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DO Suplemento

Editorial
A República
Nós,doRN...
Diário Oficial do Estado do Rio Grande do Norte Ano II - Nº 17 - Abril de 2006

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ME E
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arinho
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Varela S
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Januário

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Cavalcan
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Onofre
2 - nós do RN
Suplemento Natal, abril 2006

APRESENTAÇÃO

Nós (os médicos) do RN Estado do Rio Grande do Norte


Assessoria de Comunicação Social
WILMA MARIA DE FARIA
Governadora do Estado
RUBENS LEMOS FILHO
CARLOS ALBERTO DE FARIA
Gabinete Civil do Governo do Estado
mpliando a antropo geografia do Estadual de Imprensa – DEI, enalteço este
Rio Grande do Norte, o “nós, do encarte do Diário Oficial, como um dos RUBENS MANOEL LEMOS FILHO
Assessoria de Comunicação Social
RN” enfoca nesta edição um dos instrumentos mais importantes da política
segmentos mais importantes do cultural traçada pela Excelentíssima Senhora
Estado, a Medicina, apre- Governadora Wilma Maria de Faria.
sentando com propriedade a E, pelo bom cumprimento da tarefa
atividade humana no sistema executada pelos nossos companheiros, RUBENS MANOEL LEMOS FILHO
Diretor Geral em exercício
medicinal, na clínica e na atividade estendo um reconhecido agradecimento à
cultural, artística e literária dos classe médica, pela colaboração dada para que Henrique Miranda Sá Neto
Coordenador deAdministração
médicos. registrássemos casos, fatos e minudências de e Editoração
Em reconhecimento ao personalidades e instituições que aliaram e aliam
JURACIR BATISTA DE OLIVEIRA
trabalho jornalístico desem- a arte e a ciência da cura com a caridade e o Subcoordenador de Finanças
penhado pelo Departamento espírito público.
EDUARDO DE SOUZA PINTO FREIRE
Subcoordenador de Informática
EDITORIAL nós, do RN
editor-geral

Vulpiano Cavalcanti: um médico - herói MIRANDA SÁ

chefe de redação
MOURA NETO

MIRANDA SÁ Secretário de Redação


EDSON BENIGNO

mês de abril deveria ser ilustrado socialistas e lutando pela nacionalização do Secretário Gráfico
VALMIR ARAÚJO
nas folhinhas sob o signo da cruz petróleo e pela Petrobrás, Vulpiano sofreu prisões
vermelha: o dia sete é o Dia do equipe redacional
e inomináveis torturas, tendo inclusive seus dedos PAULO DUMARESQ - REPORTAGEM
Médico; dia oito, o Dia Mundial de cirurgião emérito quebrados pela repressão ANCHIETA FERNANDES - PESQUISA
de Combate ao Câncer e, no dia JOÃO MARIA ALVES/CLÓVIS SANTOS - FOTOGRAFIA
em 1952.
12, o Dia do Obstetra. Por diagramação e arte final
reconhecimento aos médicos e Com este protótipo de coerência e dignidade, EDENILDO SIMÕES
outras personalidades médicas desfilam nas PAULINHO CAVALCANTI
identificação com as suas
nossas pági- Capa
manifestações sociais, políticas e EMANOEL AMARAL
culturais, dedicamos-lhes este nas, como
Colaboradores
“nós, do RN ”. merecedoras CARLOS MORAIS
Modelamos um exemplo de do registro CARLA XAVIER
CARLOS DE SOUZA
homem e profissional, doutor histórico e CARLOS FREDERICO DA CÂMARA
Vulpiano Cavalcanti de Araújo, marcando a EDSON GUTEMBERG DE SOUSA
Coordenação Gráfica
um verdadeiro herói do povo nova incursão Giselda o
Clóvis
Sa rinho

WILLAMS LAURENTINO
Trigueir

brasileiro. Embora nascido no da Imprensa rio Cicc


o
Varela
Santiag
o

Januá

Ceará, doutor Vulpiano viveu no Oficial pelas


Rio Grande do Norte exercendo profissões que Iap eri
Araújo

a medicina e atuando na política edificam e o


Vulpi an nte
Cavalca

como líder do movimento orgulham a so- Luis An


tônio Onofre
Lo pe s Departamento Estadual de Imprensa
Av. Câmara Cascudo,
355 - Ribeira - Natal - RN
comunista entre nós. ciedade norte- CEP.: 59.025 - 280 -
Na defesa dos princípios rio-grandense. Tel.: (84) 3232 6793
Site: www.dei.rn.gov.br - e-mail: dei@rn.gov.br
Natal, abril 2006 nós do RN-3
Suplemento
FOTO:ARQUIVO

Intelectual
do futuro Visionário e benfeitor
“Culto, excelente conversador, amante
das boas letras e de reuniões sociais”,
como disse Veríssimo de Melo, Januário
Cicco foi um intelectual atuante que
produziu livros, teses, artigos e proferiu
palestras e conferências sobre temas que Januário Cicco
despertavam seu interesse. Ocupou como
sócio-fundador a cadeira nº 11 da MOURA NETO
Academia Norte-Rio-Grandense de fermagem em 1950. Já foi dito que o medicamentos, o governador José
Letras, cujo patrono é Padre João Maria. Não havia em Natal, no início do sé- Centro de Estudos da Sociedade de Augusto aceitou a idéia de repassar a
Sua tese de doutorado, intitulada “O culo passado, mais do que 20 mil habi- Assistência Hospitalar, que ele criou em administração daquela unidade de saú-
destino dos cadáveres”, gerou polêmica 1951, foi o embrião da Faculdade de de para uma entidade civil. A Socieda-
tantes. A cidade compreendia basica-
nos meios acadêmicos pela defesa do Medicina do Rio Grande do Norte que de de Assistência Hospitalar (SAH),
mente os bairros da Ribeira e da Cida-
direito de cremação numa época em que
de Alta. Estavam em formação os do um de seus diletos discípulos, Onofre criada em 1927, tornou-se então o ór-
isso contrariava os preceitos católicos.
Alecrim, Tirol e Petrópolis, os dois últi- Lopes, consolidou em 1955. De sua ini- gão mantenedor do Hospital de Carida-
Não menos polêmica foi a obra que
dedicou à eutanásia, assunto que ainda mos sob a denominação de Cidade ciativa originou-se também um sistema de e, depois, da maternidade. O hospi-
hoje provoca celeuma – imaginem Nova. Com a construção da ponte me- de proteção à maternidade e à infância. tal foi crescendo, incorporando novos
naquele tempo! No livro “Notas de um tálica sobre o rio Potengi, em 1916, foi Destacou-se não apenas como um serviços e profissionais.
médico de província”, comenta casos instalado o assentamento de Igapó, ha- visionário que soube fazer por onde Maternidade - Em 1927, ao receber
que vivenciou no exercício da profissão. bitado por pescadores, roceiros e ferro- materializar seus sonhos e projetos, to- um terreno de doação do prefeito Omar
Como sanitarista, numa época em que viários. Desde meados do século 19, o dos voltados ao bem-comum, adminis- O’Grady, Januário Cicco encampou a
desempenhava a função de inspetor de único hospital era uma espécie de trando com competência as instituições luta pela criação de uma maternidade,
Saúde Pública do Porto de Natal, pardieiro que servia de abrigos para os que ajudou a fundar, mas também como projeto que seria concretizado apenas
escreveu uma das obras mais ricas de sua pestilentos. Foi nesse palco rudimentar profissional médico, atendendo em vá- em 1950, depois que o prédio, já quase
carreira. “Como se higienizaria Natal”, que entrou em cena um ator que muda- rias especialidades: parteiro, clínico, ci- pronto, foi requisitado pelo Ministério da
publicada em 1920, apresenta um ria os rumos da assistência médica e rurgião, oftalmologista, sanitarista, além Guerra, que o utilizou durante a Segun-
diagnóstico sobre as condições de hospitalar do Rio Grande do Norte: de dentista. Foi ele o responsável pela da Guerra Mundial como Hospital de
salubridade e um plano de saneamento primeira operação de cisto de ovário em Campanha. Se antes disso foi preciso
Januário Cicco.
da cidade. “A partir dos anos vinte do
Formado em 1906 pela Faculdade de Natal. “Era uma força da natureza des- mobilizar a sociedade natalense para a
século passado, o Governo do Estado do
Medicina da Bahia, Januário Cicco pertada para o bem da coletividade”, na realização de festas, rifas e quermes-
Rio Grande do Norte encampou e
retornou a Natal para instalar consultó- definição de Aluízio Alves. “Dele, pode- ses destinadas a angariar fundos para a
implementou quase totalmente o plano
de Cicco”, afirma Pedro de Lima, mestre rio na casa dos pais, na rua Duque de se dizer que morreu de sonhar. Deve obra, depois da devolução do prédio, ao
em antropologia social pela UFRN, Caxias, Ribeira. Até então, apenas dois dizer-se que tombou lutando”. fim do conflito bélico, foi preciso exigir
autor de um estudo sobre este trabalho médicos atendiam toda a população Hospital – Coube a Januário Cicco indenização do governo federal para sua
de Januário Cicco. natalense - Segundo Wanderley e Afon- convencer o governador Alberto reforma. Mais uma vez estava ele,
Pelo conjunto de ações que realizou e so Barata - no velho hospital da cidade. Maranhão a adquirir uma casa de vera- Januário Cicco, à frente dessa luta.
de idéias que contribuíram para Num período de quatro décadas e meia, neio no Monte Petrópolis, em 1909, para A inauguração da Maternidade de
transformar a sociedade em que viveu, porém, o filho ilustre de São José do adaptá-la ao funcionamento do Hospi- Natal foi um acontecimento social. O
Januário Cicco “parece mesmo ter Mipibu, nascido em 30 de abril de 1881, tal de Caridade Juvino Barreto, que pas- bispo de Natal, dom Marcolino Dantas,
nascido predestinado para os grandes iria construir uma obra social inestimá- sou a se chamar, em 1936, Miguel Couto. e Luis da Câmara Cascudo lideraram
planos e realizações, nos quais vel, no plano material e intelectual, como Além de acompanhar as obras de re- uma campanha para batizar a “Casa da
empregou, não só muito tempo e fortuna, apóstolo devotado à profissão que tanto forma do imóvel, Januário Cicco assu- Mãe Pobre”, como gostava de chamar
mas sobretudo entusiasmo de miu a direção do estabelecimento. A seu fundador, com o nome de Januário
honrou e precursor dos avanços da Me-
pensamento, vocação e energia”, como princípio, havia apenas 18 leitos dividi- Cicco. Ali nasceu, no dia 12 de feverei-
dicina na cidade que ainda não passava
assinalou, sobre ele, outro imortal da
de um arraial. dos para os pacientes dos sexos mas- ro de 1950, o primeiro bebê, que rece-
ANL, Manoel Rodrigues de Melo. Ou,
Sua marca está em quase tudo que culinos e femininos, que eram atendi- beu o nome de Yvette. Uma homena-
como disse Iaperi Araújo, ex-diretor da
maternidade e autor do livro “Januário foi feito naquele tempo. Na fundação dos, exclusivamente, por Januário Cicco. gem à filha que Januário Cicco teve com
Cicco – um homem além do seu tempo”, de um hospital em 1909 e de uma ma- Somente em 1917 foi nomeado o médi- a pernambucana Isabel Simões, ambas
foi ele algo mais do que “a alma de ternidade em 1950. Criou o primeiro co Otávio Varela como seu ajudante. falecidas em 1937. Quinze anos depois,
nossa História da Medicina”. “Acima de Banco de Sangue e o Serviço de Pron- Para viabilizar o funcionamento do em 1º de novembro de 1952, falecia do
todos os títulos, foi um homem do to Socorro do Rio Grande do Norte, em hospital, desburocratizando o processo coração o próprio Januário Cicco aos
futuro”. 1945, e uma Escola de Auxiliar de En- de aquisição de gêneros alimentícios e 71 anos.
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pior, pegou um ita para o Rio de


Janeiro, onde concluiu o curso em
1932, experimentando toda a sorte de Primeiro a Faculdade de Medicina,
dificuldades. Interno por concurso no
Hospital da Marinha, no Rio, veio depois a universidade estadual
exercer as atividades de cirurgião em
Natal, entre 1933 e 1961. De volta à O curso começou a funcionar no Miguel Couto e na Ma-
ternidade e ao mesmo tempo passou-se a construir o prédio
província, montou consultório na rua da própria Faculdade. Como não havia recursos disponí-
Ulisses Caldas e celebrizou-se ao veis, o edifício foi planejado em módulos. Ergueu-se o pri-
prestar socorro médico a uma senhora meiro módulo para funcionar o primeiro ano. Depois, com o
num evento social, embocando a tempo, se fazia o segundo módulo para funcionar a série
mandíbula da mulher, após essa seguinte e assim por diante. A abnegação era tanta que Onofre
deslocá-la por força de uma risada. A Lopes saia pedindo ferros, tijolos, cimento e mão-de-obra às
partir de então, passou a ser o médico boas almas de Natal. Também solicitou ao governador Dinarte
Mariz autorização governamental para o Hospital Colônia, o
da moda em Natal.
Itep, o Hospital Evandro Chagas e o Leprosário São Fran-
Os prodígios de Onofre Lopes cisco de Assis funcionarem como apêndice da Faculdade.
○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

chegaram aos ouvidos do dr. Januário Registra o médico e pesquisador Iaperi Araújo que a mai-
Onofre Lopes Cicco, que o convidou para fazer oria do corpo docente do curso de medicina veio do Recife
transformou em parte de junta médica e depois inte- para ministrar aulas nos fins de semana. A aula inaugural foi
realidade o projeto
Semeador de sonhos

grar o quadro de médicos do Hospital dada pelo médico sanitarista Reginaldo Fernandes e a aula
da Faculdade de Miguel Couto. A amizade entre os prima ministrada pelo doutor Luigi Olivieri. Outra figura lem-
Medicina e da brada é Jurandir Lodi, irmão de Euvaldo Lodi, e Diretor do
dois durou 28 anos. Neste período, o
universidade Ensino Superior. Jurandir Lodi agilizou o processo de reco-
filho de Comum realizou estágios em nhecimento do curso e foi o primeiro Doutor Honoris Causa
São Paulo e nos Estados Unidos, da Universidade do Rio Grande do Norte. Veio a Natal, em
PAULO JORGE DUMARESQ precisamente em Nova Iorque, Boston março de 1958, com seu auxiliar dr. José Dias, viu as escolas
e Filadélfia. superiores já instaladas e propôs a Universidade.
Afirma o sábio popular que ninguém Pressentindo a morte próxima, Na época existiam os cursos de direito, dirigido pelo pro-
foge ao destino. Com Onofre Lopes Januário Cicco chamou o governador fessor Otto de Brito Guerra; farmácia e odontologia, pelo
professor José Cavalcanti Melo; filosofia, pelo professor
da Silva não foi diferente. O menino Silvio Pedrosa e reivindicou o terreno
Edgar Barbosa; serviço social, pela professora Maria Mar-
de Comum, distrito de São José de do Miguel Couto para a Sociedade de garida Filgueira, além do curso de medicina.
Mipibu, nasceu a 13 de julho de 1907, Assistência Hospitalar. Voltou-se Com um estetoscópio na mão e uma idéia na cabeça,
predestinado a exercer a medicina. também para Onofre Lopes e rogou Onofre Lopes procurou Dinarte Mariz em 1958 e sugeriu ao
Para escapar das formigas do roçado que não deixasse a obra dele desapa- governador a criação da Universidade do Rio Grande do
do pai, que lhe picavam os pés, o recer, pedindo a continuidade e a Norte. Autorizada por Dinarte, a universidade foi fundada
adolescente Onofre Lopes, premedi- manutenção dos serviços do Miguel em 25 de junho de 1958 e instalada em sessão solene realiza-
tando o destino, bateu asas e mudou- Couto (que hoje se chama Onofre da no Teatro Alberto Maranhão, a 21 de março de 1959. O
prédio da Reitoria começou a funcionar na avenida Hermes
se para Natal, passando a morar em Lopes), da Maternidade e da Socieda- da Fonseca, em casa que pertencera ao senador João Câma-
casa de tios e a trabalhar numa de de Assistência Hospitalar. Solicitou ra.
bodega. Começou assim a trajetória ainda o empenho do amigo na realiza- A federalização da Universidade foi feita a fórceps. Du-
do homem que iria dar continuidade ao ção de seus sonhos, notadamente a rante visita do presidente Juscelino Kubistchek a Natal,
trabalho pioneiro de Januário Cicco. implantação da Faculdade de Enfer- durante encontro da CNBB, em 1960, Onofre Lopes, reitor, e
Com fome de conhecimentos, magem, Faculdade de Medicina e da Otto Guerra, vice-reitor, realizaram abordagem informal, onde
ingressou no Atheneu Norte-Rio- Universidade do Rio Grande do Norte. fizeram apelo convincente ao chefe da nação. Sensível ao
pedido, JK deu sinal verde e pediu que a dupla cuidasse da
Grandense, onde cursou Humanida- A responsabilidade de dirigir o papelada. Cumpridas as etapas e os trâmites legais, a
des. Concluído o segundo grau, Hospital, a Maternidade e a Socieda- federalização foi aprovada pelo Congresso a 18 de dezem-
transferiu-se para a veneza brasilei- de, serviu de incentivo para Onofre bro de 1960. Dedicado à universidade que criou, Onofre
ra em busca de seu sonho. Ingressou Lopes. Em 1952, iniciou a instalação Lopes passou 12 anos à frente da instituição, dirigindo-a
na Faculdade de Medicina do Recife, do curso de Medicina, deflagrando o com austeridade espartana.
em 1927, com bolsa doada pelo então processo de criação da Universidade O incomum menino de São José de Mipibu foi um vitorio-
governador José Augusto. Em situa- do Estado. A Faculdade foi fundada a so. A conquista de espaços pela universidade deveu-se em
grande parte ao seu mérito pessoal. Iaperi Araújo afiança
ção de penúria, pois a bolsa mal dava 29 de janeiro de 1955. Logo após esse
que Onofre Lopes abdicou da carreira médica e do conforto
para pagar as despesas, Onofre Lopes feito, partiu para o Rio de Janeiro para pessoal para operar o grande sonho de sua vida: a criação
passou a dar aulas de alfabetização no pedir autorização de funcionamento do da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. “Ele era
Sindicato dos Carvoeiros. curso. Já o reconhecimento saiu antes homem austero, obstinado pelo trabalho e pela cultura”, res-
Em 1930, o sindicato foi fechado e do primeiro vestibular, ocorrido em salta o pesquisador.
ele recebeu o bilhete azul. Prevendo o 1956.
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Suplemento
Fotos:Clóvis Santos

são formados em Medici-


Maurilton Morais, autor de na. E, coincidentemente, o
primeiro norte-rio- Iaperi Araújo:
“O Macho e o Poder” (1989) e pintor, músico,
“Almadia” (ainda inédito) grandense a se diplomar
em Medicina foi também o poeta, biógrafo
primeiro norte-rio- e ensaísta
grandense a escrever um
romance, o assuense Luiz
Carlos Lins Wanderley,
nascido a 30 de agosto de
1831 e falecido em Natal a
O primeiro ocupante da cadeira nº 11 o pintor, músico, poeta, ficcionista,
10 de fevereiro de 1890.
foi o ensaísta Januário Cicco. O cineasta, biógrafo e ensaísta (além de
Diplomou-se pela Acade-
segundo ocupante da referida cadeira médico, é claro) Iaperi Soares de
mia de Medicina da Bahia,
foi o conferencista Onofre Lopes da Araújo. O primeiro ocupante da
em 1857. Seu romance
Silva. O segundo ocupante da cadeira cadeira nº 29 foi o poeta e ensaísta
“Mistérios de um Homem
nº 14 foi o ensaísta Raul Fernandes. O Esmeraldo Homem de Siqueira
Rico” foi publicado dividido
atual ocupante da referida cadeira é o Cavalcanti. O primeiro ocupante da
em duas partes: a primeira,
ensaísta Armando Negreiros. cadeira nº 38 foi o ensaísta José
em 1773; e a segunda, em
O atual ocupante da cadeira nº 23 é Tavares da Silva.
1883. Luiz Carlos Lins
Wanderley é o patrono da
cadeira nº 06 da Academia
Norte-Rio-Grandense de Letras.
Aliás, outros patronos da ANL
A arte no sangue
ANCHIETA FERNANDES também se formaram em Medicina:
Fora do âmbito da ANL, pode-se Galhardo, compositor e cantor; João
Pedro Velho de Albuquerque mencionar: o poeta visual Avelino de Batista de Souza Rabelo, compositor e
A arte e a literatura são, às vezes, Maranhão, grande médico, jornalista, Araújo; o ensaísta Maurilton Morais, cantor; João Juvanklin de Souza,
remédios para distúrbios psicológicos orador, político (senador), fundador da também cronista, autor dos livros “O compositor, instrumentista e cantor;
ou males físicos. Tanto para quem as Imprensa Oficial no RN, é o patrono Macho e o Poder” (1989) e “Almadia” Lívia de Medeiros, poeta e composito-
(a ser lançado brevemente); o dese- ra; Márcio Robertti Ramalho da Cunha,
produz como para quem as desfruta e da cadeira nº 15; Manuel Segundo nhista e músico Francisco Reinaldo de compositor, cantor e instrumentista;
aprecia. A especialista Sara Klachky Wanderley, poeta e teatrólogo, é o Azevedo e Silva; o poeta Jair Maciel Márcio Luiz Tassino de Araújo,
de Makler observou que certas obras patrono cadeira nº 16. Aurélio de Figueiredo; o poeta Olinto Rocha, compositor e instrumentista; Napoleão
musicais (Clair de Lune, de Debussy; Waldemiro Pinheiro, romancista, incluído na antologia “Geração de Paiva Sousa (Napoleão Veras),
Alternativa”, de J. Medeiros; o pintor, poeta e compositor; Sérvulo Augusto
Estrela Noturna, de Wagner, entre ensaísta e dicionarista, é o patrono da músico e escritor Túlio Fernandes, o Nobre de Medeiros, compositor e
outras) são analgésicos que estimulam cadeira nº 27. Luis Antônio Ferreira artista plástico Leopoldo Nelson, que cantor; Sérvulo Antônio de Holanda
o hormônio beta-endorfina, que Souto dos Santos Lima, ensaísta, deixou um acervo de mais de 1.500 Godeiro, compositor; Vitoldo Maga-
combate a sensação de dor. cronista e conferencista, é o patrono pinturas em óleo sobre tela e acrílico. lhães Mavignier de Noronha, composi-
A tendência maior dos médicos, no tor, autor da marcha militar “Bandeira
Um dos pioneiros da Biomúsica foi o da cadeira nº 38. entanto, é se identificar com a arte do Brasil”, a primeira marcha composta
médico e músico Steven Halpern, Também entre os ocupantes das musical. O livro “Dicionário da Música no Brasil em homenagem à bandeira do
cujas composições são chamadas “os cadeiras alguns foram ou são médi- do Rio Grande do Norte”, de Leide país.
sons da saúde”, servindo especialmen- cos. O terceiro ocupante da cadeira nº Câmara, informa que muitos dos Vieram e ficaram - Eles não são
médicos potiguares ou que exercem a norte-rio-grandenses de nascimento,
te para controlar o stress. Na produ- 02 foi o estudioso e pesquisador da profissão no Rio Grande do Norte são mas vieram de outros Estados para dar
ção cultural de todas as partes do música popular Grácio Barbalho. O compositores, intérpretes e sua contribuição humanística ao
mundo pode-se encontrar médicos que quarto ocupante da referida cadeira é instrumentistas. Foi até gravado, em cuidado com a saúde dos potiguares e
ao mesmo tempo são artistas plásti- o ensaísta Ernani Rosado. O segundo 1998, pela Unimed, o CD “MPB – ao enriquecimento cultural das artes.
Médico Popular Brasileiro”, com Como a cearense Maria Gizelda
cos, poetas, músicos, teatrólogos, etc. ocupante da cadeira nº 03 é o historia- músicas exclusivas dos doutores. Trigueiro da Silva, poetisa; o
O grande compositor russo Borodine dor José de Anchieta Ferreira. O Vejamos a participação deles no pernambucano Antônio Carlos de
foi médico. E médico foi o maior segundo ocupante da cadeira nº 07 foi acervo musical: Carlos José Penha de Souza Spinelli, compositor e cantor; a
romancista brasileiro, João Guimarães o poeta Mariano Coelho. Araújo, compositor e instrumentista; paraibana Clotilde Tavares, poetisa,
Damião Nobre de Medeiros, composi- ensaísta, teatróloga e atriz; e o
Rosa. O quarto ocupante da cadeira nº 09 tor; Iana Oliveira e Silva Ribeiro, paraibano Franklin Roosevelt
No Rio Grande do Norte, vários foi o ficcionista e ensaísta João cantora e compositora; Ivanilton Capistrano, poeta e ensaísta.
criadores de obras de arte ou literárias Peregrino da Rocha Fagundes Júnior.
6- nós do RN Natal, abril 2006
Suplemento

N
ão se pode falar nos pioneiros
da Medicina no Rio Grande do
Norte - profissionais que fun-
Os imigrantes
daram hospitais, trouxeram equipamen-
tos tecnológicos e inovaram os procedi- Embora não nascidos no Rio
mentos em determinadas especialidades Grande do Norte, alguns médicos
- sem destacar, com justiça, as figuras vieram exercer sua profissão no
de Luis Carlos Lins Wanderley, o pri- Estado e se destacaram em suas
meiro norte-rio-grandense a se diplomar atividades. O pernambucano
em Medicina, em 1857, na Bahia, e Adolfo Ramires (Recife/
Januário Cicco, que atuou em várias es- 02.02.1887, Natal/17.03.1971), ao
pecialidades e fundou hospital e mater- chegar em Natal, em 1922,
nidade. Mas não coube somente a eles iniciou a primeira clínica
FOTOS:ARQUIVO

a proeza de trabalhar com afinco para especializada em oftal-


melhorar a qualidade de vida e de saú- mologia da cidade. Foi
de de seus conterrâneos, conforme mos- também um dos funda-
traremos a seguir. dores da Faculdade de
Médico que também se destacou pelo Farmácia e Odontologia
seu pioneirismo foi Manoel Varela San- de Natal, criada em
tiago Sobrinho (Touros – 28.04.1885/ 1947. Pertencendo a
Natal – 15.07.1977. Diplomado em uma geração bastante
Medicina no Rio de Janeiro, em 1910). estudiosa, além de sua
Dois empreendimentos da maior impor- especialidade, ele fez
tância levam seu mérito: o primeiro hos- outros cursos, inclusive o
pital infantil de Natal, nascido do Servi- de Saúde Pública promo-
ço de Proteção à Infância do RN, e a vido pelo Departamento
Vila São Francisco, com capela e cine- Nacional de Saúde, no
ma, destinado aos hansenianos. Além Leopoldo Nelson (acima)
Instituto Oswaldo Cruz,
disso, Varela Santiago fundou o estudou os saguis e Varela no Rio de Janeiro.
Educandário Osvaldo Cruz para educar Santiago (ao lado) criou o Devido aos novos
os filhos dos portadores de hanseníase, primeiro hospital infantil estudos, chegou a
incluindo um Jardim de Infância e uma ocupar o cargo de Diretor Geral
Colônia de Férias na Praia de Cotove- sil o broncoscópio, que diagnostica o cân- São Paulo, SP – 03.10.1987. Diplomado do Departamento de Saúde do
lo. cer pulmonar; e foi quem introduziu dia- em Medicina em Pernambuco, em RN.
No setor de práticas cirúrgicas, des- positivos na universidade do Rio Gran- 1957), que criou o primeiro serviço de Outro médico pernambucano
taca-se José Tavares da Silva (Natal – de do Norte para aulas de audiovisual. cirurgias cardio-vasculares em Natal, que veio para o Estado e aqui fez
14.12.1900/Natal – 29.08.1986. No campo de cirurgias cardíacas, o implantando-o no Hospital das Clínicas, nome foi Clóvis Sarinho (Olinda/
Diplomado em Medicina no Rio de Ja- pioneiro foi o coronel-médico Pedro trazendo então o primeiro aparelho de 05.06.1910, Natal/12.03.1994).
neiro, em 1926). Foi ele quem realizou, Germano da Costa (Natal – 30.06.1931/ cateterismo usado em Natal. Ele veio para o Rio Grande do
no Rio Grande do Norte, a primeira re- Norte, a convite, para fazer parte
moção do útero devido a um fibroma, a
primeira operação cesariana e a primei-
ra transfusão de sangue.
Estudo inédito da equipe de médicos do Hospital
do Seridó, em Caicó, o mais
antigo do interior do Estado. Ali,
Da região Oeste aparece, entre os que A partir da década de 70 do século que Leopoldo Nelson “foi o primeiro, introduziu práticas cirúrgicas
desbravaram os caminhos da Medicina passado, um médico iniciou uma pes- no Brasil, a realizar um estudo neu- modernas.
no Estado, Raul Fernandes (Mossoró – quisa até então jamais feita: o estudo rofisiológico do sagüi.” E complementa Em 1935, veio para Natal, onde
09.09.1908/Rio de Janeiro – 14.08.1998. do cérebro dos sagüis, levado a uma dizendo que o médico “foi o criador de introduziu a cirurgia pediátrica.
Diplomado em Medicina no Rio de Ja- correlação com o cérebro humano, um sistema inédito (...) No Biotério Em 1939, com outros médicos e
neiro, em 1932). Em 22 de setembro de também observando o comportamento Central, montado por ele, foi conseguida idealistas, fundou a Policlínica do
2005, ao tomar posse como sócio efeti- dos animais. Seu nome: Leopoldo Nel- (...) a reprodução de saguis em cativei- Alecrim. Também foi um dos
vo do Instituto Histórico e Geográfico son de Souza Leite (Natal – ro”. fundadores da Casa de Saúde
do Rio Grande do Norte, o odontólogo 25.10.1940/Natal – 04.03.1994. A cirurgia para tratamento estético de São Lucas, inaugurada em Natal
Carlos Augusto Marques Gurgel Diplomado em Medicina no Rio Gran- pessoas vítimas de queimaduras foi a 06 de janeiro de 1952. Clóvis
enalteceu a biografia de Raul Fernandes, de do Norte, em 1968). introduzida no Rio Grande do Norte pelo Sarinho foi o médico que fez a
filho de Rodolfo Fernandes, o dinâmico O escritor Luiz Gonzaga Cortez Go- doutor Jussier Ribeiro de Magalhães primeira esplenectomia (retirada
prefeito de Mossoró dos anos 20. mes de Melo afirmou categoricamen- (Assu – 17.09.1947/Natal – 24.03.1986. do baço) em Natal. É autor do
No discurso, ele menciona que Raul te, em seu livro “Cientistas e Pesqui- Diplomado em Medicina no Rio Gran- livro “Perfis de Médicos do Rio
Fernandes foi quem trouxe para o Bra- sadores Norte-rio-grandenses” (1983), de do Norte, em 1973). Grande do Norte” (1984). (AF)
Natal, abril 2006 nós do RN-7
Suplemento

CARLOS MORAIS açuense Luís Carlos Lins Wanderley, em 1857 (o primeiro médico do Estado), e Vicente
Inácio Pereira, dois anos depois (o primeiro médico de Natal), debutaram na dupla vere-
da.
O vírus da política contaminou, irremediavelmente, Outro médico e futuro político, o primeiro e único a destacar-se, inusitadamente,
a safra pioneira dos médicos na história médico-políti- durante o período imperial e velho republicanista, o lendário Pedro Velho de Albuquerque
ca do Estado. Um contágio latente até os dias atuais. Os Maranhão, também freqüentador inicial daquela escola médica baiana, terminou douto-
médicos e a política, assim, vivenciaram, no período do rado, em 1880, na Faculdade do Rio de Janeiro, aos 24 anos.E sequenciou a trajetória da
Império brasileira e da República Velha, nos séculos XIX e bagagem genética modelo, depois de seduzido pela mosca azul da política, que o divor-
XX, um casamento de conveniências e de afinidades que ciou do matrimônio médico.
não pode ser ignorado ou dissociado na nossa história. Os Esses três jovens médicos conquistaram, cada uma a seu modo e estilo, uma notável
dois médicos pioneiros da nossa medicina, nascidos em territó- escalada de sucesso diante da sociedade norte-rio-grandense, com todos a alcançar o
Vicente Inácio Pereira rio potiguar, e doutorados em Salvador, na Faculdade da Bahia, o supremo poder executivo ao assumirem os destinos do Governo do Estado.

Luís Carlos Lins Wanderley uma cadeira, mas foi defenestrado. Vicente Inácio Pereira gem pelo Governo da Província, de 14
Só mudou de facção, em 1886, de fevereiro a 13 de março de 1879.
quatro anos antes de morrer, para Pegou um osso duro ao assumir a
atender a um pedido do sogro, o administração estadual, ao receber os
Primeiro médico jornalista João Carlos Wanderley, que O primeiro débitos trágicos e duros da
o filiou ao Partido Conservador, famosa Seca dos Dois Sete (1877),
e romancista pioneiro responsável por entronizá-lo na médico de Natal que espalhou mortandade e atingiu
cadeira do Governo do Estado, duran- uma mortalidade em torno de 3.000
Luís Carlos Lins Wanderley despon- te 12 dias, entre o final de outubro e Vicente Inácio Pereira, ao conquis- vítimas mensais.
tou na nossa história, com uma dupla 11 de novembro de 1886. tar o direito de usar a esmeralda Enfrentou a adversidade com uma
façanha patriarcal e única:primeiro “Bom médico, amigo dos pobres”, simbólica, na condição de primeiro metodologia renovadora em seus
médico e romancista pioneiro das resumiu Luís da Câmara Cascudo. médico de Natal, retornou à Provín- métodos funcionais, ao combater
nossas letras. O açuense exibe ainda Mas recebeu a justa homenagem pela cia, passou a encarar a medicina vícios e irregularidades, ainda hoje em
um cartel invejável e multifacetado: bagagem literária, deixada por um dos como um sacerdócio e, em seguida, cena. Racionalizou as operações
poeta, teatrólogo, jornalista, professor mais legítimos representantes da ao casar-se, a 14 de novembro de emergenciais e fiscalizou, direta e
do Ateneu, médico do Hospital de cultura provinciana no período imperi- 1863, com Isabel Duarte Varela, filha pessoalmente, todos os serviços.
Caridade, Diretor da Instrução Pública al. dos barões da açucarocracia de Quando entregou a administração,
e Inspetor da Saúde Pública. E o Governo do Império concedeu- Ceará-Mirim, ligados ao chefe liberal ainda ofertou os seus vencimentos,
Personalidade distinta do Partido lhe a comenda da Imperial Ordem da Moreira Brandão, entrou na politica. ganhos no Hospital de Caridade. E
Liberal até 1885, com aguerrida Rosa, uma homenagem correta ao seu Ao penetrar na política, rapidamente, retornou, sereno, para o seu engenho
militância nas acirradas pelejas trabalho dedicado e infatigável no se elegeu deputado provincial em Guaporé, no verdejante vale do
eleitorais, nas quais se elegeu deputa- socorro aos atacados pela violenta duas legislaturas consecutivas (1864- Ceará-Mirim, que o viu morrer, com
do provincial, e enfileirour mandatos, epidemia de cólera-morbo que grassou 1865 e 1866-1867), e conseguiu uma apenas 55 anos, manhã de 22 de
desde 1858 até 1883, quando ganhou na Província. meteórica, embora brilhante passa- novembro de 1888.

Pedro Velho

Nos braços do povo, da medicina e da política


Pedro Velho de Albuquerque obstetrícia, apesar apontado como mosca azul da política, que o espantou administrativo-partidária, montada por
Maranhão abraçou a medicina, o povo autoridade em cardiologia (defendera da medicina. A política iria absorvê-lo, ele e que funcionou muito tempo
e a política. E, depois de uma passa- a tese “Condições Patogênicas das totalmente, e chegou mesmo a conse- (1890-1918), durante quase uma
gem na cidade de São José de Palpitações do Coração e dos Meios guir dissecar a sua fama conquistada década, mesmo após a sua morte
Mipibu, hoje quase na Grande Natal, de Combatê-las”, um recheado folheto como clínico competente, que consul- precoce.
onde clinicou e montou uma farmácia, de 133 páginas). tava os pobres, de graça e atendia Pedro Velho, que não gostava de
transfere-se para Natal, aos 25 anos, “Eleições, intrigas, compromissos, chamados, por escrito, a qualquer hora tomar remédios, dificilmente consulta-
onde irá se tornar, um dos médicos administração pública, fizeram-no ir do dia ou da noite. va os colegas e “tinha pavor da
favoritos da clientela natalense. A abandonando a Medicina, atendendo Tinha uma espécie de premonição morte”. Sua morte: ruptura do
formosura do belo mancebo bigodudo somente os amigos e, depois, nem de que morreria cedo, daí, talvez, ter aneurisma, a 9 de dezembro de 1917,
atraiu, mais especialmente, o público mesmo a esses”, analisou Cascudo. A azeitado, com muita pressa, o rolo- a bordo do “Brasil”, às 18,15 horas,
feminino que, afinal, atendia mais verdade é que Pedro Velho terminou compressor de sua “oligarquia mansa” antes de partir para o Rio e sonhava
consultas nas áreas da ginecologia e mesmo picado, mortalmente, pela , como ele chamava sua máquina com uma viagem restauradora.
8-nós do RN Natal, abril 2006
Suplemento

*** João Machado


O juramento de Hipócrates
encontrou no dr. João Macha-
do um fiel seguidor. Nascido
em 1912, o prodigioso filho de
Lajes cursou o secundário no
Atheneu Norte-Rio-
Grandense e o superior na
Faculdade de Medicina do
Recife, onde concluiu o curso
em 1937. Conquistou o
prêmio “Raul Leite”, outorga-
do ao primeiro da classe e
regressou a Natal, passando a
clinicar em hospital de aliena-
dos, no Alecrim. A vocação
para o estudo das doenças da
mente fê-lo cursar Psiquiatria
Clínica e Higiene Mental no
Departamento Nacional de
Saúde, em 1939.
Dentre os cargos que
Importantes para a História da ocupou na Medicina, regis-
tram-se os de chefia da
Clínica Psiquiátrica do Institu-
Medicina no Rio Grande do Norte, to Infantil e da Clínica Psiqui-
átrica do Hospital Miguel
Couto. Presidiu ainda a
Sociedade de Assistência aos
*** Luís Antônio Câncer, junto com Maria insignes profissionais da arte de curar Psicopatas e a Sociedade de
Luís Antônio dos Santos Alice Fernandes, conse- Medicina e Cirurgia do RN.
Lima nasceu no Assu em guindo, com seu esforço Também fundou a Escola de
1890. Em 1919, já casado, pessoal, instalar o primeiro Serviço Social de Natal e a
formou-se em Farmácia aparelho de radioterapia
destacaram-se em seu labor e viraram Faculdade de Farmácia e
no Recife e, logo após, de Natal, deixando como Odontologia, juntamente com
regressou a Natal, exer- herança seu nome ao outros profissionais médicos.
cendo a profissão de hospital que hoje se tornou celebridades, ultrapassando os limites No seu vasto currículo ainda
farmacêutico até 1922, referência no tratamento consta a criação da Casa de
quando ingressou na contra o câncer. Seu Saúde São Lucas, com Clóvis
Faculdade de Medicina do falecimento ocorreu a 10 Sarinho, Paulo Bittencourt e
Rio de Janeiro. Concluiu o de abril de 1961, em pleno do Estado, sendo assim Maria Alice Fernandes, tendo
curso, em 1927, com a exercício de suas ativida- sido diretor-presidente no
tese “Higiene Mental e des médicas. período 1952/1953.
Educação”. homenageados pela competência, pelo Concorreu na obtenção de
Pela sua competência no recursos públicos para a
exercício da medicina, foi construção e funcionamento
convidado para ser chefe de moderno hospital para
da Clínica Médica do sacerdócio e pelo humanismo doentes mentais. Seu sonho
Hospital Miguel Couto e tornou-se realidade em 1957,
para diretor do Hospital de quando o governador Dinarte
Doenças Infecciosas Mariz inaugurou o Hospital
Evandro Chagas. Certa- evidenciado. Colônia de Natal, anos mais
mente a maior façanha do tarde denominado de Hospital
(
dr. Luís Antônio foi a Colônia Dr. João Machado. O
(PJD)
fundação da Liga Norte- psiquiatra faleceu em Natal, a
Rio-Grandense Contra o 07 de novembro de 1965.
Natal, abril 2006 nós do RN-9
Suplemento
FOTOS:ARQUIVO

*** Pedro Germano


Em 30 de junho de 1931, nasceu *** Gizelda Trigueiro
Pedro Germano em Natal. Aluno O fato de ter nascido na
aplicado, cursou o científico no cidade de Missão Velha, no
Atheneu Norte-Rio-Grandense e interior do Ceará, em 1934, não
o superior na Faculdade de foi empecilho para a vitoriosa
Medicina do Recife, onde se carreira médica de Gizelda
formou em 1957. Em julho de Trigueiro. Com vocação para a
1962, foi nomeado diretor do arte de curar, ingressou na
Hospital da Polícia Militar, o qual Faculdade de Medicina da
recebeu seu nome. Esteve à Universidade de Pernambuco,
frente do Hospital da PM durante concluindo o curso na turma de
23 anos. Afora essa atividade, era 1959. Após contrair núpcias com
*** Clóvis Sarinho professor adjunto da UFRN, na Digestivas, Trauma Abdominal e o potiguar Kerginaldo Trigueiro,
Neste perfil enquadra-se Clóvis cadeira de Cirurgia Torácica. Micro-Cirurgia da Laringe. O seu colega de turma, veio
Travassos Sarinho. O destino quis Implantou no Hospital das devotamento do coronel-médico ao clinicar em Natal. Em 1961,
que o pernambucano de Olinda Clínicas, o primeiro Serviço de trabalho lhe valeu considerações começou sua carreira no magis-
viesse morar no Rio Grande do Cirurgias Cardiovasculares. Foi de apreço da Polícia Militar, além tério superior, ingressando na
Norte. Após os primeiros estudos nesse serviço que passou a de medalhas e condecorações Faculdade de Medicina da
em Pernambuco, a família viajou funcionar o primeiro aparelho de recebidas em Natal e em outras UFRN como professora assis-
para João Pessoa, onde o menino cateterismo de Natal, doado pela tente da cadeira de Clínica de
capitais brasileiras. Ao falecer, em
Clóvis Sarinho fez o primário e levou França. Com vasto currículo Doenças Tropicais e Infecciosas,
1987, era presidente de honra da
a cabo o curso de Humanidades no médico, Pedro Germano ainda fez passando no mesmo ano a ser
Associação Brasileira de Medicina
Liceu Paraibano. Em seguida, cursos de Tratamento de Fístulas regente da disciplina.
das Polícias Militares.
regressou a Pernambuco, concluindo Pela sua competência, foi
o curso médico na Faculdade de promovida a professor adjunto
Medicina do Recife, em 1933. em 1970 e tornou-se livre docen-
Depois da formatura, voltou para a *** Maria Alice *** Varela Santiago te, com defesa de tese, em 1977.
capital da Paraíba, começando a A fundadora do Hospital Dr. Luiz Figura humana superior, Varela Também exerceu chefia de
clinicar. Antônio e da Liga Norte-Rio- Santiago nasceu no Engenho Boa departamento na referida Facul-
Em março de 1934, recebeu Grandense Contra o Câncer, Maria Vista, no município de Touros. Iniciou dade e foi coordenadora do
convite para integrar a equipe o curso primário na residência dos
Alice Fernandes, nasceu no município Curso Médico. Era especialista
médica do Hospital do Seridó, em pais. Já em Natal fez o curso de
de Macaíba em 1914. Formando-se Humanidades no Atheneu Norte-Rio- em doenças infecto-contagiosas,
Caicó, o mais antigo do interior do pela Faculdade de Medicina do Grandense. Começou a cursar medici- sendo pioneira no estudo de
Estado. Encapsulado naquela
Recife, fez, posteriormente, cursos de na em Salvador e, no quarto ano, doenças tropicais. Em 1964, foi
policlínica, Doutor Sarinho inovou a
pós-graduação na Alemanha, Japão e transferiu-se para a Faculdade de nomeada Diretora do Hospital
medicina na região, por meio de
Suíça. Obteve ainda o diploma de Medicina do Rio de Janeiro, concluin- Evandro Chagas, atual Gizelda
práticas cirúrgicas modernas e
professora de inglês pela Faculdade do o curso em 1910, quando defendeu Trigueiro, deixando um trabalho
tornou-se bastante conhecido. A boa a tese “Estudo Clínico das Paralisias
de Filosofia do Recife. de modernização administrativa
fama chegou a Natal e, em 1935, Conseqüentes à Sífilis Cerebral”.
O seu trabalho em prol da saúde dos e de ampliação do atendimento
recebeu convite para trabalhar no Estudou ainda durante um ano na
Hospital de Caridade Juvino rio-grandenses-do-norte teve o reco- aos casos de doenças infecto-
Europa, passando em seguida a
Barreto, onde assumiu a chefia da nhecimento da Câmara Municipal do contagiosas. Deixou Natal
clinicar. Em 1934, ao participar do 3°
clínica cirúrgica, permanecendo Natal, que a homenageou com o Congresso da Sociedade de Neurolo- consternada quando faleceu, em
neste cargo até 1942. Também diploma de Cidadã Natalense. O gia, Psiquiatria e Higiene Mental do 1986.
clinicou no Hospital Infantil convida- Ministério da Saúde também a distin- Nordeste, em Natal, foi eleito por
do pelo Dr. Varela Santiago. Duran- guiu com diploma pelo empenho na unanimidade Presidente de Honra
te 40 anos permaneceu chefiando a luta contra o câncer no país. Seu desta Sociedade sediada no Recife.
clínica cirúrgica do serviço sob sua nome ornamenta o frontispício de Doutor Varela Santiago exerceu
direção. unidade hospitalar no conjunto cargos públicos como Diretor Geral do
habitacional Parque dos Coqueiros, Departamento de Saúde Pública nos
Também foi co-fundador da
localizado na Zona Norte, em reco- governos José Augusto e Juvenal
Policlínica do Alecrim, da Casa de Lamartine, além de diretor do então
Saúde São Lucas e da Faculdade de nhecimento aos inúmeros serviços
Hospital dos Alienados. Também
Medicina, recebendo o título de médicos que prestou ao Estado. fundou e dirigiu durante 37 anos o
Professor Emérito da UFRN. Após Faleceu no Rio de Janeiro, em 1990, Serviço de Proteção à Infância do RN
o falecimento em 1994, as autorida- mas seu corpo foi trasladado num e o Instituto de Puericultura “Varela
des deram seu nome ao Pronto- avião cedido pelo governo do Estado Santiago”, onde nasceu o Hospital
Socorro do Hospital W.Gurgel. para ser sepultado em Natal. Infantil que hoje leva seu nome.
10- nós do RN Natal, abril 2006
Suplemento
democracia). Militares de alta patente
da base cometeram bárbaras atrocida-
des que nunca chegaram a ser conhe-
cidas. O que é pior é que muitas das
vítimas destas torturas ou seus paren-
tes talvez nem saibam do direito que
têm de solicitar reparação por danos
morais. Nós entramos com pedido de
anistia para três destas 29 pessoas:
Vulpiano Cavalcanti de Araújo,
Hermínio Alves de Brito e Simplício
Teixeira Peixoto”, afirma Oswaldo
Monte.
FOTO:ARQUIVO E continua: “A Associação dos
exercer seu ofício naquela cidade. Anistiados, na sua assessoria jurídica,
CARLOS DE SOUZA
Logo sua atividade política se fez tem toda a documentação relativa a
Qualquer cidadão potiguar que presente. “Em 1952 foi preso e este episódio. Portanto, caso estes
queira saber alguma informação sobre conduzido a Natal, onde foi mantida cidadãos - caso estejam vivos ainda -
o ilustre médico Vulpiano Cavalcanti durante 135 dias numa pequena cela, ou parentes deles quiserem obter
de Araújo, vai encontrar um verbete sofrendo toda espécie de tortura”, diz reparação simbólica pelos danos
não muito extenso, no livro 400 No- o verbete. sofridos, saibam que têm este direito e
mes de Natal, uma edição da Prefeitu- Quando eclodiu o golpe militar de podem procurar à Associação, que
ra Municipal de Natal. Já é um bom 1964, novamente o doutor Vulpiano possui toda a documentação pertinen-
começo. Lá você fica sabendo que o Cavalcanti foi preso várias vezes. te ao pedido. Entre as torturas que
doutor Vulpiano, médico, político e Amargamente teve que experimentar estas 29 pessoas sofreram, conta
líder comunista – nome de rua em novamente o terror das práticas de Oswaldo Monte, nos foram relatados
Igapó, Natal – nasceu em Fortaleza, brutalidade, comuns a regimes totalitá- choques elétricos nos testículos e no
Ceará, em 15 de março de 1911 e rios. Essas são algumas das informa- ânus, mergulho em tonéis com óleo
faleceu em 19 de novembro de 1988. ções que se pode obter sobre o doutor quente, lâmpadas quentes em cima da
O verbete diz: “Vulpiano Cavalcanti é Vulpiano. Para um maior pessoa. Vulpiano Cavalcanti de
um exemplo de tenacidade e destemor aprofundamento sobre sua vida é Vulpiano Cavalcanti: idealista Araújo, que era médico, teve todos os
na defesa de um credo político. Por recomendado ao interessado procurar dedos quebrados para que não pudes-
ser comunista, desde a juventude, a edição Memória Viva, da Universi- Brasileira: 29 cidadãos foram presos e se mais fazer cirurgias. A outro
sofreu forte repressão, mas nunca dade Federal do Rio Grande do Norte, brutalmente torturados por razões de cidadão, Tasso de Macedo Wanderley,
deixou de lutar pelos seus ideais, em que Vulpiano Cavalcanti presta carácter político (embora, formalmen- furaram a cabeça com um prego,
encarnados no comunismo”. uma entrevista ao jornalista Carlos te, naquela época o país fosse uma martelando”.
Formado em Medicina, no Rio de Lyra.
Janeiro, em 1953, logo cedo o jovem O pesquisador mais afeito à
as”
“Come criancinhas voiv
médico voltou-se para sua principal internet vai encontrar cacos
vocação: a política. Mas escolheu a esparsos desta vida interessante
pior maneira de ser político no Brasil, que, por pouco, não foi feita em dr. Vulpiano havia sido
imento mou que
que é ser fiel a seus princípios. Foi um cacos pelos seus perseguidores. O Mas talvez o melhor depo a do preso. Naquela época, eu assassi-
achava
an o Ca va lca nti sej s,
dos fundadores da alentada Aliança que o salvou, segundo ele mesmo sobre Vulpi
Castro, que só prendiam ladrõe
Nacional Libertadora, tendo como um disse, foi a perseverança. E a escritor Nei Leandro de nos, arruaceiros.
na do
de seus pares ninguém menos que coragem, nós diríamos. em uma crônica na Tribu 2005: Cheguei em casa, minha a
mãe
Norte, de 11 de ma rço de um
Graciliano Ramos. Entrou para o Dedos quebrados a na rua estava conversando com quis
“Nos anos 50, eu morav vizinha feia e venenosa. expli-
Eu
Partido Comunista e iniciou a perigosa pela repressão fes sor Zu za, pe rto do dr. mi nh a mã e
Pro
tinha uma tirar a dúvida e
militância de um partido de esquerda No jornal Tecido Social, Correio Vulpiano Cavalcanti, que o. Era cou que o dr. Vu lpi an o era um
óri
em um país reduzido a colônia, na era Eletrônico da Rede Estadual de bela casa na General Os urgião home m mu ito bo m, ótimo mé dico,
o co nceit ua do , cir ma s est av a
Vargas, sob a pesada pata do império Direitos Humanos – RN, encontra- um médic amigo dos pobres,
s bo ns, rec on he cid o nã o apenas po líti ca e po r iss o
americano. mos a seguinte referência: “Há algo do nal, mas metido com
Além de aguerrido militante de um que nunca foi divulgado e que consi- pela competência profissio . Pobre havia sido preso. A coma ia:
dre
de
também pela generosida jar ara ca se me teu na his tór
partido na clandestinidade, Vulpiano deramos importante fazer conhecer. ido no seu
não deixava de ser atend o de “Que bom que nada, comata. E
dre! Ele
Em outubro de 1952 (portanto, durante ple s fat
Cavalcanti era um excelente cirurgião consultório pelo sim não passa de um co mu nis
o aplicava
e isso atraiu o respeito e a afeição de o período que a Lei abarca), na Base não ter dinheiro. Vulpian teorias todo mundo sabe que ess vidas e
es comu-
a as ma is va lio sas res grá
muitos. Convidado pelo então prefeito Aérea de Natal, em Parnamirim, se na prátic pelada nistas matam mulhe
de Mossoró, Duarte Filho, também verificaram umas gravíssimas arbitra- socialistas. Um dia, numa infor- comem criancinhas!”
m
médico, o doutor Vulpiano passou a riedades por parte da Força Aérea na Rua da Estrela, algué
Natal, abril 2006 nós do RN-11
Suplemento

Foto:divulgação

Atenção às EDSON BENIGNO

crianças
Liga Norte-Rio-Gran-
carentes dense Contra o Câncer
foi fundada em 17 de
O Hospital Varela Santiago se julho de 1949, tendo
destaca na área de saúde por ser uma como primeira unidade
instituição filantrópica que atende crian- o Hospital Luiz Antônio. Pouco mais
ças carentes e também pelo pioneirismo de meio século depois, este hospital os-
em tratamento do câncer infantil. A tenta uma tecnologia de ponta que o
unidade hospitalar vive do dinheiro do credencia a ser uma referência na re-
SUS, da ajuda substancial do Governo do
Estado e da assistência da população. São gião Nordeste, acolhendo pacientes de
esses os pilares que fazem com que a outros estados para tratamento. No iní-
instituição, desde 1917, seja uma referên- cio, porém, não existiam especialistas
cia na área médica do Rio Grande do nesta doença e nem havia tratamento Unidade da Liga Norte-Rio-Grandense contra o Câncer
Norte. disponível. Os enfermos chegavam ao
Contando atualmente com um quadro de hospital sem perspectivas nenhuma de
450 funcionários, a instituição é dotada de clusive já tem o terreno, que fica locali- radioterapia e medicina nuclear; um De-
vários tipos de serviços, possuindo uma cura. zado na avenida Miguel Castro. O pro- partamento de Ensino de Educação Co-
estrutura multidisciplinar para atender Só entre os anos de 1969 e 1970, jeto desta nova unidade de saúde será munitária, Hospital-Escola, programa de
crianças de zero a 15 anos de idade a Liga passou a contar no seu quadro apresentado à classe política para que residência médica, cursos de pós-gra-
incompletos em todas as patologias. É o com profissionais especialistas, como possa receber investimentos públicos. duação para enfermeiros, assistentes
único Hospital que faz neuro cirurgia os médicos Aluisio Bezerra e Ivo
pediátrica para o SUS do Rio Grande do Além do Hospital Luiz Antônio e da sociais, psicólogos, dentistas e farma-
Barreto. Na ocasião, alguns médicos Policlínica, a Liga possui um Centro cêuticos. Recebe estudantes de todas
Norte. Além do câncer, trata de doenças
infecto-contagiosas. foram para o Rio de Janeiro se especi- Avançado na rua Miguel Castro, nº 1355, as áreas da saúde para estágios
Não obstante a boa qualidade dos alizar no Instituto do Câncer. Daí em onde funciona os setores de imagem, curriculares ou extracurriculares.
serviços oferecidos pelo hospital, as diante, a instituição começou atuar com
dificuldades também são muitas. “Só o diagnósticos, prevenção, tratamentos e
aparelhamento da UTI tem 16 anos e não
acompanha a evolução da saúde. Precisa-
reabilitação, utilizando os melhores
meios possíveis para essa tarefa.
Assistência às gestantes carentes
mos de mais equipamentos de apoio nesta
unidade intensiva. Mas, mesmo assim, A missão da Liga é realizar ações A Maternidade Escola Januário Cicco mamografia, ultra-sonografia, mas-
ainda conseguimos dar uma boa assistên- de saúde com qualidade e compromis- é um hospital universitário de muita tra- tologia, retirada de cisto no ovário, pre-
cia à população carente”, revela o diretor so social. É uma instituição filantrópi- dição, atendendo exclusivamente a paci- venção de câncer e outros. Como se tra-
do Hospital Varela Santiago, Paulo Xavier ca, que atende preferencialmente os entes do Sistema Único de Saúde (SUS). ta de um hospital escola de referência é
Trindade. pacientes do Sistema Único de Saúde Fundado em 1950, é grande a movimen- comum chegar pacientes com problemas
Com uma média de 10 a 11 mil atendi- tação diária por ser uma unidade de aten- que não são resolvidos em outras uni-
(SUS). Segundo Ricardo Curioso, su-
mentos por mês, desde a consulta até a
perintendente da instituição, o trabalho dimento de urgência e emergência. “Difi- dades hospitalares.
cirurgia de alta complexidade e tratamento
é árduo porque ao atender preferenci- cilmente dispomos de vagas; estamos O professor Leyde Morais, uma refe-
na UTI, funcionando 24 horas por dia, o
hospital conta com 120 leitos, um número almente os pacientes do SUS, muitas sempre com os 120 leitos que temos pre- rência na área médica do Estado, dirigiu
reduzido para atender a população enchidos”, explica a vice-diretora, Sônia a Maternidade Januário Cicco durante
vezes a Liga tem que bancar os cus-
pediátrica. Mas já existe projeto de Barreto, 50 anos. “Temos a preocupação 28 anos. Formado na Bahia, quando
tos. Apesar das dificuldades, a institui- de trabalhar também com a mulher que chegou em Natal foi convidado pelo
reforma e ampliação, com a construção
ção é reconhecida pela excelência de não pode ter filhos e que deseja professor Onofre Lopes, reitor da UFRN
também de um novo centro cirúrgico.
Nas terças e quintas-feiras, um seus serviços. O Hospital Luiz Antônio engravidar”, afirma. na época, para ser diretor do hospital
grupo de artistas locais e voluntários, com foi agraciado há pouco tempo pelo Mi- Prestando atendimento na parte de gi- universitário. Quando assumiu, reno-
apoio da diretoria da instituição, promove nistério da Saúde com o prêmio David necologia, cirurgias ginecológicas e vou completamente a obstetrícia e a gi-
o que ficou conhecido como Terapia do Capistrano. laparoscópicas, são realizados aproxima- necologia. Os obstetras passaram a fa-
Sorriso, um trabalho de humanização do A Liga conta atualmente com 100 lei- damente 5 mil partos por ano. O índice de zer também a parte cirúrgica. “Ele foi o
hospital pelo qual são realizadas diversas cesárea na unidade é alto, mas dentro das pioneiro na implantação da residência
tos do Hospital Luiz Antônio e 50 da
brincadeiras. Vestidos de palhaços, estes condições de saúde do país pode ser médica no Rio Grande do Norte”, conta
jovens animam as crianças e promovem Policlínica. Diante da grande incidên-
considerado normal. Além do parto, a seu filho Kleber Morais, 52 anos, atual
alegria a quem se encontra enfermo nos cia de câncer, a diretoria da instituição
maternidade oferece serviços de diretor da maternidade.
leitos. pensa em fundar um novo hospital; in-
12- nós do RN Natal, abril 2006
Suplemento

ANCHIETA FERNANDES
Natal e Assu foram as duas primeiras das pelos médicos tinha como endere- agregada a ela a Facul-
cidades norte-rio-grandenses a terem ço à rua Vigário Bartolomeu. Um dos dade de Farmácia,
estabelecimentos de distribuição de re- proprietários fundadores da Farmácia desmem- brada da Fa-
médios. Eram as boticas. Só depois sur- Natal, João Dias de Araújo, que inau- culdade de Odon tologia.
giram as farmácias. Enviada pelo go- gurou o estabelecimento em 13 de ja- Pertencendo agora a
verno de Portugal, a botica chegou em neiro de 1933, juntamente com o primo uma Universidade Fede-
Natal no dia 14 de dezembro de 1768. Augusto Amâncio Pereira, tinha as pal- ral, a Faculdade de Farmá-
Entre os medicamentos, constavam 15 mas das mãos queimadas pela manipu- cia (que passou a ter o
arratéis de macela e 12 pílulas da famí- lação de produtos químicos. Uma pro- nome Faculdade de Far-
lia, que serviam indefinidamente como va da eficácia dos remédios de manipu- mácia e Bioquímica) obte-
purgativos, segunda conta Câmara lação ocorreu em 1982, quando um sur- ve condições de ensino prático, tendo
Cascudo no livro “História do Rio Gran- to de conjuntivite não foi debelado com sido vinculado a ela o Laboratório Far-
de do Norte”. os remédios industrializados comprados macêutico de Produção Industrial, onde Uma das
Ao fixar moradia na cidade cuja pa- nas drogarias. Os médicos, então, acon- os alunos aprendem a fabricar remédi- farmácias
droeira é Santa Luzia, ao fim do século selharam aos doentes procurar medica- os. Isso foi útil não somente à prática de manipu-
19, o paraibano Jerônimo Rosado, far- ção na Farmácia Natal. A cura veio com pedagógica, mas também a ajudar as lação de
macêutico diplomado, requereu à Câ- a chamada Água Bobinada, manipula- populações pobres, já que grande parte Natal
mara de Intendentes de Mossoró, em da pelo farmacêutico prático.
27 de abril de 1890, licença para insta- dos remédios produzidos passaram a ser
lar sua farmácia na cidade. Começou distribuídos gratuitamente entre os do-
entes carentes. Soros, pomadas, com-
então a era das farmácias, onde os re- Profissão: primidos e xaropes passaram a ser pro-
médios eram fabricados pelos próprios
farmacêuticos, donos dos estabeleci- farmacêutico duzidos aqui no Estado.
mentos. Eles os fabricavam manipulan- Enquanto isso, com o crescimento de
do as substâncias curativas receitadas A institucionalização das farmácias e Natal e do Rio Grande do Norte, com a
pelos médicos. Jerônimo Rosado entrou da profissão de farmacêutico no Rio demanda maior de remédios a partir de
para a História da Medicina como o in- Grande do Norte veio com a criação da meados do último século, começou a
ventor de um famoso preparado antidor, primeira faculdade de farmácia no Es- proliferar entre nós o outro tipo de co-
o “Antinevrálgico Rosado”, precursor tado, unida também à primeira faculda- mércio no ramo: as drogarias. Bem den-
do “Melhoral” e outros remédios simi- de de odontologia: a Faculdade de Far-
tro do contexto da globalização, as dro-
Farmácia e lares. mácia e Odontologia, criada pelo decre-
Em Natal, durante muito tempo, uma garias são como que filiais das grandes
Drugstore: to-lei nº 682, de 03 de fevereiro de 1947,
dentro da farmácia que aviava receitas formula- sancionado pelo então interventor fede- matrizes industriais de fabricação de
era das ral do Estado, general Orestes da Ro- remédios, existentes nos Estados Uni-
drogarias cha Lima. dos, Alemanha e outros países.
Fotos:Clóvis Santos
As aulas só começam em março de É bom que diga que estas matrizes
1949. O reconhecimento dos cursos industriais não se preocupam primordi-
deu-se a 29 de julho de 1952. O primei- almente com a saúde das pessoas, mas
ro diretor da Faculdade de Farmácia e com o lucro que podem obter com a
Odontologia foi o médico Adolfo venda de determinado tipo de remédio,
Ramires. A primeira turma (quatro ho- mesmo que este cure uma parte do cor-
mens e cinco mulheres, tendo Ítalo po e seja nocivo a outra parte. Esta
Suassuna como orador) foi diplomada a
mentalidade de lucro farmacêutico pas-
22 de dezembro de 1951.
sou a ser ajudada a todo custo pela pu-
No começo dos anos 60 do século
passado, a Faculdade de Farmácia e blicidade, que incentiva a auto-medica-
Odontologia sofreu mudanças. A Uni- ção, a compra de remédios divulgados
versidade do Rio Grande do Norte fora na publicidade e que podem, em vez de
federalizada em 1960, já tendo sido ajudar a curar, prejudicar. (AF)
Natal, abril 2006 nós do RN-13
Suplemento

sanguíneo dos órgãos reprodutores


femininos, ajudando a normalizar a
ovulação. Esta técnica também é
indicada para a cura de doenças como
a depressão, ansiedade, stress, insônia,
enxaqueca, gastrite, asma, rinite,
sinusite, bronquite, entre outras.
Foto:João Maria Alves
Quando o tratamento é com doenças
lesionais – tumores malignos – a
acupuntura promove melhoras.
A homeopatia, também bastante
aceita pela sociedade, procura equili-
brar o individuo, diminuindo sua
sensibilidade à doença de maneira que
ele se torne mais saudável do ponto de
CARLA XAVIER vista físico e psíquico, até mesmo para
reagir melhor aos tratamentos não
homeopáticos. Estudos mostraram que
Quando se fala de terapias alternativas no Rio Grande do Norte, um nome salta logo
determinados produtos homeopáticos
à vista: o do médico Jorge Boucinhas, que ao retornar do Rio de Janeiro, em 1978, são mais eficientes que remédios
introduziu a acupuntura e homeopatia. É preciso explicar que, além da medicina tradi- convencionais no tratamento de
determinados tipos de alergias e asma.
cional, exercida quando os médicos tratam os pacientes com medicamentos alopáticos, Não seria recomendado, entretanto,
às ditas “terapias alternativas” têm conquistado cada vez mais espaço na sociedade. Jorge Boucinhas tomá-los como única e principal
solução de cura para qualquer doença
em estado grave.
Os tratamentos alternativos constitu- prescrevia remédios homeopáticos à Cada técnica Outros tratamentos
em uma grande variedade de áreas de população carente”, conta dr. Bou-
trabalho, algumas mais difundidas que cinhas. Quando se refere à acupuntura, tem seus alternativos
outras, como a acupuntura e o médico afirma que foi paixão à pri- benefícios Existem várias técnicas dentro da
medicina alternativa, algumas mais
homeopatia, que já dispõem de centros meira vista, durante um congresso em
de especialidades médicas oficiais, ao 1976. “Quando adolescente, eu era fas- conhecidas pela sociedade e outras
mesmo nível da cardiologia, por exem- cinado pela alimentação natural, em As terapias alternativas são que ainda estão sendo apresentadas.
plo. A fitoterapia, que constitui no trata- especial a macrobiótica, o Yoga e as pos- indicadas, praticamente, para todas as A Yoga, por exemplo, é uma das
mento através de plantas medicinais, é sibilidades terapêuticas de ambos”, patologias. As mais populares são: chamadas terapias alternativas com
alvo de grande número de trabalhos ci- relembra. dores musculares, dores ciáticas, mais adeptos. Essa prática colabora
entíficos, enquanto que a cromoterapia Segundo Boucinhas, os adeptos das dores lombares, problemas de coluna, para o bom funcionamento dos siste-
– tratamento por meio das cores –, só terapias alternativas conseguem uma te- problemas de circulação, LER (doen- mas nervoso e endócrino. Além disso,
recentemente teve seus efeitos explica- rapêutica mais econômica, uma vez que ça causada por esforço repetitivo), vitaliza as vísceras, promove maior
dos à luz da experimentação científica, o custo com medicamentos é um dos câimbras noturnas, stress, nervosismo, irrigação de sangue nos tecidos,
por ajuda de trabalhos desenvolvidos na pontos mais pesados do esquema clíni- depressão, tendinites, bursites, entre eliminação de toxinas, estímulo das
Universidade de Heidelbergg, na Ale- co alopático. “A resolutividade adquiri- outras. atividades orgânicas e limpeza dos
manha. da com a medicina alternativa é geral- Entre as terapias mais conhecidas e resíduos acumulados nas articulações.
No Rio Grande do Norte, o médico mente maior. Afora isso, os riscos de procuradas pela população está a Uma das terapias mais antigas do
Jorge Boucinhas foi um dos pioneiros efeitos colaterais são insignificantes, o acupuntura. Esta técnica é um dos mundo, a aromaterapia consiste no
nos tratamentos alternativos. Depois que que também barateia e acelera o trata- procedimentos que fazem parte da tratamento das doenças através do
ele começou a trabalhar nesta área, o mento. Quantas vezes alguém tratado medicina tradicional chinesa, que tem uso de aromas vegetais, massagens,
então Inamps criou, em 1982, um am- por reumatismo com medicamentos suas bases em três filosofias ances- banhos vaporização e compressas. Na
bulatório de homeopatia. Embora bem alopáticos não termina tendo que tratar trais: o Budismo, o Taoísmo e o linguagem médica, as essências
mais tarde, a Universidade Federal do uma gastrite medicamentosa?”, infor- Confucionismo. No Brasil, foi reco- aromáticas usadas nesse tipo de
Rio Grande do Norte instalou, este ano, ma o médico. nhecida como especialidade médica tratamento são conhecidas como óleos
um Núcleo de Homeopatia, Acupuntura Ele lembra que, hoje em dia, mesmo em 1995. A técnica em si consiste em essenciais. Outra técnica que acredi-
e Medicina Alternativa. aqueles pacientes que não podem pa- estimular certas regiões anatômicas ta-se ser bastante antiga é o reiki, de
“É difícil explicar meu interesse por gar por um tratamento alternativo, po- denominadas pontos de acupuntura. O origem japonesa, aplicada para
tais especialidades. A homeopatia já dem recorrer ao Núcleo de Ho- estímulo pode ser feito por agulhas, canalização da energia vital universal,
existia na minha família, através do meu meopatia, Acupuntura e Medicina Al- com impulsos elétricos, com calor sendo recomendada principalmente
avô, que além de ser desembargador ternativa da UFRN e ao Sistema Úni- (moxa), ou com raio laser. para o alívio de dores e outros tipos de
exercia a função de ‘curandeiro’. Ele co de Saúde (SUS). A acupuntura aumenta o fluxo doenças físicas e mentais.
14- nós do RN Natal, abril 2006
Suplemento

Foto:Clóvis Santos

CARLOS FREDERICO DA CÂMARA

Fitoterapia, conforme avisa os dicio-


nários, é a medicina do mato que baseia
sua prática no uso das plantas medici-
nais, aproveitando a rica flora brasilei-
ra, com variantes de região a região. A
utilização das plantas medicinais no Bra-
sil é uma das mais antigas formas de
tratamento das doenças, em particular
pelos indígenas. Os jesuítas tiveram
grande parcela de responsabilidade nes-
se trabalho, anotando o valor de cada
planta. Os africanos também trouxeram Especialistas em quebranto, mau-olha- local em companhia da sua mãe, ele Comércio de
para este país suas plantas nativas. do e coisas assim, as rezadeiras do Nor- fez uma ótima explanação sobre o uso ervas e raízes
De acordo com a medicina caseira deste utilizam pequenos galhos verdes de cascas, folhas, raízes, mel de abe- medicinais no
nordestina, por exemplo, folha de pimen- que, por inúmeras cruzes sobre a cabe- lha jandaíra, mel de abelha italiana, mel centro da
teira, em forma de emplasto, é bom para ça da criança enferma, vão murchando de abelha mosquito para combater tos- cidade:
picada de maribondo; chá de folha de por adquirirem o espírito da doença que se, gripe, roquidão, bronquite e pneu- procurado
abacateiro serve para problemas renais; ‘fazia mal’. Rituais dos pajés que o monia. Receita ainda óleos de piqui, até por
infusão da folha de mororó, tomada em catimbó nordestino assimilou como he- capaíba, gergelin preto, calêndula, li- estrangeiros
gotas, é usada para a cura de diabetes; rança da tradição oral. O mau-olhado nhaça, girimataia, óleos vegetais que
chá de folha do eucalipto, para estados teria como causa a força do olhar de não contém gorduras, como es-
piréticos; sumo de malva com mel, para certas pessoas que, suspeita-se, tenha pectorantes, anti-inflamatórios, para
tosses; emplasto de folha de manjeri- o poder de ofender as crianças, matar combater artrite, artrose, dores reumá-
cão e óleo de pequiri, nas dores de ou- animais e murchar plantas. ticas, trombose e bursite, infecção de
vido; chá de folha de velame, nos ca- A utilização de plantas na cura de do- garganta, coluna, pele, germes, fungos
tarros do peito; água de arroz adocica- enças foi assimilada por outras verten- e bactérias. Um santo remédio, diz ele,
da ou chá de folha de pitombeira, carne tes da medicina. Médicos homeopatas para todas as idades.
de goiamum para coqueluche; lambedor atendem sua clientela receitando remé- Amâncio
de aruá tem virtudes peitorais; sumo de dios manipulados com diversos tipos de
lima e cinza, nas impingens e sumo de ervas. A homeopatia, no Rio Grande do
arruda, para convulsões. Norte, continua sob a influência euro-
Como já foi dito, muito da nossa me- péia, notadamente francesa e alemã.
dicina popular foi legada pelos indíge- Segundo o prático da homeopatia José
nas. No litoral do Rio Grande do Norte, Francisco da Silva, que tem uma banca
os janduís. No interior, os cariris. Co- de ervas e raízes medicinais e produtos
nhecedores da flora medicinal, sabiam com fórmula natural, no cruzamento da
o segredo das plantas, raízes e folhas rua Princesa Isabel com a rua Câmara
sob a forma de chás, infusões, Cascudo, turistas do mundo todo com-
defumadores e cocções, aplicadas num pram suas mercadorias.
ritual que favorecia a cura. Trabalhando há 26 anos no mesmo
Natal, abril 2006 nós do RN-15
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História do Sindicalismo Médico


*EDSON GUTEMBERG DE SOUSA prestou a devida homenagem a este bravo

Foto:Clóvis Santos
profissional. Sugiro seu nome para um
posto de saúde, rua ou outra forma de
justa reverência.
O sindicalismo médico surge no Brasil, Atualmente, o trabalho médico continua
mais precisamente no Rio de Janeiro, no aviltado e desvalorizado. As relações de
ano de 1922. Neste ano, em uma palestra trabalho são precárias; difundiram-se os
proferida pelo dr. Felício Torres, fala-se na contratos “temporários” e as cooperati-
necessidade urgente de se organizar vas. Nossos salários estão fortemente
sindicatos em todo território brasileiro. achatados, a rede pública em precárias
Porém, os objetivos e finalidades do condições de trabalho, não temos um
sindicato, de então, eram outros, comple- plano de carreira, não temos um piso
tamente diferentes dos nossos objetivos salarial. Nos consultórios privados,
atuais. Por esta época a categoria médica constatamos uma dependência quase total
se organizava visando “facilitar a denún- aos convênios ávidos de lucro com a
cia e o combate ao charlatanismo em todas doença da população, que não confiando
as suas modalidades”. Este papel hoje no sistema público tira dinheiro de outra
está assumido pelos Conselhos Regionais prioridade para pagar um plano privado de
de Medicina, que viriam a ser criados assistência médica.
posteriormente, no ano de 1945, quando O SUS é, na realidade, um grande
surge a Lei 7.955. Portanto, o estabeleci- projeto de inclusão social. Porém, os
Edson Gutemberg: “O SUS é um grande projeto de inclusão social”
mento de um Código de Deontologia números grandiosos exibidos estão na
Médica foi uma conquista surgida no seio tiveram que suplantar a desconfiança da Grande do Norte ocorreu no dia 08 de abril relação direta da população do Brasil.
do sindicalismo médico e, por isso mesmo, categoria médica. Não a desconfiança dos de 1983, portanto há exatos 23 anos e Argentina, Paraguai e Uruguai, para citar
o sindicalismo atual não pode abrir mão de colegas batalhadores. A questão é que tomou posse no dia 12 de maio de 1983. exemplos de países com o mesmo perfil
sua postura em defesa da ética profissio- sendo os médicos geralmente provenien- Estava assim constituída: Presidente – dr. demográfico que o nosso, investem em
nal e do reconhecimento do campo de tes de meios conservadores, não viam Paulo de Medeiros Rocha; primeiro Vice – saúde pelo menos duas vezes mais que
atuação de nossa profissão. com bons olhos essa “inovação”. Os presidente – dr. Djacir Dantas Pereira de nosso Brasil.
No Rio Grande do Norte, a criação do médicos sempre foram colocados dentro Macedo; segundo vice-presidente – dr. Isto não significa que esta entidade
Sindicato dos Médicos se deu em pleno da categoria de “profissional liberal”, e foi Sérvulo Antonio de H. Godeiro; primeiro esteja contra o SUS. Nossa posição é em
período de exceção, durante a ditadura duro aceitar que a realidade, ou seja, que Secretário – dr. Luiz Gonzaga da Silva; defesa intransigente do sistema público.
militar, página esta que merece estar as relações de trabalho estavam mudando. segundo Secretário – dr. Cipriano Maia de Precisamos agregar, ao lado do aspecto
jogada na lata do lixo da história. As Até hoje ainda tem médico cego e surdo Vasconcelos; primeiro Tesoureiro – dr. quantitativo, a qualidade e eficiência do
exigências para a organização da categoria para a realidade de que somos hoje Manoel Batista de Araújo; segundo sistema. Para que a população tenha mais
obedeciam a regras draconianas. trabalhadores assalariados e como tal Tesoureiro – dr. José Alírio Freire. Esta confiança na prestação do serviço e não
Em maio de 1977, um grupo de médicos necessitamos estar organizados para fazer diretoria dirigiu a entidade no período de destine parte de seus recursos, que
preocupados com o resultado do concur- valer a nossa força de trabalho e permitir 05 de maio de 1983 a 05 de maio de 1986, poderiam ser usados para uma melhor
so público do Ministério da Previdência a um equilíbrio mais justo com o capital. garantindo a legitimidade da instituição e alimentação, lazer etc., aos planos de
Assistência Social – MPAS, procurou A primeira diretoria da Associação o seu reconhecimento junto aos profissio- saúde que trabalham sob a ótica do lucro
discutir formas de organização da catego- Profissional dos Médicos estava assim nais. Ficando com sua sede provisória na fácil
ria para enfrentar futuros problemas. constituída: Presidente – dr. Hermano Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio Para isto, conta a sociedade norte-
Fundou-se primeiro, conforme a lei Paiva Oliveira; Vice-presidente – dr. José Grande do Norte, e, em seguida, mudando- riograndense com uma entidade sindical
vigente, a Associação Profissional dos Dácio Rodrigues de Carvalho; Secretário – se para uma sala alugada no edifício 21 de preocupada com uma melhor assistência
Médicos do Rio Grande do Norte, entida- dr. Washington Faelante Leite e na Março. médica para a população, lutando pela
de considerada pré-sindical, para funcio- Tesouraria, a também psiquiatra dra. Aleta A partir de então o sindicato foi se consolidação de um SUS eficiente, de
nar durante dois anos, findos os quais Fernandes Andrade da Silva. A estes consolidando e se estruturando de modo qualidade, que inverta a lógica tradicional,
poderíamos solicitar a nossa Carta profissionais o reconhecimento histórico melhor, criou-se representações sindicais de foco de atenção no hospital para ações
Sindical. O psiquiatra e comunista de uma luta na qual se necessitava em Mossoró e Caicó e, posteriormente, de promoção da saúde, de resolubilidade
Hermano Paiva foi figura importante neste coragem e despreendimento, em função para outras regiões do Estado. na atenção básica. Reconhecemos a
primeiro momento. Era presidente da do status quo vigente. Não se pode Não podemos, neste espaço, citar todas estratégia da saúde da família como
Associação e, cumprindo os trâmites escrever a historia do sindicalismo as pessoas que foram importantes na avançada, porém precisamos dar proteção
legais, solicitou a tal Carta Sindical, potiguar sem fazer referência a esses história do sindicato. Mas, por dever de trabalhista aos que se inserem no progra-
negada pela burocracia do regime militar. colegas e outros não menos importantes justiça, pelo que fez na Terra, pela nossa ma, evitando a rotatividade e buscando o
Tendo que se afastar da entidade para na luta sindical. entidade e considerando a sua passagem perfil adequado do profissional que
concorrer a mandato eleitoral, assumiu o Nosso sindicato foi reconhecido como para o Oriente Eterno, registro aqui o queremos no sistema.
então vice-presidente, dr. José Dácio tal pelo Ministério do Trabalho em 09 de nome do dr. Manoel Batista de Araújo, E, por fim, como uma idéia defendida
Rodrigues de Carvalho, que desenvolveu novembro de 1982, através do processo marca indelével na memória sindical do pelo presidente da entidade, queremos a
os trâmites legais para transformar a nossa de número 3000728/81. A partir daí, se dá Rio Grande do Norte. Este paraibano, medicina como uma carreira de Estado, de
Associação em entidade sindical. início a formulação de um estatuto próprio casado com uma médica potiguar, a dra. forma a criar um vínculo efetivo com o
Se não bastassem os entraves burocráti- e a formação e composição de uma Maria Lucia Fernandes Araújo, dedicou Sistema Único de Saúde e um verdadeiro
cos, criados pelo regime ditatorial com a diretoria provisória. grande parte de sua vida à luta pelo compromisso com o povo brasileiro.
finalidade de dificultar a organização dos A primeira eleição para diretoria do interesse da coletividade médica de nosso
trabalhadores, os fundadores do sindicato Sindicato dos Médicos do Estado do Rio Estado. A sociedade potiguar ainda não *Presidente do Sindicato dos Médicos
Memorial
de Medicina
F
otografias, livros, documentos, pinturas e equipamentos
antigos das mais diversas especialidades. Isso é um pouco do
que podemos encontrar no Memorial de Medicina do Rio
Grande do Norte, mantido pelo Conselho Regional de Medicina, na
avenida Rio Branco, centro. O acervo retrata a história da profissão
que só em 1961 teve a primeira turma de médicos formada pela
Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Aberto ao público há
três anos, o Memorial guarda em suas paredes os nomes daqueles que
contribuíram para introduzir a Medicina no Estado.
“Muitos dos grandes nomes da Medicina local foram
formados em Recife, na Bahia e no Rio de Janeiro, antes da criação
da Faculdade em Natal. Foi o caso da dra. Yaponira Glück de Brito,
primeira médica do Rio Grande do Norte, formada pela Faculdade de
Recife, cujo diploma está exposto no Memorial. Aqui também
encontramos a placa de formatura da primeira turma da Faculdade de
Natal”, informa o guardião do espaço, Roberto Fonseca.
Com meio século de funcionamento, o curso de Medicina do
Rio Grande do Norte já encaminhou para o mercado quase quatro mil
médicos. Antes disso, contudo, alguns talentos potiguares eclodiram
em outras partes do país, como o médico Aderbal de Figueiredo, que
cursou a Faculdade de Medicina com o ex-presidente da República
JK, em Belo Horizonte, como mostra uma das fotos do Memorial.
O Memorial de Medicina do Rio Grande do Norte dedica
uma de suas salas àquele que pode ser considerado uma referência
para seus pares. É neste espaço que encontramos uma raridade: o
coração de Onofre Lopes. Mais do que um simples órgão,
devidamente conservado em produtos químicos, o coração do médico
está envolto num simbolismo: representa a conquista de um ideal. “É
motivo de grande orgulho para os que deram uma parcela do seu
esforço, assistir à glorificação do seu ideal que é também o de
toda uma população”, disse Onofre Lopes, cujas palavras,
por si só, justificam o objetivo do Memorial de Medicina
do Rio Grande do Norte. (Carla Xavier)