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Universidade Federal de Goiás

Faculdade de História

Ian Pereira Alves

Ficha de Leitura:

Ditadura militar brasileira: aproximações teóricas e historiográficas.

Goiânia
2019
Tese

Após o Golpe de 1964 e a Ditadura Militar se tornarem assuntos típicos nos


textos de historiadores ​— não obstante sua tradição constituída inicialmente na
Ciência Política ​— e novas fontes serem reveladas tanto para o debate acadêmico
quanto à sociedade, o desafio para a compreensão do período ditatorial se tornou
fundamentalmente ​hermenêutico​. Em outras palavras, o conhecimento dependia da
capacidade de interpretação e da criação de novas hipóteses pelos historiadores.
Nesse sentido, constantes embates foram travados entre distintos aportes teóricos
estabelecidos por diversos tipos de pesquisadores — podendo ser definidos,
esquematicamente e de forma simplificada, entre os historiadores com perspectivas
mais culturalistas e os marxistas. Fico busca afirmar, então, a existência de um
“vício” na historiografia sobre a ditadura brasileira. Tal tendência, com toques de
ironia, presente nos trabalhos de diversos autores, colocaria a questão da “luta
armada” como central dentro dos debates. Curiosamente, no entanto, o autor
procura mostrar que, apesar dessa atenção à “luta armada”, um aspecto vital é
deixado de lado: a questão do “trauma”, advindo da experiência dos anos de conflito,
como um objeto historiográfico. O “trauma”, assim argumenta Fico, seria
possivelmente demonstrado como tanto como o lugar de geração dessa memória
“confortável”, da qual trata Reis, quanto como a causa da construção da “luta
armada” como fato emblemático da ditadura. Portanto, é defendido pelo autor a
abertura de um novo campo de pesquisas dentro da historiografia brasileira, muito
menos sujeito à influência das teses dos clássicos “explicadores do Brasil”, como
Freyre e DaMatta, e aberto à novas discussões através de suportes teóricos e
empíricos.
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Debate historiográfico/Argumentação

Propondo fazer um balanço dos principais trabalhos sobre o Golpe de 1964 e


o regime militar brasileiro, Fico divide sua análise em cinco pontos principais: 1)
avaliação do “conflito” entre historiadores denominados ​revisionistas contra
marxistas;​ 2) crítica à concepção de Daniel Aarão Reis sobre uma “memória
confortável” relacionada à ditadura e suas disputas; 3) defesa da noção de
“retroalimentação” para a “luta armada” e a repressão; 4) debate sobre periodização
e denominação sobre o golpe e os governos militares e 5) argumentação sobre a
efetividade da aplicação da perspectiva de distensão “lenta, gradual e segura”
(FICO, 2017, p. 7).

Sobre o primeiro ponto, o autor o divide, uma vez mais, em quatro


subsequentes assuntos, buscando tratar: do suposto caráter golpista de Goulart; das
ditas tendências não democráticas da esquerda; dos debates entre culturalistas e
marxistas, assim como suas ramificações; da utilização (ou sua recusa) do conceito
de “classe social”.

Tratando-se especificamente do ​golpismo de Goulart​, Fico apresenta as teses


do cientista político Alfred Stepan, ao qual o autor credita o papel de ter sido o
primeiro a considerar Goulart como golpista no meio acadêmico, e do historiador
brasileiro Marco Antônio Villa. Ambos autores defendem ter havido uma
radicalização promovida pelo presidente que minou todas as chances de construir
uma base de apoio e que Goulart, junto à uma esquerda radical, visava aprovar as
reformas de base à custo da democracia. Contudo, para Fico, se Jango “jogou
pesado”, tal ato não pode ser indicação de golpismo (FICO, 2017, p. 10)

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​Apesar da estrutura proposta para o trabalho, na qual essas duas instâncias teriam tópicos
separados, optei por fazê-las juntas por conta da especificidade do próprio texto de Fico. Como o
autor possui pretensões de realizar um “apanhado” da historiografia recorrente sobre o Golpe de 1964
e a Ditadura Militar, considera-se (por questão de lógica) que qualquer argumento utilizado seja uma
intervenção na discussão historiográfica. Logo, de modo semelhante, qualquer questão típica da
historiografia levantada está inserida dentro das argumentações e intenções de escrita do próprio
autor. Nesse sentido, tal divisão, já sendo problemática em outros textos, se torna impraticável no
artigo de em questão.
Ainda em consonância com as ideias de Villa e, especialmente, de Stepan,
autores como Wanderley Guilherme dos Santos e Argelina Figueiredo reiteram,
desse modo em consonância com historiadores como Jorge Ferreira, o caráter
radical e anti-democrático da esquerda nas vésperas do Golpe de 1964. Tal atitude
nasce, para Fico, de uma abordagem que carece de historicidade, ao exigir de
sujeitos históricos daquela época valores democráticos que estariam presentes após
a redemocratização do Brasil (FICO, 2017, p. 11).

A respeito da querela entre os assim denominados ​culturalistas e certos


marxistas,​ Fico busca evidenciar como, por vezes, as críticas do segundo “grupo”
não estão fundamentadas em análises precisas das fragilidades (que o autor busca
evidenciar) de ideias e noções típicas desse tipo de historiografia ​— como por
exemplo o caráter dúbio da noção de “cultura política” — mas, como admite o
próprio Badaró, por uma “dimensão política” (FICO, 2017, p. 16-36).

Se tratando do segundo ponto (deslocamento de sentido) Fico tenta


demonstrar as inconsistências e carências empíricas das soluções levantadas por
Daniel Aarão Reis ao problema da memória constituída sobre a ditadura militar.
Além do mais, afirma que a discussão levantada por Reis deve ser pensada dentro
de uma mesma inclinação historiográfica que coloca a “luta armada” como fato
emblemático da ditadura (FICO, 2017. p. 41).

Mais a frente em seu texto, identifica um suposto “tabu” que, apesar da


atenção expressiva de historiadores para a luta armada, não existe um refinamento
que discrimine os jovens ingressos por “motivações mais imediatas”, isto é, o AI-5,
dos “militantes mais antigos”. Adicionalmente, não é discutido o impacto sofrido, ou
mesmo o “trauma” e “frustração” desses anos de luta. Tal “refinamento” seria
também útil para sua noção de “retroalimentação” (FICO, 2017, p. 42-4). Propõe
também, em sentido parecido, uma discriminação do ideário militar. O autor se
preocupa em entender a constelação de motivações e intenções presentes nos
militares. Tal ação possibilitaria entender o próprio Costa e Silva sob um ponto de
vista diferente do corrente na historiografia (FICO, 2017, p. 50-51).
A respeito da nomenclatura e periodização dos governos autoritários Fico
diverge de Villa e Reis e reforça sua posição ​realista​. Para o autor é coerente manter
as divisões de tempo tradicionais na historiografia (1964-1985). Já para a
classificação do regime, Fico aceita o termo “civil” para o Golpe de 1964, mas em
sua visão a ditadura é exclusivamente militar, não obstante suas bases de apoio
(FICO, 2017, p. 51-58).

No último ponto de seu artigo (urgência e tradição), o autor, novamente,


divergirá de Marcos Napolitano sobre a moldura institucional do regime. Para Fico, o
responsável por isso seria Costa e Silva e não Castelo Branco (FICO, 2017, p.
58-62). Além do mais, no mesmo tópico, realiza novamente sua (já conhecida)
defesa frágil da ideia de que a distensão de Geisel seria efetivada, em detrimento
dos movimentos sociais e da oposição formal ao regime (FICO, 2017, p. 65-66).

Fontes

● Arquivo Nacional brasileiro;


● Arquivo Nacional dos EUA;
● Correio da Manhã;
● Jornal do Brasil;
● The Economist
● Trabalhos historiográficos