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O conhecimento racional e experimental

AULA 3 O mundo está em constante mudança e transformação. O mesmo acontece com


a visão de mundo que pode ser alterada por uma nova informação ou experi-
ência. O humanismo renascentista lança as bases da Filosofia moderna que
desenvolve muitas correntes, entre elas, o racionalismo (razão) e o empirismo
(experiência).

O homem no centro

O “Homem vitruviano”, de Leonardo da Vinci, 1492 (final do século XV)

O homem e o saber

O humanismo ou antropocentrismo coloca o homem no centro das atenções e evidencia a


razão, em oposição à visão medieval orientada pelo poder divino. O humanismo renascentista
revela-se como um método de aprendizado com base no pensamento racional e na experimen-
tação. O desenho de Leonardo da Vinci é tido como um ícone cultural que sintetiza o saber fun-
damentado na ciência e na técnica. A criação de cunho renascentista tem como referência textos
do arquiteto romano Vitruvius (século I a.C.). Apresenta a figura humana, com mãos e pernas
abertas, encaixada em um círculo, cujo centro seria o umbigo, e contida, exatamente, dentro de
um quadrado.

Filosofia 1 - Aula 3 25 Instituto Universal Brasileiro


FilosofiadaAntiga
Contexto Filosofiae moderna
Filosofiaé Medieval
marcado por transformações
O período que se inicia no final do século XV contato comercial e de conquistar novos territórios.
e se estende até o início do século XVIII é de inten- Teve início no século XV em Portugal e Espanha.
sas transformações sociais, políticas e econômicas Com o desenvolvimento de técnicas de navega-
que determinam mudanças radicais na história. ção, conhecimentos cartográficos e instrumentos
Destacamos alguns movimentos decisi- náuticos, o movimento ganhou força no século XVI.
vos neste processo.

• Renascimento cultural. Movimento


cultural que surge na Itália e se espalha pela
Europa. Teve início em meados do século XIII, Estudos desenvolvidos por cientistas e filó-
mas ganhou expressão máxima a partir do sécu- sofos foram fatores decisivos para a descentrali-
lo XVI. O movimento tem como marca o retorno zação do monopólio intelectual da Igreja na época.
à Antiguidade, com muitas críticas à Idade Média Dentre os mais importantes destacam-se: Nicolau
que foi considerada como um período domina- Copérnico (1473–1543) com a fundamentação
do pela religião, sem apresentar avanços cultu- do heliocentrismo, que colocou o Sol como o cen-
rais. Por isso, a Modernidade retoma os valores tro do Sistema Solar; Francis Bacon (1561–1626)
da Antiguidade, daí o nome Renascimento. En- com a teoria empirista e a metodologia científica; e
tre os valores renascentistas mais expressivos Isaac Newton (1643–1727) com as leis da Física.
estão: o humanismo ou antropocentrismo, que
coloca o homem como ponto central; e o racio-
nalismo, com métodos experimentais científicos.

• Reforma Protestante. Movimento refor-


mista que teve início no século XVI. Apesar de
seu caráter predominantemente religioso, teve
influências muito fortes nas concepções de eco-
nomia e educação, atendendo aos interesses
sociais e políticos da burguesia emergente.

• Descobrimentos marítimos. Movimento


de expansão marítima com o objetivo de ampliar o Carta antiga do cosmos e dos planetas, 1846.

Filosofia moderna
Surge um novo modo de viver; uma nova
Séculos final XV XVI XVII XVIII religião, o protestantismo, trazendo a ideia de
liberdade para o homem frente à religião, bem
A Filosofia daquela época foi um reflexo como uma preocupação com o homem livre e
do momento político e econômico. Os movi- racional. As teorias passavam por transforma-
mentos marcantes do período como a perda ções políticas, científicas, tecnológicas e de
da hegemonia da Igreja Católica, o desen- pensamento, entre outras, com o surgimento
volvimento do comércio com as navegações, de novos filósofos e diferentes elaborações.
o processo de colonização, a formação de Diferentemente dos debates da escolás-
impérios e o desenvolvimento do capitalis- tica medieval, naquele período, os fundamen-
mo têm influências sobre o pensar filosófico. tos da realidade foram questionados sobre o
Filosofia 1 - Aula 3 26 Instituto Universal Brasileiro
que era e como ocorria o conhecer, e qual o
papel do homem, da ética e de outros colo-
cando o homem, agora “sujeito moderno”, no
centro de tudo; sem esquecer-se das novas
invenções e descobertas que se tornaram um A invenção da imprensa, creditada ao
desafio para a época. inventor e gráfico alemão Johannes Guten-
A Filosofia moderna abrange o Renas- berg (1398-1468), foi muito importante para a
cimento (séculos XV e XVI), o racionalismo e difusão das novas ideias.
empirismo (século XVII) e o Iluminismo (sé- A invenção da imprensa é o
culo XVIII). Vamos fazer uma divisão didática, maior acontecimento da história. É a
com comentários apenas sobre alguns filóso- revolução mãe... é o pensamento hu-
mano que larga uma forma e veste ou-
fos mais importantes. tra... é a completa e definitiva mudança
de pele dessa serpente diabólica, que,
desde Adão, representa a inteligência.
Filosofia e Humanismo na Renascença
Victor Hugo, Nossa Senhora de Paris, 1831.

final século XV século XVI Racionalismo e Empirismo

No final do século XV e durante o XVI século XVII


a produção artística é intensa, e muitos pen-
sadores se destacam com suas teorias ino- No século XVII, o absolutismo monárquico
vadoras. Podemos citar Nicolau Maquiavel, serve de cenário político, sistema em que o poder se
Nicolau Copérnico, Thomas More, Erasmo de concentra na figura do rei. O crescimento do protes-
Roterdã entre outros. tantismo inspira o movimento da Contrarreforma na
Igreja Católica. No campo científico, destacam-se
Nicolau Maquiavel (1460–1527). De- as teorias do italiano Galileu Galilei (1564–1642) e
senvolve sua teoria política na obra O prínci- o experimentalismo de Francis Bacon (1561–1626).
pe. A partir da ótica monarquista, apresenta Esse período mostra-se muito fértil para a his-
novos horizontes à relação entre ética e polí- tória da Filosofia. No racionalismo clássico, um dos
tica. Os conceitos de virtù e fortuna aparecem principais nomes é o francês René Descartes (1596–
em várias de suas obras e representam a ca- 1650). Outro grande racionalista da Filosofia moder-
pacidade de adaptação aos acontecimentos na é o holandês Baruch Spinoza (1632–1677).
políticos, postura que exige sabedoria para Os ingleses Francis Bacon (1561–1626)
usar os fatos políticos e manter o poder. e Thomas Hobbes (1588–1679) marcam o pe-
ríodo com suas proposições. Bacon inaugura
Erasmo de Roterdã (1466–1536). Es- a aplicação do método indutivo, um marco na
creve Elogio da loucura em que exalta os ciência moderna, com o lema “saber é poder”.
valores humanos e denuncia a hipocrisia. Hobbes, em sua obra-prima Leviatã, expõe seus
Obra representativa do estilo dos humanis- pontos de vista sobre a natureza humana (esta-
tas no Renascimento e catalisadora da Re- do de natureza seria uma situação hipotética do
forma Protestante. homem antes de se organizar em sociedade); e
sobre a política e a organização social.
Thomas More (1478–1535). Em sua Representantes mais notáveis do empi-
obra Utopia faz uma análise crítica da socie- rismo são os ingleses John Locke (1632–1704)
dade da época em que considera a proprie- e David Hume (1711–1776). Outro expoente
dade privada como a causa dos problemas importante para a Filosofia daquele período
sociais e propõe a divisão dos bens mate- foi o inglês Isaac Newton que estabeleceu os
riais de forma igualitária (cidade real x cida- fundamentos da ciência que influenciariam o
de perfeita). pensamento iluminista.
Filosofia 1 - Aula 3 27 Instituto Universal Brasileiro
Isaac Newton: fé e física
O homem que descobriu a gravidade e as leis do movimento criou a ótica e
reinventou a Matemática, também legou à humanidade receitas para transformar
metais em ouro, remédios feitos com centopeias e uma lista de pecados que cos-
tumava anotar em seus cadernos. É considerado um dos filósofos da natureza.
Contraditório? Não para a época. Quando Isaac Newton nasceu, na
Inglaterra de 1642, Matemática, religião, ciência e magia se confundiam.
Astronomia e astrologia, alquimia e química também. O século XVII foi uma
transição entre a Idade Média e o Iluminismo.
No caso de Newton, o misticismo e a religião não só conviveram com a ciência como a for-
taleceram. “Seu mergulho profundo nas experiências alquímicas e nas raízes da Teologia pode ter
influenciado seus pensamentos a respeito de uma visão mais ampla do universo”, afirma Michael
White, autor da biografia Isaac Newton – O último feiticeiro.
 NARLOCH, Leandro. Superinteressante. Junho de 2006. Texto adaptado.

Racionalismo dizia não confiar plenamente. Após uma re-


flexão, deduziu que seus sentidos dados por
É a corrente filosófica fundamentada no Deus mereciam confiança.
raciocínio, no uso da razão e da lógica como A partir daí, elaborou dois argumentos para
via de acesso ao conhecimento. O método provar a existência de Deus, levando-o a con-
aplicado na investigação filosófica é dedutivo. cluir que ele era um ser imperfeito e que a ideia
O raciocínio dedutivo se caracteriza por apre- de Deus, um ser perfeito, prova a existência de
sentar conclusões verdadeiras caso as pre- Deus. Assim, restava-lhe descobrir como conhe-
missas sejam verdadeiras. Os racionalistas cia o mundo, deduzindo ser pela mente, pela ra-
propõem este método, pois entendem que só zão, que aprendeu a verdade sobre o mundo.
a razão pode levar ao conhecimento. Penso, “Penso, logo existo” foi o alicerce do seu
logo existo! Célebre frase, atribuída a Des- sistema racional, levando-o a considerar que
cartes, que sintetiza a premissa do método. o mundo consistia de duas substâncias dis-
tintas: matéria e mente. A consciência seria a
René Descartes propriedade essencial da mente, enquanto a
matéria seria a sua extensão no espaço, isto
Descartes foi um é, comprimento, altura e profundidade.
importante filósofo mo-
derno. Ficou conhecido Baruch Spinoza
como aquele que virou a
Filosofia de “cabeça para Como Descartes, o
baixo” e começou tudo filósofo Baruch Spinoza
de novo. Era um cientista acreditava que a razão
nato e, para fugir da perseguição da Igreja, mudou- era a verdadeira fonte
-se para a Holanda. Para descobrir o que era real, de todo o conhecimento.
questionava, dizendo não confiar nos sentidos por Era, também, excelente
ser um conhecimento mentiroso. O pensamento em geometria e Matemá-
que o tornou famoso foi “Penso, logo existo”. tica e dizia que a Filosofia
Seu sistema de conhecimento era duvi- deveria copiar os métodos de dedução dessas
dar de tudo sistematicamente até que tudo o ciências. A indiscutível existência de Deus era o
que restasse seria considerado conhecimento ponto de partida de seu sistema.
seguro. Todavia, sua primeira dedução, existir Enquanto para Descartes o univer-
em função do pensamento, levou-o a ques- so era composto por mente e matéria, para
tionar como provaria a existência do mundo Spinoza havia apenas uma substância: Deus;
exterior senão pelos seus sentidos, nos quais e dizia que mente e matéria eram formas dife-
Filosofia 1 - Aula 3 28 Instituto Universal Brasileiro
rentes onde Deus aparecia. Mostrava-se de- Empirismo
terminista ao acreditar que tudo fazia parte de
um plano divino, e que o jeito de se ser livre O empirismo acredita na experiên-
era aceitar o que se é e compreender o seu cia como única, ou principal, formadora das
relacionamento com o mundo. ideias e fonte de conhecimento. Os empíricos,
Baruch Spinoza acreditava no pante- seguidores desta linha filosófica, acreditam
ísmo e negava a existência da alma depois que o verdadeiro conhecimento do mundo é
da morte. Para ele, o mundo era governado conseguido através dos sentidos e observa-
pela predestinação. O panteísmo é a crença ções do mundo físico; argumentam que temos
de que Deus é a natureza e está presente em ideias porque temos percepções. O método é
tudo que nos cerca o tempo todo. indutivo, método em que o conhecimento é
Descartes e Spinoza eram filósofos ra- baseado na experiência observada. A esco-
cionalistas, pois acreditavam que a razão la do empirismo rejeita Descartes e a noção
revelaria a verdade sobre a realidade. Para racionalista. O empirismo coloca-se como o
Descartes, a realidade física coincide com o oposto do racionalismo.
pensamento e pode ser traduzida por fórmu-
las e equações matemáticas. Esta é a base
do pensamento cartesiano, cuja característica
é o rigor matemático e racionalista. O método
cartesiano tem como objetivo levar o homem
à verdade, eliminando todo conhecimento que Empirismo Racionalismo
não tivesse como fundamento a investigação
científica. Spinoza é considerado o mais radi- Doutrina filosófica Doutrina filosófica
cal dos cartesianos. que encara a ex- que enfatiza a razão
periência sensível como única fonte de
como a única fonte conhecimento.
de conhecimento. X Parte de premis-
Parte da observa- sas, ou verdades
ção e experimenta- evidentes, e usa o
ção para chegar a método dedutivo
René Descartes estabeleceu as regras
conclusões através para chegar ao co-
do método cartesiano do método indutivo. nhecimento.
1. Evidência
Só é possível admitir como verdadeiro aqui-
lo que for reconhecido evidentemente como tal, de
forma tão clara que não deixe dúvidas.
2. Análise
Dividir as dificuldades em tantas parcelas
quantas forem necessárias a fim de esclarecer e
Na ciência, o termo empirismo refere-
solucionar os problemas.
3. Síntese -se ao método científico tradicional, que
Concluir os pensamentos por ordem, come- tem origem no empirismo filosófico.
çando pelos mais simples e fáceis de conhecer até
chegar aos mais complexos.
4. Revisão
John Locke
Também chamada regra da enumeração:
fazer as revisões necessárias para estar certo de Filósofo ideólogo do
que nada foi omitido e todos os elementos foram liberalismo, John Locke
considerados. é considerado um dos
maiores representantes
DESCARTES, René. Discurso sobre o método. Abril do liberalismo britânico.
Cultural, Coleção Os pensadores, 2005. Texto adaptado.
Liberalismo à Filosofia
Filosofia 1 - Aula 3 29 Instituto Universal Brasileiro
política que defende a liberdade no campo fluência sobre a Filosofia dos séculos XVIII
da economia, da religião, da intelectualida- a XX.
de e da política, defendendo o livre exercí- Acreditava que o conhecimento provi-
cio da propriedade e da iniciativa privada. nha de duas fontes: das experiências diretas,
Representante da Filosofia moderna, chamadas de impressões; e das memórias
seguidor do Empirismo, lançou uma nova das impressões, chamadas de ideias.
maneira de se pensar. Seu livro mais impor- Desafiou leis científicas já aceitas, di-
tante, Ensaio sobre o entendimento huma- zendo que a experiência passada não garan-
no, demonstra como as pessoas adquirem o te a experiência futura, porém permaneceu
conhecimento. Descreveu os filósofos como aberto à natureza da realidade numa abor-
“auxiliares” dos cientistas, cuja tarefa era ti- dagem mais cética. Saber quem somos foi
rar os obstáculos do caminho para levar ao outro questionamento que desafiou Hume,
conhecimento. pois, de acordo com seu método, não pode-
Segundo este filósofo, o conhecimen- ria haver um “eu” constante e imutável; ele
to começa com o que chega à mente das duvidava da possibilidade de alguém ser a
pessoas através dos sentidos e, só então, mesma pessoa ao longo da vida.
as pessoas começam a organizar as infor- Também discordou da ideia de que
mações por meio da razão. É o protagonista a moralidade é uma questão de razão; di-
da teoria da tabula rasa: segundo essa te- zia que eram os sentimentos que davam a
oria, as pessoas nascem sem saber nada noção de certo e errado. Dizia que não se
e aprendem com a experiência. “A mente é pode deduzir o que é bom ou ruim, que o
um pedaço de papel em branco”; vazia de julgamento vem de dentro das pessoas, de
ideias, ela adquire conhecimento pela ex- uma reflexão sobre seus sentimentos e da
periência. São os sentidos que fazem as empatia.
ideias chegarem à mente, que as percebe
e, ocupando-se das ideias que já lhe per-
tencem, começa a pensar, refletir, duvidar, Escola Iluminista
crer, raciocinar. A mente então se torna ativa
quando começa a combiná-las.
século XVIII

Uma nova escola, a iluminista, se desen-


volveu ao longo do século XVIII, com novas
Tabula rasa. Expressão em latim para ideias e críticas. Os iluministas defendiam
“superfície em branco”. A teoria afirma que o domínio da razão sobre a visão teocêntri-
o bebê nasce com um espaço no cérebro ca, que bloqueava a evolução humana, com
e as informações são impressas na mente o objetivo de revolucionar a maneira de se
vazia conforme a criança é exposta às ex- encarar o mundo e o homem, retirando este
periências sensoriais. das “trevas”. Montesquieu, Voltaire, Rousseau,
Diderot, Kant entre outros foram os respon-
sáveis pela elaboração das propostas que
David Hume provocaram mudanças inclusive nas colônias
inglesas e francesas.
O filósofo inglês A Filosofia, numa reflexão mais am-
abriu caminho para a pla, estabelece relação com as questões
aplicação do método ligadas à esfera pública, defendendo os
experimental aos fenô- conceitos de igualdade, liberdade e frater-
menos da mente. Sua nidade como direitos fundamentais do cida-
teoria teve grande in- dão em relação ao Estado.
Filosofia 1 - Aula 3 30 Instituto Universal Brasileiro
A postura analítica
Segundo o pensamento iluminista, para o homem refletir sobre o mundo, é preciso que ele o co-
nheça, perceba-o e seja capaz de captar o que acontece no mundo em que vive. É possível conhecer e
experimentar o mundo pelos órgãos dos sentidos: olhos (visão), nariz (olfato), língua (paladar), ouvidos
(audição) e pele (tato). Captar os sons, as cores, os cheiros, as formas e sabores do mundo e interpre-
tar pela nossa inteligência todas essas experiências. Pode-se, também, analisar e interpretar as experi-
ências, concluindo se são verdadeiras ou não; e transformá-las em pensamentos, bem como transmitir
os conhecimentos adquiridos para outras pessoas, por meio da nossa inteligência, do nosso intelecto.

Breve apresentação de alguns O último grande filósofo dos


pensadores iluministas princípios da Era Moderna

Charles de Montesquieu (1689-1755). Immanuel Kant (1724-


Filósofo francês de formação iluminista desta- 1804)
cou-se na política com a obra O espírito das leis.
Grande crítico da monarquia absolutista siste- Immanuel Kant,
matizou a Teoria da separação dos poderes, filósofo, é indiscutivel-
causando forte impacto na política da época e mente um dos pensa-
influenciando constituições contemporâneas de dores mais influentes
vários países que estabelecem os três poderes: da Filosofia, que viveu
Executivo, Legislativo e Judiciário. numa época de transi-
ção entre a época moderna e a contemporânea
Voltaire (1694–1778). Seu nome era e que tentou aproximar as duas linhas de pensa-
François Marie Arouet, conhecido pelo pseu- mento, a do empirismo e do racionalismo.
dônimo Voltaire. Escritor polemista destaca- Kant estudou como a mente humana traba-
-se como divulgador de ideias, expandindo os lha e o que é, na verdade, a realidade. Afirmava
questionamentos filosóficos por meio da lite- que nenhum conhecimento precede a experiência,
ratura, com seus contos filosóficos. Defensor que todos começam com ela. Porém, há alguns
da reforma social engaja-se em grandes cau- que não têm essa origem exclusiva, afinal, nosso
sas em defesa das liberdades civis, como a conhecimento empírico é um composto daquilo
liberdade religiosa e de livre comércio. que recebemos das impressões dos sentidos e da-
quilo que a nossa mente lhe adiciona, estimulada
Jean-Jacques Rosseau (1712–1778). Im- pelas impressões dos sentidos; mas que não dis-
portante intelectual do século XVIII coloca a tinguimos senão mediante uma longa prática que
liberdade como bem supremo. Para os confli- nos torne capaz de separar esses dois elementos.
tos entre a liberdade individual e as regras da Na obra Crítica da razão pura, Kant dis-
vida em sociedade propõe o Contrato social. tingue etapas do conhecimento que pode ser
Sua obra inspirou reformas no campo da polí- posterior à experiência, ou seja, a posteriori; ou
tica e da educação. pode ser anterior à experiência, isto é, conhe-
cimento a priori (do latim, “partindo daquilo que
Denis Diderot (1713–1784). Filósofo, vem antes”), expressão filosófica que designa
escritor e enciclopedista francês é considera- uma etapa para se chegar ao conhecimento, que
do precursor no campo da cultura e da ciência. consiste no pensamento dedutivo, que parte de
Sua obra apresenta uma síntese das tendên- hipóteses. O conhecimento a priori se completa
cias iluministas, com múltiplas influências de com o conhecimento a posteriori, aquele que se
pensadores dos séculos XVII e XVIII. A matu- adquire com a experiência.
ridade da evolução do pensamento filosófico O conhecimento anterior à experiência
de Diderot se revela em sua Carta sobre os nos permite prever algumas coisas. Você sabe
cegos endereçada aos que enxergam. que se estiver segurando um ovo em sua mão
Filosofia 1 - Aula 3 31 Instituto Universal Brasileiro
e ao abrir, soltando-o, ele irá cair e se quebrará
Filosofia e Humanismo na Renascença
quando chegar ao chão, mesmo sem você nun- ►final século XV ► século XVI
ca ter feito isso. Sabe disso porque já viu acon- Neste período a produção artística é intensa,
tecendo com outros objetos, sabe da fragilidade e muitos pensadores se destacam com suas teo-
do ovo e, por comparação, sabe que irá aconte- rias inovadoras. Podemos citar Nicolau Maquiavel
cer o mesmo com o ovo. Esse é um exemplo de (bases da política moderna); Nicolau Copérnico
conhecimento a priori, no qual se deduz o que (fundamentos do heliocentrismo); Thomas More
pode acontecer sem ter vivenciado antes. (Utopia – análise crítica da sociedade da época); e
Erasmo de Roterdã – (Elogio da loucura – exalta
os valores humanos e denuncia a hipocrisia).
Racionalismo e Empirismo ►século XVII
Racionalismo defende que se chega ao
Leia este texto utilizado em questão do conhecimento pela razão e empirismo, por meio
Enem 2012, em que o filósofo Kant destaca o da experiência.
conceito de esclarecimento, básico para a •Descartes e Spinoza são racionalistas.
compreensão da Filosofia moderna. René Descartes revolucionou a Filosofia duvi-
Esclarecimento é a saída do homem de sua dando de tudo sistematicamente. “Penso, logo
menoridade, da qual ele próprio é culpado. A me- existo” foi o alicerce de seu sistema racional.
noridade é a incapacidade de fazer uso de seus Baruch Spinoza acreditava que a razão era a
entendimentos sem a direção de outro indivíduo. verdadeira fonte de conhecimento e que tudo
O homem é o próprio culpado dessa menoridade fazia parte de um plano divino.
e se a causa dela não se encontra na falta de en- •Bacon lança o método indutivo e Hobbes,
tendimento, mas na falta de decisão e coragem sua obra-prima Leviatã.
de servir-se de si mesmo sem a direção de ou- •Locke e Hume são filósofos empiristas.
trem, tem coragem de fazer uso de teu próprio John Locke, ideólogo do liberalismo, foi pro-
entendimento, tal é o lema do esclarecimento. A tagonista da tabula rasa (as pessoas nascem
preguiça e a covardia são as causas pelas quais sem saber nada e aprendem com a experiên-
uma tão grande parte dos homens, depois que a cia). David Hume acreditava que o conheci-
natureza de há muito os libertou de uma condição mento vinha de duas fontes: das experiências
estranha, continuem, no entanto, de bom grado diretas e das memórias das experiências.
menores durante toda a vida.
Escola Iluminista ►século XVIII
KANT, I. Resposta à pergunta: O que é esclarecimento?
Características do Iluminismo: intenso
Petrópolis: Vozes, 1984. Texto adaptado.
questionamento e crítica, a partir de postura
analítica. Destacam-se Montesquieu (impacto
na política – Teoria da separação dos poderes);
Voltaire (polemista defensor da reforma social);
Rosseau (defende a liberdade individual e pro-
põe o Contrato social); Diderot (precursor em
Filosofia Moderna – Final do século XV diferentes campos faz a síntese das propostas
até século XVIII iluministas).
•Immanuel Kant. Um dos maiores re-
Contexto marcado por transformações presentantes da Filosofia moderna, simboliza
Momento político e econômico: perda da a transição entre o fim da Filosofia moderna
hegemonia da Igreja Católica, desenvolvimen- e início da contemporânea; tentou aproximar
to das navegações, processo de colonização as linhas de pensamento afirmando que o co-
e formação de impérios e desenvolvimento do nhecimento pode ser posterior à experiência (a
capitalismo e de uma nova religião. posteriori) ou anterior à experiência (a priori).
Filosofia Moderna A Filosofia moderna inaugurou uma
A Filosofia moderna foi um reflexo do mo- nova fase na autêntica busca pelo saber,
mento político e econômico e abrange os perío- com ênfase na visão crítica, tornando-se o
dos do Renascimento (final do século XV e sé- eixo central para a compreensão desta ci-
culo XVI), do racionalismo e empirismo (século ência. Nos séculos XVII e XVIII surgiram os
XVII) e do Iluminismo (século XVIII). mais importantes pensadores modernos.

Filosofia 1 - Aula 3 32 Instituto Universal Brasileiro


a) ( ) Voltaire.
b) ( ) Descartes.
c) ( ) Locke.
d) ( ) Hume.

5. Thomas Hobbes em sua obra-prima Leviatã


1. Leia as afirmativas abaixo e indique a al- expõe seus pontos de vista sobre:
ternativa correta.
a) ( ) a natureza.
I – Um dos valores renascentistas mais ex- b) ( ) a política.
pressivos é o antropocentrismo. c) ( ) a organização em sociedade.
II – Antropocentrismo significa que o poder divi- d) ( ) Todas as alternativas estão corretas e
no permanece no centro das atenções e do cosmos. se completam.

a) ( ) I e II estão corretas. 6. “Admitamos, pois, que, na origem, a mente


b) ( ) I e II estão incorretas. é como que uma tabula rasa, sem quaisquer carac-
c) ( ) Apenas a afirmativa I está correta. teres, vazia de qualquer ideia. Como é que adquire
d) ( ) Apenas a afirmativa II está correta. ideias? Aonde vai buscar todos os materiais que
fundamentam os raciocínios e os conhecimentos?
2. (Enem/2010. Adaptada.) “O príncipe, por- Respondo com uma palavra: na experiência.”
tanto, não deve se incomodar com a reputação de LOCKE, John. Ensaio acerca do entendimento humano.
São Paulo: Nova Cultural,1999.Texto Adaptado.
cruel, se seu propósito é manter o povo unido e leal.”
MAQUIAVEL, N. O príncipe. São Paulo: Martin Claret, 2009. A respeito do texto acima é possível afirmar que:
No século XVI, Maquiavel escreveu O prín-
cipe, reflexão sobre a monarquia e a função do a) ( ) Locke expõe a teoria racionalista dos
governante. A manutenção da ordem social, se- filósofos da época.
gundo esse autor, baseava-se na: b) ( ) Sintetiza o pensamento do filósofo Lo-
cke, precursor da corrente empirista.
a) ( ) inércia do julgamento de crimes po- c) ( ) Exalta a razão e anula a experiência
lêmicos. como forma de aquisição do conhecimento.
b) ( ) bondade em relação ao comporta- d) ( ) Comenta sobre o papel da razão como
mento dos mercenários. único fator de entendimento humano.
c) ( ) compaixão quanto à condenação de
transgressões religiosas. 7. Um dos filósofos franceses de formação ilu-
d) ( ) conveniência entre o poder tirânico e a minista destacou-se na política, estabelecendo os três
moral do príncipe. poderes: executivo, legislativo e judiciário. Trata-se de:

3. Identifique como Verdadeiras (V) ou Fal- a) ( ) Charles de Montesquieu e a Teoria da


sas (F) as afirmativas e assinale a alternativa cor- separação dos poderes.
respondente. b) ( ) Thomas More e a obra Utopia (Cidade
Real X Cidade Perfeita).
( ) Racionalismo: enfatiza a razão como c) ( ) Jean-Jaques Rosseau e o Contrato social.
fonte de conhecimento e usa o método dedutivo. d) ( ) Denis Diderot e a Carta sobre os ce-
( ) Empirismo: destaca a experiência sensível gos endereçada aos que enxergam.
como fonte de conhecimento e usa o método indutivo.
8. Segundo Kant, o conhecimento pode ser:
a) ( ) V V
b) ( ) F F a) ( ) apenas anterior à experiência, identifi-
c) ( ) F V cado como a priori.
d) ( ) V F b) ( ) apenas posterior à experiência, identi-
ficado como a posteriori.
4. “Penso, logo existo.” A que filósofo se c) ( ) posterior à experiência (a posteriori)
atribui essa frase que simboliza o alicerce de seu ou anterior à experiência (a priori).
sistema racional que revolucionou o pensamento d) ( ) anterior ou posterior à experiência,
moderno? mas sempre identificado como a priori.
Filosofia 1 - Aula 3 33 Instituto Universal Brasileiro
5. d) ( x ) Todas as alternativas estão cor-
retas e se completam.
Comentário. Hobbes expõe seus pontos
de vista sobre a natureza humana, sobre a po-
lítica e sobre a organização do homem em so-
1. c) ( x ) Apenas a afirmativa I está cor- ciedade. O estado de natureza seria uma situa-
reta. ção hipotética do homem antes de se organizar
Comentário. Antropocentrismo é um con- em sociedade. Em estado natural o homem vi-
ceito que vem do Renascimento, do grego an- veria em guerra pelos bens escassos. Segundo
thropos que significa humano + kentron, cen- Hobbes, “o homem é o lobo do homem”. Porém,
tro. Essa concepção de colocar o homem no o homem tem o desejo de buscar a paz, e não
centro das atenções faz oposição à concepção a guerra, e por isso se formam sociedades por
teocêntrica que dominou a era medieval. Teo- meio de um contrato social.
centrismo, do grego theos que significa Deus
+ kentron, centro, é a teoria que coloca Deus 6. b) ( x ) Sintetiza o pensamento do filó-
no centro do universo. Portanto, a afirmativa II sofo Locke, precursor da corrente empirista.
está incorreta. Comentário. Segundo Locke, a mente se-
ria um pedaço de papel em branco e estaria va-
2. d) ( x ) conveniência entre o poder ti- zia de ideias. O conhecimento seria adquirido
rânico e a moral do príncipe. pela experiência. São os sentidos que fazem
Comentário. Segundo o pequeno trecho com que as ideias cheguem à mente que se
de Machiavel, o objetivo maior é a finali- ativa ao combiná-las. A valorização da expe-
dade dos propósitos, esta seria a moral do riência sintetiza o pensamento de Locke, tido
príncipe. A função do príncipe é governar, como precursor da corrente filosófica empiris-
mesmo se for necessário exercer o poder ta. As demais alternativas destacam a razão,
para manter a ordem social, sem se preo- destacada como fonte de conhecimento pelos
cupar com as questões da imagem ou da racionalistas.
reputação cruel de sua pessoa. Maquiavel
demonstra defender a monarquia absolu- 7. a) ( x ) Charles de Montesquieu e a Te-
tista e o poder do governante na figura do oria da separação dos poderes.
príncipe. Comentário. A tripartição das funções do
Estado está contida na ciência política desenvol-
3. a) ( x ) V V vida pelos filósofos gregos Platão e Aristóteles.
Comentário. As duas afirmativas são ver- A Teoria da separação dos poderes de Montes-
dadeiras. Trata-se de duas correntes filosóficas quieu sistematiza e atribui as devidas compe-
que se opõem quanto à fonte e ao método para tências ao poder do Estado, em sua obra O es-
se chegar ao conhecimento. O racionalismo pírito das leis. Segundo Montesquieu, a teoria
enfatiza a razão como fonte de conhecimento dos três poderes tem como ponto de equilíbrio
e usa o método indutivo, que parte de premis- o “sistema de freios e contrapesos”, um regime
sas ou verdades evidentes. O empirismo foca em que o poder de uma esfera é limitado pelo
a experiência sensível como fonte de conhe- poder de outra esfera; sendo assim, nenhum
cimento e usa o método indutivo que parte da poder teria autonomia absoluta e atuariam em
observação e experimentação para chegar às conjunto.
conclusões.
8. c) ( x ) posterior à experiência (a pos-
4. b) ( x ) Descartes. teriori) ou anterior à experiência (a priori).
Comentário. Descartes, filósofo francês Comentário. Segundo Kant, o conhecimen-
racionalista, tem como alicerce do seu sistema to pode ser decorrente da experiência – a poste-
racional a famosa frase “Penso, logo existo”. riori – ou pode ocorrer independentemente da ex-
Considerava que o mundo consistia de duas periência – a priori. Os conhecimentos a posteriori
substâncias distintas: matéria e mente. A cons- são considerados empíricos, adquiridos mediante
ciência seria a propriedade essencial da men- experiência. Os conhecimentos a priori fazem par-
te, enquanto a matéria seria sua extensão no te da “razão pura”, considerados como universais
espaço. e necessários.
Filosofia 1 - Aula 3 34 Instituto Universal Brasileiro

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