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RAMANA ARUNACHALA

ARTHUR OSBORNE

SRI RAMANA GITA


KAVYAKANTHA GANAPTHI MUNI
Traduzido do Inglês
pelo
Grupo ARUNACHALA
do
Rio de Janeiro

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ARTHUR OSBORNE

RAMANA ARUNACHALA

Sri Ramanasraman
Tiruvanamalai
S. Índia

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1958
ÍNDICE

Prólogo......................................................................05
Ramana Arunachala..................................................13
Ramana, o Homem....................................................39
O Caminho Direto.......................................................56
Arunachala Ramana...................................................63
Testemunho Literário..................................................70
Afinidades com o Budismo..........................................79
Ramana Sad-Guru.............................

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PRÓLOGO

COMO FOI ESCRITO ESTE LIVRO

Estava preste a iniciar-se A 2ª guerra mundial, quando amigos meus


enviaram-me alguns livros e fotografias de Bhagavan Sri Ramana.

Sob a influencia do escritor francês René Cuénon, (que estava


reinterpretando a esquecida tradição espiritual do ocidente), já havia admitido que,
como todos os seres, eu também era manifestação do Ser Único; melhor dizendo,
que todos são essencialmente idênticos ao Ser. A conseqüência imediata de tal
compreensão é a possibilidade de realizar a meta de todas as vidas: encontra a
Identidade suprema, atingindo a Unidade.

Se não a alcançamos, a ilusão da vida separada continua com seus


sofrimentos e frustrações, duma forma ou de outra, obscurecendo a efulgência do
Ser Puro.

Percebi que a tarefa em questão é o verdadeiro significado da lendária busca


heróica do “Shangrilá” e do “Tostão de Ouro”, exigindo ESFORÇO CONSTANTE
num caminho indicado sob a tutela dum Guru.

Andei buscado tal caminho; em relação a Bhagavan, entretanto, várias


pessoas, as quais eu respeitava, opinavam que ele não era um Guru; e que seus
ensinamentos, conquanto sublimes, não davam nenhuma orientação prática no
que tange ao caminho a ser trilhado por nós.

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Impressionaram-se vivamente a beleza e a força de seus livros e fotografias,
mas, embora contrariando meu ultimo sentir, classifiquei tudo aquilo de luxo e sem
utilidade prática.

Acresce que de modo algum poderia tomar contato pessoal com ele em
Tiruvanamalai, visto que, por então, eu realizava conferencias numa universidade
do Sião. Mas a oportunidade chegou em 1941 – quando fui passar seis meses de
férias na Índia. Contudo não fui a Bhagavan – porque eu estava sob o império da
seguinte idéia: deveria agir de modo objetivo, e só uma aspiração menor seria
prática; buscaria, portanto, submeter-me a uma pretensamente eficaz orientação
menos iluminada.

Em setembro do mesmo ano, findando as férias, a guerra aproximava-se do


Sião. Por este motivo, deixei esposa e três filhos na Índia e regressei sozinho à
universidade. Um amigo, na Índia, cede-nos sua casa em Tiruvanamalai, único
lugar onde minha esposa desejava ficar. Ela não dava atenção a teorias,
preocupava-se mais com a realidade. E foi assim que voltei ao Sião sem ver
Bhagavan.

Dezembro. Sião invadido pelos japoneses, eu, preso e conservado em


cárcere. Pouco antes recebera uma carta de minha filhinha mais velha (5 anos) na
qual me informava haver rogado a Bhagavan me protegesse durante a guerra – e
ele sorrira, protegendo.

Mais três anos de reclusão, até a rendição japonesa de 1945. Tempo


suficiente para o Sadhana. Bhagavan tornou-se progressivamente para o
Shadhana. Bhagavan tornou-se progressivamente a base do meu esforço, mesmo
antes que eu o encarasse como Guru.

Concluindo-se a libertação, voltei, incontinente, para Tiruvanamalai.


Estávamos no início de outubro. Ainda desta vez, a causa da minha presença em

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Tiruvanamalai era rever a família e não visitar Bhagavam. Mais correto seria
afirmar: uma compulsão intuitiva impelia-me para Tiruvanamalai.

Entrei no salão do Ashram na mesma manhã da minha chegada, e pouco


antes do retorno de Bhagavan do passeio matinal pelo monte. Fiquei
impressionado com as reduzidas dimensões do aposento, cuidei de quão próximo
de Bhagavan me quedaria. Julgava encontrar algo mais amplo e majestoso –
menos íntimo.

Repentinamente, chegou bhagavan. Surpreendi-me comigo mesmo, pois ele


não me impressionou grandemente: certamente, as suas fotografias tinham me
impressionado mais. Examinei-o: vi um homem idoso, cabelos brancos, corpo
ligeiramente curvado, andar um tanto endurecido pelo reumatismo – ara benigno.
Acomodou-se no sofá. Sorriu para mim. E fitando meu pequenino filho, disse:
“Parece que as preces de Adam foram atendidas; seu pai voltou bom e salvo”.

Senti sua amabilidade – nada mais. Compreendi que eu entendesse, pois


Adam falava tamil.

Nas semanas posteriores, ele mostrou-se constantemente amável e


atencioso para comigo. Meus nervos tensos e minha mente agitada, a pouco e
pouco foram serenando.

Não houvera ainda um contato dinâmico; eu estava desapontado: tudo


indicava que eu era aceitável. Ao mesmo tempo, confirmava a opinião dos que me
disseram anteriormente (conforme já relatei) que Bhagavam não era um Guru e,
portando, não poderia dar orientação quanto a qualquer cominho. Bhagavan nada
fez para muda essa opinião minha.

A situação permaneceu inalterável até as vésperas de Karthikai, época em


que, uma vez por ano, acende-se um farol NO CUME DO MONTE Arunachala –

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ou Deepavali, não me lembro bem. Uma grande multidão estava presente para as
festas, e nós do Ashram ficamos sentados no pátio do salão. Bhagavan reclinado
no sofá; eu achava-me frente a ele. Subitamente, Bhagavan endireitou o corpo,
encarou-me, e seu penetrante olhar adquiriu uma intensidade que não posso
descreve. Parecia dizer – “Mas você já foi informado! Por que não se realizou?”.

Então desceu sobre mim uma quietude, uma pás profunda, uma leveza e
felicidade indescritível.

De então para diante, uma afeição profunda pó Bhagavan começou a surgir e


a crescer no meu coração – que sentia o seu poder e beleza.

Na manhã seguinte, pela primeira vez, sentado à sua frente, experimentei a


vichara – “Quem sou eu?” Imaginei que eu próprio havia resolvido tal coisa, pois
estava longe de perceber que a iniciação pelo olhar tinha-me vitalizado e
transformara a minha atitude mental. Realmente já ouvira falar desse tipo de
iniciação, mas não dera atenção ao assunto. Mais tarde, outros devotos, que
passaram por idêntica experiência afirmaram-me que ela marcara o início do
sadhana ativo sob a tutela do Bhagavan.

Meu afeto e devoção a Bhagavan continuaram aprofundando-se. Agora,


sentia uma leveza e felicidade que eram a graça e o mistério do Guru....

Diziam-m que ele era o guru, elo entre o céu e a terra, entre Deus e eu, entre
o Ser-sem-forma e o meu coração. Tornei-me cônscio da enorme graça d sua
presença. Até mesmo exteriormente manifestava-se a graça da sua presença. Até
mesmo exteriormente manifestava-se a graça: sorriso carinhoso, sinal para que eu
me sentasse no salão num ponto onde ele pudesse vigiar-me na meditação. Certo
dia, subitamente, percebi a verdade – o elo com o Ser-sem-forma? Mas ele era o
Ser-sem-forma!

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Comecei a captar o significado de sua Jnana, compreendi porque seus
devotos chamavam-no de Bhagavan. Bhagavan – o nome de deus! Então pateou-
se o que ele tinha afirmado em seus ensinamentos – “o guru externo serve para
despertar o Guru no Coração”.

Vichara – o constante e persistente. “Quem sou eu?” – evocava em mim uma


nova percepção; aquele que interiormente era o Ser, exteriormente mostrava-se
como Bhagavan.

A teoria especiosa segundo a qual Bhagavan não era de sua Graça,


facilmente evaporou-se ante o resplendor de sua Graça. E vi que seu modo se
ensinar era orientação eminentemente pratica: ele desprezava as explicações
teóricas e, constantemente, encaminhava o inquiridor para as suas considerações
praticas do sadhana (caminho a ser seguido). Ensinava somente isto neste
mundo.

Então, comuniquei-me por carta com aqueles meus amigos que


anteriormente me levaram a idéia errônea sobre Bhagavan.

Antes de enviar as cartas, entreguei-as a Bhagavan para que as aprovasse


ou não. E ele, sorrindo, autorizou-me a enviá-las.

Costumava permanecer sentado diante dele no salão, quase sempre em


silencio. Não mais fazia perguntas, pois a teoria já me era familiar, e somente lhe
dirigia a palavra no que tange a meus assuntos pessoais.

A sua silenciosa orientação era constante e forte, apesar de sutil. Parecerá


estranho a mentes contemporâneas que um Guru possa ensinar silenciosamente.
O seu silêncio não implicava, entretanto, em recusa quanto a dar explicações
verbais se inquirido. Ao contrário: respondia prontamente, amavelmente, a toda a
pergunta de teor sincero. Mas os seus verdadeiros ensinamentos eram

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administrados diretamente, no silencio, e a alquimia deles processava-se no
coração.

Eu me esforçava sinceramente no caminho da Vichara, tal como era


explicado pelo Mestre. Mas, tendo eu um forte sentido de dever, continuava,
paralelamente, a usar as outras formas de Sadhana que eu empregava
anteriormente. Começava a senti-las pesadas e de escasso beneficio, mas
persistia usando-as.

Finalmente, expliquei a Bhagavan o meu problema e perguntei-lhe se podiam


abandonar as outras praticas. Ele sorriu e deu consentimento, advertindo: - “Sim,
todos os outros métodos servem somente para conduzir à” Vichara ““.

Desde que cheguei a Tiruvanamalai, jamais entrei duvidas quanto a minha


permanência ali. Achara o meu lar! – pensava assim, mesmo quando tinha
duvidas relevante a Bhagavan e a minha situação concedeu-me a iniciação, a
despeito de eu nem saber como pedi-la.

O período de constante aproximação física continuou até o inicio de 1946.


Minha situação financeira não levaria ninguém a supor que eu pudesse passar
cerca de três anos em inatividade. Mas as circunstancias pareciam adaptar-se à
vontade de Bhagavan. E foi tão só a sua Graça (que ainda me mantém lá) que
tornou possível atravessar esse longo período de desemprego e outras
dificuldades tristezas, sem sofrer grandes ansiedades.

Apesar dele jamais haver indagação da minha situação particular, ele estava
a par de tudo e inundava-me o coração de paz.

No inicio de 1948, cessou a necessidade de proximidade física e surgiu,


então, a urgência de um emprego que me permitisse manter a família. Dentro em
breve, arranjei em Mandras.

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Levei comigo um retrato de Bhagavan, em tamanho natural, retocado a óleo
– um presente do Dr. T. N. Krishnaswami, devoto que era fotografo. Tal retrato foi
o mais precioso presente que recebi. Mostrei-o a Bhagavan antes de mudar-me:
ele o tomou nas mãos e devolveu-o a seguir, dizendo: - “Esta levando o Swamy
com ele”.

Desde então, aquele retrato te olhado para mim com o amor e a força dum
Guru, e em tem falado mais profundamente que qualquer outro retrato.

Então, comecei a ir a Tiruvanamalai apenas nos fins de semana e nos dias


feriados. Cada visita me reanimava. Por ocasião de observar que, logo após a
intervenção concedeu o Darshan. O Carinho e a bondade daquela recepção
traspassou-me o coração, causando-me remorsos por haver recebido tanto em
troca de tão pouco esforço desenvolvi.

Eu estava lá naquele dia triste em que seu corpo morreu. Senti calma sob a
tristeza, admirei-me da fortaleza com que Bhagavan comunicara a seus devotos
para poderem suportar a perda.

E tornou-se evidente, a seguir, que cada um tinha descoberto, no próprio


coração, a verdade da promessa de Bhagavan de continuar presente, de não
partir dali.

Desde então, a presença de bhagavan tem se tornado cada vez mais vital
em cada coração: o derrame de sua Graça, mais abundante; o seu apoio, mais
poderoso.

Estive em Tiruvanamalai: senti que a Graça – emanada do tumulo – é a


Graça de Râmana vivo.

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Durante todos estes anos, jamais senti impulso de escrever a respeito de
Bhagavan. Mas, depois da morte de seu corpo, e após a sua afirmação: “Não irei
embora; estou aqui; para onde iria eu?” – tive um sonho, no qual ele me chamou
e, ao ajoelhar-me perto do seu sofá, ele colocou suas mãos sobre a minha cabeça
e me abençoou. Logo surgiu o desejo de escrever sobre Bhagavan, especialmente
para esclarecer quanto à viabilidade do caminho de Auto-investigação que ele nos
legou. Quase todos os capítulos deste livrinho foram inicialmente escritos na forma
de artigos de jornal e publicados em diversos periódicos – nos meses
subseqüentes ao seu Maha-Samadhi.

Agora, juntados, formam este livro.

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RÂMANA ARUNÁCHALA

Capítulo I

Findou recentemente uma das grandes épocas: a Graça Divina havia-se


manifestado em humana forma, fizera-se carne, andava e falava com os homens;
aparecera como Bhagavan Sri Râmana, o Maharshi (Grande Rishi).

Não se tratava de um Guru vulgar – e isto de chamar-se vulgar a um Guru é


coisa inteiramente absurda; o Guru é sempre um Grande Mestre espiritual: acha-
se muito acima do plano comum dos mortais.

Bhagavan, entretanto, não poderia situar-se em plano algum, pois


permanece constante e inalteravelmente consciente de sua identidade com o Ser
que é Deus; melhor dizendo: Ele era Deus usando um corpo humano e sujeitando-
se as nossas limitações. E isto ocorreu durante cinqüenta e quatro anos – um
longo sacrifício por nós, sacrifício que se transformou finalmente em martírio.

Fazendo-se carne, combinava em Si mesmo Sabedoria e ignorância – o que


confundia aos seus visitantes. Possuía completo conhecimento espiritual
constante. Sempre discorria com autoridade – não havia, por exemplo, qualquer
duvida relativamente ao assunto Samadhi, por que Ele achava-se constantemente
em Samadhi; era sempre, constantemente, o Atma, o Supremo, Divino, Indivisível,
Imperecível Ser. Não existia problema sobre a revelação, pois quem fazia
revelação a quem, num estado além-forma? Daí que toda declaração de
Bhagavan fosse uma afirmação divina; e toda explicação, um evangelho.

A par disso, apresentava humana ignorância: indagava da presença de


fulano, ou da saúde de alguém, e coisas deste gênero. Muitos dos visitantes de

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devotos estranhavam tais fatos, perplexos, ante um Ser com Divino conhecimento
pudesse ignorar se um remédio fizera ou não efeito, ou se um navio chegara.

Duma feita, um devoto mais curioso perguntou-lhe: - “Um Jnani sabe todas
as coisas?”.

Bhagavan, com a usual rapidez de replica, e bom humor, transportou a


pergunta de teor acadêmico em observação positiva: “Sabe tudo o que vale
saber”.

Bhagavan não era um Yogue lutando para passar dum estado de


conhecimento a outro; era algo bem mais grandioso: tratava-se de um homem que
morrera para o corpo, e vivia na mais absoluta identificação com o Ser Divino,
aceitando, simultaneamente, as humanas limitações.

Faz-se mister muito cuidado, ao falarmos desses mistérios. É impróprio dizer


que Bhagavan se aproximara do conhecimento de um estado superior: sendo Ele
Bhagavan, nenhum estado podia estar próximo dele, pois aquilo que nos
conhecemos como elevado era, para Ele, assim como o humano estado – a
ilusória realidade de um sonho. Ele estava unificado com o Ser que continha todos
os estados os transcendia.

Por haver continuando a usar a aparente humana forma, após havê-la


transcendido e a todos os outros estados, aceitou-lhe as limitações, sentindo,
assim, frio e calor, dor e doença; também estava preso à ignorância quanto aos
acontecimentos comuns.

Se fosse outra forma: Ele em condição humana, mas liberto dessas


condições de dor, doença e desconhecimento do que ocorria, o comentário geral
seria este; “Fácil dizer que permaneçamos no coração e imperturbáveis ante os
fatos, fácil para ele que esta livre da dor e da incerteza das coisas!”

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Aceitando a dor e a ignorância como peculiares á humana forma, mostrou
que elas não podem tocar a imperturbabilidade do Jnani, aquele que permanece
imóvel no Ser Real. Isto fortaleceu os seus ensinos, posto que eivados de
exemplos para seus devotos imitarem-no, agindo como ele agia.

Assim como Bhagavan tudo isso aceitou, também recebeu a limitação


comum aos poderes humanos. Mestres espirituais houve que fizeram milagres
exibindo a supremacia das leis espirituais sobre a matéria; deram aos homens a
noção da resplendente herança que lhes pertencia. O método de Bhagavan
diferia; demonstrava que era possível estar identificado com o Ser, mesmo em
meio às limitações da vida corrente.

Deu exemplo, com isso, de submissão ao sofrimento e à ignorância de


acontecimento, além de exemplificar submissão às leis e condições que esse
refletiam nas regras impostas pelos dirigentes do Ashram . Logo, aquele que não
suportava as normas do Ashram, encontrava lenitivo vendo a submissão
Bhagavan ás mesmas normas.

Qualquer coisa que se refira aos poderes de Bhagavan, deve ser coteja com
o seu conhecimento.

Alguns devotos o encaravam com uma fé simples, como se lhes fosse pai ou
mãe: a ele voltavam-se quando lhes surgiam pequenas ou grandes dificuldades –
suas preces eram atendidas. Dificultardes ou doenças sumiam, os casos difíceis
dissolviam-se. Isto, às vezes, acontecia no momento mesmo em que Bhagavan
recebia um apelo pessoal ou uma carta. Se não havia boa solução, um sentimento
de alento e resignição cresciam no devoto, e ele varava as dificuldades antes
intoleráveis.

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Devotos que observavam tais resultados iam mais tarde relatá-los a
Bhagavam que, humanamente, não sabia do que ocorrera.

A um que o inquiriu sobre tal assunto, respondeu: “Tal depressa um devoto


ora ao Jnani, a divina atividade automática logo começa a agir”. Ele prenunciou tal
frase em Telegu, mas pronunciou em inglês as palavras; “a divina atividade
automática”.

Jamais discorreu sobre poderes, nem mostrou o menor interesse pelos


mesmos. Sempre fomentava o desinteresse dos devotos por tais poderes,
repetindo que tais poderes significam distrações nocivas no caminho da auto-
Realização, pois o próprio conceito de poder infere dualidade.

Quando alguém mencionou que um certo Mestre fizera milagres, ele


interrogou: “No momento de fazê-los pensaria ele que ele mesmo os estava
fazendo?”.

Quando sua compaixão agia, não era no sentido de remover os infortúnios,


mas sim de conceder a paz, a despeito dos sofrimentos.

A uma senhora transtornada pelo falecimento do seu marido, e a um pai que


perdera seu filho único, olhou-os silenciosamente com os seus olhos luminosos
brilhando de amor e compreensão, e logo a paz inundou-lhes os corações.

Nós, desta época materialista, fomos abençoados por uma presença que
somente pode ser comparada por uma presença que somente pode ser
comparada a de Buda, de Cristo e de Shankara; e a medida de tal materialidade
esta na indiferença que o mundo em geral demonstrou para com esse Mestre.
Falando em idéia e grandes questões, o mundo não soube ver a real benção eu
recebia a nossa época, repetindo a omissão dos Romanos quanto a Cristo.

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São palavras de Bhagavan; “Um só Jnani estando presente no mundo, sua
influencia beneficiara a todo o mundo e não somente a seus discípulos”.

Entretanto, os ensinamentos de Sri Râmana não são destinados a causar


uma revolução no mundo, tão grande quanto à ocasionada pelos de Buda, Cristo
ou Shankara. Ele não veio pregar uma nova religião ou restaurar algo já existente.
Seu trabalho era abrir uma nova senda espiritual a ser trilhada nas condições
difíceis do mundo moderno, e tornar o espiritual acessível àqueles que se voltam
para ele, seja qual for à religião ou comunidade a que pertençam. Outras palavras,
o chamado do Mestre não se destina a grupos ou comunidades, mas a indivíduos
que possam compreender.

Os sábios, de muito, concordaram em que o tipo de Sadhana mais útil aos


viventes nesta Kali-Yuga é, primordialmente, Nama-Japa, ou seja, a invocação do
Nome Sagrado.

Concordaram, igualmente, em que o Jnana-Marga, “o caminho direto”, é


demasiadamente difícil para esta Kali-Yuga. Foi previsto, entretanto, que o
caminho, no final, tornar-se simples e fácil de seguir.

Tal coisa foi conseguida por Bhagavan Sri Ramana, abrindo para a
humanidade o perdido caminho da Auto-investigação; isto foi feito em nova forma,
conveniente as condições de nossa época. Num capítulo adiante,
demonstraremos o que ora afirmamos. Sem dúvida, era uma senda composta e,
na sua integridade, continha os três elementos (Jnani, Bhakti e Karma-Marga),
permitindo que, conforme a natureza do praticamente, tivesse ênfase um ou outro
elemento. Na criação de tal senda estava a significação e o segredo da vida de
Bhagavan entre nós. Sobre isto falaremos.

Durante meio século de ensinamentos. Ele constantemente reiterava que o


caminho mais seguro e mais certo era a Auto-investigação. Damos as suas

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próprias palavras: “Auto-investigação é o meio infalível, único e direto, para
realizar o Ser-Absoluto-sem-condição que realmente sois.”

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RAMANA, O HOMEM

Capítulo II

Era um quadro emocionante – mais emocionante entre todos os que já vira.


Tão naturais e simples, entretanto!

Ali estava o Monte Arunáchala – a face que apresentava aos que o olhavam
da praça do Ashram – e, descendo por um dos caminhos, um homem alto e
magro, cor clara, cabelos brancos, apoiando-se numa vara. Mais tarde, ei-lo
saindo da sala do Ashram, detendo-se a sorrir para uma criancinha, e continuando
a caminhada através da praça...

Estas coisas aconteciam quotidianamente, mas a beleza e a simplicidade


peculiares a tudo que se referia a Râmana, conferia-lhe uma majestade
surpreendente; o espectador paralisa-se, mal respirando, olhando...

Tez pálida, quase dourada. Cabelo e barba braços, sempre curtos: atendia,
assim, as exigências dos tradicionalistas do Ashram, segundo os quais um
Sanyasin deve fazer a barba e o cabelo nos dias de lua cheia.

Abatido, mais envelhecido que sua idade exigia (por haver carregado o fardo
de nossas tristezas), caminhava, joelhos duros de reumatismo, inclinando-se
pesadamente sobre uma vara, olhos postos no caminho.

O ar humilde, a total simplicidade, algo assim como se fosse um infante


indefenso, - constrangia o coração de todos aqueles que o observam. Ate mesmo
o mais duro cético, os aparentemente indiferentes, fitavam-no sem poder ocultar
um olhar de ternura.

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A historia da vida de Sri Bhagavan nada tem de complexo. Nasceu num lar
pobre, família Brahmin, no sul da Índia; fez curso escolar em missão inglesa local
(origem do conhecimento deste idioma).

Menino normal, robusto, amante dos esportes, descuidado quanto aos


adultos. Aos 17 anos, idade em que normalmente os adolescentes fazem-se
homens, grande alteração manifestou-se em seu animo: medos intensos de
morrer, pressentindo de morte iminente.

Estava sozinho, ninguém que pudesse confortá-lo. E, enfrentou a crise,


solitariamente. Deitou-se, ficou rígido na cama, tentou imaginar e dramatizar o ato
de morrer.

Suspendendo a respiração, tentando dar realidade ao fato, assim,


inconscientemente, passou a praticar um real Pranayama (controle da respiração).
Então, pensou: “Este corpo esta morto, que significa isto?” “Este corpo esta morto
poderá ser levado à cremação, reduzindo-se a cinzas”.“Mas com a morte do meu
corpo, estou “Eu” realmente morto?”. “É este corpo o Eu?”

Tais pensamentos não eram sem conteúdo. Então, a verdade brilhou ante
ele, como um relâmpago! Compreendeu que ele não era aquele corpo sobre a
cama, nem os pensamentos que vinham e passavam; sentiu que ele era o Eu
Eterno, o Espírito imperecível.

Naquele instante, a morte morrera para ele, que acabara de acordar para o
Conhecimento do Ser Eterno.

Uma vida inteira e esforço e sadhana reduziu-se, para ele, a alguns poucos
instantes.

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Teorias a propósito de tais eventos ele as aprendeu mais tarde, tal como uma
mulher que, tendo dado a luz, lê a respeito de partos posteriormente.

Seu modo de viver alterou-se, desde então, substancialmente.


Desinteressou-se completamente de todas as coisas mundanas; e,
constantemente, voltava a se submergir na Felicidade do Ser.

Seu irmão mais velho que, sob a tutela de seu tio, dirigia a família após a
morte do pai, sentiu a alteração processada no jovem, e repreendeu-o. Achava
que ele procedia como um sadhu, embora gozasse os privilégios duma vida
familiar.

O jovem Râmana reconheceu a procedência da critica. Então, reajustando os


fatos, abandonou secretamente a vida familiar, partindo em direção a colina
Sagrada de Arunáchala. Nesse lugar permaneceu durante 54 anos, até que, em
14 de abril de 1950, desprendeu-se do corpo para sempre.

Em Arunáchala, durante os primeiros tempos, permaneceu imerso na


efulgente felicidade divina, sem consciência de que tinha um corpo, visto que dele
não se utilizava nem para falar, nem para locomover-se; quase nunca se
alimentava; aparentava, ante aqueles que o viam, estar entregue a uma TAPAS
(penitencia) intensíssima.

Mas tal não acontecia. Ele ignorava, mui simplestemente, a existência do


corpo, sentia-se liberto dele, sem nenhum esforço nesse sentido. Confirmou, mais
tarde, tal coisa, ao dizer: “Eu não comia, por isso diziam que estava jejuando; eu
não falava, afirmava que eu era ”mouni””.

Na realidade, Râmana já era um Jivamukta, tinha constante consciência da


identidade com o Ser; já não possuía Karma a eliminar, pecado algum a redimir,
alvo qualquer a alcançar.

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Por algum tempo, sua morada foi uma galeria subterrânea do grande Templo
de Tiruvanamalai (outro nome de Arunáchala), seu lar, onde submerso no
Samadhi, viveu sem atentar nas formigas e vermes que cortavam e comiam a pele
de seu corpo.

Então, outros sadhus, dele compadecidos, passaram a cuidá-lo, levando-lhe


diariamente uma xícara de sopa rala, seu único sustento.

Até que, finalmente, decidiram removê-lo, carregando-o para fora da inóspita


caverna, quando em Samadhi.

O corpo tinha-o de tal modo destratado, que por pouco mais tempo poderia
viver. Talvez o abandonasse sem esforço, caso outros não tomassem a
providencia de acudi-lo.

A historia começa, no que tange ao mundo, quando a compaixão daqueles


que o cercavam, procurando Graça e instrução, jogaram-no na corrente da vida.
Encontrou, de então para diante, um motivo para atentar na vida física – a
compaixão. Igualmente pode dizer-se que continuava a não existir motivo de
espécie alguma, a não ser um prarabdha karma, tal como o sol dá vida às plantas
e animais sem que tenha motivo algum (tão só por ser o que é).

Râmana comparou o prarabdha karma do Jnani ao movimento que persiste


num ventilador após o desligarmos; - gerado pelo impulso anterior.

Talvez estes dois exemplos signifiquem apenas que a compaixão dum


Jivanmukta não é individual, mas cósmica.

Um dos paradoxos espirituais é que aquele que dá a sua vida, a encontrará;


aquele que renunciou a sua individualidade, tronar-se-á mais individual do que
qualquer outro. O Jivan- Mukta dissolveu o ego que explora e perverte as

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características, libertas, crescem sem diminuir ou desvirtuar o que é comum. Em
Mestres que são Perfeitos, a Graça Divina é a mesma, apesar das características
dos veículos humanos serem diferentes.

Bhagavan era meticuloso exato, observador agudo, - e muito pratico. De


conhecido e constante bom humor. Sua vida quotidiana era de tal pontualidade,
que poderíamos chamá-la de “britânica”.

Em tudo, ele era preciso e ordenado. O Ashram, varrido várias vezes ao dia;
livros e revistas estavam sempre no devido lugar. Colcha destinada a cobrir seu
divã era encontrada escrupulosamente lavada e dobrada. A tanga, única e toda a
roupa pessoal que usava, era sempre alva como a neve.

Os dois relógios do Ashram, ajustados pelo rádio-relógio duas vezes ao dia;


a folhinha jamais atrasada.

A vida do Ashram, desde a arte, fluía dentro dum padrão regular, exato e
simples.

Râmana era muito amável e cordial para os visitantes; não havia a mais leve
cerimônia pontifical nas suas exposições. Ao contrário, suas dissertações, fossem
sobre assuntos comuns ou doutrinários, eram sempre animadas e alegres, sob
seu Constant sorriso. Seu riso, era tão contagioso que, mesmo aqueles que não
entendiam o tamil (idioma em que quase se expressa), espontaneamente riam
com ele.

Ainda nos derradeiros momentos de sua vida física, surpreendida os


circunstantes com os seus chistes.

E mesmo esses chistes estavam eivados dum sentido profundo, pejados de


ensinamentos. Nos seus últimos dias, quando os médicos quedava-se alarmados

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ao ver o câncer surgir em outro ponto de seu corpo, comentou rindo: - “ Por que
este alarma? A natureza dele é mesmo eclodir!”

Uma senhora, em prantos, batia com a cabeça num poste, do lado de fora,
apesar da insistência de Râmana de que não havia motivo de tristeza pela morte
do corpo; Râmana escutou um instante e observou: “Até parece que alguém tenta
quebrar um coco”.

A um devoto que lhe perguntava porque as suas preces não eram atendidas,
Bhagavan, rindo, respondeu: “Se elas fossem atendidas, pararias de rezar”.

A maneira de ser de Bhagavan era muito normal. Não tinha atitudes de


superioridade que fizesse as pessoas vergar-se a seus pés. Ninguém como ele
era tão natural e simples.

Todos se curvavam reverentes, porque esta é a reação do homem perante a


divindade encarnada.

O rosto de Râmana, rosto qual superfície de um lago; sempre sereno, apesar


das rugas. Às vezes, conversando e rindo, virava-se com muita graça, para uma
criancinha que passava; outras, para o esquilo na janela. E seus olhos grandes
brilhavam com ternura, às vezes, ao aperceber-se dum devoto que chegava ou
paria. Então, logo após, no silencio, seu rosto ficava imóvel como granito, eterno
na sua grandeza.

O amor que radiava de seus olhos, a luminosa compreensão, ultrapassam


qualquer descrição. Duma feita, um desesperado devoto caiu em prantos.
Bhagavan, após ouvi-lo, somente o fitou sem pronunciar palavra - e o devoto
sentiu apoderar-se dele imensa paz, que lhe inundou a alma.

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Um velho pandit que conhecera Sri Râmana menino, e que já tinha visitado a
muitos Yogis, resolveu apresentar-se ao Yogi Râmana para consultá-lo. Uma vez
diante de seu leito, quedou-se eletrizado e, muito espantado, sem que percebesse
claramente o que lhe ocorria, caiu para frente, rígido. Um “coolie” apanha do chão
um folheto com o seu retrato, exclamando “Bhagavan”, e logo dobra o papel
reverentemente, guardando. As crianças eram atraídas a ele, e ficavam felizes a
seu lado.

Numa tarde, demorando-se Bhagavan a voltar do habitual passeio pela


montanha, dois macacos chegaram até a porta do hall cheio de devotos; os dois
animais esqueceram-se do medo natural que experimentavam ante as pessoas e,
vendo vazio o lugar de Bhagavan, mostraram-se tomados de enorme ansiedade.
Todo macaco que tiver convivido com um ser humano, é perseguido e repudiado
pelos seus companheiros, ao retornar à sua tribo na selva. Aqueles, porém, que
eram alimentados e acariciados por Bhagavan, continuavam sendo bem recebidos
pelas suas tribos. Havendo transcendido o ego, Bhagavan não transmitia medo ou
antagonismo, e os animais se apercebiam disto.

Certa vez, uma cobra venenosa cruzou sobre sua perna imóvel. Indagado do
se que sentira, o Mestre disse, rindo; “Fria e úmida”.

Durante os últimos anos de sua vida, seu programa diário era o seguinte. As
cinco da manha a sala (onde Bhagavan dormia num divã) era aberta a visitação
dos devotos, que lá iam meditar ao som de cânticos védicos.

As seis horas ele ia para o banheiro e as sete tomava a refeição matinal, na


sala apropriada. Então, os devotos sentavam-se ante ele, na sala, das oito ás
onze, com um intervalo de meia hora as dez.

Muitas vezes reinava pleno silencio, vibrante de sua Graça. Era uma paz e
contentamento além de todas as palavras. Outras vezes, realizava-se um

25
Sadhana (esforço espiritual) que ele vigiava e guiava sem, contudo, dar nenhuma
indicação de que o fazia.

Acontecia surgirem perguntas ou, ainda, cânticos em louvor de Bhagavan.

O correio chegava entre nove e dez horas. Bhagavan lia as cartas ou


folheava o jornal do dia, mas sem interromper a corrente do silêncio que irrompia
no coração dos presentes. Ele não respondia pessoalmente as cartas, disto
encarava-se o escritório do Ashram; mais respostas eram lidas e revisadas por
Bhagavan, no mesmo dia à tarde.

O almoço era às onze horas, e, nos últimos anos, bhagavan consentia que
seu frágil corpo descansasse um pouco após essa refeição, antes da abertura da
sala aos fieis. Os esquilos regalavam-se, então, pois bhagavan jogava ao
assoalho amendoim para eles. Das três as cinco da tarde, voltavam os devotos à
sala, mas Sri Bhagavan ausentava-se durante meia hora para o seu habitual
passeio pela colina. Já nos seus últimos anos, teve de abandonar tal passeio, pois
estava muito enfermo. Os joelhos, inchados de reumatismo, para atravessar a
praça do Ashram. Antes das cinco e trinta, os cantos dos Vedas eram iniciados.
As seis e trinta as senhoras partiam; meia hora depois era a vez dos homens.

A mesma consideração que Bhagavan concedia as pessoas e animais era


dada às coisas inanimadas. Todo o movimento e ação tinham de ser executados
proveitosamente – da melhor maneira possível. Nada devia ser desperdiçado.
Pude observar a meticulosidade com que um livro era encapado ou um retrato
colado. Não hesitava em repreender um assistente, se fosse mal aproveitada uma
simples folha de papel.

É notório que o homem destrói e depreda a natureza. E era consolador


verificar o cuidado com que esse Homem Divino fazia uso das coisas!

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A comida, por exemplo, jamais era desperdiçada. Um presente de presente
de frutas deveria ser distribuída as crianças, ou dado aos macaquinhos travessos
que tentavam roubá-las! – mas jamais dever-se-ia permitir que as frutas se
estragassem. Assim se vê que é uma noção errônea pensar que a economia
acompanha a parcimônia, e a generosidade é parceira da extravagância. Muitas
vezes os parcimoniosos são como esbanjadores, e os generosos revelam-se
cuidadosos.

Quando Bhagavan terminava a refeição, a folha de banana ficava tão limpa


como se tivesse sido lavada. Nem um grão de arroz sequer era lançado fora.

Outros tempos, corpo ainda sadio, ele próprio ia a cozinha, ajudante no


preparo do alimento. Insistia em que as cascas dos legumes fossem usadas para
alimentar o gato.

Apesar de ser um Rei absoluto, e de todos ansiaram por obedece-lo, a vida


de Bhagavan era belo exemplo de submissão. Em virtude de sua recusa a
expressar ainda que um só desejo, ou dar alguma ordem, as autoridades do
Ashram erigiram sua própria estrutura regulamentar, e Bhagavan submeteu-se
aos regulamentos sem qualquer reclamação.

Assim, se algum devoto intentasse irritar-se com o regulamento, tinha


perante os olhos o exemplo de submissão de Bhagavan.

Se Bhagavan resistia a algum ponto, era sempre no interesse dos devotos e,


assim mesmo, faziam-se silenciosamente, muitas vezes, tal resistência
processava-se conforme o seu agudo sentido humorístico.

Duma feita, um assistente criticou uma senhora européia por sentar-se com
as pernas esticada a frente; prontamente Sri Bhagavan reagiu, se sentado com as

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pernas esticadas no mesmo sentido, a despeito da intensa dor que tal posição lhe
causava.

Quando os presentes protestaram, Sri Bhagavan revelou que a ordem atingia


a todos, sem exceção. Somente ao permitirem que a senhora se pusesse à
vontade, ele voltou aos seus hábitos.

Mas não só aos regulamentos, mas também aos condicionamentos da vida –


dor e doença – Bhagavan demonstrava submissão. Desse modo, ensinando que a
dor jamais perturba a equanimidade daquele que permanece no Ser.

No transcurso de sua longa e dolorosa enfermidade, que finalmente matou o


seu corpo, submeteu-se complemente a um e outro medico que estavam
encarregados de curá-lo, jamais reclamando ou pedindo a menor mudança no
tratamento ou medicamento; visava não desapontar aqueles que faziam a
recomendação.

Mas, até nisso, nada se fazia sem a autorização das autoridades do Ashram.
Se atualmente existe uma tendência a encarar a submissão como sinal de falta de
espírito ou vontade própria, é porque o egoísmo é considerado como sendo
natural. Sem dúvida alguma, lutar contra nossos próprios desejos exige muito
mais espírito que relutar em negá-los. Bhagavan mostrou-nos o caminho livre de
desejos. Tal liberdade não é submissão a nada de objetivo; é a felicidade da
concórdia, pois é ao próprio Ser, e não a um estranho, que nos submetemos.

Bhagavan procurou liberar-nos, não só dos desejos físicos, mas também dos
desejos psíquicos, desaprovando todas as anormalidades e excentricamente, todo
interesse em visões e poderes psíquicos.

Preferiu que seus devotos se conduzissem de modo normal e sensato.


Estava nos ensinando a buscar a realidade final, onde as percepções e poderes

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chamados “superiores” ou “miraculosos” são ilusórios, tanto quanto o são os
físicos.

Certo visitante contou que seu Guru tinha morrido sido enterrado, para mais
tarde, três anos após, voltar ao mesmo corpo físico a fim de instruir seus devotos.
Bhagavan continuou sentado, imóvel, como se nada tivesse ouvido. Então soou a
campainha do almoço e, a porta, quando se retirava, encarou o visitante: “Mesmo
que um homem possa entrar em muitos corpos, isto significa que já encontrou o
seu verdadeiro Lar?”

Um dos belos exemplos de seu bom humor temo-lo quando alguém lhe
perguntou se uma pessoa, desejosa de vários poderes, conseguiria obtê-lo
automaticamente quando através da força de seu sadhana, obtivesse “Mouksha”,
certamente tais poderes não prejudicariam tal pessoa.”

Jamais pudemos conhecer alguém tão simples e sem espírito de ostentação.


A coisa alguma considerava como sendo sua. Nada solicitava. Apenas aceitava o
alimento e a vestimenta estritamente necessários – e era só. Os únicos presentes
aceitáveis para ele eram flores e frutas e, assim mesmo, deviam ser partilhados
com seus devotos, no salão do Ashram. Bhagavan recusava qualquer
consideração especial a ele dirigida. Se seus devotos se levantavam quando
entrava no salão, ele fazia um sinal quase impaciente para que logo se
aquietassem.

Eu o vi recusar que fosse ligado um ventilador elétrico, justamente porque


não iriam beneficiar a todos no salão. Após este iniciante, foram montados
ventiladores gerais no salão.

Ao ver que um assistente, numa das refeições, pusera metade duma manga
para ele, enquanto os demais recebiam somente uma quarta parte da fruta,
recusou zangado, tirando para si a menor porção.

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Podemos dizer zangados, porque ele muitas vezes manifestava “cólera”
contra as faltas cometidas pelos assistentes. Mas eram simples demonstrações
externas de reprovação, contra lapsos mínimos. No que se referia, porém a faltos
e lapsos graves, era de ilimitada paciência para com seus devotos.

Jamais solicitou que alguém o visitasse ou deixasse o Ashram, ou insistiu


que alguém permanecesse lá. Entretanto, a todos vigiava com grande solicitude
como se fosse uma mãe cuidando de seu filho único. Nem sempre exteriorizava
esses cuidados, a fim de evitar surgissem invejas entre os devotos, ou
estimulasse a vaidade neles, coisas que ele sabiamente evitava.

Esses cuidados muito contribuíram para a secreta orientação dos seus


devotos. Adiante daremos maiores esclarecimentos.

Nunca surgiu a questão do humor em que estaria Bhagavan, porque ele


simplesmente não tinha estado de bom ou mau humor. Tais coisas não
aconteciam, pois Bhagavan jamais trocava a forma pela Realidade. Nenhum
estado de abstração era-lhe necessário, pois, embora completamente humano,
estava também completamente em Samadhi, quer estivesse falando ou sentado
em completo silencio.

Ele apenas correspondia as necessidades que o buscavam. Por isso, cada


qual julgava estar recebendo uma Graça muito especial. Estando ele estabelecido
na Realidade além de todas as formas, observava formas e acontecimentos, não
com a importância inerente e graduada que elas tinham realmente para nós, mas
sim considerando a importância que nós lhes atribuímos. Cada qual, pensando em
seus problemas como os de maior importância no momento, ficava contente em
verificar que Bhagavan também os achava importantes.

Pandits, no salão, com seus textos sânscritos, buscavam que Bhagavan


elucidasse este ou aquele ponto. Um menino de 3 anos, levou-lhe um livrinho de

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história e Bhagavan tomou-o com a mesma Graça e o mais vivo interesse. O
livrinho estava rasgado e Bhagavan guardou-o para supervisionar pessoalmente o
conserto; e devolveu no dia imediato, recomposto.

Às vezes, entretanto, propositadamente, evitava reconhecer importância nos


problemas dos homens, a fim de afastá-los do apego as coisas e acontecimentos.
Um dos diretos do Ashram morreu. A esposa, ao voltar, encontrou-o morto. Mal
podia controlar-se, tal era a sua dor e tristeza. Bhagavan, então, diz-lhe: “Por que
te lamentes tanto? Nada mudou!”.

Repetiu a mesma coisa em várias ocasiões, quando ele mesmo se


aproximava da morte.

Sua gentileza, que a toda abrangia, punha-os à vontade, mesmo quando não
pronunciava uma única palavra.

Se ele cumprimentava um recém-chegado, era geralmente para indagar se já


havia comido. Foi essa a primeira perguntava que fez a um dos seus médicos,
dias antes da morte, estando sob dor lancinante.

Entretanto, por trás daquela amabilidade para com todos, havia minuciosas
supervisões individuais, referentes a cada devoto, cuja submissão ele havia
reconhecido.

A princípio, esse devoto era estimulado por um sorriso ou um olhar


atencioso. De repente, era aparentemente ignorado – e Bhagavan não tomava
conhecimento de sua existência, salvo o dirigir-lhe rígido olhar quando o devoto
mergulhava na devoção.

Se o ego era alimentado pela atenção anterior do Mestre, e ele se imaginava


melhor e mais favorecido que outrem, o aparente desdém posterior era-lhe um

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tapas bem amargo. Mas, a medida que a sabedoria e constância apoderava-se do
discípulo, este passava a receber um sorriso ocasional de reconhecimento, ou um
profundo e envolvente olhar de amor e reconhecimento.

Era pouco comum o devoto passarem todo o dia no salão da Ashram. Muitos
deles eram pais e mães de família, que viviam nas casas de colono construídas
em torno do Ashram. E tinham de voltar aos lares, a fim de atenderem aos
afazeres diurnos. Outros, ainda, viviam nas aldeias próximas.

Tal espécie de vida era perfeitamente com a essência do Karma-Marga nos


ensinamentos de Bhagavan. A meditação sobre o Eu interior e a devoção a esse
Ser manifestado na pessoa de Sri Ramana, foi estabelecida visando, através de um
esforço diário, afastar o apego às coisas materiais e vergar o ego no trabalho e nas
relações da vida quotidiana.

Doutro modo, a situação seria diferente, pois, embora Bhagavan se


abstivesse de qualquer injunção, tudo corria consoante a sua vontade.

Muitos desejavam que Bhagavan impusesse injunções, não só referentes às


suas próprias vidas, mas também a direção do Ashram. Entretanto, o máximo que
Bhagavan concedia era manifestar aprovação ou desaprovação aquilo que tinha ser
feito, ou referente a qualquer projeto que se lhe submetesse. E nem sempre fazia
isso!

Se for frontalmente inquirido, ou silenciava ou replicava: ”Se o quereis fazer,


podeis fazê-lo".

Não obstante tal atitude, ele supervisionava a ação ou ocorrência,


principalmente quando se relacionava com aqueles que se Ihe submetiam. A estes
últimos, a aprovação ou desaprovação de Mestre era suficientemente clara, e
assim evitava que suscitasse nos visitantes exigências de idêntica instrução, Certo

32
devoto seu anunciou-lhe um plano de retirar-se de Tiruvanamalai e empregar-se
com salário fixo. Bhagavan observou-lhe, rindo: "Todos são livres de fazer plano”.
Mas o plano dele jamais se realizou.

Noutra ocasião, um assistente do Ashram, admirador de certo político hindu,


externou ao Mestre o desejo de viajar a Madras para visitá-lo, quando o político
passasse por lá. Pediu permissão a Bhagavan, e este permaneceu imóvel,
ignorando o pedido. Mesmo assim o devoto partiu. Andou do local em local onde
passava o político, e jamais conseguiu avistá-lo. Ou chegava tarde demais ou não
conseguia entrar no recinto onde o político discursava.

Voltou ao Ashram sem ter oportunidade de falar-lhe, Então Bhagavan


perguntou-lhe, sorrindo: "Foste a Madra sem minha permissão? Tiveste êxito em
teus propósitos?”.

Poucos meses após a minha chegada ao Ashram, tive que ir a uma cidade
próxima tratar de negócios. Pensando que coisas mundanas não suscitassem
interesse em Bhagavan, apenas roguei-lhe permissão para sair. Bhagavan
concedeu à permissão pedida, não sem observar, posteriormente, que eu deveria
ter mencionado, a finalidade da minha partida. Muito indagarão quais a
necessidade de tal secretividade nos métodos de orientação, e porque Bhagavan
não podia distinguir pessoas, ao conceder suas gentilezas e Graças. Não Ihe era
possível estabelecer distinção entre antigos devotos e recém-chegados; entre os
que se haviam entregado a ele, totalmente, e os outros. Os de total entrega a ele
tinham direito à estrita orientação do Mestre. Também se pode dizer que não
desejava provocar polemicas relativas à sua condição de Guru, ou suscitar, nos
indiscretos, exigências desgovernadas de iniciam. Além de que, tudo ficaria
inteiramente claro a todos os que ultrapassassem o umbral da mente.

Existe também, uma resposta profunda e essencial: "Pelo seu fruto os


conhecerás". Palavra e ação são os frutos da natureza do homem. A instrução, de

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Bhagavan, silenciosa, atuando diretamente sobre o coração, destinava-se a
retificar a natureza do homem; como resultado, fruto sadio surgiria da árvore
sadia. Controle das ações seria método mais exterior que interior, funcionando do
efeito para a causa, e não da causa para o efeito.

Melhor, pois, que o devoto buscasse a verdadeira saída para o seu


problema, no próprio coração; assim é que busca a solução do problema, leva-a
ao professor, e recebe dele, o sorriso de aprovação - ou, em caso de erro, volta e
tenta solucioná-lo. Se o professor desse a solução ao aluno que errou, não o
estaria auxiliando a resolver a questão.

Injunções gerais, aplicáveis todos, tais como as impostas pelas várias


religiões, não seriam convenientes, no caso de Bhagavan, A finalidade não era a
fundação duma nova religião - conforme já foi explicado, - sim, abrir um caminho a
todos que buscassem a Verdade, qualquer que fosse a religião professada pelo
buscador.

Temos um exemplo de liberalidade de Bhagavan no caso dos discípulos


estrangeiros que comiam carne; ele jamais desaprovou tal hábito, embora
acentuasse a importância de uma dieta Satwica a sua saúde se ressentia,
Bhagavan replicou: "Coma aquilo que necessitar”.

Entretanto, as influências silenciosas de Bhagavan, que tornava


desnecessária a compulsão do comando direto faziam-se sentir sobre muitos que,
chegando ao Ashram como comedores de carne, sem diretriz alguma de
Bhagavan ia abandonado dieta carnívora, sentindo-a como prejudicial.

Já no fim da vida, Bhagavan parecia ter uns 90 anos, quantos realmente


contava apenas 70. Era incompreensível que, sendo ele dotado de um físico
naturalmente robusto, quase não conhecendo doença alguma, sendo indiferente à
tristeza, preocupação, ansiedade, esperança ou arrependimento, tivesse chegado

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a tal ponto de aniquilamento físico.

Esse era o fruto da sua intensa compaixão – “Ele tomou a si os pecados do


mundo”.

Devotos chegavam carregados de tristeza, atormentados pela dúvida,


enegrecidos pelas impurezas, e imediatamente sentiam-se aliviados de tudo.

Quantos forçam os que a ele vieram curvados ao peso das desilusões e


tristeza - e a luz dos seus olhos dissolveu-lhes a dor e o desespero, banhando-
lhes os corações em paz e esperança?

Outros chegavam pejados de perguntas aparentemente mui importantes;


trazendo problemas e dúvidas que o estudo, a leitura, a meditação não
conseguiram jamais solucionar; às vezes vinham desesperados outros
desafiadores; - e, ali sentados, viam-se as mentes aflitas e cambiantes a
tranqüilizar-se, - e todas as questões, bruscamente, perdendo razão de ser!

Seus corações desabrochavam a uma grande percepção, inesperada a rara.


Os que procuravam refúgio nele, sentiam seus fardos e karma aliviados - porque
ele tomava a si o dos seus devotos.
Até mesmo as doenças físicas diminuíam diante dele, para surgirem
transportadas à seu corpo.

O modo pelo qual se processou a morte física de Bhagavan ainda é exemplo


de sua compaixão. Muitos criam não poder suportar a perda do Mestre julgando
impossível sobreviver a ele.

Mas, à medida que a doença se arrastava, mês após mês, e quando os


médicos afirmavam que o caso era incurável e a dor sofrida por Bhagavan (que
ele não demonstrava) eram intensíssimos, todos de iam recobrando e aceitando o

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inevitável. Vez por outra, alguém lhe implorava que desejasse ficar bom, mas, no
íntimo, sabia que Bhagavan jamais faria uso de poderes que não tivesse ao
alcance de todos.

Se porventura se recuperasse fisicamente, seria uma dádiva de mais alguns


anos, mas a dádiva real ele a fizera para sempre, além do espaço e do tempo.

Dizia: - “Eu não estou indo embora. Para onde iria eu?”

De fato, para onde iria quem era Deus?

Durante anos, seu corpo foi torturado pelo reumatismo. Seu joelho estava
inchado e ele caminhava com dificuldade, sendo forçado a desistir do passeio
diário ao Sagrado Monte Arunáchala. Há mais de um ano surgiu-lhe pequeno
tumor no cotovelo esquerdo. Foi removido. Reapareceu mais ativo ainda. Então
reconheceram a natureza maligna da doença. Diversos tipos de tratamento foram
aplicados, e Bhagavan muito humildemente submetia-se a tudo. Foi operado três
vezes. E o tumor sempre reaparecendo, pior e cada vez mais acima do cotovelo.

Já em dezembro, os médicos concluíram que nada mais havia a fazer, desde


que o tumor subira ao ombro e atingira o corpo. Diziam que a dor devia ser
lancinante, não obstante Bhagavan não manifestasse o menor sinal de sofrimento.
Todo o seu corpo, então estava contaminado, e seus últimos meses foram uns
longos e constantes martírios.

Mesmo assim ele insistiu em que todos que o buscassem receberiam seu
darshan (entrevista) duas vezes ao dia, passando diante de sua cama.

Já no fim, pediu aos enfermeiros que colocassem seu corpo na posição de


sentado, e nessa posição faleceu.
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Não mais veremos a Graça Divina em forma humana o Amor e a ternura de
seus olhos! Mas, em nossos corações, sempre estará rediviva a sua constante
Presença. Sua Graça continuará derramando-se, não só sobre os que
compreenderam o milagre de sua forma física, mas também sobre todos aqueles
que a ele voltaram os seus corações -agora como sempre.

Sei que não consegui transmitir um quadro lúcido do homem que era
Râmana - mas como retratar o Divino?

O que mais impressionava a todos era, como uma criança. Sua Divindade e
intensa humanidade. Essa Divindade era reconhecida pelos que ante ele se
prosternavam.

A ele se referiam na terceira pessoa, como “Bhagavan”. Se nos dirigíssemos


a ele com o habitual "Senhor" ou "você", sentiríamos estes tratamentos dele como,
coisa absurda. Ele mesmo, falando dele próprio, simplesmente dizia “Eu” ou
“este”. Às vezes, quando era bastante claro sentido da expressão para o
interlocutor, empregava a terceira pessoa, dizendo, por exemplo: “Se vos
lembrardes de Bhagavan, Bhagavan se lembrará de vós”. “Mesmo que vos
aparteis de bhagavan, Bhagavan jamais vos largará”.

Nenhum acontecimento o perturbava, e a majestade de seu rosto era


indescritível. Entretanto, suas reações eram espontâneas e rápidas.

Seu rosto Indescritivelmente humano é um dos mais expressivos que já se


viu.

Alcançou a Realização do Ser sem ter conhecimentos, e, jamais exibia


qualquer erudição; entretanto, fez-se mais versado em escrituras que os “Pandits”
que vinham solicitar-lhe esclarecimentos.

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Era todo compaixão; entretanto, seu rosto aparentava impassibilidade, firme
como um rochedo.

Era todo amor; entretanto, durante semanas não dirigia a um devoto um olhar
sequer. Respondia a todos carinhosamente; entretanto, muitos ficavam mudos e
medrosos ao dirigir-lhe a palavra. Seus traços fisionômicos não eram formosos;
entretanto, sua orientação e supervisão em constantes, assim como o são
AGORA.

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CAMINHO DIRETO

Capítulo III

Todos os Mestres espirituais têm um mesmo propósito: ajudar o homem a


vencer a poderosa ilusão do ego, de modo a que permaneça no bem-aventurado
estado de Ser Perfeito – ou pelo menos, levá-lo próximo a esse nível.

As exposições dos Mestres não podem ser rotuladas de filosofia (no sentido
corrente do termo), pois não configuram especulações sobre a natureza do ser.
Melhor seriam consideradas base teórica para trabalho pratico no Caminho.

Embora ensine baseando-se numa determinada teoria, pode o Mestre admitir


que outra teoria represente diferente aspecto da Verdade, e que sirva a outro
Caminho.

Comparar essas diversas teorias analisá-las como filosofia acadêmica, seria


como equiparar um cavalo de carne e osso a um cavalo-de-pau, pelo fato de
terem formato idêntico, esquecendo que no último há ausência do fator vida.

Os mestres empregam uma linguagem mais ou menos velada, a fim de


adaptar suas predicas à compreensão dos que os ouvem.

Na Índia e na China, talvez tenham declarado a Verdade Única, abertamente


- que somente o Ser é nada mais somos que o Ser, e o Universo são apenas
manifestação do Ser, universo sem realidade própria, somente existe dentro do
Ser. *
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Nota do Tradutor - Na Grécia, antes de Sócrates e Platão, mas contraditando

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Heráclito (Heráclito declarou: "Panta rhei, ouden menei". - Tudo nada permanece),
PARMENIDES afirmou: "O Ser É, não é". E mais: "O que não e, jamais pode vir a
ser". Isto em síntese significa que o "tudo passa nada permanece", de Heráclito,
não se refere ao real, é errôneo. Aquilo que É, permanece, não passa.
Pensamento de Maharshi, também, Então o "Panta rhei ouden menei...” seria
exato no que se refere aos fenômenos materiais, "Maya", seria paralelo ao
pensamento budista essencial: "São caducos todos os elementos desta vida;
todas as formas criadas são irreais".

Uma analogia com o processo do sonho esclarece o problema. Todo o


sonho-mundo inclusive seus habitantes e acontecimentos, apenas existe na
mente do sonhador, Criação, ou ação de surgir, - nenhuma substância acrescenta
ou retira do sonho; - dissolução, ou reabsorção, de igual maneira, nada tira ou
acrescenta ao mesmo; - tudo permanece como antes, durante e depois. Deus, o
Sonhador consciente do sonho cósmico, e o Ser; e nada (nem pessoa alguma que
surja no sonho) tem realidade à parte do Ser que sonha. O sonho, todos e tudo
são apenas expressões do Ser (que sonha).

Eliminando-se a ilusão de que se é outra coisa (que não o Ser), Pode-se


realizar a identificação com o que sempre foi, é e será, além de qualquer
condicionamentos de vida e tempo. Então, nós e o Universo, conjuntamente
interados no Sonhador, percebemos que tudo ó um sonho, e que todos os
acontecimentos são meros sonhos.

Tal explicação semelha, superficialmente, uma teoria de filósofo ocidentais,


em moda numa certa época: "Somente eu existo, tudo mais é um mero conjunto
de imagens de minha mente”.

Isto é dizer que uma pessoa cria, no seu sonho, as demais pessoas.
Obviamente, um absurdo.
Verdade é que a mente do Sonhador cria a pessoa (ou seja, um ente que

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atribui a si mesmo vida separa), bem com as todas as pessoas.

Realizada a identificação do Sonhador com as pessoas que o sonho criou, as


vidas pessoais decorrem todas num mesmo sonho.

Usando outra analogia, parodiando o absurdo filósofo ocidental (citado antes)


um ator duma peça de teatro seria real, os outros personagens seriam criações
dele, Verdade e que ele e os demais foram inventados pelo escritor.

Na mesma linha de pensamento, o homem realizado pode comparado.ao


ator que, sabendo-se diferente do personagem que representa no palco, fica
impassível ante à boa ou má sorte do mesmo.

Os instrutores ocidentais e os ocidentais e os do próximo, dum modo geral,


têm usado linguagem mais velada do que a dos orientais, em relação ao assunto
que ora tratamos.

Todavia, tanto no ocidente como no Oriente, encontramos uns que falam


claramente, e outros que empregam linguagem mais discreta. No ocidente, vários
deles proclamaram a identidade Suprema; e, na Índia, muitos instrutores tântricos,
dualistas e Bhaktas (devotos), conduziam a Unidade seus seguidores pelos
caminhos da dualidade.

A meta final, porem, é a mesma. É a mesma até para os que, seguindo um


caminho indireto, não percebem. É a mesma, também, para aqueles que,
reconhecendo-o em teoria somente, não conseguem transformá-lo em Sadhana
constante, a mesma, ainda, para aqueles que negam e ate perseguem aos que
proclamam o cominho direto.

Houve Mestre espirituais que vieram “para cumprir a Lei e os Profetas”, ao


fundar uma religião, assim estabelecendo novo padrão para a comunidade;

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igualmente abriram novo Caminho aos que, conscientemente, sentem-se atraído
para a Meta a que, fatalmente, todos hão de apontar no final. Conseqüente,
devem, revestir seus ensinamentos de símbolos e parábolas que tenham
significação externa para os que nada aspiram, além da devoção e da ética
religiosa.

Bhagavan Sri Râmana não está em nenhuma dessas categorias. Ele não
veio fundar nova religião nem tampouco para orientar estritamente no caminho
duma já existente.

Veio para abrir Caminho aqueles que, nas religiões de todo o mundo, estão
procurando ir além do que elas ensinam. A sua instrução correspondo às
condições do mundo que ele encontrou. Nesta época-final da Kali-Yuga - o mundo
atingiu treva espiritual sem precedentes.

Em certos países, a religião e perseguida e os homens são introdução para


aceitar a materialidade do mundo, bem assim a vida física, como sendo o único
existente. Até mesmo as nações que se dizem religiosas, vangloriam, porque não
exerce papel de guia sobre a vida e a educação de seus filhos.

Uma ciência da mente foi desenvolvida, ignorando complemente a existência


do espírito – que é a sua fonte, - que é a sua fonte, - e pretende analisar o homem
olvidando o espírito – que é a sua essência.

As religião tem decrescido em poder espiritual, que exercem, considerando-


se o aumento das populações. Nos países cristãos, os caminhos iniciados para a
divina realização foram mais ou menos apagados, de modo que, os que dizem
cristãos, ignoram que tais caminhos hajam existido algum dia. Nas demais
crenças, há poucos "caminhos", e bem reduzidos em poder.

Na, maioria dos casos, tornaram-se caminhos “ocultos”, e seus Mestres são

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dificilmente encontrados. Atualmente, surgem "mestres" muito faladores e
perigosos, revestindo as antigas verdades de formas confusas, misturando-a com
erros da época presente.

Entretanto, consoante a lei do ciclo, a nova ascensão e preparada antes que


se atinja o nadir; assim é que livros de sabedoria antiga são accessíveis em todas
as línguas, e a doutrina Advaita da unidade com o Ser, é proclamada, tanto no
Oriente como no Ocidente.

Paralelamente, a ciência oficial e materialista descobriu que o mundo


material não é material - por não existir matéria sólida, e sim átomos que enfeixam
energia e não podem ser reduzidos a massa inerte.

Conjuntamente com esse despertar mental, surge o temor do caos a que a


anteriormente louvado progresso esta conduzindo a humanidade de hoje.

Isto está levando muitos homens, tanto no Ocidente como Oriente, a retirar-
se, desgostosos, da violência e da redundância vazia de uma civilização material;
de uma civilização que faz esforços fúteis na procura de uma Realidade cuja
essência é oposta a sua materialidade, - cuja essência é espiritual.

Estas são as circunstâncias e o motivo da vinda de Bhagavan, que veio


trazer-nos nova mensagem e abrir novo Caminho.

Sua tarefa foi estabelecer o Caminho Direto da Auto-investigação (vichara),


que foi por de mais difícil na época de densa treva espiritual.

Este caminho, baseado, em teoria, na Advaita, está, por assim dizer, na


fonte de todas as todas convergem, assim permitindo aproximação, por do
aproximação por todos os lados. Importante, agora, não é o número dos que
seguem tal caminho, sim que ele esteja aberto a quem se disponha a segui-lo.

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Não fora a Graça de Bhagavan, permaneceria inacessível ao homem
moderno, - de tão simples e direto! Entretanto, é realmente o mais acessível e,
na maioria dos casos, o único acessível - pelo pouco do exigência que ontem;
isto e, na forma direta não são necessários rituais, métodos de culto, sacerdócio,
congregação; não obrig a nenhum sinal ou externou oi observção especial, mas
pode ser praticado tanto no escritório como na oficina; na cozinha como no
salão; no convenio como na ermida.

Também, não reclama grande bagagem teórica. Sua descrição de Jnana-


marga, - Caminho do Conhecimento ou do intelecto - mostra ser mais uma filosofia
que um caminho; mas e exatamente o contrario.

É a aspada que corta o nó górdio da filosofia, ou estruturação da filosofia,


ou ciência espiritual, ou qualquer outro nome que se queira dar, imensamente
vasta.

Suas ramificações conduzem, geralmente, á desorientação. Em cada um


dos múltiplos ramos ou caminhos, certo número de conhecimento teórico tem que
ser adquirido e assimilado; geralmente, tanto mais indireto, tanto mais tortuoso o
caminho, maior exigência de teoria apresenta.

Somente a assombrosa verdade Advaita - o Caminho direto - com a


cintilação de uma espada flamejante, rompe, de um golpe, através do
emaranhado das teorias.

Toda a complexa teoria do "post-mortem" cai por terra ante a investigação


do que somos agora e sempre, pondo de lado idéias sobre o que seremos após a
morte.

A doutrina tradicional dos ciclos históricos não é mais necessária, pois o


Sábio está sempre em Satya-Yuga.

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As ciências da Yoga, os complexos Tantras de poderes não-físicos assim
como as características humanas, e a técnica dos vários desenvolvimentos,
tornam-se supérfluos porque (já) somou o Ser.

O vasto tecido da cosmologia espiritual, que interpreta a evolução desde o


Substratum informe até ao homem físico, e os estágios de retorno, não mais
necessita de exame, pois encaramos o Cosmo como um sonho que não tem
realidade em si mesmo.

Em relação a esses ramos da ciência, Bhagavan recusava-se a responder


perguntas, repetindo sempre que é necessário e concentrar-nos no Ser - no que
realmente somos.

Não apenas pela simplicidade da aplicação ou pelo menor número de


exigências essenciais, o Caminho aberto por Bhagavan e o mais direto.
Mostraremos porque não há outro mais direto, definindo a posição inicial do
aspirante, a tarefa que tem pela frente, e os meios que dispõe para realizá-la.

Posição inicial - O Atman - o Ser ou Espírito somente É; esta manifestado


em todas as formas do Universo, em nós mesmos, e jamais e modificado o seu
inalterável e informe estado.

Parece existir, também, um ego, um ser individual separado que se


imagina real, como, o se num sonho um personagem atribuísse a si mesmo
existência independente em relação à mente do sonhador. Ora, o Ser é feito de
Felicidade e Perfeição inalteráveis, sem nascimento, morte, começo ou fim. O ego
é tribulação sem fim, e perseguido pelo medo e pela esperança, ansiedade e
remorso, apego e tristeza; e finalmente, fadado a morrer. O único bem que
ameniza tais sofrimentos, único bem do ego, é uma intuição, do Ser que ele
concebe como uma entidade infinitamente bondosa, profundamente sabia e de

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Amor sem fim; a este Ser ele denomina - Deus.

Tarefa que tem pela frente - É extinguir o sentido-ego, de tal modo que o
Ser, único que era e será. Permaneça na consciência observando todo este
panorama como sendo a sua própria manifestação, Expressando-se nesse
sentido, dizia sorrindo o Bhagavan: - “Somente tendes que” desrealizar “o irreal, e
a Realidade Iogo aparece”.

A presente tarefa normalmente compõe-se passagem de um sentido de


unidade, através de uma sentido-dualidade, para a Unidade. Isso porque,
inicialmente, parece ao aspirante que seu ego é a única e indiscutível realidade;
pois, ele sente juntamente a realidade do ego de Deus; e finda tudo quando o
Sentido-ego é dissolvido, permanecendo o sentido da realidade de Deus.

Maneiras de realizar a tarefa - São inúmeras, mas para nós, estão divididas
em categorias gerais; uma delas é a da religião externa, ou seja, caminho
espiritual indireto; outra, a do Caminho direto da Auto-lnvestigação.

As religiões externas cingem-se a, progressivamente, substituir o egoísmo


pela submissão à vontade de Deus, Suas quatro exigências cardeais são: fé,
amor, humildade, caridade. Na medida em que tais aspectos são realizados, o
homem se aproxima da Auto-realização, ainda que conscientemente tal não
pretenda. Tal coisa muito efetiva. Verdade é que a meta quase sempre não é
atingida nesta vida. Mas a infinita paciência divina considera que uma vida
humana pouca é. A fé fortalece a intuitiva convicção da realidade de Deus – ou o
Ser (*). A humildade - contraparte da fé - enfraquece a crença no e diminui a
Importância que Ihe conferimos. O amor nos conduz à entrega do ego a Deus e a
desejar o bem ao próximo. Caridade nega o egoísmo na prática, e se assemelha
________________
N. T. (*) Disse Sri Bhagavan, em relação a isto: “Deus e o Ser são o
mesmo; se assim não fosse, Deus não seria”. aos frutos do Amor e da humildade.

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Por isso tudo, Bhagavan incentivava muitos a seguirem tal caminho,
principalmente quando observava que a natureza do ouvinte não o atraía para
uma, sadhana mais consciente.

A Sadhana indireta (isto é, caminhos espirituais nos quais a consciência as


Meta é maior que nas religiões externas, embora menos diretos que a auto-
investigação) robustece suavemente, purifica e harmoniza a mente mediante
técnicas diversas, e mantêm na firme busca do Ser – que é adorado em muitas
formas: Pai ou Mãe, ou Bem-Amado.

Bhagavan jamais negou a eficácia de tais métodos. Certa vez, quando uma
senhora afirmou que a Auto-Investigação não parecia ser muito efetiva, e
perguntou-lhe se devia seguir outro método, ele replicou: “Todos os caminhos são
bons”. Entretanto, desde que, por sua Graça, estava aberto um Caminho mais
potente e direto, também mais adequado as condições da vida moderna, ele
constantemente aconselhava todos a não seguirem caminhos indiretos muitas
vezes, referia-se a tais caminhos como sendo “o ladrão que transformou-se em
policial, para pegar o ladrão que era ele mesmo”. O ladrão é o ego,ou mente, que
usurpa a realidade do Ser; fez-se policial, pois, nos caminhos indiretos do
Sadhana, a mente é treinada para policiar-se, conter e condenar a si mesma.

Nesse caminho existe o perigo do ladrão, ora transformado em policial,


adquirir poderes policiais e somá-los a sua natureza de ladrão, transformando-se
mais perigoso eu nunca. O ego pode adquirir poderes e percepções além do
estado físico, e logo se convencer e convencer a outros que é o Ser, passando por
guru, um falso mestre, terrível flagelo que consome outros para alimentar sua
inconfessada vaidade.

Ou simplesmente se entrincheira num alto posto, que ele imagina ser o


mais elevado e que, embora belo e encantador, não é mais avançado que o
estado físico.

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De qualquer modo, importa é a extinção da mente dissolvê-la no Ser que
por si mesmo É. Então, por que não se esforçar desde o início, despertando a
autoconsciência, serenada o ego ante essa consciência?

É este o Caminho Direto ensinado por Bhagavan,. Esquecer o ego e


descobrir o Ser, não como um ser descobrindo outro, mas pela Auto-consciência
do Ser. Isso, inicialmente, é pouco freqüente e imperfeito; mas, pouco a pouco, e
constantemente, ganha força. Finalmente alcança o Ser.

As instruções de Bhagavan eram: “ devemos sempre perguntar” – “Quem


sou eu?” Não sou este corpo que se modifica e me deixa o mesmo. Nem,
tampouco, sou estes pensamentos que vêm e passam pela mente, deixando-me
igualmente inalterados. Dez anos atrás tive pensamentos vários, e emoções, e
aspirações – tudo já se foi e continuei sendo o mesmo. Então, o que na realidade
sou eu?”

Esta indagação está longe de ser enigma. Bhagavan instruiu-nos a que


meditássemos concentrando a consciência no Coração. Não no coração físico,
situado, mais ou menos à esquerda do peito, mas no coração espirutual, que se
acha do lado direito do peito. Ele insistia em que esse é o centro supremo da
consciência. A fim de ilustrar este assunto, dava exemplos; - quando o escolar diz
“fui eu que fiz esta soma”, ou pergunta “devo eu ir buscar o livro para Você? “ – ele
aponta para a cabeça que somou ou para as pessoas que vão receber o livro?

Não. Em ambos os casos, provavelmente seu dedo apontara o lado direito


do próprio peito, deste modo exprimindo profunda verdade; que a fonte do Eu,
nele, é ali. Uma intuição infalível o faz referir-se a Si mesmo, ao Coração que é o
Ser situado naquele ponto. O ato é inteiramente natural e universal, isto é, ocorre
com qualquer pessoa, em qualquer lugar.

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Bhagavan insistia em que era necessário esforçar-se por praticar, em lugar
de discutir tais assuntos. Estas é a sua frase – “Deveis esforçar-vos por conseguir
a experiência e não buscar localizá-la; um homem não precisa saber onde estão
os seus olhos, a fim de enxergar. Se quiserdes entrar nele, o Coração, a fim de
enxergar. Se quiserdes entrar nele, o Coração está sempre lá, aberto para vós e
apoiando os vossos movimentos, mesmo quando estiverdes inconscientes disso”.

Após uma esta prática, essa meditação preconizada desperta uma corrente
de consciência, - a consciência do “Eu”, - no Coração que é o Ser universal, e que
nunca é afetado nem pelo bem, nem pelo mal, nem pela fortuna, doença ou
saúde.

Essa consciência deverá ser desenvolvida através de um esforço


constante, aumentando-se a sua freqüência até que ela exerça influencia contínua
sobre toda a conduta diária. Daí em diante, basta que se evite a interferência no
egoísmo, assim aprofundando mais e mais a enorme paz que esta além de toda a
compreensão. Isto se fará até que o ego seja consumido, permanecendo para
sempre a realização do Ser.

Se surgem diversos pensamentos durante a meditação, não devemos


permitir que nos arrastem, mas tão-só observá-los objetivamente, perguntando:
“De onde surgiu, a quem surgiu e,porque surgiu este pensamento?”. Deste modo,
esses pensamentos passarão como nuvens num céu límpido, desde que cada um
pode ser rateado até a sua foto, que é o pensamento-eu básico; “Quem sou eu?”.

A própria essência da meditação determina que NÃO PODE HAVER


QUALQUER RESPOSTA MENTAL ou verbal, pois o Ser transcende não só a
mente, mas também as palavras.

O ego procura o que existe antes de sua origem e além de sua fonte. Mas,
uma vez encontrada a resposta, essa mesma resposta o devora.

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“Eu vim para vos devorar, mas por Vós fui devorado; agora existe paz, ó
Arunachala” (vers. 22 – “Grinalda de Pérolas” – “Cinco hinos”).

O começo da resposta está no despertar de uma corrente de consciência,


um sentido de existência no coração. Esta consciência não é física nem mental,
ainda que o corpo e mente sejam conscientes desse fenômeno. É tão fútil
descrevê-lo, como seria absurdo explicar o ato de ouvir a um surdo.

Se pensamentos impuros surgem durante a meditação, estes devem ser


analisados e expulsos, pois assim, as tendências vias são descobertas e
destruídas.

Disse o Mestre: - “Toda espécie de pensamento surge na meditações, o


que é justo; pois o que esta submerso deve vir a tona. Se assim não fosse, como
poderíamos destruí-los?”

Assim como a auto-invetigação não é exercício mental, também não é


mantram. Bhagavan foi categórico ao declarar que não deve ser repetida como se
fosse um mantram, e sim empregado do modo acima descrito.

Todo e qualquer cominho espiritual requer duas coisas – pureza de vida e


intensidade de esforço espiritual. A vichara foi indicada por Bhagavan não só
como técnica de vida pura e desapaixonada, mas também como técnica de
meditação. Se algo vos ofender ou vos elogiar, indagai: ‘Quem foi ofendido; quem
está contente ou zangado; quem sou eu?”a palavra frustração é hoje em dia,
muito empregada. Mas, afinal, quem se sente frustrado?

Assim, usando a Vichara, a ilusão eu-sou-o autor é destruída; e é possível


participar da vida mundana sem rolar no seu torvelinho, mantendo-se acima dela,
sem apego, livre de vaidade.

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Bhagavan comparava tal situação a se um caixa-de-banco, que manuseia
desinteressadamente muitos milhões, sabendo que nada daquilo lhe pertence.
Assim, impessoalmente, pode-se atender a todos os afazeres da vida diária,
sabendo que Ele, o Ser Real, seu verdadeiro e único Ser, não será afetado. Todo
assalto de cobiça, ira ou desejo, pode ser impedido pela Vichara. Tem que ser
impedido! – pois não se pode admitir que de um lado sejamos Ser e,a de outro,
venhamos a agir como se fossemos o ego. A consciência do Ser, ainda que
parcial e embrionária, sempre enfraquece o egoísmo.

O egoísmo, expressando-se como vaidade, cobiça ou desejo, denota que o


reconhecimento do Ser ainda é puramente mental..

Vemos assim que Bhagavan, ao captar um caminho antigo as condições do


presente, criou efetivamente um novo caminho.

O velho caminho da Auto-investigação era Jnana-marga pura, exclusivo


para os reclusos do silencio e da solidão para os renunciadores. Bhagavan fê-lo
caminho a ser trilhando secretamente sob as condição da vida moderna.

Jamais aconselhou ninguém a abandonar a vida mundana. Mostrava que


tal coisa era uma troca insubstancial; consiste somente em trocar o pensamento “
eu sou um homem de família”, pelo pensamento ”eu sou um sanyasin”. E é
realmente indispensável rejeitar totalmente o pensamento ‘ eu sou o autor”,
lembrando unicamente o “Eu Sou”.

Tal coisa é obtida pela prática de vichara, seja na solidão do bosque, pelo
renunciador, seja na azafama da cidade, pelo auto-investigador.

A única renuncia real é a renuncia ao ego – o que significa verdadeiramente


abandonar o mundo; porque o homem só pode abandoná-lo quando rejeita o

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sentido-ego no seu próprio interior. Isto significa que ninguém renuncia
verdadeiramente, senão quando se retira para “dentro”, quando permanece na
solidão universal do coração – onde ninguém mais existe, onde se realiza a
Unidade, sejam quais forem as formas assumidas pelo Ser.

Em verdade, ávida deste mundo é permitida (ao auto-investigador) e é útil


também no Karma-marga do Caminho aberto por Bhagavan.

A disciplina exterior da Auto-investigação é uma constante verificação


quanto as ações e aos motivos dos quais surgem as ações. Sincera e constante
aplicadas, estas regras anulam a necessidade de um código de conduta, pois
golpeiam o egoísmo frontalmente, em todas as suas ações e reações.

Os impulsos do ego não se modificarão assim tão rapidamente. Um insulto


ainda ocasionará reação irada; um elogio trará prazer. Apego a propriedade e ao
conforto, persistirão. Os sentidos buscarão gratificação. Mas cada impulso será
posto a nu, mostrando realmente o que significa.

O resultado desse minucioso cuidado será o conhecimento do nosso


conteúdo egoístico, causando-nos corretivos sentimentos de vergonha e
arrependimento a cada uma das suas manifestações.

A esta altura, inicia a destruição do egoísmo; mas isto exige um constante e


pleno esforço consciente.

Vale uma pergunta ainda; - não há lugar para a devoção e o amor (Bhakti),
no caminho tão completo da Auto-Investigação?

Bhakti pressupõe dualidade – um que ama e se devota, outro que recebe a


ação de devotado amor. Mas a Graça de bhagavan também é completa... E não
exclui a possibilidade das práticas devocionais! Falou pouco no assunto, mas

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admitiu Bhakti no caminho novo que abriu. Ele disse – “Existem dois caminhos: ou
indagais “Quem sou eu?” – ou vos submeteis”. Mais explicitamente – “Submetei-
vos a mim e eu aniquilarei a mente”.

Não se trata de outro caminho – pois a devoção ao Guru é poderoso e


essencial ingrediente no Caminho direto. Disse-nos que o guru verdadeiro reside
no Coração, e eu quando a mente põe-se a buscá-lo, ele a atrai para si
poderosamente. Mas, para iniciar o processo, o guru externo é necessário.
Maharshi afirmou: - “O guru externo da à mente um impulso para ‘dentro”, o
interno puxa-a para si”.

Bhagavan é o Sad-Guru universal que, com Sua Graça, abre o Caminho


para todos aqueles que a Ele se voltam. Eventualmente o guru externo e o Guru
interno transformam-se em Um. Ele mesmo disse, quando tínhamos a Graça de
sua Presença: - “ O Guru é Um”. Isto se tornou agora mais sensível, agora que a
dualidade aparente foi removida (com o seu Maha-Samadhi).

A submissão é tudo. Bhagavan o disse; - “Sossegai, e Bhagavan fará o


resto”. Eis a grande tarefa: através da devoção a Bhagavan, é empregado a Auto-
Investigação, mantendo a mente sossegada, pois esta tende a ser como um fútil
macaco que se agita constantemente. Somente quando a mente se submete e se
aquieta, o guru, que é o Ser, pode ser ouvido.

Todos os Caminhos exigem constante esforço, e o progresso é lento, haja


ou não lampejo da verdade interior do caminhante. Bhagavan expressamente
advertiu o discípulo, quando ele próprio escreveu as instruções constantes do
livrinho “Auto-Investigação”.

São instruções dele: “- Contudo, o ego esquecido do Ser, mesmo quando


se apercebe do Ser, não alcança a Libertação – isto é, a Auto-Realização – devido
às tendências acumuladas em seu mental; e eles, o ego, freqüentemente

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confunde o corpo com o Ser, esquecendo que ele é na verdade o Ser. Tendências
há muito tempo cultivado terão que ser apagadas, mediante contínuas e
prolongadas meditações”.

O milagre da realização imediata – como se deu com Bhagavan, -


raríssimamente será conseguido por outros. Ele nunca prometeu a seus devotos e
seguidores a liberação imediata, pois o desejo de libertação – ou de êxito, - é, em
si, um sério impedimento. Ainda que haja tal possibilidade, o desejo desse
sucesso é coisa do ego, alimentando-o, ao invés de apagá-lo mediante a
constante indagação “Quem sou eu?”.

A vibrante consciência do Ser deve ser buscada, freqüente o


prolongadamente, até que acorde tão logo a pessoa inicia a meditação. Assim vai,
aos poucos, alcançando constância, até que finda dirigindo toda a conduta
daquele que medita.

À media que a consciência se fortalece, o ego se enfraquece e (o que dá no


mesmo) purifica-se para a sua imolação final. Bhagavan declarou que – “no
momento em que o ente-ego tenta o autoconhecimento, ele muda o caráter,
começa a reduzir a participação sua no governo do corpo em que está absorvido;
e ele participa cada vez mais da consciência pura que é o Seu ou Atman”.

Na obra do Mestre intitulada “Quarenta versículos”, expõem-se a doutrina


co Caminho Direto. Os versículos 29 e 30 descrevem sucintamente essa doutrina:

29 – “O Caminho do Conhecimento (Jnana-marga) consiste em mergulhar


no próprio interior sem proferir a palavra “Eu” provém. Meditar sobre ”Este não sou
Eu; Eu sou Aquele” (*), pode ser uma ajuda, mas não constitui investigação”.

_______
Nota do Tradutor: (*) Transposição de mantras ensinados comumente na

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Índia ao aspirante.

30 – “Se com a mente interiorizada alguém indaga “Quem sou eu?” – o seu
individual rende-se envergonhado tão logo é alcançado o coração, e
imediatamente a Realidade manifesta-se espontaneamente como “Eu-Eu”.
Embora se revele com ‘eu’ ela não é o go, mas sim o perfeito Ser, o Próprio
Absoluto”.

O Caminho direto desperta o amor mediante o conhecimento. Não o


conhecimento de uma coisa através de outra, - ou conhecimento mental -, mas
sim o despertar da Felicidade do Ser, ao qual a mente é atraída e no qual é
absorvida pelo amor.

Eis porque, iniciar-se a vichara antes de despertar o guru interior, só é


possível quando nos voltamos para Bhagavan com o mais intenso amor, fé e
submissão, abrindo-lhe o nosso coração completamente.

Quem a Ele abrir seu coração, empregando a vichara aqui ensinada,


sentira a doçura e a força do seu apoio, tornando-se consciente de tal apoio.

Quem a Ele submeter-se, será levantado e jamais será abandonado.

“Deus e o guru não são realmente diferentes; pelo contrario: são idênticos.
Aquele que merecer a Graça do guru será salvo e jamais abandonado, como a
presa que caiu nas garras do tigre não escapa. Mas o discípulo, por sua vez,
deverá seguir, sem o menor desvio, o roteiro indicado pelo Mestre”.

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ARUNACHALA RÂMANA

Capitulo IV

Reza um velho ditado que o sagrado monte Arunachala atende as preces.


Ouvi tal coisa, pela primeira vez, em condições especialíssimas.

Recém-chegado ao local, fazia o tradicional circuito da Montanha, quando


um devoto antigo de Sri Bhagavan, que me acompanhava na referida pratica,
avisou-me: “Cuide-se de nada desejar enquanto contorna o monte, pois tal desejo
será realizado pelo Arunachala”.

Em outro qualquer lugar, isto soaria absurdo. Qualquer um responderia,


rindo: “Excelente motivo para que deseje algo neste momento!”

Mas aqueles cujos corações tenham sido penetrados pelo sentido dos
ensinamentos de Sri Bhagavan – entenderiam. Há níveis e modalidades de
aspiração espiritual; pedidos e desejos são justificáveis quando o peticionário crê
sinceramente no benefício que lês comportam, mesmo visando felicidade
mundana ou bem estar; melhor seria que fossem solicitações inteiramente
impessoais.

Consideremos, porém, que Bhagavan buscava, como Budha, não tanto


livrar-nos dos infortúnios, mas dos nossos desejos, temores e apegos – que
tornam possíveis todos os infortúnios. Por esse motivo, vir a ele ou a Arunachala
co algum desejo, seria como que negar seus ensinamentos.

Ele ensinou o puro caminho da Advaita, o mais alto, o mais sereno. Não

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havia meias medidas, desvio ou acordo. O ego ilusório tinha que ser negado –
como se poderia pedir algo em favor dele?

Verdadeiramente, aqueles que buscam atender aos seus ensinamentos,


ainda são presa da esperança e do temor, encontrando-se longe de dissolver a
ilusão. O mínimo que podem reconhecer, entretanto, é que esperanças e temores
são apenas ilusões, e esforçar-se para pô-las de lado, não solicitando o auxílio de
Bhagavan em favor delas.

Isto, posto em palavras, parece ser um duro caminho e o Mestre muito


rigoroso; mas Ele era todo feito de amor. Era a sua graça que afastava os
infortúnios e retirava o aguilhão do temor. Era Ele quem tomava sobre os ombros
o fardo. Era a magnitude de seu amor e a serenidade que penetrava nos corações
em sua Presença, que punham fim aos desejos e aflições, tornando indigna
qualquer petição de bens.

A profundidade da compaixão, refletida nos olhos, curava as desgraças que


trespassassem os corações.

Entretanto, atrás de tudo isso, estava o seu silencioso comando exigindo


desapego as coisas materiais, a fim de que nos voltássemos do sempre frustrado
ego para o eternamente feliz Ser; e era sua compaixão pelo sofredor, e mais ainda
pelo ignorante, que tornava suportáveis os sofrimento.

Talvez pareça que tal caminho de puro entendimento sirva para os filósofos
e entendimento sirva apenas para os filósofos e intelectuais; era, o povo, ricos e
pobres que procuravam o bhagavan, vinha com preces, pedidos e desejos a
serem atendidos. Em todos os casos, o silencioso fluxo de Graça, a paz,
penetrava-lhes o coração, e seus apegos a qualquer coisa que causasse mal estar
e ansiedade eram transmudados em amor por Bhagavan.

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Uma senhora de mentalidade simples disse: “Eu não entendo a filosofia,
mas, quando Ele olha para mim, eu me sinto como uma criança nos braços de sua
mãe”. Um negociante falando de milagres, dizia orgulhosamente; “Meu bhagavan
não dá nada por essas coisas”.

Aqueles que a princípio não eram atraídos a pesquisa do Ser no coração,


vinham por amor ao Sr manifestado como Sri Râmana.

E ele disse: “Submissão a Deus, guru e Ser, é o mesmo – e é tudo que se


necessitava”.

Sentia-se que ele não desejava que lhe pedisse coisa alguma, e que seu
amor era muito mais precioso que qualquer dádiva que rogassem; por isso, as
petições dissolviam-se, deixando-os submissos e de coração aberto na Sua
Presença.

Um velho aforismo nos diz que é suficiente nascer em Tiruvanamalai, ou


morrer em Benares, ou ainda pensar em Arunachala; - isso se refere a mouna-
diksha, a silenciosa transmissão da Graça, para a qual não se torna necessária a
presença física.

Mas “pensar em Arunachala”, significa voltar-se para o destruidor de


desejos e renunciar a todas as petições.

Que será então esse Arunachala, que satisfaz todos os desejos; e porque
foi que Bhagavan tomou-o por derradeira morada (moral abode), alem de motivo
para os hinos que compôs?

Desde os mais antigos tempos, Arunachala é conhecida como Siva


manifestado. É o centro da mais pura e quinta essência da doutrina – a Advaita, e
do caminho espiritual que é a mesma (Advaita) pertence; o caminho mais direto de

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todos; a auto-Investigação.

Arunachala- Siva é o Destruídos da diversão no fogo da União. “Une-te


comigo para destruir (a dualidade) tu e eu,e abençoa-me com o estado da sempre
vibrante alegria!” Assim cantou Bhagavan, no grande hino “Arunachala
Aksharamanamala” (A Grinalda Nupcial de Pérolas).

Foi em Arunachala que Siva, nos velhíssimos tempos como Dakshinamurti,


ou seja, o jovem ensinando em silêncio; pois a influencia direta sobre o coração é
completamente natural da pura doutrina Advaita.

Dado que a doutrina não requer explicações teóricas , o caminho nela


baseado também prescinde de elaborações técnicas.

Diz a lenda que, através das idades, dakshinamurti permanece sentado sob
uma enorme árvore (banyan), na encosta norte do Arunachala, num lugar
inacessível aos forasteiros, e que a sua silenciosa upadesa daria a realização a
qualquer um que dele se aproximasse.

O caminho direto da Auto-Investigação tem estado inacessível à


Humanidade e, por isso, Aruanchala foi negligenciada e considerada bem menos
importante que outros centros ligados a teorias menos diretas e a caminhos
menos praticáveis.

Agora, porém, o caminho direto foi aberto para nós, graças novamente a
Siva na forma de Sri Râmana; o que era anteriormente inacessível, foi tornado
acessível; o que estava oculto no alto da montanha, foi trazido ao pé desta; para o
Asram primeiro e, agora, para o templo onde os devotos sentam-se no silencio da
meditação.

Eis porque Bhagavan declarou ser Aruanchala o centro espiritual do

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mundo, porque o caminho representado por Arunachala converteu-se, de novo, no
tema central das aspirações humanas.

Por isso mesmo, ele aprovou o projeto destinando o Ashram a continuar


sendo um centro espiritual quando ele deixasse o corpo, pois o caminho
continuaria aberto.

Entretanto, sugerir que Bhagavan escolheu Arunachala para sua


permanência, porque era o centro tradicional do cominho direto, seria supor uma
escolha demasiadamente racional.

Foi uma escolha espiritual, e não racional; e seria mais correto dizer que
Arunachala escolheu Sri Râmana. Já em pequeno, o nome Arunachala o
fascinava.

Quando, ainda colegial, conheceu um viajante de Tiruvanamalai, foi para


ele como um choque e uma premonição de alegria – que o Sagrado monte
pudesse atualmente ser visitado na terra! Deixando seu lar ao 17 anos, foi, como
sadhu, apos a sua Auto-realização, á procura de seu Pai Arunachala.

Diante do altar interior de Arunachala, quando chegou ao grande templo de


Tiruvanamalai, a Paz em que vivia tornou-se perfeita. E durante os restantes
cinqüenta anos de sua vida na terra, jamais deixou Tiruvanamalai, a cidade ou o
Monte.

Jovem ainda, numa das cavernas da montanha, alguns devotos pediram-


lhe um hino em devoção que os auxiliasse na sadhana.

Fazendo o circuito da montanha com eles, e à medida que caminhava, ia


compondo o hino supremo Arunachal-Aksharamanamala, lágrimas rolando de
seus olhos enquanto ia contando.

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Na sua ultima noite nesta terra, quando seu corpo morria, um grupo de
devotos entoava o mesmo hino ao lado de seu pequeno quarto.
Ele ouvia o hino exatamente antes de exalar o último sopro, e logo das
lágrimas de felicidade tombaram de sues olhos.

No momento de sua morte, uma grande estrela foi vista atravessando


lentamente em que seu Espírito retornava ao Pai.

Naquela mesma noite, enquanto o corpo por ele abandonado estava


exposto á vista dos seus devotos na grande sala do Ashram, estes
espontaneamente cantaram em Tamil, o hino que ele compusera – Râmana
Arunachala.

O poder espiritual de arunachala tornou-se mais uma vez atuante, como o


fora no passado Dakshinamurti mudou-se para o sopé da colina. Ele disse: “Eu
não vou embora; Eu estou aqui”.

Ele está aqui em Tiruvanamalai como antes e, ao mesmo tempo, Ele é o


inespacial Arunachala Râmana, aqui (*) no coração de cada devoto que se volte
para Ele, guiando-o como antes.

A presença física em Arunachala, no Santuário aos pés do Monte, não é


necessária. A iniciação silenciosa, como anteriormente, pode atingir qualquer lugar
que ela queira. Mas para os que se revestem de corpo, a presença matéria
representa uma grande ajuda.

_________________
Nota do Tradutor; - O AQUI tem caráter real, e pode ser dito em qualquer
lugar, mesmo fora de Arunachala, pois se refere ao INESPACIAL, ao Uno.

61
Se assim não fosse, Siva não teria necessidade de manifestar-se como
Arunachala ou como Sri Râmana.

A Graça de Bhagavan radia de Arunachala e do santuário, do mesmo


modo, tal como se estivesse fisicamente presente. As pessoas são para lá
atraídas como eram por sua Presença física; e exatamente como antes, sentem
que suas dúvidas e questões, misturadas com seus desejos, dissolvem-se m
amor. Muitas das vezes, a graça que sobre elas é derramada afeta as
circunstâncias da vida, e a harmonia é refletida exteriormente; mas ir ate ali com
esta finalidade, seria rejeitar o sublime em troca do satisfatório. É nesse sentido
que Arunachala preenche todos os desejos; - e assim é melhor nada pedir.

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TESTEMUNHO LITERÁRIO

Capítulo V

Nesta idade em que a mente parece ser mais ativa do que o Espírito, é
natural medir a influencia de um Mestre pela bagagem literária que deixou. Tal,
critério, porém, nem sempre é verdadeiro.

Nada possuímos que tenha sido escrito pelo Budha. Cristo nada escreveu.
Quando Lao-Tsé declarou haver findado o trabalho de sua vida e montou a cavalo
partindo para o acidente, também nada deixou escrito. O guarda do desfiladeiro de
Hankow, por onde Lao-tsé passava, rogou-lhe que escrevesse seus
ensinamentos; o filósofo deteve-se à entrada da aldeia e ali escreveu o Evangelho
Taoísta. É interessante refletir que, se ele não houvesse escrito, os modernos
eruditos poriam em dúvida a sua existência e o apresentariam como pessoa
fictícia.

Sri Maharsthi, porém, deixou nos trabalhos escritos e devemos conhecer


alguma coisa sobre eles, considerando, entretanto, que não representam seu
verdadeiro legado ã humanidade.

Ele ensinava em silêncio, e o mesmo continua a fazer no seu SAMADHI de


Tiruvanamalai, assim como nos corações de todos que se voltam para ele.

Indagado, duma feita, porque não pregava a verdade ao povo em toda a


parte, respondeu: “como podereis saber se já estou fazendo isto? Pregar
significará subir plataforma e arengar ao povo que a rodeia? Pregar é
simplesmente comunicar o conhecimento, e isto só é conseguido através do
silêncio. Como julgareis um homem que ouve um sermão durante uma hora e

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parte sem que sua vida passe pela menor modificação? Comparei com outro
homem que se senta ante uma Presença Sagrada e sai após algum tempo com
sua concepção de vida inteiramente mudada! O que é melhor: pregar em voz alta
sem impressionar o ouvinte, ou sentar-se silenciosamente irradiando a Força
Interior? E de onde surge a palavra falada? Há o puro conhecimento – de onde
brota o ego, - que por sua vez da origem ao pensamento: e o pensamento faz-se
palavra falada. Vemos, assim, que a palavra é o tetraneto da fonte original. Se a
palavra pode ser eficaz, julgai do efeito produzido pela pregação silenciosa”. Tudo
que aqui dizemos a propósito da pregação, aplica-se obviamente, de modo
idêntico, ao que é escrito.

O ensinamento silencioso, é peculiar ao Jnana-marga, onde a teoria é


mínima, reduzindo-se ao que a Advaita estatui: que somente o ser é.

A instrução silenciosa de Sri Bhagavan não significa que ele não se dirigisse
verbalmente aos que lhe faziam perguntas. Ele sempre respondia plenamente ás
questões doutrinárias, e um certo número de suas respostas foi anotado e
publicado pelo Ashram.

Necessariamente deve ser lembrado que essas instruções verbais não


significam seu real ensinamento; elas são explanações preliminares de fácil
entendimento, mas que, mesmo entendidas, não iluminam o coração.

A verdadeira tarefa consiste em despertar no coração o conhecimento do


Ser. E isto foi e é possível pela poderosa, bem como sutil ação da silenciosa
Graça de Bhagavan.

Desde que sua verdadeira instrução foi silenciosa, Sri Bhagavan Mui
raramente fazia qualquer afirmação doutrinária, exceto quando respondia a
alguma pergunta. Pela mesma razão, ele raramente escrevia qualquer coisa.
Muitos dos livros publicados como seus, são meros registros de perguntas e

64
respostas anotadas no momento e subseqüentemente publicadas com a sua
aprovação.

Os únicos volumes em prosa escritos por Sri Bhagavan são “Quem” sou eu ?
e “Auto – Indagação”- escritos para instruir devotos que solicitavam-lhe
explicações, nos seus anos iniciais, quando Sri Bhagavan estava ainda em
silêncio, não obstante jamais tenha sido estritamente um mouni (*).

Mesmo esses livrinhos tiveram muitas edições, sendo que “Quem sou eu” era
inicialmente conhecido como respostas a quatorze perguntas.

Os dois mais importantes registros de instruções de Sri Bhagavan são


“Conversas com Sri Maharshi”, de um diário do professor Vekataramanya e “Dia a
dia com Bhagavan”, por Devaraja Mudaliar. Destes, o primeiro segue
rigorosamente o que conhece dos ensinamentos, enquanto que o último apresenta
um mais geral e humano quadro de Bhagavan em seu trato com os devotos,
juntando fatos e anedotas.

O “Evangelho de Maharshi” que por muitos anos foi o compêndio favorito dos
ensinamentos de Bhagavan é, em sua mor parte, composto de extratos dos dois
livros acima citados, agora publicados em sua totalidade.

Estes livros, na versão inglesa, não apresentando as palavras exatas de Sri


Bhagavan, registram, entretanto, exatamente suas instruções

_______________
*N. do T: Mouni – o que faz voto de silêncio permanente.

65
Tudo que ele escreveu foi redigido em tamil, e as complicações também
registram respostas quase sempre dadas em tamil, mesmo quando as perguntas
eram feitas em inglês e os diários anotados em inglês.

Conquanto Sri Bhagavan entendesse o idioma inglês, ele dava todas as suas
respostas, exceto as muito curtas através de um intérprete, - ouvindo-o
cuidadosamente e detendo-o ao menor engano de tradução.

No que concerne ao perfeito significado dos seus ensinamentos nos livros


publicados durante a sua vida, há a garantia de terem sido carinhosamente
revisados por Sri Bhagavan antes de impressos.

Respostas e explicações de Bhagavan eram dadas de modo informal, muitas


vezes pontilhadas de risos e numa linguagem viva e pitoresca, embora os
translados nem sempre captem tais aspectos. Em geral ele despreza a discussão
teórica; e insta seus ouvintes a praticar em lugar de teorizar.

Existe, também, um pequeno livro de versos. Trata-se dos “Trinta Versículos”


sobre os meios de aproximar-se à Realização, escritos por Sri Bhagavan, em
tamil, a pedido do poeta Muruganar como upadesa dado por Siva aos Rishis. Mais
tarde, o próprio bhagavan traduziu a obra para o sânscrito – e esta mesma versão
é cantada diariamente com os Vedas no Ashram, como o era no tempo de
Bhagavan. Assim, vemos que os “Trinta Versículos” são considerados como um
Evangelho.

Os “Quarenta Versículos”, com um suplemento de outros quarenta, veio a ser


uma coerente exposição doutrinária. Eles foram compilados por Bhagavan através
de alguns anos, também, a pedido de Muruganar.
Nem todos são da própria lavra de Bhagavan; as idéias de alguns versos do
suplemento ele as tomou de antigos slokas sânscritos, sendo em sua maior parte

66
de Sri Shankracharya; Bhagavan pessoalmente deu-lhes formas em tamil. Eles
são tão concisos quanto profundos, e há comentários sobre cada verso.

“Aquilo somente é Conhecimento – onde não existe saber ou não saber.


Saber não é o verdadeiro Conhecimento. O Ser é conhecimento, pois Ele brilha
sem nada a conhecer ou a ser conhecido. Isto não é uma negação.”

Entretanto, qualquer comentário sobre tal verdade bem pode redundar na


espécie de filosofia árida que bhagavan não aprovava.

Os “30 versículos” e os “Quarenta Versículos”, infelizmente, já foram


publicados sob vários títulos, em inglês, de modo que devemos ter cuidado para
evitar confusões.

A não ser aqueles que dele se aproximaram pessoalmente, poucos podem


perceber que poderosos pessoalmente, poucos podem perceber que poderoso
apoio representava em seus ensinamentos a Devoção, visto que Bhagavan, a
todos que lhe indagavam da Meta ou Caminho, explanava apenas sobre
conhecimento e Auto-investigação.

Como indica o versículo acima citado, o conhecimento, no sentido comum da


palavra é apenas um elo entre o conhecedor e o conhecido, não é Conhecimento
por ele ensinado. Verdadeiro Conhecimento é ser o auto-efulgente Ser. E o
caminho, para ele, faz-se mediante o amor, bem como a mente para o interior e
amor é a força que atrai par o interior.

Conhecimento de uma coisa por outra, e amor de um por outro, são


igualmente incompletos, mas em sua perfeição, amor e conhecimento são o
mesmo. Amor por Bhagavan e Auto-investigação, são duas cordas puxando a
mente do devoto para o Ser.

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O elemento Bhakti de amor e devoção é mais evidente nos “Cinco Hinos a
Sri arunachala”, especialmente no primeiro e maior deles, comumente conhecido
como “Arunachala Aksharamanamala”, a que já nos referimos.

Tal hino pe de grande auxílio emocional para os devotos, a suprema canção


da União Divina, onde Amor e Conhecimento fundem-se em um.

“Em meu ser sem amor, tu criaste uma paixão por ti, portanto não me
abandones, ó Arunachala”.

Além dos já mencionados livros, Bhagavan escreveu uns poucos poemas,


alguns dos quais são humorísticos, como aquela paródia ao poeta que reclama do
estômago, onde ele faz o estômago reclamar contra o ego que o sobrecarrega de
alimento e não lhe dá descanso. Ele também escreveu algumas traduções em
prosa e verso, principalmente de Sri Shankara. Deve-se ressaltar, aqui, como
ilustração à alta ortodoxia advaita dos seus conhecimentos, que ele endossou
tudo o que Shankara escreveu e falava desses ensinamentos como sendo os seus
próprios.

Este capítulo não ficaria completo sem uma menção dos hinos a respeito de
Bhagavan. A bibliografia relativa ao mestre é grande e cresce constantemente,
não só em inglês como também noutros idiomas, para não falas dos idiomas da
índia.

Sem dúvida, o livro que mais contribuiu para tornar Bhagavan conhecido,
tanto no oriente como no ocidente, foi o de Paul Brunton “A Search in the secret
India” (*) publicado por M. Rider & Co, Londres. A biografia oficial é “Auto-
Realização” de Swami Narasinhaswamy publicado pelo Ashram. Mas esta só
___________________
*N. T. – já traduzido para o português com o título “A índia Secreta” pela
Editora

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só .alcança o ano de 1936 e foi, de certo modo substituída pelo trabalho deste
autor intitulado “Ramana Maharshi e o Caminho do Auto-Conhecimento”(publicado
por Rider de Londres sob o título “Ramana Maharshi and the Path of Self
Knowledge”). Outros livros em inglês, não são biografias, mas apenas estudos,
relatórios e tributos de diversos. Devotos. Todo este material literário poderá ser
obtido no Ashram. Os poemas em louvor de Bhagavan, assim como suas
biografias em prosa e em verso escritos nos diversos dialetos hindus, são
inumeráveis.

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AFINIDADES COM O BUDISMO

Capítulo VI

Conta-se que Bhagavan, perguntando lhe porque Budha recusava-se a


responder perguntas relativas ã vida do além, “Talvez ele estivesse mais
interessado no real trabalho de guiar os homens à Auto-realização, do que em
satisfazer curiosidades inúteis”.

Há grande semelhança entre os ensinamentos de Budha e de Bhagavan.

Tal é demonstrado pelo fato de que a mesma essência espiritual anime a


ambos os ensinamentos, não obstante o Budha haja criado uma religião que
atendesse às necessidades de povos além fronteiras indianas.

Existem semelhanças entre todas as religiões, mas entre os ensinos desses


dois mestres hás muito menor discrepância de que entre quaisquer outras.

Não me referi a cosmologia budista que, de fato, está quase ausente das
verdadeiras instruções de Budha, pertencendo mais a seus seguidores; falo do
tema central do budismo. Assim como Bhagavan, Budha preferia não tocar nos
assuntos teóricos de menor importância, a fim de não transviar o discípulo do
esforço espiritual prático.

Ensinava que o apego à ilusão ata o homem ao ciclo do nascimento, velhice


e morte; e que a iluminação traz libertação.

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É claro que tal verdade básica encontra-se, duma forma ou de outra, nas
várias religiões e instruções espirituais; mas ela e o tema central do Budha e de
Bhagavan.

Disso resulta que há, em ambos, injunção direta para repudiar a ilusão e
buscar a iluminação, em lugar do processo indireto da recompensa pela virtude e
do castigo pelo pecado.

Emprego a palavra “indireta”, não só porque esta forma de ensinamento


(disfarçado em apelo moral), pode ser apresentada com mais simplicidade como
lei de causa e efeito, mas, também, porque leva o aspirante a visar estados
intermediários entre este mundo e a realidade absoluta de Moksa ou Nirvana.

Mesmo que tais estados sejam mais altos e reais do que a vida presente,
continuam a ser ilusório à luz da verdade final da advaita.

Mestres do gênero Budha e Râmara, recusando-se a reconhecer meta


inferior ou qualquer realidade contingente, não de coisas “a vida do além”.

Questionado: “Que serei quando morrer?” - Bhagavan retrucou: “Por que


quereis saber o que sereis após a morte, se não sabeis o que sois em vida?
Preocupai-vos, antes, em saber que sois agora”.

Em outras palavras:- procurai a verdade final do ser, ele unicamente, está


atrás de toda aparência desta ou de qualquer outra vida.

Chegou afirmar explicitamente: “Ao homem sequer lhe apraz ouvir esta
verdade, embora esteja pronto a conhecer o que há no além, e sobre o céu,
inferno e reencarnação”.

71
“Porque todos gostam do misterioso, mas não do verdadeiro, as religiões a
todos atendem, a fim de que tal coisa os conduza de volta ao ser”.

“Quaisquer sejam os meios adotados, devemos retornar ao ser; então, por


que não nos fixarmos, desde já, no Ser?.

A preocupação com os altos estados ainda contingentes, implica em ensinar


no nível da realidade em que o ser é Deus, e o devoto acha-se separado de Deus;
na verdade ultima, entretanto, não há dualidade.

Eis porque, inquirido a respeito de Deus, ele respondia invariavelmente:


“Porque quereis saber o que é Deus, antes de saber quem sois? Tratai primeiro de
saber quem sois”.

Vale dizer: porque parar ante, mesmo, à mais alta manifestação do Ser?
Busque a última verdade do Ser que você é.

Disse mais: “Não existe Ishwara”.

E mais explicitamente: “Deus não existe separado do ser; e tal seria


absurdo”.

Verdade é que Bhagavan falava de Deus muitas vezes, posto que, enquanto
continuar a concepção do ser individual, a concepção de Deus como Criador Amor
e Juiz, terá que continuar também.

Sempre disposto a conversar com todos no nível verbal que a pessoa


entendesse, Bhagavan, entretanto, anunciava a verdade final a todos aqueles que
abriram os corações plenamente aos seus ensinamentos; então ensinava: “Não há
Deus nem você separados do Ser”.

72
Nenhuma religião foi jamais tão desagradada como a daqueles budistas que,
tentando acomodar-se ao modernismo, interpretam como ateísmo ou
agnosticismo a recusa do Budha de fala de Deus. A baixo do nível de Deus e
homem, encontra-se, apenas, a ilusão do ego; e acima dela está somente a
Realidade do ser. Abaixo da aparência dos mundos superiores, está a este mundo
físico; e acima disto está o ser em forma. Estes budistas “agnósticos”confundiram
o inferior com o superior.

A recusa de passar pelo nível do Deus pessoal (nível da verdade que,


entretanto, não é a verdade final), é tomada por esses budistas (de que falamos),
disfarçando sua inabilidade de elevar-se acima do mundo fenomenal, cuja
condição ilusória o Budha explicou.

Como Budha, Sri Bhagavan recusou-se igualmente a discorrer sobre o


estado (se assim se pode chamar) do Jnani, isto é, o Nirvana , pois tal seria definir
o indefinível. Inquirido a respeito da consciência física do Jnani , respondeu:
“Pensais que o Jnani, tem um corpo ...”- e mais: Por que vos preocupais com o
Jnani, antes de saberdes o que sois? Primeiro tratai de saber quem sois. E
quando vos aperceberdes do que sois, é porque sereis um Jnani”.

Explicações teóricas não auxiliam a ninguém e ainda podem ser


impedimentos para o aspirante, fortalecendo-lhe a mente, em lugar de voltá-la
para o interior, na busca do ser em que ela deve se submergir. A especulação
mental não é a menor das defesas do ego contra o esforço espiritual. E se o
esforço se dirige para aquilo que está além da mente, seria contradição buscar
elucidá-lo com a mente.

Seria como querer encerrar o oceano num balde. Bhagavan afirma: “o Ser é
auto-efulgente. Não podemos dar-lhe um retrato mental. O pensamento que
imagina é, em si mesmo, um grilhão. Sendo que o Ser é a auto-efulgência que
transcende a luz e a escuridão, não podemos pensar nele com a mente. Tal

73
imaginação nos levará à escravidão, enquanto que o Ser cintila espontaneamente
como o Absoluto”.

Verbalmente, existe contradição entre o que ensina Bhagavan e as


pregações do Senhor Budha, desde que Bhagavan declara que só existe o Atma,
e o Budha declara que o Atma não existe. Mas é apenas contradição verbal, pois
Sri Bhagavan usava a palavra Atma para significar o Ser universal, que é Nirvana,
enquanto o Senhor Budha se referia à alma individual.

Além disso, Sri Bhagavan ensinou, também, que não existe um ser individual,
não apenas no sentido que não perdurará depois da morte, mas que também não
existe agora. “Não vos preocupeis com o que sereis após a morte; tratai de saber
o que sois agora”.

Instrutores têm conduzido seus seguidores por mais gradual caminho,


guardando seus olhos ofuscante simplicidade da verdade final, afirmando a
sobrevivência da alma após esta vida. Entretanto, a contradição como todas as
contradições espirituais, é somente aparente e a clara percepção disto está na
verificação de que o budismo, como doutrina, combina noções de céu, inferno e
reencarnação com a noção da irrealidade da alma individual.

Qualquer outra vida ou mundo é tão real quanto este, mas a verdade é que
tudo isto é irreal. Por conseguinte, em lugar de conduzir o homem na busca dum
nível de relatividade superior, Bhagavan e o budha insistem em que o ego é
totalmente irreal – seja nesta vida ou em qualquer outra. “Primeiro buscai o que
sois agora”.

O Budha nenhuma importância dava às teorias. Seu propósito era menos


construir uma cosmologia do que mostrar ao homem o caminho que vai do
sofrimento à Paz. Como Sri Bhagavan, ele punha de lado as soluções parciais
concernentes ao caminho, e timbrava na pura afirmação do Nirvana e de Maia do

74
ser e da ilusão. Mesmo assim, os teóricos apossaram-se de seus ensinamentos,
criando padrões que em nada contribuíram para que eles mesmos, ou outros
possam escapar do sofrimento. É possível que eles queiram aferrar-se aos
ensinamentos de Sri Bhagavan, mas seu real ensinamento jamais poderá a ser
encerrado em suas exposições, pois seu ensinamento é abandonar o não-
essencial e seguir o caminho da auto-realização.

Ao lhe apresentarem questões nascidas do esquema das especulações


espirituais da Índia, ás vezes, Sri Bhagavan respondia de uma forma técnica. Mas,
geralmente, ele se esquivava à resposta direta. Nenhum apoio dava à
especulação mental e desencorajava sempre as ciências espirituais relativa à
vasta região da realidade intermediária: “Assim como é fútil examinar o lixo que já
foi varrido e jogado fora, também o é que aquele, que busca o conhecimento do
ser, detenha-se a enumerar e examinar as qualidades dos Tattwas (envoltórios do
ser), em lugar de lançá-los fora”.

Não somente estava o Budha desinteressado de elaborar uma cosmologia,


como também não fez o menor esforço para estabelecer uma ordem social. Se
algo fez nesse sentido, foi somente pela negativa de reconhecer qualquer casta
social.

Todo aquele que provava ser capaz de seguir a Senda, era considerado
capacitado.

Bhagavan teve essa mesma atitude mas, como seu propósito não era formar
uma nova religião – ou nova ordem social, - jamais disse coisa alguma contra ou a
favor das castas.

Mui simplesmente a todos concedia sua Graça na medida em que estavam


prontos para recebê-la. Se os Brahmas queriam ficar separados dos demais, no
“hall” do Ashram, tal podiam fazer, - mas o Mestre não se unia, então, aos

75
Brahmas. Bhagavan aprovava os recitáveis védicos no hall, pela manhã e à noite,
mas nenhum devoto – fosse mulher, fosse de casta inferior, ou forasteiro, - podia
ser excluído de sua presença durante a cerimônia.

A diferença de expressão entre os ensinos de Budha e de Sri Bhagavan é


conseqüência de que o primeiro estava formando uma nova religião. Logo, ele
falava de modo que atingisse às massas, bem como aos buscadores, em geral.
Por isso, embora ressaltando que é o conhecimento que leva à libertação,
derramava seus ensinamentos num molde de maior teor emocional, acentuando a
questão do sofrimento e do alivio ao sofrimento.

Mas o significado é o mesmo: é o apego que traz sofrimento; e apego e uma


ilusão que somente pode ser dissipada pelo conhecimento. De outro lado,
exatamente porque os ensinamentos foram adaptados ao mundo em geral, os
genuínos buscadores do caminho, que desejavam sua essência, teriam que
renunciar ao mundo.

Renunciando ao lar, a todas as propriedades, e entrando num mosteiro,


estavam criando um símbolo externo de renúncia ao apego, repudiando a ilusão
para poderem penetrar no coração.

O Mestre espiritual sempre é portador da mensagem adequada ao momento.


No tempo do Budha, um novo veículo religioso era necessário aos povos do leste
asiático.

No tempo de Sri Bhagavan, foi necessário um novo caminho espiritual que


pudesse ser trilhado nas condições do mundo moderno, pelos devotos de todas as
religiões – que buscam e não encontram orientação espiritual.

Desde que os ensinamentos de Sri Bhagavan são dirigidos aos aspirantes ao


Caminho, ele fala com clareza e tranqüilidade – acentuando mais o tema da

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ignorância, do que o do sofrimento; mais o Conhecimento, do que o alívio do
sofrimento.

Não formulando uma nova religião para o mundo, ele não desvia seus
devotos da vida do mundo.

As condições da vida moderna são tais, que é impossível àqueles que


anseiam por graça e orientação afastar-se do mundo, ou mesmo observar as
completas e detalhadas obrigações de suas religiões, quaisquer sejam elas.

Bhagavan absolve dessa necessidade a todos para ele se voltam. Este é seu
grande donativo de compaixão. Não somente hindus, mas budistas, cristãos,
muçulmanos, judeus, parsis, dirigiam-se a ele, e jamais qualquer um recebeu
conselho de trocar duma religião para outra.

Ele prescreveu o vichara para todos, igualmente. Bhagavan, desde que


quaisquer outras observâncias de qualquer religião ajudavam o devoto dela,
jamais aconselhou que fossem abandonadas tais observâncias; mas deixava claro
que, quando o vichara é tenazmente praticado, pode substituir qualquer outra
prática.

“Todos os métodos levam ao vichara”- dizia. Vichara contém todos os


elementos de “Karmamarga”, bem como de “Jnana-Marga”, por isso Bhagavan a
ninguém aconselhou a renúncia ao mundo. Explicava que o objetivo central é
anular a ilusão “eu-sou-quem-faz”, portanto é de nenhuma utilidade cambiar o
pensamento “eu sou um pai de família” pelo pensamento “eu sou um monge”.

O importante é rejeitara ambos e lembrar somente ”Eu Sou”. Pelo poder de


sua Graça, Bhagavan reabriu o Caminho Direto da Auto-investigação a toda a
humanidade, caminho que pouco difere daquele ensinado por Budha e por Lao-
Tsé.

77
“Somente a Auto-investigação pode revelar a verdade de que nem a mente
nem o ego existem realmente, permitindo ao homem realizar o Próprio Ser puro
indiferenciado, ou o Absoluto”.

A completa simplicidade dos ensinamentos de Bhagavan, torna-os de fácil


exposição ou repetição, mas somente o tremendo poder que eles encerram
poderiam abrir caminho para a humanidade.

Bastava unicamente a silenciosa impregnação de sua Graça para qualquer


um pudesse segui-lo.

Esta era concedida por um lampejo concentrado de seus olhos, brilhando


com amor e poder para todos os que tinham a imensa ventura de chegar à sua
Presença, ou para aqueles que, silenciosamente, no próprio coração, voltavam-se
par Bhagavan onde quer que estivessem, mesmo à distância.

A questão da constância de sua graça é examinada no último capítulo deste


livro.

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RÂMANA SAD-GURU

Capítulo VII

Sempre houve algum mistério quanto ao “upadesa” – ou orientação espiritual


de Sri Bhagavan.

Ele não concedia ”Diksha” – ou iniciação, na forma usual de impor as mãos


ou dar ao discípulo um “mantram” a praticar.

Entretanto, não se depreenda disso que Bhagavan fosse alheio à


necessidade de iniciação. Pelo contrario, ele explicava que o “mantram” repetido
casualmente, não seria efetivo, e que o praticante deveria ser previamente iniciado
nele por alguém que tivesse autoridade.

Também não ignorava que os aspirantes careciam de orientação. A bem


dizer, essa era das coisas porque Bhagavan mais se desvelava. Desprezava
perguntas teóricas de pura especulação mental, mas respondia plena e
carinhosamente as relativas ao “Sadhana” (praticas).

No Ashram, em lugar da indolência, reinava uma intensa atividade; devotos


entregues ao “sadhana” e Bhagavan guiando e supervisionando a cada um com
meticuloso e silencioso cuidado.

Todos sabiam que eram os discípulos e que ele era o Guru. Em privado,
falava-lhes como um Guru; de outras vezes, instruía-os nas praticas.

Em cada caso, o “sadhana” sob sua guia datava de uma palavra ou de um


ato de iniciação, habitualmente oculta, talvez na forma descrita no prólogo deste

79
livrinho. Quando perguntado se ele era um Guru, e se dava iniciação, sempre
evitava resposta direta. Evidentemente, se a resposta devesse ser negativa, ele
teria dito “não”. Mas se ele pronunciasse um “sim”, seguir-se-iam inúmeros
pedidos de iniciação, cabendo-lhe fazer distinção entre verdadeiros devotos e
visitantes que não se submetiam em seus corações, nem seguiriam sua
orientação. Seu amor, porem, era demasiadamente grande e compassivo, e sua
sabedoria igualmente profunda, para que ele agisse de modo a levar uns poucos e
se julgarem privilegiados. Verdadeiramente tal não poderia fazer, pois ele via o
Ser em todos.

Inquirido “se concedia iniciação”, Bhagavan usualmente explicava que há 3


tipos de iniciação: a da palavra, a do olhar e a do silencio.

Assim, levava o indagador a concluir por si mesmo. A tradição quer que tais
iniciações sejam simbolizadas do seguinte modo; a primeira, pelo passaro, que
necessita sentar-se sobre seus ovos para chocá-los; a segunda, pelo peixe, que
basta olhá-los; e a terceira, pela tartaruga, que tão-só pensa neles.

A iniciação silenciosa é peculiar ao “Jnana-marga”. Alguns formalistas saiam


a buscar iniciação noutros lugares – e Bhagavan nada fazia para detê-los. Os que
compreendiam, ficavam. E Bhagavan disse ao Major Chadwick: “Se fosse
necessário buscar Guru noutro lugar, V. já teria partido daqui a muito tempo”.

Bhagavan foi o “Sad-guru” o “Jivan Mukta”, o perfeito “Jnani”, para quem não
existe outro se não o Ser e, portanto, nenhum parentesco pode se invocado.

Algumas vezes lembrava a seus devotos que o outro Guru é somente uma
forma tomada em consideração a ignorância dos discípulos, e serve para torná-los
para “dentro”, a fim de que descubram o guru-interno, que é o próprio Ser.

Os mestres espirituais, em geral, escrevem abertamente sobre a teoria,

80
guardando reserva sobre as técnicas que prescrevem; desse modo, evitam que
alguém as pratique sem a devida autorização, causando prejuízo a si mesmo.

Bhagavan, entretanto, proclamava o Caminho, abertamente, falando e


escrevendo. Tal inovação concordava com a silenciosa iniciação que estava
trazendo ao mundo.

Sobre quem quer que para ele se voltasse no próprio coração, podia descer
a iniciação, onde quer que estivesse; e qualquer que em seus livros aprendesse a
técnica, poderia usá-la . de fato, Bhagavan, as vezes, recordava a sus devotos
que mesmo a viagem a Tiruvanamalai é somente ilusória; a rela peregrinação teria
de ser feita no coração; e aludia ao trechos publicados sobre o Caminho a ser
seguido.

Nesta altura, poderá surgir outra pergunta ao leitor deste livro; se o caminho
direto aberto por bhagavan vigorava apenas durante a sua vida, ou continua
aberto ao que o busca. Contra a sua validade permanente, levanta-se a idéia de
que o guru é necessário para cada buscador – como bhagavan mesmo disse; -
acrescentou, entretanto, que o Guru não precisa ter abrigatoriamente a forma
humana.

Tal assertiva sua aplicava-se apenas a casos raros, mas sua intervenção não
terá tornado efetivo para seus devotos aquilo que foi para ele? Como se
depreende do acima referido, seu trabalho difere totalmente dos habituais
sistemas de orientação espiritual. Através das idades, tem existido correntes
iniciativas paralelas, fluindo para o oceano, cada uma com suas próprias margens;
mas no presente, no fim da “Kali-Yuga”, muitas sumiram no deserto ou no
pantanal, enquanto outras se reduziram a um fio. Foi ante tal estado de coisas que
Bhagavan surgiu com a resposta, com a corda salvadora par todos que a ele se
voltam.

81
Se o método é diferente, basta-nos recordar que é bhagavan o autor – e
protestar seria ridículo. Tais fizeram os judeus, negando o cristo porque Ele não
aparecera na forma em que eles o esperavam. E se bhagavan pode dispensar a
habitual forma de iniciação durante a sua permanência entre nós, por que não
depois? Consideremos que as condições que exigem a inovação ainda perduram.

Alem do mais, temos positivas indicações de que a orientação persiste.

Havendo-lhe indagado se o “Jivan-Mukta” continuava agindo depois da morte


física, Bhagavan replicou que em alguns casos sim.

Na iminência do seu pensamento, lastimam-se os devotos por terem de


abdicar de sua pessoal orientação. Então, Bhagavan lhes disse: “Dais importância
excessiva ao corpo física”, - indicando, desse modo, que seu desaparecimento
não lhes significava ausência de sua orientação espiritual.
Respondendo a um quesito do Doutor Masalava, médico oficial aposentado
Estado do Bhopal, Bhagavan disse: “Guru não é a forma física, de modo que o
contato pode continuar mesmo após o desvanecimento da forma física do “Guru”
(Vide “Day by Day with bhagavan”, de Devaraj Mudaliar).

Antes de morres, afirmou: “Dizem que estou morrendo, mas não me irei
embora. Aonde poderia ir? Eu estou aqui mesmo”. Esta é uma afirmação
doutrinária simples, porque o “Jnani” é universal e não há para ele o CÁ ou LÁ,
nem o ir ou o vir, no AQUI e AGORA da eternidade. Tal foi sempre o modo de
Bhagavan fazer uma afirmativa doutrinária, que, assentando uma verdade
universal, responde igualmente à particular necessidade do devoto. Mesmo que
nós possamos abandoná-lo, em nossa cegueira, ele não nos pode abandonar,
pois ele é o Ser.

Frente ao próximo fim, Bhagavan mostrava interesse em que continuassem a


publicar livros, revisando uma nova edição durante suas poucas ultimas semanas

82
de vida. Desde que o verdadeiro propósito dos livros era espalhar o conhecimento
do “vichara” (Caminho da auto-investigação); se tal não continuasse a ser valido
desapareceria, evidentemente, a necessidade de tais publicações.

Bhagavan aprovou um testamento que lhe foi apresentado, no qual um dos


termos especificava que o Ashram seria mantido como um centro espiritual após
sua morte física. Façam o que seus devotos, esta é decisão de Bhagavan: esse
local será o centro de irradiação do Guru.

Seus devotos sabem que ele é ainda o Guru. Eles têm sentido a continuação
de sua orientação, não só tão potente como completa e sutil, tal qual era de antes.

Aos que buscam voltar-se para ele, o melhor a dizer (como ele fazia com
que especulavam sobre o Centro-Coração de que ele lhes falava) é que tal não é
assunto de discussão, mas de pratica.

Estorcem-se para invocar sua Graça e seguir o Caminho prescrito, e acharão


por eles mesmos se realmente a orientação e a Graça lhes será concedida.

Naquela noite desoladora e triste, quando uma estrela refulgente movia-se


lentamente cruzando os céus – no momento exato em que ele deixava o corpo
físico, - todos os seus devotos sentiram, não as garras do desespero e da dor que
tinham previsto, mas cada um assegurava ao outro que ele ainda estava ali.
Todas sentiam no coração, sua continua Presença. Os que haviam pensado na
necessidade de consolação estavam aptos, na verdade, para consolar outros.

Durante toda a noite o corpo que Bhagavan tinha esgotado e abandonado,


esteve exposto no hall. Havia tristeza e lagrimas, mas interiormente
experimentava-se uma estranha paz, que somente Bhagavan poderia conceder.

Poucos poderiam imaginar quão amado era ele pela vizinha cidade de

83
Tiruvanamalai; mas, durante toda a noite, vastas multidões vinham e passavam
através do Ashram, tristes e lacrimosas, para o ultimo “Darshan” ante a sua face já
agora sem vida.

Da cidade, iam e voltavam, cantando “Arunachala-Siva”.

Nos dias subseqüentes, a forte convicção de sua contínua Presença desceu


os devotos e foi o elo que os uniu. Foi organizada, então, uma comissão para
dirigir os negócios do Ashram, juntamente com o Sarvadhikari anterior.

A meditação silenciosa, pela manha e ao anoitecer, a entonação dos hinos


Védicos, continua após o “Samadhi” de Bhagavan, como eram em sua presença
corporal. Agora, como então, continua o acesso para todos, sem distinção de
casta ou religião. O apoio espiritual recebido por quem se assenta próximo só seu
“Samadhi”, é não somente tão forte, mas também sutil, como outrora ante a
presença física. Os que se voltam para Bhagavan em seus corações, obtêm
mesmo uma resposta mais imediata, um apoio poderoso.

Não somente isto (pois isto vale quer que esteja o devoto), mas a
revitalização espiritual que se conseguia de uma visita a Tiruvanamalai, ainda
continua, embora sua bem-amada face esteja oculta.

Devotos de cidades próximas, e aqueles de lugares distantes, ainda


visualizam a possibilidade de uma visita, como outrora acontecia. Buscadores da
Graça divina e da orientação espiritual chegam, como no passado.

O santuário é um centro cujo poder espiritual aumenta, em lugar de diminuir.


E muitos invejam aqueles que tiveram a felicidade de contemplar sua divina forma
física.

Bhagavan sempre aconselhava que buscássemos o Guru-interno. O amor

84
que dedicamos ao Guru-externo auxilia-nos nesse sentido; num certo aspecto,
entretanto, é mais um obstáculo. Agora, ele toca, cumpre-nos eliminar nossas
impurezas, para descobri-lo, o Ser, a Essência de nosso Ser; mais do que nunca,
ele nos auxilia em tal empreendimento.

Ele é o Sad-guru que ensina no Silêncio. Dakshinamurthi (Arunagiri Yogi)


permanecia na encosta norte do sagrado Arunachala, pronto para conceder a
potente e silenciosa “Upadesa” aquele que viesse; mas o lugar era inacessível.

Sri Ramana é Dakshinamurthi. Ele tornou acessível o que era oculto, pois
agora a Graça radia de seu “Samadhi”. O Caminho Direto, que havia sido fechado,
foi reaberto.

A morte corporal deu-nos, talvez, uma modificação. Ele sempre mos disse;
“Perguntai:” Quem sou eu?”Mas nos disse também:” Submetei-vos a mim, e
abaterei vossa mente ““. Agora, a pergunta sobre o Ser (“Quem sou eu?) e a
submissão a Bhagavan no coração, tornaram-se uma só coisa”. A fusão de
“Jnana” e de “Bhakti” tornou-se mais perfeito.

“Quem Te pode encontrar? O olho do olho és Tu, mas – sem olhos – Tu vês,
Oh Arunachala!”

“Do meu lar Tu me atraíste e, logo, penetrando em meu coração, Tu me


puxaste suavemente para dentro do Teu. Tal é a Tua Graça, Oh! Arunachala”.

“Eu traí Teu secreto funcionamento. Não Te ofendas! Mostra-me agora


abertamente, a Tua Graça, Oh! Arunachala!”

(Versículo do Aksharamanamala).
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85
Traduzido para o Português

por

Caesar Mello, Jr

Grupo Arunachala

do

Rio de Janeiro

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SRI RAMANA GITA
do original em Sânscrito
por
KAVYAKANTHA GANAPATHI MUNI

Tradução do inglês
por
G. V. Subbaramayyah M. A. (Hons.)
Diretor do Departamento Inglês
V. R. College, Nellore

Publicado em Inglês por


T. N. Venkarataman
Diretor - Presidente
SRI RAMANASRAMAN
Tiruvanamalai

87
PREFÁCIO *

Este é um livro de instrução de Bhagavan Sri Râmana Maharshi, a Luz


encarnada de Jnana (Conhecimento) em Arunachala (Tiruvanamali). Seu
conteúdo não é mencionado neste prefácio, pois, esperamos que o leitor
inteligente estudará e compreenderá estes ensinamentos por si próprio. Esta obra
esta em forma de aforismo da grande ciência da Yoga. Poderá alguém resumi-la
ainda mais? Podemos apenas acrescentar que os segredos do Mantra yoga, Raja
Yoga, Jnana yoga e Bhakti Yoga foram habilmente aqui expostos.

Em honra ao nome do grande instrutor (Sri Ramana), esta obra foi intitulada
“Ramana Gita”.

Assim como no Bhagavadgita, Bhagavan Vasudeva é o instrutor e Bhagavan


Krishna Dwaipayana seguindo-o é o compositor daquele trabalho; do mesmo
modo, aqui, Bhagavan Sri Râmana Maharshi é o instrutor e seguindo-o, Vasistha
Ganapati Muni é o compositor obra. Há, porem, uma distinção. Muitos são os
questionadores aqui; entre estes está o próprio autor.

O autor deixou claro que esta serie de perguntas não surgiram num só dia
como o demonstra sua apresentação cronológica.

Deve ser desde logo compreendido que tanto as perguntas feitas como as
respostas dadas e as elucidações que o Mestre acrescentava, eram no mesmo
momento transcrito pelo autor em slokas (versículos, em Sânscrito).

________________
(*) Traduzido do Sânscrito.

88
O autor, usando a primeira pessoa do singular (Eu), claramente destaca suas
próprias perguntas. O segundo versículo do segundo canto foi composto pelo
próprio Sri Bhagavan. Nos restantes versículos daquele conto, o autor apenas se
limita a analisar o seu conteúdo.

Os quinto e sexto contos são os ensinamentos do Próprio Bhagavan Sri


Maharshi nasceu no ano Pramathi, no mês de Dhanus (Sagittarius), sob a estrela
Punarvasu. No ano Durmukhi, no mês de Simha (Leo) atingiu ele a Auto-
Realização puramente pela Graça Divina, deixou seu lar e veio para Arunachala
onde continua resplendecendo no Seu natural e Permanente (*) Ser.

Nasceu em Trisulapura (Tiruchuzhi) na Província de Pandya, sendo seus pais


o ilustre Brahmane Sri Sundaran Yier da linha Paramasamsa (Sábio da mais alta
ordem).

O que Sri Maharshi nos ensinou, não depende dos conhecimentos das
Escrituras, nem tampouco de Anumana (inferência lógica). Ou Pramana
(autoridade precedente). Ensinou-se somente aquilo que ele mesmo experimentou
ou viu com o Seu olho interno de meditação. Ele é adorado como guru (Mestre)
por muitos que pertencem aos três cultos (Adwaita, Dwaita e visishtadwaita).
Muitos dos Seus discípulos iluminados, vem em Sri Maharshi, que resplandece na
sua incessante permanência no Ser natural, a encarnação do Senhor Guha
(Skanda). O próprio autor, que chefia os discípulos, enaltece o Mestre como tal. O
que pode ser aprendido somente através da sabedoria espiritual, não estamos, de
modo algum, à altura de comprovar. Apenas, podemos declarar que também
acreditamos nisso.

O autor Sri Ganapathi Muni é filho de Sri Narasimba Sastri da linha


Vashistha, residente em Kunudopala (Kaluvarayi) no distrito de Visakhaparnam.
Nasceu no ano “Bahudhanya” no mês da Vrischika (Scorpio) sob a estrela de
“Makha”. No ano “plavanga” tornou-se discípulo de Sri Maharshi. Este grande

89
homem da penitencia, submergiu na luz na luz eterna no ano “Dhatru”, no sétimo
dia parte clara do mês “Sravana”.

Não existe a menor dúvida de que um dedicado estudioso deste livrinho,


alcançará realmente o conhecimento claro do caminho da Yoga. É fato inestimável
aos que procuram o conhecimento e praticam a Yoga.

90
RÂMANA GITA

Introdução
Por
GRANT DUFF

The Athenaeum,
Pallmall-London

Embora um só dos Slokas do Sri Râmana Maharshi, toda esta obra foi
inspirada diretamente pela Sua inefável Presença. Esse Presença significa mais
que a ação do Seu pensamento, pois inclui toda Sua manifestação que por alguns
anos mais será conhecida como O Iluminado da Monte Arunachala, Râmana
Maharshi.

Este Gita é essencialmente um método pratico. Seguindo as simples


instruções aqui dadas, o peregrino da Auto-realização, certamente a encontrará
com mais rapidez do que se seguisse outro método qualquer.

Isto, entretanto, não quer dizer que o alcance é feito extremamente fácil pois
exige o máximo de concentração mental baseada no firme propósito de encontrar
a Senda. Se um em mil conseguir realizar-se nesta vida, as possibilidades em
vidas vindouras aumentarão para outros.

As palavras não são aqui desperdiçadas, como normalmente é o caso, mas


explicam de uma forma direta onde e como devemo-nos concentrar a fim de
alcançarmos a meta final – a Auto-Realização.

91
Os fisiologistas surpreender-se-ão ao saber que o Coração, o Ser “Eu-Eu”
está localizado no lado direito do peito e não no esquerdo (*). Não se pode discutir
este assunto de um modo científico (*). Este coração tem sido visto, e ali é visto,
em resplendor constante por Maharshi; e esta afirmação é suficiente para que o
peregrino sincero tenha absoluta certeza. Ele saberá onde, no seu corpo, terá de
“mergulhar profundamente”, embora bem cônscio que de uma pequena fração de
seu corpo físico não revelaria coisa alguma que venha confirmar sua convicção da
existência desse centro resplandecente.

Há muitas perguntas objetivas sobre a libertação, seguidas de respostas


práticas. Na verdade, nada essencial é omitido por Aquele que deseja dar
respostas diretas, deixando de lado qualquer discussão supérflua. O essencial
absoluto está encerrado na seguinte afirmação:

“O Mundo não é outra coisa senão a mente: a mente não é outra coisa senão
o Coração – e isto é toda a Verdade.”

Mas tal afirmação, naturalmente, precisa as seguinte explicação fornecida no


“Râmana Gita”.

Qualquer alusão que se faça, nesta altura, a outros livros sagrados, me


parece, de um modo geral, ser imprópria. O inspirador deste Gita ainda vive,
lúcido, de fácil de sua presença e de responder a quaisquer perguntas formuladas
pelo indagador. Que mais pode ser desejado? Milhares de seus compatriotas já o
consultaram em Arunáchala e alguns europeus já foram por Ele iniciados.

Todo aquele que tiver a possibilidade de visitar o Ashram e não fizer,


arrepender-se-á desse omissão em vidas futuras.
__________
(*) Nota: “O coração do sábio está no lado direito mas o do tolo está no lado
esquerdo”. Eclesiastes, X –2.

92
Jamais, talvez, na historia humana, foi colocada tão facilmente ao alcance de
tão vasta multidão, a Verdade-Realidade, Suprema, Sat. Em casos anteriores
haviam dificuldades e perigos de toda a espécie a enfrentar. Agora, sem especial
merecimento de nossa parte, podemos aproximar-nos da realidade. A única
dificuldade estaria no custeio da viagem; não há perigos e a recompensa é o
Conhecimento do Ser.

Acrescentar mais coisa alguma, seria um absurdo, pois nada mais existe
além do Ser.

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93
NOTA DO TRADUTOR

Do Inglês para o Português

A tradução desta tão importante obra se processou repentinamente, após a


primeira leitura pelo tradutor. O entusiasmo por este trabalho de amor, nasceu de
um desejo intenso de colocá-lo nas mãos de inúmeros interessados e
principalmente permitir o deleite e iluminação dos que “buscam”!

O tradutor, apesar desse entusiasmo, se sentiu humildemente aquém dos


requisitos para fazer jus ao trabalho nesta obra Divina de valor transcendental
para toda a humanidade.

Para evitar a todo custo qualquer cunho ou colorido de ordem pessoal as


palavras singelas que expressam a Verdade, o tradutor manteve-se rigidamente
dentro da tradução ao pé-da-letra, desviando-se umas poucas vezes, apenas,
quando não havia outra alternativa senão empregar outros recursos para traduzir
o sentido da frase.

Estamos certos de que aqueles que “buscam”, lerão este livrinho “7 vezes”,
no mínimo, perdoarão os erros do tradutor e acabarão por compreender a sublime
mensagem do Grande Sri Râmana Maharshi, a nós comunicada pelo seu Bem
amado discípulo, Vasistha Ganapati.

CAESAR MELLO, JR
28-02-1962

94
GRAÇAS

O Ganges do mais sagrado de todos os Gitas, nascido do poderoso monarca


das montanhas, manifestado como Sábio Râmana, que flui através do canal da
Musa celestial do poeta Ganapathi, varre as impurezas arraigados, a cada passo,
e junta-as finalmente ao oceano dos devotos.

95
SRI RÂMANA GITA

1° CANTO

SOBRE A IMPORTANCIA DE “UPASANA”

Tendo-se inclinado perante Sri Râmana Maharshi, que é Deus Skanda em


forma humana, apresentarei Seus ensinamentos neste trabalho lúcido.

No ano mil novecentos e treze da Era cristã (1913), no dia vinte e nove de
um dezembro frio, quando todos os discípulos, com suas mentes controladas, se
achavam sentados em volta Dele, eu apresentei a Bhagavan Sri Maharshi (as
seguintes perguntas).

Primeira pergunta:

Pode uma pessoa ser libertada plena mera discrição entre a realidade e
irrealidade? Ou existe qualquer outro meio para a destruição da escravidão?

Segunda pergunta:

É suficiente a mera investigação das escrituras para dar a libertação ao


investigador do Auto Conhecimento (Atma Jnana)? (ou) é a “Upasana” necessária,
de acordo com as instruções do Guru?

Terceira pergunta:

96
Pode uma pessoa de consciência firme (Jnani) reconhecer a si mesma como
tal por Ter conhecido a perfeição, ou pelo abandono da consciência objetiva?

Quarta pergunta:

Qual o sinal que mostra ao instruir como reconhecer o “Jnani” (o Sr


realizado)?

Quinta pergunta:

É “Sanadhi” (absorção do Ser) só para “Jnani”(Auto-conhecimento)? Ou pode


este realizar o desejo (Material) também?

Sexta pergunta:

Se alguém que pratica a Yoga com desejo material, no ínterim torna-se um


Jnani, será o desejo inicial satisfeito ou não?

Tendo ouvido estas minhas perguntas, aquele tesouro de Graça e dissipador


da dúvida, Bhagavan Râmana Maharshi, falou (assim):

Resposta à Primeira pergunta:

A permanência no Ser por si só remove todos os liames. Mas o


discernimento entre a realidade e a irrealidade, se diz ser o meio para o desapego.

Permanecendo sempre no Ser, o Jnani não considera o universo como


sendo irreal, ou outra coisa que não seja o Ser.

Resposta à Segunda pergunta:

97
Mera investigação das escrituras não traz a plenitude do Conhecimento ao
investigador. Não pode haver realização sem “Upasana”. Esta é toda a verdade.

O estado natural (sem esforço) (do Ser) durante a prática, é chamada


“Upasana”. Quando sua permanência é alcançada, se chama “Jnana”.

Abandona os objetos do sentido, a fim de aderir ao nosso Ser, na forma de


uma consciência flamejante, se denomina o “estado natural ” do Ser.

Resposta à Terceira pergunta:

Quando, pela Mouna, (Silencio) anuladas as impressões ou tendências


inerentes, o estado natural (do Ser) se estabelece firmemente, o Jnani reconhece
a si próprio como um Jnani reconhece a si próprio como um Jnani, sem dúvida
alguma.

Resposta à Quarta pergunta:

O signo de Jnana é a igualdade em relação a todos os seres!

Resposta à Quinta pergunta:

Samadhi que é iniciado com desejo (material), certamente satisfará tal


desejo.

Resposta à Sexta pergunta:

Se alguém que pratica a Yoga com desejo (material), tona-se um Jnani no


ínterim, embora seja satisfeito seu desejo original, não se regozijará.

Em Sri Râmana Gita, a Ciência de Brahma, a

98
Escritura de Yoga, composta pelo discípulo
de Râmana, Vashistha Gnapathi, este
é o primeiro Canto, intulado:

SOBRE A IMPORTÂNICA DE “UPASANA”

99
2° CANTO

O CAMINHO TRIPLO

No “Chaturmasya”(quatro meses) ao ano, mil novecentos e quinze da Era


Cristão (1915) Bhagavan Sri Maharshi nos deu a quintessência (da sabedoria) na
forma do seguinte versículo:

(*) “No centro da Caverna-Coração, o Brahman Absoluto refulge só,


efetivamente como “Eu-Eu”, na forma do Ser. Entrai no Coração pela mente
procurando o Ser, ou mergulhando, ou parando o movimento da respiração; e
identificai-vos com o Ser”.

Quem quer compreenda este versículo, esta quintessência da Vedanta, que


desprendeu-se dos lábios do Bhagavan Sri Maharshi, jamais terá qualquer dúvida.

Na primeira parte do versículo, a sede do Ser neste corpo visível, composto e


cinco elementos, foi postulada por Bhagavan.

Somente ali a marca distintiva (do Ser) foi indicada. Sua diferenciação de
Deus foi eliminada. Sua independência absoluta, que evita os vários símbolos, foi
também afirmada.

Na Segunda parte (do versículo), são transmitidas instruções para as práticas


do discípulo no caminho triplo, que na realidade afirmada.

___________
(*) Tradução – verso do sloka, corrigido e aprovado por Sri Bhagavan:

100
“No âmago do “Coração”
Brilha sozinho o Brahman
Como “Eu-Eu”, o Ser consciente!
Entrai profundamente no Coração
Pela investigação do ser, ou mergulhando profundamente,
Ou com a respiração controlada;
Assim “nishtha” estará sempre no Atman.

Os meios são: “indagação” que é recomendada primeiro; “imersão”, segundo:


“controle da respiração”, terceiro.

No Sri Râmana Gita, a Ciência de Brahman,


a Escritura do Yoga, composto pelo
discípulo de Râmana, Vashistha
Ganapathi, este é o segundo
canto intitulado:

O CAMINHO TRIPLO

101
3° CANTO

O DEVER SUPREMO

Neste terceiro canto, redigimos o diálogo entre Daivarata e Acharya Râmana


para o deleite dos sábios.

Daivarata disse:

Qual é o dever supremo do homem preso a este ciclo de nascimentos e


morte? Pertence a Bhagavan determinar qual é (o dever) e explicá-lo a mim.

Bhagavan respondeu:

A coisa principal para um aspirante à grandeza, é conhecer o seu próprio Ser


– a base de toda ação e respectivos frutos.

Daivarata perguntou:

Conhecer o nosso próprio ser, o que resumidamente quer dizer isso? Por que
esforço pode se obter essa visão interior sublime?

Bhagavan respondeu:

Rejeitando diligentemente todos os pensamentos sobre objetos dos sentidos,


permanecemos fixos na indagação única, estável e incondicional (do Ser).

Esse é, em resumo, o meio para conhecer o Ser. Unicamente através desse


esforço, será alcançada a sublime visão interior.

102
Daivarata perguntou:

Ó Senhor dos Sábios, enquanto o homem não obteve sucesso no Yoga,


podem as abstenções (Niyamas) facilitar seus esforços?

Bhagavan respondeu:

As abstenções em verdade facilitam os esforços do aspirante que pratica a


Yoga; e estas desaparecerão por si daqueles que fizeram tudo o que deviam
fazer, e alcançaram o sucesso.

Bhagavan respondeu:

O sucesso acompanhará os devotos sinceros que repetirem Mantras ou a


Pranava (OM) incessantemente e com a mente firme.

Pela repetição de Mantras, ou do puro Pranava (OM), a corrente-pensamento


retirada de todos os objetos dos sentidos, torna-se idêntico com o nosso Ser.

Este maravilhoso dialogo deu-se no sétimo dia do sétimo mês no ano mil
novecentos e dezessete da Era Cristã (1917).

No Sri Râmana Gita, a Ciência de Brahman,


Escritura do Yoga, composto pelo
discípulo de Râmana, Vasistha
Ganapathi, este é o terceiro
Canto, intulado:

O DEVER SUPREMO

103
4° CANTO

QUE É “JNANA”

Primeira pergunta:

Ó Senhor dos Sábios, o que é “Jnana”? é o pensamento (convicção


intelectual): (1) “Eu sou Brahman”, ou (2) “Brahman é Eu”, ou (3) “Eu sou tudo”, ou
(4) “tudo isto é Brahman”? ou é Jnana algo diferente destes quatro conceitos?

Primeira resposta:

Bhagavan Guru Râmana Maharshi benignamente escutou esta pergunta,


deste Seu discípulo, e(assim) respondeu:

Todos estes pensamentos são, sem dúvida rebentos da mente, somente. Os


sábios declaram que a pura inerência no Ser é Jnana.

Após ouvir esta afirmação do Guru que destroi todas as duvidas, eu O inquiri
novamente sobre a outra dúvida que surgiu em mim.

Segunda pergunta:

Ó Senhor dos Sábios, pode-se compreender Brahman através do


pensamento, ou não? A Vós compete eliminar esta dúvida nascida em meu
coração.

104
Ao ouvir esta pergunta, Maharshi, o amigo daqueles que servem Seus pés,
Inundou-se com Seu benevolente olhar, e proferiu o seguinte:

A resposta:

Se o pensamento é voltado para o interior a fim de conhecer Brahman, que –


é o Seu Próprio Ser, este torna-se o próprio Ser; não permanece separado.

No mesmo ano já mencionado, no vigésimo primeiro dia do sétimo mês (21


de julho de 1917) deu-se este breve e vibrante dialogo entre nós.

No Sri Râmana Gita, a Ciência de Brahman,


a Escritura do Yoga, composto pelo
discípulo de Râmana, Vasistha
Ganapathi, este é o quarto
Canto intitulado:

QUE É “JNANA”

105
5° CANTO

SOBRE O CORAÇÃO

Na noite do nono do oitavo mês do referido ano (9 de agosto de 1917), O


Sábio dissertou amplamente sobre o Coração.

O lugar de onde surgem todos os pensamentos dos seres encarnados, se


chama Coração. Toda a descrição sobre sua forma é apenas simbólica.

O pensamento – Eu é a raiz (fonte) de todos os pensamentos. O lugar de


onde surge o pensamento – Eu é, em suma, o Coração.

Se a sede do Coração for “Anahata Chakra”, como poderá o processo da


yoga iniciar-se no “Mula-dhara”?

O “Hridayam” (Coração) é diferente do órgão físico que chamamos coração.


“Hridayam” é composto de duas palavras “Ayam” e “Hrit” que quer dizer “Este é o
Centro”. Logo, “Hridayam” ou Coração, se diz ser a expressão do Ser.

Sua posição no peito é no lado direito e não no esquerdo. A Luz da


Consciência flui dele para o Shasrara ( o cérebro) através do Sushumna (nervo
sutil ou “nadi”).

A mesma Luz, (do Sahasrara) flui para o corpo inteiro. Então ocorreram as
experiências do mundo. Julgando estas experiências diferentes no Samsara (o
ciclo de nascimentos e mortes).

106
O Sahasrara (cérebro) daquele reside no Ser é puro e chamejante como a
Consciência. Qualquer Sankalpa 9pensamento) que entre, não pode sobreviver
nas suas imediações.

Até mesmo se os objetos dos sentidos forem reconhecidos nas


proximidades, estes não serão um impecilho à Yoga, a menos que sejam
percebidos como sendo separadas do Próprio Ser.

A estável e firme aderência da mente ao Ser, como indistinto Deste, até


mesmo quando tamanho conhecimento dos objetos dos sentidos, se chama (esse
estada de) “Sahaja Sthiti”(o Estado Natural); e se os objetos dos sentidos não são
reconhecidos, esse estado se chama “Nirvikalpa Samadhi”(no qual a mente está
completamente absorvida pelo Ser).

O universo inteiro está (resumido) no corpo, e o corpo todo, no Coração.


Logo, o Coração. Logo, o Coração é a súmula de todo o Universo.

O mundo não é outra coisa senão a mente, e a mente não é outra coisa
senão o Coração. Por conseguinte, toda a historia (do universo) termina no
Coração.

O mundo não é outra coisa senão a mente, e a mente não é outra coisa
senão o Coração. Por conseguinte, toda a historia 9do universo) termina no
Coração.

O Coração, no microssomo, é como a esfera do sol no macrossomo; e a


mente, no Sahasrara (cérebro), é como o orbe da lua.

Assim como o sol dá luz à lua, do mesmo modo o coração fornece luz ã
mente.

107
Inconsciente do Coração, o mortal percebe apenas a mente, assim como (ele
vê) luz na lua, à noite, quando o sol está ausente,

Não se apercebendo do próprio Ser como a verdadeira fonte de luz, a pessoa


ignorante vê as coisas com a mente como sendo separadas de si e é enganada.

O Jnani, sempre identificado com o Coração, vê a luz da mente submergia na


luz do Coração, justamente como a luz da lua está na do sol, durante o dia.

Os sábios expõem que a mente é o indicador do Conhecimento, e que o


Coração é o Próprio conhecimento indicado. O Supremo não é outro senão o
Coração.

O sentido de diferença entre o sujeito e objeto está (somente) na mente.


(Mas) para aqueles que agem residindo no Próprio coração, o sujeito e objeto
unificam-se.

O processo do pensamento que é afetado pelo desmaio, sono, prazer


excessivo, tristeza consumidora, temor, etc., volta ao seu devido lugar – isto é ao
Coração.

A pessoa então não está apercebida desta entrada no Coração, conquanto


no Samadhi ela se aperceba claramente de tal entrada. Isto cousa diferença nos
nomes.

No Sri Râmana Gita, a Ci6encia de Brahaman


a Escritura do Yoga, composto pelo
discípulo de Râmana, Vasishtha
Ganapathi, este é o Quinto
Canto intitulado:
SOBRE O CORAÇÃO

108
6° CANTO

CONHECIMENTOS SOBRE O CONTROLE DA MENTE

Após enunciar a verdade sobre o Coração, Râmana Muni, o exaltado entre


os realizados, ensinou o método para controlar a mente.

Para as pessoas ocupadas, com mentes apegadas aos objetos dos sentidos,
é difícil controlar a mente em vista da força superior de suas “vasanas”
(tendências inerentes).

O homem pode controlar essa volúvel mente controlando a respiração.


(Então) a mente não pode extraviar-se, tal como um animal amarrado por uma
corda.

“Controle da respiração” quer dizer vigiar o processo da respiração com a


mente. Por tal vigilância constante a “Kumbhakam” (retenção) por quatro período
de tempo.

Desta forma os “Nadis” (canais do corpo) ficam purificados.

Com a purificação dos “Nadis” a respiração fica gradualmente sob novo


controle. O controle absoluto da respiração é denominado puro “Kumbhakam”.

Alguns “Jnanis” declaram que “Rechakam” é renunciar a identificação do


corpo com o Ser; que “Purakam” é a busca do Ser; e que “Kumbhakam”é “Sahaja
Stihiti” (o Estado Natural).

109
Ou, até mesmo pela repetição e Mantras, a mente pode ser controlada.
Então, o Mantra e Prana (respiração) se unificam com a mente.

A união das letras do Mantra com Prana (respiração) é denominada


“Dhyanam”(Meditação). Firmeza no estado de “Dhyanam” conduz à Sahaja Sthiti
(Estado Natural).

Também pela associação íntima constante com os grandes seres realizados,


a mente vai submergindo na (sua) fonte.

No Sri Râmana Gita, a Ciência de Brahman,


a Escritura do Yoga, composto pelo
discípulo de Râmana, Vasishtha
Canto intitulado:

CONHECIMENTO SOBRE O CONTROLE DA MENTE

110
7° CANTO

DA CAPACIDADE PARA A AUTOPEAQUISA E SEUS


PORMENORES

O diálogo excelente entre Karshini da linha Bharadwâja e Acharya Râmana,


está relatado neste sétimo canto.

Karshni perguntou:

O que constitui a Autopesquisa? Qual é a sua aplicação? Pode algo mais


elevado ser pesquisada.

Isto é a Autopesquisa e não a perscrutação dos Sastras (obras de


sabedoria). Pela busca da fonte, o ego desaparece.

Quando o ego, que é apenas uma aparência irreal do Ser, desaparece, fica o
Ser que é o real, a plenitude, o absoluto, em tudo e por tudo.

O fruto da Autopesquisa é a remoção da tristeza. Este é o cume de todos os


benefícios e nenhum resultado maior existe.

Mesmo que a pessoa consiga todos os maravilhosos “Siddhis”(Poderes


Taumatúrgicos), alcançáveis por outros maios, ainda assim, somente pela
pesquisa será afinal encontrada a Paz.

Karshni perguntou: quem se pode considerar capacidade para a


Autopesquisa? Pode a pessoa conhecer a sua própria capacidade?

111
Bhagavan respondeu:

Aquele que esta purificado por “Upasanas” etc. (nesta vida) ou por boas
obras de vidas pregressas, cuja mente percebe os males do corpo e os objetos
dos sentidos; sempre que a sua mente funciona, sente uma aversão completa
pelos objetos externos; e compreende a natureza transitória do corpo, esse está
em condições (para a Autopesquisa).

A consciência de que o corpo é perecível, e o desprendimento de todos os


objetos externos são os dois únicos sinais que nos indicam a proporia capacidade.

Karshni perguntou:

Banhos, orações, repetição de Mantras, ofertas ritualisticas, canto dos Vedas,


adoração a Deus, canto de louvores, peregrinações, sacrifícios, esmolas,
cumprimento de promessas e jejuns – são de alguma utilidade para aquele que
pelo desprendimento e discernimento esta em condições para a Autopeaquisa?
Ou são estas praticas apenas perda de tempo?

Bhagavan disse:

Para o noviço capacitado, no qual os apegos estão diminuindo, todas estes


“Karmas”(ações) contribuem para maior purificação da sua mente.

Qualquer ação das chamadas virtuosas, nascida da mente, da palavra ou do


corpo, destroi a ação contrária similarmente nascida.

No caso daqueles cujas mentes estão completamente purificadas e que


estão amadurecidos, todas estas atividades serão para benefício do mundo.

112
Os sábios que estão maduros, fazem Karma (ação) para instrução e bem-
estar do próximo, e não por temor aos preceitos das escrituras.

(Por outro lado), para o Autopesquisador amadurecido, a não observância do


“karma”(ação indicada) não constitui ofensa. (Porque) Autopesquisa é (por si só) o
mais virtuoso e o mais purificante de todos os atos purificadores.

Uma dupla observância é perceptível naquele que está amadurecido –


renunciação (ou seja solidão); e tendências a praticar ações em benefícios dos
outros.

Karshni perguntou:

Existe outro meio de libertação além da Autopesquisa? Só um, ou vários?


Rogo ao Bhagavan se digne dizer-me.

Bhagavan respondeu:

Um (ser) empenha-se para alcançar; outro procura aquele que alcança. O


primeiro, ao fim de prolongado esforço, alcança o Ser.

Em alguns pela meditação a mente torna-se convergente. A convergência da


mente resulta em inerência no Ser.

Assim, mesmo que o mediador não o deseje, obtém a permência no Ser. O


pesquisador, por outro lado, fica ciente do Próprio Ser e adere a ele.

Para aquele que vem meditando sobre (alguma Deidade, Mantra ou qualquer
outra meta elevada, o objeto da meditação finalmente funde-se no esplendor do
Ser.

113
Assim, tanto para o mediador como para o Autopesquisador, a meta é a
mesma. Um, pela meditação alcança – tranqüilidade; o outro, ficando cônscio do
Ser, funde-se com ele.

No Sri Gita, a Ciência de Brahman,


A Escritura do yoga, composto pelo
discípulo de Râmana, Vashistha
Gabapathi, este é o sétimo
canto intitulado:

“DA CAPACIDADE PARA A AUTOPESQUISA E SEUS PORMENORES”

114
8° CANTO

SOBRE “ASHRAMAS”

Em resposta a uma pergunta anterior do próprio Karshi, o sábio Bhagavan


enunciou os deveres dos quatro “Ashramas” (estágios de vida).

“Brahmachâri”ou “Grihastha”, “Vanaprastha”ou “Sannyâsi”, mulher ou Sundra,


quem estiver maduro pode indagar sobre Brahman (o Supremo).

Os Ashramas sucessivos são destinados a servir como degraus que


conduzem ao alcance do Supremo. Contudo, para aquele cuja mente esta
completamente madura, não há necessidade desta graduação.

A gradação-Asharama foi ordenada para regular o preenchimento de


finalidades temporais. Os deveres dos três primeiros Ashramas não são opostos a
Jnana.

“Sannyasa” é “Jnana” puro – e não está no (uso da) veste alaranjada nem no
raspar da cabeça. O Ashrama (Sannyasa) é indicado par a remoção dos
numerosos obstáculos (encontrados no caminho espiritual).

Aquele, cuja energia se ilumina durante “Brahmanharya Ashrama” (o estágio


do celibato) pela disciplina e pelo estudo, - e avança no conhecimento, - brilhará
mais tarde.

A pureza em “Brahmacharya” conduz à pureza em “Gârhasthya”(o estágio do


chefe de família). “Gâehasthya” é indicado para o bem de todos.

115
No encarnado, que apesar de ser um Grihastha (chefe de família), está sob
todos os aspectos livre de apegos, cintila a Luz Suprema. Não há dúvida
absolutamente sobre isto.

A Terceira Asharama é declarada, pelos mais cultos, como próprio para


“Tapas” (penitência). Pode-se ficar na Terceira Ashrama com ou sem a esposa.

Para o yogi, cuja impureza já foi queimada pela penitência, e cuja mente
tornou-se amadurecida, o quarto Ashrama (Sannyasa) virá a seu tempo,
automaticamente.

Esta instrução suplementar de Bhagavan, nos sétimo e oitavo cantos, foi


dada no ano já mencionado, no dia 12 do oitavo mês (12 de agosto de 1917).

No Sri Râmana Gita, a Ciência de Brahman,


a Escritura do Yoga, composto pelo
discípulo de Râmana Vâsishtha
Ganapathi, este é o oitavo
canto intitulado:

SOBRE “ASHRAMA”

116
9° CANTO

SOBRE O DESMATAMENTO DE “GRANTHI”

No decimo quarto dia do oitavo mês (14 de agosto) à noite, eu interpelei Sri
Maharshi sobre um assunto em que até mesmo os eruditos têm duvidas, ou seja,
sobre o desatamento do “Granthi” (nó).

Ouvindo minha pergunta, o grande iluminado Bhagavan Sri Râmana


Maharshi permaneceu em Equilíbrio Divino por alguns instantes, depois assim
falou:

A conexão entre o corpo e o Ser chama-se “Granthi”. Somente através desta


conexão o Ser tem consciência Pura. A ligação entre os dois é inferida pelo
intelecto.

O corpo é insensível, enquanto o Ser é Consciência Pura. A ligação entre os


dois é inferida pelo intelecto.

Ó bem amado, o corpo funciona animado pelos reflexos da Luz da


Consciência pura. No sono, etc., não existe tal animação (do corpo). Logo, a
presença do “Atman” (Ser) é inferida.

Justamente como as forças sutis (semelhantes à corrente elétrica operando


através de fios visíveis), assim a luz da Consciência flui através dos “Nadis”
(nervos), no corpo.

117
Irradiando de um determinado centro, a Luz brilhante da Consciência ilumina
o corpo inteiro, assim como o sol (ilumina), no corpo.

Pela difusão dessa luz, ocorrem experiências no corpo. A esse mesmo centro
os sábios denominavam de “Hridayam” (o Coração).

O fluxo da luz da Consciência é inferido no jogo de poderes no “Nadis”.


Todos os poderes do corpo residem nos seus respectivos “Nadis”.

A Consciência está centralizada num “Nadi” particular conhecido como


“Sushumna”. Alguns o denominam de “Atma Nadi”, outros de “Para Nadi”, e ainda
outros de “Amnita Nadi”.

A medida que a Luz (da Consciência) espalha-se por todo o corpo, o


indivíduo, tornando-se egocêntrico, toma o corpo como sendo o Ser, e assim
considera o mundo separado de si próprio.

Se um sábio, renunciando ã consciência e ã identificação do Ser com o


corpo, investiga com a mente convergente, seus “Nadis” são sacudidos.

Em virtude desta agitação do “Nadis”, o Ser, separado destes, apoia-se no


“Nadi” Amirta somente e resplandece exteriormente.

Quando a chama resplandecente de consciência brilha somente no “Nadi


Atma” nada mais que o Ser resplandece.

Para quem quer que veja unicamente o Ser brilhando – fora, dentro e em
toda parte, como as formas, etc., (aparecem) ao ignorante esse se diz Ter cortado
o (nó) “Granthi”.

118
O “Granthi” é duplo – o vinculo dos “Nadis” e a consciência-ego. Através do
vínculo Nadi, o Espírito, apesar de ser sutil, se apercebe de tido que é grosseiro.

Quando a chama (da Consciência), retirada de todos os “Nadis” se apoia no


único “Nadi” (Sushumnã), este cortou os “Gransthis”(nós) se fixou no Ser.

Assim como a bola de ferro aquecida ao fogo parece cheia de fogo, assim
tudo isto aquecido com o fogo da autopesquisa, se torna cheio do Ser.

As antigas “Vasanas”(Tendências inerentes) que pertencem ao corpo, etc.,


são desse modo destruídas. Tal ser (Jnani), não sendo o corpo (não tendo a
consciência-corpo), nunca terá sensação alguma de ser autor de ações.

Não tendo sensação de ser autor, seu “karma” se diz Ter sido destruído.
Sendo que nada mais existe e não ser o Ser, nenhuma dúvida surge nele.

Aquele cujo “Granthi” (nó) foi cortado, jamais se diz Ter sido destruído. Sendo
que nada mais existe e não ser o Ser, nenhuma dúvida surge nele.

No Sri Râmana gita, a Ciência de Brahman,


a Escritura do Yoga, composto pelo
discípulo de Râmana, Visishtha
Ganapathi, este é o nono
Canto intitulado

SOBRE O DESATAMENTO DE “GRANTHI”

119
10° CANTO

SOBRE A SOCIEDADE

Neste décimo canto, reproduziremos o diálogo entre Yoganatha Yati e Sri


Râmana Maharshi, que deverá alegra a Sociedade.

Yoganatha perguntou;

Ó grande Sábio, qual é a relação entre a Sociedade e seus membros? Ó


Senhor, a Vós compete explicar isto para o bem da Sociedade.

Bhagavan respondeu:

Ó alma virtuosa, a Sociedade, composta dos seguidores dos seus


respectivos “Acharas” (costumes), pode ser comparada com o corpo; e os
indivíduos, com os membros do corpo.

Ó Yati, assim como o membro serve para o bem do corpo, assim também o
indivíduo contribui para o bem da Sociedade, e prospera.

Todos nós sempre devemos assim agir, na mente, palavra e o corpo, a fim
de promover o bem da Sociedade e também despertar os nossos semelhantes
nesse sentido.

Devemos primeiro organizar o nosso agir, na mente, palavra e o corpo, a fim


à Sociedade e depois elevar a prosperidade do referido grupo, com o sentido de
adiantar toda a Sociedade?

120
Bhagavan respondeu:

A paz é para a purificação da nossa mente, o poder é para o progresso da


Sociedade. A Sociedade d3ve primeiro elevar-se pelo poder e depois estabelecer
na Terra?

Bhagavan respondeu:

A fraternidade através da igualdade é a meta suprema a ser atingida pela


totalidade dos homens em todas as Sociedades.

A fraternidade traz a paz suprema à humanidade, então todo o mundo


brilhará com uma única família.

No décimo quinto dia do oitavo mês (15 de agosto), esta conversa ocorreu
entre Yoganatha Yati e o benigno Maharshi.

No Sri Ramana Gita, a Ciência de Brahman,


a escritura do Yoga, composto pelo
discípulo de Râmana, Vasishtha
Ganapathi, este é o décimo
Canto intitulado:

SOBRE A HARMONIA DE “JNANA” E “SIDDHIS”

121
11° CANTO

SOBRE A HARMONIA DE “JNANA”E “SIDDHIS”

No sexto dia, à noite, estando só, aproximei-me de Sri Râmana o grande


Sábio, o Guru, o melhor dos Auto-realizados, o que reside permanentemente no
Ser, a encarnação humana “do Supremo, e cantei louvores a Ele para que eu
fosse abençoado pela dádiva rara de “Jnana”.

Em Vós unicamente está o Estado Supremo. Em Vós unicamente está a


mente imaculada. Vós sois o receptáculo de todo o Conhecimento como o oceano
o é de todas as águas.

Na vossa infância, com a idade de dezessete danos, Vós alcançastes grande


fama por terde obtido o Conhecimento supremo, o que é muito difícil de ser
atingido até por Yogis.

Todos estes objetos visíveis são apenas uma sombra para Vós. Quem,
então, poderá descrever Vosso estado (real), ó Bhagavan?

Para aqueles que, iremos no terrível Samsara (ciclo dos nascimentos e das
morte), são arremessados para cá e para lá, e procuram escapar deste grande
tormento, Vós sois o único refúgio.

Ó Brahman, divinamente dotado do Conhecimento, eu Vos vejo


freqüentemente como a encarnação humana do Senhor Subrahmanya, o chefe
dos “Brahmanyas” (realizadores de Brahman).

122
Em verdade, ó Senhor, vós não estais em “Swamigiri” (Wmimlai) nem em
“Kshabika Parvata” (Monte Tirupati). Mas estais de fato em Arunáchala.

Ó Senhor, na antigüidade Vós ensinastes o segredo de “Bhuma


Vidya”(Grande Conhecimento de Brahman) a Maharshi Nãrada que vos serviu
bem como vosso pupilo.

Os ilustres Védicos Vos chamavam Brahmarshi Smatkumãra. Os doutos em


“Ãgamãs”(Sãstrãs), Vos chamavam de Subrahmãnya, o chefe do Deuses.

Isto é apenas uma diferença de nomes mas não de pessoa. Sanatkumãra e


Skanda são realmente sinônimos do vosso nome.

Anteriormente Vós fostes nascido, ó Senhor, como o grande Brahmin de


nome Kumarila e estabelecestes o Dharma (lei) proposto pelos Vedas.

Enquanto o Dharma estava sendo confundido pelos Jainos, Vós nascestes


novamente, Ó Bhagavan, na terra de Drávida (Tamil) como Jnana-sambandha e
estabeleceste o oculto da Devoção.

Agora Vós viestes novamente à Terra, Ó Senhor Glorioso, para a


preservação de Brahma-Jnana (Conhecimento do supremo) o que foi impedido
por aqueles que estavam satisfeitos com o puro conhecimento das escrituras.

Muitas dúvidas dos discípulos, já foram esclarecidos por Vós, Ó Senhor. A


Vós cabe, ainda, esclarecer essa minha dúvida.

Ó Grande sábio, são “Jnanas” e “Siddhis” (poderes Taumatúrgicos)


antagônicos entre si, ou, de algum modo, relacionados um com o outro?

123
Deste modo louvado e inquirido por mim, o Bhagavan fixou-me
profundamente e assim falou:

Aquele que se elevou ao “Sahaja Sthitti”, (Estado Natural), está, sem esforço
algum, praticando tremendo “Tapas”(penitencia) dia após dia. Não existe inércia
absolutamente em “Sahaja Sthitti”.

Esses “tapas” tremendos (penitencia), nada mais são do que a permanência


no Ser sem esforço algum. Através desses “tapas”(penitencia) incessantes, o
discípulo amadurece (em Poderes) a cada minuto.

Ó bem amado, de perfeito amadurecimento, os poderes manifestam-se no


Vidente, a seu devido tempo. Se Prãrabdha estiver nessa direção até um “Jnani”
poderá demonstrar esses Poderes.

Assim como o mundo não é reconhecido pelo sábio como outro que não o
Ser, assim também esses Poderes em ação não serão, para Ele, outra coisa que
não o Ser.

Ó sábio que não tem tal Prãrabdha, embora Todo-Poderoso, não se agita
absolutamente, e é como um oceano sem ondas.

Quem se prende ao Ser naturalmente, não procurará outro curso (Porque) a


fixação no nosso Ser Real, é, na verdade, a união de todos os Poderes.

“Tapas” sem esforço (penitencia) é denominado “Sahaja Sthitti”. O


amadurecimento em “Sahaja Sthitti” se diz que gera os Poderes.

Aquele que reside permanentemente no Ser, mesmo que rodeado por


muitos, está apenas fazendo uma penitencia inspiradora de reverencia, não há
necessidade alguma de isolamento para ele.

124
Aquele que pensa que “Jnana” está isento do Poder, é realmente ignorante.
Porque o “Jnani” está na verdade identificado com seu Sr Real o qual é todo
penetrante e todo poderoso.

No Sri Râmana Gita, a Ciência de


Brahman, a Escritura do Yoga,
composto pelo discípulo
de Râmana, Vasishtha
décimo primeiro canto
Intitulado:

SOBRE A HARMONIA DE “JNANA” E


“SIDDHIS”

125
12° CANTO

SOBRE “SAKTI”

No decimo nono dia, Kapãli, da linha Bharadwaja, de notável intelecto entre


os ilustres, perguntou ao Guru Râmana ( o seguinte).

Kãpali (falou):

Ó Bhagavan, a tríade – o sujeito, o objeto e o processo de cognição (ligando-


os), é discernível na vida como do Jnani e do ignorante.

Então, qual a distinção que torna o Jnani superior à pessoa ignorante? Cabe-
vos, ó Senhor, mover esta minha dúvida.

Bhagavan respondeu:

Para aquele que o sujeito não é diferente do Ser a cognição e o objeto


também não parecerão diferentes do Ser.

Para aquele que o sujeito não é diferente do Ser, em virtude do apego ao


corpo, a cognição e o objeto também se apresentam diferentes do Ser.

Na diferença aparente, o Jnani percebe apenas a não-diferença, o essencial


(unidade): enquanto que a pessoa ignorante cedendo à diferença aparente,
diferencia-se a se mesma.

Kapali perguntou:

126
Ó Senhor, o Ser no qual estas diferenças que consistem de tríades aparecem
é dotado ou desprovido de Skti (poder)?

Bhagavan respondeu:

Ó criança, o Ser no qual estas diferenças constituídas de tríades, aparecem,


dizem os versados na Vedanta, ser o Todo-poderoso.

Kapali perguntou (novamente):

Esse Sakti de Deus que é exataldo pelos Vadantinos – é dinâmico ou


estático?

Bhagavan respondeu:

Ó bem amado, é somente pelo movimento de Sakti que os mundos vem à


existência. Mas as Substancias que proporciona oportunidade a esse movimento,
nunca se move.

O movimento se Sakti que pertence ao Substratum estático e que cria o


universo, é declarado pelos entendidos como sendo a indefinível Maya (ilusão).

(Este) movimento aparece ao sujeito como se fosse real. Mas o Ser


(Substratum), não tem realmente movimento algum, ó melhor dos homens.

Deus e Sakti parecem ser diferentes em virtude da visão objetiva. Se a visão


for retirada, os dois se tornam um.

Kapali perguntou:

127
Se esta atividade de Deus, que criou os inúmeros mundos visíveis, é eterna
ou efêmera, cabe ao Bhagavan responder.

Bhagavan explicou:

Ó Único Supremo, embora dinâmico pelo Seu próprio Sakti Supremo, é


(realmente) estático. Este profundo segredo pode somente ser compreendido
pelos sábios.

O movimento é apenas a atividade; a atividade é denominada Sakti. Através


da Sakti, o Ser Supremo criou tudo esto que é visível.

E a atividade é de dois tipos – “Pravitti” (manifestação) e “Nivritti” (Não-


manifestação). O texto Védico “Onde todos se tornam unicamente o Próprio Ser”,
apresenta “Nivritti”.

A palavra “todos”, aí, indica a diversidade aparente na dualidade; e pela


palavra “tornam-se” é indeferida uma espécie da atividade.

Da especificação de “unicamente o Próprio Ser” todas as coisas particulares


nascidas dele (o Ser), se diz que terminam somente no Ser.

Ó melhor dentre os homens, o Ser não é compreendido sem Sakti (isto é,


não pode haver percebimento sem Sakti). Sakti é conhecido pelos dois termos
“Vyãpãra” (Atividade) e “Asraya” (Substratum).

A atividade, tal como a criação do Universo, é denominada pelos entendidos


de “Vyãpara”. “Asraya”(Substratum), ó melhor entre os homens, não é outro senão
o Ser.

128
O Ser, por ser iminência em todos, não depende absolutamente de outra
coisa. Quem conhecer Sakti como Atividade e Substratum é verdadeiro
(conhecedor).

Onde não existe atividade Satta (Existência) não pode ter diversidade. Se
satta transcende Sakti, não pode de modo algum surgir qualquer atividade.

Quando, no curso do tempo, a grande dissolução do Universo ocorre, esta


atividade permanece submersa no Ser diferenciado.

Toda esta atividade jamais teria lugar sem Sakti; tampouco pode haver
criação ou este conhecimento que consiste da tríade.

Ao único Sakti transcendental são dados dois nomes: Ser (como substratum),
e Atividade (em virtude da sua propriedade criadora).

Ó homem valioso, aqueles que definem movimento como sendo atribuído as


Sakti devem apresentar como Substratum (desse movimento) alguma Realidade
Suprema.

Aquela única Realidade Suprema, que alguns ilustres conhecedores chamam


de Sakti, alguns chamam se Ser, alguns chamam Brahmam, outros chamam de
Parusha (Pessoa).

Ó minha criança, a Verdade é compreensível de dois modos – pelos Seus


atributos e por Si Própria. É definida pelos Seus atributos, mas é experimentada
no Ser Real (da própria Verdade).

Por conseguinte, o Ser é conhecido de dois modos – pela sua atividade e na


sua realidade, isto é, pelos seus atributos e por estar em unidade com o Ser.

129
Meu filho, o Sr, dizem, é o Substratum e a atividade é seu atributo. Pela
atividade, conhecendo a sua fonte, a criatura permanece no Ser.

Ó homem valoroso, sendo o Ser assim discernível pelo atributo conhecido


como atividade, deve ser dito, por conseguinte, que é eternamente ativo.

Se perceberdes realmente, verei que a (atividade não é outra coisa) senão a


Realidade. Toda esta diferenciação é apenas imaginária.

Esta criação, conhecida como esporte de Sakti, é apenas a projeção mental


(forma-pensamento) de Deus. Se esta projeção mental é transcendida, só o Ser
permanece.

No Sri Râmana Gita, a Ciência de


Brahman, a Escritura do Yoga,
composto pelo discípulo
de Râmana, Vasishtha
décimo segundo canto
Intitulado:

SOBRE “SAKTI”

130
13° CANTO

IGUALDADE DE DIREITOS DO HOMEM


E DA MULHER PARA O “SANNYASA”

A luz suave emanando da linha Atreya, casou com a linha Vasishtha, a mãe
do bravo e sábio Mahadeva (um exemplo para as senhoras), dedicada ao serviço
do mundo e à pratica de grande Sri Vidya, que começa com “Ka”, e louvada pelos
sábios, o primeiro Guru ao sul as Vindhyas), para o Tara-Vidya, minha associada
no penitencia e companheira de minha vida, a formosa Visãlãkshi de grande
renome, apresentou duas perguntas por meu intermediário ao benemérito
universal, o sábio denominado Râmana.

Se a mulher que reside no Sr achar que o lar é um obstáculo e por isso


renuncia a ele e se torna asceta, podem as suas ações encontrar aprovação a
efetuar-se – cremação ou sepultamento?

Tendo ouvido estas duas perguntas, Bhagavan, o grande sábio que conhece
a verdadeira interpretação de todas as escrituras, seu veredicto a respeito.

Até mesmo para as mulheres que agem permanecendo no Ser e que estão
suficientemente amadurecidas, porque as proibições não lhes são aplicadas,
Sannyãsa (santidade) não está errado.

Sendo a libertação e a “Jnana” o mesmo (para o homem e a mulher), os


restos mortais da mulher, libertada durante a vida, não devem ser cremados.
(Porque) seu corpo (também) é um templo (casa de Deus).

131
Quaisquer que sejam os males que resultem da cremação do corpo do
homem liberto, resultarão da cremação do corpo da mulher libertada.

No vigésimo primeiro dia, foi esta declaração proferida relativamente à “Jnani


mulher” pelo sábio Râmana Maharshi.

No Sri Râmana Gita, a Ciência de Brahman, a


Escritura do Yoga, composto pelo discípulo
de Râmana, Vasishtha Ganapathi, este
é décimo terceiro canto Intitulado:

IGUALDADE DE DIREITOS DO HOMEM E DA


MULHER PARA O “SANNYASA”

132
14° CANTO

SOBRE A LIBERTAÇÃO AINDA NESTA VIDA

Na noite do vigésimo primeiro dia, Veidarbha da linha Bharadwãja, como


sobrenome de “Sivakula”, sábio e grande entre os ilustres e um grande orador,
inquiriu Sri Maharshi sobre “Jivanmukti”(libertação em vida). Então, estando todos
atentos para ouvi-lo, ele assim falou:

A inabalável permanência no Ser, não afetado pelas Escrituras ou


inclinações mundanas, é denominada “Jivanmukti”.

Visto que a “parjnãna” (consciência permanente) é indiferenciada, Mukti


(libertação) é só de um tipo. Aquele que é liberto da escravidão enquanto ainda
no corpo, é chamado “Jivanmukta”.

Não existe realmente diferenciação na experiência entre um Jivanmukta e


aquele, que de acordo com as Escrituras, vai para “Brahma Loka”(o mundo de
Brahma) e ali se torna um Mukta (libertado).

Também a experiência do Mahatma, cuja força vital é absorvida (no Ser) aqui
somente (no momento da morte), é idêntica, ó homem sábio, à desses dois
anteriormente mencionados.

Sendo a permanência no Ser inalterada e a destruição da escravidão


também, Mukti é só de um tipo. A diferença se apresenta apenas nas mentes
alheias.

133
Ó melhor dentre os homens, quanto ao Mahatma, que intensificando-se com
o Ser, se liberta em vida, suas forças vitais são absorvidas aqui somente 9ao
morrer).

As vezes, devido à maturidade do “tapas”(penitencia), o Jivanmukta pode


atingir intangibilidade, apesar de reter a forma.

Sendo maior a sua maturidade, a invisibilidade também virá. Tal Siddha pode
então vaguear por aí, fruindo da pura consciência.

Ó melhor entre os homens, estes dois poderes que se relacionam com o


corpo, podem também vaguear por aí, fruindo da pura consci6encia.

Esta diferença não significa, entretanto, qualquer distinção dentro do estado


glorioso de Mukti (libertação). Seja com o corpo, ou sem ele, aquele que
identificou-se com o Ser, é Mukta (libertado).

O homem que sobe através de (Sushumnã) “Nadi” para o caminho da luz,


etc., (*) torna-se iluminado e liberto no mesmo instante.

Ao devoto Yogi de maturidade mental adiantada, é concedido o mais alto


estado através de (Sushumna) “Nadi” pela Graça Divina.

Este pode vaguear por todos os mundos à vontade; pode tomar qualquer
corpo que desejar; e até pode redimir (outro) pela sua Graça.”

O mundo dos Muktas, alguns sábios o chamam “Kailasa”, outros o


denominam de “Vaikuntha” e, ainda outros, de Reino Solar.

____________
(*) – Vide Apêndice I.

134
Ó ser ilustre, todos aqueles mundos de Muktas, como estes mundos
terrestres, são criados no Ser pelo Maravilhoso poder da manifestação da Sakti.

No Sri Râmana Gita, a Ciência de Brahman, a


Escritura do Yoga, composto pelo discípulo
de Râmana, Vasishtha Ganapathi, este
é décimo quarto canto Intitulado:

135
15° CANTO

SOBRE “SRAVANAM”, “MANANAM”


E “NIDIDHYASANAM”

Ó Senhor, o que é “Sravanam”? o que é “Mananam”? Ó Chefe da linha dos


sábios, o que quer dizer ser “Nididhyasabam”?

Assim inquirido por mim, Bhagavan, o melhor entre os conhecedores de


Brahman, assim falou em meio à reunião dos Seus discípulos, na manhã do
vigésimo segundo dia.

Alguns dizem que ouvir do Guru textos Védicos com seus significados e
comentários é “Sravanam”.

Outros dizem que ouvir do Guru Auto-realizado, nas suas palavras e na sua
própria linguagem, a explanação sobre o Ser, é (também) “Sravanam”.

Tendo ouvido os textos Védicos ou as palavras do próprio Guru, ou sabendo


sem nada dever ao mérito de nascimentos anteriores; ouvir a voz interna declarar
“Vós, a fonte do pensamento-Eu, sois diferente do corpo, etc.,” isto é, na
realidade, “Sravanam”.

Alguns descrevem “Mananam” como meditação sobre o significado das


escrituras. Realmente, O bem amado, Manamam é a procura (interior) do Ser.

Ó alma honrada, a convicção intelectual referente a Brahman, o Ser, sem a


mínima confusão ou duvida, é declarada por alguns como “Nididhyasanam”.

136
O mero conhecimento das escrituras referente à Unidade, não obstante livre
de erro e de dúvida, não pode conferir experiência.

Ó Vasishtha, ambos, a dúvida e o erro no crente. Mas quando a fé diminui


um pouco, ambos reaparecem.

A escritura dissipa dúvida e erro no crente. Mas quando a fé diminui um


pouco, ambos reaparecem.

Ó Vasishtha, ambos são eliminados somente pela experiência do Ser. Por


conseguinte, interência no Ser, é declarado como sendo “Nidhyasanam”.

Ó bem amado, todo são eliminados somente pela experiência do Ser, sente
inclinação para o exterior, jamais terá Conhecimento direto mesmo sendo Versado
em centenas de escrituras.

Ó chefe do “Kundinas”, se a residência no Ser for natural (sem reforço) isso é


libertação, esse é o Estado Supremo, isso se chama Realização.

No Sri Râmana Gita, a Ciência de Brahman, a


Escritura do Yoga, composto pelo discípulo
de Râmana, Vasishtha Ganapathi, este
é décimo quinto canto Intitulado:

SOBRE “SRAVANAM”, “MANAMAM” E “NIDIDHYASANAM”

137
16° CANTO

SOBRE A DEVOÇÃO

E inquirido sobre a Devoção, o melhor dos homens, o Mahatma, o sábio,


Bhagavan Râmana falou (assim).

O Ser é querido por todos, nada tá mais precioso que o Ser. O Amor contínuo
como um fio de azeite, é chamado Devoção.

O Sábio (“Jnani”), através do amor, sabe que Deus não é outro senão seu
próprio Ser. O outro (devoto), mesmo considerando Deus como separado,
submerge-se e permanece no Ser.

Esse amor que flui para o Todo-Poderoso, como um fio de azeite, mesmo
sem o desejo (mental).

O devoto, enquanto se considera um indivíduo limitado e de pouco


conhecimento, adotará a toda penetrante e suprema Realidade, como Deus,
visando a remoção de (toda) tristeza. Assim, adorando AQUELE como Deus, ele
alcança afinal AQUELE somente.
Ó melhor entre os homens, à medida que atribuímos nomes e formas ao Ser
Divino, através desses mesmos nomes e formas, transcendemos a ambos-Nome
e Forma.
Quando a Devoção se tornar perfeita, um único Sravanam (ouvir algo a
respeito da Realidade) é o suficiente. Então a devoção conduzirá ao conhecimento
Perfeito.

138
Aquela Devoção que não tem um fluxo contínuo se diz ser intermitente. Isso,
em devido tempo, resultará em Devoção Suprema.

Aquele que oferece devoção visando a realização de um desejo material, não


se sentirá feliz ainda que tenha alcançado e reaplicado o mesmo desejo. Ele
voltará a adorar a Deus, por fim, para a sua perante felicidade.

Devoção, embora associada ao desejo (material), não diminui ao ver


satisfeito esse desejo. A Fé arraigada no Ser Supremo, não pode deixar de
germinar e crescer.

Tal Devoção crescente, será perfeita a seu tempo. Pela Devoção perfeita e
suprema, se atravessa o oceano do nascimento. Assim como pelo Conhecimento.

No Sri Râmana Gita, a Ciência de Brahman, a


Escritura do Yoga, composto pelo discípulo
de Râmana, Vasishtha Ganapathi, este
é décimo sexto canto Intitulado:

SOBRE A DEVOÇÃO

139
17º CANTO

SOBRE O ALCANCE DE “JNANA”

No vigésimo quinto dia, Vaidarbha, notável entre os ilustres, prostrou-se


humildemente e inquiriu o sábio mais uma vez.

Vaidarbh perguntou:

“Jnana” (Conhecimento) aumenta gradualmente, dia a dia? Ou ela se


manifesta de uma só vez, como o sol?

Bhagavan respondeu:

“Jnana” não aumenta gradualmente, dia a dia. Pela maturidade da prática


brilha na sua totalidade, de uma só vez.

Vaidarbha perguntou:

Ó Bhagavan, durante o curso da Sadhana (prática), o pensamento é


observado a entrar e a sair respectivamente. Pode a retirada do pensamento se
chamado “Jnana”?

Bhagavan respondeu:

Ó ser ilustre, introverter a mente e exteriorizá-la novamente, a isso se chama


somente prática. “Jnana” é a experiência constante.

Vaidarbha perguntou:

140
Ó melhor entre os santos, certas fases do “Jnana” tem sido descritas nas
escrituras pelos mais doutos, Como poderão elas ser interpretadas?

Bhagavan respondeu:

Ó sábio, todas essas fases mencionadas nas escrituras, aparecem somente


nas mentes dos outros, como distinções em Mukti (Libertação). Para os Jnanis,
entretanto, “Jnana” é uma só coisa.

Outros, observando a atividade do corpo, dos sentidos, etc., que ocorrem de


acordo com o Prarabdha de cada um, expõem as fases. Mas na realidade não
existe gradação.

Vaidarbha perguntou:

Pode Prajnana (Consciência Permanente), a destruidora de toda a


ignorância, uma vez alcançada, desaparecer no caso da ignorância brotar pelo
apego novamente?

Bhagavan replicou:

Ó descendente da linha de Bharadwja, Prajnana, aquela que se opõe à


ignorância, uma vez alcançada, jamais será derrotada.

No Sri Râmana Gita, a Ciência de Brahman, a


Escritura do Yoga, composto pelo discípulo
de Râmana, Vasishtha Ganapathi, este
é décimo sétimo canto Intitulado:

SOBRE O ALCANCE DE “JNANA”

141
18° CANTO

PAPSÓDIA SOBRE “SIDDHAS”

(Daquele) que foi nascido na linha ilustre de Parasara, que trouxe renome
para a comunidade Brahmanin, filho de Sundara Pandita, de alma pura, de olhos
grandes como as pétalas de lotus;

O habitante no Ashraman e Arunáchala, o Paramahamsa (santo da mais alta


ordem), e sem mácula, o constante, que aceitou a vida ativa pela Graça, mas
sempre reside no Ser imperecível.

Aquele cujas palavras dissipam todas as dúvidas, o olhar que é como um


gancho para o elefante no cio, ou seja a ilusão, que incessantemente se empenha
na felicidade dos outros mas é muito, muito negligente ao Seu próprio corpo;

Aquele cujo corpo reluz com o brilho de uma manga, que tem absoluto
controle sobre os sentidos volúveis, cuja esposa é a grande Valli (*), de imortal
Chit, cujas poucas palavras proferem a essência das Agamas (Escrituras).

Que, pelos seus puros e resplandecentes raios remove em tempo (breve) a


inércia dos adorados a Seus pés, como o sol é adorado pelos seus próprios raios,
que é uma fonte de méritos sem fim;

__________
(*) Valli – uma das duas consortes do Senhor Subrahmaya.

142
Aquele cuja palavra é a própria brandura, de olhar meigo e a face de lótus
desabrochado, de mente vazia, como a lua à luz do dia, que está brilhando no
Coração como o sol no céu.

Que é severo para com Seu próprio corpo, que é rigorosamente austero, cuja
mente auto contida é adversa a toda a multidão de objetos dos sentidos, que,
nascido nas ondas do Espírito, está submerso na felicidade;

A encarnação de Seus Subrahmanya que, quando Ganapathi dizendo: “A


Mãe é minha” sentou-se no colo de Parvati, declarou “Não faz mal, o Pai é meu”, e
subiu ao colo de Siva e foi por Ele beijando na cabeça;

Que é deidade oculta indicada pelo Mantra (*) “OM VACHADHUVE NAMAH”
(Saudação aquele nascido da Palavra);

Que é um asceta sem “Danda” (Bastão) e entretanto é “Dandapãni”


(Manejador do Bastão, um nome de Deus Subrahmanya), que é “Tãraka”(auxílio
da travessia) do oceano da tristeza e entretanto é o inimigo de “Taraka” (Demônio
morto por Subrahmanya), que tendo renunciado a “Bhava”(nome do Deus Siva),
que é “Hamsa” ( ) (1) Paramahansa, (2) Cisne e entretanto é desprovido de afeto
por “Mãnasa” (= (1) mente, (2) o nome do Lago peto do Monte Kailãsa;

Que é nada menos que o Monte dourado “Meru” na sua gloriosa


imperturbabilidade, que – pela Sua paciência ultrapassa a Terra imóvel a
alimentadora de todos, que é o exemplo de autocontrole, que está mais distante
até mesmo do sussurro do tumulto;

___________
Vide Apêndice II

143
Que em graça se assemelha à lua, em brilho é igual ao sol, e pela
permanência em Brahman (o Supremo) lembrai-nos do Pai (Senhor
Dakshinãmurti), que habita ao pé da arvore de “banyan”, que está imperturbável,
que é mais novo do que (Ganapathi);

Em cuja cabeça (Sahsrãra) brilha ainda agora o formoso Devanema


(literalmente exercido dos Deuses – o nome da consorte de Deus (Subrahmanya)
na forma de pensamento auspicioso, que ainda não foi tocado por Cupido, que
apesar de ser um chefe de família á ainda chefe entre os ermitões.

Que é o despensador de favores do mundo dos devotos, que brilha como o


Mestre até mesmo de Ganapathi o ilustre preceptor de Mantras que como o
Mandãra (a árvore celestial) leva consigo a tristeza de todos aqueles que
procuram abrigo a Seus pés;

A reencarnação de Bhattapada (*), que compôs “Tantravãrtika, o elixir dos


Vedas, cintilando com tão brilhantes e engenhosos argumentos, ganhou o louvor
de todos os letrados que, entretanto, elucida agora os pronunciamentos da
Vedanta;

O Mestre que compôs as cinco jóias do Hino a Arunáchala (**) que contêm a
quintessência de toda a Vedanta o que, apesar de puros e curtos, são todos
aforismos compreensíveis;

__________
(*) Bhattapada Kumarila Bhatta) foi um firme aderente dos Vedas e de Perva-
Mimãnsa da escola de Jaimini, enquanto que Sri Bhagavan, apesar de
anteriormente encarnado como Kumarila Bhata, está ocupado no exposição da
Vedanta, a Uttara-Mimãnsa da escola de Vyasa.
(**) Vide Apêndice III.

144
Que, apesar de conhecer Sânscrito e de não Ter tido qualquer contato com a
literatura, tem tal inspiração em composição, que as palavras lampejam numa
torrente de idéias;

A reencarnação da criança Brahmane (*), o grande poeta de pronunciação


ritmada, que foi amamentando pela Mãe do Universo e cantou louvores a Siva, o
Sábio de inteligência ilimitada;

A terceira encarnação (**) nesta terra do Deus (Subrahmanya) que fez um


buraco na Montanha de Krouncha, a encarnação tomada a fim de dissipar as
trevas do mero raciocínio ao revelar do Estado de Brahmanishtha (Residência do
Supremo Ser);

O celebrado poeta da língua Drávida adorado por Agatya e outros sábios,


que vislumbrou a Luz Eterna suprema pela Sua inteligência apenas, sem (o auxílio
de ) um Mestre;

Que, sem a mínima parcialidade, dá a mesma Graça a um menino ou a um


rude pastor, a um macaco ou a um cachorro ou velhaco, a um homem de letras ou
a um de simples devoto.

Poderoso ao mesmo tempo pacífico, cheio de devoção mas sem


diferenciação, desapaixonado mas ao mesmo tempo cheio de afeto, para todos
dotado de glória Divina ma humilde na sua conduta;

Que escreveu, “E vou à presença do Meu Pai. Portanto, não há necessidade


de ser procurado”, deixou seu lar e chegou ao pé de Arunáchala;
___________
(*) Santo Jnãnasambandha
(**) As outras duas encarnações são: Kumarila Batta e Santo
Jnanasambandha, como mencionado supra.

145
A tal ser, embelezado com todas as boas qualidades, que é conhecido como
Bhagavan Râmana, Amritanatha Yatindra, inquiriu a respeito da Glória sem limites
de “Siddhas” (Seres aperfeiçoados).

Bhagavan, o habitante do Monte, disse-lhe, “A glória de Siddhas está além


da compreensão. Eles (Siddhas) são iguais a Siva, de fato são formas do Próprio
Siva, e Eles são, também, capazes de conceder a realização de todos os
aspirantes”.

No Sri Râmana Gita, a Ciência de Brahman, a


Escritura do Yoga, composto pelo discípulo
de Râmana, Vasishtha Ganapathi, este
é décimo oitavo canto Intitulado:

RAPSÓDIA SOBRE “SIDDHAS”

146
APÊNDICE I

ARCHIRADI – MARGA

Versículos 13 e 14 – Cap. XIV

O seguinte é o sentido do trecho do Brilhdaranyaka-Upanishad (VI – 2 – 15),


que explica o caminho de Archis, etc., (Archiradi – Marga):

Aqueles que assim sabem ( o curso das reencarnações) e se entregam, com


fé, à busca da Realidade na solidão (e sobem pelo Nadi Sushumna quando a vida
foge), são recebidos e conduzidos pela deidade conhecida como “Archis”(Chama,
Raio), à deidade que preside o Dia (Ahar-devata), que os conduz à deidade da
Quinzena – Brilhante, que, por sua vez, aos leva ao gripo de seis deidades que
presidem os seis meses do curso-norte do sol. Estas seis deidades dos conduzem
à deidade dos Celestiais (Devas). E, então, alcançam o Sol; e do Sol eles vão
para a deidade de Vidyut (luminosidade do relâmpago). De lá eles são conduzidos
às Regiões de Brahma-Loka por uma pessoa nascida da mente de Brahman e lá
vivem na Glória eterna de Mrahman, Jamais voltam (à região do nascimento e
morte).

Archiradi-Marga é também resumidamente descrito no Chadoya Upanishada


(VIII. 6), do seguinte modo:

Os raios solares unem este mundo ao Sol e estão igualmente ligados aos
Nadis dos indivíduos. A alma desenvolvida alcança deste modo o sol que é a
Porta-de-entrada para o Brahma-Loka.

147
Dos cento e um Nadis do Coração, um segue para a cabeça. Aquele que
sobe por este Nadi atinge a imortalidade; os outros Nadis conduzem para outras
regiões (inferiores) Vide Canto 15,12, Sri Ramana Gita).

148
APENDICE II

Explicação do Décimo Versículo,


Décimo Oitavo Canto, que expões o Mantra – Guru.

Vedãti – A origem dos Vedas, isto é, OM, Pakadamanottara; Pakadamana é


Indra (1ª) e ao lado deste (uttara) é Va. Kachchapesa é a sílaba-raiz cha de Rudra
conhecido como Kurmesa. Dharãdhara (montanha) é a raiz da, Sushupti denota
Bha o símbulo-raiz de Sakti, conhecido como Nidra (sono) e Amareswara é U o
simbolo de Amareswara (Rudra) e dbhu é obtido juntando estes três. O Sakti
Suksmaamrita é representado por E e aquele com Amrita, Va, o símbolo da água,
se transforma em Ve. E estas letra com Pranati (reverência), isto é, Namah
formam o Mantra OM VACHADBHUVE NAMAH, e Bhagavan Ramana é descrito
aqui como seu Sentido Secreto compreendido pelos Sábios. Deste modo, o
Mantra de Bhagavan (Ramana) Guru é obtido deste versículo como OM
VACHADBHUVE NAMAH.

Guru Mantra Bhashya


(de Sri Ganapathi Muni).

149
APENDICE III

Referente ao Versículo 17 – Cap. XVIII

CINCO JÓIAS
de
HINO A ARUNÁCHALA

Ó Oceano nectário cheio de Graça


Em cujo esplendor o Universo está mergulhando O ARUNÁCHALA, Alma
Suprema
Sede o Sol para o completo desabrochamento do lótus da Mente.
Em Vós, Ó ARUNÁCHALA,
Todo este panorama surge, existe e se dissolve;
Vêde! no Coração, como o “EU” o Ser
Vós dançais. Por isso Vos denominam Coração.

Donde surge o “EU”?


Assim indagando, com o puro intelecto inteiramente introvertido
Conhecemos o nosso Ser.
E mergulhamos, Ó ARUNÁCHALA, em Vós, como o Rio imerge no Oceano.

Rejeitando (todo) o objetivo externo,


O yogi, com a respiração e a mente controladas,
Medita em Vós no seu íntimo e vislumbra
Em Vós, Ó ARUNÁCHALA, a Luz transcendental.
Quem quer que esteja com a mente dedicada a Vós,

150
Vos vislumbra, e como Vossa Forma sempre Vos adora com amor indivisível,
Aquele brilha, Ó ARUNÁCHALA, em Vós – a Bemaventurança Eterna.

151
ÍNDICE

Prefácio ...................................................................................................88
Introdução .................................................................................................91
1º Canto – Sobre a Importância de “Apasana”..........................................96
2º Canto – O Caminho Triplo.....................................................................100
3º Canto – o Dever Supremo.....................................................................102
4º Canto – Que é “Jnana”..........................................................................104
5º Canto – Sobre o Coração......................................................................106
6º Canto – Conhecimento sobre o Controle da Mente...............................109
7º Canto – Da Capacidade para a Autopesquisa e seus Pormenores.......111
.8º Canto – Sobre “Ashramas”....................................................................115
9º Canto – Sobre o Desatamento de “Granthi”...........................................117
10º Canto – Sobre a Sociedade.................................................................120
11º Canto – Sobre a Harmonia de “Jnana” e “Siddhis”...............................122
12º Canto – Sobre “Sakti”...........................................................................126
13º Canto – Igualdade de Direitos do Homem e da Mulher para
o “Sannyasa”. ............................................................................................131
14º Canto – Sobre a Liberdade ainda nesta Vida.......................................133
15º Canto – Sobre “Sravanam. “Manavam” e “Nididhyasanam”..................136
16º Canto – Sobre a Devoção.....................................................................138
17º Canto – Sobre o Alcance de “Jnana”....................................................140
18º Canto – Rapsódia sobre “Siddhas”.......................................................142
Apêndice I – Archiradi-Marga......................................................................147
Apêndice II – Explicação do Décimo Versículo, Décimo Oitavo
Canto, que expõe o Mantra-Guru..............................................................149
Apêndice III – Referente ao Versículo 17 – Capítulo XVIII.........................150

152