja o correto planejamento da expansão e manutenção do sistema,
garantindo assim o correto atendimento a todos os usuários, é preciso conhe-
cer o limite máximo de utilização que será requerido em todos os momentos de

capítulo 1 • 23
consumo. Este limite é calculado a partir do somatório de todas as cargas instala-
das em cada unidade consumidora, que podem operar simultaneamente.
O somatório das cargas instaladas operando no mesmo intervalo de tempo,
expresso em quilowatts (kW), é denominado “demanda”, ou seja, é a capacidade
máxima que é exigida do sistema elétrico em determinado momento.
Esse conceito de demanda contratada aplica-se a unidades conectadas à alta
tensão (Grupo A) e é utilizado como parâmetro no contrato de fornecimento
de energia elétrica da unidade consumidora. Isso traz um compromisso do
consumidor de alta tensão em se manter dentro dos limites de demanda contratada
especificada em contrato, evitando-se assim que haja sobrecarga no sistema,
por falta de planejamento por parte do consumidor em relação à sua demanda
contratada de energia.

Demanda contratada e consumo de energia elétrica

Não se deve confundir a demanda contratada com o consumo de energia, me-


dido em quilowatt-hora e que trata do período de tempo em que o sistema elétrico
alimenta determinada carga. Simplificando-se o conceito, vejamos o caso do ôni-
bus de passageiros, em que o número de lugares disponíveis, seria a demanda, ou
seja, a capacidade máxima de transporte disponível em cada viagem, e o consumo
seria o somatório dos passageiros transportados em cada viagem, em determinado
período de tempo.

Demanda contratada: faturamento

Quanto ao faturamento da demanda contratada, o valor a ser pago refere-se ao


total contratado pela unidade consumidora para o período de contrato como valor
mínimo. Caso haja uma medida de demanda utilizada maior do que o contratado,
a concessionária cobrará uma multa pelo excesso, em que a tarifa aplicada será 3x
o valor da demanda “normal” vigente. Já o faturamento do consumo considerará
apenas o valor apurado por medição.
O limite de tolerância é estabelecido de acordo com o nível da tensão de
atendimento fixado para a unidade consumidora. Assim, unidades consumidoras
do Grupo A atendidas em nível de tensão igual ou inferior a 34,5 kV têm limite
de tolerância de 10% acima da demanda contratada. Já as unidades consumidoras

capítulo 1 • 24
atendidas em níveis de tensão superiores a 34,5 kV, o limite de tolerância será de
5% acima da demanda contratada.
Sempre que o valor da maior demanda medida ao longo de determinado
ciclo de faturamento for superior ao valor da demanda contratada no período,
observado o limite de tolerância pertinente, o consumidor ficará sujeito à aplicação
da tarifa de ultrapassagem sobre a diferença positiva entre a demanda medida e a
demanda contratada.

Como reduzir custos com demanda contratada?

É preciso verificar em sua conta de energia se há ultrapassagem de demanda


contratada em que esteja sendo cobrada multa pela concessionária. Este valor
de multa cobrado pela concessionária, ao longo de um ano, pode representar
um grande custo maior para a empresa. Este custo pode ser gerenciável e evita
desperdício de recursos. (parei aqui)
Existem formas de se evitar tais custos, seja modificando o contrato de
fornecimento de energia elétrica com a concessionária, seja instalando controladores
de demanda ou fazendo um desenho de processos de ligações de máquinas que
evitem que várias delas estejam ligadas ao mesmo tempo, influenciando o valor
de demanda verificada em um dado momento. Além dos custos de multa para
ultrapassagem da demanda contratada, há ainda o oposto: pagar por demanda
que não é utilizada.
Vale lembrar, quando o contrato de fornecimento de energia elétrica é assinado,
estipula-se aí uma quantidade mínima de demanda (medida em quilowatt) que
será faturada para a unidade consumidora, independentemente se haverá ou não
o alcance de tal valor durante o mês.
Sempre que uma unidade consumidora em alta tensão faz projetos de otimização
de consumo de energia elétrica, é importante verificar se os processos de produção
atingem em algum momento o mínimo de demanda contratada, pois caso tenha
havido um ganho de eficiência no consumo, provavelmente a demanda mínima
não será atingida e, portanto, existe a oportunidade de baixar o valor de demanda
contratada junto à concessionária, evitando assim custos maiores com este item.
Além disso, é possível realizar estudos de utilização de demanda nos meses
do ano, caso a produção seja sazonal, para otimização dos valores ao menor custo
possível, considerando os meses de baixa e de alta produção.

capítulo 1 • 25
Indicadores de energia

O uso de indicadores de desempenho no acompanhamento de processos e


projetos é uma prática fundamental para auxiliar a tomada de decisão, indicar
oportunidades de melhoria e verificar o cumprimento das metas previamente
estabelecidas. Na gestão do uso de energia não é diferente. Só é possível mensurar
e comparar os ganhos obtidos por meio da eficiência com o uso de indicadores
energéticos adequados.
Neste contexto, a prática mais comum do mercado é utilizar o valor de energia
faturado, preocupar-se com o custo do quilowatt-hora e com números absolutos de
consumo ao longo do tempo (quantidade consumida por dia, por ano, por mês etc.).
De fato, esta é a maneira mais simples de acompanhar a utilização de energia,
mas, é também uma das mais incompletas: desse modo, perdemos oportunidades
de redução de consumo por análises mais criteriosas. Sistemas de gestão de ener-
gia, como proposto pela norma ISO50001, preveem a definição de um conjunto
de indicadores energéticos.

PDCA para gestão energética

Ao adotar a melhoria contínua por meio do ciclo PDCA (do inglês Plan,
Do, Check, Act), a etapa de verificação (Check) é a atividade chave que lidera as
diretrizes de melhoria.
A análise de indicadores inadequados pode ocasionar ações falhas ou
equivocadas, estagnando do processo e levando à perda de eficiência. Além, é
claro, de gerar um tedioso e improdutivo trabalho de acompanhamento de
números sem objetivo.
Reforça-se assim a importância do processo de escolha e customização de
indicadores de eficiência para o monitoramento e aperfeiçoamento de qualquer
tipo de processo, para isso existem cinco etapas cruciais a serem seguidas:
•  Definição dos objetivos principais do processo ou projeto.
•  Profundo entendimento das atividades que compõem este processo ou
projeto.
•  Busca por indicadores já desenvolvidos no mercado e utilizados no
benchmarking.
•  Análise dos dados já disponíveis e de quais seriam desejados.
•  Criação e customização de indicadores de desempenho.

capítulo 1 • 26
A identificação das oportunidades de melhoria da eficiência energética, mes-
mo que empiricamente, passa por este processo. Esta premissa já traz à tona uma
reflexão: como devemos expressar os ganhos de eficiência identificados? Como o
cliente vai poder utilizar o nosso trabalho da melhor forma possível? Qual proces-
so de decisão estamos apoiando com suporte técnico especializado?
Na indústria, a seleção de indicadores é ainda mais delicada, dada a grande
variedade e complexidade dos processos de produção. Os indicadores chave de
desempenho (em inglês KPIs – Key Performance Indicators) acabam ficando ainda
mais dependentes de seu objetivo principal. Afinal, pode-se optar por medir o
consumo de energia da empresa como um todo, de um processo produtivo especí-
fico, de um equipamento, de uma etapa de processo, de um produto etc.
A maior parte dos KPIs de energia usados hoje ainda tem como parâmetro de
referência o tempo – quantidade de energia consumida por dia, mês ou ano. Esta
abordagem, entretanto, não engloba as relações de causa e efeito nos processos
energéticos. O resultado disso é a dificuldade no entendimento e na identificação
das oportunidades de economia.

RESUMO
Nesse capítulo:
•  Você aprendeu os principais conceitos de energia e eficiência energética.
•  Compreendeu a importância de se implementarem medidas eficientes nas indústrias para
a melhoria energética e consequente redução de custos e melhoria nos impactos ambientais.
•  Entendeu as diversas fontes renováveis e não renováveis, bem como seu campo de apli-
cação.
•  Você aprendeu os principais conceitos de sustentabilidade e desenvolvimento sustentável.
•  Compreendeu a importância dos indicadores para bons resultados em gestão energética.
•  Entendeu as principais questões relacionadas às demandas energéticas.

ATIVIDADES
01. Marque a seguir a única alternativa que não representa uma energia de fontes renová-
veis.
a) Solar c) Hidráulica e) Gás natural
b) Eólica d) Biomassa

capítulo 1 • 27
02. Leia o texto: “Trata-se de todo capital humano que está, direta ou indiretamente, relacio-
nado às atividades desenvolvidas por uma empresa. Isso inclui, além de seus funcionários,
seu público-alvo, seus fornecedores, a comunidade a seu entorno e a sociedade em geral.
Desenvolver ações socialmente sustentáveis vai muito além de, por exemplo, dar férias e
benefícios aos funcionários. Deve-se proporcionar um ambiente que estimule a criação de
relações de trabalho legítimas e saudáveis, além de favorecer o desenvolvimento pessoal e
coletivo dos diretamente ou indiretamente envolvidos”. Assim, estamos tratando de
a) sustentabilidade social.
b) sustentabilidade econômica.
c) sustentabilidade emocional.
d) sustentabilidade financeira.
e) sustentabilidade ambiental.

03. Como reduzir custos com demanda contratada de uma empresa?

04. Na busca pelo desenvolvimento sustentável, qual o papel do setor industrial?

05. Quais as necessidades requeridas na conscientização para sustentabilidade, já que se


trata de uma proposta desafiadora, pois implica criar condições para que as iniciativas educa-
cionais sejam estratégicas na realização das mudanças necessárias, para motivar os alunos
cidadãos a agir com responsabilidade em direção às metas de sustentabilidade?

06. As fontes de energia exercem papel importante nas atividades humanas. Delas se ori-
ginam eletricidade e combustíveis, que são úteis para a produção e o transporte de bens e
mercadorias. São consideradas fontes de energia renováveis todo recurso que tem a capa-
cidade de se refazer ou não é limitado. Com base nessa informação, cite exemplos de fontes
de energia renovável.

07. Descreva os principais motivos que podem levar a um sistema apresentar uma baixa
eficiência energética devido a um baixo fator de potência em sua instalação.

capítulo 1 • 28
CONEXÃO
Consulte também as seguintes fontes como complementação ao conteúdo abordado
nesse capítulo:
<https://www.solsticioenergia.com>
<https://www.voltimum.pt/sites>
<https://www.celenapar.com.br>

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOUSTEAD, I., HANCOCK, G. F. Handbook of Industrial Energy Analysis. Ellis Horwood, Chichester,
1979.
BOYLE, GODFREY. Renewable Energy – Power for a Sustainable Future. Editora Oxford, 2004.
CLEMENTINO, Luiz Donizeti. A Conservação de Energia por meio da Cogeração de Energia
Elétrica. Editora Érica, 2001.
CULP, A. W. Principles of Energy Conversion. McGraw-Hill, New York: 1991.
GOMES NETO, Emílio Hoffmann. Hidrogênio – Evoluir sem Poluir. Brasil H2 Fuel Cell Energy, 2005.
REIS, Lineu Bélico dos Reis. Geração de Energia Elétrica. São Paulo: Editora Manole, 2003.
SANTOS, Afonso Henriques Moreira. Conservação de Energia – Eficiência Energética de
Instalações e Equipamentos. Editora da EFEI, Itajubá-MG, 2001.

capítulo 1 • 29
capítulo 1 • 30
2
Geração distribuída
e cogeração
Geração distribuída e cogeração
Esse capítulo tratará das questões relacionadas à Geração Distribuída e
Cogeração. Verifica-se que a geração distribuída (GD) é uma expressão usada para
designar a geração elétrica realizada junto ou próxima ao(s) consumidor(es) inde-
pendentemente da potência, tecnologia e fonte de energia. As tecnologias de GD
têm evoluído para incluir potências cada vez menores. A GD inclui:
•  Cogeradores.
•  Geradores que usam como fonte de energia resíduos combustíveis de
processo.
•  Geradores de emergência.
•  Geradores para operação no horário de ponta.
•  Painéis fotovoltaicos.
•  Pequenas Centrais Hidrelétricas – PCHs.

O conceito envolve, ainda, equipamentos de medida, controle e comando que


articulam a operação dos geradores e o eventual controle de cargas (ligamento/
desligamento) para que estas se adaptem à oferta de energia.
Já nas questões voltadas à cogeração, será possível entender que esse tipo de
geração de energia é um processo no qual são geradas duas formas de energia ao
mesmo tempo. O tipo mais comum é a cogeração de energia elétrica e energia
térmica (tanto para calor quanto para frio), principalmente a partir do uso de bio-
massa, ou gás natural.

OBJETIVOS
•  Entender o que vem a ser geração distribuída;
•  Compreender, por meio de exemplos reais, as diversas formas de geração distribuída;
•  Apresentar as definições de cogeração;
•  Conhecer o desenvolvimento da cogeração no Brasil e no mundo;
•  Entender os processos de biomassa como geração de energia renovável;
•  Exemplificar os sistemas de cogeração;
•  Exemplificar os diversos contextos industriais na implementação de fontes renováveis
como a biomassa (biomassa × combustíveis fósseis).

capítulo 2 • 32
Geração distribuída: conceitos fundamentais

O que é geração distribuída?

A geração distribuída consiste em estabelecer diversos pontos de geração de


energia junto aos pontos de consumo. Trata-se de uma revolução com potencial
para mudar completamente a forma que estamos acostumados a gerar e consumir
eletricidade.
Nessa modalidade, o consumidor deixa de ser passivo, sujeito a qualquer tipo
de política governamental que impacte o preço da tarifa de energia e obrigado a
comprar a energia da empresa concessionária do serviço de distribuição em sua
região. Para denominar esse novo tipo de consumidor, foi cunhado o termo “pro-
sumidor”, mesclando as palavras produtor e consumidor.

Quando foi regulamentada no Brasil?

No Brasil, a geração distribuída foi regulamentada pela resolução 482 da


ANEEL, em 2012, e posteriormente atualizada pela resolução 687, de 2015.

Como funciona?

A política adotada no Brasil é a de compensação de energia e permite que


sejam usadas fontes de energia renováveis, com destaque para a energia solar fo-
tovoltaica. De acordo com as regras estabelecidas, a energia gerada pelos painéis
solares é abatida da conta de luz das distribuidoras. Ou seja, no fim do mês, o
“prosumidor” irá pagar apenas a diferença entre o que gerou e consumiu.
Caso a geração seja maior do que o consumo, serão gerados créditos energé-
ticos, com validade de 60 meses, que poderão ser utilizados em períodos futuros
com maior consumo. Tais créditos podem ainda ser aproveitados em outras uni-
dades consumidoras, desde que localizadas dentro da área de concessão da mes-
ma distribuidora.
A figura 2.1 apresenta um modelo de geração convencional interligado com
geração distribuída.

capítulo 2 • 33
Geração Convencional

Geração Distribuída

Figura 2.1  –  Geração convencional com geração distribuída. Reis, 2003.

Vantagens da geração distribuída

Uma das principais vantagens de um sistema de geração distribuída é a elimina-


ção das baterias, o que reduz bastante o investimento nos sistemas de geração. Em
momentos em que a geração é maior do que o consumo, em vez de ser armazenada
em bancos de bateria, a energia excedente é injetada na rede da concessionária.
Outra vantagem é que o “prosumidor” continua conectado à rede de distri-
buição, garantindo a disponibilidade de energia a qualquer momento, mesmo
quando o sistema não está gerando.
Finalmente, a geração distribuída também beneficia o sistema energético
como um todo. Como a geração ocorre junto aos pontos de consumo, as perdas
com a transmissão de energia são praticamente eliminadas.

Aspectos gerais da geração distribuída

A GD tem vantagem sobre a geração central, pois economiza investimentos


em transmissão e reduz as perdas nestes sistemas, melhorando a estabilidade do
serviço de energia elétrica.
A geração elétrica perto do consumidor chegou a ser a regra na primeira me-
tade do século, quando a energia industrial era praticamente toda gerada local-
mente. A partir da década de 1940, no entanto, a geração em centrais de grande

capítulo 2 • 34
porte ficou mais barata, reduzindo o interesse dos consumidores pela GD e, como
consequência, o desenvolvimento tecnológico para incentivar esse tipo de geração
também parou.
A figura 2.2 apresenta a evolução da geração de energia ao longo do século.
Custos Médios de geração, S/MW

1930 Tamanho ó�mo das


usinas termelétricas
1950 custo/MW, 1930-1990

1970

1980
1990

50 200 600 1.000


Tamanhos das Usinas Termelétricas, MW

Figura 2.2  –  Evolução da geração de energia. Charles E. Bayless.

As crises do petróleo introduziram fatores perturbadores que mudaram irre-


versivelmente este panorama, revelando a importância, por exemplo, da economia
de escopo obtida na cogeração. A partir da década de 1990, a reforma do setor
elétrico brasileiro permitiu a competição no serviço de energia, criando a concor-
rência e estimulando todos os potenciais elétricos com custos competitivos.
Com o fim do monopólio da geração elétrica, em meados dos anos 1980, o
desenvolvimento de tecnologias voltou a ser incentivado com visíveis resultados
na redução de custos.
O crescimento da GD nos próximos anos parece inexorável e alguns autores
fazem uma analogia com o crescimento do microcomputador com relação aos
grandes computadores centrais (“mainframes”).
A figura 2.3 apresenta um mapa da geração distribuída de energia.

capítulo 2 • 35
Figura 2.3  –  Mapa da geração distribuída de energia. Blue Sol Energia.

O futuro do sistema de energia elétrica

As redes de energia são sistemas complexos, integrados e com uma interação


sensível entre fontes de geração, sistemas de rede e as demandas de energia. A rede
elétrica tradicional, como visto anteriormente, tem como principais característi-
cas uma infraestrutura de geração centralizada e consumidores com participação
passiva sem contribuir com a gestão operacional das fontes de geração de energia.
Cada usuário é simplesmente um nó final para entrega de eletricidade.
O fluxo de comunicação e de energia é unidirecional e, de forma geral, o
objetivo do sistema elétrico é o fornecimento de energia para os usuários finais.
O novo modelo de rede elétrica inteligente propõe diversas novidades. A mais dis-
cutida e mais amplamente implementada é infraestrutura de medição inteligente.
Nesse sentido, toda a medição, que exigia a presença de um técnico para anotar
o consumo de cada medidor analógico nas unidades consumidoras, é substituída
por medidores digitais, capazes de se comunicar diretamente com uma central.
Esse medidor digital, permite, entre outras funcionalidades, uma comunicação
bidirecional com a central de energia.

capítulo 2 • 36
Assim, em vez de o usuário apenas informar o seu consumo de energia, ele
passa também a receber dados da empresa concessionária. Dentre as vantagens
desse novo modelo, está a possibilidade de diferenciar o preço da energia ao longo
do dia e informar ao cliente em tempo real as mudanças de preço e o seu consumo,
e, ainda, controlar a carga dos clientes em caso de aumento excessivo da demanda.
Nesse caso, seria possível enviar notificações aos clientes para que se reduza o
consumo desligando alguns aparelhos de forma a evitar o corte de energia em toda
uma região. Portanto, nesse novo modelo, toda a inteligência e automação que
antes só existiam em parte do sistema, como em subestações, deverão ser levadas
para todo o sistema, chegando à casa dos consumidores.
Na proporção que o sistema muda, não só a infraestrutura elétrica é afetada
como também a comunicação no sistema. Nessa nova arquitetura, a comunicação
entre a concessionária de energia e os consumidores é um passo fundamental para
o progresso das redes elétricas inteligentes. Outra vantagem que a infraestrutura
de medição inteligente traz é a geração de energia pelo cliente.
Muitas vezes, ao se falar em GD, se pensa nas formas de gerações alternativas,
como fazendas para geração de energia eólica ou usinas construídas para funcionar
com a variação das marés. Tudo isso é parte da iniciativa sustentável para reduzir a
emissão de poluentes, conectando à rede, plantas virtuais de energia renovável em
escala industrial. Contudo, a GD inclui também a geração de energia pelos clientes.
Assim, uma residência equipada com um painel solar ou uma pequena turbina eólica
pode ser uma fonte geradora para todo o sistema, disponibilizando o excesso de ener-
gia que foi gerado. Isso só é possível devido à comunicação bidirecional dos medidores.
Assim, a GD, os medidores inteligentes e outras tecnologias do lado da de-
manda estão se tornando cada vez mais necessários para controlar a demanda de
energia, tanto durante o horário de pico quanto fora do pico. Essas e outras carac-
terísticas mudaram o paradigma de geração de energia e distribuição.
O sistema deixa de ser centralizado e unidirecional para formar uma rede de
energia e comunicação. Com isso, o sistema de comunicação passa a ser total-
mente integrado. O futuro do sistema de energia elétrica inclui muitos pontos de
mudança introduzidos pela modernização do sistema. Os pontos mais fortes con-
siderados aqui incluem o cliente, a rede de distribuição e a rede de transmissão do
sistema. As empresas de distribuição terão que lidar com clientes mais conscientes
das possibilidades oferecidas pelo mercado, que terão essa resposta on-line.
Estas possibilidades incluem tarifas flexíveis com preços competitivos; geração
de energia local; suporte a programas de energias renováveis; programas de eco-
nomia de energia; geração pelo lado da demanda; e serviços de comunicação e de

capítulo 2 • 37
faturamento. Além disso, os eletrodomésticos poderão receber, em tempo real, o
preço da energia via rede de comunicação.
Com isso, os próprios dispositivos poderão otimizar o seu nível de consumo,
de acordo com o preço atual de energia. Dessa forma, a eficiência na utilização
da energia aumenta e o consumo é reduzido, o que ajuda a combater a crise de
recursos energéticos. As aplicações de automação residencial e de gerenciamento
de energia residencial tendem a crescer e a incorporar novas funcionalidades.
A tecnologia de rede usada para automatizar uma casa terá que coexistir com
a rede de comunicação com a concessionária. Existe ainda uma grande discussão
sobre qual tecnologia deverá ser usada para a rede que irá interligar casas inteli-
gentes, concentradores e medidores inteligentes. No lado da demanda, o uso de
aparelhos inteligentes, a adoção de veículos elétricos e a geração distribuída fazem
com que o perfil de carga do consumidor seja variado.
Os dados gerados do lado da demanda deverão ser filtrados e tratados, a fim
de gerar informação útil para as concessionárias. A rede de distribuição será muito
mais ativa. A GD poderá ser conectada às redes de distribuição ou ainda em redes
de transmissão, e o controle deverá ser coordenado.
A função da rede de distribuição ativa é interligar de forma eficiente as fontes
geradoras de energia com a demanda dos consumidores, permitindo uma ope-
ração em tempo real. Os tipos de geração deverão ser iniciados ou deixados em
stand-by, de acordo com o mercado de energia e com o controle da rede.
A necessidade de supervisão dessa rede aumenta, já que o equilíbrio entre
oferta e demanda, também chamado de balanceamento de carga, é essencial para
um fornecimento estável e confiável de eletricidade.
A rede deverá interagir com o consumidor e para isso o nível de controle ne-
cessário é muito maior do que em sistemas de distribuição atuais. Além disso, essa
rede precisará ser protegida, e proteção requer tecnologias de custo competitivo,
bem como novos sistemas de comunicação com mais sensores e atuadores do que
no sistema de distribuição atual.
O uso de tecnologia da informação, comunicação e infraestruturas de con-
trole serão necessárias devido ao aumento da complexidade de gerenciamento do
sistema. O controle poderá ser distribuído em microrredes e Virtual Power Plants
(VPPs) para facilitar a gestão do sistema e sua integração tanto no sistema físico
como no mercado.
A figura 2.4 apresenta um diagrama,descrevendo meios de transmissão e dis-
tribuição de energia.

capítulo 2 • 38
Usina centralizada

Subestação
Hidrelétrica Eólica ? Distribuidora

Transmissão

Subestação
Distribuidora

Energia
Eólica Célula de
Combus�vel Comercial
? ? ?

? ? ?

Turbina a Gás
Comercial

? Industrial

Figura 2.4  –  Diagrama para transmissão de distribuição de energia. Modbus organization.

Projetos no Brasil

No Brasil, as iniciativas nessa área vêm crescendo bastante. Como caracterís-


tica geral, os projetos brasileiros iniciam-se com a implementação dos medidores
inteligentes, já que é um ponto crucial inclusive para o funcionamento da GD.
Em seguida, o enfoque passa para GD e o desenvolvimento de sistemas de arma-
zenamento de energia mais eficientes. Um exemplo é o projeto Redes Inteligentes
Brasil que, dentre outros assuntos, trata dos requisitos de telecomunicações e
tecnologia da informação necessários para suportar as necessidades geradas pelos
sistemas de medição, automação e integração de geração distribuída, armazena-
mento de energia e veículos elétricos plugáveis.
Esse projeto tem diversos projetos pilotos espalhados pelo Brasil, dentre eles
o Cidade Inteligente Búzios e o Smart Grid Light, no Rio de Janeiro, o Cidade
do Futuro, em Minas Gerais, o InovCity, em São Paulo, o Paraná Smart Grid e o
Arquipélago de Fernando de Noronha.
Esses projetos, muitos ainda em desenvolvimento, também estudam tecnolo-
gias e soluções para redes e telecomunicações. De forma geral, as concessionárias
brasileiras têm investido bastante em projetos dessa linha.

capítulo 2 • 39
O Smart Grid Light, além do amplo investimento em medidores inteligen-
tes, tem uma área que trata fortemente do sistema de geração distribuída com
o desenvolvimento de um modelo de GD com base em painéis fotovoltaicos e
armazenamento que possibilite ações de DSM. O programa conta ainda com uma
interface web de supervisão e controle, um conjunto de 136 painéis fotovoltaicos
monocristalinos, uma área total de 220 m2 em painéis, aproximadamente 30 kW
de potência de pico e 64 kWh de armazenamento em banco de baterias, além de
ter conexão com a rede de distribuição atualmente em curso.
A Cemig, desde o ano 2010, está executando o projeto Cidades do Futuro e,
em 2014, entregou, na cidade de Sete Lagoas, quatro microusinas fotovoltaicas
ongrid para geração de energia elétrica, que fazem parte do projeto e serão utili-
zadas para o estudo da interação dos sistemas de GD na rede elétrica. A estrutura
conta com sistemas de monitoramento que permitem acompanhar, em tempo
real, o desempenho dos equipamentos, a geração de energia e o comportamento
da rede elétrica. A energia produzida irá abastecer em parte a demanda de energia
de cada local de implantação. Quando não existir consumo, ela será injetada à
rede.
O InovCity é considerado o maior projeto de redes elétricas inteligentes do
país e está transformando Aparecida em uma cidade mais sustentável, por meio
de ações da adoção de geração distribuída de energia por fontes renováveis, de
eficiência energética, da utilização de iluminação pública eficiente, e permitindo a
utilização de veículos elétricos entre outras ações, contribuindo de forma signifi-
cativa para a redução das emissões de CO2.
O Paraná Smart Grid, criado pelo governo do Paraná em setembro de 2013,
foi pensado para incentivar a geração distribuída por fontes renováveis. O projeto
inclui microgeração distribuída por fontes solares e eólicas e testes de conceito que
abrangem desde a automação predial até a integração à rede inteligente de eletro-
postos para carros, bicicletas e ônibus elétricos.
O Arquipélago de Fernando de Noronha será o primeiro local no estado de
Pernambuco a contar com redes elétricas inteligentes instaladas pela Celpe. A
concessionária, por meio de um projeto de P&D, está implantando na ilha um
sistema que vai reunir as principais tecnologias nas áreas de medição, telecomu-
nicações, tecnologia da informação e automação em um único produto. Uma
das iniciativas do projeto incluem a Usina Solar Noronha II, que tem previsão
para entrar em operação no primeiro semestre de 2015 e, por meio do sistema de
compensação de energia, regulamentado pela ANEEL para minigeração, a energia

capítulo 2 • 40
gerada será utilizada para compensar o consumo das unidades da Administração
Estadual da Ilha de Fernando de Noronha.
A AES Eletropaulo e a Silver Spring Networks estão implantando uma plata-
forma de medição inteligente em São Paulo. O Sistema Brasileiro de Multimedição
Avançada (SIBMA), sistema desenvolvido pelo Centro de Estudos e Sistemas
Avançados do Recife (CESAR) que visa automatizar a medição de energia elétrica
a distância, desde a concessionária até o consumidor, já começa a tratar também
a GDS.

Cogeração: conceitos fundamentais

Até a década de 1940 mais ou menos, a cogeração de energia era um processo


bastante comum, pois não havia as grandes centrais hidrelétricas ou outras fontes
centralizadas de geração de energia, então o próprio consumidor procurava ter
sua fonte geradora de energia. Com o tempo e a evolução das técnicas de geração
centralizada de energia, a cogeração foi perdendo espaço e passou a ser exceção.
Entretanto, com a atual instabilidade dos sistemas de abastecimento de ener-
gia e a evolução dos sistemas que possibilitam este tipo de geração de forma mais
simples, segura e barata, a cogeração passa a ser um atrativo principalmente para
as indústrias por aliar economia e benefícios ambientais.
A biomassa é um combustível que pode ser facilmente encontrado em algu-
mas regiões e de baixo custo, além do que a emissão de poluentes é muito menor.
Outro combustível muito utilizado para a cogeração é o gás natural, porém seu
custo é um pouco maior.
Em um sistema de geração de energia convencional, em que um combustível
fóssil é usado para gerar energia elétrica, cerca de 65% da energia contida no com-
bustível são perdidos na forma de calor e apenas 35% são de fato transformados
em energia elétrica, mesmo que se utilize as melhores tecnologias de geração.
Ao se implantar um sistema de cogeração, conseguimos melhorar esse balan-
ço energético e conseguir um aproveitamento de até 85% da energia contida no
combustível: até 35% é transformado em energia elétrica pelo sistema convencio-
nal e do restante, consegue-se aproveitar cerca de 50% (é que há um limite para
a conversão da energia contida no combustível em energia elétrica, geralmente o
que se consegue é 35%. E mesmo com o sistema de cogeração, aproximadamente
15% da energia se perde).

capítulo 2 • 41
Os sistemas de cogeração geralmente são compostos por um equipamento que
através de um combustível produz a energia mecânica que será transformada por
um gerador em energia elétrica e outros equipamentos que produzirão a energia
térmica, que pode ser calor ou frio.
Os sistemas de cogeração mais utilizados são: as turbinas a gás ou vapor (neste
caso, costumam ser caldeiras que produzem o vapor), motores de combustão in-
terna (ciclo de Otto ou Diesel), caldeiras de recuperação e trocadores de calor, ge-
radores elétricos (CaC), transformadores e equipamentos elétricos associados, sis-
temas de chillers de absorção que usam calor para produzir frio (ar-condicionado).
Estas fontes de cogeração aparecem geralmente associadas a melhorias ambientais.
Isso ocorre porque a cogeração aumenta a eficiência energética de instalações e
estimula a produção descentralizada de energia (geração distribuída), fatores que
geram menos impactos ambientais.
A Resolução Normativa da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica)
no 235 de 14/11/2006 define os critérios para que uma central termelétrica coge-
radora possa ser considerada como tal e assim receber os incentivos cabíveis como
a redução de tarifas de uso do sistema elétrico. A figura 2.5 apresenta um modelo
de cogeração de energia.

Exhaust gas

Biogas Heat exchanger


Gas storage tank
Digester
Heat
Gas flare
consumer

Biomass Electrical
Raw fer�liser energy
Hygenisa�on for agricultural use

Primary pit

Figura 2.5  –  Modelo de cogeração de energia. Modbus organization.

Definição de cogeração

Cogeração é a produção simultânea e de forma sequenciada, de duas ou mais


formas de energia a partir de um único combustível. Atualmente, dentro do
contexto de geração distribuída (GD), a cogeração vem ganhado destaque como

capítulo 2 • 42
alternativa para a produção descentralizada de energia elétrica, obtendo maior
eficiência operacional, redução de custos e menor impacto ambiental, ao mesmo
tempo em que satisfaz demandas térmicas da instalação.

Definição de trigeração

Trigeração pode ser definida como uma extensão da cogeração, a qual envolve
a produção simultânea de eletricidade, calor e também frio.

Por que cogeração?

A necessidade de aumentar a competitividade e as pressões por redução de


custos são continuamente requeridas nas organizações. Energeticamente isso se
dá pela operação mais eficiente. A cogeração apresenta-se como alternativa por
meio da geração total ou parcial on-site de energia elétrica e térmica. O aumento
da eficiência energética, utilizando a cogeração, tem o potencial de reduzir custos
com energéticos e reduzir as emissões por unidade de energia produzida. Quando
aplicado efetivamente, o sistema de cogeração permite menor dependência em
relação ao grid elétrico.
Cada organização tem perfil energético e operacional único, e esse guia visa
motivar o desdobramento de estudos preliminares de viabilidade técnica-econô-
mica. Empreendimentos mais prováveis de obter benefícios são aqueles que utili-
zam grande quantidade de carga térmica e eletricidade simultaneamente.
Existem vários fatores que determinarão se a cogeração é adequada para seu
empreendimento; em geral, sites com as seguintes características são potenciais:
•  Demanda de energia térmica é similar ou maior que a demanda elétrica.
•  Demandas constantes e estendidas por longas horas.
•  Custo de energia elétrica maior do que o custo do gás natural em termos
unitários.
•  Mais de 60% da energia térmica disponível é utilizada na base anual.
Existem pontos críticos que devem ser considerados se você está planejando im-
plementar um sistema de cogeração.

Soluções mais econômicas e mais eficientes podem estar disponíveis para


sua situação e é essencial investigá-las cuidadosamente. Custos de operação e
manutenção podem ser maiores com a cogeração, e pessoal qualificado deve ser

capítulo 2 • 43
contratado, além de custos envolvendo aprovações regulamentares e ambientais.
Sistemas dimensionados incorretamente podem gerar baixa confiabilidade e que-
da de energia.
Fatores que podem afetar o sucesso de sistemas de cogeração:
•  Não avaliar corretamente a eficiência global do sistema.
•  Histórico impreciso ou incompleto das cargas de energia elétrica e térmica
do empreendimento.
•  Não considerar súbitas mudanças de carga no sistema.
•  Subestimar economias atribuídas nos períodos de redução de demanda tér-
mica e elétrica.
•  Conexão com a rede de energia elétrica não atende aos requisitos da
concessionária.
•  Operar em potência menor que aquela prevista.

Mini e microgerações

A microgeração distribuída é uma central geradora de energia elétrica com po-


tência instalada menor ou igual a 100 kW e que utiliza fontes com base em energia
hidráulica, solar, eólica, biomassa ou cogeração qualificada (caso do gás natural),
conforme regulamentação da ANEEL (Resolução Normativa no 235/2006, de
14/11/2006), conectada na rede de distribuição por meio de instalações de unida-
des consumidoras. É também denominada acessante de microgeração distribuída.
A minigeração distribuída é uma central geradora de energia elétrica com po-
tência instalada superior a 100 kW e menor ou igual a 1 MW, igualmente para
fontes com base em energia hidráulica, solar, eólica, biomassa ou cogeração qualifi-
cada, conforme regulamentação da ANEEL (Resolução Normativa no 235/2006,
de 14/11/2006), conectada na rede de distribuição por meio de instalações de
unidades consumidoras. É também denominada acessante de minigeração distri-
buída. Cogeração qualificada é o atributo concedido a cogeradores que atendem
os requisitos definidos na resolução, segundo aspectos de racionalidade energética,
para fins de participação nas políticas de incentivo à cogeração.

Considerações gerais sobre biomassa e cogeração

Do ponto de vista da geração de energia, o termo biomassa abrange os deri-


vados recentes de organismos vivos utilizados como combustíveis ou para a sua

capítulo 2 • 44
produção. Do ponto de vista da ecologia, biomassa é a quantidade total de matéria
viva existente num ecossistema ou numa população animal ou vegetal. Os dois
conceitos estão, portanto, interligados, embora sejam diferentes.
Na definição de biomassa para a geração de energia, excluem-se os tradicio-
nais combustíveis fósseis, embora estes também sejam derivados da vida vegetal
(carvão mineral) ou animal (petróleo e gás natural), mas são resultado de várias
transformações que requerem milhões de anos para acontecerem.
A biomassa pode considerar-se um recurso natural renovável, enquanto os
combustíveis fósseis não se renovam a curto prazo. A biomassa é utilizada na pro-
dução de energia, a partir de processos como a combustão de material orgânico
produzido e acumulado em um ecossistema, porém nem toda a produção primá-
ria passa a incrementar a biomassa vegetal do ecossistema.
Parte dessa energia acumulada é empregada pelo ecossistema para sua própria
manutenção. Suas vantagens são o baixo custo, é renovável, permite o reaprovei-
tamento de resíduos e é menos poluente que outras formas de energias, como a
obtida de combustíveis fósseis.
A queima de biomassa provoca a liberação de dióxido de carbono na atmos-
fera, mas como este composto havia sido previamente absorvido pelas plantas que
deram origem ao combustível, o balanço de emissões de CO2 é nulo. A cogeração,
de forma simples, consiste na conversão de um tipo de combustível, por exemplo,
a biomassa, em eletricidade e calor. As centrais termelétricas convencionais con-
vertem apenas 1/3 da energia do combustível em energia elétrica.
O restante são perdas sob a forma de calor. O efeito adverso para o ambiente
derivado deste desperdício é óbvio. É imperativo aumentar a eficiência do proces-
so de produção de eletricidade. Um método para se conseguir isso é por meio da
cogeração de energia elétrica e calor, em que mais de 4/5 da energia do combus-
tível são convertidos em energia utilizável, resultando em benefícios financeiros e
ambientais.
Cogeração pode ser então definida como um processo de produção e explo-
ração consecutiva (simultânea) de duas fontes de energia, elétrica (ou mecânica) e
térmica, por um sistema que utiliza o mesmo combustível permitindo a otimiza-
ção e o acréscimo de eficiência nos sistemas de conversão e utilização de energia.
A energia térmica proveniente de uma instalação de cogeração pode ser utilizada
para produzir frio, por meio de um ciclo de absorção. Este processo “alargado”
de cogeração é conhecido por trigeração ou produção combinada de eletricidade,
calor e frio.

capítulo 2 • 45
Biomassa

Um dos primeiros empregos da biomassa pelo ser humano para adquirir ener-
gia teve início com a utilização do fogo como fonte de calor e luz. O domínio des-
se recurso natural trouxe ao homem a possibilidade de exploração dos minerais,
minérios e metais, marcando novo período antropológico. A madeira do mesmo
modo foi por um longo período de tempo a principal fonte energética, com ela
a cocção, a siderurgia e a cerâmica foram empreendidas. Óleos de fontes diversas
eram utilizados em menor escala.
O grande salto da biomassa deu-se com o advento da lenha na siderurgia, no
período da Revolução Industrial. Nos anos que compreenderam o século XIX,
com a revelação da tecnologia a vapor, a biomassa passou a ter papel primordial
também para obtenção de energia mecânica com aplicações em sectores na indús-
tria e nos transportes.
A despeito do início da exploração dos combustíveis fósseis, como o carvão
mineral e o petróleo, a lenha continuou desempenhando importante papel ener-
gético, principalmente nos países tropicais. No Brasil, foi aproveitada em larga
escala, atingindo a marca de 40% da produção energética primária, porém, para
o meio ambiente um valor como esse não é motivo para comemorações, afinal, a
destruição das florestas brasileiras aumentou nos últimos anos.
Durante os colapsos de fornecimento de petróleo que ocorreram durante a
década de 1970, essa importância se tornou evidente pela ampla utilização de arti-
gos procedentes da biomassa como álcool, gás de madeira, biogás e óleos vegetais
nos motores à explosão. Não obstante, os motores à combustão interna foram
primeiramente testados com derivados de biomassa, sendo praticamente unânime
a declaração de que os combustíveis fósseis só obtiveram primazia por fatores
econômicos, como oferta e procura, nunca por questões técnicas de adequação.

Cogeração

Até meados do século XX, a cogeração chegou a ser muito usada nas indús-
trias, perdendo depois competitividade para a eletricidade produzida pelas conces-
sionárias nas grandes centrais geradoras com ganhos de escala. Assim, a cogeração
ficou limitada a sistemas isolados (plataformas submarinas) e indústrias com lixos
combustíveis (canavieira e de papel e celulose, por exemplo).

capítulo 2 • 46
Biomassa

Existe uma grande variedade de produtos que podem servir de matéria-pri-


ma na produção de biomassa. As principais formas aproveitáveis da biomassa no
estado bruto são: resíduos florestais (limpeza de florestas, resíduos da indústria da
madeireira e do papel, indústria da cortiça); resíduos agrícolas e culturas energé-
ticas (cana-de-açúcar, beterraba, óleos vegetais, indústria do azeite, vides, casca de
arroz); madeira; efluentes agropecuários (biogás de resíduos de pocilgas); resíduos
sólidos urbanos (biogás de aterros e de tratamento de águas residuais).
Algumas formas de obtenção de derivados são: prensagem de resíduos; pro-
dução de briquetes; pirólise parcial; produção de carvão vegetal; gaseificação por
pirólise; produção de gás pobre; fermentação anaeróbica: produção de biogás;
fermentação enzimática e destilação; produção de álcool; processos compostos;
produção de óleos vegetais.

Vantagens da biomassa

Podemos enumerar algumas vantagens associadas à sua utilização: o menor


percentual de poluição atmosférica global e localizado; estabilidade do ciclo do
carbono; maior emprego de mão de obra; relativamente a outras formas de ener-
gias renováveis, a biomassa, como energia química, tem posição de destaque devi-
do: apresentar alta densidade energética; facilidade de armazenamento, de câmbio
e de transporte.
A semelhança entre os motores e sistemas de produção de energia de biomas-
sa e de energia fóssil é outra vantagem, dessa forma, a substituição não teria um
efeito tão grande nem na indústria de produção de equipamentos nem nas bases
instituídas para transporte e fabricação de energia elétrica.

Desvantagens da biomassa

Existem algumas situações mais desfavoráveis e que será necessário ultrapassar


de modo a tornar esta tecnologia mais apelativa e aumentar a sua implementação
nos panoramas energéticos dos países.
Apresentamos algumas dessas dificuldades: tecnologias com custos elevados;
preocupações ambientais das populações locais; inexistência de infraestrutura e

capítulo 2 • 47
mercado de recursos; custos de coleta, transporte e acondicionamento da biomas-
sa; os recursos mais interessantes em termos de externalidades (limpeza de flores-
tas para evitar incêndios) não são os mais interessantes economicamente (difícil
acondicionamento e baixo valor energético); a indústria madeireira já aproveita
os seus resíduos para outros fins; requer muita mão de obra, que no nosso caso é
relativamente cara (interessante para países em desenvolvimento).
De fato, a cogeração consiste no aproveitamento local do calor residual origi-
nado nos processos termodinâmicos de geração de energia elétrica, que em con-
dições normais seria desperdiçado. O aproveitamento pode dar-se sob a forma de
vapor, água quente e/ou fria (trigeração), para uma aplicação secundária, que pode
ou não estar ligada com o processo principal.
O combustível utilizado no processo pode ser a biomassa. Em nível de equi-
pamento especializado, exige uma turbina de extração de condensação controlada,
que permite derivar uma parte do caudal de vapor que a atravessa para usos térmi-
cos. O restante do vapor é utilizado na geração de eletricidade.
As características do vapor extraído (caudal, pressão e temperatura) vão de-
pender da procura de energia térmica exigida pelos consumidores finais. O fun-
cionamento do “resto” da central é análogo ao funcionamento de uma turbina
sem extração. Uma turbina com extração indica um maior investimento, porém
contribui para maior rentabilidade do projeto, em função das vendas de energia
térmica aos consumidores finais. As tecnologias, atualmente, mais importantes
disponíveis no mercado para cogeração são: turbina de gás (ciclo de Brayton);
turbina de vapor (ciclo de Rankine); ciclo combinado; motor alternativo de com-
bustão interna (ciclo Diesel ou Otto); pilhas de combustível; microturbinas.
As primeiras quatro tecnologias usam turbinas ou motores alternativos de
combustão interna. Têm sido aplicadas adequadamente em instalações de cogera-
ção nas últimas décadas.
As tecnologias de pilhas de combustível e microturbinas estão ainda numa fase
de desenvolvimento e início de comercialização. Todas estas máquinas motrizes e
sistemas têm sido continuamente desenvolvidos e produzidos por empresas euro-
peias durante muitas décadas.
Para trigeração, os tipos popularmente mais aplicados são os motores de com-
bustão interna, muitas vezes utilizados em grupos, para fazer face à variação de
cargas. As turbinas a gás são utilizadas em grandes complexos de edifícios tais
como hospitais ou redes urbanas de calor e frio, já as turbinas a vapor não são
utilizadas no setor terciário.

capítulo 2 • 48
Vantagens da cogeração

A grande vantagem da cogeração é a eficiência que apresenta em relação aos


processos tradicionais de produção de energia. Na produção energética conven-
cional, a maior parte da energia contida no combustível é perdida e apenas 40%
são realmente aproveitados.
Por sua vez, a produção de energia pela cogeração permite um aproveitamento
energético superior a 80%. Estas centrais contribuem para um grande aumento
da eficiência energética ao gerar simultaneamente eletricidade, água gelada para o
ar-condicionado e água quente. A cogeração contribui para reduzir o aquecimento
global.
A eliminação de gases na atmosfera ocorre a temperaturas consideravelmente
mais baixas, 170 ºC em vez de 570 ºC, reduzindo também a emissão de CO2, o
que contribui para redução do efeito estufa. A implementação bem-sucedida de
cogeração e trigeração conduz a uma redução do consumo de combustível em
aproximadamente 25%, comparativamente à produção convencional de energia
elétrica.

Vantagens econômicas para o utilizador final

Os custos energéticos das instalações de trigeração são menores do que os das


instalações convencionais. Como valor indicativo, pode dizer-se que a redução de
preços é da ordem de 20 a 30%. Pequenas centrais de cogeração de energia elétrica
e calor, ligadas à rede elétrica, garantem uma operação ininterrupta da instalação,
no caso de falha do funcionamento da central ou do abastecimento da rede.
Em nível nacional, favorecem a produção descentralizada, reduzindo a neces-
sidade de grandes centrais termelétricas. Contribuem também para o aumento
do emprego em nível local. As unidades de trigeração proporcionam um alívio
significativo às redes do sistema elétrico durante os meses quentes de verão.
Cargas de arrefecimento são transferidas da eletricidade para um combustível
fóssil, uma vez que o processo de arrefecimento/refrigeração se altera dos larga-
mente utilizados ciclos de compressão de vapor para os de absorção. Este fato
contribui ainda para o aumento da estabilidade das redes elétricas e para a me-
lhoria da eficiência do sistema. Até os dias de hoje, os picos de verão são servidos
pelas empresas elétricas distribuidoras por meio de unidades de apoio ineficientes
e linhas de transporte de energia elétrica sobrecarregadas.

capítulo 2 • 49
Desvantagens da cogeração

Apresenta como limitação o fato de o calor produzido só pode ser usado perto
do centro produtor, devido à dificuldade no transporte. Isso limita às instalações
de cogeração a unidades pequenas, em comparação com as centrais térmicas con-
vencionais. O limite de distância para o transporte de calor ser economicamente
viável fica em torno de 5 km. Para o frio, usando como veículo água gelada, a
distância econômica não passa de 500 m, além disso, tem tempo de vida útil re-
lativamente curto.

Aplicações da biomassa

A evolução tecnológica dos equipamentos que recorrem à biomassa permitiu


que estes atingissem rendimentos equiparáveis aos sistemas convencionais utili-
zadores de energias fósseis, dando origem a uma grande diversidade de produtos
adaptáveis às mais diversas aplicações.
Em contrapartida, o aparecimento de combustíveis derivados da biomassa
(ex.: pellets, briquetes, estilhas) com maior poder calorífico contribuiu para o in-
cremento da qualidade e rentabilidade deste tipo de soluções. As aplicações térmi-
cas no setor da biomassa dividem-se essencialmente na produção de calor e água
quente sanitária.
Hoje em dia, existem equipamentos a ar que fornecem aquecimento a ape-
nas uma divisão, ou recuperadores de calor, estufas e caldeiras a água que abas-
tecem um circuito de radiadores ou piso radiante e produzem ainda águas quen-
tes sanitárias.

RESUMO
As redes elétricas inteligentes estão provocando uma revolução nos sistemas de energia
elétrica, pois exigem uma integração do sistema elétrico com diversas outras áreas de pes-
quisa, incluindo fortemente as redes de comunicação.
No contexto de redes elétricas inteligentes, a geração distribuída de energia vem rece-
bendo cada vez mais destaque. Nesse novo cenário de rede elétrica, o fluxo de energia deixa
de ser unidirecional, como no sistema atual, e passa a ser bidirecional, coexistindo com fluxos
de dados e de controle bidirecionais, o que muda drasticamente a arquitetura do sistema.

capítulo 2 • 50
Este capítulo apresentou uma visão geral sobre geração distribuída de energia elétrica
com enfoque nos requisitos e desafios que são trazidos às redes de comunicação, que darão
suporte à transmissão de dados e mensagens de controle em redes elétricas inteligentes.
Foram abordados novos conceitos relacionados à GD, tais como microrredes e VPPs, que
introduzem novas formas de funcionamento dos sistemas para geração de energia. Foram
discutidos diversos desafios de comunicação relacionados à GD, considerando aspectos
como escalabilidade, confiabilidade, segurança e gerência da rede.
Este capítulo também comentou os principais projetos de redes elétricas inteligentes
que incluem a geração distribuída de energia no Brasil e no mundo. Temas atuais na área de
redes e sistemas distribuídos, como computação em nuvem e redes definidas por software,
podem ser aplicados a novas soluções de redes de comunicação que darão suporte a redes
elétricas inteligentes e GD, como já vem sendo proposto em trabalhos recentes publicados
na literatura.
Como ainda não existem soluções completas e consolidadas, ainda há bastante espaço
para pesquisa e desenvolvimento em arquiteturas de rede e modelos e protocolos de comu-
nicação que possam ser usados nas redes elétricas do futuro.

ATIVIDADES
01. Marque a seguir a opção que representa uma das vantagens da geração distribuída.
a) Uma das principais vantagens de um sistema de geração distribuída é o aumento da
utilização de baterias.
b) A principal vantagem do sistema de geração distribuída é o aumento da utilização das
fontes oriundas de combustíveis fósseis.
c) Uma das principais vantagens de um sistema de geração distribuída é a eliminação das
baterias, o que reduz bastante o investimento nos sistemas de geração.
d) Todas as opções anteriores correspondem às vantagens da geração distribuída.
e) Todas as opções anteriores estão incorretas.

02. Marque a seguir a única alternativa que corresponde à desvantagem na cogeração.


a) Apresenta como limitação o fato de o calor produzido apenas ser usado perto do centro
produtor.
b) Apresenta como limitação o fato de o calor produzido apenas ser usado distante do
centro produtor.
c) A grande limitação está relacionada à falta de recursos tecnológicos no Brasil.

capítulo 2 • 51
d) Todas as opções anteriores correspondem às vantagens da geração distribuída.
e) Todas as opções anteriores estão incorretas.

03. Fale sobre uma das principais vantagens de um sistema de geração distribuída de energia.

04. Como são compostos os sistemas de cogeração de energia?

05. Defina trigeração.

06. Apresente algumas das desvantagens da utilização da biomassa.

07. Defina geração distribuída.

CONEXÃO
Aprenda mais
Consulte também as seguintes fontes como complementação ao conteúdo abordado
nesse capítulo:
<https://www.solsticioenergia.com>
<https://www.voltimum.pt/sites>
<https://www.celenapar.com.br>

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[SGD 2008] (2008). The Smart Grid: An Introduction. Departament of Energy (DOE), Estados Unidos.
[Dnp 2010] (2010). IEEE Standard for Electric Power Systems Communications – Distributed Network
Protocol (DNP3).
IEEE Std 1815-2010, pages 1-775. [Dnp 2012] (2012). IEEE Standard for Electric Power
Systems Communications Distributed Network Protocol (DNP3). IEEE Std 1815-2012 (Revision
of IEEE Std 1815-2010), pages 1-821.
[Mod 2012] (2012). Modbus Organization. Modbus Application Protocol Specification v. 1.1b3.
Disponível em: <www.modbus.org>. Acesso em: jul. 2019.

capítulo 2 • 52
3
Células a
combustível
Células a combustível
Um novo conceito tecnológico de geração de energia surgiu nos últimos anos.
As palavras “células a combustível” (no Brasil também chamadas de células de
energia) começam a ser pronunciadas com maior frequência, embora esta tecnolo-
gia ainda não esteja bem estabelecida e tampouco já tenha um mercado garantido.
Para o leigo, estas células estão relacionadas com eletroquímica e servem para
produzir eletricidade de uma maneira mais ecológica e eficiente, praticamente
sem emissão de qualquer substância tóxica. No entanto, o conceito de células a
combustível é bem mais abrangente. Este capítulo tem o objetivo de apresentar
uma visão moderna destes conceitos, além de comentar o estado da arte dessa tec-
nologia e sua importância no cenário de energias alternativas. Outro objetivo, não
menos importante, é apresentar um breve panorama dessa tecnologia no Brasil.
Além disso, esse capítulo tratará das questões relacionadas a células a com-
bustível bem como o esquema de funcionamento e suas principais tecnologias:
membrana de troca de prótons, alcalina, ácido fosfórico, óxido sólido, carbonato
fundido, metanol direto etc.
A ampliação das questões relacionadas a células de combustíveis, tratando de
forma bem específica o hidrogênio como fonte e modelo energético também serão
abordadas, apresentando os benefícios em sua implantação e, da mesma forma,
os desafios no cenário brasileiro para que se possa ter um modelo eficiente em
condições sustentáveis.

OBJETIVOS
•  Apresentar as principais definições de células a combustível;
•  Conhecer os avanços tecnológicos deste processo, incluindo os seus aspectos históricos;
•  Entender os princípios de funcionamento e os tipos de células a combustível;
•  Exemplificar os principais processos existentes no mercado mundial e brasileiro, bem
como os desafios para a melhoria energética;
•  Conhecer as características do hidrogênio como fonte energética.

Princípio de funcionamento e tipos de células a combustível


Como é mostrado no esquema simplificado da figura 1, células a combustível
são, em princípio, baterias de funcionamento contínuo, e que produzem corrente

capítulo 3 • 54
contínua pela combustão eletroquímica a frio de um combustível gasoso, geral-
mente hidrogênio. Assim, o hidrogênio é oxidado a prótons num eletrodo de
difusão gasosa, liberando elétrons, segundo a reação:

H2 2 H+ + 2 e– (1)

No eletrodo oposto, também de difusão gasosa, considerando-se as células


como a membrana trocadora de prótons (meio ácido), tem-se a reação:

2 H+ + 2 e– + 1/2 O2  H2O (2)

e– e–

H+
H2 O2
ÂNODO ELETRÓLITO CÁTODO

CALOR H2O

Figura 3.1  –  Reação química em célula de combustível. Raistrick et al., 1986.

A reação global, que é acompanhada de liberação de calor, pode ser escrita da


seguinte forma:

H2 + 1/2 O2  H2O (3)

Eletrodos de difusão gasosa são condutores eletrônicos permeáveis aos gases


reagentes e são separados um do outro por um eletrólito (condutor iônico), de
modo que os gases não se misturem. O eletrólito pode ser um líquido, um po-
límero condutor de cátions, saturado com um líquido, ou um sólido (óxido de
zircônio). Obtêm-se potenciais de trabalho de célula para o sistema hidrogênio/
oxigênio entre 0,5 e 0,7 V. Potenciais de circuito aberto ficam entre 1,1 e 1,2 V.
Devido à sua alta reatividade, hidrogênio é, hoje em dia, a escolha mais apropriada
para o combustível. Geralmente, classifica-se os vários tipos de células a combustí-
vel pelo tipo de eletrólito utilizado e pela temperatura de operação.

capítulo 3 • 55
A seguir, na tabela 3.1 é apresentada a tabela das principais características das
células a combustível.

EFICIÊNCIA
CÉLULA (TIPO) ELETRÓLITO T (°C) TÍPICA (%)
PAFC (ÁCIDO Ácido ortofosfórico 180 – 210 42 – 47
FOSFÓRICO
PEMFC Ácido Sulfônico em
(MEMBRANA polímero
60 – 110 40 – 45
POLIMÉRICA)
MCFC Mistura de
(CARBONATO carbonatos de lítio 630 – 650 55 – 60
e potássio
FUNDIDO)
Zircônio
SOFC (ÓXIDO estabilizada com 900 – 1000 40 – 45
SÓLIDO) ytria

Tabela 3.1  –  Principais células a combustível. Raistrick et al., 1986.

Atualmente, as células do tipo alcalina AFC (Alkaline Fuel Cell) têm um papel
importante somente em viagens espaciais, não apresentando aplicação terrestre,
devido ao fato de utilizarem somente hidrogênio e oxigênio ultrapuros. Além dis-
so, funcionam a uma baixa temperatura de operação e necessitam de um processo
relativamente complicado para a remoção da água do eletrólito. Entretanto, esse
tipo de célula foi o precursor das células mais modernas. Atualmente, o desenvol-
vimento de células procura a não dependência delas de gases puros para o combus-
tível, mas sim de, por exemplo, gás natural ou mesmo metanol. Por sua vez, para
o agente oxidante, o uso de ar atmosférico é preferível a oxigênio puro.

As reações anódicas e catódicas

As reações anódicas e catódicas representam, de uma maneira geral, a ruptura


das ligações químicas entre dois átomos de hidrogênio e de oxigênio respectiva-
mente. A ruptura das moléculas diatômicas H2 e O2 requer uma energia de ativa-
ção da mesma ordem de grandeza de suas energias de formação, quando as reações
são homogêneas e ocorrem em fase gasosa.

capítulo 3 • 56
Em células a combustível, entretanto, ambas as reações são heterogêneas e
ocorrem na interface eletrodo/eletrólito, sendo catalisadas na superfície do eletro-
do. Devido a esse fato, utiliza-se, nas células de baixa temperatura de operação,
platina como catalisador tanto na reação anódica como na catódica. A platina é
dispersa, aleatoriamente, em partículas nanométricas na superfície interna de car-
vão ativo. O efeito catalítico no ânodo resume-se na ruptura por adsorção química
da molécula de H2, enquanto no cátodo somente no enfraquecimento da ligação
oxigênio/oxigênio, também por adsorção química da molécula de O2.

Eletrodos de difusão gasosa, unidades matriz/eletrodo e empilhamento de células

Eletrodos de difusão gasosa são uma estrutura porosa condutora de elétrons


do sistema eletrodo/eletrocatalisador. A construção desse eletrodo tem como fun-
ção a maximização da interface trifásica gás-líquido-sólido, aumentando conside-
ravelmente a velocidade dos processos eletródicos. Os eletrodos de difusão gasosa
devem satisfazer no mínimo duas exigências importantes:
•  Devem ter alta atividade catalítica, a fim de se obter altas densidades de
corrente.
•  Os poros, durante a operação do eletrodo, não podem apresentar forças
capilares muito fortes, para não sugar todo o eletrólito, e a pressão do gás não deve
ser muito alta, para que o eletrólito não seja totalmente expulso dos poros. Nestes
dois extremos, o eletrodo torna-se ineficiente.

A superfície interna dos poros do eletrodo é contatada por um filme delgado


do eletrólito, de modo que os poros relativamente grandes (diâmetros entre 0,1 a
1µm) fiquem livres para a circulação/difusão dos gases de trabalho. Os eletrodos
de difusão gasosa são extremamente delgados, podendo ter, por exemplo, espessu-
ras de 0,1 mm em células de baixa temperatura de operação ou 0,5 mm em células
de alta temperatura de operação.
Em células de baixa temperatura de operação, as partículas do eletrocatalisador
estão numa faixa de distribuição de tamanho nanométrica, dispersas, geralmente,
em partículas de carvão ativo de diâmetros entre 30 e 100 nm. Em células de alta
temperatura de operação as partículas do eletrocatalisador (do próprio eletrodo)
são da mesma ordem de grandeza ou maiores que as partículas de carvão ativo.
A fabricação destes eletrodos tem base, na maioria dos casos, na fabricação
de filmes precursores, que são obtidos a partir de uma pasta, como nos processos

capítulo 3 • 57
cerâmicos tradicionais (doctor-blade). Esta pasta contém, além do catalisador, um
formador de poros e um ligante orgânico apropriado, por exemplo, um álcool
polivinílico. O ligante dá sustentação intermediária ao filme, sendo mais tarde
evaporado por aquecimento.
Para a fabricação de eletrodos de difusão gasosa para células à membrana, de-
ve-se antes contatar o catalisador com uma solução do eletrólito (Nafion). Quando
o eletrólito está na forma líquida, como é o caso das células a ácido fosfórico e a
carbonato fundido, não se pode, obviamente, formar um filme sólido portátil.
Nesse caso, o eletrólito é sugado por uma matriz porosa fixada entre os eletrodos.
Nas células a ácido fosfórico, utiliza-se carbeto de silício, com diâmetro médio de
0,1 µm, como material para esta matriz. Nas células a carbonato fundido utiliza-se
uma matriz de partículas de LiAℓO2.
Após a montagem da unidade eletrodo/matriz na célula PEM, processa-se a
retirada do ligante orgânico polimérico da matriz, por aquecimento. Este processo
tem como efeito a fixação dos eletrodos e da matriz na célula. No caso das células a
carbonato, introduz-se o eletrólito também na forma de um filme, composto pela
mistura de carbonato de lítio e potássio, que é posteriormente fundido.
Nos outros tipos, após a introdução do eletrólito, procede-se a configuração
final da célula. Células unitárias apresentam um potencial aberto de 1 a 1,2 V e
liberam, sob solicitação de 0,5 a 0,7 V DC. Esses valores são, sob o ponto de vista
prático, muito baixos. A necessidade de empilhamento em série de várias unida-
des de células (200 a 300), torna-se óbvia, a fim de se obter potenciais práticos da
ordem de 150 a 200 V.

A eficiência das células a combustível

O princípio das células a combustível foi descoberto por Sir Grove (figura
3.2) já em 1835. No final do século passado, Wilhelm Ostwald e Walther Nernst
demonstraram a vantagem da combustão eletroquímica a frio em relação a produ-
ção de eletricidade pela máquina de calor/mecânica, que funciona sob o princípio
de Carnot.

capítulo 3 • 58
Figura 3.2  –  Sir Grove, descobridor do princípio das células a combustível. Appleby, 1987.

A eficiência teórica η de qualquer processo de produção de energia eletroquí-


mica é obtida pelo quociente:

η= ∆G/∆H (4)

A eficiência teórica eletroquímica diminui de 86 a 70% na faixa de tempera-


turas de 100 a 1000 ºC. A eficiência de Carnot, por sua vez, eleva-se de 0 a 70%
na mesma faixa e somente a temperaturas superiores a 1000 ºC é maior que a efi-
ciência teórica eletroquímica. Portanto, células a combustível a hidrogênio apre-
sentam uma eficiência teórica significativamente maior que máquinas de Carnot,
principalmente a baixas temperaturas como mostra a figura 3.3.
100
CH4 + 2 O2 = CO2 + 2 H2O g

R (%) H2 + 1/2 O2 = H2O g

50
Carnot

0
200 400 600 800 1000
Temperatura (°C)

Figura 3.3  –  Eficiência de Carnot. Kordesch, 1996.

capítulo 3 • 59
A célula a ácido fosfórico

Ostwald e Nernst não conseguiram, na virada do século, uma aplicação prá-


tica para o princípio das células a combustível, principalmente porque, naquela
época, os principais problemas de materiais ainda não tinham sido solucionados
ou até mesmo não tinham sido equacionados. A primeira célula a combustível
funcional somente foi construída na década de 1930, por Bacon, que operava a
200 ºC, sob pressão, utilizando eletrólito alcalino.
Nos anos 1950, Broers e Ketelaar, na Holanda, realizaram experimentos com
células a carbonato fundido. Mais tarde, Broers desenvolveu, na NASA norte-a-
mericana, a primeira célula a membrana polimérica, que, entretanto, devido à
instabilidade da membrana, não correspondeu às expectativas. Logo após, foram
desenvolvidas as células alcalinas para o programa espacial norte-americano. Estas
células são, entretanto, demasiadamente custosas, não sendo viável a utilização
para aplicações terrestres. Somente no final dos anos 1960 teve início o desenvol-
vimento das células a ácido fosfórico, PAFC (Phosphoric Acid Fuel Cell), pela firma
United Technology Corporation, fato que representou um significativo progresso
tecnológico.
Estes tipos de célula, ao contrário das células alcalinas, não são sensíveis ao
dióxido de carbono do ar e mesmo pouco sensíveis ao monóxido de carbono, que
envenena o catalisador, permitindo um teor de até 1% de CO no gás de alimen-
tação anódico a 200 ºC. O desenvolvimento destas células tinha, desde o início, o
objetivo de conquistar o importante mercado das usinas queimadoras de metano.
Nos anos 1980, foi realizada, nos Estados Unidos, a primeira tentativa de
campo com um sistema de 40 unidades de células a ácido fosfórico, alimentadas
com gás natural, com uma potência elétrica de 40 kW. Uma condição importante
para este experimento foi a miniaturização da tecnologia de reforma e conversão
do gás natural, reações (5) e (6).

CH4 + H2O  CO + 3 H2 (5)


CO + H2O  CO2 + H2 (6)

Enquanto um processo de reforma industrial consome 30.000 m3/h de gás


natural, uma bateria de células a combustível de 200 kW, com uma eficiência total
de 40%, consome apenas 50 m3/h do mesmo combustível. Uma instalação de
células a combustível, para o consumo de gás natural, é composta de um sistema

capítulo 3 • 60
de processamento químico (reforma) do gás natural, em que o metano é conver-
tido numa mistura de gases, chamada de gases de síntese, contendo hidrogênio
e dióxido de carbono na proporção de aproximadamente 4:1, com muito pouco
monóxido de carbono.

Células de alta temperatura de operação

As células de alta temperatura de operação são classificadas em dois tipos:


MCFC (Molten Carbonate Fuel Cell) e SOFC (Solid Oxide Fuel Cell). Estas células
apresentam algumas vantagens em relação a outros tipos de células combustíveis,
como facilidade de gerenciamento do eletrólito (SOFC) e a não necessidade do
uso de metais nobres como catalisadores. Também têm maiores valores de eficiên-
cia teórica de conversão e alta capacidade de coprodução eletricidade/calor.
A elevada temperatura de operação favorece a cinética das reações eletródicas
e permite a reforma do combustível (ex.: hidrocarbonetos ou gás natural) no pró-
prio corpo da célula. Então, sistemas energéticos com base em células combustí-
veis cerâmicas (SOFC) podem, potencialmente, ser de operação simples e mais
eficientes que os demais.
Deve-se ainda salientar outra característica importante destas células, que é o
fato de que todos os seus componentes são sólidos, podendo-se utilizar processos
de fabricação em camadas finas e compactas, com configurações flexíveis, aumen-
tando desta forma a performance deste tipo de célula em particular.
Tecnologicamente, a utilização da concepção destas células encontra algumas
limitações quanto à seleção e processamento dos materiais envolvidos. Este fato
deve-se, principalmente, às altas temperaturas utilizadas, que favorecem proces-
sos de corrosão, tensões térmicas, fadiga dos distintos componentes, entre ou-
tros. Estes aspectos têm motivado incessantes esforços por parte da comunidade
científica no sentido de se estudar e desenvolver materiais e processos que possam
atender a especificações para esta aplicação As etapas envolvidas para a célula tipo
SOFC são:

CO + H2O  CO2 + H2 (no ânodo) (7)


O2 + H2  H2O + 2 e– (na interface ânodo/eletrólito) (8)
O2 + 4 e–  2 O2 (no cátodo) (9)
H2 + 1/2 O2  H2O + CO + 1/2 O2  CO2 (total) (10)

capítulo 3 • 61
A empresa alemã MTU, de Friedrichshafen, desenvolveu, recentemente, uma
célula a carbonato fundido (MCFC) de 300 kW de potência elétrica, onde por
simplificações radicais da engenharia e tecnologia da unidade, pôde-se reduzir
drasticamente os custos globais, eliminando-se a necessidade do custoso trocador
de calor de alta temperatura. A reforma endotérmica do gás natural é realizada
na própria coluna de unidades de células, eliminando-se o caro reformador e, ao
mesmo tempo, resfriando as células.
Em Santa Clara, nos Estados Unidos, foi construído um conjunto de unida-
des de células MCFC, de 2 MW de potência. Este programa foi muito impor-
tante sob o ponto de vista tecnológico, mas sem resultados comerciais. Também
recentemente foram desenvolvidas pequenas instalações de células cerâmicas do
tipo HEXIS (Heat Exchange Solid Oxide Fuel Cell), de apenas 10 kW de potência
elétrica, para o aquecimento e fornecimento de energia doméstica. Estas unidades
apresentam configuração cilíndrica.

A célula à membrana polimérica

Células de baixa temperatura de operação, que utilizam uma membrana poli-


mérica como eletrólito, também chamadas PEMFC (Proton Exchange Membran
Fuel Cell), são as mais promissoras como alternativa para motores a combustão,
por ser robustas e de fácil acionamento e desligamento, além das vantagens ine-
rentes como alta eficiência com baixa emissão de poluentes. Devido à baixa tem-
peratura de operação, e, mesmo utilizando-se ar como alimentação do cátodo,
tem-se emissão zero para Nox. As células de baixa temperatura também se aplicam
a unidades estacionárias. Atualmente, o fator determinante para a sua entrada no
mercado é, ainda, o seu custo. As células que utilizam membrana polimérica como
eletrólito são conhecidas desde os tempos iniciais das pesquisas espaciais.
Entretanto, somente com a introdução da membrana de Nafion, mais resis-
tente quimicamente, obteve-se sucesso em relação ao desempenho a longo prazo.
Esta membrana de ionômero perfluorado foi desenvolvida inicialmente para a
eletrólise cloro/soda e é composta por um polímero perfluorado de tetrafluor-
polietileno, em que, num de seus lados, um éter faz a ligação com um ácido etil
sulfônico perfluorado (grupo ionogênico).
As pontas das cadeias, nas quais se encontram os grupos sulfônicos, formam
uma espécie de bolha na estrutura, que se incha, em contato com a água ou va-
por-d’água. Estas bolhas, que são interligadas, são responsáveis pela condução de

capítulo 3 • 62
prótons e água pela membrana, sob o efeito de um campo elétrico. Esta estrutura
consiste, entretanto, em um filme relativamente rígido e estável mecanicamente.
Os eletrodos das células de primeira geração constituíam-se de platina fina-
mente dispersa. Esse eletrodo era produzido por um processo de difusão/preci-
pitação muito dispendioso, no qual um agente redutor (hidrazina) difundia-se
em contracorrente com uma solução hexacloroplatinada (ex.: Na2PtCℓ6), provo-
cando, sob controle da velocidade de difusão, a precipitação da platina finamen-
te dividida sobre a superfície da membrana. Esta platina era, então, fortalecida
eletroquimicamente. A carga de platina destas células era muito alta, de alguns
miligramas por centímetro quadrado.
O uso comercial deste tipo de célula era inimaginável. A mudança de cenário
veio com a utilização de carvão ativo, ativado com platina como eletrocatalisador.
Seguindo-se a ideia de Raistrick, Gottesfeldpôde-se mostrar, no início dos anos
1990, que se podia utilizar, mais eficientemente, a superfície da platina sobre car-
vão ativo, como eletrocatalisador, quando se contata (molha) a superfície interna
do carvão ativo com o ionômero da membrana, possibilitando que se utilizem so-
luções de Nafion (exemplo: um álcool isopropílico), para embeber o carvão ativo,
que contém a platina.
Após a evaporação do solvente, a superfície interna do carvão ativo, que tam-
bém contém nanocristais de platina, fica em contato com o eletrólito (Nafion) e
pode, então, ser aproveitada como catalisador, já que os gases reagentes se dissol-
vem em Nafion e, por difusão, alcançam os cristais de platina.

Tecnologia de células a combustível

O desenvolvimento da tecnologia de células a combustível tem revezado, nos


últimos 30 anos, alguns momentos de euforia e de decepção. Frequentemente,
falou-se da sua total inviabilidade como há 15 anos, pela indústria alemã. Muito
dinheiro já foi gasto neste desenvolvimento – no mínimo US$ 1 bilhão – e o que
se obteve disso tudo? Pode-se, claro, empregá-la nas naves espaciais, com um alto
padrão técnico e alta confiabilidade, mas esta tecnologia faz uso das células alcali-
nas, que não têm futuro para aplicações terrestres.
Como tecnologia já estabelecida e apresentável, pode-se citar os sistemas a áci-
do fosfórico da empresa ONSI. Entretanto, pode-se falar de um sucesso econômi-
co real somente quando outros concorrentes oferecerem sistemas semelhantes no
mercado. As perspectivas das células de alta temperatura de operação certamente

capítulo 3 • 63
não são ruins, mas ainda não existe nenhuma oferta deste tipo de sistema no
mercado.
A tecnologia de células à membrana deve ser analisada de um modo bem dife-
rente. O seu mercado principal é o dos veículos elétricos não poluentes e não o da
geração de eletricidade/calor em unidades estacionárias de grande/médio portes.
Para este fim, ainda é necessário um desenvolvimento adicional. O fato de que
uma importante montadora automobilística tem equipado não só ônibus, mas
também carros de passeio com células tipo PEMFC e, muito além disso, tem uma
meta já anunciada de que em 8 anos, cerca de 2% de sua produção serão veícu-
los movidos a PEMFC, o que não nos permite duvidar do futuro e do mercado
de tecnologia.

Células a combustível no Brasil

Desde o final da década de 1970 vêm sendo realizadas algumas atividades na


área de células à combustível no Brasil. Várias instituições, como a Universidade
Federal do Ceará; a Universidade Federal do Rio de Janeiro; o Instituto de Pesquisas
Tecnológicas (IPT) de São Paulo e o grupo de Eletroquímica de São Carlos (USP),
já se dedicaram ao estudo direta ou indiretamente deste tipo de tecnologia. Destes
grupos todos, salienta-se o grupo de eletroquímica de São Carlos (USP), que de-
senvolve, com sucesso, desde 1981, com um corpo de pesquisadores permanente,
componentes e protótipos de células a combustível.
Mais recentemente, em meados de 1998 iniciou-se no IPEN/CNEN-SP um
projeto institucional de caráter acadêmico e tecnológico em células combustí-
veis, segmentado em dois grupos: PEMFC, com a colaboração da Universidade
Técnica de Darmstadt, Alemanha e SOFC, adequado ao perfil do Departamento
de Engenharia e Ciência dos Materiais deste instituto, com colaboração prevista
com o Riso National Laboratory, em Roskilde, Dinamarca. O enfoque inicial do
grupo de estudos das células à membrana será a utilização de outro álcool além do
metanol, por exemplo, o etanol, que também é um combustível líquido de fácil
obtenção e baixo custo relativo.
O etanol tornou-se, particularmente atrativo como combustível alternativo
para um país como o Brasil, que já apresenta tecnologia para a sua produção
e uma infraestrutura bem estabelecidas, voltadas à indústria automobilística. A
introdução da então chamada DEFC (Direct Ethanol Fuel Cell) para aplicação
automotiva poderia ser imediata, sem grandes modificações na infraestrutura já

capítulo 3 • 64
existente. Deve-se considerar ainda o caráter de fonte de energia renovável ofere-
cida pela obtenção de etanol em grandes quantidades a partir da fermentação da
cana-de-açúcar, de fácil cultivo em nosso país.
Entretanto, existem ainda muitos desafios nesta área de aplicação. Para obter
eficiências significativas com este combustível, neste tipo de sistema, deve-se ope-
rar a célula a temperaturas mais elevadas, como já exposto neste artigo.
Enquanto não houver a disponibilidade de um novo material polimérico com
todas as características necessárias, pode-se, realizar, por tempo de operação limi-
tado, estudos eletrocatalíticos com polímeros que têm uma boa condutividade
iônica a 200 ºC, como solução transitória. Um eletrólito polimérico, deste tipo,
foi sugerido por Savinell e colaboradores para aplicações em DMFC, o polibenzi-
midazol, dopado com ácido (PBI).
Trabalhos recentes destes autores investigaram, nos Estados Unidos, a oxida-
ção direta de álcoois, em células que utilizam membranas de PBI, dopadas com
H3PO4, como eletrólito. Sugere-se, então, o seguinte processo de oxidação envol-
vendo dois elétrons, com a formação de acetaldeído:

CH3CH2OH  CH3CHO + 2 H+ 2 e– (11)

O acetaldeído dietilacetal pode ser formado por catálise ácida segundo a


reação:

CH3CHO + 2 CH3CH2OH 

  CH3CH(OCH2CH3)2 + H2O (12)

Na presença de água a reação (12) é deslocada fortemente para a esquerda,


observando-se apenas traços de acetaldeído dietilacetal, para uma alimentação no
ânodo contendo água. A distribuição relativa de CO2 é muito baixa comparada
à oxidação do metanol (90 a 100%). A reação global para a oxidação do etanol a
CO2 pode ser assim formulada:

CH3CH2OH + 3 H2O  2 CO2 + 12 H+ + 12 e– (13)

A água fornece, então, o oxigênio necessário para a reação (13) ocorrer.


Comparando-se a porcentagem de CO2 produzida pela oxidação de metanol com
a de etanol, conclui-se que a quebra de uma ligação C–C no caso do etanol desem-
penha um papel importante na formação de CO2. Para uma máxima utilização
do combustível, deseja-se uma oxidação total do etanol a CO2, entretanto, sob o

capítulo 3 • 65
ponto de vista ambiental, a formação de etanol é preferível, já que, comparado
ao CO2 e ao formaldeído, é significativamente menos tóxico, além de não se acu-
mular nem em espécies vivas nem no meio ambiente, pois é passível de degrada-
ção biológica.
Entretanto, antes da utilização de etanol como um combustível alternativo
tornar-se praticável, deve-se aumentar consideravelmente o rendimento de CO2,
durante a oxidação direta do etanol, para se elevar a eficiência da conversão de
energia química em elétrica neste tipo de célula à combustível. O caminho mais
adequado a se seguir, tendo-se em vista este objetivo, é a investigação de novos
eletrocatalisadores mais seletivos para este sistema. A opção de utilização indireta
de etanol para a produção de hidrogênio pode ser também considerada, numa
etapa posterior do projeto. Como ponto de partida tem-se a reação inversa, ou
seja, partir da reação catalítica de formação de etanol:

2 CO + 4 H2 

  CH3CH2OH + H2O (14)

Seguida da reação de conversão de deslocamento:

CO + H2O 

  H2 + CO2 (15)

Além disso, deve-se adicionar uma etapa de oxidação catalítica do CO não


reagido, a fim de se reduzir sua concentração a valores menores de 100 ppm. Todas
estas etapas químicas devem ser processadas cataliticamente, mas deve-se levar em
consideração que, tanto as condições de processo para a reação inversa, como os
catalisadores de escolha não devem ser necessariamente os mesmos da reação de
síntese de etanol.

Hidrogênio como combustível

O sistema de conversão da energia elétrica utilizado pelas pilhas a combustível


opera em eletrólise reversa, combinando átomos de hidrogênio a átomos de oxigê-
nio, formando água neste processo. Esta característica permite a utilização de uma
vasta série de espécies químicas compostas predominantemente por hidrogênio, a
exemplo do gás hidrogênio, passando por hidrocarbonetos de origem mineral, ga-
solina, por exemplo, até hidrocarbonetos de origem vegetal, a exemplo do etanol,
o nosso conhecido álcool anidro.

capítulo 3 • 66
Muitas substâncias se mostram ativas para atuar como combustível em célula
à combustível, dentre eles se destacam: hidrogênio, metanol, hidrazina, etanol,
hidrocarbonetos de baixo peso molecular, dentre outras.
O hidrogênio é o elemento químico mais abundante do universo, o de menor
densidade e, em seu isótopo mais comum, tem um próton e um elétron e há au-
sência de nêutron. Esta característica o faz único. Ele se estabiliza de duas formas:
•  Compartilhando um elétron, por intermédio de ligação molecular, com ou-
tro elemento da família ou grupo dos não metais.
•  Recebendo um elétron por intermédio de ligação iônica com um elemento
da família ou grupo dos metais. A ligação com oxigênio é da primeira forma.

O hidrogênio puro é o combustível ideal para alimentar as células a com-


bustível, mas seu uso ainda não é favorável devido ao custo de sua obtenção e,
principalmente, devido às dificuldades em armazenar, transportar e manusear esta
substância. Mesmo em sua forma líquida ou combinado na forma de hidreto me-
tálico, há uma justificável preocupação que impõe severas exigências de segurança.
Como alternativa estuda-se, por exemplo, a reforma de metanol ou etanol.
Nesta tecnologia, o hidrogênio é separado da molécula do álcool no momento
que será utilizado na célula. Esta tecnologia apresenta algumas vantagens quan-
do comparada à utilização do hidrogênio puro. Além do seu custo mais baixo,
ela é a mais compatível com a atual infraestrutura instalada de distribuição de
combustíveis. Essa classe de PEMFC’s é denominada de DEFC (do inglês, Direct
Ethanol Fuel Cells), que apesar de ser considerada uma tecnologia promissora para
aplicações veiculares e portáteis, ainda apresenta um grande desafio tecnológico
para alcançar os níveis de corrente elétrica e potência atingidos pelas células que
consomem o hidrogênio puro.
Há grande interesse em desenvolver pilhas a combustível, utilizando hidrogê-
nio puro como combustível:
•  Evita-se a contaminação dos eletrodos em reações adversas.
•  Reduz-se o número de componentes do sistema.
•  Aumenta-se o rendimento do sistema em virtude da maior densidade
do hidrogênio.

O hidrogênio é fornecido no lado do ânodo. Esta espécie química não é en-


contrada no meio ambiente sem estar combinada com outro elemento. Por isso,
é necessário o separar e, algumas vezes, armazenar e transportar para ser utilizado

capítulo 3 • 67
como combustível (evidentemente, estas etapas consomem energia e, em maior
ou menor grau, causam impacto ambiental). Há vários processos consolidados
(e em desenvolvimento) para este fim. Eletrólise da água, reforma de  hidrocar-
bonetos ou de álcoois, gaseificação de biomassa, dentre outros, são exemplos de
processos para obtenção deste insumo.

O hidrogênio

O hidrogênio é um elemento químico identificável em abundância na na-


tureza, só que não é encontrado em sua forma pura. Ele está presente em vários
hidrocarbonetos que compõem combustíveis e em substâncias simples como a
água (H2O). Portanto, o H2 utilizado para a produção de energia vem de uma série
de espécies químicas que tem em sua composição predominância de hidrogênio.
Com isso, torna-se necessário a aplicação de alguns processos para a separação do
hidrogênio dos outros elementos ligados a ele.

– Electricity +
Difusion Layer

Reaction Layer

Reaction Layer

Difusion Layer
MEMBARNE

O2
CATHODE
ANODE

H2

H2O

Heat

Figura 3.4  –  Aula a combustível. Kordesch, 1996.

Um dos processos utilizados é chamado reforma a vapor que em altas tem-


peraturas, com a utilização de catalisadores, consegue-se separar o hidrogênio de
combustíveis como etanol e gás natural. Outro modo de separar o hidrogênio é
por eletrólise, em que se divide a molécula de água ao meio, separando o hidrogê-
nio e o oxigênio, por meio da passagem de uma corrente elétrica.

capítulo 3 • 68
Para produzir energia com base no hidrogênio, são utilizadas células a com-
bustível que combinam hidrogênio com oxigênio, em um processo eletroquímico.
Estas células requerem alimentação contínua de hidrogênio pelo ânodo e de oxi-
gênio pelo cátodo A conversão a partir da reação de átomos de hidrogênio com
átomos de oxigênio, formam eletricidade, calor e água. Sendo assim, o processo
de obtenção de energia por este meio não produz subprodutos nocivos à natureza.
As células a combustível são consideradas o melhor modo de aproveitamento da
conversão de H2 em energia.
Os tipos de células a combustível podem variar, mas elas funcionam com base
nos mesmos fundamentos. A temperatura de operação, o eletrólito e os catalisa-
dores utilizados, caracterizam os diferentes tipos de células a combustível. Existem
seis principais tipos de células: PEMFC (célula combustível de membrana troca-
dora de prótons), AFC (célula combustível alcalina), DMFC (célula combustível
de metanol direto), PAFC (célula combustível de ácido fosfórico), MCFC (célula
combustível de carbonato fundido) e SOFC (célula combustível de óxido sólido).

O eletrólito é um polímero, possui alta densidade de potência


PEMFC quando comparada a outras células, é aplicável em veículos
automotores.
Deve ser alimentada com hidrogênio puro, visto que
pequenas quantidades de CO2, se em contato com a
AFC membrana, pode trazer dados irreparáveis, tipo de célula
utilizada em espaçonaves.
Opera em temperatura considerada baixa, nesta célula,
DMFC o catalisador do ânodo, ele mesmo retira o hidrogênio do
metanol liquido, esse tipo é eficiente para aparelhos portáteis.
Não opera em temperatura elevada, o calor gerado pode ser
usado de forma associada a outro tipo de gerador, tem maior
PAFC desenvolvimento tecnológico e são utilizadas em unidades
estacionárias.
Opera com temperaturas em torno de 650 °C, tem uma boa
MCFC tolerância ao CO e CO2, e o calor gerado por esta célula
pode ser usado para outras finalidades.
Opera a temperaturas de aproximadamente 1000 °C, esta
SOFC célula pode ter formas variadas, tem uma cinética favorável,
é empregada na cogeração de eletricidade.

capítulo 3 • 69
A figura 3.5 apresenta os principais tipos de células abordados.

H2 H2 50 –
DMFC H2O H+ H2O
FUEL CELL 120 °C

H2
PELL H2 H+ 80 °C
H2O

H2 90 –
FUEL CELL AFC OH– O2
H2O 120 °C

O2 150 –
PAFC H2 H+
FUEL CELL H2O 250 °C

H2 O2 680 –
MCFC H2O CO3–2 CO2
FUEL CELL 700 °C

H2 700 –
SOFC O2 O2
FUEL CELL H2O 1300 °C

FUEL OXYGEN

ELECTROLYTE
ANODE CATHODE

Figura 3.5  –  Principais tipos de células a combustível. Raistrick, 1986.

No mundo, células a combustível estão sendo utilizadas em vários meios


de transporte que antes usavam combustíveis fósseis como fonte de energia. No
Brasil, a primeira frota de ônibus movido a hidrogênio foi entregue em São Paulo.
Essa foi a primeira cidade brasileira a empregar a tecnologia em transporte pú-
blico. Em países como Alemanha, Canadá e os Estados Unidos, também já estão
circulando pelas ruas transportes coletivos que utilizam o hidrogênio como com-
bustível. Esses ônibus são livres de emissão de poluentes, pois produzem ape-
nas vapor-d’água. O projeto dos ônibus, na cidade de São Paulo, teve direção do
Ministério de Minas e Energia (MME) e obteve recursos do Fundo Global para o
Meio Ambiente (GEF) e da Agência Brasileira de Inovação (Finep).
No Brasil, a matriz energética é bem diversificada, mas a médio e longo prazo,
o consumo de energia aumentará com a demanda maior de alguns setores. Assim

capítulo 3 • 70
sendo, a consolidação da economia do hidrogênio no sistema energético brasileiro
de forma gradual é necessária. O Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares
(IPEN) tem desenvolvido muitas pesquisas sobre células à combustível, visando a
um crescimento nacional dessa área.
O Centro de Células a Combustível e Hidrogênio (CCH) realiza pesquisas
com diferentes tipos de células e faz estudos de confiabilidade de componentes e
módulos. Algumas pesquisas estão relacionadas ao desenvolvimento de catalisado-
res nanoestruturados, catalisadores para a reforma de etanol e de outras biomas-
sas, e no aperfeiçoamento de materiais componentes para fabricação de células a
combustível específicas.

Luz Solar
O2 Hidrólise

H2

H2O

Células de combus�vel Armazenamento


Hidrogênio do Hidrogênio

Figura 3.6  –  Ciclo de produção e consumo de energia em


células a combustível. Courtesy Associates Inc., 2006.

A geração de energia com base no hidrogênio apresenta inúmeras vantagens


como uma energia limpa e que não traz impactos ao meio ambiente. Cada vez
mais as células de combustível estarão presentes em setores automotivos, eletrôni-
cos portáteis e em unidades estacionárias de geração de energia.
Um dos grandes problemas da obtenção de energia com base no hidrogênio
é que para a implementação desta tecnologia se tem um custo elevado. O alto
custo dos projetos ainda não confere ao hidrogênio um caráter de competitivida-
de no mercado quando comparado às formas de geração de energia mais usadas.
Os avanços tecnológicos provavelmente desenvolverão meios em que a energia
produzida com base no hidrogênio poderá ser utilizada em larga escala, fazendo
com que a população tenha acesso a uma fonte de energia abundante, renovável
e não poluente.

capítulo 3 • 71
RESUMO
Nesse capítulo:
•  Você compreendeu os principais conceitos das células a combustível.
•  Entendeu os desafios da implantação para a melhoria energética das empresas.
•  Compreendeu o cenário nacional do Brasil e o potencial no sistema de cogeração de ener-
gia a partir destes princípios energéticos.
•  Conheceu os principais tipos de célula a combustível existentes no mercado.
•  Entendeu como se dá o processo químico para se gerar energia em uma célula a com-
bustível.

ATIVIDADES
01. Marque a seguir a única alternativa que não representa corretamente a contribuição das
células à combustível como modelo de melhoria energética.
a) No Brasil, as células a combustível terão grande importância na área automobilística
– tradicionalmente uma grande consumidora de combustíveis fósseis, e uma das res-
ponsáveis pela emissão de grandes quantidades de CO2, o vilão do efeito estufa que
ocasiona o aquecimento da atmosfera terrestre.
b) Na área de equipamentos eletrônicos, possibilitará que várias funções como vídeo, áu-
dio, armazenamento e transmissão de dados sem fio sejam agregadas num equipamen-
to apenas, devido à maior quantidade de energia e potência que as CaCs oferecem, além
de substituírem as baterias convencionais nocivas ao meio ambiente.
c) E na parte relacionada à geração de energia estacionária, também terá importância
fornecendo energia próxima aos locais de consumo como em residências, comércio e
indústrias, aliviando a sobrecarga nos grandes centros de produção de energia como as
grandes hidrelétricas e termelétricas, e desfazendo investimentos onerosos em linhas
de transmissão para atingir localidades remotas, como já é feito com as células solares.
d) Para que o desenvolvimento da tecnologia de células a combustível ocorra no Brasil, já
existe um programa dedicado às CaCs: o Programa Brasileiro de Sistemas de Células
a Combustível, lançado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). E para que a
construção e operação de CaCs ocorra no país, é necessária uma atuação conjunta e
articulada de diversos setores.
e) Todas as opções acima estão incorretas.

capítulo 3 • 72
02. Na corrida por novas fontes alternativas de energia, o hidrogênio é considerado o com-
bustível do futuro. Há quem diga que ele será o grande substituto do petróleo e que num
futuro próximo, a maioria dos carros vai circular com células de hidrogênio. Sua grande vanta-
gem, talvez, seja a facilidade de combinação com outras fontes, como hídrica, eólica e solar, o
que o torna um coringa no cenário energético. Apesar de tamanho potencial, ele ainda preci-
sa vencer alguns desafios para se tornar o “novo petróleo”. De acordo com esta constatação
energética, é correto afirmar que
a) o hidrogênio é o elemento mais abundante do universo e com grande potencial ener-
gético, além disso ele é encontrado na natureza de forma pura e isolada, exatamente
como o petróleo.
b) para extraí-lo, será necessária pouca quantidade de energia, logo, este contexto não
representa grande desafio energético.
c) não podemos afirmar que a necessidade de energia limpa e renovável cresce em todo o
mundo, com as fontes dividindo o protagonismo na geração.
d) verificamos, de acordo com o contexto estudado em relação ao hidrogênio que existe
uma única fonte de energia limpa capaz de dar conta sozinha da demanda. Logo, não
estamos mais dependentes da disponibilidade de fontes locais para compor a matriz
energética regional que, combinada ao hidrogênio, forma um diversificado leque de pro-
dução e armazenamento de energia mais limpa e eficiente.
e) para obter o hidrogênio isolado e transformá-lo em energia, ele passa por um conversor,
chamado de célula a combustível. 

03. Explique de forma breve as reações anódicas e catódicas em uma célula de combustível.

04. Como se dá o princípio de funcionamento de uma célula a combustível?

05. Quais vantagens apresentam as células a combustível de alta temperatura de operação?

06. Comente acerca de algumas vantagens e desvantagens obtidas com a geração de ener-
gia a base de hidrogênio.

07. Um dos tipos de células a combustível mais utilizada é o PEMFC (célula combustível de
membrana trocadora de prótons). Comente brevemente sobre sua aplicação.

capítulo 3 • 73
CONEXÃO
Consulte também as seguintes fontes como complementação ao conteúdo abordado
nesse capítulo:
<http://www.cogensp.com.br>
<http://www.eficiencia-energetica.com>
<http://www.aneel.gov.br/>

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
APPLEBY, A. J.; FOULKES, F. R. Fuel Cell Handbook. Ed. Van Nostrand Reinhold; New York: EUA,
1989.
APPLEBY, A. J. Fuel Cells: Trends in Research and Application. Ed. Hemisphere/Springer;
Washington, EUA, 1987.
Volumes da: Electrochemical Society; Proc. of the Carbonate Fuel Cells Technology.
Volumes dos Seminários bienais: Fuel Cell Seminars; Proc. Fuel Cell Seminar Orlando, Florida: USA,
1996; Courtesy Associates Inc.; Washington DC, EUA, 1996.
Volumes da: Electrochimica Acta; Fuel Cells, 1998, 43.
RAISTRICK et al.; Diaphagms, Separators and Ion Exchange Membranes. The Electrochemical
Society, Pennington, NJ, 1986, 172.
GOTTESFELD e colaboradores; J. Appl. Electrochem. 1992, 22.
KORDESCH, K.; SIMADER, G. Fuel Cell and their Application. Ed. VCH; Weinheim, Alemanha, 1996.

capítulo 3 • 74
4
Análise econômica
na eficiência
energética
Análise econômica na eficiência energética
A forma de analisar e executar um projeto pode variar, dependendo da combi-
nação de fatores como o ponto de vista de cada pessoa, o ambiente e as estratégias
de ação, pois cada circunstância gera um novo cenário para o mesmo. Em muitas
obras, projetos são considerados empreendimentos temporários realizados para
criar algo, como um produto ou serviço singular. No entanto, em projetos de
eficiência energética (EE), que têm seu planejamento e execução atribuídos a uma
análise de negócio, eles podem se transformar numa ferramenta estratégica, inter-
-relacionando o projeto, com as diferentes áreas da organização como marketing,
recursos humanos, segurança do trabalho, produção, manutenção, qualidade,
meio ambiente, financeiro etc.
Em geral, o desenvolvimento, a adaptação e a utilização de novas tecnologias, que
consomem menos recursos (insumos) e que tenham maior tempo de vida útil, podem
ser considerados projetos de EE. Esses projetos tendem a ajudar o negócio de uma or-
ganização na redução de emissão de CO2, ajudar na busca de novas estratégias, que se
tornem soluções para os desafios atuais, por exemplo, compor um portfólio ambiental,
independentemente do seu ramo de atuação. Deve-se trabalhar e inovar constante-
mente, criando as respostas sustentáveis, para os negócios e para o mundo de amanhã.
As instituições de ensino já têm consciência da necessidade de formar pro-
fissionais que tenham uma visão de sustentabilidade independentemente de seu
ramo de atuação. O desenvolvimento das visões sobre as vantagens competitivas
em analisar os recursos naturais, as fontes renováveis de energia e o potencial de
ganhos em EE, deve integrar a formação de profissionais que pretendem focar em
projetos de EE. No que tange às soluções, cabe à análise de negócios o auxílio para
que a organização defina a solução ideal para as suas demandas.
A solução ideal não consiste naquela que promete os melhores resultados, mas
sim, naquela que além de atender as demandas, considera todas as limitações sob
as quais a organização opera. Vamos então, nesse capítulo, procurar ampliar ainda
mais as oportunidades de beneficiar as estratégias do negócio, por meio da com-
preensão de que esses projetos não geram apenas payback, mas também diferentes
valores sociais, econômicos e ambientais. Eles trazem, ainda, rápidas alterações
relativas à cultura, alterações de estruturas, custos comparativos das tecnologias,
ambiente competitivo e na própria geração de produtos desejados pelos consumi-
dores, em função de sua concepção, do seu processo produtivo, de sua utilidade e
até mesmo no seu tipo de descarte.

capítulo 4 • 76
Segundo Poliquezi (2011) “Temos então através da EE, possibilidades para
resolver dois problemas ao mesmo tempo, que seriam o aumento da oferta de
energia sem utilizar para isso fontes poluentes, estimulando assim as energias re-
nováveis e as soluções de eficiência e ainda aumentar a competitividade do setor
produtivo em direção a segmentos e práticas de maior valor agregado, de menores
impactos ambientes e menores coeficientes de intensidade energética”.
As empresas não devem enxergar a EE apenas como uma ação para diminuir cus-
tos internos, por meio da redução do consumo de água, da energia elétrica e de outros
insumos, mas também ter consciência de que lhes cabe uma função, que ultrapassa
seus próprios muros e que chega às comunidades das regiões em que atuam. Assim
como devem pensar que este não é mais um assunto restrito a profissionais especiali-
zados em estudos sobre redução de contingenciamentos no suprimento de insumos.
O envolvimento de outros setores traz soluções originais e efetivas no desen-
volvimento do projeto e resultados inesperados para o negócio. O reposiciona-
mento estratégico diante de uma nova análise de negócio se torna imprescindível.
Estamos na era da criatividade, a era que privilegia o conhecimento. A criatividade
agrega valor ao conhecimento e o torna progressivamente mais útil. Como é dito
em diversos eventos do setor, a EE não é apenas um modismo de época, ela está
integrada na agenda de pequenas e médias empresas e de grandes corporações, é
discutida nas instituições de ensino e está na ordem do dia de entidades repre-
sentativas de classes e do setor industrial, de organizações governamentais e não
governamentais. Isto é, a EE é um tema importante e crescente da atualidade.

OBJETIVOS
•  Compreender a importância do planejamento estratégico por parte das organizações em
relação à eficiência energética;
•  Compreender a importância do mapeamento das diversas fontes energéticas para o Brasil
e para as empresas nos diversos segmentos econômicos;
•  Entender que as práticas sustentáveis, com bons projetos energéticos, poderão, de forma
considerável, garantir um resultado em todos os seus setores, especialmente no campo eco-
nômico/financeiro;
•  Entender que a diminuição dos combustíveis fósseis se deve atualmente pelo aprovei-
tamento da cana-de-açúcar, que já representa 16% da matriz, a segunda maior fonte de
energia. Outro diferencial da matriz energética brasileira é a segurança do sistema elétrico.

capítulo 4 • 77
Análises da eficiência energética

Empresas, independentemente de seu porte, que não fazem uma análise de


negócio em seus projetos de eficiência energética, estão perdendo grandes oportu-
nidades estratégicas de desenvolver outros valores, não apenas para o projeto, mas
também para as suas operações comerciais como um todo. Os efeitos positivos
causados por estes projetos atingem diferentes meios: econômicos, sociais, am-
bientais e competitivos. Esses efeitos potencializam a necessidade de execução do
projeto, que atraem interessados capazes de agregar valor ao desenvolvimento do
projeto e potenciais estratégicos ao negócio.

Projetos de eficiência energética

Projetos de eficiência energética focam na avaliação de viabilidade, análise


de riscos, importância da formação de equipe, comunicação, análise do custo de
energia e estratégias necessárias para o sucesso do projeto. Neste sentido, precisa-
mos entender quais são as análises necessárias para o gerenciamento de projetos
de EE adequadas aos processos produtivos e estratégicos da organização. É possí-
vel agregar diferencial competitivo, para destaque e reconhecimento da empresa?
Existem exemplos de projetos de EE, com aplicação de análise de negócios?
Projetos nascem com o objetivo de alcançar um resultado, seja mensurável ou
não. No gerenciamento de projetos de EE, é possível integrar uma análise mais
ampla para a verificação da possibilidade do sucesso. Além da adoção de técnicas
de viabilidade, é possível observar a necessidade da aplicação de métodos e crité-
rios que demonstrem que projetos de EE almejam mais do que retorno de investi-
mento. Eles agregam valor às estratégias dos negócios da organização.
O mercado de EE, no setor industrial e de grandes consumidores, apresenta-se
como alternativa de redução de custos aos empresários e lucratividade para investi-
dores. Após várias consequências decorrentes de problemas por fatores ambientais,
como o choque do petróleo na década de 1970, o “apagão” em 2001/2002 e a
pressão mundial por ações para a preservação do meio ambiente. O uso eficiente
de energias, em geral, tornou-se tema de discussões e estudos, buscando alter-
nativas que viabilizem uma economia de energia sem prejudicar a eficiência das
instalações industriais, comerciais e residenciais.
A energia é empregada intensamente de diversas formas na sociedade atual e
em tudo o que se faz. Surge então a necessidade de utilizá-la de modo inteligente

capítulo 4 • 78
e eficaz. Entre as suas diferentes formas, interessam em particular, aquelas que
são processadas pela sociedade e colocadas à disposição dos consumidores onde
e quando necessárias, e entre estas citamos a energia elétrica e os combustíveis.
Tendo em conta que o objetivo desse trabalho é abordar projetos de EE com uma
visão mais ampla voltada as estratégias de negócio, neste capítulo faremos uma
breve revisão de assuntos e parâmetros associados a ele, tais como, conceitos de EE
e análise de negócios, matriz energética brasileira, captação de recursos etc.
O Portal da Eficiência Energética (6/6/2012) descreve que toda a energia pas-
sa por um processo de transformação após o qual se transforma em calor, frio, luz
etc. Durante essa transformação, uma parte dessa energia é desperdiçada e a outra,
que chega ao consumidor, nem sempre é devidamente aproveitada.
A EE pressupõe a implementação de medidas para combater o desperdício
de energia ao longo do processo de transformação. A eficiência energética oferece
uma ferramenta poderosa e de custo eficaz para alcançar um futuro energético
sustentável. Melhorias na eficiência energética podem reduzir a necessidade de
investimentos em infraestrutura de energia, reduzir as contas de energia, melho-
rar a saúde, aumentar a competitividade e melhorar o bem-estar do consumi-
dor. Dentre as diversas formas de energia interessam, em particular, aquelas que
são processadas pela sociedade e colocadas à disposição dos consumidores onde e
quando necessárias, tais como: a eletricidade, a gasolina, o álcool, óleo diesel, gás
natural etc.
A energia é usada em aparelhos simples (lâmpadas e motores elétricos) ou em
sistemas mais complexos que encerram diversos outros equipamentos (geladeira,
automóvel ou uma fábrica). Estes equipamentos e sistemas transformam formas
de energia. Uma parte dela sempre é perdida para o meio ambiente durante esse
processo. Por exemplo: uma lâmpada transforma a eletricidade em luz e calor.
Como o objetivo da lâmpada é iluminar, uma medida da sua eficiência é obtida
dividindo a energia da luz pela energia elétrica usada pela lâmpada. Da mesma
forma, pode-se avaliar a eficiência de um automóvel dividindo a quantidade de
energia que o veículo proporciona com o seu deslocamento pela que estava conti-
da na gasolina originalmente.
Outra fonte de desperdício deriva do uso inadequado dos aparelhos e siste-
mas. Uma lâmpada acesa em uma sala sem ninguém também é um desperdício,
pois a luz não serve ao seu propósito de iluminação. Também um veículo parado
em um engarrafamento está usando mais energia do que a necessária por conta do
tempo que fica parado no congestionamento. Outros fatores mais sutis explicam

capítulo 4 • 79
muitos desperdícios. Um construtor barateia a construção não isolando o “boiler”
e os canos de água quente, pois quem pagará pelo desperdício será o consumidor.
Vale notar que esses efeitos se multiplicam à medida que a energia vai migrando
por todos os setores da economia.
A eficiência energética pressupõe a implementação de estratégias e medidas
para combater o desperdício de energia ao longo do processo de transformação:
desde que a energia é transformada e, mais tarde, quando é utilizada.

Redução Energias
da demanda renováveis
• Iluminação Natural • Geotérmica
• Orientação • Hidrelétrica
• Sombreamento • Solar Térmica
• Massa Térmica • Solar elétrica
• Ventilação Natural • Eólica
• Materiais • Biomassa
• Forma do Prédio
Projeto
Eficiência Tecnologias
da demanda Alternativas
• Aquecimento • Resfriamento
• Ventilação • Evaporativo
• Refrigeração • Chaminé térmica
• Consumo de água • Resfriamento
• Iluminação Artificial por tubulação
• Equipamentos elétricos subterrânea
• Torres de resfriamento
• Resfriamento noturno

Figura 4.1  –  Projeto com eficiência energética. Disponível


em: <www.ipen.br>. Acesso em: jul. 2019.

A eficiência energética acompanha todo o processo de produção, distribuição


e utilização da energia. Neste contexto, têm-se multiplicado as iniciativas para
a promoção da eficiência energética. Empresas, governos e ONGs por todo o
mundo têm investido fortemente na melhoria dos processos e na pesquisa de no-
vas tecnologias energéticas, mais eficientes e amigas do ambiente, bem como no
aproveitamento das energias renováveis.
A eficiência energética é frequentemente associada ao termo “utilização racio-
nal da energia” (URE), que pressupõe a adoção de medidas que permitem uma
melhor utilização da energia, tanto no setor doméstico, como no setor de servi-
ços e industrial. Segundo o Instituto Nacional de Eficiência Energética (INEE),
“qualquer atividade em uma sociedade moderna só é possível com o uso intensivo
de uma ou mais formas de energia”.

capítulo 4 • 80
Para a Associação Brasileira de Eficiência Energética, “não parece haver uma
única, comumente aceita, definição de eficiência energética. É pensamento cor-
rente que um aumento de eficiência (energética) ocorre quando há redução na
energia consumida para realização de um dado serviço, ou quando há aumento ou
melhoria dos serviços para uma mesma quantidade de energia gasta”.
Definir eficiência energética não é tarefa fácil e medir variações de eficiência
é ainda mais difícil. O desenvolvimento de indicadores de eficiência energética
esbarra sempre na limitação de dados disponíveis. Essa limitação se deve a vários
fatores: quanto maior a quantidade de dados coletados, maior é o custo da coleta,
processamento e análise; a configuração de certas tecnologias e processos pratica-
mente inviabiliza a obtenção de dados internos, mais detalhados (microdados);
dados derivados de pesquisas por amostragem são geralmente imprecisos, dada a
dificuldade e tempo gasto para obtê-los.
Medidas de “intensidade de energia” são comumente usadas para determina-
ção de eficiência energética e sua variação com o tempo. A intensidade de energia,
entretanto, fornece, na melhor hipótese, uma indicação do uso eficiente da energia.
Isso porque intensidade de energia pode mascarar mudanças estruturais e compor-
tamentais que não representam verdadeiras melhorias. Segundo o International
Energy Agency (IEA), os benefícios ambientais também podem ser obtidos com a
redução de emissões de gases de efeito estufa e poluição do ar local. O IEA afirma
ainda que: “a segurança energética – a disponibilidade ininterrupta de fontes de
energia a um preço acessível – também pode lucrar com uma maior eficiência
energética, diminuindo a dependência de combustíveis fósseis importados”.

Evolução da eficiência energética

Ao longo dos últimos anos, algumas ações apoiaram e incentivam o cresci-


mento do uso de EE em todos os setores de energia. Desde a produção de produ-
tos, prestações de serviços e a utilização em residências. As centrais elétricas e os
sistemas foram criados no final do século XIX, compostos por pequenas centrais
hídricas operando predominante para o setor de iluminação pública, a partir dos
anos 1950 surgiram os grandes projetos de geração de energia por meio de gran-
des hidrelétricas.

capítulo 4 • 81
Os primeiros estudos para a Itaipu surgiram em 1964, sendo inaugurada em
5 de maio de 1984. Com a construção da Itaipu, o Brasil teve expansão e forneci-
mento da demanda energética com economia na geração elétrica em grandes esca-
las. As primeiras iniciativas relacionadas à EE no Brasil datam da década de 1970
como reação à crise do petróleo. Em 1973, ocorre o 1o choque do petróleo, em
1979, o 2º choque do petróleo, a partir destes fatos em 1982 ocorre o Programa
de Mobilização Energética (diretrizes para eficiência energética).
O tema EE toma impulso no Brasil a partir da década de 1980, pelo protocolo
firmado pelo governo, em 1984, (MDIC) com a indústria (ABINEE). A partir
deste protocolo foram criadas algumas ações: 1984: criado o Programa Brasileiro
de Etiquetagem – PBE, coordenado pelo INMETRO; 1985: criado o Programa
Nacional de Conservação de Energia Elétrica – PROCEL, vinculado ao MME e
com a coordenação executiva da Eletrobras; 1991: criado o Programa Nacional de
Conservação de Petróleo e Derivados – CONPET, também vinculado ao MME
e com a coordenação executiva da Petrobras; 1996: criada a Agência Nacional de
Energia Elétrica (ANEEL), vinculada ao MME, com a tarefa de regular e fiscalizar
a geração, a transmissão, a distribuição e a comercialização da energia elétrica.
O Operador Nacional do Sistema (ONS) foi instituído em 1998 para operar
o sistema interligado nacional (SIN) e administrar a rede básica de transmissão
de energia do país. Em 1998 é criado o programa (compulsório) de investimento
em EE pelas concessionárias de energia elétrica (programa anual coordenado pela
ANEEL, inicialmente correspondendo a 1% do faturamento líquido das distri-
buidoras); 2000: promulgada a Lei no 9.991, que regulamenta a obrigatoriedade
de investimentos em programas de EE no uso final por parte das empresas brasi-
leiras distribuidoras de energia elétrica; 2001: promulgada a Lei no 10.295, sobre
Política de EE, determinando que grupos de trabalhos técnicos estabeleceriam um
nível máximo de consumo específico de energia para equipamentos fabricados ou
comercializados no país; 2004: promulgada a Lei no 10.847, que autorizou a cria-
ção da EPE e definiu lhe competência para: Art. 4º (…) XV – promover estudos
e produzir informações para subsidiar planos e programas de desenvolvimento
energético ambientalmente sustentável, inclusive, de EE; XVI – promover planos
de metas voltadas para a utilização racional e conservação de energia, podendo
estabelecer parcerias.
Em 2004, foi promulgada a Lei no 10.848, sobre a comercialização de energia
elétrica, introduzindo novas oportunidades para geração distribuída e cogeração

capítulo 4 • 82
(comercialização com as concessionárias); 2005: a Agência Nacional de Energia
Elétrica (ANEEL) estabeleceu o direcionamento de pelo menos 50% dos recursos
desse programa para o uso eficiente de energia junto a consumidores residenciais
de baixa renda (adequação de instalações elétricas internas das habitações, doações
de equipamento eficiente, entre outros); 2006: o BNDES criou o PROESCO, a
primeira linha de financiamento feita especificamente para ESCOS. Em 2010, foi
promulgada a Lei no 12.212, que alterou o percentual destinado aos consumi-
dores de baixa renda. Por meio dessa lei, as concessionárias e permissionárias de
distribuição de energia elétrica deverão aplicar, no mínimo 60% dos recursos dos
seus programas de EE em unidades consumidoras beneficiadas pela Tarifa Social;
2011: ISO 50001, especificando requisitos para o estabelecimento, implementa-
ção, manutenção e melhoria de um sistema de gestão da energia.
Após sérias consequências de problemas decorrentes de fatores ambientais,
como o “apagão” em 2001/2002 e a presente preocupação com a preservação do
meio ambiente, o uso eficiente de energia elétrica tornou-se tema de discussões
e estudos, buscando alternativas que viabilizem uma economia de energia sem
prejudicar a eficiência das instalações industriais, comerciais e residenciais. O país
está a quase 30 anos atuando em conservação e uso eficiente de energia sem um
contexto apropriado de política para EE.
O Brasil vem desenvolvendo esforços para conservar energia desde meados da
década de oitenta, quando foram criados dois programas nacionais: o PROCEL
(eletricidade) e CONPET (derivados de petróleo). Ele afirma ainda que: “Embora
outras iniciativas anteriores tivessem ocorrido, esses dois programas foram a maior
expressão do interesse do governo federal e uma manifestação favorável de se esta-
belecer uma política pública para a área de energia que incorporasse a necessidade
de controlar a demanda de energia.
Na verdade, achamos mais razoável aceitar que os principais fatores que moti-
varam a criação dos programas foram as fortes pressões ambientais internacionais
que começaram a pesar sobre o Brasil na época e que foram traduzidas em con-
dicionantes e cláusulas nos empréstimos de bancos e governos ao setor de energia
brasileiro”. Ao se comparar a realidade atual com o cenário de 25 anos atrás, quan-
do o PROCEL foi instituído, não é difícil reconhecer como a situação evoluiu
e que diversas barreiras foram removidas, mas, ainda assim, faltam iniciativas e
incentivos fortes para este setor.

capítulo 4 • 83
Dificuldades para aplicação da eficiência energética

Mesmo com diferentes ações em prol da eficiência energética, ainda é possível


identificar dificuldades para a implementação de projetos. Estas dificuldades tor-
nam-se barreiras para a melhoria nos resultados destes projetos. Adiante, algumas
destas dificuldades:
•  Dificuldades tecnológicas.
•  Equipamentos eficientes a custos menos competitivos.
•  Defasagem da indústria nacional.
•  Dificuldades culturais.
•  Falta de conhecimento das técnicas de uso eficiente.
•  Decisão de compra pelo custo inicial.
•  Tendência ao desperdício.
•  Dificuldades econômicas.
•  Preço da energia.
•  Custo de capital elevado.
•  Incerteza quanto à evolução dos preços de energia.
•  Dificuldades financeiras.
•  Contrato de performance com difícil aceitação pelos bancos.
•  Dificuldades institucionais.
•  Visões diversas dos agentes (por exemplo: fabricante × consumidor).
•  Falta de mercado de EE.
•  Barreiras aos contratos de performance.
•  Pouca difusão do conceito, inclusive junto a agentes financeiros.
•  Dificuldade de garantia ao financiamento.
•  Baixa capacitação empreendedora das ESCO (perfil predominantemen-
te técnico).

A eficiência energética e a indústria

Ter um programa de conservação de energia não é fazer um racionamento,


mas sim, ter eficiência no seu uso. A questão da EE deve ser levantada desde a alta
direção da indústria até ir ao encontro do colaborador de menor nível hierárqui-
co. Além destas vantagens para a indústria, a sociedade em geral terá uma “redu-
ção dos investimentos para a construção de usinas e redes elétricas e consequente

capítulo 4 • 84
redução dos custos da eletricidade, redução dos preços de produtos e serviços e,
maior garantia de fornecimento de energia”.
A conservação de energia na indústria demanda tempo, para que os esfor-
ços sejam direcionados para o foco correto. A criação de um corpo de elementos
responsáveis pela implementação do plano de conservação deve ser realizado de
modo em que exista plena integração entre os diversos setores da empresa.

O atual cenário da revolução energética brasileira

A matriz energética brasileira se destaca pela presença de energia proveniente


de fontes renováveis. Essa matriz é bem mais “limpa” que a matriz mundial, em
que atualmente a participação das energias renováveis representa 46% de toda a
matriz energética nacional, em contraste com a média de 13% da matriz mundial.
Ao mesmo tempo em que o Brasil se torna menos dependente dos combustíveis
fósseis, o país se descobre autossuficiente em petróleo.
A diminuição dos combustíveis fósseis se deve atualmente pelo aproveita-
mento da cana-de-açúcar (álcool e bagaço), que já representa 16% da matriz, a
segunda maior fonte de energia. Outro diferencial da matriz energética brasileira
é a segurança do sistema elétrico. A vulnerabilidade energética é uma das gran-
des preocupações dos países industrializados. O Brasil tem uma posição bastante
favorável quanto a esse aspecto, pois como já mencionado, é autossuficiente em
petróleo e em energia, e ainda conta com o Sistema Interligado Nacional (SIN),
único em âmbito mundial.
O sistema brasileiro de geração é basicamente hidrotérmico e tem grande por-
te, sendo composto por grande número de proprietários. Por meio do SIN, foi
possível interligar as linhas de transmissão das regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste
e Nordeste. Esse sistema possibilita o câmbio de energia elétrica entre regiões dis-
tantes, tornando o sistema elétrico nacional mais estável, e menos vulnerável.
O Greenpeace projetou uma revolução energética para diferentes países, inclu-
sive o Brasil, considerando as projeções para crescimento da população e do PIB e,
utilizando a projeção de geração de eletricidade para 2050. Segundo este estudo, o
cenário da “revolução energética” aplicável no Brasil seguiria os princípios básicos
de implementação de soluções renováveis, especialmente por meio de sistemas
descentralizados; a eliminação gradativa das fontes de energia não sustentáveis e a
promoção da equidade na utilização dos recursos, além de desvincular crescimen-
to econômico do aumento do consumo de combustíveis fósseis.

capítulo 4 • 85
Essa “revolução energética” aconteceria seguindo cinco passos:

1 - IMPLANTAÇÃO DE SISTEMAS DE ENERGIA LIMPA, SOLUÇÕES


RENOVÁVEIS E DESCENTRALIZADAS.
Possibilidade de não haver desabastecimento de energia.

2 - RESPEITO AOS LIMITES NATURAIS.


A sociedade precisa aprender a respeitar os limites da natureza.

3 - ELIMINAÇÃO GRADUAL DAS “ENERGIAS SUJAS” E NÃO


SUSTENTÁVEIS.
As usinas a carvão e nucleares devem ser gradualmente eliminadas e substituídas.

4 - PROMOÇÃO DA EQUIDADE E JUSTIÇA.


Busca de uma distribuição justa dos benefícios e dos custos entre as sociedades, nações
e gerações presente e futuras.

5 - DESVINCULAÇÃO DO CRESCIMENTO ECONÔMICO DO USO DE


COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS.
Começando pelos países desenvolvidos, o crescimento econômico deve ser totalmente
desvinculado dos combustíveis fósseis.

Captação de recursos para projetos de eficiência energética

O mercado de EE, no setor industrial e de grandes consumidores, apresenta-se


como alternativa de redução de custos aos empresários e lucrativo para investido-
res. Atualmente, existem diferentes possibilidades de investimentos em projetos
de EE na área de grandes consumidores. O retorno desse investimento pode sig-
nificar uma quantidade de recursos sobressalentes para a aplicação em outras ati-
vidades e necessidades, ou simplesmente o incremento dos resultados financeiros
da organização.
Assim, ao lado de vários agentes da sociedade e do poder público, contribuin-
do para consolidar o mercado de eficiência energética no país e estimulando a
criação de novos hábitos, produtos e serviços centrados no uso eficiente de ener-
gia, este mercado deixa de ser uma “moda” passageira para se tornar um “novo
mercado”. Contudo, conseguir os recursos para projetos de EE, na sua grande
maioria, é complexo e exige uma gestão fortemente focada em metodologias de
captação de recursos.

capítulo 4 • 86
Cada projeto pode ter determinada fonte de recurso e exige uma metodologia
diferente, de acordo com as exigências de cada fonte, principalmente quando estas
são a fundo perdido. Para se elaborar um bom projeto, que seja aprovado pelas
equipes examinadoras, ele requer no mínimo uma formação técnica com alguns
poucos conhecimentos específicos e de pesquisa. Mesmo assim, o gargalo ainda
é a falta de recursos ou de disciplinas voltadas ao desenvolvimento de projetos de
EE, pois, uma pessoa/equipe necessita de muito tempo para desenvolver os conhe-
cimentos específicos dentro de uma instituição onde este tipo de projeto não é a
sua principal atividade.
Neste intervalo, uma tecnologia já pode se tornar obsoleta. Enquanto isso,
para não interromper suas estratégias de crescimento, as empresas continuam fa-
zendo investimentos altíssimos de ampliações ineficientes, os quais poderiam ser
apoiados por programas de incentivo e levam boa parte da lucratividade por meio
dos custos com energia para gerar tais crescimentos.
Vários são os casos de financiamentos, cada qual apresenta suas características
de complexidade, daí a necessidade de profissionais com conhecimento e/ou ex-
periência para minimizar as incertezas, possibilitando a continuidade do projeto
e mantendo o seu objetivo. A ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica)
é o órgão regulador do Sistema Elétrico Nacional em atenção aos problemas de
escassez de recursos producentes de energia elétrica, pelas concessionárias e per-
missionárias de energia elétrica, em pesquisa, desenvolvimento e em projetos de
eficiência energética, desenvolvendo medidas que promovam o combate ao des-
perdício de energia.
A ANEEL tem um programa de Eficiência Energética, juntamente com as
distribuidoras do serviço público de distribuição de energia elétrica, em que deter-
mina a aplicação de no mínimo 0,5% da receita operacional líquida anualmente,
em ações que tenham por objetivo o combate ao desperdício de energia elétrica.
Para o cumprimento desta obrigação, as concessionárias devem apresentar à
ANEEL a qualquer tempo, por meio de arquivos eletrônicos, projetos de eficiên-
cia energética e combate ao desperdício de energia elétrica, observadas as diretrizes
estabelecidas para a sua elaboração. As diretrizes para elaboração dos programas
são aquelas definidas na Lei no 9.991, de 24 de julho de 2000, bem como aquelas
contidas nas resoluções da ANEEL específicas para eficiência energética.
Entre as diversas categorias, determinadas por esta Lei, que devem ser con-
templadas pelas concessionárias e permissionárias em projetos dessa natureza, des-
taca-se a industrial e de grandes consumidores, com inúmeras possibilidades de

capítulo 4 • 87
elaboração de projetos que podem alcançar os níveis desejados de redução de con-
sumo de energia, em concordância ao definido pela ANEEL. De março de 2008
a junho de 2011, a ANEEL contabilizou 774 projetos de eficiência energética
apresentados pelas concessionárias, com investimentos da ordem de R$ 1,8 bilhão
e uma economia de energia da ordem de 1,82 milhão MWh/ano.
Além disso, a execução dos projetos possibilitou a redução da demanda no
horário de ponta (entre 18h e 21h) da ordem de 27.611,8 kW, o que contribui
para reduzir a necessidade de investimentos na expansão da oferta. No mesmo
período, também foram realizadas substituições ou implantação de equipamentos
para combater o desperdício de energia. Entre os valores realizados e previstos,
destaca-se a troca de quase 500 mil geladeiras, além da distribuição de 14 milhões
de lâmpadas fluorescentes compactas. Para solicitar a participação no programa
de EE, varia de acordo com as regras de cada concessionária e pode ser feita por
meio da solicitação via Executivo de Conta Poder Público, Executivo de Negócios,
Analista de Negócios, participação de Chamada Pública, apresentação de projeto
a Fundo Perdido ou por meio do preenchimento do formulário disponível nos
portais via internet.
Todos estes programas têm suas próprias definições e áreas de aplicação que
podem gerar várias dúvidas devido às suas complexidades, até mesmo para profis-
sionais especializados.
Recentes e vantajosas oportunidades de financiamento auxiliam e dispensam
um empreendedor de aplicar seus próprios recursos, porém exigem um alto grau
de complexidade e cuidados. Vejamos algumas formas de financiamento para pro-
jetos de eficiência energética. Existem ainda as ESCOS, empresas de engenharia
especializadas em serviços de conservação de energia, ou melhor, em promover
a eficiência energética reduzindo custos sem utilização de recursos próprios da
empresa (fluxo de caixa positivo) utilizando-se primordialmente de contratos de
performance.
A principal diferença entre uma ESCO e uma empresa de consultoria é que
a primeira divide os riscos com o cliente não apenas em termos de investimentos,
mas também em termos de compromissar sua remuneração com o sucesso dos
resultados obtidos na redução dos custos do consumo de insumos.
Os contratos de performance, firmados entre o cliente e a ESCO, estabelecem
as condições para o desenvolvimento e a remuneração das implantações das ações
técnicas e economicamente viáveis. Isso se dá por meio da partilha do montante
de economia obtida, com a redução efetiva nos custos de consumo de energia

capítulo 4 • 88
elétrica, incluindo cogeração e parâmetros de demanda, consumo, fator de potên-
cia, harmônicos, gás natural e liquefeito de petróleo, energia solar, água e outros
insumos na operação do cliente.
O BNDES (Banco de Desenvolvimento Econômico e Social), também tem
apoio a projetos de EE, os quais podem ser concedidos a empresas de serviços de
conservação de energia, a usuários finais de energia e a empresas de geração, trans-
missão e distribuição de energia. Para sua aprovação, os projetos devem comprovar
a contribuição para a economia de energia, o aumento da eficiência global do
sistema energético ou a substituição de combustíveis de origem fóssil por fontes
renováveis.
Em 2006, o BNDES criou o PROESCO, a primeira linha de financiamento
feita especificamente para ESCOS. As operações da linha PROESCO podem ser
realizadas tanto por apoio direto do BNDES como por meio de suas instituições
financeiras credenciadas, mediante repasse ou mandato específico, independente-
mente do valor do pedido do financiamento. O BNDES busca o aperfeiçoamento
dos critérios de análise ambiental dos projetos que solicitam crédito e oferece su-
porte financeiro a empreendimentos que tragam benefícios para o desenvolvimen-
to sustentável, por meio de produtos e programas de financiamento.
Além disso, o BNDES realiza financiamento de longo prazo, subscrição de
valores mobiliários e prestação de garantia, atuando por meio de produtos e fun-
dos, conforme a modalidade e a característica da operação. Alguns produtos do
BNDES se dividem em linhas de financiamento, com finalidades e condições
financeiras específicas.
A critério do banco, um projeto de investimento pode se beneficiar de uma
combinação de linhas de financiamento, de um mesmo ou de diferentes produtos,
de acordo com o segmento, a finalidade do empreendimento e os itens a serem
apoiados. Veja os produtos que podem ser usados no apoio a projetos de eficiência
energética: o BNDES Finem, é o financiamento a projetos de implantação, expan-
são e modernização de empreendimentos.
Esta categoria de financiamento é voltada para investimentos em inovação,
meio ambiente e que podem ser aplicados para projetos de eficiência energética,
é realizada através das seguintes linhas de financiamento: Linha Capital Inovador
(foco na empresa), Linha Inovação Produção, Linha Inovação Tecnológica (foco
no projeto), Apoio a Investimentos em Meio Ambiente 29, BNDES Florestal,
Apoio a Projetos de Eficiência Energética, PROESCO, Saneamento Ambiental
e Recursos Hídricos, BNDES Automático, BNDES Finame, BNDES Finame

capítulo 4 • 89
Leasing, Cartão BNDES, BNDES Limite de Crédito, BNDES Empréstimo-
Ponte, BNDES Project finance, BNDES Fianças e Avais e o BNDES Automático.
O BNDES também pode apoiar a eficiência energética por meio dos seguin-
tes fundos: Fundo Tecnológico, BNDES Funtec, FUNTTEL – Fundo para o
Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações. Atualmente, estão em vi-
gor os seguintes programas para apoio aplicáveis a projetos de eficiência energé-
tica: BNDES P&G, BNDES Proaeronáutica, BNDES Proengenharia, BNDES
Profarma, BNDES Proplástico – Inovação, BNDES Prosoft, BNDES PSI –
Inovação, PROTVD, BNDES Compensação Florestal, BNDES Proplástico –
Socioambiental, Pronaf Agroecologia, Pronaf Eco.

Gerenciamento de projetos de eficiência energética

A estrutura de gerenciamento de projetos viabiliza o andamento adequado das


ações que devem ser efetuadas durante todo o ciclo de vida do projeto. Ela pro-
porciona estrutura clara e organizada, em que todos os stakeholders conseguem
acompanhar o status do projeto. O gerenciamento de projetos, quando aplicado a
projetos de EE, pode ser entendido como uma ferramenta para organizar o traba-
lho de todas as equipes envolvidas num determinado projeto. Ele atua combinan-
do as necessidades do projeto e seu resultado final, realizando suas atividades por
meio de técnicas gerenciais. Quanto mais detalhes o gerenciamento de projetos
acessar, mais oportunidades de administrar as informações irão surgir.

O projeto

O projeto apresenta a representação de problemas a serem solucionados, por


meio de informações tais como: objetivos, orçamento, prazos e qualidade, por
exemplo, para uma realização futura e está presente em diferentes empreendi-
mentos, em que cada um deles cria métodos ou procedimentos específicos. Para o
PMI, projeto significa “um empreendimento único que deve apresentar um início
e um fim claramente definidos e que, conduzido por pessoas possa atingir seus
objetivos, respeitando os parâmetros de prazo, custo e qualidade”.
É necessário que um projeto tenha a definição clara de seu objetivo, para que
todos os participantes possam “seguir o mesmo caminho”, para a mesma referên-
cia e somar seus esforços numa única direção e sentido. Os projetos atingem a
todos os níveis da organização.

capítulo 4 • 90
Para Vargas (2005), “projeto é um empreendimento não repetitivo, caracteri-
zado por uma sequência clara e lógica de eventos, com início, meio e fim, que se
destina a atingir um objetivo claro e definido, sendo conduzido por pessoas dentro
de parâmetros predefinidos de tempo, custo, recursos envolvidos e qualidade”.
O autor cita ainda que: “projeto é um conjunto de ações, executado de maneira
coordenada por uma organização transitória, ao qual são alocados os insumos
necessários para, em um dado prazo, alcançar o objetivo determinado”. Segundo
Menezes (2003, p. 68), o trinômio o qual sempre estará presente nos projetos é:
CUSTO × QUALIDADE × PRAZO.
A figura 4.2 apresenta etapas de auditoria, planejamento e execução e resulta-
dos para um projeto de eficiência energética.

Planejamento
e execução

• Apresentação de soluções;
• Levantamento dos • Análise, monitoramento e
pontos de desperdício; • Elaboração de projetos; medição dos resultados;
• Cronogramas com metas;
• Acompanhamento da • Comparativo entre o antes e
rotina dos processos. • Treinamentos; o depois da implementação do
• Execução das ações de sistema de gestão energética.
eficiência energética.
Auditoria
Resultados
energética

Figura 4.2  –  Etapas de projeto em eficiência energética. Disponível em:


<http://www.theenergyofchange.com>. Acesso em: jul. 2019. Adaptado.

A gestão de projetos articula de forma eficiente os profissionais necessários a


cada função e etapa do projeto. Para Verzuh (2000), a gestão de projetos apresenta
três funções técnicas macro:
•  A definição do projeto: estabelece a base para o projeto.
•  O plano do projeto: detalha o modo como se cumprem as metas do projeto,
dadas as limitações.
•  O controle do projeto: inclui todas as atividades que mantêm o projeto em
andamento em direção à meta.

capítulo 4 • 91
“As técnicas comuns de estimativa e de estabelecimento de prazos irão definir a
quantidade de trabalho incluída no projeto, quem irá definir a quantidade de trabalho
incluída no projeto, quem irá fazer o trabalho, quando ele será completado e quanto irá
custar”.

É necessário identificar junto ao negócio o ponto mais importante para o pro-


jeto de EE, e fazer dele o key driver, a que o cliente/organização dá importância
prioritária. A esse parâmetro deve ser dada toda a atenção prioritária durante o de-
senvolvimento do projeto. A gestão do projeto irá mediar as informações recebidas
pelo negócio e as equipes responsáveis pela concretização do projeto solicitado. O
desenvolvimento de um projeto acontece perante vários processos básicos que se
sobrepõem, sendo eles: de concepção ou inicialização, de planejamento, de execu-
ção, de controle e de fechamento ou conclusão
Com o início de um projeto, a observação de suas características essenciais,
como o tempo destinado para as etapas de sua realização, é importante para as
decisões futuras sobre o seu planejamento. Saber de antemão o grau de comple-
xidade do projeto pode favorecer o fluxo de sua realização, garantindo pequenos
processos inseridos no ciclo de vida total do projeto. Segundo Menezes (2003),
“estes processos distribuem-se ao longo do ciclo de vida do projeto”, como mostra
a figura 4.3.

Iniciação Planejamento Execução Encerramento


humanos e financeiros
Recursos materiais,

Tempo

Figura 4.3  –  Ciclo de vida do projeto. Blog: Palavras simples. Argumentos fortes.

O gerenciamento de projetos deve atuar considerando todas as etapas que o


projeto percorrerá, bem como as ações necessárias e a distribuição de tarefas para a
execução do projeto. Segundo Menezes, “é essencial à identificação dos entrantes
na execução e as ações empreendedoras concretas”.

capítulo 4 • 92
Ciclo de vida de um projeto de eficiência energética

Todo projeto é finito e apresenta um ciclo de vida. “Em determinado ins-


tante, ele nasce, desenvolve-se durante um período de tempo determinado e é
finalizado quando seus objetivos são atingidos”. Existem diversas versões para o
ciclo de vida de um projeto, desde pequenos ciclos até ciclos com dezenas de fases,
tudo de acordo com a necessidade do projeto. Para Verzuh (2000): “O ciclo de
um projeto representa sua progressão linear, da definição do projeto, passando
pela criação do planejamento, execução do trabalho e fechamento do projeto”. O
autor afirma ainda que: “O ciclo é linear e as divisões entre as fases representam
pontos nos quais se tomam decisões”. O ambiente do projeto auxilia a definição
das necessidades do negócio. “Os ambientes internos e externos ao projeto trazem
informações sobre o mercado, fornecedores, governo e concorrentes”.
A correta identificação das necessidades do negócio conduzirá o projeto de EE
como um todo. Orientando as pesquisas, a identificação dos possíveis riscos, os
processos produtivos e as adaptações, quando necessárias; para adequar o resulta-
do do projeto às necessidades identificadas. Para isso, é necessário estabelecer uma
correta relação entre as necessidades e as possíveis soluções.
É importante elaborar o ciclo de vida de um projeto de EE, determinando
as suas fases e os seus objetivos de forma clara. Este método tornará o caminho
a ser percorrido durante o projeto mais claro. Devem-se considerar os possíveis
riscos e as possíveis necessidades do projeto. Assim, para qualquer alteração ou
evento diferenciado, tem-se uma base de projeto que se adaptará às possíveis in-
constantes do percurso. Do início ao final da execução do projeto, ele passa por
diferentes fases:

organização do plano de trabalho por meio da coleta de


DESENVOLVIMENTO dados relevantes ao entendimento do projeto, bem como,
definição dos profissionais envolvidos.

ESTRUTURAÇÃO execução prática do plano de trabalho.

experiências avançadas com teste de produção em escala


IMPLANTAÇÃO reduzida;
fechamento do projeto. O detalhamento destas fases é que
deverá amoldar-se ao tipo de projeto, à sua natureza, à sua
CONCLUSÃO dimensão, ao seu grau de complexidade etc. Estas fases do
ciclo de vida são combinadas durante o andamento do ciclo
por quase toda a duração do projeto de EE.

capítulo 4 • 93
A fase de desenvolvimento ou inicial de um projeto apresenta o momento em
que a necessidade é identificada e transformada em um problema estruturado a
ser resolvido. A identificação de determinada necessidade gera um problema a ser
resolvido. Ainda nesta fase são definidos a missão e o objetivo do projeto. Tendo
como atividades típicas:
•  Identificação de necessidades ou oportunidades.
•  Tradução de necessidades ou oportunidades em um problema.
•  Equacionamento e definição do problema.
•  Determinação dos objetivos e metas a serem alcançadas.
•  Análise do ambiente do problema.
•  Análise de potencialidades ou recursos disponíveis da organização realiza-
dora do projeto.
•  Avaliação da viabilidade para atingir os objetivos.
•  Estimativa dos recursos necessários.
•  Elaboração da proposta e venda da ideia.
•  Avaliação e seleção com base na proposta submetida.
•  Decisão quanto à execução do projeto.

A eficientização é elaborada com base nos dados da fase conceitual, por meio
do detalhamento do projeto. Esta fase possibilita a definição dos requisitos funcio-
nais do sistema e seus parâmetros de desempenho, estabelecendo uma arquitetura
funcional que será o ponto de partida para a fase seguinte.
A fase de planejamento é a fase de estruturação e viabilização operacional do
projeto, em que são detalhados o cronograma, as interdependências entre ativida-
des, a alocação de recursos envolvidos, a análise de custos, entre outros.
As atividades comuns são:
•  Detalhamento das metas e objetivos a serem alcançados, com base na pro-
posta aprovada.
•  Detalhamento das atividades e estruturação analítica do projeto.
•  Programação das atividades no tempo disponível e necessário.
•  Determinação dos resultados tangíveis a serem alcançados durante a execu-
ção do projeto.
•  Programação da utilização e aprisionamento dos recursos humanos e mate-
riais necessários ao gerenciamento e à execução do projeto.
•  Delineamento dos procedimentos de acompanhamento e controle a serem
utilizados na implantação dos projetos.

capítulo 4 • 94
•  Estabelecimento da estrutura orgânica formal a ser utilizada para o projeto.
•  Estruturação do sistema de comunicação e de decisão a ser adotado.
•  Designação e comprometimento dos técnicos que participarão do projeto.
•  Treinamento dos envolvidos com o projeto.

Segundo Menezes (2003), a elaboração do ciclo de vida do projeto é toda


desenvolvida na fase conceitual. O autor afirma que “é nessa fase que, procurando
entender melhor o que podemos e queremos fazer, definimos os grandes passos
e o volume de recursos necessários”. Existindo ainda, interfaces entre as fases se-
guintes do ciclo.
A fase de execução é o momento em que tudo o que foi planejado materia-
liza-se. A fase de execução inclui o trabalho planejado, sob a coordenação e lide-
rança do gerente, até a obtenção dos objetivos. Incluindo ainda o controle desta
execução.
Seguindo as seguintes atividades:
•  Ativar a comunicação entre os membros da equipe do projeto.
•  Executar as etapas previstas e programadas.
•  Utilizar os recursos humanos e materiais, sempre que possível, dentro do
que foi programado, observando quantidades e períodos de utilização.
•  Efetuar reprogramação no projeto segundo suas necessidades, e adotar os
planos e programas iniciais como diretrizes, eventualmente mutáveis.

A fase de conclusão corresponde ao término do projeto. Transferência dos


resultados do projeto, com aceitação do cliente, seguido de uma avaliação geral
do projeto pelo cliente e pela organização. Desligamento gradual de empresas e de
técnicos do projeto.
As atividades desta fase são:
•  Aceleração das atividades que não tenham sido concluídas.
•  Realocação dos recursos humanos do projeto para outras atividades ou ou-
tros projetos.
•  Elaboração da memória técnica do projeto, um histórico do projeto que
poderá ser consultado em projetos futuros.
•  Elaboração de relatórios com os resultados finais do projeto para as chefias.
•  Emissão de avaliações globais sobre o desempenho da equipe do projeto e
os resultados alcançados.

capítulo 4 • 95
Para alguns autores, a fase de controle é detalhada separadamente, porém
acontece paralelamente ao planejamento e a execução do projeto. Segundo Vargas
(2005), a fase de controle tem como objetivo “acompanhar e controlar aquilo
que está sendo realizado pelo projeto”, o autor afirma ainda que: “o objetivo do
controle é comparar o status atual do projeto com o status previsto pelo planeja-
mento”. As fases de planejamento, execução e controle são cíclicas até a conclusão
do projeto.

Custos e qualidade

Os custos devem orientar um projeto, considerando seus objetivos financeiros


e/ou estratégicos, e a disponibilidade da empresa. Para a EE, os custos de projeto
podem inclusive inviabilizar soluções de projeto. Num conceito atual, projetos de
EE devem recuperar pelo menos os fundos destinados para o seu desenvolvimento
e implantação, isto é, custos originados antes da execução, os derivados dos inves-
timentos necessários para desenvolvê-lo.
Segundo Menezes (2003), a montagem da EAP (Estrutura analítica do proje-
to) permite ao gestor determinar os recursos físicos necessários ao projeto – pes-
soas, equipamentos, materiais e financeiros – e ainda suas respectivas quantidades
para executar as atividades do projeto. Os custos de um projeto poderiam ser bem
menores, assim como os resultados mais satisfatórios, se o investimento fosse dire-
cionado à capacitação dos profissionais de EE que integram a equipe.
Na verdade, é um erro associar sempre EE a investimentos financeiros. A pri-
meira atitude para se chegar a um bom projeto de EE, como na inovação, está na
mudança radical de costumes, pensamento e postura.
A Qualidade é um pré-requisito para todas as fases do processo de desenvolvi-
mento da gestão de qualquer “processo”, como uma forma de atingir melhores re-
sultados técnicos, funcionais e de desempenho. Em cada uma das fases do proces-
so, a adequação à política da organização pode encontrar na qualidade as soluções
para cada problema. A qualidade é um sensor capaz de interferir e de controlar
cada uma das fases do processo, desde a ideia até o projeto acabado.
O aprimoramento de processos e controles que conduz a uma melhor
qualidade do produto fabricado é uma forma indireta de se conservar energia,
pois, se a qualidade melhora, o índice de rejeição no controle de qualidade dimi-
nui e com isso se reduz a quantidade de energia agregada aos refugos. Segundo
Valeriano (1998), o desdobramento da função qualidade é o instrumento com

capítulo 4 • 96
sucessivos mapeamentos, “o qual traduz os requisitos para a qualidade, tal como
definidos pelo próprio cliente, em requisitos técnicos balizadores de todo o ciclo
de obtenção do produto ou do serviço, desde a fase do conceito até a utilização,
incluindo a verificação da qualidade do produto ou serviço”.
A adoção desse sistema implica algumas adaptações de toda a empresa, tais
como: a orientação da empresa para a satisfação e atendimento do cliente e o em-
prego de equipe multidisciplinar, com participação conjunta de pessoal de mar-
keting, de projeto, engenharias diversas, produção, ensaios, vendas, manutenção,
treinamento etc.
A qualidade é um pré-requisito para os projetos de EE, como forma de atingir
melhores resultados técnicos e funcionais. Em cada uma das fases do processo, a
adequação à política da organização pode encontrar na qualidade as soluções para
cada problema. Sendo ela, um sensor capaz de interferir e de controlar cada uma
das fases do processo, desde a ideia até o produto/serviço acabado.

RESUMO
Por meio da escolha, aquisição e utilização adequada dos equipamentos e técnicas de
análise de negócios é possível alcançar significativas poupanças de energia, manter o con-
forto e aumentar a produtividade das atividades dependentes de energia, com vantagens do
ponto de vista econômico, ambiental e estratégico.
A EE não gira em torno apenas da utilização racional dos diferentes tipos de energia,
mas também do ponto de vista arquitetônico, com construções que considerem os recursos
naturais, como a iluminação e a ventilação natural, o reaproveitamento da água das chuvas,
o aquecimento solar, entre alternativas que viabilizam a construção eficiente e diminuem a
necessidade de utilização de energia elétrica. Contudo, foi visto nas análises apresentadas
que o resultado desejado não é necessariamente a solução apresentada pelo projeto. Ele
pode descrever os benefícios do negócio, que resultarão do atendimento a necessidade do
projeto e do resultado final, que pode ser aproveitado pelas partes interessadas.
O interesse pelos resultados dos projetos de EE não deve partir apenas da equipe que
gerencia os projetos. É necessário o envolvimento de todos os setores do negócio para que
cada área possa avaliar possíveis ações estratégicas associadas ao desenvolvimento e re-
sultados do projeto. A complexidade de desenvolver uma análise de negócio em projetos de
EE é desafiadora e exige muita criatividade, mas se conquistado este desafio, a satisfação
de ter contribuído para o sucesso do projeto e da organização/empresa é recompensador.

capítulo 4 • 97
Nesse capítulo:
•  Você compreendeu as principais questões do cenário brasileiro no campo da eficiência
energética.
•  Entendeu as principais dificuldades para a implantação de um modelo eficiente por parte
das empresas em relação a um projeto com plena eficiência energética.
•  Compreendeu que somente com o envolvimento dos diversos atores no cenário susten-
tável, incluindo as empresas, a sociedade e o governo, poderemos efetivamente atingir um
modelo eficiente sob o ponto de vista energético, melhorando nossas matrizes e permitindo
que, num futuro próximo, o Brasil tenha sustentabilidade em todas as suas matrizes energé-
ticas, tornando-o totalmente independente neste contexto.

ATIVIDADES
01. Podemos definir eficiência energética como
a) eficiência relacionada apenas a metodologias implementadas pela organização para que
a mesma não seja autuada pelos órgãos ambientais.
b) é uma forma em que pode se garantir que o poluidor pagador terá os benefícios da
legislação ambiental.
c) uma atividade que busca melhorar o uso das fontes de energia.
d) a forma como a empresa garantirá os recursos e benefícios do governo, como financia-
mentos do BNDES.
e) todas as afirmativas anteriores estão corretas.

02. De acordo com as abordagens em relação à eficiência energética, especialmente numa


planta industrial do segmento de bebidas, práticas sustentáveis são fundamentais para se
alcançar os objetivos e metas econômicos. Assim, eficiência energética e resultados econô-
micos devem caminhar nos mesmos patamares. Marque a seguir a única opção que não está
relacionada a este processo.
a) Reduzir o risco de disponibilidade e melhorar a gestão de água.
b) Engajar a empresa em iniciativas em gestão de bacias.
c) Reduzir a emissão de partículas poluentes em suas unidades de produção.
d) Reduzir o consumo de energia.
e) Reduzir a aquisição de refrigeradores ecológicos. 

03. Quais as definições de um projeto dentro do contexto da eficiência energética?

capítulo 4 • 98
04. Quais as três diretrizes para o processo de gestão de projeto, segundo Verzuh?

05. Identificação de necessidades, definição do problema e estimativa de recursos são ativi-


dades pertencentes a que etapas de um projeto de eficiência energética?

06. Como viabilizar projetos de EE em termos de custos?

07. Como se chegar a um bom projeto de EE?

CONEXÃO
Aprenda mais
Consulte também as seguintes fontes como complementação ao conteúdo abordado
nesse capítulo:
<http://www.cogensp.com.br>
<http://www.eficiencia-energetica.com>
<http://www.aneel.gov.br/>

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Energy Efficiency. Market Report Series. International Energy Agency IEA, 2017.
Energy Efficiency. A worldwid Review. Indicates, polices, evaluation. World Energy Council. ADEME,
2004.
Energia: as diferentes formas. Disponível em: <http://energifisica.blogspot.com.br/2009/09/
hidrogenio.html>. Acesso em: 17 set. 2015.
Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares. Disponível em <www.ipen.br>. Acesso em: jul. 2019.
Ministério de Minas e Energia. Balanço Energético Nacional – BEN. Rio de Janeiro: Empresa de
Pesquisa Energética (EPE), 2015, 292p.
ELEKTRO et al. Eficiência energética: fundamentos e aplicações. Campinas: Contraste Brasil, 2012.
314p.
ELETROBRAS EDUCAÇÃO. Conservação de energia: eficiência energética de equipamentos e
instalações. 3. ed., Itajubá, 2006, 597p.
HINRICHS, R. A.; KLEINBACH, M.; REIS, L. B. dos. Energia e meio ambiente. Tradução da 4 .ed.,
norte-americana. São Paulo: Cengage Learning, 2011. 708p.

capítulo 4 • 99
MENDES, J. E. A. Eficiência energética aplicada na indústria de bebidas em sistemas de
refrigeração e ar comprimido – estudo de casos. 2014. 141f. Dissertação (Mestrado em Engenharia
Mecânica) – Faculdade de Engenharia – Campus de Guaratinguetá: Universidade Estadual Paulista,
Guaratinguetá, 2014.
POLIQUEZI, Augusto. Metodologia para planejamento energético estadual de longo prazo.
Universidade Federal do Paraná, 2013.

capítulo 4 • 100
5
Processos de
modulação de
equipamentos
para melhoria
de desempenho
energético
Processos de modulação de equipamentos
para melhoria de desempenho energético

A energia faz parte do cotidiano e da vida das pessoas das mais diversas for-
mas, por exemplo, ao dirigir um carro, ao realizar exercícios físicos, no preparo de
alimentos e na alimentação em si e nos equipamentos que fazem parte de grande
parte dos lares hoje em dia, tais como, aparelhos de televisão, geladeira, ar-condi-
cionado etc.
Devido a essa diversidade, os campos de estudo de energia são extremamente
vastos, partindo do uso racional dos recursos naturais até o desenvolvimento e a
utilização de tecnologias de ponta, além do lado social da energia, que envolve os
aspectos socioeconômicos e socioambientais, o histórico da energia e as perspec-
tivas futuras para a mesma. Para Aristóteles (Metafísica, séc. IV a.C.), energia é
“uma realidade em movimento”, algo muito parecido com o conceito mais atual
de energia que diz que “energia é a medida da capacidade de efetuar trabalho”.
Este conceito não está totalmente correto, uma vez que apenas algumas formas de
energia podem ser, de fato, convertidas totalmente em trabalho ou outras formas
de energia (por exemplo, energia mecânica e elétrica).
Os conceitos de conversão e conservação de energia se misturam em certo
ponto. As definições mais comuns de conservação de energia dizem que “a quan-
tidade total de energia em um sistema isolado sempre permanecerá constante”, e
quando se associa com os conceitos de conversão de energia, “a energia dentro de
um sistema é igual à energia que sai dele mais a energia que ele armazena”.
Outro aspecto importante da conservação de energia diz respeito à eficiência
deste processo, uma vez que a produção de energia útil será menor que a entrada
de energia, mesmo que haja conservação. Logo, a eficiência de um processo de
conversão de energia é definida como a energia de entrada que não se transforma
em energia útil e é perdida de formas não utilizáveis, como perdas térmicas. Em
processos que envolvem diversas etapas, como a geração, a transmissão, a distri-
buição e o uso da energia elétrica por um consumidor residencial, a eficiência geral
ou total do processo envolve o produto das eficiências individuais de cada etapa.
Por exemplo, em uma usina de geração de energia elétrica com 35% de eficiência
e supondo a eficiência da transmissão e distribuição como sendo de 90%, e a
eficiência da iluminação de uma residência sendo de 20%, a eficiência total do
processo é de 6,3%.

capítulo 5 • 102
A eficiência de alguns sistemas de conversão de energia podem ser lista-
das adiante:
•  Geradores elétricos (mecânica-elétrica) 50-99%
•  Motor elétrico (elétrica-mecânica) 50-95%
•  Fornalha a gás (química-térmica) 70-95%
•  Turbina eólica (mecânica-elétrica) 35-50%
•  Lâmpada incandescente (elétrica-luminosa) 5%
•  Lâmpada fluorescente (elétrica-luminosa) 20%
•  Lâmpada LED (elétrica-luminosa) 60%
•  Célula a combustível (química-elétrica) 40-60%
•  Célula solar (luminosa-elétrica) 5-28%
•  Motor de automóvel (química-térmica-mecânica) 20-30%
•  Usina nuclear (nuclear-térmica-mecânica-elétrica) 30-35%

OBJETIVOS
•  Compreender que o consumo nada mais é do que a energia consumida de fato ao longo
do período de medição;
•  Entender a importância do processo de modulação de equipamentos e sistemas industriais
para a melhoria energética e, consequentemente, na própria sustentabilidade dos negócios
de uma organização;
•  Compreender a importância dos programas nacionais de eficiência energética;
•  Entender como uma empresa poderá se favorecer, inclusive em seus resultados corpo-
rativos, com as implementações de metodologias e programas de redução de consumo
de energia.

Terminologia associada à energia elétrica

Primeiramente, o estudo de sistemas e processos energéticos requer o uso de


linguagem e terminologia específica, que devem ser apresentados e bem definidos
de forma a facilitar o entendimento dos conceitos associados.
As atividades humanas requerem energia, seja na forma de energia direta, que
são fluxos físicos de energia como calor e energia elétrica, ou na forma de energia
indireta, que representam a demanda energética necessária para a produção e o
atendimento de bens e serviços.

capítulo 5 • 103
A energia incorporada aos bens e serviços leva em consideração toda a ener-
gia envolvida, desde o seu processo de construção até o seu descarte final. É im-
portante também, entender o conceito de energia primária, que envolve toda a
energia proveniente da natureza, de recursos fósseis ou naturais, usada diretamen-
te ou convertida antes do uso de energia secundária, que corresponde à energia
resultante dos processos de conversão, com objetivo de facilitar seu transporte e
armazenamento e adequá-la ao uso final, podendo esta energia ser novamente
convertida em outros tipos de energia secundária; e por fim, energia útil, que
corresponde à energia que é efetivamente utilizada pelo usuário final, processo ou
sistema. Entende-se como concessionária, a empresa ou órgão responsável pela
concessão e/ou permissão para prestar serviços públicos e/ou privados de ener-
gia elétrica para os consumidores. Exemplos: Light Serviços de Eletricidade S.A.
(Light), Energias de Portugal S.A. (EDP), Eletropaulo Metropolitana Eletricidade
de São Paulo S.A. (AES) etc.
O consumidor consiste na pessoa física ou jurídica, que solicita à concessio-
nária o fornecimento de energia elétrica e assume a responsabilidade pelo paga-
mento da fatura de energia elétrica e pelas demais obrigações vigentes em contrato
e controladas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). As faturas de
energia elétrica são os documentos fiscais de cobrança pelo uso da energia elétrica
e trazem uma descrição detalhada do consumo e da demanda, de tarifas e impos-
tos aplicados, multas e os demais itens de identificação do consumidor. Quando
se fala em energia elétrica, os termos consumo e demanda são frequentemente
utilizados, porém poucas pessoas sabem a diferença entre eles.
Consumo nada mais é do que a energia consumida de fato ao longo do perío-
do de medição, cuja unidade é o kWh ou MWh.
Demanda pode ser entendida como a carga instalada, a potência que será
requerida e que a concessionária deve atender, cuja unidade é o kW ou MW,
sendo que o consumidor contrata determinado valor de demanda que atenda suas
necessidades. O consumo pode ocorrer em dois diferentes períodos do dia, cha-
mados de horário de ponta (HP), ou horário de pico, que consiste em um período
definido pela concessionária que abrange três horas consecutivas em dias úteis,
normalmente entre as 18 horas e 21 horas, em que o consumo é mais elevado, e
por isso, muitas vezes, as tarifas são maiores; e horário fora de ponta (HFP), que
abrange todas as horas restantes que não estão no horário de ponta. Entre as tarifas
existentes, estão a tarifa convencional, que basicamente se aplica exclusivamente
ao consumo de energia elétrica, como nas residências, e a cobrança é feita pelo

capítulo 5 • 104
consumo total em R$/kWh; a tarifa hora-sazonal, que se caracteriza por aplicar
tarifas diferenciadas de consumo e demanda, levando em consideração horas do
dia, o dia da semana e o período do ano, e a cobrança é feita pelo consumo total
em R$/kWh e pela demanda contratada em R$/kW; e as tarifas azul e verde, que
basicamente compõem a tarifa hora-sazonal, com a diferença que a tarifa azul
aplica tarifas diferenciadas para consumo e demanda, e a tarifa verde tem uma
tarifa fixa para demanda contratada independentemente do horário do dia ou do
período do ano.
Por fim, a tarifa de ultrapassagem, que pode ser entendida como uma multa,
aplicada quando os valores registrados ultrapassam os valores contratados, tanto
para demanda quanto para o consumo. Entre as tarifas de ultrapassagem, uma
das mais importantes faz referência ao consumo de energia reativa excedente, de-
corrente de um baixo fator de potência (FP). Antes de definir o FP, é importante
conhecer os tipos de potência envolvidos em energia elétrica. Existem três tipos de
potência, a potência aparente (S), medida em volt-ampère (VA), que é a potência
que a concessionária deve disponibilizar para o consumidor a fim de atender a
demanda do mesmo, indicada pela potência ativa (P), medida em watts (W), que
é a potência que efetivamente contribui para o consumo.
A potência reativa (Q), medida em volt-ampère reativo (VAr), é a parcela que
resulta da diferença entre o que a concessionária disponibiliza e o que o consumi-
dor de fato utiliza (equação 2), decorrente de um FP diferente de 1 (um). O fator
de potência é a relação entre as potências P e S (FP = P/S), ou matematicamente,
FP = cos ϕ, em que ϕ é o ângulo formado entre as potências P e S.
A ANEEL estabelece que o FP deve estar o mais próximo possível da unida-
de (1,00), de modo que foi estabelecido um novo limite de referência para o FP,
como forma de controle e avaliação tanto dos consumidores quanto da concessio-
nária, passando a existir o faturamento por consumo de energia reativa excedente.
Este novo limite define um mínimo de 0,92 para o FP, tanto indutivo (entre 6h
e 0h) quanto capacitivo (entre 0h e 6h), e o período de medição, ou avaliação do
mesmo passou a ser horário e não mensal, como era feito antigamente.
As tarifas também podem ser ajustadas de acordo com o período do ano,
como citado anteriormente, sendo dois os períodos em questão, período úmido
(PU), que engloba o fornecimento entre os meses de dezembro de um ano até
abril do ano seguinte; e o período seco (PS), que engloba o fornecimento de maio
até novembro. O período seco é o principal foco da aplicação da metodologia
de modulação fabril, pois é o período em que a energia elétrica está mais cara,

capítulo 5 • 105
resultado da escassez de recursos hídricos inerentes do período, que torna o pro-
cesso de geração mais custoso, e também por ser o período em que a demanda pelo
produto foco (cerveja) é menor.
A partir de 2015, as faturas de energia elétrica passaram a indicar o Sistema
de Bandeiras Tarifárias, que indica se a energia custa mais ou menos dependendo
das condições dos reservatórios e da geração de eletricidade. Este sistema tem três
bandeiras, sendo a Bandeira Verde o indicador de que as condições de geração de
energia elétrica são favoráveis e a tarifa não sofre nenhum acréscimo; a Bandeira
Amarela em que o indicador de que as condições estão menos favoráveis, e existe
um acréscimo de R$ 0,025 para cada kWh consumido; e a Bandeira Vermelha em
que o indicador de condições desfavoráveis e geração mais custosa, e existe um
acréscimo de R$ 0,045 para cada kWh consumido (ANEEL).

Eficiência energética nas indústrias

O setor industrial consome cerca de metade de toda a energia elétrica gerada


no Brasil, sendo que grande parte deste setor produz bens que também consomem
energia. Deste modo, devem ser criadas e acompanhadas ações de eficiência ener-
gética com relação a programas de conscientização, gestão de energia e emprego
de tecnologias energicamente eficientes. Estudos de eficiência energética em em-
presas comerciais, serviços ou seguimento industrial são fundamentais para a re-
dução de custos fixos, auxiliando campanhas e programas de eficiência energética
iniciados pelos órgãos governamentais e outras entidades, além de contribuir para
a preservação ambiental.
Existem diversos exemplos de ações que já fazem parte do nosso cotidiano, por
exemplo, torneiras que permanecem abertas por alguns segundos e interrompem o
fluxo de água automaticamente após o uso; sensores de presença, em corredores e
banheiros, que acionam a iluminação apenas quando há alguém no recinto; cartões
de acesso a quartos de hotéis, salas de aula, salas de reuniões e afins, que ao serem
posicionados internamente após abrir a porta, liberam a energia para todo o recinto,
campanhas de conscientização para uso racional de água e energia, entre outros.
Nas organizações industriais, a criação de grupos e campanhas pode ser um
bom começo. É possível identificar quais áreas ou setores têm um maior potencial
para redução no consumo de energia, levantando dados referentes à economia fi-
nanceira que pode ser gerada, quais as melhorias com relação ao impacto no meio
ambiente, qual o retorno social e econômico que a campanha trará etc.

capítulo 5 • 106
Pereira (2009) mostra também que, dentro do foco deste estudo, com relação
à energia elétrica, cada departamento pode ficar responsável por incluir ações no
plano de ação da organização industrial em questão, por exemplo:
•  Unificar o horário de almoço dos funcionários do setor, para que neste tem-
po toda a iluminação, aparelhos de ar-condicionado e monitores (no caso de seto-
res administrativos) possam ser desligados.
•  Individualizar ao máximo a iluminação do setor, de modo que seja possível
acionar apenas as luminárias realmente necessárias para determinada atividade ou
período do dia.
•  Em setores de logística e materiais, armazéns e afins, verificar a real necessi-
dade de iluminação, pois itens estocados não necessitam de iluminação.
•  Instalar sensores de presença em locais onde não há fluxo constante de
pessoas.
•  Instalar sensores fotoelétricos em ambientes com iluminação noturna, para
que ao amanhecer os mesmos desliguem a iluminação automaticamente,
•  Criar cartazes, atividades e premiações relacionadas ao uso consciente da
energia.

Essas e outras ações fazem parte do conceito envolvido na modulação fabril,


tema central deste estudo, com foco na energia elétrica, e que será abordado com
maior ênfase a partir de agora.

Metodologia para gestão da produção visando à redução do consumo de energia


elétrica em unidade fabril

A unidade fabril em estudo é uma empresa do setor de bens de consumo, que


produz bebidas e tem como principal produto a cerveja.
Uma cervejaria é basicamente dividida pelos setores que compõem a produção
(brassagem, filtração, adegas e packaging), os setores de apoio à produção (ETA,
ETEI e utilidades) e o setor de distribuição do produto final (logística).
A produção da cerveja se inicia na brassagem, uma estrutura vertical que fun-
ciona como uma “panela grande”, em que basicamente ocorre a mistura da água
tratada na ETA, com o malte (produto da germinação da cevada) em um processo
de fervura, portanto, é um processo que utiliza, além da água, o calor como uma das
utilidades. O produto resultante dessa fervura, chamado de mosto, sai da fervura
com aproximadamente 98 ºC e passa por um processo de resfriamento por meio de

capítulo 5 • 107
água gelada, sendo direcionado para a adega de fermentação, que tem como objetivo
armazenar o produto durante a etapa de fermentação, a aproximadamente 10 ºC.
O produto resultante do processo de fermentação passa por um trocador de
calor de dois estágios chamado de Fermat, que utiliza tanto o sistema zero quanto
o sistema negativo para diminuir a temperatura do produto fermentado que está
na casa dos 15 ºC. Após passar pelo Fermat, o produto entra na adega de matu-
ração com aproximadamente –1,5 ºC, em que passa pelo processo de maturação,
tendo sua temperatura mantida pelo sistema negativo.
Na saída da adega de maturação, o produto a –1,5 ºC passa por um processo
de blendagem, que basicamente consiste em homogeneizar a mistura com o auxí-
lio de água desaerada (água sem ar). O produto então entra na etapa de filtração
com aproximadamente 0 ºC. Na filtração, além de o produto ser resfriado nova-
mente a –1,5 ºC, são separados quaisquer resíduos sólidos da mistura líquida a ser
armazenada nas adegas de pressão (ADP). Estes resíduos são chamados de bagaço,
e além de serem descartados do processo, muitas vezes são revendidos, como for-
ma de complementar a alimentação de animais.
As ADPs fazem parte da etapa de pré-envase, em que a cerveja é mantida re-
frigerada em um sistema isolado enquanto não vai para a área de packaging. Todos
os resíduos gerados ao longo do processo são enviados para a ETEI a fim de serem
devidamente tratados. A área das adegas é uma das grandes consumidoras de ener-
gia elétrica em uma cervejaria, pois demanda uma grande quantidade de energia
elétrica para produzir o frio utilizado na refrigeração. O processo de produção de
cerveja leva em torno de dez dias para ser concluído, incluindo todas as etapas de
produção até estar pronto para ser envasado.
A área de packaging, uma das áreas que mais consome energia elétrica em uma
cervejaria, é onde a cerveja é envasada e encaminhada para a distribuição. Nesta
área, os vasilhames passam por um processo de lavagem a quente e secagem antes
de receber o produto (consumo de água, calor e energia elétrica). Durante o en-
vase, os vasilhames circulam por transportes (esteiras) que levam os mesmos para
todas as etapas do processo de packaging, que incluem, além da lavagem e seca-
gem, o preenchimento com o produto, a colocação do rótulo e da rolha (tampa), a
pasteurização (aquecimento e resfriamento do produto em tempos determinados,
aumentando a duração do mesmo), processo que faz com que o produto que antes
era chopp passe a ser a cerveja tradicional, e por fim os testes sensoriais, que têm o
objetivo de verificar o volume de cerveja nos vasilhames e verificar possíveis danos,
contaminantes etc.

capítulo 5 • 108
A ETA (Estação de Tratamento de Água) é responsável pela captação da água
em rios ou em poços e pelo processo de tratamento da mesma, de modo que esta
possa ser utilizada na produção da cerveja. A ETEI (Estação de Tratamento de
Efluentes Industriais) é responsável pelo tratamento químico e biológico de todos
os resíduos gerados na produção da cerveja, de modo que o efluente final possa
ser descartado de maneira segura e com o mínimo de impacto no meio ambiente.
A ETEI tem grande impacto no consumo de energia elétrica, pois tem bom-
bas responsáveis por manter a circulação do efluente em tratamento, entre outros
equipamentos que demandam alta quantidade de energia elétrica e não podem
deixar de operar.
A área de logística é basicamente composta pelos armazéns onde o produto
fica armazenado antes de ser redirecionado para os centros de distribuição e, pos-
teriormente, para os consumidores, e pelos depósitos de materiais e equipamentos
da unidade fabril. Sendo assim, a principal fonte de consumo de energia elétrica
neste setor é a iluminação, que é um importante item deste estudo e terá um item
próprio incluído na metodologia a ser apresentada, em conjunto com os demais
planos de ação referentes a este tipo de consumo.
A área de logística também é responsável por duas frentes extremamente im-
portantes da metodologia de modulação fabril, o planejamento de produção e a
malha de produção. O planejamento de produção, como o próprio nome diz,
consiste no processo de planejar a produção dentro da unidade fabril, com base
na malha, nas horas e nos equipamentos disponíveis e na demanda do merca-
do. A malha de produção é uma previsão do cenário de consumo dos produtos
feita semanalmente fundamentada na demanda de mercado, em dados estatísti-
cos, vendas, histórico do período do ano, entre outros itens e tem como objetivo
orientar o planejamento da produção. A malha é calculada para todas as unidades
fabris da empresa, uma vez por semana, prevendo o cenário para as próximas dez
semanas a contar da semana de publicação da mesma. A cada semana, os cálculos
são refeitos e a malha prevista anteriormente para determinadas semanas a frente
pode ser alterada.
A grande diferença do planejamento e da malha, é que mesmo o planejamento
tendo base na malha, é feito diariamente dentro das unidades fabris visando cum-
prir o volume de produção que foi estabelecido e não se altera. O planejamento
de produção, dentro da metodologia de modulação fabril, é feito com o auxílio de
uma ferramenta de modulação.

capítulo 5 • 109
A área de utilidades é a principal área de apoio à produção de cerveja, com
relação ao consumo de frio, ar comprimido, vapor e CO2, sendo a área que mais
consome energia elétrica em uma cervejaria, e portanto, será a área foco deste
estudo. Na área de utilidades, existem compressores que são responsáveis pela pro-
dução de ar comprimido, utilizado ao longo de todo o processo. Existem também,
compressores responsáveis pela distribuição do CO2 que será consumido ao longo
do processo, bem como outros equipamentos responsáveis por cada uma das eta-
pas do processo de seu beneficiamento.
A geração de vapor é feita pela queima de combustíveis em caldeiras, e em algu-
mas unidades fabris, por meio de cogeração (o combustível é queimado e dá origem
a dois tipos de energia: elétrica e calorífica), sendo este vapor distribuído pela fábrica
para ser utilizado ao longo do processo, principalmente no cozimento do mosto.
A geração de frio tem como objetivo fornecer baixa temperatura para os pro-
cessos que necessitam de refrigeração. O modelo mais simples de um sistema de
refrigeração consiste em um fluido que, ao circular pelo sistema e ter suas ca-
racterísticas físicas alteradas (volume e pressão), gera temperaturas muito baixas,
que podem ser transportadas diretamente para os processos ou serem utilizadas
para resfriar outro fluido cujas características o tornem mais apropriado para
o transporte.

Figura 5.1  –  Processo de refrigeração em cervejaria. Balanço Energético Nacional-BEM.

capítulo 5 • 110
Este é o caso do sistema de refrigeração a base de amônia (NH3). Neste siste-
ma, a amônia é utilizada para gerar temperaturas muito baixas e resfriar o fluido
etanol (C2H6O), que é transportado pela planta. A amônia não é transportada
diretamente por meio dos processos por ser considerada perigosa, caso ocorram
vazamentos. A utilização da amônia como fluido principal se justifica por este ser
o mais comum dos fluidos refrigerantes, pelo fato de a amônia não ser prejudicial
à camada de ozônio, não ser corrosiva quando utilizada na forma anidra (sem
contaminação com água) e principalmente por ter alta densidade, que possibilita
o uso de compressores menores, diminuindo a potência necessária para o sistema
funcionar, o que implica diretamente na redução do consumo de energia elétrica.
O reservatório de amônia é responsável por abastecer o compressor com amô-
nia gasosa em baixa pressão (AGBP), por meio da válvula de abastecimento. O
compressor tem a função de aumentar a pressão da amônia, distribuindo para o
condensador amônia gasosa em alta pressão (AGAT). O condensador resfria a
amônia gasosa, tornando a amônia líquida em alta pressão (ALAT). O resfriamen-
to é feito por meio da indução de ar frio na direção do encanamento contendo
amônia.
O ventilador é direcionado para a água gelada que entra no condensador e é
responsável por trocar calor com a amônia. Na sequência, aparece a garrafa acu-
muladora de líquidos, cuja função é armazenar a amônia líquida em alta pressão
e permitir a distribuição da mesma para o restante do sistema. A amônia líquida
em alta pressão é então direcionada para uma bifurcação. O primeiro caminho, à
direita, funciona como um escape.
A amônia passa por uma válvula de expansão, cuja função é diminuir sua pres-
são, por um processo de expansão de volume, tornando a amônia líquida em baixa
pressão (ALBP). A seguir, a amônia líquida em baixa pressão entra no separador
de líquidos, que consiste em um reservatório em que a amônia líquida se separa da
amônia gasosa, ficando depositada no fundo do mesmo.
A amônia líquida em baixa pressão sai então do separador de líquidos e passa
por uma bomba de NH3, que é especialmente utilizada para estimular o transpor-
te do líquido. Na sequência, existe outra válvula de expansão, que nesta posição
tem como função controlar a vazão de amônia e também sua temperatura. Na
sequência, aparece um evaporador, que transforma a amônia líquida em baixa em
pressão em gás, que novamente é depositado no separador de líquidos.

capítulo 5 • 111
CP
NH3 CD
NH3

TL
NH3

EV / CD
NH3 / CO2

CP
CO2

BB
CO2

Figura 5.2  –  Fluxo de refrigeração com NH3. Balanço Energético Nacional-BEN.

Toda a amônia gasosa em baixa pressão contida no separador de líquidos é


devolvida ao compressor, reiniciando o processo. No segundo caminho da bifur-
cação, a amônia líquida em alta pressão é direcionada para um trocador de calor,
no qual irá resfriar o fluido etanol, que será distribuído para atender as necessida-
des dos processos. Na saída do trocador de calor, temos amônia gasosa em baixa
pressão, que retorna para o separador de líquidos e é redirecionada ao compressor.
Existem dois sistemas de refrigeração na área de utilidades, o sistema zero e
o sistema negativo. Basicamente, o sistema zero consiste na refrigeração do eta-
nol a 0 ºC, enquanto o sistema negativo consiste na refrigeração do etanol a até
–3,5 ºC. O detalhamento do sistema de refrigeração com amônia é importante,
pois o sistema de frio será o grande foco da metodologia proposta, uma vez que se
trata do maior consumidor de energia elétrica dentro do setor que mais consome
energia, portanto, é o sistema individual que mais consome energia elétrica dentro
de uma cervejaria.

Modulação fabril

A modulação fabril pode ser entendida como toda e qualquer ação tomada
com objetivo de otimizar o consumo de energia elétrica, vapor e água em períodos
com baixa demanda dos produtos no mercado, e períodos de escassez de água (pe-
ríodo seco), uma vez que cerca de 70% da matriz energética brasileira é composta
por usinas hidrelétricas (MME), que dependem da disponibilidade de água para

capítulo 5 • 112
gerar energia elétrica. A necessidade de se otimizar o uso dos insumos relaciona-
dos à produção, se apoia no conceito de eficiência energética e na conservação de
energia, discutidos anteriormente.
As empresas buscam melhorias constantes e perseguem metas, que podem ser
afetadas pelos períodos de baixa demanda. Uma metodologia de otimização no con-
sumo dos insumos de produção pode ser a garantia de estabilidade nos períodos de
baixa demanda e um avanço nos períodos de alta demanda, impulsionando o cres-
cimento da empresa. Vantagens da aplicação da metodologia de modulação fabril.
Como dito anteriormente, o período que compreende os meses de maio a
novembro (período seco), é um período em que a demanda é reduzida, ou seja,
a procura pelo produto no mercado diminui, além de ser um período em que o
preço da energia, ou, mais especificamente para energia elétrica, o preço do kWh,
aumenta em função da baixa disponibilidade hídrica que implica em aumento dos
custos de geração de energia elétrica.
Como na maioria das empresas o consumo é tratado em termos de perfor-
mance, é necessário que a relação entre o consumo e a produtividade esteja sem-
pre próxima do planejado ou da meta estabelecida, no caso da unidade fabril em
estudo, o que pode ser um problema no período de baixa demanda, uma vez que
a produtividade diminui em uma proporção maior do que o consumo. Isso acon-
tece, pois dentro da unidade fabril, existe um consumo fixo (iluminação, perdas
magnéticas no núcleo dos transformadores das subestações de energia, geração de
frio não otimizada, tratamento de água etc.) que sempre estará presente, indepen-
dentemente do quanto está sendo produzido.
No ponto de vista econômico, este comportamento se repete, pois o valor
pago pela energia fica maior nos meses de baixa demanda. Somado aos problemas
do consumo fixo, da baixa demanda, do aumento do custo do kWh, e da baixa
performance, estão os problemas operacionais, que muitas vezes acabam passando
despercebidos em períodos de grande demanda, em que o grande volume produzi-
do dilui os desperdícios com energia, mascarando o problema. Desse modo, a mo-
dulação fabril é a metodologia ideal para este cenário, atuando na eficiência ener-
gética do processo e nas práticas operacionais, como este estudo visa comprovar.

Tipos de modulação fabril

Na modulação planejada, o desempenho do processo ou produto rece-


be um planejamento integrado, por meio da análise de múltiplos cenários de

capítulo 5 • 113
produtividade e da predição dos impactos em cada uma das áreas em seus respec-
tivos indicadores. Já na modulação relativa, não há um planejamento, apenas a to-
mada de decisões e adoção de algumas medidas no momento em que se necessita
parar a produção ou realizar alguma manutenção.
Em processos automatizados, são realizados, por exemplo, intertravamento
entre motores, gerenciamento do funcionamento de compressores, uso de com-
putadores lógico-programáveis (CLP’s) para reduzir a pressão do sistema em mo-
mentos de menor produção etc. Em processos manuais, são realizados, por exem-
plo, desligamentos da linha de produção em caso de queda de energia, redução da
pressão do sistema por meio de comando manual em válvulas, comunicação entre
as áreas para tomada de decisões em paradas e manutenções etc.
Nos níveis de metodologia para modulação fabril, conhecendo os dois tipos
de modulação fabril, podemos definir três níveis distintos de aplicação da meto-
dologia, em uma unidade fabril de bens de consumo:

É a metodologia mais básica de modulação fabril. Consiste em


desligamento de cargas e fechamento de válvulas para bloquear
NÍVEL I - o consumo de energia elétrica, vapor e água em momentos de
SHUTDOWN parada de produção e manutenção. Está associado à modulação
relativa.
É a metodologia que apresenta vários itens que devem fazer parte
NÍVEL II - das considerações durante a programação das linhas de produção,
PROTOCOLO DE a fim de otimizar o consumo de energia elétrica, vapor e água, por
MODULAÇÃO exemplo, a demanda de mercado, o custo da energia, a eficiência
de linha etc. Está associado à modulação planejada. Este nível será
FABRIL o foco deste estudo.

NÍVEL III - É a metodologia de gestão da unidade fabril voltada para otimiza-


PROGRAMAÇÃO ção do custo variável em vários cenários de alocação de volume
de produção.
FABRIL

Tem base em cálculos estatísticos e teóricos para previsão do consumo de


energia elétrica, vapor e água, para vários cenários de programação das linhas de
produção. Assim, com o cálculo do custo de cada cenário, escolhe-se o de menor
custo, muitas vezes sacrificando um indicador de determinada área em benefício
do custo total da fábrica. Está associado à modulação planejada.

capítulo 5 • 114
Programa de água e energia

Na modulação fabril, o programa de água e energia (energia engloba tanto


eletricidade como outras utilidades, como ar comprimido, CO2, frio, calor, en-
tre outros), consiste na conservação dos recursos naturais pelo desligamento dos
equipamentos consumidores de água e energia em todos os locais da unidade
fabril, durante paradas de produção e manutenções. As paradas de produção são
os intervalos em que a produção é interrompida, durante fins de semana, feriados,
inventários, quebras, desprogramação de linhas de produção, atividades de limpe-
za, PSM (Process Safety Management), ações emergenciais para controle de vaza-
mentos ou contenção de substâncias perigosas, grandes paradas para manutenção,
programação de linhas e higienização interna de equipamentos com substâncias
controladas.
A execução do programa de água e energia leva em conta dois parâmetros:

Equipamentos elétricos ou entradas de água são indicados como


PONTOS DE “a ser desligado” ou “a ser fechado” durante paradas de produção,
ÁGUA E ENERGIA por meio de etiquetas individuais.
Rotina dentro de uma área onde os interruptores de equipamen-
ROTA DE ÁGUA tos elétricos e válvulas de água são numerados e identificados
E ENERGIA como “pontos de água e/ou energia” por um adesivo colorido, de
modo que sejam desligados ou fechados durante determinadas
(SHUTDOWN) paradas de produção.

Por meio desses dois parâmetros, elabora-se uma etiqueta de identificação


para cada equipamento, que deve informar quais tipos de energia estão associados
ao mesmo, para quais tipos de paradas de produção deve-se atentar e se esse equi-
pamento deve permanecer desligado ou ligado durante a parada. Cada setor da
unidade fabril é responsável pela correta elaboração e utilização destas etiquetas de
identificação, pois os equipamentos localizados em diferentes setores têm particu-
laridades em sua operação que devem ser levadas em consideração.
A responsabilidade pela elaboração da etiqueta de identificação e pelo cum-
primento do que está sendo indicado é do supervisor da área, que pode eleger
funcionários que fiquem responsáveis especificamente por um equipamento ou
grupo de equipamentos, de modo a garantir a correta operação durante paradas.
O protocolo de modulação fabril para a área de processo que inclui a brassa-
gem, filtração e as adegas, tem as seguintes boas práticas operacionais:

capítulo 5 • 115
•  A unidade mantém o volume diário de produção alinhado com a malha
planejada par o mês? Para uma malha de produção de trinta dias, o volume diário
deve manter a relação de 1/30 (≈ 3,5%), para manter o volume armazenado (que
necessita de resfriamento e, portanto, consome muita energia elétrica) sempre o
mais próximo do ideal.
•  A unidade está operando com o mínimo de salas de brassagem? Novamente,
o uso das salas de brassagem deve estar alinhado com a malha de produção, pois
o consumo de energia elétrica é o mesmo, independentemente do volume em
cada uma das salas. Portanto, deve-se otimizar o uso das fábricas de acordo com a
produção planejada.
•  O planejamento de produção diário é revisado para otimizar o consumo de
utilidades? A produção de utilidades para consumo no processo deve ser otimizada
de acordo com o planejamento de produção.
•  A vazão do sistema de água desaerada é a mínima necessária para atender a
necessidade de utilização no processo? Mais uma vez, o uso de água desaerada (que
implica diretamente no consumo de frio e, por consequência, de energia elétrica),
deve estar alinhado com as necessidades do processo, para evitar que seja produzi-
da água desaerada em excesso e que fique recirculando pelo sistema, consumindo
mais energia do que o necessário.
•  A unidade está operando com o número mínimo de centrífugas? Para ga-
rantir o número mínimo de centrífugas em operação, deve-se avaliar a capacidade
de centrifugação das mesmas com relação à malha de produção da unidade.
•  A unidade está operando com o número mínimo de filtrações? Para garantir
o número mínimo de filtrações em operação, deve-se avaliar a capacidade de filtra-
ção das mesmas com relação à malha de produção da unidade.
•  A unidade está operando com o nível de enchimento máximo nos tanques
(adegas) de fermentação e maturação? O conteúdo das adegas necessita de resfria-
mento, e o mesmo ocorre pela superfície de contato das adegas com o produto
armazenado. Caso o nível de enchimento esteja reduzido, haverá perda de energia
térmica no espaço vazio do tanque, que resulta em desperdício de frio e, por con-
sequência, de energia elétrica.
•  As adegas de fermentação e maturação não utilizadas têm suas atividades
isoladas? Adegas fora de funcionamento não devem consumir energia.
•  A unidade está trabalhando com o número de adegas de pressão (ADP)
conforme o planejado? As adegas de pressão têm como objetivo apenas armazenar
o produto finalizado que vai ser envasado.

capítulo 5 • 116
O protocolo de modulação fabril para a área de packaging tem as seguintes
boas práticas operacionais:
•  As linhas de packaging individuais são desligadas e isoladas quando não es-
tão produzindo? As linhas que não forem incluídas na programação de produção
diária devem ser totalmente desligadas e ter todas as utilidades isoladas.
•  Os equipamentos individuais em cada uma das linhas de packaging são des-
ligados e isolados quando não estão em operação? As linhas são divididas em par-
tes, responsáveis por determinadas etapas do processo de envase, desde a lavagem
do vasilhame até o empacotamento. Caso uma das etapas não esteja em operação,
os equipamentos devem ser desligados e ter suas utilidades isoladas.
•  O planejamento de produção diário é revisado para otimizar o consumo de
utilidades? A produção de utilidades para consumo no packaging deve ser otimiza-
da de acordo com o planejamento de produção e volume de mosto filtrado.
•  As linhas de packaging estão sendo programadas de forma a reduzir o núme-
ro de paralisações, ligamentos e desligamentos? A operação contínua da linha deve
ser garantida, pois evita o excesso de paradas e partidas de motores, além de evitar
superaquecimento nas lavadoras e nos pasteurizadores.
•  Os transportes das linhas de packaging estão programados para desligar após
um tempo predeterminado em que a linha esteja parada? É comum encontrar linhas
com a produção parada onde os transportes continuam em operação, rodando em
falso em pontos com travas de vasilhames ou caixas, ou rodando a vazio.

Boas práticas operacionais e consumo de energia elétrica nas ETEI/ETA

O consumo de energia elétrica em um dia (supondo que a unidade fabril rode


as 24h), nas ETEI/ETA da unidade fabril em estudo, pode ser resumido como
2500 kWh para a ETA e 18.500 kWh para a ETEI, totalizando 21.000 kWh de
consumo de energia elétrica diário no tratamento de água. Como mencionado
anteriormente, a potência instalada nas ETEI/ETA é composta basicamente por
grandes bombas, responsáveis pela maior parte do consumo de energia elétrica,
por alguns filtros e aeradores.
O protocolo de modulação fabril para a área de ETEI/ETA tem as seguintes
boas práticas operacionais:
•  A vazão de captação de água na ETA é ajustada conforme a programação
de produção diária? Novamente, desde o início do processo, na captação e no
tratamento de água, o volume deve estar alinhado com a previsão de produção.

capítulo 5 • 117
•  Os filtros de água da ETA estão sendo isolados quando a vazão de água cap-
tada é reduzida? A utilização dos filtros deve ser reduzida de acordo com a vazão
da captação de água, para otimizar o consumo de energia elétrica do processo de
tratamento.
•  A unidade está operando com os aeradores da ETEI de acordo com a taxa
de oxigênio nos tanques de aeração? Basicamente, um processo simples de modu-
lação. Modular o funcionamento dos aeradores com base na taxa de oxigênio dos
tanques, que depende do volume de produção.
•  Todas as bombas de grande porte das ETEI/ETA estão modulando de acor-
do com o volume produzido? Novamente, modulação simples. Modular o funcio-
namento e volume tratado com base na demanda do processo.

O consumo de energia elétrica em um dia (supondo que a unidade fabril rode


as 24h), referente à logística mais toda a iluminação da unidade fabril, consiste em
cerca de 10.000 kWh. As lâmpadas utilizadas nos armazéns e áreas produtivas são
lâmpadas a vapor incandescentes, com cerca de 400 W cada, nas áreas administra-
tivas, as lâmpadas são fluorescentes com potência média de 30 W cada.
O protocolo de modulação fabril para a área de logística e para a Iluminação
tem as seguintes boas práticas operacionais:
•  A suficiência de vasilhames está maior ou igual a dois dias? Caso não haja
vasilhames suficientes, a programação da produção deve ser revista e deve-se cal-
cular o impacto no consumo de energia elétrica.
•  A política de estoque é mantida entre o objetivo e o mínimo para cada tipo
de produto? Um estoque maior do que o necessário faz crescer a demanda por
iluminação em rotinas de checagem da área de logística, fora o fato de estar desa-
linhada com a previsão de produção.
•  A iluminação é desligada nas áreas de produção quando as linhas ou equi-
pamentos estão desligados? Equipamentos não operantes e sem a presença de ope-
radores e/ou técnicos de manutenção não necessitam de iluminação.
•  Foi feito um esforço de racionalização do consumo de energia elétrica refe-
rente à iluminação dentro de todas as áreas da unidade fabril? É comum encontrar
dentro da unidade fabril lâmpadas acesas em ambientes externos durante o dia,
em ambientes de baixo fluxo de pessoas, em armazéns onde não está ocorrendo
nenhuma atividade de checagem da logística etc. A instalação de sensores fotoelé-
tricos, sensores de presença e subdivisão de circuitos de iluminação é uma ação
simples e que pode resolver a grande maioria destes problemas.

capítulo 5 • 118
•  A unidade apresenta um programa de conscientização para o uso da energia
elétrica? Não basta atender os problemas no nível técnico se não houver um esfor-
ço de conscientização dentro da unidade, que seja aplicado desde a parte adminis-
trativa até o chão de fábrica, ensinando as pessoas a melhor maneira de utilizar a
energia elétrica e evitar o desperdício.

O protocolo de modulação fabril para a área de utilidades é talvez o mais im-


portante deste estudo e tem as seguintes boas práticas operacionais:
•  A unidade está operando com o mínimo de compressores de frio? A gera-
ção de frio e distribuição para as linhas de produção e adegas deve estar alinhada
com a previsão de produção e ser otimizada de acordo com o número total de
compressores.
•  Os compressores de frio com maior eficiência estão sendo priorizados na
operação? Uma vez determinado o número de compressores a serem utilizados,
deve-se escolher aqueles que apresentam a melhor eficiência energética para serem
colocados em operação.
•  A unidade está operando com o mínimo de compressores de ar comprimi-
do? Mesmo raciocínio feito com relação aos compressores de frio.
•  O sistema de controle otimiza o uso de compressores equipados com in-
versores de frequência para reduzir a carga elétrica total? Os compressores devem
modular de acordo com a demanda do processo. Para otimizar esta modulação,
devem ser utilizados inversores de frequência, com o objetivo de melhorar o con-
trole de velocidade dos motores associados aos compressores e, por consequência,
melhorar a geração de utilidades dos mesmos.
•  A unidade está operando com o número mínimo de caldeiras? Mesmo ra-
ciocínio feito com relação aos compressores de frio e de ar comprimido.
•  A unidade está operando sem caldeiras em standy by? Caldeiras em standy
by consomem energia elétrica mesmo fora de operação.
•  Em sistemas com múltiplas bombas, as bombas com maior eficiên-
cia energética estão sendo priorizadas? Mesmo raciocínio feito com relação aos
compressores.
•  O planejamento de produção diário está sendo revisado para otimizar o
consumo de utilidades? Novamente, a geração e o consumo de utilidades devem
sempre estar alinhados com a malha de produção.
•  Todas as manutenções periódicas e preventivas dos componentes do sis-
tema de refrigeração estão corretamente detalhadas no plano de manutenção e

capítulo 5 • 119
sendo executadas de acordo com o plano? Seguir o plano de manutenção é um
compromisso da unidade que não pode deixar de ser realizado. Equipamentos
que não recebem manutenção adequada operam com maiores perdas e são menos
eficientes do ponto de vista energético, além de prejudicarem a produção, caso
venham a quebrar.
•  É realizada a limpeza nos ventiladores e trocadores de calor periodicamente,
a fim de eliminar poeira, óleo e resíduos? A limpeza adequada permite que a troca
de calor ocorra de forma natural e conforme o esperado. Sujeira acumulada pode
interferir na troca de calor, ocasionando perdas e, por consequência, reduzindo a
eficiência energética do sistema.
•  Os ventiladores e as bombas dos condensadores estão operando de acordo
com o rendimento do projeto (vazão, pressão, entre outros)? A redução do rendi-
mento destes equipamentos tem impacto direto na eficiência energética do processo.
•  O óleo é drenado diariamente nos reservatórios com base no cronograma
de manutenção preventiva? Para um bom funcionamento do sistema de frio e ar
comprimido, os compressores e bombas devem estar bem lubrificados, e para isso,
é necessário realizar a troca de óleo diária de seus reservatórios. A amônia é capaz
de arrastar o óleo pelo compressor caso o mesmo esteja fora dos padrões, provo-
cando contaminação do sistema.
•  O sistema de amônia opera com a maior pressão de sucção e a menor pres-
são de descarga possível? A diferença entre o valor da pressão de descarga do com-
pressor e sua pressão de sucção é o que define o seu trabalho, ou seja, quanto
maior essa diferença, mais o compressor tem que trabalhar, e assim, mais energia
ele consome. Esta prática é extremamente importante e dá origem a dois índices
de verificação que serão mostrados a seguir.

Ciclo PDCA

Uma das ferramentas mais tradicionais utilizadas para controle e melhoria


contínua de processos e produtos é o Ciclo PDCA (Plan – Do – Check – Act),
uma ferramenta interativa composta de quatro ciclos:
Planejar: estabelecer objetivos e processos necessários para entregar resultados
e/ou atingir objetivos.
Desempenhar: implementar o plano, executar o processo e coletar dados para
mapeamento e análise dos próximos passos.
Checar: estudar o resultado obtido e compará-lo com o resultado esperado, de
modo a obter informações pertinentes para a última etapa.

capítulo 5 • 120
Atuar: determinar onde aplicar as mudanças definidas na melhoria do proces-
so, analisar possíveis diferenças entre o resultado obtido e o resultado planejado e
tomar ações corretivas em cima destas diferenças, com objetivo de refinar todo o
processo de análise.
• Ação corre�va
• Localizar
no insucesso
problemas
• Padronizar e
• Estabelecer
treinar no
Ac�on Plan planos de ação
sucesso
Agir Planejar

• Verificar Check Do
a�ngimento Checar Fazer • Execução do
de meta plano
• Acompanhar • Colocar plano
indicadores em prá�ca

Figura 5.3  –  Ciclo PDCA. Elektro.

A metodologia de modulação fabril segue basicamente os mesmos passos do


Ciclo PDCA, se aprofundando nos detalhes do processo e sempre com foco na
eficiência energética.

RESUMO
O Brasil conseguiu um importante aprendizado com a regulação das atividades das con-
cessionárias para realização na área de eficiência energética. Além disso, a crise de energia
teve grande papel pedagógico, disseminando informações e alterando alguns hábitos e algu-
mas práticas dos consumidores.
Finalmente, foi possível criar mecanismos para assegurar recursos públicos estáveis à
promoção da eficiência energética de interesse da sociedade e uma legislação para melhorar
o desempenho dos equipamentos que consomem energia. Esses são ingredientes necessá-
rios para um futuro promissor, no que se refere a possibilidades reais de melhoria nos usos
de energia. No entanto, não são garantia suficiente para tal. Faltam estudos aprofundados de
planejamento energético que possibilite a avaliação mais precisa do potencial de recursos de
eficiência energética e os custos para explorá-lo.
Esses tipos de avaliações são práticas comuns de processos de planejamento com base
em metodologias, como o planejamento integrado de recursos. Ainda é fundamental esta-

capítulo 5 • 121
belecer diretrizes na direção de uma política para a eficiência energética. Com as reformas
setoriais, é ainda mais importante a explicitação de políticas públicas que coordenem as
atividades dos diversos setores envolvidos com eficiência energética: MME, MCT, ANEEL,
empresas de energia, fabricantes de equipamentos e consumidores.
Em resumo, temos em 2002 uma boa base para explorar a partir de uma sociedade
sensibilizada pela questão de abastecimento energético, recursos estáveis, lei de eficiência
energética. É necessário, entretanto, uma política pública para eficiência energética para
destacar prioridades, metas e planos de ação.

ATIVIDADES
01. Para uma análise, em termos de eficiência energética, sabemos que uma ambientação
será sempre necessária numa unidade industrial para se permitir um conhecimento suficien-
temente profundo dos fluxos produtivos. Na óptica de eficiência energética, os itens abaixo
são fundamentais, exceto:
a) Aprendizagem da utilização de um analisador de redes e formação da sua utilização à
equipe de manutenção da unidade industrial.
b) Identificação e a caracterização, por meio da sua desagregação, dos consumos ener-
géticos.
c) Análise da iluminação atual e proposta de soluções luminotécnicas.
d) Análise aos sistemas acionados por motores elétricos de potência superior a 5,5 kW.
e) Todas as afirmativas anteriores estão incorretas.

02. O uso eficiente de energia está estritamente relacionado com a consecução de impor-
tantes objetivos mais abrangentes e de interesse da sociedade. Marque a seguir a única
alternativa que não corresponde a tais interesses.
a) Contribuir para aumentar a confiabilidade do sistema elétrico.
b) Aumentar anualmente os valores tarifários para os consumidores finais para garantir a
autonomia do Sistema.
c) Reduzir ou postergar as necessidades de investimentos em geração, transmissão e dis-
tribuição.
d) Reduzir impactos ambientais (locais e globais) especialmente relacionados com a pro-
dução de eletricidade.
e) Deduzir custos de energia para o consumidor final.

capítulo 5 • 122
03. O que é modulação fabril?

04. Na implantação do Ciclo PDCA, ao que visa o plano de atuação?

05. Quais os níveis de metodologia para modulação fabril?

06. Qual a definição de FP segundo a ANEEL?

07. O que vem a ser o ciclo PDCA?

CONEXÃO
Aprenda mais
Consulte também as seguintes fontes como complementação ao conteúdo abordado
nesse capítulo:
<http://www.cogensp.com.br>
<http://www.eficiencia-energetica.com>
<http://www.aneel.gov.br/>

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Ministério de Minas e Energia. Balanço Energético Nacional – BEN. Rio de Janeiro: Empresa de
Pesquisa Energética (EPE), 2015, 292p.
ELEKTRO et al. Eficiência energética: fundamentos e aplicações. Campinas: Contraste Brasil, 2012.
314p.
ELETROBRAS EDUCAÇÃO. Conservação de energia: eficiência energética de equipamentos e
instalações. 3. ed., Itajubá: 2006, 597p.
HINRICHS, R. A.; KLEINBACH, M.; REIS, L. B. dos. Energia e meio ambiente. Tradução da 4.ed.,
norte-americana. São Paulo: Cengage Learning, 2011. 708p.
MENDES, J. E. A. Eficiência energética aplicada na indústria de bebidas em sistemas de
refrigeração e ar comprimido – estudo de casos. 2014. 141f. Dissertação (Mestrado em Engenharia
Mecânica) – Faculdade de Engenharia – Campus de Guaratinguetá, Universidade Estadual Paulista,
Guaratinguetá: 2014.

capítulo 5 • 123
GABARITO
Capítulo 1

01. Letra E. Conforme o primeiro capítulo, o gás natural é um combustível fóssil, isolado ou
acompanhado do petróleo, cujo consumo tem aumentado, por ser menos poluente que os
outros combustíveis fósseis, porém, como fóssil, sua fonte é considerada não renovável. É
utilizado como recurso energético e em indústrias.

02. Letra A. Conforme abordado nesta aula, a sustentabilidade é dividida em três principais
pilares: social, econômico e ambiental. Para se desenvolver de forma sustentável, uma em-
presa deve atuar de forma que esses três pilares coexistam e interajam entre si de forma
plenamente harmoniosa. Neste exercício, o texto aborda claramente as questões relaciona-
das à sustentabilidade social.

03. Modificando o contrato de fornecimento de energia elétrica com a concessionária, ins-


talando controladores de demanda ou fazendo um desenho de processos de ligações de
máquinas que evitem que várias delas estejam ligadas ao mesmo tempo, influenciando o
valor de demanda verificada em um dado momento.

04. Minimizar ao máximo os impactos ambientais causados pela produção.

05. Possivelmente com fragmentação do saber em busca de um planejamento que viabilize


o diálogo entre o acadêmico e social.

06. Hidrelétrica, eólica, solar e biocombustíveis são algumas fontes de energias renováveis.

07. Utilização de motores de pequena potência, transformadores operando em baixa carga


ou sem carga, lâmpadas fluorescentes, vapor de mercúrio ou sódio, pois utilizam reatores.

Capítulo 2

01. Letra C. Uma das principais vantagens de um sistema de geração distribuída é a elimi-
nação das baterias, o que reduz bastante o investimento nos sistemas de geração. Em mo-
mentos em que a geração é maior do que o consumo, em vez de ser armazenada em bancos
de bateria, a energia excedente é injetada na rede da concessionária.

capítulo 5 • 124
02. Letra A. Em relação às desvantagens da cogeração, fica-nos claro, conforme nossas
aulas, que apresenta como limitação o fato de o calor produzido apenar ser usado perto do
centro produtor, devido à dificuldade no transporte. Isso limita as instalações de cogeração
a unidades pequenas, em comparação com as centrais térmicas convencionais. O limite de
distância para o transporte de calor ser economicamente viável fica em torno de 5 km. Para o
frio, usando como veículo água gelada, a distância econômica não passa de 500 m.

03. Uma das principais vantagens de um sistema de geração distribuída é a eliminação das
baterias, o que reduz bastante o investimento nos sistemas de geração.

04. Os sistemas de cogeração geralmente são compostos por um equipamento que, por
meio de combustível, produz a energia mecânica que será transformada por um gerador em
energia elétrica e outros equipamentos que produzirão a energia térmica, que pode ser calor
ou frio.

05. Trigeração pode ser definida como uma extensão da cogeração, a qual envolve a produ-
ção simultânea de eletricidade, calor e também frio.

06. Tecnologias com custos elevados, preocupações ambientais das populações locais, ine-
xistência de infraestrutura e mercado de recursos, custos de coleta, transporte e acondicio-
namento da biomassa, são algumas desvantagens.

07. A geração distribuída consiste em estabelecer diversos pontos de geração de energia


junto aos pontos de consumo.

Capítulo 3

01. Letra E. O Brasil tem grande potencial para ser referência em tecnologia do hidrogê-
nio e ficar autossuficiente em energia em todas as formas de aproveitamento de energia,
incluindo o petróleo. É um ponto estratégico e crucial para o desenvolvimento e crescimen-
to econômico do país. Com uma grande capacidade hidráulica e sucroalcooleira, o Brasil
poderá produzir hidrogênio para exportar e utilizar em suas próprias células a combustível.
Nosso país poderá ser uma referência mundial em autossuficiência em energia e exportador
da tecnologia célula a combustível e de hidrogênio, além de outras tecnologias de energia
alternativa, como o biodiesel. Estamos começando a viver a era do hidrogênio, na qual os pri-

capítulo 5 • 125
meiros passos estão sendo dados para que a economia com base no petróleo se transforme
em breve na economia do hidrogênio.

02. Letra E. Para obter o hidrogênio isolado e transformá-lo em energia, ele passa por um
conversor, chamado de célula a combustível. Esse dispositivo teve sua origem em 1839,
antes mesmo da invenção do motor a combustão. Na época, o inglês William Grove imaginou
que, se a energia elétrica pode ser usada para dividir a água em hidrogênio e oxigênio, seria
possível inverter o método e usar hidrogênio para gerar energia. Gerhard Ett, engenheiro quí-
mico do Instituto de Pesquisa e Tecnologia de São Paulo, explica que a densidade energética
da célula a combustível é superior à das baterias, por exemplo. “Além disso, a energia produ-
zida é 100% limpa e tem eficiência 60% superior. Nesse processo, o CO2 só é gerado na
fabricação do material das placas de células a combustível. Consequentemente, se torna um
importante combustível por ter um ciclo de vida com impactos ambientais baixo”, afirma ele.

03. As reações anódicas e catódicas representam, de uma maneira geral, a ruptura das
ligações químicas entre dois átomos de hidrogênio e de oxigênio respectivamente. A ruptura
das moléculas diatômicas H2 e O2 requer uma energia de ativação da mesma ordem de
grandeza de suas energias de formação, quando as reações são homogêneas e ocorrem em
fase gasosa.

04. Células a combustível são, em princípio, baterias de funcionamento contínuo, que produ-
zem corrente contínua pela combustão eletroquímica a frio de um combustível gasoso, geral-
mente hidrogênio. Assim, o hidrogênio é oxidado a prótons num eletrodo de difusão gasosa,
liberando elétrons, segundo a reação: H2  2 H+ + 2 e–. No eletrodo oposto, também de
difusão gasosa, considerando-se as células como a membrana trocadora de prótons (meio
ácido), tem-se a reação: 2 H+ + 2 e– + 1/2 O2  H2O.

05. Essas células apresentam algumas vantagens em relação a outros tipos de células com-
bustíveis, como facilidade de gerenciamento do eletrólito (SOFC) e a não necessidade do
uso de metais nobres como catalisadores. Também têm maiores valores de eficiência teórica
de conversão e alta capacidade de coprodução eletricidade/calor. A elevada temperatura de
operação favorece a cinética das reações eletródicas e permite a reforma do combustível
(ex.: hidrocarbonetos ou gás natural) no próprio corpo da célula.

06. A geração de energia com base no hidrogênio apresenta inúmeras vantagens como
uma energia limpa e que não traz impactos ao meio ambiente. Cada vez mais as células de

capítulo 5 • 126
combustível estarão presentes em setores automotivos, eletrônicos portáteis e em unidades
estacionárias de geração de energia. Um dos grandes problemas da obtenção de energia
com base no hidrogênio é que para a implementação desta tecnologia se tem um custo
elevado. O alto custo dos projetos ainda não confere ao hidrogênio um caráter de competiti-
vidade no mercado quando comparado às formas de geração de energia mais usadas.

07. O eletrólito é um polímero, tem alta densidade de potência quando comparada a outras
células, é aplicável em veículos automotores.

Capítulo 4

01. Letra C. A utilização racional da energia, chamada também simplesmente de eficiência


energética, consiste em usar de modo eficiente a energia para se obter determinado resulta-
do. Por definição, a eficiência energética consiste na relação entre a quantidade de energia
empregada em uma atividade e aquela disponibilizada para sua realização.

02. Letra E. No Brasil, a indústria de alimentos e bebidas é uma das principais indústrias de
transformação e, consequentemente, uma das que mais consomem energia, algo em torno
de 25% do consumo de toda a indústria brasileira, ficando atrás apenas da indústria metalúr-
gica. Na indústria de alimentos e bebidas, pode-se dividir o consumo em calor de processo,
aquecimento direto, força motriz, refrigeração, iluminação, entre outros. Todavia, estes são
consumos necessários para o produto final, ou seja, são indispensáveis durante a produção.
Por isso a importância de reduzi-los (SATO, 1997). Nas indústrias cervejeiras, destaca-se a
quantidade de linhas de produção, que pode passar de 15 linhas em algumas plantas fabris.
A empresa em estudo por sua vez tem cinco linhas de engarrafamento de cerveja. Com
capacidade para envasar seis milhões de hectolitros [6] por ano (CERVIERI JÚNIOR et al.,
2014). Uma de suas principais metas globais para 2017, é a redução de 10% do consumo
de energia elétrica em relação ao ano de 2012. Assim, no exercício em questão, a empresa
deverá aumentar a aquisição de refrigeradores ecológicos.

03. Projeto é um empreendimento não repetitivo, caracterizado por uma sequência clara e
lógica de eventos, com início, meio e fim, que se destina a atingir um objetivo claro e definido,
sendo conduzido por pessoas dentro de parâmetros predefinidos de tempo, custo, recursos
envolvidos e qualidade.

04. Definição do projeto, plano do projeto e controle do projeto.

capítulo 5 • 127
05. Fase de desenvolvimento de projeto.

06. Num conceito atual, projetos de EE devem recuperar pelo menos os fundos destinados
para o seu desenvolvimento e implantação, isto é, custos originados antes da execução, os
derivados dos investimentos necessários para desenvolvê-lo

07. Por meio de mudanças radicais de costumes, pensamento e postura

Capítulo 5

01. Letra E. Todas as afirmativas estão alinhadas corretamente com um sistema de modu-
lação industrial para fins de melhoria contínua e sustentabilidade energética numa planta in-
dustrial.

02. Letra B. A redução do uso de energia nos processos produtivos ou em sistemas que
proporcionam conforto e amenidades não é um fim em si mesmo. Naturalmente, o que se
busca é sua sustentabilidade, com autonomia e redução de impactos ambientais, de forma
que a qualidade dos serviços seja efetiva para os consumidores finais, sem necessariamente
aumentar os valores tarifários para os mesmos.

03. A modulação fabril pode ser entendida como toda e qualquer ação tomada com objetivo
de otimizar o consumo de energia elétrica, vapor e água em períodos com baixa demanda
dos produtos no mercado e períodos de escassez de água.

04. Determinar onde aplicar as mudanças definidas na melhoria do processo, analisar possí-
veis diferenças entre o resultado obtido e o resultado planejado e tomar ações corretivas em
cima destas diferenças, com objetivo de refinar todo o processo de análise.

05. Shutdown, protocolo de modulação fabril e programação fabril.

06. FP significa fator de potência.

07. Trata-se de uma das ferramentas mais tradicionais utilizadas para controle e melhoria
contínua de processos.

capítulo 5 • 128