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Guerra Cultural – História e Estratégias

OLAVO DE CARVALHO

Aula 2
27 de setembro de 2016

[versão provisória]
Para uso exclusivo dos alunos do Seminário de Filosofia.
O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.
Por favor, não cite nem divulgue este material.

Então vamos lá. Boa noite a todos, sejam bem-vindos.


Hoje, segundo o programa, temos que expor a teoria da ação histórica. Quem é o sujeito da história e
quem é, portanto, o sujeito da guerra cultural. Mas, para introduzir esse assunto, vamos partir de uma
constatação do presente.
Quando nós observamos a atuação das forças que emergiram do antipetismo a partir de 2013-2015, e
que se expressam através da internet, de blogs, de algumas revistas, impressas inclusive, e de várias
candidaturas – a vereador, a deputado etc. – temos a impressão de que todo esse pessoal imagina estar
dentro de uma disputa política em um grêmio de ginásio – onde tudo o que interessa é falar
relativamente bem, impressionar um pouco a plateia, e tocar nos tópicos fundamentais do pensamento
liberal e conservador.
Isso não é política de maneira alguma. Isso é apenas um teatrinho muito superficial, muito bocó, que
reflete o fato de que o público liberal e conservador toma como seus orientadores e gurus tipos como
Rodrigo Constantino, Reinaldo Azevedo, entre outros. É um fenômeno semelhante ao que aconteceria
se, em 1964, destronados pelo golpe militar, os comunistas tomassem como seus mentores, guias e
líderes intelectuais o Luis Fernando Veríssimo e o Chico Buarque. Em vez de Caio Prado Junior,
Jacob Gorender, dentre outros tantos. Ou seja, existe uma confusão pública, hoje, entre o que é um
mero formador de opinião e o que é um estudioso especializado no assunto.
O amadorismo impera de uma maneira absolutamente catastrófica. Houve até quem promovesse um
encontro próximo para ouvir os “maiores pensadores conservadores do Brasil” – então estava eu,
Rodrigo Constantino, e outros tipos assim. Olha, não é um problema de eu me sentir ofendido porque
me nivelaram a um Rodrigo Constantino – porque para mim se me nivelarem até com um macaco
nem sempre é injusto –, mas é um problema de praticidade, de confundir o mero propagandista de
ideias com um efetivo analista estratégico. A diferença é monstruosa gente.
Por exemplo, ninguém numa indústria confunde o departamento de produção com o departamento de
vendas ou propaganda, ninguém confunde isso aí. O sujeito não vai, na hora de montar o equipamento
– seja um computador, ou um automóvel etc. –, perguntar para o sujeito da propaganda como é que
deve ser o carro. Isso simplesmente não se faz. Primeiro é preciso ter o produto. A venda e a
propaganda são um negócio posterior – mesmo que se aceite alguma sugestão, por uma questão de
educação pode-se até perguntar ao cara da propaganda como deve ser o produto e tal, mas ele vai se
limitar aos aspectos “cosméticos”, a sugestão não irá entrar na mecânica, no funcionamento. Mas esse
erro é geral e endêmico entre os liberais e conservadores brasileiros.
Quem são as melhores inteligências desse meio? Por exemplo, o Luis Felipe Pondé, ele entende de
teorias, de ideais, de valores, etc., mas se perguntar para ele sobre estratégia, ele não entende
absolutamente nada. Quantos livros ele já leu sobre a KGB? Juro que nenhum! Ele leu Karl Marx,
Edmund Burke, Mises etc. – que é o que o pessoal está lendo e achando que entenderam tudo.
O que estamos observando é: que apesar da imensa força popular do movimento liberal-conservador
a partir de 2013, ele está sendo facilmente engolido e neutralizado por forças de esquerda. Pois, essas
forças dominam todo o aparato superior, toda a elite – universidade, mídia, administração federal,
sistema judiciário etc. É uma elite muito pequena, mas que detém na mão todos os “botões” que fazem
a sociedade funcionar. Contra isso nenhuma maioria tem poder algum – se observarmos onde quer
que os comunistas tenham tomado o poder, eles sempre eram a minoria, mas a minoria que tinha nas
mãos os instrumentos de ação e contra os quais a maioria nada pode.
A maioria, por definição, é uma massa desorganizada, esparramada para tudo quanto é lado. E, que
quando consegue agir de uma maneira unificada – por exemplo numa eleição, onde a população
inteira é convocada para dizer um ‘sim’ ou ‘não’, e ela comparece aonde ela diz um ‘sim’ ou ‘não’ –
[o faz de maneira extremamente controlada e premeditada, para decidir sobre questões colocadas pelo
governo], isto é o máximo de ação integrada que a massa consegue. A massa desorganizada só age
quando é convocada pelo próprio governo.
E eu vejo que se não forem tomadas providências urgentes, toda a massa liberal e conservadora no
Brasil será dispersa e será integrada dentro de planos esquerdistas. Como aconteceu durante o
processo de impeachment da Dilma. Quem ganhou com o impeachment da Dilma? A esquerda
moderada e uma parte do próprio PT. E o pessoal liberal e conservador ganhou o quê? Nada,
absolutamente nada, o poder deles não aumentou nem um milímetro. A autoria, o protagonismo
daquilo, foi passado da massa popular para os velhos políticos de sempre, para o estamento
burocrático, o qual evidentemente está comprometido com a esquerda até a goela.
Em vista dessas coisas é que eu vejo a urgência desse tipo de esclarecimento, a urgência deste mesmo
curso. Para entender o que é guerra cultural é preciso sair da esfera da política – que aparece na mídia,
na televisão, sobre disputa eleitoral e essa coisa toda – e olhar o processo a mais longo prazo. Este
longo prazo nos coloca diante da questão do que é a ação histórica, ou seja, uma ação que afeta o
curso da história – isso é fundamental.
É possível, por exemplo, vencer uma eleição, e até mesmo começar uma revolução, sem que isso
mude absolutamente nada. Como foi o caso do nosso movimento da independência, a Inconfidência
Mineira, que foi historicamente inócua, e que só depois, já tardiamente, serviu como um símbolo
retroativo, quando houve um efetivo movimento pela independência. Que aliás, veio de cima, do
próprio governo. Ou seja, pegaram aquele movimento fracassado, inócuo, e usaram retroativamente
como um símbolo, e as gerações seguintes, idiotas, acreditaram que aquilo teve uma efetiva
importância histórica.
Eu lembro que nosso grande historiador, o José Honório Rodrigues – que era um homem da esquerda,
porém um tremendo historiador – lembrou em um artigo que, na Suíça, o episódio de Guilherme Tell,
havia sido apagado dos livros de história porque chegaram a conclusão de que foi algo inócuo. Um
negócio meramente simbólico que aconteceu ali numa cidadezinha, que ninguém deu importância e,
portanto, não faz parte da história, mas do folclore por assim dizer.
Desse modo, quando falamos em ação histórica estamos nos referindo a ações que mudam o curso da
história pelo menos de um país inteiro. Mudar o curso da história significa criar uma situação que é
irreversível, que não há como voltar. Por exemplo, quando Trotsky mandou matar toda a família
imperial da Rússia. Não tem como tirar os caras do túmulo, isso não vai voltar mais. Ou quando Hitler
invade a URSS, ali criou uma situação que não tem mais como voltar, pois até aquele momento havia
um jogo de diplomacia, de colaboração e concorrência simultânea entre a URSS e a Alemanha
Nazista, porém, agora acabou, agora é guerra, não tem como voltar atrás.
Essas situações, que são criadas para não voltar mais, e que afetam o curso das coisas de uma vez
para sempre – isto é importante, é para sempre –, é isto que nós chamamos de ação histórica. Por
definição, uma ação só tem alcance histórico quando ela ultrapassa a duração da vida dos seus
protagonistas. Aquilo que morre com o agente, não entra na história. Se não ficou marcas para as
gerações seguintes, se aquilo não as afetou em nada, então não faz parte da história – por mais
interessante que possa ser para fins literários ou cinematográficos. Isso significa que só pode haver
ação histórica quando os meios de ação utilizados continuam existindo depois da extinção dos seus
primeiros protagonistas – isso é básico.
Imaginem, por exemplo, o que aconteceria com o cristianismo se a igreja cessasse de existir na sua
primeira geração, se não existisse a chamada sucessão apostólica. Vejam, o próprio Deus para
continuar agindo na história humana – o próprio Deus! – cria uma sucessão apostólica, ou seja, uma
sucessão de pessoas que são treinadas na mesma mentalidade, habilitadas a praticar certas ações, e a
prosseguir uniformemente e coerentemente aquela ação ao longo dos séculos. Quer dizer, o próprio
Deus consente em admitir que ele precisa de uma continuidade de agentes humanos. Agora, tem gente
que não precisa disso – os nossos conservadores e liberais não precisam, eles acreditam que dá para
resolver tudo na geração deles, o futuro que se dane. Alguns imaginam até que pensar no futuro é
irrealista – “não, nós temos que pensar e ver a situação aqui no momento etc.” –, quer dizer, são
pessoas que abdicam da ação histórica na sua raiz, não têm ideia do que seja e não querem ter. Então,
se essas pessoas são derrotadas, nada mais justo e razoável.
A ação histórica, se ela requer a continuidade ao longo das gerações, então ela exige um negócio que
se chama – Pierre Bourdieu que usou esse termo – ‘reprodução’. Ou seja, os hábitos, valores,
habilidades, e técnicas que estão de posse da primeira geração têm que ser transmitidas às seguintes,
e com isso deve se formar o tipo de personalidade adequada a continuar aquela ação. Não é um
ensinamento meramente exterior, uma série de coisas que o sujeito vai aprender, não. São uma série
de coisas que o sujeito irá ser.
Podemos tomar como exemplo, a própria formação do clero católico. Imaginem como é trabalhoso,
difícil e doloroso o processo de formação de um sacerdote na Igreja Católica. O número de coisas a
que ele deve renunciar – família, casamento, sexo, riqueza, mais isto, mais aquilo – e se o mandarem
para o “cafundó do Judas” para lavar pés de meninos pobres, ele terá de ir. Existe um estudo feito por
um ex-comunista inglês que diz o seguinte: “a medida da fidelidade de um sujeito a uma organização
não é o que ele recebe dela, mas o que ele dá a ela” – isto aqui é básico. Os padres se mantêm fiéis à
Igreja Católica, quando nela permanecem, porque sacrificaram muito para poder estar ali, e não por
estar recebendo algo – claro que na Igreja Católica existem alguns, existe uma elite de cardeais, que
enchem a barriga, alguns inclusive têm até amantes e carros com chofer e aviãozinho particular, mas
é uma minoria ínfima, é 0,002%; os demais estão comendo “o pão que o diabo amassou” e
permanecem fiéis por causa disso. No mínimo, no mínimo, é por egoísmo – “agora que eu já
sacrifiquei tanto, agora eu tenho que ir até o fim, ó raios.” Estudem a vida de qualquer santo da Igreja
Católica e veja tudo que ele teve de dar para ela – ou até a vida de um sacerdote qualquer, não precisa
ser santo.
Do mesmo modo, se vocês estudarem a vida de qualquer militante comunista importante, verão que
ele deu muito mais do que recebeu – claro que alguns recebem; quando a revolução sai vitoriosa tem
uma elite que vai para o governo, e tem ali toda uma nomenclatura para servir, tem uma datcha, tem
carro oficial, etc., porém, é uma minoria ínfima. A maioria não ganha absolutamente nada com isso,
mas sacrifica muito.
Vejam, na história dos Founding Fathers que eu mencionei, o compromisso que eles assinaram de,
pela independência americana, sacrificar suas vidas, suas liberdades, seus bens e suas honras – ou
seja, não sobrou nada. E, não apenas fizeram este voto [de sacrificar tudo], como de fato perderam
[realmente tudo que ofereceram em sacrifício]. Se vocês estudarem a vida cada um, cada um se ferrou
até o fim, se tivessem perdido ficariam sem nada. E depois que venceram, o que eles ganharam?
Ganharam uma parte do que eles tinham antes, o que sobrou. Ninguém ali ficou rico com a
independência, e se chegaram a desfrutar de algum poder – como de fato chegaram – este poder nem
de longe compensava materialmente o que eles haviam perdido antes.
Então, essa continuidade ao longo dos tempos exige a formação de personalidades adequadas. E
quando digo formação da personalidade, falo de algo que vai até o fundo da alma do sujeito. Não de
convencê-lo de duas ou três ideias, de jeito nenhum. Mas, de moldar uma personalidade inteira ao
ponto de o indivíduo sacrificar tudo por aquilo.
Se vocês forem estudarem a história da Maçonaria, observem os juramentos maçônicos. Por exemplo,
há um juramento que diz o seguinte: “se você contar os nossos segredos, iremos abrir seu peito,
arrancar o seu coração, e fazer mais isto e mais aquilo com você” – e o sujeito assina isso. É por isso
que a Maçonaria dura, não tanto quanto a Igreja Católica, mas dura também. Maçonaria, Igreja
Católica e partido comunista são exemplos de organizações que nós temos que estudar porque elas
são exemplos de ação histórica – e ação histórica planejada para durar mais do que a vida dos seus
primeiros protagonistas. Isto é, uma ação programada para continuar depois que os seus primeiros
agentes morrerem.
Vocês conhecem alguém no mundo liberal e conservador inteiro que esteja pensando nesses termos?
Não, essa ideia nunca lhes ocorreu. Se disserem a eles que devem fazer planos para cem ou duzentos
anos, eles vão rir na sua cara, vão achar que isto é irrealista. Mas, só isto é realista. Só este tipo de
ação prossegue e chega aos seus objetivos, o resto é tudo superficial, é “bolha de sabão”.
Por exemplo, se compararmos os partidos políticos brasileiros, veremos que alguns têm um senso de
continuidade – sendo o partido comunista o que mais tem senso de continuidade, que oficialmente já
nem existe, mas que continua agindo. Se nos perguntarmos sobre algo chamado ‘PT’ – que se formou
numa certa época, para uma certa finalidade, e que já a cumpriu, e pode ser dissolvido a qualquer
momento sem que isso faça a menor diferença – todos esses partidos são organizações de fachada,
são nomes que se pode adotar para fins de propaganda, mas que não mudarão em nada a composição
do produto.
Comparem isso com as famílias dinásticas. Estudem a história dos Habsburgos. Ou até mesmo as das
que não sejam famílias reais, [estudem a história] dos Rothschild, que estão aí já faz quatro séculos e
continuam mandando. [Estudem a] dos Rockfeller, que tem mais de cem anos, não são tão velhos
mas continuam mandando. [A] dos Morgan, entre outros. Então vocês começarão a entender o que é
a ação histórica. E a entender que, no curso de uma vida humana, se pode fazer muito pouco para
alterar o curso das coisas se não houver a garantia da continuidade.
Uma segunda conclusão a que vocês vão chegar, é a resposta à pergunta: “quem são os agentes
históricos, quem age na história?”
Por exemplo, temos livros chamados de “História do Brasil”. O Brasil age historicamente? Não.
“Brasil” é apenas o nome de um território onde as coisas estão se passando, é o nome do cenário. Não
dos agentes. Por quê? Porque os verdadeiros agentes da ação histórica foram trocados muitas vezes
– tinha a Casa Real, e de repente houve uma conspiração militar, e que continuaram agindo durante
certo tempo, depois se formou uma força regional no Rio Grande do Sul que toma o poder sobre o
país inteiro, e que já está também dissolvido a essa altura, e assim por diante. Ou seja, há uma sucessão
de agentes históricos de curta duração. É a mesma coisa que dizer: “não há nenhuma história do
Brasil”. Mas sim várias ações históricas, separadas, de curta duração – e isto é tudo que nós chamamos
de história do Brasil.
Se o sujeito disser: “ah, mas os Estados são agentes”. Existe, por exemplo, uma história da França?
Não, de jeito nenhum. Os Estados nunca são os agentes históricos. Eles são a estrutura administrativa
e militar da qual os agentes históricos se utilizam quando conseguem se apossar deles. Isto é, o
verdadeiro agente histórico nunca é apossado por ninguém, ou ele existe e continua agindo, ou é
extinto. Porque, por exemplo, se uma organização que está agindo historicamente é engolida por
outra, o agente histórico passa a ser esta segunda organização e não mais a primeira. Portanto, as
nações não são agentes históricos; os Estados não são agentes históricos.
Agora, vejamos as classes sociais, como pretendia Marx. É possível uma classe social ter ação
unificada e consciente ao longo das eras? Tanto ao proletariado, quanto à burguesia, ou qualquer outra
classe? Isso é absolutamente impossível. Quando se fala, por exemplo, a ideologia burguesa: quer
dizer que os burgueses, os proprietários dos meios de produção, se reuniram para discutir quais eram
os seus interesses, para em seguida contratar intelectuais que iriam defender esses interesses? Eles
nunca fizeram isso, seria materialmente impossível. Falar de ideologia burguesa é falar de uma
ideologia que é análoga aos supostos interesses dessa classe, que às vezes os traduzem de maneira
mais ou menos perfeita.
Mas uma classe social inteira ser agente da história é impossível pelo próprio número de pessoas que
a compõe. Além disso, uma classe social é por definição uma entidade pública. Existe um proletariado
secreto? Uma burguesia secreta? Seria possível existir isso? Ou seja, existe os proprietários dos meios
de produção, mas ninguém sabe quem são eles. Isso não é possível. Portanto, eles estão
permanentemente expostos a visão pública e não há nenhum meio de fazerem planos secretos para
continuarem ao longo do tempo. Mas, dentro da burguesia pode haver alguns agentes históricos que
tenham esta continuidade e perseverança – um exemplo: famílias.
Quando analisamos mais profundamente a Revolução Francesa por exemplo. Vemos que grande parte
das famílias que enriqueceram depois da revolução, e se tornaram a classe burguesa, eram de origem
aristocrática. Ou seja, é a mesma classe anterior que passa a reinar por outros meios, simplesmente
trocaram um meio de poder por outro meio de poder, mas são ainda os mesmos grupos.
São estas entidades e grupos que devemos estudar – aquelas cuja ação continua ao longo do tempo e
que pode transcender a duração dos seus primeiros agentes por uma, duas, três, dez gerações. Eu não
sei os Rothschild em que geração eles estão, mas começaram quatro séculos atrás. E a família real
britânica, a quanto tempo estão lá? Há séculos. Estas são as entidades que detém o poder, somente
estas – o resto é tudo fachada, é tudo impressão, sobretudo o sujeito que é eleito ao cargo eletivo de
presidente.
Imaginem o seguinte: o sujeito é eleito presidente dos EUA e há funcionários que estão trabalhando
ali há trinta ou quarenta anos, e que tem milhões de informações que ele não tem e não terá jamais.
Ou seja, essa classe dos funcionários se for capaz de se reproduzir ao longo do tempo, ela é quem
detém o poder. E o presidente é claro, tem alguma influência, mas só se ele tiver o apoio dela. O que
aconteceu com o Fernando Collor de Mello? Foi eleito, o povo votou nele, mas pensem bem: o
funcionalismo público o aceitou? Nem por um único dia. Os funcionários estavam lá fazia mais tempo
do que ele. E quem ganhou? Os funcionários – será sempre assim.
Portanto, eleger um sujeito para um cargo eletivo, não significa absolutamente que se está entregando
a ele o poder, só está entregando a ele o poder nominal. O que é o poder nominal? Ele assina a coisa,
e é ele o responsável, mas não quer dizer que ele seja o autor. Ele não é o autor, mas eventualmente é
o culpado. Uma das principais funções de um presidente da república é ser o bode expiatório de
decisões que ele não tomou absolutamente, e que às vezes ele nem compreende.
Vocês sabem que durante momentos aflitivos da história americana, por exemplo, o Barack Hussein
Obama nem mesmo comparecia ao conselho de guerra. Ninguém nem sabia onde ele estava – estavam
lá os generais, os secretários de estado discutindo tudo, tomando decisões, e o Barack Obama ausente,
alheio às discussões.
Se estudarem a história do PT, verão que um cidadão chamado Luiz Inácio Lula da Silva tem uma
característica: enquanto se desenrolam as assembleias do partido, ele saia para tomar um cafezinho,
e quando terminava, ele voltava e perguntava o que eles haviam decidido, daí ele “vestia a camiseta”
e saia repetindo aquilo. A influência dele sempre foi muito pouca, sempre foi mais um símbolo
condensador do que um líder efetivamente. Como símbolo condensador ele foi de eficiência
extraordinária. Porém, como símbolo condensador acabou se demonstrando que ele não tinha de fato
poder nenhum, que ele tinha somente a imagem – e a hora que a imagem acabou, não sobrou nada.
Ele pode ainda continuar esperneando, mas o futuro dele está decido – e não é nada bonito.
Se compararmos isso com a história de alguém que perseverou no poder por bastante tempo, e chegou
aos seus objetivos – isto é fundamental –, [veremos que] o sujeito pode ter muito “poder” durante
algum tempo, mas produzir os efeitos exatamente contrários aos que ele queria. Por exemplo, se
compararmos a vida de Adolf Hitler com a de Josef Stalin, veremos isso com uma clareza
impressionante: Hitler havia dito que ia construir um império, um reich, que ia durar mil anos, mas
durou doze; o Stalin não disse nada, mas ele obteve da guerra tudo o que queria, dominou metade da
Europa, e ao mesmo tempo conseguiu dominar boa parte das democracias ocidentais, inclusive o
serviço secreto americano, ele infiltrou tanta gente lá que órgãos como a OSS, a Organização do
Serviços Secreto – do qual ele iria sair e depois ir a CIA – eram órgãos do governo soviético, no fim
das contas. Leiam o livro da Diana West, American Betrayal, e vocês verão até que ponto era a
profundidade da influência de Stalin nessas coisas.
Qual é a diferença? É a seguinte: (i) quando os comunistas chegaram ao poder em 1917, o movimento
comunista já tinha 60 anos de idade e uma sucessão de gerações formadas para matar e morrer por
aquilo; (ii) e o partido nazista “poof” surgiu de repente, os alemães estavam frustrados porque tinham
perdido a guerra, estavam sendo roubados, esfolados pelo Tratado de Versalhes, quando de repente
aparece um cara que promete resolver tudo aquilo, daí eles se entusiasmam e votam nele. Ou seja,
não tem raiz. As tentativas de Hitler de criar uma aparência de profundidade histórica da ideologia
nazista são absolutamente ridículas. Não existia sequer uma cultura nazista, ela toda aparece junto
com o partido nazista e morre com ele.
Comparem o que é ação em profundidade, de longo prazo, com o que é um entusiasmo momentâneo
em face de promessas mirabolantes.
Era só conhecer os antecedentes e já dava para saber quem ia ganhar. A URSS não apenas ganhou a
guerra da Alemanha, mas ganhou a guerra contra o mundo inteiro – porque só ela obteve os resultados
que queria. Hoje, nós sabemos pelo livro do Hans Joachin e pelo livro do Ernest Topitsch, Stalin’s
War, que toda a guerra foi planejada com antecedência por Stalin, em alguns pontos o plano deu
errado, mas ele logo corrigiu o curso e daí voltava, mantendo o conjunto, o controle da coisa.
Sabemos, por exemplo, que a fronteira da Alemanha estava repleta de armas soviéticas prontas para
invadi-la. Stalin tinha a seguinte ideia: “mandamos os alemães na frente para destruírem as
democracias ocidentais, mas como são anárquicos – um bando de loucos, que ganham mas não levam
– eles vão invadindo e nós vamos atrás tomando tudo o que eles conquistarem”. Stalin estava pronto
para fazer isso, então Hitler descobriu [00:30] e decidiu então atacar a URSS mas – veja o nível de
improviso, esses dias eu estava comentando isto com o Jeffrey Nyquist – ele estava interessado
sobretudo no petróleo e nos minérios da URSS, daí, no meio do ataque, Hitler divide as suas forças,
manda uma parte para uma região, que para chegar lá tinha que atravessar um deserto, e o resto fica
ali enfrentando o exército soviético – ora, durante uma invasão o sujeito dividir as suas forças é coisa
de maluco.
Em segundo lugar, o Hitler, conforme eu vejo no depoimento que ele fez ao Martin Bormann,
publicado na França com o título de Libres Propos (Livres Conversações), ele acreditava realmente
na inferioridade racial eslava, ele achava que os eslavos não tinham capacidade nem para se
administrar, quanto mais para fazer uma guerra – acreditava nisso piamente. Entretanto, com relação
aos judeus, ele jamais acreditou na inferioridade deles – precisaria ser muito burro para acreditar
numa coisa dessas. Ele mesmo dizia: “os judeus estão mandando na Alemanha, eles têm tudo, eles
não são burros, seria impossível uma coisa dessas”. Ele sabia que a propaganda anti-judaica era
apenas da boca para fora. Porém em relação aos eslavos ele acreditava realmente na inferioridade
racial – ele estava que nem o Chapolin Colorado: “não contavam com minha astúcia!”
O Stalin era mil vezes mais inteligente. Não só do que o Hitler, mas mais do que todos os governantes
do mundo. Era o único com visão de longuíssimo prazo, provavelmente o maior estrategista da
história humana – isso não quer dizer que eu o admire moralmente, mas admirar intelectualmente não
tem como deixar de fazer, é o sujeito que entendia como as coisas funcionavam e que sabia mudar a
sua política para o inverso do dia para a noite. [Ele sabia] sobretudo explorar as fraquezas de seus
inimigos.
Quando Hitler invadiu a Rússia, a URSS naquele momento só tinha armas de longo alcance – armas
estratégicas, ofensivas – não tinha meios de se defender, ela precisava rapidamente fazer armas
menores para um combate de rua. E de onde eles tiraram dinheiro para fazer isso? Do EUA. Pois eles
não tinham dinheiro. O EUA financiou a vitória da URSS, e entregou a ela metade da Europa.
Portanto, dizer que o USA ganhou a guerra [está errado]. Eles ganharam contra a Alemanha, mas
perderam contra a URSS.
Então, são essas coisas que a gente tem que estudar. E, é preciso ver que os meios de ação da política
eleitoral, da propaganda, etc., são tão diferentes da política profunda que é como se fosse outra coisa
completamente diferente, coisa de outra natureza.
Por exemplo, criar movimentos populares na base da propaganda, criar congressos, publicar livros,
etc., tudo isso é muito bom. Mas, faça as seguintes contas: uma vez, alguém estava discutindo
corrupção policial, e eu disse: “quantas pessoas uma quadrilha de criminosos precisa infiltrar numa
delegacia para paralisa-la completamente? Precisa comprar todo mundo? Não, só precisa comprar
um. Só compra o escrivão. Um escrivão paralisa uma delegacia inteira. Por quê? Porque ele some
com os papéis, ou os modifica. Então, pode até haver um bom delegado, bons policiais, bons
investigadores, bons soldados, tudo – nada vai funcionar”. Isto aí o movimento comunista sabe a mais
de 150 anos. O sujeito pode criar uma baita organização de massas, com recursos, com propagandas,
etc., mas basta infiltrar um sujeito lá para paralisar tudo, modificar o sentido de tudo.
Ora, quantas pessoas vocês conhecem no meio conservador e liberal que estão preocupados em saber
quem aqui é um agente comunista? Ninguém, eles acham até feio alguém se preocupar com isso, eles
acham que isso é paranoia, teoria da conspiração.
Vocês estão entendo porquê que mesmo com uma força popular monstruosa, liberais e conservadores
acabam perdendo? Eles simplesmente não entendem como a coisa funciona. A infiltração é o
mecanismo principal de atuação dos comunistas desde que eles existem. A coisa é a seguinte: se o
sujeito está na minoria, ele não pode agir com as próprias mãos, tem que agir com a mão do vizinho.
É a regra do Lênin: “se você tem quatro inimigos, você se alia com três contra um, depois com dois
contra um, depois com um contra um, e no fim você derrota o último”. Portanto, alianças e infiltrações
são mecanismo absolutamente essenciais sem os quais a ação comunista jamais poderia ter alcançado
o sucesso que alcançou.
Ora, onde se deve infiltrar pessoas? Por exemplo, as vezes interessa – se se trata de um governo – de
infiltrar uma única pessoa, e colocá-la perto do governante, perto do homem que toma as decisões.
Este infiltrado jamais vai abrir a boca a favor do comunismo, nunca na vida dele. Ele é um funcionário
como qualquer outro, só que nos momentos decisivos ele vai sugerir certas decisões que favorecerão
o movimento comunista na sua totalidade. É o caso por exemplo do Harry Hopkins, no EUA, onde o
sujeito era tão próximo do Presidente Roosevelt que ele morava dentro da casa branca, e este cara era
um homem da KGB. Então, basta isso para modificar radicalmente o curso das coisas.
Por exemplo, o ataque a Pearl Harbor. O governo inteiro estava informado de que o ataque ia
acontecer, e havia todos os meios de aplacar o governo japonês – pois o governo japonês estava com
certas reivindicações inteiramente justas, e estava sendo prejudicado por decisões internacionais do
EUA – e a coisa mais fácil seria fazer uma paz antecipada com o Japão. Mas, por conselho do Harry
Hopkins, o Roosevelt prosseguiu no curso de ação anti-japonesa até que aconteceu o que aconteceu,
pois era preciso que o EUA entrasse na guerra para defender a URSS. Ou seja, um sujeito modificou
todo o curso das coisas. Não adianta ter a maioria, não adianta ter um belo sistema de propaganda. É
preciso saber quem é quem, e sobretudo, a quem o sujeito dá ouvidos, quem são os seus conselheiros.
Por exemplo, quando estávamos na Colômbia. Lá estava havendo uma eleição, e tinha dois
candidatos: um era o tal do Antanas Mockus – que era um personagem ridículo na verdade, uma
espécie de sparring, estava lá para apanhar o coitado – e tinha do outro lado o Juan Manuel Santos.
E nós conhecemos um cidadão que era o principal assessor do Juan Manuel Santos – esqueci o nome
dele, ele não era colombiano, era venezuelano – mas era um indivíduo com uma concepção totalmente
mercadológica da política, do tipo do pseudo-esperto, que achava que tudo quanto é tipo de trapaça é
legítimo desde que fosse para ganhar a eleição etc. – se via que ele não estava muito bem-intencionado
– e ele estava muito próximo do Juan Manuel Santos.
Na época, eu confesso que não percebi até que ponto ia isto. O Juan Manuel Santos se elegeu com o
lema “¡NO MÁS FARC!”, aonde ele ia o pessoal gritava isso na rua. 97% da população colombiana
queria a extinção das FARC – as FARC dominavam naquela época 1% ou 2% do território, estava
lascada, acabada militarmente – e parecia que no futuro eles iam tudo para cadeia, iam desaparecer.
E o Juan Manuel Santos propôs um acordo de paz. Não se propõe um acordo de paz com um inimigo
que já está derrotado, mas foi exatamente isso o que ele fez. Este acordo de paz transformou as FARC
em um partido político, e em organizações comercias legítimas, de modo que eles continuam lá
vendendo droga para tudo que é lado, fazendo dinheiro que não acaba mais, e em breve concorrerão
as eleições com grandes chances de vitória.
O Juan Manuel Santos foi posto lá para isso. Ele e o Juan José Rendón, o assessor dele. E eu estava
lá e não previ isso, me deixei envolver na atmosfera de entusiasmo da eleição. Eu estava fazendo
conferências e, evidentemente, sem querer interferir diretamente na política colombiana, eu acabei
favorecendo a candidatura do Juan Manuel Santos. O ambiente que cercava o Santos não me pareceu
ter uma única pessoa honesta, parecia ter só bandido. Eu falava: “antes bandidos pacíficos do que
bandidos armados” – análise errada, completamente errada.
Quer dizer, basta colocar um sujeito no lugar certo para virar toda a política de cabeça pra baixo. No
Brasil não tem ninguém pensando nisso.
Desse modo, quando vocês virem muita propaganda liberal-conservadora, não liguem muito para o
que está sendo dito. Se o sujeito falar “ah estamos aqui para fazer o livre mercado etc.” vocês
investiguem quem está dando o aparato material para isso, porque no fundo é só isso que interessa:
qual é a companhia de informática que esta por trás, qual é a agência de propaganda etc. Estes são os
que conduzem o processo. Não são os líderes – este é critério nº 1.
Alguém já tinha avisado vocês disso? Não, ninguém vai avisar.
Vejam, os slogans lançados em público, os ideais lançados, é claro, que eles são uma parte do
processo. Mas, eles não são a parte substantiva. E para vocês saberem quem está conduzindo o
processo, vocês têm que perguntar que resultado produziu, e daí vocês juntam os pontos – olha aqui
está todo o processo, e aqui está o resultado final.
A massa de pessoas que estava na rua entre 2013-2015, dava a impressão de que todas as forças de
esquerda iam ser eliminadas, varridas do cenário, ia sumir todo mundo, não ia sobrar ninguém. No
entanto, todas sobreviveram, ainda dominam todo o aparato cultural brasileiro, e pior, a partir dessa
derrota que eles sofreram – e isto nós não podemos negar, a saída da Dilma foi uma derrota – eles
resolveram endurecer e falar grosso. Isso quer dizer, por exemplo, que a hegemonia comunista nas
universidades se tornou muito mais intransigente nos últimos tempos. E o anti-comunismo está
proibido em todo o território nacional. Do mesmo modo está proibido na mídia – o sujeito pode falar
mal de comunistas de outras épocas, por exemplo, pode falar mal de Stalin, não tem nenhum
comunista que não fale mal de Stalin, isso não faz diferença.
Então, só existe os seguintes tipos de atores e de agentes históricos:
Primeiro: as grandes religiões são agentes históricos sem dúvida, pela sua capacidade de reprodução.
Isso quer dizer que, de geração em geração, uma religião se perpetua não apenas passando uma
doutrina, mas passando hábitos, modos de ser, traços de personalidades que se incorporam
profundamente. Vejam, por exemplo, no Islam existem os hadiths, que são os ditos e feitos do profeta
Maomé. A vida dele foi mais registrada do que provavelmente a de qualquer outro personagem
histórico, existem quarenta mil hadiths, nem todos são autênticos, mas existem estudos para separar
os autênticos dos fingidos, dos prováveis, etc., há toda uma escala de credibilidade. E o modo de agir
do Maomé é tido como modelo, as pessoas têm de ser iguais ao Maomé. Ele tinha um modo de tratar
suas esposas, um modo de tratar seus filhos, um modo de fazer comércio, um modo de tomar banho,
um modo de escovar os dentes, e assim por diante. E isso é passado para as pessoas ao longo de suas
vidas. Vejam, o processo da revelação islâmica leva vinte oito anos. Isto é, o Maomé fica recebendo
– ou diz que recebe – as mensagens do Arcanjo Gabriel durante vinte oito anos, a partir daí deu o
ponto final no corão. E um dia o [Arcanjo Gabriel] faz um discurso dizendo: “sua religião está
completa, de agora em diante é só fazer do jeito que eu disse”. Então, para um sujeito se tornar
mulçumano ele tem que se comprometer a cumprir os cinco pilares, os cinco mandamentos
fundamentais. Mas em seguida ele tem vinte oito anos para aprender o resto, e continuamente ele vai
ser pressionado para seguir os hadiths – “ah você não esta pegando a comida como Maomé mandou,
ele mandava pegar com três dedos da mão direita”; “você esta escovando os dentes usando pasta de
dente ocidental e não a plantinha que ele mandou usar” e assim por diante, durante vinte e oito anos.
Ou seja, essa formação vai até o fundo da alma do sujeito, não sobra espaço para nada, não há nenhum
espaço para qualquer autonomia individual que seja, e por isso mesmo a coisa continua. No mundo
cristão este tipo de exigência só é feita aos sacerdotes, sobretudo aos monges. Para o leigo existe uma
margem de ação infinitamente flexível, mas para aqueles que vão constituir de fato o braço agente
das igrejas, a exigência é muito pesada – muito mais pesada na Igreja Católica, do que em qualquer
igreja protestante, evidentemente. Na igreja protestante, as vezes é apenas o seguinte: o sujeito vai lá
faz um cursinho de teologia e pronto, virou pastor. Mas na Igreja Católica não, lá o negócio é “brabo”.
Segundo: existe o mesmo tipo de continuidade em organizações esotéricas. Tipo a Maçonaria, onde
a formação do sujeito prossegue pelo resto de sua vida, já que ele tem que participar das reuniões,
tem que mostrar lealdade aos companheiros etc. E existem organizações, não de fachada, mas
organizações mais externas, como Lions Club e Rotary Club, onde toda semana tem uma reunião, e
o sujeito tem que ir lá e mostrar que ele prestou o serviço direitinho, que ele está se comportando do
jeito que eles querem. Todo mundo sabe que se, por exemplo, um dignitário maçônico for descoberto
por ter um amante, ele está acabado. Quer dizer, há uma norma de conduta que o sujeito tem que
seguir a sua vida inteira.
Terceiro: no partido comunista é exatamente a mesma coisa: o sujeito tem que mostrar lealdade ao
partido em tudo e por tudo, durante toda a sua vida. Ou seja, não é professar uma ideologia, é ser
aquilo que eles querem que ele seja.
Quarto: nas famílias dinásticas é exatamente a mesma coisa. Estudem como essas famílias
aristocráticas ou bilionárias vão formando os seus filhos desde pequenininhos para continuar seus
planos. Algum filho pode não se adaptar aquilo – “está bem meu filho, então você é o playboy, é o
enfant terrible da família, nós te damos dinheiro e você vai se divertir e fazer o que você quiser” –
porém sempre terá algum que continua a ação. E este será o líder, o outro vai ter que obedecê-lo.
Portanto, só existe os seguintes agente históricos: as grandes religiões, as famílias dinásticas, e as
organizações esotéricas, entre as quais o partido comunista.
Muito bem, vocês conhecem algum partido no mundo, o partido republicano americano, o partido
gaullista francês, ou qualquer outro que tenha esse processo de reprodução da personalidade? Não.
Então significa o seguinte: no presente momento só tem um único agente no mundo, e este agente é
o movimento comunista – não há mais nenhum. Existem, é claro, as famílias dinásticas. Porém,
alguém as persuadiu a mudar de lado, e hoje elas colaboram com o movimento comunista, com
invasão islâmica etc. É claro, que eles estão zelando pelos seus interesses em primeiríssimo lugar,
eles continuam como sempre, basta eles descobrirem que entrar numa guerra ideológica com o
comunismo não é vantagem.
Por exemplo, existe a famosa entrevista do dirigente da Fundação Rockfeller dizendo: o nosso
objetivo é unificar a URSS e o EUA – isso aí ele falou a mais de 30 anos atrás. E naquele momento
havia grandes estudiosos trabalhando para esse fim – existe um livro do Pitirim Sorokin, o grande
sociólogo russo-americano, chamado Rússia e Estados Unidos, que é praticamente um estudo
preparatório para essa unificação. Do mesmo modo, se vocês pegarem o livro do Arnold Toynbee,
Um Estudo da História, é um estudo preparatório para implantação de um governo mundial. Não é
uma obra de história, é uma obra de estratégia. Quando ele diz que, para o sujeito derrubar uma
civilização, ele precisa jogar contra ela um proletariado interno e outro externo – nos vemos que isso
as vezes aconteceu durante a história – isso passou a ser praticado contra o império britânico no EUA.
Mas nunca foi praticado contra nenhuma nação comunista.
Em contraposição ao movimento comunista que já tem um século e meio de continuidade – de
existência contínua mas que mudou muitas vezes o seu discurso, sua ideologia, etc., porém ainda
perseveram na sua identidade, pois hoje eles podem estar lutando pela socialização dos meios de
produção, amanhã pela liberação da mulher, ou pelo gayzismo, ou pelo abortismo, ou seja lá o que
for, já que os agentes são os mesmos e a concentração de poder é a mesma – e que é um movimento
unificado, de escala mundial, que tem mais agentes a seu serviço do que qualquer outra organização
jamais teve; contra estes, só vemos reações pontuais e descontínuas no mundo inteiro.
Então, isso quer dizer o seguinte: ele, [o partido comunista], sempre levará vantagem, inclusive
podendo tirar vantagens de suas próprias derrotas, podendo mudar completamente de identidade
externa sem que isso o afete no mais mínimo que seja. Agora, por exemplo, dizem que o Putin está
criando uma nova KGB, mas quando foi que acabou a outra? Nunca acabou. Ele está simplesmente
mudando a fachada de novo. Quantos nomes já teve a KGB? Vinte, desde que ela existe. Sempre
mudando de identidade, mas são sempre as mesmas pessoas. Quando vemos as pessoas que estão
subindo ao governo em países da Europa Oriental com um discurso vagamente de esquerda, estes são
os filhos e netos dos dirigentes comunistas. Ou seja, dentro do movimento comunistas existe o
princípio dinástico também.
Então, quem quer que leve a sério uma luta anticomunista tem que pensar nisso, meu Deus do céu.
Se não existir uma organização desse tipo para contrapor o comunismo, ele vai sempre vencer. Ele
pode ter derrotas temporárias, quase todas elas causadas pelo fato de que a economia comunista é
impossível, mas o movimento comunista não é. Jamais conseguiram criar uma economia comunista
e jamais vão conseguir, mas conseguem criar um poder comunista cada vez mais amplo, cada vez
mais profundo, cada vez mais indestrutível, inclusive hoje.
Se for para mudar a ideologia cento e oitenta graus, como o Putin está fazendo, eles o farão sem
nenhum escrúpulo, isso não é problema. Não se pode esquecer que o tipo de formação específica,
dada pelo partido comunista, tem em comum com os outros [agentes históricos] – como a católica,
como a maçônica etc. – a sua continuidade, a sua exigência, e o cerco da personalidade. Mas, tem
algo mais que [o partido comunista tem que] os outros não tem. Que é a formação de psicopatas, de
pessoas cuja a moralidade obedece a um único princípio: a glória do partido. O partido se torna “o
supremo bem” e tudo que seja para favorecer o partido é bom, e tudo que é o contrário é mau, é só
isso que existe. Isso quer dizer que, para um comunista, a perspectiva de matar um milhão de pessoas
pode ser uma obrigação moral – a obrigação de morrer então nem se fala.
Vejam, até a Roxane me lembra que no tempo que ela estava sobre a influência de trotskistas, eles
passavam a seguinte ideia: “se você perdeu tudo na briga com o adversário, você pode conquistar
uma vitória: pela sua morte, a sua morte é uma vitória”. Isto é, o adversário estará carimbado como
sendo seu assassino evidentemente. Então, com isso aí, o partido ganhou – se o sujeito morre a serviço
do partido, por pior que seja a sua condição, isto aí é uma vantagem para o partido –, esta arma
ninguém pode tirar da sua mão. Vocês conhecem algum liberal ou conservador que pense assim: “se
não der para fazer nada, tem uma coisa que eu posso fazer, eu morro”? Não, mas comunistas são
todos educados para isso.
O esvaziamento dos sentimentos morais e sua troca pela “ideia da onipotência do partido”, é evidente
que favorece os psicopatas. Não é que eles vão transformar as pessoas em psicopatas – é claro, que
não, não dá para fazer isso – mas só psicopatas podem subir na hierarquia do partido, os outros vão
sendo deixado de lado, ou então viram meros tarefeiros, como eles chamam – o sujeito está lá para
obedecer às ordens e não dar palpite.
Então, se estudarmos todas as lideranças comunistas do mundo, todos eles são psicopatas, do primeiro
ao último. E o psicopata tem a seguinte característica: ele não tem os sentimentos morais, mas ele
sabe imitá-los. Experiências feitas pela equipe do doutor Andrew Lobaczewski demonstram que se
ao se mostrar cenas “tocantes” a uma pessoa normal, enquanto se está fazendo um scan do cérebro
dela, se vê que as áreas ativadas no cérebro dessa pessoa são as áreas emocionais. Mas, no psicopata
não. Neste, são as áreas linguísticas. Ou seja, a pessoa normal está participando de uma emoção, já o
psicopata está aprendendo signos, está aprendendo uma linguagem. E pode chegar no domínio dessa
linguagem ao ponto de não apenas persuadir, mas ao ponto de ser mais persuasivo que o sujeito que
reflete uma emoção normal.
Eu acho que todo mundo viu um vídeo de uma manifestante que estava soprando uma língua de sogra
na cara de um policial, e chega uma hora que o policial toma aquela porcaria, e a menina vira paro
lado e começa a chorar desesperadamente. É claro, que era um choro fingido, mas ele é tão enfático,
tão enfático, que você fica perturbado. Então, esta afetação de sentimentos é uma coisa normal para
todo e qualquer militante comunista de certo grau para cima, e os de baixo estão logo aprendendo.
Então vocês vejam, se está lidando com a maior organização política que já existiu, com a de mais
longa duração, com a única que tem alcance mundial, e ela é toda composta de psicopatas com os
quais vocês não podem de maneira alguma. Quantas pessoas já levaram isso em conta no movimento
liberal-conservador? O liberal estuda um pouco de economia, lê Ludwig von Mises e diz: “ah esse
negócio de comunismo não funciona, já ganhamos”. Então, estamos lidando, por um lado com
pessoas de uma malícia ilimitada, sem nenhuma complacência, e por outro lado, temos um jovem
adolescente entusiasmado com ideias que ele leu em Ludwig von Mises – quando não em Ayn Rand,
que é por assim dizer, do ponto de vista da defesa do hemisfério ocidental, “o que pode haver de mais
destrutivo”. Esta é situação na qual nos encontramos.
Quando eu fiz aquele artigo, “Estudar antes de falar”, eu tinha em vista, em parte, o que eu estou
dizendo aqui. Ou seja, é preciso conhecer esse movimento comunista em profundidade – e quando eu
falo comunista, não me refiro àquele comunista ex professo que sai aí falando da socialização dos
meios de produção, isto é apenas um discurso ideológico, o discurso ideológico pode mudar, o partido
comunista pode mudar o discurso em vinte e quatro horas e todo o pessoal obedece.
Por exemplo, até 1933-1934, o discurso comunista internacional era destruição da burguesia e a
implantação da propriedade pública dos meios de produção. [01:00] De repente muda cento e oitenta
graus e diz: “não, nos temos que cultuar os valores positivos da burguesia, a democracia, os direitos
humanos etc.” E com isso eles criaram o que eles chamaram na França de Frente Popular. E um monte
de conservadores, que estavam angustiados já de ver o crescimento do movimento comunista,
respiraram aliviados – “agora eles são nossos amigos”.
O governo americano abriu as portas dos seus serviços secretos para a entrada maciça de comunistas.
A CIA já nasceu infiltrada de comunista “até a goela”, e ao mesmo tempo a propaganda internacional
comunista atribuiu todos os males do mundo a ação da CIA. “Ora, espera aí, quantos funcionários
tem a CIA? Quantos agentes tem a CIA? Isso não dá para completar um comitê municipal do partido
comunista, gente.” A KGB tinha 800 mil funcionários só dentro da URSS, e mais toda a rede de
partidos comunistas no mundo. Não se tinha uma única cidade do interior onde não tivesse pelo menos
um agente do partido comunista. E qualquer militante comunista poderia ser obrigado repentinamente
a abandonar o trabalho usual do partido, e passar para a clandestinidade para trabalhar diretamente
para a KGB.
Leiam o livro do Whittaker Chambers, Witness, onde ele foi um desses. E, assim como ele, houve
milhares. Para que ele entrasse para o serviço clandestino, ele recebeu ordens de romper publicamente
com o partido, e daí passar a coletar informações para a KGB. Ora, coletar informações é, dentro do
serviço de inteligência, serviço de oficce boy. Digamos, 90% da atividade do serviço de inteligência,
especialmente soviética, consiste no que eles chamam de “medidas ativas”, que é influenciar as
decisões de governo e concepção de mundo inteira do adversário.
Quando a Diana West publicou American Betrayal mostrando que a penetração comunista na USS e
na CIA já não era mais uma infiltração, e sim uma ocupação, houve um monte de conservadores que
reagiram indignados. Entre os quais David Horowitz, Ronald Radosh, e a dupla Earl Haynes e Harvey
Klehr, que são historiadores do movimento comunista. E eles asseguravam o seguinte: jamais houve
penetração no governo, a ação da URSS no EUA era apenas de espionagem, coleta de informações –
mas esta informação é impossível por si mesma, ela é contraditada por toda a história, e no entanto,
se vê líderes conservadores e historiadores de primeiríssima ordem fazendo o possível para abafar a
coisa. Quer dizer, a URSS chegou a controlar a visão que o seu adversário tem de si mesmo, isto é,
só ficam sabendo aquilo que eles querem que saiba. E, quando chega uma informação a mais, ele
mesmo vai desmentir – alguns farão isso porque são agentes da KGB, outros farão isto porque são
pessoas iludidas, são meninos de ginásio apesar de toda sua experiência, cultura, etc.; e outros farão
isso por patriotismo, isto é, não podem admitir essa humilhação, não podem admitir que eles os
fizeram de idiotas esse tempo todo, então eles encobrem.
É a mesma coisa que aconteceu com problema dos documentos do Obama. Todo mundo sabe que a
coisa mais bem provada do universo é que os documentos do Obama são falsos – o problema de onde
ele nasceu, e se ele é elegível ou não, tudo isso é secundário –, a única coisa material que existe é
esta, está materialmente provado que os documentos são falsos. Então, o cara se elegeu sob falsos
pretextos. Ele jamais teve o direito de ser presidente do EUA, é apenas um usurpador, um farsante.
Esta é a verdade. Só que isto demorou para aparecer. Quem soltou essa informação em primeiro lugar
foi uma jornalista de segunda ordem chamada Debbie Schlussel, que tem fama de ser um pouco
maluca. E, quando ela soltou, evidentemente, todo mundo rejeitou, por três motivos: uns porque
estavam trabalhando para os comunistas e islâmicos, outros rejeitaram por vergonha, e outros por
autodefesa patriótica. Tudo isso é calculado.
Todo mundo conhece essa história: eu tive uma aluna que tinha sofrido um estupro na cidade de
Campinas, já fazia 10 anos, e ela ainda tinha acesso de pânico, acesso de choro, etc., mesmo depois
de já estar casada com outro cara e tal. Um dia eu falei para ela que isto não podia continuar assim,
que ela tinha que tomar uma providência contra o outro cara. Então, mandei ela falar com um primo
meu que era delegado em Campinas, e ela foi. E então sarou. Ela não queria reconhecer a humilhação.
Então, síndrome da mulher estuprada é característico: quando a vergonha é demais a pessoa oculta o
crime.
Existem organizações muito mais rudimentares do que a KGB que são especializadas nisso. Eu tive
uma convivência com uma seita de contrabandistas, que na verdade se faziam de religiosos, mas
usavam seus discípulos para fazer contrabando. E quando os discípulos percebiam que tinham sido
usados para isso, eles mesmos recuavam e diziam: “não, isso não aconteceu, não é possível, você está
maliciando.” Então, as próprias vítimas da fraude defendiam o autor.
Houve o famoso caso do Robert Graves, o poeta inglês, na qual dois malandros indianos certo dia
chegaram para ele e lhe disseram que tinham em mãos a cópia mais antiga do poema do Omar
Khayyam, Rubaiyat, que eles haviam traduzido para o inglês e que gostariam que o Robert o pusesse
em versos, e ele pôs. A coisa foi publicada, foi um sucesso mundial, só que aí apareceu um professor
de língua persa, leu aquilo e disse que estava muito parecido com uma paráfrase americana do século
XIX. Então, o sujeito foi para o Afeganistão – pois os dois malandros diziam que o manuscrito
[original] estava com um tio deles no Afeganistão; que este era um homem da nobreza, um homem
do governo etc. – para procurar o tal do tio. O tio, o cargo mais alto que ele tinha exercido na vida
era de chofer do primeiro ministro. E o que foi que o tio falou para ele? “Que manuscrito que nada,
esses meus sobrinhos são uns vigaristas” – ele disse. Muito bem, o Robert Graves morreu com oitenta
e tantos anos, e negando até o fim que tinha sido feito de trouxa por vigaristas orientais.
Então, esse truque do envolvimento da vítima num processo de paralisia por vergonha, por vexame,
até uma seita vagabunda consegue fazer isso, ainda mais na KGB, meu Deus do céu. Isto eu aprendi
com a vida: quando te fizerem de trouxa você diga: me fizeram de trouxa, eu não sou mais inteligente
do que esses caras, poxa. Daí você se liberta, daí você exorciza a coisa.
Para vocês terem ideia dos meios de ação de que esse pessoal se socorre, leiam o livro do Stephen
Koch, Double Lives. Onde ele mostra como foi a ação soviética entre os intelectuais e escritores
americanos. Eles arrumavam pessoas para casar com esses fulanos, passar a vida junto com eles, os
fazendo de trouxa e os usando para fins úteis a URSS. Agora, você imagina o sujeito que depois de
vinte anos de casado descobre que sua mulher era agente soviética, que ela o sugeriu isso e aquilo, e
que ele assim o fez. O sujeito vai confessar? Só se for um herói moral fora do comum. Mas, se fosse
um herói moral fora do comum já não teria caído nessa, né. Eles fizeram isso com o Felix Frankfurter
que foi juiz da suprema corte. Fizeram com Sinclair Lewis, autor de Babbitt e Rua Principal, e com
muitos outros. Este é um livro de profundidade da ação de um serviço de inteligência como o
soviético. Os outros serviços secretos não conseguem fazer isso, porque eles são baseados na estrutura
do estado. E, a estrutura do estado não molda seus servidores com a mesma profundidade como o
partido comunista, ou como a Igreja Católica, ou como o Islam moldam os seus seguidores. Apenas
se faz o concurso e pronto, virou um funcionário público. O sujeito conserva toda a sua autonomia
moral, emocional, intelectual etc. Nenhum serviço secreto profissional pode competir com isso.
Governos não podem competir com isso. Para fazer face a isso, só se existisse um movimento de
igual profundidade com um comprometimento tão profundo quanto este. Como isso não existe então,
o que aparece no lugar, às vezes são certos movimentos radicais, que tentam competir com o
comunismo usando as armas dele, como o movimento fascista e nazista. Mas são movimentos
puramente emocionais, de uma superficialidade atroz.
Aluna: O senhor acha que o regime aristocrata poderia fazer frente a isso? Uma aristocracia?
Olavo: Não é um regime aristocrata, pois depende de ter as famílias dinásticas nos seus lugares certos.
Então a continuidade das famílias dinásticas assegura alguma estabilidade na coisa, e isso é uma
característica da democracia. A democracia só sobrevive enquanto existe a aristocracia dos seus
fundadores para garanti-la. O que é a aristocracia? É a classe guerreira.
Vejam, ao longo do tempo, na idade média, somente os aristocratas tinham obrigação de entrar na
guerra, o povo estava liberado. E ainda existia o conceito de campo de batalha, eles iam fazer a guerra
lá no “raio que o parta”, não os afetavam ali [onde moravam]. A progressiva diluição desta proteção
aristocrática é uma das características do século XX, à medida que os exércitos se profissionalizam e
surge o recrutamento militar obrigatório e essa coisa toda, a classe guerreira se dissolve e eles não
são mais os protetores. A carreira militar se torna uma profissão como qualquer outra, e então passa
a ser a mentalidade burguesa – o sujeito vai lá buscando as vantagens, seu plano de carreira, sua
aposentadoria, essa coisa toda e aí pronto, acaba a conexão entre as famílias dinásticas e o poder
militar. Vejam que em alguns lugares eles se conservam, por exemplo a Família Real Inglesa. Os seus
membros, seus futuros herdeiros, são obrigados a fazer carreira militar. E não é qualquer carreira
militar, qualquer exerciciozinho, o sujeito tem que ir para guerra. E ele vai para lá, mas a sua situação
não somente será igual, mas talvez será pior que a dos outros soldados. Então, ali ainda tem um pouco
dessa mentalidade.
Mas pensem bem. Que família milionária no Brasil quer que os seus filhos façam carreira militar?
Nenhuma. Isso é para pobre. E um dos orgulhos das nossas forças armadas, é o seguinte: os nossos
soldados e oficias vêm do povo – vejam, isso pode ser bonito do ponto de vista da propaganda
patriótica, mas é mau sinal; é sinal que a classe guerreira não é mais uma aristocracia, é como se diz,
é o povo em armas; muito bonito, mas se não há mais conexão entre as famílias dinásticas e as forças
armadas, então simplesmente não há mais continuidade histórica. De uma geração para outra a
mentalidade dos militares toda pode ser mudada, e não pensem que não existe gente trabalhando para
isso.
Vocês sabem que na Unicamp tem um sujeito chamado Quartim de Moraes que há quarenta anos a
finalidade dele é essa: estudar a esquerda militar, tentar infiltrar gente nas escolas militares, etc., e
está tendo muito sucesso nisso aí. As famílias dinásticas no Brasil estão em um estado de corrupção
e de fraqueza que é muito impressionante. Durante uma certa época da minha vida eu tive a chance
de conviver muito com a classe rica de São Paulo, isso foi nos anos setenta. E, uma coisa que me
impressionava muito era como eram pessoas frágeis, precisavam ter seus egos afagados o tempo todo,
precisavam se sentir amados. Todos se chamavam pelo diminutivo – Chiquinho, Zezinho... – e eu via
que esse negócio ia muito mal: “é essa aí é a aristocracia paulistana? Meu Deus do céu. Estamos
perdidos.”
Vemos que ainda há as famílias dinásticas americanas, mas elas todas caíram na esparrela globalista,
todas. Quem meteu essa ideia globalista na cabeça deles? Qual foi o primeiro plano globalista do
século XX? Foi o soviético. O primeiro a ter planos de escala global foi a URSS. Tem até um livro
de um autor chamado Elliot Goodwin, chama o Plano Soviético de Estado Mundial. É claro, que
havia alguns milionários esparsos pensando a mesma coisa no ocidente. Mas, influenciados sobretudo
por quem? Herbert George Wells. Que era socialista adepto da URSS, e pela Fabian Society, fundada
por Sidney Webb e Beatriz Webb – que hoje nós sabemos o principal livro deles, um livro desta
grossura, veio pronto do governo soviético para eles, eles simplesmente assinaram e publicaram – foi
esta gente que foi metendo ideias globalistas na cabeça dos aristocratas ocidentais.
Vejam, a continuidade do partido comunista chegou a ser mais densa do que a continuidade dinástica
ocidental. Então, hoje todas essas famílias têm no mínimo uma ação ambígua. Por um lado, elas
teriam como obrigação defender a suas soberanias nacionais, as suas nações e tudo o mais, mas estão
trabalhando pelo contrário. Se tem uma plena consciência do caráter desastroso da aventura que se
meteram, eu não sei. Isso aí só se fizer estudos monográficos, uma por uma, não dá para fazer isso aí.
Bem, uma coisa é certa, quando você cria um movimento político, esse movimento segue um certo
protocolo, uma sequência de ações que tem de ser empreendidas, sem o qual o movimento não vai
para frente.
A primeira é a seguinte: tem que ter uma elite intelectual capacitada para discutir entre si, de maneira
discreta, um diagnóstico da situação até se ter uma ideia do panorama. A partir daí, tem que surgir um
sistema de informações para alimentar essa discussão, e da elite intelectual e do sistema de
informações surge um estado-maior. O que é um estado-maior? É um grupo de pessoas qualificadas
que estudarão ações possíveis, cenários possíveis. E daí surge um comando que pega o cenário, e
toma decisões, e manda fazer – sem isso, não existe nada.
Ora, um sistema de informações em 1993 o PT já o tinha, e melhor do que o do governo, sob a direção
do José Dirceu, que é um agente de inteligência formado em cuba. Cadê o sistema de informações do
movimento liberal-conservador no Brasil até hoje? Não tem nenhum. Cadê os intelectuais para
discutir? No Brasil se entende como intelectual o sujeito que brilha um pouquinho na mídia: é
jornalista, é artista, não são pessoas que estão estudando o assunto numa base profissional, com
dedicação integral, não são pessoas assim.
Eu conheço por exemplo, dentre estudiosos estratégicos, eu conheço um. É o Paulo Eneas. Que
apareceu outro dia. Ele tem alguma visão do que é estratégia, ele sabe disso aí. Mas ele ainda é novo
também. Bem, se eu fosse discutir algum assunto desse tipo, tem um sujeito que eu posso discutir,
que é o Paulo Eneas. Já dá para começar a discutir, por que algo disso ele sabe, os outros não sabem
nada.
Peguem todos esses sujeitos que estão falando aí de economia liberal, democracia, direitos humanos,
etc. – mas peguem todos mesmo –, eles não sabem nada disso aqui. Alguns não sabem sequer que
isso existe. E o conhecimento de marxismo que esse pessoal tem, é absolutamente rudimentar. Eles
acreditam que comunismo é o quê? A propriedade dos meios de produção. O Marco Antonio Villa
falou: “o PT não prega a propriedade pública dos meios e produção, portanto, ele não é um partido
comunista”. O que fazer com um sujeito desse? Bater? Mas nem batendo ele vai aprender, meu Deus
do céu. Quer dizer, ele acha que a substância de um movimento político é a sua definição nominal
como está no dicionário.
Por exemplo, durante todo o período da Frente Popular, que foi como a URSS conseguiu aliados no
mundo interior para enfrentar a Alemanha Nazista, ninguém falava de propriedade pública dos meios
de produção. “Não vamos ferir a burguesia ó céus, nós precisamos dela” – eles diziam. Notem que
surge nessa época – para vocês verem a profundidade da mutação mental que houve – o realismo
socialista, isto é, o movimento comunista tem que ter a sua própria literatura baseada inteiramente
em valores marxistas e na denúncia da sociedade capitalista etc. De repente aparece do nada um
sujeito chamado Georg Lukács dizendo: “não, nós temos que usar os valores do grande realismo
burguês: Balzac, Tolstói, etc., tudo isto são os grandes valores que nós temos que imitar”. Ou seja,
até a literatura dos caras mudou para se adaptar a nova política – vejam a profundidade.
Essa coisa da literatura, cinema, teatro, etc., isso tem uma profundidade estratégica que as pessoas
não imaginam. Elas acham que isso aí são apenas órgãos de propaganda. Mas não. Propaganda é o
aspecto mais superficial da coisa. Se pegarmos todos os teóricos marxistas da literatura e do cinema,
todos eles dirão que a primeira coisa a evitar é a propaganda. Pois, se o sujeito entrar na propaganda,
ele prostituiu a literatura, daí acabou a literatura, acabou a arte literária, e sobra só coisa superficial.
Que vai ser lida durante um ou dois anos e depois vai ser esquecida. “Nós [os comunistas] temos de
fazer obras que durem a vida toda, e que tenha influência civilizacional” – eles pensavam. E para isso
tem que ser obra de arte realmente.
Se tiver alguma propaganda, esta terá que ser compensada pela grandiosidade da estrutura total – os
livros do Mikhail Sholokhov, por exemplo, O Dom Silencioso, que é um romance em quatro volumes,
mil páginas cada um, que conta a história do processo de coletivização da agricultura na URSS. Ele
tem um lado de propaganda, quer dizer, é uma obra abertamente comunista. Mas, a estrutura narrativa
é valida por si mesmo, é uma obra de arte, uma tremenda obra de arte. Vocês leem aquilo e “opa, esse
é o Tolstói comunista” – e é mesmo.
Mas, em geral, o aspecto de propaganda é totalmente abandonado. A não ser que ele seja trabalhado
de uma maneira especial, como foi por exemplo do Bertolt Brecht. Ele faz um teatro de propaganda
comunista, mas camuflado sobre uma reforma estética – uma mudança total da teoria do teatro e
assim por diante. Mas não é a única, existe muitos – quando começa por exemplo o teatro da violência,
o teatro da agressão – e tudo isto está dentro do plano. Comparem, por exemplo, o teatro do Bertolt
Brecht com o teatro do Jean Genet: o Bertolt Brecht quer que o sujeito, assistindo a peça dele, chegue
à conclusão que os comunista tem razão, é por assim dizer, um teatro pedagógico, um teatro didático;
o Jean Genet só quer chocar a pessoa, quer fazer ela perder toda a sua segurança emocional, na peça
dele; O Balcão, na primeira cena aparece um cardeal estuprando uma mocinha, já na primeira, e se o
sujeito aguentou isso, ele vai engolir o resto também, e assim por diante. A própria figura do Jean
Genet, um sujeito que era um ladrão, um assassino profissional. E, que é de repente idolatrado como
se fosse um santo – Saint Genet, comedien et martyr, no livro do Sartre. A ideia do martírio é invertida.
Quem mata é que é o mártir.
Então, a literatura, a função dela não é a propaganda, é moldar o imaginário. Nas suas estruturas mais
profundas. Quanto mais séria e profunda for a obra de arte, mais profunda será a sua influência sobre
os seus leitores – e não precisa ser muitos leitores, basta que seja as pessoas intelectualmente mais
ativas do meio. Então, isso não tem nada a ver com propaganda. Agora, me digam, de todo o
movimento direitista que apareceu no Brasil, quantas obras de arte nasceram? Eu conheço uma. Que
é o filme do Josias Teófilo. O resto não tem nada. Qual é o relevo intelectual-artístico-filosófico do
movimento direitista brasileiro? É zero. Bem, só não é zero porque tem eu.
Quando minha avó escolheu meu nome, “Olavo”, que é um nome norueguês, que quer dizer
“sobrevivente”, ela tinha toda razão. Porque morreu todo mundo, só sobrou eu. Então, é o que vocês
conseguiram arrumar, fui eu – por aí você vê a gravidade da situação. Então, não tem mais ninguém,
eu não tenho sequer interlocutores no movimento liberal-conservador.
Então, a primeira etapa que é o dialogo profundo entre intelectuais já não foi cumprida; a segunda, o
sistema de informações não foi cumprida; terceira, o estado-maior, não foi cumprida. Enquanto isso,
o pessoal da esquerda está prontinho e afiado para infiltrar gente em todos os movimentos liberais
conservadores e fazê-los trabalhar para eles, não na sua propaganda, não na sua verborreia, mas no
seu resultado final que é só o que interessa.
Então esta é a situação presente. Para vocês verem que este curso aqui já está muito atrasado na
verdade.
Por hoje é só. Vamos ver as perguntas...

***

Então vamos lá. Primeiro, antes de tudo, vocês me viram fazendo uns gestos estranhos aqui [durante
intervalo], eu estava contando a história de quando eu estava no México, e o sujeito lá estava fazendo
um sanduíche para mim, e ele enfiava a mão dentro a calça, coçava o saco, e voltava com a mão no
meu sanduíche: “eu não nunca mais vou voltar ao México!” [risos]
Aluno: Primeiro lugar gostaria de parabenizá-lo pela excelente explanação, como sempre. Minha
pergunta é: é correto afirmar que a guerra cultural e a atuação dos seus agentes históricos, desde
seu inicio, acontece somente no ocidente?
Olavo: Sim. Não há a menor possibilidade de um país ocidental fazer uma guerra cultural dentro da
URSS. No máximo o que se fazia eram as transmissões da Rádio Europa Livre que chegava em alguns
países da URSS, e algum apoio dado a dissidentes que fugiam. Isso era o máximo que se pôde fazer.
Mas, dizer que algum país ocidental chegou a influenciar a cultura soviética, isso é absolutamente
impossível. Num confronto com uma ditadura comunista, uma democracia está completamente em
desvantagem – comparem, por exemplo, o número de livros que existem sobre a CIA no EUA, é um
oceano, tem muito menos sobre a KGB, menos de 5%. Então isso quer dizer que os americanos são
mais atentos a não serem enganados pela CIA, do que para serem enganados pela KGB. Agora, e na
URSS? Quantos livros haviam denunciando as ações da KGB na URSS? Nenhum, porque todas as
editoras são do Estado, e aliás, todas controladas pela KGB – uma das funções da KGB era controlar
o movimento editorial.
Aluno: Vamos supor que a cortina de ferro foi iniciada como uma estratégia de proteção e
acobertamento da ação comunista e inviabilizando a entrada de forças contrárias, seria uma leitura
equivocada?
Olavo: Não. É uma leitura certíssima. O regime totalitário é impenetrável a qualquer influência
cultural, absolutamente impossível. Agora, o que se pode fazer é criar uma cultura anti-totalitária no
exterior – como de fato se criou – mas mesmo isso com um atraso formidável.
Vejam, a primeira iniciativa cultural anti-soviética foi o Congresso Para Liberdade Cultural, realizada
em Berlim em 1956, com o financiamento da CIA – nada mais junto – e o pessoal ainda denuncia
“olha estava a CIA por trás e tal”, mas era obrigação da CIA financiar aquilo. A KGB estava
financiando iniciativas culturais soviéticas desde a década de 20. Os americanos entraram na
concorrência com um atraso de 36 anos, e o pessoal ainda acha ruim. Aliás, [01:30] existe um livro
sobre isso, e cuja a tradução foi publicado no Brasil, denunciando: “olha o Congresso Para a
Liberdade Cultural foi uma operação da CIA etc.” Isto foi traduzido no Brasil. Mas, material sobre a
KGB, não tem praticamente nada.
Aluno: Pode falar da obra de Washington Platt?
Olavo: Bom, existe esse livro importantíssimo do Washington Platt, A Produção de Informações
Estratégicas, que foi traduzido no Brasil pela Agir, e, para mim, aquilo é um modelo de redação de
trabalhos em ciências sociais de modo geral. Só que, o informe estratégico tem sempre um escopo
limitado. Porque um analista de informações está trabalhando no meio de mil outros agentes de
informações e, portanto, ele só tem que se ater a um ponto específico. Mas, para aproveitar aquilo
para trabalhos de maior envergadura, eu tive que fazer umas adaptações no esquema dele e eu
publiquei isso num diagrama do curso “Introdução a vida intelectual” – vou ver se acho esse diagrama
e coloco a disposição de vocês –, daí fica um roteiro perfeito para qualquer estudo desse tipo,
principalmente estudos como esses que lhes estou sugerindo. Não deixem de ler o livro do
Washington Platt. Mas, depois levem em consideração esses acréscimos que eu fiz.
Aluno: Professor, bibliografia, principalmente de estudos estratégicos, se possível disponíveis em
pdf...
Olavo: Eu vou tentar fazer isso para o fim do curso. Mas, por um lado, vocês podem começar por ler
o livro do Jeffrey Nyquist, Origins of the Fourth World War, isso é básico.
Vejam, não é só livros sobre estudos estratégicos. Estes também são uma área profissional específica.
E, no contexto comunista, estudos de estratégicos não é uma profissão específica. Ela é colocada
dentro da formação marxista de modo geral. Tudo o que se faz no mundo comunista [é de certa forma
generalista]. Não há essa especialização profissional estrita como tem no ocidente, onde tem um plano
de carreira e essa coisa toda – eles são muito mais abertos.
Então, por exemplo, outro dia mesmo o Jeffrey Nyquist estava me contando uma conversa que ele
teve com o General Stanislav Lunev. Que era um alto oficial do serviço secreto militar soviético [o
GRU], e que ele estava conversando com um bando de oficias americanos de inteligência e eles
dizendo da improbabilidade de uma guerra nuclear. E, o coronel Lunev então perguntou: “o senhor é
uma pessoa normal?” – perguntou para um americano. Este respondeu: “sim, por quê?” Lunev disse:
“bom, mas as pessoas com quem eu estudei não são normais, são todos psicopatas; e eu, durante trinta
anos na mão deles, não estudei outra coisa senão o seguinte assunto: guerra nuclear estratégica contra
o EUA, os soviéticos estão prontos para fazer isso, estão loucos para fazer isso, é só isso que lhes
interessa” – só que esse tipo de estudo não é visto como uma área profissional neutra, mas como parte
do marxismo-leninismo.
Aluno: Darwin e a teoria da evolução foram usados como propaganda comunista dentro da ciência?
Olavo: Não só como propaganda comunista, mas para outras ideologias também. Teve aqui no EUA
uma vasta propaganda francamente reacionária a favor de métodos de controle populacional baseado
no darwinismo. “Nós temos que impedir que nasça mais negros” – diziam eles. Isso houve aqui
também. A Planned Parenthood começou fazendo isso, o objetivo deles era suprimir os negros.
Aluno: O senhor comentou na aula a importância das famílias dinásticas como agentes históricos.
Uma das prioridades para um movimento conservador a longo prazo seria reconquistar as famílias
dinásticas ocidentais para a resistência anticomunista ou antiglobalista?
Olavo: Sim, sem dúvida – ou o que ainda restar delas. Agora, no Brasil ainda tem a família real, que
continua. Agora, a minha dúvida é a seguinte: a família real quer realmente reconquistar o poder ou
não? Eu não sei se eles querem. Claro que eles gostariam de agir nesse sentido, mas gostar de é uma
coisa, e querer é outra. Mas, eu acho que se ela decidisse agir ela teria um amplo respaldo popular. E
ela tem realmente a característica de continuidade histórica.
Aluno: A paz perpétua de Kant influencia as bases do globalismo mundial?
Olavo: 100%! A ideia de governo mundial está totalmente embutida ali no Kant, é uma coisa muito
clara.
Aluno: A ação histórica para acontecer é preciso de um marco? Um começo? No caso do Brasil é
possível identificar?
Olavo: Eu acho que única ação histórica contínua que nós temos é de ordem comunista. Isto pode
remontar a fundação do próprio partido, mas a ação comunista foi incipiente durante muito tempo,
então eu dataria isso menos da fundação do partido comunista, do que da longa marcha do Luiz Carlos
Prestes, que começa a criar uma tradição a partir dali.
Aluno: O retorno da monarquia no Brasil poderia fornecer um referencial de conservadorismo
dinástico para a sociedade... ?
Olavo: Sem sombra de dúvidas. Bom, eu acabei de dizer isso.
Aluno: ... a família real pode cumprir esse papel?
Olavo: Eu acho que no momento só ela pode cumprir esse papel, ela é o último fator que nos liga a
origem do Brasil. No Brasil, tudo se torna difícil porque o passado histórico está apagado – apagado
até fisicamente. Se o sujeito percorre a cidade de São Paulo, ele vê que todos os marcos do passado
foram derrubados. Não tem mais nada. O pessoal está perdido no tempo. Por isso que quando eu
mudei para o Rio de Janeiro eu tive uma imensa satisfação, porque ali no Rio ainda se podia percorrer
as ruas e ver [os marcos históricos]. Eu me lembro ainda hoje, eu percorrendo ali a Praia de
Copacabana e vi o lugar onde tombou o Siqueira Campos, ali no Forte de Copacabana, na esquina –
“ó, o homem caiu aqui”. Então, ali tem essa referência do passado, em vários lugares ainda tem. Em
São Paulo não tem mais nada.
Aluno: Tenho três filhos, os dois primeiros com 31 e 17 anos, já estão encaminhados e livres dessas
moldagens socialistas. O terceiro, com 7 anos, está sendo educado, entretanto sua dificuldade nas
suas relações com os colegas é patente devido a essa diferença de ideias.
Olavo: Ora, faça ele tirar proveito disso: “eu sou um cara diferente, portanto sou mais importante,
portanto sou mais gostoso”. [risos] É isso que tem que fazer. Agora, ficar acuado porque ele é
diferente? Não. “Eu sou muito melhor que todos vocês” – é assim que tem que ser.
Ensine o garoto a se orgulhar da família que tem, do pai que tem, e mais do que dos colegas. Não
permita que aconteça o processo que eu descrevi ali, no “O imbecil juvenil”, que é de ele ter que
cortejar uma maioria para ser aceito. Não, ele tem que entrar ali já dobrando a maioria, meu Deus do
céu. Isto é perfeitamente possível de acontecer. Eu, graças a Deus, percebi isso em tempo.
No colégio onde eu estava, onde houve um movimento de todo o colégio contra um determinado
professor de matemática. Eu odiava as aulas deste sujeito, mas quando todo colégio ficou contra ele,
eu falei: “não, ele está sendo injustiçado, porque ele não sabe dar aula, ele não é um professor, mas
ele é um matemático” – ele era assistente do Benedito Castrucci, que era o maior matemático
brasileiro, ele sabia matemática pra caramba. “Se ele não tem didática, então vamos ajudá-lo” – eu
pensei. Então, era eu contra duas mil pessoas. Eu não consegui defender o cara, ele acabou sendo
demitido. Mas eu saí dali com um prestígio desgraçado. Entendeu? Então, “audaces fortuna juvat”,
“coraggio e sangue freddo” – tenha coragem, seja audaz, que você acaba dobrando a massa.
Olha, a pior coisa que existe é carência afetiva – querer que as pessoas te amem. A pessoa tem que
escolher quantas pessoas ela quer que a amem, e os outros ela tem que intimidar. E aí é a nota do
Maquiavel: “é melhor ser temido do que amado”.
Aluno: Dá para concluir que hoje qualquer ação conservadora ou liberal, até mesmo desses
movimentos superficiais que tentam se utilizar das mesmas armas do comunismo, é inócua?
Olavo: Quando eles tentam imitar o comunismo, eles imitam da pior maneira possível, de maneira
toda amadorística.
Não há outra maneira de fazer isso senão seguindo essa sequência: primeiro um grupo de intelectuais
discutindo em privado, não precisa ser uma coisa pública, não é propaganda isso aí. Isto é, tem que
estar empenhado em chegar a um diagnóstico preciso da situação, tem que ser exatamente o que está
acontecendo. No curso dessa discussão vai surgir a necessidade de um sistema de informações para
alimentar as discussões. Então, esses dois passos iniciais o pessoal está pulando, eles pensam que
intelectuais existem para fazer propaganda de ideias liberais ou conservadoras. Propaganda é uma
função menor – imagine se os comunistas em 1964 iriam usar o Jacob Gorender para fazer
propaganda, pelo amor de Deus, ele tinha de ficar ali dentro fazendo diagnóstico. Propaganda serve
para o Chico Buarque, para o Luis Fernando Veríssimo, qualquer um desses caras. Agora no Brasil o
pessoal confunde isso aí. Então, vocês têm que usar as mesmas armas do comunismo, mas os
comunistas sabem disto que eu estou dizendo, que é assim que se faz.
Vejam, estudem a história da reação comunista ao golpe de 64. A primeira coisa que eles fizeram foi
se fechar e discutir até entender o que estava acontecendo – coisa que hoje eles são incapazes de fazer,
eles não estão fazendo isso agora, eles estão se deixando convencer por sua própria propaganda. “É
golpe, é elite, e não sei mais o quê” – eles pensam. Conversa mole, evidentemente. Nós sabemos que
não foi nada disso.
Então, no momento eles não têm o diagnóstico preciso da situação. O diagnóstico preciso só quem
fez fui eu mesmo, com o negócio do faoro-gramscismo. Isto não é tudo, mas é o elemento
fundamental. E, eles não perceberam isso até hoje. Então, nós estamos no momento propício para
destruí-los, sob este aspecto. Eles não têm uma estratégia geral, mas a tática da infiltração e do
domínio parcial eles têm, e eles já estão exercendo isso. Não há um só movimento liberal-conservador
que já não tenha um agente comunista lá dentro, muito mais esperto do que todos os outros.
Aluno: Como montar um serviço de inteligência, o senhor tem alguma referência para pesquisa.
Olavo: Começa a ler o livro do Washington Platt e comece a produzir informes de inteligência sobre
isto, sobre aquilo, sobre tal organização, sobre tal pessoa, tal publicação, tal universidade, um por um,
vocês têm que ter informações sobre tudo. Agora, isso é trabalho para muita gente, é um trabalho
anônimo, é um trabalho de formiguinha, um trabalho sem recompensa. Mas se tantos comunistas se
dispõem a sacrificar suas vidas para criar uma porcaria que jamais vai existir, porquê que vocês não
se dedicam a fazer isso por uma causa viável, possível, benéfica etc.?
Outro aluno aqui está me pedindo uma bibliografia. Calma gente, vou dar uma bibliografia no final.
Aluno: Os comunistas tomaram para si os nossos valores: liberdade, democracia, direitos humanos,
coisas aspiradas por todos, usam para si as palavras que seduzem os jovens, como progressistas...
Olavo: Bom, o domínio do vocabulário é uma coisa fundamental. Foi nos anos 20 que Stalin ordenou
que os intelectuais qualificados para isso se apropriassem das redações de todos os dicionários do
mundo, ou seja, nós estamos apenas um século atrasado. O domínio do vocabulário se dá através do
quê? Da literatura, do cinema, do teatro etc. Cada um desses jogos verbais tem de ser analisado,
desmontado e substituído.
Vejam, por exemplo, o tipo de análise que eu fiz sobre o Leonardo Boff, uns tempos atrás. Eu não
lembro nem o título do artigo, é uma análise de duas páginas do Leonardo Boff, onde toda a estratégia
verbal dele está ali desmontada, mostrando como funciona. Fazer esse tipo de análise é muito
importante, mas tem que fazer de monte.
Aluno: Quanto mais te ouço, mais fico impressionado com sua sabedoria e genialidade, estou pasmo
com esse tanto de informação neste nível de profundidade.
Olavo: Estou estudando essa porcaria vai fazer mais de meio século. Agora, de repente vem aí, estes
meus interlocutores, caras que chegaram ontem, o cara que é meu aluno há seis meses e já está aí
dando palpite. Assim não dá, gente. E são pessoas que, por exemplo, estão precisando de emprego:
“nego tá lá vivendo na casa da mãe até os 30 anos de idade, querendo uma carreira, e daí descobre o
conservadorismo...” – assim não dá.
Aluno: Porque você não fala do Michel Foucault? Meus professores universitários fazem doutrinação
usando Foucault muito mais do que de qualquer outro autor.
Olavo: Eu achei que nunca precisei analisar o Foucault, porque já tinha sido analisado pelo Roger
Scruton, e pelo José Guilherme Merquior, ambos de maneira brilhante. Então, eu não vejo muito mais
o que eu tenha a acrescentar ali. E o Roger Kimball publicou um resumo biográfico do Foucault que
é devastador. Então você lê esses três: Roger Kimball, Roger Scruton e o José Guilherme Merquior,
no livro Michel Foucault, ou o Niilismo de Cátedra, um livro absolutamente brilhante. Eu acho que
o Foucault está resolvido ali. Ele não tem capacidade para enfrentar esses três. Agora, se o pessoal
não lê as análises críticas, então vai continuar acreditando. O Michel Foucault é muito superficial
gente. O primeiro livro dele, As Palavras e as Coisas, não é um mau livro. Mas, tudo que veio depois
é puro chute, é de uma superficialidade monstruosa.
O Pierre Bourdieu é muito mais sério que o Foucault. O Bourdieu pega alguns processos reais, essas
coisas da reprodução, só que ele descreve o processo da reprodução como se ele estivesse em ação
na burguesia, e não está. Na verdade, quem está fazendo a reprodução é o partido comunista. Nunca
se vê a burguesia reunir-se e dizer: “vamos planejar uma educação para insuflar a mentalidade
burguesa na cabeça das jovens gerações” – isso nunca existiu, em parte algum do mundo, e muito
menos no Brasil. Em um dos fóruns da liberdade que eu participei, tinha uma pessoa que apresentou
uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas mostrando que da totalidade dos estudantes universitários
brasileiros, só 3% queriam ser empresários. Os outros todos queriam ser empregados, e sobretudo
empregados públicos. Ora, então é esta a marca da reprodução da burguesia? Isto é a marca de
reprodução do PT. A burguesia não está reproduzindo é coisa nenhuma. Mas, o processo da
reprodução como ele o descreve, ele existe. Só que ele o descreve como o agente oposto. Então é uma
estranha mistura de ciência e empulhação. O Michel Foucault é só empulhação.
Aluno: Um movimento da restauração conservadora cristã poderia ter a capacidade de mudar o
curso da história pela via de esclarecimento e da educação?
Olavo: Não. Se você pensar em esclarecimento e educação, você está pensando num fim. Tem que
começar com esses elementos que eu estou falando aqui. Primeiro, o debate profundo entre
intelectuais até alcançar o perfeito diagnóstico da situação. Segundo, a formação de um sistema de
informações. Terceiro, a formação do estado-maior. E daí vai aparecer as lideranças, e aí aparece um
movimento popular, com formação de militantes – somente aí. Já expliquei o que é, qual a diferença
entre um adepto e um militante, entre o eleitor e um militante. Então, formação de militante também
não começou até agora, só formação propagandistas. O pessoal acha que o Kim Kataguiri é um
militante. Não, ele não é um militante. Ele nem sabe o que é isso, coitado.
Aluno: Sou casado há quase 4 anos e pretendo em breve ter filhos. O que devo fazer para iniciar meu
legado cultural e que o possa passar para os meus descendentes?
Olavo: Ora, mas é muito simples, é só você ler os meus livros e depois dá-los a ele. Agora, a coisa
mais importante para quem tem filhos – vou lhes dar alguns conselhos –, para alguns isto pode parecer
que não tem nada a ver, mas o principal da educação de qualquer criança: nunca faça uma criança
chorar. Faça a criança sentir que você a ama loucamente, que você está 100% ao lado dela, que você
vai defendê-la até a morte. Faça ela sentir isso, e ela vai aceitar tudo que você disser pelo resto da sua
vida. Está aqui meus dois netinhos, Jack e Isaac: eu faço tudo o que eles querem, e eles fazem tudo
que eu quero – e isto funciona, gente. Eu não preciso dizer duas vezes. Está mexendo numa coisa
perigosa: “ó Jack, não mexe nisso” – é na mesma hora, não tem discussão. Porque o que ele me pedir
eu também vou fazer sem discussão.
Então, tire da cabeça a ideia de educar seus filhos. Você não está aí para educar ninguém. Você está
aí para amá-los, protegê-los e dar exemplos, só isso. Essa é a melhor educação do mundo. As crianças
aprendem não o que você quer que elas aprendam, mas o que elas veem você fazendo. Não é um
princípio óbvio? Você pode tentar educá-las, mas você vai dedicar a isso apenas certos momentos.
No entanto, o tempo todo elas estão vendo o que você faz. Aí é que você está passando a informação
básica. Se o que eles vêm em você inspira amor, respeito e confiança, então está feito o serviço. Eu
nunca eduquei filho nenhum. Eu me limitei a fazer isso. E, está funcionando. No começo eu não sabia.
Também tentava educar e fiz besteira que não tem tamanho, mas depois aprendi.
Aluno: Como o movimento comunista enxerga o islam?
Olavo: Bom, em primeiro lugar, você precisa ver que o Islam, como outras civilizações orientais, é
um material de primeiríssima ordem para corroer e destruir a auto-imagem da civilização ocidental.
Então serve tudo, serve Islam, serve China, serve Índia, serve as culturas indígenas, tudo isso tem que
ser apresentado como uma coisa altamente profunda e muito mais valiosa.
Vejam, no cinema não aparece um índio que não seja um sábio. Os brancos são sempre uns grosseirões
que só pensam em dar tiros e estuprar mocinhas. E o índio sempre tem uma solução mágica, ele
conhece ciências esotéricas, sempre tem uma solução incrível para tudo. Isso tudo faz parte da
campanha anti-ocidental. Parece ser remotíssimo em relação ao comunismo, mas vejam: quem é
dogmático é o pessoal conservador e liberal. Comunista não é dogmático. Comunista é altamente
flexível. Tudo o que servir, serve. Qualquer coisa. Nada serve para um conjunto, mas tudo serve para
um detalhe. Estes detalhes vão se somando – sobretudo depois que veio a estratégia do pessoal
frankfurtiano e gramsciano – e eles entendem que a mensagem tem que chegar as pessoas sobre mil
formas diferentes, sobre mil pretextos diferentes, e que cada uma só vai pegar um ponto, mas o efeito
de conjunto é que interessa.
Então, o islam pode ser usado para isso. Se vocês pegarem, por exemplo, os livros do Frithjof Schuon,
Comprendre l’Islam, é uma visão maravilhosa do mundo islâmico. Parece que nunca cortaram
nenhuma cabeça, nunca precisaram de violência nenhuma, não criaram deserto, nunca oprimiram
ninguém, é tudo maravilhoso. Bom, o Schuon é comunista? É claro que não. Mas, isto serve. “Ah,
nós somos conservadores, nós somos a favor das sociedades tradicionais, e contra a modernidade” –
eles pensam. Só que eles já estão trabalhando para o segundo capítulo da modernidade, que é o
socialismo, e eles nem sabem.
Esse tema indígena, por exemplo, da superior sabedoria indígena, foi introduzido na cultura
americana pelo Frithjof Schuon através de Joseph Brown. Que era um camarada membro da tariqa,
mulçumano evidentemente, mas foi criado por um cidadão da tribo sul. E, que escreveu livros que
são bonitos aliás: O Cachimbo Sagrado e Rito Secreto dos Índios do Sul. Então, tudo isso faz parte
do ataque multilateral a civilização o ocidente.
Apresentar as outras civilizações como portadoras de uma sabedoria superior, em primeiro lugar, isso
é uma empulhação. Não se encontra nada de valor em nenhuma das altas culturas desses países que
não tenha sido melhorado na civilização ocidental. “Ah, mas você não tem um metafísico como o Ibn
Arabi” – podem dizer. Sim, é um grande metafísico. Só que a metafísica dele está errada. A metafísica
da unidade absoluta está totalmente errada. Ela é uma gigantesca fantasia, que no ocidente o Isaac
Newton tentou restaurar. [Newton] criou uma metafísica da unidade absoluta, antitrinitária, e tudo o
que ele fez na vida foi para montar essa metafísica – deu errado, evidentemente.
Por hoje é só gente. Voltamos terça-feira que vem.
Não deixem de ler o artigo do Ion Mihai Pacepa, “Uma nova guerra fria”, é importantíssimo. Este foi
um alto oficial da KGB, que veio para o ocidente e tem escrito coisas maravilhosas. Tudo o que ele
escreve parece notavelmente sincero. Não se pode dizer isto de todos os dissidentes e desertores da
KGB, pois tem alguns que são meio “171”. Mas, o Pacepa não. Ele me parece notavelmente sincero
em tudo o que ele está escrevendo. Não por ele estar muito velho, ele não tem mais nada para ganhar
ou para perder.
Então, é isso aí. Até semana que vem, muito obrigado. [01:56:09]

Transcrição: Israel Kralco e Jaime Cosmo


Revisão: Rahul Gusmão

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