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Camila Cury

A beleza está nos olhos de quem vê

Adaptação

Cristina Paixão

Camila Cury A beleza está nos olhos de quem vê Adaptação Cristina Paixão
Planeta Manuscrito Rua do Loreto, n.º 16 – 1.º Direito 1200‑242 Lisboa • Portugal Reservados

Planeta Manuscrito Rua do Loreto, n.º 16 – 1.º Direito 1200‑242 Lisboa Portugal

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor

© 2010, Instituto Academia da Inteligência, L. da © 2010, Planeta Manuscrito

Revisão: Fernanda Fonseca

Paginação: Lígia Pinto

1.ª edição: Maio de 2011

Depósito legal n.º 327 596/11

Impressão e acabamento: Guide – Artes Gráficas

Isbn: 978‑989‑657‑198‑6

www.planeta.pt

Dedico este livro a todas as mulheres que, ao longo da história, se angustiaram, se depri‑ miram, choraram, foram tolhidas, pressiona‑ das, mas não desistiram dos seus sonhos, não calaram a sua voz. Com lágrimas e coragem, levantaram a bandeira da liberdade e lutaram para conquistar o seu espaço social e, vitorio‑ samente, vêm‑no conquistando a cada dia. E agora, mais uma vez, precisam de estar uni‑ das para combater a tirania da beleza que asfi‑ xia a nossa auto‑imagem e a nossa auto‑estima. somos 100% mulheres e não desistimos de 100% dos nossos direitos.

Lutamos pelo nosso espaço social todos os dias. Mas, sem percebermos, deixámos de lutar por nós mesmas, pelo nosso direito a sentirmo-nos belas e atraentes numa sociedade que padroniza e nos limita, a nós mulheres, toda a beleza emocional, intelectual e física. Vamos continuar passivas?

Aprender que a beleza está nos olhos de quem vê não advém de uma vontade eufórica da emoção, mas de uma atitude consciente de um Eu determinado a tornar-se autor da sua própria história.

Índice

Prefácio

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Introdução

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Capítulo 1 Calaram a voz das mulheres

23

Capítulo 2

A

história da beleza e os seus padrões massacrantes

31

Capítulo 3

A

beleza que conquistou John Lennon

41

Capítulo 4

A

mulher que conquistou o mundo

47

Capítulo 5 As celebridades e a eterna busca de identidade

57

Capítulo 6

O

jovem que queria matar o cirurgião plástico

65

Capítulo 7

A

tirania da beleza e a anorexia nervosa

73

Capítulo 8

Camila Cury

O

prazer e a culpa de comer: bulimia

83

Capítulo 9

A

busca do corpo perfeito e a vigorexia

91

Capítulo 10

A

beleza com o passar dos anos

97

Capítulo 11 As preocupações de todas as mulheres

107

Capítulo 12

A

educação da auto‑estima

115

Capítulo 13

O

marketing pessoal: a beleza está no seu olhar

123

Escola de Inteligência

131

bibliografia

137

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Prefácio

As mulheres são bombardeadas diariamente pelo sistema social

com imagens de modelos magríssimas – e, por vezes, desnutridas – como padrão de beleza. Uma simples revista de moda, um «ingénuo» filme de Hollywood, um programa de TV, todos contêm mulheres fora dos padrões comuns de beleza. Uma, duas, três, dez, cem, milhares de imagens são arquivadas no córtex cerebral todos os dias. Quem conhece o funcionamento da mente sabe que cada ser humano é de inigualável complexidade. Nos computadores, a leitora tem a liberdade de registar as informações que bem entende e de apagá-las quando o desejar. A leitora e eu somos deuses da memó- ria dessas máquinas, mas somos meninos diante da nossa memória. Digo isso porque no nosso córtex, que é a camada mais evoluída do cérebro, o registo das informações e experiências não depende da vontade humana. No mundo exterior, escolhemos que carro com-

prar, que profissão seguir, que parceiro(a) dividirá a vida connosco; mas, no mundo psíquico, cada experiência é registada involuntaria- mente pelo fenómeno RAM (Registo Automático da Memória).

O seu Eu não pode impedir o registo. E, pior ainda, uma vez

registado, o seu Eu não pode apagar o banco de dados, só reeditá-lo ou reescrevê-lo. Tente apagar as suas fobias (medos), os seus desafectos,

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os seus dias mais tristes. Quanto mais tentar, mais se fixará neles, e, então, mais estes o dominarão. Por isso, torna-se impossível apagar da mente as imagens de mulheres tão diferentes do biótipo normal. Pode dizer que elas não a afectam, talvez até se convença conscientemente, mas elas já penetraram nas caves inconscientes da sua personalidade, ditando directrizes doentias, gerando uma interpretação distorcida da sua auto-imagem, produzindo baixa auto-estima, elevada auto-rejeição e, consequentemente, autopunição. Esse é um dos maiores crimes contra as mulheres de todas as eras.

O livro A beleza está nos olhos de quem vê, escrito pela Camila,

mostra-nos com contundência que esse crime não dilacera a pele, não sangra veias e artérias, mas fere a mente humana no seu sentido mais profundo e sangra a emoção na sua mais notável intensidade;

em especial, sangra o prazer de viver, a liberdade de ser, a espon- taneidade e o amor-próprio. Mostra-nos que esse crime, apesar de bárbaro, é socialmente aceite. É fácil o ser humano adaptar-se às suas misérias e perder a sua sensibilidade. Diversos filósofos gregos viam escravos por toda a Grécia antiga sem se indignarem. Cristãos que disseram seguir o homem que suplicou aos seus dis- cípulos que amassem os seus inimigos e fossem generosos com os

que pensam de modo diferente apoiaram cruéis cruzadas e a escravi- dão de seres da sua própria espécie. Empresas juram ética na confec- ção dos seus produtos, tentando convencer-nos de que a sua maior preocupação é o ser humano. Todavia não abdicam de se promover usando modelos esquálidas e magríssimas, sem se importarem com o desastre no inconsciente colectivo, em especial das adolescentes.

A ditadura da beleza exposta neste livro mostra que ela tem fur-

tado a mais vibrante das paixões, a paixão pela vida. Muitas mu- lheres e não poucos homens, em vez de se aventurarem, cons- truírem os seus sonhos, arriscarem novas amizades e ocuparem espaços sociais, gravitam na órbita da anatomia do seu corpo.

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A beleza está nos olhos de quem vê

Passam 5%, 10% ou mais do seu tempo diante do espelho, não va- lorizando o seu património genético, mas exaltando os seus defei- tos – pelo menos aqueles construídos doentiamente na sua psique.

Entretanto, o massacre não acaba quando a imagem deixa de se re- flectir no espelho; perpetua-se ao longo do seu dia, da sua história, influenciando os relacionamentos, a auto-estima e até o desempe- nho profissional. Camila é minha filha. É difícil prefaciar o livro de quem se ama tanto. Admiro-a como filha, porque é muito amável e generosa; admiro-a como psicóloga, porque, apesar de ainda ter uma longa carreira pela frente, tem mostrado consistência e consciência profis- sional. E admiro-a como mulher, porque tem a coragem de usar as palavras para dizer o que pensa, para ser poética e crítica, seja de si mesma, seja da sociedade moderna. A beleza está nos olhos de quem vê tem um título instigante e um tema que todos nós precisamos de discutir sem medo, sem reservas e sem preconceitos. A beleza, da estética ao conteúdo, está nos olhos de quem interpreta, sente, vive. Desde que ela era criança que tecemos longos diálogos sobre a filosofia e a psicologia da beleza. Desde cedo comentámos que a beleza não pode ser comercializada, vendida ou padronizada. Ela entendeu que, para ser emocionalmente saudável numa sociedade doente, cada mulher deveria – assim como pratica

o andar, a condução, o uso de computadores – treinar o seu Eu para

deixar de ser passiva, libertar as suas potencialidades para escrever

a sua própria história e sentir-se única, bela, inteligente, apesar das suas falhas e limitações. Sinceramente espero que este livro estimule a arte de pensar, pro- mova discussões e gere um novo olhar das mulheres sobre o seu romance particular consigo mesmas.

Augusto Cury Psiquiatra, pesquisador, escritor

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Introdução

Ao longo da história, as mulheres, com raras excepções, foram submissas e, não poucas vezes, desvalorizadas. Submissas à família, ao marido, à sociedade; algumas foram queimadas, outras, silencia- das e até apedrejadas. Quem deu importância aos gemidos inexpri- míveis dessas mulheres? Elas não tinham voz para protestar, nem espaço social para reivindicar os seus direitos. Ainda hoje somos submetidas a angústias idênticas a essas. E o que é mais impressionante é que, apesar de termos voz e espaço para protestar, nos calamos! No passado não tínhamos o direito de votar, de expressar ideias, muito menos de construir os nossos projectos. Não há dúvida que demos um salto muito grande. Atribuímo-nos e vamos aos poucos conquistando os mesmos direitos que os homens, tornando-nos activas na construção da nossa sociedade. Mas, sem perceber, estamos a ser dominadas por um ditador sem rosto, um carrasco que nos aprisiona no único lugar em que deveríamos ser livres: dentro de nós mesmas. Refiro-me ao sistema social que insiste em criar um padrão de beleza rígido, reduzindo a nossa beleza emocional e intelectual a determinados traços do rosto e a algumas curvas do corpo que não correspondem ao biótipo da maioria de nós, mulheres.

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Camila Cury

E o grande problema é que nos submetemos a esse padrão e paga-

mos caro por isso. Se pensarmos bem, não só somos dominadas por esse padrão, como nos tornámos as suas principais aliadas. A leitora?

Sim! A leitora e eu! Todas nós! Como? Pare um pouco e pergunte-se:

quem é o seu pior inimigo? O mundo exterior? A opinião dos outros? Os padrões tirânicos de beleza? Concordo que eles tenham peso e até que cheguem a agredir a plenitude da nossa beleza. Mas, pensando bem… Não somos nós próprias que nos diminuímos diariamente? Não somos nós próprias que, em frente ao espelho, nos autopunimos? Não são os nossos pensamentos que nos deprimem? O mundo exte-

rior constrói as suas verdades e os seus padrões e, infelizmente, nós adoptamo-los como se fossem nossos. Pagamos um preço alto!

É verdade que conquistámos muitos direitos sociais e que nos

tornámos actuantes dentro da sociedade. Mas continuamos passivas dentro de nós próprias, caladas e submissas no lugar em que deve- ríamos gritar. Damos importância ao nosso trabalho, às pessoas à nossa volta, mas esquecemo-nos de proclamar em voz alta que, ainda que sejamos substituíveis profissionalmente, somos insubsti-

tuíveis como seres humanos. Somos únicas! A leitora é única e precisa de aprender isso! Infelizmente, não sabemos filtrar as mensagens subliminares escondidas por trás da propaganda, dos filmes, das revistas, de todas as formas dos media que nos bombardeiam diariamente.

E aqui, amiga leitora, acho necessário fazer uma pausa para lhe

explicar uma coisa da maior importância. Algo que acontece no mun- do das nossas ideias, mas que é pouco comentado numa sociedade que desbrava muito mais o mundo exterior do que o nosso mundo interior. Se não tomar consciência do que se passa na sua mente, será eternamente vítima do que a sociedade lhe impõe. Vou falar do fenó- meno RAM, das janelas da memória e do autofluxo. Estes assuntos são complexos, mas tentarei explicar da forma mais simples. Se achar necessário releia os três tópicos, fundamentais para que possa entender os fenómenos que ocorrem na sua psique.

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Fenómeno RAM é a sigla para «registo automático da memória». Ao longo da nossa história, todas as imagens, experiências e situa- ções a que somos submetidas são arquivadas involuntariamente

– sem a nossa autorização – por este fenómeno, sem que tenhamos

oportunidade de escolha. Sempre que algo é registado pelo fenóme- no RAM, jamais poderá ser apagado, apenas reeditado. Cada estímulo, cada sentimento de inferioridade, cada situação existencial a que somos submetidas, tudo isso é arquivado pelo fenó- meno RAM, formando aquilo a que chamamos as «janelas da memória». É através delas que descortinamos o mundo e nos rela- cionamos com ele, com os outros e com nós mesmas. Ou seja, a maneira como encaramos a vida está inteiramente relacionada com as experiências e os estímulos a que somos submetidas ao longo da nossa história.

Existem dois grandes tipos de janelas da memória: as janelas light e as janelas killer. Nas light encontram-se a nossa segurança, a nossa ousadia, o nosso amor pela vida e pela nossa história, a nossa criatividade, entre outros registos positivos que nos fazem ampliar

a nossa visão do mundo e de nós mesmas. Nas janelas killer estão

os nossos traumas, os nossos complexos de inferioridade, as nossas angústias e autopunições – essas janelas bloqueiam a nossa inteli- gência e aprisionam o nosso Eu. Só se pensa o que se quer? Quando se quer? Infelizmente, não! Esse é o fenómeno do autofluxo, que entra em acção na nossa memória e produz, milhares de vezes por dia, pensamentos, senti- mentos e imagens mentais sem a nossa autorização. É a nossa maior fonte de entretenimento, é onde passamos a maior parte do nosso tempo. Como? Isso acontece quando viajamos nos nossos pensa- mentos, aqueles que nos fazem reviver alguns conflitos, alegrar com algumas conquistas e esperar novos projectos. São, enfim, os milha- res de ideias, sonhos e desejos que nascem no território da memória. Qual é então o grande problema? É que, se por uma via o autoflu- xo nos entretém diariamente, por outra, ele fixa-se nas janelas que

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contêm o maior grau de emoção. Por isso, as vivências que produ- zem maior impacte emocional são muito mais facilmente lembradas do que os factos corriqueiros do dia-a-dia. Para ilustrar a actuação destes três fenómenos, podemos lem- brar-nos do sentimento angustiante que muitas vezes experi- mentamos quando deparamos com uma mulher considerada bonita, daquelas que se encaixam nos padrões de beleza con- sagrados pelos media e pela sociedade. Ao fixarmo-nos nela, temos a tendência de nos menosprezarmos e diminuirmos por não possuirmos o mesmo corpo, o mesmo cabelo, os mesmos olhos. Às vezes não temos consciência de que essa imagem nos agride e, quando nos vemos ao espelho e nos achamos desinteressantes, não conseguimos entender porquê. O que acontece é que o fenómeno RAM já registou milhares de imagens de mulheres magríssimas ao longo do nosso dia, da nossa semana, da nossa história, ditan- do o que é belo. E o pior é que ele não apenas regista na nossa memória a imagem da «mulher-padrão», como também todos os sentimentos de inferioridade provocados de maneira acentuada por aquela imagem. Assim, forma-se uma janela killer, na qual o fenómeno do autofluxo começa a actuar, produzindo milhões de ideias e pensamentos negativos que menosprezam a nossa auto- -imagem e esmagam a nossa auto-estima. Cada vez que essa janela é lida, é novamente arquivada pelo fenó- meno RAM, desertificando áreas nobres da nossa personalidade. Preocupamo-nos tanto com a poluição do Planeta, mas ignoramos que a nossa mente está cada dia mais poluída. E agora? Será que fomos condenadas a tornarmo-nos eternamente escravas deste sistema perverso e dos nossos pensamentos negativos? Não! Existe uma esperança! Querida leitora, o imenso mundo da mente humana possui mui- tos segredos. E o mais poderoso de todos é a capacidade do nosso Eu para actuar como gestor da psique, administrando todos os fenó- menos inconscientes da nossa mente. O nosso Eu não é responsável

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por tudo o que pensamos ou sentimos. Mas é seu dever decidir que atitude tomar. Quando o nosso Eu, a nossa capacidade de livre escolha, é desen-

volvido, ele cessa de se deixar dominar pelo mundo de fora ou pelos milhares de ideias negativas produzidas pelos fenómenos incons- cientes. Foi por isso que escrevi este livro: para descobrirmos juntas como é que esse Eu que está dentro de si se pode tornar o autor principal do teatro da sua mente, para que se liberte dos pensamen- tos que a controlam e do sistema ditatorial em que vivemos. E para que seja livre a fim de se sentir bonita e atraente, mesmo quando o sistema não a julga assim. Livre para aprender que a beleza está nos olhos de quem vê. Será que conhece a mulher que está por trás da imagem reflec- tida no espelho? Quem é? Quais são as suas metas? Quais são os seus potenciais? Qual é a força que possui e não utiliza? Como desenvol- ver no seu Eu uma consciência crítica capaz de filtrar as mensagens subliminares e libertá-la do seu complexo de inferioridade? Como proteger a emoção? Como esculpir a sua auto-imagem? Como colo- car combustível na sua auto-estima? Como aprender a ter um caso amoroso consigo própria e com a sua história? Estas perguntas fazem parte da viagem deste livro. Não há respos- tas prontas ou soluções mágicas, mas é possível encontrar algumas ferramentas que lhe permitam procurar uma mente livre e serena.

É angustiante ver uma pessoa com uma crise asmática a procurar

desesperadamente respirar. É de igual modo angustiante ver tantas

adolescentes e mulheres adultas em crise, sem conseguirem respirar

o oxigénio da liberdade.

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