Você está na página 1de 15

Estudo Ergonómico para posto de trabalho

“Microtomia em Laboratório de Anatomia


Patológica”

Introdução

Os laboratórios de Anatomia Patológica constituem uma das mais importantes


valências biomédicas em contexto de diagnóstico hospitalar como meio
complementar de diagnóstico e terapêutica, e em contexto de investigação. Uma
das técnicas utilizadas nestes laboratórios é a Microtomia. Para que os tecidos
possam ser observados ao microscópio precisam ser seccionados em cortes
histológicos muito finos, na ordem de grandeza do micrómetro. Estes cortes
histológicos são obtidos com recurso a um equipamento chamado Micrótomo.
Este estudo abordará o Micrótomo de Minot em particular. Os Técnicos, quando
realizam a atividade de microtomia, estão sujeitos a um trabalho repetitivo, que
envolve riscos por se trabalhar com facas, a um desgaste psicológico pela
exigência do rigor na tarefa e pelo nível de concentração afim de evitar trocas
nos cortes efetuados. Para além disso, estão sujeitos a lesões músculo-
esqueléticas devido a más posturas ou simplesmente ao movimento repetitivo,
ao excesso de carga de trabalho ou à falta de rotatividade pelos diferentes postos
de trabalho.
Higiene e Segurança do Trabalho / Ergonomia

A ergonomia vem objetivar a modificação dos sistemas de trabalho para adequar


a atividade nele existente às características, habilidades e limitações da pessoa,
com vista ao seu desempenho eficiente, confortável e seguro. Durante a
atividade de microtomia os Técnicos estão sujeitos a uma multiplicidade de
fatores de risco que pode afetar o seu desempenho, assim como a qualidade do
trabalho desenvolvido.

- Trabalho repetitivo – Quando existe pressão e falta de staff técnico, o mesmo


trabalhador pode ver-se na situação de estar um dia inteiro de trabalho (8h em
jornada contínua) dedicado exclusivamente à atividade de microtomia. É pouco
recomendável; aumenta a probabilidade de acidentes de trabalho, a qualidade
do trabalho é afetada, e todos os fatores de risco referidos neste estudo tornam-
se mais presentes.

- Risco de corte – Ao manusear de perto facas que conseguem cortar na ordem


dos micrómetros há um perigo de corte do utilizador. A manobra de troca de faca
descartável é de particular sensibilidade. A colocação de blocos no porta-blocos
também é particularmente sensível, em especial se não for usada a proteção da
faca. A regulação da orientação do porta-blocos também é uma manobra na qual
existe perigo de corte. Os cortes histológicos ficam depositados perto da faca e
podem ser apanhados pelo utilizador recorrendo a um pincel ou pinça, no entanto
por uma questão preferencial há quem prefira utilizar os dedos o que acresce
risco a esta fase.

- Riscos psicológicos – A atividade de microtomia reveste-se de um elevado nível


de concentração. Pela técnica de microtomia em si, e pela constante atenção
necessária para não trocar a identificação dos doentes. A atividade não é linear,
pode ser preciso deixar algum bloco para trás (para efetuar uma reinclusão do
mesmo ou reprocessamento). Podem existir trocas acidentais nas lâminas já
identificadas com o número correspondente ao bloco histológico.

- Lesões músculo-esqueléticas – A adoção de más posturas aquando da


microtomia, ou o excesso de carga de trabalho podem levar a que um Técnico
desenvolva lesões músculo-esqueléticas das quais falaremos mais à frente em
maior pormenor.

- Fatores ambientais de incomodidade – O ambiente térmico por vezes não é


controlado na sala onde é realizada esta atividade. No Verão atingem-se
temperaturas demasiado altas e no Inverno demasiado baixas. Existe um
aparelho de ar-condicionado, no entanto evita-se ligar por o ar circulante dificultar
bastante a atividade de microtomia.

- Iluminação – Para a microtomia este factor é de extrema importância pois o


Técnico tem que perceber claramente se está a efetuar um corte histológico
representativo do material existente no bloco histológico (por vezes o material a
cortar é na casa dos milímetros). A sala tem janelas, mas estão tapadas por outro
edifício o que reduz bastante a luz direta. Existe um sistema de iluminação geral
para a sala e a posteriori instalaram lâmpadas LED por cima de cada posto de
trabalho. No caso dos micrótomos de Minot a luz que incide por cima não ajuda
muito, uma vez que a superfície que interessa observar encontra-se
perpendicular ao chão.
O Micrótomo de Minot

Imagem 1 – Micrótomo de Minot Leica RM2255

Estrutura geral

Imagem 2 – Diferentes componentes de um Micrótomo de Minot


Dispositivos de paragem de emergência:

Existe um botão vermelho com uma seta branca no canto superior esquerdo do
Micrótomo que ao ser acionado bloqueia todo o sistema.

Dispositivos de segurança:

A manivela possui três trancas de segurança.

Imagem 3 – Duas trancas de segurança da manivela

Imagem 4 – Terceira tranca da manivela – dispositivo “LOCK”

O porta-facas tem uma proteção vermelha. Esta proteção deve ser utilizada
sempre que o micrótomo não esteja a ser usada na atividade de microtomia
propriamente dita. Ou seja, para trocar de bloco histológico, para regular o porta
blocos e para trocar a faca descartável. Sempre que o equipamento está em
standby ou o utilizador se ausenta.

Imagem 5 – Protector de faca


Dimensões e características

O Micrótomo de Minot Leica RM2255 tem como dimensão 413mm x 563mm x


305mm e pesa aproximadamente 37kg sem os acessórios. Tem capacidade
para seccionar blocos histológicos em cortes de parafina com 0.50 µm (mínimo).
Tem como consumíveis facas descartáveis.

Imagem 6 – Facas descartáveis

Princípios de funcionamento

O Micrótomo de Minot é um equipamento de microtomia semi-automático com


uma sistema rotativo motorizado. Tem uma faca fixa num porta-facas e é o bloco
histológico que avança na direção da faca. O porta-blocos é regulável de modo
a alinhar a superfície do bloco com a faca. O movimento pode ser gerado pelo
utilizador através de uma manivela disposta à direita ou através de um sistema
automático cuja consola de controlo está disposta à esquerda do utilizador. O
utilizador utiliza esta consola tanto no modo automático (arranque do sistema
motorizado, paragem do sistema motorizado, seleção do modo de corte,
velocidade, seleção da espessura do corte, seleção da espessura do desbaste,
avanço ou recuo do porta-blocos) como no modo manual (seleção da espessura
do corte, seleção da espessura do desbaste, avanço ou recuo do porta-blocos)
Problemas aparentes

Regra geral os utilizadores optam por utilizar este equipamento no modo manual
em detrimento do modo automático. No modo manual o trabalho flui mais
rapidamente e existe total controlo sobre velocidade de corte, sobre a paragem
e o arranque do movimento de corte.

Os utilizadores recorrem poucas vezes aos dispositivos de trancas da manivela,


assim como ao protetor da faca. Mais uma vez, não acionando estes sistemas
entre cada bloco histológico o trabalho é mais rápido.

Existe uma dificuldade acrescida neste tipo de micrótomos em visualizar a


superfície do bloco histológico pois o sistema de iluminação da sala não prevê
nenhum dispositivo luminoso a incidir diretamente nessa superfície. Deste modo,
é usual retirar-se o mesmo bloco várias vezes para perceber se o fragmento já
está representado na totalidade no corte histológico ou não. Tirar e por o bloco
sem recorrer aos dispositivos referidos anteriormente aumenta ainda mais o risco
de corte do utilizador.

Aspectos críticos evidentes

Sem dúvida que o risco mais preocupante na microtomia é um acidente de


trabalho que envolva corte de dedos. A faca é extremamente afiada e o facto
de estar num ponto em que a mão bate a favor da gravidade aumenta ainda
mais o perigo.

A longo prazo as más posturas e lesões músculo-esqueléticas associadas ao


movimento repetitivo da manivela são também um aspecto crítico.
Microtomia com recurso a Micrótomo de Minot (Descrição da atividade)

Recorre-se a um Micrótomo de Minot para obter cortes histológicos com


dimensões a partir de 2,5 μm. O equipamento opera a partir do movimento de
rotação de uma manivela disposta à direita do trabalhador. Ombro e punho estão
envolvidos num movimento de flexão e extensão. Este movimento repetitivo
solicita os membro superiores e em termos musculares envolve o peitoral maior,
deltóide anterior, cocobraqueal, bíceps e tríceps, trapézio inferior, trapézio
médio, redondo menor e serrado anterior. Estas solicitações musculares, quando
repetidas de forma exaustiva e regular, podem causar descompensação
muscular que origina lesões músculo-esqueléticas como tendinites,
tenossinovites e miotenossinovites crónicas, periartrite da articulação escápulo-
humeral, condilite, epicondilite, epitrocleíte e estiloidites.

O Técnico encontra-se sentado. São utilizadas cadeiras de altura regulável,


cujas rodas possuem um sistema de tranca que bloqueia quando o utilizador se
senta. As cadeiras possuem ainda apoio regulável para a zona lombar.

Imagem7 – Técnica de microtomia


Ações do operador

Ações imprevistas e não programadas

O Técnico pode ser interpelado para resolver algum problema decorrente em


outro local do laboratório, ou ser interpelado para atender um telefone ou
responder a alguma pergunta. Nestas situações é recorrente o Técnico
esquecer-se de respeitar todos os passos para trancar a manivela e bloquear a
faca. É nesta situação que ocorrem grande parte dos acidentes de trabalho –
cortes nos dedos do utilizador.

Principais gestos realizados pelo operador

Ombro e punho estão envolvidos num movimento de flexão e extensão. Este


movimento repetitivo solicita os membros superiores e em termos musculares
envolve o peitoral maior, deltóide anterior, cocobraqueal, bíceps e tríceps,
trapézio inferior, trapézio médio, redondo menor e serrado anterior

Principais posturas

O Técnico encontra-se sentado. Se usar a cadeira demasiado alta terá tendência


a fletir ligeiramente a cervical, o que a longo prazo provocará dores nessa zona.

Principais movimentos realizados pelo operador

Para além do movimento anteriormente descrito (de microtomia propriamente


dita), o Técnico tem ainda que aceder a material que se encontra disposto
lateralmente em relação ao Micrótomo que se encontra disposto à sua frente. Os
blocos histológicos encontram-se disposto numa placa fria disposta a sua direita.
Tem que manipular lâminas histológicas onde apanha os cortes histológicos que
posteriormente estica num banho-maria, que se encontra igualmente disposto à
sua direita.
Principais ações do operador sobre a máquina

Para além das ações que dizem diretamente respeito à microtomia o operador
realizada outras ações sobre a máquina:

- Mudança de faca descartável – Implica a retirada da faca com auxilio de uma


pinça ou de um pincel com um íman numa extremidade, de modo a não tocar
diretamente com os dedos na faca. Depositar essa faca num depósito para o
efeito. Retirar uma faca nova e colocá-la no suporte de faca.

- Ajustar a orientação do bloco histológico – De modo a conseguir um corte


representativo do bloco histológico pode ser necessário ajustar a sua orientação.
Recorre-se para isso a uma tranca do porta-blocos de modo a destrancar o porta-
blocos. Com o porta-blocos destrancado utilizam-se dois parafusos que regulam
o a orientação do bloco horizontal e verticalmente. Finda a orientação volta-se a
ativar a tranca de modo a imobilizar o bloco histológico.

- Se recorrer ao modo de corte automático utiliza-se uma consola disposta à


esquerda do operador. Essa consola tem vários controlos – velocidade de corte,
modos de corte, movimentação do porta-blocos, início do movimento de corte a
fim do movimento de corte, seleção da espessura de corte, seleção da espessura
de desbaste, comutação entre modo de corte e modo de desbaste.
Meio ambiente de trabalho

Ambiente sonoro

Não há evidência de ruídos que prejudiquem na sala onde se desenvolve esta


atividade.

Ambiente térmico

O ambiente térmico nesta sala acompanha de certa forma a temperatura


exterior, pois o sistema AVAC não consegue manter uma temperatura
constante em todas as áreas do laboratório. Para colmatar essa situação existe
um aparelho de ar condicionado na sala. Este aparelho só em é ligado pelos
Técnicos em situações extremas de frio ou calor, pois o ar circulante que daí
resulta dificulta bastante a atividade de microtomia pois os cortes histológicos
são arrastados para longe e, eventualmente, ao tentar apanhá-los, o Técnico
pode aumentar o risco de corte.

Ambiente luminoso

A sala tem janelas, mas estão tapadas por outro edifício o que reduz bastante a
luz direta. Existe um sistema de iluminação geral para a sala e a posteriori
instalaram lâmpadas LED por cima de cada posto de trabalho. No caso dos
micrótomos de Minot a luz a incide por cima não ajuda muito, uma vez que a
superfície que interessa observar encontra-se perpendicular ao chão.

Ar Ambiente

Esta sala sofre contaminação de algumas salas adjacentes onde se manipulam


reagentes como formol, xilol, e álcoois. Quando se utilizam ácidos diretamente
em cima de blocos calcificados nesta sala cheira bastante (denotar que a sala
não possui hote de extração). Quando são cortados blocos de material que não
passou por um correto processamento histológico cheira a xilol.
Análise de risco postural - RULA

É um método ergonómico que investiga a exposição dos trabalhadores aos


fatores de risco associados ao membro superior, tais como postura, contração
muscular estática, repetição, força e alcance.
RULA é uma ferramenta de seleção que avalia o corpo biomecânico e postural
e que foi criada para detetar posturas de trabalho ou fatores de risco que
mereçam uma atenção especial.

Posição do braço, segundo ângulo de cotovelo:

Flexão / Abdução / Braço apoiado = 3+1-1 = 3

Posição do antebraço, segundo o angulo do cotovelo:

Flexão [+3]

Posição do punho:

Flexão [+2]

Rotação do punho:

Rotação média [+1]

Tabela A = 4

Posição do pescoço:

+3

Posição do tronco:

+2

Posição das pernas:

+1 (Sentado com os pés bem apoiados)

Tabela B = 3
Tabela C = 3

Nível de ação 2 (Pontuação de 3-4) – Investigar; possibilidade de requerer


mudanças; é conveniente introduzir alterações

Recomendações

- Melhoria / alteração do workflow do serviço e melhoria neste posto de trabalho


que permita diminuir o tempo dedicado exclusivamente à activadade de
microtomia.

- Aproveitamento para mudar para a posição de pé em todas as atividades


indirectamente relacionadas com a microtomia. Assim evita-se estar muito tempo
sentado e intercala-se entre essa posição e a posição de pé.

- Optar pelo sistema automático do Micrótomo de Minot em detrimento do


sistema manual – Este sistema automático raramente é utilizado pelo Técnico
por ser mais demorado e menos prático. Uma mudança de paradigma poderia
passar por aqui, no futuro evitar-se-iam possíveis lesões. Comporta numa
primeira fase de adaptação uma redução da quantidade de trabalho por Técnico.
A longo prazo, e com o treino, o Técnico poderia chegar a um ritmo próximo do
conseguido quanto utiliza o sistema manual.

- Utilizar o sistema de proteção da faca, e tranca da manivela em pelo menos um


ponto sempre que não se esteja a cortar. Isto é, sempre que se esteja a mudar
a faca descartável ou sempre que se mude de um bloco para outro.

- Instalação de luz LED direcionada para a superfície do bloco histológico quando


a actividade é desenvolvido no Micrótomo de Minot. Estudo de luminosidade
correta, de modo a ser suficiente para visualizar corretamente o fragmento no
bloco histológico, e não em demasia que provoque encandeamento do operador.

- Restrição da utilização de reagentes à sala de coloração, onde existe hote de


extração.
- Formação dos Técnicos em matérias de higiene e segurança do trabalho e
ergonomia no que toca à atividade de microtomia.

- Formação dos Técnicos em ginástica laboral dirigida a este tipo de trabalho.


Introdução de pausas entre um determinado número de blocos histológicos
cortados, ou encadeamento com outras atividades.
Referências Bibliográficas

Santos, Myriam - Ergonomia, carga mental de trabalho, riscos e prevenção de


acidentes: o caso do trabalhador em histotécnica. Ergodesign e HCI, volume 6,
2018.

Pires, Ana – Desconforto associado ao movimento repetitivo: Estudo sobre a


perceção dos Técnicos de Anatomia Patológica durante a microtomia – Mestrado
em Gestão e Avaliação de Tecnologias da Saúde. Instituto Politécnico de Lisboa,
Lisboa, 2018.

Instuctions for use – LEICA RM2255 – Rotary Microtome V 2.3, English 06/2018