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NÃO HÁ DOIS DIAS IGUAIS

O luxo
do tempo
O piloto António Félix da Costa,
a jornalista Clara de Sousa
e o médico Vítor Almeida
acertam os ponteiros para falar
de tempo. Ou da falta dele

E N T R E V I S TA S

C O M P O R TA M E N TO

MONTRA

GASTRONOMIA

PEQUENOS PRAZERES

VINHOS

CARROS

RELÓGIOS

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4

ÍNDICE

6|13 Entrevista
António Félix da Costa,
Clara de Sousa e Vítor
Almeida: Amanhã é
sempre tarde demais

14|15 Comportamento
É hora de parar, dizer não
e descansar
Bárbara Wong
18|23 Shopping EDITORIAL
Uma montra

O tempo é de luxo
a três tempos

24|28 Gastronomia
Esperar nunca soube
tão bem

N
30|34 À mesa
É Natal, reúna a família o pulso não trazem um relógio, mas
e confie no chef um contador do tempo que têm de vi-
da. Ela parece ter 25 anos; aliás, todos
parecem ter 25 anos, mas, naquele
36|39 Prazeres dia, ela celebra os 50 e tem um auto-
Rituais que exigem tempo carro para apanhar após o trabalho.
Naquela sociedade tudo se paga com o contador de
tempo impresso no pulso e ela não tem tempo sufi-
40|41 Garrafeira ciente para comprar a viagem. Não por egoísmo, mas
Vinhos que merecem ser por razões de sobrevivência, ninguém está disponível
guardados para melhor para lhe dar o tempo necessário para aquela desloca-
desfrutarmos deles ção. Ela acaba por ficar na paragem e decide correr
ao encontro do filho, só ele poderá salvá-la, dar-lhe
tempo. Corre, corre o mais depressa que pode, na
42|46 Carros ânsia de conquistar mais tempo.
Quando a idade Nesta sociedade distópica, o tempo é um luxo. Os
é um posto ricos andam devagar, saboreiam tudo com calma, e
os pobres correm, correm pela sua vida. É assim no o piloto António Félix da Costa, a jornalista Clara de
mundo criado pelo neozelandês Andrew Niccol, que Sousa e o médico Vítor Almeida — gente para quem
48|49 Relógios escreveu e realizou o filme In Time (2011), com Justin o tempo é cronometrado ao minuto.
Vintage e nostalgia: Timberlake e Amanda Seyfried. Andará a imaginação Já a Susana Pinheiro conversou com alguns es-
à procura da perenidade de Niccol tão longe da nossa realidade? “Tempo é pecialistas que dão conselhos precisos sobre como
no luxo dinheiro”, dizemos. nos organizarmos de maneira a alcançarmos algum
Com frequência queixamo-nos de falta de tempo bem-estar. Dizer “não” é um conselho útil para os
50 Crónica — de tempo para estarmos connosco, com a família que têm medo da palavra e das suas consequências.
O tempo deles ou os amigos, para sairmos da rotina. No fundo, pa- E a prática do não pode começar desde já, quando
ra pararmos ou simplesmente andarmos devagar e planear os próximos dias de festa. A sugestão é pa-
saborearmos aquilo a que se decidiu chamar “coisas ra que entregue a organização e confecção a quem
boas da vida”. É disto que vos falamos nas próximas sabe, seja a um chef num restaurante ou num hotel,
páginas desta Ímpar. A Sandra Nobre sentou-se com seja em sua casa, abrindo a cozinha a alguém que se
preocupe com tudo, inclusive com a limpeza. Quem
sabe assim ganha tempo para pôr na mesa algumas
das dez sugestões reunidas por Ricardo Dias Felner
de produtos que precisam de tempo para conquis-
tar sabores complexos, como o queijo de São Jorge,
as sardinhas e as anchovas ou as compotas e o pão
de fermentação lenta. Para acompanhar, um vinho,
escolhido com tempo e para guardar: as propostas
são de Pedro Garcias.
Fernando Melo e João Mestre dedicam-se ao tempo
DIRECTOR que é preciso para apreciar produtos considerados de
MANUEL CARVALHO luxo como os charutos e os whiskies, mas também a
EDITORA música e a leitura. Fernando Correia de Oliveira viaja
BÁRBARA WONG no tempo e regressa, meio século depois, para nos
DESIGN contar que os relógios mecânicos, aqueles que pare-
SÓNIA MATOS cia que iam morrer, estão mais vivos do que nunca. E
Carla B. Ribeiro também escreve sobre o tempo que
marcou algumas marcas automóveis, eternizando-as
ESTA REVISTA É PARTE nas nossas estradas.
INTEGRANTE DO JORNAL PÚBLICO A imortalidade é o nosso maior desejo e, por isso,
DE 24 DE NOVEMBRO DE 2019 E NÃO nada como trabalhar para ela, dando-nos tempo, a
PODE SER VENDIDA SEPARADAMENTE nós e aos outros. Boas festas!
6 ENTREVISTA

Ama
é semp
tarde
dema
ENTREVISTA 7

anhã
pre Se a vida fosse uma corrida, quem ganharia na urgência dos acontecimentos:
a máquina que acelera para a meta às mãos do jovem piloto, a notícia que chega sem aviso
e se sobrepõe a todos os acontecimentos, as mãos que tentam devolver a vida dos homens?
O piloto António Félix da Costa, a jornalista Clara de Sousa e o médico Vítor Almeida
acertam os ponteiros para falar de tempo. Ou da falta dele

SANDRA NOBRE textofotografias RUI GAUDÊNCIO

mais
8 ENTREVISTA

António
agora se dedica às ondas grandes [entrou este ano no
Big Wave Tour da World Surf League] e quer levar-me
a surfar na Nazaré, disso tenho mais medo. Adoro
fazer surf, mas pensar numa onda de dois metros

Félix
leva-me ao meu limite.
Na Fórmula E, os carros são eléctricos. A
pegada ambiental e a mensagem que se está
a passar a uma nova geração de adeptos são

da Costa
importantes?
Vou ser sincero: não era. Aos 23 anos não ligava muito
nem percebia o impacto. A Fórmula E mudou a minha
visão. Por um lado, está a mostrar que os carros eléc-
tricos são cool, andam depressa, são mais eficientes
do que um carro a gasolina. A vertente da carga das
baterias é, neste momento, o maior inconveniente,

T
mas irá mudar nos próximos anos. Viajo muito e há
em 28 anos. Vive a vida cronometrada cidades que estão congestionadas em todos os sen- As horas de sono são fulcrais?
ao minuto. Nas corridas automóveis tidos, e pensar na possibilidade de estar no centro O descanso e o sono são importantes. Eu durmo seis
corre contra o tempo que dita os re- de Nova Iorque ou Xangai só com carros eléctricos, a ou sete horas, acordo muito cedo todos os dias, devia
sultados — a glória de um lugar no tranquilidade que seria, a poluição que não haveria. dormir mais.
pódio pode estar apenas a uma frac- Temos de olhar pelo planeta. O jetlag deve baralhar ainda mais o relógio
ção de segundo. O mundo está a mudar a alta velocidade e biológico.
Está em contagem decrescente para o início do com ele os hábitos e a forma de estar. Revê-se É complicado. No ano passado, por exemplo, fiz uma
campeonato na Arábia Saudita. À medida que na geração Y, dos millennials, nas causas que corrida na China, outra na América e outra no Japão,
o dia se aproxima, é difícil dosear as emoções? defendem? seguidas. Tento dormir nos aviões, mas nessas altu-
Agora sinto, sobretudo, ansiedade, por querer muito Estou a fazer o meu papel para tentar tornar o mun- ras ando à deriva.
voltar ao trabalho e recomeçar a temporada. Há mui- do um sítio melhor, não para hoje, nem para daqui Viajemos no tempo, lembra-se da primeira
ta coisa nova este ano, como ter mudado de equipa, a cinco ou dez anos, que acho que ainda não terá lição de condução?
ainda mais sendo bicampeã, o que faz que esta seja a impacto, mas para dar um futuro melhor aos meus Tinha cinco ou seis anos, ao colo do meu pai, numa
minha melhor chance de alcançar um título grande, netos. As mudanças têm de ser progressivas, começa- estrada de pedra. A primeira vez que andei num carro
é para isso que tenho vindo a trabalhar nos últimos mos pelos carros, depois serão os navios e os aviões. foi no Kartódromo de Évora com o meu irmão mais
anos. Desde 2014, quando não entrei na Fórmula Mas não podemos ser de extremos, como não temos velho, aos sete anos. A primeira metade da minha
1, tenho-me alinhado com esse objectivo e ganhei de deixar de comer carne nem ser todos vegetaria- carreira foi toda sem carta de condução.
alguns títulos pelo caminho. Espera-me uma longa nos, podemos começar por reduzir o consumo. É Pelas influências familiares, era inevitável vir
época pela frente e é preciso saber manter a calma e preciso mudar os hábitos de quem nasce hoje, será parar às corridas?
gerir todas as expectativas. Mas vai ser um ano bom. mais difícil mudar a geração do meu pai. Só com o Não. Somos seis irmãos e só três é que correram,
Na pista, o tempo dita o lugar no pódio. Dá tempo se conseguirá. mas claro que fui motivado para o desporto, para os
tempo para pensar em alguma coisa? Numa entrevista dizia: “A geração do meu pai motores, para as corridas. Nunca tive dúvidas de que
Não, naquele momento, a única coisa que me passa nem quer ouvir falar em carros eléctricos.” era isto que eu queria fazer. Quando estava nas aulas,
pela cabeça é a curva a seguir, estou constantemen- O meu pai odiava carros eléctricos e desde que as- esperava pelo toque da campainha para ir treinar,
te a tentar analisar o que se está a passar à minha sistiu a uma corrida ficou fã. Essa é a magia, não se contava os dias para a próxima corrida.
volta, se vou ter de defender ou atacar. A Fórmula gosta até ao dia em que se experimenta um, porque Os estudos acabaram por ficar pelo caminho?
E pede muita gestão de energia, da própria corrida, são muito mais eficientes e há um certo sex appeal Acabaram no 12.º e nunca fui para a faculdade, tive
um erro na primeira volta pode custar-me na últi- em terem potência sem fazerem barulho. O barulho sorte, fiz um curso diferente.
ma, todos os erros contam. É preciso gerir bem os do motor de um Ferrari ou de um Porsche eram a Tem pena de não ter continuado a estudar?
recursos — pode acontecer precisar de 50 litros para sua imagem de marca. A Porsche acabou de entrar Por um lado, até tenho. Adorava ter vivido o ambiente
finalizar a corrida e só me deram 40, e aí tenho de na Fórmula E e de lançar o seu primeiro modelo de faculdade, a vida de estudante universitário. Ho-
garantir que tudo se resolve. Um litro a mais pode 100% eléctrico, isto há cinco anos era impensável. je em dia, dou mais valor aos estudos. Mas não me
sair-me caro. Tenho uma equipa técnica muito forte A Ferrari e a Lamborghini, é uma questão de tem- arrependo. Agarrei as oportunidades para me focar
que trata disso. Em simultâneo, estou de olho nos po. Os miúdos que nascem hoje, quando tiverem 18 na minha carreira e, felizmente, acabei por vingar.
meus concorrentes. Mas estou contra o tempo para anos, provavelmente irão estranhar que um carro Com 28 anos e tantos anos de competição,
correr o mais rápido possível. faça barulho. Mas eu adoro carros, a minha carreira sente que sacrificou a juventude para chegar a
O medo espreita sempre entre as rectas e as foi construída a conduzir carros com motor a gaso- este patamar?
curvas? lina, cada categoria tem o seu propósito. Sacrifiquei muito. Não tenho as saídas à noite que
Ainda não o sinto, nesta fase só há adrenalina, e é o Quando passa para o WEC, o Mundial os amigos têm, não posso alinhar em todos os pro-
que me move. Acho que o dia em que sentir medo de Endurance, o corpo pede tempo de gramas e viagens, mas não me arrependo de nada.
é altura de pendurar as botas. Felizmente, nunca preparação para estas corridas? E como encara a fama e os holofotes?
estive envolvido em nenhum acidente grande. Já ti- Sim, é completamente diferente. Ter de guiar duas ou Não sou nenhum Cristiano Ronaldo. Às vezes, há
ve algumas pancadas fortes, mas é tudo tão rápido três horas seguidas é um desafio muito duro, físico e essa vertente na abordagem das pessoas, tenho de
que nem dá tempo para me assustar. Em décimos mental. Uns dias antes começa a ser feita a prepara- ter algum cuidado no que faço em público, ainda
de segundo perdemos o controlo do carro. Mas já ção ao nível da alimentação, acompanhada por um mais agora que cada telefone tem uma câmara e se
assisti a acidentes de colegas do circuito, alguns que nutricionista, o açúcar e a cafeína são importantes pode chegar a milhões de pessoas, mas não é um
morreram, e, nessa altura, começamos a pôr tudo para o corpo reagir quando tenho de conduzir às 3h. problema.
em perspectiva, mas faz parte deste desporto, é o Os preparadores físicos também têm um papel fun- Quem o ajuda a manter os pés no chão quando
perigo que o torna tão especial. damental. Na Fórmula E são corridas muito rápidas, se ganha asas tão cedo?
Qual foi a velocidade máxima que já atingiu? mais exigentes psicologicamente, com temperaturas A minha família e os meus amigos. Gostam de ter pes-
Foi num carro de Fórmula 1, numa recta da pista de mais altas nos circuitos. soas à minha volta que me dizem as coisas como são,
Abu Dhabi, aproximadamente, 340km/h. Na Fórmu- não mandam areia para os olhos. Se fizer algo mal,
la E atingimos 230 ou 240km/h, mas é muito mais gosto que me digam, aceito uma crítica construtiva
impressionante porque corremos nas ruas do centro que dê para aprender. Vejo atletas que se rodeiam
das cidades, onde os carros circulam habitualmente daqueles que dizem que está sempre tudo bem e que
a 30 ou 40km/h. Em Zurique, no ano passado, corri são os melhores do mundo. As carreiras têm altos e
em ruas completamente desfeitas, com calçada, aos baixos e preciso de pessoas que me digam o que está
saltos, onde o limite é 30km/h e nós a andarmos a mal, o que é preciso mudar. Os meus pais, os meus
mais de 200km/h, foi de loucos. irmãos, os meus amigos têm esse papel.
O surf é outra das suas paixões, esta emoção Entre irmãos houve sempre um espírito
da alta velocidade é o equivalente a surfar competitivo?
uma onda gigante? Não. Tenho a sorte de o meu irmão Duarte me ajudar
Ainda ontem estive com o Nicolau von Rupp, que em tudo, é ele quem faz a gestão da minha carreira,
ENTREVISTA 9

Perfil
Estreou-se há dois dias na chinesa DS Techeetah,
a actual equipa bicampeã da Fórmula E, o recente
campeonato de carros eléctricos, depois de seis
épocas ao serviço da BMW, onde se transformou
num piloto profissional. Arriscou na mudança
com a ambição de ganhar corridas e
campeonatos. Antes do início da temporada na
Arábia Saudita, foi apontado como um dos
favoritos ao título mundial, nas palavras do
presidente da prova, Alejandro Agag. Ainda há
duas semanas venceu, na categoria LMP2, as
4 Horas de Xangai, para o Mundial de Resistência
(WEC), pela equipa da Jota Sport. Aos 28 anos, o
piloto mostra que está empenhado em deixar o
seu nome na história do automobilismo. António
estreou-se nos karts, vingou no programa jovem
da Red Bull, esteve próximo da Fórmula 1.
Viveu sempre em Cascais e no ano em que não
entrou na Fórmula 1 começou a fazer surf. Só não
se atreve nas ondas gigantes.

sem ele a minha vida seria muito mais complicada.


Podia até haver alguma inveja, porque ele também
correu, e é o meu maior fã. A família é muito unida.
Que lugar tem a Fórmula 1 na sua vida?
Sou um fã. Ligo a televisão, ao domingo, para ver as
corridas. Conheço muitos pilotos, corri contra eles,
continuo a ter uma relação óptima. Fechei esse ca-
pítulo há dois anos.
É como uma ex-namorada?
Mas uma ex-namorada em que acabou tudo bem.
Por acaso, são todas assim, apesar de a minha avó
não gostar muito que eu seja assim.
Quem é o seu ídolo?
Tenho pessoas que idolatro, cada uma na sua fase.
Como atleta, o americano Travis Pastrana, porque é
incrível em várias vertentes, no motocross, nos ralis,
nas manobras, foi o primeiro a conseguir um duplo
mortal para trás nas motos [o duplo backflip]. Como
piloto, Sebastian Vettel, trabalhei com ele de perto e
aprendi imenso. Mas o meu maior ídolo é o meu pai,
não tem filtros, deve ter mais inimigos do que ami-
gos, mas diz-me as verdades na cara e é com quem
consigo rir-me, adoro tê-lo por perto.
A velocidade que experimenta nas corridas
faz que viva a um tempo diferente dos outros?
Sem dúvida. Passo os meus dias contados ao minuto.
Sou muito pontual. Ter trabalhado durante muitos
anos com uma empresa alemã [BMW], onde todos
são ultra-organizados e disciplinados, influenciou-me
muito. Venho a Portugal dois dias e tenho de fazer
essa gestão para ter tempo para tudo o que preciso.
Fora das pistas, como passa o tempo?
Muito descanso, muito ginásio, surf e o máximo de
tempo com a família e os amigos.
Há muita solidão também?
Sim, às vezes um bocadinho a mais. A quantidade de
vezes que entro nos restaurantes e peço mesa para
um... Hoje até prefiro, do que estar com alguém e
ter de fazer conversa. É muito importante uma pes-
soa conhecer-se a si própria e eu conheço-me bem,
aprendi a conhecer-me nesses momentos. Com os
telefones e o FaceTime é menos grave.
Se pudesse ter tempo agora para o quisesse,
em que o usaria?
Precisava de dois meses sem entrar num aeroporto,
num avião, só para curar o meu corpo, fazer massa-
gens e fisioterapia. Falta-me tempo para dar ao meu
corpo aquilo de que ele precisa.
10 ENTREVISTA

Clara
representa uma ameaça séria e acabou por obrigar a
uma atenção ainda maior e ao aparecimento de pro-
jectos como o Polígrafo SIC, com a proliferação de no-
tícias manipuladas ou falsas. É um fenómeno mundial.

de Sousa
Há situações em que podemos trabalhar em conjunto
com o cidadão que está no local e que pode ajudar a
complementar a informação. As televisões fizeram-
-no no caso dos incêndios, ataques terroristas e ca-
tástrofes naturais em que havia um português para Por não se saber qual é o limite?
relatar o que viu. Esse pode ser um caminho em que O limite é copiar a realidade, em que já não se sabe o
retiramos o melhor de cada um. Há situações que se que é verdade e o que é mentira. Já há algumas situa-

U
tornam relevantes, como os peditórios, como foi o ções perfeitas em que não se percebe a diferença. Na
m dos rostos do prime-time da infor- caso da bebé Matilde, em que surgiram outros casos, revolução industrial, as máquinas ocuparam muitos
mação televisiva na SIC, onde tantas e que acabou por ser resolvido mais rapidamente. postos de trabalho, a revolução tecnológica vai custar
vezes a “última hora” chega em direc- Quando assim é, pode ser a diferença entre a vida e mais vidas a esse nível.
to e pede as palavras certas. O sprint a morte. Mas, noutros casos, perante a escalada de Podemos ter uma Siri [uma assistente pessoal
mediático a tentar ganhar tempo às uma informação alegadamente falsa, o que podemos digital] a apresentar o noticiário?
redes sociais. fazer é tentar desmontá-la. Às vezes, fico preocupada Pois, só não sei como é que ela lidará com situações de
No jornalismo, a gestão do tempo é primordial? com a falta de critério e de consciência das pessoas imprevisibilidade, mas essa nunca gaguejará, nunca
Nós gostaríamos de ter mais tempo. Há trabalhos de que se tornam alvo de manipulação. É a iliteracia me- estará cansada... Quando for tudo dispensável, o que
jornalismo, mesmo em televisão, que demoram mui- diática, sabem ler e escrever, mas deixam-se levar. E sobra? Não quero imaginar, mas a revolução está em
to. A Amélia Moura Ramos esteve meses para fazer os se para algumas gerações não há muito a fazer, nas curso. Não sabemos se, como no passado, a realidade
cinco episódios de Entregues à Sorte, as crianças dos novas deve-se apostar na educação. Isto não é só jor- vai ultrapassar a ficção. Fala-se muito do Orwell e do
Açores que foram entregues para adopção; a Sofia nalismo, é cidadania. 1984, ele teve a capacidade de olhar para o futuro e
Pinto Coelho levou um ano para fazer a série Vidas As pessoas continuam a ter tempo para a projectá-lo, hoje ainda se vai mais longe. Veja-se as
Suspensas. Quando podemos tê-lo, é precioso e é be- informação televisiva? eleições americanas, as manipulações, a perversão
néfico, dá-nos tempo para pensar e enquadrar melhor Penso que sim, diariamente temos mais de um mi- do que nós enquanto cidadãos queremos. O que es-
os factos. No directo, nomeadamente no trabalho do lhão de pessoas que vêem os noticiários. Há uma dis- tamos a fazer com a liberdade de crescermos digital-
pivot, estando sujeito a uma série de imprevisibilida- persão muito maior, sabemos que as gerações mais mente e que se vira contra nós. Quero acreditar que
des, obriga-nos a fazer tudo rapidamente. novas cada vez vêem menos e a televisão tal como a a maioria ainda quer viver em democracia, que preza
Há directos que, sendo curtos, parecem conhecemos provavelmente está condenada, mas irá a liberdade, foi por isso que lutámos. Os mais novos
demorar uma eternidade? adaptar-se como os jornais fizeram ao saltar do papel são a nossa esperança, por isso têm de ser formados
Aí são as pessoas e as suas circunstâncias que fazem para o online. Às redacções é exigida uma reacção e estar conscientes.
a diferença, tanto do pivot como do repórter, como mais rápida, o que acaba por afectar a qualidade do É preocupante que sejam mais as más notícias
do editor ou do repórter de imagem, todos têm de que se oferece, mas depois de se entrar no ritmo já do que as boas?
tomar decisões rápidas para que saia o melhor resul- se evitam alguns erros que podem ter sido cometidos Depende. Também tem mais que ver com o aumento
tado possível. Muitas vezes temos de aguentar uma numa fase mais inicial. Já não é a maratona, são sprints do espaço para notícias, com o advento dos canais de
situação, por exemplo se estivermos à espera de um de 100 metros. A questão é como podemos fazer o informação, a imprensa online, os alertas constantes.
convidado. O silêncio é perturbador, espera-se que o melhor trabalho possível. O que é notícia? O que rompe com a normalidade, que
repórter no local tenha informações e nem sempre Os meios de comunicação não se devem demitir é novo. Todas as redacções têm acesso às mesmas
tem. Os melhores repórteres são o que fazem que tudo do papel de educar? imagens que nos chegam das guerras, cabe-nos a nós
pareça natural e importante. Qualquer jornalista sob a Tem que ver com cidadania. A história já nos mostrou ter algum filtro. Queremos que as pessoas estejam in-
pressão está entregue a si próprio, ao seu background, aonde nos conduzem os povos desinformados, e es- formadas, que se indignem, mas não queremos chocar
às suas capacidades, e aí se vê a diferença. tamos a ir por esse caminho. e aterrorizar. Isso é puro terrorismo. Depois, há umas
Qual foi a sua pior circunstância? Os resultados da abstenção nas eleições em notícias para respirar, as reportagens que têm um im-
Não me lembro... Já disse asneiras, coisas que não Portugal são o espelho dessa realidade. pacto forte, que nos fazem pensar, rubricas úteis, mas
estavam certas, um dia houve uma atrapalhação na Sim. As pessoas não sabem em quem acreditar, depois também outras mais leves, música, teatro, cinema,
régie e entrei no ar a dizer: “Depois não te esqueças de tanta liberdade chegaram a uma fase de cansaço mas são igualmente informação. O jornalismo, seja
de me trazer os papelinhos.” Mas isso é normal. Já me e querem que alguém venha e resolva. Não pode ser, de que sector, só tem de ser bem feito. Só espero que
ri de forma incontrolável. Parto sempre do princípio não dá bom resultado. A História mostrou-nos que persista o bom senso no jornalismo do futuro.
que não sei e que pode correr mal, por isso, faço um depois o que se impõe é um desejo de autoridade que Os anos de profissão aumentam ou diminuem a
esforço para aprender. Nunca vou para uma entre- descamba em novas ditaduras ou democracias amor- pressão do directo?
vista ou para um debate numa lógica de ligeireza. Se daçadas. É isso que temos de combater. A História é O que os anos fazem é dar mais tranquilidade. A expe-
vai durar 20 minutos, eu preparo-me para uma hora. cíclica, preocupa-me que as pessoas não aprendam riência permite navegar e reagir de forma mais fria em
Começo a stressar muito antes, não gosto quando os com os exemplos. relação a algumas situações mais difíceis. Há outras
outros deixam tudo para a última, gosto de ter tempo Se pudesse viajar no tempo, que acontecimento em que não é possível e já me aconteceu. Odeio coi-
para me preparar, é a melhor garantia de que vou fazer histórico gostaria de poder noticiar? sas gravadas, não tenho paciência, não trocaria por
as coisas da melhor maneira. Uma vez sonhei com isso, sonhei com a Joana d’Arc... nenhum directo. Gosto do noticiário diário, porque
Sobretudo quando se trata de outros formatos, Por tudo o que representava de ruptura, pela bipo- se renova, nunca é igual.
como foram recentemente os debates eleitorais larização e o que a História acabou por demonstrar. Dizia recentemente que só se retirará quando
das legislativas, em que todos os assuntos Mas nunca faria o relato de uma execução em público, não se sentir capaz. Esta é uma das profissões
podem ser chamados à conversa? como o enforcamento de Saddam ou outras situações em que não há idade para terminar.
Aí obriga a muita preparação, a ler muito, a ver tu- complicadas. Relataria o depois, contextualizando Não tenho noção da finitude do tempo. Esta geração
do o que disseram antes, abordar os temas que os os acontecimentos. Tenho um fascínio pela Segunda que saiu das rádios, como eu e o José Alberto de Car-
divide mais do que os que os une para provocar um Guerra. Não seria repórter de guerra, nesse aspec- valho, está a envelhecer no ecrã. O que mais me entris-
bom debate. Este ano foi estranho, nunca me tinha to não sou muito aventureira, apesar de ter feito um tece nas redacções é as pessoas irem-se embora cedo
acontecido, mesmo nos temas em que os partidos curso com os comandos para estar preparada numa demais, e faltam referências no dia-a-dia, aqueles que
estavam claramente contra, os candidatos entraram situação dessas. Seria interessante acompanhar. Mas assistiram, que participaram, que já viveram tantas
numa estratégia de não levantar grandes ondas, e is- hoje estamos a testemunhar um período que, não sen- situações, esses devia haver mais.
so foi frustrante, mas acontece. E quando os convi- do tão mortal, faz outro tipo de vítimas, que tem que E esse envelhecimento a que assistimos
dados começam a falar mais devagar para queimar ver com um novo paradigma da sociedade que se vai assusta-a?
tempo? Os telespectadores não entendem que, por instalar em poucas décadas. O advento da inteligência Não. Não me preocupam as rugas, não tenho especial
vezes, usam as entrevistas para fazerem campanha artificial é, ao mesmo tempo, fascinante e aterrador. cuidado, só não gosto das olheiras, mas vou fazer 52
e elevarem bandeiras e não querem responder. Mas anos, é o que sou.
é aos jornalistas que dizem: “Não os deixam falar...” Fora do ecrã, passa mais tempo na cozinha ou
O alcance da Internet através das redes na bricolage?
sociais acabou por interferir na divulgação da Na cozinha, mais do que uma vez por dia, se for pre-
informação. Apressou o tempo do jornalismo? ciso. A bricolage é uma vez por mês, mas divirto-me
O que se sabe nas redes sociais? Isso não é jornalismo, muito.
ENTREVISTA 11

A maioria das receitas é de preparação rápida.


Diariamente, damo-nos pouco tempo para
cozinhar?
Não é o nosso tempo, é o tempo da receita, pode ser
30 minutos, mas pode ser quatro horas. Quando pre-
paro massa de pão para as baguetes rústicas, o tempo
que dedico à massa é pouco, e vou à minha vida. Da
mesma forma, preparo as bochechas que vão ao forno
numa caçarola de barro preto, fica quatro horas, mas
não preciso de ficar ali a olhar. O slowcooking é isso.
Há coisas que, para serem boas, têm de ter tempo. É
como a memória de conforto emocional do tempo das
avós, o tempo que dedicavam à família e à cozinha,
e que eu respeito imenso porque esse tempo é amor.
Daí o desafio da receita do Dia dos Avós?
Sim, no Dia Mundial do Avós, a 26 de Julho, desafiei
os leitores a enviarem-me receitas com que identifi-
cavam os avós. Recebi muitas que revelam a pobreza
que se vivia, pelos ingredientes que usavam. Percebe-
-se quem eram as famílias mais ricas e mais pobres, é
interessante essa parte sociológica.
Dá-se tempo a si própria?
Acho que já nem sei parar, é muito estranho. Só quan-
do estou derreada é que me deito no sofá ou me dou
ao luxo de ver uma temporada inteira de uma série
como fiz com o Breaking Bad ou o Game of Thrones.
Tenho outras exigências, sou eu que faço tudo. Ainda
ontem estava com as luzes e os tripés na cozinha para
filmar as receitas. Trabalho de madrugada, filmo, fo-
tografo, trato as imagens, escrevo, edito. Dá-me gozo,
mas abuso, sou um pouco ansiosa. Nas outras redes
partilho pouco, tem de fazer sentido, tem de ter algum
significado. Nesse aspecto, tenho imensa sorte, tenho
o carinho das pessoas, e a cozinha ajuda nisso, muitas
que achavam que eu era muito séria...
Conquistou-as pelo estômago?
Mais do que o estômago, conquistei-as por não as de-
siludir. Acreditam naquilo que lhes digo no jornalismo
e quando explico uma receita, exemplifico e perce-
bem que é fácil e resulta, isso reforça a confiança. E
respondo a toda a gente, ninguém o faz por mim, e
as pessoas valorizam isso.
Não é inalcançável.
Quando estou no noticiário, estou a representar uma
redacção, uma estação, não sou só eu. Nunca quis
ser inalcançável, é mais a ideia que as pessoas fazem
do que sou.

Perfil
Jornalista. Chegou à televisão no início dos anos
1990, vinda da Rádio Marginal. Tornou-se a
primeira cara da informação da TVI, seguiu-se a
RTP, até chegar à SIC há 18 anos. Foi jurada no
programa Família Superstar e, apesar da
polémica, não sentiu que a sua credibilidade
ficasse abalada. Enquanto pivot prepara-se para
cada desafio, os grandes e os pequenos. Gosta da
adrenalina dos directos. Mas nunca se atreveria
no jornalismo de guerra.
Tem três livros de culinária e um website ao qual
se dedica com paixão (claradesousa.pt), onde
partilha receitas, explicadas passo a passo, e
projectos de bricolage. Esta sua faceta fez que
fosse ainda mais acarinhada pelo público que lhe
reconhece seriedade e confiança. Apresenta o
Jornal da Noite, na SIC, alternando com Rodrigo
Guedes de Carvalho, o que lhe valeu o prémio de
Melhor Jornalista/Apresentadora na gala dos
Troféus Impala de Televisão 2019, que disputou
com Judite Sousa (ex-TVI), Conceição Lino (SIC),
Cristina Esteves (RTP1) e Sandra Felgueiras (RTP1).
Ao Programa da Cristina disse: “Só deixarei o
jornalismo no dia em que achar que já não estou
em condições.” Não planeia que seja tão cedo.
Dentro de dias completa 52 anos e não esconde o
orgulho nos seus dois filhos.
12 ENTREVISTA

Vítor
É necessário definir qual o tempo de resposta que te-
mos de cumprir para poder socorrer os cidadãos em
tempo útil. A assimetria geográfica e demográfica que
temos torna muito difícil cumprir esse objectivo. Nós

Almeida
temos de alocar os meios de socorro contabilizando
a proximidade do cidadão, o tempo de casuística que
temos de servir e uma rede que garanta a equidade
do território. Um cidadão que vive na Pampilhosa da
Serra tem o mesmo direito que um indivíduo que vive
ao lado do hospital Amadora-Sintra, e o Estado tem

N
de garantir essa segurança. Isso só se faz se existir
as emergências médicas, a rapidez do uma lei que defina tempos de resposta e níveis de
diagnóstico é determinante e os erros resposta qualitativos. equipa, por exemplo, num acidente ou durante um
pagam-se com vidas. Quem está no Quando a emergência pede um helicóptero, desencarceramento, e interagir com as equipas que
terreno carrega essa responsabilidade entra outro factor na equação, o estado do estão no local. É preciso ver que quem exerce esta
nas mãos. E há marcas que ficam que tempo. actividade fá-lo, na maioria dos casos, em período
o tempo não apaga. As pessoas têm uma visão errada do que é a rapidez extra-laboral e a carga horária desse profissional po-
No dia-a-dia das equipas do INEM, trabalha-se ou o potencial do socorro aéreo. A utilização de he- de chegar a 60 ou 80 horas semanais. Isto levanta
essencialmente contra o tempo, o tempo de licópteros permite a alocação de equipas altamente questões de segurança.
reacção, o tempo da chegada ao hospital... qualificadas, médico e enfermeiro, junto das vítimas De consciência também?
O tempo é crucial, mas não se esgota na rapidez da em zonas remotas. Mas a utilização de helicópteros Quem está numa viatura médica, numa ambulância,
chegada ao hospital, vai além das equipas médicas e durante a noite é limitada por razões de segurança. tem a clara noção da responsabilidade e do peso que
do transporte do doente. É mais complexo. E as condições climáticas que temos, porque somos carrega nos ombros. Saber gerir essa pressão é outra
Começa na chamada a pedir socorro? um país montanhoso, onde chove, onde existe ne- arte. Quantas vezes aquilo que fazemos todos os dias
Não é só aí. A verdadeira perda de tempo, que acaba voeiro, condicionam o helicóptero. É uma mais-valia falha, como seja uma entubação que não estamos
por resultar muitas vezes em mortes evitáveis — a mas não vai resolver o défice dos meios terrestres a conseguir à primeira e sentimos o stress e temos
nossa grande luta —, prende-se com a identificação. que cubram a totalidade do território nacional. Não todos os olhos virados para nós. Cada vez mais não
Por exemplo, um indivíduo que por volta da uma pode ser a coluna dorsal do sistema, tal como num há tolerância ao erro, quase que se exige que seja-
hora acorda com uma dor no peito, desconforto e jogo de cartas, tem de ser o ás que utilizamos no mos perfeitos e não somos perfeitos, erramos como
que tem a noção de que não está bem, frequente- momento certo. qualquer outro profissional, mas o erro paga-se na
mente, volta para a cama na esperança de que o Pegando nesta imagem do jogo de cartas, hora e essa pressão existe.
mal-estar passe. Isto é grave. Temos muitos doentes a sorte ou o azar são as variáveis não Também acontece as pessoas revoltarem-se
com enfarte de miocárdio, com AVC, com falta de ar, controláveis. contra as equipas?
que estão duas ou três horas em casa com receio de Não faz sentido que haja cinco níveis de socorro e Existe mais violência perante os profissionais quando
ligarem pela possibilidade de ser algo mais grave. É que dependam da sorte do doente. Por exemplo, um tentam socorrer, seja bombeiros, Cruz Vermelha,
nesta identificação da situação crítica pelas pessoas indivíduo com suspeita de enfarte na serra da Lousã, técnicos de emergência do INEM, as próprias equi-
que se perde muito tempo. se tiver sorte e for um dia de sol, consegue que um pas médicas na rua. Seja porque as pessoas espe-
Em contrapartida, recebem muitas chamadas helicóptero de Santa Comba Dão se coloque na zona ram e desesperam ou porque o sistema falhou e a
que não são efectivamente situações de em cerca de 15 a 17 minutos. Mesmo com a estabi- ambulância não conseguiu ser activada em tempo
urgência... lização e o voo para Coimbra, numa hora o doente útil ou por pura maldade. Nós temos de dar a cara
Muitas pessoas contactam o 112 sem que existam cri- está numa unidade hospitalar a fazer o cateterismo e o nome, não estamos num gabinete atrás de uma
térios para ser activada uma ambulância, o sistema cardíaco. Se tiver azar, é de noite e já não pode ir o secretária nem trabalhamos anonimamente, estamos
é utilizado de forma abusiva. Somos chamados para helicóptero, terá de ser uma equipa dos bombeiros totalmente expostos.
situações banais e faltamos noutras em que existem que poderá ter mais formação ou não, poderá ter a É preciso ter fé de que se consegue sempre?
doentes críticos, porque os recursos não são inesgo- sorte de a viatura médica de Coimbra estar livre e Não é necessário ser-se religioso para se acreditar.
táveis. É uma questão de educação, ensinar os sinais poder encontrar-se com a ambulância no caminho A abordagem tem de ser positiva. Um jovem de 20
de alerta das situações críticas, que deve iniciar-se ou estar ocupada e não ter esse suporte. Este factor anos, encarcerado, em situação crítica, ou se resolve
na escola primária, quanto mais cedo melhor, mas da sorte ou do destino é o que nós não queremos naquele momento ou vamos perder uma vida. Há
isso não acontece. no sistema, que seja reduzido ao máximo, e isso só muitas situações de idosos que morrem em casa e a
Como uma mala de primeiros socorros que anda é possível aumentando os níveis formativos de todos activação da viatura médica acontece porque a ve-
connosco o resto da vida. os implicados. rificação do óbito só pode ser feita por um médico.
É um bom exemplo. Há países europeus em Quem está no terreno carrega esse peso de ter A fé entra noutro campo, percebermos muitas vezes
que a mala de primeiros socorros faz parte do a vida dos outros nas suas mãos? que fazemos diferença no luto, podermos activar os
equipamento obrigatório nas viaturas particulares, Tenho 24 anos de experiência e a rapidez com que psicólogos do INEM e dar algum conforto aos fami-
e se faltar chumba na inspecção. Porque é que não chegamos é importante, efectivamente, mas o tempo liares. Autoconfiança e humildade têm de estar em
conseguimos importar este modelo? que demoramos a fazer o diagnóstico diferencial, a equilíbrio neste trabalho, temos de ter noção clara
Se houvesse uma cobertura nacional com técni- definir as prioridades e a fazer o plano de actuação, das nossas capacidades e sabermos quais as nossas
cos de emergência pré-hospitalar, como acontece que pode demorar 30 segundos ou um quarto de lacunas e limites.
noutros países, permitiria salvar mais vidas no hora, dependendo da situação, é o grande desafio de Como é que se lida com a morte no terreno?
terreno? quem trabalha nesta área. Temos de ser capazes de Contam-se os mortos?
Grande parte do socorro em Portugal é feito por tri- perceber muito rápido qual a prioridade do doente Não se contam, mas ficam na memória, sobretudo
pulantes de ambulância, parceiros do INEM, que que temos à nossa frente e assegurar os parâmetros na área da pediatria, quando são mortes violentas e
não têm a formação adequada — uma formação de vitais. Numa segunda fase, temos de ver e abordar trágicas, afectam-nos e deixam marcas. A morte de
200 horas não habilita ninguém. Contrariamente ao as causas, ao mesmo tempo garantir a segurança da um idoso no seio da família, em casa, permite-nos,
que se pensa, não temos falta de médicos no INEM, por outro lado, ajudar no luto, porque as pessoas
temos falta de médicos nos quadros, o que se explica culpam-se por não ter pedido auxílio mais cedo e
pela ausência de uma especialidade em medicina de o tempo que demoramos a falar com os familiares
urgência e emergência, o que já existe no resto da não é tempo perdido, é tempo ganho, até para nós.
Europa. Não é possível ter uma viatura médica em São confrontados com o melhor e o pior do ser
cada esquina, temos 44 viaturas médicas a operar 24 humano.
horas por dia e quatro helicópteros, o que queremos Sem dúvida. Um mentor meu, israelita, disse-me
é que até à chegada da viatura médica alguém possa algo que me marcou: quando visitamos um país,
aguentar o primeiro embate do doente e assegurar uma cultura, e entramos em casa de alguém, está
os parâmetros vitais na fase mais crítica até o médico arrumada, oferecem-nos a melhor comida que têm,
chegar. Não é fazermos o trabalho dos médicos, mas o ambiente é muito organizado, o que conhecemos
ganharmos tempo no socorro do doente. é quase artificial. Quando andamos numa viatura
A falta de uma lei em Portugal que defina o médica ou ambulância, entramos nas casas na vida
direito dos cidadãos a ser socorrido em tempo real, com brinquedos pelo chão, roupa suja, comida
útil agrava este “quadro clínico”? de ontem, não é um bloco operatório estéril. Encon-
ENTREVISTA 13

tramos uma pessoa que usa uma fralda e tem uma


garrafa de oxigénio ao lado e acabou de vomitar. Este
é o mundo real que não conhecemos nas faculda-
des e nos hospitais. Temos situações em que temos
populações inteiras a ajudar num salvamento com
múltiplas vítimas, como também temos situações de
agressões, crimes, facadas, tiros, droga, que mostram
o pior do ser humano. Lidar com essas situações não
é fácil, há uma componente emocional que nos deixa
marcas para o resto da vida.
Ganham-se anticorpos ao longo do tempo?
Da minha experiência pessoal, a arte de trabalhar no
pré-hospitalar é conseguir manter a sensibilidade, a
empatia, e não cair no sarcasmo, nas atitudes frias,
mecanismos de autodefesa que não resolvem nem
ajudam. Podermos partilhar com colegas, amigos e fa-
mília, termos na retaguarda psicólogos do INEM que
também nos auxiliam a nós enquanto profissionais é
uma mais-valia. Por exemplo, uma situação concreta
que já vivi: um acidente que envolve a morte de um
jovem bombeiro e são os próprios camaradas a as-
sistir, só a possibilidade de eu falar com o psicólogo
que vai ter com a equipa para poder atenuar e apoiar
os bombeiros acabou por me dar algum conforto.
Nós perdemos muitas lutas e ter essa ferramenta é
fundamental.
No período do Natal, de reunião das famílias,
torna-se ainda mais difícil lidar com a dor e o
sofrimento do outro?
Há outra sensibilidade, há mais dramas familiares,
a solidão é algo que está mais evidente, os dias são
mais curtos, trabalhamos mais de noite, tudo isto
faz que a componente emocional seja mais evidente.
As pessoas também são mais generosas e
gratas?
No momento não há tempo para isso. A seguir, quan-
do deixamos o doente e saímos da sala de emergên-
cia, aí, sim, acontece. Também há o agradecimento
da morte, as reanimações que não têm o desfecho
que gostaríamos, mas as pessoas apercebem-se do
esforço, do quanto lutámos por aquela vida, de ter-
mos tentado, termos feito tudo o que estava ao nos-
so alcance. Não há dinheiro que pague a gratidão,
é o que nos motiva a continuar, é o sentimento de
dever cumprido.

Perfil
Nasceu em Lisboa, em 1966. Estudou Medicina
em Hanôver, Alemanha. Voltou a Portugal aos 28
anos, para exercer medicina geral e familiar no
interior do país. Somou a especialidade em
anestesiologia, pelos Hospitais da Universidade
de Coimbra (HUC). Opera em várias viaturas
médicas de emergência e no Serviço de
Helicópteros de Emergência Médica (SHEM), na
região centro.
Participou em missões internacionais,
nomeadamente na retirada de refugiados da
guerra civil da Guiné, em 1998; prestou
assistência médica em Israel; foi destacado com a
GNR para o Iraque, onde participou no socorro a
um autocarro de passageiros vítima de atentado
suicida bombista; voltou à Guiné, em 2015, como
chefe na missão Ébola.
Cumpre, actualmente, o segundo mandato
enquanto presidente do Colégio da Competência
em Emergência Médica (CCEM), da Ordem dos
Médicos. A cada três meses, presta serviço numa
viatura médica na Alemanha, em Goslar, na terra
onde passou a infância e onde ainda tem família.
Tem 53 anos e três filhos. O tempo de qualidade
encontra-o em cada regresso às origens, na terra
dos pais, na serra do Açor, no contacto com a
natureza, onde o tempo se estica nos dias
passados na aldeia.
14 COMPORTAMENTO

É hora
de parar,
dizer não
e descansar
Com o novo ano à porta, é tempo de pensarmos em
mudar de hábitos e termos novas estratégias para fazer
uma melhor gestão da nossa vida, tempo e energia

SUSANA PINHEIRO textoilustração MIGUEL FERASO CABRAL


COMPORTAMENTO 15

E
quando à meia-noite subir a um ban-
co com as passas na mão, entre os 12
desejos para o próximo ano não se
esqueça de um: dizer não. Confuso?
Devemos começar a dizer não, quando
falta tempo para nós mesmos. Quem o
diz são os especialistas. O objectivo é evitar o cansa-
ço extremo e conquistar qualidade de vida.
“Aprender a dizer não é provavelmente uma das
medidas mais eficazes para ganharmos tempo”,
aconselha a psicóloga Dalila Pinto de Almeida. “Mui-
to mais do que fazer uma gestão de tempo, devemos
saber gerir a nossa energia, ou seja, focarmo-nos nos
nossos objectivos”, acrescenta a coach Rocío Cer-
vino, que criou a Mola, uma empresa de desenvol-
vimento humano, no Porto. É que, ao recusarmos,
estamos a apontar baterias para o que realmente é
prioritário na nossa vida, continua.
Afinal, “se não dissermos não aos outros, estamos
a dizê-lo a nós”, argumenta Rocío Cervino, corrobo-
rada por Ana Tapia, autora do livro Stop: 50 Estra-
tégias para Pessoas sem Tempo: “Ao não dizer não,
estamos a pôr os interesses dos outros à frente dos
nossos.” Às vezes, estamos tão preocupados com
o que os outros possam pensar que “isso nos rouba
energia”, alerta Rocío Cervino, que também coorde-
na um programa de liderança e gestão no Instituto
Superior de Administração e Gestão, no Porto.
E não há que ficar com um nó no estômago a
imaginar o que os outros estão a pensar. Não se diz
não por sermos egocêntricos, mas porque temos de
encontrar o nosso equilíbrio pessoal, emocional e
organizacional. Dalila Pinto de Almeida, autora do
livro Mudar de Vida, dá um exemplo: “Dizer não
quando somos interrompidos a meio de um trabalho
em que estamos concentrados.”
Este tipo de atitude pode permitir orientar me-
lhor o nosso ano e, por consequência, a nossa vida,
tendo em conta que “estamos na era do desenvol-
vimento pessoal”, diz Rocío Cervino. Portanto, é
tempo de abandonar hábitos que nos tiram energia
e rodearmo-nos das pessoas que nos fazem bem,
aconselha a coach da Mola. “Por exemplo, se lhe
pedem para sair depois do seu horário ou a pena-
lizam por não estar disponível para reuniões fora
do seu tempo de trabalho, trata-se de um pedido
ou de uma acção que não é legítima, logo pode e
deve dizer não”, aconselha Ana Tapia no seu livro.

Reflectir no passado
Mas antes de subir ao banco há que olhar para o ano
que finda. “Dificilmente encontraremos o ca- c
16 COMPORTAMENTO

minho certo para os novos objectivos sem conhecer


bem o nosso ponto de partida. Vamos reflectir sobre
o que correu bem”, sugere a coach Joana Areias, que
criou o método Life Purpose Coaching para ajudar
a encontrar um caminho profissional. “Onde é que
sinto que podia ter ido mais além, o que não é para
repetir e o que não é para levar comigo para o no-
vo ano” são mais algumas perguntas para as quais Sugestões de Ana Tapia
devemos encontrar respostas. Só então, continua
Joana Areias, que escreveu o livro Tu Consegues!, • fazer paragens, fazer stop
podemos pensar sobre o que queremos para o no- • levantar-se e andar um bocado
vo ano. Mas nada de ser “guloso” e querer tudo de • não trabalhar muitas horas seguidas
uma só vez, adverte, para não correr o risco de não • descansar
se conseguir o que se quer. • encontrar uma razão para fazer as coisas
Joana Areias aconselha, por isso, a “não desper- • fazer um plano e ter uma agenda
diçar energia com demasiados objectivos, mas sim • ter um objectivo
escolher um único, aquele no qual vou colocar todas • aprender a valorizar-se
as minhas fichas e fazer dele a minha prioridade • fazer tarefas semelhantes para ganhar
‘número 1’ durante os próximos 12 meses”. Dalila tempo e eficácia
Pinto de Almeida recomenda que se deve definir, no
máximo, três prioridades para “minimizar o risco de Propostas de Rocío Cervino
frustração”. Muito importante: não podemos estar
sempre a responder a urgências, senão “é natural • saber o que quer
que aquilo que realmente importa fique para trás • saber o que é mais importante para si
e corremos o risco de chegar ao final do ano sem • definir objectivos
nada ter acontecido”. • fazer a planificação
A psicóloga Teresa Espassandim aconselha a ter- • organizar a agenda para ajudar a disciplinar-se
mos objectivos específicos. O primeiro passo é saber • mentalização positiva: visualizar que já está
qual é o nosso objectivo. Em seguida, “pensar no a acontecer
que ele lhe proporcionará quando atingido e quais • ter reuniões consigo mesmo
são os obstáculos que o podem levar a não o cum-
prir”. Para Rocío Cervino, não devemos só planificar Conselhos de Joana Areias
em Janeiro ou em Setembro, depois das férias, mas
sim constantemente. Devemos interrogar-nos sobre • reflectir sobre o ano que passou; questionar-se:
“qual o nosso propósito de vida, quase como se fos- — em que aspectos estou de parabéns?
se uma missão”, recomenda, aconselhando ainda — que coisas fiz pela primeira vez?
“a trabalhar o próprio desenvolvimento pessoal”. — em que aspectos me sinto uma pessoa melhor
Mas atenção, “não há milagres”, porque este é um e maior relativamente ao ano anterior?
processo de consciência pessoal que tem de partir — o que correu menos bem?
de cada um para melhorar a sua vida. — onde sinto que podia ter ido mais além?
Depois, temos de saber disciplinar-nos e gerir a — o que não é para repetir?
nossa energia, o que depende muito de termos há- — o que não é para levar comigo para o novo
bitos saudáveis, desde a alimentação, passando pela ano?
forma como respiramos e descansamos até ao treino • reflectir sobre o que queremos para o novo ano
da nossa mente. Outra proposta, desta vez de Joana • escolher um único objectivo prioritário
Areias, passa por experimentar questionarmo-nos, • definir pequenas metas intermédias
ao deitarmo-nos na cama: “O que fiz hoje para me • fazer uma espécie de plano de soluções para
aproximar do meu objectivo prioritário?” Na reali- o seu objectivo
dade, continua, “se a resposta for ‘nada’, algo terá • ao deitar-se na cama reflectir: “O que fiz hoje
de mudar. Mas se mostrar que hoje está mais perto para me aproximar do meu objectivo?”
do seu objectivo do que ontem, isso significa que Se a resposta for “nada”, algo terá de mudar
está num bom caminho”, diz Joana Areias.
Teresa Espassandim fala em contraste mental, Ideias de Teresa Espassandim
ou seja, “a ideia de visualizar os nossos resultados
positivos no futuro, depois de atingir o objectivo, • pensar acerca dos seus desejos
mas pensando logo em seguida sobre quais poderão • pensar acerca do melhor resultado positivo
ser os problemas no nosso caminho”. Na prática, pretendido
estamos a visualizar os nossos resultados positivos. • pensar acerca dos potenciais obstáculos
“A utilização desta técnica aumenta a probabilidade • construir o seu plano
de atingir os objectivos”, acredita a psicóloga. Igual
opinião partilha Rocío Cervino, defendendo que é Reflexões de Dalila Pinto
importante “a mentalização ou visualização posi-
tiva”, com recurso aos cinco sentidos, ou seja, pro- de Almeida
jectarmo-nos, apesar de ainda não ter acontecido. • ter uma agenda
Por fim, um conselho importante: não nos • deixar espaço para imprevistos
acomodarmos à vida que temos. “Algures começá- • pedir ajuda é... uma grande ajuda
mos a aceitar que ‘a vida é assim’ e nós temos de • ser muito atarefado não implica ter
nos adaptar”, diz a coach Joana Areias. Não baixe bons resultados
os braços. “Este pode mesmo ser o ano em que
começa a criar a sua própria versão de uma vida
espectacular”, alerta, sublinhado que “daqui a mui-
tos anos pode olhar para trás e pensar que foi em
2020 que a sua vida começou a mudar”. E, para
que isso aconteça, aconselha, “só tem de se tornar
intransigente e não permitir a si mesmo nada menos
do que tudo a que tem direito”. Muito importante:
nada de se sabotar.
SEJaA RESPONSÁVEL. BEBA COM MODERAÇÃO.
18 MONTRA

Regresso
ao início
do séc. XX

Vela Vitral Gold


Inspirada em Mondriaan,
Baobab
265 euros

Chapéu
Em lã, Hacket London
85 euros

Blusa
amarelo/dourado
Sisley
preço sob consulta

Anel Rivière
Em prata com zircónias
e acabamento em ouro,
Topázio
112 euros

Sabrinas
Moscovo Red
Josefinas
395 euros
Óculos de sol
Chloé
265 euros

Conjunto para
a barba
Mühle Shaving,
em muehle-shaving.co.uk
175 euros
MONTRA 19

Relógio
Mille Miglia
GTS Power
Mochila ‘Peaky Control
Blinders’ Chopard
5570 euros
Em peakyblinders.shop
75 euros Mini-carteira
Roseau
Longchamp
360 euros

Vestido
de malha
comprido
M Missoni
570 euros

Sabonete The
Gentleman’s Club
Castelbel
10,20 euros
20 MONTRA Mochila
transparente Sapatilhas

Regresso Eastpak Orbit


de criança
XS Aqua Film Josefinas / Wolf & Rita
70 euros 198 euros

aos anos
80 e 90
Camisola de
Jogo de tabuleiro malha homem
Wacky Races
United Colors of Benetton
Em board-game.co.uk 99,95 euros
40 euros

Óculos de sol
Fendi
260 euros
Ténis
Converse Classic Pro
75 euros

Boneco em vinil
Pop Marty Macfly
Em shop.funko.com
14 euros
MONTRA 21

Jogo de tabuleiro
Monopoly Stranger Things
45,23 euros

Mochila
Longchamp 3D T-Shirt Like
690 euros in America
Em likeinamerica.pt
11,95 euros

Casaco gabardine
Festival
Pinko
615 euros

Bolsa tiracolo
multicolor
United Colors of Benetton Tábua de corte
69,95 euros Cheesy Love Songs
Fred and Friends
Em genuinefred.com
18 euros

Botas
Dr. Martens
159 euros
22 MONTRA

Regresso
ao futuro

Auscultadores
Roller
Luzli
Em luzli.com
3240 euros

Secador de cabelo
Dyson Supersonic Botas de borracha
400 euros 100% em material
reciclado
Lemon Jelly
99,90 euros

Mala de viagem
Tumi Aluminium
Mules em pele Desde 1195 euros

COS
150 euros
MONTRA 23
Gorro de lã
de criança
United Colors of Benetton
19,95 euros

Taça Overlay
Por Patricia Urquiola para
Louis Vuitton Les Petites
Nomades
1600 euros

Roupa infantil
que acompanha
o crescimento
Petir Pli
(vencedor Red Dot Award)
Em shop.petitpli.com
150 euros (conjunto)

Aparelho
de meditação
Muse
Em choosemuse.com
270 euros

Sapatilhas Chuck 70
em borracha
Converse (parceria com
a japonesa Ambush)
180 euros

Companheiro
para dormir
Sommox Sleep Robot
Em meetsomnox.com
599 euros
ANDRÉ RODRIGUES
24 GASTRONOMIA

Esperar
nunca
soube
tão bem
Um dos grandes condimentos Compotas de conserva
Tempo de espera: de uma semana a um ano
da cozinha continua a ser o tempo.
O melhor tomate que se pode comer no Inverno sem-
O tempo amacia, faz nascer sabores pre foi o de compota. Fazer compota serve sobretudo
para aproveitar o melhor da fruta. A prática é antiga,
complexos, confere acidez ou mas foi desaparecendo ao ritmo do comércio mo-
derno, apostado em vender os mesmos hortícolas
simplesmente preserva o que é bom. o ano todo.
Ora, sabemos que o mesmo hortícola não tem a
Ricardo Dias Felner, aka O Homem mesma qualidade o ano todo. Ele tem uma época,

Que Comia Tudo, escolheu é um produto sazonal. Se pensarmos no sabor, no


preço ou até na pegada ecológica, o tomate de Agos-
dez produtos que nos fazem to não é o mesmo de Dezembro. Nem as amoras de
Setembro são iguais às de Abril. Nem os morangos
gostar de esperar de Maio se comparam aos de Fevereiro.
O que as compotas sempre permitiram foi prolon-
gar a vida das frutas, colhidas no seu pico de forma,

RICARDO DIAS FELNER texto de estação em estação, e não deixar estragar nada.
São, portanto, métodos arcaicos mas muito eficien-
tes de conservação, em que o açúcar funciona como
conservante.
Ao contrário das geleias — que não aproveitam
a polpa —, as compotas usam o miolo e por vezes
também a casca. Existem dezenas de possibilidades,
diríamos tantas quantos os frutos: ameixas, cerejas,
framboesas, ginjas, maçãs, pêssegos, nêsperas, bana-
nas e ananás, só para dar alguns exemplos.
O truque está na fruta e em encontrar o ponto cer-
to de cozedura e de açúcar. O mastodôntico Livro de
Pantagruel, de Bertha Rosa Limpo, lista 15 clássicos de
conservas de fruta, a que só são adicionados açúcar
e água, e outro tanto de compotas onde podem en-
trar outros ingredientes, nomeadamente especiarias.
No primeiro caso, o objectivo é preservar pelo má-
ximo de tempo possível as propriedades da fruta. Os
tempos de cozedura são mínimos. Para alperces, por
exemplo, prescrevem-se dois minutos de fervura em
calda. O mais exigente é sempre a lavagem da fruta
e a esterilização dos frascos, feita tradicionalmente
em panelas de água a ferver. Nos casos das compotas
compostas, os casamentos são também vários. O pau
de canela vai bem com ameixas ou maçãs; o ananás
vai bem com rum; as nêsperas com limão; as pêras
e o ruibarbo com vagem de baunilha.
Ponha as panelas ao lume. Faça você mesmo.
ANDRÉ RODRIGUES

?? ??

A compota é
um método
ancestral de
preservar a
fruta para lá
da sua época,
recorrendo ao
açúcar como
conservante
ANDRÉ RODRIGUES
24 GASTRONOMIA

Queijo São Jorge DOP


Tempo de espera: 36 meses
Importa esclarecer que queijo São Jorge e queijo Ilha
não são a mesma coisa. Só o primeiro tem certificação
DOP (Denominação de Origem Protegida) e, como o
nome indica, só o primeiro implica que seja produzido
na ilha açoriana de São Jorge.
Estamos a falar no mais prestigiado queijo feito com
leite de vaca em Portugal, país onde se notabilizam
sobretudo os queijos de leite de ovelha e cabra. Leite
de vaca cru, leite de vacas que pastam a média e alta
altitude, leite de vacas com uma capacidade única para
produzir uma pasta picante e aromática.
O tempo mínimo de cura do São Jorge DOP são três
meses. O máximo hoje em dia produzido por fabrican-
tes certificados é de 36 meses. Uma raridade.
A tendência é para a idade acentuar o sabor, e isso,
no caso do São Jorge, pode até não ser recomendável.
Porém, Pedro Cardoso, dono da loja Queijaria, em
Lisboa, garante que o São Jorge de 36 meses é mais
elegante, “com picantes mais suaves” do que um São
Jorge novo, com três ou quatro meses.
Fora de Portugal, produzem-se outros queijos de
vaca ainda com mais tempo de cura. O Parmegiano
NELSON GARRIDO Reggiano, neste particular, com um processo de pro-
Bovino velho maturado dução parecido ao São Jorge, reina entre os reis. Para
Tempo de espera: 12 anos ser considerado DOP, o parmesão precisa de ter no
mínimo 12 meses de cura, sendo frequentes os com
Houve um tempo recente em que o novilho é que 30 meses.
era. Toda a gente queria novilho. Ora, já não é bem Também de Itália vem aquele que é considerado o
assim. Outra vez. ancião dos queijos comerciais. O Bitto Storico, uma
As modas por vezes são inovadoras, mas no caso variedade antiga, pode ser vendido com 18 anos de
da moda das carnes de bovinos velhos — como em cura. Em 2013, a CNN noticiou que um exemplar com
tantas outras —, o que se está a fazer é a regressar ao 15 anos foi posto à venda na China por 5700 euros.
passado e a fazer aquilo que as pessoas que vivem da Ao pé destes dinossauros lácteos, o nosso São Jorge
agricultura e da pecuária sempre fizeram: aproveitar é um menino, mas um menino com personalidade.
todo o ciclo de vida dos animais — deixá-los dar leite, Um queijo com 36 meses de cura vale cerca de 30
deixá-los trabalhar a terra e a carga, e só os transfor- euros o quilo.
mar em carne no final da vida.
A dificuldade por vezes é a engorda. Os animais de Conhaque XO
leite ou de carga nem sempre são os mais eficientes
Tempo de espera: dez anos
produtores de carne (leia-se, os mais rentáveis). Por
vezes, estão muito magros, ou melhor, não estão tão O conhaque é um brandy especial ou uma aguardente
gordos como é suposto estarem, comparativamente especial, mas tem uma diferença. É que apesar de ser
com outras raças campeãs, como a Black Angus. uma bebida com elevado teor alcoólico (40% a 60%
No caso das vacas leiteiras, um produtor de leite da Presunto ibérico de bolota de graduação alcoólica por volume), obtida através da
zona de Barcelos confessou-me há pouco tempo que Tempo de espera: 36 meses dupla destilação de uvas, tem de ter origem na região
A carne de “elas precisam de parar” de produzir leite durante francesa de Cognac, uma das três regiões demarcadas
bovino velho, uns tempos, antes do abate. “Escolhemos as melho- Tudo começa com o bicho, que deve ser porco-preto do mundo para a produção de aguardentes, sendo as
idealmente res e deixamo-las engordar.” Se tiverem uns quatro ibérico e crescer ao ritmo da alimentação a bolota outras duas Armanhaque e Lourinhã.
com 12 anos, anos — acrescentou — “nem precisam de maturação”. e erva. Dentro dos conhaques, a classificação faz-se pelos
deve o sabor De acordo com um chef ouvido pelo PÚBLICO, al- O processo de cura inicia-se com a salga dos mem- anos de envelhecimento em madeira. O XO (extra old)
inigualável guns dos grandes negociadores espanhóis de carne bros posteriores, cortados a partir da sínfise isquio- é o mais antigo e o mais complexo, com pelo menos
ao pasto bovina premium estão a comprar grande parte das pubiana. Nos melhores presuntos — invariavelmente dez anos em barrica. Mas há boas garrafas que são
melhores vacas leiteiras portuguesas, em fim de ciclo, espanhóis, como o Joselito e o Cinco Jotas —, a salga é VS (very special), mínimo de dois anos, e VSOP (very
Num bom actuando desde o Norte de Portugal até aos Açores, on- ligeira, só o suficiente para preservar a peça. superior old pale), mínimo de quatro anos de enve-
presunto, de não falta matéria-prima — para depois revenderem Depois, os presuntos são transportados para câ- lhecimento.
nada se a restaurantes especializados em carnes maturadas. maras de secagem natural, durante o Inverno, onde Os conhaques XO são naturalmente os mais exclu-
apressa. No mercado dos restaurantes gastronómicos, as ra- começa a fase em que o sal se infiltra na carne. sivos e caros. Quando a China descobriu o luxo, na
A Cinco Jotas ças de bovinos velhos mais procuradas são a arouque- A temperatura é controlada, mas com correntes de década passada, era difícil deitar mão às melhores
tem peças sa, a minhota, a mirandesa, a maronesa e a barrosã. ar serrano a fazer o trabalho lento de desumidificação. garrafas, mas esse mercado abrandou e, actualmente,
com oito anos Parte do sabor inigualável destes bichos tem que ver Não se apressa nada, as estações do ano sabem o que até pela Amazon se podem mandar vir as melhores
com o pasto, que lhes dá um sabor limpo. fazem. Com a chegada da Primavera e do Verão, o ca- referências.
As sardinhas Por serem animais velhos, idealmente com cerca de lor trata de derreter a gordura e de a espalhar pelas A marca que domina o mercado é a Hennessy, com
em lata 12 anos, requerem quase sempre alguma maturação fibras musculares. Está então na altura de estabilizar a sede na cidade de Cognac, estimando-se que contro-
podem para lhes amaciar a carne. A maturação pode ir desde peça, de a envelhecer. Nesta fase, pelo Outono, a mar- le 40% do volume de vendas. Outras referências são
melhorar com 30 dias a 12 meses. Este apodrecimento controlado ca Joselito, por exemplo, coloca os seus presuntos em a Hine, a Delamain ou a Tesseron. Uma garrafa de
a idade. Basta em câmaras de frio leva a que os tecidos quebrem, caves e daqui só os retira passados três ou mais anos. 70cl do melhor conhaque ultrapassa facilmente os
comprar e mas também cria notas aromáticas surpreendentes, A Cinco Jotas tem peças com oito anos, para se ter 150 euros, as de topo chegam aos mil euros. A idade
esperar como as de frutos secos. uma ideia. É o maestro jamonero quem determina tem um preço.
quando a peça está pronta, executando o teste do
calado. Esta técnica consiste em espetar uma fina cala
de osso em vários pontos do presunto por forma a ver
se ela cumpre com os requisitos sensoriais do pata
negra, nomeadamente requisitos aromáticos (diz-se
que é possível distinguir uma centena de aromas).
Todo este processo tem um preço. Um presunto
de bolota grande reserva, com cerca de oito quilos,
dificilmente fica por menos de 900 euros.
NELSON GARRIDO
GASTRONOMIA 29

Conservas de sardinha
Tempo de espera: quatro anos
Está a ver aquela lata esquecida no fundo da despen-
sa? Pois bem, ela não só continua comestível como
o mais certo é estar ainda melhor do que quando
a comprou. Em Portugal, não é comum apostar-se
neste segmento premium, mas existem ainda assim
bons exemplos.
A mais artesanal das fábricas de conservas portu-
guesas é a Pinhais & Co, com sede em Matosinhos.
Nascida em 1920, continua ainda hoje a ter uma pro-
dução essencialmente manual, do corte do peixe
fresco até à preparação dos temperos. A sua marca
Nuri é a mais selecta e onde encontramos a extraor-
dinária variedade de sardinhas em molho de tomate
picante e outros legumes, todos comprados em fresco
e descascados manualmente. Estas latas foram todas
produzidas em 2015, pelo que terão quatro anos de
vida ou mais até quando lhe chegarem às mãos. De
resto, todas as outras variedades da marca — mesmo
as que não são “reserva” — foram enlatadas em 2018,
garante Patrícia Sousa, responsável pela comunica-
ção da Pinhais, o que desde logo garante um produto
diferenciado.
Se a Pinhais é a referência em Portugal, no mundo
brilha mais alto a francesa Rödel & Fils Frères. Eliza- AS GARRAFAS PODEM MUDAR.
beth David, a mais respeitada gastrónoma inglesa do MAS NÃO O PIONEIRISMO DA TAYLOR’S.
século XX, louvou-as profusamente, transformando
aquilo que era um produto de subsistência, particu-
larmente salvífico durante a Segunda Guerra Mun-
dial, num petisco gourmet. A Rödel usa sobretudo
sardinha da costa da Bretanha, região francesa que Quando Job Bearsley chegou a Portugal, em
rivaliza com a costa ibérica em matéria de stocks de 1692, o pioneiro fundador da Taylor’s estaria
sardinha de qualidade.
Actualmente, a maioria das latas que estão nas pra- longe de imaginar que a Casa se tornaria na mais
teleiras dos supermercados portugueses usa matéria- reconhecida produtora de vinhos do Porto
-prima oriunda de Marrocos. Vintage, no líder dos vinhos Tawnies de Idade e
Os especialistas da Rödel recomendam que as latas
sejam guardadas durante pelo menos seis meses,
na criadora do Late Bottled Vintage, um estilo
atingindo o seu ponto óptimo a partir dos 18 meses. que revolucionou o consumo de vinho do Porto
SEJA RESPONSÁVEL. BEBA COM MODERAÇÃO

Nem sempre é fácil encontrar sardinhas de con- e do qual continua a ser o principal produtor.
serva envelhecidas, mas pode sempre investir nisso Hoje, continuamos a celebrar o seu pioneirismo
em produção caseira. Basta comprar latas de boa
qualidade e deixá-las esquecidas na despensa.
e a partilhar a sua paixão por estes vinhos
clássicos universais.

TAY L O R . P T
28 GASTRONOMIA

NELSON GARRIDO

Vinagre envelhecido
Tempo de espera: dez anos
Há uns anos perguntei a um produtor de vinagres
industriais quais eram os melhores vinagres portu-
gueses. Ele respondeu: “Essa é difícil.” A verdade é
que, com raras excepções, “os nossos vinagres são
bastante fraquinhos”.
Além da matéria-prima (convém que não tenha
só ácido acético adicionado), aquilo que distingue
um vinagre banal de um vinagre de qualidade é a
sua idade. Durante o envelhecimento do vinagre,
sucedem várias reacções químicas complexas. Uma
das reacções mais importantes resulta da interacção
lenta do ácido acético (e não só) com o álcool, daí
nascendo ésteres que dão sabor ao vinagre.
A idade do vinagre pode variar bastante, quase
sempre na mesma medida do preço. Podemos com- Bacalhau de cura prolongada
prar um vinagre balsâmico de Modena com Indicação
Tempo de espera: seis meses
Geográfica Protegida e dois meses de envelhecimento
por cerca de 15 euros (a garrafinha de 250ml). Mas Por mais que o homem crie tecnologia, o bacalhau
também podemos comprar vinagres balsâmicos que continua a precisar de descansar antes de o devorar-
chegam aos 60 euros (por 100ml), com 20 anos de mos. Hoje em dia já não se seca bacalhau ao ar livre,
envelhecimento em barricas de várias madeiras, de em Viana do Castelo ou na Gafanha da Nazaré, dois
carvalho a cerejeira, passando por amoreira e cas- núcleos industriais históricos no país, mas isso não
tanheiro. significa que o processo tenha prescindido do lento
Se comprar balsâmicos de 12 anos, com certificação condimento do repouso em câmaras escuras e frias,
DOP, já vai servido com um líquido extraordinário, agora em fábricas modernas.
bom para deitar em gotinhas tanto em lascas de par- É certo que o paladar dos portugueses mudou. So-
mesão como em espargos salteados — como em tudo. bretudo os mais novos preferirão até os gadídeos mais
Em Portugal, destaca-se o vinagre Moura Alves, do molinhos e branquinhos. Neste caso, o bacalhau com
produtor da Bairrada Rui Moura Alves, um precursor pouco mais de 30 dias pode servir, de preferência já
na comercialização de vinagres naturais envelheci- demolhado e ultracongelado.
dos em Portugal. No seu caso, usa uvas de vinhos Para quem é apreciador, todavia, os lombinhos fo-
brancos e tintos, indistintamente, que idealmente finhos não chegam. Um bacalhau especial ou jumbo,
Pão de fermentação lenta ficam em barrica até dez anos. “Demora um ano a seja da Islândia, da Noruega ou das ilhas Faroé, para
Tempo de espera: seis dias transformação natural de 1º grau de álcool em 1º ser de topo, deve ter mais de seis meses antes de ater-
grau de ácido acético!”, justifica Rui Moura Alves. rar no prato e deve ser demolhado em casa.
É possível fazer-se pão em poucos minutos. Se fizer uso Uma garrafa de 250ml custa cerca de 19 euros, mas As melhores marcas nacionais — meia dúzia de-
de packs de farinha industrial com pozinhos milagro- vale muita felicidade. las — costumam guardar estas edições para vender
sos, em cerca de uma hora tem o processo completo. no Natal, não apenas porque é a altura em que as
Mas pão de fermentação lenta é outra coisa. E pode pessoas estão dispostas a pagar mais, mas também
ser feito, de raiz, em casa. Anchovas do Cantábrico porque é nesta altura que os bacalhaus pescados na
Não é fácil definir-se exactamente quanto tempo de- sua máxima forma, entre Janeiro e Abril, estão com a
Tempo de espera: seis meses
mora a operação. Depende de muitos factores (como cura no ponto, apresentando a típica cor palha e uma
Sabor mais a temperatura da sua cozinha) e do que se pretende. Os portugueses, tão habituados a peixe salgado, de- resistência sólida.
rústico, Mas é mais ou menos assente que vai precisar de uma viam ser mais devotos das anchovas. Não de quais- Portanto, já sabe. Procure do bom, do seco que nem
textura massa-mãe (também chamada massa velha ou isco ou quer anchovas, mas das anchovas de conserva do um bacalhau. Demolhe no frigorífico. E, seja qual for
elástica e fermento). Para se ter uma massa-mãe potente, são Cantábrico. a receita que escolher, na brasa como na panela com
digestão precisos normalmente cinco dias a alimentar de água O Norte de Espanha está para as anchovas como água, não o cozinhe com temperaturas muito altas.
mais fácil são e farinha, até que um combinado cremoso de microor- Portugal está para o bacalhau seco salgado. É lá que NELSON GARRIDO

algumas das ganismos comece a operar a criação de ácido láctico. se produzem as melhores, é lá que estão os maiores
recompensas A massa-mãe funciona como um fermento que, adi- devotos e os especialistas.
do pão de cionado à massa de pão, evita a adição de leveduras A temporada de pesca no Cantábrico decorre em
fermentação industriais e confere um sabor particular, mais rústico Abril, usando-se o método do cerco. O processo tra-
lenta e untuoso, ao produto final. Por não fazer uso — ou dicional de conserva consiste em passá-las por uma
por fazer menos uso — de leveduras industriais, o pão salmoura e depois colocá-las em grandes latas com
Um bacalhau, de fermentação lenta implica também mais tempo camadas de sal, onde amadurecem durante cinco
para ser de de descanso antes da cozedura. Os novos padeiros a seis meses.
topo, deve ter artesanais, inspirados no método criado por Chad Na região vendem-se também, assim, inteiras, em
mais de seis Robertson, da mítica padaria Tartine de São Fran- latas de 5-10 quilos, cheias de peixe e sal. Em casa,
meses antes cisco, nos Estados Unidos, costumam deixar ainda depois, é preciso retirar o excesso de sal (com água
de aterrar as massas a descansar no frio várias horas, ou de um ou, de preferência, com um pano húmido) e filetá-
no prato, dia para o outro. -las — procedimento mais simples do que parece.
e deve ser Apesar de dar mais trabalho, o resultado do pão As anchovas vão bem com tudo. Numa fatia fina de
demolhado de fermentação lenta é extraordinário, além de, por pão com manteiga, em pastas, nos molhos de tomate,
em casa norma, ser de mais fácil digestão. só com tomate, só com queijos frescos. Depois de as
filetar pode armazená-las juntando azeite e um dente
de alho. Durante quatro ou cinco dias, se as guardar
no frigorífico, vão continuar magníficas.
Em Portugal, é difícil comprar as marcas mais ar-
tesanais, mas pode-se encomendar através da In-
ternet. A Olasagasti, por exemplo, estabelecida em
Getaria, no País Basco, há mais de um século, envia
por correio a preço a combinar. Uma latinha de 90
gramas, já em filete, chega aos sete euros, em Es-
panha. “Quisemos apostar na qualidade em vez de
a baixar para reduzirmos o preço”, justifica, Marta
Mendia, da Olasagasti, e nós acreditamos.
30 À MESA

É Natal,
reúna
a família
e confie
no chef
Apetece-lhe juntar a família mas não cozinhar.
Há cada vez mais oferta para comer fora de
casa na noite da consoada. Mas se não quer
sair e acha demasiado impessoal mandar vir
take away, chame um chef
e deixe-o tomar conta da sua cozinha

BÁRBARA WONG textofotografia DANIEL ROCHA

No menu de consoada do
restaurante Erva, em Lisboa,
há produtos da época como
os cogumelos e as aves, e
também os mais tradicionais
como o bacalhau e as
rabanadas
À MESA 29

Há cada vez mais restaurantes


que abrem as suas portas na
véspera e no dia de Natal, com
menus pensados para uma
época festiva que terminará
com as celebrações do Ano
Novo
30 À MESA

A
inda o calor se fazia sentir e já os
chefs andavam a matutar na oferta
para a noite da consoada e de fim de
ano. Se esta última já se tornou uma
tradição fazer fora de casa, pouco a
pouco há cada vez mais portugueses
que optam por sair na noite de Natal e comer num
restaurante ou num hotel, mas também há quem
não queira abandonar o conforto do lar e decida
receber um chef em casa.
“Não só é uma tendência como é uma realida-
de”, declara Patrícia Dias, da Chefs Agency, que faz
consultoria na área da restauração. A responsável
avança que há cada vez mais hotéis que apresen-
tam propostas “interessantes, com uma boa rela-
ção qualidade-preço”. Para Ana Músico, directora
da empresa de consultoria de gastronomia Amuse
Bouche, embora não seja uma tendência, “cada vez
há mais pessoas a ‘arriscarem’ o Natal em hotéis
e restaurantes” e estes conquistam cada vez mais
gente como, por exemplo, as pessoas mais novas ou
os estrangeiros que se mudaram para Portugal. “Es-
ses, seguramente, procuram lugares especiais com
uma comida excelente e um serviço amigável”, diz.
“A consoada e o almoço de Natal são tudo menos
banais! Serão, muito provavelmente, as refeições
mais especiais do ano, os chefs sabem isso e apostam
nos elementos tradicionais, sim, mas com aborda-
gens mais criativas e cuidadas. Depois há os vinhos,
o serviço cuidadoso e atencioso... é uma experiên-
A empresa Supper Stars cia muito gira e gratificante! De um modo geral, os
propõe a ida de um chef a cozinheiros esmeram-se e proporcionam momen-
casa do cliente. José Sousa tos verdadeiramente excepcionais”, continua Ana
já trabalhou no Reino Unido Músico, responsável pelo festival Sangue na Guelra.
e agora faz parte do grupo Maria João Galante, responsável pela comunica-
de cozinheiros que vestem a ção do Corinthia, dá o exemplo dos dois restauran-
jaleca da marca portuguesa tes do hotel lisboeta. O Erva, no rés-do-chão c
32 À MESA

e com entrada independente, tem dois menus, o lher uma proposta entre as dezenas existentes — os
da consoada e o almoço de Natal; e o Sete Colinas preços começam nos 35 euros por pessoa e “o céu
oferece um “sumptuoso buffet de Natal, repleto de é o limite”, acrescenta o empresário, referindo que
iguarias da época, desde o bacalhau à lagareiro ao há refeições que custam várias centenas de euros
rosbife com molho de mostarda e chipolata, cata- por cabeça.
plana de peixe e marisco, perna de pato confitada, Durante uma refeição preparada para a Ímpar
não faltando a doçaria tradicional”, descreve. pelo chef José Sousa — que dirigiu algumas cozinhas
Quando começou a pensar no Natal, Miguel Tei- britânicas, com estrelas Michelin e também estrelas
xeira, o chef à frente do Erva — que preparou uma à mesa, como a princesa Diana, Donatella Versace
réplica do que será a consoada para a Ímpar —, de- ou Ed Sheeran, entre outras —, Tiago Ribeiro lem-
cidiu que os produtos da estação e da época deve- bra que Novembro e Dezembro são os meses mais
riam aparecer no prato, mas com um toque contem- fortes para toda a restauração, porque a oferta não
porâneo. “A minha mãe coze o bacalhau, nós não se resume a 24 e 25 de Dezembro, mas aos eventos
vamos cozer em água, mas em vácuo para manter para empresas, assim como para grupos de amigos
os sabores”, exemplifica, acrescentando que com o que aproveitam a época festiva para se reencontra-
menu da consoada pretende fazer uma “viagem de rem. Embora a comunicação da marca seja para ter
norte a sul do país”. Para entrada propõe tartelete um cozinheiro em casa, a Supper Stars também faz
de castanhas e bochecha de porco preto; de seguida eventos para empresas e para os turistas. A ideia é
arroz de grelos e bacalhau; peito de pato, marmelo deixar tudo na mão do chef. No final, pode abrir as
e cogumelos da estação; e para terminar uma raba- prendas ou ir à missa do Galo descansado porque,
nada, cogumelos e chocolate. O preço é de 75 euros antes de sair, o chef deixa a cozinha um brinco.
por pessoa, com bebidas incluídas.
Pode optar por um menu “Se há algum preconceito, as pessoas acabam
mais tradicional, mais agradavelmente surpreendidas, quer pela oferta
contemporâneo ou até dedicar gastronómica, sempre num registo tradicional mas
a refeição a experimentar a um serviço activo e sofisticado, quer pelo ambiente
gastronomia de outros países. extremamente acolhedor que hotéis e restaurantes
Os preços começam nos proporcionam”, defende Ana Músico.
35 euros por pessoa Mas para quem ainda não está preparado para
ir ao restaurante, a proposta da Supper Stars, uma
empresa que está no mercado há três anos, é dei-
xar um chef ir a casa. O sucesso da marca tem sido
tal que Tiago Ribeiro, um dos sócios fundadores,
informa que Espanha e Londres já fazem parte do
périplo e que a ambição é chegar, quem sabe, no
próximo ano a Xangai. Para já, em Portugal,e para
a noite ou dia de Natal, é preciso ir ao site e esco-
Uma selecção que SÁBADOS
A PARTIR DE
23 DE NOVEMBRO
harmoniza consigo COM O PÚBLICO

A Garrafeira PÚBLICO está de volta e traz uma selecção de grande qualidade.


Pela primeira vez o PÚBLICO junta-se à Alivetaste e Garage Wines para
lhe trazer uma colectânea de alguns dos melhores vinhos resultantes
do Painel Nacional de Avaliação de Vinhos, composto por
dez personalidades ligadas ao sector dos vinhos e gastronomia
que os avaliaram de forma descomprometida e independente.
Junte-se à prova e saboreie alguns dos melhores
néctares portugueses

EM PARCERIA COM:

Vinha dos Santos Tinto 2017 • Douro • 23 NOV | Pedra Escrita Branco 2018 • Douro • 30 NOV | Quinta do Mondego Tinto 2013 • Dão • 7 DEZ
Painel Nacional de Avaliação de Vinhos Titular Reserva Tinto 2016 • Dão • 14 DEZ | Vicentino Tinto 2014 • Alentejo • 21 DEZ | Arcosso Reserva Tinto 2015 • Trás-os-montes • 28 DEZ
Vinha Antiga Alvarinho 2018 • Vinho Verde • 4 JAN

Colecção de 7 vinhos. PVP unit.: variável. Preço total da colecção: 71€. Periodicidade semanal ao sábado. De 23 de Novembro de 2019 a 4 de Janeiro de 2020. Limitado ao stock existente. É proibida a venda de álcool a menores de 16 anos. Seja responsável, beba com moderação.
36 PEQUENOS PRAZERES

Rituais
que
exigem
tempo
Os charutos, os whiskies, a alta-fidelidade e,
em certos formatos, os livros têm amiúde a Ler em
lume lento
leitura de artigos de luxo — ou, dependendo
da perspectiva, sinais tangíveis de elitismo.
Quando, na verdade, encerram em si um
//A nível de “equipamento”, a lista de requisitos é mínima: sossego, luz
luxo mais mundano e isento de etiqueta de adequada e uma poltrona ou qualquer outra peça de mobiliário apta a

preço, sem o qual pouco mais servem do permitir longos períodos de inacção corporal. E tempo, irrestrito, livre
de afazeres iminentes. Tudo o resto estará a mais, nomeadamente ecrãs
que o mero propósito do estatuto: o tempo de toda a espécie, que devem ser mantidos à distância. O prazer da
leitura lenta não se coaduna com interrupções electrónicas e requer
para os apreciar. É o ritual que lhes dá tanto um corte com tudo quanto faça pensar em trabalho como algu-
ma palpabilidade — o sentido do tacto é também parte da experiência.
sentido e razão de ser (Um tablet ou um e-reader podem surtir parte do efeito, mas falham
nesse quesito.)
Conseguida esta simples, mas rara, conjugação de factores, lê-se
com olhos de ler, com espaço para parar, voltar atrás, fazer anotações,
marcar páginas. Uma leitura “de longa distância”, em lume lento, capaz
de digerir obras de dimensão considerável. Ainda que no campo dos
livros a “dimensão” seja uma noção inimiga de métricas — um volume
de 500 páginas pode ser “menor” ou de leitura mais rápida quando
comparado com outro de metade da espessura —, a inexistência de
uma contagem objectiva de tempo (como acontece nos filmes ou na
música) empurra-nos para a única medida objectiva que nos resta.
Uma métrica, assumamos, imperfeita, mas competente no propósito
ilustrativo: o número de páginas. Façamo-nos à leitura. J.M.

Dracul
FICÇÃO/SUSPENSE
A partir de textos e apontamentos deixados por Bram Stoker, Dacre
Stoker conta a história desde o início, entrelaçando uma biografia
do seu tio-bisavô com a da sua criação mais célebre. O resultado,
em parceria com o autor de suspense JD Barker, é uma prequela
para Drácula (1897), e em simultâneo uma interpretação para as 101
páginas desaparecidas do manuscrito original do clássico da
literatura de terror.
De Dacre Stoker e JD Barker (2018)
Ed. Topseller (2019)

texto
480 páginas
FERNANDO MELO E JOÃO MESTRE 20,99 euros
PEQUENOS PRAZERES 37

I’m Your Man — A Vida de Leonard Cohen


BIOGRAFIA
Sylvie Simmons levanta o véu e põe a descoberto um homem que
primou pelo recato e pela discrição. A jornalista veterana, com mais
de quatro décadas de escrita sobre pop e rock no currículo, teve
acesso privilegiado não só ao escritor, cantor e compositor
canadiano (então nos 78 anos), como ao seu círculo de amigos,
musas, confidentes, colegas de estrada. A edição portuguesa,
lançada em Outubro, inclui um posfácio, escrito em 2017, meses
após a morte de Cohen.
De Sylvie Simmons (2012)
Ed. Tinta da China (2019)
616 páginas
27,90 euros

Leonardo da Vinci
BIOGRAFIA
As pinturas célebres são importantes, mas não o ponto de partida.
Depois de pôr por escrito as vidas de Einstein, Jobs e Benjamin
Franklin, o jornalista-historiador Walter Isaacson debruçou-se sobre
o derradeiro polímato, estudando os seus cadernos de
apontamentos, 7200 páginas de esboços e ideias que mostram a
permeabilidade entre o cientista e o artista. Mais do que fechar Da
Vinci na categoria de génio, Isaacson insiste na sua condição de
homem, quer nos defeitos quer em qualidades como a curiosidade,
que o levou a procurar “aprender tudo o que havia para aprender
sobre tudo o que podia ser aprendido”.
De Walter Isaacson (2017)
Ed. Porto Editora (2019)
672 páginas
24 euros

O Corpo — Um Guia para Ocupantes


NÃO FICÇÃO
Bill Bryson já correu o mundo — e narrou-o em vários livros de
crónicas de viagem —, orbitou em torno da evolução da língua
inglesa e traduziu em escrita acessível os grandes temas da ciência,
condensados em Uma Breve História de quase tudo. Agora, vira-se
para dentro, construindo, no seu estilo ligeiro, humorado e
informado, um manual “para ocupantes” do corpo. Do custo dos
componentes químicos para “construir” um ser humano à vida que
persiste num cadáver, Bryson conjuga estatísticas, factos
extraordinários, casos verídicos e o ocasional mito desmontado,
apoiado em entrevistas com médicos, académicos e investigadores
e numa extensa consulta de literatura científica
De Bill Bryson (2019)
Ed. Betrand Editora (2019)
536 páginas
22,20 euros

The Stan Lee Story: The XXL Edition


ÁLBUM
É um volume considerável, no peso, na dimensão, no número de
páginas. E no conteúdo, sobretudo: nele cabe a longa e preenchida
vida do homem que fez da Marvel o gigante de entretenimento que
hoje é. A edição inaugural, lançada em 2018, antes da morte de Stan
Lee — e esgotada em menos de nada, apesar do preço de 1250
euros —, tem agora réplica, a um valor mais democrático e em
formato menor. A história, contada por Roy Thomas, colega de Lee e
seu sucessor na Marvel, foi escrita com Stan Lee a bordo e mistura-
se com fotografias do arquivo da família, reproduções de comics ao
longo das décadas e episódios contados por quem lá estava.
De Roy Thomas (2018)
Ed. Taschen (2019)
624 páginas
150 euros

Guerra e Paz
FICÇÃO
Se o assunto é leitura longa, os clássicos devem ser chamados ao
púlpito. E se há clássico emblemático em matéria de exigência de
tempo é o romance histórico de Tolstói, que soma, nos seus quatro
volumes, quase 1700 páginas. Entre as várias edições lançadas no
mercado nacional, importa destacar a da Presença, traduzida
directamente do russo por Nina Guerra e Filipe Guerra, vencedores
do Grande Prémio de Tradução Literária APT/Pen Clube Português.
De Lev Tolstói (1865-69)
Ed. Editorial Presença (2005)
1698 páginas
75,60 euros (4 vol.)
38 PEQUENOS PRAZERES

O prazer
do vinil A perfeição
Linn Klimax LP12
// De música de consumo rápido estamos bem servidos, felizmente. Preço: 20.000€ (versão Majik disponível desde 3700
3700€)
Pela via do streaming, de descargas mais ou menos legais, ou do bom Distribuidor: Music Link, Lisboa (musiclink.pt)
velho leitor de CD no rádio do carro, que ainda vai tendo os seus resis-
tentes, a música não falta para quem está em movimento. A questão é
quando se pára. Ou, ponto primordial: se se pára sequer para escutar
música. Não que haja uma relação inversamente proporcional entre a
deslocação do corpo e o prazer que se retira da música. Mas a pressa,
essa velha inimiga da perfeição, retira muito à experiência.
Escutar um disco exige tempo. O tempo de o escolher da prateleira,
desde logo, depois manuseá-lo com cuidado cirúrgico e, com a mesma
mão ligeira, pousar a agulha sobre os primeiros sulcos. Por fim, a exi-
gência de tempo para escutar activamente, sem distracções nem nada
que resolver entre rotações. E para, dessa escuta, descobrir camadas,
elementos, ambientes, texturas que escapam a audições precipitadas.
“Um bom gira-discos é aquele que nos faz querer a ouvir os nossos
discos novamente”, resume Domingos Marcelino, especialista em alta-
-fidelidade. “É aquele que nos faz voltar a emocionar-nos com a música”,
continua o responsável pela Musiclink, representante do emblemático
gira-discos Linn LP12 no mercado português. O modelo criado pela Relação qualidade
qualidade-preço
preço
escocesa Linn é um caso sério de popularidade entre audiófilos. E de
longevidade: mantém-se em funções desde o seu lançamento em 1973, Pro-Ject X1
assente no princípio da incrementalidade. Todas as novas versões par- Preço: 699€
tem da mesma base, pelo que, no curso destes 46 anos, nunca deixou Distribuidor: JLM, Aveiro/Lisboa (joselopesmarques.com)
de haver peças para as manter a girar. Os materiais, esses, foram evo-
luindo, no sentido da melhoria do desempenho, atingindo hoje o zénite
na versão Klimax, que a revista britânica What Hi-Fi? avaliou com nota
máxima, entre uma considerável lista de prós e apenas um contra — o
preço, 20 mil euros. Mas há um ponto de partida menos inacessível, o
LP12 Majik, que ronda os 3700 euros e, com os devidos incrementos,
pode ser progressivamente transformado na versão de topo.
É certo que, mesmo na sua forma mais elementar, se trata de uma
máquina destinada a audiófilos avançados. Quem estiver em fase de
progressão para o amplo patamar intermédio pode antes tomar como
exemplar referência o MoFi UltraDeck +M, produzido pela editora de
vinil de alta gramagem Mobile Fidelity. Em Agosto foi eleito gira-discos
do ano pela EISA, associação internacional de imprensa especializada
em som e imagem. O preço situa-se nos 2499 euros.
Em simultâneo, a EISA distinguiu, na categoria qualidade-preço,
o X1 da austríaca Pro-Ject. Uma máquina de design minimalista, fun- Qualidade
cionamento simples e bons materiais, pensada para quem começa a
leva o vinil a sério. O preço? 699 euros. O prazer da audiofilia não tem MoFi UltraDeck +M
de exigir sacrifícios incomportáveis para comprar um gira-discos — o Preço: 2499€
verdadeiro luxo é dar-lhe uso. J.M. Distribuidor: Ajasom, Damaia (ajasom.net)
PEQUENOS PRAZERES 39

Whisky,
puro como
a água
// A produção de malte a partir da cevada em grão começa pela lavagem
do cereal em águas normalmente circundantes das destilarias esco-
cesas. São cursos de água de rio vibrantes e fortes, altitudes e fundos
diversos, com um aspecto em comum, a muito baixa temperatura da
água. São cinco, ao todo, as destilarias que compõem tradicionalmente
a Escócia produtora de whisky: Speyside, Islay — lê-se “aila” —, Lowlan-

Charuto,
ds, Highlands e Campbeltown. Em rigor, contudo, Speyside é vizinha
das Highlands a nordeste e todas as denominações deixaram de estar
definidas de forma estritamente cartesiana; hoje há mais.
A origem do cereal e a secagem que se lhe dá são mais importantes
na definição do perfil, especialmente quando inclui peat — turfa —,

medida
que deixa um travo muito forte a carvão e fumados no whisky. Nesse
aspecto, Islay é campeã incontestada, mas, à vez, todas as regiões fo-
ram adaptando os seus perfis de modo a incluir o toque peaty de que
o mundo parece estar a gostar.

do tempo
Gosto muito desse estilo, mas confesso que para acompanhar um
charuto prefiro um Speyside. Como o nome diz, é destilado nas mar-
gens do rio Spey e é sobretudo elegante e aromático. Quando a vida, o
trabalho e o cansaço puxam por nós, não há melhor do que um bom
whisky daquela origem, deitar-lhe um pouco — muito pouco — de água
fria para abrir os aromas e sabores, e viajar, com um pouco de música
// O prazer de um charuto bem fumado é indizível e talvez por isso a a tocar e confortavelmente instalado.
iniciação de novos adeptos é tudo menos fácil. Começa por pertencer A casa Macallan é das mais antigas da Escócia, vai adaptando a oferta
à categoria de “coisa que se fuma”; o momento é de declarar proscrito ao mercado sem perder a essência e o carácter de origem. As tradicio-
todo o fumador, pouco importa de quê. O mundo não quer ver fumo nais notas de pêssego, gengibre e raspa de laranja que encontramos em
esvoaçar no meio de uma refeição no restaurante, mesmo que seja a Speyside e nos fazem preferi-la em praticamente todos os momentos
dez mesas de distância. E termina nos muitos mitos nefastos relacio- de consumo juntam-se harmoniosamente a fumados ligeiros do tipo
nados com o hábito de fumar. peaty num whisky fabuloso que só está disponível nos locais denomi-
Apesar do modo, contudo, o fumador de charuto não inala e o prazer nados Macallan Spiritual Home. Felizmente temos um em Portugal e
que tem é estritamente de boca, já que tudo acontece no palato e nos fica no Hotel Ritz Four Seasons Lisboa, aos cuidados do experiente bar
retronasais. E fumar um charuto é como ser dono do tempo; daquele manager Sandro Pimenta.
tempo de passagem entre o acender e o deixar morrer, ciclo irrepetível. Falamos do Exceptional Single Cask, e um copo custa 80 euros. É
Cristóvão Colombo foi o primeiro europeu a fumar um charuto, em uma experiência extraordinária, sobretudo se for acompanhada de um
1492, e odiou, até lhe dedicou linhas acres nas suas crónicas de explo- bom charuto. Mesmo ao lado do bar, há uma sala de fumo para passar
ração. Oscar Wilde, por outro lado, elevou-o aos píncaros, dizendo e uma hora de excelência, a que se pode juntar outras experiências de
escrevendo repetidas vezes que o acto de fumar é a grande distinção, sabor, tais como frutos secos e queijos. O whisky elevado à majestade
é o que distingue um ser humano de um animal. Verdade insofismável, que lhe é devida enquanto bebida pura e sofisticada.
merece mesmo assim conferência e prova. Claude Lévi-Strauss atribuía Sob o mote do Natal, e dada a indisponibilidade do Exceptional Sin-
ao tabaco a forma mais antiga de comunicação do homem com o so- gle Cask em garrafeiras, duas belíssimas alternativas: Macallan 12 Anos
brenatural, resultado talvez do contacto com tribos e sistemas sociais Double Cask (65 euros, 75cl), maturado em carvalho-americano e depois
em que fumar era um acto comunitário de paz. em barricas de xerez, e o maravilhoso Macallan 15 anos Triple Cask
A iniciação afasta alguns e atrai outros, ninguém fuma um charuto (119,50 euros, 75 cl), ambos óptimos presentes. F.M.
apenas, a menos que trave o fumo inalado nos pulmões e fique trau-
matizado para sempre. Mesmo assim, é como cair do cavalo em plena
instrução; é fundamental voltar a montar. O que é, então, um charu-
to? Resumindo muito, é uma peça preparada por mãos experientes,
composta por capa exterior, capote e miolo. A integridade das folhas
escolhidas determina a qualidade do produto final e o cubano é, por
inerência e herança, o mais apetecido e valorizado. Os charutos de Repú-
blica Dominicana, Honduras e Nicarágua também gozam de reputação
especial e o preço pode ser um décimo do das grandes marcas de proa.
Seja como for, é um segmento de tempo que os apreciadores dividem
em três terços sequenciais, cada um representando um terço do compri-
mento do charuto. No primeiro, acontece a explosão inicial de aromas
e sabores intensos; no segundo, a temperatura do charuto aumenta e
privilegia-se a fruição aromática; finalmente, no último terço, se tiver
corrido tudo bem, está o pináculo do prazer e harmonia. Davidoff,
fumador, produtor e cultor emérito do charuto, escreveu que tudo na
vida valia a pena para chegar a esta derradeira fase e havia que saber
construí-la com cuidado ao longo de todo o processo.
Uma boa experiência recente fez-me deter no Bunch Coronita (5,20
euros), produzido na Nicarágua sob vigilância sábia de Pedro Cunha
Martins e António Lobato de Faria, da CigarWorld. Um primeiro terço
maravilhoso e colorido, o segundo a pedir silêncio e concentração, para
um final muito feliz, de grande elegância, evocativo do perfil do cubano
de bom nível. Uma hora vagarosa de puro prazer. F.M.
40 VINHOS

Vinhos que
Mas ser “grande” não significa necessariamente
ser caro. Basta olharmos para muitos vinhos velhos
da Bairrada, do Dão ou de Colares, por exemplo.
Há em Portugal vinhos admiráveis, já com algumas
décadas, ao preço de um vinho novo banal. Durante
muito tempo, vinho velho era, por cá, sinónimo de

merecem
vinho estragado.
Hoje, já não é tanto assim, mas, paradoxalmente,
nunca se venderam os vinhos tão novos como agora.
A pressão do mercado e as necessidades de tesouraria
da maioria dos produtores obrigam a tirar o vinho
cedo de mais da adega e a transferir o risco e o custo

ser guardados
do envelhecimento para o consumidor.
Esta tendência acaba por influir na concepção do
vinho. Como a ideia é lançá-lo o mais depressa pos-
sível no mercado, o produtor tende a fazer um vinho
menos trabalhado, mais redondo, mais limado, mais
“fácil” de beber. É verdade que um grande vinho

para melhor
não tem de nascer torto, rude, agreste. Os melhores
mostram logo ser melhores. Mas, no caso dos tintos,
por exemplo, sabemos que um dos pilares da longe-
vidade está nos taninos (que associamos à aspereza
no vinho) — outros são a acidez e o álcool. E não po-
demos esperar que tintos de cabernet sauvignon ou

desfrutarmos
da nossa ramisco, de Colares, uma das variedades
mais tânicas que existem, fiquem prontos ao fim de
dois ou três anos.
Acresce que a complexidade de um vinho não nas-
ce já conquistada. Advém da alquimia que vai ocor-
rendo dentro da garrafa ao longo do tempo, com o
efeito do oxigénio sobre os insondáveis e incontáveis

deles
elementos químicos do vinho e de outras combina-
ções moleculares. Com o passar do tempo, os aromas
primários e secundários do vinho (os primeiros resul-
tam das uvas, os segundos da fermentação e estágio
inicial — em barricas, por exemplo) vão interagindo
e ganhando novos matizes, dando origem aos cha-
mados “aromas terciários”. E é quando começam a
surgir estes aromas de evolução que deixamos de
falar em “aroma” e passamos a falar de “bouquet”,
Um tinto que morra ao fim de dois ou três anos pode um termo que abarca um leque maior de evocações.
O sabor também se torna mais rico, menos centrado
ter dado muito prazer a quem o bebeu, mas nunca na fruta e com variantes mais químicas.
A partir de certa altura, um bom vinho velho torna-
poderá aspirar a ser classificado de “grande”. -se um desafio. O maior é saber quando abrir a garra-
fa. E um não menos importante é saber tirar a rolha
Os grandes vinhos precisam de tempo (se a rolha estiver em mau estado, deve ser usado um
saca-rolhas em forma de pinça) e servir o vinho. Por

texto
regra, todas as garrafas devem ser deixadas em pé
PEDRO GARCIAS algumas horas antes de serem abertas, para que o
vinho estabilize e os possíveis sedimentos que tenha
se depositem no fundo. No caso dos tintos, depois de

O
aberta a garrafa, o vinho deve ser vertido para um
s vinhos não nascem feitos. Só os decantador e, depois de retirados os sedimentos,
maus, dos quais já nada há a esperar. regressar de novo à garrafa original. Esta “trasfega”
Todos os outros, depois de guiados ajuda a eliminar o gosto a garrafa que muitos vinhos
pelo homem desde a videira, têm um velhos apresentam quando são abertos. Nem todos os
ponto de evolução até ao seu auge. vinhos velhos devem ser arejados num decantador.
Saber quando ele ocorre é o gran- Alguns são tão frágeis que não resistem a um grande
de desafio. Podemos fazer uma estimativa, mas o choque de oxigénio. Mas há outros que ganham com
futuro de um vinho terá sempre que ver com a sua o arejamento.
circunstância. Um vinho potencialmente longevo Até por isso, o pior que podemos fazer perante
pode morrer cedo demais se não for guardado no um vinho velho é sermos precipitados na sua avalia-
ambiente e à temperatura certos. Sem esquecermos ção. Há vinhos velhos, brancos e tintos, que parecem
a questão da rolha, que, sendo natural, terá sempre magníficos ao primeiro impacto, mas que morrem
um comportamento mais ou menos imprevisível. É depressa. E há outros que parecem sujos ou mesmo
por isso que se diz que não há boas colheitas ou bons uma ruína e que, com o passar do tempo no copo,
vinhos, mas sim boas garrafas. se tornam uma agradável surpresa. Pela sua própria
Os grandes vinhos precisam de tempo. Um tinto natureza, um bom vinho velho requer calma, ques-
que morra ao fim de dois ou três anos pode ter dado tionamento, introspecção. No início, pode estranhar-
muito prazer a quem o bebeu, mas nunca poderá -se, se estivermos mais habituados a vinhos novos.
aspirar a ser classificado como “grande”. O tempo Mas, à medida que vamos educando o nosso gosto,
Os vinhos não é o verdadeiro decisor: apura, define e valoriza. Os não queremos outra coisa. O perigo é esse. Pode ser
nascem feitos; grandes vinhos do mundo são vinhos que já passa- um gosto caro.
os grandes ram a prova do tempo. Uma e outra vez. Os grandes Para que não tenha de comprar vinhos velhos às
são os que vinhos franceses, por exemplo, não o são apenas por cegas e inflacionados no preço, deixamos-lhe aqui
já passaram custarem muito dinheiro. São caros porque prova- uma lista de oito vinhos que merecem ser guardados
a prova do ram ao longo de décadas serem extraordinários e durante mais uns bons anos, de modo a poder bebê-
tempo bastante duradouros. -los ainda com mais prazer.
VINHOS 41

Antónia Adelaide Ferreira Tinto 2015 Anselmo Mendes Parcela Única


Douro. PVP: 80 euros Alvarinho 2017
Se este vinho da Sogrape aguardasse em cave o Vinhos Verdes. PVP: 31,50 euros
tempo que aguarda o Barca Velha ou o Casa Durante demasiados anos habituámo-nos a beber
Ferreirinha Reserva Especial, atingiria uma qualidade vinho alvarinho demasiado jovem, com muita fruta e
mais ou menos similar. É um tinto que pretende muita acidez. Foi muito desperdício. Hoje, já não há
homenagear a fundadora da casa, a famosa dúvidas de que os brancos de alvarinho podem
“Ferreirinha”, e, com ela, o melhor do Douro. E evoluir muito bem e durar bastantes anos. Há vários
dizemos do Douro porque se trata de um vinho que vinhos aí para o provar. Anselmo Mendes tem alguns.
resulta de um lote dos melhores vinhos das Este seu Parcela Única, expressão máxima da casta, é
principais propriedades durienses da Sogrape, numa um valor seguríssimo para quem quiser beber daqui
combinação feita a partir de touriga nacional, touriga a uns anos um branco ao nível dos grandes riesling
franca, sousão e vinhas velhas multicastas. É um tinto da Áustria ou da Alemanha. Há, de resto, algumas
perfumadíssimo, ainda com bastante fruta, mas já semelhanças na forma como ambos os vinhos
com algumas notas de evolução, umas de cariz mais evoluem. Não só na cor, como também no aroma e
especiado, outras a lembrar café, tabaco e madeira no sabor. Tal como os bons riesling, os bons
exótica. É carnudo e volumoso e tem uma grande alvarinho ganham umas notas meladas exaltantes,
estrutura tânica e frescura. Vai a caminho dos cinco alguma sugestão de caril ou até de petróleo, sem
anos, mas tem potencial para melhorar e durar em perderem a sua boa frescura natural, de carácter
boa forma outros tantos ou mais. mais cítrico no alvarinho.

Quinta do Noval Tinto 2015 Quinta das Bágeiras Cercial 2016


Douro. PVP: 47,50 euros Bairrada. PVP: 58 euros
A Quinta do Noval fica situada num dos vales mais Um novo vinho da Quinta das Bágeiras. Foram
prodigiosos do Douro, o vale do rio Pinhão, mais ou produzidas apenas 848 garrafas. São tão poucas que
menos no centro da região. As uvas amadurecem apetece mesmo guardar o vinho para um momento
bem e têm boa frescura natural. Os tintos da Noval, especial. É um branco maduro, gordo, com a secura
empresa que produz o Porto vintage mais caro do cálida do calcário, mas assente sob uma acidez viva
mercado, o Quinta do Noval Nacional, não primam e refinada. Um Bairrada admirável, a fazer lembrar os
pela exuberância aromática, nem são vinhos grandes brancos da Borgonha (de Mersault, em
madurões e redondos, bem pelo contrário. São especial). Brancos que, com alguns anos de cave e
vinhos algo austeros em novos, com um ligeiro toque garrafa, conseguem deixar-nos nas nuvens.
vegetal até, mas complexos e cheios de potencial. É
o caso deste 2015. Um vinho sério, com apenas 13,5% Adega Mayor Entre Tantos Garrafeira 2013
de álcool, que ainda precisa de algum repouso para Alentejo. PVP: 100 euros
ficar no ponto — mas vale a pena. Este é um vinho especial, uma edição de
homenagem a Rui Nabeiro, o homem que conseguiu
António Madeira A Centenária Tinto 2016 criar um império sem precisar de abandonar a sua
Dão. PVP: 45 euros terra, no interior do interior alentejano. Se há vidas
Tinto proveniente de uma parcela centenária de solo que merecem um grande vinho, a dele é uma delas, e
granítico plantada com inúmeras castas, na sub- este tinto é um belo tributo, reflectindo bem a
região da serra da Estrela. É um vinho cheio de geografia alentejana e o sorriso caloroso do
finesse, de sabor profundo e muito fresco. Apesar de homenageado, um homem “tão diferente dos
não primar pela garra tânica, tem uma força e uma demais e tão igual”, como se pode ler no rótulo.
vivacidade extraordinárias. Tratando-se de um vinho É, pois, um vinho igualmente caloroso, maduro,
ainda com pouca história, não há registo de como concentrado e muitíssimo saboroso. Já tem seis
evolui, mas a sua riqueza e pureza dão garantias de anos, mas podemos esperar por ele mais outros seis,
podermos esquecê-lo por alguns anos na garrafeira. no mínimo. Nessa altura, já não terá a mesma
Se ficar ainda melhor do que já está, pode intensidade de fruta que tem agora, mas a marca
proporcionar-nos uma grande experiência. da madeira (ainda pouco notória) também já terá
desaparecido e dado lugar a outras sensações mais
Casa da Passarela Villa Oliveira Tinto exaltantes, mostrando a verdadeira essência
125 anos 2014 do vinho.
Dão. PVP: 60 euros
Tinto de vinhas mesmo muito velhas em que Quinta da Murta Branco Clássico 2015
predominam as castas baga, jaen, alvarelhão, tinta Bucelas. PVP: 15 euros
carvalha e tinta amarela. Um Dão antigo feito por um O enólogo Hugo Mendes terminou o seu vínculo à
enólogo ainda relativamente novo, mas que se Quinta da Murta no passado mês de Novembro, mas
distingue pela sua criatividade e originalidade. Um deixou como legado um conjunto de extraordinários
Dão antigo não só pelas castas de que é feito, mas vinhos brancos da casta arinto. Este Clássico 2015 é
também por não ir pelo caminho fácil da madureza um deles. Se quisermos ficar com uma ideia do
em excesso e do estágio em barricas novas. A opção potencial da casta arinto, devemos provar este vinho.
foi mais pela autenticidade, por uma vinificação É um branco de uvas bem maduras (julgo até que no
minimal que respeita a expressão do lugar e das lote entra um pouco de vinho com botrytis), mas
castas. O resultado é um vinho telúrico, franco, com com excelente acidez. Não tem nada de
garra e frescura, aquela frescura natural tão unidimensional, como acontece com muitos vinhos
característica dos grandes vinhos do Dão. Vinhos da casta. É bastante rico, com sugestões no aroma
com algumas arestas e grande futuro pela frente. de marmelada acabada de fazer, fruta branca
caramelizada e também um pouco de canela e
gengibre. Na boca, mostra o bom efeito que a barrica
exerceu sobre o vinho e, já no final, a frescura viva,
de recorte cítrico, tradicional da casta. Sendo a
Arinto muito diferente da casta chardonnay, há na
prova de boca algumas semelhanças com alguns
Chablis já com certa idade, talvez devido ao facto de
partilharem o mesmo tipo de solo, à base de calcário.
Mais uns anos na garrafeira e pode beber um Bucelas
ao nível de muitos bons brancos da Borgonha e a um
preço muito mais baixo.
42 CARROS

Uma
viagem
de mais
de 200
anos pelo
universo
Peugeot
Há espaços em que o tempo se torna um bem a
preservar. Foi isso que descobrimos no Museu Peugeot,
mas sobretudo nos Arquivos e Reserva que, de acesso
limitado, constroem todos os dias um caminho até ao
passado para também desenhar um possível futuro.
E, não: esta viagem não é (só) sobre automóveis
CARLA B. RIBEIRO texto

NICOLAS ZWICKEL NICOLAS ZWICKEL

Em cima,
uma das
linhas de
produção
da fábrica
de moinhos
de grão

Em baixo,
da esquerda
para a direita,
o director do
museu, Hervé
Charpentier,
e um
documento
dos Arquivos
NICOLAS ZWICKEL
CARROS 43

“U
ma caixa de 40x50cm é um
dia de trabalho”, diz-nos o
arquivista Mathieu Petit-
girard, enquanto aponta
para os caixotes que se vão
amontoando e que chegam
ali provenientes de toda a parte. São postais, ma-
terial de merchandising, cassetes de VHS, dossiers
técnicos ou mesmo peças de automóveis… Inúmeras
coisas que alguém considera valer a pena guardar e
que, aqui, no Centre d’Archives de Terre Blanche,
em Hérimoncourt, departamento de Doubs, na re-
gião de Borgonha, são analisadas, documentadas,
arquivadas e preservadas em salas blindadas e de
acesso controlado. A escolha do local não foi à toa
e constitui, por si só, uma homenagem ao tempo e
à memória. É que se hoje a Peugeot tem a sua sede
em Sochaux, no Nordeste do país, quase paredes-
-meias com a Suíça, a semente para o que viria a
tornar-se uma das empresas globais com uma his-
tória mais antiga (soma actualmente 209 anos) foi
lançada precisamente neste local, na época com
uma fábrica de ferramentas, a maioria de utilização
agrícola, mas também moinhos (de sal, de pimenta,
de grãos), que ainda hoje são um dos cartões-de-
-visita da marca (ver caixa).
Mas voltemos à sala inicial do Centre d’Archives de
Terre Blanche. À medida que cada caixa é analisada,
os diferentes artigos são apreciados e, depois de
tratados, separados, já que, explicam ao PÚBLICO,
não podem estar todos no mesmo sítio, sob pena de
se danificarem. Assim, cada sala, dependendo do
que guarda, é mantida a uma temperatura e nível de
humidades específicas. E, mesmo em dia de visita,
“o que é raro”, sublinha o nosso guia de forma a
fazer-nos entender o privilégio de por ali caminhar,
as portas não demoram muito a fechar-se, nem o
grupo é mantido demasiado tempo no mesmo sí-
tio. É que basta a respiração para desequilibrar os
sensíveis microclimas.
Há salas cheias de cassetes VHS – muitas com o
filme já danificado, relatam, mas cujo conteúdo, na
maioria, foi salvaguardado: são anúncios de publi-
cidade, filmes amadores com momentos das corri-
das em que a Peugeot foi participando. Outra salas
guardam documentos irrepetíveis, como a carta
que Armand Peugeot (1849-1915) enviou aos seus
primos, em 1892, em que considera que o futuro
da marca, na época já quase centenária, estaria na
construção de automóveis. Numa altura em que o
automóvel ainda nem designação tinha, a ideia deve
ter parecido, no mínimo, alucinada. O certo é que
nem os primos de Armand Peugeot embarcaram na
sua ideia, nem o próprio desistiu da mesma. Quatro
anos depois, o visionário cria a Sociedade Anónima
de Automóveis Peugeot e inicia uma viagem que vi-
ria a revolucionar também a indústria que, por esta
altura, andava ainda a descobrir-se e a tentar abrir
caminhos de mobilidade. Não se pense, porém, que
a família ficou desavinda; anos mais tarde, os primos
e descendentes viriam a chegar a um entendimen-
NICOLAS ZWICKEL to e a reunir-se novamente sob o mesmo chapéu.
A colecção Continuamos a desbravar os arquivos sempre com a
permanente sensação de caminharmos por entre caixas-fortes. As
do Museu enormes e, aparentemente pesadas, gavetas guardam
da Aventura rascunhos de projectos que nunca saíram do papel,
Peugeot é mas também os esboços daqueles que foram os primei-
composta ros Peugeot a serem apresentados como automóveis:
por 125 ainda no século XIX, em parceria com a Daimler e ali-
exemplares mentados por motores a vapor; nos últimos anos do
mesmo século, já a solo. As filas de arquivos multipli-
cam-se e parece-nos difícil dizer quantos documentos
ao certo estarão aqui guardados. Mas também não so-
mos arquivistas. Para Mathieu Petitgirard a pergunta,
parece-nos, soa tola. Porém, explica-nos a dimensão
de forma muito fácil de entender: se se alinhassem
todos os arquivos já inventariados, conseguir-se-ia
fazer uma linha que teria a distância de cerca de oi-
to quilómetros. No total, refere, aquelas salas c
NICOLAS ZWICKEL
30 À MESA

Moinhos,
uma
paixão à
francesa
// O moinho de grãos está na base do nascimento
da indústria associada à família Peugeot. E, seja
pelo respeito pelo passado, seja por uma qualquer
inexplicável paixão, este permanece um negócio
que é seguido atentamente pelo clã: não há mesa
de eventos da marca francesa em que os moinhos
não estejam presentes, mas, mais importante,
referem com orgulho, enquanto nos guiam por
uma visita à fábrica, os moinhos de grãos com o
símbolo do leão têm lugar nas cozinhas dos mais
reputados chefs mundiais.
O primeiro moinho construído pela Peugeot
não coincide com o nascimento da marca, que
iniciou a sua actividade por ferramentas agrícolas
(ver texto). Mas o conhecimento em trabalhar
lâminas e mecanismos acabou por ditar a
aventura pelo mundo dos moinhos: o primeiro
No Museu guardam 4,5 milhões de fotografias, um milhão de lógico que se percebe como um dia estes carros nasceu em 1840 e servia para transformar grãos
da Aventura desenhos técnicos, 30 mil fichas publicitárias, outros poderão brilhar. de café. Após essa incursão, e o sucesso obtido, a
Peugeot, tantos desenhos de estilo… No Museu da Aventura Peugeot, situado em So- viagem seguiu curso pelo mundo dos outros
conta-se Porém, num centro de arquivo de uma marca que chaux, junto às fábricas e à minicidade que foi nas- grãos, como a pimenta e o sal.
também a constrói automóveis há algo que não pode faltar: cendo muito por causa da implantação da marca Hoje, são vendidos anualmente um milhão de
história da carros. A Reserva é um armazém de proporções nesta região, onde estão instaladas as oficinas on- moinhos em todo o mundo, mas o caminho até às
evolução do enormes que acolhe veículos da marca de todos os de se realizam os restauros (próprios e de clientes, prateleiras das lojas é longo. Tudo começa no
automóvel tempos: hoje, diz ao PÚBLICO Petitgirard, a capaci- sob medida e orçamento), não se contam apenas gabinete do designer que procura estabelecer o
dade é de 400 e está lotada. Alguns são arrematados histórias de carros. É verdade que é possível per- equilíbrio entre estilo e função, ao mesmo tempo
em leilão, pelo seu interesse histórico; outros são correr as suas diferentes alas e perceber a evolução que tenta desenvolver novas funcionalidades –
protótipos que brilharam em salões ao longo dos da indústria, através de uma colecção permanente um dos objectos que habita a sua mesa de
anos, mas que nunca chegaram a ver a luz do dia. que dispõe de 125 exemplares, além das exposi- trabalho é um moinho para paus de canela, cujo
(São, porém, capazes de circular: “A Peugeot não ções temporárias temáticas. Mas mais do que isso: funcionamento está distante dos congéneres para
leva aos salões protótipos que não andam.”) E há a história que se conta neste espaço é também a da diferentes tipos de grãos e que arranca esgares
ainda os que são descobertos qual tesouro de Ali evolução humana durante mais de dois séculos e, de surpresa entre quem o vê a trabalhar.
Babá: num celeiro no meio do nada, numa garagem sobretudo, a história de como o engenho e a tec- Mas continuemos pelos sucessos conhecidos,
esquecida. Na Reserva, o primeiro trabalho passa nologia foram aliados do homem, desenhando um porque, para já, o moinho de canela ainda é
por recolher informação sobre o veículo (números futuro sempre no sentido de deixar o trabalho de embrionário. Junto à entrada da fábrica,
de motor, carroçaria e chassis) e por cruzar a mes- máquinas para estas. armazena-se a madeira que será talhada para dar
mas com o material dos Arquivos. Depois, averigua- Aqui, é possível observar a evolução das ferramen- corpo aos moinhos até que o seu nível de
-se as condições do carro: há os que chegam “como tas que apoiam o trabalho agrícola e mecânico (as humidade seja o ideal (não pode ter menos de
novos”, em que até os estofos parecem estar por tais que levaram à construção da fábrica onde hoje oito nem mais de 12% de humidade). Depois, esta
estrear, e os que são arrumados às peças, à espera existem os Arquivos e Reserva), mas também máqui- passa por dois robots, cujas imagens nos
do dia em que alguém as volte a juntar qual puzzle nas de costura, muitas bicicletas (um dos principais impedem de captar (“segredos industriais”,
e recrie a glória de outros tempos. Depois, depen- negócios da marca durante muitos anos), máquinas advertem), sendo por fim aberto o seu interior
dendo da importância do modelo, o mesmo segue fotográficas, uma panóplia de electrodomésticos com uma broca de forma a acomodar o sistema
imediatamente para restauro ou não. para o lar que nos evocam memórias de infância de moagem. Destas linhas, saem moinhos de mais
e até as armações dos corpetes que mantinham os de 30 formas diferentes, que seguem para o
Um museu, duas histórias corpos das mulheres enclausurados, em cima dos departamento de pintura (“as tintas utilizadas têm
quais eram montadas as peças de roupa – tudo da especificidades que permitem uma segurança
A recuperação dos automóveis (e não só: há tam- marca Peugeot. ambiental e para a saúde de quem os irá utilizar”,
bém exemplares de transporte de mercadorias, por São mais de 200 anos de história, mas não se jul- explicam), além dos construídos noutros materiais
exemplo) que habitam a Reserva depende em mui- gue que, por isso, o museu ficou preso ao passado. como acrílico ou cerâmica.
to do que o Museu precisa – afinal, não se chama O espaço tenta reinventar-se, mostrando que, tal Não satisfeitos com o rigor das máquinas, cada
Reserva à toa. E é precisamente no espaço museo- como os veículos da marca do “leão” vão acompa- moinho é verificado manualmente, num controlo
nhando as tecnologias actuais, está disponível para de qualidade assumido por mão e olhar humanos,
ir a par do presente, promovendo actividades que antes de seguir viagem.
atraem gentes de todas as idades e até eventos que O resultado, diz a Peugeot, é o melhor moinho
procuram tornar o museu vivo e pronto a acelerar do mundo. E, para reforçar a ideia, sublinha o
rumo ao futuro. Ainda assim, o director do museu, facto de estar presente em, pelo menos, 80
Hervé Charpentier, não nega a paixão pela história mercados. Sem termos a hipótese de testar
e confessa ao PÚBLICO aquilo que sente como o todos os moinhos do mundo, não podemos
seu maior desafio: “Encontrar um automóvel, nos corroborar a pretensão da marca bicentenária,
dias de hoje, que seja efectivamente muito raro.” mas uma coisa é certa: os moinhos Peugeot são
hoje um objecto de culto e sinónimo de luxo em
A Ímpar viajou a convite da Peugeot qualquer mesa ou cozinha.
46 CARROS

Quando Q
uando, em 1989, a Mazda lançou o
MX-5 (o Miata, nos EUA, e, ainda hoje
para muita gente no Velho Continen-
te), a decisão da marca nipónica em
apostar num roadster não foi consen-
sual. Afinal, a moda do que circulava

a idade
em estrada ditava que o consumidor
estivesse ou voltado para carros gran-
des e espaçosos ou mais virado para soluções práticas,
racionais e urbanas. O MX-5 não era nada disso. Era
um exemplo de como era possível que alguém se inspi-
rasse nos clássicos dos anos 1950 e 1960 e construísse

é um posto
um carro que era simultaneamente leve, dinâmico e
cheio de estilo – mesmo que o estilo fosse possível de
usufruir apenas por dois ocupantes. Porém, contra-
riamente ao que seria o seu destino natural (um carro
de nicho com uma esperança de vida curta), o MX-5 de
primeira geração vendeu mais de 400 mil exemplares,
tendo convencido público e especialistas: foi Carro do
Ano pela conceituada Automobile Magazine (1990) e
manteve-se na lista dos dez melhores automóveis da
Car and Driver durante dois anos – um feito!
A segunda geração, que foi lançada entre 1998 e
1999, trouxe como novidade os faróis fixos (os da pri-
meira geração não passariam nos, já nesta altura, cada
vez mais rigorosos testes de segurança, designada-
mente de pedestres) e uma aerodinâmica melhora-
da – facto a que não terá sido alheia a opção de usar
Se é verdade que tudo o que é novo pode parecer vidro no óculo traseiro. Ainda assim, o Euro NCAP
acabaria por castigar o roadster e, em 2002, o carro
melhor, há coisas que não perdem com a idade e, por não obteve mais do que quatro estrelas, penalizado
pela única estrela obtida na segurança precisamen-
mais anos que passem, permanecem sempre actuais. te dos pedestres. Em 2005, parte dos problemas de
segurança foram resolvidos, com o lançamento de
A indústria automóvel não é excepção e há emblemas e uma terceira geração. Talvez seja o carro que mais se
distingue da família – na nossa opinião, para pior em
modelos que ostentam com orgulho as marcas do tempo termos estéticos –, mas a importante revisão em todos
os aspectos (motor, suspensão, carroçaria, chassi)

CARLA B. RIBEIRO texto tornou-o, em geral, num carro melhor em tudo. Não
à toa, a mesma Car and Driver manteve-o na sua lista
DR
CARROS 47

DR

mentos naquela senda pelo luxo automobilístico. Na


verdade, a marca teve de enfrentar um problema ao
qual era completamente alheia: o crash de Wall Street,
em 1929, frustraria várias encomendas.
A partir daqui, a história dos Bentley é errática e, ao
mesmo tempo que o emblema lança modelos icónicos
(e sempre muito amados pela família real britânica), a
ameaça da falência vai pairando de forma quase inin-
terrupta. Em 1970, entra no negócio a Vickers, com
a qual a Bentley parece voltar aos tempos de glória:
tanto em estrada como em eventos desportivos. Até
voltar a ser vendida, num intrincado negócio: a BMW
fez uma oferta, mas a Volkswagen superou o valor.
Porém, só a partir de 2003 é que a Bentley passa a ser
assumidamente uma marca do grupo VW.
Com caminhos mais ou menos fáceis, certo é que a
marca mantém hoje, cem anos depois, a alma do seu
fundador: coloca em estrada automóveis que são um
hino ao luxo e ao conforto mais hedonista, ao mesmo
tempo que não descura no desempenho desportivo
das suas propostas. Exemplo disso é o Continental
GTC, o primeiro modelo que a marca apresentou em
ano de centenário e que reúne todos os atributos com FRANCISCO ROMÃO PEREIRA

cem anos, trazendo-os para o século XXI sem nenhu-


ma dificuldade.
O automóvel, que tem feito uma carreira comercial
de sucesso, surge com um isolamento acústico (quase)
à prova de bala, não obstante o seu tejadilho ser móvel,
exibindo materiais nobres, cuja construção prima por
ser um exercício meticuloso de habilidade. Porém, não
se pense que por ainda apostar nas costuras à mão que
a tecnologia foi descartada: há um mundo a explorar
de conectividade e soluções exclusivas: como o caso
do ecrã rotativo que pode ser táctil, exibir mostradores
analógicos ou ocultar quaisquer distracções. Sob o ca-
pot, claro, uma peça de joalharia: motor de 6,0 litros
em W, sobrealimentado com dois turbocompressores
de entrada dupla e com sistema de injecção directa e
indirecta. Tudo para que se possa desfrutar à vontade
de dez melhores automóveis durante sete anos. dos mais de 600cv (não fosse o pequeno detalhe das
Hoje, a Mazda comercializa, desde 2015, a quarta ge- velocidades limitadas que obrigam a refrear, e muito,
ração deste produto, para o qual voltou a olhar para as o pé do acelerador…). Mas, claro, não é para todas as
linhas do passado, conseguindo transportar o glamour carteiras: o modelo ensaiado ronda os 360 mil euros.
do primeiro Miata e inscrevê-lo em linhas que nada
ficam a dever à modernidade. Surgiu ainda com uma 911, o ícone cinquentão
versão RF (retractable fastback), Targa, que permite antes e, com ela, o negócio de André de construção O roadster
aliar o tejadilho rígido à opção de andar de cabelos Também exclusivo para alguns orçamentos é o Pors- de armamento. Mazda MX-5
ao vento, bastando para tal pressionar um botão. Já che 911, que, este ano, mostra como um cinquentão Assim, o Type A, o primeiro de todos a exibir o foi lançado
o calcanhar de Aquiles em termos de segurança de ainda pode estar para as curvas (a primeira versão foi “duplo chevron”, começou a ser comercializado em em 1989 e
pedestres parece ser assunto do passado: nos testes lançada em 1964, há 55 anos). 1919 e já se apresentava com um motor de quatro ci- segue hoje
Euro NCAP, de 2015, pontuou 93%. Assim o fez, em Los Angeles, no ano passado, quan- lindros, conseguindo atingir os 65 km/h de velocidade na sua quarta
Em ano que celebra 30 anos e, quatro gerações de- do a marca decidiu revelar a nova geração (designada máxima. Mas a verdadeira revolução chegaria anos geração
pois, o MX-5 não acusa cansaço e continua a habitar as de 992) primeiro ao mercado norte-americano, mais depois, quando apresentou, em 1935, o primeiro carro
fantasias de muitos condutores: sobretudo após, na precisamente aos potenciais clientes californianos, de tracção dianteira – solução que viria, mais tarde, a O 911 é um
última geração, ter chegado mais democrático, ao ser que absorvem cerca de um terço da produção de Zu- conquistar o mercado. Não foi a única solução em que dos modelos
proposto com um bloco a gasolina de 1,5 litros e um ffenhausen. “Há décadas que a Califórnia é como que a marca francesa foi pioneira: entre outras estreias, mais icónicos
preço abaixo da barreira psicológica dos 25 mil euros. uma segunda casa para a Porsche”, diria o presidente foi a primeira a conceber uma carroçaria toda em me- da marca
da direcção da marca alemã, Oliver Blume. E, aos 55 tal, a aplicar a suspensão hidropneumática em carros alemã
Luxo centenário anos, o 911 está mais novo do que nunca, mantendo os de produção de série (num anúncio francês do 2CV
fãs de sempre, mas conseguindo conquistar adeptos mostra-se como o carro é bom até para transportar Em ano de
O MX-5 ganhou com um preço mais alinhado com as até entre as gerações mais novas que se revelam cada ovos nas estradas empedradas) ou a usar motores ar- centenário,
carteiras da maioria. Mas nem sempre o que é barato vez menos entusiasmadas com o automóvel enquanto refecidos por bomba de água. a Bentley
é mais apetecível. Exemplo disso é a exclusiva Ben- meio de transporte e de prazer, considerando-o uma A inovação, porém, não se ficou pelo produto. A lançou logo
tley, que celebra em 2019 nada menos do que cem forma mais racional de mobilidade. Citroën foi também a primeira marca automóvel a no início do
redondos anos, mas cuja história não se faz apenas Independentemente das tendências, o Porsche saber tirar proveito da publicidade e a criar uma linha ano uma
de luxos e de riquezas. 911 continua tão emocional como sempre, fazendo de merchandising do emblema. edição
Hoje, parte do grupo Volkswagen, a Bentley foi fun- um bom uso da tecnologia ao dispor dos tempos ac- Cem anos depois, a marca, que actualmente integra especial do
dada pelo engenheiro britânico Walter Owen Bentley tuais para apresentar bons números de eficiência e de grupo PSA (que junta ainda Peugeot, DS, Opel, entre Continental
(1888-1971), tendo feito o seu percurso no mundo do performance ambiental. Em termos de dinâmica, o outras), costuma tirar do passado vários modelos icó- GTC
desporto automóvel – sagrou-se campeã das 24 Horas Porsche 911, que tivemos a oportunidade de conduzir nicos para celebrar a sua história. Mas, este ano, não
de Le Mans uma mão-cheia de vezes, na década de pelas estradas de Valência, não deixa saudades das só o fez com mais garra (em Paris, a festa incluiu fazer
1920 e 1930. Mas a ideia do seu fundador, ainda que gerações anteriores, a não ser que se sofra de saudo- com que algumas ruas emblemáticas recuassem cem
tenha começado de forma muito modesta, passava sismo crónico. anos na história) como, depois de vários anos menos
pela busca do luxo, sem olvidar o desempenho. Tais inventiva, surge com o mesmo espírito aventureiro
atributos acabaram por chamar a atenção da concor- que lhe serviu de génese, apostando em produtos de
O sonho de Citroën
rência: a Rolls Royce conseguiria, em 1931, tirar partido rasgam ideias preconcebidas em termos estéticos, ao
das dificuldades financeiras da empresa de Walter e Há cem anos, André Citroën fez história ao decidir mesmo tempo que absorve do grupo o que este tem
comprar a empresa. Claro que a falta de liquidez de cumprir o seu sonho de lançar uma marca automo- de melhor para oferecer, seja em termos de motori-
Bentley não se deveu apenas aos avultados investi- bilística. Afinal, a Primeira Guerra acabara um ano zações, tecnologias ou segurança.
44 RELÓGIOS

Vintage e nostalgia:
à procura da
perenidade no luxo
O ano de 1969 foi o mais importante do século XX em termos
de relojoaria. Primeiros cronógrafos automáticos, primeiro
relógio na Lua, primeiro relógio de quartzo, tudo ocorreu
há precisamente meio século, quando até parecia que
o relógio mecânico ia morrer. Não só resistiu como é hoje
mais procurado do que nunca. Mas não é para saber as horas…
FERNANDO CORREIA DE OLIVEIRA texto
RELÓGIOS 49

F
oi a 10 de Janeiro de 1969 que a Zenith o Nautilus — ainda mais caro do que o Royal Oak da
apresentou, em protótipo, o primeiro Audemars Piguet. Muito ao jeito da Patek, os anún-
cronógrafo automático do mundo. Pa- cios vangloriavam-se: “Um dos relógios mais caros do
ra isso, usou um calibre que baptizou mundo é feito de aço.”
como El Primero (“o primeiro” em es- Gérald Genta criou, para além do Royal Oak e do
peranto, sublinhando a sua vocação Nautilus, alguns dos modelos mais conhecidos de
universal). Este calibre revolucionário fazia 36 mil sempre na relojoaria de pulso — o Omega Conste-
vibrações por hora (5 Hz). Além disso, tinha roda de llation (1959), o IWC Ingenieur (1976), ou o Cartier
coluna integrada, rotor central montado em rola- Pasha (1997).
mentos de esferas e mais de 50 horas de autonomia. Falemos finalmente do Rolex Oyster Perpetual Cos-
Estas inovações técnicas fizeram dele, desde logo, mograph Daytona, aquele que muitos consideram
o cronógrafo mecânico mais preciso do mundo, como o mais mítico de sempre dos cronógrafos.
capaz de medir décimos de segundo. O modelo surge em 1963, com o nome Cosmograph
A 3 de Março de 1969, um consórcio formado pela como cronógrafo com caixa de aço e calibre de carga
Breitling, a Hamilton e a Heuer-Leonidas (mais tarde manual. O circuito de Daytona, na Florida, nasce em
TAG-Heuer) anunciava em conferência de imprensa 1903, criado para recordes de velocidade. A relação
o Chronomatic, um cronógrafo automático saído de oficiosa da Rolex com o circuito começa no início dos
vários anos de investigação — o Project 99 — com a anos 1960, com a publicidade a referir pela primeira
ajuda da fábrica de calibres Dubois-Dépraz. vez a marca como relógio oficial do Daytona Interna-
Era apenas um protótipo que seria depois apre- tional Speedway. E fixa-se a tradição de aos vencedores
sentado em Abril na Feira de Relojoaria de Basileia, das corridas de Daytona serem oferecidos Cosmogra-
agora já algumas dezenas de exemplares, declina- ph. A marca acrescenta Daytona ao nome do modelo.
dos pelos modelos Breitling Chronomatic, Hamil- O quartzo Uma das declinações mais célebres é a dita “Paul New-
ton Chrono-matic e Heuer Chronomatic Carrera, A corrida pelo cronógrafo automático tinha termi- man”, actor e piloto de corridas, que usa diariamente
Chronomatic Autavia e Chronomatic Monaco (com nado. Mas outra, porventura mais importante, a do a versão de fundo branco e submostradores negros.
a primeira caixa quadrada resistente à água, este relógio de pulso de quartzo, corria em paralelo. Nos anos 1980, a crise do quartzo continua a ter
modelo tem um dos seus momentos de glória quan- Um consórcio da indústria relojoeira suíça, com o os seus efeitos na indústria relojoeira suíça. A Zenith
do Steve McQueen usa um no pulso no filme Le projecto Beta21, estava prestes a conseguir substituir decide fazer apenas relógios de quartzo. E tem ca-
Mans, de 1971). o órgão regulador mecânico (escape/volante/espiral) libres El Primero guardados nos armários. A Rolex
Com microrrotor, data e coroa às 9 horas, o Chro- por um outro, electromagnético (em que uma fonte compra-os e pede que a produção se reinicie. Decide
nomatic (ou Caliber 11) fazia 19.800 vibrações por de energia faz vibrar um cristal de quartzo). Quanto equipar os seus cronógrafos Daytona com calibres
hora (2,75Hz). E media até 1/5 de segundo. maior a vibração (frequência), maior a exactidão de automáticos El Primero. Há quem diga que foi isso
No Japão, a Seiko trabalhava também há anos no um relógio. A tecnologia do quartzo iria multiplicar que salvou a Zenith.
desenvolvimento de um calibre cronógrafo automá- por mil ou mais essa precisão, com custos muito mais A Rolex tem feito edições comemorativas do Oyster
tico. Anuncia em Março o calibre 6139, com rotor acessíveis. Perpetual Cosmograph Daytona.
central, com sistema Magic Lever (ainda hoje usado, Mas, mais uma vez, a Seiko estragou a festa hel- Tanto a Audemars Piguet como a Patek Philippe
aproveita a força do rotor, independentemente da vética. E, a 25 de Dezembro de 1969, anunciava em ou a Rolex controlam os números da produção dos
direcção em que ele se move). Equipava um modelo Tóquio o Quartz Astron, o primeiro relógio de pulso seus modelos mais carismáticos. Assim, Royal Oak,
a que chamou 5 Speed-Timer. com tecnologia de quartzo a ser disponibilizado no Nautilus e Daytona são “bens escassos”, nada fáceis
O Zenith El Primero ficou disponível para o pú- mercado. Tinha uma precisão de +-5 segundos por de obter no retalho.
blico no Outono de 1969; os Breitling, Hamilton e mês, um isocronismo inatingível até pelos melhores A par dessa política de redução da oferta para es-
Heuer Chronomatic no Verão desse ano. Os cronó- relógios mecânicos. timular a procura assistiu-se nos últimos dez anos,
grafos automáticos Seiko começaram a ser vendidos Pouco depois, a Seiko abria a maior parte das pa- sobretudo devido à apetência das novas gerações (mi-
em Maio, mas apenas no Japão, com as vendas no tentes da tecnologia do quartzo, colocando-as à dis- llennials) e dos novos mercados (Ásia), a uma “febre”
estrangeiro a iniciarem-se só em 1970. posição do resto da indústria. Resultado: em menos pelo vintage. Outros modelos, como os Rolex GMT
Todas estas marcas — Zenith, Breitling, Hamilton, de uma década, a Ásia inundou o mundo de relógios Master, atingem hoje preços altamente especulativos.
Heuer (TAG-Heuer desde 1985) e Seiko — fizeram este baratos e fiáveis, quase matando a relojoaria suíça. Muitas outras marcas decidiram ressuscitar dos ar-
ano reedições comemorativas do meio século dos Segundo números da Fédération de l’Industrie Hor- quivos modelos seus dos anos 1950 e 1960, não apenas
seus primeiros cronógrafos automáticos. logère Suisse (FH), dos 90 mil trabalhadores que o imitando formas, como mesmo as cores in dessas dé-
sector tinha em 1970 chegou aos 30 mil em 1984. As cadas. Com braceletes de nylon, tipo NATO. É o caso
No espaço empresas, que eram 1600 em 1970, diminuíram para do modelo 1858 Geosphere, da Montblanc, inspirado
menos de 300 no auge da crise (são cerca de 600 hoje na estética Minerva, manufactura fundada em 1858 e
Eram exactamente 02:25:20 GMT quando, a 21 de em dia, empregando cerca de 50 mil pessoas). agora pertença da marca.
Julho de 1969 (20 de Julho em Houston, Texas), Neil O “pai” do relógio de quartzo da Seiko é o engenhei- Está a acontecer com o mercado de relógios usados
Armstrong se tornou o primeiro ser humano a colocar ro Tsuneya Namakura, falecido ironicamente a 25 de aquilo que já tinha ocorrido com os carros clássicos.
os pés na Lua. Pormenor: tinha deixado o seu relógio Dezembro de 2018, aos 95 anos. E fala-se de uma bolha, prestes a rebentar. Até lá, a
de pulso esquecido, no módulo lunar. A Seiko, naturalmente, edita em 2019 relógios co- nostalgia do vintage domina.
Assim, o Omega Speedmaster que equipava os três memorativos do primeiro Astron.
astronautas americanos da missão Apolo 11 só “prova” Perenidade e luxo
ambiente lunar minutos depois, quando Buzz Aldrin Vintage sport chic
saiu, por sua vez, da cápsula que os tinha transportado Se os seus pais lhe derem um iPhone ou um smart-
desde a Terra e depois desde o módulo de comando Em 1972, em plena crise do quartzo, com a indústria watch quando acabar o liceu, o que sobrará deles
até à Lua. No módulo de comando, Michael Collins relojoeira suíça reduzida em dezenas de milhares de quando sair da universidade? Nada. Pois é. Um gad-
aguardava o regresso dos dois companheiros, que se postos de trabalho e desaparecidas centenas de mar- get fica fora de moda, está ultrapassado, avaria sem
passeavam pela poeira lunar. cas, a Audemars Piguet surge surpreendentemente na conserto possível, ao fim de meses, anos no máximo.
O Omega Speedmaster, modelo escolhido pela NASA Feira de Basileia com um relógio mecânico, de aço, Um relógio mecânico de pulso, por mais antigo que
para todos os seus programas espaciais, foi até hoje o extremamente caro. A crítica apelidou de “loucura” seja, tem sempre vida longa, seguramente de mais de
primeiro e único relógio que esteve na Lua. o Royal Oak, com design da autoria de Gérald Genta. cem anos, se mantido como deve ser. Será cúmplice
Nos 50 anos da chegada do homem à Lua, a Omega (Na altura, o Royal Oak custava 3650 francos suíços, de bons e maus momentos de gerações, terá sempre
fez várias edições limitadas do Speedmaster, assina- quando um Patek Philippe Calatrava, de quartzo, mas histórias para contar e recordar.
lando o feito. em ouro, custava 2000 francos suíços). Ora, património e perenidade intergeracional levam
A versão “lunar” do cronógrafo Omega tem calibre Dava-se início ao novel segmento Sport Chic, que a outra componente do verdadeiro luxo — é aquilo
de carga manual, pois a marca ainda não tivera acesso ninguém suspeitava poder vir a ter vida tão longa — que, de valor, material ou sentimental, ou ambos, tem
à tecnologia do automático. A Seiko reivindica a hon- relógios grandes, robustos, mas ao mesmo tempo possibilidade de ser reparado. E um relógio mecânico
ra de ter sido a primeira marca com um cronógrafo elegantes. pode ser sempre reparado. Trazê-lo no pulso é um
automático no espaço, quando o astronauta norte- Gérald Genta era o “homem do momento”. Em 1974, sinal de personalidade, para si e para os outros. Até
-americano William Reid Pogue, a bordo da missão o suíço apresenta outros desenhos à Patek Philippe, na dá horas, mas estas estão hoje, mais exactas do que
Skylab-4, em 1973 e 1974, usou um no pulso (hoje ape- mesma linha Sport Chic. E a manufactura genebrina nunca, disponíveis nos “relógios de bolso” de tipo
lidado de “Pogue Seiko”). deixa-se conquistar pelo novo estilo. Em 1976 nascia novo — os telemóveis.
50

David Pontes
CRÓNICA

O tempo deles

C
hamam-lhes “pais helicópteros”. Vivem
a sobrevoar os filhos, a controlar os seus
passos, a gerir as suas relações, a vigiar-
-lhes o caminho. Cerceiam-lhes a auto- Como sublinha o psiquiatra Daniel Sampaio nesse
nomia, impedem-nos de desenvolver artigo, “artifícios como o ir perguntar aos outros pais
competências sociais, comem-lhes o quais são os TPC vai contra a autonomia e a responsa-
tempo de crescer. E o céu está cheio de helicópteros. bilização dos filhos. A atitude de superprotecção dos
Claro que há gradações para estes comportamentos, filhos é uma característica muito presente nos países
desde o “apocalypse now” dos pais superprotectores da Europa do Sul, como se os pais estivessem que
até aos pais a jacto que se multiplicam em voos rasan- estar sempre a ‘atapetar’ o chão que os filhos pisam,
tes, mas a figura dos pais vigilantes parece ser uma esquecendo-se que a educação para a autonomia e
constante da sociedade urbana portuguesa. contra o medo é fundamental”.
É possível que muitos não se sintam reflectidos nesta Um estudo feito pela Escola Superior de Educação
imagem, até porque o consenso social se vai moldan- de Lisboa reforça a ideia. Filmados numa sala, pais e
do ao que é considerado aceitável para a maioria. Em filhos muito pequenos eram convidados a desenvol-
1829, Silva Porto atravessava o Atlântico, do Porto para ver uma actividade em conjunto, podia ser fazer um
o Brasil, para encontrar trabalho. Tinha 12 anos e não boneco, um quadro... O objectivo era perceber como
era especialmente precoce. Hoje, sem querer acabar é que os adultos lidam com as crianças em actividades
com essa fantástica conquista que é a eterna adoles- colaborativas. O resultado mostrou que os educado-
cência, já não era mau se alguns pais deixassem os fi- res portugueses incentivam a criança a criar sozinha
lhos atravessar a rua, mas muitos acham que é normal (aconteceu com 21 crianças, em 50), os pais ajudam-
levá-los à escola, mesmo quando já estão no 12.º ano. -na (18 em 45), mas a maioria substitui-a (25 em 45) e
Em 2015, um estudo internacional comparou a mo- faz o projecto por ela. O mesmo vai acontecer mais
bilidade infantil em 16 países e colocou Portugal no tarde com os trabalhos de casa.
fim da lista como um dos países em que os pais dão Não, não podemos, não, não devemos viver por
menos liberdade às crianças. Na altura, Carlos Neto, elas. Educar é saber deixar que as crianças vivam o
professor da Faculdade de Motricidade Humana da seu tempo para errar, não é procurar adiar a realida-
Universidade de Lisboa, um dos coordenadores do de, na esperança de evitar o erro. E o paradoxo é que
estudo, alertava: “Estamos numa situação caótica. hoje, ao contrário do tempo de Silva Porto, quando
As nossas crianças estão fechadas, amarradas, em a esperança de vida na Europa Ocidental rondava os
casa, não têm liberdade de acção, não vão a pé para 33 anos, temos em média muito mais tempo para vi-
a escola, não brincam na rua. Estamos a viver uma ver, muito mais tempo para os acompanhar e ajudar.
situação insustentável, o que designo por sedenta- Muitos pais argumentarão que os tempos são hoje
rismo infantil.” de maior insegurança e que, por essa razão, não dei-
Não consta que tenha melhorado, até porque os xam, por exemplo, os filhos andar na rua. A verdade
recursos de vigilância aumentaram. Num recente ar- é que Portugal é um dos países mais seguros da Euro-
tigo no PÚBLICO, Cristiana Faria Moreira dava con- pa e o que os pais estão a fazer é alinhar nas teses do
ta das crianças de nove anos de um colégio privado deputado André Ventura, que acha que uma coisa é
que são vigiadas pelos seus pais através de aplicações a realidade e “outra coisa é a percepção real e os nú-
com “mapas digitais” como o Google Maps que lhes meros reais que as pessoas têm do ponto de vista da
permitem saber onde estão a qualquer momento. As percepção e da existência”, ou seja, a ilusão.
crianças e, obviamente os progenitores, acham que Em vez de construir as suas estratégias educativas
ter este “big brother” na família é normal. com base em medos irreais e transmitir esses receios
A tara deste momento, retratada por Natália Faria à sociedade, talvez fosse melhor consciencializarem-
num outro artigo, é a dos grupos de pais no WhatsApp. -se de que, em grande parte, o que os faz tremer é o
Através desta aplicação, que em outras geografias tem inverno demográfico. Numa sociedade em que os fi-
estado associada a problemas graves de desinforma- lhos são um bem escasso, a tendência é protegê-los ao
ção, os pais vão-se coordenando e controlando a vida máximo. Foi assim com a sociedade chinesa, em que
escolar dos seus filhos. O problema não é, obviamente, a política do filho único criou um exército de “peque-
que eles tenham uma relação com a escola, o proble- nos imperadores”; é assim, mesmo que não se reflicta
ma é que essa relação seja demasiado intensa ao ponto muito sobre isso, num dos países do mundo com uma
de perturbar o funcionamento do estabelecimento de das taxas de natalidade mais baixas.
ensino e que, no seu afã, os pais ignorem que os filhos Parece que foi Eugénio de Andrade que um dia dis-
também têm direito a criar espaços e relações a que se: “A juventude não precisa de piedade, mas de ver-
podem chamar suas. dade. Há muito jovem que me pede ajuda onde não
há ajuda possível, pois ninguém pode viver por eles a
sua própria vida, remontar às fontes do ser.” Sigamos
o poeta, deixemo-los viver o seu tempo.
08 DOM
BANDA SINFÓNICA
PORTUGUESA
José Rafael Pascual Vilaplana
direcção musical

Mark Camphouse Watchmen,


Tell Us of the Night
Jesus Santandreu Children’s
Song Symphonic Invention
Johan de Meij Symphony
der Liedr N.º 4

17 TER
PRÉMIO CONSERVATÓRIO
DE MÚSICA DO PORTO /
CASA DA MÚSICA
Gonçalo Silva saxofone
Rodrigo Pinho percussão

20 SEX + 21 SÁB
CONCERTO DE NATAL
Orquestra Sinfónica do Porto
Casa da Música
Michael Sanderling
direcção musical
Samuel Barber
Die Natali, op.36
Engelbert Humperdinck
Suite de Hänsel und Gretel
-
Camille Saint-Saëns
Sinfonia nº 3, “Órgão”

22 DOM
VÉSPERAS NO NATAL
Orquestra Barroca
& Coro Casa da Música
Laurence Cummings
direcção musical
Domenico Zipoli
Vésperas de Santo Inácio

MÚSICA 08-22
PARA O NATAL DEZ
MECENAS MECENAS MECENAS ORQUESTRA SINFÓNICA APOIO MECENAS PRINCIPAL
CICLO SOGRAPE MÚSICA CORAL DO PORTO CASA DA MÚSICA INSTITUCIONAL CASA DA MÚSICA

WWW.CASADAMUSICA.COM / +351 220 120 220


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