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Guerra Cultural – História e Estratégias

OLAVO DE CARVALHO

Aula 3
04 de outubro de 2016

[versão provisória]
Para uso exclusivo dos alunos do Seminário de Filosofia.
O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.
Por favor, não cite nem divulgue este material.

Então vamos lá. Boa noite a todos, sejam bem-vindos.


Hoje eu vou inverter um pouco o programa. Eu havia marcado para as duas últimas aulas o seguinte:
hoje seria mais uma história geral do problema da guerra cultural no século XX, e na quarta aula nos
concentraríamos mais na situação brasileira, mas eu comecei a raciocinar a situação brasileira também
em termos históricos e acho que posso separar essa parte da história, referente especificamente ao
Brasil, e colocá-la logo hoje. Se posteriormente for necessário complementar faremos uma aula extra,
tudo bem?
Eu tenho um texto aqui que eu preparei para vocês, não o coloquei online ainda porque pretendo
publicar em algum lugar, ou no diário do comércio, ou em alguma revista, não sei. Eu vou lê-lo aqui
para vocês – ler e comentar:
“Todo conhecimento, ensina Susanne K. Langer no seu já clássico manual de lógica matemática,
começa com a percepção de uma analogia. Analogia é um símbolo que não traduz diretamente uma
realidade, mas uma constelação de impressões entorno dela. É analisando essas impressões que se
forma aos poucos o conceito descritivo apropriado daquela realidade, tornando possível a discussão
racional, culminando as vezes num conhecimento científico bastante sólido.”

Entenderam isso? Quer dizer que, a primeira coisa que se apreende da realidade não é o fato em toda
a sua pureza, mas uma constelação de impressões, que vem evidentemente toda misturada. É dessa
constelação de impressões que depois se obtém por análise o conceito específico do objeto que se tem
em vista.
“Quem leu meu livro, Aristóteles em Nova Perspectiva (1996), sabe que, segundo o fundador do Liceu,
todo o processo de conhecimento começa na elaboração imaginativa e simbólica dos dados
apreendidos, sem a qual é impossível saltar diretamente para a esfera dos conceitos da análise dialética
e da prova lógica. O símbolo, como resume Langer, é matriz de intelecções.”

Então, segundo Aristóteles o processo cognitivo é sempre o mesmo. O sujeito recebe os dados dos
sentidos, a memória – que para Aristóteles, memória e imaginação é a mesma coisa; a memória é uma
imaginação passiva – faz já uma seleção inicial e estabiliza certas imagens, e em cima dessas imagens
é que a inteligência vai trabalhar para obter o conceito. Ou seja, a inteligência não conseguiria operar
diretamente em cima dos dados dos sentidos, não só porque eles são enormemente confusos, mas
porque estão sempre em fluxo. Logo, primeiro é preciso focar a atenção através dos sentidos, e mais
ainda através da memória e da imaginação. Então, aquelas imagens que são o “esquema do fato”
servirão como material em cima da qual a inteligência vai operar, para então, através do processo
abstrativo, se obter o conceito, a definição ou a descrição do fato ou do objeto que interessa.
“Por isso, é que as primeiras reações da mente humana ante as grandes mutações e tragédias da
existência coletiva, assumem logo a forma de obras de arte – poéticas, narrativas, teatrais e as vezes
até musicais e pictóricas –, antes de se converterem em análises sociológicas ou mesmo em livros de
história. Esse é um dos sentidos em que se pode interpretar o dito de Aristóteles segundo o qual “a
poesia é mais verdadeira que a história”. A verdade da história está prefigurada, ainda que
nebulosamente, na verdade da invenção poética, e nunca passa da exploração de algumas das linhas
de forças ali contidas.

Mais ainda, ensina Aristóteles que a imaginação – que ele chama de fantasia – é o primeiro grau do
processo abstrativo que vai dos fatos aos conceitos. É nela que se efetua a primeira triagem que separa
o acidental do essencial, conservando na memória somente este último, já adotado de uma forma
estável sobre a qual a inteligência poderá só então operar novas distinções até chegar ao conceito
descritivo, claro e cientificamente válido.

Benedetto Croce definia a poesia, arte em geral, como “expressão de impressões” – isso torna tudo
mais claro. Se o indivíduo não consegue sequer expressar as impressões que recebe de um fato, como
ele chegará a uma descrição objetiva do próprio fato?”

Isto é, qualquer conhecimento que se obtenha sobre qualquer fato ou objeto parte de uma impressão
inicial. E, essa impressão inicial tem que ser expressa ao menos interiormente, ao menos na própria
memória, para estabilizar alguma forma, senão não haverá nem o que dizer a respeito.
“Dependendo da maior ou menor sensitividade do artista aos indícios sutis e quase imperceptíveis
colhidos no ambiente mental entorno, certas obras podem mesmo antecipar quase que profeticamente
grandes mutações históricas ainda em germe. Os Demônios, de Dostoiévski, anunciam enfaticamente
o morticínio comunista. E aspectos fundamentais do nazismo aparecem nos filmes de Fritz Lang, O
Testamento de dr. Mabuse e O Vampiro de Dusseldurf.”

Bom, no caso de Os Demônios, Dostoiévski antecipou não somente o morticínio, mas também uma
tática fundamental do comunismo. Pois um dos personagens principais toca fogo numa favela para
criar uma crise social e em seguida denunciar o que aconteceu. É a famosa frase do Lênin, “xingue-
os do que você é, acuse-os do que você faz”, que já está ali com 40 anos de antecedência. Ou seja,
isso não tinha acontecido, o Dostoiévski simplesmente percebeu que era isso que estava na mente das
pessoas, que elas iam fazer isso porque era essa a forma mentis delas.
“Mas, isso também quer dizer que a possibilidade de uma compreensão racional dos fatos depende de
uma forte reação imaginativa inicial. Sem isso, qualquer tentativa de chegar ao nível dos conceitos
descritivos se perderá em mil detalhes irrisórios e não obterá, na melhor das hipóteses, senão um
simulacro persuasivo de conhecimento científico.”

Isto aqui é absolutamente fundamental: diante dos fatos, a primeira reação é sempre imaginativa.
Agora, se o sujeito não consegue expressar essa reação imaginativa, se ela ainda está confusa demais
para ele, se ele não consegue sequer expressá-la, muito menos ele chegará a uma expressão estável
dos fatos aludidos.
“Digo tudo isso tendo em mente a diferença entre as reações da esquerda e da direita brasileiras em
situações de derrota e perigo. Entre 1964 e 1967 alguns destacados escritores e artistas de esquerda
alijados do poder e sentindo-se ameaçados de uma efetiva expulsão de toda atividade política,
começaram a produzir romances, novelas, peças de teatros e filmes que expressavam
imaginativamente a sua experiência imediata do novo estado de coisas. Nenhuma dessas foi obra de
mera propaganda, eram todas artes – no sentido mais genuíno da palavra. Com maiores ou menores
méritos, algumas incorporaram-se definitivamente ao panorama da alta cultura nacional, vou citar só
algumas:

Poucos meses após a derrubada do Presidente João Goulart, o poeta e romancista Lêdo Ivo já retratava
satiricamente na novela O sobrinho do general (1964) a tragicomédia de um país cuja existência
histórica consistia em passar de golpe em golpe, de revolução em revolução, sempre na esperança de
com isso prevenir novos golpe e revoluções.

Em 1965 a peça Liberdade, Liberdade de Millôr Fernandes e Flávio Rangel condensava num pot-
pourri de textos clássicos, os valores de liberdade e democracia que então pareciam condenados a
extinção, no entender desse grupo.

No mesmo ano, o filme de Paulo Cesar Saraceni, O desafio, ilustrava um tanto canhestramente, tanto
que é um filme francamente mal, o drama do intelectual de esquerda comprometido por ligações
íntimas com a classe dominante e subitamente desprovido de meios de ação cultural ou política na
nova situação vigente.”

Ou seja, a situação de toda a intelectualidade esquerdista era exatamente essa, e é exatamente o que
aparece no filme.
“O tema ainda nesse ano seria retomado com muito mais destreza em Terra e Transe, de Glauber
Rocha, e no filme de Luis Sérgio Person, São Paulo, Sociedade Anônima, no qual o intelectual de
esquerda se degrada e se dissolve num ambiente de triunfalismo burguês. A Hora e Vez de Augusto
Matraga de Roberto Santos, livre adaptação cinematográfica da novela de João Guimarães Rosa, que
até impressionou a plateia por seu nível técnico bem superior a média do cinema nacional...”

Eu assisti a pré-estreia para um grupo de profissionais estudantes de cinema, e haviam cenas que o
pessoal levantava e aplaudia de pé. Até então o cinema brasileiro não conseguia fazer aquelas coisas,
e ele conseguiu.
“...já introduziu o tema da violência redentora, antecipando as guerrilhas, que após o fiasco das ligas
camponesas, anterior ao golpe militar, eram então uma hipótese remota rejeitada pela cúpula do Partido
Comunista Brasileiro.”

É claro, ali estava havendo, a partir justamente desse ano 64-65, a discussão sobre a possibilidade de
uma reação armada ao estado de coisas. E esse filme já era uma tomada de posição dentro dessa
discussão.
“O romance de José J. Veiga, A hora dos ruminantes (1966), ampliava o quadro sociológico da
descrição, mostrando toda uma sociedade na qual os mecanismos de controle ultrapassavam a esfera
pública, invadindo a vida privada e a intimidade das consciências. Ficava subentendido que era a isso
que tendia o novo regime.”

Quer dizer, a sociedade é mostrada sob um controle totalitário, e isso evidentemente impressionava
muito as pessoas, não porque estivesse acontecendo, mas porque poderia acontecer.
“No ano seguinte, Marques Rebelo na novela O Simples Coronel Madureira, voltava ao tom satírico
de Lêdo Ivo, retratando a classe militar como um bando de simplórios.”

Aí já se vê uma certa dificuldade de diagnóstico da situação. Porque se os militares eram apenas um


bando de simplórios, como eles iam conseguir criar uma sociedade totalmente controlada, como
aparece no livro de José J. Veiga? [Apesar da contradição], eram visões que coexistiam dentro do
grupo esquerdista: por um lado, estavam os caras com medo de cair sob um controle totalitário total,
uma tremenda obra de engenharia social, e por outro lado muitos deles vendo os militares como um
bando de idiotas incapazes etc.
“Mas, dois romances de grande porte, Pessach: a travessia, de Carlos Heitor Coni e Quarup, de
Antonio Callado, retomava o tema do destino do intelectual na situação vigente. O primeiro contava a
história de um boêmio apolítico alter ego do autor, que levado pelas circunstâncias acabava se
envolvendo na guerrilha, que então já se formava.”

O Carlos Heitor Coni era de fato um autor totalmente apolítico. Ele fazia uma espécie de literatura
subjetivista de cunho mais ou menos autobiográfico, mostrando seus dramas no seminário, seu
problema com a religião católica, etc., mas não tocava em política. E a partir do momento em que
houve o golpe militar, ele se tornou, paradoxalmente, o articulista político mais lido do país, com
artigos que ele estava escrevendo contra o governo – aconteceu isso com ele e com o Otto Maria
Carpeaux, os dois eram colegas no Correio da Manhã. E de certo modo, nesse romance ele retrata sua
própria situação. Isto é, um sujeito apolítico que por uma série de circunstâncias acaba se vendo
moralmente obrigado, por assim dizer, a participar de uma guerrilha – que até então ainda não existia,
era apenas uma ideia, mas que já se via a tomada de posição.
“O segundo, Quarup, introduzia espetacularmente quatro novos temas que viriam a ter uma
importância decisiva nos anos subsequentes: a teologia da libertação – o personagem é um padre –, as
culturas indígenas como um núcleo de resistência a civilização do ocidente, a libertação sexual e as
drogas como instrumento de dissolução da ordem vigente.”

Naquele tempo ainda não tinha muita droga em circulação, então o que eles usavam como droga era
o lança-perfume – tem um capítulo inteiro de alucinação, de lança-perfume e tal, e essa alucinação é
vista como um capítulo da suposta libertação interior do personagem, cujo o último ato, depois de
uma série de peripécias, será ir para guerrilha; um padre que larga a batina e acaba virando
guerrilheiro, fato este que iria acontecer muitas vezes nos anos seguintes.
“No mesmo ano, um novo filme de Luiz Sergio Person, O caso dos irmãos Naves, retratando com
detalhes escabrosos um caso de erro judiciário ocorrido no tempo da ditadura Vargas, aludia sem muita
sutileza ao novo fantasma que assombrava por toda a parte as almas esquerdistas, a ameaça da tortura.”

As denúncias de tortura ainda não haviam se tornado endêmicas, mas elas já estavam nos filmes.
Prestem bem atenção: tudo isso, todas essas obras, estão antecipando os acontecimentos históricos;
Estes exemplos bastam.
“Não importam, para os fins desta breve análise, saber se refletiam adequadamente o estado de coisas.
Na verdade, em geral o ampliavam histericamente com o uso descarado de velhas lendas urbanas de
[???], como o cemitério secreto de bebês de monjas em Quarup...”

Isso é uma lenda urbana que circula por aí, sobretudo entre garotos de ginásio, e o Antonio Callado
coloca isso aí [no livro]. É uma cena real do romance. Logo na primeira página aparece dois
seminaristas discutindo esse assunto – na verdade nenhum cemitério desse tipo jamais apareceu ao
longo de toda a história humana, mas essa estória continua circulando.
“ ...ou o líder comunista com os genitais torrados a maçarico em Pessach.”

Isso também nunca aconteceu.


“Exagero histérico no mais alto grau, era o controle social das consciências em A hora dos ruminantes
de Jose J. Veiga, que nunca esteve sequer nos planos da ditadura militar, e que somente os próprios
esquerdistas viriam a implantar mais tarde por meio de hegemonia e ocupação de espaços.”

Quer dizer, o sujeito criar uma situação na qual certas opiniões se tornam impossíveis, é o controle
íntimo das consciências – os milicos nem pensaram numa coisa dessas, mas os comunistas pensaram.
E fizeram.
“Mas no contexto, mesmo essas absurdidades se encaixavam bem nas tramas e não soavam como
apelos propagandísticos, embora o fossem. Também não vem ao caso discutir se as impressões
registradas nessas obras eram compartilhadas pela massa da população...”

Ou se ao contrário, era só da perspectiva da intelectualidade da esquerda.


“...a verdade é que não eram. Refletiam nada mais que o sentimento de um grupo ínfimo, que adoraria
ser a voz do povo, mas sabiam que falavam apenas em seu próprio nome. Ao longo de todos os
governos militares, o notório contentamento popular com regime foi para esse grupo uma causa de
desalento e desespero – na última semana de governo, o presidente Médici tinha mais de 80% de
aprovação popular.

Num filme feito muitos anos depois, Que é isso, companheiro?, de Luis Carlos Barreto (1997), um
guerrilheiro vendo a esquerda revolucionária reduzida ao completo isolamento, apega-se
pateticamente a esperança de que um certo disco de música popular tocado ao contrário, espalhe a
mensagem de Carlos Marighela, ao que seu colega responde com realismo cruel: ‘mas companheiro
ninguém ouve disco ao contrário.’

A fração minoritária, ou até microscópica, não tinha como explicar isso senão reiterando a ilusão de
que só ela representava a consciência nacional, enquanto a população inteira vivia na alienação
sustentada pela máquina de propaganda do governo. Na verdade, essa máquina só se notabilizou pela
discrição e timidez. Ao longo dos vinte anos de regime militar, o governo não produziu um único filme
anticomunista, limitando-se a generalidades patrióticas sem qualquer conteúdo ideológico perceptível,
e nunca deixou de financiar generosamente os seus minguados adversários na literatura, no teatro, no
cinema e na indústria editorial.”

Vejam, esse mesmo tema de “nós, a minoria, somos a consciência nacional, portanto nós somos o
povo”, isso se baseia na doutrina do Georg Lukács, da consciência possível. Quer dizer, o partido não
expressa a consciência do proletariado, mas a sua consciência possível, aquela que ele virá a ter se o
partido tomar o poder e o esclarecê-lo. Então, não é um povo, é um povo virtual. Esse tema ressurge
hoje nas análises que todo o pessoal da esquerda está fazendo a respeito do impeachment da Dilma.
“Tão pouco era cabível culpar a censura. A mídia inteira era controlada pelos comunistas, e
invariavelmente as notícias proibidas, assim como peças de teatro e obras cinematográficas, eram
liberadas mais cedo ou mais tarde. Ao passo que a censura de livros foi praticamente inexistente.”

Eu acho que não chegaram a censurar cinco livros. Um desses era do jornalista australiano Wilfred
Burchett, que ensinava a fazer bombas, e como estava havendo atentados e essa coisa toda, eles
acharam melhor sumir com esse livro. E as notícias proibidas raramente eram de teor propriamente
político, eram geralmente notícias relativas a atentados terroristas, que o governo achava que
poderiam atrapalhar as investigações – em geral é isso. Censura de opiniões praticamente não houve.
Se tinha muito mais jornalismo de oposição circulando livremente do que teve durante toda a nova
república.
“A mensagem de revolta contra o estado de coisas, enfim, não tinha nenhuma ressonância popular. Foi
preciso um lapso de quase duas décadas para que algo de semelhante viesse a produzir-se, mas com
certeza não é isso que está em discussão aqui. O fato é que aqueles livros, filmes e peças teatrais,
expressavam corretamente as impressões de um grupo que, em compensação do seu isolamento, se
considerava a parcela mais esclarecida da população. Estatuto ao qual justamente o seu domínio do
mercado das artes e letras acabava por dar alguma confirmação retroativa.”

Isto aqui é importantíssimo:


“O fato mesmo de que tantas dessas obras se concentrasse nos problemas do intelectual, e não nos do
povo...”

Quase todos os heróis desses filmes ou são intelectuais ou os representam de algum modo.
“...já mostra que a vivência ali registrada era de uma minoria ínfima, que tomava a sua
intersubjetividade, a sua experiência intersubjetiva, como consciência nacional. E toma até hoje,
mesmo quando 96% da população a rejeitam e a desprezam.

As obras que mencionei, constituíram, portanto, o fundo imaginativo comum sob o qual a esquerda
veio a tecer a rede inteira das suas discussões políticas e estratégicas nas décadas seguintes, bem como
a linguagem básica em que essas discussões se tornavam imediatamente compreensíveis ao gosto dos
militantes e simpatizantes. Por exemplo, o debate entre a proposta guerrilheira e a via pacífica para a
conquista do poder, tão decisivo para o curso das coisas, na década seguinte já estava inteiramente
prefigurada em obras como Quarup, O desafio e A hora e vez de Augusto Matraga.

A criatividade literária da esquerda não se limitou a responder ao golpe de 1964, continuou registrando
as mutações psíquicas do grupo ante a derrota das guerrilhas, o advento da New Age, a fusão de
esquerdismo e banditismo etc. Só deu sinais de esgotamento depois da década de oitenta, quando a
importação massiva de slogans politicamente corretos da esquerda americana passou a favorecer, antes
o discurso propagandístico, do que qualquer esforço literário. A partir dos anos noventa, a esquerda
brasileira pode se considerar intelectualmente morta, justamente quando começava a sua escalada final
em direção ao poder. Mas, essa parte da história não é preciso relembrá-la aqui, já que a contei com
detalhes suficientes, ainda que de maneira fragmentada, nos dois volumes do Imbecil Coletivo, e nos
cinco até agora publicados das Cartas de um Terráqueo ao Planeta Brasil.”

Esses livros abrangem sobretudo este período da década de noventa até meados dos anos dois mil.
“Qualquer que seja o caso, o importante é reter este fato: entre as décadas de sessenta e oitenta, a
resposta literária e artística da esquerda nacional ao estado de coisas, forjou a imagem do mundo sobre
a qual se ergueram as suas novas concepções estratégicas, bem como uma retórica que logo se
espalharia para muito além dos círculos militantes e se tornaria a linguagem dominante de toda a mídia,
do show business e do meio universitário em geral, desfrutando ainda de uma imensa credibilidade
residual muito tempo depois de haver perdido todo o impulso criativo e se anquilosado num sistema
de chavões.”

Quanto vocês observam certos fenômenos como Feira Literária de Paraty e essas coisas todas, se
observa o seguinte: esse grupo ainda continua cultuando a ilusão de que ele representa a alta cultura
etc., embora tenha tudo acabado. Se vocês compararem os autores que tem aí, com os autores da
década de sessenta, [vão ver que os de hoje] são absolutamente ridículos, tanto na literatura, quanto
na ciência social, na filosofia etc. Quer dizer, eles morreram e não sabem, não foram avisados. Mas,
o quê que permite que isso continue acontecendo? É porque essa mitologia foi viva durante um certo
tempo, ela tinha vitalidade, ela refletia efetivamente a experiência deles nos anos sessenta. E o vigor
dessa simbologia inteira continua alimentando o imaginário deles mesmo depois que a fonte secou,
já não conseguem produzir mais nada, e por isso têm de viver dos mesmos mitos eternamente.
“A esse fato deve-se opor em comparação este outro...”

Isto aqui é fundamental para o que eu vou falar depois:


“...a ascensão cultural e política da esquerda, desde a década de 80, determinou mudanças muito mais
profundas, abrangentes e marcantes na sociedade brasileira, do que o golpe de 1964 e tudo que os
governos militares vieram a fazer. A decomposição moral da sociedade, a ascensão irrefreável do
tráfico de drogas e da criminalidade em geral, a disseminação epidêmica da incontinência sexual mais
descarada entre adolescentes e depois entre crianças menores, a completa destruição da educação
escolar, a migração em massa de fiéis católicos para toda sorte de igrejas evangélicas, o advento de
um anticristianismo militante cada vez mais agressivo, para citar os aspectos mais visíveis, constituem
transformações sociais imensamente mais vastas e impressionantes do que tudo que as administrações
militares ousaram sequer conceber em sonhos ou em pesadelos. Era de se esperar que mudanças de tal
magnitude produzissem na imaginação literária e artística nacional respostas mil vezes mais
dramáticas, mais numerosas, e mais inventivas do que a simples derrubada de um presidente em 1964,
ou mesmo o final patético das guerrilhas nos anos 70, no entanto, isso não aconteceu.”

Esse é o grande mistério. Quer dizer, um simples golpe militar, a derrubada de um presidente,
provocou uma efusão de criatividade literária, que depois desembocou em discussões, debates
político-estratégicos, etc., e culminou numa nova estratégia da esquerda que a levou enfim ao poder
quase cinquenta anos depois. Em seguida, a partir dos anos oitenta, há mudanças sociais
absurdamente devastadoras que afetaram a vida de todo mundo – não tem um brasileiro que não tenha
sido afetado por isso.
Por exemplo, essa questão da criminalidade, não tem um brasileiro que não tenha medo de sair e não
poder voltar para a casa, todos tem isso, a população inteira sofre com isso. A questão das drogas, me
mostre alguma família que não tenha pelo menos um drogado. A questão da sexualidade infanto-
juvenil, que hoje já virou um negócio escancarado para tudo quanto é lado.
Outro dia eu estava comentando que vi um vídeo de menininhas de uns dez anos brincando de “mulher
que encontra o marido no motel e que ainda leva uma surra da amante”, e daí estava uma xingando a
outra de puta, de arrombada etc. Tudo de uma maneira extremamente verossímil, parecia um
espetáculo de teatro, aliás, melhores do que atores profissionais. Isto é, as crianças estão vendo isso,
elas acham que isso é o mundo dos adultos, esse é o mundo que elas percebem e elas o estão
reproduzindo, assim como a gente brincava. Por exemplo, quando eu era moleque eu brinquei de
cowboy, brinquei de médico, brinquei de banco, brinquei de um monte de coisas, mas nunca brinquei
de corno – de repente isso virou o assunto das criancinhas.
Mas hoje eu vi uma coisa pior, alguém colocou na minha página um vídeo de quatro meninas que por
um motivo de ciumeira decidiram torturar e matar uma colega, e todas elas tinham entre treze e
dezesseis anos. Lá no vídeo aparece a menina amarrada, as outras dando pauladas nela, mas no fim
ela conseguiu fugir – o caso foi parar na polícia, está rolando ainda. Algo aconteceu com essa
molecada. Se pensarmos bem, crimes dessa ordem podiam acontecer entre pessoas de trinta ou
quarenta anos, mas crianças de treze anos não iam fazer isso.
Então, essa mudança afetava profundamente toda a nação brasileira, toda a população, e no entanto,
não houve reação literária alguma. Eu até escrevi um artigo chamado “Longa noite” falando sobre
isso. Na qual vemos que a literatura não registra nada, o cinema não registra nada, mas continua
falando as mesmas coisas que falava na década de sessenta, ou seja, ainda é a esquerda falando com
ela mesma. Na literatura não aparece absolutamente nada, [00:30] quando se vê algum romancista com
algum rudimento de talento o assunto dele é sempre subjetivo: é ele, e mais ele, e o umbigo dele, uma
coisa totalmente fechada; não se vê a coisa básica da arte do romance que é a conexão orgânica entre
alma individual e consciência social, a tensão entre a consciência e a sociedade não aparece em parte
alguma. Tudo isso ficou sem uma documentação literária, ou seja, ninguém foi capaz de expressar as
impressões que estava tendo.
Ora, expressar essas impressões ainda não é ter o diagnóstico da situação, não é nem sequer ter uma
descrição dela, mas se está tendo apenas uma descrição da própria reação, uma descrição das
impressões. Mas, sem estabilizar essas impressões num certo número de obras, o imaginário fica
solto. Não havendo a unidade do imaginário, em cima do quê que você vai discutir? Evidentemente
são coisas que parecem ser descrições, mas que na verdade são impressões soltas, porque não estão
elaboradas artisticamente, não tem o sentido de unidade.
Então, é claro que aparecem pessoas dizendo que o problema do Brasil é que temos de fazer a
separação do Sul, ou que o problema do Brasil é que é preciso fazer controle de natalidade, ou que o
problema do Brasil se resolve privatizando tudo, e por aí vai, é chute para tudo quanto é lado. E,
evidentemente, de todos os fatos acontecidos, o único fato que conseguiu se impregnar na consciência
nacional foi a corrupção do governo. Formou-se uma espécie de unidade fictícia entorno desse
símbolo “corrupção” e isso mobilizou as pessoas a irem para a rua etc.
Mas, sabemos perfeitamente que o termo “corrupção” nem de longe descreve o que estava
acontecendo – porque é como diz o próprio Lula, corrupção sempre existiu. Qual é a diferença
específica? É que desta vez, a corrupção veio de um imenso plano de tomada do poder que estava a
meio caminho – eles não chegaram a tomar o poder completamente como queriam – e que vinha
sendo elaborado desde os anos sessenta. É uma corrupção racional, planejada e de longo prazo, para
penetrar profundamente na sociedade – não é roubar dinheiro, é corromper toda a sociedade.
Vejam, as menininhas torturando as outras no fundo do quintal, que relação tem isso com o Zé Dirceu?
Alguém consegue sintetizar simbolicamente isso aí? É claro que uma coisa tem a ver com a outra,
são o mesmo fenômeno no fim das contas. Mas, não se tem a expressão imaginativa, não tem
expressão artística, então não condensa os símbolos.
Todas as reações ao estado de coisas – todas sem exceção – que apareceram, foram de natureza
puramente jornalística. São artigos, são blogs, as vezes são livros, mas tentando discutir a coisa já no
plano dos fatos sem ter o condensado simbólico inicial, portanto, apegando-se a fatos soltos, não tem
unidade, e não se consegue ter um diálogo. As pessoas ficavam gritando assim: “unidade da direita,
unidade da direita!” – mas se o sujeito não tem sequer a unidade imaginativa, como é que ele vai ter
a unidade estratégica? Isso é impossível. Eles estão querendo o impossível. Primeiro, é preciso fazer
com que as pessoas compartilhem de um certo estado de espírito geral e vago, mas suficientemente
reconhecível, e isso se condensa em símbolos. Quem faz isso? A arte faz isso.
Se a esquerda chegou ao seu estado de senectude literária, seu “alzheimer” literário, a direita mostrou
uma impotência literária e artística total. Não houve reação nenhuma, absolutamente zero. E se nos
perguntarmos por que não se conseguiu formar uma unidade de direita até hoje? É por causa disso.
Vocês estão entendendo qual é a verdadeira dimensão do fenômeno chamado guerra cultural?
Guerra cultural começa muito em cima. É preciso criar símbolos artísticos poderosos, obras de
altíssima qualidade, e daí vai descendo até chegar na música popular, nas novelas, no jornalismo, etc.,
mas tem que começar em cima. Isso o pessoal até hoje no Brasil não entendeu. Eles acham que guerra
cultural é questão de propaganda. Ora, toda propaganda requer um produto, e qual é o produto
exatamente? O quê que nós estamos querendo? Um quer uma coisa, outro quer outra, e cada um está
fazendo a propaganda do seu peixe. E não tem como não ser assim, porque não se tem um campo
imaginativo comum em cima do qual se possa desenvolver discussões organizadas.
Então, quando eu comecei este curso eu não pensei na ideia de ter efeitos políticos imediatos – o
pessoal dizia que eu queria montar um movimento de direita, são uns doidos, é claro que não. A minha
ideia era criar uma geração de escritores capacitados, nem todos evidentemente têm uma vocação
literária ou teatral, mas alguns tinham que ter e esses teriam que dar o pontapé inicial. Só que não
houve tempo, o nosso curso estava completando mais ou menos cinco anos quando estourou o
protesto em 2015. Os nossos alunos estavam crus, e os outros não tinham o menor preparo, nem
capacidade.
Mais ainda, não há um movimento intelectual de direita no Brasil desde os anos cinquenta, acabou.
Só quem conseguiu criar um movimento intelectual de direita foi a Igreja Católica no Centro Dom
Vital, que começa nos anos 20 com Jackson de Figueiredo, e depois com o Alceu Amoroso Lima, que
conseguem criar uma certa geração de escritores conservadores católicos. Mas, isso nunca chegou a
ser um movimento sequer, nem mesmo um movimento literário autoconsciente. E nos anos sessenta
eles todos começaram a ser banidos evidentemente, foram todos tirados de circulação.
Hoje mesmo eu estava lendo um ensaio que saiu na edição Kindle do livro de José Geraldo Vieira,
Terreno Baldio. E ali é comentado que ele em vida fez um sucesso extraordinário, todos o
respeitavam, e era sem dúvida o maior romancista brasileiro de todos os tempos, incluindo Machado
de Assis, mas depois que ele morreu, [sua obra] sumiu, ninguém nunca mais ouviu falar, por quê?
Bem, a cosmovisão dele em parte por ser cosmopolita, por abranger o mundo inteiro, por ultrapassar
muitas fronteiras do Brasil, e em parte por se basear em valores informalmente católicos – ele nunca
foi um católico militante como Gustavo Corção e outros – não combinava com essa cultura que se
formou a partir dos anos sessenta, então tinha de desaparecer mesmo, tinham que enterrar o homem.
Mas, não é que o enterraram, não é que falavam mal, é que ninguém falava nada, simplesmente sumiu,
não tem reedição não tem nada.
Bom, se vocês querem fazer guerra cultural, não pensem que com artigo de jornal e com discurso de
vereador vocês vão fazer guerra cultural. Isso aí é simplesmente militância política, e que aliás
também não há uma militância organizada. Guerra cultural começa na esfera da cultura – essa é a
grande novidade que estou dando neste curso. [risos] O pessoal não sabe disso, eles acham que guerra
cultural é “professorzinho” fazendo propaganda comunista nas escolas, eles acham que devem lutar
contra isso.
Em todo esse negócio, eu me inspiro na frase do Nietzsche, “só se derrota aquilo que se substitui”.
Vocês têm uma cultura conservadora para colocar no lugar dela? Não tem, portanto vocês não vão
ganhar. Vocês vão ficar apenas no aspecto negativo, quando não repressivo, que vai provocar mais
revolta ainda dos caras, e que é capaz de restaurar neles o sentimento de unidade por mero instinto de
autodefesa.
Voltamos ao ponto inicial, ou temos uma cultura não-comunista, ou anticomunista, ou
suficientemente capaz de se sobrepor a cultura comunista, ou não temos nada. Temos apenas
candidatos a vereador aqui e ali, e quem vai tirar proveito disso aí é a oposição escolhida pelo PT,
que é o PSDB – que foi o grande vencedor dessas eleições evidentemente. Portanto, ainda não saímos
do dualismo criado em 65 – ou 66, não me lembro – quando se criou o Centro Brasileiro de Análise
e Planejamento (CEBRAP), que era uma espécie de central, um think-tank da esquerda nacional, com
Fernando Henrique Cardoso, José Arthur Giannotti, e toda essa cambada, que eram o pessoal que
antes contribuía para as revistas de cultura comunista, como a Revista Brasiliense por exemplo, e que
ali se condensaram, e ali começaram um certo tipo de análise e de estudos que culminou no fim da
adoção da estratégia gramsciana, e na ascensão irrefreável da esquerda ao poder.
Estão começando a entender o que realmente se passou?
Que fosse necessária uma reação na esfera literária e imaginativa antes de qualquer outra coisa, não
foi preciso ninguém para dizer isso aos escritores esquerdistas. Eles espontaneamente sabiam que era
assim e começaram a reagir no seu devido plano. Muito mais tarde, muitos desses romances viraram
telenovelas, e se popularizaram etc. – mas vejam, a popularização é popularização de alguma coisa,
é preciso ter o produto antes. O ponto fundamental da guerra cultural é que ela nada tem a ver com
propaganda, essa não é a prioridade.
Antes vocês têm de obter a conquista da hegemonia intelectual. Vejam, hegemonia intelectual é
diferente da hegemonia cultural. A hegemonia intelectual é ter em mãos as concepções mais
abrangentes que engolem todas as outras, e que de certo modo se impõem por si mesmas como a
visão natural das coisas. Ou seja, se tem ali a matriz do senso comum, e esta evidentemente, está na
alta cultura. Se vocês dispõem da hegemonia intelectual, ou seja, se não há visões de mundo
concorrentes, como de fato não havia entre os anos sessenta e oitenta, a visão da esquerda não tinha
concorrentes, então aí se pode partir para a hegemonia cultural propriamente dita. Isto é, a luta pelo
domínio dos canais de difusão desta mesma cosmovisão, que se tornará no fim das contas tão natural
que ninguém pensará em contestá-la – não é que vocês vão derrotar o adversário, vocês não terão
adversários.
Vejam, por exemplo, essas lendas urbanas, “o líder comunista que teve seus genitais derretidos a
maçarico”, se falarem isso todo mundo acredita, eles acham que isso acontecia. O pessoal acha que
durante o regime militar houve queima de livros, eles acreditam piamente que houve uma destruição
da vida intelectual brasileira na época.
O Nelson Werneck Sodré, que era um general comunista, escreveu o livro A Fúria de Caliban que
fala sobre a repressão da vida intelectual brasileira pelos militares, mas os militares não reprimiram
absolutamente nada. O máximo que eles fizeram foi demitir de algumas universidades federais alguns
camaradas, que em seguida imediatamente obtinham financiamento particular do próprio Fernando
Henrique Cardoso, e arrumavam empregos muito melhores do que na universidade. O próprio Sodré
ao falar da perseguição e da extinção da vida cultural no Brasil, ingenuamente confessa que naqueles
anos, entre 64 e 65, ele ganhou diversos prêmios literários, publicou várias resenhas a favor dos livros
dele no Estadão, na Folha, no Globo, etc., e no fim recebeu uma homenagem no Instituto Brasileiro
de História e Geografia Militar em uma cerimônia sob a presidência do Marechal Castelo Branco.
“Uai, mas ele não era um perseguido, não era um cara excluído?” – eu pensei. Então, o livro tem esse
efeito cômico, ele próprio é uma demonstração de que o que está escrito nele é falso.
Mas, se for dito popularmente que naquela época eles expulsavam todos os intelectuais, a elite
brasileira era mandada para fora, era presa, era morta, etc., todo mundo acredita. Por quê? Porque
esses filmes, esses romances, fixaram sobretudo a imagem do intelectual angustiado. Não perseguido,
mas sentindo-se isolado, coitadinho etc. A coitadice intelectual, por assim dizer, se expressa numa
visão materializada, na qual os intelectuais foram realmente perseguidos de modo físico. Agora, se
perguntarem: de todas aquelas pessoas que foram presas ou mortas por exemplo, quantas eram
grandes intelectuais, ou quantos tinham pelo menos uma obra considerável? Nenhum, é zero,
ninguém. No máximo eram jornalistas, os mais inteligentes eram jornalistas.
Vejam, a visão que foi criada por essa literatura de ficção nos anos sessenta a oitenta, se impregnou
na mentalidade brasileira e virou senso comum, isso demora para fazer, não pensem que esses
romances venderam de imediato milhões de exemplares, não. Também não foi com um romance que
se fez, nem com um filme, mas com vários, que expressando essa mesma vivência desde ângulos
diferentes, acabaram se condensando numa constelação mitológica, que para a geração seguinte já é
história. Entenderam? É assim que se faz.
Agora, os outros aspectos mais materiais da guerra cultural, como a ocupação de espaços, o boicote
dos adversários, etc., é impossível [de se fazer] sem isso. Porque é preciso primeiro ter uma espécie
de unidade psíquica, anímica, que só se forma através da imaginação.
Vou terminar de ler aqui:
“De um lado a intelectualidade esquerdista não teria porque reagir literariamente a situações que agora
investidas de considerável poder cultural e político, ela mesma estava produzindo. Expressar com
sinceridade qualquer impressão genuína ante o estado de coisas, só poderia ser contraproducente para
a nova classe em ascensão. Agora, só interessava cultivar os chavões convenientes, repetir em todos
os megafones o discurso dos meninos de rua, dos jovens negros massacrados pela polícia, das mulheres
vítimas de violência doméstica, dos milhares de gays assassinados, do preconceito e discriminação etc.
Não é preciso dizer o quanto esse estado de espírito, sufocando a vivência da realidade sob toneladas
de estereótipos repetidos com uniformidade geral e obsessiva, era hostil a qualquer criação literária ou
artística que merecesse o nome. O acesso livre de escritores intelectuais e artistas às verbas oficiais
cada vez mais generosas e ilimitadas, cimentou a redução da cultura à propaganda, o que é o mesmo
que dizer a morte da cultura.”

Quer dizer, a esquerda fez um suicídio intelectual e literário, na mesma medida em que estava se
apossando dos instrumentos do governo.
“Um exemplo praticamente único de impressão autêntica, vazado quase que por desatenção para
dentro de uma obra cinematográfica, a cena de Tropa de Elite em que o policial estudante acusa os
seus colegas burgueses leitores de Foucault de serem como consumidores os verdadeiros culpados do
tráfico de drogas, ilustra com muita clareza a proibição de perceber, o que se tornou um mandamento
obrigatório nos meios esquerdistas. O episódio suscitou tanta indignação e escândalo, não porque fosse
falso, mais justamente porque traduzia uma realidade visível aos olhos da cara, que o diretor se viu
obrigado a produzir um segundo capítulo do filme com afagos apaziguadores na alma esquerdista. A
verdade da existência fora definitivamente, e por assim dizer, oficialmente banida do imaginário
esquerdista, e substituída pela língua de pau da propaganda politicamente correta.”

Ora, espera aí, mas e pelo lado oposto? Pelo lado dos conservadores, cristãos, liberais, etc., aonde
aparece neles uma reação literária e artística à verdade da existência? Simplesmente não aparece. Só
aparece propaganda, candidatura a vereador, no máximo alguma retórica política muito chinfrim,
programas de televisão, programas de rádio, blogs, é só isso. Isso quer dizer que, esse pessoal liberal,
conservador, cristão, etc., também se alienou da verdade da existência. Eles só são capazes de falar
na linguagem da retórica política. Não são capazes de contar uma história concreta, material,
individual, com vida, não são capazes de fazer isso.
Por exemplo, o drama do pai que vê sua filha de doze ou treze anos que vai para festinhas e acaba
engravidando de algum sujeito adulto, ou que por vezes não sabe nem quem é o pai, não sabe de
quem engravidou – eu não vi essa estória contada em lugar nenhum. A estória dessas crianças que
brincam de “mulher que encontra marido no motel e ainda apanha da amante”, as próprias crianças
fizeram o vídeo, eu não vi nenhum escritor conservador explorar isso aí. Ou seja, a verdade concreta
da existência desapareceu, tanto da mentalidade da esquerda, quanto da mentalidade da direita, aonde
ela nunca esteve aliás.
Não é preciso lembrar que a indolência intelectual da direita no Brasil é um negócio tão tradicional
que a própria esquerda tira proveito publicitário disso. Quer dizer, a imagem que o Lêdo Ivo e o
Marques Rebelo criaram da direita, entre 64 e 65, como sendo um bando de brucutus, até hoje aparece
na retórica – está aí o “Arruinaldo Azevedo” que não para de dizer que o Bolsonaro é um brucutu etc.
Quer dizer, a direita é um bando de analfabeto, grosseirão, sargentão... essa imagem foi criada em
1965 e até hoje funciona! Para se opor a isso, o quê que existe? Existe algum videozinho do exército
mostrando os soldados abrindo estradas, dando vacina nos indiozinhos... só isso. E vocês acham que
com essa porcaria dessa propaganda vocês vão se opor a uma tradição intelectual literária de mais 50
anos.
Estão entendendo qual é o problema?
Se vocês procurarem pessoas de direita, conservadoras ou liberais que escrevem, digo logo: primeiro
de tudo que ninguém ali sabe escrever, ninguém sabe escrever sequer português correto, não têm a
noção de propriedade vocabular, não têm ‘ouvido’ – as pessoas a toda hora me mandam aqui algumas
poesias, e estou vendo que esse povo não têm ‘ouvido’ e não sabe sequer contar sílabas; ou seja, não
se tem respeito pela literatura nacional, não se lê literatura nacional; só leem Mises, Roger Scruton,
David Horowitz, só isso que eles leem; eles leem Olavo de Carvalho evidentemente, mas é um autor
apenas, por melhor que eu tente escrever, por mais que eu me esforce para ser um escritor – que de
fato eu sou – eu sou o último, eu sou o sobrevivente como diz meu nome, e um cara só não adianta.
Vocês precisam de uma tradição, precisam ler os romances brasileiros desde o início, precisam se
impregnar disso aí. Precisam aprender o quê que é o espírito da narrativa romanesca – as pessoas não
têm isso.
Isso quer dizer que, a rigor a guerra cultural não começou ainda. Houve uma guerra cultural que se
transfigurou numa revolução política, tomou o poder, foi parcialmente derrubada, mas continua
dominando todos os instrumentos e tendo ainda uma hegemonia intelectual e cultural. Do outro lado,
tem reações esparsas de natureza jornalística e política no máximo – essa é a situação na qual nos
encontramos e dentro da qual apareceu a ideia deste curso.
Entenderam?

***

Vamos fazer um intervalo e daqui a pouco voltamos com as perguntas.


Aluno: O fato de Marcelo Freixo do PSOL ir para o segundo turno no Rio de Janeiro teria alguma
ligação com o trabalho cultural da esquerda?
Olavo: Óbvio que tem. O Rio de Janeiro é a capital literária do Brasil desde o século XIX e continua
sendo. O Rio sempre será uma fortaleza do esquerdismo enquanto a hegemonia intelectual não for
derrubada, é muito simples. Não adianta fazer campanha – as pessoas dizem que o Bolsonaro fez uma
boa campanha e tal, pode ser, mas isso não é a causa principal. A causa é que este esquerdismo esta
arraigado no imaginário carioca a muitas décadas, e não vai ser fácil de tirar, não é com propaganda
política, não e com candidatura a prefeito, vereador, ou governador que se vai acabar com isso.
Vejam, esse pessoal não construiu essa hegemonia em dois dias, portanto ela não será destruída em
dois dias. E se não destruir a hegemonia, vocês podem até tirá-los do poder hoje, mas eles voltam
amanhã inexoravelmente. Por quê? De onde sai a classe política? Sai eminentemente da classe
universitária, que é o grosso dos leitores de romances etc.
Aluno: O termo teoria da conspiração, de acordo com um trabalho de um cientista político
americano, foi inventado e colocado em circulação pela CIA em 1964 para desacreditar os muitos
céticos que contestavam as conclusões da Comissão Warren de que o Presidente John F. Kenedy
tinha sido assassinado por um atirador isolado.
Olavo: Eu não sei se foi inventado aí, não acredito nisso, eu acho que esse termo já era bem anterior.
Aluno: Sou graduando de filosofia na Universidade Federal do Paraná e na minha turma sou um dos
únicos estudantes que se posicionam contra o esquerdismo e contra o marxismo cultural. Minha
pergunta é: devemos defender o ensino conservador quando esse é criticado pelos professores? Se
sim, que argumentos devemos usar?
Olavo: Nós não temos uma cultura conservadora. Isso é uma coisa fundamental: só se destrói aquilo
que se substitui. Nós não temos uma cultura conservadora para colocar no lugar. Supomos que,
idealmente, nomeamos o sujeito como Ministro da Educação com plenos poderes para demitir quem
ele quiser etc. O que você faria? Não poderia fazer nada, ele não tem quem colocar no lugar desses
caras. Está entendendo? O problema principal é esse: formar uma nova intelectualidade brasileira
capaz de transcender o círculo de ferro dessa concepção politicamente correta etc. Ou nós superamos
isso intelectualmente, ou não adianta querer superar eleitoralmente com disputa de cargos.
Aluno: Podemos considerar a Igreja Católica um agente histórico tendo em vista que ela
constantemente se encontra infiltrada e manipulada por agentes evolucionários?
Olavo: Bom, essa infiltração começa entre os anos vinte e trinta do século XX. É claro que a Igreja é
um agente histórico, e um dos agentes históricos mais claros e nítidos cuja a ação persiste ao longo
dos séculos com uma expansão que nunca parou, não parou nem no século XX – neste momento tem
gente levando mensagem da Igreja Católica para tribos da África, da Índia, etc., neste mesmo
momento há uma catequese imensa na Índia. Isto é, não se pode confundir a Igreja Católica com o
que acontece no Vaticano. Os caras podem infiltrar gente nas altas esferas, mas não vão infiltrar gente
até no último mosteiro, lá onde ninguém quer ir – pode até haver alguma infiltração aí, mas certamente
não é significativa.
Aluno: Na segunda aula o senhor identifica a Igreja Católica como agente histórico. Me parece ter
existido pelo menos quatro momentos em que se vê ações nítidas determinadas a quebrá-la: (i) Sínodo
do Oriente, [01:00] (ii) a Reforma Protestante, (iii) o espírito do Concílio Vaticano II, (iv) a oposição
aberta a Encíclica [Humana Vitae].
Olavo: Sem sombra de dúvida. Em todos esses momentos a ideia foi justamente quebrar a
continuidade da ação histórica da Igreja Católica, e em muitos casos conseguem, conseguem aqui, e
ali.
Alguém até me pede para falar da função da Reforma Protestante na história da guerra cultural – eu
vou falar disso na outra aula.
Muitos instrumentos de guerra cultural – mas instrumentos mais populares, não tanto intelectuais –
foram inventados pela Reforma Protestante. Por exemplo, esses mitos que até hoje circulam no
cinema a respeito da Inquisição – tudo isso é invenção protestante. Não é questão de discutir
protestantismo e catolicismo, mas os protestantes criaram a mais longa campanha de difamação da
história humana – a mais longa e a mais vasta. Os comunistas não tiveram [tanto alcance quanto a
Reforma Protestante], isso aí prosseguiu durante cinco séculos, não é brincadeira.
Aluno: Como a luta contra a Igreja se encaixa no contexto da guerra cultural?
Olavo: Muito bem. O Antonio Gramsci viu claramente que o maior problema do comunismo era a
Igreja Católica. Por quê? As igrejas protestantes são muitas, são como farelo, estão espalhadas por
todo canto, uma não se entende com a outra, e quando se tenta criar uma central unificada, como o
Conselho Mundial das Igrejas, já se cria sob hegemonia comunista. O CMI é um órgão comunista
criado pela KGB, e vem aquele bando de idiotas, chefinhos das várias igrejas protestantes, todos
contentes, “ah, agora nós vamos nos unir, vamos ser mais fortes”. Então, as igrejas protestantes, nesse
sentido, são mais fáceis de manipular do que a Igreja Católica.
A Igreja Católica só tem um jeito de manipular: tem que dominar a alta hierarquia. E é justamente o
que eles estão tentando fazer a várias décadas, e mesmo assim os resultados não são muito
espetaculares. Porque até mesmo a influência de um Papa é reduzida em função dos hábitos
consolidados dos fiéis, eles não vão mudar de mentalidade só porque o Papa mandou. O quê que é
uma encíclica do Papa, quantas pessoas leem uma encíclica? Só intelectuais e padres. Até isso chegar
a população, leva muito tempo. Então, evidentemente, esse processo de castração da Igreja Católica,
é um processo muito lento. É por isso que as vezes vemos os camaradas se desesperando com a ideia
do Antonio Gramsci de mudar a igreja por dentro, e começam a persegui-la por fora de maneira brutal.
Isso é sinal de que a revolução cultural não está funcionando muito bem, então eles têm de apelar
para os métodos leninistas.
Aluno: Sobre as transcrições de aulas: não compreendo como fazê-las.
Olavo: Eu não tenho uma técnica para você fazer as transcrições das aulas. Mas, eu lembraria você
de que quase 50% das obras dos filósofos que circulam no mundo são cursos transcritos por alunos,
numa época em que não havia gravador. Os alunos utilizavam a estenografia, e as transcrições saiam
perfeitas, claríssimas e sem erro. Então, isso tem que ser possível de fazer de alguma maneira.
Até hoje eu não vi nenhuma transcrição de algum curso meu que me parece adequada ou pronta para
publicação. Algumas estão melhores, outras estão piores – e de qualquer modo é sempre bom ter a
documentação bruta do que não ter nada, é claro. Esse é um material que até eu mesmo talvez possa
trabalhar, mas eu jamais terei tempo de fazer isso.
Semana passada mesmo estávamos falando do Schelling, os dois principais livros dele que são a
Filosofia da Mitologia e a Filosofia da Revelação, jamais foram escritos. São notas estenográficas
tomadas por vários estudantes, que depois as juntam e conferem, para saber exatamente o que foi que
ele disse, e conseguir extrair das várias formulações verbais diferentes a formulação formal feita pelo
expositor. Eu citei o exemplo do livro do Bernard Lonergan, Topics in Education, que foi feito cinco
transcrições diferentes para se chegar a uma fórmula final – isso é um trabalho muito bonito de se
fazer, e muito difícil.
Aluno: Tenho pensado muito na opressão psicofísica causada pela terrível forma arquitetônica da
cidade de São Paulo.
Olavo: Ora, não podemos esquecer que quem começou a destruir a aparência das cidades brasileiras
foi o governo militar, não foram os comunistas. Isso demonstra o quê? Falta de consciência cultural.
Eles só pensavam na funcionalidade do trânsito, só nisto. Eram engenheiros militares, acostumados
a construir aquelas pontes que quando termina a guerra se dinamita a ponte. Então, são engenheiros,
não são arquitetos, muito menos urbanistas. Quando fizeram o minhocão em São Paulo, e obras por
aí, acabaram com a aparência física da cidade, sobretudo apagaram o passado.
Como é que se pode falar em cultura conservadora se não se tem sequer a memória do passado? Dá
vontade de pegar aqueles milicos daqueles anos e lhes dar umas chineladas na bunda, porque é coisa
muito infantil, na verdade. Aquela mentalidade praticista, aquele pragmatismo idiota, não têm a
menor consciência.
Vejam, para aqueles militares todos, incluindo Golbery do Couto e Silva, cultura era adorno, era
enfeite – “nós temos de resolver aqui os problemas materiais etc.” – e daí pagam uns artistas para
enfeitar um pouquinho, é essa a mentalidade. E muita gente a tem no Brasil até hoje. Se vermos a
revista do Banco Itaú, Personnalité, o que eles chamam de cultura é só enfeite, é só boniteza. A nossa
burguesia tem essa concepção – isso quando não caem na concepção da esquerda. Nossos militares
também têm essa mesma concepção.
Estão entendendo o porquê que a esquerda dominou o panorama tão facilmente? A hegemonia cultural
foi conquistada invadindo um espaço aberto.
Por exemplo, quando chegaram os liberais no Brasil: o liberalismo é uma espécie de novidade no
Brasil, foi introduzido pelo Instituto Liberal, acho que nos anos setenta ou oitenta, criado pelo meu
amigo Donald Stuart Junior. E aí começam a publicar os livros do Mises, Hayek etc. Muito bem, mas
qual a cultura literária criada pelos liberais? Eu conheço uma obra, que é um romance satírico escrito
pelo Meira Penna, engraçadíssimo, mas nunca foi publicado, circula pela internet, essa foi a única
obra. E notem bem, o Meira Penna não é um ficcionista, ele fez isso quase que por brincadeira.
Portanto, não se vê um esforço literário, não há uma representação do quê que é a experiência de
viver no Brasil do ponto de vista de uma alma liberal, o quê que é sentido aí. Eu não acredito que isso
seja possível, pois o liberalismo não tem essa tradição literária. Há uma tradição literária comunista,
conservadora, cristã, fascista, tudo isso existe. Mas liberal? Não conheço. Liberal só os livros da Ayn
Rand, e um pouquinho com Mario Vargas Llosa, mas eu não acredito que a literatura dele tenha algo
a ver com liberalismo. O Livro do Meira Penna, Urânia, é um congresso internacional de ufólogos e
é muito engraçado o negócio.
Aluno: Neste mês Leonardo Boff estará em minha faculdade dando palestra sobre religiões. O senhor
sugere que eu diga algo além de chamá-lo de excomungado?
Olavo: Não. Você prove que ele é excomungado, mostre o texto do decreto, mostre que ele é um
excomungado. É uma coisa muito simples, né?
Aluno: Qual livro devo ler primeiro, o do Lyle Rossiter, A Mente Esquerdista, o livro do Vladimir
Tismăneanu, Do Comunismo, ou Olavo de Carvalho, A Nova Era e a Revolução Cultural?
Olavo: Você deve ler os três, sem dúvida. Mas, para o fim do que nós estamos conversando aqui, o
do Lyle Rossiter é mais importante – se bem que ele está focado na esquerda americana, você terá de
fazer uma série de adaptações aí.
Aluno: O Jardim das Aflições, do Josias Teófilo, Bonifácio, do Mauro Ventura e alguns outros podem
ser considerados o pontapé inicial na guerra cultural no Brasil?
Olavo: Sem sombra de dúvida. Só que nenhum deles está lidando com ficção, estão lidando com
material documental histórico. É preciso começar a trabalhar a imaginação, tem que imaginar o que
foi a vida das pessoas de carne e osso, pessoas reais durante esse período, em quê que a vida de
brasileiros reais foi afetada por tudo isso que aconteceu, em quê que nós mudamos ao longo das
décadas. Por exemplo, o nível de corrupção que foi alcançado na esfera federal. Isso não acontece
sem que a sociedade tenha sido preparada para isso. No quê que nós mudamos?
Eu vejo uma diferença muito grande, até na voz das pessoas. Para encontrarmos hoje um rapaz de
vinte anos com voz de homem é muito difícil. Eles não são gays, não é isso, simplesmente o tom de
voz subiu na escala, virou voz de mulher. Foi por causa da testosterona? Não sei, pode ser, mas algo
aconteceu. Essa progressiva feminização da sociedade – vejam, estamos em uma sociedade em que
se tem cada vez mais violência, cada vez mais crime, as pessoas são obrigadas a cada vez mais ter de
lidar com situações perigosas, no entanto, ao mesmo tempo as pessoas estão se tornando cada vez
mais débeis e cada vez mais incapazes de se defender – isso é gravíssimo. Como é que o sujeito pode
ver isso acontecer, ele tendo um algum talento literário, e não querer contar o que está acontecendo?
Vai ficar falando de corrupção e PT apenas? Isso é de uma superficialidade horrorosa, isso não está
na guerra cultural, isso está na guerra política, é troca-troca de propaganda.
Aluno: Há um aspecto do período posterior aos anos sessenta ou setenta que é o de explorar as
drogas e a violência. Filmes como Cidade de Deus, Tropa de Elite, Ônibus 174, Pixote e etc.
Olavo: Muito bem, mas estes em geral são explorados com a cosmovisão da própria esquerda. Isto é,
os bandidos são os coitadinhos, vítimas da estrutura social, etc., até o Tropa de Elite 2 teve que ceder
a esta mentalidade. Isso reflete a visão real que o brasileiro tem? Reflete a visão de todos os dias? Me
parece que não. Porque a população diz que não, a população diz que ela é a vítima, e que são os
bandidos que estão sobre a proteção do governo, é isso que estão sentindo. Alguém consegue
expressar esta experiência humana? Não, não expressa. Isso só aparece em discurso político, o
Bolsonaro diz isso. Aparece em programa de televisão também, o Ratinho diz isso. Mas, não se tem
uma expressão literária estabilizada séria disso aí.
Muito bem, acho que por hoje é só.
Na próxima aula vamos voltar um pouco a questão da história da guerra cultural, mas eu espero que
este exemplo brasileiro tenha situado vocês de maneira melhor no contexto da coisa. Deve se levar a
sério a expressão guerra cultural – guerra cultural é guerra cultural, não é propaganda, não é
doutrinação. É uma coisa que vem antes, e que prepara o terreno para tudo isso. Quando for para se
passar da mera hegemonia intelectual para a guerra cultural, aí será preciso de gente treinada, e aí é
outro problema, eu o abordarei na próxima aula.
Até semana que vem, muito obrigado! [01:14:57]

Transcrição: Iara Bel Valpere


Revisão: Rahul Gusmão

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