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Fichamento Referente A: SCHWARTZ,

Stuart B. E LOCKHART, James.


"Maturidade Nas Índias Ocidentais: áreas
Centrais.".
O livro “A América Latina na época colonial” de autoria de Stuart B. Schwartz e
James Lockhart, é, de acordo com vários críticos, uma das melhores sínteses da história
da América Latina que nos ajuda a compreendê-la como é hoje. O capítulo “Maturidade
nas Índias ocidentais espanholas: áreas centrais” em particular, trata de um período
compreendido entre 1600 até 1750 – com algumas variações dependendo de uma pequena
região para outra- entendido como um período de “relativa estabilidade e evolução lenta”
(p. 155).

Neste capítulo os autores abordam questões que vão desde a configuração étnico-
social, passando pelas variações econômicas do período, pelas crises dinásticas ocorridas
na Espanha, a arte barroca, as características de governo, política e leis, a Igreja, suas
ordens eclesiásticas e processo inquisitório, o comércio internacional de ouro e prata e até
a vida intelectual do referente período. Mas, percebe-se, pela leitura do capítulo, que
foram principalmente as formas de trabalho que ajudaram a delinear os contornos que
essa sociedade viria a adquirir futuramente.

De acordo com os autores, inicialmente, na América Hispânica, todas as atividades


econômicas ali desenvolvidas, desde as formas de trabalho exploradas, o que seria
produzido e até os meios de comércio, eram voltados para o público espanhol,
demonstrando pouco interesse nos modos ou na vida indígena. “O setor espanhol (...) era
grande o bastante para aumentar consideravelmente a demanda de itens de consumo de
estilo europeu (...) A economia europeia local e inter-regional cresceu, ficou mais
diversificada e parcialmente fechada em si mesma (sem perder, de forma alguma, sua
orientação básica para a exportação de prata). Esta foi a época da maturação das haciedas
– forma mais hispanizada e mais baseada na agricultura do que as encomendas; bem como
foi a época do florescimento dos obrajes – manufaturas ou oficinas que produziam
tecidos, geralmente de estilo espanhol, para consumo local, usando tecnologia espanhola
ou de influencia espanhola.” (p. 156) “ A economia local permaneceu secundária devido
ao fato de que o objetivo principal de toda a atividade espanhola era conseguir prata. Não
havia razão para aumentar a produção de carne ou trigo se os mamelucos, mulatos e índios
hispanizados, que desejavam tais produtos, não podiam pagar por eles.” (p. 166)

Um fator importante também, para Schwartz e Lockhart, para compreender essa


transformação que se deu de forma gradual e silenciosa é que, este período, foi o ápice da
hierarquia étnica e que, na medida em que a sociedade foi se miscigenando e se tornando
mais complexa , foram surgindo novos setores sociais intermediários e, por conseguinte,
novas formas de trabalho foram sendo exploradas e acabaram por reconfigurar diversas
estruturas dessas sociedade. “A expansão social e étnica (...) teve consequências
econômicas de longo alcance (...) foi possível formar e pôr em funcionamento, á maneira
espanhola, mais tipos de organizações econômicas do que antes.” (p. 166)
Além da mudança da encomienda para a hacienda que, segundo os autores é um
marco do período maduro, temos também uma intensificação do trabalho nas mitas. Neste
novo cenário, cada vez mais complexo em que uma atividade ou forma de trabalho se
relacionava e complementava a outra, foram surgindo núcleos urbanos, para atender os
trabalhadores e assim, sucessivamente, mercados, cada vez mais diversificados. “Os
mercados estavam nas capitais, nas minas e ao longo das rotas principais” (P. 166) E,
nesse sentido, “os espanhóis açambarcaram aos poucos a coca, o milho e o pulque, quando
se tornaram lucrativos em determinado período e lugar. Alguns desses produtos, dos quais
o cacau é o maior exemplo, deixaram de ser restritos aos índios e passaram a ser
consumidos e vendidos entre a população geral.” (p. 167) “Os índios também adquiriram
necessidades espanholas e somaram-se ao mercado (...)” (p. 167)

Ou seja, em linhas gerais, durante o período dito como o “maduro”, as sociedades


da América Latina foram se tornando cada vez mais complexas. Os grupos raciais foram
se misturando, as formas de trabalho foram se ampliado e com isso as cidades foram
também, se configurando. Aonde havia mitas, obrajes, ou haciendas, havia
obrigatoriamente um pequeno núcleo urbano para abastecê-los e, aonde havia cidades
havia a presença da igreja e a presença do Estado. Sem contar as cidades portuárias que
iam surgindo para o escoamento da prata e para a defesa contra possíveis invasores.
Assim, essas sociedades foram adquirindo características próprias, suas próprias
estruturas e própria cultura e, essa autonomia, de uma sociedade com identidade
particular, vai dando margem aos futuros projetos de independência.