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WATSON, Adam: The evolution of international society.

1992

The European International Society

1. A Renascença na Itália: O Stato

A Renascença é importante sobretudo pela evolução do conceito de Estado e das


relações entre os Estados. A Renascença foi um fenômeno essencialmente italiano.
Em 1453, os turcos otomanos capturaram Constantinopla, fazendo com que muitos
gregos catedráticos se deslocassem, principalmente, para a Itália e, dessa forma,
fomentassem o renascimento do ensino clássico grego, que foi o maior traço da
Renascença.
Em 1492, Colombo, italiano genovês, a serviço da Espanha, navegou o oceano azul e
descobriu o Novo Mundo e, em 1498, o português Vasco da Gama encontrou a rota
oceânica para a Índia, cortando o Mediterrâneo. Essas descobertas tiveram grandes
conseqüências para a Europa e para as relações entre as suas comunidades. Um dos
resultados foi tirar a Itália da sua posição de foco da Cristandade Latina (Latin
Christendom). A Renascença italiana, contudo, terminara antes que se pudesse perceber. O
saque de Roma pelo exército do Império Habsburgo em 1527 finalmente estabeleceu a
longa dominação da Itália pelos Habsburgo e pelos franceses que durou até o século XIX.
Por um século, após 1420, os outros Estados da Europa Ocidental estavam absorvidos
pelos seus próprios negócios. Foram cem anos de calmaria nas intervenções regulares
imperiais e da França na Itália, que marcaram e resumiram o final do período. Durante este
século, também os turcos otomanos estavam construindo sua força de forma ameaçadora no
oeste, mas ainda não estavam fortes o suficiente para ameaçar a Itália.
A essência da Renascença era o humanismo, o que significava não mais ver a Deus
como o centro de tudo, mas concentrar a atenção no homem e no seu potencial de
realização. Dois aspectos da Renascença são importantes: um foi o acesso direto à
experiência grega, que foi acessível somente a alguns Estados da Europa Ocidental e
somente em disfarce cristão; o outro foi a difusão do espírito liberal de inquérito e o
sentimento que os homens podiam e deviam pensar as coisas de uma nova maneira.
Em termos políticos, os humanistas italianos eram muitos mais atraídos pela cidade-
estado republicana de Roma do que pela memória da autoridade e segurança universal do
Império, que havia na Idade Média. Na Grécia, eles adoravam os ideais, os ensinamentos e
as artes do período da cidade-estado.
A Renascença italiana produziu uma grande concentração de poder nas mãos do
príncipe. Eles eram em geral homens novos, cujas posições dependiam mais de suas
próprias habilidades e astúcia do que da autoridade legítima. Alguns aspectos do poder dos
cinco maiores governos italianos eram ilegítimos. Não somente os Sforzas e os Médici, mas
também os papas que abusavam do poder para conquistas territoriais, os venezianos e
napolitanos, todos queriam tornar o poder que haviam conquistado de facto em algo mais
legítimo, uma autoridade que eles exerciam por direito e que seria obedecida sem
compulsão. Poder sempre foi a questão central da política, numa sociedade política. A
contribuição da Renascença italiana foi o desenvolvimento de novas técnicas de conquistar
e consolidar o poder real, dentro de uma área territorial e expandi-lo para além desta.
A descrição de Maquiavel das pinturas de Cesare Bogia, um retrato do Estado
autoritário da Renascença, consolidando o poder internamente e expandindo o quanto
possível, às expensas de seus vizinhos. Machiavel esperava que um homem forte unificasse
a Itália e mantivesse longe os estrangeiros.
Quanto às questões militares, os italianos da Renascença não mais lutavam em nome de
“Deus e seus direitos”, mas por vantagens materiais. O fator militar era um fator de poder
econômico agora. Por algum tempo, as cidades italianas contrataram exércitos mercenários
pala lutar para eles. As signorias dos Médici e dos Venezianos que nas condições
predatórias e perigosas da Itália, eles precisavam de forças armadas para se defender, e, por
conseguinte, se eles tivessem forças armadas, eles podiam aumentar sua segurança e seu
poder por meio da expansão territorial.
Os príncipes da Itália renascentista também fizeram grande contribuição ao
desenvolvimento do diálogo diplomático, um dos principais mecanismos de integração do
sistema europeu. No perigoso mundo da Itália renascentista uma gama de informações
confiáveis sobre ameaças estratégicas e econômicas, e oportunidades era necessária.
Nessa época, Sforza (Milão) estava preocupada com a expansão de Veneza e, por isso,
pediu ajuda a Médici para destruir Veneza. Lorenzo, porém, mais hábil, chegou à conclusão
de que se eles destruíssem Veneza, teriam problemas com o Papa, porque Veneza apoiava o
papado. Lorenzo também concluiu que se ele ajudasse Sforza a destruir Veneza, Sforza se
tornaria mais poderoso e poderia se tornar uma ameaça a Florença. Dessa forma, Lorenzo
convenceu Sforza que o problema não era o inimigo em particular, mas era uma questão de
poder. Por isso ele deveria assegurar que nem mesmo seu mais forte aliado se tornasse tão
poderoso e que deveria haver um balanço de poder. Um balanço de poder deveria se tornar
a chave do sistema europeu.
Em suma, a mais significante contribuição da Renascença italiana para a evolução
do sistema de Estados europeu foi a concentração territorial de poder independente, de fato
e parcialmente ou inteiramente ilegítimo, o que foi chamado de stato of a ruler. A Itália
renascentista era um lugar perigoso e um ruler que queria preservar e estender o stato ao
seu redor, que era guiado não pelo que é certo ou errado, mas por cálculos frios do que era
conveniente. Esse cálculo era chamado ragione di stato.
Na segunda metade do século XV, o maravilhoso novo mundo da Renascença começou
a fascinar o resto da Europa. As artes, a ciência, o renascimento do ensino clássico, a
atitude realista da mente dos italianos penetrou as cortes e as universidades e a mais
educada nobreza e a burguesia do outro lado dos Alpes. O stato da Renascença desenvolveu
novas relações entre príncipes e o conceito da uma Europa organizada como um sistema de
soberanias e Estados independentes, com relacionamentos próximos, mas todos guardando
suas soberanias. Os mais poderosos italianos, Médici, Sforza e Borgia, tinham muito poder
sem legitimidade, ao passo que os reis da Europa Ocidental tinham legitimidade sem muito
poder efetivo. As novas idéias da Renascença se espalharam pela Europa rapidamente. Os
rulers que controlavam os destinos políticos da cristandade ocidental, começaram a pensar
no poder dividido verticalmente (antes era de forma horizontal) em statos territoriais.
O processo na Europa foi gradual. No início do século XVI, não havia ainda uma
competição entre as nações, ou mesmo entre os Estados, no sentido moderno do termo, mas
entre statos dominados por monarquias determinadas a afirmar suas soberanias
internamente sobre suas próprias questões e externamente contra a Commonwealth da
cristandade européia.
O efeito das idéias renascentistas no norte dos Alpes da Europa foi transformar as áreas
de unidades separadas da Cristandade medieval em um novo sistema europeu fragmentado
em statos territoriais que não conheceram uma autoridade geral. O sistema se moveu na
direção do fim do espectro das múltiplas independências. Para compensar a perda das
limitações medievais, os rulers que se sentiram mais ameaçados pelo poder do mais
poderoso stato começaram a formar uma coalizão anti-hegemônica, que cobriu muito do
que era ainda chamado de Cristandade e deu à Europa uma medida de coesão e estrutura
estratégica.

Os Habsburgo e a tentativa de hegemonia

Os Habsburgo tentaram estabelecer uma autoridade hegemônica na Cristandade e


mover os statos emergentes para longe da fragmentação e em direção ao final imperial do
spectrum.
O movimento das Reformas teve grande impacto na evolução da sociedade
internacional européia e no gerenciamento dos diversos grupos e entidades dentro do
sistema. A estase religiosa encorajou a reorganização da sociedade horizontal da
cristandade medieval em statos territoriais. Isso proveu, também, oportunidades para a
expansão do Império Otomano na Europa.
A Contra-Reforma católica não conseguiu restaurar a unidade medieval da Cristandade
pela força militar.
A quebra de unidade da Cristandade e, especialmente, das mais horizontais das
instituições medievais, reforçaram, ao invés de diminuir, a concentração de poder nas mãos
dos rulers dos statos. Os luteranos, em particular, mas não somente eles, buscaram a
proteção dos príncipes e renderam obediência aos que proveram proteção. O apoio luterano
encorajou a independência dos príncipes alemães, que estavam organizando seus próprios
statos e acelerou a disseminação de uma nova diplomacia de poder político da Itália para as
partes alemãs do Império Romano.
Os Habsburgo tiveram diversos fatores que trabalharam a favor de sua hegemonia. Mais
importante, as idéias italianas da diplomacia da Renascença, a Reforma e o crescimento da
consciência nacional combinada para fazer a sociedade européia mais turbulenta e seus
rulers mais independentes. Conseguintemente, o medo da anarquia e também o medo dos
turcos se disseminaram. Esses medos, combinados com o desejo dos homens de Estado do
século XVI de estabelecer ordem e paz dentro de seus territórios, fizeram com que se
percebesse, por meio das paixões da Reforma, que alguma ampla ordem entre os Estados
era necessária da nova Europa para substituir a velha coletividade e as crescentes ordens da
Cristandade.
Em segundo lugar, o poder dos Habsburgo estava difundido pela maior parte da Europa
cristã. Os territórios Habsburgo eram muito separados geograficamente e muito diversos
para forjar um único Estado. Os Habsburgo eram obrigados a formular suas políticas em
termos de toda a Europa. Eles responderam à sua fortuita preeminência de poder com a
tentativa de estabelecer uma nova ordem com uma estrutura hegemônica. De várias formas,
a família olhou para o passado medieval: eles queriam restaurar a unidade da cristandade e
defendê-la contra o Islã externamente e contra a heresia internamente. Eles apoiaram a
legitimidade dinástica, para a qual eles deviam sua própria posição; mas a supressão da
heresia envolvia interferência com essa legitimidade e intervenção nos negócios internos de
outros Estados, como também no deles. Charles Habsburgo não queria adquirir territórios
que ele não considerava legitimamente dele. Ele favoreceu uma Europa que deixaria cada
reino e província às suas próprias terras e tradições administrativas, e manter todos os
príncipes legítimos em seus lugares. Dessa forma, as posses de sua família não existiriam,
em sua variedade, ao lado de outras. Em tal Europa, a grande concentração de poder
legítimo em suas mãos iria assegurar a hegemonia dos Habsburgo.
Os objetivos de Charles eram moderados e, me caso de vitória, ele teria o cuidado de
demonstrar reservas. Ele estaria, então, capacitado para exercer uma autoridade
hegemônica de fato, no sentido de que sua primazia seria reconhecia mesmo pelos seus
oponentes e que ele poderia controlar o funcionamento do sistema dos Estados em
desenvolvimento. Mas sua tentativa de estabelecer uma hegemonia legítima e aceita não
teve sucesso. O grande poder e as intenções honráveis dos Habsburgo não foram suficientes
para lidar, ao mesmo tempo, com Reforma, esforço militar contra a França, o Império
Otomano e a oposição de rulers que queriam liberdade para transformar suas posses em
statos.
Se os Habsburgo tivessem obtido êxito (o que teria envolvido a aceitação da Reforma),
a Europa poderia ter se tornado um sistema suserano, algo como os que existiam na Ásia,
ao invés de uma colcha de retalhos de Estados independentes e juridicamente iguais. A
expansão da Europa teria continuado como começou, sem estímulo ara competição e, sem
dúvida, com a Holanda rica e inovadora, com o papel de líder.
A idéia geral de balanço de poder estava presente, especialmente, entre os homens de
Estados venezianos e ingleses; mas nesse estágio do desenvolvimento da sociedade
européia, o desejo de um balanço de poder mal operava contra os Habsburgo e proveu a
justificativa para a cooperação com os otomanos. Regras específicas para gerenciar o
balanço geral, incluindo o poder mais forte, ainda não haviam sido desenvolvidas. Mesmo
na França, os que queriam destruir o poder dos Habsburgo, mal pensaram em substituí-los
no topo da hierarquia. Até o século XVII, a Europa não tentaria elaborar algo novo na
história do sistema de Estados, as regras e instituições de uma sociedade internacional anti-
hegemônica consciente.

Vestfália: Uma confederação anti-hegemônica de Estados

O século XVII viu o estabelecimento efetivo de Estados legitimamente independentes,


que se reconheciam uns aos outros como tais. Eles ainda se sentiam partes de um espaço
maior, que era a Cristandade Latina, e a interação entre eles era tal que agora cada Estado,
especialmente os mais poderosos, se sentiam obrigados a tomar conta das ações dos outros.
Eles reconheciam que, desde que as restrições medievais haviam desaparecido ou se
tornado irrelevantes, novas regras e procedimentos eram necessários para regular suas
relações. Nos termos de Hedley Bull, eles precisavam constituir uma nova sociedade
internacional. A sociedade européia de Estados evoluiu do esforço entre as forças que
tendiam para uma ordem hegemônica e aqueles que obtiveram sucesso levando a Europa
para o lado das independências do spectrum. O fator decisivo desse processo foram as
negociações de Vestfália, na metade do século, após trinta exaustivos anos de guerra. A
ordem vestfaliana era a de uma Europa permanentemente organizada no princípio anti-
hegemônico. Isso também afetou o crescimento da consciência nacional, o que se deveu à
transformação das relações entre os Estados europeus e do papel exercido no ordenamento
da Europa em sua periferia.

Richilieu e a aliança anti-hegemônica


No século XVI, o grande design da Europa foi a visão hegemônica dos Habsburgo.
Seus oponentes se juntaram para fazer oposição aos Habsburgo, mas sem forma geral de
uma organização alternativa. Na primeira metade do século XVII, o Estado francês
perseguiu um novo grande design em oposição ao esgotado e enfraquecido Habsburgo. O
design era anti-hegemônico e ainda essencialmente negativo; ele conferiu à França a
liderança da coalizão anti-Habsburgo. Seu principal arquiteto era o Cardeal Richilieu, chefe
ministro do reino de Luis XIII.
Dentro da França, Richilieu perseguiu uma política de consolidação da autoridade real,
depois do prolongado tempo das guerras religiosas, reutilizando as técnicas do stato italiano
introduzidas por Luis XI. Ele usou isso para estabelecer um stato, para significar o governo
efetivo de um reino, era necessário combinar a concentração de poder de um stato com a
autoridade legítima de um rei e que, de fato, o rei deveria ser a personificação do Estado.
Seu objetivo era o de unificar a França sob a monarquia absoluta e destruir toda a oposição
efetiva, especialmente os castelos fortificados dos nobres e as guarnições das cidades
huguenotes, que eram desenhadas para resistir ao rei. Essa era a política conhecida como
raison d’État. Na Itália, a ragione di stato servia para a justificativa de qualquer política,
incluindo força e fraude, que consolidou um stato. Richilieu buscava algo com mais
princípios, um direito e uma razão de Estado que reconhecia as obrigações de um ruler para
com todos comprometidos com seu cargo.
O conceito de Richilieu de raison d’État era quase a contra-imagem da sua política
doméstica. Ele considerava que o bem-estar do reino da França e das questões do rei
requeria a remoção das ameaças externas representadas pelos Habsburgo, apesar de o poder
Habsburgo ser legítimo e católico. Apesar de o reino da França ser o mais e mais populoso
da Europa Ocidental e de ocupar geograficamente uma posição central, ele ainda era mais
fraco que a combinação dos Habsburgo. Para conseguir seus objetivos, Richilieu encorajou
no Sacro Império Romano e na Espanha os elementos de estase que ele suprimiu em casa.
O cardeal queria construir uma coalizão anti-hegemônica, não baseada na autoridade, como
o sistema Habsburgo, mas por meio da negociação paciente e da persuasão. Para levar
adiante a sua coalizão, ele construiu o serviço diplomático mais bem informado e efetivo da
Europa. A política francesa também fez bom uso do dinheiro. Proveu subsídios e apoio aos
príncipes alemães anti-imperiais, a maioria dos quais eram protestantes. Ele encorajou os
inimigos turcos da Cristandade a importunar os Habsburgo. Os franceses usaram suas
próprias tropas, aumentada pelos mercenários contratados. Os príncipes protestantes eram
mais fracos que os católicos e, por isso, acharam melhor se aliar ao Cardinal e receber bem
as vitórias otomanas.
Nem a expedição anti-hegemônica de Richilieu nem o esforço dos príncipes alemães
dissidentes contra a autoridade do Império conseguiram formar o conceito de uma nova
ordem européia. Mas a coalizão franco-protestante e suas ramificações coordenadas deram
estrutura às forças que se opunham à hegemonia na caótica primeira metade do século
XVII, antes que uma ordem geral fosse negociada e trazida a efeito. A coordenação
necessariamente aceitou as grandes diferenças de interesses e (especialmente em relação
aos otomanos) de princípios e valores.
Os Habsburgo tinham a vantagem de uniformidade de propósitos, mas eles se
mostraram menos flexíveis e mais comprometidos com o princípio. A política dos
Habsburgo era baseada na manutenção dos direitos hereditários conferidos a eles por Deus,
que juntos os colocava em uma posição hegemônica. Os Trinta anos de guerra conseguiram
uma solução anti-hegemônica para a concentração de poder em um único Estado
germânico, mas permitiu a concentração do poder francês.

A Nova Ordem Vestfaliana

O longo esforço chegou ao fim com as complexas negociações de Vestfália, de 1648. O


Congresso de Vestfália foi o primeiro congresso geral com os poderes efetivos da Europa.
Os eleitores e todos os príncipes e cidades imperiais do Sacro Império Romano, capazes de
conduzir a política externa, estavam representados nas negociações.
A ordem vestfaliana legitimou uma confederação de Estados soberanos. Ela marcou o
triunfo da stato, no controle de seus negócios internos e independência externa. Essa era a
aspiração dos príncipes em geral, protestantes e católicos, em relação ao império. Os
tratados de Vestfália declararam as regras e os princípios políticos da nova sociedade de
Estados. Os acordos visavam a prover uma carta fundamental e compreensível para toda a
Europa. Certamente, contudo, muitas coisas da diplomacia superior da Europa ainda não
haviam sido conseguidas. Um balanço de poder, que era necessário para manter as
condições nas quais regras e instituições não-hegemônicas podiam operar e as quais não
haviam sido estabelecidas. O papel indispensável que os Habsburgo austríacos deveriam
desempenhar nos próximos dois séculos, para manter o balanço que eles previamente
haviam combatido, não fora previsto, e as pequenas vitórias não haviam ainda desenvolvido
o ditado que o grande inimigo de ontem seria o aliado de amanhã.
A ordem vestfaliana negociada pelos rulers soberanos legitimou uma colcha de retalhos
de independências na Europa. O que acontecia internamente nos Estados, cabia somente a
cada Estado resolver. Soberania legitimou a extensão dos conceitos de cujos regio ejus
regio. Houve também um rompimento com a idéia de que o papa ou o imperador tinham
autoridades universais; os acordos de Vestfália eram anti-hegemônicos. A ordem vestfaliana
foi imposta pelos vencedores sobre os vencidos; e os objetivos da coalizão vencedora se
tornaram o direito público da Europa. Os Habsburgo foram obrigados a abandonar seus
objetivos hegemônicos e o papa denunciou os acordos como inválidos.

Conseqüências de Vestfália

O século XVII foi decisivo para a sociedade européia de Estados. O contínuo diálogo
diplomático e estratégico que coordenou a coalizão dos tempos de guerra incluía os
otomanos; mas ficou mais perto dos príncipes cristãos e cidades que dividiam semelhanças
culturais e enfrentavam problemas similares. Todos os membros cristãos da coalizão,
grandes e pequenos, até os menores príncipes do Império, tratavam-se na base da igualdade
de faro, porque eles precisavam ser persuadidos ao invés de obrigados a cooperar. DA
mesma maneira, novas formas de jurisprudência internacional desenvolveram um campo
anti-hegemônico.
A hegemonia continuou a ser um fator integral da prática do sistema de Estados
europeus, apesar da legitimidade anti-hegemônica estabelecida por Vestfália.

A idade da razão e do balanço


O século XVIII, de Utrecht à Revolução Francesa, foi um período de paz e ordem na
Europa. Uma sociedade internacional de Estados, ou príncipes, funcionava bem, com regras
e instituições e presunções subjacentes que os membros aceitavam. Guerras, no sentido de
conflitos entre Estados envolvendo operações militares, certamente houve, mas não eram
guerras por grandes causas religiosas ou sobre como os Estados hegemônicos deveriam ser.
Eram pequenas guerras de ajustamento.
Os Acordos de Utrecht de 1714 tomaram um estágio depois das presunções de Vestfália.
A experiência de ver a França assumir as aspirações hegemônicas da Espanha e da Áustria
convenceu os líderes da coalizão contra Luis XIV, especialmente os homens de ingleses e
holandeses, que era necessário ir além do princípio negativo anti-hegemônico para um
conceito mais positivo de equilíbrio móvel contínuo, no qual todos os Estados teriam um
papel a desempenhar.
Os venezianos, que como muitas comunidades na Europa viviam do comércio
internacional, queriam preservar sua liberdade de ação do controle hegemônico,
defenderam a extensão do conceito dos Médici de balança de poder para todo o sistema,
assim os negócios de toda a Europa estariam em um balanço complexo. A fórmula
veneziana foi favorecida pela Inglaterra e os Acordos de Utrecht foram logo apelidados de
“La paix anglaise”. O conceito de equilíbrio foi predominante na redistribuição de
territórios e outras provisões do acordo, e foi quase claramente formulado no tratado entre
Inglaterra e Espanha, que aceitaram o neto de Luis como rei da Espanha, mas proibiram a
união das coroas da França e da Espanha.
O balanço de poder se tornou uma prática viável para os homens de Estado do século
XVIII, a despeito da crescente complexidade resultante da fusão dos sistemas do norte e do
oeste, porque a tentativa de hegemonia de Luis XIV foi interrompida pela coalizão de
Estados na qual nenhum era dominante. Não havia sucessor para as reivindicações de Luis
e nenhum Estado se sentia forte o suficiente para desafiar as presunções que prevaleciam
contra a hegemonia e em favor do balanço. Durante o longo e ineficaz reinado de Luis XV,
o grande potencial de força da França foi apenas parcialmente mobilizado. França e Áustria
agora eram poderes satisfeitos. Ambos reconheceram um interesse no funcionamento do
sistema e ocasionalmente se dispunham a cooperar um com o outro para prevenir a
interrupção disso, por exemplo, a emergência da Prússia. A Rússia, ocidentalizada e
modernizada por Peter o Grande, tornou-se um grande poder no sistema.
O sistema se tornou muito menos bipolar. O balanço multilateral do poder se voltou a
cinco Estados maiores ou grandes poderes: França, Áustria, Grã-Bretanha, Prússia e Rússia.
Todos os cinco aceitaram o sistema como tal, embora os dois novos membros Prússia e
Rússia considerassem que a distribuição de territórios refletia inadequadamente seu
aumento de poder relativo. A Turquia Otomana continuou como parte do sistema, mas ficou
bastante de fora das regras e instituições desenvolvidas por eles.
O século XVIII era a idade da razão e da matemática. Razão em negócios públicos
significava o cálculo do interesse próprio. Externamente, um Estado tinha muitos
interesses, cada um dos quais se pressionado causaria desvantagem em outro lugar; era
considerado possível trabalhar o resultado ótimo matematicamente, depois de lavar cada
aspecto em conta. A luz da razão era fria, uma questão de cérebro e mente ao invés de
emoções: era o que distinguia os homens dos animais.
Os homens de Estado europeus reconheciam que os negócios de Estado, ambos
doméstico e externo envolviam poder. Se um poder do sistema crescesse mais forte ou mais
fraco, os outros Estados se moviam – ou de acordo com os outros deveriam se mover – para
longe ou para perto dele. Se o balanço móvel fosse continuamente ajustado, todos os
Estados do sistema seriam checados e segurados.
Ajustamento – manter o balanço justo – não era meramente negócio dos Estados
mais fortes. O complexo móvel era também afetado pelos movimentos dos Estados
menores. Isso assegurava sua autonomia e lhes conferia papéis reais e positivos no sistema.
A lição do século anterior foi que uma vez que um Estado acumulasse poder para ditar
ordens, ele exerceria esse poder. Poder dominante no sistema era, portanto, inaceitável, não
importava o quão legitimo fosse. A resposta dos homens do século XVIII era prevenir o
acúmulo de tanto poder e preservar a independência dos Estados membros , grandes e
pequenos, e também uma certa paz. Havia também uma distinção entre os interesses do
Estado e a vontade do príncipe, que ajudou o sistema a funcionar mais responsavelmente.
Entre as assertivas da balança de poder, os Estados europeus gerenciaram sua sociedade
internacional por meio de quatro instituições: direito internacional, as regras do jogo e os
códigos de conduta derivados de uma cultura comum; o conceito de legitimidade,
normalmente dinástico, mas modificado por tratados; um contínuo diálogo diplomático,
que conduziu a um permanente diálogo entre as embaixadas; e guerra limitada como
último recurso de ajuste.

Expansão Européia

A expansão da Europa para o resto do mundo, por conquista e colonização, pelo


comércio e império administrativo e pela difusão da civilização européia e de sua
tecnologia única, foi o maior evento na história do homem. Foi um processo lento e
complexo que durou muitos séculos e que se passou de várias formas. No século XIX, os
europeus criaram o primeiro sistema internacional que atravessou todo o globo e
estabeleceu em todos os lugares uma versão universalizada das regras, instituições e das
premissas básicas da sociedade européia de Estados. A presente sociedade internacional
européia é diretamente descendente desse sistema europeu universalizado.
A irregular e diversa expansão de alguns Estados europeus pelo resto do mundo
aconteceu em concomitância com o processo gradual de organização dos Estados verticais
da Europa em uma grande république ou em uma sociedade internacional anti-hegemônica.
A expansão inevitavelmente alterou a natureza e a balança do sistema europeu. Seus
Estados membros não tinham regras e instituições estabelecidas que eles buscavam impor
“prontas para usar” (ready-made) no resto do mundo. Ao contrário, eles modificavam
continuamente as regras e instituições de sua sociedade internacional em evolução para
compreender seu maior alcance.
Os europeus do oeste achavam que o mundo para o qual eles se expandiam se dividia
em dois diferentes tipos de comunidades. Por um lado, havia as altas civilizações da Ásia,
que eram tão desenvolvidas quanto as européias e, em muitas formas, até mais. Por outro,
havia os povos mais primitivos, cuja existência era amplamente desconhecida pelo mundo
civilizado. A característica mais espetacular da área altamente civilizada a oeste da
Cristandade Latina era a contínua proliferação do Islã. O mundo árabe-persa do Marrocos
ao Afeganistão era solidamente muçulmano. Os muçulmanos estavam estendendo seus
domínios sobre os mais diversos territórios. Os otomanos, similarmente, estavam
conquistando o leste europeu: eles tomaram Constantinopla em 1453 e em ¾ de século
estavam cercando Viena. A oeste do Islã estava o sistema imperial chinês, sob dominação
mongol, e a civilização similar japonesa.
Esses sistemas internacionais asiáticos eram muito diferentes uns dos outros: os
sistemas árabe-islâmico e indiano, por exemplo, constituíam-se de entidades políticas
independentes, enquanto os sistemas tártaro-mongol e chinês eram efetivamente mais
centralizados. Mas eles tinham uma característica em comum: eles eram todos hegemônicos
ou imperiais. Ao centro de cada um deles havia um supremo ruler que exercia autoridade
direta sobre seus territórios e redondezas.
Os otomanos exerceram um importante papel no sistema de Estados europeu desde o
início do século XVI. O comércio com o levante era um componente vital da vida
econômica européia. Estrategicamente, os otomanos ocuparam aproximadamente ¼ do
continente até o fim do século XVII e eram um formidável poder marítimo e naval na
Europa. A busca dos Habsburgo de estabelecer um sistema hegemônico na Europa foi
frustrada e a formulação vestfaliana decisiva da natureza anti-hegemônica da Sociedade
Internacional Européia se fez possível por causa da pressão dos otomanos sobre os
Habsburgo, coordenada pela aliança turco-francesa, que trouxe outros poderes anti-
hegemônicos para relações amigáveis com os otomanos.
Apesar deste próximo envolvimento, os turcos não eram membros do que Voltaire
chamava de grande république. Eles não eram cristãos e não aceitavam os princípios do
direito internacional. Eles não fizeram parte dos Acordos de Vestfália, Utrecht e Viena. .
Eles não foram formalmente aceitos na Sociedade Internacional Européia até 1856, após a
Guerra da Criméia e, na prática, nem mesmo então.
Em suma, os europeus e os otomanos formaram uma sociedade internacional no
sentido de que eles cooperavam no trabalho de procedimentos de direito internacional
acordados, diplomacia e organização internacional geral e alguns costumes e convenções da
guerra. Mas as instituições e convenções que regulavam o envolvimento das duas
civilizações eram muito mais restritos e explícitos que o da grande république européia.
A expansão da Europa do oeste para o Atlântico foi eminentemente imperial. A
proclamação pelo Papa e o acordo negociado do Tratado de Tordesilhas em 1493,
estabeleceu hemisférios de exclusiva jurisdição para a Espanha no oeste de Portugal no
leste, o que evitou conflitos entre os dois poderes ibéricos e excluiu o resto da Cristandade.
Desde o início, o Novo Mundo das Américas foi tratado de maneira muito diferente
que as civilizações altamente civilizadas da Ásia. Os reis ibéricos e especialmente os
Habsburgo, durante sua busca pela hegemonia na Europa, esperavam que suas novas
províncias contribuíssem tanto quanto possível para o fortalecimento dos seus statos. Mas
as contribuições do Novo Mundo eram algo ilusórias, Metais preciosos, especialmente
prata, eram levados para a Europa em largas quantidades e algumas produções tropicais
também eram exortadas, especialmente após o primeiro turbulento século de colonização.
Os colonialistas exploraram a população local, apesar da oposição da Igreja, e conseguiram
um padrão mais alto de vida do que eles tinham em casa. Alguns mercadores e outros na
Europa fizeram fortunas. Mais ainda, a possessão de um grande império no Novo Mundo
impressionava os outros europeus e conferia mais poder aos Habsburgo. Mas o Novo
Mundo importou muito da Europa e, quando levado em conta os altos custos de defesa,
administração e imigração, há hoje uma controvérsia sobre os benefícios que derivaram das
Américas.
A experiência marítima na Ásia foi muito diferente. As cidades comerciais do
Mediterrâneo, como Veneza, Genova e Barcelona ficaram ricas com o comércio com o
Levante, importando bens de luxo das civilizações altamente desenvolvidas da Ásia,
através de intermediários muçulmanos, em troca do que a Europa podia produzir ou pagar.
O propósito português em fazer longas viagens pela África e Oceânico Índico era
comercializar diretamente com a Índia e cortar os homens que faziam o serviço de
intermediários. Enquanto eles dominavam no Novo Mundo, no leste eles eram clientes das
autoridades asiáticas.
Ao final do século XVIII, os europeus controlavam as Américas, onde eles formaram
Estados independentes ou províncias de sua sociedade européia de Estados. Eles também
estavam chegando à Ásia pelo mar ou por terra. Os Estados europeus operaram
separadamente, em competição e conflito uns com os outros. Eles ainda não dominavam
outro sistema de Estados no mundo e ainda não haviam criado um sistema global de
Estados. Isso eles só conseguiriam no século XIX.

O Império Napoleônico

Desde que geograficamente, os Estados soberanos substituíram a estrutura horizontal


da Cristandade medieval, uma propensão à hegemonia, que é uma tendência a voltar às
mais absolutas formas de múltiplas independências, era inerente ao sistema internacional
europeu. O desejo do mais forte de impor as regras a todo o sistema, ao menos nas relações
externas entre os membros, tornou-se mais aceitável pelas vantagens que uma autoridade
no sistema trazia aos demais Estados.
As legitimidades estabelecidas pelos Acordos de Vestfália e Utrecht eram anti-
hegemônicas, sobretudo Utrecht. Mas mesmos os homens de Estado anti-hegemônicos
sabiam que a hegemonia trazia alguns benefícios e eles sabiam que a observância do
balanço de poder e do direito internacional provinham alguns desses benefícios de outras
maneiras. Tal era a propensão para a hegemonia, que mesmo as alianças anti-hegemônicas,
formadas para resistir às tentativas de estabelecimento de hegemonias, formaram os mais
fortes poderes em coalizões, primeiro, os Habsburgo espanhóis e austríacos e depois o
Bourbon-Habsburgo rei da França, numa posição hegemônica. O compromisso formal das
soberanias do século XVIII com um balanço multilateral de poder em Utrecht durou ¾ de
século Durante este curto período, o poder foi efetivamente balanceado. Nenhum Estado
era muito mais forte que outro.
A Revolução Francesa estimulou novas energias e aspirações na França e em gande
parte da Europa, e isso Napoleão soube explorar bem. A ordem imperial de Napoleão
atingiu o lado mais extremo do pêndulo, longe da ortodoxia e da legitimidade das múltiplas
independências na Europa. Ele carregou o sistema europeu para a sua hegemonia e trouxe
grande parte da Europa sob seu domínio. Isso causou mudanças radicais tanto nas relações
entre as comunidades do sistema europeu, como nos governos internos e estruturas sociais
daquelas comunidades. Apesar de a ordem de Napoleão ter sido breve, as mudanças que ela
induziu duraram bastante tempo. Após a sua queda, o pêndulo desceu apenas parte do
caminho de volta em direção ao lado das múltiplas independências do espectro.
A final do século XVIII, dois importantes Estados do Ocidente, Grã-Bretanha e
Holanda, cessaram de ser sociedades do ancien régime, governadas por um príncipe
absoluto. Elas deviam seu poder e sucesso à contribuição do comércio e das classes
profissionais, e aos benefícios da participação nos negócios públicos por um maior
segmento da população que em outros lugares.
Napoleão polarizou o sistema europeu e o integrou em torno de um poder dominante,
mais que em qualquer tempo antes. A grande variação do pêndulo estava longe da
estabilidade. O poder de Napoleão era muito novo e muito inovador para ser legítimo. Ele
tentou legitimar seu poder doméstica e externamente. Ele buscou os símbolos e slogans da
revolução, evocando lealdade, especialmente na França e, em algum nível, externamente.
Sua maior busca pelo reconhecimento internacional foi seu casamento com uma princesa
Habsburgo.
Neste século, desde Utrecht, a Sociedade Internacional Européia havia se
comprometido com o princípio da balança anti-hegemônica. Os Estados unidos contra
Napoleão em 1813, Grã-Bretanha e Rússia, juntamente com Áustria, Prússia e outros
declararam que eram contra as doutrinas da Revolução Francesa. Declararam que não
estavam lutando contra a França, mas contra a preponderância que Napoleão exercia.

Hegemonia Coletiva

A autoridade imperial de Napoleão levou o sistema de Estados europeus em direção


ao final imperial do espectro mais que em qualquer outra época. Isso foi oposto de
hegemonia. Esses constrangimentos externos e internos levaram todo o sistema de volta ao
final das independências do espectro, mas eles não conseguiram trazer de volta à posição
do século XVIII. O império napoleônico mudou as estruturas sociais do oeste e de grande
parte da Europa Central e, permanentemente, alterou as idéias dos homens sobre o que era
desejável e o que se podia esperar.
O sistema que emergiu dos Acordos de Viena foi a síntese entre os dois modos de
organizar a Europa, pois ficou na metade do caminho na posição do espectro entre
Napoleão e os sistemas do século XVIII.
A derrota de Napoleão na Rússia restaurou a Áustria, que se tornou cliente do império
francês, à independência. Matternich, o arquiteto da política austríaca, pensou que se
ajudasse a Rússia a destruir Napoleão, deixá-la-ia em uma posição muito forte e, por isso,
trabalhou por uma conciliação. Felizmente, para Matternich, a Grã-Bretanha emergiu da
guerra fortalecida industrial e financeiramente, e seu poder podia fazer oposição a qualquer
poder single europeu. A diferença entre os britânicos e austríacos, é que enquanto os
austríacos pensavam no balanço de poder em termos europeus e otomanos, por não ter
possessões fora, os britânicos pensavam em seus compromissos globais, o que incluía
também as Américas e o Oceano Índico. A Grã-Bretanha era, doravante, o poder dominante
nas extensões além-mar da Europa e, para explorar esse domínio, precisava de paz e
equilíbrio na Europa. Esses objetivos também eram compartilhados pela Rússia, que estava
interessada na expansão de seus domínios para a área que compreendia a Cristandade
Latina. Os dois poderes, dessa forma, concordavam que suas políticas dentro da grande
république requeria limitações, que não existiam fora dela.
As duas potências tinham objetivos similares após a queda de Napoleão. Os dois
buscaram restabelecer Áustria e Prússia como poderes independentes e restaurar os
Bourbon na França. Eles e Matternich reconheceram que o sistema seria instável se a
França, elemento tão relevante, estivesse oposta aos acordos e, por isso, uma França forte e
satisfeita era essencial para o balanço estável da Europa. O reino restaurado não deveria ser
punido nem privado dos territórios que eram franceses antes da Revolução e, acima de
tudo, mesmo potencialmente perigosa, deveria ser bem vinda como parceira igual dos
quatro maiores aliados.
O tzar e Matternich em particular, mas também outros homens de Estado,
consideravam que a ordem e a paz internacional e a tranqüilidade doméstica de seus
Estados eram ameaçadas por uma assimetria do poder, que permitia a um Estado a busca
por domínio, como o fez Napoleão, e também o que eles viam como efeitos perturbadores
dos princípios revolucionários. A contra-doutrina da legitimidade dinástica e o desejo
prático de gerenciar o sistema pareciam aos homens de Estado em Viena justificar as
intervenções ideológicas para reprimir desejos revolucionários de poder em qualquer
Estado. Tais intervenções, com o propósito de preservar a paz e a segurança internacional,
puseram em prática no inicio do século XIX algo mais próximo ao lado imperial do
espectro que hegemônico.
A Europa não deveria ser dividida em esferas separadas de influência: o cinco poderes
acordaram que o mecanismo coletivo era necessário para manter e modificar o acordo. Os
cinco poderes não confiavam um no outro para intervir unilateralmente com o propósito de
lidar com ameaças à paz e à segurança; mas eles acordaram em agir juntos ou ao menos
aquiesciam após consultas, que eles podiam exercer coletivamente uma hegemonia difusa,
que nenhum concordaria com algum outro agindo sozinho. Eles podiam juntos impor as
regras. A harmonia entre eles iria orquestrar o Concerto da Europa.
Logo ficou claro que os cinco poderes não manteriam por muito tempo a similaridade
de propósitos que marcou o período imediato após os anos de guerra. Os interesses deles,
na verdade, divergiam. Os arranjos territoriais e demais arranjos de Viena eram
compromissos negociados, conseguidos após longo processo de barganha e não eram
considerados imutáveis; a manutenção da mobilidade da balança iria inevitavelmente fazer
as necessárias modificações conforme o tempo fosse passando. Mas os cinco poderes
reconheceram que seus interesses eram largamente compatíveis e que cada tinha certas
áreas nas quais seus interesses poderiam prevalecer. Além disso, todos dividiam o interesse
no sucesso da operação do novo Concerto. Raison de systhème não exclui conflitos de
interesses.
A história do sistema de Estados europeus do século XIX concerne largamente aos
esforços desses cinco poderes em mediar suas relações, entre eles mesmos e com as forças
do nacionalismo e democracia, de tal forma que as diferenças de interesses e de princípios
não prejudicassem os benefícios que todos os cinco conseguiam mantendo uma ordenada
sociedade internacional.
Os demais Estados membros do sistema se ressentiam da sua exclusão da hegemonia
difusa dos cinco grandes poderes. O princípio anti-hegemônico foi uma premissa implícita
da sociedade européia desde Vestália e explícita desde Utrecht, e era o propósito
proclamado do esforço aliado contra Napoleão. A nova hegemonia também danificou os
interesses das soberanias menores.
A balança do sistema de poder do século XVIII permitiu a cada Estado exercer
influência em proporção ao seu poder. Mas nas décadas seguintes aos acordos de Viena, o
sistema europeu voltou apenas metade do caminho na direção das independências do
espectro. Acima de tudo, a autoridade hegemônica eram muito difusa e inclusiva de todos
os principais centros de poder, para que uma coalizão anti-hegemônica fosse praticável. Os
homens de Estado dos cinco poderes reunidos em Viena e nos congressos subsequentes
acreditavam que a difusão e o balanço construídos no sistema do Concerto proveriam o que
eles consideravam as vantagens essenciais da autoridade hegemônica, ao mesmo tempo em
que limitavam as desvantagens. O Concerto do início do século XIX refletiu realidades,
mas os grandes poderes angariaram para si privilégios de operar o Concerto para eles, não
consentindo espaço de ação aos Estados menores da Europa.
A operação do sistema na Europa pode ser dividida em três períodos:
1) 1815-1848 foi um período de paz entre os grandes poderes e de repressão da
revolução social e política;
2) 1848-1871 foi marcado pelo nacionalismo revolucionário e pelas guerras de
ajustamento.
3) 1871-final do século XIX novamente um período de paz na Europa, com o
Concerto largamente dominado por Bismarck.

1818-1848
Durante esse período, os cinco grandes poderes chegaram perto de funcionar como
um Diretório. Exercendo o direito da intervenção coletiva, eles conseguiam manter algo
como o domínio sobre a Europa fragmentada que estava fora de sua administração. Os
homens de Estado aristocráticos, que gerenciaram os negócios da Europa durante esses 30
anos, sentiram uma solidariedade de propósitos: eles tinham medo dos perigos que
ameaçavam seu mundo, mas não um do outro. Matternich era o mais importante homem de
Estado do período em questão. A posição central da Áustria, e seu apurado sentido de
raison de systhème se resumiam em sua frase: “meu país é toda a Europa”, isso lhe permitiu
exercer uma liderança maior no Concerto que o poder militar e econômico da Áustria
podiam justificar.
O poder da Rússia e Grã-Bretanha derivava de suas conquistas fora da Europa.
Ambos agiam na Europa segurando um ao outro e mantendo o sistema todo no lugar, ao
passo que fora da Europa eles agiam estendendo sua influência e seus impérios pela Ásia,
do Império Otomano ao Pacífico.
Os cinco grandes poderes não eram contra o uso das forças armadas ou
comprometidos com o status quo. Nos primeiros 30 anos eles fizeram seu uso por meio de
acordos ou aquiescência. Eles não fizeram uso desta força um contra o outro, mas nas
pequenas guerras na Europa e nas operações coloniais fora dela. Mesmo as duas mais
importantes guerras (Criméia e franco-prussiana) não interromperam seriamente o
progresso da civilização européia.

1848-1871: revolução e ajustamento

Esse período foi arcado pelo nacionalismo popular, pela revolução contra a ordem
política estabelecida e por guerras de ajustamento entre os grandes poderes. No ano de
1848, a classe média descontente com o “Sistema de Matternich” e com a legitimidade
dinástica, laçou-se em revolução em muitas comunidades européias, notadamente França,
Alemanha e Itália. Uma nova legitimidade estava agora em posição de desafiar a outra: o
direito dos povos de determinar para eles a qual Estado eles deveriam pertencer e como o
Estado deveria ser governado. A paz parecia menos importante que outros valores.
Três tendências relacionadas, nacionalismo, democracia e interesse popular, exerciam
crescente influência no sistema de Estados europeus em funcionamento. Nacionalidade não
era a categoria política fundamental em que os povos naturalmente e sempre se agrupam.
No século XIX na Europa era a “nação” que era aceita como a unidade política básica e
outras formas de organização e lealdade tinham que se acomodar a isso. As idéias de
nacionalismo e democracia se relacionavam. Ambas desafiavam a legitimidade dos Estados
europeus. O povo deveria governar ou ao menos eleger seus governantes. Cada demos, cada
nação, deveria ter seu próprio Estado independente.
A reestruturação da Europa, particularmente da Europa Central, parecia aos liberais e
nacionalistas inevitável e justa. Eles sabiam que a força seria necessária, certamente na
forma de revoluções e de intervenções armadas pelos apoiadores estrangeiros dos
movimentos nacionalistas. Os nacionalistas do século XIX procuravam uma total
independência, liberdade de constrangimentos externos e exercício soberanos da vontade
popular geral. Nacionalismo e democracia levaram a Europa ao lado das independências do
espectro.
A ameaça imediata mais perigosa ao balanço europeu era o pan-germanismo. Os
povos que se consideravam alemães e os tinham como língua materna o alemão se ornaram
os mais numerosos na Europa e na segunda metade do século eles entravam em uma fase de
desenvolvimento que levou os outros a se sentir incertos sobre suas competências, e, mais
ainda, eles ocupava uma posição central no continente. Um Estado-nação que juntasse
todos os alemães seria mais poderoso que qualquer outro na Europa e estaria
permanentemente numa posição hegemônica, que só poderia ter como contrapeso uma
coalizão anti-hegemônica permanente dos outros grandes poderes. Além dos pan-
germanismo, havia a ameaça do pan-eslavismo. Se a Rússia e outros povos eslavos
estabelecessem uma união nacionalista ou um Estado na Europa, alcançado o oeste até a
Boemia e o sul aé o Mediterrâneo, o que poderia manter o equilíbrio na Europa? No século
XIX, o grande Estado mais ameaçado pelo fervor nacionalista, especialmente pan-
italianismo, pan-eslavismo e pan-germanismo, era o Império Multinacional Habsburgo da
Áustria. Para enfraquecer a Áustria, e eventualmente dissolvê-la em Estados nacionais era o
imediato objetivo dos nacionalistas e liberais.
Os ideais de nacionalidade e soberania popular se baseavam nas idéias da Revolução
Francesa. Seu campeão na Europa era o sobrinho de Napoleão, levado ao poder na França
em 1848 pela revolução e em 1853 ganhou o título de Napoleão III. Ele acreditava que para
se justificar como herdeiro de seu tio, deveria enfraquecer o sistema de Viena, para fazer da
França novamente o maior poder da Europa, libertando a Itália do controle austríaco e para
posar como representante das aspirações nacionais. Durante os 20 anos de seu reino, ele
envolveu a França em séries de pequenas guerras e expedições, indo da Criméia, ao México
e China.
A intervenção militar francesa contra a Áustria para unificar a Itália em um Estado
nacional iria aumentar o prestígio da França. Mas a Áustria, o maior poder germânico, era o
único obstáculo à unificação da Alemanha sob a liderança da Prússia, o que gravemente
interferiria nos interesses da França. Napoleão III iniciou a destruição do poder austríaco na
Itália. Seus últimos esforços para prevenir u ao menos obter compensação territorial pela
unificação alemã o levou a uma guerra que lhe custou o trono.
Prússia sempre foi um Estado e não uma nação. Era o mais fraco dos cinco grandes
poderes. Sua política era guiada por Bismarck, que preferia agir independentemente do
Concerto, a não ser que ele pudesse controlá-lo.
O nacionalismo alemão era geral e profundo para ser suprimido, mas pequenas
guerras entre os quatro poderes permitiram à Prússia ganhar algum controle sobre o
movimento e limitar seus ganhos à unificação parcial, excluindo a Áustria.
O resultado dessas mudanças foi enfraquecer o sistema e fazer seus Estados membros
menos conscientes da raison de systhème.
Rússia e Grã-Bretanha eram a favor de um equilíbrio na Europa. O governo britânico
evitava envolvimento militar na Europa Central. Os ingleses liberais apoiavam a
democracia e aplaudiam a libertação nacional, especialmente na Itália, e se opunham à
influência reacionária da Rússia. Mas quando havia disputas territoriais e o nacionalismo
colocava os liberais europeus uns contra os outros, os isolacionistas britânicos
consideravam que isso não era problema deles.
Os czares e seus conselheiros, que maior noção das vantagens do Acordo de Viena,
intervieram na Europa Central para salvar a monarquia austríaca dos revolucionários
nacionais da Hungria e Alemanha, e encorajaram as iniciativas prussianas para conter o
nacionalismo alemão. Enquanto a política externa russa ficava sob o controle do czar, os
sentimentos nacionalistas e pan-eslavistas se espalhavam pela Rússia.

1971-final do século XIX: a ordem européia de Bismarck

Este terceiro período foi marcado novamente pela paz. A paz não era tranqüila. A
Europa Central, esponja dos menores Estados alemães, elemento indispensável para os
acordos de Vestfália e subseqüentes, não existia mais. Em seu lugar estava agora o Reich
Alemão, o maior poder no continente europeu. O balanço que havia mantido e ajustado a
Europa desde Viena, primeiro por meio da paz e depois com pequenas guerras, tornou-se
instável. Por alguns anos, as habilidades diplomáticas de Bismarck e suas reservas
mantiveram a ordem na Europa. Ele estava determinado a evitar querelas com Rússia e
Grã-Bretanha. Ele reforçou a aliança entre os três grandes poderes do leste europeu, o
“Dreikaiserbund”, reforçado por seus tratados secretos com a Rússia e por evitar se
envolver em problemas do Império Otomano. Através do sistema, Bismarck fez a Prússia
(aumentada) se comportar como um Estado e um poder cooperante.
Enquanto isso, a Revolução Industrial e o nacionalismo popular aumentavam as
pressões na Europa. As três últimas décadas do século foram um período de crescimento
econômico e expansão territorial, longe das pressões do centro, pelos grandes poderes e
alguns pequenos.
O século XIX foi um período de crescente sucesso e prosperidade na Europa. Foi uma
era de revolução industrial e técnica. A classe média adquiriu cada vez mais destaque na
maior parte das comunidades da Europa. O mundo todo parecia se tornar europeizado.
A sociedade que proveu esses memoráveis avanços era baseada em cinco maiores
Estados: nenhum em posição de dominar os outros, mas invencíveis se aquiescessem com
as ações uns dos outros. O Concerto combinou as vantagens da hegemonia e do balanço de
poder. Contudo, ao final deste século, a crescente capacidade industrial combinada com as
rivalidades nacionalistas, e a memória apagada do estrago que uma guerra maior poderia
causar, deixou a sociedade européia de Estados fragilizada. A elasticidade necessária para
que o Concerto operasse, deu lugar à rigidez.

A Sociedade Internacional Global

O Sistema Europeu se torna Mundial

Durante o século XIX, os europeus levaram o mundo, pela primeira vez, a uma única
rede de relações econômicas e estratégicas. Eles conseguiram essa unificação mundial, que
iniciou a fundação do presente sistema global, expandindo o sistema europeu e eles
continuaram a faze as regras.
A expansão européia já havia trazido mudanças massivas nas relações entre as
comunidades do mundo no tempo do Acordo de Viena. Os europeus do oeste, em seus
navios – o que nos parece tão inadequado para uma tarefa global – e equipados com novas
formas de tecnologia militar, exploraram e colonizaram grandes partes do Novo Mundo e
incorporaram as Américas em seu sistema. Com os mesmos meios, eles seguiram para a
Ásia, Oceano Índico e Oceano Pacífico. Na Ásia eles conseguiram menos. Seus esforços
antes das Guerras Napoleônicas para trazer China e Japão ao seu sistema econômico
falharam. Mas os mercadores britânicos com ajuda de seus governos estabeleceram-se
como poder maior na Índia, onde o Sistema Imperial Mongul havia se despedaçado em
múltiplas independências agressivas. Os mercadores holandeses, por sua vez, alcançaram
uma forma de domínio nas Índias Orientais.
O tratado russo-chinês de 1689 pode ser visto como o marco no lento processo de
incorporação da China na sociedade mundial de Estados; e pelo Acordo de Viena os russos
estavam encontrando seu caminho na Costa do Pacífico da América, sobrepondo-se às
expedições britânicas e americanas. Os europeus estavam encontrando algumas resistências
na Ásia, mas nenhum poder imperial asiático era naquele tempo capaz de se expandir além
dos confins de sua própria civilização.
A expansão européia para o resto do mundo não havia atingindo seu clímax, quando,
em seu segundo estágio, descolonização, iniciado na segunda metade do século XVIII,
com a afirmação das independências dos Estados das Américas.
Grande parte dos homens de Estado europeus valorizava as colônias do Novo Mundo
e as demais como extensões do poder do Estado e as suas perdas o enfraqueceriam. Esses
homens de Estado, calculando a balança de poder entre os Estados de sua grande
république incluíram as possessões e atividades européias no resto do mundo. Apesar disso,
a legitimidade das múltiplas independências, que animou a Sociedade Internacional
Européia desde Vestfália, um recente número de colonizadores nas Américas. Eles
buscavam seus próprios interesses como membros independentes da sociedade européia e
queriam se excluir da dependência de um poder europeu e envolvimento no balanço
europeu.
Por volta de 1900, os EUA emergiam como uma das grandes potências do sistema
internacional global.
Como a França apoiou a independência dos Estados Unidos da Grã-Bretanha, esta,
antes e após das Guerras Napoleônicas, apoiou ativamente as independências na América
Latina: por razões econômicas, para abrir as portas do continente, e estratégicas, para
estabelecer Estados novas e supostamente mais democráticos para balançar o que era
considerado em Londres como tendência reacionária à Sacra Aliança. Muitas colônias
latino-americanas se tornaram independentes e foram aceitas como membros associados da
Sociedade Internacional Européia.
A aceitação européia dos novos Estados latino-americanos adequou-se ao objetivo dos
Estados Unidos de manter o Hemisfério Ocidental insulado do colonialismo europeu e
poder político. A marinha britânica e a Doutrina Monroe americana detiveram o status pós-
liberação e excluíram os poderes europeus de futuras atividades coloniais na América. O
fim das dependências dos Estados europeus na América foi passo significante em direção
ao lado das múltiplas independências do espectro.
Enquanto a maior parte dos Estados da América estava se descolonizando, os
Europeus, no curso do século XIX, trouxeram todo o mundo não-europeu ao leste e sul da
Europa, as altas civilizações da Ásia e do Mediterrâneo e as mais primitivas comunidades
da África e Oceania, sob a hegemonia coletiva do Concerto Europeu. Os poderes europeus
individuais incorporaram grandes áreas desses continentes em “impérios” separados,
enquanto outras áreas do Império Otomano e da China permaneceram sob responsabilidade
coletiva.
Essa grande expansão do sistema europeu para cobrir todo o mundo foi resultado dos
avanços tecnológicos, às vezes chamados Revolução Industrial, que aumentou muito o
poder estratégico e econômico dos europeus em relação às comunidades não-européias. Na
Europa, o poder dos Estados cresceu conforme a Revolução Industrial se alastrou e as
pressões dentro do sistema aumentaram. Os Estados europeus estavam em posição de
impor as regras e os termos de comércio.
O campo mais perto da expansão européia ao leste e o mais divisor para o Concerto
era o Império Otomano. Embora os enfraquecidos turcos ainda governassem em uma parte
da Europa, eles não participaram do Acordo de Viena, o qual foi negociado apenas pela
Sociedade Européia de Estados. O Império Otomano não era um vácuo de poder, mas era
certamente uma área de menor pressão de poder que a Europa. Seu enfraquecimento
colocou o que os europeus chamavam de eastern question. Os liberais europeus queriam
que o Império Otomano fosse dividido em nações independentes e mais homogenias
etnicamente, com instituições democráticas lideradas pelos importados monarcas europeus.
Os dois grandes vizinhos do Império Otomano eram Rússia e Áustria, ambos com
tradição de guerras de liberação contra a Rússia. Os dois Estados viram o desmoronamento
da regra otomana como uma oportunidade e obrigação de expandir sua autoridade imperial.
França e Grã-Bretanha eram ambivalentes. Queriam intervir com a Rússia para estabelecer
um Estado grego independente. Alguns homens de Estado continuaram a apoiar a secessão
liberal-nacionalista, enquanto outros na França consideravam mais prudente manter e
reformar a autoridade otomana. A Prússia sozinha ficou afastada da eastern question no
século XIX.
Grã-Bretanha e França lutaram na Guerra da Criméia para bloquear a expansão da
Rússia no Império Otomano. A suserania otomana na Europa gradualmente deu lugar a
alguns Estados independentes ressentidos. O resto do Império estava parcialmente
europeizado, reformado e encaminhado para o progresso e envolvido com as regras e
instituições da Europa. Foi formalmente reconhecido como membro da Sociedade Européia
de Estados pelo Acordo de Paris (1856), mas na prática os europeus não tratavam o Império
Otomano como Estado europeu.
Os russos continuaram a empurrar suas fronteiras. Consolidaram sua autoridade na
Sibéria e na Ásia Central. Os britânicos alcançaram a Ásia pelas rotas marítimas, seu foco
era a Índia.

Um Sistema Regulado

Os arranjos nos quais os Estados europeus e o Império Otomano trabalharam juntos


são um clássico exemplo que pressões econômicas e estratégicas podem freqüentemente
segurar Estados de diferentes culturas ou civilizações juntos num mesmo sistema. Ambos
os lados eram conscientes de pertencer a diferentes culturas e civilizações, mas os arranjos
entre eles eram determinados por conveniência e eram designados para gerenciar o
envolvimento próximo dos dois lados do mesmo sistema e, por isso, necessitava ser muito
mais detalhado e elaborado que os gerais. Contudo, eles não chegaram tão longe a ponto de
denominar o sistema euro-otomano uma sociedade.
As regras e instituições que os europeus espalharam pela China, Pérsia e Marrocos no
século XIX eram as mesmas que eles desenvolveram com os otomanos. Mas, na verdade,
nenhum outro Estado, China, Império Otomano, Pérsia o Marrocos, pertenceu à grande
république. Mesmo o Japão, aceito como aliado igual e membro do Concerto dos grandes
poderes, que exerciam autoridade coletiva na China, não era um membro. Os Estados que
fizeram e modificaram as regras e instituições da mundial Sociedade Internacional
Européia no século XIX foram apenas os membros da grande république.
Uma importante realização do Concerto do século XIX foi evitar guerras entre os
Estados europeus fora da Europa no curso de sua competitiva expansão, em grande
contraste com os incessantes atos de guerra de uns contra os outros nos séculos anteriores.
Os poderes coloniais rivais estabeleceram sua autoridade no interior da África de acordo
com a partilha estabelecida pelo Congresso de Berlim, em 1884. Em relação à China, o
Concerto terminou o século com começou na Europa nos anos após Viena, com uma
hegemonia difusa dos grandes poderes agindo juntos para conseguir o que eles não
confiavam um no outro para fazer sozinho. Os principais objetivos dos grandes poderes a
China e na África era deixar aquelas áreas grandes e turbulentas a salvo ara o comércio e
para suprimir as economias desenvolvidas com matérias-primas e produções tropicais.
Conforme o sistema europeu se disseminava pelo mundo, muitos não-europeus
queriam fazer parte da sociedade européia, para serem tratados como iguais, ao invés de
inferiores. Quando os europeus, na metade do século XIX, começaram a estipular que
outros Estados que outros Estados que quisessem fazer parte da sua sociedade internacional
deveriam aceitar não meramente suas regras, mas também seus valores e códigos éticos, o
critério que eles usavam era “standard de civilização”. Os Estados não-europeus eram
aceitos como membros da sociedade européia de Estados (mas não da grande république)
desde que adotassem suas regras e conseguissem manter o nível de civilização em suas
atividades como membros. A insistência nos valores ocidentais pode ser considerada como
uma forma de imperialismo. Ela teve um importante papel no processo de integração que
estabeleceu a sociedade global internacional dominada pelos europeus.
Em 1900, o alcance do sistema havia expandido pela Ásia, África e Oceania. Ele
ligou o mundo inteiro, não em um único império, mas em um conjunto de relações
econômicas e estratégicas. A Europa permaneceu como seu foco econômico e estratégico e
o que acontecia na Europa era decisivo para o sistema como um todo.
Entretanto, em 1900, dois grandes poderes independentes não-europeus os EUA e o
Japão faziam sua força se sentir no sistema, especialmente na Ásia e no Pacífico, dessa
forma quebrando o monopólio de controle da Europa. Já países independentes menores nas
Américas, África e Ásia tinham papéis marginais. EUA e Japão alcançaram quase a metade
das terras do planeta e se concentravam principalmente na Ásia e na África.
Durante o século XIX, a Europa e todo o mundo ficaram mais próximos, ligados por
uma única economia global. A integração econômica do mundo era menos visível, porque
não era imposta ou gerenciada por uma única economia ou um único poder, mas trouxe o
papel relativamente livre dos crescentes mercados mundiais.
O Concerto Europeu, que começou como uma hegemonia difusa e coletiva, exerceu
por meio dos homens de Estado cosmopolitas que direcionavam as políticas dos cinco
grandes poderes, foi transformado no curso do século em uma sociedade dominada por
Estados nação, cujos povos crescentemente soberanos sentiram ter mais coisas em comum
com seus compatriotas nacionais, mas menos com os de outros países. O nacionalismo
afastou as nações européias umas das outras.
A sociedade internacional do século XIX, influenciada pelo nacionalismo e
democracia, pela crescente importância dos membros não-europeus e ao mesmo tempo
pelos avanços tecnológicos e de outros fatores que integravam o sistema mundial em um
envolvimento e integração cada vez mais próximos. As idéias européias de soberania,
independência e igualdade jurídica, idéias essas que proveram a legitimidade formal da
sociedade internacional de Estados em 1900, puseram a sociedade mais perto do final das
independências do espectro que as práticas operacionais do sistema justificavam. Essa
dicotomia entre prática e teoria cresceria ainda mais no século XX.

O Colapso do Domínio Europeu

A grande maioria dos membros da sociedade internacional mundial são não-europeus;


mas as regras e instituições da nossa sociedade são ainda em grande parte heranças da
Europa. O século XX iniciou com um sistema internacional mundial. Ele ainda era
dominado elos poderes europeus, mas fora da Europa e especialmente ao redor do Pacífico
os Europeus já dividiam seus domínios com Estados Unidos e Japão. Em quatorze anos de
intervenções conjuntas para restabelecer a ordem na China, os Europeus mergulharam
numa guerra devastante.
Os europeus perderam o controle do sistema mundial e uma nova sociedade
internacional emergiu, não de uma vez, mas gradualmente durante um período de meio
século. Pode-se distinguir quatro principais fases:
1) A destruição da sociedade européia de Estados como consequência da Primeira
Guerra Mundial;
2) Os vinte anos do Tratado de Versalhes e da Liga das Nações, que desembocaram na
Segunda Guerra Mundial
3) Reorganização do sistema global e da nova sociedade internacional pós-guerra;
4) A descolonização

No primeiro item: a destruição da sociedade européia de Estados, que se desenvolveu por


quatro séculos, teve muitas e complexas causas. A inabilidade da sociedade para se ajustar
sem catástrofe às pressões estabelecidas no sistema pelo crescimento do poder alemão. No
início do século XX, os grandes poderes da Europa se moveram de Concerto elástico, que
os permitiu agir de modos diferentes em diferentes questões, para uma confrontação rígida
entre dois blocos rivais: a Tripla Aliança, formada por Alemanha, Áustria-Hungria e Itália;
e França e Rússia do outro lado, dois poderes insatisfeitos. Mas em um nível mais profundo
que essas alianças formais, quase todos os poderes da Europa se tornaram crescentemente
incomodados pelo rápido crescimento da capacidade militar e industrial do novo Reich
alemão. A população do novo Reich era a maior na Europa fora a Rússia e superior em
educação e habilidades. Enquanto Rússia e Grã-Bretanha eram poderes grandes na Ásia e
França e Áustria-Hungria tinham áreas de expansão territorial em mãos, a Alemanha estava
trancada no centro da Europa. Os alemães nesse ínterim não pediram por terras adicionais
na Europa, mas eles se viam como ein Volk ohne Raum. Após a queda do cauteloso
Bismarck, os alemães conseguiram uma posição dominante na diminuição do Império
Otomano, que entrou nos interesses russos e britânicos; seu colonialismo no exterior
competiu com França e Grã-Bretanha; e eles achavam ser necessário proteger seu comércio
mundial com uma marinha poderosa. Juntamente com esses desafios específicos, a
Alemanha se direcionava, ao que parecia para os medos de seus vizinhos, para ser
hegemônica na Europa.
A entente entre França, Rússia e Grã-Bretanha via-se como uma genuína coalizão
anti-hegemônica, com a França como poder animador. Infelizmente, o Concerto não
funcionou por muito mais tempo na Europa e o compromisso mútuo tolerável não podia
mais ser negociado. Dessa forma, tudo se encaminhava para que as tensões na Europa se
resolvessem por meio de uma guerra entre os maiores poderes.
O mesmo problema foi posto na Ásia ocidental pelo Japão. A modernização e
ocidentalização do Japão lançaram um dinamismo expansionista comparável ao da
Alemanha na Europa. Os japoneses também se viam como um povo sem espaço; e o
imperialismo era “moda” entre os outros membros do clube dos grandes poderes que eles
tomavam como modelo. Fortificados por uma aliança com a Grã-Bretanha, eles evitaram a
Rússia pela Manchúria e então prosseguiram para estabelecer uma posição especial lá e ao
norte da China, comparáveis aos impérios europeus em outros lugares na Ásia. A
autoridade do governo chinês e a tradicional política britânica de abrir as portas para o
comércio colapsou; e os arranjos coletivos complexos para proteção do seu comércio na
China pareciam ser substituídos pela divisão daquele imenso país em protetorados de
poderes individuais imperiais. No entanto, a expansão japonesa era oposta pelos Estados
Unidos. Os americanos, envolvidos no território pelas suas recentes anexações, tardiamente
defendeu as portas abertas e a integridade da China.
Os japoneses não queriam levantar uma questão global, como fizeram os alemães,
eles contavam com a aliança angla japonesa para se proteger da forte oposição dos EUA e
da Rússia para seus planos chineses.
A Guerra 1914-18 foi uma guerra européia, lutada por razões européias e repleta de
paixões européias. A Alemanha era o poder eminente e até que os EUA entrassem na
guerra, seu poder hegemônico era incontestável. A Primeira Grande Guerra efetivamente
destruiu os Estados europeus além das suas possibilidades de reparação.
O equilíbrio na Europa fora destruído. Áustria-Hungria não mais existia. A
Alemanha estava arrasada. A Rússia não estava mais lá como possível aliado para ajudar a
conter o poder alemão. Do outro lado da Alemanha estavam França e Inglaterra tentando se
recuperar das vicissitudes da guerra. A guerra inclusive precipitou a Revolução Russa.
A uma decisiva quebra com o passado e uma nova ordem internacional se tornaram
essenciais. O Acordo de Versalhes (incluindo os tratados menores e o estabelecimento da
Liga das Nações) é frequentemente contado como o primeiro ato global constituinte de
auto-regulação por uma sociedade que se tornou mundial. Mas em retrospectiva, pode-se
considerar como um acordo de transição. Na ausência da Rússia e da Alemanha, o acordo
foi um trabalho dos grandes poderes ocidentais. Eles almejavam produzir um acordo viável
para a Europa e um plano de regras e instituições para uma sociedade mundial capaz de
manter a ordem e prevenir a guerra. Em contraste com seus grandes predecessores, os
Acordos de Vestfália, Viena e Utrecht, o Acordo de Versalhes era defeituoso e muito menos
congruente com as realidades da situação, que falhou em conseguir seus objetivos.
Os vitoriosos redesenharam as fronteiras, aboliram Estados (notavelmente Áustria-
Hungria e o Império Otomano) e criaram novos, impuseram indenizações, menos
sabiamente que seus predecessores. O desenho de uma nova sociedade global, a Liga das
Nações, perpetuou a prática dos cinco grandes poderes, que, exceto em casos de desacordo,
objetivavam um tipo de concerto do mundo por meio do domínio do Conselho da Liga. O
desenho da nova sociedade global também incorporou quase todas as regras e práticas que
foram desenvolvidas na grande république, incluindo o direito internacional, a diplomacia
e suas premissas básicas sobre soberania e igualdade jurídica dos Estados reconhecidos
como membros independentes da sociedade. Juntamente com esses conceitos europeus não-
discriminatórios, o novo desenho deixou virtualmente intactas as capitulações e outras
práticas que os europeus instituíram coletivamente nos países, desde o Marrocos à China,
como também as grandes estruturas imperiais dos Estados dependentes controlados pelos
vitoriosos e alguns neutros.
Os homens de Estado e o público das democracias ocidentais queriam sair do lado
incontrolável do espectro das múltiplas independências para um sistema mais forte. O Pacto
da Liga das Nações foi escrito de acordo com a legitimidade anti-hegemônica, como uma
chave para a sociedade de Estados soberanos que voluntariamente concordaram em prover
a segurança coletiva. Na verdade, isso foi imposto pelos poderes ocidentais e só podia ser
esperado para funcionar efetivamente se esses poderes concordassem em agir como uma
autoridade hegemônica coletiva para regular e quando necessário impor a nova sociedade
internacional. A Liga era um pacto permanente comprometida a manter a paz, nos termos
kantianos, e também uma Sacra Aliança dos poderes vitoriosos determinados a fazer do
mundo um local seguro para a democracia. Nesse sentido geral, pode-se se dizer que há
semelhanças com Viena, mas Versalhes provou ser muito menos efetivo que o Concerto
Europeu que emergiu de Viena por duas grandes razões: a falta de elasticidade e o fato de a
Liga ter proclamado uma nova legitimidade.
Quanto à falta de elasticidade, tem-se que os aliados ocidentais, ao invés de
restaurar a mobilidade da balança de poder, renunciaram o conceito de balanço, que eles
consideravam ser responsável pela catástrofe, e seguiram a favor de uma idéia mais rígida
de segurança coletiva. No lugar da integração austro-húngara e do Império Otomano, eles
optaram pela balcanização de toda a área entre Suíça e Pérsia. Dessa forma, eles
fomentaram o princípio nacionalista da auto-determinação. A segunda razão, a proclamação
de uma nova legitimidade, mas era muito fraca para garantir isso. O governo dos quatro
novos poderes do século XX, EUA, Rússia, Alemanha e Japão ficaram de fora do
comprometimento de manutenção da ordem internacional. Alemanha e Japão ficaram
poderes insatisfeitos.
A Liga, em que pese seus defeitos, foi a primeira tentativa de constituição da nova
sociedade global de Estados.
Na década de 1920, o processo de ajustamento na Europa começava:
estrategicamente foi marcado pelo Acordo de Rapallo da Alemanha com a Rússia e com o
Acordo de Locarno, com seus vizinhos ocidentais, economicamente foi marcado pelos
planos americanos de Dawes e Young.
A falta de vontade dos franceses de implementar o Acordo de Locarno ajudou a
causar a queda da República de Weimar e a ascensão do nazismo na Alemanha.
Nenhum balanço efetivo ficou nesse novo período. Stalin, obrigado a escolher entre
a barganha com Hitler ou se tornar membro da coalizão anti-hegemônica contra ele, optou
por um acordo com o poder hegemônico, o que aumentou o poder da Alemanha contra o
oeste. A vontade de Hitler de dominar a Europa e o strike japonês contra os EUA levou à
resolução massiva de guerra na qual as quatro comunidades mais poderosas emergiram
como protagonistas do sistema. Três deles, Alemanha, Japão e Rússia, tinham regimes
totalitários e somente os EUA eram democratas. Cada qual lutou elos seus próprios
interesses e princípios.
O sistema de Estados n primeira metade do século XX (1900-45) era mundial, mas
ainda centrado na Europa. Antes e após a I Guerra Mundial, o sistema foi cada vez mais
constrangido por pressões de desenvolvimento e o crescente poder de seus líderes,
combinado com acordos inadequados para gerenciar as pressões. Em outras palavras, a
sociedade internacional em ambos os períodos estava tão perdida e tão próxima ao lado das
múltiplas independências do espectro que era de fato um recipiente para o desastre.

A Era dos Super poderes e a Descolonização

A segunda fase da emergência da sociedade internacional global, as duas décadas do


período entre - guerras, foi um período de desordem incomum, que colocou e prática um
interregno de autoridade no sistema. As quatro décadas após a Segunda Guerra Mundial
(1945-1985) foram um período de maior ordem e autoridade. Os estragos causados pela
guerra na Europa e no Japão destruíram a capacidade dos europeus de controlar do sistema
e deixou aos EUA e União Soviética o lugar que era ocupado pelos europeus.
Nessa terceira fase de emergência da nova sociedade global, os vencedores ficaram
frente a frente com duas grandes questões da ordem mundial. A primeira era como
responder às pressões não familiares de um sistema novo. A segunda era quais regras e
instituições deveriam ser dadas à nova e não mais eurocêntrica sociedade internacional.
As grandes guerras do sistema de Estados europeus foram seguidas por congressos
nos quais participaram os vitoriosos e os poderes derrotados, que reconheciam estar
revisando as regras e instituições de uma sociedade internacional. Essa sociedade era
essencialmente européia. Tal Congresso não seria possível após a Segunda Guerra Mundial.
O poder dos dois grandes Estados vencidos, Alemanha e Japão, fora destruído; seus
territórios foram ocupados e administrados pelos vitoriosos e, no caso da Alemanha,
dividido por eles. Os vencedores eram Rússia e Estados Unidos, esse último tomou o lugar
da Grã-Bretanha no sistema.
Estados Unidos, Rússia e Grã-Bretanha formaram uma aliança temporária para
conter as ameaças da Alemanha e do Japão. Uma vez que esses poderes estavam destruídos,
a razão básica para aliança desapareceu. As conferências dos três poderes aliados em
Teheran, Yalta e Potsdam acordaram esferas de domínio e termos gerais. O poder no
sistema global rapidamente se rearranjou em torno de dois pólos opostos: União Soviética e
Estados Unidos. Os dois super poderes eram centros nos quais sociedades separadas se
desenvolveram, uma contra a outra estrategicamente, mas insuladas pela geografia e
ideologia.
Os dois novos centros do poder mundial tinham raízes culturais européias, mas os
dois ficavam fora do território originalmente europeu. A tradição européia de uma
sociedade internacional organizada era tão forte que eles e seus aliados concordaram que as
regras e práticas do período anterior deveriam permanecer provisoriamente. O modelo para
tal organização existiu na Liga das Nações, mas em função de suas fraquezas eles queriam
estabelecer uma versão reformada dela. Uma das razões para a falha da Liga foi a ausência
ou indiferença dos Estados mais poderosos do sistema. Desta vez, Estados Unidos e União
Soviética seriam membros líderes da nova organização chamada Nações Unidas. Os russos
propuseram e os demais grandes Estados aceitaram uma fórmula baseada na experiência
dos grandes poderes no Concerto Europeu. Haveria novamente cinco grandes poderes
membros permanentes do Conselho de Segurança; e a ativa oposição de qualquer um
desses membros seria uma decisão mandatória do Conselho (por meio do poder de veto).
Dessa forma, o suporte ou ao menos aquiescência dos cinco grandes poderes era necessária
para a significante ação coletiva das Nações Unidas. As Nações Unidas, como
originalmente constituída, não funcionou de fato como um concerto dos grandes poderes ou
efetivamente manteve a ordem. Ela serviu aos interesses dos poderes maiores.

A Sociedade Bipolar

Sua característica foi o domínio dos dois super poderes e a separação dos dois
sistemas que eles construíram. Os cinco grandes poderes após Viena aquiesciam com as
ações uns dos outros dentro de um único concerto; os dois super poderes após a Segunda
Guerra Mundial concordavam com o estabelecimento de duas esferas separadas de
autoridade.
Os Estados Unidos, com uma indústria funcionando a pleno vapor, com o mundo
funcionando em suas bordas e com a posse da bomba atômica, eram imbatíveis. Eles
consideravam que as regras da nova ordem mundial lhes favoreciam, como também eles as
favoreciam: democracia, direito, descolonização e portas abertas para os negócios norte-
americanos.
Do outro lado, Stalin se fez o imperador da União Soviética e com o final da
Segunda Guerra Mundial ele viu a oportunidade de expandir seu império e insulá-lo de
ameaças externas. Ele ocupou um círculo de Estados subordinados, cujos regimes o
reconheceram como seu autocrata. Além de sua zona de domínio, ele esperava, por meio da
obediência do partido comunista (Kominform) e com outras formas de pressão, estabelecer
sua hegemonia a partes ocidentais da Ásia ou ao menos bloquear as tendências e políticas
que ele considerava hostis aos seus interesses.
Os norte-americanos acharam necessário conter o poder soviético no mundo. Na
Ásia, Truman recusou a Stalin uma zona de ocupação no Japão e ajudou China e Irã a
recuperarem os territórios ocupados pela Rússia. Mas logo após a guerra, o partido
comunista chinês estabeleceu controle efetivo sobre aquela enorme comunidade. A
suposição de que todos os partidos comunistas estavam sob controle soviético deu a
impressão de que o globo estava dividido ideológica e estrategicamente em dois grandes
hemisférios de influência.

A Guerra Fria

A Guerra Fria foi marcada em ambos os lados por estratégias defensivas e por
competição por alianças ou simpatia dos povos de todo o globo. A guerra permaneceu fria
principalmente pelos efeitos devastadores que as armas nucleares podiam causar. As forças
armadas soviéticas na Europa foram desenhadas e equipadas para guerra ofensiva; mas os
homens de Estados de ambos os lados perceberam que uma guerra entre poderes nucleares
não era por muito tempo o último recurso: era um meio muito destrutivo.
Os 40 anos após a Segunda Guerra Mundial foram marcados por guerras menores,
que não afetaram o curso geral da civilização em nenhum dos dois blocos. Essa foi a
mudança maior em relação às suas catástrofes mundiais da primeira metade do século.
Durante a Guerra Fria, a União Soviética exerceu domínio sobre os Estados
contingentes nos quais tinha guarnições, notavelmente o leste europeu e Mongólia; e
posteriormente ofereceu medidas de proteção e suporte a pequenos Estados que receavam
um vizinho poderoso e adotavam uma forma de governo próxima à da União Soviética.
Exemplos são Cuba, Vietnã. Angola e parte sul do Iêmen. Já Iugoslávia e China adotaram
governos comunistas, mas não tinham tropas soviéticas em seus territórios, não estavam
ligados ao governo soviético e se tornaram líderes do movimento dos não-alinhados.
Os Estados Unidos permitiram aos outros Estados grande liberdade de ação, o que
se expressava institucionalmente em correntes de alianças, que se estendiam da Grã-
Bretanha à França e logo restauraram o Japão e a Alemanha Ocidental, como também
pequenos clientes na Europa e na Ásia. Em todos eles, o poder americano era
preponderante.
O mundo ficou muito como um sistema em termos estratégicos, e cada super poder
era a principal preocupação militar do outro. O mundo também continuou formalmente
uma sociedade internacional, com uma estrutura comum de direito internacional,
representação diplomática e outras regras e instituições herdadas da sociedade européia.

Descolonização

Enquanto isso o espetacular domínio da Europa no mundo se desintegrava. A quarta


fase da emergência da nova sociedade internacional, a descolonização foi parte do
enfraquecimento do poder Europeu.
Quando o Concerto Europeu regulou as atividades européias na África, em Berlim
(1884-5), formulou a obrigação internacional dos poderes coloniais de agir como trustees
para o bem-estar e avanço dos povos primitivos e dependentes. Os conceitos de custódia e
avanço implicavam que a tutela colonial teria um fim.
Após a Primeira Guerra Mundial, o conceito de autodeterminação substituiu o
imperialismo como doutrina da época, e a aquisição de colônias não mais era vista como
legítima. Os poderes vitoriosos não anexaram os territórios dependentes da Alemanha e do
Império otomano, mas os fizeram mandatos da Liga das Nações, cada um administrado por
um poder mandatório. Após a Segunda Guerra Mundial, o mesmo sistema foi continuado
pelas Nações Unidas.
O conceito de descolonização rapidamente se alastrou entre as duas guerras
mundiais. A um corpo de opinião ocidental e as elites educadas nos Estados dependentes
requereram os conceitos de confiança sagrada, responsabilidade e autodeterminação para
todas as colônias e passaram a julgar o imperialismo como racismo e exploração
econômica.
Ao final da Segunda Guerra, os Estados colonizadores estavam cientes de sua
fraqueza. Ambos os super poderes apoiaram a descolonização e pressionaram para apressar
esse processo. A atitude soviética foi influenciada pela análise questionável de Lênin sobre
imperialismo e pela válida presunção de que a descolonização faria a contenção ocidental
do bloco soviético mais difícil. Os Estados Unidos acreditavam que as dependências que
logo se fariam independentes procurariam pelo apoio dos Estados Unidos.
Dentro de vinte anos após o fim da guerra, a maioria dos Estados dependentes
conseguiram independência política, sendo seguidos por quase todo o resto dos Estados
dependentes. Os Estados que conseguiram suas independências não se voltaram com
gratidão aos EUA nem à União Soviética. Eles, com poucas exceções, queriam ser livres
das relações que amarravam e em particular queriam evitar se tornar clientes dos dois super
poderes. Na África e na Ásia havia uma revolta geral contra o Ocidente, com fortes
ressentimentos pela presumida superioridade racial e cultural pelos homens brancos. Sob
liderança da Índia e da China os novos Estados independentes proclamaram o objetivo de
não-alinhamento, na Conferência da Bandung e em vários outros congressos subsequentes.
Eles se denominavam terceiro mundo, distintos dos dois super poderes. O apelo anti-
imperial foi forte o suficiente para fazer com que os países da América Latina quisessem se
juntar ao bloco dos não-alinhados.
A descolonização foi uma descentralização política massiva e uma mudança
substancial do pêndulo em direção ao lado das múltiplas independências do espectro. Os
novos e restabelecidos Estados agora constituíam a maioria dos membros da sociedade
internacional. Eles insistiram no conceito europeu de igualdade de todos os Estados
soberanos. Mas a maioria deles não tinha tradição nem experiência em relações
internacionais e muito eram mini-Estados, muito pequenos para serem economicamente
viáveis.
Ambos os novos super poderes eram herdeiros da tradição européia de
gerenciamento da sociedade internacional. Talvez, o aspecto mais significante desses 40
anos tenha sido a considerável estabilidade do sistema. Essa estabilidade era assegurada
pelo controle hegemônico e em alguns casos pelo domínio exercido pelos grandes super
poderes dentro de suas constelações, juntamente com o balanço das armas nucleares, que
manteve a fria Guerra Fria. Entretanto, com o passar do tempo as economias do Japão e da
Alemanha se recuperaram e, consequentemente, sua força no sistema mundial. O mundo
desenvolvido se tornou mais policêntrico.

A Sociedade Internacional Contemporânea

O colapso do domínio europeu não dissolveu a o sistema mundial de interesses e


pressões que envolviam todo o planeta em um único sistema, organizado por uma única
sociedade. O controle europeu enfraqueceu, mas a natureza global do sistema sobreviveu.
O desenvolvimento explosivo de tecnologia, especialmente a velocidade das comunicações
e o alcance das armas, continuam a fazer o mundo mais integrado, de forma que todos os
Estados ficam mais constrangidos pelas suas pressões que antes. Com essas mudanças,
novos padrões de pressão e interesse se desenvolveram.
Essa nova sociedade difere da sociedade global imperial do século anterior, cujas
regras e valores eram impostos pelos europeus como uma extrapolação da experiência
deles, e difere de todas as sociedades precedentes. Houve um grande movimento no
pêndulo, notavelmente na África, Ásia e um movimento menos importante na Oceania e
Caribe, dos impérios do oeste europeu, por meio de um padrão de hegemonia transitório da
Commonwealth britânica e da Communauté francesa, para uma sociedade fragmentada de
múltiplas independências; e o leste europeu e as aeras moscocêntricas de domínio soviético
também desintegraram e as repúblicas da União Soviética conseguiram suas
independências formais. Um grande número de Estados agora passou a aceitar somente os
aspectos regulatórios da presente sociedade e não se sentem ligados aos valores e códigos
de conduta derivados da Europa.
A nova e não-discriminatória sociedade global não passou a existir por meio de uma
quebra radical com o passado, mas herdou sua organização e a maioria dos seus conceitos
de sua predecessora européia. Havia um esforço consciente após a Segunda Guerra
Mundial para manter a continuidade das regras e instituições existentes, incluindo até
mesmo a Liga das Nações; a Liga em si era uma extensão, com algumas modificações, dos
princípios e práticas desenvolvidos num contexto muito diferente, que foi o da grande
république européia.

A posição dos Estados menos poderosos

A característica mais importante da nova sociedade internacional é a extensão da


soberania política por todo o sistema, mesmo aos pequenos Estados e às empobrecidas
ilhas. Todos os Estados independentes são iguais juridicamente.
O status das novas independências e membros da comunidade mundial é simbolizado
pela participação nas instituições da sociedade. A troca de representações bilaterais
diplomáticas com outros Estados e membros das Nações Unidos são as evidências visíveis
do reconhecimento.
A maioria dos Estados membros da sociedade internacional não tinha experiência em
relações internacionais. A principal contribuição das Nações Unidas, nesse sentido, foi lhes
oferecer uma posição moral preciosa e algumas vantagens materiais.

Fluxo Estratégico

Os maiores centros de poder no século XX foram Estados Unidos, Rússia, Alemanha


e Japão. A destruição da Alemanha e do Japão na Segunda Guerra Mundial foi temporária;
mas como resultado a configuração estratégica do sistema mundial foi definida, por
aproximadamente meio século, pelo relativamente estável sistema bipolar, focado nos dois
super poderes militares, com um terceiro mundo que queria se manter o mais “não-
alinhado” possível.
Na década de 1980, o sistema internacional passou por uma dramática mudança. A
queda do marxismo-leninismo levou à desintegração da União Soviética e levou o poder
russo à temporária inatividade, a despeito de sua massiva capacidade estratégica. O eclipse
do poder russo deixou os EUA em uma posição de única liderança hegemônica. Ao mesmo
tempo, a Europa estava se unindo em uma provável confederação política e estratégica. O
pensamento estratégico e das disposições de cada Estado afetado pelo poder soviético
estavam sendo rapidamente modificados.
Conforme as capacidades soviéticas e suas hostilidades contra os EUA declinavam, e
conforme a capacidade econômica dos EUA perdia sua relativa predominância, as forças
americanas permanentemente fixadas no estrangeiro foram sendo reduzidas , em parte por
acordos com os Estados hóspedes e unilateralmente.
O concerto dos poderes mundiais, com sua prática baseada em acordos e
aquiescência, começa a gerenciar a sociedade internacional, mesmo em áreas difíceis como
Oriente Médio, Indochina, Bálcãs e a reconstrução das ex-economias soviéticas. O concerto
funciona de forma hesitante no início, com a relutante liderança americana; e quando
possível sob os auspícios das Nações Unidas.

Inovação Econômica

As maiores inovações na organização da sociedade internacional desde a Segunda


Guerra se deram no campo da economia. A integração econômica do sistema fez com que
novas práticas e instituições fossem necessárias. A ordem econômica é agora mais integrada
e mais gerenciada por um diretório institucionalizado dos grandes poderes econômicos.
As instituições arranjadas para gerenciar a nova ordem econômica proveram a
fundação da presente máquina e se desenvolveram no âmbito destinado a assuntos
econômicos das Nações Unidas. Os principais instrumentos foram o BIRD (Banco
Mundial), FMI e outros corpos multilaterais estabelecidos para promover o crescimento
econômico. Os EUA ainda têm papel preponderante nessas instituições.
Fazendo frente à hegemonia difusa dos grandes poderes, há um tipo de coalizão anti-
hegemônica: o terceiro mundo. Essa coalizão coordena as políticas da maioria mais fraca e,
dessa forma, contribui para a integração do sistema econômico. Seus membros são
comprometidos com independência política, mas eles percebem o quanto eles necessitam
de segurança econômica coletiva, incluindo ajuda, investimentos e mercados para suas
exportações, isso é também uma forma de satisfazer as altas expectativas das crescentes
populações.
Quando comparamos o presente padrão da sociedade internacional com os anteriores,
a nova sociedade parece ser fragmentada em múltiplas independências, com algumas reais
mas não totalmente legítimas fontes de autoridade hegemônica, tentando gerenciar um
sistema bastante integrado por pressões tecnológicas e de outros tipos. As instituições
formais e a legitimidade tem heranças da Europa e influência das demandas dos novos
Estados membros independentes, que são a maioria, e do espírito anti-imperial. Mas as
práticas econômicas, estratégicas e operacionais da sociedade são significativamente
adaptadas à nova realidade.

Sistemas e Sociedades

As regras e instituições de uma sociedade imperial têm um único poder dominante,


como os impérios do mundo antigo ou o de Napoleão. Próximo ao meio do espectro está o
poder hegemônico, como os atenienses, os Habsburgo e Luís XIV, que podiam impor as
regras, governando as relações entre os membros de um sistema de Estados mais
independentes. Conforme movemos o pêndulo mais próximo às múltiplas independências,
podemos encontrar formas mais difusas e incertas de hegemonia em conjunto por um grupo
de grandes poderes, como o Concerto Europeu após Viena. Finalmente, mas raramente, um
conjunto de regras anti-hegemônicas pode ser feito para uma sociedade de comunidades
independentes e efetivamente iguais. Mesmo quando indivíduos de um sistema
internacional não constituem uma sociedade, eles desenvolvem regras regulatórias e
instituições, porque elas não podem gerenciar sem isso. Nenhum sistema pode existir sem
regras- e convenções de algum tipo.

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