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Linhas Temáticas:

1) A dor de pensar é uma das linhas temáticas da poesia de Fernando Pessoa ortónimo, na qual se expressa a dualidade
consciência/inconsciência e a problemática sentir/pensar. O poeta, ser consciente, constata que a extensão dos seus
sentimentos é constantemente diminuída pela vastidão o seu pensamento que corrompe a inconsciência inerente a
própria felicidade de viver. Assim, a sua consciência surge como um fardo e uma fatalidade que desencadeia no poeta
um estado de desencanto e impotência perante o absurdo da existência, já que por um lado não consegue libertar-se
do peso da reflexão, mas também não alcança a alegre inconsciência da ceifeira, mantendo intacta a sua própria
consciência. Simplesmente paradoxal, pois consciente de que jamais será consciente, sofre a dor de pensar e paga
caro a extrema lucidez que possui. (“Ela canta, pobre ceifeira” e “Gato que brincas na rua”)

2) A nostalgia da infância é um dos aspetos focados na poesia ortonímica e surge como consequência do desejo do
poeta regressar aos tempos em que foi criança e feliz, a época longínqua do bem, da unidade, da inconsciência e da
verdade. A infância surge sempre como a época inocente em que não havia ainda o drama da dor de pensar, é sinónimo
de segurança, pureza e felicidade e o poeta evoca esses tempos através da memória que acaba por trazer-lhe mais
angustia e solidão, quando se apercebe que essa época não é mais do que um paraíso longínquo, perdido na memoria
do tempo. Assim, ao negar lhe toda a sua felicidade, o Presente funciona como o marco de sublimação do Passado,
abrindo passagem para a típica saudade nostálgica dessa infância lembrada e esquecida. (“Quando era criança”,
”Pobre velha musica”)

3) Sonho/realidade é também um dos temas que percorre a poesia ortonímica e retrata a multiplicidade do “EU” que
faz introspeção, inquieta-se e desdobra-se noutros seres, despersonalizando-se. Marcado pelo fluir contínuo do
tempo, Pessoa sente-se separado de si próprio, distante do passado e do futuro, restando-lhe apenas o ser que é no
instante que passa e não aquele que existe na duração do tempo. Assim, Pessoa exprime nos seus poemas um misto
de inquietação e absurdo perante esta divisão do Ser que o faz sentir-se estranho de si mesmo, fragmentado entre o
Real e o Ideal e acabando, efetivamente, por ser um ser perdido no labirinto de si mesmo, não encontrando o fio que
o conduziria à saída e lhe permitiria alcançar o equilíbrio interior. (“Não sei se é sonho, se realidade”)

4) O Fingimento poético é uma das dialéticas da poesia do ortónimo, na qual o poeta sofre uma forte tensão que
conduz ao antissentimentalismo e à intelectualização da emoção. Para Pessoa, fingir é inventar, ou seja, é elaborar
conceitos que exprimem emoções, gerando uma nova conceção da arte, antirromântica, despersonalizada, expressão
de sensações intelectualizadas, onde a imaginação ocupa o papel principal e a arte é criada a partir de inspiração
individual. Pessoa não transmite na sua poesia a emoção pura e simples, mas submete-a sempre ao exame da
inteligência e da razão poética, deixando que o seu “crivo” a racionalize, afastando-se do tradicional sentimentalismo,
típico do passado. Assim, a arte nasce da realidade e consiste no fingimento dessa realidade, ou seja, na sua
intelectualização, a qual e materializada em texto. (“Autopsicografia”). Neste âmbito, a composição de um poema
nunca ocorre no momento da emoção, mas no momento da recordação dessa emoção.