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RESENHA

GUARINELLO,Norberto Luiz. História Antiga. São Paulo: Contexto, 2013

Matheus Henrique Silva Magalhães


RA:222261
IFCH/Unicamp

A obra de Norberto Guarinello sobre a história antiga faz uma abordagem onde o autor
traz um panorama sobre a historiografia que rodeia a disciplina, e de maneira sintética e
mais genérica - para conseguir retratar um período tão vasto em alguns capítulos - também
mostra a história da mesma, porém de um modo original. Chama a atenção o recorte
historiográfico e a abordagem diferente das convencionais sobre o tema; O autor desde a
introdução deixa claro sua crítica a ocidentalização da História Antiga onde essa
disciplina seria como o “a história das origens do ocidente”, sendo desde o século XIX
assim formada para uma construção de memória e identificação social ocidental; Fugindo
desta perspectiva tradicional, Guarinello faz na obra uma abordagem mais ampla e mais
inclusa das civilizações, contando uma história não só europeia, ou com enfoque apenas
nesta.

Os dois primeiros capítulos da obra pós introdução são os que fazem a abordagem sobre
a historiografia da história antiga. Em “A história da História Antiga” o autor perpassa
pela criação do antigo, surgido no renascimento com a necessidade de criação de uma
memória do que teria sido o “mundo antigo” anterior ao cristianismo, através de uma
ideia deixada pelos escritos, monumentos e todos resquícios sobreviventes deste
“mundo”. Com o desenvolver desta ideia nos séculos seguintes a História Antiga se
consolida juntamente com da História Científica. O autor ainda menciona que ideias feitas
na construção da História Antiga como disciplina científica permeiam o ensino da mesma
até hoje como é a exclusão do oriente; comenta também como foi o desenvolvimento
dessa disciplina científica e os respaldos nela da historiografia de modo geral como no
século XIX a história antiga ser vista através da evolução, do progresso o que gerou a
formação dos pensamentos de uma superioridade da Europa sobre o mundo, com as
noções do que seria ser “civilizado” e de “nação grega”. Este cenário se altera com o
surgimento e integração de outras áreas como a antropologia, economia, e sociologia,
onde as abordagens acerca da História Antiga mudam seus foques, com isso houve uma
maior integralização no estudo da história antiga se distanciando das noções
evolucionistas.

Em seu segundo capítulo o autor trata a historiografia contemporânea da história antiga.


O autor ressalta que a história antiga ainda é ensinada como uma História do Ocidente,
entretanto houve uma grande expansão de abordagens na disciplina, em várias
reinterpretações da História Antiga. O autor vai mencionando várias vertentes
contemporâneas de abordagens sobre a Antiguidade perpassando pelos Modernistas,
Marxistas, Primitivistas e a Escola de Paris, e mostra o quanto elas são influenciadas pelas
transformações desse mundo contemporâneo, que moldam a forma de olhar o antigo.
Após a segunda guerra mundial por diversos fatores como a descolonização de países na
África e Ásia houve o enfraquecimento de países europeu e com isto a Europa e as noções
ocidentais deixam de ser observadas como centro do mundo. Através do olhar do
pós-modernismo a História Antiga ganha novos contornos, se constrói uma óptica cultural
deixando de lado os aspectos puramente políticos e econômicos; disso deriva-se por
exemplo a substituição do conceito de classe pelo de identidade e vem à tona a
preocupação com a enorme diversidade dos povos antigos, que antes estavam á margem
da história ocidental. Para mencionar aspectos mais práticos que advém dessa nova
corrente temos exemplos como o abandono da ideia de uma Grécia unificada, abandono
da ideia de narrar a história da Grécia Antiga através de apenas suas cidades principais
Atenas e Esparta, e a desconstrução da história de Roma como sendo a história de uma
cidade única. Esta nova corrente vai abranger uma história que anteriormente ficava a
margem de uma História Antiga “principal” e clássica que era a ocidental, e é por caminho
semelhante a este, de integralização de outros povos, que o resto da obra irá perpassar,
com a desconstrução da antiga ruptura do Ocidente com o Oriente.

O autor menciona também a questão cronológica da dificuldade na busca de criar uma


história unificada, que aborde os povos e as épocas sem um desprendimento grande entre
si, evitando quebras cronológicas abruptas, como é o problema encarado ao se tratar de
quando seria o fim da Antiguidade. Nestes aspectos Guarinello afirma que há certa
necessidade de se fazer algum recorte para se construir uma história, entretanto atentando
que histórias muito específicas acabam por fazer recortes arbitrários.
Nos capítulos seguintes o autor irá abordar sobre a História Antiga em si do ponto de
vista de seu recorte historiográfico, e é neste ponto que se torna inovadora pois tem como
objetivo interpretar a história antiga através dos processos de integração essencialmente
no Mediterrâneo, que começa a ser tratado no terceiro capítulo. O autor propõe uma
História Antiga que como o mesmo afirma “Não é a história universal... mas continua
sendo uma parte importante da história mundial.” (Guarinello,p.47).Reporta ainda que
como todo recorte, o recorte do Mediterrâneo, o qual irá fazer, também traz perdas devido
ainda não haver na historiografia uma integração satisfatória das Histórias do
Mediterrâneo. O mar mediterrâneo envolto a região seria o diferencial e fator
fundamental para a integralização e de forma específica como relata Guarinello ao dizer
sobre os povos mediterrânicos “O mar os separa e os distancia, o que aprofunda a
originalidade de cada comunidade, mas também os aproxima, pois as comunicações por
mar são mais rápidas que as por terra” (Guarinello,p.51).

O autor em vários momentos da obra utiliza de teses de outros autores para sustentar
algumas ideias, contrapor ou até mesmo realizar um debate historiográfico. Tratando do
mediterrâneo por exemplo ele utiliza dois autores, Horden e Purcell, que ressaltavam a
importância das chuvas na região e que nos locais que em cada ano a chuva se tornava
escassa ocorria crises periódicas de produção pois estes povos dependiam muito da
agricultura na região. Com isso havia a necessidade para sobrevivência, o contato com
outros povos para adquirir-se mantimentos. Com isso ambos os autores afirmam que as
comunidades do mediterrâneo viviam em uma rede de conexões. É deste posicionamento
que o autor vai concordar e estar discorrendo durante a obra.

Nos capítulos seguintes da obra o autor vai debatendo como se consolidava a integração
dos povos em uma linha cronológica de narração sobre a História Antiga por essa
perspectiva. No capítulo Navegações ele irá contextualizar através de um recorte sobre a
Idade do Ferro, comentando um período de contínuas trocas pelo mediterrâneo que teria
se iniciado no século X a.C. com a difusão da produção de um elemento de grande
importância que seria o ferro; Guarinello cita que sua produção exigia organizações
sociais mais complexas. Após isso, no século IX a.C. o contato entre os povos do
mediterrâneo é retomado através de um mar cheio de navegadores, comerciantes e piratas.
O resultado disso foi um grande intercâmbio de pessoas, produtos, crenças e culturas.
Devido esses contatos no período em questão desenvolveu-se diversas modas
mediterrânicas onde havia uma grande pluralidade de trocas sem ser estabelecido
qualquer tipo de hegemonia até então. O autor atenta, entretanto, que há periferias que
ocorrem em seu recorte, como o próprio disse, se é possível ainda formar uma história
totalmente unificada. Na sua menção a esses povos que estariam na periferia ele recorda
dos judeus e dos celtas, além de abrir caminho para o que seria o foco do próximo
capítulo, as cidades-estados. O autor comenta como estas se relacionavam com os povos
do mediterrâneo, afirmado que surgiram em um período de um mar já conectado, e a
formação destas pólis se deram do fechamento de suas fronteiras internas, muitas vezes
para defesa do território agrícola de uma região. O que definia estas cidades estados eram
o seu espaço público(fórum, ágora, etc..) e suas autonomias. O autor ao tratar do fim da
aristocracia de nascimento dá o exemplo de algumas destas cidades-estados e vai além de
citar as tradicionais e ocidentais Atenas e Esparta e inclui e comenta sobre cidades como
Cartago, Siracusa e a Sicília. Junto ao nascimento das pólis ocorre o surgimento de uma
identidade política e locas, de uma dimensão cultural dos povos.

Algumas destas identidades e povos através da articulação e integração com outros


começaram a se expandir para outras regiões, como o caso dos gregos, e surgem
hegemonias, que é o capítulo seguinte. Mas ao invés de abordar as hegemonias da
perspectiva ocidental ele dá maior ênfase a outras como é o caso de por onde começa,
com o Império Persa. Através deste império e de suas guerras com os gregos e a entre
estes o autor adiciona o fator das próprias guerras como algo que integrava os povos e as
culturas. Perpassa ainda pela hegemonia do reino da macedônia, Cartago, e da Magna
Grécia com a helenização, até chegar a unificação da península itálica e de Roma.

Há dois capítulos na sequência que vão dar ênfase a Roma Antiga. Essa opção do autor
é dada pelo fato de a unificação da Itália ter sido a instauração de um Império
Mediterrânico. Mesmo permanecendo uma pólis Roma com seu império se tornou algo
muito além disto exercendo domínio e influência em povos de todo o mediterrâneo. A
expansão deste império esteve muito relacionada a um forte exército e se deu através de
guerras; No capítulo Guarinello narra como foi esta expansão e as conquistas em uma
ordem cronológica de crescimento ao mesmo tempo que vai tecendo comentários sobre
fatores envoltos a essas guerras de expansão como as resistências a ela, a função da mão-
de-obra escrava no processo, e uma crise devido a desigualdade no Império devido a má
distribuição das riquezas ganhas com a expansão. Ainda menciona as guerras internas
pelo poder na República Romana; Após esta apresentação inicial do Império Romano
com enfoque na pólis Roma e o que estava a seu redor, o capítulo “O Império” é o qual o
autor vai discorrer sobre as regiões submetidas ao poder de Roma e suas relações com
esta. Ele começa afirmando que este império durou vários séculos devido a uma
integração consolidada antecessor a este; logo após ele levanta o questionamento em
torno de uma identidade romana entre aqueles povos e os aspectos da romanização,
negando esta ideia e que isto envolveria aspectos mais complexos. Entretanto ele
menciona os aspectos que unificavam o império como é o caso do culto ao imperador, e
fatores da economia como as moedas e a taxação de alguns impostos. Perpassa também
pelas revoltas do império como as da plebe, o controle social, e o cristianismo. Em seu
fim menciona a crise do Império decorrendo de grandes choques, a peste, fortalecimento
de outros impérios no oriente (os partas) e uma sucessão de “imperadores frágeis”,
ressaltando que esta crise não englobava todo império pois havia regiões que eram de
domínio romana que cresciam como o norte da África e a Síria, mas se distanciando ao
mesmo tempo do poder romano.

Encerrando a obra o autor trata no capitulo “Antiguidade Tardia” o debate


historiográfico que rodeia o tema. Inicia mencionando os séculos IV e V, estes sendo bem
documentados e dizendo que antes eram considerados de “Baixo Império”; após isto,
menciona que os estudos do século XX sobre História Antiga trouxeram uma ampliação
das balizas cronológicas. Menciona que a partir do século IV o Império foi reorganizado
em unidades menores, o que gerou modificações sociais e culturais importantes além das
tensões de diversos povos com o império. Faz a ressalva também de que se é necessário
um outro olhar para o período, como a partir do século V se tornar necessário construir
uma narrativa história a partir de outros a partir de ângulos mais amplos que incluam
outros povos como os do norte da Europa e os do Oriente.

A obra de Norberto Guarinello traz uma narrativa original ao abordar esta história da
perspectiva da integração dos povos na Idade Antiga; alcança o que se propõe ao trazer
uma visão deste período que não fosse totalmente ocidentalizada ao mesmo tempo que
não ignora pontos importantes também desta cultura ocidental. Além dos capítulos
narrativos consegue trazer um debate em cima da historiografia de modo atualizado e
coeso utilizando diversos autores da área, sem deixar de lado suas impressões.

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