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Guerra Cultural – História e Estratégias

OLAVO DE CARVALHO

Aula 4
11 de outubro de 2016

[versão provisória]
Para uso exclusivo dos alunos do Seminário de Filosofia.
O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.
Por favor, não cite nem divulgue este material.

Então vamos lá. Boa noite a todos, sejam bem-vindos!


A minha ideia hoje era dar um esquema da evolução da guerra cultural. Mas, antes disso teremos
que voltar ao tema da última aula pela seguinte razão: quando se fala em guerra cultural é óbvio que
qualquer empreendimento nesse sentido é impossível se não tivermos uma visão global do que é
uma cultura e do que é a cultura que se pretende atacar ou modificar de algum modo. Então, surge o
seguinte problema: pensem se vocês têm alguma representação integral de alguma cultura no
mundo? A resposta é obviamente não, pois nunca se teve isso. Só se conhece um fragmento aqui,
um fragmento ali, portanto é impossível representar uma sociedade no seu todo, não há uma
maneira científica de fazer isso. A única maneira possível de se fazer isso é através da imaginação,
ou seja, através de um aglomerado de símbolos que, de algum modo, represente os vários
componentes da sociedade na sua ação, na sua interação, no seu conjunto.
Se procurarmos ao longo da história humana, quantas representações integrais de uma sociedade
nós podemos encontrar documentadamente? Eu acho que a primeira que apareceu no mundo foi a
Comédia Humana de Balzac. Na verdade, a obra inteira de Karl Marx não passa de uma
transposição da Comédia Humana em termos de economia e sociologia. Isso é um dado
absolutamente fundamental: sem Balzac não existiria Karl Marx. E qual é o segredo de Balzac?
Como Balzac conseguiu conceber um panorama que demonstrava a sociedade francesa inteira em
ação? Ele teve, é claro, que escolher personagens representativos. Que pela sua tipicidade
representassem grupos e padrões inteiros de conduta, mais ou menos uniformes, dentro daquele
grupo, e isso sem forçar. Ou seja, mantendo naturalmente o padrão de verossimilhança ficcional,
sem o qual uma narrativa romanesca não é viável, posto que a mesma se torna chata, inacreditável e
idiota no fim das contas.
Essa capacidade de apreender a tipicidade sem reduzir os personagens a um esquema, é
característica da imaginação do romancista, isso é exatamente o que o romancista faz – ele tem de
mostrar os personagens agindo de tal modo que se perceba claramente individualidades concretas
reais e que ao mesmo tempo, nessas imagens dessas pessoas, se condensem comportamentos
coletivos similares.
Por exemplo, quando ele pega o personagem do jovem intelectual carreirista Lucien de Rubempré,
no livro Ilusões Perdidas. Ali podemos ver aquele rapaz que vem do interior e chega em Paris
disposto a conquistar a cidade com seus dons literários. Bom, podemos perceber que isso aconteceu
a muita gente no Brasil. Nos anos trinta muita gente veio do interior da Bahia, ou de Minas, e ia
para o Rio de Janeiro com essa ideia de obter ali um sucesso literário. Do mesmo modo, quando
aparece a figura de um banqueiro, de um agiota, de um alto comandante militar, ou de uma dona de
bordel, todos esses personagens têm uma individualidade muito marcada, mas ao mesmo tempo se
vê que eles representam certos esquemas de comportamentos. E Balzac conseguiu, nesse panorama,
pegar todas as faixas da população e, portanto, todos os tipos humanos componentes – já que não
faltou nenhum – e colocá-los todos em interação, graças ao fato de que um personagem, que em um
dos livros é o protagonista, aparecer como figurante em outro livro, de maneira que os personagens
retornem e assim possamos ver as inter-relações.
Por exemplo, em um livro aparece tal personagem num determinado meio social, no outro vai
aparecer como esse personagem é visto ou como ele interage num outro meio social completamente
diferente. Então, eu acredito que essa foi a primeira tentativa de se fazer um painel sociológico.
Outra tentativa, um pouco menor, é o livro I promessi sposi (Os noivos), de Alessandro Manzoni.
Que embora seja apenas um livro, e não uma coleção como a Comédia Humana, também, de certo
modo, condensa a sociedade italiana da época descrita.
Se não fosse por esses grandes painéis imaginativos, toda e qualquer descrição científica da
sociedade seria impossível. E, Balzac tinha o seguinte problema: como é que eu vou distinguir os
vários grupos possíveis? Qual é o critério de diferenciação? E ele optou pelo critério econômico. Ou
seja, de onde sai o dinheiro das pessoas, do quê que elas vivem. Pois isto fornece imediatamente um
critério distintivo dos vários grupos. Mas, poderia ser feito por outro critério, por exemplo, pelo
critério racial, por estilo de linguagem ou diferentes gírias de diferentes meios.
Por exemplo, como se vê no My Fair Lady (Pigmalião), de George Bernard Shaw. As classes são
distinguidas, não pelos seus meios de subsistências, mas pela sua linguagem – o que na Inglaterra é
uma coisa muito fácil de se fazer, mas em outros países não. No Brasil se pegarmos a linguagem
das pessoas que andam na praia, desde o banqueiro até o mendigo todos falam o mesmo
“carioquês”, logo, isso não funcionaria para o Brasil.
Existem muitos meios de se distinguir, porém Balzac pegou realmente o mais fácil, uma vez que se
as pessoas precisam comer, para isso elas precisam de alguma riqueza e o dinheiro delas não saem
das mesmas fontes, não veem pelos mesmos meios. E, através desses critérios nós podemos
facilmente distinguir e articular as várias classes sociais. Por quê? Porque o dinheiro medeia a
relação de todas elas. Então, aparece ali realmente uma sociedade capitalista em formação, no qual
se tem todo aquele sistema que Marx depois chamará de acumulação primitiva do capital, feita de
uma maneira bastante forçada. O próprio Balzac viveu isso em pessoa, na medida em que os
editores os escravizavam obrigando-o a produzir um livro atrás do outro. Ele poderia ser
representado com uma corrente no pé, o prendendo na mesa para que ele não saísse dali. Mas enfim,
ele se pega a si mesmo como personagem de algum modo.
Foi com base nisso que Karl Marx desenvolveu toda sua teoria da luta de classes. Porque de fato a
convivência entre as classes na obra de Balzac aparece como um conflito, porém um conflito em
função da riqueza, da apropriação da riqueza. Karl Marx vai ampliar isso de modo a transformar
essa imagem concreta numa generalização e criar então um processo descritivo que pode se aplicar
a qualquer momento, a qualquer sociedade humana. Esse critério descritivo parte das distinções
entre as classes sociais e daí vai obtendo outras modalidades de distinção, como por exemplo,
linguística, psicológica, relações familiares, etc., mas tudo vinculado a diferenciação inicial entre as
classes.
Eu devo dizer a vocês: essa é a única técnica que ainda existe para a descrição integral de uma
sociedade. Não existe nenhuma outra. Isso é uma vantagem imensa que o marxismo tem a seu
favor. Porque nós não sabemos se as sociedades funcionam exatamente assim. Nós sabemos apenas
que este é um sistema descritivo que funciona e que é fácil de guardar na memória, pois com os
nomes das classes sociais, já temos todo um padrão de relacionamento, pelo qual se pode
diferenciar, por exemplo, distintas modalidades de relacionamento entre as pessoas nesta classe, ou
naquela classe, ou entre pessoas de classes diversas. Há muitas maneiras de pessoas de classes
diferentes se articularem, como se fossem vários buraquinhos ou vários canos por onde as classes se
intercomunicam.
Por exemplo, num bordel podemos encontrar desde governantes até aquelas moças que não sabem
de onde vinheram, podem ter vindo do fundo da sociedade, mas eles estão bem próximos um dos
outros numa cama. Também, através desse meio, terceiros elementos podem estar agindo.
Por exemplo, na Alemanha Nazista, o serviço secreto chefiado por Reinhard Heydrich criou o
bordel mais chique da Europa para visitantes, governantes, grandes empresários, etc., e tudo que
eles faziam lá dentro era filmado – evidentemente, [os frequentadores] não sabiam. Desse modo,
inúmeros visitantes ilustres foram pegos ali. E, aquelas mocinhas que poderiam ter vindo do fundo
da sociedade serviram como agentes do governo. Não que elas tivessem plena consciência do
processo inteiro, mas vemos que existe uma promiscuidade entre as classes nesse ponto. Pode haver
muitos outros.
Por exemplo, um sujeito milionário que fica bêbado e encontra outro bêbado na rua, e daí saem
conversando e se metem em aventuras juntos – bom, duas classes sociais se intercomunicaram é
comum. Isso no Brasil, essa proximidade entre as classes sociais, se observa na praia. Isso no Rio
de Janeiro é característico. Houve uma época em que eu tinha dois alunos que eram amicíssimos,
uma era socialite carioca, e o outro era um negão que era trombonista de uma boate e que morava
na favela. Minha própria aula era um momento, um lugar onde as várias classes sociais se
encontravam de algum modo, e ali era criado vários padrões de interação.
Esses padrões de interação, por sua vez, favorecem o surgimento de determinadas personalidades
típicas, certas condutas que são típicas e certas constelações psíquicas que também são típicas. De
modo que, partindo da diferenciação das classes sociais no sentido econômico da coisa, o sujeito
pode ir detalhando a coisa até chegar nos últimos detalhes do subconsciente dos personagens
envolvidos. Essa relação entre a alma do indivíduo e sua estrutura social como um todo, é um dos
elementos absolutamente fundamentais da arte do romance. E, um sujeito que estudou isso com
particular atenção foi Georg Lukács. E quem é Georg Lukács? É o criador da Escola de Frankfurt.
O nome dele geralmente não é associado à Escola de Frankfurt, mas ele é quem foi pioneiro, foi ele
quem teve a ideia.
Qual é exatamente a estrutura fundamental do gênero narrativo? O Georg Lukács e seu discípulo
francês Lucien Goldmann, definem assim: “a estrutura do romance é sempre uma revolta,
degradada, contra um mundo degradado.”
Então, o herói tem, de algum modo, de estar contra a sociedade. Mas, ele não está, nem por motivos
nobres, nem com uma visão correta da situação. Ele no fundo é tão corrompido quanto à sociedade.
Se vocês observarem, vocês vão ver que a estrutura de todos os romances é mais ou menos essa. Por
exemplo, eu me lembro de um romance do Jacob Wassermann chamado Ulrike Woytich, que é uma
moça que vem do interior, uma moça muito inteligente, muito ambiciosa e que entra dentro de uma
família muito próspera, no intuito de destruir a família. E a estrutura dessa família é baseada no
quê? Numa falsa moral, na hipocrisia etc. Mas, Ulrike não é melhor que a família. Na verdade, ela é
pior. Então, através dessa pessoa maligna, o mal que existe na sociedade aparece.
Se tomarmos, por exemplo, o romance do Graciliano Ramos, Angústia. Que é sobre um escritor de
interior, um homem muito solitário, muito complexado. E, ele deseja uma certa moça. Mas, existe
um homem rico e próspero da cidade que conquista essa moça. Então ele planeja matar esse cara.
Ele está revoltado contra a injustiça social, mas ele é pior ainda do que a injustiça social. Ele é um
assassino no fim das contas. De algum modo, esse elemento está presente em todos os romances.
Vejam, O Vermelho e Negro, do Stendhal, é a história de um rapaz que quer subir na vida e ele tem
que vencer a sociedade de algum modo, e ele vence através de quê? Da trapaça, do engodo, do
adultério etc. É assim que ele vai subindo. Então vejam, a revolta dele é legítima, até certo ponto.
Quem não é legítimo é ele.
Eu acho que essa é uma compreensão muito profunda da estrutura do romance, como uma espécie
de imagem em miniatura da estrutura da sociedade. É importante ver que não existe até hoje,
nenhum outro critério de descrição de sociedade como um todo.
Eu expliquei a vocês, na última aula, a questão dos quatros discursos de Aristóteles. Que todo
conhecimento começa da percepção sensível. Da percepção sensível vai para a memória, onde se
estrutura em imagens. Essas imagens condensam conceitos gerais em figuras particulares, por
exemplo, uma vaca que representa todas as vacas. Se não fosse isso, nós não conseguiríamos
pensar, ou seja, nós não teríamos como pular direto da individualidade dos objetos percebidos pela
mente para o conceito geral. Quando vemos um gato, nós estamos vendo apenas aquele gato, mas
na nossa imaginação esse gato se transforma numa espécie de gato em geral, ele simboliza, ele
condensa – condensa, é claro, analogicamente. Isto quer dizer que, ele tem semelhanças e diferenças
com os outros gatos, mas essas diferenças e semelhanças estão condensadas na própria figura dele.
Isto aqui é uma sutileza: por exemplo, quando vemos a cor de um gato: o primeiro gato que vemos,
vamos supor que ele fosse branco, o branco dele é perfeito? É branco como em um papel? Não, não
é. É um branco mais matizado. Portanto, na própria figura do gato branco já vemos que há variações
de cores possíveis. Só de ver um gato branco já entendemos que o gato poderia ser marrom,
malhado, cinzento, tarjado etc. Tem uma série de variações possíveis, mas essas variações tem um
limite. Não pode ser um gato verde, por exemplo. Do mesmo modo, todo objeto que vemos, já tem,
nesse objeto único, um símbolo de uma espécie inteira. Esse símbolo nós conhecemos através do
quê? Através de variações possíveis. Então, essas variações possíveis, que não aparecem no gato em
geral, mas neste gato em particular, são insinuadas por ele. E, são o conjunto de semelhança e
diferença que formam então o símbolo da espécie. Tal como condensado num único indivíduo.
Do mesmo modo o personagem do romance, ele age de certas maneiras. Nós entendemos as
maneiras que ele agiu, porque nas mesmas escolhas que ele faz estão implícitas outras escolhas
possíveis. Ele agiu assim, mas ele poderia ter agido de outra forma.
Quando vemos, por exemplo, no Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. Raskólnikóv é um
sujeito, um estudante, que se acha um gênio, ele acha que ele é um segundo Napoleão Bonaparte. E
ele diz: “não é justo que um sujeito tão talentoso, tão inteligente como eu fique jogado no fundo da
sociedade, enquanto outras pessoas sem talento nenhum, sem capacidade nenhuma, estão cheias de
dinheiro”. Então, ele decide matar uma velha agiota que mora no mesmo prédio dele, para que ele
possa pegar o dinheiro e investir na sua carreira. Ou seja, é novamente a revolta contra a estrutura
social, motivada por um instinto maligno, no fim das contas. O mal se torna o denunciador do mal,
e isto é a estrutura de todo romance, no fim das contas.
Na obra de Dostoiévski vemos também uma descrição da sociedade inteira, mas espalhada entre os
vários livros dele. Em todos os romances de Dostoiévski está presente toda sociedade russa. Mas,
não tem um que condense tudo. Também, entre os vários livros dele, não existe essa relação
orgânica que existe entre os da Comédia Humana.
Então, a principal vantagem, o principal instrumento de guerra cultural que os comunistas dispõem
é isto: eles sabem conceber uma sociedade como um todo. E concebê-la, por assim dizer, numa
visão única. Eles têm a imaginação da estrutura social, os outros não têm. Ninguém mais tem. E por
isso mesmo, se o sujeito vai empreender uma guerra cultural, ele está atacando uma sociedade
inteira, uma cultura inteira, e ele tem de conseguir vê-la como um todo.
Quando vocês quiserem estudar a questão da guerra cultural, a primeira pergunta que vocês têm que
colocar para si mesmos é esta: “eu sou capaz de vislumbrar uma cultura como um todo?” Por
exemplo, a cultura na qual estou, que está sendo atacada, e também a cultura do adversário. Porém,
quando nós perguntamos a cultura do adversário, aí o negócio complicou, porque quem é esse
adversário? Podemos falar, por exemplo, da cultura russa, da cultura chinesa? Isto é, temos uma
sociedade que está sendo atacada, mas não conseguimos dizer qual é a sociedade atacante. Ou seja,
não podemos identificar o inimigo como sendo um país, como sendo uma sociedade particular.
O inimigo chama-se o movimento comunista internacional. Que é uma coisa que tem 150 anos de
existência, e que envolve mais gente do que a população de muitos países. Aí nós temos um
problema: nós não conseguimos conceber como esse meio está localizado geograficamente, ele está
espalhado por tudo quanto é lado, e nós não conseguimos apreendê-lo como um todo. Como
apreenderíamos uma sociedade nacional, sociedade francesa, brasileira, americana etc.? Quer dizer,
temos sociedades definidas, que são imaginativamente concebíveis e apreensíveis, sendo atacadas
por um inimigo que não constitui uma sociedade e que, por assim dizer, não tem uma estrutura
identificável, que não tem uma personalidade identificável.
Esta aqui é a grande arma da guerra cultural comunista contra o ocidente: ela só ataca sociedades
das quais ela tem uma visão bastante apurada (isso não quer dizer que a descrição baseada na
distinção econômica seja cientificamente válida, ou que ela corresponda à realidade, mas
esquematicamente ela é um instrumento que permite imaginativamente apreender o todo, e isso é o
que interessa). Isso quer dizer que, até hoje não existe uma sociologia do movimento comunista. Ela
tem 150 anos, já fez um monte de desgraça, já matou mais de 100 milhões de pessoas, tomou e
perdeu o poder em vários países, e até hoje nós não sabemos quem é esse personagem. Então, não
conseguimos imaginá-lo como um todo.
Primeiro problema, a regra nº 1 do Sun Tzu, “conheça o seu inimigo”, já falhou. Nós não sabemos
quem está nos atacando. Segundo problema, como a descrição marxista da sociedade é a única que
existe – bom, existem outras, mas não são totais e nem têm essa organicidade do marxismo, e nem
tem essa imensa tradição literária por trás –, é natural que um membro da sociedade atacada, que
deseja entender o que está acontecendo, projete sobre a figura do atacante o mesmo padrão de
descrição que se usa para se descrever a sociedade dele.
Isto se vê, por exemplo, em todo o setor de conhecimento, que nos EUA chamou de sovietologia,
ou seja, são especialistas em assuntos soviéticos. E vocês verão que ao longo de mais de 60 anos,
praticamente toda a elite americana – os políticos, os cientistas sociais, os analistas estratégicos etc.
– olhava o movimento comunista como um braço da União Soviética, tanto que ao investigar fulano
ou fulana, eles queriam saber se o sujeito era comunista apenas por convicção pessoal ou se ele
trabalhava para a URSS – no primeiro caso era considerado inofensivo. Ou seja, o conflito entre o
movimento comunista e um país em particular, foi visto como um conflito entre dois países, entre
duas potências – o que falseia completamente o panorama. Por quê? O movimento comunista
existia 60 anos antes da URSS, ou seja, ele a criou, e continuou existindo independentemente dela
por muito tempo – embora ela fosse, durante algum tempo, o centro de comando. Esse é um dos
motivos pelos quais, todo mundo no ocidente acreditou que quando caísse a URSS, cairia o
movimento comunista. Isso foi um erro de descrição desde o início, eles nunca entenderam o
seguinte: não é a URSS o agente. Se tivessem pensado um pouco sobre a teoria do agente da
história, como eu expliquei para vocês, então eles entenderiam imediatamente que nenhum Estado é
um agente. Nenhum Estado é um sujeito da história. O Estado enquanto tal, não tem o poder de
auto-reprodução, como tem, por exemplo, um movimento político.
Nós sabemos que em todo e qualquer regime comunista, o governo nominal, o governo oficial, está
submetido ao partido. Então, acima do governo existe o partido. O partido antecede o regime
criado, antecede a ascensão e queda de cada governo. E ele continua, os governos passam e o
partido continua. O próprio Estado pode cair e o partido continuar. O partido por sua vez, não pode
ser identificado com um nome, ele pode ter milhares de nomes, pouco interessa. Ele pode atuar
também através de dezenas de organizações de fachada, sem que se saiba exatamente quem é o
comando por trás de tudo isso – que é exatamente o que acontece no Brasil de hoje.
Então, quando eu falo “o partido”, eu estou querendo dizer o centro de unidade do movimento
comunista. Esteja ele onde estiver, seja ele visível ou invisível. Ele pode coincidir com, por
exemplo, o nome Partido Comunista do Afeganistão, ou pode ter outro nome qualquer. No EUA, o
movimento comunista começa com um negócio que se chamava Workers Party (Partido dos
Trabalhadores), foi só mais tarde que virou o American Communist Party (Partido Comunista
Americano - ACP). Depois fundaram um segundo partido comunista, que não tinha nome de partido
comunista, tinha o nome de uma variante qualquer que agora me escapa.
Existe sempre um comando do movimento comunista em cada local. Esse comando pode coincidir
com a direção nominal de um partido legal ou pode não coincidir. O partido comunista pode não ter
existência legal nenhuma – o Governo Dutra no Brasil suprimiu o partido comunista, mas ele parou
de existir? Claro que não. Por quê? Faz parte da natureza do partido comunista ter sempre uma
fachada legal e um comando estratégico clandestino. De maneira que a parte clandestina sobrevive
sempre, e é nela que está o padrão de continuidade. O fato é que até hoje, o pessoal fala de guerra
cultural, mas eles não sabem com quem estão brigando.
No Brasil dos últimos anos, tivemos uma condensação de uma quantidade imensa de ódio ao PT.
Mas da onde surgiu o PT? O PT surge de um arranjo entre o Partido Comunista e a Ação Popular
que era outra organização comunista – com a mesma origem do PSDB. Então, houve nos últimos
vinte ou trinta anos uma pluralidade de organizações de fachada sem que soubéssemos exatamente
onde estava o comando. Quando criaram o Foro de São Paulo a coisa se esclareceu um pouco mais,
porque daí sabíamos que as grandes decisões eram tomadas ali – mas não nas assembleias, isso aí o
próprio Lula descreveu claramente dizendo: “as decisões ali são tomadas em encontros entre chefes
de Estado, líderes comunistas importantes, etc., à margem das assembleias”. Isto quer dizer que, o
próprio material que é registrado nas assembleias, as atas que eu mesmo publiquei no Mídia Sem
Máscara, isso já vai fazer mais de 10 anos, não diz tudo. O pessoal que lê as atas vê algumas
decisões tomadas por uma coletividade de representantes, mas por trás havia conversações [00:30]
secretas ou discretas que, de algum modo, essas decisões coletivas traduziam, porém de maneira um
pouco camuflada e atenuada.
Há dois discursos que o Lula fez a respeito. O primeiro no décimo quinto aniversário do Foro de
São Paulo, esses sim são documentos significativos, porque eles mostram a verdadeira atuação do
Foro de São Paulo. Quando ele diz: “nós colocamos o companheiro Chávez, na Presidência da
Venezuela”. Quem é ‘nós’? ‘Nós’ é aquela cúpula que se reuniu no Foro de São Paulo à margem da
assembleia, não que fosse totalmente secreto, pois o pessoal da assembleia poderia saber disso –
nada é mais característico do que a solidariedade dos agentes menores com os segredos dos agentes
maiores, isso aí é constante.
A necessidade de manter certas decisões ou certas ações em segredo é uma coisa que todo
comunista introjeta no coração desde o início. Por exemplo, o sujeito está em perigo, o inimigo
pode atacar ele, pode o pressionar para que ele conte tudo e ele tem de estar preparado para enganá-
lo de algum modo. Eu me lembro de quando eu participava disso: eu passava o dia inteiro
inventando enredos fictícios para no caso de eu ser preso. Eu nunca fui preso. Uma vez eu fui
interrogado durante 6 horas, e acharam que eu era um tipo insignificante – e era mesmo – e me
mandaram embora. Mas preso, assim de ficar na cadeia, eu nunca fui. Contudo, caso acontecesse
d’eu ser interrogado ou até mesmo de me baterem, bom, eu tinha tantos enredos tão maravilhosos
que os caras levariam anos para destrinchar tudo aquilo. O que eu fazia os outros caras também
faziam, talvez com menos imaginação, mas naquela situação era instintivo elaborar certas coisas.
A coisa mais urgente é uma sociologia do movimento comunista – que ninguém fez no mundo.
Então, de fato não se sabe quem é o inimigo, e até hoje os estudiosos da área se fixam no governo
da Rússia, no governo da China, no governo de Cuba, no serviço secreto de Cuba, mas isto está
errado, uma vez que nada disso existiria se não existisse o movimento. Quem pegou a coisa muito
bem foi o Dostoiévski. Ele mostrava que os camaradas se referiam a tudo isso como “O
Movimento”, isto é, o movimento dos movimentos. É um movimento no seguinte sentido: primeiro,
ele não para, ele não se estabiliza em parte alguma, ele está sempre em movimento; e segundo, o
movimento é o padrão de unidade por trás do conjunto, não é um governo, não é uma entidade, não
é sequer um partido – no sentido oficial da coisa.
Quer dizer, ninguém no ocidente jamais teve a menor condição de reagir à guerra cultural, pois
sequer sabem contra quem estão lutando. Portanto, [não há guerra cultural]. Na guerra cultural, os
dois lados atacam. Existiram algumas iniciativas do governo americano de minar os governos
comunistas, através da Rádio Europa Livre, ou financiando movimentos clandestinos, etc., mas
eram iniciativas de um governo contra outro governo, nunca contra o movimento comunista como
tal. Enquanto eles estão solapando o governo comunista na Polônia, os comunistas estão enchendo
de agentes todas as universidades americanas e fazendo o que querem. Porque pelo padrão da
democracia eles não podem discriminar ideologicamente as pessoas, ou seja, só podem atacá-los se
eles forem agentes de um governo inimigo ou de um governo que está professando derrubar o
regime americano. Então, desde logo, a guerra cultural é proibida em todos os países ocidentais,
eles não podem empreendê-la, enquanto o outro lado vive só para fazê-la. Estão entendendo a
diferença?
Isto quer dizer que, decorridos quase 170 anos da fundação do movimento comunista, que é de
1848, ainda não existe uma sociologia do movimento comunista, não existe um perfil do
movimento comunista e, portanto, não se sabe quem é o agente da guerra cultural. Isto me lembra
um conhecido meu, que era boxeador profissional, e que um dia levaram ele num terreiro de
macumba e chamaram os exus para bater nele. “Eu levei porrada de tudo quanto é lado e não via
ninguém” – ele disse. Então, a situação do ocidente, de todos os países ocidentais dentro da guerra
cultural, é esta: estão levando pancada de tudo quanto é lado e não sabem de onde vem.
Bom, eu acho que com essa informação já basta para vocês entenderem que tudo que se fala sobre
guerra cultural em geral é bobagem, porque não se começou a fazer o serviço ainda. Então, o
primeiro capítulo é esta descrição do movimento comunista internacional, com todas as suas
variantes locais, articuladas de algum modo, sendo que o padrão de articulação muda com o tempo.
Por exemplo, existe o famoso relatório da Rand Corporation feito nos anos oitenta, baseado no
esquema da Guerrilha de Chiapas, no México, que dizia o seguinte: cada vez que ela tinha uma
derrota militar, ela tinha em seguida uma vitória política imensa. E, tudo graças ao apoio
internacional imediato através das redes de comunicações estabelecidas pela internet. Hoje em dia
nós já podemos dizer que a internet é, em grande parte, o padrão de unidade por trás de tudo isso.
Mas, o fato de se usar a internet não significa que só por esse fator se possa entender a resposta da
seguinte pergunta: por que as pessoas obedecem a esses comandos, que são passados indiretamente
através da internet?
Um exemplo característico são os atentados à bomba feitos na estação rodoviária da Espanha, que
matou um bando de gente, e em 24hrs depois estava na rua um tremendo movimento popular. E
contra o quê? Contra os terroristas? Não. Contra o governo. Que mágica é essa? O sujeito acaba de
cometer um crime, e no dia seguinte está todo mundo na rua contra ele? Não. Contra o inimigo dele.
Como seria possível ter organizado tudo isso com antecedência? Não seria. Não organizaram. Foi
apenas o sinal passado pela internet, mas esse sinal já cai sobre um meio cultural já totalmente
unificado, organizado, com padrão de conduta, com padrão de sentimentos, com padrão de
percepções, já moldado por décadas e décadas de formação. A partir daí então é só dar o sinal que
já se sabe como milhares de pessoas irão reagir – isto não se obteve à toa.
Às vezes vemos pessoas liberais ou conservadores se perguntando o porquê de as pessoas aderirem
a essa porcaria, se todos nós sabemos que a economia comunista não funciona, que os regimes
comunistas são genocidas, são tiranias etc. – eles acham que isso é irracional. Não, não é irracional.
Esse movimento dá as pessoas uma possibilidade de representar a sociedade como um todo, coisa
que os outros não dão. Só existe um desenho da sociedade como um todo, é o desenho baseado no
modelo das classes sociais criado por Balzac, recoberto, por assim dizer, de um verniz científico por
Karl Marx – é apenas um “verniz científico” evidentemente, pois a descrição não é científica de
maneira alguma, mas ela é integral e isso que é importante. Ter uma representação imaginativa
integral é melhor do que ter representações científicas de milhares de partes inconexas.
Leibniz dizia que o sujeito que tivesse visto mais figurinhas, ainda que totalmente fictícias, saberia
mais do que os outros, porque ele completa a imaginação dele. Do mesmo modo, quando aparece a
teoria da evolução de Charles Darwin – sabemos que essa teoria não está provada até hoje, não tem
provas nem a favor e nem contra, a discussão ainda continua. Mas, por que ela funciona? Por que
ela convence tantas pessoas? Porque ela dá uma imagem integral do reino animal em todas as suas
interconexões. Então, evidentemente ela é uma ficção imaginativa em primeiro lugar, e essa ficção
imaginativa pode ter uma validade científica ou não, uma vez que ela pode ter partes
correspondentes e pode ser que lhe falte partes científicas. Entretanto ela é a única visão. Que outra
vocês têm?
A capacidade de criar esses grandes esquemas unificantes dá a qualquer um uma vantagem imensa.
Por exemplo, se eu estou em um confronto psicológico com o indivíduo, e eu tenho a visão da
personalidade dele inteira – não precisa ser perfeita, mas é inteira – e o sujeito só sabe detalhes a
meu respeito. Quem vai ganhar? Eu. Aliás, isso acontece com todo esse pessoal que quer destruir o
Olavo de Carvalho. Cada um ataca um pedacinho, mas eu pego a personalidade inteira do cara –
isso aí eu tenho comprovado insistentemente, quer dizer, “eu entendo a sua psique, você não
entende a minha”.
Então, o primeiro passo é entender que o sujeito da guerra cultural – não é o governo soviético, nem
o governo russo, nem o governo chinês, nem o partido comunista de Cuba. É um negócio chamado
de movimento comunista, e esse movimento tem que ser apreendido na sua unidade. E qual é o
padrão de unidade dele? É econômico? Não. Isso quer dizer que o próprio modelo marxista, ou
balzaquiano, não serve para descrever essa realidade fundamental do movimento comunista. É
claro, que podemos tentar descrevê-lo dentro do esquema balzaquiano-marxista. Podemos colocar
alguns agentes comunistas como personagens e ter uma visão do movimento comunista tal como ele
aparece dentro da sua sociedade descrita, por sua vez, pelo próprio padrão marxista. No entanto,
esse desenho será obviamente insuficiente.
Por exemplo, vejam o romance do Joseph Conrad, Under Western Eyes (Sob Os Olhos do
Ocidente). O cenário é a Inglaterra e dentro dela existe um movimento comunista, uma série de
agentes estrangeiros trabalhando nele – como também aparece na obra The Secret Share (O
Passageiro Secreto). Então, estamos vendo um agente comunista dentro de uma sociedade que, por
sua vez, nós mesmos representamos segundo o esquema marxista das classes sociais. Logo, nós não
estamos entendendo o que o fenômeno tem de específico. Porque se existe o movimento comunista
internacional, se ele tem mais amplitude de ação e mais poder do que muitos governos, então é
porque existe um outro padrão de unidade, que não é aquele que Balzac e Marx viram na sociedade.
Supondo que a sociedade esteja estruturada exatamente como Balzac e Marx viram. Temos a
diferença entre todas as classes sociais, e todas as relações humanas estão de algum modo
vinculadas àquilo. Bom, em primeiro lugar, estar vinculadas àquilo não significa que sejam
causadas por isso, isto é, a conduta de um cidadão sempre tem algo a ver com a estrutura econômica
da sociedade, mas não quer dizer que seja determinada por ela. Os próprios marxistas não sabem
onde termina uma coisa e onde começa outra. Marx dizia que em qualquer situação o fator
econômico será decisivo em última instância, existem muitas instâncias antes da última. O próprio
marxismo não ousa afirmar que a economia é o motor da história, ela passa a ser o motor em última
instância, em certos casos. Mas, o importante aqui é que nós não estamos vendo a descrição
marxista da sociedade como uma explicação causal, mas como um modelo integrativo – a
explicação causal os próprios marxistas não chegaram a conclusão até hoje. Mesmo que nós
tenhamos explicações causais melhores, elas serão sempre parciais. Nós não temos uma imagem
total, nem da nossa sociedade, muito menos do movimento comunista, isso aí é geral.
Vejam, por exemplo, o livro A Elite do Poder, do Charles Mills, que era um sociólogo esquerdista
americano dos anos sessenta. Ele tentou fazer uma descrição, não da sociedade americana como um
todo, mas das classes mandantes. Ele viu, evidentemente, que o critério econômico não bastava,
pois havia muitas fontes de poder. Por exemplo, o fato de várias pessoas frequentarem o mesmo
clube, de vários homens importantes terem ido para cama com as mesmas prostitutas, ou seja, tudo
isto importava. Bom, hoje em dia essa descrição já está ultrapassada, mas ela ficou como um
clássico.
Existe alguma descrição similar da sociedade americana como um todo? Não. Eu acho que hoje isso
é quase impossível. Como o sujeito vai articular dentro de um mesmo desenho social, por exemplo,
um pastor protestante do interior, superconservador, moralista, etc., com o homem do movimento
pró-drogas, ou um líder do movimento gayzista, ou qualquer outro adepto da Hillary Clinton? Qual
é a articulação entre eles? Só existe o antagonismo. Mas, como é possível que eles sejam “produtos”
da mesma sociedade? Qual é o padrão de articulação dinâmica e conflitiva que existe ali dentro
exatamente? Ninguém sabe. Até hoje, só promotores da guerra cultural é quem têm uma imagem
completa das sociedades e culturas que eles pretendem atacar. O outro lado não tem nem de si
mesmo, nem do inimigo.
Sendo assim, as regras do Sun Tzu foram todas para o brejo – “conheça teu inimigo” e “conheça-te
a ti mesmo” –, não conhecemos a nós mesmos e não sabemos quem é o inimigo. Isso ainda está
assim depois de investido bilhões e bilhões de dólares, na CIA, na Agência de Segurança Nacional,
e em todos os serviços secretos do ocidente. Por que acontece isso? Porque em todas essas áreas os
estudos são feitos de maneira especializada. O sujeito que vai estudar para ser analista estratégico,
ele estuda só aquilo.
Agora mesmo eu estava vendo uma entrevista do Peter Pry no programa do Allan dos Santos, o
Update Brazil. O sujeito sabe tudo sobe defesa estratégica. Mas, o quê que é um intelectual
marxista? Um intelectual marxista não é um homem especializado, ele é um humanista no sentido
antigo, ele conhece literatura, poesia, história, filosofia, economia etc. Pode se dizer que ele não
conhece nenhuma dessas perfeitamente, mas ele sabe o padrão de unidade, porque esse padrão, para
o marxismo, é a busca dessa unidade. Georg Lukács tem razão quando ele diz que o conceito
fundamental do marxismo é o conceito de totalidade, quando se escapa da função da totalidade se
passa para o mundo da abstração, não se está mais no mundo real.
Então, ou nós aprendemos a fazer uma descrição do movimento comunista e de todos os seus
aliados – incluindo o Islam atualmente – com uma visão abrangente e totalitária, e sabemos o quê
que une essas pessoas, e como elas interagem, ou, nós nunca vamos poder reagir à guerra cultural
nenhuma. Como eu mesmo já disse outro dia no Facebook: “Não existe guerra cultural. Existe surra
cultural, um lado só bate e o outro só apanha”.
Se perguntarem: qual foi a grande influência das potências ocidentais na queda da URSS? Foi
mínima. A URSS caiu por que tinha que cair. Ela chegou a contradições internas que não dava mais
para segurar e pronto, os caras desistiram. Do mesmo modo, se perguntarem como caiu a ditadura
militar no Brasil? Os milicos fizeram as contas e deram o melhor jeito de ir para a casa e pronto,
não estava dando certo. Não foi ninguém que os derrubou. O único movimento que tem realmente a
capacidade de quebrar a estrutura de outra sociedade é o movimento comunista, ainda. É claro, que
ele passa por várias etapas historicamente. Essas etapas, seriam, teoricamente, o assunto desta aula,
mas eu achei que esse esclarecimento era mais importante.
Então, a guerra cultural passa por várias etapas, porém quando ela começa, já nos anos trinta, ela já
começa com a consciência de que as pessoas que têm de ser conquistadas são os intelectuais. É
claro, que existe também um esforço para, por exemplo, ganhar agentes do serviço secreto
contrário, se infiltrar em vários organismos, empreender medidas ativas, atuar com agentes de
influência, existe tudo isso. Mas, em primeiríssimo lugar, são os intelectuais. Por quê? O quê que é
um intelectual? É um sujeito que pensa mais e melhor do que os outros e, portanto, o que quer que
os outros pensem será uma adaptação, uma cópia do que eles pensaram antes.
Não adianta conquistar agentes de propaganda. O que é um redator de propaganda? É um subscritor
fracassado. Às vezes é um escritor de verdade – houve bons escritores que foram redatores de
propaganda –, mas no geral são pessoas que queriam ser escritores, invejam tremendamente os
escritores e tentam imitá-los. Isso quer dizer que, a redação de propaganda inteira não passa de uma
cópia malfeita do que já está dado na literatura. Então, para quê ter de mexer na cabeça dos
redatores de publicidade um por um, sendo que se mexer num escritor já se influenciou todos eles
ao mesmo tempo? Essa é uma coisa que nenhum serviço de inteligência ocidental entendeu até
hoje: um único escritor pode fazer mais estrago do que um serviço de inteligência inteiro.
Vejam, por exemplo, o mal que o Soljenítsin fez ao governo soviético. Nada se compara. Agora,
qual é o segredo do Soljenítsin? E do Aleksandr Zinovyev? Que eu acho que este influenciou muito
o Soljenítsin de algum modo. Qual é o segredo deles? É esta ideia da imagem integral. O Zinovyev
era um professor de lógica matemática com um tremendo talento literário, e ele viu que para
descrever a sociedade soviética, ele teria de criar outra lógica, que era uma lógica paradoxal. Então
ele escreveu um livro na qual a tradução aproximada é As Alturas Abissais (The Yawning Heights),
que pelo título o sujeito já se pergunta: se é abissal, como é que pode ter altura? E o livro inteiro é
escrito nessa lógica, isto é, segundo a linguagem dessa lógica. E com isso ele consegue dar uma
ideia da sociedade soviética – mas só da sociedade soviética; ele não está falando do movimento
comunista como um todo; na verdade ele não conhecia nada, ele nunca saiu da URSS, nem poderia
sair. Então, o Soljenítsin e o Zinovyev fornecem uma espécie de imagem integral da sociedade que
pode ser aproveitada como um modelo para descrição do movimento comunista como um todo, a
sociologia do movimento comunista.
Todavia, em geral nós tropeçamos no seguinte obstáculo: o inimigo do comunismo, os liberais, os
conservadores, etc., acreditam que o comunismo em primeiro lugar é uma ideologia. Essa semana a
revista Veja publicou uma entrevista com Eric Cantor – que é, teoricamente, um sujeito da direita
americana, um membro do Partido Republicano, mas que aqui todo mundo sabe que ele é um
traidor, que ele trabalha para o Obama –, e a Veja, ou de burrice ou de sacanagem, escolheu
justamente esse cara para fazer a entrevista para que ele mesmo analisasse o avanço da direita. A
entrevista começa assim – tem antes um editorial, uma carta ao leitor, e em seguida diz:
“Quando se olha o mundo através da lente de uma ideologia, o mundo que se vê é necessariamente
um reflexo alterado pela própria lente ideológica.”

Ou seja, a revista Veja está acima das ideologias, porque ela vê a realidade, ela não tem ideologia
nenhuma. E, é claro, que se considerarmos que o movimento comunista se define sobretudo por
uma ideologia, então podemos achar que ele todo é uma série de ações empreendidas em função de
uma concepção falsa da realidade. Mas, se é falsa, como é que tem tanta eficiência? Desde logo,
temos que entender que o próprio Karl Marx considerava que ‘ideologia’ é um vestido de ideias
colocado em cima de um conjunto de interesses e ações reais. Portanto, ‘ideologia’ é um pretexto. É
o que eu chamo de discurso pretextual. Pois ele não expressa os que as pessoas vão fazer de
verdade, ele é a explicação que o agente oferece, ou aos seus adeptos, ou aos seus inimigos, como
uma espécie de “carteira de identidade”, que diz a ele quem é o próprio agente.
Nós só entenderemos o movimento comunista quando entendermos que ele não tem nada a ver com
suas respectivas ideologias. Ele troca de ideologia como nós trocamos de cuecas. A ideologia
concebida pelo próprio Karl Marx, cujo resumo está no Manifesto Comunista, fornece o modelo
condensado da sociedade como luta de classes, mas esse modelo foi mudado muitas vezes. O que
interessa à luta de classes, já que o agente da revolução é o proletariado, por que Stalin nos anos
trinta avisou o partido americano que esquecessem o proletariado, que conquistassem as cabeça dos
socialites, dos formadores de opinião, dos intelectuais e de todas as pessoas importantes? Ele
esperava que essas pessoas fizessem a revolução? Evidente que sim. Esses eram os agentes. O
proletariado era o quê? O pretexto, o enfeite ideológico da ação inteira. Entre ideologia e estratégia
existe uma série de mediações e de sutis alterações que tem que ser estudada em cada caso.
Só por isto que eu estou lhes dizendo, que vocês podem avaliar como é tosco o exame que liberais e
conservadores, em geral, fazem do comunismo. Muitos achando que isto é uma ideologia superada,
ou entendem até o comunismo como um modelo econômico – como aquela besta do Marco Antonio
Villa dizendo que o Lula não pode ser comunista por ele não pregar estatização dos meios de
produção; Lenin também não pregava.
Então, vamos começar como uma definição do movimento comunista. É um movimento mundial
que alega como objetivo, como pretexto, como justificativa, a criação de um certo tipo de
sociedade, mas que ele não a descreve, pelo menos não em detalhes. Nesse sentido, o movimento
explica que a criação dessa sociedade encontra resistências terríveis e que essas têm de ser
removidas antes, durante e depois da tomada do poder. Mas, tomada do poder onde? Só tem uma
resposta: no mundo inteiro. Pois se eles tomam o poder num país, eles terão resistência externa.
Por exemplo, existe um famoso livro chamado A Grande Conspiração, de Michael Sayers e Albert
Kahn. A história retrata a conspiração das potências ocidentais para derrubar o recém-nascido
regime soviético. Hoje, após ter lido outras coisas, eu sei que aquela narrativa era imensamente
exagerada, que as potências ocidentais praticamente não fizeram nada além de boicotarem-se umas
às outras e boicotar a própria resistência antissoviética. Mas, ali ele traça um panorama de um país
cercado de inimigos. Então, como podemos construir o socialismo na URSS se o mundo inteiro está
contra nós? Evidente, nós precisamos destruir o mundo inteiro.
Portanto, isto é fundamental no movimento comunista: “nós só faremos a sociedade que estamos
propondo, da qual nós temos uma ideia muito vaga e não precisamos entrar em detalhes, quando
tivermos o poder total sobre o mundo inteiro” – eles pensam. Então, qual é o esforço permanente do
Movimento Comunista? Criar uma nova sociedade? Não. Pois não adianta criar uma nova
sociedade porque daí vem o inimigo externo e acaba com ela. Então, a constante do movimento
comunista é a luta pelo poder total [01:00] sobre a humanidade.
Qual é o primeiro projeto de governo global que se fez? Foi o da URSS. A ideia de governo global
é inerente ao comunismo. No entanto, isto não quer dizer que isso seja uma ideologia para eles, eles
não defendem isso como ideologia. Ao contrário, vocês verão ao longo das épocas o movimento
comunista pregando ideias nacionalistas, onde o nacionalismo represente um obstáculo ao
imperialismo americano, imperialismo britânico, ou qualquer coisa assim. Eles fomentaram o
movimento nacionalista em toda parte. Mas se eles são internacionalistas como é que fomentam
nacionalismo? Eles não são internacionalistas no sentido de um valor – isto é muito importante –, a
ideia de valor não existe para o comunista.
Por exemplo, é como se juízos de fato e juízos de valor fossem coisas distintas – quem disseminou
essa concepção no mundo ocidental foi o Kant –, até certo ponto, tecnicamente falando, essa
distinção é válida. Porém, no mundo ocidental acredita-se que o sujeito pode ter um ideal, sendo
que esse ideal só existe na sua imaginação, e que em seguida ele precisa aplicá-lo na realidade. Hoje
em dia é muito comum aparecerem alguns camaradas dizendo: o comunismo traiu seus ideais. Mas
ora, o comunismo nunca teve ideais, a distinção entre real e ideal é característica do pensamento
burguês, especialmente com Kant. Então, o sujeito distinguir entre o seu ideal e a sua situação real,
e se perguntar como se faz para transformar esse ideal em realidade, isso é o modus operandi típico
da técnica e da indústria. Isto é, eles concebem um produto que não existe ainda, que só existe em
suas mentes, em seguida eles vão praticar uma série de ações destinadas a transformar o ideal no
real.
Ora, se o comunismo fosse um ideal, os comunistas teriam gastado muito tempo e muito papel
descrevendo a sociedade comunista ideal. Mas, não se encontra isso em parte alguma. Eles nunca
perderam tempo com isso. Karl Marx não escreveu trinta linhas sobre como seria a sociedade
comunista. Trótski escreveu mais um pouco, mas fez besteira, pois a descrição era ridícula, para ele
na nova sociedade comunista cada varredor de rua seria um novo Michelangelo, um novo Leonardo
Da Vinci. Portanto, quanto mais eles descrevem a sociedade futura, mais eles caem no ridículo,
então decidiram que era melhor não falar disso. “Nós nos limitamos ao trabalho do negativo, da
destruição da presente sociedade, porque no curso desse processo, da práxis, o movimento
autodefinirá os seus objetivos e redefinirá e mudará mil vezes.” – eles pensam.
Ou seja, o movimento comunista é infinitamente plástico e mutável. Porque ele se autodefine no
curso da práxis. Ele não é um ideal a ser realizado. Ele é uma meta que desde o início é declarado
inevitável, portanto não é um ideal. “O mundo irá para o socialismo de qualquer maneira, seja por
esta ou aquela via, todas as vias servem” – eles dizem. O socialismo não é um ideal, ele é uma
culminação inexorável do próprio processo histórico. É a mesma coisa que esperar que um garoto
de três anos cresça e vire um adulto. Que [essa espera pelo] crescimento seja um ideal. Isto é, que o
pai diga: “tenho o ideal de que meu filho vai crescer”. Negativo. Seu filho vai crescer de qualquer
jeito. O comunista pensa assim: isso vai acontecer de qualquer maneira, portanto isso não é um
ideal; é a própria mecânica interna do processo que nos levará a isso. E eles podem apressá-lo ou
desacelerá-lo, mas no fim das contas não fará grande diferença, pois ou será por um meio ou será
por outro.
Se o objetivo é declarado como inevitável e ao qual se chegará por quaisquer meios, então, também
significa que o comunismo irá usar quaisquer meios, inclusive, quando necessário, a prática do
capitalismo. Por quê? Porque essa transformação do mundo, de capitalista em socialista, não se dará
de uma maneira linear, mas através de conflitos inerentes a própria sociedade capitalista, ou ‘as
contradições’, como os marxistas chamam. Isso quer dizer que, em certos momentos a pura prática
do capitalismo, até mesmo do capitalismo liberal no seu sentido mais ortodoxo possível, pode ser
útil aos comunistas.
Por exemplo, a respeito de sujeitos que acreditam que a liberdade de mercado resolve todos os
problemas. No começo dos anos noventa, houve muito debate se seria decente os investidores
americanos botarem dinheiro na China, já que lá era um regime tirânico, genocida, etc., e a
conclusão foi que sim. Que deveriam investir, pois a liberalização da economia traria,
necessariamente, a liberalização do resto. Isso é um raciocínio pseudo-marxista, de que a economia
determina o resto. Os marxistas não dizem que a economia determina o resto, dizem que ela
determina em última instância. Ou seja, em linhas gerais, veremos que o percurso da história foi no
sentido da luta de classes e do seu desenvolvimento, mas isto não quer dizer que todos os passos da
coisa sejam determinados pela economia. Ao contrário, não são. Stálin sabia disso perfeitamente
bem. O sujeito que acredita que a liberalização da economia liberalizará o regime, ele está
raciocinando segundo uma caricatura de marxismo que tem na cabeça dele e com isso estará
ajudando o movimento comunista internacional.
Outro dia eu coloquei uma frase de Hegel, que apesar de ser meio “171”, era um grande filósofo,
duma habilidade técnica fora do comum. Ele fez uma crítica devastadora à noção de liberdade de
Kant, a de que esta era algo que saía da própria razão. A liberdade como puro exercício da razão,
não pode levar em conta valores do mundo real, porque a razão não é determinada pelo mundo
natural, a razão é independente. Então, diz o Hegel: “a pura liberdade de escolha considerada fora
de um contexto de valores, é apenas uma abstração nula e vazia, não há entre o quê escolher”. Por
exemplo, se o sujeito disser assim: “no mercado as pessoas fazem as suas escolhas, e essas escolhas
determinarão o que faz e o que não faz sucesso”. Sim, mas em função do quê elas escolhem? E se
elas decidirem escolher o socialismo? Se as escolhas são arbitrárias, não há uma escala de valores
que seja inerente ao capitalismo. O capitalismo apenas assegura a liberdade de mercado, portanto a
liberdade de escolha, portanto qualquer um pode escolher qualquer coisa, e todas as escolhas devem
ser livres.
Vejam, tem muita gente que diz isso, gente que acredita piamente nisso, como o movimento liberal,
movimento libertaire etc. Mas, Hegel em 1810 já tinha demolido essa coisa, e diz ainda: “essa
liberdade abstrata levará necessariamente a destruição e somente a destruição” – olhem que coisa
profética.
Hoje o sujeito tem a liberdade de escolher a que sexo ele pertence: outro dia eu vi um vídeo
espetacular de uma mocinha canadense, loirinha, bonitinha, em que ela chega num consultório
médico e diz: “olha, eu me identifico com o sexo masculino, portanto eu quero um atestado médico
de que eu deva ser considerada homem”. O médico, intimidado pelo politicamente correto, fica com
medo de não dar o atestado, e acaba o dando a ela. Com aquele atestado ela vai até a polícia, na
verdade um lugar onde se retira carteira de motorista no Canadá, e pede uma licença, uma carteira
de identidade, porém ela avisa ao agente que ela é homem, e exibe o atestado. Daí o funcionário se
espanta, mas entrega a carteira de identidade de homem a ela. Com esses dois documentos ela tira
todos os demais documentos, e ela passa a ser outra pessoa. E ela diz o seguinte: “basta isso para
acabar com todo o padrão de honestidade nas relações humanas na sociedade inteira, porque
qualquer um pode ter outra identidade” – esse experimento é crucial. Ela se chama Lauren
Southern. Ela mostrou como isso funciona, isso é a liberdade abstrata do Kant. A escolha não
depende de uma escala objetiva de valores, a escolha é livre. O sujeito não precisa nem escolher
entre coisas que existem, pode escolher o que não existe, mas que passa a existir porque o sujeito
assim escolheu. Só por esse exemplo, vocês imaginem a tosquice do pensamento liberal – e muitos
conservadores também pensam dessa maneira – em face da complexidade e da organização interna
do movimento comunista. Eles não estão habilitados a lidar com isso.
Então, se pensarmos sobre a fórmula moderna do Estado laico. O que é o Estado laico? É a
liberdade de escolha em matéria de religião. Mas, não se pode definir o que é religião, porque isso
já seria prejulgar uma escolha. Assim, qualquer porcaria que o sujeito chame de religião passa a ser
um direito dele – inclusive tinha aquele livro daquele monge do Paraná, O Culto da Abóbora
Celestial, na qual eles cultuavam uma abóbora, o livro é engraçadíssimo; infelizmente esqueci o
nome do autor, ele era um monge. Ou seja, a liberdade de escolha não precisa ser sequer entre
religiões existentes, pode ser entre inexistentes. Porque se fizerem uma definição de religiões,
separarem o que é religião do que não é, isso já é uma interferência do Estado, pois viola a
liberdade abstrata. Quer dizer que, num instante, com essa simples ideia da liberdade total de
escolha, eles eliminam todo suporte legal à distinção entre religiões autênticas e falsas.
Notem bem, quando falo em religião autêntica e falsa, não estou falando que uma tem uma doutrina
verdadeira e que a outra tem uma falsa. Podemos dizer que a doutrina de uma religião é falsa, mas
não podemos dizer que enquanto religião ela é falsa. Por exemplo, eu discordo do budismo. Eu acho
que as doutrinas do budismo são falsas, mas o budismo é uma religião de verdade. Uma vez o
Almanaque Abril me contratou para fazer um texto sobre as religiões. Eu peguei o texto inicial que
eles me deram e estava lá aquela patacoada de sempre – religião, sistema de crenças etc. Nem me
lembro em que ano que foi isso, mas lembro que foi a única vez em que o Almanaque Abril deu
alguma informação efetiva sobre o que é religião.
As religiões são reconhecíveis por traços objetivos, e o que não tiver esses traços não é uma
religião, de forma alguma. É uma caricatura, é uma sacanagem, é qualquer outra coisa, menos uma
religião. Em primeiro lugar, não existe uma religião sem um sistema metafísico inteiro. Se não
houver isso, não é religião de jeito nenhum, é um simulacro. E esse simulacro deveria ser privado
dos direitos dados às religiões autênticas – quando digo religiões autênticas não quero dizer
religiões verdadeiras, fiquem atentos; isto é a mesma coisa que dizer que um livro é verdadeiro e o
outro falso, porém sendo o falso um pedaço de papel, então como eu poderia dizer que ele é um
livro? Se eu o chamar assim, eu o estou falsificando. Com as religiões a mesma coisa. Umas podem
ser verdadeiras e outras falsas, mas enquanto religiões elas são genuínas ou não.
O desejo de preservar a todo custo a liberdade abstrata resulta na destruição de todas as religiões.
Então, teoricamente a liberdade de religião que o Estado professa proteger é destruída através dele
próprio. Por aí vocês veem o que é a tosquice do pensamento liberal. Eu estou convencido de que
Hegel poderia ser “171” o quanto fosse, mas era um gênio assombroso da filosofia. Schelling era
muito maior, mas Hegel também era. Mas, eu estou convencido de que Kant era burro. Ele nunca
foi um grande filósofo. Os erros de Kant na avaliação de coisas concretas são tão monstruosos, que
parece que esse homem tem doze anos de idade. Ele era um menino prodígio apenas, nunca o
deixou de ser. E, grande parte do pensamento das democracias atuais provêm de Kant. Muitas
pessoas acham que Kant é uma alternativa ao marxismo, mas o marxismo engole Kant com a maior
facilidade. O marxismo entende o Kant e o destrói desde dentro – o Hegel já fez isso para eles.
Palavra final deste curso: eu lembro que coloquei em um artigo na internet, “Estudar antes de falar”,
um roteiro de estudos marxistas. Esse não é um roteiro sobre a ideologia marxista. Ele abrange
todas as faixas de existência do movimento comunista, desde as suas análises da história, da
sociedade, das análises filosóficas de Marx, etc., até a experiência humana singular de viver dentro
de uma sociedade e de um movimento comunista. Se vocês pegarem, por exemplo, a Ideologia
Alemã, de Karl Marx. Aí vocês estarão voando na grande esfera dos conceitos filosóficos marxistas
etc. Depois, vocês leem as Memórias de Nadezhda Mandelstam, Hope Against Hope. Que é a
miséria indescritível de viver numa sociedade comunista. E, depois vocês leiam o livro de
Whittaker Chambers, Witness. Que é um americano, que vive numa sociedade liberal próspera, e
era um agente secreto do movimento comunista. Não um espião, mas um agente secreto, numa
época em que a América pululava cheia de outros agentes como ele. Vejam essas três dimensões:
tudo isso é o movimento comunista, há uma conexão entre eles. Se vocês não pegarem essa
conexão, esse padrão de unidade, entre as ideias abstratas, o discurso ideológico, a vivência efetiva
de seus agentes, e também das suas vítimas, vocês não estarão entendendo o que é o movimento
comunista.
Vejam, eu não tenho o menor talento de romancista. Aliás, eu nunca pensei em ser um romancista.
Eu pensava em escrever as coisas que estou escrevendo agora, então, eu estou muito satisfeito. É
aquele negócio do Alfred De Vigny: “uma grande vida é um sonho de juventude realizado na idade
madura”. Bom, eu não realizei tudo, mas estou realizando exatamente o que eu planejava realizar –
este curso inclusive. Assim sendo, se não começar a surgir grandes talentos romancistas, nós não
vamos obter essa visão integral. Com relação ao Brasil, por exemplo, o romance do Antônio
Callado, Quarup, quase dá uma noção da inteireza do movimento comunista do Brasil, quase. Mas
ainda não tem Ninguém fez isso. Nem do movimento comunista no Brasil, quanto mais em escala
mundial. Alguns romances brasileiros tem um pouco dessa amplitude. A obra do José Geraldo
Vieira tem, mas ele não estava interessado no movimento comunista. Ele estava interessado na
sociedade em geral, e por isso ele consegue juntar [essas dimensões]. Tem um romance dele em
que um menino, chamado Jaiminho, foge de sua casa no interior e vai pra São Paulo. E, ele deixa
para a mãe o seguinte recado: “mamãe, fugi para São Paulo, eu sinto em mim o borbulhar do
gênio”. Então, o quê que é? É um pequeno Lucien de Rubempré. Que vai para a cidade tentar
conquistá-la, e lá ele faz amizade com um coitado preto e um marinheiro inglês. E, o José Geraldo
consegue juntar esses três e contar as aventuras deles. Observem, esse é um grande esforço para
juntar pedaços da sociedade que normalmente estão totalmente desconectados. Toda a literatura
brasileira é muito focada em aspectos da sociedade: a vida da classe média, o proletário, uma cidade
de interior, ou políticos mineiros (no romance do Ciro dos Anjos, Montanha), e não se tem esse
senso panorâmico, vidas humanas que se entrelaçam, que aparentemente não tem nada a ver uma
com a outra. Quer dizer, eu acho que esse menino circulando com um preto e um marinheiro inglês
na rua, é um exemplo que pode nos inspirar para o tipo de literatura que nós precisamos, e sem a
qual não conseguiremos empreender guerra cultural nenhuma. Nós estamos cercados por um
inimigo poderosíssimo, onipresente, e que tem a visão integral da nossa sociedade – não precisa ser
uma visão científica, ela pode ser uma visão totalmente imaginativa, como de fato é – e nós não
temos nenhuma visão imaginativa dele. E por isso continuamos perdendo.
O que eu disse na última aula é fundamental: a guerra cultural começa na literatura, não começa em
outro lugar. Não pensem em propaganda, isso é só um subproduto da literatura, nada mais do que
isso. A vida política é um reflexo ainda mais longínquo – Hugo von Hofmannsthal disse: “nada está
na política de um país que não esteja primeiro na sua literatura” –, o prazo de passagem de uma
coisa para a outra pode ser de cinquenta anos. Mas, tem aqueles que dizem: “precisamos fazer
alguma coisa agora”. Sim, precisamos fazer alguma coisa agora: precisamos começar a fazer isso
para ficar pronto daqui cinquenta anos. Se não começar agora, vai ser em cinquenta e um, cinquenta
e dois, e assim por diante.
Ou seja, a guerra cultural não começou ainda. Só existe a surra cultural.
Hoje eu recebi duma jornalista polonesa, Ana [Algumacoisa], uma série de perguntas. Dentre as
quais, se a derrota do PT em sessenta cidades não representava o fim da hegemonia esquerdista no
Brasil. Mas nem de longe. Eles tinham a hegemonia antes de conquistar os cargos, e conquistaram
os cargos porque tinham a hegemonia. Eles perderam o cargo, mas assim, é como a águia que perde
o bico. Ela perde o bico, mas sobe a montanha e fica lá quietinha até crescer outro bico. Ela está
viva ainda. Outro exemplo, a cobra. Acabou o veneno dela. O que ela faz? Ela se esconde até
aparecer mais veneno. Ou seja, houve este recuo. Ouvi até boatos de que o PT está querendo
expulsar o Lula – eles fariam isso, eu não tenho a menor dúvida. Eles expulsariam até suas próprias
mães, se fosse preciso. Não seria a primeira vez que eles sacrificariam sua liderança. E para quê?
Para a cobra mudar de pele de novo. E não é só de pele que ela muda, ela muda até o seu organismo
interno. Este poder proteico do movimento comunista, que pode adotar todos os discursos, todas as
políticas, etc., mas que não perde sua unidade, vem do quê? Essa unidade é do tipo imaginativo. E
essa unidade do tipo imaginativo, sedimenta uma cultura. Por exemplo, uma cultura indígena. Ela
toda se baseia em quê? De onde vem a unidade de uma cultura indígena? Vem de uma narrativa
sobre as origens celestes da tribo. Leiam o livro de Hélène Clastres, Terra sem Mal. Ali se tem o
mito fundador de uma sociedade indígena. É esse mito fundador que assegura a unidade toda. E o
que é essa unidade? É do tipo imaginativo. Essa história da origem da tribo não é verdadeira no
sentido histórico ou físico, mas é o padrão de unidade da comunidade. O padrão de unidade do
movimento comunista é o desenho imaginativo do seu inimigo e, portanto, da função e do destino
histórico do próprio movimento comunista no decorrer da história.
Portanto, por onde temos de começar a atacá-lo? Nesse ponto. Mas, não é falando mal da sua
descrição imaginativa. Isso todo mundo já falou. É aquele negócio do Nietzsche: “só se vence
aquilo que se substitui” – e vocês não têm outra visão. E não adianta vocês quererem criar esta outra
visão na sociologia, na economia, etc., porque isto não tem o sedimento imaginativo necessário. Por
exemplo, existem milhares de alternativas à sociologia marxista: Weber, Durkheim, e tantos outros.
Mas são teorias científicas. Elas não têm esse poder unificante sobre a conduta humana. Vejam, o
quê que fundamenta as religiões? Não é uma narrativa? Ou alguma religião começa com um tratado
de teologia? Começa com um tratado de direito canônico? Não. Começa com uma narrativa. A
narrativa pode ser verdadeira ou imaginada, não importa, ela vai funcionar do mesmo modo. Então,
as origens da tribo da terra sem mal, é totalmente imaginativa. Mas, a história de Nosso Senhor
Jesus Cristo é verdadeira, aconteceu mesmo. O que funciona não é a verdade da narrativa histórica,
mas o simples fato de ela ser uma narrativa. Se não tivessem contado nada, não teria cristianismo
nenhum. O que é o Evangelho? É a narrativa do nascimento, vida, paixão, morte e ressurreição de
Nosso Senhor Jesus Cristo. Do mesmo modo, como começa o islam? É com um tratado de
teologia? Também não. É uma narrativa dos vinte e oito anos da aventura do profeta Maomé,
recebendo as revelações do Arcanjo Gabriel, fazendo guerras etc. Como começa o budismo? Não é
a história da vida do Buda? Então. Daí por diante. Todas as religiões que existem começam com
uma narrativa. Religiões são agentes históricos poderosos. E são poderosos por quê? Porque têm
essa unidade imaginativa no começo.
Notem bem, a guerra cultural é uma luta entre esquemas imaginários. E, a única vantagem do
movimento comunista é essa: ele tem esse esquema imaginário. É enormemente complexo e
abrangente e, pior, é o único que existe. Não há outra mitologia igual. Portanto, enquanto não tiver,
nós vamos perder. A primeira coisa que um movimento anticomunista tem de produzir é esta
imagem, este padrão imaginativo, esta “imagem de fantasia” sobre o próprio movimento comunista,
e que o apreenda em sua unidade de tal modo que, essa unidade explique a sua diversidade, de
maneira dialética e conflitiva evidentemente, e não mecânica. Mas, cadê a grande epopeia do
movimento comunista? Ninguém escreveu. E quantas epopeias do mundo capitalista foram escritas
nesse ínterim? Milhares.
Estão entendendo onde se trava a guerra cultural? O lado propagandístico e político é secundário.
As pessoas dizem: “vish, mas puxa vida, isso que você está propondo é uma coisa muito
complicada, vai levar muito tempo”. Vejam, quanto tempo tem que os comunistas estão tentando
conquistar o poder sobre o mundo inteiro? Tem cento e cinquenta anos. Quantas gerações deles já
morreram? Quantos já foram mortos pelo próprio movimento comunista? E, no entanto, eles ainda
continuam. Continuam por quê? Porque eles são orientados por essa imagem do inimigo a ser
destruído, a do grande monstro ao qual se atribuem todas as más qualidades. E se esse monstro tem
todas as más qualidades, então será perfeitamente legítimo fomentar essas más qualidades. Porque
não se está forçando o capitalismo a se corromper, se está apenas explorando os germes de
corrupção que existem dentro dele mesmo.
Por isso que é um absurdo esse pessoal direitista conservador estar entusiasmado com o Vladimir
Putin: “ah, mas ele é conservador, proibiu o casamento gay, está restaurando o cristianismo, faz
discursos contra a decadência da sociedade corrupta e imoral ocidental”. Epa, espera aí: durante
sessenta anos a KGB fomentou e subsidiou a corrupção do ocidente. Leiam o livro de Joseph
Douglass, Red Cocaine, e vejam como começou o grande tráfico de drogas no ocidente. É coisa da
KGB. Ou seja, ele fala mal da sociedade corrupta, mas ao mesmo tempo protege e premia aqueles
que a corromperam, a KGB. Comparem: imaginem a queda do Terceiro Reich, e daí aparece um
governo falando contra o antissemitismo, mas premiando e mantendo em seus postos os membros
da SS e da Gestapo. Vocês acreditariam num sujeito desse? Pois é. Eis aí o dia que eu vou acreditar
no Vladimir Putin: no dia que ele prender todos os agentes da KGB e contar quem foi que fomentou
a corrupção do mundo ocidental.
Vejam, nós não temos mais ideia do padrão de honestidade que vigorava entre as potências
ocidentais no começo do século XX. Quando, por exemplo, o governo soviético inaugura a moda de
fazer acordos internacionais e no dia seguinte descumpri-los, os governos ocidentais ficaram
chocados, eles nunca tinham visto isso – bom, até que podia haver uma sacanagem aqui e outra ali,
mas um acordo internacional é coisa sagrada, deve ser cumprido de qualquer jeito. Hoje em dia nós
sabemos que todos os tratados internacionais só existem para serem violados. Mas quem inaugurou
isso? Foi a União Soviética. E aos poucos a moda foi pegando.
Do mesmo modo, o tráfico de drogas – claro que depois de certo ponto adquire uma autonomia
própria. Mas quem começou? Quem o implantou no ocidente foi a URSS. Leiam o livro do Joseph
Douglass. Havia na época, nos anos cinquenta, uma série de quadrilhas de narcotráfico, mas
incipientes, pequenas. A KGB fez um programa [01:30] para infiltrar seus agentes em cada uma
dessas organizações, tomá-las e articulá-las entre si. Foi aí que começou o grande tráfico de drogas
no ocidente. Então, fomentaram a corrupção e em seguida a denunciaram. É claro que os agentes de
uma coisa não são os agentes da outra. Talvez eles se ignorem entre si. O sujeito está lá condenando
a imoralidade ocidental, mas não sabe que outro agente, a serviço da mesma organização, a
fomentou por outro lado.
Então, resumindo tudo: a grande força do movimento comunista é sua unidade imaginativa.
Unidade imaginativa que ele traçou do monstro a ser destruído. E para cuja destruição valem todos
os meios, inclusive mais monstruosos do que ele. Isso está no fundo, por exemplo, da cabeça de
cada eleitor da Hillary Clinton. Eles são comunistas? Não. Eles só acreditam na imagem que o
comunismo pintou do capitalismo, especialmente da América. Essa imagem reaparece hoje em toda
a cultura americana. Assim, nós podemos dizer que a vitória da KGB sobre a cultura americana foi
total. Os focos de resistência que existem não têm força imaginativa para se contrapor a isso. Não
temos uma outra proposta. Durante cinquenta ou sessenta anos, toda a resistência anticomunista no
EUA não foi anticomunista, foi antissoviética. E, empreendida não por um movimento civil, mas
pelo governo. Não há um equivalente ocidental do movimento comunista, não há uma internacional
anticomunista. Só há governos que reagem. Às vezes também reagem pequenos grupos. Mas, este
movimento não existirá enquanto não tivermos a unidade imaginativa para sustentá-lo.
Entenderam qual é o verdadeiro problema da guerra cultural?
Vou parar por aqui. Vou responder algumas perguntas.
Na próxima terça-feira, no mesmo horário desta aula, haverá um hangout com o Rafael Nogueira e
o Mauro Ventura, com o título de “Amnésia Histórica”. Onde, talvez, alguns pontos que deveriam
ter sido abordados neste curso podem ainda aparecer por lá. Vamos fazer uma pausa e daqui a
pouco nós voltamos.

***

Aluno: O livro Invasão Vertical dos Bárbaros, do Mário Ferreira dos Santos, é uma boa leitura
complementar ao seu curso?
Olavo: Ela é uma leitura útil em si mesma. Mas, não serve como uma leitura complementar a este
curso. Esse livro pertence a um gênero, que se tornou muito comum no começo do século XX, que
é a análise da crise da civilização. Onde se tem, por exemplo, o livro Johan Huizinga, Nas Sombras
do Amanhã. Temos o livro do René Guénon, A Crise do Mundo Moderno. Tem o do Henri Massis,
La Défense de L'Occident. Isto é quase um gênero literário, que entre os anos vinte e trinta se tornou
muito comum, e o livro do Mário é um dos melhores do tipo. Mas, ele não tem muito a ver com o
que nós estamos falando aqui. Aqui nós estamos falando de uma concorrência entre esquemas
imaginativos, aliás, entre um esquema imaginativo de um lado e a falta dele do outro.
Aluno: Essa unidade imaginativa deve, necessariamente, ser entendida como um símbolo? Algo
que transcenda a realidade concreta?
Olavo: Sem sombra de dúvida. Ela pode ser inspirada na realidade concreta. Vocês podem até se
basear em personagens efetivamente existentes, mas eles têm de ser mostrados, narrados, descritos
de certa maneira que, de dentro deles se veja pulsando a energia de muitas outras pessoas ou
personagens possíveis.
Aluno: Poderia se dizer que o herói romanesco que se vê como ator da justiça social é na verdade é
um ator da vingança?
Olavo: Isso aqui é um ponto absolutamente fundamental: essa é a mesma definição do romance
segundo Georg Lukács e Lucien Goldmann, quer dizer, “a revolta degradada contra o mundo
degradado”. Só que eles introduzem nessa definição a seguinte nuance: essas revoltas degradadas
têm como personagens indivíduos que estão com o rabo preso na própria situação contra a qual eles
se revoltam, portanto, são revoltas individuais anárquicas. Como Julien Sorel, em Vermelho e o
Negro, ou o Raskólnikóv de Crime e Castigo, etc. E, teoricamente esse tipo de revolta não pode
levar a nada. A não ser que ela se integre no movimento comunista mundial, onde ela deixaria de
ser uma revolta degradada – a teoria é verdadeira, mas com uma consequência absolutamente falsa.
Sobretudo a revolta anárquica, eles a veem fortemente como característica da classe média. Essa é
uma constante nos diagnósticos comunistas da realidade: a classe média pode se revoltar contra as
injustiças, mas ela é necessariamente anárquica, individualista e, portanto, a revolta não vai levar a
nada. Era assim que Stalin, por exemplo, diagnosticava o nazismo: como uma revolta da classe
média. O que é falso, evidentemente. Porque o partido nazista foi subsidiado, sobretudo, pelo
proletariado alemão, não pela classe média. Muito menos pela classe alta, embora esta também
contribuísse. Os primeiros contribuintes do partido nazista foram os proletários, sem dúvidas. Os
comunistas viam o nazismo como um partido anárquico, sem uma visão correta da história e que,
portanto, eles seriam capazes de destruir as democracias burguesas, mas que não seriam capazes de
criar um regime estável. O diagnóstico não estava totalmente errado, mas não pelas razões
sociológicas apontadas.
Portanto, é preciso dizer o seguinte: a definição que eles deram do gênero romance, não é só para o
gênero romance, evidentemente; com isso se pode, a partir daí, criar toda uma tipologia da revolta.
Mas nós podemos dizer o seguinte: toda revolta contra o estado de coisas é uma revolta degradada.
Qualquer pessoa que queira mudar o mundo ela já está no errado, ela já entrou numa ambição
demoníaca, evidentemente.
Mais ainda, dentro do próprio movimento comunista tem elementos que levam, necessariamente, à
corrupção da alma. Um deles é o seguinte: quando um político comunista é elevado ao governo
numa nação democrática ocidental, por meio de eleições, o que ele vai fazer no governo? Ele vai
implantar o socialismo? Não, ele não vai. Ele não pode fazer isso. Porque para isso ele precisaria
primeiro concentrar um poder em suas mãos, que seria um poder ditatorial. Nesse sentido, ele teria
que mudar o regime primeiro, mudar o regime político, para depois mudar o sistema econômico.
Logo, não dá para ele fazer isso. O que ele pode fazer é introduzir mais mudanças culturais que
fomentem a destruição daquela sociedade. Por exemplo, no setor da educação e da cultura esses
governos vão agir com muita profundidade, evitando o conflito direto com o direito de propriedade
etc. Isto é, eles vão roer pela beirada. Isso foi verificado: o Brizola fez isso no Rio de Janeiro; o
Allende fez no Chile; o Obama faz aqui, no EUA, sobretudo através da educação e de medidas que
não pareçam voltar-se diretamente contra o sistema capitalista, mas que, de algum modo, ou o
corrompam e o levam progressivamente à sua destruição ou que transfiram o seu poder, sutilmente,
para outros agentes, que não são agentes econômicos, são agentes políticos.
E outra coisa fundamental é o seguinte: para o comunista, o partido está sempre acima do governo,
mesmo que seja um representante do partido que esteja no governo. Em vista disso, uma das
funções essenciais do governante comunista eleito numa democracia é dar dinheiro para o partido,
isso é fundamental. Portanto, tudo o que Lula e Dilma fizeram no governo era previsível
anteriormente. É claro que eles iriam tirar dinheiro do Estado para dar ao partido, pois essa é a
obrigação número um deles. Juntar o máximo de poder nas mãos, isto é, o máximo de recursos
financeiros, é obrigação elementar de um comunista. Esteja ele onde estiver, ele terá que desviar
recursos para o partido. E, foi isso que Lula e Dilma fizeram – e tem gente que disse que ficou
espantado. Mas é claro que eles vão fazer isso, eles têm de fazer. Isso faz parte da lógica do
processo. Agora, o sujeito que precisa de uma experiência de doze anos para entender uma coisa
que poderia ter entendido antes, pela própria dedução do conceito do movimento comunista, só
prova que ele é burro mesmo.
Nós podemos aí fazer um paralelo com a peça do Eugenio Corti, Processo e morte di Stalin – aliás,
eu já contei essa história aqui: é uma peça do historiador italiano Eugenio Corti, que é uma espécie
de Leon Tolstói da atualidade, ele escreveu a epopeia dos italianos na guerra, se chama Il Cavallo
Rosso –, na qual os assessores mais próximos de Stálin, cansados de verem seus colegas serem
perseguidos e massacrados pelo chefe que eles mesmos haviam nomeado, decidem matar Stalin.
Então, eles vão a um jantar na casa de campo dele e aproveitam e prendem todos os seus guarda-
costas e informam a Stalin: estamos aqui para executá-lo companheiro. Stalin responde: mas vocês
não podem fazer isso sem um julgamento, antes vocês me deem o direito de defesa. Daí eles
consentem. E, o Stalin começa a demonstrar por um processo lógico-dedutivo que tudo o que ele
fez foi exatamente, na mais estrita fidelidade, o marxismo-leninismo. Ele prova isso, e diz: eu não
fiz nada de errado, fiz tudo certo. Aí os assessores são obrigados a concordar, mas mesmo assim
decidem o matar – e assim termina a peça.
Marx dizia: a história se repete, a primeira como tragédia, a segunda como farsa. Caberia fazer uma
versão chanchada disso aí, com os esquerdistas julgando o Lula e ele dizendo: fui estritamente fiel
ao que o marxismo-leninismo manda fazer, vocês não podem me acusar de nada; eu fiz, não apenas
o que eu tinha direito de fazer, mas o que era o meu dever de fazer – e de fato fez. Se ele não tirar
dinheiro do governo burguês para dar para o partido, ele traiu o partido. Toda essa roubalheira faz
parte do programa, era inevitável. Eu sempre disse: “querem saber o que é corrupção? Querem
saber o que é entreguismo? Esperem o Lula chegar ao poder – e de fato aconteceu. Por acaso eu
adivinhei? Não. Eu li o negócio, eu sei como é que é.
Então, o herói romanesco que se vê como ator da justiça social: todos eles se veem dessa forma.
Não necessariamente atores da justiça social, mas da justiça em geral. Ou seja, ele sente que o mal
que ele está fazendo é justificado, e se não é um dever, é pelo menos um direito dele. Assim vemos:
Julien Sorel, Raskólnikóv etc. Personagens reais também se viam assim. Napoleão Bonaparte
sempre se viu assim. Ele se via como o justiceiro e reordenador do mundo – e de fato ele fez isso,
só que o custo em vidas humanas foi enorme. Agora, não se pode dizer, por exemplo, que ele não
restaurou as finanças da França. Ele restaurou de fato, mas restaurou como? Roubando os outros
países.
Seria interessante, por exemplo, um personagem de romance maravilhoso: José Dirceu. É visível
que o Dirceu é fiel ao partido até agora. Ele tem esse sentimento de que ele está agindo de acordo
com o seu dever. E, no entanto, ele está completamente corrompido até o fundo da alma. Isso é o
quê? É a revolta degradada contra o mundo degradado. E, o sujeito entrar para o partido comunista
e deixar de ser um revoltado anárquico de classe média para ser um militante comunista, não vai
melhorá-lo, só vai piorá-lo muito mais. Como piorou o próprio Georg Lukács. Ele chegou ao ponto
de escrever seus livros, e em seguida ter de reescrevê-los simplesmente porque alguém dizia que
Stalin não havia gostado. Ele reeditava tudo para ficar de acordo com o gosto do chefe. Quer dizer,
era eminentemente um puxa-saco de um genocida. Embora fosse um gênio, sem dúvidas.
Lucien Goldmann, grande discípulo francês dele, em um debate com Eric Voegelin, disse assim: “o
socialismo para mim é uma experiência religiosa”. Vejam só, quer dizer que em nome de uma
experiência religiosa, o sujeito achar que está investido de uma missão profética, ele acha que pode
matar, roubar, fazer o que quiser. Quanto mais ele se deifica, mais crimes e maldades ele vai fazer.
Então, é a revolta degradada. Todo e qualquer revolta é degradada, meu Deus do céu. A não ser, é
claro, que seja uma revolta contra elementos particulares da sociedade e que estão ao alcance de sua
ação.
Aluno: A literatura romanesca já existente, principalmente a do século XIX, que talvez não seja tão
abrangente quanto a Comédia Humana, pode nos ajudar nessa questão da impressão do discurso
poético?
Olavo: Pode, sem sombra de dúvida. Eu citei o caso da Comédia Humana, porque ela é o modelo
que Karl Marx se baseou. Eu digo claramente: a obra inteira de Karl Marx é um comentário à
Comédia Humana. Ele simplesmente pegou tudo aquilo e transpôs numa linguagem sociológica ou
pseudosociológica. Já estava tudo no Balzac. Observem outros romances, como o Vermelho e o
Negro, Crime e Castigo, ou neste livro, O Processo Maurizius, do Jacob Wassermann, em que o
garoto é filho de um juiz, e ele desconfia que o pai cometeu um erro judiciário, que mandou para
cadeia um inocente. Daí ele foge de casa e se põe a investigar tudo, no fim ele descobre e
desmascara o pai. O pai fica doido. No segundo volume, aparece o outro lado do garoto, o Etzel.
Ele tem um guru, que é médico e filósofo, que se chama Joseph Kerkhoven. E, ao se aproximar
cada vez mais, ele acaba roubando a mulher do guru, e foge com ela. Aí nós vemos que o Etzel não
era lá grande coisa também. Quer dizer, era a revolta contra o mundo por uma pessoa que não
estava sequer à altura do mundo. Então, é o mesmo tema, mas que só aparece na continuação, que o
pessoal não costuma ler. O pessoal geralmente lê O processo Maurizius, que foi traduzido para o
português e teve uma grande edição. O segundo volume teve também uma edição em português,
mas sumiu. Inclusive, fora traduzido pela filha do Alceu Amoroso Lima. O primeiro se chama O
Processo Maurizius, o segundo Etzel Andergast, e o terceiro A terceira vida de Joseph Kerkhoven.
O primeiro e segundo foram traduzidos, o terceiro não. Precisava traduzir isso aí inteiro, e lançar
urgentemente.
Aluno: (...) você dizer assim, você tirar de Shakespeare, Jane Austen?
Olavo: Não de Shakespeare. Isto acontece, sobretudo, a partir da disseminação do gênero romance.
É claro que se pode aproveitar em inúmeros elementos de Shakespeare, mas o romance se foca
neste ponto: a revolta do indivíduo contra o mundo. Daí vem a tipologia criada pelo próprio Georg
Lukács antes de ele se converter ao marxismo, no livro A Teoria do Romance, que depois ele
renegou, mas que é um baita livro. Onde ele diz: “os romances se dividem conforme a amplitude
maior ou menor de consciência do personagem”. Em alguns casos a consciência do personagem é
mais ampla do que o ambiente, ele se sente apertado ali e se revolta contra ela. Em outros casos não,
ele tem uma consciência estreita e ele é esmagado pelo ambiente. Isso corresponde ao que o
Northrop Frye chama de o gênero irônico. Por exemplo, os livros do Kafka: Josef K. não entende
coisa nenhuma do que está acontecendo, ele é a pobre vítima.
Aluno: Gostaria que discorresse sobre a situação atual. A posição estratégica e a importância
cultural de Israel no contexto da guerra cultural. De que forma a tradição judaica e sua sabedoria
pode sobrepujar o movimento comunista? Se é que tal movimento pode ser sobrepujado pelo
conhecimento do povo judeu.
Olavo: É claro que pode, vocês têm tudo na mão. Não sei se você é pessoalmente judeu, mas os
judeus têm a faca e o queijo na mão, têm o Antigo Testamento inteiro, meu Deus do céu. Quer
dizer, os judeus têm uma narrativa muito mais abrangente do que qualquer romance. Só que, eu não
sei o porquê, a maioria dos judeus é um bando de idiotas, de cretinos. Aqui, no EUA, 72% deles
votam no Obama. Que depois trata Israel como se fosse um lixo. Precisa começar a esclarecer os
próprios judeus. Falar a eles: “vocês estão trabalhando contra nós mesmos, porra; tem que para com
isto”.
Eu acho que um dos grandes problemas disso é o seguinte: os judeus têm uma solidariedade
comunitária enorme. O sujeito é patrício, então, eles tratam bem. Este sujeito pode ser o maior
traidor, o maior vigarista, mas se ele é patrício ele é aceito, ele é bem tratado. Quer dizer, o critério
comunitário está prevalecendo muito sobre o bom senso estratégico. Ali eles têm o rabino, um
grande herói, e ali eles têm o Leon Trótski, e eles aceitam os dois. Trótski era um cara que renegava
sua condição de judeu, ele tinha ódio de judeu. Aliás, como o próprio Karl Marx. É que nem
família: o sujeito pode estar ferrando com a família, mas ele ainda é um membro da família e todo
mundo quer tratar bem – isso é um sentimento provinciano. Nunca estudei o assunto, mas pela
minha experiência de famílias judaicas que conheço, eles têm muito este espírito: se o cara é
patrício tudo pode ser perdoado. O cara põe uma bomba no porão de casa – “ah, mas ele é patrício,
a gente que tratar bem”. Tem que parar com essa coisa, porra.
Aluno: E quanto ao islam? Você julga mais fácil identificar o agente?
Olavo: Ih... isso aí eu precisaria dar outro curso. Desculpa, não vou mexer nisso hoje. O negócio é
muito mais complicado. Mas não se esqueça do seguinte: como começa o islam? Com uma
narrativa. Isso quer dizer que qualquer muçulmano, pode ter doze anos de idade, se ele já decorou o
Corão, ele imagina que sabe o percurso humano inteiro. Assim como os cristãos têm a visão da
humanidade, desde a sua origem até o juízo final – que é um fenômeno não da história, mas da
suprahistória, vai acontecer depois do fim dos tempos –, o islam também tem uma visão que ele
imagina ser da história inteira. Que começa com Adão e Eva e termina com o governo mundial do
islam. Então, é um acontecimento da história. É uma visão imanente no fim das contas. Quer dizer,
o juízo final só há de vir depois que o islam dominar tudo. Não haverá mais problemas terrestres, e
aí virá o juízo final.
Aluno: Não seria uma unidade imaginativa a visão da direita sobre o movimento comunista como
um monstro genocida?
Olavo: Não, isso é apenas uma qualificação. É um carimbo que você está colocando. Você não está
tendo uma visão da estrutura, do funcionamento interno, do movimento comunista como unidade.
Isso é uma unidade abstrata: você tem um qualificativo geral que serve para tudo aquilo. Eu acho
que até serve, é um monstro genocida mesmo, sem dúvidas, mas o problema não é esse. Nós
precisamos ter uma visão da totalidade concreta, isto é, de como as pessoas interagem, quais são as
forças que criam essas personalidades. Por exemplo, tem o fenômeno dos red diapers (fraldas
vermelhas), quer dizer, o sujeito que foi criado em uma família comunista. Tem muita gente assim.
E, continua sendo comunista por tradição de família. Raríssimos se revoltam contra isso. E tem por
outro lado, as famílias burguesas, que tomam conhecimento do comunismo e ficam encantadas. Eu
mesmo tive essa experiência.
Outro dia eu estava conversando aqui com a Roxane: durante todo período que estive na escola, eu
nunca recebi dos professores o menor estímulo intelectual, absolutamente nada. Inclusive no
ginásio, ler outras coisas que estavam fora do que estava sendo ensinado na sala de aula era
considerado um pecado, era uma coisa maligna. Ou seja, ter interesses culturais maiores, é feio. O
sujeito tem que se ater àquela porcaria burocrática que está ali. E eu me lembrava, que só recebi
estímulos de três fontes: o primeiro, era um amigo meu, que tinha a coleção Great Books of the
Western World, aquilo me fascinou quando eu o comecei a ler; o segundo, foi uma família
protestante de conhecidos meus, muito moralista, mas de uma humanidade e de um bom sentimento
incrível, cuja filha, violando as regras, me agarrou embaixo da escada – eu estava até comentando:
tem homens que a vida inteira deles é decidida pelo fato de que eles se apaixonaram por uma
imagem deslumbrante e não tiveram a coragem de ir lá e se declarar; eu fui poupado disso, porque a
imagem deslumbrante me agarrou debaixo da escada, depois vieram as parentes e estragaram nosso
namoro, mas o começo foi bom –, essa família gostava muito de música, de artes, etc., e foi nessa
família que pela primeira vez, com quatorze anos, eu ouvi o nome de Julián Marías; e o terceiro que
era uma família de judeus comunistas, muito ricos – ricos em termos de Brasil, nada extraordinário
–, pessoas de muita cultura, muito simpáticos, eu gostava demais deles, e ali apareceu celebridades,
ali que me deram para ler as Memórias do Cárcere do Graciliano Ramos. Um dia, depois de eu ler
esse livro, eu estava lá na casa deles, num jantar, eu tinha uns quatorze ou quinze anos, e de repente
chegou o Agildo Barata – que foi um herói da Intentona Comunista, tem cenas incríveis que
mostram a bravura dele no livro –, o homem já caquético, chegou quase que carregado, era um
mito. Depois chegou o Mario Schenberg também. Vários mitos comunistas apareceram diante dos
meus olhos. Tudo isso teve um impacto tremendo, claro. Eu não sei se o meu amigo, filho dessa
família, continuou na linha comunista ou não. Mas provavelmente sim.
Então, o que está faltando não é ter uma imagem geral abstrata, como um monstro genocida. Essa
imagem abstrata a direita está cheia delas. Nós precisamos ter uma imagem concreta, viva. Pode
dizer, por exemplo, que toda a Itália numa fase, mais ou menos próximo à Renascença, está descrita
no I Promessi Sposi, do Manzoni. Mas é só a Itália. Assim como a sociedade francesa está toda na
Comédia Humana. De algum modo toda a Alemanha do pré-guerra, está na obra inteira do Jacob
Wassermann.
E tem outros romances em que as vezes se condensa num símbolo realidades imensas da história
mundial, como no livro A Montanha Mágica, do Thomas Mann. Que é uma disputa entre dois gurus
que pretendem para conquistar a consciência do jovem, o personagem. Um deles é um maçom
liberal, e o outro um jesuíta comunista. Vejam, isso é quase literal com o que veio a acontecer
depois. Temos aí o pessoal do Instituto Liberal discutindo com o Padre Gutiérrez. Isso é uma
profecia, se realizou. Mas, não é um panorama. É um símbolo que condensa alguma coisa. Vamos
tomar por exemplo o movimento comunista, mostrar a simples amplitude internacional do
camarada, o mesmo sujeito agindo em vários países, fazendo viagens internacionais, mantendo uma
rede de contatos – nunca vi isso. Existem narrativas reais, como a do Jan Valtin, que saiu no Brasil
com o título O Espião que Abalou o Terceiro Reich – na verdade ele fez muito mais do que enganar
o Terceiro Reich. É a história de um agente comunista em sua formação, mas é uma narrativa
memoralística, e mostra um indivíduo que começa agindo no seu próprio bairro e termina metido
em grandes conspirações no exterior. Há tudo isso em vários depoimentos, isso tudo é um material
bibliográfico. Mas, a história do movimento comunista, não contada do ponto de vista externo, dos
estados, das estratégias, etc., mas do ponto de vista humano, da realidade do dia-a-dia, não há. Não
dá para fazer isso com um livro de história, é muita coisa. Mas como síntese imaginativa dá para
fazer, só que ninguém sequer tentou.
Aluno: Quando Nossa Senhora de Fátima fala em erros da Rússia espalhando-se pelo mundo, é
correto pensar que se trata do movimento comunista centralizado na KGB/FSB?
Olavo: Sem sombra de dúvidas. Só que hoje os erros não são mais os clássicos, os erros ideológicos
da doutrina comunista. É outra coisa completamente diferente, é a falsidade. Por exemplo, todo esse
moralismo cristão do Putin é obviamente falso, pois ele condena os males, mas promove aqueles
que o produziram. Quer dizer, é uma coisa tão obviamente hipócrita que só um jumento como um
Júlio Soumzero é quem pode cair numa coisa desta: acreditar que o Putin está com grandes
intenções [02:00] e que ele é um grande líder cristão etc. Eu acho que os erros da Rússia não
acabaram ainda.
Vejam, no século XIX, antes que o movimento comunista alcançasse grande projeção na Rússia,
muitos filósofos e escritores já tinham essa visão de que no século XX a Rússia seria a grande
mensageira cristã para o mundo. Vladmir Soloviov, grande filósofo, acreditava nisso. E daí se viu
que raio de mensagem cristã que veio, veio exatamente o contrário. Agora, depois da queda da
URSS, muitos autores, pensadores russos, como o próprio Aleksandr Dugin, começaram a reestudar
esse material do messianismo russo, e acharam que isso poderia inspirá-los de alguma maneira.
“Agora não oferecemos mais comunismo ao mundo, oferecemos cristianismo” – dizem eles. Só que
são os mesmos agentes, comprometidos com o mesmo esquema. Mudou o discurso, mas ainda é
uma falsidade.
Aluno: Tendo em vista que só se vence completamente aquilo que se substitui. Poderia se dizer que
só venceremos o comunismo caso passássemos a agir com o mesmo objetivo deles, eliminá-los?
Olavo: Uai, mas se você não tem o objetivo eliminar o movimento comunista, o que você vai fazer?
Até hoje, ninguém fez esta proposta: nós temos que varrer o comunismo da face da Terra; apagar
essa ideia; fazer com que nunca mais alguém trabalhe por isto. Podem aparecer outros males depois,
sem sombra de dúvida, mas esse tem de ser eliminado. Mas o quê que tem que ser eliminado? Um
discurso? Uma ideologia? Não. É um movimento. Agora, vocês não vão poder eliminar um
movimento cuja a estrutura, cuja a unidade vocês não apreendem. Porque só captando essa unidade
é que se pode desativar a máquina toda. A simples narrativa, a simples exposição de quem são
vocês, o que vocês estão fazendo, só isso já basta para tirar metade dos militantes de tudo quanto é
lado. O pessoal vai ficar chocadíssimo. Vocês acham que cada militante comunista tem ideia disso
que eu estou falando? Quantos autores ou filósofos marxistas (como essa besta do Ruy Fausto e
outros como Caio Prado Júnior) ouviram dizer que Karl Marx se inspirou um pouco na Comédia
Humana de Balzac? Quantos deles falaram: “agora vou ler essa coisa em profundidade e vou ver
quanto da obra de Balzac está lá no Marx?” Eu fiz isso. E digo: está tudo. Karl Marx pouco
acrescentou. É claro, Marx inventa o movimento comunista de algum modo, mas a visão que ele
tem da sociedade capitalista é 100% a do Balzac. Ele não acrescentou nada. Então, vocês não vão
entender Karl Marx se não tiverem lido o Balzac direito. Os caras não perceberam nem isso. Às
vezes se contentam em repetir superficialidades: Marx se inspirou um pouco no Balzac. Espera aí,
vamos aprofundar esse negócio: Karl Marx conseguiu criar estes sistemas, esta imensa “análise” do
capitalismo, porque ela já estava pronta no Balzac, o padrão imaginativo já estava feito. Não há
ciência sem imaginação. Como diz Susanne Langer: “todo e qualquer conhecimento começa com
uma analogia”. De onde Karl Marx tirou o símbolo? Do Balzac.
Aluno: Com a democracia nunca venceremos esse tipo de guerra. Por isso, o movimento comunista
fala constantemente em democracia direta, pois isso é muito bom para eles. Qual a forma de
governo o senhor acredita ser apropriado para defender esse movimento? A monarquia?
Olavo: Se for depender de um regime de governo isso não vai acabar nunca. Nós temos que
começar na guerra cultural. Em qualquer regime que estejamos, seja numa democracia, numa
ditadura fascista, numa ditadura comunista, etc., o que nos impede de fazer o trabalho da
imaginação? De começar a dar o lance decisivo da guerra cultural? Criar um imaginário que é
menos anti-marxista do que é meta-marxista, pois tem que abranger a representação marxista e
transcendê-la. Incluir coisas que ela não sabe.
Aluno: Podemos definir o movimento comunista como um movimento de psicopatas/sociopatas em
uma busca incessante pelo poder a qualquer custo?
Olavo: Sim, mas isso não resolve o nosso problema. Afinal de contas, isso não começou como
psicopatia, começou com uma descrição da estrutura do capitalismo. E isso não quer dizer que
psicopatas não tenham conhecimentos efetivos e que nada tenham a nos ensinar. Nós podemos
chamá-los de genocidas, de psicopatas, do que quisermos, mas isso não é guerra. É apenas guerra de
propaganda, guerra de palavras. E o que nós precisamos é uma guerra psicológica, mesmo! Que
tenha um acesso sobre as almas e não sobre as opiniões. Isso aí, só com outro esquema imaginativo
que o transcenda.
Se você quer saber, isso não é difícil de fazer. É claro, que é preciso ter um talento de romancista,
sem sobra de dúvida. Mas não é um desafio sobre-humano. Se pararmos para pensar bem, vocês já
leram a Bíblia? Já não sabem que todas as narrativas humanas já estão dadas lá? E que esta
narrativa que os comunistas fazem do capitalismo é um pedacinho só da Bíblia? Quer dizer, vocês
têm continentes inteiros que a visão marxista não abrange. Então não custa você criar um esquema
imaginativo muito maior, muito mais poderoso, muito mais abrangente. No momento, o movimento
comunista está como o agente psicológico, o agente que forma a mente dos outros. E ele continua
invisível e inacessível. De repente alguém pega ele e o mostra: “você é este aqui, e você, na
verdade, pensa que é o autor da narrativa, mas você é apenas mais um personagem, e está dentro de
uma narrativa que você mesmo não entende” A hora que alguém fizer isso, tira completamente a
força dele. Acontece que ninguém fez.
Aluno: O imaginário trabalhado nos romances de Isaac Asimov, principalmente na novela A
fundação e na sua continuação, expõe, a meu ver, o que o senhor está falando.
Olavo: Só que você não pode fazer isso mediante a ficção científica. Não pode ser uma analogia
fantástica. Isto é importantíssimo – até o advento do Georg Lukács, os marxistas em geral
acreditavam que o marxismo deveria criar novos gêneros, novos estilos literários. E o Georg Lukács
vem e diz: “vocês estão completamente enganados, esse negócio de literatura de vanguarda é, em si,
reacionária” – e ele tinha razão, pois a maior parte dos caras da vanguarda e do modernismo eram
todos fascistas. “Nós temos que usar os métodos do grande realismo burguês do século XIX.” – ele
disse. Vejam, quem são os romancistas verdadeiramente grandes do século XX? Jacob
Wassermann, para mim, é o maior de todos. Qual é a técnica nova de narrativa que ele usa?
Nenhuma. Ele era um grande realista como Balzac, Stendhal, Dostoiévski, Thomas Mann, Robert
Musil. Quer dizer, eles não se caracterizaram pela inovação técnica.
Se o sujeito usa a ficção científica, ele ainda está na ambiguidade. A narrativa que ele faz tem que
parecer real. Tem que parecer um livro de História, como, por exemplo, Guerra e Paz do Tolstói.
Este parece um livro de História, embora seja tudo inventado. No sentido que dizia Aristóteles, tudo
que era literatura ele chamava de poesia: “a poesia é mais verdadeira que a história, porque ela
mostra não só o que aconteceu, mas o que poderia ter acontecido.” Ora, se a pessoa sabe só o que
aconteceu, ela sabe fatos fragmentários, ela não tem a imagem de conjunto. A imagem de conjunto
é sempre imaginativa. Então, tem que preencher o que aconteceu com o que poderia ter acontecido,
para que aquilo que aconteceu adquira o seu verdadeiro perfil e valor no conjunto. É por isso que
lendo Guerra e Paz, se entende muito melhor a invasão napoleônica da Rússia, do que se ler mil
livros de história a respeito. Assim como, lendo Balzac se entende muito melhor a sociedade
francesa daquela época do que lendo dez livros de sociologia ou de história social.
Vamos parar por aqui. Muito obrigado pela atenção. Eu dei esse curso como se fosse uma espécie
de UTI – “vamos pegar o paciente antes que ele morra” – e vamos ver se isso inspira as pessoas.
Se vocês têm uma vocação literária, vão em frente, tenham coragem. Mas, leiam muita literatura,
muita. Primeiro, têm que ler muita literatura de língua portuguesa, pois o domínio do seu idioma é
uma coisa importantíssima. O quê que é domínio do seu idioma? É conseguir dizer o que quer e não
o que os esquemas aprendidos lhe ditam. Ou seja, cada palavra tem que ser viva, cada palavra tem
que expressar exatamente o que você quis dizer. Leiam muito Herberto Sales: no fim da vida ele
alcançou uma perfeição da língua portuguesa, que ele praticamente conseguia dizer tudo o que ele
queria dizer, tudo parece tremendamente natural. Outro autor que consegue fazer isso: Marques
Rebelo. Então, primeiro o material da sua língua e depois o material de literatura escrito em línguas
da mesma origem da sua: línguas latinas. Vocês nunca vão aprender a escrever em português lendo
em inglês, ou em russo. Mas em francês, espanhol, italiano, isso pode lhes ajudar.
Eu acho que muita leitura de livros em inglês está destruindo a capacidade de escrever das pessoas.
Elas querem fazer as mesmas construções inglesas no português – isso não vai funcionar jamais,
fica pedante, fica esquisito, soa mal. Agora, tem de se basear na fala popular, na grande literatura
acumulada ao longo dos tempos e em modelos análogos de línguas aparentadas, que possuam a
mesma estrutura gramatical, o próprio latim.
Então, é isso aí. Muito obrigado a todos.
Na terça-feira que vem teremos aquele hangout onde surgirão alguns assuntos pertinentes a esse
curso. Muito obrigado a todos e até semana que vem. E até sábado para os alunos do COF.

Transcrição: Diego Oliveira e Daison Paz


Revisão: Rahul Gusmão