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O EVANGELHO E

A OIVERSIOAOE
OAS CULTURAS
PAUL G. HIEBERT

./'

O EVANGELHO
,,
E

� A DIVERSIDADE
DAS CULTURAS
um guia de antropologia

missionária

TRADUÇÃO
Maria Alexandra P. Contar Grosso

011
\!ln A 1\1 n\/ A
Copyright © 1985 Baker Books
Título do original: Anthropological Insights for Missionaries
Traduzido da edição publicuda por
Baker Books, divisão da Baker Book House Company
Grand Rapids, Michigan, 49516, EUA
Todos os direitos reservados.

1.ª edição: 1999


Reimpressões: 2001, 2004, 2005, 2008

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ISBN 978-85-275-0269-3

Impresso no Brasil / Printed in Brazil

COORDENAÇÃO EDITORIAL
Robinson Malkomes
REVISÃO
Eulália Pacheco Kregness
Lenita A. do Nascimento
CONSULTORIA
Frances Blok Popovich
COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO
Roger Luiz Malkomes
CAPA
Julio Carvalho
DIAGRAMAÇÃO
Sérgio Siqueira Moura-
Para
Frances,
Eloise e Michael,
Barbara e Byron,
e John,
que pacientemente me ensinaram muito a ser
um discípulo de Jesus Cristo. Devo a eles muito mais
do que possa expressar em palavras.
•. ·
Conteúdo

..

Prefácio........................ .: .......... .. .. . ........... .. .. ... . .............. . . . . . . . . . 9

P ARTE 1 O Evangelho e as Culturas Humanas


,,

1 Missões e Antrop �ogia. .. . ....................................................


. . 13
2 Evangelho e Cultura............................................................... 29

PARTE 2 As Diferenças Culturais e o Missionário

3 As Diferenças Culturais e o Novo Missionário . .. .................. . 61


4 O Missionário Identificado.. .................................................... 91
5 Os Pressupostos Culturais dos Missionários
. .........
Norte-americanos.... . . . . .... ... . ... .. ... . ... .. ..... . .
. . . .... .. . . 111
. . . . . . . . .

PARTE 3 As Diferenças Culturais e a Mensagem

6 As Diferenças Culturais e a Mensagem ... . .... . .. . ... . . ... .... 141


. . . . . . . .

7 Contextualização Crítica ..... .............. .. . . . .. .. ...... . .............. 171


. . . . . . .

8 A Autoteologia....... ... . ... ... . ... ........ ... . .


. . . . . . . . . . . . .. .... ....... ... .. . 193
. . . . . . . .

PARTE 4 As Diferenças Culturais e a Comunidade Bicultural

9 A Ponte Bicultural. .. . .. .. ..... . ..


. . . . . . . . . . . . . . . . .. .. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 229
1O O Papel do Missionário .. . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . ..... . . . . . . . . . . . . . . . . . ... .. . .. 257
. . .

11 A Tarefa Inacabada .. .. .... . . .


. . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . 287
. .

Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 301
Prefácio

A TUALMENTE, HÁ UMA VISÃO RENOV m'Á SOBRE A RESPONSABILIDADE DAS IGREJAS


de todo o mundo de levar a todas as pessoas as Boas Novas da salvação e de
ministrar a elas em suas necessidades. Isso pode ser observado não somente
pelo novo interesse em missões, ocorrido no Ocidente, mas também pelo rápido
crescimento da ação missionária nas igrejas da Ásia, África e América Latina.
Com essa renov:ição, houve a comp reensão de que o trabalho missionário
deve ser mais sensível às pessoas e às suas culturas. O movimento moderno de
missões nasceu em um momento de expansão colonizadora e tecnológica do
Ocidente, em que era freqüente os missionários compararem o evangelho à
sua civilização. Em vários lugares, os missionários identificavam-se muito com
as pessoas a quem serviam e aprendiam seu modo de viver. Muitos deles mos­
travam seu amor através de um profundo compromisso p ara com seu ministé­
rio . Partiam de seus p aíses geralmente sabendo que em poucos anos enfrenta­
riam a morte, e que os que sobrevivessem dedicariam suas vidas a essa tarefa.
Mas a identificação do evangelho com o poder e com a tecnologia ocidental tor­
nou-o estranho e, portanto, inaceitável para muitas vidas .
Hoje, as primeiras igrejas fundadas por missionários pioneiros estão cla­
mando, instando a que estejamos mais atentos às culturas e suas diferenças,
e nos lembrando de que Deus não é um Deus tribal, e sim o Deus do mundo;
de que o evangelho é p ara todos; e que a igreja é um corpo que transpõe as
barreiras da etnia, da classe social e do nacionalismo, que dividem os homens
colocando-os em campos de guerra. Ao mesmo tempo, tem havido uma cres­
cente atenção das ciências sociais, particularmente da antropologia, sobre a
necessidade de compreender as pessoas em seus ambientes culturais . Além
disso, surgiu uma crescente constatação de que os missionários atuais pre ci­
sam não somente de uma compreensão sólida das Escrituras, mas também de
um profundo conhecimento das pessoas a quem servem.
Este livro é uma tentativa de oferecer aos jovens missionários algumas
ferramentas básicas para a compreensão de outras culturas e a compreensão
10 O Evangelho e a D iveJ:"sidade das Culturas

de si mesmos ao penetrarem nelas . Não é um substituto do chamado divino


nem do treinamento bíblico e vocacional. Todo missionário deve experimentar
o chamado de Deus p ara missões e estar enraizado em seu amor e sua glória,
e no amor pelas pessoas, sua salvação e bem-estar. Isso o manterá caminhan­
do quando as coisas se tornarem difíceis . Infelizmente , hoje é comum estar­
mos muito prep arados e pouco comprometidos .
Este livro também não substitui u m treinamento consistente nas Escritu­
ras e no ministério ao qual o missionário serve, seja pre gando, ensinando;
atuando como médico, desenvolvendo comunidades ou qualquer outra tarefa.
É, no entanto, uma tentativa de introduzir os jovens missionários numa ter­
ceira área que lhes exige cap acitação, a saber, a relação e comunicação
transcultural.
De várias maneiras, o livro é autobiográfico. Baseia-se numa vasta refle­
xão sobre os nossos anos de ministério na Í ndia com o Mennonite Brethren
Board of Missions and Services e em nossos muitos erros ali cometidos. Infe­
lizmente, não p odemos reviver o p assado e desfazer tais erros, mas podemos
aprender com eles e transmitir nossa compreensii_o p ara aqueles que irão nos
suceder. Baseia-se também em muitas lições aprendidas na igrej a da Í ndia.
Nas igrejas j ovens há sempre um vigor da mensagem do evangelho que, nas
igrejas mais antigas, já se perdeu. .
Muitos tornaram este livro possível. Devo uma palavra de agradecimento
em p articular ao Conselho Curador do Seminário Teológico Fuller, que me
concedeu um ano sabático p ara finalizar este trabalho. Também desejo ex­
pressar meu agradecimento aos colegas da Escola de Missões Mundiais, que
sempre estimularam e criticaram minhas opiniões, e a Diretoria da Baker Book
House, particularmente à Betty De Vries que se apossou de meu tosco manus­
crito tornando-o inteligível. Acima de tudo, quero agradecer à minha esposa
Frances, que p acientemente me ouviu e me amparou durante as muitas ho­
ras que despendi redigindo esta obra.
PARTE 1
...

O Evangelho e as Culturas Humanas


1
•.·

Missões e Antropolo gia

o AUTO DE NATAL FINDARA - PELO MENOS ERA O QUE EU PENSAVA. 0 NASCIMENTO


de Cristo havia sido anunciado a Maria e José por anjos vestidos de puro
branco. Suas faces eram morenas e sua mensagem, em telugu,*pois estáva­
mos no sul da Í ndia. Os pastores cambaleavam no p alco, fingindo-se meio
bêbados, mas vigiando as crianças pequenas de quatro, como se fossem ove­
lhas . Não era bem o que eu esperava, mas algo que poderia ser explicado em
termos de diferenças culturais . Ao contrário dos p astores p alestinos, conhe­
cidos pela sobriedade e religiosidade, os p astores indianos são conhecidos
pela bebida e pela dança. Mas a mensagem não se perdeu porque, diante dos
anjos, os p astores se prostraram assustadoramente sóbrios.
Os magos e Herodes apareceram no palco em esplendor real. Sentamo­
nos de pernas cruzadas e amontoados, enquanto os·:pastores, os magos e os
anjos se reuniram a Maria e José, ao redor da manjedoura. Um bom final
p ara a história do Natal. De repente, surgiu Papai Noel! Com uma canção e
uma dança ale gres, começou a distribuir presentes p ara Jesus e todos . os
outros. Foi o herói do espetáculo. Fiquei atônito.
O que havia de errado? Um caso de sincretismo, pensei - uma mistura de
idéias hindus e cristãs esperadas em novos convertidos. Os missionários mais

*Telugu, também telegu ou telugus. Língua dravidiana falada em Andhra Pradesh, Í ndia (N. do.T.).
14 O Evangelh o e as Culturas Humanas

velhos haviam-nos alertado de que, se o teatro fosse p ermitido na igreja, tra­


ria consigo crenças hindus . Mas não. Papai Noel era uma idéia do Ocidente,
trazida pelos ocidentais juntamente com a história do nascimento de Cristo.
O que havia acontecido?

Men sage n s B íblicas e Ambientes Culturais

Em nossa preparação para o serviço missionário somos bem treinados na


Bíb lia e na mensagem missionária. Quando p artimos, achamos que assim
que aprendemos a língua do país podemos pregar, e as pessoas vão-nos en­
tender. É um choque quando isso não ocorre, que comunicação eficaz e m ou­
tra cultura é muito mais dificil do que imaginamos. Mas que precisamos fa­
zer p ara melhorar isso?
Há um abismo entre nós e aqueles a quem vamos servir. Há ainda um
abismo maior entre o contexto histórico e cultural da Bíblia e a vida contem­
porânea. Como unir esses abismos, tornando possível e eficiente a comunica­
ção transcultural e meta-histórica do evangelho?
É claro que precisamos entender o evangelho em seu ambiente histórico e
cultural. Sem isso, não há mensagem. Também precisamos de um claro e n­
.
tendimento de nós mesmos e do povo a quem servimos e m contextos históri­
cos e culturais distintos . Sem isso, estamos em perigo de pro �lamar uma men­
sagem desprovida de significado e relevância.
No entanto, com muita freqüência nos contentamos em alcançar apenas
um desses objetivos (Figura 1) . Como evangélicos, enfatizamos o conheci­
mento da Bíblia, mas raramente p aramos p ara examinar os povos e as cultu­
ras a que servimos. Logo, a mensagem que levamos quase sempre é mal­
e ntendida e "estranha". Por outro lado, a ala liberal da igreja ressalta o co­
nhecimento do contexto do homem contemporâneo, mas menospreza a im­
p ortância de fundamentos teológicos sólidos baseados na verdade bíblica . Este
grupo corre o risco de perder o evangelho.
Precisamos das duas abordagens. Devemos conhecer a mensagem bíblica .
Também precisamos conhecer o cenário contemporâneo, e só então poderemos

FIGURA 1
Unindo o Abismo das Diferenças H istóricas e Culturais

Conservadores

Ponte de

.,.,---- Identificação �
Revelação Bíblica Pessoas que Ouvem o Evangelho Hoje
Contexto Bíblico, Contexto Histórico e Cultural
Histórico e Cultural Contemporâneo
Missões e Antropologi a 15

co ns truir as pontes que tornarão a mensagem bíblica relevante ao mundo de


hoje e aos povos de todos os lugares.

co n trib uições Antropológicas para M issões

Co mo pode mos conhecer a mensagem bíblica? É claro que devemos estu dar
aB íbli a, a teologia e a história da igreja. Como missionários também precisa­
mos desenvolver as práticas de nosso ministério, seja a pregação, o ensino, o
desenvolvimento, a comunicação de mídia, a medicina ou a literatura.
Como podemos aprender sobre o cenário contemporâneo? Podem-nos aju­
dar a Antropologia, a Sociologia, a História e outras ciências do homem. Elas
nos fornecem ferramentas com as quais podemos examinar o contexto cultu­
ral em que trabalhamos e nos suprir de informações sobre a contemporanei­
dade; podem-nos auxiliar de diversas .1:,D- aneiras.
Primeiro, a Antropologia pode-nos fazer entender situações transculturais .
Pode, por exemplo, nos auxiliar a analisar a dramatização do Natal mencio­
nada anteriormente . Estudos recentes mostram que as pessoas organizam
suas idéias em grandeS" blocos ou áreas do conhecimento . Neste caso, fica
claro que os americanos possuem muitas idéias associadas com o Natal, mas
as dividem em domínios conceituais distintos, resultand Ô em dois Natais di­
ferentes. Em um, na esfera sacra, eles colocam Jesus, Maria, José, os anjos,
os magos e os p astores. Em outro, na esfera secular, colocam Papai Noel, as
renas, as árvores de Natal, as meias na lareira e os presentes. Não misturam
as duas em suas mentes. Rudolph, a rena do nariz vermelho, não pertence ao
mesmo cenário dos anjos e dos magos . Nem Papai Noel faz parte do mesmo
p alco que Jesus. Os missionários apresentaram aos indianos conceitos básicos
de "Natal", mas deixaram de comunicar aos seus ouvintes a diferença implíci­
ta entre os dois Natais. Portanto, os indianos não separaram Papai Noel da
cena da manjedoura.
S e gundo, a Antropologia pode-nos dar esclarecimentos sobre tarefas
missionárias específicas como a tradução da Bíblia . A exemplo dos missioná­
rios, os primeiros antropólogos precisaram aprender novas línguas, muitas
delas ágrafas, desprovidas de gramáticas, dicionários ou professores. Eles
desenvolveram técnicas para aprender línguas com rapidez e eficiência por
meio de instrutores locais, e para traduzir mensagens de uma cultura para
outra. Esses métodos têm sido de inestimável valor para os missionários no
aprendizado de novas línguas e na tradução da Bíb lia. Os antropólogos tam­
bém têm examinado os problemas da comunicação transcultural, e os escla­
recimentos obtidos p odem auxiliar os missionários a levar sua mensagem a
outras sociedades com o mínimo de distorção e de perda de significado.
Terceiro, a Antropologia pode auxiliar os missionários a compreender os
processos de conversão, incluindo a mudança social que ocorre quando as
p essoas se tornam cristãs. As pessoas são seres sociais, influenciados pela
16 O Evangelho e as Culturas Humanas

dinâmica de seu ambiente social, e uma familiaridade com esses mecanismos


psicológicos é importante para entender o processo missionário.
Quarto, a Antropologia pode-nos ajudar a tornar o evangelho relevante
aos nossos ouvintes . Como observamos, há um profundo abismo entre as cul­
turas contemporâneas e o contexto sociológico no qual a Bíblia foi fundamen­
tada. Para acabar com esse abismo precisamos compreender a revelação di­
vina dentro de seu contexto histórico e cultural bem como o homem moderno
em seu ambiente atual. Este último pode ser obtido, em p arte, por meio das
ciências sociais.
Finalmente, a Antropologia pode-nos auxiliar em nossos relacionamen­
tos com pessoas de todo o mundo, em toda a sua diversidade cultural e nos
ajudar a construir pontes de compreensão entre elas . O evangelho derruba
as barreiras que dividem as pessoas em judeus e gentios, escravos e senho­
res, homens e mulheres, primeiro mundo e terceiro mundo, americanos e
russos, "nós" e "eles" . O evangelho chama os cristãos a serem cidadãos do
Reino de Deus, p ara o qual pessoas de todas a nações e culturas são trazidas
numa comunhão única, sem destruir suas diferenças étnicas.
Neste livro, exploraremos algumas idéias que a Antropologia pode dar à
tarefa missionária. Supondo que meus leitores tenham uma familiaridade
completa com a Bíblia e que tenham construído suas b�ses teológicas sobre
esse conhecimento, não iremos assentar esses alicerces novamente . Em vez
disso, veremos como a Antropologia pode contribuir p ara o estudo de diferen­
tes povos em seus contextos histórico e cultural e examinaremos as implica­
ções dessas idéias em nossos ministérios . Muitos missionários evangélicos
são deficientes nessas áreas.
No entanto, antes disso, precisamos examinar rapidamente algumas hipó­
teses subjacentes neste livro. Todos os estudos se baseiam em certas conside­
rações, e é importante saber quais são elas. Primeiramente, olharemos os
pressupostos teológicos deste livro e, depois, os pressupostos antropológicos
p ara vermos de que maneira moldam nosso pensamento. Então procurare­
mos reunir idéias bíblicas e antropológicas p ara alcançarmos um entendi­
mento mais amplo da tarefa missionária. Devemos evitar uma visão distorcida
que nos impeça de ver as coisas com clareza.

Pressu postos Teológicos

Quais são os pressupostos teológicos implícitos neste livro, particularmen­


te quando se relacionam à tarefa missionária? Esta é uma questão importante
porque não podemos separar nossos modelos antropológicos de nossa teologia.
Fazê-lo implica sep arar a natureza espiritual e eterna dos seres humanos de
sua natureza pessoal e temporal. A história humana deve ser entendida den­
tro da estrutura maior de acontecimentos cósmicos e nossos modelos antro­
pológicos do homem devem-se ajustar à nossa estrutura teológica. É a revela-
Missões e Antropologia 17

ç ã o bíb lica que nos d á o s principais fundamentos sobre o s quais constru ímos
no sso entendimento social e histórico do homem.

A Missão de Deus
Uma teologia de missões deve iniciar com Deus e não com os hom ens.
Deve iniciar com a história cósmica da criação, da queda e da redenção que
De us providenciou p ara sua criação. Deve incluir a revelação que Deus faz. de
si mesmo ao homem, a encarnação de Jesus Cristo na história, a salvação
concedida por meio de sua morte e ressurreição e o senhorio absoluto de Cris­
to sobre toda a criação. A história da humanidade é primeiramente, e acima
de tudo, a história da missão de Deus para redimir os pecadores que buscam
a salvação, a história de Jesus, que veio como missionário, e a história do
Espírito de Deus, que atua nos corações daqueles que o ouvem.
É nesse contexto da atividade de Eleus neste mundo e através da história
que devemos-entender nossa tarefa. A missão é fundamentalmente de Deus,
e nós somos apenas p arte dessa missão. Nossos planej amentos e estratégias
são inúteis, e até mesmo destrutivos, se nos impedirem de buscar primeira­
mente a direção e o po d'er de Deus.

As Escrituras Autorizadas
A Bíblia é um registro completo e autorizado da auto-revelação de Deus
aos homens . Ela é a Palavra de Deus, e nós nos voltamos p ara ela não somen­
te a fim de ouvir a mensagem salvadora de Deus, mas também p ara ver como
ele atua na história da humanidade, e através dela, p ara alcançar seus obje­
tivos. As Escrituras são o p adrão pelo qual medimos toda verdade e retidão,
todas as teologias e toda a moral.
Porque a Bíblia é a Palavra de Deus, ela deve ser nossa mensagem para
um mundo perdido. Nossa tarefa central é comunicá-la às pessoas para que
compreendam e reajam. Podemos estar envolvidos em muitas coisas - pro­
gramas de pregação, ensino, aconselhamento, cura e crescimento -, mas elas
nãc:i serão partes verdadeiras das missões cristãs se não estiverem enraizadas
na Palavra e não derem expressão ao evangelho. Dar testemunho do evange­
lho por meio da proclamação e da vida é o cerne da tarefa missionária.
A revelação de Deus sempre é dada aos homens dentro de contextos histó­
ricos e culturais específicos. Conseqüentemente, para compreender as Escritu­
ras, devemos relacioná-las ao tempo e ao contexto em que são entregues. Até
mesmo Cristo veio como um indivíduo específico dentro da cultura judaica de
dois mil anos atrás.

Cristocentrismo
As Escrit uras devem ser entendidas à luz de Jesus Cristo . Ele é o centro
para o qual toda a revelação se direciona. O Antigo Testamento encontra sua
nlenitude nele e o Novo Testamento dá testemunho rlf'!le. Como Filho rle Deus.
18 O Evangelho e as Culturas Humanas

ele é a sua perfeita representação. Como Filho do homem, é o comunicador


perfeito da auto-revelação de Deus aos homens . Portanto, Cristo se torna
nosso exemplo, e sua encarnação é o modelo p ara a nossa missão. Não que
possamos salvar o mundo, mas, como ele, devemos nos identificar com aque­
les aos quais vamos para que apresentemos as boas novas da salvação de
Deus de forma tal que possam entendê-las.
Nossa mensagem também está centrada e m Cristo. Ela é tanto as boas
novas da salvação de Deus por intermédio da morte e ressurreição de seu
Filho como um chamado para o discipulado cristão. Ela p arte de uma profun­
da consciência do pecado humano e termina em louvor quando todos no céu e
na terra se curvarão d�ante dele e reconhecerão que Jesus é o Senhor.

O Ministério do Espírito Santo


O trabalho missionário não pode ser entendido à p arte da atuação perma­
nente do Espírito Santo na vida de seu povo e naqueles que ouvem o evange­
lho . Ele prepara nossos corações para receber e responder à mensagem da
redenção. O Espírito atua dentro de nós p ara que cheguemos à maturidade
espiritual, direcionando-nos a Cristo. É por meio do seu poder que ministra­
mos aos perdidos, aos quebrantados de corpo e de espírito, aos oprimidos e
aos famintos e desabrigados.

O Reino de Deus
O Reino de Deus foi a mensagem central de Cristo. Um Deus que ainda
trabalha na criação e na história para redimir o mundo para si. A pessoa de
Cristo certamente é fundamental nesse trabalho, mas vai além, estendendo­
se à ação do Espírito Santo na vida das pessoas e ao trabalho de Deus no que
se refere às nações e a toda a natureza. O alcance da missão de Deus não é
somente o seu reinado no céu, mas também o seu reinado na terra. Embora
isso tenha que ver com o destino eterno da humanidade , também trata do seu
bem-estar na terra - com paz, justiça, liberdade, saúde , provimento e reti­
dão.

A Igreja
No coração do Reino de Deus está a igrej a, o povo de Deus na terra. Por
intermédio dele, Deus proclama as boas novas do seu reino e fortalece aque­
les que nele entram. Em missões, precisamos de uma forte teologia da igrej a
como um organismo, uma comunidade dos fiéis; pois a igreja é a comunidade
discernente dentro da qual a tarefa missionária deve ser entendida. Missões
não é primeiramente uma responsabilidade individual, é tarefa da igreja como
um todo.
Missões e Antropologia 19

o Sacerdócio de Todos os Crentes


A igreja é um corpo vivo que possui muitos membros. A cada um deles
fora m concedidos dons p ara serem usados em favor do corpo como um to do;
Emb ora os membros tenham dons diferentes, todos têm o direito de se ap ro­
xim ar de Deus e a responsabilidade de discernir a mensagem de Deus dentro
do co nte xto da igreja. Todos os cristãos são sacerdotes !
E sta é uma mensagem radical, e são grandes suas implicações p ara mis­
sões. Significa que os convertidos de outras terras têm tanto direito quanto
nós de ler e interpretar as Escrituras. Negar isso é ne gar a atuação do Espí­
rito Santo em suas vidas . Nossa tarefa então é levar-lhes a Bíblia e ajudá-los
a discernir em suas páginas a mensagem que Deus tem para eles. Temos de
ser modelo de povo de Deus, vivendo em obediência à sua Palavra . Nosso
desafio também é conceder-lhes o maior privilégio que concedemos a nós mes­
mos - o direito de errar e aprender celm os erros.
Mas o sacerdócio dos cristãos nos força a diferenciar entre a Bíblia, a reve­
lação de Deus p ara nós, e as teologias, que são interpretações humanas da
revelação divina em diferentes contextos históricos e culturais . Portanto, fala­
mos de uma Bíblia, m� s falamos das teologias de Calvino, Lutero, dos
anabatistas e outros. Como veremos no capítulo 8, essa distinção entre a
Bíblia e suas interpretações teológicas não relativiza a teologia. Uma teolo­
gia cristã tem um pé na revelação bíblica e outro no contexto histórico e cul­
tural daqueles que ouvem a mensagem.
Uma vez que a nós foi dado o direito de ler e interpretar as Escrituras,
nossa primeira tarefa é permanecer fiéis à verdade bíblica. Isso começa com
uma exegese cuidadosa, em que a mensagem da Bíblia é entendida dentro de
um contexto histórico e cultural específico . Nossa segunda tarefa é descobrir o
significado da mensagem bíblica para nós em nosso. ambiente histórico e cul­
tural específico , e e ntão determinar qual deve ser nossa reação. Isso é
hermenêutica. Embora a mensagem da Bíblia seja supracultural - acima de
todas as culturas - ela deve ser entendida pelas pessoas dentro de sua pró­
pria tradição e época.

Pressupostos Antropológicos
Há certos pressupostos antropológicos implícitos neste livro que precisam
ser explicados . As teorias da evolução cultural dominaram a antropologia até
1925. Nelas, como na teologia cristã medieval, buscou-se o significado da ex­
p eriência humana em termos de história . Mas nessas teorias, a história foi
explicada em termos puramente naturalistas em vez de teístas . A "cultura"
foi vista como uma criação humana singular em vários estágios de desenvol­
vimento em diferentes partes do mundo . As sociedades foram ensinadas a
progredir de organizações simples para complexas, do irracional para o pen­
samento racional, da magia para a religião e, finalmente, p ara a ciência.
20 O Evange lho e as Culturas Humanas

Essa teoria da evolução cultural foi questionada após a Primeira Guerra


Mundial. O otimismo sobre o progresso humano que p recedeu essa guerra
havia sido abalado. Além do mais, as pesquisas mostravam que longe de ser
incoerentes, as sociedades chamadas primitivas são tão racionais e complexas
quanto as do homem moderno, embora de maneiras diferentes .
Rejeitar a idéia d e "evolução" cultural não significa abandonar paradigmas
diacrônicos ou históricos de entendimento. A própria Bíblia explica a humani­
dade em termos de história cósmica, um drama no qual há um "roteiro" com
início, meio e fim. As Escrituras rejeitam a idéia de que a experiência humana
é um conjunto aleatório de acontecimentos sem direção, sem objetivo e, conse­
qüentemente, sem significado. Além do mais, elas afirmam que a força motriz
atrás da história não é uma casualidade cega, mas os propósitos de Deus e as
respostas do homem. Precisamos entender as pessoas e a revelação divina dentro
do contexto histórico.
Na década de 30, as teorias da evolução cultural foram amplamente subs­
tituídas, parte delas pelas teorias funcionais estruturais que focalizavam a
diversidade das sociedades humanas e viam-nas como sistemas auto-suficien­
tes e integrados . À semelhança de organismos vivos, as socie dades foram
ensinadas a ter muitos traços culturais, todos eles contribuindo p ara sobre­
vivência da sociedade como um todo . ·-

Essas teorias contribuíram muito para que entendêssemos as estruturas


sociais e a dinâmica das mudanças sociológicas, e vamos aproveitar esses co­
nhecimentos aqui. Entretanto, no extremo, essas teorias tornam-se determinan­
tes e desprezam o papel do homem como um ser pensante e atuante . Explicam,
então, o pensame nto humano em termos de organização social, e assim,
relativizam todos os sistemas de crença, incluindo todas as religiões e, final­
mente, o corpo da ciência. No final, esse relativismo enfraqueceu as alegações
dos próprios deterministas sociais . Como Peter Berger observa (1970:42) : "A
relativização da análise, levada às últimas conseqüências, volta-s e contra si
mesma. Os relativizadores são relativizados, os que desiludem são desiludi­
dos; certame nte, a re lativização está de alguma maneira liquidada" . O
distanciamento do determinismo social não levou, como alguns antropólogos
temiam, a uma paralisia total do pensamento, mas, sim, a uma nova flexibili­
dade e à liberdade de questionar a verdade e os significados.
Outra corrente de pensamento surgida ap ós a rejeição das teorias da evo­
lução cultural foi a antropologia cultural. Esta focalizava sua atenção em sis­
temas de idéias e símbolos. "Cultura" passou a significar não somente as agrega­
ções de pensamento e comportamento humanos, mas também os sistemas de
crenças que se encontram atrás de idéias e ações específicas e os símbolos
pelos quais essas idéias e ações são expressas. As culturas são vistas como
conjuntos integrados nos quais as muitas partes atuam juntas para alcançar
as necessidades básicas de seus membros.·
Missões e Antropologia 21

Lon ge d e reduzir crenças e comportamentos a respostas predetermina­


da s, esse conceito de cultura torna o pensamento e as escolhas humanas e
racionais tanto possíveis como significativos . Ele nos ajudou a entender como
as pessoas se comunicam e constroem grandes sociedades sem as quais a
vida seria impossível. Também nos ajudou a entender as diferenças cultu­
rais, a natureza da comunicação transcultural e como as sociedades mudam.
E ssas compreensões são inestimáveis à tarefa missionária.
Os antropólogos recentemente voltaram sua atenção para as questões de
fundamento que permeiam crenças culturais explícitas. Cada cultura parece
ter sua própria cosmovisão, ou maneira fundamental de ver as coisas. Se isso
é verdade, a comunicação transcultural em seu nível mais profundo só é pos­
sível quando compreendemos as visões de mundo das pessoas a quem minis­
tramos. Também significa que as pessoas entenderão o evangelho da pers­
pectiva de sua própria mundividência ...Conseqüentemente, os missionários
devem entender não somente os símbolÓ s explícitos, mas também as crenças
implícitas de uma cultura, caso queiram transmitir o evangelho com o míni­
mo possível de distorção.
Finalmente, os antrof>ólogos desenvolveram teorias especializad as que
tratam de aspectos e�pecíficos da vida humana, muitas das quais são úteis
para missões. Uma delas é a Lingüística, que examina a estrutura dos idio­
mas e nos alimenta com idéias importantes sobre aprendizado da língua e
tradução da Bíblia. Outra é a Antropologia Psicológica que estuda as pers o­
nalidades humanas e suas relações com as culturas e com as mudanças .
Neste livro, usufruiremos amplamente teorias antrop ológicas que tê m
mais relevância para a tarefa missionária. Também procuraremos criticá-las
a p artir de uma perspectiva cristã e integrá-las à nossa compreensão teológi­
ca da tarefa missionária .

R u m o à I ntegração

Como integrar nossa visão teológica e antropológica a respeito do homem?


Precisamos fazer isso, e de modo consciente . Uma vez que utilizamos a ciên­
cia no dia-a-dia de nossas vidas - como o uso de eletricidade, automóveis,
computadores, medicamentos modernos e de milhares de outras criações -
as questões científicas influenciarão nossa teologia. O mesmo é verdade quan­
do nos referimos às ciências sociais. E se não examinarmos essas influências,
nossa compreensão do evangelho pode ficar distorcida.
Qualquer tentativa de inte gração deve ser completa e m sua natureza .
.Não adianta tomar ape nas alguns pe daços do p ensamento cie ntífico e
incorporá-los ao nosso pensamento cristão. Se quisermos aproveitar as idéias
científicas, devemos encarar a questão de como a ciência se relaciona com a
verdade bíblica.
22 O Evangelho e as Culturas Humanas

Aqui, em particular, devemos olhar as teorias científicas sobre o homem e


comp ará-las aos ensinamentos bíblicos sobre a natureza humana, p orque a
maneira como vemos as pessoas desempenha um papel crucial em nosso modo
de conduzir a tarefa missionária. Embora precisemos utilizar as idéias cien­
tíficas à medida que se ajustem à nossa compreensão da Bíblia, devemos
também buscar uma inte gração entre o que Deus nos tem revelado por meio
das Escrituras e o que ele nos tem mostrado por meio de sua criação.
O termo holismo possui hoje muitos significados . Por exemplo, as pessoas
falam de "globalização" e de "medicina holística" . Nós utilizaremos o termo
no sentido antropológico de entendimento amplo e integrado dos seres hu­
manos e que lida com toda a extensão de sua existência.

A Diversidade e a Unidade do Ser Humano


Os missionários partilham com os antropólogos o interesse pelos seres
humanos. Isso não acontece com a maioria das pessoas, uma vez que estão
preocupadas primeiramente com seu próprio tipo de gente, sua própria socie­
dade , sua p arte do mundo e ignoram o restante exceto quando este as afeta.
A maioria de nossos jornais está cheia de notícias locais, mas traz muito
pouco sobre o mundo em geral. As universidades oferecem diversos cursos
sobre história e literatura européia, americana e brasileir�, mas quase nada
·-

da Í ndia, de Gana ou da Indonésia.


Aqui, a expressão "todos os seres humanos" possui muitas dimensões.
Ela inclui pessoas de todas as partes do mundo - China, Austrália, Arábia
Saudita e Zâmbia. Refere-se também às pessoas de todos os níveis da socie­
dade - o pobre e o fraco tanto quanto o rico e o poderoso. Inclui ainda pes­
soas em toda a história - aquelas que viveram no p assado e aquelas que
viverão no futuro, bem como aquelas que vivem hoje. Só dentro deste p anora­
ma amplo podemos começar a entender o que significa ser "humano" .
Esse estudo sobre as pessoas em todos os seus ambientes tem feito com
que os missionários e antropólogos estejam cientes de muitas diferenças en­
tre os seres humanos. As pessoas se diferenciam biológica e psicologicamen­
te . Distinguem-se nas sociedades que organizam, nas culturas que criam.
Como veremos, essas diferenças levantam questões filosóficas e teológicas
profundas .
Mas os missionários, como os antropólogos, também estão preocup ados
com o universo do homem - o que é comum a todos os seres humanos . É
claro que os homens compartilham a maioria das funções fisiológicas. Geram
filhos, digerem alimentos, sofrem dores e respondem a estímulos pelos mes­
mos processos biológicos. Experimentam alegria e dor e comp artilham mui­
tos estados psicológicos. Organizam sociedades e criam culturas . Sem esses
aspectos universais do homem, seria impossível p ara as pessoas de uma cul­
tura entender ou se comunicar com pessoas de outra. Na verdade, reconhe­
cer a humanidade que temos em comum com os outros é o primeiro p asso no
Missões e Antropologia 23

des envo lvimento de um relacionamento de amor e verdade que resolve as


profu n das diferenças que "nos" separam dos "outros" .
O cri stianismo acrescenta outros aspectos universais humanos aos já men­
cion ad os. Todos pecaram e necessitam da glória de Deus, e a salvação é pos­
sível a todo s por intermédio da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Não há
outra m aneira p ara o rico ou o pobre, o americano ou o chinês . Conseqüe nte­
mente , esta mos preocup ados com que todos possam ouvir e ter uma oportu­
nida de de aceitar o evangelho.
A igreja também é chamada p ara ser um corpo de cristãos que transcen­
da as diferenças de raça e cultura por meio da criação de uma nova humani­
dade . Pode haver diferentes idiomas, mas só há um evangelho . Pode haver
muitas formas de louvor, mas há um só Deus. Pode haver ambientes cultu­
rais diferentes, mas só há uma Igreja.

Um Modelo Holístico de Humanidade


Estamos interessados em todas as pessoas, mas também em maneiras
abrangentes de considerá-las . Com freqüência temos uma abordagem frag­
mentada dos homens . Ao vê-los como seres físicos sujeitos às leis do movi­
mento, podemos analisar o que acontece com seus corpos quando sofrem aci­
dentes automobilísticos . Ainda podemos olhá-los de outro ângulo - como
criaturas biológicas, ao examinarmos seus corpos assimilando o alimento,
excretando dejetos, reproduzindo-se e respondendo ao estresse; como seres
psicológicos, fruto de imp ulsos conscientes e inconsciente s, sentimentos e
idéias; como seres socioculturais que criam sociedades e sistemas de crenças;
ou como pecadores que necessitam da salvação.
Cada um desses modelos nos ajuda a entender um pouco do que significa
sermos humanos. Mas como colocar todos juntos? Como evitar uma visão
fragmentada do homem, que o divida e que perca de vista o fato de ele ser
integral - não só braços e pernas, ou corpo, ou impulsos, ou espírito?

Reducionismo. A resposta mais simples e comum é o reducionismo .


E mbora possamos reconhecer muitas dimensões da vida humana, reduzimos
todas elas a um tipo de explicação. Por exemplo, no reducionismo biológico,
verificamos que as pessoas acham difícil o convívio umas com as outras ou
enfrentam momentos de depressão espiritual, mas nós as "explicamos" em ter­
mos de causas biológicas tais como desequilíbrios hormonais e tendências ge­
néticas. No reducionismo psicológico, nós as explicaríamos em termos de im­
pulsos conscientes ou inconscientes e p adrões humanos de resposta .
O perigo do reducionismo em missões é a sua abordagem excessivamente
simplista das necessidades do homem. Temos a tendência de considerar as
pessoas somente a p artir de suas necessidades físicas ou espirituais . Cristo
ministrou a elas em todas as suas necessidades . É claro que a salvação eter­
na do homem é a nossa maior prioridade, mas devemos levá-lo ao evangelho
24 O Evange lho e as Culturas Humanas

pleno . A salvação, no sentido bíblico, tem que ver com todas as dimensões da
nossa vida.
Em p articular, nós do Ocidente devemos nos guardar de um reducionismo
mecânico. Geralmente pensamos na relação de causa e efeito e cremos que
podemos resolver nossos problemas e alcançar nossos objetivos se apenas ti­
vermos os métodos e as respostas corretas. Essa abordagem nos transformou
em mestres de muitas coisas da natureza, mas também nos levou a ver as
outras pessoas como objetos que podemos manipular, se utilizarmos as fór­
mulas certas. Na verdade, mesmo as ciências sociais podem ser vistas como
"fórmulas" novas, se forem mal utilizadas. O evangelho nos chama a ver as
pessoas como seres humanos, e qualquer ação missionária eficaz começa pela
construção de relacionamentos, não de programas.
Uma abordagem mecânica também nos induz a controlar Deus com os
nossos próprios objetivos. Organizamos a agenda e tentamos fazer com que
Deus cumpra o nosso programa. Mas as Escrituras sempre nos exortam a
deixar esse tipo de mágica e a caminhar em direção à adoração e à obediên­
cia. A tarefa missionária é, em primeiro lugar, trabalho de Deus, e devemos
seguir sua liderança . Isso não elimina a necessidade de planejamentos ou
estraté gias. Mas significa que devemos fazê-lo em atitude de submissão a
Deus, reconhecendo que Ele age quando quer, quase sempre de maneira que
·-

não podemos entender.

Abordagens estratigráficas. Uma se gunda vertente rumo ao holismo é


o que Clifford Geertz chamou de "abordagem estratigráfica" . Nela simples­
mente empilhamos teorias diferentes sobre o ser humano sem nenhum esfor­
ço sério de integrá-las. Cada modelo, seja teológico, seja científico, continua
sendo uma explicação auto-suficiente de algum aspecto da vida humana. O
resultado é uma coleção de entendimentos fragmentados sobre as pessoas,
que são unidos por vários métodos de análise, mas, tomados juntos, não nos
dão uma visão integral do que significa ser homem (Figura 2) .
Por exemplo, podemos ver pessoas famintas e apresentá-las à agricultura
moderna, ou levar hospitais aos doentes, ou construir escolas para os analfa­
betos. Mas ao fazê-lo, com freqüência desprezamos o fato de que esses fatores
estão inter-relacionados - que o conhecimento pode evitar doenças e ajudar
as pessoas a cultivar alimentos, e que alimentação e saúde adequadas são
necessárias p ara que elas estudem. Porém, fracassamos por não ver que a
fome , a doença e a ignorância têm suas raízes no pecado do homem. Também
deixamos de ver como elas conduzem a mais pecado.
Aqui, novamente , os missionários do Ocidente devem estar alertas, p or­
que crescemos em uma sociedade que traça uma linha bem nítida entre reli­
gião e ciência, entre sobrenatural e natural. Essa distinção é grega, não é
b íblica. Ela nos tem levado a uma abordagem estratificada que exp lica a
ordem material em termos de leis naturais autônomas e relega as atividades
Missões e Antropologia 25

FIGURA 2

Uma Abordagem Estratigráfica dos Seres Humanos

Modelos Teológicos
Modelos Antropológicos
Modelos Sociológicos
Modelos Psicológicos
Modelos B iológicos
Modelos Físicos

de Deus ao miraculoso. Separa o esp írito humano do seu corpo e faz uma
distinção clara entre evangelização e Pf!'locupação social. Os missionários evan­
gélicos com muita freqüência se achám ministrando em uma ou em outra
dessas esferas. Os médicos, professores e agricultores sempre se encontram
lidando com necessidades físicas enquanto os pregadores limitam sua preo­
cup ação à salvação etefna.
Mas as pessoas>quebrantadas, em sofrimento e perdidas ouvem os médi­
cos, professores e agricultores porque eles as atendem naquilo que precisam.
Nesse momento, a mensagem do pre gador sempre lhes p arece irrelevante .
Conseqüentemente, aceitam uma ciência secular divorciada da teologia e re­
jeitam o cristianismo. Como John Stott disse, devemos enxergar o homem como
alma e corpo. Não somos um ou o outro, mas uma relação entre ambos .
O tratamento estratigráfico da teologia e da ciência seculariza muito nos­
sas vidas, deixando-as de fora da crítica teológica. A longo prazo, essa abor­
dagem também subestima a teologia. Queiramos ou não, se utilizarmos os
benefícios da ciência também absorveremos sua perspectiva da realidade, e
geralmente sem uma avaliação crítica. Precisamos tratar conscientemente
da relação da comp reensão teológica e científica do homem se quisermos
manter nossas convicções teológicas.

Rumo ao Holismo. A abordagem holística da compreensão do homem


não pode ser obtida por modelos reducionistas nem estratificados . Devemos
aprender o que a teologia e a ciência têm para nos ensinar acerca das pessoas
e e ntrelaçar essas idéias em um entendimento amplo do homem como ser
integral, percebendo que o nosso conhecimento sempre é imperfeito e incom ­
pleto.
Tal abordagem deve reconhecer a contribuição que diferentes estudos po­
dem dar àquilo que compreendemos sobre as pessoas . A antropologia faz isso
nas ciências sociais, mostrando como as várias idéias de cada disciplina se
relacionam entre si (Figura 3) . Por exemplo, as características físicas dos
seres humanos afetam as culturas que eles criam. Se tivessem três metros de
26 O Evangelho e as Culturas Humanas

altura ou fossem todos do mesmo sexo, suas culturas e sociedades seriam


diferentes.
Por outro lado, a cultura molda as características físicas das pessoas . O
homem é marcantemente criativo ao ajustar seu corpo aos seus gostos pes­
soais. Fura as orelhas, os lábios, as bochechas e os dentes p ara usar enfeites;
amarra a cabeça ou os pés p ara mudar suas formas; usa óculos ou aparelhos
auditivos p ara melhorar os sentidos; pinta e tatua a pele, as unhas e os cabe­
los; modela seu visual e dá forma aos seus penteados de mil maneiras dife­
rentes . As culturas também influenciam as idéias que as pessoas têm sobre
saúde e beleza. No Ocidente, onde o corpo longilíneo é considerado atraente,
as mulheres fazem dietas para permanecerem magras; em Tonga, no sul do
Pacífico, onde a beleza é medida pelo volume, a mulher se alimenta p ara se
manter gorda.
Semelhantemente, a interação de modelos deve ser estudada a fim de
determinar como o sistema biológico das pessoas as afeta psicologicamente,
como o sistema psicológico as afeta fisicamente e como ambos afetam e são
afetados por sua cultura.
Enquanto a Antropologia tem trabalhado e m direção a uma visão inte­
grada do ser humano do ponto de vista da ciência, nós, cristãos, devemos nos
fazer uma outra p ergunta . Como os modelos científicos P.o. ser humano se
relacionam com o nosso entendimento teológico de les? Infelizmente, durante
o último século, a relação entre cientistas e teólogos tem sido sempre de con­
fronto. Em p arte, isso tem ocorrido pelas abordagens reducionistas do conhe­
cimento . Tanto a ciência como a teologia tendem a reivindicar uma visão
total e ampla da realidade e, portanto, uma ignorou a outra. Estamos nos
tornando ainda mais cientes de que a realidade é muito mais complexa do
que entendemos sobre ela - na melhor das hipóteses, podemos vê-la de p ers­
pectivas diferentes. À semelhança dos conjuntos de plantas que se completam.

FIGURA 3

Uma Abordagem Integrada do Estudo do Ser Humano


� Espiritual �
Social � � Cultu ral
I
Psicológico
Ser Humano

I
Biológico

Físico �
De Paul G. Hiebert, Anthropological toeis for missionarias (Cingapura: Haggai /nstitute, 1983), p. 1.
Missões e Antropologia 27

p ar a u ma só construção, conjuntos diferentes de conhecimento nos mostram


asp ectos dive rsos da realidade. A ciência nos oferece idéias sobre várias es­
truturas da realidade empírica. A teologia nos oferece uma visão geral da
construção, do construtor, dos acontecimentos-chaves na sua história.
A complementaridade não significa que sempre haverá concordâ ncia en­
tre a ciência e a teologia. Quando surgem divergências, precisamos reexaminar
nossa ciência e nossa teologia à luz das Escrituras e da criação. Uma vez que
D eu s é a fonte de ambas, uma compreensão adequada de cada uma das pers­
pe ctivas não levará ao conflito.

A Tarefa Missionária

Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discí­
pulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito
Santo; e nsinando-os a guardar toda ;·à.s cousas que vos tenho ordenado. E eis
que estou convosco todos os dias até à consumação do século (Mt 28.18-20).

Assim como o P aj nie e nviou, eu também vos e nvio (Jo 20.21).

Com estas palavras, Jesus nos convocou para sermos suas testemunhas
ao redor do mundo. A igreja cristã por algum tempo foi grande no Oriente
Médio e no Ocidente com pequenos focos no sudoeste da Índia e na China.
Hoje, a igreja se encontra em todas as partes do mundo e está crescendo mais
rapidamente nas muitas igrejas jovens da África, Ásia, América Latina e
Ilhas do Pacífico. Além disso, há um interesse crescente em missões nessas
igrejas. Os missionários da Coréia estão servindo em Los Angeles, os da Ín­
dia, na Europa e os de uma parte da África, em outras partes daquele conti­
nente. Na verdade, o crescimento mais veloz da força missionária hoje vem
dessas igrejas jovens.
Portanto, não podemos mais comparar missionários com ocidentais. Neste
estudo, quando utilizamos a palavra missionário queremos dizer todo aquele
que comunica o evangelho em um ambiente transcultural, seja ele um africa­
no, servindo na Índia, ou um latino-americano, na Espanha. As ilustrações
utilizadas são direcionadas a um público ocidental porque este livro será am­
plamente utilizado no Ocidente. Mas os princípios examinados aplicam-se igual­
mente aos missionários de outras regiões do globo. O leitor só precisa pensar
em exemplos locais e substituir os exemplos ocidentais apresentados.

2
•.·

Evangelho ..e Cultura

Üs MISSIONÁRIOS ENFRENTAM MUITOS DILEMAS, MA S NENHUM TÃO DIFÍCIL QUANTO


aqueles que tratam da relação do evangelho com as culturas humanas. Essas
questões não são novas. No livro de Atos, várias questões surgiram quando os
gentios começaram a fazer parte da igreja, não individualmente ou acompa­
nhados, mas aos milhares. Eles teriam de tornar-se judeus prosélitos e adotar
práticas judaicas como a circuncisão e tabus como a proibição da carne de
porco? Se não, quais ensinamentos do Antigo Testamento a igreja deveria
seguir e que partes da cultura judaica poderiam ser descartadas?
O primeiro grande concílio da igreja (veja Atos 15) foi convocado para res­
ponder às questões que surgiram como resultado da evangelização feita pela
igreja primitiva. As mesmas questões surgem hoje onde quer que as missões
cristãs sejam bem-sucedidas. Enquanto não há convertidos, é fácil continuar o
trabalho. Podemos pregar, ensinar, radiodifundir, distribuir folhetos, sem ter
de lidar com os novos convertidos. Mas quando as pessoas se tornam cristãs
em outras culturas, enfrentamos muitas decisões. Podem manter várias es­
posas? Devem oferecer alimento a seus ancestrais? E o que devem fazer com
seus velhos costumes religiosos? Devemos ensinar-lhes nossos rituais ou es­
tes são essencialmente ocidentais? Como missionários devemos viver como
elas? Podemos, em sã consciência, participar de suas músicas e danças, ou
elas têm conotações não-cristãs?
A maioria dessas questões se refere à relação entre o evangelho e as cultu­
ras humanas. Por outro l ado , o evangelho não pertence a nenhuma cultura.
30 O Evangelho e as Culturas Humanas

Ele é a revelação que Deus faz de si mesmo e de seus atos sobre todos. Por
outro lado, o evangelho sempre deve ser entendido e expresso dentro de for­
mas culturais humanas. Não há maneira de comunicá-lo fora de padrões de
pensamento e idiomas humanos. Além do mais, Deus escolheu homens como
o principal meio de se fazer conhecido a outros homens. Mesmo quando esco­
lheu se revelar a nós, ele o fez de maneira plena tornando-se um homem que
viveu dentro do contexto da história humana e de uma cultura em particular.
Antes de podermos analisar a relação do evangelho com as culturas hu­
manas, precisamos olhar mais de perto o que esses padrões culturais abran­
gem.

O Conceito de C u ltura

"Cultura" é uma palavra comum. Quando dizemos: "Ela é uma pessoa


culta", queremos dizer que ela ouve Bach, Beethoven e Brahms e sabe quais
dos muitos garfos e colheres utilizar em um banquete. Ou quando dizemos:
"Henrique não tem nenhuma cultura", queremos dizer que ele não se compor­
ta de maneira "civilizada". Quando utilizamos a palavra neste sentido nós a
estamos comparando a costumes de membros da elite de uma sociedade rica,
estudada e poderosa. Implicitamente, pressupomos . que pest;oas comuns, par­
ticularmente as pobres e marginalizadas (aquelas que são membros simul­
taneamente de duas ou mais culturas e não se identificam totalmente com
nenhuma delas), não têm "cultura" exceto quando tentam se igualar à elite.
Uma vez que os antropólogos utilizam a palavra em um sentido diferente
e mais técnico, há um considerável debate entre eles a respeito de como o
termo cultura deva ser definido. No entanto, para os nossos objetivos, começa­
remos por uma definição simples que podemos modificar posteriormente, à
medida que a nossa compreensão do conceito se desenvolva. Definiremos cul­
tura como "os sistemas mais ou menos integrados de idéias, sentimentos, valo­
res e seus padrões associados de comportamento e produtos, compartilhados
por um grupo de pessoas que organiza e regulamenta o que pensa, sente e
faz".
Dimensões de Cultura
Vamos estudar essa definição e desvendar alguns de seus significados .
Primeiro observe que cultura se relaciona com "idéias, sentimentos e valo­
res". Essas são as três dimensões básicas de cultura (Figura 4).
A dimensão cognitiva. Este aspecto da cultura se relaciona ao conheci­
mento compartilhado pelos membros de um grupo ou uma sociedade. Sem o
conhecimento compartilhado, fica impossível a comuníçação e a vida em co­
munidade .
Eva ngelho e Cultura 31

FIGURA 4
As três Dimensões da Cultura

Dimensão Cognitiva:
-conhecimento
-16g/ca e sabedoria

Dimensão Afetiva:
-sentimentos
-estética

Dimensão Avaliadora:
-valores
-fidelidade

•, .

O conhecimento fornece o conteúdo conceitua! de uma cultura. Reúne as


experiências das pessoa'S em categorias e organiza essas categorias em siste­
mas maiores de conhecimento. Por exemplo, os americanos dividem o arco­
íris em seis cores básicas: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul e violeta.
Os telugus no sul da Índia enxergam essas mesmas cores, mas dividem o
arco-íris em duas cores básicas: erras, ou cores quentes (do vermelho ao la­
ranja), e patsas, ou cores frias (do amarelo claro ao violeta).
O conhecimento também diz às pessoas o que existe e o que não existe. Por
exemplo, a maioria dos ocidentais acredita em átomos, elétrons e gravidade,
embora nunca os tenha visto. Por outro lado, os aldeões do sul da Índia acre­
ditam em violentos rakshasas, espíritos com cabeças grandes, olhos saltados,
presas, cabelos longos e despenteados, habitantes de árvores e locais pedre­
gosos, e que durante a noite avançam sobre viajantes desavisados. Nem to­
dos os indianos acreditam nos rakshasas, mas aqueles que não crêem devem
pensar neles, pois existem como uma categoria dentro da cultura. Da mesma
maneira, os ateus no Ocidente são forçados a lidar com o conceito de "Deus".
O conhecimento cultural é mais do que categorias que utilizamos para
entender a realidade. Ele inclui os pressupostos e as crenças que temos sobre
a realidade, a natureza do mundo e como ele funciona. Nossa cultura nos
ensina a construir e pilotar um barco, a plantar e cozinhar alimentos, a go­
vernar e a nos relacionar com ancestrais, espíritos e deuses.
Tendo em vista que nossa cultura nos fornece os ingredientes fundamen­
tais de nosso pensamento, achamos quase impossível nos livrar de suas gar­
ras. Mesmo a nossa língua reflete e reforça nossa maneira cultural de pen­
sar. Além disso, muito dessa influência é implícita; não temos nem mesmo
consciência dela. Como óculos coloridos, a cultura afeta nossa percepção do
mundo, sem estarmos conscientes dessa influência. Só quando as lentes ficam
32 O Evangelh o e as Culturas Humanas

sujas, ou colocamos outros óculos, ficamos cientes de seu poder de moldar


nossa maneira de ver o mundo.
O conhecimento cultural é armazenado de várias maneiras. Muitos de
nós armazenamos informações de forma impressa. Utilizamos jornais, livros,
cartazes, embalagens e até mesmo inscrições feitas com fumaça no céu. Ra­
ramente percebemos o quanto dependemos da escrita. Privados dela, rapida­
mente ficamos intelectualmente famintos porque utilizamos pouquíssimas
maneiras de armazenar informações. A maioria de nós, no Ocidente, sabe de
memória apenas uns poucos versículos da Bíblia e as primeiras linhas de uns
poucos hinos.
Embora o registro impresso seja excelente para armazenar conhecimento,
ele não é o único meio. Freqüentemente rotulamos quem não sabe ler de "anal­
fabetos" e, portanto, ignorantes. O fato é que as sociedades não-alfabetizadas
possuem um grande número de conhecimento e o armazena de outras manei­
ras. Elas utilizam histórias, poemas, canções, provérbios, enigmas e outras
formas de tradição oral que são facilmente lembradas. Também encenam
peças, danças e rituais que podem ser vistos.
Esta distinção entre sociedades de tradição oral e sociedades alfabetiza­
das, e as formas que armazenam e transmitem informações é de importância
vital para os missionários. Uma vez que geralmente os m:issionários são pes­
soas instruídas, com freqüência interpretam mar as sociedades de tradição
oral e suas formas de comunicação. Por conseqüência, geralmente concluem
que a maneira mais eficaz de implantar igrejas no campo missionário é ensi­
nar as pessoas a ler e escrever.
Enquanto a alfabetização e a educação são importantes a longo prazo,
particularmente na preparação de líderes eclesiásticos de alto nível, elas não
são de forma alguma a única ou nem mesmo a maneira mais eficaz de im­
plantar igrejas em sociedades de tradição oral. As pessoas não precisam apren­
der a ler para se tornarem cristãs ou crescer na fé. Por exemplo, P. Y. Luke e
J. B. Carmen (1968) verificaram que os cristãos no sul da Índia armazenam
suas crenças em canções - o que os autores chamam de "teologia lírica". Na
igreja e em casa, eles sempre cantam de cor dez versos de uma canção e
quinze de outra. Também utilizam encenações apresentadas em praça públi­
ca. Embora os aldeões indianos se cansem rapidamente de uma pregação e
vão embora, ficam quase a noite toda vendo um espetáculo até o final. Os
cristãos em outras partes do mundo têm feito uso eficaz de trovas, danças ,
provérbios e outros métodos orais para comunicar o evangelho.
A dimensão afetiva. Cultura também engloba os sentimentos das pes­
soas - suas atitudes, noções de beleza, preferências alimentares e de ves­
tuário, seus gostos pessoais e a maneira com que se alegram ou sofrem. Pes­
soas de uma cultura gostam de comida apimentada, as de outra, adocicada
ou suave. Os membros de algumas sociedades aprendem a expressar suas
Ev a ngelho e Cultura 33

e moçõe s e podem-se tornar agressivos e combativos; em outras, apre nde m a


ser a utocontrolados e calmos. Algumas religiões estimulam o uso da medita­
ção, do mis ticismo e das drogas para alcançar paz interior e tranqüilida de.
O ut ras reforçam o êxtase por meio de músicas frenéticas, dan ças e 0
autofla gelo. Em resumo, as culturas variam muito no modo de lidar com os
lados emocionais da vida humana.
A dimensão afetiva da cultura se reflete na maioria das áreas da vida.
Po de ser vista nos p adrões de beleza e gosto de roupas, comida, casas, mobí­
lias , carros e outros produtos culturais. Por um momento, imaginem uma
cultura em que tudo seja apenas funcional. Todas as roupas teriam cor e
estilo iguais. Todas as casas seriam parecidas.
As emoções também desempenham uma parte importante nas relações
humanas, em nossas noções de etiqueta e amizade. Comunicamos amor, ódio,
escárnio e centenas de outras atitudee .Pºr meio de expressões faciais, do tom
·

de voz e dos gestos.


Os sentimentos encontram vazão especial dentro da chamada "cultura
expressiva" - na ar.te, literatura, música, dança e no teatro. Não os criamos
com objetivos utilitários<; mas para o nosso próprio prazer e expressão emocio­
nal. Isso fica óbvio guando vamos a um show de rock ou a uma ópera.
A dimensão avaliadora. Toda cultura também possui valores pelos quais
as relações humanas são julgadas morais ou imorais. Algumas ocupações são
consideradas nobres e outras, inferiores; algumas maneiras à mesa são apro­
priadas e outras, inaceitáveis.
Os julgamentos de valor podem ser divididos em três tipos. Primeiro, cada
cultura avalia as crenças cognitivas para determinar se são verdadeiras ou
falsas. Por exemplo, os europeus na Idade Média acreditavam que a malária
era causada por uma substância nociva presente no ar. Hoje, eles a atribuem
a esporozoários. Em outras culturas as pessoas acreditam que a malária seja
causada por espíritos que vivem ao redor da aldeia. Em cada um destes casos
a cultura determina o que as pessoas devem aceitar como verdade.
Todo sistema cultural também julga as expressões emocionais da vida
humana e ensina às pessoas o que é belo e o que é feio, o que é amar e o que
é odiar. Em algumas culturas, as pessoas são encorajadas a cantar com voz
aguda e estridente, em outras, em tom grave e suave. Ainda na mesma cultu­
ra, gostos e preferências variam muito segundo os ambientes e subculturas.
Smokings e vestidos de gala estão fora de cogitação em festas de skatistas, e
música country geralmente é imprópria para um funeral.
Finalmente, cada cultura julga os valores e determina o certo e o errado.
Por exemplo, na cultura norte-americana é pior dizer uma mentira do que
ferir os sentimentos de alguém. No entanto, em outras é mais importante con­
solar alguém mesmo que isso signifique torcer a verdade um pouquinho.
34 O Evange lho e as Culturas Humana s

Toda cultura tem seu próprio código de moral e seus próprios pecado s
culturalmente definidos. Julga alguns atos certos e outros imorais. Na socie­
dade hindu tradicional é pecado uma mulher comer antes do marido. Se o
fizer, um provérbio local diz que ela reencarnará como cobra. Na China, uma
pessoa deve venerar seus ancestrais ofertando-lhes comida regularmente .
Não fazê-lo é pecado.
Cada cultura também tem seus próprios valores supremos e suas devo­
ções fundamentais, e seus próprios objetivos culturalmente definidos. Uma
cultura pressiona as pessoas a fazer do sucesso econômico seu alvo principal;
outra estabelece como prioridade a honra e a fama, o poder político, e os·
favores dos ancestrais ou de Deus.
Estas três dimensões - idéias, sentimentos e valores - são importantes
na compreensão da natureza das culturas humanas, e nós nos reportaremos
a elas com freqüência.
O evangelho em todas as três dimensões. Em seu trabalho, os mis­
sionários devem ter em mente as três dimensões de cultura porque o evange­
lho se relaciona com todas elas. No nível cognitivo, se refere ao conhecimento
e à verdade, com entendimento e aceitação da informação bíblica e teológica
e com o conhecimento de Deus. É neste nível que nos p,reocupamos com asr
··
questões de verdade e ortodoxia.
O evangelho também inclui os sentimentos. Sentimos temor e mistério
na presença de Deus, culpa ou vergonha pelos nossos pecados, felicidade pela
nossa salvação e conforto na comunhão com o povo de Deus.
Finalmente, o evangelho tem que ver com valores e fidelidade. Jesus pro­
clamou as boas novas do Reino de Deus, o qual governa com retidão. Suas
leis são contrastantes com as dos reinos terrestres, e sua perfeição julga nos­
sos pecados culturais. Jesus também nos chama a segui-lo. Ser cristão é pres­
tar fidelidade total a ele. Qualquer outra coisa é idolatria.
As três dimensões culturais são essenciais na conversão. Precisamos sa­
ber que Jesus é o Filho de Deus, mas só o conhecimento não é suficiente. Até
mesmo Satanás tem de reconhecer a divindade de Cristo. Nós precisamos
também dos sentimentos de afeição e de obediência a Cristo. Mas os senti­
mentos também não são suficientes. Tanto o conhecimento como os senti­
mentos devem nos levar à adoração e à submissão, à obediência e a seguir
Jesus como Senhor de nossa vidas.
Todas as três dimensões também devem estar presentes em nossa vida
cristã. Precisamos tanto de uma boa teologia - um conhecimento da verdade
- quanto das emoções de temor e exaltação. Mas elas devem levar ao
discipulado e ao fruto do Espírito: amor, alegria, paz, etc. Ironicamente, no
Ocidente temos reduzido tudo isto a "sentimentos". Na Bíblia, eles são com­
promissos e valores. É por isso que Paulo pode nos ordenar ao amor, ao rego-
Eva nge l ho e Cul tura 35

zij o e à paz . No cristianismo somos chamados a dar nossas vidas a Deus e ao


sent��e �tos geralmente �ê � em seguida.
p róximo. O e?te?1� imen;o e os
Nós mis s1o narios e lideres eclesiasticos temos a tendenc1a de ressaltar os
asp tos cognitivos do evangelho. Estamos preocupados com o conhecime nto
ec
bíblico e teoló gico. Afinal de contas, esta é a área em que fomos treinado s.
Conse qüente mente, os métodos que utilizamos, tais como a pregação e o en­
sino, enfatizam a informaçã o e a razão.
No entanto, falhamos por não entender a importância dos sentimentos e
das atitudes no dia-a-dia da maioria das pessoas. Os seres humanos gastam
muito de seu tempo livre e de seus recursos na busca de empolgação e de
e moç ões ou do afeto e da tranqüilidade - talvez mais do que em adquirir
conhecimento. Fazem qualquer coisa para evitar a dor, o medo e a tristeza.
As emoções também desempenham papel crucial nas decisões tomadas
pela maioria das pessoas. Elas escoll:�� m suas roupas, preparam suas refei­
ções e compram seus carros tanto pela emoção quanto pela razão. Se isso é
verdade, devemos apresentar o conhecimento do evangelho com emoção, a
fim de que as pessoas creiam e sigam. Devemos ensinar a verdade reconhe­
cendo que muitas pessôas aceitam o evangelho não porque sejam racional­
mente persuadidas} mas porque ficam livres de medos ou porque experimen­
tam o perdão e o regozijo da salvação. E devemos persuadi-las a aceitar.
Na igreja, precisamos de uma boa pregação e de um bom ensino a fim de
que os novos cristãos cresçam em maturidade. Também precisamos oferecer
caminhos para que os cristãos se expressem por meio da música, da arte, da
literatura, do teatro, da dança, dos rituais e das festas. Com muita freqüência,
o cristianismo protestante não tem muita força diante de africanos e asiáti­
cos porque parece triste, apagado e monótono em comparação com as religiões
que já possuem.
Todavia, nosso objetivo principal é o discipulado. Não proclamamos o evan­
gelho simplesmente para informar as pessoas ou para fazê-las sentir-se bem.
Nós as estamos chamando para qlJ_e se tornem seguidoras de Jesus Cristo.
Manifestações de Cultura
Outra parte de nossa definição de cultura inclui "comportamento e pro­
dutos". Estes são manifestações de cultura que podemos ver, ouvir e experi­
mentar por meio de outros sentidos.
Comportamento. De modo geral, as pessoas aprendem a se comportar
por meio de sua cultura. Na América do Norte, elas aprendem a se cumpri­
mentar, a comer com garfo, a dirigir no lado direito da rua e a competir umas
com as outras por melhores notas e mais dinheiro. No Japão, são ensinadas a
se curvar, tirar seus sapatos à porta, sentar em tatames no chão, comer com
pauzinhos e a ajudar as outras na escola e no trabalho.
36 O Evangelho e as Culturas Hu manas

No entanto, nem todo comportamento é culturalmente moldado. Em situa­


ções formais, o comportamento é definido com precisão. Por exemplo, em um
banquete, nossas roupas, nosso comportamento e nossa conversa são cuidado­
samente circunscritos. Mas na vida diária, geralmente são menos formais e é­
nos permitido escolher entre uma gama de comportamentos permissíveis.
Nossas escolhas refletem a ocasião (roupas de banho não são apropriadas na
sala de aula) e a nossa personalidade. Também refletem nossas decisões do
momento, que são influenciadas por circunstâncias econômicas, políticas, so­
ciais e religiosas de nossa vida.
De certo modo, nossa cultura reúne o conjunto de regras do jogo da vida
de que nós e os membros da sociedade p articip amos. Como jogadores,
freqüentemente tentamos "torcer um pouco as regras" sem ser punidos. Se
somos descobertos, há punição; se não, temos alguma vantagem ou sensação
de poder.
Todas as culturas p ossuem meios de impor suas regras, como a fofoca, o
ostracismo e a força. Mas nem todos os infratores são punidos. Uma socieda­
de pode ignorar alguns transgressores, particularmente aqueles que são im­
portantes ou poderosos. Ou pode ser incapaz de impor uma regra específica,
particularmente quando muitas pessoas a transgridem. Em tais casos, as
leis culturais podem morrer, e conseqüentemente a cultqra se altera.
As pessoas de uma mesma cultura nem sempre concordam com as regras.
Como crianças em u ni jogo recreativo de futebol elas discutem por causa de
uma ou outra regra. No final, aquelas que conseguem fazer valer suas regras
tornam-se líderes e controlam o jogo a seu favor.
Produtos . A cultura também inclui objetos materiais - casas, cestas,
canoas, máscaras, cartas, carros e computadores entre outros. As pessoas
vivem na natureza e devem adaptar-se a ela ou moldá-la usando-a para seus
próprios objetivos. Também constroem cabanas para se abrigarem da chuva
e do frio, barcos para navegar, enxadas e pás para cultivar a terra. Costuram
roupas para se manterem aquecidas e fazem armas para caçar ou p ara guer­
rear umas com as outras. Derrubam florestas, constroem estradas, represam
rios e escavam túneis através das montanhas. No final, como suas ações alte­
ram o ambiente, são forçadas a mudar suas culturas.
As pessoas em sociedades tribais simples vivem num ambiente ampla­
mente formado pela natureza. Sua cultura pode ensinar-lhes a fabricar ar­
mas para caçar e a construir abrigos de galhos e tecer roupas para protegê­
las do tempo. No entanto, na maioria dos lugares, devem adaptar-se à natu­
reza. Nas sociedades industriais complexas, a maior parte do ambiente das
pessoas pode ser culturalmente moldado. A eletricidade obscurece a distin­
ção entre dia e noite; carros, aviões, rádios e telefones quebram as barreiras
da distância geográfica; aquecedores e condicionadores de ar criam climas
artificiais, e os registros fonográficos congelam momentos da história.
Eva ng elh o e Cul tura 37

A cultura mate rial inclui mais do que respostas humanas ao ambiente .


As p es soa � fazem �u�tas coisas para seu Auso próp �io e para expr� ssare m
suas hab ilidades criativas. Nas culturas nomades simples, essas c01sas são
rara s. Nas socie dades modernas, o número de diferentes objetos produzidos
é imp res sionante. Por exemplo, um único Boeing 747 tem mais de 4 5 00 000
p eç as e uma loja de ferragens de porte médio possui mais de 15 000 tipos
diferentes de objetos à venda.
O comporta mento humano e os objetos materiais são prontamente obser­
vados. Conseqüentemente, são meios importantes para estudarmos uma cul­
tura. Podemos começar nossa tarefa examinando as coisas que as pessoas
fabricam, quem as fabrica e como, quem as utiliza e para quais objetivos, qual
0 valor que atribuem a suas criações e como se desfazem delas. Podemos ob­
servar como as pessoas se comportam em diferentes situações, e com pessoas
diferentes. Na verdade, se não obser�rmos o comportamento e os objetos as­
sim que entrarmos em uma nova cÚltura, logo se tornarão comuns e não
pres taremos mais atenção a eles.
Sistemas de Símbolos
A terceira parte de nossa definição é a palavra associado. O comporta­
mento e os produtos do homem não são partes independentes de uma cultura;
eles estão intimamente ligados às idéias, aos sentimentos e valores presentes
dentro de seu povo. Essa associação entre um significado, uma emoção ou um
valor específico e um certo comportamento ou produto cultural é chamada de
símbolo (Figura 5). Na América do Norte, por exemplo, mostrar a língua para
alguém significa ridicularizar e rejeitar; no Tibete, é um símbolo de cumpri­
mento e amizade (Firth 1973:313).
Num certo sentido, uma cultura é feita de muitos conjuntos de símbolos.
Por exemplo, a fala, a escrita, os sinais de trânsito, a moeda, os selos, os sons
como os de sirenes e campainhas, os aromas como os dos perfumes são apenas
alguns dos poucos conjuntos de símbolos das culturas ocidentais. Mesmo o
vestuário, além do seu valor utilitário como proteção e aquecimento, carrega

FIGURA 5

Símbolos Ligam Significados, Sentimentos e Valores às Formas

Um Sím bolo

ou valor

1
forma
38 O Evangelho e as Culturas Humanas

sentimentos e significados. Nos Estados Unidos um smoking ou um vestido


de gala fala de uma ocasião formal, assim como umjeans indica informalidade.
Os uniformes dos garçons e pilotos indicam suas profissões, assim como as
insígnias dos militares mostram suas patentes.
Forma e significado. A união simbólica entre formas e significados (emo­
ções ou valores) é complexa e variada. Algumas vezes é puramente arbitrá­
ria. Uma empresa pode escolher utilizar um círculo triplo como sua logomarca
ou uma faculdade pode tomar um cão da raça husky como seu mascote.
No entanto, a maioria dos símbolos culturais deve ser entendida dentro de
seu contexto histórico e cultural. Por exemplo, os gregos associavam a pala­
vra p oly s ao significado de "cheio" ou "muitos". Ao longo dos séculos, à medi­
da que outras línguas apareceram e fizeram empréstimo do grego, a associa­
ção básica foi mantida. Atualmente, o português utiliza p alavras como
"policromático", "poligamia" e "poliedro", que são, em parte, produtos de sua
história simbólica.
Da mesma forma os símbolos, uma vez criados, também se tornam parte
dos sistemas culturais. Raramente permanecem isolados. Eles adquirem sig­
nificados não só pelas definições que lhes damos, mas também por sua relação
com outros símbolos do mesmo conjunto. Por exemplo, quando pensamos na
\
palavra vermelho nós o fazemos em relação a todas as outras categorias de
cores que temos. Logo, ao dizermos "vermelho" também queremos dizer "não
é laranja, nem amarelo, nem púrpura", e assim por diante. Portanto, os sím­
bolos carregam significados positivos assim como negativos.
Muitos símbolos são utilizados em locais diferentes e adquirem significa­
dos diversos, mas relacionados. Por exemplo, dizemos de uma casa: "É ver­
melha " (cor); de uma pessoa: "Ele é Vermelho (ideologia política)"; de nós
mesmos: ''Vi tudo vermelho " (sentimento de raiva); de nosso amigo: "Ele ficou
vermelho " (sentimento de vergonha); e do sinal: "Estava vermelho " (sinal de
trânsito). Estes símbolos multivalentes ajudam a integrar uma cultura, unindo
vários domínios do pensamento.
Finalmente, para que os símbolos façam parte de uma cultura, devem ser
compartilhados por uma comunidade de pessoas. Todos nós possuímos símbo­
los próprios que utilizamos para nos comunicar. Por exemplo, inventamos códi­
gos para nos lembrar do que devemos fazer. Mas os símbolos se tornam cultura
somente quando um grupo de pessoas associa os mesmos significados com for­
mas específicas.
É essa natureza compartilhada dos símbolos culturais que torna a comuni­
cação humana possível. Não podemos transmitir nossos pensamentos para a
cabeça dos outros. Devemos primeiro codificá-los em símbolos que os outros
entendam. Embora recebam apenas as formas desses símbolos (comportamen­
to, fala ou objetos) eles podem inferir o que queremos dizer porque comparti­
lham conosco um conjunto comum de símbolos (Figura 6).
Ev ang e l ho e Cultura 39

FIGURA 6
Os Símbolos Tornam a Comunicação Possível Transformando
Significados em Formas

Pessoa A Pessoa B

Tendo em vista que os símbolos culturais são compartilhados e permane­


cem com o passar do tempo, as pessoas podem transmitir seu conhecimento e
seus sentimentos de umas para as outra§! e de uma geração para outra. É isso
que dá estabilidade e traz mudança às éulturas. Somos os receptores de uma
cultura desenvolvida por gerações anteriores. Embora comecemos com ela, nós
a mudamos e transmitimos essa forma modificada para a próxima geração.
Essa transição de uma géração para outra também é responsável pela natu­
reza cumulativa da C)lltura. Novas informações são adicionadas e novos pro­
dutos são criados, e é importante lembrar que as culturas são de natureza
social e histórica.
A fusão da forma e do significado. Em alguns símbolos, a união entre
forma e significado é tão próxima que os dois não podem ser diferenciados.
Isto é freqüente com relação aos símbolos históricos. Para os muçulmanos,
Meca possui fortes significados religiosos porque foi onde Maomé nasceu.
Semelhantemente, para os cristãos, a cruz simboliza a morte de Cristo pela
simples razão de que Cristo foi pregado em uma cruz. Podemos escolher ou­
tros símbolos para falar daquela morte, mas não podemos mudar os fatos his­
tóricos.
Formas e significados também podem ser equivalentes em símbolos
ritualísticos. Por exemplo, em algumas culturas, os adoradores utilizam ima­
gens simplesmente como forma de lembrar seus deuses. Em outras culturas,
acreditam que seus deuses habitam o ídolo. Ainda em outras culturas, os
adoradores igualam os dois - o ídolo é seu deus. Muitos cristãos ocidentais
diferenciam formas e significados em seus rituais. A Ceia do Senhor lembra­
lhes da última refeição de Jesus com seus discíp ulos, e o pão e o vinho repre­
sentam simbolicamente o corpo e o sangue de Cristo. Os cristãos dizem: "Va­
mos à igreja a fim de adorar". Em outras palavras, o ato de ir à igreja não é
em si um ato de adoração. A adoração é um sentimento interno que experi­
mentam na igreja. Outros cristãos não fazem tal distinção. Para eles, a Euca­
ristia é comer com Cristo, e o pão e o vinho são vistos como seu corpo e san­
gue. Eles dizem: "Ao irmos à igreja estamos adorando". Não separam o ato
40 O Evangelho e as Culturas Humana s

externo de ir à igreja dos pensamentos e sentimentos internos que os levam a


fazê-lo.
Em particular, os ocidentais tendem a separar formas e significados, e n ­
quanto as culturas tradicionais e agrícolas tendem a compará-los. Conseqüe n ­
temente, os rituais geralmente têm pouco significado no Ocidente, embora
sejam vitais para a vida das pessoas em outras partes do mundo. Como mis­
sionários ocidentais, precisamos reconhecer isso a fim de não entender erra­
damente o lugar que os rituais ocupam na vida das pessoas a quem servimos.
Como veremos nos Capítulos 5 e 6, é importante que os missionários e n ­
tendam a natureza dos símbolos culturais não só quando traduzem a Bíblia
e sua mensagem para uma nova língua, mas também quando implantam
uma igreja e contextualizam seus símbolos e rituais dentro de um novo ambi­
ente cultural.
Padrões e Sistemas
As culturas são mais do que conjuntos aleatórios de símbolos que as pes­
soas utilizam aos poucos. Como observado em nossa definição, os símbolos são
utilizados de maneiras específicas. Por exemplo, os americanos usam garfo
quando comem a maioria de seus alimentos. Essa associação de um símbolo
específico com uma utilização ou um contexto dete.!'minadd é chamada de traço
cultural, e agrupamentos desses traços ligados entre si em padrões maiores
algumas vezes são chamados de complexos culturais. Ao jantar, os america­
nos utilizam garfos juntamente com colheres, facas, pratos, canecas, copos,
cadeiras, mesas e, geralmente, toalhas. Além do mais, os talheres devem ser
utilizados de certas maneiras, dependendo da ocasião. Os indianos, ao con­
trário, usam os dedos e comem em pratos de latão, alumínio ou em folhas de
plantas sentados no chão.
Entretanto, nem todo comportamento é padronizado. Quando uma pro­
fessora deixa cair um livro ou um estudante escorrega no gelo, muito prova­
velmente estes atos são considerados acidentes, não prescritos pela cultura.
Além disso, alguns padrões são pessoais e não têm importância ou significa­
do na sociedade. Um indivíduo pode comer somente alimentos ácidos ou se
vestir apenas de marrom. Por outro lado, os traços e complexos culturais são
padrões que possuem significado para os membros de uma certa sociedade.
A prática de alguns traços pode ser limitada a uma única pessoa. Um rei,
por exemplo, pode ser o único com permissão para usar a coroa ou se sentar no
trono, porém, esses costumes são entendidos por todos em sua corte. No en­
tanto, muitos traços são praticados por grupos específicos de pessoas dentro de
uma sociedade. Os jogadores de beisebol, as secretárias, os estudantes univer­
sitários e até mesmo os missionários têm seus padrões próprios de comporta­
mento cultural. Assim também homens e mulheres. Finalmente, alguns tra­
ços são praticados pela maioria ou por todas as p�ssoas de uma sociedade.
Eva nge lh o e Cul tura 41

Por exemplo, nos Estados Unidos espera-se que, e m público, todos estejam
ve s tid os e, com poucas exceções, aqueles que não o fizerem serão punidos.
No comportamento humano, nem sempre é fácil distinguir entre o que é
p adronizado e o que não é, por�u� a cultura mud � à. medida q�e nov� s traços
s ão a dicionados e os velhos, elimmados. Atos criativos ou ac1denta1s podem
se r copia dos por outros e i�corporados à cultura. Um exemplo disso é o do
missionário americano na India que decidiu oferecer aos filhos dos missio­
nários americanos de sua área uma festa de Natal. Vestido de Papai Noel e
montado numa bicicleta, ele ia até suas casas com presentes. Infelizmente,
no meio do caminho, escorregou na lama quando atravessava uma vala de
irrigação. Daquele dia em diante, todos os anos as crianças o esperavam na
vala para vê-lo cair. E ele nunca as desapontava!
Os traços e complexos culturais são organizados ao redor de sistemas de
crenças. Por exemplo, o sistema médicq no Ocidente inclui um grande número
de crenças sobre a natureza das doenÇ as e suas curas, sobre a natureza dos
médicos como profissionais e sobre a maneira como o sistema de saúde deve
ser organizado. Essas crenças dão aos médicos, às enfermeiras e aos pacien­
tes diretrizes para o �u comportamento e para os tipos de hospitais que
constroem. Por outJO lado, atuando de acordo com as normas culturalmente
prescritas, eles reforçam seus próprios sistemas de crenças.
Em sociedades complexas, como nos Estados Unidos ou no Canadá, é difí­
cil falar em uma única cultura. Algumas crenças e práticas podem ser aceitas
por todos, tal como dirigir do lado direito da estrada. Mas as diferenças tam­
bém são significativas. Nessas sociedades é conveniente falar de "estruturas
culturais". Uma estrutura cultural é um ambiente social que tem sua pró­
pria subcultura - suas crenças específicas, regras de comportamento, seus
produtos materia.i s, símbolos, �l1as estruturas e seus_ amp i�nt�si, . f or _��e�­
plo, um banco é uma subcultura que tém sua própria infürmáçâó; seus senti­
mentos, valores, símbolos correspondentes, sua propriedade e seus padrões
de comportamento. De maneira semelhante, os supermercados, hospitais e
as igrejas são estruturas culturais. A maneira como as pessoas pensam e se
relacionam, seus valores e os objetivos e produtos que utilizam variam consi­
deravelmente de uma instituição para outra.
Em sociedades tribais simples, o número de estruturas culturais é peque­
no, e as diferenças entre elas é mínima. Entre os aruntas do deserto austra­
liano, os homens caçam e praticam rituais secretos de que nenhuma mulher
pode participar, e as mulheres partilham outras atividades entre si. No entan­
to, durante grande parte do tempo, homens e mulheres permanecem juntos
no acampamento interagindo dentro da mesma estrutura cultural.
Por um outro lado, nas cidades modernas há muitas estruturas e as dife­
renças entre elas são grandes. As instituições religiosas, sociais, políticas, edu­
cacionais, econômicas, estéticas e de lazer formam suas próprias subculturas.
Na verdade, existem até mesmo diferenças culturais significantes entre as
42 O Evangelho e as Culturas Humanas

escolas de primeiro e segundo graus, faculdades e seminários, e em menor


extensão, entre faculdades e seminários.
Nas sociedades urbanas, as pessoas fazem parte de instituições diferen­
tes, mas encontram sua identidade principal em apenas uma ou duas delas.
Um indivíduo pode ser um consumidor regular de um supermercado e cliente
de um banco em particular e, vez ou outra, assistir a uma ópera ou a um jogo
de futebol profissional. Mas seu compromisso maior pode ser com sua ativi­
dade de professor, executivo ou médico, com seu papel de pai ou mãe, com
uma igreja como diácono, diretor do conjunto coral ou leigo, ou mesmo com
um time de futebol ou clube de iatismo. É lá que o indivíduo investirá tempo
e irá procurar obter reconhecimento da comunidade.
A diversidade das estruturas culturais nas sociedades modernas reflete
sua crescente complexidade e crescente especialização de suas instituições.
Nas sociedades simples, muitas das funções da vida, tal como instruir os jo­
vens, cultivar alimentos, cuidar dos doentes e desempenhar rituais religio­
sos, são conduzidas pela família e por grupos de parentes. Nas sociedades
complexas essas tarefas são assumidas pelas e�colas, pelos agricultarei?, hos.�
pitais e pelas igrejas. Mas tais diversidades também refletem a hierarquia
social crescente nessas sociedades. As estruturas culturais dos ricos sã,o mui­
to diferentes das dos pobres, tão diferentes como um clube qe campo é 'de um
bar de favela ou um escritório de uma multinacional-é diferente de uma mina
de carvão.
Embora as sociedades modernas sejam constituídas de subculturas sur­
preendentemente diversas, elas são sistemas maiores unidos por sistemas
de comunicação e transporte, por ligações de comércio e governo comuns e
por redes de relacionamentos sociais.
Integração Cultural
As culturas se mantêm unidas não só pela organização econômica, social
e política, mas também, em níveis mais profundos, por crenças e valores fun­
damentais compartilhados pelos indivíduos. Muito do conhecimento de uma
cultura é explícito. Em outras palavras, há pessoas da cultura que nos po­
dem falar sobre ela. Mas atrás desse conhecimento estão pressupostos bási­
cos sobre a natureza das coisas que são altamente implícitos. Como alicerces,
eles mantêm a cultura, embora permaneçam em grande parte fora de vista.
Aqueles que desafiam esses pressupostos são considerados loucos, hereges
ou criminosos porque se estas bases forem abaladas, a estabilidade de toda a
cultura é ameaçada (veja Figura 7).
Podemos ilustrar a integração cultural investigando nosso jeito de sentar
e dormir. Em grande parte, os americanos evitam sentar-se no chão. Em um
auditório, encontram pequenas plataformas onde se sentar. Os atrasados, que
não encontram assentos vagos, permanecem em pé ao longo das paredes ou· se
retiram. Em casa, grandes somas são empregadas na compra de plataformas
Evangelho e Cultura 43

FrGURA 7
Um Modelo de Cu ltura
ô.
i,.X1,. ..

f j.
rraços superfi ciais

\/ ..---Traços i nternos (Visão de M undo)

Ô. Ô. fl � -crenças (cognitivo)

/ \j \j V \
-sentimentos (afetivo)
-valores (avaliador)
Ô. Ô. Ô. Ô. Ô.
1 \J \i \i \t \
/J,._/J,. /J,. /J,. /J,. /J,.
_ _ _ _

De Paul G. Hiebert, Anthropological toais for missidharies (Cingapura: Haggai lnstitute, 1983), p. 4.

especiais adequadas às várias dependências e ocasiões : sofás, cadeiras de


descanso, cadeiras de baranço, cadeiras de jantar, banquetas e cadeiras de
jardim.
Os americanos também evitam dormir no chão. Quando viajam, se preo­
cupam em ter uma cama em um quarto particular, principalmente à noite.
Logo, além das passagens, fazem reservas em hotéis. O interessante é que
não fazem reservas para as refeições - têm certeza de que podem encontrar
comida em qualquer lugar ou, se necessário, ficar sem comer. Se à noite esti­
verem num aeroporto, procuram dormir largados numa cadeira em vez de se
deitarem no chão acarpetado, tendo em vista que preferem perder o conforto
à dignidade.
Em resumo, as plataformas são encontradas em todos os lugares nos Esta­
dos Unidos. As pessoas se sentam nelas, dormem nelas, constroem suas casas
sobre elas, armazenam seus bens nelas e até mesmo colocam cercas ao redor
delas para seus bebês. Por que essa obsessão com as plataformas? Os japone­
ses tradicionais se sentam confortavelmente em tatames no chão. Os indianos
sabem que tudo de que se precisa para um bom repouso noturno é uma cober­
ta para manter-se limpo e um lugar plano para se deitar; e o mundo está
cheio de locais planos: saguões de aeroportos, corredores de trens, calçadas e
p arques.
Então, por que os norte-americanos insistem em se sentar em cadeiras e
dormir em camas? A maioria deles nunca pensou muito sobre o assunto. Se o
fizeram, podem alegar que estas são as maneiras mais "naturais" e confortá­
veis de se sentar e dormir. Mas isso não é verdade. Por sua vez, seu compor­
tamento está ligado a uma atitude fundamental que têm sobre os pisos, ou
seja, que são "sujos". E porque a sujeira é ruim, devem evitar o contato com o
chão sempre que possível.
44 O Evangelho e as Culturas Humanas

Esse pressuposto também nos ajuda a entender outros padrões de nosso


comportamento. Se um menino derruba uma batata frita no chão e depois a
coloca na boca, sua mãe fica zangada. No momento em que a batata toca o
chão, não importa o quanto este esteja limpo, ela fica suja. E quando as pes­
soas entram em casa, continuam com os sapatos no pé. Afinal de contas, o
chão já está sujo.
É possível construir uma cultura sobre o pressuposto de que os assoalhos
sejam limpos? Nós nos sentaríamos e dormiríamos em colchões no chão e
deixaríamos os sapatos na porta. Deixaríamos nossas crianças brincarem no
chão. Esse, na verdade, é o padrão da cultura japonesa tradicional.
"Mais ou menos." Culturas e estruturas culturais nunca estão comple­
tamente integradas. Conseqüentemente, devemos utilizar qualificadores como
"mais ou menos" e "tende a ser". Os seres humanos são criaturas curiosas e
exploram áreas diferentes do mundo ao redor deles, não só para satisfazer
necessidades pessoais, mas também para entendê-las. Desenvolvem teorias
sobre a natureza, o tempo, as doenças, a agricultura, a pesca, o nascimento,
as origens humanas e o porquê de o sol cruzar o céu. Também parecem neces­
sitar de alguma medida de consistência entre essas teorias - uma harmonia
encontrada parcialmente na cosmovisão subjacente. Mas os i. se:res humanos e
suas crenças nunca são completamente coerentes. Há. lacunas e contradições
internas em suas teorias, como há em seus comportamentos .
Há outra maneira em que a integra ç ão cultural é incompleta, particular­
mente nas sociedades complexas. Grupos e indivíduos da mesma sociedade
podem sustentar teorias diferentes. O rico e o pobre, por exemplo, vêem as
coisas de maneiras diferentes; um grupo étnico vê a mesma coisa de maneira
diferente de outro grupo. Há diferenças entre as crenças folclóricas das pes­
soas comuns e as teorias dos especialistas com respeito à religião e à medici­
na. Também há discordâncias entre os especialistas. Por exemplo, um cien­
tista agnóstico e um ministro cristão podem oferecer explicações diferentes
para o mesmo acontecimento.
A. F. C. Wallace (1956) salienta que as diferenças de crenças de um indi­
víduo para outro, nas sociedades modernas complexas, são tão grandes que
devemos falar sobre cosmovisão pessoal, em vez de cultural. Nessas socieda­
des, as pessoas geralmente sofrem uma crise de crença quando não recebem a
aprovação do grupo sobre o que pensam ser correto. Quando alguém discorda
delas, começam a questionar suas próprias convicções.
A cosmovisão nos ajuda a entender a estabilidade cultural e a resistência
à mudança. Nas sociedades tribais e agrícolas, geralmente as pessoas com­
partilham crenças e pressupostos fundamentais que são constantemente re­
forçados pelo grupo. Também ensinam sua cosmovisão a seus filhos e, assim,
garantem sua perpetuação. A mudança geralmente sofre resistência nesses
ambientes porque a sociedade como um todo é unificada em suas crenças. Os
Eva ngelho e Cu ltura 45

indivíd uos que adotam novas idéias caem no ostracismo. Conseqüe ntemen­
te, os primeiros convertidos ao cristianismo geralmente são rejeitados por
se u p ovo.
P or outro lado, as contradições internas geralmente conduzem a mudan­
ça s na cos movisão. Quando são mudanças menores, as pessoas podem revi­
sar suas crenças ou modificar seu comportamento. Se o homem de uma tribo
acha que seu amuleto não o protege mais do perigo, ele o joga fora e busca um
novo. Uma mulher moderna que enfrenta um racionamento de combus tível
pode comprar um carro menor ou utilizar o ônibus. Da mesma forma, os cien­
tistas medievais acreditavam que o sol girava em torno da terra e faziam
co n stantes ajustes no sistema ptolemaico de astronomia para fazê-lo ajustar­
se a suas descobertas experimentais.
A integração é limitada pelo fato de que todas as culturas estão constante­
mente mudando, algumas rapidamente � outras, vagarosamente. Novas ca­
racterísticas são adicionadas e, num certo-�omento, seu impacto é sentido em
outras áreas da cultura. Enquanto isso, outras características são elimina­
das. Todas essas mudanças demandam uma nova síntese cultural.
Incoerências, teorias c6'.mpetitivas entre si e mudanças nos costumes de­
bilitam a harmonia i:g.terna de uma cultura. Mas à medida que há uma
integração cultural mínima, a vida social organizada é possível.
Cosmovisão. As pessoas percebem o mundo de maneiras diferentes por­
que constroem pressupostos diferentes da realidade. Por exemplo, a maioria
dos ocidentais afirma que há um mundo real, além deles, feito de matéria
inanimada. No entanto, os habitantes do sul e do sudeste da Ásia acreditam
que esse mundo exterior realmente não existe; é uma ilusão da mente. Os
povos tribais ao redor do mundo vêem a terra como um organismo vivo com o
qual devem relacionar-se.
Juntos, os pressupostos básicos sobre a realidade que se encontram atrás
de crenças e comportamentos de uma cultura são, algumas vezes, chamados
de cosmovisão (Figura 8). Tendo em vista que essas hipóteses são tidas como
certas, geralmente não são examinadas e, portanto, altamente implícitas.
Mas são reforçadas pelos sentimentos mais profundos, e qualquer pessoa que
os desafie se torna objeto de veemente ataque. As pessoas acreditam que o
mundo é realmente da maneira como o vêem. Raramente estão cientes de que
a maneira que vêem é moldada por sua cosmovisão.
Há pressupostos básicos implícitos em cada uma das três dimensões de
cultura. Os pressupostos existenciais dão à cultura estruturas cognitivas fun­
damentais que as pessoas utilizam para explicar a realidade. Essas estrutu­
ras definem o que é "real". No Ocidente, incluem átomos, vírus e gravidade.
No sul da Índia, incluem rakshasas, apsaras, bhutams e outros seres espiri­
tuais. Na África Central, incluem os ancestrais que, depois da morte, co nti­
nuam a viver entre as pessoas.
O Evangelho e as Culturas Humanas

FIGURA 8

Um Modelo de Cosmovisão
I
\ I
\

I \
I
Instituições Sociais ' ·-

As suposições existenciais ou cognitivas também munem as pessoas com


os conceitos de tempo, espaço e outros mundos. Por exemplo, nós do Ocidente
afirmamos que o tempo é linear e uniforme. Ele corre em linha reta de um
começo para um fim, e pode ser dividido em intervalos uniformes de anos,
dias, minutos, segundos e milésimos de segundo. Outras culturas acreditam
que o tempo é cíclico: uma repetição infindável de verão e inverno, dia e noi­
te, nascimento, morte e renascimento; crescimento e decadência. Outras ain­
da o vêem como um pêndulo. Ele vai para frente e para trás, se move em
velocidade diferente e , algumas vezes, p ára de todo . Na verdade, isso
corresponde de alguma forma com nossa experiência pessoal de tempo. Um
bom filme acaba logo, mas uma palestra maçante demora uma eternidade. E,
algumas vezes, quando temos experiências profundas de adoração a Deus, o
tempo parece estacionar.
Os pressupostos cognitivos desempenham muitas outras tarefas. Mode­
lam as categorias mentais que as pessoas utilizam para pensar; desempe­
nham um papel vital na determinação de tipos de autoridade em que as pes­
soas acreditam e os tipos de lógica que utilizam. Juntos, esses pressupostos
dão ordem e significado à vida e à realidade.
Os pressupostos afetivos permeiam as noções de beleza, estilo e estética
encontradas em uma cultura. Eles influenciam o gosto das pessoas em músi-
Eva ngelho e Cu ltura 47

ca , arte, ves tuário, comida e arquitetura, bem como a maneira de se sentirem


um as diante das outras e acerca da vida em geral. Por exemplo, nas culturas
influe ncia das pelo budismo teravada, a vida é comparada ao sofrim ento.
M es mo os momentos alegres criam. sofrimento, porque sabemos que eles ter­
minarã o. Porta nto, não vale a"'p ena lutar por uma vida melhor aqui na terra .
E m co ntraste, nos Estados Unidos, após a Segunda Guerra Mundial, muitas
pe sso as estavam otimistas. Acreditavam que, com trabalho árduo e pla neja­
m ento, poderiam alcançar uma existência feliz e confortável por toda a vida.
As hipóteses de avaliação fornecem os padrões que as pessoas utilizam
para fazer seus julgamentos, incluindo seus critérios para determinar a verda­
de e a mentira, gostos e preferências, e o certo e o errado. Por exemplo, os
norte-americanos pressupõem que a honestidade significa dizer às pessoas como
as coisas são, mesmo se, ao fazê-lo, ferir-lhes os sentimentos. Em outros paí­
ses, honestidade significa dizer às pes99as o que elas desejam ouvir porque é
mais importante que sejam consoladas do que saibam a verdade.
As hipóteses de avaliação também determinam as prioridades de uma cul­
tura e, por sua vez, moldam as vontades e as obrigações das pessoas. Durante
o último século, os norte-'ámericanos valorizaram muito a tecnologia e os bens
materiais, e os negóci,o s são sua atividade principal. Sua posição social é deter­
minada principalmente por sua riqueza, e a sua cultura é focalizada em te­
mas econômicos. O horizonte das cidades americanas modernas é dominado
por bancos e agências de seguros. Por outro lado, no interior da Índia as pes­
soas dão um alto valor à pureza religiosa, e a honra maior é dada aos mem­
bros da casta sacerdotal. Sua cultura é organizada em torno de temas reli­
giosos, e os templos são o centro de suas aldeias. As cidades medievais, com
seus reis, vassalos, senhores e cavaleiros davam importância às conquistas e
à política. Os castelos e fortes eram suas estruturas dominantes.
O fato de que culturas diferentes possuem padrões diferentes de moralidade
cria muitos equívocos transculturais. Na América do Norte, o maior pecado en­
tre os cristãos é a imoralidade sexual, e os missionários dessa parte do mundo
têm dado uma grande ênfase ao comportamento sexual adequado. No entanto,
aqueles que foram para o sul da Ásia geralmente não sabiam que um pecado
grave naquela parte do mundo é perder a paciência. Quando ficavam impa­
cientes ou zangados com os serviçais, alunos e pastores indianos não perce­
biam as conseqüências de sua atitude.
O fato de que os sistemas morais são diferentes de cultura para cultura
levanta muitas questões difíceis em missões. Como lidar com a existência de
crenças éticas pessoais e como introduzir conceitos bíblicos de pecado? Na
verdade, qual é a visão bíblica de pecado e em que medida estamos em perigo
de forçar nossos próprios valores culturais sobre os outros?
Além do mais, o que acontece quando não satisfazemos o padrão das pes­
soas? Por exemplo, em muitas sociedades a infertilidade é vista como uma
maldição de Deus àqueles que são maus, então um homem deve ter uma
48 O Evangelho e as Culturas Human as

segunda esposa se a primeira não lhe der filhos. Nessas sociedades, o que um
casal de missionários faz se não tiver filhos? Ter uma segunda mulher va i
contra o que acreditam a respeito do pecado, mas não ter filhos arruína a
veracidade do seu testemunho.
Reunidos, os pressupostos cognitivos, afetivos e avaliadores fornecem às
pessoas uma maneira coerente de ver o mundo, a qual faz que se sintam em
casa e lhes garante estarem corretos. Essa cosmovisão serve de fundamento
para que edifiquem suas crenças e sistemas de valores explícitos, e as institui­
ções sociais dentro das quais vivem o dia-a-dia.
Funções da cosmovisão. Juntos, os pressupostos implícitos em uma
cultura oferecem às pessoas uma maneira mais ou menos coerente de olhar o
mundo. A cosmovisão pessoal tem várias funções importantes.
Primeiro, nossa cosmovisão nos dá os fundamentos cognitivos sobre os quais
construir nossos sistemas de explicação, fornecendo justificativa racional para
a crença nesses sistemas. Em outras palavras, se aceitarmos nossas hipóte­
ses de cosmovisão, nossas crenças e explicações fazem sentido. Nós tomamos
os pressupostos como certos e raramente os examinamos. Como diz Clifford
Geertz (1972: 169), uma cosmovisão nos oferece um modelo ou mapa da reali-
dade estruturando nossas percepções da realidade. ,
Segundo, nossa cosmovisão nos dá segurança emoci o nal. Diante de um
mundo perigoso, cheio de forças adversas e incontroláveis crises de seca, doen­
ça e morte, e assoladas pelas ansiedades de um futuro incerto, as pessoas se
voltam para as suas crenças culturais mais profundas em busca de conforto
emocional e segurança. Portanto, não é surpresa que os pressupostos da
cosmovisão fiquem mais evidentes em nascimentos, iniciações, casamentos,
funerais, celebrações de colheita e outros rituais que as pessoas utilizam para
reconhecer e renovar a ordem na vida e na natureza.
Uma emoção forte que enfrentamos é o medo da morte. Outra, é o terror
da falta de sentido. Podemos enfrentar a morte como se fôssemos mártires se
acreditarmos que há um objetivo para isso, mas esses significados devem
trazer profunda convicção. Nossa cosmovisão fortalece nossas crenças funda­
mentais com reforço emocional para que elas não sejam facilmente destruídas.
Terceiro, nossa visão de mundo legitima nossas normas culturais mais
profundas utilizadas para avaliar nossas experiências e escolher modos de
agir. Ela nos oferece as idéias de justiça e de pecado e como lidar com ele.
Também funciona como um mapa para dirigir nosso comportamento. Por exem­
plo, o mapa de uma cidade não só nos diz os nomes das ruas, mas também nos
permite escolher o caminho que nos leva de nosso quarto de hotel até um
restaurante recomendado. Semelhantemente, nossa cosmovisão nos dá um
mapa da realidade e também serve como um mapa para dirigir nossas vidas.
As cosmovisões servem tanto como funções preditivas como prescritivas.
/ Evange lh o e Cu ltura
,,_.
49

Qu a rt o, nossa cosmovisão integra nossa cult ura. Ela organiza nossas


" déi as, nos sos sentimentos e valores em um único planejamento geral. As­
�im, nos dáconvicçõe
uma visão mais ou menos unificada da realidade, reforçada por
s profunda s.
emo çõ es e
Finalmente, Charles Kraft (1979:56) diz que nossa cosmovisão monito ra
� m udanç a da cultura. Somos constantemente confrontados com novas idé ias,
comporta mentos e produtos que vêm de dentro de nossa sociedade ou de fora
del a. Este s podem introduzir pressuposições que corroem nossa ordem
co gnitiva. Nossa cosmovisão nos ajuda a selecionar aquelas que se ajusta m a
no ssa cultura e a re{eitar as que não o fazem. Ela também nos ajuda a
reinterp retar aqueles pressupostos adotados a fim de que se ajustem ao nosso
padrão cultural geral. Por exemplo, os aldeões da América do Sul fervem a
á gua não para matar os germes, mas (como eles dizem) para acabar com os
espíritos maus. Portanto, a cosmovis� tende a manter velhos costumes de
ser e oferece estabilidade nas culturas durante longos períodos de tempo.
Assim, elas resistem à mudança.
Mas as cosmovisões em si mudam, já que nenhuma delas está completa­
mente integrada e sempfe há contradições internas. Além disso, quando ado­
tamos novas idéias, ... estas podem desafiar nossos pressupostos fundamen­
tais. Embora todos nós vivamos com incoerências culturais, quando as con­
tradições internas se tornam muito grandes, procuramos maneiras de redu­
zir a tensão. Normalmente, mudamos ou abandonamos alguns de nossos pres­
supostos. O resultado é uma transformação gradual da cosmovisão, da qual
talvez nem nós mesmos tenhamos consciência.
No entanto, algumas vezes, nossa cosmovisão não atende mais nossas
necessidades básicas. Se uma visão mais adequada nos for apresentada, po­
demos rejeitar a velha e adotar a nova. Por exemplo, alguns muçulmanos e
hindus podem decidir que o cristianismo responde melhor suas questões do
que as suas antigas religiões. Tais mudanças de cosmovisão estão no âmago
do que chamamos de conversão.
Implicações para missões. A integração dos traços, complexos e siste­
mas culturais numa única cultura tem considerável significado para os mis­
sionários. Primeiro, como veremos adiante, quanto mais integradas as cultu­
ras, mais estáveis serão - porém resistirão às mudanças. Segundo, quando
introduzimos mudanças em uma parte da cultura, geralmente há efeitos pa­
ralelos imprevistos em outras áreas.
Em uma conferência, Jacob Loewen citou um exemplo de conseqüências
não intencionais ao se introduzirem mudanças. As pessoas em uma parte da
África mantinham suas aldeias limpas. No entanto, quando se tornaram cris­
tãs, suas aldeias foram rapidamente invadidas pelo lixo. Investigando o fato,
o missionário verificou que antes os moradores temiam os espíritos, que acre­
ditavam habitar as florestas e vinham para a aldeia, escondendo-se atrás de
50 O Evangelho e as Culturas Humanas

tapetes velhos, pedras, vasos quebrados e outros entulhos. Conseqüentemente ,


mantinham tudo limpo para que os espíritos não entrassem na aldeia e feris­
sem o povo. Mas quando se tornaram cristãos, não temiam mais esses espíri­
tos e não tinham mais motivo para remover a sujeira e os detritos.
A poligamia é outro caso em questão. Em muitas partes do mundo, os
homens com freqüência morrem jovens. Para providenciar companhia e pro­
teção para si e seus filhos, a viúva se casa com o irmão ou o parente mais
próximo do marido morto, a despeito de aquele já ser casado ou não. Se a
igreja então proíbe a poligamia, deve providenciar outros recursos p ara as
viúvas e órfãos, uma vez que as pessoas não podem mais recorrer às soluções
tradicionais. Os missionários precisam perceber que as mudanças que intro­
duzem geralmente têm conseqüências de amplo alcance em outras áreas da
vida das pessoas, e devem ser sensíveis aos efeitos paralelos não intencio­
nais.
Educação Cultural
Por definição, restringimos "cultura" às crenças e aos comportamentos
aprendidos. Fazendo isso, nós a diferenciamos das respostas biologicamente
instintivas. Por exemplo, quando uma moça americana acidentalmente toca
em um fogão quente ela retira sua mão e diz "ai", "mald�to" ou qualquer coisa
semelhante. A primeira reação é instintiva, mas a última é aprendida.
Se a cultura é aprendida, ela também deve ser ensinada. Todas as pes­
soas nascem desamparadas - sem idioma, cultura nem capacidade de sobre­
viver sozinhas no mundo exterior. Mesmo assim, dentro de um tempo sur­
preendentemente curto, o mesmo indivíduo pode ser moldado como canaden­
se, alemão ou chinês ou membro de uma das milhares de outras sociedades.
Uma das descobertas importantes das ciências sociais foi a da importância
crucial da infância na formação da personalidade humana e na transmissão
da cultura de uma geração para outra. Como alguém bem-humorado disse,
toda geração deve civilizar sua própria multidão de bárbaros infantis.
Toda sociedade tem sua própria maneira de "tornar cultos" seus jovens,
ensinando-lhes suas condutas culturais. No entanto, todos utilizam uma com­
binação de pressioná-los num lado e de atraí-los em outro. As pressões geral­
mente são óbvias. Os pais disciplinam seus filhos pelo mau comportamento e
a sociedade pune os adultos por infrações sérias das normas culturais. Ou­
tras pressões não. são tão óbvias, como fofocas, sinais obscenos, ostracismo
social e retenção de gratificações, mas são igualmente eficazes para reforçar
as regras de uma sociedade.
As sociedades atraem as pessoas dando-lhes heróis culturais, personali­
dades e modelos ideais para vários papéis encontrados dentro da sociedade e
recompensando-as pelo bom comportamento. Por exemplo, uma criança oci­
dental é ensinada pelo exemplo o que significa ser um bom professor, prega-
Eva ngelho e Cu ltura 51

dor ou m otorista. Ela também é ensinada, pelo mesmo método, a se comp or­
tar co mo esposa ou marido, mãe ou pai.
"Compartilhada por um Grupo de Pessoas "
Finalmente, uma cultura é "compartilhada por um grupo de pesso as".
E la simboliza as crenças, os símbolos e os produtos de uma sociedade.
Os homens são criaturas sociais, dependentes umas das outras para so­
breviverem e terem uma existência com sentido. Precisam de cuidado duran­
te toda a infância e, com efeito, durante a velhice. Tendo em vista que encon­
tram sua maior alegria e realização na companhia de outros, o isolamento
social está entre os maiores castigos que podem impor um ao outro.
Todas as relações humanas exigem uma grande soma de entendimentos
compartilhados entre as pessoas. Precisam de uma linguagem comum, seja
verbal, seja não-verbal, um conjunto d� expectativas compartilhadas entre si
e algum consenso entre as crenças para que ocorra a comunicação. Em ou­
tras palavras, de álgum modo devem compartilhar uma cultura comum. Quan­
to mais tiverem em comum, maiores as possibilidades de inter-relação.
Precisamos esclarecé'r o que queremos dizer com "sociedade" e como ela se
relaciona com a "cultura". Sociedade é um grupo de pessoas que se relacio­
nam mutuamente de maneira ordenada em ambientes diferentes. A ordem
básica implícita nessas relações é chamada de organização ou estrutura social.
Estrutura social é como as pessoas verdadeiramente se relacionam umas
com as outras. A estrutura social está ligada à cultura, mas é diferente dela;
a cultura inclui o que as pessoas crêem sobre relacionamentos.
As pessoas nem sempre agem como sua cultura diz que deveriam agir.
Por exemplo, a maioria dos cristãos acredita que deve ir à igreja no domingo,
mas muitos encontram desculpas · quando desejam ficar em casa. O interes­
sante é que quando querem transgredir regras culturais, a própria cultura
lhes diz como fazê-lo. Para eles é correto dizer ao pastor que estavam doentes
ou em viagem.· Mas não lhe devem dizer que detestam seus sermões ou que
não suportam outro membro da igreja.
Até mesmo o suicídio, o ato supremo de rejeição social, é culturalmente
moldado. Nas culturas ocidentais, os homens pensam em revólveres ou vene­
nos, e as mulheres utilizam medicamentos, ao passo que as mulheres india­
nas se jogam em poços abertos e os homens podem escolher a forca.
A relação entre uma sociedade e sua cultura é dialética. As pessoas desen­
volvem estruturas para conduzir suas vidas. Com o tempo, ensinam essas
estruturas a seus filhos como parte da cultura que modelará suas vidas. As
pessoas também criam idéias e - produtos novos que, se forem aceitos pela
sociedade, influenciam a maneira como elas se relacionam umas com as ou­
tras. O carro, por exemplo, gerou maior mobilidade, que por sua vez levou os
mais ricos para os bairros residenciais afastados da cidade.
52 O Evangelho e as Culturas Humanas

Os limite s sociais e culturais são claramente definidos nas socieda de s


tribais. Nelas um grupo de pessoas compartilha uma cultura distinta e, ge.
ralmente, o mesmo território e língua, e a "cultura" e a "socieda de" ficam be m
unidas.
No entanto, nas áreas urbanas e rurais complexas, os limites culturais e
sociais se tornam confusos e a relação entre eles é mais complicada. Por exem ­
plo, há muitas subculturas em Los Angeles, mesmo que as pessoas naquela
cidade participem de muitas das mesmas estruturas sociais, como o governo,
os partidos políticos, bancos e mercados. Por outro lado, as pessoas que com­
partilham a mesma cultura, tal como os imigrantes coreanos, tomam parte
não só das atividades da comunidade coreana, mas também das escolas, fá­
bricas e da vizinhança constituída por pessoas de muitas culturas diferentes.
Em tais situações, o que constitui uma cultura ou uma sociedade? Neste
momento, precisamos retornar ao conceito de estruturas culturais. Por exem­
plo, toda instituição social é uma estrutura cultural; tem sua própria comu­
nidade de pessoas, estrutura social e subcultura. Em uma escola, os mem­
bros de um grupo se relacionam uns com os outros por meio de regras próprias,
sejam professores, alunos, administradores, diretores ou zeladores. Compar­
tilham crenças e sentimentos sobre como esses relacionamentos devem ocor­
rer. Também se beneficiam do mesmo conjunto de cpnhecimentos, grande
parte dele armazenado em bibliotecas, de maneiras comuns de expressar seus
sentimentos e de valores e regras comuns.
Por outro lado, em um banco, outro grupo de pessoas se inter-relaciona de
maneiras diferentes, desempenhando papéis como o de cliente, caixa, geren­
te da agência e presidente do banco. Também têm certo conhecimento, senti­
mentos e normas em comum. Um hospital oferece ainda outro caso de estru­
tura cultural que tem sua própria comunidade de pessoas e cultura local.
Os indivíduos em sociedades complexas se mudam de uma estrutura para
outra, de um grupo para outro e de uma cultura para outra "trocando engre­
nagens" à medida que se mudam. Dependendo da estrutura, podem usar rou­
pas diferentes, mudar a maneira de falar, agir de modos diferentes e falar
sobre coisas diferentes. Para alguém de fora, muitas vezes parecem ser pes­
soas diferentes em contextos diversos.
As estruturas culturais são unidas umas às outras em culturas locais. As
escolas, os bancos, os hospitais e as igrejas numa cidade não são apenas cons­
tituídos de muitas das mesmas pessoas, mas também estão relacionados por
sistemas de leis, comércio econômico e redes de comunicação.
Culturas locais são integradas a culturas regionais e nacionais maiores.
Por exemplo, as pessoas e instituições nos Estados Unidos compartilham uma
história cultural e crenças comuns em liberdade e democracia, utilizam a mes­
ma moeda e selos postais e possuem outros laços culturais. Nesse sentido,
podemos falar de diferentes níveis de integração cultural, começando pelas
Ev a ngelho e Cu ltura 53

e struturas culturais na base e terminando pelas culturas nacionais ou mes­


mo internacionais no topo.

o Evange l h o e a C u lt u ra

Se as culturas são as formas de pensar, sentir e agir das diferentes pes­


soas, onde se encaixa o evangelho? Ele não é parte de uma cultura específic a?
S e disse rmos que sim, que cultura devemos adotar para nos tornarmos cris­
tã os? Obviamente que não as culturas européias ou norte-americanas, por­
que aconteceram mais tarde na história e por certo não são essencialmente
crist ãs. A resposta deve ser a cultura judaica da época de Cristo. Mas eis aqui
a ques tão levantada pelos gentios convertidos do livro de Atos. Devem-se
tornar judeus a fim de se tornarem cristãos?
A igreja primitiva lutou com esta q:uestão. A resposta dada foi não. Embo­
ra o evangelho tenha sido entregue dentro do contexto da cultura judaica de
Abraão até Cristo e deva ser entendido dentro desse contexto, as boas novas
foram a mensagem de Deus entregue dentro daquela cultura. Não estão limi­
tadas àquela estrutura'cultural.
No entanto, desde então, o debate continuou. Toda comunidade cristã é
tentada a comparar o evangelho com sua própria cultura. Isso tem levado
igrejas a se dividirem com base apenas nas diferenças culturais.
As conseqüências têm sido igualmente devastadoras em missões. Compa­
rando o cristianismo à cultura ocidental, temos utilizado o evangelho para
reforçar nosso sentido de superioridade cultural e tornado o evangelho es­
trangeiro a outras culturas, chamando as pessoas a se converterem à nossa
cultura para que se tornem cristãs.
Então, o que é o evangelho e como ele se relaciona com as culturas huma­
nas? Nós aqui falaremos do evangelho como a revelação de Deus sobre si
mesmo - na história, por meio de seus feitos e, acima de tudo, por intermédio
da sua encarnação. O registro definitivo dessa revelação é encontrado na
Bíblia. O relacionamento entre a revelação de Deus nas Escrituras e as cul­
turas humanas é complexo e pode ser entendido melhor por analogia com a
encarnação de Cristo. Assim como Cristo foi completamente Deus, mas se tor­
nou completamente humano sem perder a divindade, o evangelho também é
a revelação de Deus, mas é comunicado por meio de culturas humanas sem a
p erda de seu caráter divino.
Há três princípios que precisamos examinar para entender a tensão di­
nâ mica entre o evangelho e as culturas humanas.
O Evangelho Versus a Cultura
Primeiro, o evangelho deve ser separado de todas as culturas humanas.
Ele é revelação divina, não especulação humana. Uma vez que não pertence
a nenhuma cultura, pode ser expresso adequadamente em todas elas.
54 O Evangelho e as Culturas Humana s

Não diferenciar entre evangelho e culturas humanas tem sido uma da s


grandes fraquezas das missões cristãs modernas. Os missionários com muita
freqüência comparam as boas novas com sua própria herança cultural. Isso
os tem levado a condenar a maioria dos costumes locais e a impor seus pró­
prios costumes aos convertidos. Conseqüentemente, o evangelho tem sid o
visto como algo estrangeiro de maneira geral e como ocidental em particular.
As pessoas o têm rejeitado não porque rejeitem o senhorio de Cristo, mas
porque a conversão geralmente significa negar sua herança cultural e seus
laços sociais.
Um segundo perigo em comparar o evangelho à cultura tem sido justificar
o imperialismo ocidental. Os cristãos do início dos Estados Unidos acreditavam
que Deus havia abençoado seu país de maneira especial e que eles eram o
povo escolhido de Deus. O pietismo e o patriotismo se misturaram. Os partidos
políticos e o governo nacional utilizaram os sentimentos e os símbolos cristãos
em beneficio próprio. Quando a religião é utilizada para justificar práticas
políticas e culturais, ela é "religião civil".
Os primeiros americanos acreditavam que Deus estava do lado de seu país,
tornando-o diferente dos outros e melhor que eles. Para aqueles americanos,
os objetivos de sua nação e de Deus tornaram-se um. O colonialismo e as ações
militares eram justificados como meio de evang�lizaçãô do mundo. Não é de
surpreender que em muitas partes do mundo o cristianismo seja comparado
ao militarismo e ao imperialismo.
Um terceiro perigo na comparação do evangelho com a cultura tem sido
um sentido crescente de relativismo com respeito ao pecado. Todas as culturas
têm suas próprias definições do que é pecado. Como as culturas mudam, suas
idéias de pecado também mudam. Por exemplo, calças compridas para as
mulheres já foi pecado no Ocidente . Hoje elas são amplamente ace it a s . Anti­
gamente, os casais jovens eram publicamente condenados se vivessem juntos
sem se casar, porém, isso não levanta mais comentários em alguns círculos
modernos.
Tendo em vista que as definições culturais de pecado mudam, muitos ale­
gam que o pecado é relativo e que não há absolutos morais . Alegam que as
igrejas que antes proibiam os jovens casais de ir ao cinema agora promovem
encontros de jovens nesses locais. Quem pode então garantir que as relações
sexuais pré-matrimoniais, ainda geralmente condenadas, não serão um dia
aceitas? Como as definições culturais de pecado mudam, se não distinguir­
mos as normas bíblicas das de nossa cultura não podemos afirmar a natureza
absoluta dos padrões biblicamente definidos.
Como cristãos, afirmamos que há padrões de retidão dados por Deus pelos
quais todos os homens e culturas serão julgados. A boa nova é que há perdão
p ara o pecado.
Evangelho e Cu ltura 55

o Evangelho n a Cultura
S egundo, embora o evarigelho seja diferente das culturas humanas, ele
s e mpre deve ser expresso em formas culturais. Os homens não podem recebê ­
lo fora de seus idiomas, símbolos e rituais. Se as pessoas devem ouvir e crer no
evan gelho , ele precisa ser apresentado em formas culturais.
No nível cognitivo, as pessoas devem entender a verdade do evangelho.
No nível emocional, devem experimentar o temor e o mistério de Deus. E no
nível de avaliação, o evangelho deve desafiá-las a responder à fé. Nós nos
refe rimos a esse processo de tradução do evangelho para uma cultura, a fim
de que as pessoas o entendam e respondam a ele, como "naturaliza ção" ou
"contextualização".
A Bíblia toda é um testemunho eloqüente de Deus encontrando e conver­
tendo os homens em seus próprios contextos culturais. Deus caminhava com
Adão e Eva no Jardim, no frescor do •dia. Ele falou a Abrão, Moisés, Davi e
outros israelitas dentro de uma cultura hebraica em mutação. E ele se tornou
a Palavra que viveu no tempo e no espaço como um membro da sociedade
judaica. De maneira semelhante, a igreja primitiva apresentava a mensagem
apostólica de forma qué'as pessoas entendessem. O sermão de Pedro no Pen­
tecostes e o discurso de Paulo no Areópago em Atenas mostram como eles
apresentaram a mensagem sob medida para seus ouvintes. Da mesma manei­
ra, os evangelhos e as epístolas alcançam as pessoas em culturas diferentes de
formas diferentes. Toda-comunicação autêntica do evangelho em missões deve
ser padronizada a partir da comunicação bíblica e deve procurar fazer com
que as boas novas sejam entendidas pelas pessoas dentro de suas próprias
culturas.
Todas as culturas podem servir adequadamente como veículos de comuni­
cação do evangelho. Se não fosse assim, as pessoas teriam de mudar de cultu­
ra para se tornarem cristãs. Isso não significa que o evangelho seja totalmen­
te entendido em uma cultura, mas que todas as pessoas podem aprender o

Figura 9

O Evangelho Deve Ser Contextualizado e Profético

\\
8
56 O Evangelho e as Culturas Humanas

suficiente para serem salvas e crescerem na fé dentro do contexto de sua


própria cultura.
Nem todas as culturas são capazes de expressar o âmago do evangelho,
mas cada uma também traz à luz certos aspectos salientes do evangelho que
têm permanecido menos visíveis ou mesmo escondidos em outras culturas.
As igrejas em culturas diferentes podem-nos ajudar a entender os vários la­
dos da sabedoria de Deus, servindo por sua vez como canais para o entendi­
mento de diferentes facetas da revelação divina, verdades que uma teologia
amarrada a uma cultura em particular pode facilmente desprezar.
O Evangelho em relação à Cultura
Terceiro, o evangelho propõe mudanças para todas as culturas. Assim
como a vida de Cristo foi a condenação de nossa natureza pecaminosa, da
mesma forma o Reino de Deus julga todas as culturas (Figura 9).
Nem tudo na cultura humana é condenável. Os seres humanos são cria­
dos à imagem de Deus e, como tais, criam culturas, que têm muito de positivo
e utilizável pelos cristãos. Toda cultura oferece uma medida de ordem que
torna a vida possível e significativa.
Todavia, por causa do pecado do homem, todas as culturas também pos­
suem estruturas e práticas pecaminosas. Entre .elas estilo escravidão, discri­
minação, opressão, exploração e guerra. O evangelho as condena, assim como
julga os pecados dos indivíduos.
Uma teologia verdadeiramente autóctone deve não só reforçar os valores
positivos da cultura na qual está sendo formulada, mas também deve desafiar
aqueles aspectos que expressam as forças demoníacas e desumanizadoras do
pecado. Kenneth Scott Latourette (Minz 1973: 10 1) diz: "Devemos observar
que o cristianismo, se não for irremediavelmente desnaturalizado, nunca se
sente completamente à vontade em nenhuma cultura. Sempre, quando é ver­
dadeiro à sua essência, cria tensão".
O evangelho exerce uma função profética, mostrando-nos o caminho que
Deus planejou para vivermos como seres humanos, julgando nossas vidas e
nossas culturas por essas normas. Onde o evangelho perder essa voz proféti­
ca, está em perigo de juntar-se a crenças e valores que distorcem sua mensa­
gem. Charles Taber (1978:73) observa:

Este é exatamente um dos mais evidentes fracassos da teologia ocidental:


com muita freqüência ela pretende castrar o evangelho, aceitar, sem críticas,
valores e princípios p rofundamente antibíblicos - e até mesmo oferecer justi­
ficativas levemente banhadas de culp a p ara alguns dos pecados mais grossei­
ros da história humana.
Eva ngelho e Cu ltura 57

O mesmo pode acontecer nas igrejas jovens que buscam contextualizar


a crític amente o evangelho dentro de sua cultura. Nirmal Minz (1973: 1 10)
a le rta :
Há um tipo muito s util de sujeição na qual a igreja autóctone pode viver.
O ressurgimento de heranças nacionais e várias formas de neopaganismo po­
dem ser trazidos p ara a igreja e dominar sua vida e seu trabalho. A igreja
batall na Indonésia (por um tempo) quase sucumbiu a essa tentação e viveu
sob o domínio do nacionalismo e do neopaganismo . . . Tais igrejas autóctones
são contrárias aos e nsinos e ao Espírito de Jesus Cristo.

Todos os cristãos e todas as igrejas devem lutar sempre com as questões


sobre o que é o evangelho e sobre o que é a cultura - e qual é a relação entre
eles. Se deixarmos de fazer isso, corremos o risco de perder as verdades do
evan gelho.

Sugestão de Exercício: Evangelho e Cultura


Este exe rc ício p rete nde aj udá-lo a testar s u a coerência teo l ó g i c a em vá­
rias q u estões que os p rotestantes de várias denomi nações têm c o n s i d e rado
importantes. Como c ristão em u m ambiente transcultu ra l , você precisará apren­
d e r as d ife renças e ntre os elementos essenciais e os não-essenciais à i g reja
em cada c u ltu ra.

Primeira Parte
S e pa re todos os itens abaixo em d u as catego rias, com base nas s e g u i n ­
t e s d efin ições :
Essencial. Estes itens (normas, p ráticas, costu mes) são essenciais à i g reja
em q u a l q u e r época ( ma rq u e-os co m E na l ista) .
Negociá vel. Estes itens ( no rmas, p ráticas , costumes) podem ou não s e r
válidos para a ig reja e m q u a l q u e r local o u época (marq u e-os com N n a l ista) .

1. C u m p ri mentar com ó s c u lo santo.


2. Q u estões e ntre c ristãos não d evem s e r l evadas aos tribu nais.
3. N ão co m e r carne util izada em cerimôn ias pagãs .
4. As m u l h e res d evem usar véu q u a n do o rarem o u falare m na i g reja .
5. Lavar os pés p o r ocasião da Ceia d o S e n h o r ( E ucaristia) .
6. I m posição de mãos para a o rdenação.
7. Cantar sem acompanhame nto m u s i c a l .
8. Abster-se d e c o m e r s a n g u e .
9. Abster-se d a fo rn icação.
1 O. Participar da Ceia d o S e n h o r ( Eucaristia) j u ntos .
11. U t i l i z a r somente v i n h o d e verdade e p ã o n ã o l evedad o n a C e i a ( E ucaris­
tia) .
58 O Evangelho e as Culturas Humanas

1 2. Util izar s o m e nt� suco d e uva n a Ceia ( E u caristia) .


1 3. U n ção com óleo para c u ra.
1 4. As m u l h e res não d evem ensinar homens.
1 5. As m u l h e res não d evem usar cabelo trançado, o u ro ou pérolas.
1 6. O s homens não d evem ter cabelos compridos.
1 7. N ão beber vinho.
1 8. A escravidão é permiss ível s e os esc ravos fo rem bem- t ratad os.
1 9. Pe rmanecer solte i ro.
20. Buscar o d o m d e l ín g uas.
21 . Buscar o dom d e c u ra .
22. Levantar as mãos q u ando orar.
23. Q u e m não t rabalhar não come.
24. Te r u m a "hora d evocional" particu l a r todos os dias.
25. Dizer Amém no final das o rações.
26. N omear p res b ít e ros e diáconos e m toda c o n g regação.
27. El e ge r os l íd e re s .
28. Confe s s ar os p eca dos u n s aos outros.
29. Confess a r os p ecad o s e m sec reto a De us .
30. D a r pelo menos dez p o r cento de s u a renda/bens/c o l h eita a D e u s .
31 . C o n stru i r u m l u g a r p a ra a ado ração.
32. Confessar a Cristo pu blicame nt e por meio do batismo.
33. S e r batizado por i m e rsão.
34. Ser batizado quando adu lto.
35. Ser batizado quando c riança/bebê.
36. Não ser pol ígamo.
37. N ão se d ivo rciar de seu cônjuge por nenhuma razão.
38. Não se divo rciar de seu cônjuge exceto por adu ltério.

Segunda Parte
Refl ita sobre o processo usado para separar os itens "essenciais" dos
"negociáveis". Que princ ípio ou princípios dirigiram sua decisão? Escreva o
método utilizado, n u m relato simples e conciso. Seja completamente honesto
com você mesmo e descreva com precisão como tomou suas decisões. Seu(s)
princípio(s) deve(m) ser responsável(is) por suas decisões.

Terceira Parte
Reveja suas decisões novamente · e responda às seguintes q uestões :
Seus itens "essenciais" são tão importantes q u e o impediram de se asso­
ciar a um grupo que não praticasse todos eles?
Há alguns itens "essenciais" que são u m pouco mais "essenciais" que os
outros?
Há algum item que não tem explicitamente nada que ver com as Escritu­
ras?

'The temporary gospel ", Revista The Other Side, Nov. -Dez. 1975. Utilizado com permissão da
Revista The Other Side, 300 W. Apsley St., Filadélfia, PA 19 144. Copyright (e).
PARTE 2
•,.

As Diferenças Culturais e o
Missionário
•.·

As Diferenças Culturais e o
Novo Missionário

Tono MISSIONÁRIO SENTE - A EMOÇÃO DA VIAGEM E o ROMANTISMO DE CENÁRIOS


estrangeiros. Provamos comidas exóticas, andamos de jinriquixás e compra­
mos cobertas finamente bordadas no bazar. Passeamos hesitantes em templos
e assistimos aos devotos oferecerem sacrificios a deuses estranhos. Exatamen­
te como achávamos que seria!
Então, chega a realidade. A constatação de que tudo isso é o nosso lar.
Aqui nossos filhos irão crescer como filhos da terra. E devemos nos tornar um
com essas pessoas que falam uma língua ininteligível e têm maneiras bem
diferentes, antes que possamos efetivamente compartilhar com elas as boas
novas do evangelho. De repente, as coisas que pareciam românticas e emo­
cionantes tornam-se estranhas e ameaçadoras. Surgem as perguntas. Pode­
mos de fato fazer nossa essa cultura? Podemos realmente nos identificar com
essas pessoas e implantar uma igreja entre elas? Sobreviveremos? Quando
ocorre essa mudança, estamos diante de uma das preocupações centrais de
todos os novos missionários: o problema das diferenças culturais.
62 As Difere nças Culturais e o Missioná ri o

Diferen ças C u lturais

Os povos criam uma grande variedade de culturas. Comem alimentos di­


ferentes, constroem tipos diferentes de casas, falam diversas línguas e se cum ­
primentam de maneiras diferentes. As mulheres das ilhas Carolinas, no Pací­
fico, usam saias de capim até os tornozelos; os homens dinka cobrem seus
corpos com cinzas; em público, as mulheres muçulmanas ficam escondidas nos
burlws; e alguns habitantes das ilhas dos Mares do Sul usam apenas batoques
nos lábios. Os maçais no Quênia sugam sangue bovino através de setas ocas,
geralmente misturando-o com leite fresco, e consideram isto comida fina. Em
sua maioria, os chineses rejeitam produtos derivados do leite, mas apreciam
carne de porco. Os muçulmanos e os judeus ortodoxos abominam o porco e
gostam de leite. Algumas tribos africanas fazem manteiga, mas usam-na para
enfeitar o corpo (Nida 1975:77-78).
Menos óbvias, porém muito mais profundas, são as diferenças na maneira
de as pessoas se relacionarem u:r:q.as com as outras e de pensarem sobre o seu
mundo. Os fazendeiros americanos cultivam lavouras para alimentar suas
famílias. Os homens das Ilhas Trobriand cultivam lavouras para alimentar
suas irmãs e os filhos delas. Por sua vez, esses homens e seus filhos vivem do
alimento fornecido pelos irmãos dtil suas mulheres. Os spilluks do Sudão con­
sideram os escorpiões e os crocodilbs seus parentes; os ínHios do sudoeste ame­
ricano comem brotos de mescal pa;ta terem visões de espíritos protetores; os
esquimós idosos costumavam caminhar sobre o gelo até morrerem para não
consumirem alimento, que era escasso durante o inverno. Todas as pessoas
enxergam o mesmo mundo, mas o percebem através de lentes culturais dife­
rentes e nem sempre estão cientes de sua cultura e de como ela dá cor ao que
vêem (Figura 10).

FIGURA 1 0
As Cu ltu ras Vêem o Mundo de Diferentes Maneiras

Cultura A

De Paul G. Hiebert, ·�nthropological toeis for missionaries " (Cingapura: Haggai /nstitute, 1983), p. 9.
.As Difere nças Cu lturais e o No v o Missionário 63

Um estudo de Edward Hall (1959) ilustra quão diferentes as culturas po­


d em se r qua nto às suas percepções de tempo. Desde que todo mundo vive
d e ntro do tempo, podemos pressupor que todos o vêem da mesma maneira.
Nã o é be m assim, diz Hall. Por exemplo, os americanos dão valor à pontuali­
dade e definem como "chegar na hora" de cinco minutos antes a cinco minutos
dep ois da hora estabelecida. Alguém que chegue quinze minutos depois do
horário marcado deve-se desculpar, mas não precisa dar explicações. No en­
tanto, aqueles que chegam mais de meia hora "depois" são "grosseiro s" e de­
vem ofe recer uma desculpa plausível (Figura 1 1) .
Hall afirma que no Egito tradicional espera-se que os serviçais cheguem
na hora estabelecida como um ato de obediência. No entanto, os homens do
mesmo nível precisam mostrar sua independência e o fazem chegando na
hora "adequada": uma hora mais tarde. Só aqueles que chegam meia hora
depois disso é que devem apresentar d�sculpas.
Não há confusão quando dois ame'ricanos ou dois egípcios se encontram,
porque eles se entendem. Mas há confusão quando um pastor egípcio e um
missionário americano se encontram. O americano chega "na hora" combina­
da, e o egípcio, "na hora>', uma hora depois. O primeiro fica frustrado e recla­
ma (equivocadamente) que os egípcios não têm percepção de tempo, e o pastor
>

egípcio fica perplexo ante a aparente subserviência do missionário.


As diferenças culturais podem levar a situações engraçadas. Eugene Nida
(1975: 5-6) conta sobre os primeiros missionários das Ilhas Marshall que rece-

FIGURA 1 1

A Utilização do Tempo Difere nas Cu l tu ras

5 minutos antes

Hora Marcada Serviçais Todos no horário


5 minutos depois
no horário
o
Recomendável uma pequena desculpa
UI
10 minutos depois Serviçais Necessário pequena desculpa !'!!
ca
...

15 minutos depois
atrasados
Leve insulto GI
"C
20 minutos depois UI
"iii
Necessário forte desculpa
30 minutos depois .:::
z
Grossei ro
45 minutos depois

1 hora depois Iguais no horário Muito insultante


1 hora e 15 minutos depoi Iguais atrasados I mperdoável

Tempo Á rabe Tempo Americano

De Paul G. Hiebert, Cultural anthropology, 2'. ed. (Grand Rapids: Baker, 1983), p. 34.
64 As D i ferenças Culturais e o Mission á rio

bia ro sua correspondência uma vez por ano quando um barco incluía em s ua
rota o sul do Pacífico. Certa vez, o barco estava um dia adiantado e os missio­
nários estavam fora, numa ilha vizinha. O capitão do navio deixou a corres­
pondência com os marshaleses, que finalmente tinham em mãos aquilo de
que os missionários tanto falavam e com tamanha expectativa. Pouco famili­
arizados com os modos diferentes dos estrangeiros, tentaram descobrir o que
tornava a correspondência tão atraente. Concluíram que ela deveria ser boa
p ara comer. Cozinharam então as cartas, e não gostaram nem um pouco do
sabor. Quando os missionários retornaram, verificaram que sua correspon­
dência de um ano havia-se tornado um mingau.
As diferenças culturais também criam dificuldades. Por exemplo, duas
missionárias trabalhando no México central tinham muita cautela quanto ao
relacionamento com os homens, mas não viam mal nenhum em beber suco de
lima no café da manhã, por razões de saúde. No entanto, os índios estavam
certos de que as jovens tinham amantes, uma vez que os habitantes locais
usavam suco de lima, chamado de "matador de bebês", como abortivo (Nida
1975:8) .
Veremos, nos três capítulos seguintes, o s efeitos das diferenças culturais
sobre os m issionários. Nos Capítulos 6 a 8 iremos examinar essa influência
sobre a mensagem . Nos Capítulos 9 a 1 1, veremos como elas afetam a comuni-
1
dade bicultural dentro da qual os missionários é- os nacionais trabalham.
Como as diferenças culturais afetam os missionários? Primeiro, veremos
algumas dificuldades pelas quais passam os missionários jovens. No Capítulo
4, examinaremos mais detalhadamente os problemas que os missionários en­
frentam nos ministérios transculturais. -

C h oq u e C u lt u ra l

Todos nós ficamos emocionados e um pouco temerosos quando entramos


em uma nova cultura. Quando chega a carta de nomeação, nosso nível de
satisfação pessoal é alto (ver Figura 12) . Nossos sonhos tornaram-se realida­
de. Isso é o que havíamos planejado e para isso fomos treinados durante os
últimos anos.
A despedida na igreja é ainda mais agradável. Durante toda a nossa vida
ocupamos os bancos da igreja, mas agora estamos no centro do palco. Até
mesmo o pastor fica em segundo lugar. As despedidas no aeroporto são ainda
mais emocionantes, uma terna mistura de festejo e dor, além da vibração da
nova aventura.
Ao aterrissarmos em uma cidade estranha, no exterior, nossa satisfação
ainda é grande. Estamos cansados do vôo, mas há a emoção dos novos lugares
e dos diferentes costumes. Estamos de fato ali. Mal podemos acreditar!
Paramos em um restaurante e pedimos um almoço. Mas quando chega,
reconhecemos apenas metade dele como alimento. A outra metade não parece
As Diferenças Culturais e o No vo Missi onár i o 65

FIGURA 1 2
Choque Cultural

Pessoa
Pessoa Bicultural
Monocultura! Ajustada

Alto
Desejo de
- - - - - - v'õ1tãr PãrãcãSã


Choque
--�����-- �������
Vinculação
Baixo Cultural
Tempo
De Paul G. Hietfert, Cultural anthropology, 2'. ed. (Grand Rapids: Baker, 1983), p. 40.

comestível - parecem vermes ou até mesmo formigas. Famintos, paramos no


mercado e pedimos algumas laranjas, mas a mulher na banca não nos enten­
de. De repente, constatamos que todas aquelas pessoas não falam a nossa
língua. Desesperados para comer alguma coisa, apontamos como crianças para
nossa boca e para o estômago e depois para as laranjas. Quando a vendedora
finalmente entende e nos dá as frutas, enfrentamos outro problema. Como
iremos pagar? Não podemos entendê-la, e as novas moedas não fazem sentido
para nós. Finalmente, em desespero, oferecemos as moedas e deixamos que
ela pegue o que quizer. Temos a certeza de que estamos sendo enganados.
Para tornar as coisas piores, as crianças ao redor ficam rindo de nós, obvia­
mente se divertindo com essas pessoas ricas e educadas que não conseguem
falar uma língua que até mesmo. alguém de três anos de idade conhece bem.
Estamos zangados intimamente e queremos dizer-lhes o quanto somos ins­
truídos, mas isso de nada vale. Nossa instrução aqui é de pouca utilidade para
nó s.
No dia seguinte, nosso anfitrião nos manda de ônibus para a cidade, com
instruções para descermos depois de oito quilômetros na parada que tem uina
casa grande marrom, à esquerda, e uma verde e pequena, à direita. Saímos
confiantemente, mas algumas paradas depois, vemos uma casa grande mar­
rom à esquerda, e uma verde pequena à direita. Sabemos que devemos conti­
nuar mais adiante, porém todas as paradas que se seguem são iguais. De
66 As Diferenças Culturais e o Mission á ri o

repente, ficamos com medo de nos perder, mas não podemos retornar. Te mos
visões de que passaremos o resto de nossas vidas rodando de ônibus ao redor
de uma cidade estranha.
Depois, ficamos doentes e somos levados a um médico local. Ficamos co m
medo, pois todos os médicos estrangeiros são curandeiros, não são? Eles p o ­
dem realmente nos curar?
À medida que as ansiedades se multiplicam, parece que fizemos pou co ,
além de nos manter vivos. Tudo é estranho, todo mundo se parece, temos
poucos amigos a quem pedir ajuda e não podemos admitir a derrota e voltar
para casa. Ao contrário dos turistas, não podemos nem mesmo ir para o Hilto n
local, cujo ambiente nos é familiar . O que aconteceu com nossos sonhos?

Causas d o Choque Cultural

O que causa esse desconforto psicológico quando entramos em uma nova


cultura? Como poderíamos suspeitar, não é o cenário de pobreza e sujeira.
Nem é o medo de doenct.� s, embora quem esteja passando pelo choque cultural
se preocupe muito com a: limpeza e a saúde. O choque cultural é a desorienta­
ção que vivemos quando todos os mapas e diretrizes culturais que aprende­
mos quando crianças não funcionam mais. Despidos d� nossa maneira nor­
mal de lidar com a vida, ficamos confusos, amearontados e zangados. Rara­
mente sabemos o que aconteceu de errado, muito menos o que fazer a respeito.
O choque cultural atinge a maioria das pessoas que vai fundo em novas
culturas. Não aflige apenas os ocidentais que vão para fora. Os africanos o
experimentam quando se mudam para os Estados Unidos tanto quanto os
coreanos ao se mudarem para a Indonésia. Alguns apresentam sérios qua­
dros, outros, leves ataques. A gravidade depende da extensão das diferenças
entre as culturas, da personalidade do indivíduo e dos métodos utilizados para
lidar com situações novas.
Quais são alguns dos sintomas e causas, e como a doença progride? (Myron
Loss, 1983, nos deu um excelente resumo do choque cultural, e a ele devo
muito dessas idéias.)
Choque Lingüístico
O primeiro choque que geralmente experimentamos em uma nova cultura
é a nossa incapacidade de comunicação. Desde a nossa mais tenra infância,
conversamos, gesticulamos, escrevemos e conversamos mais um pouco - até
que não nos apercebemos mais dos processos de comunicação. Eles se tornam
quase automáticos.
De repente, como estranhos em um novo mundo, somos privados de nossos
principais meios de interação com as outras pessoas. Como crianças, lutamos
para dizer até mesmo as coisas mais simples e constantemente estamos come­
tendo erros. Descrevendo isso, William Smalley (1978:698) escreve:
As Difere nças Cu ltura is e o No vo Missionário 67

Me s mo após semanas de estudo [o missionário] é incap az de discutir


muito mais do que o preço de meio quilo de batatas. Ele é incap az de mostrar
sua instrução e inteligência, os símbolos que lhes deram status e segurança
em casa. Ele encontra pessoas intelige ntes e estudadas, mas resp onde às
perguntas delas como uma criança ou um idiota porque não é cap az de fazer
nad a mel hor . . .
O apre ndiz d e uma língua tem a sensação estranha d e que a s pessoas
es tã o rindo dele pelas costas - e estão. S eus estudos s ã o c a n s a tiv o s ,
entediantes, frustrantes . Nada p arece acontecer d e maneira lógica ou sem
problemas porque a lógica é identificada com os modos familiares de falar e
pensar. Ela se baseia na tradição lingüística e acadêmica.
Muitos americanos no exterior que começaram a aprender uma língua
acabaram por rejeitá-la. Algumas vezes, o padrão de rejeição significa cada
vez menos estudo e o desenvolvimento de cada vez mais contatos e m inglês .
Algumas vezes, significa doença, doença fisica verdadeira.
•.·

Algumas pessoas acreditam que simplesmente não conseguem aprender


uma nova língua. Outros têm um bloqueio mental contra praticar coisas que
não entendem ou não sabem fazer bem. Mas não se pode aprender uma lín­
gua sem cometer erros e sem praticá-la até que se fique familiarizado com ela.
O choque lingüísticÓ pode colocar as pessoas num círculo vicioso - incapazes
de aprender e incapazes de se arranjar sem aprender. Vencidas, procuram
uma saída. Smalley continua:

Eles se agarram à muleta da tradução e tentam desesperadamente en­


contrar um meio de traduzir as coisas que querem dizer, do inglês p ara a
língua local. Enganam-se pensando que porque aprenderam a dizer os equi­
valentes de algumas afirmações em inglês (até mesmo "pregando" sermões
inteiros), j á conhecem a língua. Usando esse p rocesso, têm perdido porções
inteiras dela, eliminando-as com sua insistência e m abordar o idioma por
meio do inglês. E o que perderam é causa constante de ansiedade, pois per­
dem muito do que está acontecendo ao redor deles.

Alguns nunca aprendem o idioma local e trabalham vida afora utilizando­


se de intérpretes - às vezes por quarenta anos ou mais!
Mudanças na Rotina
Outra frustração que enfrentamos no choque cultural é a mudança na nos­
sa rotina diária. Em nossa cultura materna, desempenhamos com eficiência
tarefas como comprar, cozinhar, ir ao banco, lavar roupa, ir ao correio, ao den­
tista e montar uma árvore de Natal e deixamos tempo para o trabalho e o laze r.
Em um ambiente novo, até as tarefas mais simples tomam uma grande som a de
e nergia fisica e tempo. Muito mais tempo. Em alguns países, leva-se duas ou
três vezes mais tempo para cozinhar os alimentos porque temos de acender o
68 As Diferenças Culturais e o Mission á ri o

fogão a lenha e porque compramos as galinhas ainda vivas. Elisabeth Elliot


(1975:41) escreve:

Então, havia coisas simples que, por segurança, não se deve desprezar.
Elas tomam apenas um minuto, como lavar alface . "Evite vegetais crus" é
um bom conselho p ara um turista, mas se você está indo viver em um lugar
(nosso alvo era morar, - não apenas sobreviver nos trópicos), quer comer vege­
tais crus de vez e m quando. O livro dizia que se devia mergulhar tudo, inclu­
sive alface, e m água fervente por alguns segundo s . Isso geralmente matava
as amebas e sempre matava o desejo da gente por saladas.

A vida durante o primeiro ano em uma nova cultura geralmente é uma luta
pela simples sobrevivência. Todo o nosso tempo parece ser gasto em cozinhar,
lavar roupas, fazer compras ou construir e consertar nossa casa. Não sobra
tempo para trabalharmos naquilo que viemos fazer. A frustração aumenta à
medida que os meses passam e não podemos ensinar, pregar, aconselhar ou
traduzir a Bíblia. E não há muito que possamos fazer contra isso.
Mudanças nos Relacionamentos
A vida humana está centrada nos relacionamentos çom parentes, amigos,
colegas de trabalho, chefes, caixas de banco, balconistas e até mesmo estra­
nhos. Por meio deles, ganhamos nossa identidade dentro de uma sociedade e
nossa auto-imagem. Quando nossa percepção de nós mesmos entra em conflito
com as imagens que os outros têm de nós, trabalhamos desesperadamente para
mudar o que estão pensando. Se isso falhar, somos forçados a mudar a idéia
que temos de nós mesmos. Poucos de nós podem sustentar suas crenças ou o
sentido de valor sem o reforço constante dos outros. Até mesmo uma fofoca é
melhor do que passar totalmente despercebido.
Manter relacionamentos em nossa própria cultura, na qual entendemos o
que está acontecendo, já é dificil bastante. Em outra cultura, a tarefa parece
quase inexeqüível. Nossos cônjuges e filhos têm seus próprios problemas de
ajustamento a uma nova língua e cultura e precisam de atenção extra justa­
mente no momento em que estamos clamando por ajuda. Eles nos deixam ner­
vosos (e nós a eles) porque fomos atirados juntos em situações estressantes, com
poucos relacionamentos de fora que nos dêem apoio. Outros missionários, se
estiverem por perto, geralmente são de pouca ajuda porque estão ocupados e
parecem tão bem ajustados que ficamos com medo de admitir nossas fraquezas
a eles. Afinal de contas, nós agora somos "missionários". É obvio que a culpa é
nossa, porque somos incapazes de nos ajustar com facilidade a uma nova cultu­
ra. Então n_os distanciamos, com medo de compartilhar nossas mais profundas
ansiedades.
Fazer amizade com as pessoas locais é ainda mais estressante. Mal pode­
mos falar sua língua e não entendemos as nuanças sutis de seus relaciona-
A.s D ifere nças Cultura is e o No v o Missionário 69

Ille nto s. Se u humor nos escapa, e o nosso os faz franzir as sobrance lhas. Ten­
tar ouvi- los em atividades sociais normais esgota nossas energias. Até mesmo
ir à igreja , o que no início nos entusiasmava pela novidade, se torna tedioso e
contribui muito pouco para o nosso sustento espiritual. Estamos solitário s e
não te mos ningu_ém com quem compartilhar as dúvidas que temos sobre nós
Illes mos.
Além de tudo isso está a nossa perda de identidade como adultos importan-
tes sociedade. Em nossa própria cultura, sabemos quem somos porque temos
na
cargos, diplomas e participação em diferentes grupos. No novo ambiente nossa
velha ide ntidade se vai. Temos de começar tudo novamente e nos tornar al­
guém. Richard McElroy (1972; capa interna) escreve:
Durante a p rimeira semana de estudo da língua, o novo missionário vive
o "choque da posição" . Na América dO"Norte, ele era um líder-bem sucedido e
seguro. De repente, ele é um aprendiz, tendo um secundarista como profes­
sor de fonética espanhola o qual o corrige constantemente . S e o missionário
não mudar os p apéis, ele se sentirá inseguro, se auto-reprovará e se verá
ameaçado. Em alguns" alunos, a experiência coloca e m evidência o pior: tei­
mosia, agressivid ade, retração e hipercrítica.
..

Outro choque é ter serviçais em casa. Geralmente eles são necessários para
aquecer a água de lavar, matar e depenar galinhas e outras tarefas que no
Ocidente poderíamos fazer com a ajuda de eletrodomésticos e de alimentos
pré-cozidos. Além disso, logo verificamos que não teríamos tempo de sobra
para trabalhar se eles não estivessem conosco. E somos criticados se não der­
mos trabalho a eles. Mas como nos relacionarmos com os empregados? Como
cristãos, queremos ser igualitários, assim os convidamos para comer conosco.
No entanto, isso entra em conflito com o pensamento local sobre a posição dos
empregados na casa, e os deixa constrangidos. Tendo em vista primarmos
também pela privacidade em nossa casa, a presença dos empregados é consi­
derada uma invasão.
Até mesmo a participação na vida local pode ser traumática. Quando ten­
tamos fazer alguma das atividades locais ou participar de alguns dos estra­
nhos esportes, somos vagarosos e desajeitados e nosso desempenho é como o
de crianças. Também temos a tendência de ver algum significado religioso
perigoso em toda atividade que temos dúvida.
Perda de Entendimento
Tornar-se verdadeiramente humano é assimilar uma cultura e enten der o
que está acontecendo nela. É saber o que esperar da vida e o que é esperado
de nós. Um americano sabe dirigir do lado direito de uma estrada, não pechin­
char com o atendente por causa de aç úcar e ficar em fila no caixa. Um indiano
s abe o valor de uma rúpia, como pechinchar por um sári e o significado de
70 As Difere nças Culturais e o Mis sionár io

Tirupathi Venhateswara. Precisamos desse conhecimento para entender o qu e


está acontecendo em volta de nós e encontrar o significado de nossa vid a.
Numa cultura nova, muito de nosso velho conhecimento é inútil, se nã o
enganoso. Quando apontamos alguma coisa com o dedo, as pessoas ficam ofe n.
didas porque fizemos um sinal obsceno. Oferecemos ajuda e ficamos quietos s e
as pessoas a rejeitam. Só depois aprendemos que em muitas socieda des as
pessoas devem sempre recusar a primeira oferta, e �\ie devemos reiterá- la. O
resultado muitas vezes é constrangimento e confusão . William Sm alley
(1978:693) dá outro exemplo:

Q uando fui a Paris pela primeira vez para estudar francês, eu e muitos
outros americanos achamos difícil saber quando e onde trocar um aperto de
mão. Os franceses p areciam se cumprimentar sempre e, do nosso p o nto de
vista, sem que fosse necessário. Nós nos sentíamos bobos apertando as mãos
a toda hora · e contávamos histórias como aquela em que as crianças france­
sas trocavam um aperto de mão com seus p ais antes de ir p ara a cama todas
a s noites . . . Essa pequena e inconseqüente diferença no hábito de cumpri­
mentar foi o s u'ficiente p ara nos trazer dificuldades e, combinada a centenas
de outras incertezas, provocou um choque cultural em, muito s .
1 \

Quando nosso conhecimento nos desapontarepetidamente, ficamos deses­


perados, pois nossa vida parece estar saindo do controle. A longo prazo, é a
sensação de falta de significado surgida dessa confusão que pode ser a conse­
qüência mais perigosa do choque cultural. Parece que perdemos nosso contro­
le sobre a realidade.
Desorientação Emocional e de Avaliação
O choque cultural tem uma dimensão cognitiva, mas também implica de­
sorientação emocional e avaliadora. No nível emocional, enfrentamos priva­
ção e confusão. A música que ouvimos geralmente soa dissonante, a comida,
tem tempero estranho, e o entretenimento é ininteligível. Temos o desejo de
ouvir música conhecida, comer comida familiar, assistir às notícias da televi­
são e sair para o tipo de entretenimento que tínhamos "em casa". Muito tempo
depois de entendermos os significados na nova língua, suas nuanças emocio­
nais mais sutis como o humor, a ironia, o sarcasmo, a poesia e o duplo sentid o
nos escapam.
Também enfrentamos sentimentos de frustração que surgem do ambiente
transcultural. Depois do entusiasmo inicial de estarmos no estrangeiro, temos
saudade de casa e começamos a nos desagradar daquilo que não é familiar.
Nós nos sentimos culpados porque não podemos viver segundo nossas próprias
expectativas. Ficamos zangados porque ninguém nos disse que seria dessa
maneira e porque fazemos tão pouco progresso na adaptação à nova cultura.
A.s D ife renças Cu ltura is e o Novo Missionário 71

No nível dos valores, nos zangamos com o que parece ser uma falta de
rnoral : a a usência de roupa adequada, a insensibilidade aos pobres e o que
p ara nós obviamente é roubo, engano e suborno. Ficamos ainda mais choca­
d os ao sab er que as pessoas também consideram nosso comporta mento imoral.
por ex emplo, na Nova Guiné, os habitantes locais acusavam os missioná rios
de se rem mesquinhos porque não repartiam liberalmente seus alimento s e
p erte nc es tais como roupas, cobertas e armas com aqueles ao seu redor. Afi nal
de contas todos devem agir assim. As pessoas do país também repartiriam com
0 m is sio nários caso viesse a lhes faltar o alimento.
Os indianos consideravam o vestuário das mulheres missionárias imo ral.
E m sua sociedade, a parte mais atraente do corpo de uma mulher é a barriga
da perna. Portanto, uma mulher séria usa sáris até o tornozelo; mas as mu­
lhere s missionárias usavam saias que lhes cobriam só até os joelhos.
•.·

Sintomas do Choque C u lt u ral

Os primeiros dias em uma nova cultura são �ma mistura caótica de fasci­
nantes novos cenários � experiências chocantes. Os americanos na Índia fi­
cam horrorizados ao ver lagartixas· _nas paredes de seus quartos (elas acabam
com os mosquitos) e cobras na grama, lembrando-se que vinte mil indianos
(entre os setecentos milhões) morrem anualmente de picadas de cobras. Nos
Estados Unidos, os indianos ficam igualmente horrorizados com o tráfego nas
rodovias, sabendo que quarenta mil americanos entre duzentos e trinta mi­
lhões, morrem anualmente em acidentes automobilísticos.
Esses choques iniciais podem parecer ruins, mas não são sérios. O proble­
ma real do choque cultural é a distorção psicológica que surge sem ser perce­
bida enquanto pensamos que estamos funcionando normalmente. Ela muda
nossa percepção da realidade e debilita nosso corpo. Quais são os sintomas
dessa moléstia transcultural?
O Estresse Crescente
Todos nós vivemos com estresse. Na verdade, sem ele aproveitaríamos ou
obteríamos muito pouco da vida. Porém, em demasia pode ser destrutivo. Quan­
to é muito? É dificil medir o estresse com precisão, mas Thomas Holmes e M.
Masusu (1974) nos deram uma escala aproximada pela qual estimamos o estresse
provocado por várias experiências na vida. A escala vai de "nenhum estresse" a
um máximo de 100 pontos, referentes à morte do cônjuge (Tabela 1).
O estresse é cumulativo e persiste muito tempo depois de passados os acon­
tecimentos qU'e o causaram. Para medir as tensões que estamos experimentan­
do no momento, precisamos calcular os pontos de estresse que acumulamos no
último ano. Holmes e Masusu verificaram que somente um terço daque les que
tive ram menos de 150 pontos de estresse apresentavam possibili dade de ficar
niuito doentes nos dois anos seguintes. Mas metade daqueles que acumularam
72 As Diferenças Culturai s e o Mission á r io

mais de 150 pontos de estresse e quatro quintos daqueles que tiveram mais de
300 teriam problemas significativos de saúde no mesmo período de temp o.
Em face disso, a maioria dos missionários deveria ficar maluca, particular.
mente durante o seu primeiro período no campo. No primeiro ano de trab alho
os novos missionários geralmente passam por mudanças marcantes em su�
condição financeira, ocupação, localização geográfica, meios de recreaçã o, ro .
tina eclesiástica, atividades sociais e hábitos alimentares. Se forem jove ns
podem estar recém-casados ou terem filhos pequenos. Além disso, enfre nta�
o estresse que surge com a mudança para culturas radicalmente diferentes _
tensões que Holmes e Masusu nem mesmo tentaram medir. James Spra dley e
Mark Phillips (1972), por exemplo, estimam que só o aprendizado de uma
nova língua nas atividades do dia-a-dia acrescenta mais de 50 pontos de estresse
à vida do novo missionário. Então, não deveríamos nos surpreender que mui­
tos missionários em início de carreira alcancem mais de 400 pontos.
TABELA 1
O Estresse Provocado por Mudanças na Vida

Natureza do Acontecimento Pontos de Estresse


Devido à Mudança

1 M o rte do cônj u g e 1 00
2 Divórcio 73
3 M o rte d e um m e m b ro p róximo da fam íl i a 63
4 D o e n ç a o u dano pessoal 53
5 Casamento 50
6 M udança na saúde de um membro da fam ília 44
7 G ravidez 40
8 C h egada d e novos membros na fam ília 39
9 M udança n o sta tus financei ro 38
10 M udança para u ma l i n ha de trabalho diferente 36
11 M udança n as responsab i l idades no trabalho 29
12 M udança nas cond ições d e vida 25
13 M u d ança nas h o ras o u condições d e t rabalho 20
14 M u dança na res idência 20
15 M udança n a rec reação 19
16 M udança nas atividades ecles iásticas 19
17 M u dança nas atividades sociais 18
18 M u dança no n ú m e ro d e re u n iões fam i l i ares 15
19 M u d ança nos hábitos a l i m entares 15
De Thomas H. Holmes e M. Masusu, "Life Change and 11/ness Susceptibility•: em Stressful l ife
events: thei r nature and effects, org. Barbara S. Dohrenwend e Bruce P. Dohrenwend (Nova York: Wi/ey.
1974), p. 42-72, © John Wiley & Sons, lnc.
.As Dife re nç as Cu ltura is e o Novo Missionário 73

óoença Física
Uma conse qüência do estresse alto é a doença :tisica. Entre as doenças mais
comuns cau sa das pelo estresse prolongado estão dores de cabeça crônicas, úlce­
s dor n as costas, pressão sangüínea alta, ataques cardíacos e fadiga crônica .
� �stre sse tambéms. prejudica nossa capacidade de concentração e nos deixa
suj eitos a acidente Cecil Osborne (1967: 198) escreve:
O estresse e mocional cria um desequilíbrio químico que resulta no mau
funcionamento de glândulas e de outros órgãos. O corpo então fica incap az de
oferecer resistência aos germes que normalmente são combatido s . Uma vez
que a mente, por u m processo inconsciente, tende a passar a dor, a culp a e a
tristeza para o corp o , achamos mais fácil cair adoentados fisicamente do que
em angústia mental. Para começar, quando estamos fisicame nte doentes
recebemos compa ixão, que é uma foi]ll a de amor. Mas a pessoa que sofre
angústia ou depressão p rovavelment é será orientada a "sair des s a" ou a "se
conter" .

No entanto, a doenÇa em um ambiente estranho só aumenta nossa ansie­


dade, particularmente se os serviços médicos com que estamos acostumados
não estiverem disponíveis. Em ambientes estranhos, facilmente nos tornamos
obsessivos com a saúde e a limpeza e exageramos os sintomas. Nem todos
esses receios são totalmente infundados. Muitas vezes enfrentamos doenças
estranhas e perigos, e é a nossa vida que está em jogo.
Depressão Psicológica e Espiritual
As conseqüências mais sérias do estresse geralmente são a depressão e o
sentimento de fracasso. Quando estamos desprevenidos, não somos capazes
de lidar com os problemas de viver em uma nova cultura. Ficamos oprimidos
por ter de enfrentar constantemente situações confusas e a tensão de apren­
der uma nova forma de vida. Há pouco tempo para o lazer - afinal de contas,
é correto que os missionários descansem quando há tanto que fazer? Nossos
sistemas de apoio se foram. Somos parte de uma comunidade de missionários
constituída por estranhos com grande força de vontade, a quem não ousamos
admitir nossas fraquezas, e pode não haver ninguém que desempenhe o pa­
pel de um pastor quando falharmos.
Também pende sobre nós a espada das expectativas irreais. A imagem
que o povo faz do missionário é a de um pioneiro forte que sofre grandes
p rivações - um santo que nunca peca, um excelente pregador, médico ou
p rofissional autônomo que supera todos os obstáculos. Em resumo, uma pes­
soa criativa, corajosa, sensível e sempre triunfante. Quando somos jovens e
cruzamos o oceano, quase acreditamos que podemos ser assim.
Não é de surpreender então que enfrentemos depressão, em geral grave,
quando descobrimos que ainda somos demasiadamente humanos. Sair ao campo
74 As Diferenças Culturais e o Mission á r io

não muda nossa natureza fraca e pecaminosa nem nos dá novos tale nto s
Levi Keidel (1971 :67) reflete a experiência de muitos missionário s qu a nd9.
escreve :

C o m e c e i a colocar n u m a lista minhas dive r s a s m a ni fe s t a ç õ e s de


dessemelhança com Cristo p ara dar uma boa olhada nelas : mau gênio,
irritação com as ciréunstâncias inevitáveis, auto-escravização por motivos
legalistas, má vontade com os que atrapalhavam meu programa.
A essas juntei exaustão terminal recorrente . . . . lembro-me do conselho
de meu pastor quando fomos pela primeira vez ao Congo: "Escuta Levi, você
não tem de fazer tudo durante o seu primeiro período" . Antes de completar
dois anos no campo, fui parar no hospital. . . . eu era uma tigela que havia
sido totalmente esvaziada e raspada pelo apetite devastador da exigência.

Infelizmente, se achamos que estamos fracassando, trabalhamos mais ar­


duamente para manter a auto-estima. Mas isso só multiplica nossos proble­
mas, porque o medo do fracasso consome nossas energias. Vencidos, concluí­
mos que a culpa é nossa e não servimos para o trabalho de Deus.
Algumas vezes, colocamos máscaras para disfarçar nossas fraquezas. Por
um tempo podemos enganar os outros, até nós mesmo1.3, mas, a longo prazo,
descobrimos que essas auto-imagens não têm vá1or. Dwight Carlson (1974:65)
escreve:

A exemplo de outros conflitos não resolvidos, a máscara requer muita


energia e gera outros problemas além do medo, tais como irritabilidade,
preocupação, ansiedade, fadiga, auto-indulgência, acusação aos outros e, não
menos freqüentes, mentira e falsidade . . . .
Quando nos recusamos a remover nossas máscaras, não s ó criamos con­
flitos internos e fadiga, mas também impedimos nosso próprio crescimento e
o crescimento dos outros. Os indivíduos crescem se relacionando com outras
pessoas de verdade e vendo como elas lidam com os problemas da vida. Os
líderes cristãos devem estar prontos p ara remover primeiro suas próprias
máscaras antes de esperar que os outros façam o :r;nesmo. Só quando nós
cristãos estivermos prontos para expor nossos pés de barro os outros se sen­
tirão (e talvez só depois) seguros para expor a si e as suas necessidades.

O Ciclo d o Choque C u lt u ral

Quando estamos em choque cultural é um consolo saber que somos seres


humanos normais e que no momento certo os traumas de adaptação a uma
nova cultura irão terminar. Além disso, saber como o choque cultural progride
pode nos ajudar a lidar com ele e transformá-lo numa experiência positiva
que nos prepara para o nosso futuro ministério. O primeiro ou segundo ano é
,4.s Dife re nç as Cu ltura i s e o Novo Missioná rio 75

adaptação a uma nova cultura. A maneira como nos ajustamos


cru cial na se ·

te es , para o resto d a nossa vida.


tempo d ara, o tom ao nosso mm1sterio
· . ·

durKan
ale rvo Obe rg (1960: 177- 182) traça os passos que normalmente apren­
de mos para vivermos num ambiente cultural novo.
0 Estágio de Turista
Nos sa primeira reação a uma nova cultura é a fascinação. Vivemos em
hot is , com outros missionários ou em casas não tão diferentes daquelas a que
é
estávamos acostumados, e nos relacionamos com pessoas do país que sabem
fa lar noss a língua e são amáveis conosco como estrangeiros. Gastamo s dias
explora ndo os novos sons e cenários e nos retiramos à noite para lugare s par­
cialmente isolados da estranha cultura lá fora. Somos levados para ver as
atrações locais e nos encontrar com pessoas importantes, que nos dão as boas­
vindas . Respondemos então com palav�as de afeição e cortesia à cultura local.
Dependendo das circunstâncias, esse estágio de lua-de-mel pode durar
desde umas poucas semanas até vários meses. Os turistas comuns voltam antes
que essa fase termine e retornam para casa para contar histórias sobre as
maneiras exóticas das pessoas. Mas como missionários, viemos para ficar, o
que significa que devemos começar a difícil jornada de nos tornar membros de
uma nova cultura.
O Desencanto
O estágio de turista termina quando saímos da condição de visitantes para
nos tornarmos membros da cultura. Isso ocorre quando montamos nossa pró­
pria casa, assumimos :responsabilidades e começamos a participar da comuni­
dade local. É nesse momento que surgem as frustrações e ansiedades. Temos
problemas com a língua e com as compras, atribulações com o transporte e
confusões na lavanderia. Ficamos preocupados com a limpeza da água potá­
vel, com a comida e a cama, e temerosos de ser enganados ou roubados. Tam­
bém nos sentimos abandonados. Aqueles que nos receberam tão calorosamen­
te voltaram para o seu trabalho e agora parecem indiferentes aos nossos pro­
ble mas.
O resultado é o desencanto. Aquela cultura estranha não é mais emocio­
nante. Agora, parece inescrutável e impossível de ser aprendida. Nossa res­
p osta normal é a hostilidade porque a segurança da nossa vida está ameaçada.
Encontramos erros na cultura e a comparamos, desfavoravelmente, com a
nossa. Criticamos as pessoas e vemos todo acontecimento como prova de sua
p reguiça e inferioridade, desenvolvendo estereótipos que caricaturam de for­
m a negativa o país anfitrião. Nós nos retiramos da cultura e nos refu giamos
em círculos pequenos de amigos estrangeiros ou ficamos em nossa casa, onde
te ntamos recriar a cultura de nossa terra natal.
Esse estágio marca a crise na doença. A maneira como reagimos a ela
determina se ficaremos ou não e como vamos finalmente nos adap tar à nova
76 As Diferenças Culturais e o Missioná ri o

cultura . Durante esse período, a maioria dos missionários é classificada ab aixo


da linh a "voltar para casa" (veja Figura 12) . Olhamos a correspondência e
falamos das coisas que faremos quando retornarmos para "casa". Escreve mos
cartas de demissão, mas não as enviamos. Afinal de contas, o que os no sso s·

amigos ou a igreja diriam se voltássemos?


No entanto, também está acontecendo outro processo durante esse está­
gio, algo que nós dificilmente percebemos. Estamos aprendendo a viver na
nova cultura. Começamos a perceber que podemos aprender a fazer co mpras
numa nova língua, utilizando a moeda local. À medida que fazemos amigo s
entre as pessoas, começamos a ter dias melhores . Com uma palavr a de
encoraj amento dos missionários m a is velhos e líderes locais, a maioria de nós
joga fora suas cartas de demissão e começa a longa tarefa de aprender a lín­
gua e de se ajustar à nova cultura. Aqueles que não conseguem fazer essa
transição devem voltar antes de ter um colapso nervoso.
Resolução
A restauração do humor sempre marca o início da recuperação. Começa­
mos a rir da nossa condição e fazemos piadas sobre as pessoas em vez de
criticá-las. Começamos a nos simpatizar com os outros que pensam ser piores
que nós. Embora ainda poss amos tomar uma atitude de S.Uperioridade, come­
çamos a aprender as novas maneiras culturais.
Nesse estágio, a maneira como nos relacionamos com as pessoas e a cultu­
ra é particularmente crucial porque os padrões de adaptação que formamos
aqui tendem a permanecer conosco. Se desenvolvemos atitudes positivas de
simpatia e aceitação das pessoas que nos recebem, estabelecemos os funda­
mentos para o aprendizado de sua cultura e nos tornamos como um deles. Por
outro lado, se permanecemos negativos e indiferentes, as chances são de que
permaneçamos estrangeiros e nunca nos identifiquemos com a população lo­
cal. E uma vez que somos modelos do evangelho para essas pessoas, o próprio
evangelho lhes parecerá distante e estrangeiro.
Na verdade, não só o nosso primeiro ano, mas o primeiro mês é crucial
para moldar a nossa relação por toda a vida com uma cultura; também é o
momento que estamos mais adaptáveis a ela. Temos poucos preconceitos do
que devemos fazer e um forte ide a lismo que nos motivou a vir. Tendo em vist a
que ainda não estabelecemos rotinas confortáveis que nos escondem o que
está acontecendo, nesse estágio temos o desejo de nos identific ar intimamente
com as pessoas e fazer de sua cultura a nossa. Assim, o choque cultural não é
simplesmente uma experiência para suportar. Na verdade, como os Brewsters
observam (1982), é um dos períodos mais significativos e formativos de toda a
nossa experiência missionária. Us ando suas palavras, é um momento em que,
de uma maneira ou de outra, nos "vinculamos" à nova cultura.
As D iferenças Cu ltura is e o No vo Missionário 77

A A daptação
O está gio final do choque cultural ocorre quando nos sentimos confortáveis
na nova cultura. Aprendemos o suficiente para funcionarmos de maneira
eficiente em nosso novo ambiente sem sentimentos de ansiedade. Não só aceita­
mos a comida, o vestuário e os costumes locais mas, na verdade, começamos a
nos simpatizar com eles. Temos estima pela amizade das pessoas e começamos a
nos sentir construtivos em nosso trabalho. Se pensarmos sobre isso, verificare­
mos que vamos sentir saudades do país e de sua gente quando partirmos.
Po de mos nos ajustar à nova cultura de diversas maneiras. Podemos, por
exemplo, manter nossa distância e construir um gueto ocidental de onde nos
arrancamos para fazer nosso trabalho. Ou rejeitamos nosso passado e tenta­
mos "ser nativos". Uma terceira possibilidade é a de nos identificar com a cul­
tura e trabalhar por algum tipo de integração com a nossa. (Veremos essas
alternativas e como elas afetam nosso miµ.istério no próximo capítulo.)
Os M issionários são Desequilibrados?
T. Norton Sterrett
Os missionários são deseq u i l i b rados? C l a ro q u e são. Sou u m deles. D evo
"
saber.
O missionário p rovavelmente começou como u ma m u l h e r ou u m homem
com u m . Vestia-se como as outras pessoas . G ostava de jogar tênis e ouvir mú­
sica.
Po rém , mesmo antes de sair para o campo, ele s e tornou "diferente". Ad mi­
rado por alguns, digno d e d ó d e outros, e l e era conhecido como alguém q u e
estava deixando o país, os p rojetos e o lar p o r u m a visão. Logo, parecia ser u m
visionário.
Agora que ele voltou para casa parece ainda mais d iferente. Para ele, algu­
mas coisas - g randes coisas - sim plesmente não parecem importantes. Até
mesmo os jogos do Campeonato M u n d ial ou da Copa Davis não o i nteressam
de maneira especial. E aparentemente não vê as coisas como as outras pes­
s o as vêem. O p o rtu n idade ú n ica n a vida - e n c o n t ra r I saac Stern pessoal­
m e nt e - parece deixá-lo indiferente. Isso faz com q u e você q u e i ra saber onde
ele esteve.
Bem, onde ele esteve?
Onde o conflito com o mal é abe rto e i ntenso, u ma l uta, não u ma moda -
onde as roupas não se combinam porque há pouco tempo para cuidar disso -
onde as pessoas estão morrendo, carece ndo da ajuda q u e ele pode ofe recer, a
maioria d elas sem ao menos saber q u e ele tem algo a dar - onde o calor é de
48 g raus à sombra, e ele não pode perder tempo refugiando-se nela.
N ão só o espaço, mas o tempo também parece ter passado para ele. Quan­
do você fal a sobre os Rolling Stones ele olha indig nado. Quando você menciona
"G u erra nas Estrelas" ele perg u nta o que é isso. Você então imagina há quanto
tempo ele está fora.
78 As Diferenças Culturais e o Mission á ri o

Tudo bem, q uanto tempo ele esteve fora? Tempo suficiente para q u e tri nta
m i l h ões d e pessoas fossem para a ete rnidade sem C risto, sem n e n h u m a o p o r­
t u n idade de ouvir o evang e l ho - e algu mas d elas se foram diante de seus
olhos: q u ando aq u e l e barco frág i l afu ndo u ; quando aq u e l a epidemia d e c ó l e ra
se espal h o u ; q uando aq u e l e moti m h i n d u - m u ç u l mano fo i deflag rado.
H á q uanto tempo ele está fora? Tempo s uficiente para sofrer dois s u rtos
de disenteria amebiana, para cuidar d e sua esposa com repetidos ataq ues d e
malária, para s e r i nfo rmado da m o rte de s u a mãe, q u e e l e n e m sabia q u e
estava doente.
Q uanto tempo? Tempo s uficiente para ver u n s poucos homens e m u l h e res
s e voltando p a ra C risto, vê-los beberem do e n s i n amento b íblico que l h es d e u ,
para l utar e s ofrer c o m e l e s po r causa da p e rs e g u ição o r i u n d a d o s p a rentes
não-c ristãos, para vê-los c rescer e m u m bando baru l hento de c re ntes d i rigindo
s e u próprio louvo r, para ve r esse grupo desenvo lve r u m a ig reja local que está
alcançando a c o m u n idade.
Sim, ele está fo ra h á mu ito tempo.
E ntão, ele é d ife rente. Mas parece desnecessário agora . Pelo menos, j á
q u e e l e e s t á n este país , deveria d a r m a i s ate n ção às ro upas , ao q u e está
acontecendo ao red o r, ao laze r, à vida social .
É c l a ro q u e poderia.
Mas e l e não pode esquece r - pelo menos d u rant� a maior parte do tempo
- que o d i n h e i ro d e um terno novo compraria. três mil N ovos Testamentos, q u e
e n q u a nto u m ame ricano gasta um dia no trabalho, cinco m i l ind ianos o u c h i n e­
ses vão para a ete rnidade sem C risto.
Logo, q u ando u m missionário volta para a ig reja o u para o seu g r u po de
c ristãos , lembre-se de que ele provavelmente estará d ifere nte. S e ele tropeçar
e m a l g u ma palavra aq u i e ali, é porq u e p rovavelmente está falando h á vários
anos uma l í n g u a estra n g e i ra q uase exc l u s ivamente e possivelmente conti n u a
fl u e nte n e l a . Se n ã o está n o g rupo d e preletores é porq u e talvez n ã o te n h a tido
a o p o rtu n idade d e falar e m ing lês em u m p ú l pito faz um bom tempo. Pode s e r
q u e e l e s eja eloqü e nte n a r u a de u m m e rcado i n d iano.
S e parece que e l e não entra n o ritmo tão rápido q u anto você gostaria, se
e l e s e mostra menos aces s ível q u e u m jovem evangel ista o u p rofess o r u n iver­
s itário, l e mb re-se q u e e l e esteve sob um s istema social rad icalmente d ife rente
desde que você começou o segundo g rau e pode não estar fam i l i a rizado com
a convers a i nforma l .
Lógico, o miss ionário está deseq u i l i b rado.
Mas pelo padrão d e quem? O seu o u o d e D e u s ?

Originalmente publicado e m H I S, revista estudantil da lnter- Varsity Christian Fellowship, "' 1948,
1960, 1967, 1982 e utilizado com permissão.
.As D iferenças Cu lturais e o No vo Missi o nário 7ç

Reve rsão do Choque Cultural


A idéia de que vivemos um choque cultural invertido quando volta mm
p ara "casa" depois de uma longa residência no exterior pode nos surp reen der
Afinal de contas, estamos voltando para uma cultura que nos é familiar. Ma e
aquela c ultura mudou e nós também. Mais profundamente do que esp era ·
inos. As pesquisas mostram que os indivíduos que se ajustaram com mais su ·
cess o a uma nova cultura têm maior dificuldade na readaptação à sua velha
cultura (Bristlin e Van Buren, 1974).
De muitas maneiras a readaptação à nossa cultura original é como entrai
e m uma nova sociedade. A princípio, há a emoção do retorno. Esta mos de
volta àqueles a quem amamos - parentes, amigos e colegas. Somos objeto de
muita atenção, orgulho e emoção, e as pessoas nos ouvem quando conta moe
nossas diferentes experiências. Saímos para comer hambúrgueres e p ara ir ac
shopping center com que sonhávam9s enquanto estávamos fora. Em resumo,
esp eramos retomar nossas vidas do ponto de onde as deixamos.
Depois que essa emoção inicial diminui, começamos o sério negócio de noe
restabelecer na cultura local. É nesse momento que começamos a experimen;
tar irritação e frustração. As coisas que antes pareciam tão naturais, agora
nos parecem extr)lvagantes e insensíveis num mundo cheio de necessidades.
As pessoas parecem tão bairristas. Elas logo perdem o interesse em nossae
hist.órias e se voltam para assuntos mais importantes - mudança nos últimos
modelos de carro, política local, fofoca da vizinhança e esportes. Achamos difi­
cil até mesmo nos relacionar com nossos amigos e parentes porque eles nãc
nos ouvem ou nos ouvem educadamente, embora pareçam não entender e
que estamos tentando dizer. Continuam a fazer perguntas ridículas como: "As
pessoas na Guatemala sabem o que é telefone?".
Nossa frustração se intensifica pelo fato de que tudo isso é tão inesperado.
Nós nos tornamos estranhos em nossa própria cultura! Somos colocados em
novos papéis que não esperávamos. Estamos fora de compasso com o estilo de
vida que uma vez pareceu tão importante, mas agora parece tão extravagan­
te e egocêntrico.
Nossa resposta inicial é defensiva. Ficamos irritados e críticos acerca dos
costu mes locais. Assumindo uma atitude de superioridade, nos retiramos dos
aco ntecimentos locais. Algumas vezes, desejamos não ter voltado para "casa".
Co meçamos a perceber que nenhum lugar é a casa a que estávamos acostu­
mados, que somos peregrinos, aqui na terra.
Joseph Shenk (s.d.:5) descreve esse sentimento:

"Vazio" é uma boa palavra para descrever os primeiros seis meses de


volta a casa. S aímos de um centro de muitas atividades para ser o centro de
nada. Não fazemos p arte de nenhuma "comissão" . Não temos relações com a
comunidade. Na igreja, as pessoas ficam um pouco temerosas de dizer algu-
80 As Diferenças Culturais e o Missioná r io

ma coisa que possa desengatilhar um discurso de nossa p arte sobre a injus­


tiça ou algo assim. Por isso, as conversas se mantêm no nível mais superfi­
cial possível. As noites são quietas, a menos que estejamos expostos a algu­
ma situação.
"Defasagem" é outra boa palavra. Enquanto estivemos no exterior, fica­
mos estagnados econômica e tecnologicamente. Nosso vocabulário ficou ve­
lho. Não temos mais roupas, nem veículos, nem aparelhos, nem casa que
combinem com a contemporaneidade. Uma vez que o valor individual nos
Estados Unidos e Canadá é amplamente medido por essas coisas, é muito
possível que experimentemos momentos sombrios de dúvidas. Na hora do
desespero, hipotecamos tudo a fim de conseguir aquelas bugigangas tão im­
portantes aqui. Descobrimos então que estamos trancados em p arâmetros
econômicos muito restritos para atravessar os próximos anos.

Nossa segunda resposta é tentar mudar a cultura. Em torno de um ano


depois que voltamos, estamos em perigo de ser pessoas mal-humoradas, irrita­
das. Não podemos compreender a riqueza ao redor de nós e estamos loucos por
qualquer oportunidade de dizer aos "nativos" o quanto o resto do mundo é po­
bre. Mas as pessoas parecem não querer ouvir. Isso apenas reforça nossa frus­
tração e nos leva a buscar a companhia de pessoas de outras culturas ou outros
na mesma condição. :
No entanto, no tempo certo, nos reajustamos de uma maneira ou de outra
à nossa cultura original. Algumas vezes, nossos modelos de adaptação são
destrutivos a nós mesmos e aos outros. Nós nos tornamos abusados ou ar­
redios, ou deixamos nossa comunidade original.
Contudo, geralmente encontramos de novo o nosso lugar na sociedade.
Aprendemos o suficiente a respeito de esporte e política local para participar
das conversas da vizinhança. Assimilamos o último sucesso musical e o estilo
de roupa para não ficarmos mais por fora. Descobrimos que podemos cons ­
truir novamente vidas com significado em nossa cultura original. Acima de
tudo, descobrimos que não somos a mesma pessoa que deixou essa cultura -
que mudanças profundas ocorreram dentro de nós durante os anos em que
estivemos fora e que nunca nos ajustaremos plenamente em nossa primeira
"casa".
Na readaptação é aconselhável olhar nossa sociedade original como uma
comunidade estrangeira e entrar nela da maneira que entramos na outra
cultura. Geralmente somos mais tolerantes com as pessoas de outras socieda ­
des do que com as da nossa. Precisamos aprender com os "nativos" e nos iden­
tificar com eles o máximo que pudermos sem negar quem somos agora. Preci­
samos estar cientes de que eles não nos podem entender completamente por­
que não viveram o mesmo que nós.
,.ts Dife re nças Cu lturais e o No v o Missionário 81

r e n de n d o a Adaptar-se a Novas C u lt u ras


Ap
To do s nós vivemos o deslocamento ao mudarmos para novos ambientes -
l gu ns mais que outros. Os turistas americanos podem minimizar o choque
ªolta ndo toda noite para o Hotel Hilton, uma ilha de americanos no meio de um
V'ce a no de costumes
estranhos. Lá, eles se sentem em casa e se recuperam para
�IIl novo dia de aventuras. No entanto, os missionários vêm para fazer desse
novo ambiente sua casa.
O cho que cultural raramente é definitivo. Com experiência e paciência to­
do nós aprendemos a viver de uma maneira ou de outra em novos ambie ntes
s
culturais. Aprendemos a comer as comidas locais e também a gostar delas. Acha­
mos que podemos andar de ônibus e até nos perder já que podemos achar o
caminho de volta para casa. Aprefidemos a língua bem o suficiente para man­
ter nossas conversações comuns e pedir laranjas no mercado. Conseguimos en­
contrar sentido no valor da moeda loca},. Fazemos amigos e descobrimos que as
p essoas locais não parecem todas iguais. Verificamos que o médico do lugar nos
p ode curar e que não morreremos com a primeira doença. Enfim, aprendemos
não só a sobreviver, mas também a viver e a apreciar a nova cultura. Nosso
nível de satisfação come Ça a aumentar. O lugar se torna a nossa "casa".
Os indivíduos diferem muito na medida com qu� enfrentam o choque nos
ambientes culturais novos. Isso em parte depende da personalidade. Algumas
pessoas são flexíveis e podem viver com uma grande dose de ambigüidade e
logo se vêem adaptadas aos novos costumes com certa facilidade. Outras são
rígidas e precisam ter um grande controle sobre sua vida. A gravidade do cho­
que depende parcialmente das diferenças entre sua primeira cultura e aquela
para a qual se mudam. Quanto mais profundas as diferenças, mais elas preci­
sam mudar para se ajustar ao cenário local.
Mas o choque cultural também depende dos métodos utilizados para lidar
com as diferenças culturais. Podemos aprender métodos que nos ajudem a
minimizar as tensões de adaptação a uma nova cultura e que podem, na verda­
de, torná-la uma experiência emocionante de crescimento. Podemos nos identi­
ficar com as pessoas de maneiras que tornarão nosso ministério mais eficaz.

Reconhecendo Nossas Ansiedades


O primeiro caminho para minimizar o choque cultural é reconhecer nossas
ansiedades. É perfeitamente normal termos medo de situações novas por ca usa
das incertezas que elas trazem. O medo é uma resposta humana importante
que nos faz reagir a perigos imediatos e específicos. No entanto, a longo prazo,
o medo pode-se transformar em ansiedade - um sentimento de desco nforto e
receio de algum perigo vago, incerto . Em certo sentido, é o medo de algumas
incertezas que enfrentamos em novos ambientes. É essa ansiedade, não os me­
dos específicos, o componente mais perigoso do choque cultural.
82 As Diferenças Culturais e o Missi o ná ri
o

Como podemos lidar com a ansiedade quando nem sequer sabe mos qu al .
o nosso inimigo? Uma maneira é localizar ansiedades específicas, reco nhe ce n�
do-as, para que possamos lidar com elas. Quando olhamos conscienteme n t e
para os nossos receios, verificamos que muitos deles são infunda dos. O utro
podem ser eliminados mudando o nosso estilo de vida, uma vez que se deix ar �
a maioria deles se aprendermos como viver na nova cultura. É muito út�
saber que somos normais quando nos sentimos ansiosos e que podemo s apr e n.
der maneiras de lidar com as ansiedades em vez de disfarçá-las e esper ar que
desapareçam.
Aprendendo a Nova Cultura
Aprender uma nova cultura também pode ser uma provação terrível ou
uma experiência nova emocionante. A diferença sempre está na atitude que ,
temos com a nova situação. Se temos medo do desconhecido, teremos a ten­
dência de nos refugiar em pequenos círculos de amigos constituídos em sua
grande maioria de colegas missionários e cristãos locais. Tentaremos recons­
truir o melhor que pudermos uma ilha de cultura ocidental onde possamos
viver. O resultado é uma comunidade cristã pequena muito isolada do mundo
em torno dela. Nela podemos conduzir nosso trabalho missionário dentro de
um mínimo de deslocamento, mas com o mínimo de t,estemunho para as pes-
,_

soas ao nosso redor.


Por outro lado, podemos nos aventurar a aprender a nova cultura. A prin­
cípio, isso aumenta nossas ansiedades, mas logo aprendemos que o risco vale
a pena. Como o nosso conhecimento da cultura cresce, nossos medos do desco ­
nhecido diminuem. Além do mais, verificamos que estudar uma cultura estra­
nha e conhecer pessoas novas pode ser uma experiência emocionante e
satisfatória. Descobrimos que muitos querem nossa amizade e ficam encanta­
dos quando fazemos o esforço mais simples para aprender com eles. Ficam
todos prontos para serem nossos professores culturais se desejarmos ser alu­
nos honestos.
Aprendemos melhor uma cultura nos envolvendo com ela. Embora ler so­
bre tudo o que pudermos acerca de uma cultura �ntes de chegarmos ajude,
não há substituto para a nossa participação na vida das pessoas. Por exemplo,
em vez de fazermos compras de mantimentos para uma semana, podemos ir à
loja todos os dias e comprar alguns poucos itens de cada vez. Podemo-nos
sentar com as pessoas no café ou ficar com elas na praça. Podemos convidá-la::I
para vir a nossa casa - afinal de contas, elas estão curiosas com a nos s a
cultura como nós estamos com a delas - e aceitar convites para visitá -las.
Veremos que as amizades e oportunidades de participar na cultura �ocal s e
multiplicam rapidamente se gastarmos tempo nos relacionando com as pe ss o­
as em um nível pessoal.
É importante que entremos em uma cultura imediatamente, antes de e s ­
tabelecermos rotinas que nos isolem das pessoas. Como os Brewsters (1982)
,4.s Diferenç as Culturais e o No vo Missionário 83

ro , é melhor mergulhar em uma nova cultura e experimentar a vida


ta
a.coP�nas p e ssoa s locais do que primeiro estabelecer nossa vida em um território
e �tra"D n ge iro, de onde saímos só para fazer o nosso trabalho. Eles acrescenta m
de o prim eiro dia é importante desenvolver muitos relacioname ntos
q e estiv
ifica os com as pessoas do lugar. Os recém-chegados devem comu nicar
;�· ggno suas ne cess idades e o desejo de se tornarem aprendizes. Pessoas ajudam
que estão em necessidade! Então, quando surgem as situações poten­
p essrooas te
ial en estre ssantes poderão, como aprenderam, obter ajuda, respostas ou
�déias daqueles que pertencem
em outra
àquela cultura" (1982:8-9) .
cultura como alunos genuínos, as pessoas ge­
Quan do entramos
ralmente ficam ansiosas para nos ensinar:, porque ficam orgulhosas de sua
cultura . E nqu anto aprendemos sobre a cultura, construímos relacioname ntos
q ue nos tornam parte da comunidade.
O interessante é que aprender uma nova cultura também é um meio im­
p o nte de evangelização. Encontra�·ôs sempre mais oportunidades de tes­
rta
temunhar aos não-cristãos quando entramos na cultura como aprendizes do
q ue em papéis missionários mais formais. Enquanto estudamos as pessoas,
elas se tornam interessadas em nós, em nossa vida. Sendo seus alunos, não
somos uma ameaça para elas.
Finalmente, aprender bem a língua e a cultura é fundamental para o
nosso serviço missionário futuro. Durante nossos primeiros anos, é importan­
te que aprendamos a falar a língua corretamente, o que requer uma grande
q uantidade de tempo e exercícios. Em geral, ficamos tão preocupados em como
aprender a comunicar nossa mensagem que desprezamos os sons e as estru­
turas da língua. Desse modo, aprendemos a falar, mas com sotaque e sem
fluência. No início, devemos gastar tempo para aprender os sons corretamen­
te porque os erros logo se tornam hábitos inconscientes, difíceis de mudar, e
permanecem para sempre conosco.
Semelhantemente, precisamos aprender a cultura local em nossos primei­
ros anos. Durante esse tempo, estamos mais cientes das diferenças culturais.
Dep ois, perdemos a sensibilidade aos constumes diferentes e o trabalho ocu­
pará muito do nosso tempo. Se quisermos conhecer bem uma cultura, deve­
m os começar a estudá-la imediatamente e continuar a fazê-lo durante toda a
v ida.
Desenvolvendo a Confiança
Aprender uma nova cultura e gostar de seus hábitos não é suficiente. Pode­
m os faz er isso e ainda permanecer como estrangeiros, para quem as pess oas
0 lha m desconfiadas. Como Marvin Mayers (1974) menciona, o passo mais im­
portante ao entrar em uma nova cultura é desenvolver a confiança. Só quando
as p e ss oas confiarem em nós é que ouvirão o que temos para dizer.
Confiança é o valor que damos a uma 'relação, embora seja algo que rara­
llle nte paramos para considerar. Quando construímos relações a fim de alcanç ar
84 As Diferenças Culturais e o Missioná r io

al guma coisa - fazer um negócio, ensinar ou aprender uma lição ou ca sa r.


nos -, normalmente nos concentramos naquilo que queremos obter. Para mos
para considerar o estado da relação só quando as coisas estiverem errada s.
Dentro da nossa própria cultura há muitos indícios que nos ajuda m a av a.
liar nosso relacionamento mútuo. Entre eles estão títulos e posições (norm al­
mente dá-se crédito a um pregador ou a um juiz), o contexto social (não se
espera ser enganado por um caixa de supermercado), e a posição social (fica.
mos mais desconfiados de um andarilho do que de uma pessoa bem-vestida) .
No entanto, em uma cultura estranha, não reconhecemos esses indícios.
Conseqüentemente, achamos difícil julgar quando podemos confiar em uma
pessoa. Nem sabemos como convencer os outros de que somos dignos de con­
fiança. Portanto, há uma grande dose de desconfiança mútua quando um
estranho chega na cidade, particularmente quando é estrangeiro. Os relacio­
namentos no serviço missionário devem ter prioridade sobre a tarefa, princi­
palmente no início. A confiança na mensagem depende primeiro da confiança
no mensageiro.
O desenvolvimento da confiança tem início no interesse e na aceitação
daqueles entre os quais servimos. Temos as nossas razões para vir para o
ministério, mas elas são de pouco valor para as pessoas. Elas têm seus pró­
prios motivos p ara quererem se relacionar conosco. Só quando esses motivos
são atendidos terão razão para continuar a se relacionar. Muito depois de
uma relação ter sido estabelecida, as pessoas continuarão o relacionamento
por sua própria conta, como amizade ou companheirismo.
Nosso interesse nos outros deve ser genuíno. As pessoas logo percebem e
se ressentem profundamente de estarmos desenvolvendo relacionamentos sim­
plesmente para alcançarmos nossos objetivos, porque essa é uma forma sutil
de manipulação. Elas se sentem "usadas".
O verdadeiro interesse se expressa de diferentes maneiras. É verificado
em nosso desejo de aprender sobre as pessoas, sua vida e cultura. Reflete-s e
simbolicamente em nosso desejo de usar seu tipo de roupa, experimentar sua
comida e visitar sua casa. É demonstrado na forma de hospitalidade quando
as convidamos para nossa casa e deixamos nossos filhos brincarem com os
delas. E isso se mostra em rituais formais, por meio de visitas oficiais, trocas de
presentes, jantares cerimoniais e refinamento nas apresentações. Antes de
mais nada, essas maneiras formais precisam ser cuidadosamente estudadas e
informalmente comparadas com os daquela cultura, porque um erro aqui é
uma afronta pública, dificil de ser desfeita. Mayers (1974: 34) nos conta que
convidou o vice-prefeito de uma aldeia rural para um banquete, uma vez que
o prefeito estava ausente. E verificou ter ofendido o anfitrião, que tinha uma
posição social mais alta na aldeia que a do vice-prefeito. Quando, por causa do
erro de Mayer, ele foi forçado a receber o vice-prefeito, estava publicamente
reconhecendo a superioridade deste.
,4.s D ife renças Culturais e o Novo Missionário 85

A a ceitação começa quando amamos a s pessoas como elas são, não co mo


gostaría mos que fossem. A princípio isso pode ser difícil de fazer, em parte
p orque elas são tão diferentes de nós, e em parte porque viemos com um dese­
jo gran de de trazer alguma mudança. Infelizmente, e em geral sem o saber,
de monstramos rejeição às outras pessoas como indivíduos. Nós as interrompe­
mo s qua ndo estão falando, rimos de suas observações, questiona mos seus fa­
tos, n ão as deixamos falar e comparamos sua cultura desfavoravelmente com a
nossa. O u as evitamos, esquecemos seus nomes ou falhamos não lhes confiando
dinheiro e tarefas. Certo missionário nunca entregava passagens aos "nativos"
p orque tinha medo de que fossem perdê-las. Fazendo isso, ele expressav a des­
confiança de maneira gritante como se o dissesse em palavras.
De senvolver a confiança requer abertura. É uma rua de duas mãos. Antes
de esp erar que os outros confiem em nós, precisamos confiar neles. Se espera­
mos que abram suas vidas para nós, de.vemos abrir a nossa para eles. Precisa­
mos desmanchar nossas pretensões e as máscaras que usamos para impressio­
nar os outros e devemos permitir que vejam quem realmente somos, revelando
nossas fraquezas e temores bem como a nossa força. Confiança também requer
consistência. Precisamos' ser previsíveis a fim de que as pessoas saibam o que
esperar e o que dize.r das necessidades pessoais para corresponderem ao que
dizemos em público. É de pouco valor exaltarmos os costumes locais se fazemos
comentários maldosos acerca deles quando estamos sozinhos com nossos ami­
gos, pois o que fazemos em particular reflete nossa verdadeira atitude em rela­
ç ão a eles.
Finalmente, a confiança precisa ser nutrida até amadurecer. No início, ela
geralmente é frágil e facilmente perdida. Por isso, devemos nos concentrar no
desenvolvimento do relacionamento. Geralmente concordamos com as pessoas
não porque aceitamos o que elas dizem, mas como um sinal de confiança. A
discordância nos primeiros estágios de um relacionamento geralmente é vista
não como uma diferença de opinião, mas como uma rejeição da pessoa. Mais
tarde, à medida que a relação cresce, ela pode suportar questionamentos e
dis senções. Também serve como uma ponte efetiva para a comunicação do evan­
gelho porque as pessoas agora podem confiar na mensagem já que aprenderam
a confiar no mensageiro. O estágio final de uma boa relação implica confiança
total e certeza, um desejo total de se entregar nas mãos da outra pessoa.
Nenhuma tarefa é mais importante nos primeiros anos de ministério em
uma nova cultura do que o desenvolvimento de relacionamentos de confiança
com as pessoas. Sem eles, as pessoas não ouvirão o evangelho, nem nós seremos
aceitos em suas vidas e comunidades.
Lidando com o Estresse
Outra maneira de lidar com o choque cultural é reduzir estresse sempre que
P oss ível. Quando nos mudamos para situações novas, vivemos uma grande ten ­
sã o ; portanto, precisamos monitorar nossos sentimentos para ver se nós ou os
86 As Diferenças Culturais e o Missioná r io

outros membros de nossa família estão ficando tensos, irritados, inflexíveis e


prontos para explodir a qualquer minuto. O que podemos então fazer p ara
red uzir o estresse antes que ele se torne destrutivo?
E stabeleça metas realistas . Uma maneira importante de red uz ir 0

estresse é estabelecer metas realistas. Como Myron Loss assinala (198 3 :6 7) ,


os cris tãos ocidentais têm comparado espiritualidade com atividade inte ns a, e
o la zer geralmente é visto como uma perda de tempo. Precisamos ente nder
que somos as primícias de Deus. Deus pode nos usar em seu trabalho se esti­
vermos fisica e espiritualmente sadios. Precisamos medir nosso progresso mais
pelo que nos estamos tornando do que pelo que fazemos. Precisamos nos lem­
brar de que somos humanos. Devemos dar tempo a nós e a nossas famílias
para lazer, exercícios e recreação, para leitura e crescimento pessoal e para ,.
nossa vida devocional. Devemos evitar o esgotamento a curto prazo e viver de
tal maneira que tenhamos um ministério longo.
H á uma segunda razão por que devemos estabelecer objetivos realistas
durante os primeiros anos de nosso ministério, principalmente pelo fato de
que simplesmente não podemos produzir no mesmo nível em situações estra­
nhas à nossa cultura. Precisamos de mais tempo e energia para realizar até
mesmo as tarefas mais simples como encontrar lojas qnde haja suprimentos,
cuidar dos documentos que fotocopiar e dos cheques para sacar. Somada a
isso está nossa frustração por não sermos capazes de "sair para trabalhar"
naquilo para o que viemos. Grande parte do nosso tempo e de energia é gasta
só na sobrevivência, e o pouco que sobra deve ser direcionado para o aprendi­
zado da nova cultura.
Myron Loss localiza essa tensão entre as nossas próprias expectativas e o
nosso verdadeiro desempenho nos ambientes culturais novos (Loss 1983:66,
Figura 13) . Ele observa que dentro da sua própria cultura, a auto-expectati­
va das pessoas bem ajustadas excede um pouco o desempenho delas. Em ou·
tras culturas, essa diferença aumenta significativamente. A única forma de
lidarmos com o estresse produzido por essa grande discrepância entre o que
esperamos de nós (e dos outros) e o que na verdade podemos fazer, é reduzir
nossos objetivos a proporções realistas.
Aprenda a não se levar a sério demais. Um� segunda maneira de
lidar com o estresse é olhar de uma perspectiva correta. E natural autoperceber·
se como o centro da atividade e considerar o tempo presente como de maior
importância. No entanto, isso tem grande impacto sobre tudo que fazemos,
preenchendo cada momento com muita tensão.
Precisamos ver as oportunidades momentâneas dentro da perspectiva de
todo o nosso ministério. Não comparecer ao encontro de amanhã, que parece tã o
crucial para nós agora, muito provavelmente será esquecido cinco anos depois.
Por outro lado, gastar tempo aprendendo a língua e visitando as pessoas, qu e
As Diferenças Cultura is e o Novo Missionário 87

FIGURA 1 3

Expectativa versus Realização

Cultura Estrangei ra/Novo Papel

A uto-expectativa

-- - -
--
_..

Cultura
Origi nal/
Vel h o Papel

"'
Entrada na
Nova Cultura
De Myron Loss, Culture shock (Middleburg, Pa. : Encouragement Ministries, 1983), p. 66.

hoje nos parecem fora d o nosso trabalho, pode, retrospectivamente, ser a aqui­
sição mais significativa do início do nosso ministério.
Da mesma forma, precisamos ver nosso trabalho dentro de um amplo mi­
nistério, que inclui nossos colegas locais e missionários. Nenhuma pessoa é
chamada para carregar sozinha toda a responsabilidade do trabalho. Pode­
mos ser necessários, mas não somos indispensáveis. Essa constatação nos li­
vra de um falso senso de nossa importância.
O humor é um grande remédio para o sentimento excessivo de valor pró­
p rio e é também um sinal de segurança interna e auto-estima. Precisamos rir
do s nossos erros com as pessoas. Cometemos muitos deles ao aprender uma
nova cultura, e em geral são muito engraçados. Lembre-se de que as pess oas
não estão rindo de nós, mas de nossa maneira estranha e do nosso faux pas
cultural. Aprender a rir com eles nos ajuda a superar o medo do fracasso que
geralmente nos impede de tentar algo novo. Aprendemos melhor novas cultu­
ras quando tentamos e falhamos, quando rimos e tentamos novamente, apren­
de ndo com os próprios erros.
Flexibilidade também é um remédio para o estresse. Sempre ficamos
irrit adiços, inflexíveis e autoritários quando estamos autocentrados ou inse gu­
ro s . P or isso, toda mudança nos planos e toda acontecimento ine sperado gera
88 As Diferenças Culturai s e o Mi s s io n á ri
o

uma grande quantidade de estresse . Mas é dificil programar a vida, particul al'·
mente em situações transculturais e em profissões que se relaciona m co m a
pessoas . Portanto, é importante que os nossos planos sejam mantidos de rn a�
neira tranqüila e sejamos flexíveis em nosso estilo de vida e em nossa forrna
de lidar com os seres humanos .
O perdão é um terceiro antídoto para a tensão que surge de um falso se ns o
de valor próprio . Ministrar o evangelho e servir como líder facilmente co nt arni.
nam a pessoa com um espírito de perfeccionismo que pode destruir sua vid a
cristã . Nesse caso, começamos não perdoando a nós mesmos e terminamos não
perdoando aos nossos amigos missionários, aos cristãos locais nem aos não- cris .
tãos ao nosso redor . A mensagem do perdão e da salvação de Deus é apagada e
ficamos destruídos pelo estresse que surge dos níveis mais profundos de nossa
identidade . Afinal de contas, se quisermos ser alguma coisa, devemos ser justo s!.
Mas a essência do evangelho é o perdão para o pecado e o erro . Durante 0
tempo em que permanecermos na terra, não seremos santos nem nos tornare­
mos intocáveis no que diz respeito a tentações e pecados . Somos pecadores sal­
vos que, frente às falhas humanas, se ajudam mutuamente na condução rumo
a Jesus Cristo . Como Pedro, precisamos cultivar um estilo de vida de perdão
tanto para os outros como para nós mesmos . Precisamos aprender dia após dia
que a justiça não advém de nosso empenho . É um do:n;t d� Deus aos pecadores
·-

que se arrependem .
Gratidão é outro agente contra o estresse . Em ambientes estranhos é fácil
observar tudo o que acontece de errado e desprezar as muitas coisas que estão
bem . Se pararmos para pensar sobre os acontecimento do dia, encontraremos
muitos momentos de felicidade - o aprendizado de um novo verbo, a aquisi­
ção de algo novo ou a admiração do pôr-do-sol . A alegria e a gratidão contri­
buem muito para uma vida em paz .
Cuide de si mesmo. Há momentos em situações transculturais que, nã o
importa o quanto nos esforcemos, o nosso nível de estresse aumenta . Até noss o
esforço p ara reduzir a tensão produz mais tensão . Somos simplesmente
recarregados com toda a situação querendo nos livrar dela . Algumas vezes,
precisamos nos tratar e sair de nosso envolvimento com a nova cultura . Pode­
mos ler um bom livro, sair com a família para um piquenique, tirar alguns dias
de folga . Outras vezes, a saudade de nossa cultura original é forte demais, e
sair da cidade e comer em um restaurante num hotel moderno vai nos faze r
bem . Todos nós mantemos nossa identidade enraizada na cultura de nossa in­
fância e não podemos acabar completamente com ela. Geralmente, um rápido
mergulho em nossa cultura de origem é tudo de que precisamos para nos pre­
parar para uma reimersão na nova sociedade .
Nesse momento, uma palavra de cautela é necessária . Quando saímos, há
sempre a tentação de nos isolarmos das pessoas e formar um gueto pequeno e
só nosso . Enquanto isso pode reduzir temporariamente nosso estresse, a longo
,4s D ife renças Cultura is e o Novo Missionário 89

· impe de nossa imersão na nova cultura, o que, por sua vez, reduziria o
p azos se
e � tre que surge de vivermos afastados da estrutura cultural local.
C ui dar de nós mesmos também implica que podemos monitorar o tempo de
exp o siçã o a situações particularmente estressantes. Há momentos em que
e s ta mos pre parados para nos aventurar em novas e audaciosas experiênci as.
outra s vezes, quando já estamos estressados, precisamos evitá-las. Apre nder
u m a nova cultura sempre acarreta estresse, o que é essencial para o cresci­
me nto. O que precisamos não é evitar o estresse, mas controlá-lo.
R ep arta a carga. Paulo nos aconselha a levar a carga uns dos outros e
iss o é particularmente apropriado no serviço missionário. O missionário preci­
sa es tar preocupado com a carga dos outros, particularmente a da esposa e dos
filhos. Isso pode ajudar a evitar o egocentrismo como subproduto do alto
e stre sse. •.·

No entanto, esse conselho possui dois lados. Enquanto somos encorajados a


levar a carga dos outros, devemos querer compartilhar a nossa com eles e per­
mitir que nos ajudem a suportá-la . É essencial que, como missionários, encon­
tremos outras pessoas "'a quem possamos contar nossos problemas e buscar
aconselhamento. Há uma tendência freqüente de sentirmos que agora somos
líderes e, portanto, não precisamos mais de ninguém para nos pastorear. Nada
é menos verdadeiro. É exatamente como missionários que temos uma grande
necessidade de alguém a quem possamos nos voltar para nos aconselhar espiri­
tual e pessoalmente. Como todas as vocações, ser missionário tem seus próprios
problemas e tentações. Infelizmente, as agências de missões em geral não no­
meiam ninguém para pastorear aqueles que estão no campo. Logo, os missioná­
rios por sua própria conta acabam responsáveis por encontrar alguém.

Além do Choque C u ltural

O choque cultural pode dominar nossa atenção no primeiro ou segundo


ano de serviço missionário. Ainda que na ocasião possamos descrer, essa é, de
fa to, uma experiência passageira associada com a entrada em uma nova
sociedade e não apenas com o aprendizado da cultura, que pode e deve conti­
nuar durarite todo o nosso ministério.
O choque cultural, entretanto, é uma experiência importante porque atra­
v és dele desenvolvemos atitudes e tipos de relacionamentos que irão caracte­
ri z ar a natureza e a eficácia de nosso ministério naquela sociedade. Portanto,
é crucial saber o que está acontecendo conosco quando entram os em uma
no va cultura e assim moldar nossas respostas de maneira adequ ada.
Alicja Iwanska (1978:70 1-702) captou bem a essência de atitudes e de
re l acionamentos culturais em sua análise das pessoas que vivem no noroeste
do s Estados Unidos. Verificou que elas tendem a dividir seu mun do em três
gra ndes domínios de experiência. O primeiro é o domínio do "panoram a". Este
As Difere nças Culturais e o Mis s i o n á r ·
l()
90

inclui a natureza, o tempo, a política, o esporte e outros acontecime nto s sobre


os quais têm pouco controle. O panorama lhes fornece os assuntos P ara
maioria das conversas informais. Elas discutem o clima, as questõ es m u ndia ·ª
e a Olimpíada. Tiram férias para depois poderem conversar sobre elas no tra1�
balho e na igreja.
O segundo domínio, de acordo com Iwanska, é o do "maquinário". E st
inclui as "ferramentas" que as pessoas utilizam para trabalhar e alc ança�
seus objetivos. São utilizadas enquanto forem úteis e necessárias. Dep ois di .
so, são descartadas. As ferramentas incluem tratores e granjas, lápis e livross
cadeiras e camas, roupas e casas. Elas são qualquer coisa que as pess oas uti'.
lizam para "fazer o trabalho" . São propriedades.
Finalmente, Iwanska diz que esses americanos têm o domínio das "pes so as" .
São seres �umanos com quem eles se relacionam, vistos como pes soas qu(';
pensam, sentem e cuidam dos outros como de si próprios.
A descoberta mais significativa da pesquisa de Iwanska é que o grupo que
ela estudou não via todos os homens como "pessoas". Eles consideravam as
pessoas diferentes, como os índios americanos, por exemplo, como partes do
"panorama". Visitavam as reservas indígenas da mesma maneira que iam a
um zoológico para passear. Além do mais, viam os trabalhadores - operários
imigrantes mexicanos - como "maquinário"._ Valiosos por sua produtividade ,
tornàVam-se descartáveis como uma ferramenta velha ao deixarem de ser
úteis. A tendência era de os americanos considerarem "pessoas" reais e seres
humanos somente seus parentes e amigos.
A importância dessa ilustração para os jovens missionários é óbvia. Todos
nós temos a tendência de tratar as pessoas estranhas e as novas culturas
panoramicamente . Também temos a tendência de ver aquelas pessoas que
trabalham para nós como máquinas, sejam elas secretárias, enfermeiras ou
serviçais. A mudança mais crucial que deve ocorrer em nossa adaptação a
uma nova cultura é aprender a ver sua gente como "pessoas" - seres huma­
nos como nós - e sua cultura, como a nossa cultura. Precisamos traçar um
círculo imaginário em torno delas, onde estamos incluídos, para que possamo s
então dizer "nós". Precisamos acabar com a barreira que impõe separação en­
tre o "nós" e o "eles". Esta lição não é nova. Ela é a essência da mensage m
cristã de amor.
4
•,.

O Missionário Identificado

A GORA ESTAMOS AJUSTADOS À NOSSA NOVA CULTURA . SOBREVIVEMOS AO CHOQUE


cultural. Sabemos o suficiente da língua para começarmos nosso trabalho e
fizemos amigos entre as pessoas. Estabelecemos nossa casa e nos firmamos numa
rotina. Os problemas sérios de lidar com as diferenças culturais se foram - ou
pelo menos pensamos assim.
Na verdade, nesse ponto, nossa adaptação à nova cultura está apenas co­
meçando. Sabemos o suficiente para exercer nosso trabalho e conduzirmos nos­
sa vida diária com um mínimo de estresse . Mas também estamos cientes de que
há muito mais que aprender sobre a cultura, se realmente quisermos entendê­
la e nela entrar. E temos uma vaga sensação de que já nos atracamos com
questões profundas surgidas pelo fato de que as culturas organizam o mundo
de maneiras diferentes. A verdade é que agora estamos prontos p ara ass umir a
dificil tarefa de aprender a saber e a se identificar com a cultura. Em outras
P alavras, devemos nos tornar missionários identificados e lidar com que stões
te ológicas surgidas das diferenças culturais.

I d en tificando-se com a Nova Cu ltura

Co mo já vimos, as culturas têm três dimensões - conhecimento, sentimen­


tos e valores. Há impedimentos ao longo de cada uma delas à medida que p r<;> ­
cur amos nos tornar participantes plenos de uma sociedade . Quais são eles e
co mo superá-los?
92 As Diferenças Culturais e o Mission á ri
o

Mal-entendidos Transculturais
A primeira barreira para entrar completamente em outra cultura é a que s.
tão dos mal-entendidos. Como o termo denota, eles têm que ver com um blo .
queio cognitivo, a ausência de conhecimento e entendimento da nova cultura
que gera confusão. '
Os mal-entendido� geralmente são engraçados e podem ter pequenas con.
seqüências sérias. Na India, se comermos com a mão esquerda, isso é engraçado
para as pessoas, porque utilizam essa mão apenas para o trabalho sujo . Po de.
mos estender nossa mão para cumprimentar alguém no Japão e verificar que a
pessoa se curva graciosamente.
Porém, algumas vezes, os mal-entendidos são mais sérios. Dar a um indiano
um presente com a mão esquerda é um insulto grave, pior que esbofeteá-lo.
Igualmente grave é olhar na comida da pessoa de uma casta elevada quand6
ela estiver comendo. Um casal americano foi convidado para o casamento de
uma alta casta brâmane. Após a cerimônia, os estrangeiros foram os primeiros a
serem servidos na festa porque comiam carne e não podiam comer com os
brâmanes ritualmente puros. Após a refeição, a mulher americana foi agrade­
cer à anfitriã a hospitalidade e a encontrou na cozinha. A ocidental não perce­
_beu que, uma vez que sua presença como uma pessOf!. impura na cozinha cor­
rompia toda a comida preparada para os convidados Hrâmanes, a pobre anfitriã
precisaria cozinhar tudo de novo para o festejo deles!
Eugene Nida relata a confusão surgida em uma parte da África quando os
missionários chegaram. No início, as pessoas eram amáveis, mas depois pas­
saram a evitá-los. Os recém-chegados tentaram verificar por quê. Finalme n­
te, um homem idoso lhes disse: "Quando vocês chegaram, vimos seu jeito es­
tranho. Vocês trouxeram latas redondas que do lado de fora tinham uma fi­
gura de grãos de feijão. Vocês abriam e dentro havia feijão e vocês comiam.
Em algumas, havia a figura de milho e dentro tinha milho, e vocês comiam .
Do lado de fora de algumas latas havia a figura de carne, e dentro havia
carne e vocês comiam. Quando tiveram seu bebê, vocês trouxeram latas e do
lado de fora havia figuras de bebês. Vocês as abriram e deram ao seu beb ê a
carne, carne de bebês que ali estava!". A conclusão das pessoas foi perfe ita­
mente lógica, mas era um mal-entendido.
Em outra parte do mundo, os missionários carregaram consigo um gato
como animal de estimação para seus filhos. Sem saber, foram para uma tribo
onde as únicas pessoas a ter gatos eram as bruxas. Os habitantes locais acre­
ditavam que, à noite, as bruxas deixavam seus corpos e entravam no dos
gatos, para rondarem as choupanas roubando a alma dos habitantes. Na m a­
nhã seguinte, aqueles cujas almas haviam sido roubadas, sentiam letar gia e
fraqueza e, se não fossem ao curandeiro, que poderia lhes devolver a alma,
teriam a fraqueza aumentada e morreriam. Quando as pessoas viram o gato
da família, concluíram que os missionários eram bruxos. A coisa piorou qu a n·
do o missionário se levantou para dizer que eles vieram para unir as alm a s!
O Mi
ssionár i o Identificado 93

,Arruinou ainda mais quando a mulher missionária lavou os cabelos no rio e os


!deõe s viram a espuma do xampu caindo da cabeça. Tendo em vista que nun­
a havia m visto sabão, tinham certeza que as bolhas eram as almas que os

: Ssionários haviam roubado. . _ .

Infelizmente, os mal-entendidos surgem nao apenas nos relaciona mentos,


Illas também com respeito ao evangelho. Por exemplo, os recém-convertidos nas
Illo ntanhas da Nova Guiné chegaram a um missionário e lhe pediram que lhes
e nsinasse a orar com poder. Embora tivesse dito que já havia ensinado a eles
tudo que sabia sobre oração, eles insistiam. Disseram que falavam e falavam
na caixa, mas nada acontecia. Quando o missionário lhes perguntou o que esta­
va m quere ndo dizer, trouxeram uma caixa pequena feita de bambu com botõ es
na fre nte. Eles disseram: "Falamos na caixa e viramos o botão, mas nada acon­
te ce" . Imediatamente o missionário verificou o que havia de errado. Eles sem­
pre o viam ir ao escritório e sintonizl!� as ondas do rádio para pedir açúcar,
carne, enlatados e a correspondência . No dia seguinte, do céu, vinha o avião da
"Asas de Socorro" com o açúcar, a carne, os enlatados e a correspondência que
ele havia solicitado. As pessoas, que não sabiam nada sobre rádio de ondas
curtas, estavam certas de que o missionário havia-lhes ensinado orações fracas,
mas que mantinha �ara si as orações fortes!
Superando os mal-entendidos. Há dois tipos de mal-entendidos que
precisamos superar: o que temos sobre as pessoas e suas culturas e aquele que
e las têm sobre nós. Para superar o primeiro, devemos entrar na nova cultura
como aprendizes. Precisamos fazer do estudo da cultura uma de nossas prin­
cipais preocupações durante o nosso ministério missionário porque só então
estaremos aptos a comunica,r o evangelho de maneira que as pessoas o enten­
dam .
Nossa tentação nesse caso é pensar que, porque somos portadores das boas
novas, viemos para lecionar. No entanto, como professores, acabamos sempre
fechando as portas ao aprendizado que poderíamos obter sobre as pessoas,
seus costumes e crenças. Com essa atitude de superioridade, dificultamos tam­
bé m a aceitação das pessoas em relação a nós e à mensagem que trazemos.
O estranho é que, geralmente, temos mais oportunidades de compartilhar
0 evangelho de forma eficaz quando adentramos uma sociedade na condiç ão
de alunos ao invés de professores. As pessoas têm orgulho de sua cultura e, se
somos verdadeiros estudantes, muitas delas ficam extremamente felizes de
nos ensinar sua maneira e nos fazer chegar até o seu mundo. Uma vez dese n­
volvida a confiança, ficarão interessadas em nós e em nossas crenças. Então,
Po de re mos compartilhar com elas o evangelho de maneira que não as amea­
ce mo s, como amigos e participantes de sua sociedade.
Um a tentação comum e perniciosa que enfrentamos depois de te �mos es­
tudado uma cultura por um tempo é pensar que agora nós realmente a ente n­
de lll.os . Mas raramente isso se dá. Anos de estudo só nos fazem ente nder o
94 As Diferenças Culturais e o Missi o ná ri
o

quão distantes estamos de ver um mundo cultural como alguém que faz Part
dele. Um indício de que não entendemos alguma parte de uma cultura é qua n/
ela parece não fazer sentido para nós. Precisamos sempre nos lemb rar de qu. 0e
uma cultura só faz sentido para o seu próprio povo. Se ela não parec e clarª
p ara nós, somos nós que não a entendemos bem e devemos estudá -la mais .
Para superar o mal-entendido das pessoas sobre nós e nossos costume s
precisamos estar abertos e explícitos a nos explicar para elas. U ma ve z qu.�
tenha sido desenvolvida uma certa confiança, suas perguntas serão mu itas ·
"Por que você dorme em cama?'', ''Você realmente come carne?", "Por qu e você
ainda não casou sua filha se ela já tem seis anos ?!", "Quanto isso custa, e isso
e aquilo?", "Quanto você ganha?", "O que você faz com tanto dinheiro?". '
As pessoas p aram para ver nosso jeito estranho - como comemo s e nos
arrumamos para dormir, como escovamos os dentes e escrevemos cartas. E laP
querem experimentar nossas máquinas estranhas - o rádio, o gravador, �
câmera fotográfica, o fogão e o fiash. As bonecas de nossas filhas são passadas
de mão em mão, e as crianças geralmente são objeto de um exame cuidadoso e
de discussão. E quando ficam satisfeitas, falam muito bem de nós na aldeia ,
sob as árvores. Para muitos missionários, essa perda de privacidade é dificil.
Eles não sabem que tais investigações são importantes no desenvolvimento
da confiança. Mesmo quando sabem disso, sua paciffe ncia pode acabar depois
de explicarem vinte vezes a forma como o gravador funciona.
Visão interna e externa. Ao aprender outra cultura e compartilhar a
nossa, logo ficamos cientes de que há mais de uma maneira de olhar uma
cultura. Primeiro, todos nós aprendemos a ver nossa própria cultura pelo lado
de dentro. Crescemos nela e a c o nsideramos como a única maneira correta de
ver a realidade. Os antropólogos se referem a essa perspectiva como uma vi­
são "endêmica" de cultura.
No entanto, quando deparamos com culturas diferentes, logo verificamos
que estamos olhando para elas como estranhos. Examinamos seus conheci­
mentos culturais utilizando as nossas categorias. Depois, descobrimo s que
pessoas de outras culturas estão olhando nossa maneira através de seus p ró­
prios pressupostos culturais. Isto significa que estamos condenados para sem­
pre a olhar outras culturas somente pela nossa perspectiva? Se for assim, a
compreensão transcultural é possível?
O entendimento transcultural é possível, e nós o vemos acontecendo elll
todo momento. As pessoas migram para novas culturas e pessoas de dife re n­
tes origens interagem com muitos ambientes. A compreensão entre elas nun­
ca é perfeita, mas em geral é razoavelmente boa. A princípio podemos pe ns ar
que as pessoas devem descartar sua própria cultura e se converter a u ma
outra para entendê-la. Por exemplo, podemos questionar se os missionários
devem rejeitar suas próprias culturas para se tornarem membros de outra .
Mas isso é impossível uma vez que nunca podemos apagar totalmente o re gis-
ssion ário Identificado 95
o "!Ji

nos sa cultura original, nos níveis mais profundos dos nossos· pensame n-
tro deentun e valores. Mesmo se pu d essemos,
o� s� sb e Anentos ' nem sempre seria b om. Como
·

o n Loewn dizem (1975:428-443), muito do valor que temos sobre as


ªssoa s a quem servimos advém do nosso próprio conhecimento de mu ndo.
�� certonsmiti se ntido, somos intermediadores culturais que vivemos entre dois mun­
dos e tr a :r�os informações de um para outro : Isso n �o s �g.nifica que deve­
JJJ. O Sviver desvmculados da cultura a qual servimos. S1gmfica que, mesmo
dep ois de nos termos identificado com ela o mais próximo que pudemo s, reco­
nhec e mos que em algum sentido ainda fomos intrusos.
Uma exceção para isso podem ser as missões "migratórias". A grande maioria
dos mis sio nários ocidentais se identifica com a sua primeira cultura. Eles se
re fe re m a ela como "lar" e esperam ali se aposentar um dia. Os missionários
JJJ.i grantes, tal como os espanhóis e portugueses dos séculos dezoito e dezenove,
se estabeleciam na nova área e se tornavam cidadãos locais. Seus filhos se
casavam com pessoas nativas e, com Ó "tempo, eram absorvidos na sociedade.
No e ntanto, mesmo nesse caso a primeira geração de migrantes não se livraria
d e sua primeira cultura. Levaria ainda muitas gerações para que um grupo de
migrantes e seus filhos fossem plenamente assimilados em uma sociedade.
Mesmo se o missionário se identifica com uma nova cultura, de certa ma­
ne ira o evangelho sempre vem de fora. É a revelação divina dada em um
contexto cultural específico para os ouvintes de hoje.
Como então são possíveis o entendimento e a comunicação transcultural?
Quando participamos a fundo de outra cultura, descobrimos que há visões
diferentes da realidade. Nela somos forçados a sair do sistema de pensamento
de nossa própria cultura e pensar de maneira diferente.
Primeiro aprendemos, embora de maneira imperfeita, a ver o mundo atra­
vé s dos olhos de nossos anfitriões. Depois, desenvolvemos níveis mais altos de
análise - estruturas conceituais supraculturais - que nos permitem ficar
acim a da nossa e de outras culturas, compará-las e traduzi-las. Durante o
p roce sso, ficamos mais cientes dos nossos pressupostos culturais fundamen­
t ais que até agora tínhamos por certos. Por exemplo, ficamos conscientes de
que e m nossa cultura as pessoas pensam sobre o tempo como um rio que sem­
pre corre, que se move ao longo de uma direção. Em outra cultura, ele é um
círculo interminável que sempre retorna pàra o mesmo ponto sem nunca ch e­
gar a lu gar algum. Quando fazemos essa constatação, começamos a comparar
os dois sistemas de tempo e, fazendo assim, desenvolvemos uma forma de
co mp arar suas semelhanças e diferenças.
O desenvolvimento dessa estrutura metacultural é que caracteriza o que
de
chamamos de pessoas biculturais - aquelas que participaram profundamente
m ais de uma cultura. Sua visão mais ampla permite que separem em algu­
ma me dida sua primeira cultura e traduzam crenças e práticas de uma cultura
P ara outra. Na verdade, se tornam intermediários culturais, permutadores que
se inovem entre culturas e trazem idéias e produtos de uma para outra.
96 As Diferenças Culturais e o Mission ár i
o

A perspectiva de um estranho, desvinculado de qualquer cultura, é um


visão de cultura "ética". A antropologia tem-se especializado em dese nv olveªr
modelos éticos para estudar e comparar culturas. E em certo sentido, p orém
todas as pessoas biculturais criam estes modelos porque a compree ns ão e �
comunicação entre culturas diferentes seria impossível sem a referida v isão .
Edward Hall (1959) nos oferece um excelente exemplo de como uma c om.
paração ética das culturas pode nos ajudar a entender e nos comunic ar com
pessoas de outra cultura. Ele diz que o espaço, como o tempo, é uma lin gua.
gem silenciosa e comumente mal entendida em situações transculturais p or.
que lida muito com a comunicação implícita. Por exemplo, os norte-a merica­
nos, normalmente distam de um metro e vinte a um metro e meio um do outro
durante conversas informais. Os assuntos que discutem a essa distâ ncia são
política, questões locais, as últimas férias, o tempo ou qualquer outro de cará­
ter público de que qualquer um pode participar. Hall chama isso de Esp aç6
Social (entre um metro e vinte e três metros de distância). Geralmente se
sentem obrigados a se relacionar com as pessoas, dentro desse espaço, ao se
dirigir àqueles que se sentam próximos deles em um avião ou num jogo.
Fora desse Espaço Social está a Zona Pública. Nessa zona, as pessoas po­
dem ser ignoradas porque estão muito distantes de uma conversa normal.
Quando os norte-americanos querem se comu:q.icar mais intimamente,
baixam o tom da voz e se aproximam mais, de trinta a noventa centímetros de
distância. Hall chama isso de Espaço Pessoal.
Finalmente, Hall observa que os norte-americanos têm um Espaço Íntimo
que se estende do contato físico até trinta centímetros. Eles utilizam essa dis­
tância para a maioria das comunicações pessoais.
Os latino-americanos têm uma linguagem espacial semelhante, com me·
nores distanciamentos. Eles ficam mais perto uns dos outros quando conver·
sam e freqüentemente se abraçam como um sinal de cumprimento. À medida
que os norte-americanos e os latino-americanos se mantêm cada qual em sua
cultura, não há confusão. No entanto, quando se encontram, há mal-entendi·
dos. Em conversas informais, os norte-americanos ficam incomodados se os
latino-americanos ficam em seu Espaço Pessoal, embora estejam discutindo
generalidades que eles reputam ao Espaço Social. Assim, dão um passo p ara
trás até que fiquem numa distância confortável. Daí, o latino-americano fica
incomodado - os norte-americanos estão em seu Espaço Público, e fo ra d e
alcance. Assim, eles dão um passo mais perto até que os norte-americanos
fiquem no Espaço Social. Novamente, aqueles ficam incomodados e dão u i:n
passo para trás. Outra vez os latinos se sentem distantes e dão um passo p ar a
frente. Nenhum deles está ciente de que suas culturas utilizam o espaço de
maneira diferente. Os norte-americanos acabam por achar que os latino- ame ·
ricanos são invasivos. Estes, por sua vez, acham que os norte-americanos são
frios e distantes. Fornecendo essa estrutura teórica na qual as duas cultur as
0 flfission ário Ident ificado 97

r comparadas, Hall nos ajuda a entender as diferenças entre elas,


p o de muse
e possa mos nos movimentar de uma para outra com maior co nforto.
p ara q en ten dime ntos êmico e ético de uma cultura se autoco mpleme ntam. O
Os
é n ecessár io para e tenderm s �omo as pess �a � vêem o mundo e por
p rime iro dem a e 1e como o �J.azem. 0 �u1timo e, necessario para compararmos
u e re sp on
�ma cultu ra. com outras cult ras e avaliarmos o entendimento do mundo di­
u
ante da re alidade . u
Em mis sões, a s d as abordagens são importantes para nós. Precis amos
e nte nder as pessoas e como elas pensam a fim de traduzirmos o evangelho
co nforme seus padrões de entendimento. Também precisamos compree nder
as Esc rit uras dentro do seu contexto cultural para que possamos traduzi-las
p ara a cultu ra local sem perder sua mensagem divina. Com esse senso, tanto
0 mis sion ário como a mensagem se tornam "identificados" . Eles devem se tor­

nar me mbros de uma cultura para ap�sentarem o evangelho de maneira que


as pes soas possam entendê-lo. Ao mesmo tempo, continuarão como estranhos
- os missionários como membros de o u tras culturas e o evangelho como a
revelação de Deus . .
Etnocen trismo
No nível cognitivo, a confusão transcultural gera mal-entendidos, mas no
nível afetivo gera o "etnocentrismo", a reação emocional normal que as pes­
soas têm quando se confrontam com outras culturas pela primeira vez. Elas
têm a sensação de que sua cultura é civilizada e que as outras são primitivas
.e atrasadas. Essa reação tem que ver com atitudes, não com entendimentos.
A raiz do etnocentrismo é a nossa tendência humana de reagir à maneira
das outras pessoas utilizando nossos próprios pressupostos afetivos e reforçar
e ssas respostas com profundos sentimentos de aprovação ou desaprovação.
Quando somos confrontados por outra cultura, a noss a é colocada e m
questionamento. Nossa defesa é evitar a questão concluindo que somos me­
lhores e que as outras pessoas são menos civilizadas (Figura 14) .
Mas o etnocentrismo é uma rua de duas mãos. Achamos que as pessoas de
outras culturas são primitivas e elas nos julgam incivilizados. Isto pode ser
observado melhor por meio de uma ilustração. Alguns norte-americanos esta­
vam recepcionando um visitante indiano acadêmico em um restaurante, quan­
�o u m deles, que nunca havia estado fora, fez a pergunta inevitável: " N a
India, vocês realmente comem com os dedos?". Em sua pergunta estava implí­
cita u ma atitude cultural de que comer com os dedos é grosseiro e sujo. Os
nqrte -a mericanos podem usar os dedos para comer cenoura, batata frita e
sandu íches, mas nunca purê de batatas com molho ou bistecas. O estudante
indiano respondeu: ''Você sabe, na Índia vemos as coisas de maneira diferente .
Eu s e mpre lavo minhas mãos com cuidado antes de comer e só uso minha mão
direita. �ém disso, meus dedos nunca foram levados até a boca de ninguém.
98 As Diferenças Culturais e o Missionár i
o

FIGURA 1 4
O Etnocentrismo é o Sentimento d e Superioridade Cultural

Etnocentrismo

(turista)
(visão de fora)

Aprendiz
(visão de dentro)

Lem bre-se: As pessoas amam suas culturas. P recisamos aprender a gos­


tar de o utra cultura e aprender a não reclamar das áre as que não gosta­
mos.

De Paul G. Hiebert, Anthropological tools for missionarias (Cingapura: Haggai lnstitute, 1983), p. 13.

·-

Quando olho um garfo ou uma colher, fico sempre pensando que muitas outras
pessoas estranhas já os colocàram na boca!".
O etnocentrismo ocorre onde quer que sejam encontradas diferenças cul­
turais. Os americanos ficam chocados quando vêem os pobres de outras cultu­
ras morando nas ruas. Naquelas sociedades, as pessoas ficam surpresas de
saber que entregamos nossos doentes e idosos e o corpo daqueles que morre­
ram p ara estranhos cuidarem.
O etnocentrismo também pode ser encontrado dentro de uma sociedade.
Pais e filhos podem criticar um ao outro porque as estruturas culturais na
qual foram criados são diferentes. As pessoas de um grupo étnico se conside­
ram melhores que as de um outro grupo; as pessoas da cidade vêem com des ­
prezo seus primos do interior; pessoas de classes sociais mais altas critica m as
mais pobres.
A solução para o etnocentrismo é a empatia. Precisamos ter consideração
com as outras culturas e suas maneiras. Mas nossos sentimentos de superiori­
dade e nossas atitudes negativas em relação a costumes estranhos vão m ais
fundo e não são facilmente eliminados. Um jeito de superar o etnocentris m o é
sermos aprendizes na cultura para a qual vamo_s, porque o nosso egocentrismo
geralmente está enraizado na nossa ignorância sobre os outros. Outro mo dó é
lidar com questões filosóficas sur gidas pelo pluralismo cultural. Se não as ex a­
minarmos, ficaremos inconscientemente ameaçados de aceitar a outra cultura
porque, ao fazê-lo, colocamos em questionamento nossa crença implícita de que
0 .Jl,fissio nário Identificado 99

FIGURA 1 5

Avaliando Outras Culturas

Um Modelo para Avaliação das Cu lturas -- - -


A " '
no N ível da Cosmovisão / \
I \ /
I \ \
I \ (Sem mal-entendidos) 11
I \1
�i.----- Entendimento -----,_,_-
I 1
I I
I I
I I
I (Sem prejulgamento) I
I /
Julgament �Jnformado
' ,,
'- - - - - - - - - ' , _ _ .,,

Lembre-se: Não devemos j u lgar outra cultura pelos valores da nossa p ró-
,,
pria c u ltura. Em vez disso, p recisamos j u lgá-la por 1) u m a escala de avali-
ação bicultural que..seja desvi nculada das duas, e pelas 2) Escrituras e a
revelação de Deus.

De Paul G. Hiebert, Anthropological toeis for missionarias (Cingapura: Haggai lnstitute, 1983), p. 13.

a nossa própria cultura está certa e as outras erradas. Uma terceira maneira de
superar o etnocentrismo é evitar criar estereótipos das pessoas de outras cul­
turas, em vez de enxergá-las como seres humanos como nós. O reconhecimen­
to de nossa humanidade comum une as diferenças que nos dividem. Final­
mente, precisamos nos lembrar de que as pessoas amam suas próprias cultu­
ras e se desejarmos alcançá-las devemos fazê-lo dentro do contexto das suas
culturas.
Julgamentos Prematuros
Te mos mal-entendidos no nível cognitivo e etnocentrismo no nível afetivo,
mas o que pode acontecer de errado no nível avaliador? A resposta está nos
f ol gamentos prematuros (veja Figura 1 5) . Quando nos relacionamos com ou­
tr as culturas, temos a tendência de julgá-las antes de termos aprendido a
ente ndê-las ou respeitá-las. Ao fazê-lo, utilizamos os valores da nossa própria
cultura, não de alguma estrutura metacultural. Conseqüentemente, as ou­
tr a s culturas parecem menos civilizadas.
100 A s Diferenças Culturais e o Missioná-. •
� 10

O M issionário Viável: Aprendiz, Permutador, Contador de H istórias


Dona/d N. Larson
Segundo minha visão, há três papéis q u e o missionário pode desenvo lver a
fim de se tornar viável aos olhos dos não c ristãos locais: aprendiz , p e r mu ta do r
e contador de h istó rias . Eu me tornaria primeiro u m aprendiz. Após t rês m es es
adicionaria o utro: permutador. Depois de mais três meses , adicionaria u m terc ei �
ro: contador de h istórias . Depois de mais t rês meses, enquanto contin uo a se r
aprendiz, p ermutad o r e contad o r de h istórias , começaria a desenvolve r outro s
papéis específicos na descrição de min has tarefas .
Pe rmita-me s e r claro. O missionário, em s u a posição como um estranho à
c u ltu ra, d eve encontrar uma maneira de se mover em d i reção ao centro, se
deseja i nfluenciar as pessoas. Alguns papéis o ajudarão a faze r essa mudança. ,
O ut ros não. Sua primeira tarefa é identificar aqueles que são mais ap ropriados e
eficazes . Em s e g u ida, e l e pode começar a desenvolver manei ras e meios de
c o m u n icar s u a experiência cristã por i ntermédio desses papéis em q u e encon­
trou aceitação.

Aprendiz
Mais especificamente, como aprendiz, m i n h a ênfase maior é sobre a l ín­
gua, o p rimeiro s ímbolo de identificação em . minha cdmu nidade anfitriã. Quando
tento aprendê-la, as pessoas sabem q u e não estou brincando - q u e elas são
valiosas para alguma coisa porq u e faço um esfo rço para me comunicar em seus
termos. Aprendo um pouco cada dia e coloco em uso o q u e sei. Fal o com uma
pessoa nova todo dia. Digo algu ma coisa nova cada momento. G rad ualmente,
chego ao ponto onde entendo e sou em parte modestamente compreendid o.
Posso aprender mu ito em t rês meses.
G asto m i nhas man hãs com u m i nstrutor d e l ínguas (num p rog rama-estru­
tu rado ou em um que estruturei por minha conta) já tendo esco l h ido os tipos de
assu ntos q u e p reciso para falar com as pessoas d u rante a tarde. M ostro-lhe .
como me conduzir nesses assu ntos e e ntão gasto u ma boa parte da manhã
p raticando. À tarde vou para lugares públ icos e faço os contatos natu rais com os
res identes locais, conversando com eles o melhor q u e posso, partindo de minha
l i m it a d a p rof i c i ê n c i a . I n i c i o u ma co nversa após o u t ra , cada u ma d e l as
t ransparecendo tanto verbal como não-verbalmente q u e "sou u m aprendiz, po r
favo r fale comigo e me ajude". Com cada parcei ro de conversa adqu i ro um pou­
co mais de p rática e u m pouco mais de p roficiência desde o p rimeiro dia.
N o final dos meus primeiros três meses relacionei-me com dezena s de
pes soas em potencial e alcancei o ponto onde posso faze r afi rmações s i m p les
naquela l íngua, perg u ntar e responder a perg u ntas simples, me localizar, s ab e r
o s i g n ificado de novas palavras em situações de apuro e, o mais importa n te ,
experimentar sentir-me "em casa" na comunidade q u e adotei. N ão posso ap re n­
d e r a "língua toda" em t rês meses, mas posso aprender a iniciar conversas ,
controlá-las de u ma maneira limitada e aprender um pouco mais sobre a l ín g ua
c o m cada um q u e encontro.
0 "Miss io ná rio Identifica do 101

perm u ta dor
Q u an do o meu q u a rto mês começa, adiciono u m papel - o de p e rmutad o r,
periências e idéias com pessoas de minha comun idade adotada -
troc an do ex
ve n do- n os m ais claramente como parte da h u man idade, não só como membros

d e dife re ntes comunidades ou nações. P reparo-me para esse papel q uando pos­

sível, atra vés de períodos de residência em mu itos outros lugares ou vicariamente


atravé s do trabalho do c u rso de antro pologia e campos co rrelatos. Também me
e q uip o com um conju nto de fotos 8 x 1 O i l u strando uma g rande variedade de
sit ua çõe s pelas q u ais passa o s e r h u mano.
Du rante o segundo g rupo de t rês meses gasto manhãs com meu instrutor
de l ín guas aprendendo a falar sobre as fotos d e minha coleção. Ass i m , ganho
p ro ficiên cia na l ín g u a desenvolvida n o prime i ro mês. P ratico minha descrição
des sas fotos e me p reparo o melhor q u e posso para responder sobre elas . En­
tã o, à tarde, visito i nformalmente a comu n idade, utilizando as fotos como parte
de minha demonstração de "mostre e 'bo nte". Falo o máximo q u e posso sobre a
maneira como os o utros vivem, como constroem s uas casas , o q u e fazem para
se d iverti r, como sofrem e como l utam pela sobrevivência e s u stento.
N o final dessa s e g u nda fase, me estabeleço não somente como um apren­
diz, mas como alg u é m que está interessado em o utras pessoas e q u e p roc u ra
trocar um pouco..de i nformação com elas . M i n ha p roficiência na l ín g u a ainda
está em desenvolvimento. Encontro mu itas pessoas. Dependendo d o tamanho
e da complexidade d a comu n idade, estabeleço-me como uma fig u ra bem-co­
nhecida n essa ocasião. Torno-me u ma ponte entre as pessoas da comun idade
local e um mundo maior - pelo menos simbol icamente.

Contador de Histórias
Q u ando começo m e u sétimo mês, t roco a ê nfase novamente para u m
papel novo. Agora me torno u m contado r d e histórias. G asto manhãs c o m meu
instruto r d e l ín g u as . Agora é para aprender a co ntar u m a história s i mples para
as pessoas com q u e m me encontro e a responder s u as pergu ntas o m e l ho r
que p u d e r. As h i stó rias q u e co nto se baseiam n as viagens do povo de I s ra e l ,
n a v i n d a d e C risto, n a fo rmação do n ovo povo d e Deus, n o movi me nto d a
ig reja em t o d o o m u ndo, e principalmente nessa c o m u n idade, e finalmente na
minha p rópria história sobre o meu encontro com C risto e na m i n h a camin hada
como c ristão. D u rante as manhãs, desenvolvo essas h istórias e as p ratico
in te nsivamente. E ntão, à tarde, vou para a c o m u n idade como tenho feito por
me se s . Agora , p o ré m , encontro-me com as pessoas como contad o r d e h i stó­
ri a s . Ainda sou um aprendiz da l íngua e permutador, mas ac rescentei o papel
d o n arrador d e h i stórias. Co mparti lho o máximo d e histórias com o maior n ú ­
me ro d e pessoas q u e posso a cada d i a .
A o f i n a l d e s s a terc e i ra fas e, f i z aq u i s ições e amigos. Tive inco ntáve is
experi ências que n u nca esquecerei. Deixei impressões pos itivas como apren­
d iz, p e rm utad o r e co ntad o r d e histó rias . Esto u p ronto para o u t ros papéi s , u m
a p ós outro.
102 As Diferenças Culturais e o Mis sion · .
a1'10

Relativismo cultural. Os julgamentos prematuros geralme nte são e


dos. Além do mais, eles fecham a porta para o entendimento e a co munic :Çr�.
futuros. Qual então é a resposta? ao
À medida que os antropólogos aprenderam a entender e a valo riz ar out
. sua mtegri
. ., s
cu 1turas, passaram a respeitar "da d e como mo d o v1ave l de or garal.
zação da vida humana. Algumas se despontaram em áreas como a te cnolog� ·
Outras, na dos vínculos familiares. Mas todos "fazem o trabalho", ou s e t'
todos tornam a vida possível e mais ou menos significativa. Desse reconhec�'.
menta da integridade de todas as culturas emergiu o conceito do relativism�
cultural: a crença de que todas as culturas são igualmente boas - que ne .
nhuma cultura tem o direito de julgar as outras.
A posição do relativismo cultural é muito atraente. Ele mostra alto re speito
por outras pessoas e suas culturas e evita erros de etnocentrismo e julgamento
prematuro. Também lida com questões filosóficas dificeis como a verda de e a
moralidade, contendo o julgamento e confirmando o certo em cada cultura
com o objetivo de justificar suas próprias respostas. No entanto, o preço que
pagamos ao adotar o relativismo cultural total é a perda de coisas como a
verdade e a justiça. Se todas as explicações da realidade são igualmente váli­
das, não podemos mais falar de erro, e se todo comportamento é justificado
segundo seu contexto cultural, não podemos mais falar de pecado. Não há,
então, a necessidade do evangelho e nenhuma razão para missões.
Que outra alternativa nós temos? Como podemos evitar os erros de julga·
menta prematuro e etnocêntricos e ainda afirmar a verdade e a justiça?
Além do relativismo. Cresce a consciência de que nenhum pensamento
humano está livre de julgamento de valor. Os cientistas esperam um do outro
que sejam honestos e abertos ao relatar suas descobertas e cuidados quanto aos
de suas pesquisas. Os cientistas sociais devem respeitar o direito de seus clientes
e as pessoas que estão sendo estudadas. Executivos, funcionários do governo e
outras pessoas possuem valores pelos quais vivem. Não podemos evitar fazer
julgamentos, nem tampouco que uma sociedade exista, sem a outra.
A partir de que bases, então, podemos julgar outras culturas se m s er
etnocêntricos? Como indivíduos, temos o direito de fazer julgamentos com res ·
peito a nós mesmos e isso inclui julgar outras culturas. Mas esses julga mentos
devem ser bem informados. Precisamos entender e respeitar outras culturas
antes de julgá-las. Nossa tendência é fazer julgamentos prematuros co m b ase
na ignorância e no etnocentrismo. ,
Como cristãos, buscamos outra base de avaliação, chamada de norma � i·
blica. Como revelação divina, ela põe em julgamento todas as culturas , confi.r·
mando o que é bom e condenando o que é mau nas ações do home m . p�r�
ficarem seguros, os não-cristãos podem rejeitar essas normas bíblicas e u �ili·
zar as suas. Nós só podemos apresentar o evangelho em espírito de a m or mis ­ ;
ricordioso e deixá-lo falar por si mesmo. No final, a verdade não dep e n de 0
o Missio ná rio
Identifica do 1 03

samos ou dizemos, mas da realidade em si. Quando damos testemu­


que pdaenve rdade, não buscamos nossa superioridade, mas afirmamos a verda-
11bo
de dEno eva nge lho.
tão, que nos livra de interpretar as Escrituras segundo o nosso ponto
· sta cultural e impor muitas de nossas próprias normas culturais sobre as
de �o as ? E m primeiro lugar, precisamos reconhecer que somos tende nciosos
p es ndo inte rpretamos as Escrituras e, depois, ficar abertos à correção. Tam­
���� p recisamosultura
deixar o evangelho atuar na vida dos novos cristãos e, atra­
a que pertencem, reconhecendo que o mesmo Espírito
s d ele s, na c
�:nto que nos conduz está trabalhando neles e os levando à verdade.
E m segundo lugar, precisamos estudar tanto os valores da cultura a que
ministramos como os da nossa própria cultura. Por esse procedimento, pode­
m os dese nvolver uma estrutura metacultural que nos permite comparar e
avaliar as duas. O processo de buscar �ntender genuinamente outro sistema
•.

de valores caminha juntamente com a ruptura da perspectiva monocultura!.


Permite que apreciemos o que é bom nos outros sistemas e sejamos mais críti­
cos em relação ao nosso .
Uma vez que mesmt5 na forJD.ulação de um sistema metacultural de valo­
re s nossas próprias.tendências culturais entram em ação, precisamos nos en­
volver com líderes cristãos de outras culturas. Eles podem detectar nossos pon­
tos culturais falhos melhor que nós. Da mesma forma, vemos geralmente seus
prejulgamentos culturais melhor que eles.
A hermenêutica crítica que implica um diálogo entre cristãos de diferentes
culturas pode nos ajudar a desenvolver um entendimento mais livre da cultu­
ra s obre os padrões de moral de Deus revelados na Bíblia. Por um lado, nos
se m
mantém longe do legalismo de impor normas estrangeiras sobre uma socieda­
de levar em conta sua situaçã o específica. Por outro lado, nos livra de
�ma ética situacional puramente relativista em sua natureza.
O interessante é que n ão podemo s alcançar tal entendimento transcultural
da B íbl ia sem primeiro experimentar o rompimento de nossas perspectivas
monoculturais sobre a verdade e a justiça. Quando verificamos pela primeira
vesz s m
que outras culturas possuem normas diferentes, ficamos tentados a rejeit á­
la e exa miná-las e a justificar a nossa como bíblica. Mas essa atitude só
�c,ha a Porta para lidarmos biblicamente com os problemas de outra cultura.
em dis. so, faz que o evangelho pareça estrangeiro para outras culturas.
P recis amos
D e ce rta maneira, para nos livrarmos de nossas tendências monoculturais,

Valores
enfrentar o relativismo que advém ao constatarmos que noss os
culturais não são absolutos. Começamos então a ver todas as culturas
co � m aior consideração. Podemos, entretanto, desenvolver tal perspectiva
V ta
� ªi ndo j ulgamentos prematuros e procurando entender e respeitar profu n-
0 tn e nte a outra cultura antes de avaliá-la. À medida que entramos em uma
U.tra c ultura, o controle que temos sobre nós se enfraquece . O interessante é
104 A s Diferenças Culturais e o Mis si on · .
a 1' 10

que quando nos tornamos biculturais ficamos mais sensibilizados com as out
ra s
culturas e mais críticos com a nossa.
Tendo experimentado o rompimento com os nossos próprios abso lu tos 1
turais e enfrentado o abismo do relativismo, podemos nos colocar alé mc · �
monoculturalismo e do relativismo para uma aceitação das cultu ras e das n °
mas transculturais das Escrituras. Uma perspectiva me ta cultur al ve rdad e?l'·
também nos pode ajudar a ser mais bíblicos em nosso entendime nto da re� � �
dade .
Avaliação nas trê s dime nsõe s . Como seres humanos, julga mos as cren.
ças para determinar se elas são verdadeiras ou falsas, os sentime nto s p a ra
decidir gostos e preferências e os valores para diferenciar o certo do errado .
Como missionários, temos de avaliar as outras culturas e a nossa próp ria f.'.m
cada uma dessas dimensões.
No nível cognitivo, devemos lidar com percepções diferentes da realida de
incluindo idéias diversas sobre caça, agricultura, construção, procriação hu'.
mana e saúde. Por exemplo, no sul da Índia, os aldeões acreditam que as
doenças são causadas por deusas locais quando ficam iradas. Conseqüente ­
mente, devem ser oferecidos sacrifícios a elas para que parem com a peste .
Devemos entender as crenças das pessoas .a fim de compreendermos seu com­
portamento, mas se quisermos extirpar a doença, podemos decidir que as teo­
rias modernas sobre saúde são melhores. Por outro lado, depois de examinar­
mos seu conhecimento sobre caça esportiva, podemos concluir que ele é me ­
lhor que o nosso.
Precisamos avaliar não só a ciência popular das pessoas, mas suas crenç as
religiosas, porque elas afetam seu entendimento das Escrituras. Embora já
tenham conceitos sobre Deus, ancestrais, pecado e salvação, eles podem ou
não ser adequados para o entendimento do evangelho.
No nível afetivo, podemos achar que muitas coisas são uma questã o de
"gosto' '. As pessoas de algumas culturas gostam de comida quente, de outr a s ,
doce ou salgada. Em uma cultura preferem roupas vermelhas, casa com te·
lhados íngremes, comer com os dedos ou se divertirem com teatro. E m outra ,
escolhem roupas escuras, casa de telhado reto, comer com colheres e se dive r·
tir com canções de lamento. No entanto, mesmo nesse nível, as culturas que
preferem a paz e o perdão podem ser melhores que aquelas que enfa tiz am 0
ódio e a vingança. ,,
No nível avaliador, a maioria das normas de outras culturas sã o "b oa s . ·
Sempre é dado um alto valor a amar as crianças, cuidar dos idosos e a rep a r tus '

com os necessitados. Por outro lado, pode haver normas conflitant e s c orn o
valores bíblicos tal como escravidão, decapitação, cremação das viúv as na s
piras funerárias de seus maridos ou opressão do pobre. .
Veremos que há muitas coisas válidas em toda cultura e que não deve rn s:�
apenas preservadas, mas estimuladas. Por exemplo, a maioria das cultur as s a
o Mission á r io Id entificado 1 05

'to melhore s que a nossa quanto às relações humanas e à preocupaç ã o


fllU� 1 e p od emos aprender muito com elas. Muitas coisas também são "neu­
soci� � não pre cisam ser mudadas. Na maioria dos lugares as casas de madei­
tras rvem tão bem como as de barro ou tijolos, e um vestido não é melhor que
ra s esári ou um sarongue. Todavia, algumas coisas em todas as culturas são
�f a e más. Uma vez que todas as pessoas são pecadoras, não devemos ficar
�� rs as estruturas sociais e cult:iirais q1:e cr� am sejam af� ta � a s pe �o
s es. os se os nossos pecados corporativos .
e nao so os pecados mdividuais
puecaDdoeusSãpro ocura mudar.
qe
Vivend o em Doi s M u n d os

Quando nos tornamos pessoas biculturais, convivemos com dois mundos


de ntro de nós. Como podemos conciliá.:Jos?
Rejeição
Uma solução para viver dois mundos é rejeitar um deles. Isso é mais fácil
de s er feito rejeitando "á. cultura na qual estamos ministrando. É obvio que
não podemos fazer isso abandonando a sociedade - afinal de contas viemos
aqui para ser missionários . Mas podemos fazê-lo de maneira mais sutil. Pode­
mos discriminar a cultura "primitiva" sem que, no caso, necessitemos levá-la
tão a sério. Podemos reconstruir nossa própria cultura dentro de nossas casas
e grupos de estrangeiros, criando ilhas de segurança em um mar de aliena­
dos . Essas duas abordagens fecham as portas para a comunicação do evange­
lho com significado para as pessoas. Por um lado, as pessoas logo sabem que
realmente não as amamos. Por outro, o evangelho se veste com roupa estran­
geira.
Uma segunda solução é rejeitar nossa própria cultura e "virarmos nati­
vos". De certa maneira, isso parece ideal. Não fomos chamados para nos ide n­
tifica r p lenamente com as pessoas por causa do evangelho? Por muitas razões,
ess a ab ordagem geralmente falha . Primeiro, nossos motivos para rejeitar nos­
sa primeira cultura podem estar errados. Podemos ter um profun d o sentim en­
to de culpa porque pertencemos a uma sociedade opulenta, ainda que saiba­
mos que o evangelho nos chamou para um estilo de vida simples e para co m­
P artilhar com um mundo necessitado. No entanto, isso é um problema esp iri­
� Ual q� e devemos enfrentar dentro de nós mesmos antes de entrar no tra� a­
hb o mis sio nário. Não podemos fugir de nossa cultura simplesmente indo em­
dora . Ou podemos ser culturalmente mal-ajustados em nossa própria socie da-
e , e stra nhos à nossa própria gente. Fugir para uma outra sociedade nã o
re s olve os problemas psicológicos que fazem surgir tal alienação.
S e gu n do, há um sentido no qual não importa quanto tentemos, nun ca
P o de re m o s rea1mente " virar nativos . Nao
· · "
' ·
- nascemos como pagmas em b ran co
eni. que a nova cultura pode ser e s crita. Nossas vidas já estão totalmente
106 As Diferenças Culturais e o Mi s sio n á r
io

marcadas com a escrita da nossa infância e juventude. Negar o início da no


vida é suprimir muito de quem realmente somos. Com o tempo, esta sup re s s �a
gera doenças, raiva e ódio e explosões mentais. A identificação com outra :�o
tura não pode vir através da negação de alguma parte de nós mes mo s. u ·
Terceiro, por mais que tentemos, as pessoas sempre saberão que so
estrangeiros . William Reyburn (1978:746 - 760) descobriu isso. Dep ois dem:.�
ver com os quíchuas - vestindo-se como eles, comendo como comia m, cam �.
nhando como caminhavam - eles ainda se referiam a ele como pa tro nc it�
Não importava o que fizesse para se identificar com eles, conside ravam- n�
como um estranho. Finalmente, em desespero, ele perguntou por que fa z iam
assim. Um líder se levantou e pôs seu braço sobre o ombro de Reyburn e sus .
surrou: "Nós te chamamos patroncito porque você não nasceu de mãe índia"
Quarto, rejeitar nossa primeira cultura reduz nossa utilidade para a igrtll �
ja como contato lá fora. Como membros da nova cultura, somos concorre nte s
nos recursos e posições de liderança. Mas como estranhos que se identificam
com as pessoas locais, somos fonte de novas idéias e advogamos quem poss a
defender seu interesse no mundo como um todo.
Uma vez isoladas, as sociedades não podem mais viver de maneira autô­
noma. Elas estão atadas, gostem ou não, às teias econômicas e políticas que
circundam o mundo. Tendo pouco conhecimento ; de como o mundo lá fora
funciona, elas são sempre vítimas de exploração - expulsas de suas terras
porque não têm títulos registrados com o governo, reduzidas ao campo de
trabalho porque precisam de dinheiro para pagar taxas, e roubadas de suas
culturas à medida que são absorvidas em cidades. Um papel duplo que o mis­
sionário pode desempenhar em tais situações é defender as pessoas e suas
culturas contra as invasões externas e prepará-las para enfrentar o mundo
moderno pelo qual inevitavelmente serão absorvidas.
Uma abordagem consubstanciada para missões nos chama a afirm ar as
duas culturas dentro de nós - e a construir uma ponte entre elas .
Compartimentação
Outra solução para o problema de viver em dois mundos é a comp artime �­
tação. Ao escolher essa opção , nos adaptamos em qualquer cultura qu e esti·
vermos, mas separamos as diferentes culturas na nossa mente . Por e x e mp lo,
na África, agimos e pensamos como africanos. Nos Estados Unidos , a gim os e
pensamos como norte-americanos. E mantemos os dois mundos se par a dos .
Todas as pessoas biculturais utilizam a compartimentação, e ge ralmen�e
ela oferece a solução mais simples e imediata para viver em mundos c ulturais
diferentes. Colin Turnbull (1968) descreve alguns líderes africanos m o de rn o s
nascidos e criados em aldeias tribais que hoje vivem em casas mod ernas e :
suas cidades. Suas mulheres urbanas se vestem de acordo com a alta mo ª
r
ocidental e enviam os filhos para escolas inglesas. Eles dirigem, beb e m u í ; e
e viajam pelo mundo em jatos, hospedando-se em hotéis internacio nais . as
J,fiss io ná rio Id e ntific ado 1 07
O

a ndo visita m seus parentes na aldeia, se vestem em dashikis, falam sua


�u u a nativa , comem a comida da aldeia e, em alguns casos, possuem uma
n
}l gu nd a e uma terceira esposa que criam os filhos da aldeia segundo os costu­
e
s g tradicionais. Turnbull descreve um líder que vivia na cidade em u ma
Jllcase : de dois andares: o pavimento superior era moderno e o térreo era tribal!
O s missionários também compartimentam mundos culturais. Com freqüên-
. ª nos movemos de uma cultura para outra, de um contexto para outro,
� �tro de uma
: pob
cultura. Visitamos os líderes brâmanes na aldeia hindu de
res à tarde e os funcionários do governo no dia seguinte. Isso
anhã, os
eque r "muda nça de direção" mental. Aprendemos a viver em muitos ambien­
�es diferentes e a lidar com a tensão mental criada pela mudança de um para
outro .
No e ntanto, se levada muito longe, a compartimentação pode ter sérias
cons eqüências. Primeiro, � m mission�rio em particular pode ser acusado de
hip ocrisia e duplicidade. A medida que as pessoas em uma cultura não nos
vêem no outro ambiente, este perigo é pequeno. Mas, essa barreira acaba
caindo. Os nossos compatriotas lêem nossos relatórios e artigos que escreve­
mo s para as nossas igrt!ijas-mãe e nos vêem na companhia de visitantes es­
trangeiros e funcionários do governo. Se notarem uma mudança muito gran­
de em nós, suspeitam que estamos num jogo duplo e nos identificando com
ele s não por causa do nosso amor por eles, mas para alcançar os nossos próprios
objetivos.
Segundo, a compartimentação não lida com as tensões internas que en­
frentamos quando vivemos em dois mundos. Não há apenas a tensão inevi­
tável de mudar de um contexto para outro, há também o conflito mental de
vivermos em duas culturas que possuem crenças, sentimentos e valores con­
traditórios. Por exemplo, no ocidente, somos criados para respeitar nossa indi­
vidualidade, mas podemos servir em uma sociedade onde tudo - comida, rou­
pas e ferr amentas - pertence ao grupo e pode ser usado por todos. A constan­
te mu da nça de uma cultura para outra pode gerar confusão e insegurança e,
qu a n d o le vada ao extremo, uma cri s e de identidade e esquizofrenia cultural.
A co mpartimentação é uma tática que todas as pessoas biculturais devem
Ut iliz a r em certas áreas de suas vidas, mas isso não resolve os problemas mais
P ro fundos surgidos ao viver em duas ou mais culturas.
Integração
A longo prazo e em níveis mais profundos, precisamos trabalhar rumo a
Urno a inte gração e ntre as duas culturas dentro de nós. Para fazê-lo, precisa­
� s de uma estrutura metacultural bem desenvolvida que nos permita acei­
ar 0 que seja verdadeiro e bom em todas as culturas e criticar o que seja fa lso e
�au em cada uma delas. Além de uma aceitação sadia da variação cultural, ela
eve nos oferecer um entendimento claro de quem somos como pessoas biculturais.
108 A s Diferenças Culturais e o Mis sio n · .
a. l'lo

Para os cristãos, essa perspectiva metacultural deve ser profunda rne


enraizada na verdade bíblica. A revelação de Deus deve oferecer os pre s s u nte
tos que fu n d amentam nossas crenças, afjeiçoes , . a re de P os.
- e normas. E a h'istori
.
nt
de Deus deve-nos oferecer a saga maior dentro da qual entende mos todaora
, . humana.
h.istona a

Estabelecidos esses fundamentos, devemos lidar com questões surgid a s p


las diferenças culturais quando se relacionam não somente com a tarefa ;·
missões, mas também com a unidade da igreja. Num certo sentid o, a igrej a e:
uma instituição humana, multicultural; em outro, é um corpo espiritu al. Crist
quebrou as barreiras que nos dividem para que possamos ser unidos ap es ar d�
nossas diferenças. Cristo é o relativizador de todas as culturas porque seu reino
julga todas elas.
N ívei s de Identificação

Cristo nos dá o modelo de Deus para o ministério . Em Cristo; Deus se


tornou completamente homem para nos salvar, ainda que, assim fazendo
tenha permanecido completamente Deus (Fp 2. 5-8) . Nós também devemo�
nos identificar o máximo que pudermos com as pessoas, sem comprometer
nossa identidade cristã.
Estilos de Vida
A princípio pensamos em "identificação" em relação ao estilo de vida. Na­
turalmente, precisamos aprender bem a língua, porque em nenhum aspecto
nosso exotismo é mais óbvio do que quando falamos com nosso sotaque oci­
dental e sem fluência. Em geral, podemos também nos vestir como as pessoas,
comer sua comida da maneira que fazem e experimentar sua cortesia. P o d e ·
mos até mesmo aprender a viver de acordo com seus conceitos de tempo e
espaço.
Muitos missionários acham mais dificil se ajustar �fo transporte e à h ab it a·
ção local. Tendo em vista que os ocidentais acham mais dificil romper sua p re di·
leção por carros, as reuniões administrativas das missões são recheadas de dis·
cussões com respeito a automóveis. Argumentamos que eles nos torn a m mais
eficientes, que podemos pregar em mais encontros e trabalhar mais do qu e p o ·
demos fazer sem exaurir nossos corpos. Pode ser o caso. Mas deve mos p e s ar
esses argumentos pelo fato de que, em muitos países, a aquisição de um c a rro
nos identifica com o governo, com a riqueza ou com os "estrangeiros". Ta mbé ill
devemos ser cuidadosos em não medir o nosso sucesso como missionários p elo
número de vezes que pregamos ou pelos encontros de que participamos. .
A habitação também apresenta problemas de identificação . Esta mos b abi·
tuados a certos tipos de casa e geralmente encontramos locais mal- arranjado s
para os nossos objetivos. Os banheiros são diferentes, a cozinha fic a fara dª
lavanderia é um conjunto de tinas e a sala e o quarto são combina do s. Ain ª
0 J{issio ná rio Id
e nt ifica do 1 09

. fícil é a perda de privacidade. No ocidente, a casa de uma pessoa é um


rria.1: diário particular onde ela pode-se refugiar quando as pressões do mundo
s��º 1� fore m muito grandes. Mas em muitas outras sociedades, as casas são
la. � a. s aos a migos e parentes que podem chegar sem avisar e ficar para uma
:�eiuas refeiçõe s sem serem convidados. Além do mais, pode haver serviçais
. d a n do a casa o tempo todo.
10 ;arnbé m devemos perceber que há limites para a nossa capacidade de
'd ntificação com a outra cultura - limites determinados pelas diferenças
1 �re as culturas, pela . .
nossa personalidade e pelas pessoas locais. E, mais fácil
en
nos ide ntificarmos mtimamente com outra cu 1tura por um tempo curto - um
no ou dois - do que por uma vida toda, particularmente se a família estiver
:nvolvida . Para alguns, também é mais fácil a adaptação do que para aqueles
menos flexíve is. Devemos nos identificar o máximo que pudermos com uma
cultura, mas não à custa de nossa saP.idade e nosso ministério. Devemos ter
e m mente que as pessoas nem sempre e stão satisfeitas com tudo em sua cultu­
ra e pode m estar procurando maneiras melhores de vida. O estilo de vida dos
missionários deve refletir não só a cultura local, mas também as melhoras que
o correm quando alcan�m as pessoas.
Nenhuma área1de identificação é mais difícil de lidar do que a de nossos
filhos. Podemos optar por fazer sacrifícios. Mas podemos impô-los aos nossos
filhos? É obvio que devemos deixar nossos filhos brincar com as crianças lo­
cais, mas e com respeito a sua educação, namorados e até mesmo casamento?
Veremos essas questões com mais detalhes no Capítulo 9. Agora parece ser
suficiente lembrar que, uma vez que nossas crianças nunca pertencerão com­
pletamente à nossa cultura original, um dos maiores presentes que pode­
mos lhes dar é a oportunidade de, no mínimo, conhecerem o mundo.
Papéis
Meno s óbvia é a nossa necessidade de trabalhar com líderes locais e até
mesmo sob seu comando, quando a ocasião exigir. Não importa quanto bus­
quemos nos identificar com as pessoas, se estivermos numa posição social que
nos coloca acima delas, haverá barreiras a nos separar. Com muita freqüên­
cia. , cons
ideramos· que um missionário está automaticamente incumbido das
respons ab ilidades institucionais às quais se submete. O que o missionário dis­
ser te m maior peso que o que os outros disserem.
. O nde existirem igrejas, é importante que os missionários desejem servir
J u ntam ente com os líderes locais e acabem subordinando-se a eles. Por exe m­
Plo , a s enfermeiras missionárias devem mostrar respeito quando trabalha m
�aoni o� m édicos locais da mesma forma com que os missionários evangelista s
be
l mais . m devem mostrar respeito quando estão sob a liderança de pastores
0c
O s p roblemas surgem em situações como estas: os líderes da igreja loca l
P o de m n ão ter a visão de evangelização ou da implantação de igrejas, e os
1 10 As Diferenç as Culturai s e o Mi s s i o • ,
a.r10
11

médicos podem estar mais interessados em construir sua próp ria rep uta �

que no be m-estar de seus pacientes. Mas esses problemas são enc ontrad�ªº do
igrejas em toda p arte do mundo. E m tais situações, precis amos - 0 rna, �as 8
' l , mas sem comprometer nosso proprio
poss1ve ' ' c h ama d o pessoal - trab :ic1lll.
lh o
dentro das e struturas existentes p ara fazermos mudanças. Vere mos esse : ar
blemas mais adiante, no Capítulo 1 0 . P ro .

A titudes
A principal identificação não ocorre só porque vivemos como as p es so
que nos rece b em ou ate mesmo porque nos tornamos parte de sua estrutuQ.
,

social. Começa com nossas atitudes em relação a elas. Podemos viver em s�ª
casa, trabalhar sob sua autoridade e até mesmo casar nossos filhos com a:
filhas delas, mas se temos a se nsação de distância e su� eriorid ade, eles �<IJgo
_
perceberão. Por outro lado, se vivemos em casas estrangeiras e come mos comi­
da estrangeira, mas verdadeiramente amamos as pessoas, elas també m p e r.
ceberão isso.
Um amor genuíno pelas pessoas nos levará a tratá-las com dignidade e
respeito e a c onfiar a elas não somente nossos bens, mas tamb ém poder e
posições de liderança. Isso evitará que as tratemos com condescendência, como
"crianças" , ou com desdém, como "incivilizados" J Isso também nos dará um
profundo desej o de compartilhar com elas as boas novas do evangelho que nos
foi e ntregue .
A identificação no nível das atitudes é a base para todas as outras identi­
ficações. E stranhamente, quando realmente amamos as pessoas e as vemos
como seres humanos como nós , as diferenças de estilo de vida e os papéis
parecem menos importantes. Há uma ligação implícita que nos une a elas. Por
outro lado, esse amor nos permite ir mais além na identificação com as pesso as
em nossos p apéis e estilo de vid a do que poderíamos fazê-lo fora do no sso
trabalho. Mas isso não é nada novo para o cristão. O apóstolo Paulo es cre veu:
"Ainda que e u distribua todos os meus bens entre os pob �es e ainda que e ntre ·
gue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada dis so me
aproveitará " ( l Co 1 3 . 3) .
5
•.·

Os Pressupe>stos Culturais dos


Missionários Norte-americanos

e OMO JÁ VIMOS, DOIS DOS MAIORES PROBLEMAS ENFRENTADOS PELOS M ISSIONÁRIOS


ao entrarem em novas culturas são os mal-entendidos e os julgamentos pre­
maturos. Eles são particularmente danosos porque, geralmente, não estamos
cie ntes deles. Como indivíduos, temos fortes convicções sobre a realidade. Ra­
ramente p aramos para perguntar se os outros a enxergam como nós, uma vez
que p are ce tão óbvio que as coisas sejam como nós as vemos.
P oré m, as outras pessoas vêem o mundo de maneira diferente. Seus pres­
s �postos tornam a realidade diferente da nossa. Conseqüentemente, sua vi­
s ao de mu ndo, a maneira como o percebem é diferente.
Co m o, e ntão, podemos descobrir os mal-entendidos e os julgamentos fals os
que faze mos quando entramos em uma outra cultura? Obviamente deve mos
�studá -la p ara entendê-la da forma como a entendem os que dela fazem par­
-e . Na v erdade, esse deve ser o nosso empenho durante toda a vida.
Afi. Me nos óbvia é a nossa necessidade de entender nossa própria cosmovisã o.
n al de . contas, já não conhecemos nossa pr,ópria cultura e suas crenças ?
Cº o j
r lll á v imo s, a resposta para isso é não. Sabemos muito sobre a nossa cultu­
a
z , :m as de sco nhecemos os pressupostos profundos que temos sobre a nat ure­
� da re alidade . Portanto, se quisermos descobrir os mal-entendidos e o
e nocentrismo que surgem quando servimos em uma outra cultura ta mbé m
1 12 As Diferenças Culturais e o Mi ss i o n . .

ar 10

devemos estudar nossa própria cosmovisão. Só então podemos co nstruir


Pon.
tes de entendimento e aceitação com as pessoas do local.

Estudando as Cosmovi sões

Se as cosmovisões são fortemente implícitas, como então pode mos es tud .


las? Não há resposta fácil para essa questão, nem as nossas conclus õe s est �·
sempre certas. Quando estudamos a cultura de um povo, devem os inferir seuªº
pressupostos básicos a partir de suas crenças e práticas. Precisa mos consid �
rar as semelhanças como um fio que interliga uma grande varie dade de cre:.
ças e comportamentos culturais e que fazem sentido quando isoladas . P re cis a.
mos examinar a língua a fim de descobrir as categorias que as pesso as utili.
zam em seu pensamento. E precisamos estudar seus símbolos e rituais , ,tal
como festas e cerimônias de nascimento, casamento e morte. Esses rituais
geralmente, revelam suas crenças mais profundas. Sempre enxerga mos me �
lhor os pressupostos básicos presentes em uma outra cultura do que os reco­
nhecemos na nossa. Aprendemos nossa cultura básica desde crianç as e s eus
pressupostos são tidos como certos. Outras culturas são estranhas para nós,
p o r isso, olhamos p ara os seus fundame ntos a fim de entendê-lo s.
Semelhantemente, os estrangeiros sempr_� vêem QS nossos pressuposto s mais
claramente que nós e precisamos ouvir o que eles têm a dizer sobre isso. Nossa
reação inicial geralmente é rejeitar suas observações, considerando-as exce s·
sivamente críticas. No entanto, depois de refletirmos, geralmente, consideramo·
las verdadeiras.
Também vemos nossa própria cultura com mais clareza ao retornarmo s de
um outro ambiente. Como vimos, entrar em outra cultura nos força a de s en·
volver uma certa medida de afastamento da nossa. Quando voltamos p ara
casa, nós a vemos com novos olhos.
Há várias maneiras que podemos utilizar para estudar uma cosmovis ão.
A mais fácil, que utilizaremos aqui, é olhar para tema�1 comuns pres ente s e m
uma cultura. Isso pode ser expresso de modos diferentes em diferentes áre as
da vida. Por exemplo, depois de estudar a cultura norte-americana podemo s
concluir que seu povo deseja conforto e bens materiais. Isso se observ a p e las
casas que constroem, os carros que têm e as mercadorias de suas loj as . I s so
também pode ser observado pelo fato de que avaliam o status uns do s outro s
pelos bens materiais que possuem ou mesmo porque acham dificil a a dap t aç ão
às condições de vida em outras partes do mundo.

Os N o rte-Americanos e as Outras Cosmovisões

Quais são então alguns temas da cosmovisão norte-americana e co mo s e


contrastam com os de outras partes do mundo? Para tornar o noss o e s tudo
possível, devemos simplificar nossa análise. Há muitas culturas na América
re ssupostos Cu ltura is dos Missionários No rte-americanos 1 13
os P

rt e, e os temas de sua cosmovisão diferem marcantemente. Na melhor


do :Noip óte ses, podemos sugerir alguns temas que caracterizam o principal se­
a
d hda cultura norte-americana, particularmente a vida da classe média, ten­
r eIIl m e nte
que em qualquer caso haverá sempre grandes exceções.
0
p araentendê-los mais claramente por meio de comparação, vamos nos
ferir de vez em quando aos temas encontrados em outras partes do mu ndo.
�bvi am ente tais comparações são generalizações grosseiras, mas podem- nos


' udar a co meçar a pensar sobre a nossa própria cosmovisão e suas diferenças
naosss os
outra s. Posteriormente, cada um de nós deve examinar em mais detalhes
próprios pressupostos individuais e o das pessoas entre as quais traba­
}haroos , se quisermos construir pontes de entendimento e respeito mútuo s.
um Mundo Real e Racional
Um pressuposto que a maioria do� norte-americanos possui é que vive­
mo s e m um mundo real, existente fora' de nós. Vemos esse mundo como racio­

tas
nal ordenado e funcionando segundo leis naturais que podem ser descober­
e
e entendidas pela razão humana. A matéria obedece às leis da física e da
quÍillica, e os animais :feagem às leis da biologia, psicologia e sociologia. A
importância das ci�ncias em nossa sociedade é uma evidência dessa convic­
ção.
Tendo em vista que o mundo é real, levamos a história muito a sério. Faze­
mo s uma clara distinção entre os eventos reais e o mito, os fatos e a ficção, a
re alidade e os sonhos ou as ilusões.
Essa percepção da realidade tem suas raízes na crença judeu-cristã de que
D e us criou um universo que existe fora, mas que depende dele . Ela se coloca
em forte contraste com a cosmovisão do sul e sudoeste da Ásia, onde o mundo
exterior é considerado uma ilusão, um sonho na mente divina. As pessoas
existem somente como projeções de quem sonha. Para descobrirem a realida­
de, devem olhar dentro de si mesmas por meio da meditação e constatar que
fazem parte de um espírito universal. É claro que em tal mundo as pessoas
apre n dem pouco sobre a verdade fundamental usando a ciência e o exame
siste m atizado do mundo externo.
É óbvio que o nosso apelo cristão à história, como prova do evangelho, faz
�uito po uco sentido para aqueles que vêem toda a história como uma mera
inve n ç ão da imaginação. Para eles, os relatos bíblicos são mitos, não fatos
re gis trados.
D u alismo carte siano. Como sabemos, uma mudança básica ocorre u
quan o evangelho foi traduzido na visão de mundo neoplatônica dos gre­
�os . Ododualismo bíblico, que diferencia Deus e a criação (o que inclui espíritos,,
�llle ns e natureza), foi substituído por um dualismo entre espírito e matéri.a
ª.ma e corpo. Esse dualismo grego dominou o pensamento ocidental desde o
s ect1lo XVII e gerou uma clara distinção entre ciência e religião.
1 14 As Diferenças Culturais e o Mi ss i o ná r ·
to

A princípio, considerava-se a ciência como estando a serviço da fé cristã . N


entanto, com o tempo, ganhou sua independência e passou a dominar o ce n ár,.°io
moderno. Hoje, muitos ocidentais utilizam a ciência para explicar o mun do n .
tural e limitam a religião aos milagres e visões, além de questões funda me nta�is
como a criação e o destino espiritual.
Esse dualismo levou os missionários ocidentais a fazer distinçã o e ntre 0 lll " ·

nistério espirituaf', tais como a evangelização e o trabalho pastoral, e o "eva �:


gelho saciar', que lida com os problemas materiais desse mundo. Cons eqüe nte .
mente, embora pregassem o evangelho, introduziram a ciência nas escolas e
nos hospitais. O resultado, com freqüência, foi a disseminação do secularis mo à
medida que as pessoas aceitavam a ciência que os missionários traziam, mas
rejeitavam seus ensinamentos religiosos.
A maioria das culturas não faz distinção clara entre o natural e o sobrena.
tural. Para eles, o sobrenatural permeia o natural. Portanto, não deve ser s�r­
presa para nós que os cristãos, nessas culturas, de alguma maneira entendam
a mensagem bíblica melhor que nós, não separando as dimensões espiritu ais e ·

humanas do evangelho.
Homen s versus natureza. Como norte-americanos, traçamos uma li­
nha divisória entre os homens e as outras formas de vida. Vemos os home ns
"
como um valor único.
Essa visão é parcialmente uma herança cristã. Surgiu da visão cristã de
que o homem possui alma eterna. Tal visão se coloca em forte contraste com as
de muitas culturas, em que os homens são vistos como um tipo de vida entre
outros tantos. A natureza em si é considerada viva. Os animais e até mesmo
os objetos inanimados possuem seus próprios espíritos e nenhuma linha divi­
sória separa os homens das plantas, montanhas, rochas e rios.
Tendo em vista que a maioria dos norte-americanos pensa sobre os ho­
mens como singulares, eles se vêem responsáveis pelo mundo natural. O s ho·
roens devem dominá-lo e fazer com que os sirva. Edward Stewart (1972:62)
comenta:
A terrível e às ve zes desp ercebida tendência dos norte-americanos de
controlar o mundo fisico p arece não combinar com um p ressuposto dominan ·
te em qualquer outra grande sociedade . Ela é expressa melhor através do
p rocedimento tomado pela engenharia diante do mundo tecnológico e pela
sua extensão às esferas sociais como a "e ngenharia social e humana" . . . . As
leis naturais consideradas implícitas ao mundo fisico p arecem ficar pro te gi·
das porque produzem bens materiais e ainda ficam a serviço do homem .

Essa visão levou os norte-americanos a estudar o mundo e desenvolver a


ciência e a tecnologia. Também gerou uma mentalidade combativa, na qu al os "
homens devem "controlar o calor", "combater as doenças" e "conquistar o esp aç o ·
os pressupostos Cu lturais dos Missionários Norte-americanos 1 15

0 re s ulta do foi uma exploração destrutiva da natureza, com pouca preocup a­


ça
- 0 c o m o meio amb iente.
Outras sociedades elaboram pressupostos alternativos sobre a relação entre
ome m e a natureza . Em grande parte do mundo oriental, o homem é consi­
�ehrado p arte da natureza, e o mundo fisico, por sua vez, oposto a ela. Por exem-
contraste com edifícios americanos construídos para dominar os espaços,
plo8 , emmas
a , for
e linhas dos edifícios. no Japão reforçam uma unidade entre ambiente
natural e estrutur as artesanais.
Os j ude us, no Antigo Testamento, consideravam-se jardineiros da nature­
za. Para eles, a natureza era basicamente boa e gentil, e a lei de Deus destina­
va-se a "dominá-la", não a agredi-la. Por sua vez, os homens deviam cuidar da
natureza. Os cristãos ocidentais devem sua visão de uma natureza hostil mais
aos gre gos do que à Bíblia.
As pes soas de outras culturas se vê!'!m não só como controladoras ou inte­
gra ao mundo natural, mas como dÓminadas por ele. Por exemplo, os mes­
das
tiço s colombianos consideram a natureza perigosa e viva pela presença de
espíritos.

Sol, lua e estr-elas, vento e chuva , calor e frio, luz e sombra - crê-se que
todos tenham poderes por vezes prejudiciais sobre o corpo e a mente . O ar
fresco próximo ao rio, ou o calor refletido pelas rochas ou trilhas, são conside­
rados perigosos, exatamente como a sombra de certas árvores ou a umidade da
floresta. Os perigos s ão encontrados em toda a natureza e tentar entendê-los
ou superá-los seria considerado tolice [Reichel-Dolmatoff 1 9 6 1 : 440] .

Portanto, a atitude das pessoas é de desamparo e descrença, restrita não só


ao ambiente fisico, mas também à vida social e política.

Materialismo e propriedade . Considerando o dualismo entre as realida­


des e sp irituais e materiais e a ênfase crescente, desde o século XVI, sobre o
mun do material e a ciência, não é de surpreender que os norte-americanos
tenham a tendência de julgar os homens pelo que eles próprios possuem. Eles
me dem a realização e o sucesso principalmente pela quantidade de bens mate­
riais que uma pessoa tem. Além do mais, têm a tendência de comparar a felici­
dade m ais pela riqueza material e bem-estar fisico adquiridos do que com con­
quistas intelectuais ou espirituais. Condon e Yousef (1975 : 1 14) escrevem: "Para
muitos americanos, a busca da felicidade significa a oportunidade de assegurar
a Prop rie dade e o conforto material".
Es s a ênfase sobre a aquisição de bens materiais na América do Norte pode
�er º? servada nos negócios. Normalmente dá-se prioridade primeiro ao lucro e
e po s ao dos trabalhadores. Há pouco lugar para os idosos, os inca­
P aze s1 e os bem-estar
menos ágeis. Em momentos de crise na empresa, os trabalha dores de
116 As Diferenças Culturais e o Mi s si o n . .
ar10
menor nível são dispensados muito antes que os salários dos administrador
alto escalão sejam cortados. es de
Fora de seu país, os norte-americanos tendem a julgar outras cu ltur as
desenvolvimento tecnológico. Stewart (1972 : 6 1) observa que "guia do s P orP e lo
expectativa das coisas materiais, os americanos no exterior quase que i ns ua
riavelmente julgam a sociedade local pelos seus padrões de bens m ateriva�.
d e fim' d os em gran d e parte por coniorto fisico
e
. e sau, d e,, . e orno mis. s io á is
n rios
comparamos nossa cu 1tura com as cu1turas em que servimos: . carro v ers u s ca .'.
ro de boi e bicicleta, e �etricidade versus lâmpad� a óleo, fogão ª gás e r efrig� .
.
radares versus fogareiros e frutas secas, banheiro ve rsus um improv isado n0
mato. E concluímos que somos mais civilizados.
Stewart ( 1 9 7 2 : 64) declara que os americanos consideram quase um dire i­
to estar materialmente bem e fisicamente confortáveis. Têm a exp ect ativ11• de
transporte rápido e conveniente, comida limpa e saudável e casa s con fortá.
veis equipadas com diversos eletrodomésticos, certamente com aquecim ento
central e água quente.
O direito à propriedade privada. Essa ênfase nas coisas materiais está
associada com uma profunda crença de que a propriedade pode ser privada.
Compramos terras, casas, carros e outros bens ii;nóveis e ninguém pode usá­
los sem a nossa permissão. Podemos vendê-los sem precisar da aprovação de
nossos parentes e vizinhos.
O conceito de propriedade privada coloca-se em contraste direto com mui·
tas tribos do mundo, onde a terra, os barcos, as casas e até mesmo a comida
pertencem a grupos maiores tais como a linhagem familiar, as associações ou
a tribo como um todo. Os indivíduos podem usar, mas nunca vender a propriedade .
Um exemplo disso é a recente decisão de uma tribo indígena america na de
não vender suas terras. Os mais velhos disseram que seus ancestrais não se
opunham, tampouco os vivos; mas as crianças ainda não nascidas se op unha m,
porque teriam muito que perder caso a terra fosse vendida.
Os missionários sempre entendem mal essa dependência na rela ção de
propriedade. Eles tentam comprar terras e depois tentam vender as cas as que
constroem. Em muitas tribos, elas sempre pertencem ao grupo. Ou então , º.5
missionários não permitem que as pessoas usem seus bens livremente ou re ti­
rem comida de sua despensa, e as pessoas os vêem como mesquinhos.
Progresso. De maneira geral, os norte-americanos acreditam no p rogre s ·
so. Buscam uma vida melhor e pensam nisso em termos muito materiais. Te n·
dem a acreditar que os problemas básicos do mundo são tecnológicos e p o de lll
ser resolvidos com mais pesquisa científica e dinheiro. "Progresso" sig n ifi;.
conforto fisico, boa saúde, um alto padrão de vida para todos, e evitar a d
culdade e o perigo. Os norte-americanos consideram que há fontes suficie ntes
no mundo para todas a pessoas terem esse padrão de vida .
ressupostos Cu lturais dos Missionários Norte-americanos 1 17
os P

Ge orge Foster ( 1 9 6 5) constatou que as pessoas de sociedades agrícolas


·e ditam que os recursos básicos - terra, riqueza, saúde, amigos, poder,
acltzts e se gurança - são limitados e pouco disponíveis. Não há o suficiente
sta·a to d os. Conseqüentemente, as pessoas devem competir por eles. O resu l ­
Pª�o é a des confiança e a certeza de que se alguém está passando à frente dos

��itros, es te � nece � sariamente devem estar perdendo. As pesso as de tais socie­


.
da de s nã o sa o estimuladas a trabalhar bastante para progredirem, e as que 0
f zem ge ralm ente são boicotadas pelo grupo. Por sua vez, são estimuladas a
; ante r se u lugar e se ajustar à sociedade como ela é, como já existe.
Abordagem A nalítica
Os norte-americanos adoram ana.lisar situações. Acreditam não só que o
rnun do seja real, mas que também é ordenado. Acreditamos que com um estu­
do cuida doso podemos entender por q;ue as coisas acontecem e remediar os
erros cometid os.
A maneira básica de analisar as coisas é por meio da ciência. Nós a utiliza­
mos para dividir o mundo em cate gorias nítidas e descobrir causas e
conseqüências. Usamos"esse conhecimento para controlar o mundo ao nosso
re dor. Quando surgem os problemas, acreditamos que eles podem ser resolvi­
dos se tivermos tempo e dinheiro suficientes.
Esse modo de resolver problemas estende-se à maioria das áreas da vida
errado
ocidental. Quando acontece um acidente, queremos saber o que aconteceu de
e quem é o culpado. Em casa, queremos saber quem deixou as luzes
acesas ou a porta aberta, a fim de podermos determinar o castigo. Se as orga­
nizações humanas enfrentam dificuldades ou não alcançam seus objetivos,
achamos que há um "problema" que podemos resolver. Tudo isso implica que
o mu ndo é ordenado, que os homens podem entender essa ordem e que têm o
poder de mudar as coisas.
As pesso as em muitas culturas vêem o mundo basicamente como incom­
pree nsível ou, se puder ser entendido, vêem-no como além do controle huma­
no . Teríamos isso por "fatalismo" porque parece que as pessoas não se esfor­
çam para mudar suas condições. Mas muitos crêem que é a maneira como as
coisas re almente são. Outros vêem o mundo como se ele tivesse muitas causas
e efe itos interligados. Conseqüentemente, o planejamento é dificil, e a culpa
não pode ser atribuída a nenhuma causa, pessoa ou ação.

d P e nsamento Alternativo. Na análise das situações, os americanos ten­


e� a cla ssificar a realidade em categorias opostas, às quais geralmente s ão
atribuído s valores morais. Arensberg e Niehoff ( 1 964:2 14) afirmam:

Uma característica especial do p e nsamento ocidental . é fazer j ulga­


..

o
Ill e n to s dupl
s baseados nos princípios . . . . Uma situação ou ação é atribuída
ª uma categoria considerada superior, que oferece portanto uma justificativa
1 18 As Diferenças Culturais e o Mis si o nã .. ·

� 10

p ara o e sforço positivo, ou a uma outra, considerada inferior, com justific ati­
va para rejeição, repúdio ou qualquer ação negativa. Julgamentos entre do is
opostos parecem ser uma regra no Ocidente e na vida norte-am erica na: m o­
ral-imoral, legal-ile gal, certo-errado, pecado-virtude, sucesso-fracasso
limp o-sujo, civilizado-primitivo, prátic o-c omplicado, introvertido-extra �
vertido, secular-religioso, cristão-pagão.

Por exemplo, muitos norte-americanos acreditam que os outros países de.


vem-se posicionar ao lado dos Estados Unidos ou da Rússia. Não há ab ertura
para países politicamente neutros que desejem seguir seus próprios caminhos e
serem amigos de ambos.
Os americanos também fazem distinção clara entre trab alho e diversão .
Trabalho é o que as pessoas fazem para viver e no trabalho devem obede cer 90
chefe e se manter ocupadas. A diversão, por sua vez, é o momento para relax·a­
mento e prazer, em que as pessoas podem fazer o que lhes agrada.
Nos Estados Unidos dá-se grande ênfase ao trabalho. Estar sem trab alho é
ser um pária da sociedade. Isso é o que um antropólogo indiano constatou quando
tentou estudar uma cidadezinha americana. Durante o tempo em que se se n ­
tou tentando conversar com os homens, ninguém falava com ele. Mas quando
conseguiu um trabalho de meio período com. um fazendeiro local, foi aceito por
todos.
O trabalho, porém, não é tudo que há na vida americana. Também há a
diversão, uma atividade que é nitidamente diferenciada do trabalho. Arensberg
e Niehoff (1964: 1 6 1 - 1 62) escrevem:

Para a maioria das pessoas criadas atualmente no ambiente americano


rural, comercial ou industrial, o trab alho é o que elas fazem regularmente,
com austeridade e objetividade (seja pelo dinheiro, sej a p ara produzir um bom
resultado, s ej a para fazer sucesso), gostando dele ou não. É uma necessidade.
Talvez até ainda mais importante : uma tarefa, uma "cois a boa e m si mesma,
desde que se mantenham ocupadas" . Um homem é julgado por seu trabalho.
Para os adultos, é algo sério, p orque se espera que um homem "progrida" ou
"dê uma contribuição" p ara a comunidade e p ara a humanidade.
A diversão é diferente . Éalegria, um apêndice do trabalho, sem obje tivo
sério, exceto p ara tornar o trabalho mais eficiente . É uma categoria menor . . .
[logo] quando é hora de trabalhar, a diversão e os objetivos menos importantes
devem ser colocados de lado.

O trabalho é coisa séria; a diversão é alegria. No trabalho somos máquinas ;


na diversão podemos ser muito pessoais.
Essa dicotomia entre trabalho e diversão é incompreensível para as s ocie da·
des em que o trabalho e a diversão são misturados no dia-a-dia. Nessas socieda·
des, construir uma casa nova ou fornecer peixe para uma escola pode ser motivo
os pressupostos Cu lturais dos Missionários No rte-americanos 1 19

a toda a comunidade trabalhar, dançar e cantar. E a plantação é uma ativi­


à:rde social �aracte�izada pela m�sica e ,pela recepç�o de visit�s . .
Outra dicotomia norte-americana e a separaçao entre publico e privado.
A.dministramos negócios,
os às
política e religião em p úblico. Em público, espera-se
normas da sociedade e nos comportemos o melhor pos­
que n os ad aptem
ve l. P or outro lado, nossa casa é nosso refúgio particular, onde podemos nos
:íxpre ssar como desejarmos. At� recentemente, só se permitia que homens com­
p etisse m no domínio público. As mulheres era destinado o domínio privado a
fim de que os homens tivessem um local para se refazerem depois de um dia
de trab alho.
Planej amento. Em um mundo ordenado racionalmente é possível pla­
n e o futuro - estabelecer objetivos e alcançá-los, ver os problemas e evitá­
jar
los. Portanto, é importante fazer planejamentos.
Também acreditamos que as pessoas têm o poder de escolha. Temos o con­
trole de nossa vida e podemos fazer qualquer coisa que realmente queiramos.
Escolhe-se a carreira com senso de responsabilidade. Aqueles que obtêm su­
cesso são aplaudidos e � queles que fracassam são censurados. Uma grande
p arte do tempo na v-ida dos americanos é gasta fazendo censuras.
D ada a nossa propensão ao planejamento, não deve ser surpresa para nós
que, em geral, fiquemos frustrados quando vamos para sociedades em que as
pessoas não fazem planejamentos. Mais frustrante ainda é o fato de que em
muitas culturas as pessoas não só deixam de planejar, como também acham
errado fazê-lo. Alguns antropólogos alegam que, além da tecnologia, os oci­
de ntais hoje estão exportando para o mundo altas técnicas de administração
baseadas no planejamento e na liderança organizacional.
Pragmatismo. Na vida, quando procuramos soluções para os problemas,
geralmente examinamos várias possibilidades. Ao escolhermos uma solução,
d entre as inúmeras, geralmente queremos saber qual delas é a melhor, não
qu al é verdadeira ou correta. Em outras palavras, somos pragmáticos. Rara­
mente paramos para perguntar se os objetivos que perseguimos são válido s.
Que re mos saber como ver as coisas realizadas e raramente examinamos os
meios que utilizamos para ver se são "bons". Pressupomos que devam ser as­
sim se derem resultados.
Na maior parte do mundo essa atitude é vista como ruim. As pessoas de
?Utros p aíses acham que ser uma boa pessoa e construir relacionamentos é mais
llllportante do que ter um trabalho concluído e que utilizar métodos maus para
alc ançar objetivos bons é errado. Conseqüentemente, elas nos julgam com b ase
no tip o de vida que vivemos e nos relacionamentos que travamos com o próxi­
tno. Podemos fazer um bom trabalho, mas se a nossa vida diária não refletir
nt ossa mensagem, as pessoas rejeitarão o que dissermos. Com respeito à implan­
a ção de igrejas na Nova Guiné, G. F. Vicedom (196 1: 16- 17) escreve:
120 As Diferenças Culturais e o Mis si on · ,
a.l't o

Deus se aproxima das p essoas atravé s de seus mensageiros. Deus é jul.


gado p elo comportamento dele s . Se os missionários forem bem-su cedidos e
entrar na vida dos papuas, se se adaptarem ao modo de vida deles , apre nd :
rem a língua e se tornarem sobretudo conselheiros, amigos e auxili ado res
gradualmente terão estabelecida a confiança. Esta confiança é primeira me n:
te transferida p ara Deus. Deus sempre é julgado à luz do que os missio nários
são.

Stewart (1972: 36) diz que "a orientação através dos meios ou op eracion .
lismo do americano, do ponto de vista dos não-ocidentais, geralme nte p arecea
sacrificar o fim para assegurar os meios".
Uma Cosmovisão Mecanicista
Como americanos temos a tendência de pensar na natureza como se ela
fosse uma máquina em que as ações das várias partes são determinadas por
forças externas. Essa visão mecanicista da realidade emergiu durante o sé cu­
lo XVI como parte das ciências fisicas (Burtt 1954) . Na verdade, a primeira
ciência foi a "mecânica". Posteriormente, os cientistas sociais, vendo o sucesso
das ciências naturais, adotaram os modelos mecanicistas de homens e de
sociedades.
Segundo Peter Berger (1974), esse modo mecanicista de ver as coisas sur­
giu para dominar nosso pensamento e se reflete nas duas marcas da socieda·
de americana: a fábrica e a burocracia. Na primeira, tratamos a natureza
como se ela fosse uma máquina e a moldamos para se ajustar aos nossos obj e·
tivos. Pensamos nela como um composto químico de átomos sem vida, contro·
lado por forças impessoais. Na última, organizamos as pessoas como se fossem
engrenagens de uma máquina. O tratamento burocrático tende a padronizar
os p apéis, tais como secretárias, mineiros, enfermeiros. Assim eles são
substituíveis como parafusos em um carro. Não queremos que as pesso as tra·
gam seus problemas pessoais para o trabalho porque assim teríamos de come ·
çar a tratá-las como seres humanos.
Em um mundo mecanicista, podemos controlar a natureza e os homens se
soubermos as fórmulas certas. Podemos ficar responsáveis em nossa s áreas
específicas e perseguir nossos objetivos sem ter de constantemente negociá-los
com os outros. No trabalho, as tarefas concluídas têm prioridade sob re o de ·
senvolvimento de relacionamentos.
Essa visão mecanicista se coloca em nítido contraste com a maioria das .

outras visões de mundo, que tratam a natureza e os homens como se re s vi·


ventes. Nesses mundos, a vida é cheia de negociações a partir das quais_ 0
indivíduo tem apenas um controle limitado. As relações precedem a fin alizaçao
das tarefas. Não é de admirar então que as pessoas dessas culturas vejaill os
americanos como impessoais e rudes. Quando elas vêm visitar os missionáriods ,
eles estão tão ocupados que têm pouco tempo para a sociabilidade. De acor 0
os Press up ostos Cul turais dos Missionário s Norte-americano s 121

ess oas locais, esses missionários têm suas prioridades erradas. Eles
coJJl a sapIIl de ixar o trabalho e usar o tempo fazendo visitas. Afinal de contas,
�; e ri
e ID. eles, as relações pessoais não são mais importantes do que um trab alho
p ronto?
Pr oduçã o e lucro. Eis os principais valores das fábricas e da burocra cia,
critério p elo qual o sucesso dessas instituições é medido. Portanto, trabalhar
0 "fa er" são importantes. Devemos nos manter ocupados. Ficar ocioso é pre­
: z
uiça - uro dos pecados capitais de nossa cultura. Na verdade, como Warner,
:Me e ke r e Eells (1960) dizem, medimos a posição de uma pessoa na sociedade
p rincipalroente pela ocupação e pela renda.
Na maior parte do mundo não-ocidental, ser e tornar-se têm prioridade
s ob fazer (Kluckhohn e Strodtbeck 196 1 : 15- 17) . A pessoa contemplativa é
re
reve rencia da. O intelectual, o místico o� o guru são altamente respeitados em
vez dos heróis culturais norte-americanos que realizam grandes feitos - o
atle ta, o cantor de rock e o executivo de uma companhia. Quando os america­
nos vão para o exterior, essa diferença cria uma grande confusão, particular­
me nte na área da lideraÍl.ça. Procuramos pessoas jovens e influentes, motiva­
das pela ação. No entanto, os orientais e sul-asiáticos ouvem a sabedoria dos
líde res mais velhos, que gastam o tempo pensando.
Quantificação. Outra característica básica de uma cosmovisão mecani­
cista é a mensurabilidade. Sem medidas quantificadas é dificil avaliar a produção
e o lucro. Stewart (1972:68) diz:

O sucesso e o fracasso são medidos estatisticamente, logo, são quantida­


de de trabalho, capacidade , inteligê ncia e desempenho. A quantificação do
mundo e a experiê ncia são profundamente inerentes aos americano s . Só com
muita dificuldade é que eles podem entender a reação dos outros a suas prá­
- ticas. Além dis s o , p ara alguns estrangeiro s , descrever o M o numento a
Washington em termos estatísticos desvitaliza a experiência de vê-lo.

Juntamente com a quantificação está a ênfase na escala - quanto mais e


maior, melhor. Atribui-se grandiosidade àqueles que podem acumular mais
dinheiro, ganhar a maioria dos jogos ou lutar as maiores batalhas. Essa ênfa-
8? na grandeza parece imponente naquelas culturas que enfatizam a simpli­
cidade e o equilíbrio e que medem a grandiosidade por qualidades que não
Pode m ser medidas.
M e nt alidade de linha de montagem. Um ingredien�e importante da
� ot rda ge m mecanicista da produção é a mentalidade de linha de monta gem.
b
tri�aerl são
Berger (197 4) observa que tanto o trabalho burocrático quanto o indus­
divididos em tarefas menores, que são organizadas seqüencialmente
122 As Diferenças Culturais e o Mis sio :n .i. ,
�rio

e são realizadas por pessoas diferentes. Fazendo isso, podemos pa droniza


ro
procedimento e obter os mesmos resultados sempre.
A divisão do trabalho em pequenas partes leva à especialização . Um a p
· e s.
so � � m uma f:,ab rica �o1oca ? s pneus �o aut amove 1 e outra, o para-cho que . D
' '

medico em um hospital cuida dos pes, outro, dos olhos ou do nariz e da gallJ.r.
ganta.
Essa fragmentação e especialização do trabalho é totalmente e stranha p a
as sociedades em que o artesanato desempenha o papel principal. N elas u :
trabalhador produz um objeto inteiro. Ele primeiro idealiza uma más cara ou
uma canoa. Depois trabalha para transformar sua idéia em realida de. O que
ele produz é uma parte de si mesmo. Ele é um artista.
Individualismo
Um dos temas mais fundamentais na cosmovisão dos Estados Unidos é
que o bloco básico da sociedade é o indivíduo. Todo homem deve ser uma
pessoa autônoma com sua identidade separada. Ele aprende isso desde a in­
fância. Nos primeiros anos de vida somos ensinados a pensar e fazer escolhas
por nós mesmos, considerando nossas qualidades pessoais e estimulando a
defesa de nossos direitos. Edward Stewart (1972: 32) escreve:
1
1

O e gocentrismo da criança raramente é questionado. Está implícito acei­


tar que cada criança ou cada pessoa deva ser e s timulada a decidir por si
mesma, desenvolver suas p róprias opiniões, resolver seus p róprios proble­
mas, ter suas próprias coisas e, em geral, aprender a ver o mundo de seu
p o nto de vista p róprio.

Mesmo em nossos grupos, espera-se que cada um mantenha sua indivi­


dualidade.
Intimamente relacionada ao individualismo está nossa crença de que cada
pessoa tem o seu valor e que todas têm direito inalienável à vida, à lib erdade
e à busca da felicidade. A liberdade é um valor inquestionável.
Em muitas tribos e no Oriente, o bloco básico da sociedade não é o indiví·
duo, mas o grupo. As pessoas não se vêem como autônomas, mas como me ro�
bros dos grupos aos quais pertencem. Os indivíduos não são altamente dife ·
rendados do nexo social. No Japão, por exemplo, as pessoas adquire m sua
identidade pelo grupo (cf. Nakamura 1964) . Pelo fato de estarem inse ridas e m
grupos diferentes, possuem "rostos" diferentes. Em tais situações, manter ª
"dignidade", o "respeito", a "honra" e relações harmoniosas é de grande imp or·
tância. As qualidades humanas mais valiosas são aquelas que ajuda m a pre ·
servar a fidelidade do grupo e a manter relações sociais apropriadas. Q ualida·
des necessárias para alcançar certos objetivos individuais são secun d árias .
Isso é, claro, muito confuso para um americano, que pode indicar um curs o
s s ulturais dos Missionários Norte-americano s
O pressupo tos C 1 23

. ático de ação a fim de completar uma tarefa e vê-la rejeitada


obJ eetinvteo ep aprra manter o prestígio de alguém.
sol'.ll
Bu sca d e i d enti a e . Uma coisa que as pessoas de fora sempre obser-
d d
l'.ll é que nós, nor
te-americanos, parecemos buscar uma identidade. Se so­
va e oas aut ônomas, essa identidade está vinculada principalme nte a que m
p ss
l'.lls :sos como indivíduos. Conseqüentemente, há uma grande necessid ade de
� z ar - de- ser
r ali - alguém. Em nossa sociedade, aqueles que não têm essa
ativação nao sao recompen sa dos.
l'.ll Ess a ênfa se em nossa realização pessoal está intimamente ligada à nossa
noç ão de comp etição de entre indivíduos, por bens materiais, posição ou poder ou
empresa livre. Em um mundo no qual se pensa que
para n osso conceito
s emp ica a perda de outra.obter,
re há mais bens para o ganho de uma pessoa necessariamente não
Conseqüe�temente, a competição nem semp re é
signif destrutiva para aqueles que perdem. Acreditamos que todos po­
vista como
dem g anhar se tiverem uma forte motivação de realizar e se esforçarem bas­
tante .
A busca da identida"d e pessoal é muito estranha nas sociedades em que o
ponto de referência. básico é o grupo, não o indivíduo. Uma pessoa nasce em
um grupo e por isso tem uma identidade dentro da sociedade. Por exemplo,
uma mulher sabe quem ela é porque pertence a uma família, linhagem e clã
que possuem certa posição na tribo. Ela sabe que todas as decisões importan­
tes com respeito a sua vida, tais como casamento, lugar de residência e traba­
lho, serão tomadas por seu grupo. Embora isso possa restringir sua liberdade
p essoal, ela é ensinada que sua realização e seu crescimento pessoal devem
sempre dar lugar aos melhores interesses de seu grupo. É claro que isso frus­
tra os americanos e eles podem tentar fazê-la defender-se.
Autoc onfiança. O cerne da identidade de um americano é a autocon­
fiança. Francis Hsu, um antropólo go chinês, diz (196 1 : 248) que os maiore s
te mores dos americanos são: ficar dependentes dos outros e sem dinheiro.
Quando o nosso carro se quebra ficamos constrangidos de solicitar ajuda dos
mi g?s: Quando precisamos de dinheiro, preferimos fazer um empréstimo
�anc ano a pedir a um irmão ou primo. Por outro lado, quando os outros nos
�e�de m aj uda, lev.amos a sério justame �te porque sabemos que o pedido não é
teitPoede modo leviano. Mas nos ressentimos quando as pessoas constantemen­
de m dinheiro emprestado, que cuidemos de uma criança ou que lhe de­
lll osAcaaron a. Esperamos que as pessoas cuidem de si mesmas .
. utoconfiança pertence a um grupo de valores norte-americanos: autono­
�a, auto-re alização e crescimento pessoal. No entanto, mesmo nos Estados Uni­
d8:8os, oobu�teram� �osessoas.
muito de nossa identidade e auto-realização dentro do contexto
Como podem?s org�nizar grupos qua �do damos tanta ,ê � fa-
aos ind1v1duos? A resposta esta parcialmente nas associações de voluntarios,
124 As D i fe renças Culturais e o Mis si o na· .
rio

que se reúnem com base em objetivos comuns ou interesses comp artilh ad


Nesses grupos, a adesão não advém de direitos de nascimento ou po de r rnºasª·
pela conformidade pessoal ao grupo. Portanto, não é de surpreen der qu � e n.
quanto a maioria dos americanos reforçam seus direitos como pesso as autÔ
mas, na prática escolham adap tar-se aos grupos dos quais faze m p arte. p �º·
cos de nós ousam ser diferentes. A excentricidade está reservada àque les q:·
têm um sentido claro de identidade e um lugar estabelecido na socied ade . e
A autoconfiança necessariamente não é um valor positivo na maior part
do mundo. No Oriente e na América Latina, onde há fortes liga çõe s com :
família e os grupos imediatos, ela caracteriza um solitário - algu ém qu e s ej a
anti-social.
No sul da Ásia, as relações ideais são as de dependência. Uma relação
como essa é a de patrão e emp regado. O patrão, como um pai, é totalm ent'a
responsável pelo bem-estar de seus empregados. Ele não só os abastece co�
gêneros alimentícios básicos e uma pequena renda, mas também dá-lhe s co ­
bertas quando as velhas estão esfarrapadas, mais arroz na ocasião de uma
festa, e pasto para seu rebanho, quando o suprimento acaba. Na verdade, o s
emp regados podem pedir ao patrão o que acham que ele pode oferecer, ma s
isso não é considerado mendicância - não mais do que os cristãos pens am
que estão mendigando quando pedem a ajl,lda de TI>eus.
Por sua vez, os empregados devem ser totalmente fiéis a seus patrõe s.
Devem trabalhar para ele onde quer que haja trabalho p ara ser realizado e
sem nenhum pagamento adicional. Devem votar nele e, se necessário, lutar
por ele. Por outro lado, passam a ter garantia de trabalho p orque não p odem
ser despedidos. Muitos herdam de seus pais o direito de servir a um determi­
nado patrão. Tanto o patrão como o empregado ganham no relacionamento.
O padrinho ganha poder e prestígio dentro da sociedade e o afilhado ganha
segurança.
Essa diferença de visão do que constitui um bom relacionament o gerou
muita confusão entre os norte-americanos e os sul-asiáticos. Os americanos
ficam · assustados quando se vêem totalmente responsáveis por aquele s que
trabalham para eles. Eles interpretam as reivindicações de seus trabalh ado-
' res como mendicância. Os sul-asiáticos, por sua vez, nos vêem como frios e
impess � quando não queremos construir relacionamentos profund os e du·
radouros que implicam um total comprometimento de um com o outro. O s
relacionamentos dos americanos são vistos como superficiais porque se limi·
tam meramente ao coleguismo.
Grupos contratuais. Numa sociedade que enfatiza o individualis mo e a
realização das coisas, as relações geralmente são pouco consistentes. Te mos a
tendência de participar de atividades de grupo como indivíduos sep arad os ,
unidos em uma atividade comum, em vez de um corpo só, no qual direitos e
interesses pessoais se subordinam aos do grupo. Stewart ( 1 9 7 2 : 56) esc reve :
1 25
Os p
ressupo s tos Cu lturais dos Missionários No rte-americanos

[Os a mericanos] não se comprometem sinceramente com um grup o ou


Eles perseguem seus p róprios objetivos p e ssoais en quanto
co m or ga nização.
p er am com os outros que , da m es m a for;na, perseguem seus obj e tivos.
co o
Ace ita m os obj etivos do grup o, m a s se suas expectativas não forem preenchi ­
das, ele s se sentem livres para sair e se associar a outro q ualquer.

E ss e co mpromisso com nossos próprios i nteresses pode ser obse rvado em


no ssa re lação com nossos parentes e a comunidade local . Quando surge um
trab a lho melhor, ficamos prontos para deixar nossos familiares e a migos em
favor do progresso e de melhores rendas. Os resultados são uma alta mobili­
da de e uma tendência de limitar as atividades em grupo a relacioname ntos
s uperficiais em associações de voluntários que podemos deixar quando bem
quisermos. Nós nos associamos porque elas atendem às nossas necessida des e
s omos livres para sair quando não np,s for mais conveniente. Como Francis
Hsu (1963) afirma, a forma básica de Órganização social na Amé rica do Norte
é 0 clube. Organizamos clubes para atender a quase todos os objetivos. Exis­
tem clubes de esporte, negócios, associação de moradores, grupos específicos
de amigos, grupos de interesse comum, sociedades profissionais e forças de
operações especiai� como a Sociedade Americana para o Câncer. Pensamos
até mesmo nas nossas igrejas como associações de voluntários em vez de gru­
pos com base em nosso parentesco e nascimento.
As relações são informais em muitas associações de voluntários, e as asso­
ciações em si geralmente duram pouco. Outros grupos tais como escolas, hos­
pitais e negócios se tornam instituições formais com papéis e propriedade cla­
ramente organizados e perduram com o passar do tempo . No entanto, mesmo
n estes, as relações geralmente são superficiais e confinadas a áreas específi­
cas da vida como trabalho, esporte e política, e os indivíduos têm o direito de
deixá-los, se desejarem.
A ênfase no voluntariado parece estranha nas sociedades em que as rela­
çõe s m ais fortes são herdadas e os laços mais fortes de alguém são com a famí­
lia e a comunidade local. Estas são as bases para os grupos perdurarem: que
aten dam às necessidades essenciais da pessoa e, em troca, exijam dela maior
fidelid ade. Uma pessoa não se associa com estranhos porque podem ser ini mi­
gos , embora geralmente lhes seja permitido entrar na comunidade depois que
t e nham sido adotados por um dos grupos de parentes. Por exemplo, os mis sio­
nários geralmente são considerados intrusos até se tornarem membros ele uma
trib o loc al.
_
N ec e ssidade de aprovação. Os americanos dão um alto valor à apr ova­
Çao P esso al e vêem isso como um sinal de sucesso nas relações sociais. Uma vez
q� e n o s preocupamos com a maneira que os outros se sentem em relaçã o a
nos , cap tamos uma aceitação ou uma rejeição em cada comentário ou ges to
que faze m. O cumprimento alegre, o sorriso pronto, o tapinha nas costas e
o
1 26 As D i fe renças Culturai s e Mi s sio .
lla.ti0
uma palavra de elogio, todos se tornam comportamentos que sin aliz a
malidade. Sem tais expressões de amizade e popularidade, ficamos co n�usnor.
inseguros de nós mesmos porque nos foi negado um dos requisitos p ar�s e
garantia pessoal por uma sociedade altamente individualista. O su ces s o o � a
é uma medida importante de realização. Stewart ( 1 9 7 2 : 5 8) ob serv a q� ��al
americanos tendem a julgar seu sucesso pessoal e social pela pop ul arida � 08
q�rn � e literalmente pelo número de pessoas que go � tam deles". Ser ap rov:�
s1gmfica. que somos merecedores de amor. Necessariamente não signifi 0
ca �ue,
em contrapartida, precisemos gostar dos outros nem que nossas relaçõ es orn
eles resultem em amizades.
Essa necessidade de aceitação é forte, especialmente quando vamos p ara
exterior. Os americanos esperam que as pessoas comuns em todo mu ndo gos�
tem deles e ficam profundamente feridos quando são rejeitados. Nós, p or nr,s.
sa vez, odiamos estar comprometidos com tarefas que não seja m "p op ulare s"
mesmo que saibamos que precisam ser realizadas. Nossa necessidade de ser
aprovados sempre frustra nossos colegas missionários europeus, que co nside ­
ram a aprovação popular uma medida muito pobre de sucesso, e qu e fazer
bem a tarefa é a própria recompensa.
A propriedade privada. Uma expresi:;ão particularmente importante do
individualismo americano é a propriedade privada. Desde a infância, as
crianças têm seus próprios brinquedos e quartos. São estimuladas a comparti·
lhar o que possuem, mas o fato de possuírem essas coisas não é questionado .
Posteriormente, a propriedade é estendida à maioria das coisas - terra, car·
ros, árvores, canetas e livros. Há exceções. Peixes e pássaros são propriedades
públicas até serem capturados. O ar e o oceano também podem ser utilizado s
por qualquer pessoa. A propriedade privada traz consigo o direito exclu sivo de
usar e dispor da propriedade. Um comprador se torna o proprietário absoluto
de uma casa ou de um carro e pode destruí-los, se desejar.
O conceito americano de posse não é o mesmo que o de muitas culturas e m
que a posse é da tribo ou do grupo de parentesco. Por exemplo, a terra dos índio s
americanos pertencia aos clãs e linhagens. Um jovem filho que pre cisasse de
terra pediria a seus anciãos e eles lhes dariam uma área que pude sse m anter
em quanto a cultivasse. Quando ele parasse, a terra retornaria para o grup o de
parentesco. Quando os estrangeiros chegaram, como os primeiros colonos, �es
foi permitido utilizar a terra que ainda não havia sido usada. Os índios conside·
raram que os presentes que os recém-chegados lhes deram em troca e rarn lemn·
branças normais de agradecimento pelo uso temporário da terra. Pos te riorrne s·
te, quando a tribo precisou da terra para a sua própria gente, pediram qu e o
estrangeiros saíssem. Segundo eles, a terra indígena nunca poderia se r aliena·
da de seus proprietários tribais porque pertencia não somente aos vivos IJl!l:
também aos ancestrais e aos que viriam a nascer. Por outro lado, os col0005
pensavam que haviam comprado a terra dando presentinhos e cha mav aIIl 0
. ssup os to s Cu lturais dos Missionários Norte-americanos 1 27
os Pi e .

. os de "ín
trv
dios tratantes"
. porque queriam de volta a terra que aparente-
na te hav ia m
Ill n
ven dido.
e
TJ ina n it a r i s mo . Uma express ã o da ênfase dos americanos no valor de
. 8 empre respon d em prontamente aos ape-
toosd��p.U' nadijuda
víduo é o humamtansmo.
.

e dão-na liberalmente aos outros em ocasiões de catástrofe s. O


lattXl'lio americano às vítimas 'd as
da fome e de terremotos ou às crianças órfã s de
e' bem conh eci'do.
e à ações d
ra e s n o com o sofrimentoestrm
gu � p reocup açã humano é uma das melhores hera nças de
�º�sae ssoacultura. Infelizmente, sempre também é altamente institucionalizada e
d
l. Em muitas partes do mundo, o humanitarismo significa hosp itali­
� e, 0 q ue é altamente pessoal. Isso significa levar a vítima até sua casa e
social. Como Mortimer :U-ias . (1982) apo�ta, essa era uma
inte grá- vida la à
das me s timulados a evangelizarpelaseusqual.ç>s
aneira s recomendadas israelitas do Antigo Testamento fo­
ramDevemos reconhecer que as pessoas de países mais pobres em geral não
viZinhos.
repartem com todos; elas nã o podem. No entanto, têm seus próprios padrões
de p ado,rtilhoa,coxoquee são selt!! tivos e pessoais. Por exemplo, no Oriente Médio, o
o c,ego vão para a mesquita ou para a porta da igreja, onde
aleija
receb em esmolas. A reaç ã o americana normal geralmente é condenatória:
"Quanta gente pobre! Esta comunidade deve ser muito cruel ou n ã o toma
conta dessas pessoas!" (Arensberg e Niehoff 1964: 183) .

Igualdade
O conceito americano de dignidade de cada indivíduo está intimamente
ligado a um outro de seus pressupostos fundamentais chamado "igualdade de
todos os seres humanos". As relações interpessoais são tipicamente horizon­
tais, conduzidas entre indivíduos autônomos considerados iguais.
P ara nós, igualdade significa oportunidade igual, não o nivelamento au­
tomático de todos a um padrão de vida social e econômico comuns. Rejeitamos
as formas socialistas de governo. Por outro lado, idealizamos uma democracia
e � que to dos têm a palavra na tomada de uma decisão, mas a maioria jamais
viola os dire itos da minoria.
Dizer que a igualdade é um pressuposto fundamental nos Estados Unidos
n�o significa que a sociedade sempre a coloque em prática. Nosso tratame nto
��g t��al e m relação aos negros e às mulheres é a evi�ência disso. Mas iss_o
d :ifica que quando os negros e as mulheres buscam igualdade de oportum­
i � e �, P o u cos americanos argumentam publicamente que esses grupos s ã o
n e riore s e que devem ficar contentes com posições inferiores.
lll. A ê n fa se na igualdade parece absurda para a maioria das culturas do
d
fo ll n o, nas quais a hierarquia é vista como realidade e norma para tod as as
a;.nia�a d e vida. Como homens, somo s superiores aos animais. Alguns tipos de
ltn is s ão superiores a outros. Logo, alguns tipos de homens são me lhores
128 A s Diferenças Culturais e o Mi s s i o . ,
a.r10
n

que outros. �or exempl? , n? sul da Ásia, �s pessoas nascidas em castas d'
rentes sao _ vistas como mtrmsecamente diferentes e não possuem os m s ife.
direitos nem responsabilidades dentro de uma sociedade. Aquele s que : lll.os
ram abaixo são impuros por causa dos pecados de vidas ante riore s. S �Sce .
meio do �ofrime �t_? e da aceitação de seu destino esses pe� ados serã o a;aPoa�
dos. Entao, eles irao renascer como pessoas de casta superior ou como deu g
Conseqüentemente, dizer que todas as pessoas são nascidas iguais é dizer sques .
os pecados não são punidos e que a justiça é destruída. e

Informalidade. Devido à ênfase na igualdade, os americ anos fica m in


modados com relações hierárquicas. Por conseguinte, mesmo de ntro dela ct�­.
mos a tendência de estabelecer uma atmosfera informal de igualda de. Por
exemplo, um chefe pode brincar com seus funcionários, ou um oficial COll)an.
dante pode pedir a um subordinado algo pessoal ou oferecer uma xícar:a de
café antes de iniciar uma conversa. No entanto, sob esse etos igu alitário , su­
perficial, geralmente reside uma hierarquia bem definida e não declarada,
baseada em classe, riqueza, educação e/ou autoridade.
Essa informalidade, às vezes, é uma qualidade quando os americanos es­
tão fora. Contudo, ela é muito mais mal-entendida, particularmente nas p ar­
tes do mundo onde certas formalidades são - enfatizadas. Arensberg e Niehoff
( 1 964: 1 80) dizem que;

E m alguns p aíses, onde a hierarquia é importante , negar a um certo


homem a deferência que lhe é devida é um insulto . A tendência americana de
tentar transformar um estrangeiro em um garoto normal ou comum por meio
de um procedimento informal, alegre e "brincalhão" , é perigosa . A informa·
lidade da genuína gentileza, cortesia e vida sem ostentação deve ser ma ntida.
Mas quando a informalidade significa depreciação ou diferenciação de uma
pessoa cuj a própria socie dade considera elevada, não é aconselhável. A "ama·
bilidade" e o humor americanos são produtos muito especiais de uma cultura
igualitária . É melhor que sejam mantidos em casa .

Até que estejamos completamente familiarizados com uma cul tura e �


maneira de pensar de sua gente, é melhor ser respeitoso e manter u ma me di·
da de reserva.
C o mp etição e l ivre e mpre s a . Os americanos dão um gra nd e v a lor à
competição; a questão de vencer é estimulada desde a infância. Na es co la ;s
crianças são ensinadas a competir por notas e a aprender que o louvo o � �
herói advém do sucesso nos esportes. Parker Palmer ( 1 9 7 7 : 9) diz que sist: .
ma escolar americano se tornou um terren9 de treinamento para a c oemtPoe �
tividade e a autoconfiança. E, "mais do que um terreno de treiname n , 5
educação em si se tornou uma arena competitiva onde os vence dor s e 0
os P
res. s up ostos Cu lturai s dos Missionários Norte-americanos 1 29

per dedore s são ,, determinados até mesmo antes que a competição marcada te -
b começ ado .
11 a. a de na vida, os americanos competem por status, poder, fama e
� is tar
· n a . H á p ouco lugar para os perdedores, os fracos, os fracassados, os me ­
fo tu
I á eis e os atrasados. A atitude que prevalece sempre é de que todos podem
no s g . .
n cer se pe rsistirem .o su fic1en
' te.
e
v i n t m a m ente ligada à competição está a idéia da livre empresa. T odos têm
i
d te r op ortunidade igual de realização, e a competição garante que o melhor
. e nhe . Nisso está a noção de "jogo limpo". Todos devem competir sob as mes -
ga . .
. ' que agem como deuses em mmiatura
!li a s re gras. Nos esportes, h a' 1 uizes e
n t e m que todos joguem corretamente. Na vida, há o governo do qual se
gara
e sp e r a jus tiça igual para todos.
Essa ênfa se na competição e na realização pessoal é estranha para muitas
sociedades tais como os índios hopi na 4Jnérica do Norte, os kikuiu do Quênia
e o s t h ai, que são ensinados desde a infância a não competir nem lutar com os
outros , es pecialmente aqueles de sua própria idade ou mais velhos. Por conse­
qüência, na escola eles se ajudam a terminar as tarefas e a não tentar ser o
prim e iro a completar as Tições. Nem discordam dos professores, que são mais
velhos. E nos esportes não gostam de fazer pontos porque não querem ganhar
dos outros no grupo. Esse tipo de atitude é quase incompreensível para muitos
americanos.
Direto e em confronto . Devido à nossa ênfase na conclusão de tarefas e
na informalidade, temo s a tendência de ser diretos mesmo que entremos em
confronto em nossas relações. Quando enfrentamos um problema, queremos
imediatamente ir à sua fonte. Como Stewart (1972: 52) explica: "Isso significa
enfrentar os fatos, colocar o problema em evidência, jogar as cartas na mesa e
obter informações direto da fonte. Também se espera que se enfrente as pes­
soas diretamente para confrontá-las intencionalmente". Há pouco tempo para
a educaç ão e a etiqueta ou para o desenvolvimento de relacionamentos.
b De forma contrária, a cultura japonesa indiretamente dá um alto valor às

doaades ma neiras e ao trabalho na realização dos objetivos de alguém. A habili­


nas relações sociais é apreciada. A agressividade ou o confronto aberto
envergonha os amigos e é ridicularizado pelos outros. Ao contrário dos ameri­
canos, que querem apresentar as questões e tomar decisões em reunião de
�egócios, os japoneses preferem tomar decisões em negociações pessoais, atrás
�s ê la dores. As reuniões são utilizadas para confirmar decisões já tomadas
b a st i
e aOu z - s conhecidas do público.
8 . tr o à idéia americana do confronto é encontrado em muitas
ºc cieda de s,contraste
como na Tailândia, onde se utiliza uma terceira pessoa para al­
dançar o consenso. U m negócio importante geralmente é conduzido por meio
e uin e missário e não por negociação direta tête à tête dos principais envolvi-
130 As Diferença s Culturais e o Mi s si o n . .
a.rio

dos. Isso inclui até mesmo decisões pessoais como escolher o cô nj uge ou co
prar uma casa. llJ..

Cooperação. Pode parecer contraditório, mas um pouco de re fle x ão :tno


tra que a competição entre os americanos ocorre dentro do conte xto da cooPes.
ração porque a competição requer uma quantidade considerável de coorde ­
ção entre os indivíduos e os grupos (Stewart 1972: 56) . Por exe mp lo, no fu�a­
bol os jogadores devem competir como times, mesmo que a honra no final seJ�­
dada a certos indivíduos. Portanto, não deve nos surpreender que os ame ric �·
nos sejam conhecidos pela sua habilidade de trabalhar juntos, mesmo quan�0
perseguem objetivos pessoais.
Essa capacidade de combinar competição e cooperação está no fato de qu
os americanos não se comprometem de todo com um grupo ou organiz1;1.çãoe,
mas cooperam até onde podem enxergar algum ganho pessoal em fazê-lo .
Eles aceitam os objetivos de um grupo e obedecem às suas regras, mas se suas
expectativas não forem preenchidas, sentem-se livres para sair e se unir a
outro grupo.
A facilidade de cooperar com aqueles que veementemente discordam dele s
é bem-vinda quando os americanos saem do país, porque lhes permite a gir
como catalisadores que atraem os outro�_ para tnabalharem juntos. Também é
mal-entendida. As pessoas de outras culturas geralmente nos consideram opor­
tunistas, que queremos desistir de nossos princípios para ver um trab alho
realizado.
Prioridade do Tempo sobre o Espaço
Os norte-americanos dão um alto valor ao tempo. Ele é escasso e deve ser
economizado porque pode ser gasto e perdido. Acima de tudo, tempo é dinhei·
ro, porque o trabalho e a renda estão ligados a ele. Os empregadores co mp ram
o tempo de seus trabalhadores. Eles determinam o trabalho, estabele cem oh·
jetivos e pagam o salário com base no tempo. As companhias aéreas estabele·
·cem horários rígidos, e os passageiros reclamam se precisam espe rar. As e sco·
las e os escritórios organizam suas atividades pelo relógio. O tempo é ums do.s
principais meios pelos quais são organizadas as atividades complexas da o ei·
edade americana.
A ênfase no tempo é um tanto estranha para as pessoas de cultur a s nã;­
industriais. Na maioria das sociedades rurais, o trabalho não está am arra . 0
ao tempo, mas à tarefa imediata a ser realizada, às emergências sazonais , �s
variações na temperatura e na chuva, e aos ciclos cerimoniais. Os ritu aais ,
teatros e cultos religiosos co meçam quando as pessoas se reúnem e co ntinu �
até que a atividade se encerre. Os amigos e parentes se visitam se m o lha rJ1l
relógio. Os americanos ficam em má situação em sociedades assim se ti�e;,e u
a expectativa de que as pessoas apareçam para as reuniões "no horário 0
apareçam regularmente.
os Pr
essup ostos Cu lt u rais dos Missionários Norte-americ anos
elll P º linear. Para os americanos, o tempo é linear. Tem um co meço E
T
fi
tll m
. Corre n razão constante sem se repetir e, portanto, pode ser me
uma
d ' do e p la ne1 a
u
. do.
1 Co m uma refe rência de tempo linear, duas questões são de vital imp ortân
. . c mo as coisas começaram e como terminarão? Tais indagações dese nvol
eia . o
ram ran de parte o pensamento oc1'd en t a1, tanto re 11g1oso
· · como secular
�o criste mianig smo, temos a teologia da criação e a escatologia, que trata m de
Illu ndo, e os ensinamentos sobre a salvação e o destino eterno, que lid am co n:
0 in divíd
uo.
o te mpo em muitas partes do mundo não é um artigo nem é linea r. N i;
!llaior parte da África, por exemp�o, ele é episódico e descontínuo. Não há urr.
"relógio" absoluto nem escala de tempo única. Em vez disso, há muitos tipos de
te mp o: mítico, histórico, ritual, agrícola, sazonal, solar, lunar e assim por diante.
Cada um destes tem duração e quaiµIade diferente. O cultivo da terra ocorre
no te mpo a grícola, mas nascimentos, casamentos, mortes e festas ocorrem nc
te mpo ritu alístico. De certo modo, os americanos utilizam o tempo dessa ma­
neira qua ndo falam de um calendário anual que começa em 1 1 de janeiro; um
ano contábil, que começa em 11 de julho; e um ano escolar, que começa no
outono. Mas na África, não há um sistema fundamental de tempo com o qual
todos os outros se relacionam. Todos eles se relacionam um com o outro de
maneiras complexas. Além do mais, em todo esse tempo, o foco está no aconte­
cimento em questão, não no tempo em si.
Em algumas tribos o tempo é quase que um pêndulo, vai para a frente e
p ara trás. As pessoas nessas culturas falam de voltar para trás no tempo ou. de
o tempo "parar".
No sul da Ásia o tempo é cíclico e linear. Logo, os homens nascem e renas­
cem em u ma série infindável de vidas, mas esses ciclos são parte da vida maior
de um deus, que tem um começo e um fim.

Ori en tação para o futuro. O tempo linear aponta para um futuro e,


ar
P a os americanos, é o futuro que é importante, não o passado. Isso nos leva
ªoPlsa nejá -lo como se pudéssemos ter controle, olhando para a frente, para os
b n mo mentos vindouros. Damos pouca ênfase aos nossos ancestrais e à
lllanute nção de nossa família e das tradições nacionais. Os costumes antigos
�ão r ap id amente rejeitados em favor de alguma coisa nova. Lemas como "Hoje
e .º P rimeiro dia do resto de sua vida" e "Planeje o futuro" são nossos planos de
Vin da . E ss a noção de tempo está intimamente ligada à nossa fé no progresso e
a a çã o.
No O cidente, o tempo é visto como um produto que pode ser manipulado e
oc ntrol ad J . C. Condon ( 1 9 7 6 : 3 45) escreve que "os americanos da cla sse
lll.é dia s ãoo.obcecados com a efemeridade do tempo. Conseqüentemente, procu­
l'ani controlar sua passagem com inumeráveis planos. Fazendo isso, tradu­
ieni sua ação-orientação numa direção rumo ao futuro". Temos agendas e p ia-
132 A s Diferenças Culturais e o M is s i o . .

ll ar1 0

nejamos nossos horários geralmente com semanas ou meses de antece .


Isso em geral é frustrante para as pessoas de outras culturas que p aradmê neia .
ver umas às outras, sem compromissos. Nossas fábricas,, companhias aé rePar a
. . .
esco 1as programam suas at1v1'd ad es em mmut os, uma pratica mcom
.

p re e nsarvel
.se
para as pessoas criadas em culturas em que as atividades começ am quand
todos estiverem prontos. o
O pensamento africano tradicional se concentra no passado, não no fut
ro. Como John Mbiti (1969: 15-28) diz, há três divisões de tempo: (1) 0 p ass a:·
mítico, um período longo, durante o qual os grandes aconte cime ntos tribaui.º
ocorreram; (2) o passa do recente, um per10' do re 1ativamente
. curto, dura
qual aqueles ancestrais que ainda são lembrados viveram; e (3) o pre snentet 0
que inclui o passado imediato e o futuro imediato. O importante são os gr ��
des acontecimentos que ocorreram no passado e não os acontecime ntos ,fi.J.aUe
podem ocorrer no futuro.
O pensamento chinês tradicional, por sua vez, dá maior ênfase ao presen­
te, que inclui tanto o passado imediato como o futuro imediato. Stewart
(1972:67) escreve:

Na verdade, o tempo não oferece aos chineses ,os mesmos meios racionais
de explicação e predição que o conceito americano e ocidental salienta na s
causas e nos efeitos materiais . Os chineses demonstram um enfoque muito
maior na situação e buscam uma explicação para um acontecimento especí­
fico em termos de outros fatores que ocorrem ao mesmo tempo que o aconte· ·

cimento em questão. Essa visão de tempo faz com que .o chinês se integre
com o ambiente em vez de dominá-lo, e o adapta a uma situação em vez de
mudá-la.

Ênfase na j uventude. Uma forte ênfase na juventude está intimame nte


relacionada à orientação para o futuro dos americanos. Isso pode ser ob serva·
do nos anúncios comerciais e no entretenimento - o velho raramente é repre ·
sentado. No trabalho, os jovens são freqüentemente lembrados como mais ati·
vos e produtivos e são mais promissores que os mais velhos, a desp eito da
experiência e senso de responsabilidade destes.
Há pouco interesse de envolver os idosos no curso principal da so�ie �ad�
Já que estão aposentados, considera-se que tenham pouco a contribuJI.
quando não podem mais cuidar de si, geralmente são colocados em asilos,
isolados de seus filhos e cuidados por outros que não são seus pare ntes . . .

No mundo inteiro, essa ênfase no jovem é a exceção, não a regra. Na rna1oria


das sociedades, os idosos são vistos positivamente como sábios e exp erie n�5•
São respeitados, sendo-lhes oferecidos os lugares de honra. São co nsulta �s
nas decisões familiares e comunitárias, e a aposentadoria da vida p úb lica n�º
existe. Na verdade, a aposentadoria como nós concebemos agora, é u rn fe no·
meno do século XX, observado principalmente no Ocidente.
ess upostos Culturais dos Missionários Norte-americanos 1 33
os Pr
0 te mpo s obre o e s paço. Um dos maiores mal-entendidos que os ameri -

s t ê m sob re as sociedades tradicionais agrícolas e tribais é com resp eito a


n
c� aso i d éi a s de terra e a sua relação com o tempo. Para nós, o tempo é mais
� rta n e que o espaço. A terra é um bem secular e pode' ser comprada e
u t
u:nPº d id a co mo qua 1quer outra c01sa.· ·
o tempo, por sua vez, e prec10so porque
ve n
'd
v1 o, se .
vai.
a ve .
z v1
uJil A p riori da de que os americanos dão ao tempo em detrimento do espaço é
b se rva d a na ênfase que damos à história. Colocamos datas em che ques e
0 lic açõe s fina nceiras. Acompanhamos as datas de nascimentos, anivers ários
ap
o ut ros eve ntos importantes em nossa vida. Entretanto, para nós é di:fi. cil
:nten d e r aque las pessoas que consideram a terra e o espaço como mais impor ­
t a nte s que o tempo.
Por outro lado, em muitas culturas a terra é sagrada e mais importante
que 0 te mpo. Ela une as pessoas a se�i;; ancestrais, aos heróis culturais e aos
deus e s de uma forma que o tempo nunca poderia fazê-lo. Embora percebam
que n o podem voltar ao passado e viver os dias em que os grandes homens
ã
z
reali aram grandes feitos, elas podem ir aos lugares onde esses grandes feitos
ocorreram. Por exemp'lo, aqui está a árvore plantada por nosso grande
antepassado. Há o monte onde nossos fundadores venceram o inimigo e esta ­
be leceram nossa tribo. Raja Rao (1967:vii) capta essa visão do espaço quando
escreve :

Não há nenhuma aldeia na Í ndia que não tenha uma sthalapurana ou


história legendária rica sobre ela. Algum deus ou herói semelhante passou
pela aldeia - Rama pode ter descansado sob esta figueira , S ita p ode ter
secado suas roup as sobre esta pedra amarela depois de tomar b a nho, ou
Mahatma em uma de suas muitas pere grinações pelo p aís p ode ter dormido
nesta cabana, aquela ba ixa, p erto do portão da aldeia. D e s s a m aneira, o
passado se mistura com o p resente, e os deuses se misturam com os home ns.

Provavelmente, os cristãos norte-americanos chegam mais perto desse


e
ent ndimento da realidade quando visitam a Palestina e vêem a terra que
reusadeu a Abraão, caminham nas ruas da cidade que Davi construiu e so-
e m o monte onde Jesus morreu. De alguma maneira, o espaço torna o pas­
�a�o re a l e significativo por unir o espaço de tempo que nos separa dos acon­
e�iine ntos bíblicos. Daniel Kelly (1982) acredita que a insensibilidade dos
�iss ionários com respeito à cosmovisão que índios americanos têm da terra e
e. s eus re lacionamentos e nossa ênfase no tempo e na realização de coisas,
:Jarna osimmaiores obstáculos em nosso ministério com os índios. Não entende­
q 08. p ortância do espaço e dos ancestrais na vida das pessoas entre as
\t ais minist ramos.
1 34 As Difere nças Culturai s e o M i ss i o .

na.rio
Ênfase na Visão
Outro tema fundamental na mundividência americana é a no ss a ê f
na visão e não no som, no tato, paladar ou no olfato. Isso se obs erva e in n ase
escolha por expressões como "cosmovisão", "Veja bem" e "Vamos olh ar pnos ar sa
sitúação". a a
Essa ênfase ocidental no mundo visual tem suas raízes na filosofia gre ga,
Walter Ong (1969:642) escreve:
As idéias de Platão impulsionaram o novo mundo, oposto ao velh o, c jos
u
ataques aos p oetas foram condenado s . O velho mundo [oral] trans form ou
muitas das atividades do homem e da sua luta como o foco ou o eix o de toda
a realidade . Onde o velho mundo era acolhedor é humano, as "idéias" e "for­
mas" de Platão . . . eram frias e abstratas. O velho mundo era móvel [e] chei� ,
de acontecimentos, [e sua] narrativa [oraJ] era um turbilhão de atividades
e mocionantes . Ao contrário disso, iis novas idéias de Platão eram se m movi-
' mento, não-históricas ; onde a velha· visão mantinha todo o conhecimento
num a mbiente humano ·coricreto, a nova traçava tudo p ara o abstrato, um

outro m u n d o , totalmente obje tivo, fixo, m o delado n u m a figura imóvel


visualizada em um campo imóvel.
. .

A coroação dessa visão foram a alfabetizaÇão e a palavra impressa.


No entanto, a maioria das pessoas do mundo continua a viver em socie da­
des de tradição oral, em que suas principais experiências são acontecime ntos
passageiros e as memórias desses acontecimentos. Uma vez que suas idéias
não se congelam na escrita, as lembranças são reinterpretadas com . o passar
do tempo. Há menos senso de uma realidade fixa, imutável e mais um senti­
mento de que o mundo é uma interação dinâmica entre as pessoas e outros
seres.
O pensamento e a expressão nas culturas de tradição oral geralmente são
altamente organizados, mas de maneiras não-familiares e geralmente não·
congêneres ao pensamento alfabetizado. Essa organização se bas eia em fór­
mulas, provérbios, adivinhações, mitos e outros conjuntos de expres sões. Em
geral, tratam de experiências humanas concretas e não de pensamento abs·
trato. Envolvem uma interação entre aquele que conta e o que ouve, em lu gar
de uma comunicação unidirecional.
Os missionários ocidentais precisam perceber quanto a alfabetização mo·
delou nossa mente, produzindo padrões de raciocínio que parecem perfeitesa·
mente naturais para nós, mas que são estranhos para aqueles das socie dad
não alfabetizadas.
Conhec i mento abstrato. A escrita divorcia a mensagem do men s a ge �·
ro. Lemos livros e testamos suas idéias nem tanto pela credibilidade do e scr�·
tor, que geralmente não conhecemos, mas pelo mérito de suas idéias em 51'
ess uposto s Cu ltrirais dos .Missionários Norte-americanos 1 35
os Pr

tendê ncia , portanto, é construir sistemas abstratos de idéias que não


N°5 � ªJll direta mente relacionados com as experiências da vida diária.
esteE:s Jlliss ion ários geralmente são culpados por esse divórcio entre siste mas
éias e a vid a diária. Em nossos s � rmões e livros, apresentam?� idéias
de itd atas e tentamos estabelecer precisamente as estruturas cognitivas de
abs �s ouvintes . Em nossas preleções, nos dedicamos mais a defender teolo­
g1ass corrseta
n?s s do que a aplicá-las aos problemas que os novos cristãos enfren-
uas v1' d as.
at rnDeernse nvolver sistemas abstratos de pensamento é uma tarefa importante
igisreja, particularmente para seus líderes. De certa forma, eles são respon­
n�v po r de finir o significado
s�I eural e por defendê-lo dos ataques do evangelho dentro de um determinado ambiente
intelectuais de outros sistemas de cren­
�a. tMas não devemos esquecer que as pessoas em culturas de tradição oral
pensa m em termos de ·histórias, exempJps concretos e problemas humanos es­
viveram.
pecíficos. Ela s falam do que Logo, quando Jesus utilizou parábolas
· paraçãfalao que
r às multidões, ele estava utilizando métodos de pensamento e comu­
elas entendiam prontamente. Ao lidar com as pessoas comuns
nica
nas sociedades de tradiÇ'âo oral também devemos enfatizar.a mensagem pes­
soa l e concreta do e'ltangelho.
. Por isso a comunicação pessoal é sempre ligada a uma pessoa. As pessoas
ouve m üm pregador. em um local determinado e julgam a mensagem pela
vid,a dele: Por essa razão, devemos ter cuidado para viver o que pregamos, ou
não seremos ouvidos. ·

Armazenamento da informação através da escrita. Os americanos


dão um grande valor à informaçã'o escrita e acreditam mais numa mensage. m
se ela estiver imp ressa. Uma vez que consideram a capacidade de ler e escre­
ver como a mais alta forma de comunicação, investem pesadamente em esco­
la s, livros, revistas e registros escritos. Ainda que inconscientemente, em ge­
ral eles vêem as pessoas iletradas como ignora.ntes e sem conhecimento.
Essa tendêni::ia à alfabetização é comum em missões, em que se dispensou
�m gra nde esforço com o objetivo de a lfabetizar as pessoas e produzir Bíb lias
�mpressa s, folhetos, cursos por correspondência e livros. Pouca atenção se dá
�s formas não-escritas tradicionais de comunicação, encontradas nas socieda-
e s de tradiç ão oral.
.. Grande parte do mundo depende da informação oral armazenada nas can­
Ç?tes , nos provérbios, nas adivinhações, nas histórias, no teatro, na da n ça,
ri uais e nos discursos - e podemos utilizá-los para armazenar e comunicar o
evangelho. As pessoas não têm de ser primeiro alfabetizadas antes de ouvir e
�notetanndteer sua mensagem. Embora a alfabetização desempenhe um papel im­l
c r no mundo moderno e se espalhará a muitas culturas de tradição ora
ºnte:rnp orâ não temos de esperar que isso aconteça antes de levarmos à s
p essoas as bneas, oas novas.
136 A s Diferença s Culturais e o M is s i o . .
n ar1 0

Em virtude de um sistema eficie nte de


Ê nfas e n o conh e cime nto .
ta para armazenar informação, não é de surpreender que os americanos ��Cri.
um alto valor ao conhecimento. Livros, enciclopédias, e agora os comp u e elll.
res, produzem grandes quantidades de informação disponíve l para as p e tado.
alfabetizadas. Na escola, a ênfase é dada na aquisição de conhecimento ;soa�
mesmo, e àqueles que 1o adquirem é atribuída uma alta posição. A P róoPr 1�1
c1encia seria imposs1ve sem a escri' t a.
• A • • • ,
ra
Todavia, com freqüência, este conhecimento fica divorciado da vida . 0
� �sores univers�tári?s. nem sempre vivem o me �hor de s u_as vidas. Na igre�
rofe
Ja, a fe geralmente e defm1da em termos de conhecimento, nao de discip ula
Para muitos de nós, o senhorio de Cristo geralmente significa dar consendt�:
menta mental e verbal a sua divindade no lugar de vivermos em obediência
aos seus mandamentos.
As culturas de tradição oral, por sua vez, premiam a sabedoria - a cap a.
cidade de lidar com as questões diárias para o bem da sociedade e dos indiví.
duos envolvidos, a habilidade de tornar o conhecimento relevante para a vida.
Por conseguinte, a sabedoria de um professor é testada pela sua vida.
Para nós, como missionários, é importante perceber que muitos lídere s lo­
cais com quem trabalhamos podem parecer "ignorantes" ou sem grande s co­
nhecimentos, mas na verdade são homens sábios�ara lidar com as situações
da igreja. Eles sempre sabem como lidar ef1cientemente com as pessoas e como
aplicar as Escrituras à vida diária.
S istemática. A escrita nos permite organizar grandes quantidad e s e
d
informação em sistemas coerentes de conhecimento de grande precisão , per­
mitindo-nos retroceder às idéias e trabalhá-las novamente. Também a limenta
o pensamento racional, divorciando idéias de sentimentos. Nenhuma página
impressa tem o impacto emocional que uma apresentação oral pode ter.
Como missionários ocidentais, trazemos conosco esse modo de sistematizar
e racionalizar nossas atividades. Nós nos empenhamos em planejar pro gra·
mas de desenvolvimento educacional lógico e de grande dimensão e estrutu·
ras institucionais bem definidas. Ficamos surpresos quando as pessoas s e atra·
sam ou não cumprem seus compromissos. Em nossas escolas, ensinamos siste·
mas de conhecimento e em no ssas igrejas ficamos preocupados co m as teolo·
gias abstratas.
Precisamos entender que nas sociedades de tradição oral a vid a é vividt �·
pelo que a realidade é, como uma série de acontecimentos ricos, embora caó i
cos, geralmente desvinculados um do outro. A vida é uma série de in te rruP·
ções. Um fazendeiro pode querer arar seu campo, mas deve.esperar pela cbu·
va. E quando ele começa, alguns parentes distantes podem chegar p ara u�ª
visita de alguns dias. Ao mesmo tempo uma criança fica doente e pre cisa t �
atenção ou uma quadrilha rouba parte do gado. Considerando as exp e cta l·
ress up ostos Culturais dos Missionários Norte-americanos 1 37
os P

c ulturais sobre ele, não é de surpreender que encontre pouco lugar para o
v35 e a m ento e para a pontualidade.
plll� sj siste mas de pensamento são necessários, particularme nte aos líderes
estabelecer os fundamentos de suas igrejas jovens e ajudá- las a
qu�ednetvearmo m undo moderno que sempre as assedia. Mas mesmo assim devem
en e m mente que a comunicação entre as pessoas comuns é mais eficaz quan-
ter . �

do o co rre po r meio d e experiencias concre t as d e v1'd a.


. .

Nossos Prec once itos M issionário s

Observamos rapidamente alguns dos principais temas da cosmovisão ame­


na. Obvia mente há muitos outros, e esses que consideramos precisam ser
ricamina
xa dos mais detalhadamente no que diz respeito ao seu conteúdo e à
me aneira que influenciam nossa vida cl�ária.
Nem todos os missionários ocidentais compartilham todos esses pressupos­
o
t s p orque são influenciados pela cultura particular na qual cresceram. Mas
ante s de rejeitá-los, precisamos examiná-los com cuidado, porque os pressu­
postos da cosmovisão sã<> altamente implícitos e a cosmovisão americana está
mais enraizada em possa mente do que podemos imaginar.
É importante perceber a quantidade e a extensão de nossos preconceitos
culturais quando trabalhamos em missões transculturais, porque assim pode­
mos fazê-lo reduzindo nossos etnocentrismos e mal-entendidos mútuos. No
entanto, isso não significa que devamos desistir dos nossos pressupostos bási­
cos. Devemos ter alguns pressupostos porque não há como organizar uma
cultura ou pensamento sem eles. Outra razão por que precisamos examinar
nossos pressupostos culturais cuidadosamente é que muitos deles favorecem o
p ensamento cristão. Na verdade, a cultura americana se moldou profunda­
me nte p elo cristianismo, mas ela não é intrinsecamente uma cultura cristã.
Devemos examiná-la criticamente à luz das Escrituras. Se não, provavelmen­
te, iremos confundi-la com o evangelho e apresentar aos outros um evangelho
marca do por uma cultura.
PARTE 3
•.·

As Diferenças Culturais e a
Mensagem
6
•,.

As Diferenças Culturais e a
Mensagem

As
Cad
DIFERENÇAS CULTURAIS AFETAM NAo só os MENSAGEIROS, MAS TAMBÉM A MENSAGEM .
a sociedade olha o mundo de maneira própria e codifica essa maneira em
sua lín gua e cultura. Nenhuma língua é imparcial, nenhuma cultura é teolo ­
gic amente neutra. Conseqüentemente, a tradução e a comunicação
tra nscultural não são tarefas fáceis. Se não entendermos isso, estamos, na
melhor das hipóteses, em perigo de ser mensageiros ineficazes e, na pior, ele
comunicar um evangelho mal-entendido e distorcido.
As dife renças culturais podem afetar uma mensagem de diversas manei­
ras . Primeira, a menos que os mensageiros utilizem formas de comunicaçã o
que as p essoas entendam, elas não receberão a mensagem. De nada adianta
falar suaile aos camponeses indianos ou adotar um ritual de dança, se as
P �ssoas reje itam ou não se sentem familiarizadas com aquela forma de comu­
nica çã o. S egunda, a mensagem em si deve ser traduzida a fim de que a s
ressoas a e ntendam com o mínimo de distorção. Isso não só implica transportá­
ª P ara o idioma local, que possua significados semelhantes ao do original,
Ina� tamb ém cuidar para que os significados daquelas palavras, no contex to
lll ais a mp lo daquela cultura, não introduzam distorções. Terceira, a mens a­
gelll deve ser contextualizada em formas culturais locais. Os templos, as fo r­
lllas de louvor e os estilos de liderança devem ser adaptados para se ajustarem
a.os P adrões culturais. Os ritos de nascimento, casamento, funeral e outros
142 A s Diferenças Culturais e a Men s
agelt\
rituais devem-se tornar nativos embora verdadeiramente cristãos. Final ent
as pessoas devem desenvolver uma teologia na qual as Escrituras lhes�al tn.e,
em seu ambiente histórico e cultural particular. e
Neste capítulo vamos tratar da primeira questão: Como pode mos trad .

evangelho para novas formas culturais e comunicá-lo com eficiência? ltziro


S ímbolos e Com u n i cação

A comunicação é a transmissão de informações . de um, "emiss or" para lllll


"receptor" . 1 sso
· po de ocorrer entre 1iomens, amma1s e ate mes mo máquhia
'

As abelhas se comunicam com relação à direção onde está o mel. Os home:·


acionam chaves para ligar carros e introduzir dados e operações nas calcula�
doras; os relógios disparam o sinal da escola; os semáforos regulam o tráfi1 go ·
cães avisam de ladrões; maestros regem orquestras; e os computadore s f�ze�
voar os avi ões . .E m todos esses casos, a informação é transmitida para gerar
mudança. Este é um dos principais objetivos de toda comunicação.
Neste momento, estamos preocupados não só com a comunicação num sen­
tido geral, mas com a comunicação interpessoal - entre Deus e os homens e ,

entre os homens e outros homens - porque ela é o cerne da tarefa missionária.


A comunicaç ã o interpessoal é diferente po_r que taiito o "emissor" como o "recep­
tor" s ã o seres inteli gentes e suas mensagens incluem não só afirmações sobre
realidades concretas, mas também expressões de pens a mentos e sentimentos
abstratos.
As idéias e emoções não podem ser comunicadas diretamente de uma mente
para outra. Elas devem primeiro ser expressas de maneira que os outros pos­
sam recebê-las através de seus sentidos (Figura 16). É nessa ligação dos signi­
ficados e sentimentos às formas que reside o cerne do que chamamos "símbolos".
A Natureza dos Símbolos
Os símbolos são coisas complexas. São a união dos significados co m as
formas na mente de certas pessoas, que os utilizam para alcançar obj etivos
FIGURA 1 6

As Idéias Devem ser Expressas e m Formas Concretas para Serem Re ce b ida s

Pessoa A Pes soa B


iferenças Cu l tura is e a Mensagem 1 43
MD

iculares em (2) situações específicas. Em outras palavras, os símbolos un em


f� significados, formas, (3) pessoas, (4) funções e (5) contextos (veja Figu-
r t
ra 17)· ex em p 1 o, em cer t as s1"tuaçoes,- d"izemo� � pa1avra arvore
' ·
s1gm· r·icando
por
ulll ceerto tip
o de planta. Em outro contexto, utilizamos a palavra para signifi-
A
.d s ce •

n d enci o
'
a gene alog1ca.
c ar As p e ss oas de outras culturas utilizam formas diferentes para exp ressar
s�· gnifi cados semelhantes. Os indianos dizem chetlu quando se referem às ár­
res (plantas) mas santhanamu quando falam de sua genealogia.
v A cult ura torna a comunicação possível. Os símbolos devem ser comp arti­

lha dos p or um grupo de pessoas para que ocorra a comunicação. As pess oas
de vem a sso ciar as mesmas formas e significados em contextos semelhantes e
com obj etivos semelhantes. Ao contrário, a comunicação cria grupos sociais
pa rticip antes nas mesmas culturas.
._.

Tipos d e símbolos. Os símbolos não são autônomos. Fazem parte de sis­


temas maiores dentro dos quais cada símbolo individualmente encontra seu
significado e utilização.-'Por exemplo, falamos uma linguagem constituída por
milhares de palavr�s, língua escrita composta de letras, códigos de cores como
os semáforos, formas designadas para sinais de tráfego e até mesmo aromas
que comunicam mensagens (Tabela 2) . Como já vimos, nossa utilização do
tempo e do espaço possui um significado, como freqüentemente o silêncio tam­
bém o possui.
Cada um desses sistemas de símbolos é utilizado para comunicar certos
tipos de informação. Por exemplo, normalmente utilizamos palavras para es­
tabelecer mensagens cognitivas, mas gestos e tons de voz para comunicar
sentimentos. Na verdade, em grande parte do tempo, particularmente na co­
in icação pessoal, utilizamos vários sistemas simultaneamente - língua fa­
laduna , paralinguagem, expressão ou linguagem corporal e símbolos temporais
e espaciais. Mehrabian (1979: 173) calcula que numa conversa média entre
duas p es soas na América do Norte, 38% do que se comunica é verbal. Mais de
60% é não -verbal!

FIGURA 1 7
Os Símbolos São u m Conju nto Complexo de Relações

Pessoa

C ontexto Função
As Difere nças Culturais e a M e n
s agelll
144

S ignificado dos símbolos. Por meio dos símbolos comu nica m o s id , .


sentimentos e valores. Eles adquirem estes significados de duas mane ir eia �.
ferentes. Primeira, muitos símbolos se referem a fatos da vida diá ria . E�s di.
referem a árvores, pássaros, pastagens, felicidade, inveja, roubo e milhears se
de outras experiências específicas que as pessoas vivem, reunindo- as e m cate s.
·
gonas. /! ·
M as ao se reienrem a a 1 gumas c01sas,

nao o f:azem pa ra outras · e
que relacionadas. Por exemplo, em português quando dizemos "ve r�:a �d�
-

pensamos numa certa cor. Mas também estamos dizendo que "não é P úrp 0
ra", "não é laranja" e assim por diante. Portanto, os símbolos ganham sign�:
cados em parte por sua relação com outros símbolos que perte nce m ao 1
mesmo domínio ou campo. Esses significados aos quais os símbolos se refersee �
determinando ser algo específico às vezes são denominados signific ado
denotativos. s
Segunda, os símbolos possuem significados conotativos. Estes são os que
damos aos símbolos que advêm de outros domínios do pensamento e do se nti­
mento. Por exemplo, quando dizemos "vermelho de raiva", "ser vermelho" ou
"estar no vermelho" a palavra não significa mais a cor vermelha mas adquiriu
outros significados no campo da emoção, da política e da economia.
Ao mesmo tempo em que é fácil aprender os significados denotativos dos
símbolos, em outras culturas geralmente -� difícil !descobrir seus significados
conotativos, em parte porque, com freqüência, não estamos cientes de que eles
existam e também porque devemos olhar nas muitas maneiras que os símbo­
los são utilizados a partir de diferentes contextos, para aprender esses signifi­
cados. É importante que aprendamos os dois conjuntos de significados para os
símbolos que utilizamos. Se não o fizermos, nossas mensagens, que podem
estar denotativamente corretas, serão mal-entendidas por causa de suas
conotações, como na anedota norte-americana que conta de um banqueiro
que, ao ouvir que "Jesus saves" [Jesus salva], disse: "That's nothing. 1 do too".
[Isso não é nada; eu também faço isso].*
Até agora examinamos os significados explícitos dos símbolos. Mas o s sím·
bolos se referem não somente à consciência do mundo dos pensamentos e dos
sentimentos humanos. Eles também re fletem o� pressupostos implícitos qu�
as pessoas têm sobre a realidade; em outras palavras, sua cosmovis ão . Isso .e
particularmente verdadeiro nas palavras, porque a língua é o siste m a mais
poderoso de símbolos. Esses significados ocultos geralmente criam os ma iore �
problemas na comunicação transcultural porque nós e as pessoas e m ge:a
não temos consciência deles. Elas os têm por certo porque para elas ess a e ª
maneira de ser do mundo e nós achamos difícil descobri-los se elas não podeJll
verbalizá-los. Geralmente os aprendemos apenas observando como as pe s soas

* O vel'bo to sa ve (salvar) significa também "economizar". (N. do T.)


.M l e 1 45
D iferenças Cu turais a Mensagem
TABELA 2
Há M u itos Sistemas Diferentes de Símbolos

1 L ín gua Falada Fala, radiodifusão

2 p a ra li ng ua gem Ritmo, altu ra, ressonância, articulação, inflexão, andamento


e pausas da fala, tons emocionais

3 L ín gua Escrita Escrita, inscrições, cartazes

4 p i ct óri co Sinais de trânsito, guias de ruas, desenhos de magia, ma­


pas astrais, diagramas, g ráficos, insígnias militares, decal­
ques, logotipos

5 Expressão Corpo ral Gestos corporais, movimentos de mãos e pés, expressões


faciais, olhares, postu ras
I'

6 Áudio M úsica ( rock,.jazz, valsa, etc.), sinos, gongos, tambores,


traques, salvas de tiro, trombetas

7 Espaci al Distância entre uma pessoa e outra, multidão, proximidade


ou intimidade, separação entre o orador e a platéia, marcha
" em fila (algumas vezes chamada de proxêmica)
a Temporal Significado de "no horário" e "atrasado". importância dada
ao tempo, às festas d e Ano N ovo, à idade relativa dos
comunicadores, seqüência de acontecimentos em rituais.
9 Toque Abraços, cumprimentos de mão, condução de u m cego, to­
car o pé de alguém, colocar as mãos sobre a cabeça de
alguém, tortura física, flagelação religiosa

10 Paladar Bolos e doces para comemorações, alimentos requintados,


alimentos étnicos e culturais, cachimbos da paz, alimentos
"quentes" e "frios" no sul da Asia, vegetarianismo, alimentos
sagrados
11 Arom as Perfume, incenso, defumação dos xamãs, odores corporais,
perfume das flores
12 Aspectos Ecológicos Montanhas sagradas, árvores sagradas, territórios proibidos,
rios sagrados, locais históricos
13 S il ên cio Pausa em orações, página em branco, silêncio no tribunal
ou no templo, espaço vazio na arte japonesa, ausência de
resposta
14 R it u ais (Os rituais utilizam muitos dos sistemas acima, mas acres­
centam outra di mensão de s ímbolos, chamados de repre­
sentação ou performance simbólica.) Casamentos, funerais,
rituais de sacrifício, cultos , Ceia do Senhor
1 5 p ro du
tos do Homem Arquitetura, móveis, decoração, vestuário, cosméticos, s ím­
bolos de riqueza êomo relógios, carros, casas e chapéus.
A da tad
p o em parte d e uma lista sugerida p o r Dona/d Smith, Daystar Communica tions, Nairobi.
146 A s Difere nças Culturais e a Me n s
agetti.
utilizam esses símbolos no relacionamento mútuo em muito s contextos .
rentes (Tabela 3) . d1fe .
Os s � gnificados implí it
� ? �s o � em ser observados me �hor por me
.
ilustraçao. Quando os m1ss10narios foram para o sul da I ndia, e stavioa de u�a
sos para saber que palavra deveriam utilizar para "Deus". Havia vár:U curio.
vras em telugu que poderiam utilizar: parameshwara (Governante d e� �ala.
bhagavanthudu (Aquele que Merece Louvor), ishvarudu (0 Xiv a S up r 0 os),
devudu (Deus). As três primeiras tinham problemas porque, co m freq;:io� e
eram associadas a deuses específicos do panteão hindu. Por isso, os tradutncriesa,
optaram por a datar a u' ltima" pa 1avra. o
No entanto, uma análise dos significados implícitos dessas palavr as º
mostra alguns problemas na utilização de qualquer uma delas para a r �
ção do conceito bíblico de Deus. Se pedirmos aos falantes de inglês p arat Oal'P'�.�
nizarem uma lista de categorias relacionadas à natureza, eles tende m a f�; .
lo de certas maneiras (veja Figura 18) . A maioria deles coloca m ulher, ho memê
e moça juntos e os chama de "seres humanos". Colocam árvore e ar b us to jun.
tos e os denominam "plantas". Colocam leão, cão e boi juntos e se referem a
eles como "animais". Classificam areia e rocha como "objetos inanim ados" e
colocam Deus, anjos e demônios juntos e os designam "seres sobrenaturais".
Já que muitos não têm certeza do que fazer com:, bactéria, vírus, mosca per· e

cevejo, sempre criam outras categorias parà eles. Recusam-se a colocar o Mickey
Mouse em qualquer um desses grupos alegando que ele pertence a um outro
domínio de categorias, chamado de "personagens de ficção" em contraposição
às "coisas reais".
Há pressupostos teológicos e filosóficos fundamentais implícitos nessa clas­
sificação. Primeiro, . há uma distinção clara entre os seres sobrenaturais e os
naturais. A maioria dos ocidentais pensa nos primeiros em termos religiosos e
mentalmente os coloca em algum outro mundo, seja ele o céu ou o inferno .
Quanto ao restante eles pensam em termos científicos e os coloca m n a te rra.
TABELA 3
As Palavras Têm Significados Implícitos e Explícitos

Significados Den otati vos Significado s Con otati vos

Idéias, sent ime nt os e v�lo���


a
consciente men te a ss o ci
Significados Explícitos Os s i g n ificados das pala­
v ras, q u e as pessoas nos
en 1.1 ·
dão às palavras
C ren ças p rof u n d a s , s in·
Significados Implícitos Est rutu ra básica das pala­
vras como sistemas de cate­ �
m e ntas e j u l g a me nt o c ia ·
gorias consc i e n tem e nt e a s s
dos às palav ra s ______.
·te re nças Cu lturais e a Me nsagem 1 47
;.s 'f}t1 •

S
seres vivos são divididos em categorias distintas, os quais se
gundore, osm diferentes
� r te
si e:rn
a ti�os de vida : P?r exemplo, podemos c?m�r a nimais,
. rente
coll
ho ens não, porque a vida desses ultimas de alguma maneira e dife
Jll!l� rimeiros. Da mesma maneira, adoramos a Deus, mas adorar a . um
d !! º:rns pé sacrilégio porque a adoração está sendo dada a seres que não são
Jlle
bo s Finalmente, uma clara distinção se faz entre coisas "vivas" e "não-vi-
deuse · A • • A • •

, e ntre o organico e o inorganico, ou o animado e o mamma .


· d o.
v!IS Se solicitássemos aos falantes de telugu que organizassem as mesmas pala-
vr11s ou seus equivalentes conotativos em telugu, eles o fariam de maneira dife ­
. nte (veja Figura 19).
re O s p ressupostos fundamentais que permeiam essa classificação obvia mente
-0 iferentes dos do falante em inglês. Primeiro, não há uma distinÇão exata
s�trde os tip os de vida. Na verdade, toda vida é considerada mesma. Essa é a
a

�rença fundamental dorealhinduísmo (ekq,) i vám) . Conseqüentemente, uma vez


que não há diferença entre deuses e homens, pode-se adorar a um santo
ou um gur u. Por outro lado, uma vez que não há distinção real entre a vida de
um animal e a de um ser humano, matar um boi, ou mesmo um cachorro ou
um inseto, para alguns é'assassinato!
Segun do, todos o� seres viventes, incluindo os deuses, são parte do mundo
"criado" . A palavra criação na verdade é mal-entendida, porque esse universo e
seus deuses, espíritos, homens, animais e plantas são todos sonhos da mente do
grande deus Brahma, que em si mesmo é uma emanação de Brahman. Logo,
eles são maya, ou passageiros e ilusórios. No entanto, Brahman não é um ser
vivente , mas uma força impessoal fundamental. Finalmente, a própria terra
não é totalmente inanimada. Há um sentido no qual ela também é viva e, por­
tanto , deve ser respeitada.
Diferenças Culturais nos Sistemas de Símbolos
Culturas diferentes possuem símbolos diferentes. Sabemos que as línguas
s ão dife rente s, mas não podemos perceber que também são símbolos os movi­
me nto s, os tons de voz, os sabores e até mesmo o uso do silêncio Samarin
.
(Smalle y 1978:673-677) diz que os índios algonquinos dos Estados Unidos em
ieral não falavam por cinco minutos, mesmo quando em reuniões da tribo.
nquanto isso, os gbeya, da República Centro-Áfricana só iniciam uma con­
�ersaa dep ois da refeição, e não durante. E ao visitarem um doente, assumem
d� e xp ress ão triste e se sentam em silêncio para mostrarem sua solidarieda­
p com o p aciente. Samarin acresce n ta: " Uma quantidade mínima de bate -
-

P ode ocorrer entre as visitas, mas isso não envolve o paciente . Para um
0q::.�oe ntal, esse tipo de consolo pode ser extremamente inquietante, uma vez
e;s co ns oladores fitam o vazio".
em a mbém há variações culturais nos sistemas de símbolos que as pessoas
co�re�am p ara tipos diferentes de comunicação. Por exemplo, os protesta ntes
ttnica m as mensagens religiosas principalmente por música e pre gação.
148 As Diferenças Culturais e a M ens a
ge llJ.

FIGURA 1 8
Categorias d e Seres Vivos e de Seres Inanimados entre os Falan tes d e Inglês

1. Organize os termos a segui r em algumas categorias básicas


á rvore cão mulher mosca le ão
homem a reia Deus vírus demô nios
arbusto moça roc ha boi flor
percevejo anjos bactéria formiga M ic k ey M ouse

2. Categorias normalmente utilizadas pelos falantes de ing lês para classifi C<fr
estas palavras

Seres Sobrenaturais
Deus, anjos, demônios
Sobrenatural

Natural
Seres Humanos
mulher, homem, moça

Animais
leão, cão, boi

Plantas
árvore, arbusto, flor

Insetos
mosca, percevejo, formiga

Germes
bactéria, vírus

Objetos Inanimados
areia, rocha

Observação: O Mickey Mouse não se ajusta a este domínio de classificação. Ele pertence ao

domínio da "ficção".

Muitas culturas tribais o fazem através de dança, percussão, teatro, trovaes e


principalmente por rituais em que as mensagens são interpretadas. Por ex olll:
plo, o método da pregação pode ter pouco significado religioso. Entretant , e
importante para O missionário que utilize sistemas culturais de símbolos apl'O'
priados para a comunicação do evangelho.
,4.S D ife renças Cu l turais e a Mensagem 1 4Ç

rra d uçã o
Se os símbolos, particularmente as palavras, tivessem apenas significados
eJCplícitos, de � ot � tiv? s, .ª tradução de uma � ensagem de uma cultur � para
outra nã o s eria tao d1fíc11. Por exemplo, podenamos apontar para uma arvore

conc eito Americano de Vida

Deus
eterno
sõbrenatural
infinito
Criado r

Criação
Homem
Natural, mas com alma
eterna.
A ·�--91' B
As re l a ções e n tre o s
homens são essencial­
mente horizon tais.

Animais
temporais

Plantas

Mundo Inan imado


sem vida

De Pau/ G. Hiebert, ''Missions and the Understanding of Culture", em The church in mission, org.
A. J. Klassen (Fresno: Board of Christian Literature, Mennonite Brethren Church, 1967), p. 254.

e P ergu ntar às pessoas como elas a chamam. Então, usaríamos aquele termo
P ara nos referir às árvores. É claro que precisaríamos reorganizar as palavras
P �ra aj ustá-las às regras gramaticais. Mas as palavras também possuem si g­
�ificadc:is conotativos, muitos dos quais são implícitos. Isso é o que torna a
ra dllcão ti'i n � i f1f' ; 1
150 A s Diferenças Culturais e a Men s
a.getl\
FIGURA 1 9

Categorias de Seres Vivos e de Seres Inanimados na Líng ua Tel u gu


B ra h m a n ( a principal força cósmica)

Maya (mundo deuses ( devas, parameshwara, etc.)


passageiro
anjos
de ilusões) - - - - - - - - - - - - -

demônios ( rakshasas, apsaras, etc.)


seres
humanos (casta superior, depois intermediária
e inferior)
animai; (vac-;; , depois leõe-;,-cães�cT - -
planta� _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _

objetos inanimados

Forma e Significado
Agora precisamos retornar à distinção que :fiz!;)mos anteriormente entre for­
ma e significado nos símbolos e na cultura. Iniciàlmente, temos a tendência de
comparar os dois. Não paramos para distinguir entre os sons para "árvore" e os
significados que associamos a esses sons. Isso porque crescemos em uma única
cultura e precisa ser feita uma separação em nossas conversas com os outros
dentro dessa cultura. Além do mais, não precisamos fazer diferença entre os
significados conotativos e denotativos das palavras, novamente porque isso não
é necessário nas discussões com as pessoas de nossa própria cultura.
No entanto, quando traduzimos uma mensagem para uma nova cultura ,
somos forçados a lidar com a relação entre forma e significado, e entre s ignifi·
cados conotativos e denotativos. No falar, logo percebemos que as outras p e s·
soas chamam as árvores de chetlu ou baum, ou alguma outra coisa p ara d�·
notar as mesmas coisas, e se quisermos nos comunicar com elas, de vemos uti·
lizar suas palavras. Geralmente, também desprezamos o fato de que o me s rno
é verdadeiro em outras áreas da comunicação tais como os gestos, a arqu iteta·
ra, as formas de adoração e o vestuário. Por exemplo, em algumas c u lturas. as
pessoas mostram reverência tirando o chapéu, em outras, tirando o s s apatos.
Da mesma forma, precisamos de canções escritas em melodias e ritmos t ípicos
à cultura para que as pessoas possam entendê-las. Ainda que traduz am o s a s
palavras na língua local, se a música permanecer estrangeira, a me ns a ge JJl
trazida por ela revelará uma religião para estranhos. . d 5
Enfrentamos uma questão mais difícil com respeito aos si g n i fic a 0 5
.

conotativos. Qual é a sua importância para a tradução? Muitos dos p rim e ll�:
missionários enfatizavam os significados denotativos em sua comunic aÇllll: s
Em conseqüência, suas traduções eram "literais" ou formais. Qua ndo p e n
J) ·çe re nças
}.S
Culturais e a Mensagem
i1 •
15l

O Conceito Indiano de Vida

Realidade
srah111�ª:.:.:":...-
.- ------------------��""'."""'"- -

:;.;---- I l usão
espírito
puro
deuses elevados
deuses menores
-- ----
-
demônios �esp írito !._
semideuses As relações
san tos eencãm açõ es são
--- --- essencial·
sacerdotes -

men te
governantes
-- ---- verticais
comerciantes
-

Misto -
castas de ãrtesã õS
castas de trabalhadores
-
cas tas de serviçais
--
castas excluídas
-
animaise levado s
-
animaisinteri ÕÍes
-- ----
plantas -

-- ----
Matéria -
mundo inani mado
Pura

De Paul G. Hiebert, "Missions and lhe understanding of cultura '', p. 255.

va m em "pastor" escolhiam um termo local que se relacionava às pessoas que


cuid avam de ovelhas. Ou quando traduziam "porta" utilizavam o termo local
co m o sig nificado denotativo mais próximo. Quase nunca percebiam que os
significados conotativos dessas palavras eram bem diferentes na nova língua.
Em telugu, por exemplo, "pastores" cuidam de ovelhas (significado denotativo) ,
lllas s ão vistos como bêbados debochados (significado conotativo). Por conse­
guinte, a mensagem que as pessoas ouviam geralmente era bem diferente da
llle ns age m que os missionários pensavam que estavam comunicando.
. Nas afirmações de fatos, os significados denotativos geralmente são os mais
��Portantes. Dizemos, por exemplo: "Maria foi para a cidade". A traduçã o
188 e m outra língua geralmente é direta. Mas em grande parte de nossa
c? lll0unic ação, particularmente aquela que tem que ver com analogias, ale go­
�ias , metáforas, o humor, os idiomas e o gosto, os significados conotativos são
�guais, se não até mesmo de maior importância. E, uma vez que essas várias
�rlllas de sempenham um papel importante no pensamento religioso, não pode­
r �s ig n o rá-las. Por exemplo, em certas partes da América Latina os "pais" ge-
a llle nte são vistos como omissos, distantes e autoritários (Nida 1978: 46-54) .
1 52 As Diferenças Culturais e a M e ns a
• ge lll

As "mães" por sua vez são comprometidas, amáveis e benevole nte s. Ei:n t .
situações, é fácil perceber os mal-entendidos que surgem quan do fa la mos ª1d 8
Deus com nosso Pai, porque quando dizemos isso, não estamos pe ns a nd e
Deus como o nosso genitor biológico, mas como no papel de "pai", um a p alºa e lll
. _ . . , vra
que tem mais conotaçoes positivas para nos.
Para mi� imi� a : o � mal-entendidos, oAs trad �tores recen:es têm enfatiza do
.
mterpretaçoes dmamicas na qual se da, enfase a preservaçao dos si gnificad º
conotativos. Em alguns casos, isso pode significar mudar o símb olo ou a p a l �
vra. A Bíblia fala do coletor de impostos "batendo no peito" como um sin al : .
arrependim� nto. Como Nida (198 1:2) diz, isso pode parecer estra nho p ara a:
pessoas da Africa Ocidental, em cuja língua a expressão "bater no peito" só
pode significar ter orgulho nas realizações de alguém. Quando se fala de arre ­
pendimento, eles diriam: "Ele bate sua cabeça" .
Até agora estivemos falando de tradução em geral. Na pregação, no ensi­
no, na composição e tradução de livros cristãos fazemos um grande esforço na
flexibilidade de escolha de palavras e símbolos que transmitam melhor os sig­
nificados (conotativos ou denotativos) que desejamos comunicar. Mas e a
Bíb lia? Não podemos tomar l iberdades indevidas quando a traduzimos ainda
que desejemos que ela seja entendida com clarez� pelos leitores.
Aqui, Eugene Nida e William Reyburn (198 i) oferecem alguma orienta­
ção sobre até onde podemos mudar as formas e os significados denotativos a
fim de manter os significados conotativos e ainda permanecer verdadeiros
para com o texto. Por exemplo, eles dizem que o tradutor não deve alterar o
texto original quando ele se refere a acontecimentos históricos. Não podemos
mudar o fato de que Jesus foi circuncidado no oitavo dia, embora algumas
sociedades considerem isso uma forma cruel de tratar um bebê recém-nascido .
Em alguns casos, precisamos oferecer às pessoas informação adicional através
de comentários e ensino para que elas entendam os costumes judaico s daque­
la época. Da mesma maneira, lançar sortes, freqüentemente mencionado nas
Escrituras, é totalmente desconhecido em algumas culturas e precisa de al·
gum tipo de explicação adicional para que as pessoas entendam as passa gens .
Mas não temos liberdade de adicionar tais informações no texto. .
A questão das expressões idiomáticas e das figuras de lingua gem é ma��
difícil. Por exemplo, como devemos traduzir frases do tipo "branco como a neve '
"pedra de moinho" ou "camelo" para as pessoas que não sabem na da sobi;�
elas? Podemos ser obrigados a utilizar termos como "muito, muito branco '
"uma pedra pesada" e "um animal chamado camelo". Da mesma ma neira ,teill
algumas partes da África Ocidental o "assento real" é equivalente a um " t�·
no", e em outros lugares, "lobo" pode ser traduzido como "chacaf' ou "um a ni·
mal como a hiena". Nida e Reyburn (198 1 :54) dizem:
,45 J) iferenças Culturais e a Mensagem 1 53

E m certos casos, uma tradução literal é impossível por causa dos valores

si
m b ólicos especiais associados a certos objetos culturais . Por exemplo, e m
. d a a uma cob ra d o para1so e, 1 ogo, raça d e v1'b oras"
,
1'b ora e' associa "
ba n ês , a v
l i
3 : 7) raramente seria uma reprovação p ública . No
(M t 3 : 7 , 1 2: 34, 2 3 : 3 3 ; Lc
possível comunicar o significado dessa frase substituin do-a por
e nt a nto, é
t mo m ais genérico - por exemplo, "animal nocivo" .
u m er

O Significado nas Cu lturas


Eugene A. Nida e William D. Reyburn

. . . Os post u lados e valo res de u m a c u ltu ra são mencio nados como s e


fo rma sse m u m t o d o ú n ico coerente. N o e ntanto, d e fo rma a l g u m a esse é o
caso. Dentro da B íblia há postu lados razoavel mente d ife rentes. O h e n oteísmo
(um Deus s u pe r i o r a todos os outros) d e ce rtas partes do Antigo Testamento
dá l ugar ao monoteísmo que nega totàlmente a existência d e outros deuses. O
sistema sac rificial do Antigo Testamento é completamente rej e itado no N ovo
Testame nto. A poligamia do Antigo Testamento é colocada de lado, no N ovo
Testamento. J e s u s S§l refe riu a ce rtos aspectos da lei como "ouvistes o q u e foi
dito", e então contin u o u a d a r à lei interp retação e relevância u m tanto d iferen­
tes . Foram exatamente as d iferenças nos postu lados q u e fize ram s u rg i r o
prime i ro confl ito d e ntro da ig reja - a s a b e r, a m a n e i ra q u e os g e ntios s e riam
admitidos à com u n hão dos fiéis.
A Bíblia não só reflete os diferentes conj u ntos de postulados da vida pales­
tina antiga. Ela também contém refe rê ncias a ce rtos postu lados g reco-roma­
nos d o mundo antigo. Os esc ritos joaninos reve lam com c l a reza a l uta da
ig reja primitiva contra as c re nças do g nosticismo q u e se baseava n o d u alis mo
primordial do esp írito e d a maté ria e q u e p roc u ro u i nterp retar a encarnação e a
ress u rreição em termos d u al istas, permitindo, ass i m , a mo rte de J e s u s e a
ressu rreição de C risto.
Se alguém estiver p reparado para reco nhecer as d iferenças de postu lados
na Bíblia, é ainda mais necessário perceber que há conj u ntos bem d iferentes
de postu lados c u ltu rais n a maioria das sociedades atuais. Dentro do mu ndo
ocidental, por exemplo, o "ponto de vista científico" s u põe rep resentar o pensa­
mento do "homem mod e rno'', mas isso está longe de s e r total mente verdad e i ro.
Talvez a maioria dos i ntelectuais tenha u m a "visão secular científica do mu ndo",
que pode ser caracterizada g rosso modo como ( 1 ) u ma explicação d a vida com
b ase na evol u ção biológica, (2) u ma interpretação mecanicista do u nive rso, q u e
n ão neces s ita d e "inteligência s u p rema" , (3) u ma interpretação da história com
b as e essencialmente nas fo rças p u rame nte h u manas que operam dentro de
c ertos l i mites ecológicos e (4) u m conj u nto de valores étnicos o riginários da
n atu reza h u mana, essencialmente h u manísticos. J u ntamente com essas vi­
s õe s d e m u ndo estão a rejeição dos s e res sobrenatu rais, o repúdio à mágica e
a au s ê ncia de i nteresse pelas atividades religiosas.
Po ré m , para a maioria das pessoas do mu ndo mode rno, essa visão científi­
c a d a vida é b e m estranha. Elas podem ter rejeitado religiões estabelecid as,
154 As Diferenças Culturais e a Me n
s a. ge lli.

mas c e rtamente não abandonaram a clarividência, a astrologia, os mé diu n s


as

bruxas e os amuletos (tais c omo pés de coelho, moedas da sorte e i m ag e
A l g u mas podem até alegar uma "visão científica" em certos contextos da v i d
s .

mas temem u ma p raga lançada por uma pessoa d ecente e bu sca m a c u '
ra
d aq u eles q u e d efendem "cu ras m i racu losas". Na verdade, m u itas pe ss o as
despeito de s u a adesão fo rmal a um ou outro sistema de pens ame nto , t ê�
m istu ras estran has de c renças e, raramente, ou se alg u m dia o fize re m, p roc .
u
ram resolver as contradições i m p l ícitas. Elas acred itam naq u ilo q ue qu ere m
ac red itar. De c e rto modo, elas "assumem um risco"; parecem estar tão co n ten ­
tes com as d úvidas de segu nda mão como com a fé de segu nda mão tam bé m .
Em vista das importantes d iferenças de postu lados q u e possam existir de n ­
t ro de u ma ú n ica sociedade, não é de s u rp reender q u e haja g rande s dife re n ças
e ntre a c u ltu ra b íblica e as outras c u ltu ras do mu ndo. Alguém pode achar que as
d iferenças seriam particularmente conflitantes se alguém comparasse a cu ltura
da Bíblia com a de alguma sociedade atual da África C entral. No entanto, em
verdad e , elas têm mu ito em com u m : poligamia, c rença em mi lag res, p rática d a
bênção e do rogar p ragas , escravidão, s istemas de vingança, sac rifído e comu­
nicação através de son hos e visões . Os navajos pasto ris vêem mu itas coisas
na Bíblia q u e são paralelas ao seu p róprio estilo de vida: apascentar ovel has,
expulsar esp íritos demon íacos, responsabilidade corporativa, previsões de te m ­
po apenas olhando o c é u , premonição de aconteci mentos e a expectativa pelo
fim do m u ndo (depois do qual g randes mudanças ocorrerão) .
Em c e rto s e ntido, a Bíblia é o livro religioso mais t rad uzido q u e já se tenha
esc rito, porq u e s e origina de uma época e d e u m l u gar e m particular (o extre m o
ocidental do C rescente Fértil) pelos q u ais passaram mais padrões c u ltu rais e
dos q u ai s i rrad iaram-se mais aspectos e valores d i sti ntos do q u e ocorreu em
qualquer o utro lugar n a h i stória do m u ndo. Se a l g u é m comparasse os traços
c u lt u rais da Bíblia com os de todas as c u lt u ras hoje existentes (teria de consi­
d e ra r mais de dois m i l g ru pos de pessoas s i g n ificativamente d ife rentes) , veri­
ficaria q u e , em c e rtos aspectos, a Bíblia é s u rpree ndentemente mais familiar
a m u itas d elas do q u e a c u ltu ra tecnológica do m u ndo ocidental. Abe rrante ao
m u n d o é esta c u ltu ra "ocidental". E é exatamente no m u n d o ocidental , j u nta­
m e nte com u m n ú m e ro c rescente de pessoas em outras partes do mundo qu e
c o m partilham s e u ponto de vista, q u e as Escrituras aparentem e nte têm tido
menos aceitação i med iata.
Um dos d e s e nvolvi m entos importantes do c ristian ismo que reflete esta
d iferença no panorama c u ltu ral é o n ú m e ro rapidamente c rescente de "ig rejas
n ativas". Estima-se q u e só na África, nos ú ltimos vi nte anos , mais de q u i n ze
m i lhões de pessoas passaram a faze r parte das i g rejas "independ ent es" ou
"separatistas", q u e em s u a maioria se s e ntem à vontade com a Bíblia, m as
d istantes das i nstituições trad icionais do c ristianismo ocidental. I nstintivam ente ,
essas pessoas encontram u ma identidade com a B íblia, mas se s e nte m m al
dentro das ig rejas ocidentais tradicionais que de mu itas maneiras não refl ete m
mais "a vida e a fé da Bíblia".
./!5 J) iferenças Cu l turais e a Mensagem 1 55

u m a vez q u e não podemos enfrentar devidame nte os p robl emas do trad u­


t o r s e m cons idera r as m u itas e sempre confl itantes d iferenças e nt re a c u ltu ra
d a Bíb lia e a das outras sociedades, s e ria e rrado exage ra r as d ivers i d ades
co mo alg u mas pessoas têm feito. Como os antropólogos têm d ito, normalm en­
t e h á m u ito mais coisas q u e u n e m pessoas d ife rentes e m u m a h u manid ade
co m u m que aque las que as separam e m g ru pos d istintos. Estes e l e m e ntos
u ni ve rs ais c u ltu rais , como a p e rcepção da reci p rocidade e d a i g ualdade nas
rela çõe s i nterpessoai s , a resposta à bondade e ao amor do h o m e m , o desejo
p or sig n ifi cado na vida, o conheci mento d a e n o rme capacidade d a n atu rez a
h u m ana para o mal e para a autodesilusão (ou racionalização do pecado) e s u a
n ec es sid ade d e algo m a i o r e m a i s importante q u e e l e m e s m o , s ã o todos eles
te m as q u e constante mente aparecem na B íblia. Esses são os e l e m e ntos das
Es crituras q u e aparece ram a u m n ú m e ro incontável d e pessoas at ravés dos
sé culos e através das fronte i ras c u ltu rai s .
A importância s o b re o recente intéfesse na Bíblia pelo m u n d o ocidental é
o fato de q u e as Escrituras originaram-se de u m a outra e ra e de u ma c u ltu ra
d istante. Po r mu ito tempo foi ensi nado às pessoas modernas q u e s e u s p roble­
mas são o res u ltad o_.. d i reto d e u m a vida f u n da m e ntada e c a racterizada
tecnologicamente pela u rban ização e i n d u strialização. Mas a g o ra elas estão
descobrindo q u e-as pessoas apresentadas na Bíblia t i n h a m exatamente os
mesmos p roblemas e necessidades que as pessoas hoje - a i n c l i n ação ao
pecado, mesmo q u ando desejam ser co rretas , o sentimento d e c u l pa, neces­
sidade d e perdão, o poder de res istir à tentação e o desejo d e amar e ser
amado. O fato d e que essas n ecessidades u n ive rsais são exe m p l ificadas den­
tro do contexto de acontecimentos h istó ricos conc retos envolvendo a vida real
é que torna a Bíblia tão viva e atraente para as pessoas em m u itas socieda­
des . ··
Q u an d o comparada aos docu mentos básicos ou às t rad ições ve rbais d e
outras re ligiões, a Bíblia é s i n g u l a r em s u a apresentação d e aconteci m e ntos
atuais e nvo lvendo s e res h u manos específicos. Enquanto os doc u mentos rel i ­
gios os d o h i nd u ís m o s e preocupam principalme nte com o h e ro ís m o d o s d e u ­
ses , a Bíblia está p reocu pada essencialmente com ·a atividade d e D e u s na
histó ria h u mana. E m contraste com os t ratados re lig iosos do b u d i s m o (que
contêm p rincipalmente p ri n c ípios éticos d e origem filosófica) e do Co rão ( q u e
s e concentra n a s exortações e advertências do p rofeta} , a Bíblia está enraizada
na h istória e consiste p rincipalmente e m relata r como Deus entro u n e l a para
revelar s e u poder d ivino, s u a vontad e e s u a pessoa. A fé b íblica está por s u a
v ez firmemente e n raizada e m acontecimentos - e m u m D e u s q u e a g e .
A l é m disso, o D e u s da Bíblia é aprese ntado a g i n d o em mome ntos espec í­
fi c os , e não m e ra m e nte de man e i ra g e n e ra l izada. Logo, o co ntexto h istórico
e sp e c ífico do re l ato b íblico adq u i re impl icações teológicas m u ito i m p o rtantes,
e os c ristãos têm q u as e i nsti ntivamente reag ido contra quaisq u e r te ntativas
de t ransportar o contexto c u ltu ral e h istó rico dos relatos b íblicos. Em reação a
uma tentativa de t ransportar a mensagem b íblica para u m ambiente africa no,
As Diferenças Culturais e a M en s
age
156
ltl
u m c h efe afi rmou : "Se aq uilo realmente acontece u , e ntão por q u e n oss os av ó
s
não nos contaram?". Na verdade , tornar o relato b íb l i co m u ito conte mp o rã n e
0
pode d estru i r a l g o de s u a c redibilidade.
Do ponto d e vista da teologia j u d e u- c ristã, a entrada de D e us na hi stó ri
a
em épocas e locais específicos é relevante e crucial. Portanto, é óbvio qu e o
s
acontecimentos reg istrados na B íblia não pode m s e r alterados. No ent a nto, s
e
o s i g n ificado de u m c e rto aconteci m e nto depende de u m conj u nto de p os tu la­
dos visivelmente d ife rentes daq u e les da c u ltu ra do receptor, o q u e o t rad uto r
faz para evitar s é rios mal-entendidos? Em p r i m e i ro l u g a r, o t rad ut o r n ão po d e
espera r tornar a mensagem tão clara q u e qualquer leitor possa e nte ndê -la pl e­
namente s e m n e n h u ma referência a a l g u m dos postulados q u e são i mp l íci to s
ao relato b íblico. I sto q u e r d izer q u e não se pode espera r q u e o t rad uto r trans­
p o n h a a mensagem, l i n g ü ística e c u lt u ralmente, de man e i ra q u e ela se aj uste
completamente d e nt ro da estrutu ra i nterpretativa d a c u ltu ra do receptor. Faze r
isso s i g n ificaria roubar a mensagem de seu ambiente temporal e espacial p ró­
prios. Além do mais , o o bjetivo do t rad uto r não é faz e r com q u e a mensagem
soe como se os acontecimentos ocorressem em u ma cidade p róxima, há ape­
nas poucos anos. Na ve rdade, o objetivo d eve ser t rad u z i r, de tal modo (e com
a t rad u ç ão oferece r esses dados refe re nciais) q u e evite q u e os receptores
entendam mal o q u e os receptores originais ente n d e ram q uando receberam a
1
1
mensagem pela p r i m e i ra vez.
A exegese pode s e r desc rita como o p rocesso de reco n stru i r o aconteci­
m e nto d a comun icação determinando seu s i g n ificado (ou s i g n ificados) para os
participantes d a c o m u n icação. Por sua vez , a h e rm e nêutica pode ser desc rita
como aq u e l a q u e aponta paralelos e ntre a mensagem b íblica e os aconteci­
m entos atu ai s e q u e determina a extensão da rel evância e a resposta apro­
p riada para o c rente. Tanto a exegese como a h e r m e n ê utica estão i n c l u ídas
n u m a categoria maior de interpretação.
A tarefa p ri n c i pal do pesq u isad o r b íblico é ofe rece r os fundamentos para
os p ro b l e mas da exegese e aj u d a r as pessoas a ente n d e r a relevância da
mensagem b íblica para os ambientes razoavelmente d iferentes na l íngua e na
c u ltu ra dos nossos dias;

De Eugene A. Nida e William D. Reyburn, Meaning across cultures (Maryknoll, N. Y.; Orbis,
198 1, p. 26-30.

Traduzindo os Significados Implícitos


O problema mais fundamental que enfrentamos, no entanto, é o fa to de
que as palavras em qualquer cultura possuem significados implícitos que re ·
fletem a visão de mundo daquela cultura. Como já vimos, não há palavras eJJl
telugu que possuam exatamente os mesmos significados que os das pa lavr a s
}.S Diferenças Cu lt urais e a Mensagem 1 57

_ ,, e sim
'blic as para "D eus" , "homens" , "pecad o" , " sa lvaçao ' ilares. O que fazer
bi tão p ara preservar a mensagem da revelação divina?
ell por exemplo, tomemos a palavra devudu utilizada pelos primeiros missio-
' rios pa ra "Deu s" em sua tradução da Bíb lia telugu. Como já vimos, essa
na
J avra s ign ifica ser supremo, mas não a realidade principal. Há muitos de ­
pa
5 e to dos pertencem a este mundo passageiro de ilusão. Além do mais, não

��rddifemren ça �eal ent�e � l�s e os ?º�ens. Se .utilizamos a palav:a �evu � u,


os muito dos sigmficados bibhcos associados a Deus. Ele nao e mais 0
briador principal, e suá encarnação simplesmente se refere a uma criatura
e e

Ill a ior que ajuda uma inferior. Obviamente, a palavra devudu traz proble mas

p a a os n ossos objetivos. E as palavras parameshwara, bhagavanthudu e


r

is hv a rudu? Estas também pertencem a este universo e, como os devas, deixa­


rão de e xistir no final dos tempos e voltarão para Brahman, a fonte . E
Brahman? Não é um ser pessoal a quem podemos nos relacionar; ele é uma
. .
·

força s uprema.
O que os tradutores devem então fazer? Podem utilizar as palavras que
falem de deuses como pessoas, como de vudu, mas estes não são eternos e oni­
potentes; eles podem uSfir Brahman, mas este não é uma pessoa; ou podem
tra zer um termo estrangeiro como "Deus" ou "Teos", mas então ninguém irá
entendê-los. Este é � empre o dilema da tradução.
O fato é que não há uma correspondência simples entre as palavras em
lín g uas diferentes. Conseqüentemente, na tradução, sempre há alguma
distorção da mensagem. Primeiro, há alguma perda de significado encontrado
na primeira língua; segundo, há a adição de significados que não são encon­
trados no original (Figura 20) .
Como evitarmos a perda de significados ou a adição de significados não­
intencionais na tradução da Bíb lia, ou neste caso na pregação e no ensino?

F1GURA 20

As Categorias em Diferentes Línguas não são as Mesmas


Significado de uma Sign ificado de uma Palavra
Palavra na Língua A Cognata na Língua B

perda de s i g n ificados adição de s i g n ificados


s i g n i f i ca d os c om p a rti l h ados não i ntencionais
158 A s Difere nças Culturais e a Me n s
a gelll.

FIGURA 2 1

Cosmovisão dos Hebreus, dos Gregos e Moderna

Hebreus G regos Moderna

1 Deus Deus Sobrenatural:


Anjos
Demônios

Anjos
Demônios
Seres H u manos Seres Humanos Ciência:
Animais Animais -visão, experiências, ordem
Plantas Plantas natu ral, leis
Matéria Matéria -experiências normais

De Paul G. Hiebert, "Anthropologica/ too/s for missionaries" (Cingapura: Haggai lnstitute, t 983), p. 22.
'
'

Em alguns poucos casos, talvez seja preciso criar novas palavras ou importá­
las de outra fonte. Por exemplo, na Bíblia , utilizamos as palavras siclo e cÇ)vado,
mas elas possuem pouco significado para a maioria dos leitores, particular­
mente os não-cristãos.
Em geral, devemos escolher a palavra mais adequada para aqueles da
língua local e então torná-la explícita por meio do ensino e da pregação o nde
o significado bíblico da palavra é diferente de seu significado comum na cultu·
ra. No caso da tradução de "Deus" em telugu, podemos escolher usar de vudu
porque ela fala de um deus pessoal, mas então devemos deixar claro que .º
Deus da Bíblia é a principal realidade, não simplesmente o ser maior no uni·
verso, e que os homens são criações separadas, não simplesmente fra gme n tos
do espírito de Deus. Devemos continuar a esclarecer as diferenças po rque ª
palavra devu.du continuará a ser usada pela maioria das pessoas telugu co ill
significados hindus.
As distorções que ocorrem quando os cristãos não tratam dos si gn ifica d �s
implícitos de seus símbolos culturais podem rapidamente ser ilus tradas p e 0
cristianismo ocidental. Já vimos que a maioria dos cristãos do Ocide nt e t�n­
dem a reunir "Deus", "anjos" e "demônios" como seres sobrenaturais e d is�inÍ
gui-los dos seres naturais como os homens e os animais. Mas essa é a pr i ncip:á
heresia do cristianismo. Se há uma distinção fundamental na Bíb lia, ela es
;.s fJ ife renças Cu l tu rais e a Mensagem 1 59

t ·e De us como Criador e todo o resto como criação . Nunca devemos colo car
m esm a categoria de nenhuma outra coisa.
pene u8 n a co
1

:E ntão, mo passamos a pensar em D eus, anJOS e d emomos como membros . A •

:rn ó gr up o? A resposta é a disseminação da cosmovisão grega no Ociden­



de urasnte a Renascença (Figura 21). Na cosmovisão hebraica, Deus é ele
te T o do o resto depende do ato contínuo de sua criação. Na verdade não
Jll e s m o.
b ' alavr a no he b ra1co
p · para na tureza como uma ord em cosm1ca · auto-sus - "
"
'

t ªnt a d a . N o entanto, na cosmovisão grega, os deuses (theoi) são parte de um


e
c mp o sobre natural habitado por espíritos de muitos tipos. Por sua vez, o mundo
�tural inclu i homens, animais, plantas e matérias. Como o Ocidente adotou
:ssa mundividência grega, os cristãos ocidentais absorveram seus significa­
dos implícitosreligiãoem suas teologias. O resultado é um duplo universo no qual
para descrever realidades sobrenaturais e uma ciência
utiliz a mos a
secula riz ada para explicar a ordem n!! � ural.
A trad ução da Bíblia obviamente é ' uma tarefa complexa, e aqueles que a
faze m precisam de um treinamento especializado . Mas uma vez que todos os
miss ioná rios estão envolvidos na tradução das idéias bíblicas em culturas lo­
cais, precisam saber da8'llluitas facetas implicadas.
Comunicação Transcult u ral

Gastamos a maior parte do nosso tempo nos comunicando - falando, len­


do, o uvindo o rádio, assistindo à televisão, nos vestindo e (como alguns psicó­
logos nos lembram) falando sozinhos. Raramente damos muita atenção ao
processo porque nossa atenção está na mensagem enviada e recebida. Só quan­
do a comunicação não se estabelece é que normalmente paramos para olhar o
que está acontecendo e o que houve de errado.
Na comunicação, muitas coisas acontecem ao mesmo tempo (Figura 22) .

F1GURA 22

A C omun icação Compreende a Emissão e a Recepção de Mensagens


- - - - - - - - - - -
. - - - . - - -
.. . . - - . - - .

Significado
, Pessoa Pessoa •
A 8

Meio

. I

.. .. . . .
- - - . -
. - . - - - .
- - - - - - - - - . -
. . -

Contexto Função ou Objetivo


160 As Difere nças Culturais e a Me n s
agelll

Um emissor que deseje comunicar uma mensagem, seja qual for a razãº
fica-a em símbolos e a transmite a um receptor que os recebe, deco difica ' �0 di.
para aprender a mensagem, e reage. Tudo isso ocorre de ntro de con� º ·os
específicos que afetam o resultado final. Como veremos, muitas cois as P e�tos
acontecer de errado no processo, impedindo a comunicação, de form a P ar0/lll1cu.
lar nos ambientes transculturais.
Mensagens e Paramensagens
A comunicação ocorre ao longo de cada uma das três dime nsões da cult u
que já examinamos. Cognitivamente, é a transmissão de informaç ão e si gn��
cado; afetivamente, o partilhar de sentimentos; e da perspectiva da avaliaç ão
a transmissão de julgamentos, como aceitação e censura, por exemp lo. N�
maior parte da comunicação, as três ocorrem simultaneamente, mes mo qve
uma ou outra esteja em foco.
Há muitas maneiras de transmitir informações. As pessoas utilizam os rituais
e o teatro para comunicar idéias, representando-as. Também empregam si gnos
tais como os semáforos, ligam sirenes e tocam sinos para transmitir conhe ci­
mento. Mas o método que mais utilizam para comunicar mensagens cognit ivas
é a língua, falada ou escrita, porque é através das palavras que o pensa mento
humano abstrato é expresso com mais facilidade. P,ortanto, a fluência no idio­
ma local é crucial para o serviço missioná;io. Não adianta muito transpor as
barreiras transculturais se não pudermos comunicar o evangelho eficazmente
com o que dizemos.
Juntamente com as mensagens cognitivas, comunicamos sentimentos e
emoções e até mesmo se gostamos da pessoa com quem falamos. Indicamos rai·
va do assunto em discussão ou somos engraçados, sérios, tristes, sarcásticos,
reservados ou críticos. E mesmo a poesia, os comentários irônicos, as piadas, os
sermões e as propostas de casamento podem ser utilizados para comunicar nos·
sos sentimentos.
Também comunicamos nossos julgamentos. Pelas nossas palavras e a ções
mostramos se estamos cientes ou não da veracidade do que os outros estão fa·
lando, se gostamos ou não do que dizem e se os julgamos corretos ou de sonestos.
Durante uma comunicação normal, um desses três tipos de me nsagem
está "em foco". Em outras palavras, é a mensagem principal que es ta mos te n·
tando transmitir. Por exemplo, o estilo ocidental de ensinar se co nce ntr a na
transmissão de idéias, enquanto na música, na poesia, na arte e no te atro
sempre estamos tentando comunicar humores e sentimentos. Por outro lado, �
pregação é utilizada para ensinar idéias e, em menor escala, expres sar s enti·
mentos. Mas seu principal objetivo sempre tem que ver com valores e d· e cisõ e �·
Enquanto nos concentramos na transmissão de uma mensagem, inconsc1·
.
entemente comunicamos . mais.
mmto . p or exemp 1 o, numa conversa comu:rn ' nos
concentramos em expressar as idéias. Mas pelas nossas expressões faciais, ge!·
tos, tons de voz, postura corporal, distância entre uma pessoa e outra e utilizaçao
;ts [J ife renças Cultu ra is e a Mensagem 161

JOPº mun icamos sentimentos e valores como desconfiança,


preocupaç ão,
do tde 'Jll decosate nção, concordância e amor. No entanto, nem sempre estamos
,
d.es te s de ssas mensagens secundarias.
' .
c en e ·
1 As JOensage ns secun d arias ou paramensagens ofierecem o co ntexto ime-
, ·

do qual a comunicação ocorre e determinam a maneira que a


diato dentroprincipal deve ser entendida. Elas nos dizem, por exemplo, se
.
age m
rne nOsS inte rp retar os s1gn · ·
de-
º if"
ica d os d as pa 1 avras como iroma, sarcasm o, h
��JllaJObigüidade, ou se devemos tomá-las ao pé da letra. As paramensagens
umor

nos dize m o que o falante pensa do receptor. .


Normalmente, estamos menos conscientes d as paramensagens porque elas
est ão fora de foco. Mas não são menos reais. Na verdade, retrospectiva mente
nos le mbra mos mais vividamente e com maior freqüência dos sentime ntos
coJiltmica dos do que das idéias. Tamb � m acreditamos mais nas paramensagens
do que nas mensagens principais. E .rpais difícil dizer uma mentira numa
me ns agem secundária porque não estamos cientes do que estamos dizendo
nesse nível. Por exemplo, uma criança se recusa a confessar que roubou um
biscoito de uma lata, mas lemos a culpa estampada em sua face. É por isso que
gostamos de ver as pessoas quando conversamos.
As paramensage_ns desempenham um papel importante em missões. Na
comunicação do evangelho, podemos dizer que amamos as pessoas, mas as
nossas paramensagens podem proclamar em alta voz que não podemos suportá­
las. Podemos nos considerar corretos visitando suas casas, mas nos recusamos a
convidá-las às nossas. Nossas mensagens mais fundamentais são as nossas
paramensagens, e quando não são coerentes com a nossa mensagem explícita,
as pessoas não confiam em nós.
Meio e Parameio
Como já vimos, podemos utilizar muitos meios ou sistemas de símbolos dife­
rentes p ara comunicar nossas mensagens - palavri;ts, tons, gestos, espaço, tempo,
etc . Nossa escolha depende da ocasiã o, das preferências pessoais e da nossa
cultura. Em algumas culturas, o contato físico é uma maneira comum de mos-

TABELA 4

Porcentagem das Coisas que Lembramos

Depois de Três Horas Depois de Três Dias


----
-��----------'----------------''--------

O que o uvimo s 70% 1 0%


O que vemos 72% 20%
O que vem o s e ou vimos 86% 65%

D e Jack Dahner_ "Notes on cnmmunic:Rtinn " tr.inn::m11rR · HRnnRi /n.-;fif11fP 1 .QR."ll n 4


162 As Diferenças Culturais e a M e n s a
ge tll.

trar afeição; em outras, é um tabu. Em algumas, os rituais e a danç a


s ao

importantes; em outras, não.


Normalmente,
.
comumcar
empregamos diversos meios
a mensagem, outro para transmitir. . ao mesmo tempo um p a�
-

paramensagens. No e ntant
em algumas situações, utilizamos diversos meios para reforçar a mes m a me o ,
sagem. Essa abordagem multivalente é particularmente poderos a para nn.
ajudar a lembrar mensagens (Tabela 4). Depois de três dias nos lembram� 08
duas vezes mais. o que vemos do que o que ouvimos. M as quando dois meios
.

visão e o som, são utilizados juntos, nos lembramos seis vezes mais. Iss o t��
uma grande importância em como comunicamos o evangelho.
Os sistemas de símbolos servem a uma segunda função importante cha.
mada de armazenamento da informação. Todas as sociedades arma zenam
seu conhecimento de diferentes maneiras. Aquelas que são instruídas dep e n­
dem muito da p á gina e scrita, quase excluindo os outros méto dos d e
armazenamento da informação. Fazemos lembretes, escrevemos nossas idéias
lemos livros, revistas, sinais e escrevemos com fumaça no céu. Construímo �
bibliotecas e arquivamos pilhas infindáveis de papel. Na igreja, cantamos de
memória mas sabemos apenas os primeiros versos da maioria dos hinos. Sem
a escrita, a maioria de nós fica perdida.
Nas sociedades de tradição oral, as pessoas d;ependem da memória e a
reforçam por vários meios. Elas armazena� informação em canções, poemas,
provérbios, adivinhações, canções e histórias, tudo auxiliando o funcionamento
da memória. Elas utilizam a repetição e . diversos meios para reter seu conhe·
cimento, cantando as mesmas músicas e reinterpretando suas histórias por
meio do teatro, das danças e dos rituais. Usam objetos culturai� como casas,
templos, imagens e pinturas para se lembrarem de suas crenças religiosas. E
como já vimos, associam seu conhecimento cultural ao mundo natural ao re·
dor delas.
Há muitas implicações nisso para a comunicação do evangelho. Primeira ,
devemos escolher os meios apropriados para a mensagem que vamos comuni·
car e para a cultura na qual estamos localizados. Nós que somos alfabetizados
temos a tendência de pensar somente em termos de armazenamento e comu·
nicação do evangelho nas formas falada e escrita. Falhamos em não perce ber
que as sociedades de tradição oral não são "analfabetas". Na verda de, elas
têm um suprimento rico de conhecimento cultural e muitas maneiras diferen·
tes de armazená-lo. Em tais sociedades, devemos apli car esses meios de apre ·
sentar o evangelho de maneiras concretas de que as pessoas se lembr arão.
Embora não devamos ignorar toda a educação formal, precisamos empre gar 0
meio que já exista dentro da sociedade se quisermos alcançar agora as p es soa s
pelo que podem entender.
P. Y. Luke e John Carman (1968) apontam a importância do cântico p ara
· sociedades de tradição ora Du·
a comuni cação e apreensão do evangelho em l.
rante sua pesquisa nas igrejas de aldeias na Índia, verificou que a ma io ria
,4S D ifere nças Culturais e a Me nsag em 1 63

do s cristãos lá são analfabetos e não podem ler as Escrituras . Mas eles possu-
-
J1l te ologia que
armazenam em cançoes - o que os autores ch amam de uma
�te olo gia lírica". As pessoas se reúnem à noite e cantam de memória dez ou
doze vers os de ':ma can� ã � apó s � outra. Fe !izmente, � maioria dessas can ções
,
teJll mais conteudo teolog1co solido que muitas do Ocidente.
Emissores e Receptores
A comunicação envolve um emissor e um receptor. Em missões, os dois são
pe s s oas. . . .
. . .
Os e missores miciam o processo se 1ecionand o um me10 e co d"fi
i cand o sua
me nsa gem em formas simbólicas tais como a fala, o gesto, ou a escrita . O
proce sso é quase automático quando estamos em nossa própria cultura, e ra-.
raro.ente temos consciência disso. A maior parte da nossa atenção é canalizada
na formulação da mensagem. Só quaH,do o mecanismo falha - por exemp lo,
qua ndo tentamos falar em outra língua - é que ficamos conscientes da
co dificação da mensagem.
A codificação depende de muitos fatores. Obviamente os emissores utili­
zam símbolos culturais para comunicar mensagens. Estes incluem não só pa­
lavras, mas os gestos, a utilização do tempo e do espaço, e assim por diante.
Menos óbvio é o fato de que codificamos nossas mensagens em te1·mos de nos­
sa s próprias experiências. Nossa escolha de palavras e pronúncia, os senti­
mentos que atribuímos aos símbolos e até mesmo as mensagens que comuni­
camos são determinadas por fatores como a nossa idade, nosso sexo, nossa
posição na sociedade, localização geográfica, nossas experiências passadas e
atitudes presentes. É importante lembrar que nem toda a comunicação é de­
terminada pela cultura. Há uma dimensão altamente pessoal nela.
A codificação também leva em conta o contexto. Cada um de nós, no curso
de apenas um dia, muda lentamente de um conjunto de símbolos para outro,
de um tipo de mensagem para outro, dependendo de onde estamos e a quem
e stamos nos dirigindo. Comunicamo-nos de uma maneira com nossos amigos ,
de outra com nossos cônjuges, e ainda de outra maneira com nossos professo­
res , pastores, policiais ou presidentes. Temos linguagens especiais para os tri­
b unais , a política, o comércio, para cada uma das ciências, para lazer e reli­
giã o.
Finalmente, a codificação é multifacetada. Por exemplo, numa simples con­
rs
ve a, escolhemos uma mensagem colocando-a em palavras, cuidando para
lllodificá-las de acordo com o tempo, gênero e número e outras regras da gra­
mática; organizando-as numa ordem própria, produzindo sons falados com
P recisão suficiente para que o ouvinte entenda. Ao mesmo tempo, inconscien­
tellle nte, codificamos paramensagens que comunicam atitudes e valores por
llle io do tom da voz, dos gestos e de outros parameios.
Os receptores precisam reverter o processo e decodificar as formas simbóli­
cas que recebem, em significados. Como os emissores, eles :filtram a mensagem ,
164 As Dif�renças Culturais e a M ens
ag lti.
e
usando de crenças e valores de sua cultura e de suas próp rias exp eri . n .
pessoais. Se pertencem a uma cultura na qual o cristianismo é visto co� cias
inimigo, podem encontrar dificuldade para dar ouvidos ao evangelho . E lll ? Ulll.
eles podem ter tido uma experiência ruim com um cristão, o que tonafuª da,
8 1la
reação ao evangelho.
Os receptores também. . decodificam
ava li ar a mensagem prmc1pa
as paramensagens e as utihzam .
1 . O que d issemos
" . ver d ade, m as ouPa
po d e ser ra
t os
podem não acreditar se transmitimos atitudes de superioridade e des dé m ;
mais que tentemos disfarçá-los, esses sentimentos serão comunicados. · or
Como medimos o sucesso da comunicação? Geralmente, acha mos que o n
.
comumcamos .
quando enviamos uma mensagem. p or exemp 1 o, como missio-s
nários, medimos nossa comunicação pelo número de sermões que pregamos
pelas aulas que damos, ou pelo número de vezes que testemunhamos. Quwn.�
do as pessoas nos entendem mal dizemos: "Mas eu falei . . ." ou "Você s �ão
estavam ouvindo". Em todos esses casos, nós presumimos que a comunicação
implica somente enviar a mensagem.
No entanto, uma pequena reflexão nos mostra a falácia dessa aborda gem.
Há mais a comunicar do que o simples envio de uma mensagem. A comunicação
ocorre só quando o emissor e o receptor têm algo em comum, e ambos compreen­
dem o que o comunicador intenta dizer. Co!llo salienta Charles Kraft ( 1979), a
comunicação deve ser medida não pela mensagem que entregamos, mas pela
mensagem que as pessoas recebem. Em outras palavras, nossa comunicação
deve ser orientada para o receptor. Há pouco proveito em pregar se as pessoas
não compreendem a mensagem, assim como há pouco proveito em mensagens
evangelísticas radiodifundidas quando todos os ouvintes já são cristãos.
Na comunicação orientada para o receptor, não para a platéia, deve-se ter a
responsabilidade de tornar a mensagem entendida. Há ocasiões em que os ou­
vintes deliberadamente distorcem seu significado, mas, na maioria dos casos,
são os emissores que devem deixar a mensagem clara. Como comunicadores
devemos testar e ver se as pessoas nos entendem e, se não, devemos assumir ª
culpa e refazer o processo.
Filtros e Feedback
Pode haver uma grande diferença entre a mensagem que enviamos e ª
maneira que as outras pessoas a recebem e a interpretam. James Engel ( 1 9 8�)
lembra que as pessoas têm a tendência de ver e ouvir o que desejam ver e ouVU"·
Suas crenças mais profundas, seus sentimentos e valores agem como filtros que
se abrem quando querem ouvir a mensagem e se fecham quando não que rem
mais. As pessoas podem evitar a mensagem se souberem que está por se r trans·
mitida, ou não a ouvirem quando ela é transmitida. Também podem reinte rp retar
seu significado para adequá-lo a seus objetivos, ou não conseguir mudar e IIl
resposta a ela. Por outro lado, têm a tendência de ouvir quando acre ditaIIl q�e
a mensagem é relevante e útil para elas. Como Engel nos lembra, noss os ouVln·
ftS Diferenç as Cu l turais e a Mensagem 1 65

-0
s oberanos. Eles decidem em grande parte se a mensagem terá efeito ou
te� saporta nto, é importante que tornemos nossa mensagem clara, digna de
11ªe, ci ·to e re le vante para aqueles com os quais estamos nos comunicand o.
º
cr � mo sabe mos quando nossas mensagens são mal-entendidas? Em parte,
o
ar
es p osta é o feedback - ouvir aque.les que recebem a men� agem: Geralmen­
m tão empenhados em enviar a mensagem que nao ouvimos as res­
te ª st a deosno ssos ouvintes. Como Stephen Neill (196 1) diz, uma boa comunica-
p ost as .
-0 começ a com a arte d e ouvir.
a
ç O uvir inclui estar atento às paramensagens. Precisamos ser sensíveis às

xp ressões faciais das pessoas, aos gestos, ao tom de voz e à postura corporal
: ue dize m muito mais sobre suas atitudes e respostas à mensagem.
Em muitos tipos de comunicação, tais como a pregação, o ensino, a radiodi­
fusão e distribuição de literatura precisamos de outros métodos formais de obter
0 feedback. Um professor pode est im.J;! lar a discussão e ouvi-la atentame nte.
Um missionário pode perguntar às pessoas como elas entenderam a mensage m.
Pessoas da mídia podem utilizar métodos de pesquisa formal como questionários
e entrevistas para determinar quem está ouvindo ou lendo e o que entendem da
mensagem. Em todas etsas situações, devemos aceitar a platéia como juiz. Se
ela não entender a, mensagem, somos nós emissores que não a comunicamos
claramente.
O feedback deve modificar nossa comunicação, imediata e continuamente.
Se vemos que as pessoas não entendem a mensagem no nível cognitivo, preci­
samos diminuir o ritmo, simplificar o material, repeti-la, ilustrá-la com exem­
plos concretos ou parar e deixar que perguntem. Se forem hostis, tiverem
dúvidas ou rejeitarem, devemos parar de desenvolver a confiança e examinar
· nossas próprias paramensagens quanto às possíveis fontes de mal-entendidos
no nível afetivo.
Os Ruídos e a Incoerência
O utra barreira para a comunicação é o "ruído de fundo", qualquer coisa
que p ode distrair as pessoas de receber a mensagem. Se há muito ruído de
fre qüência quando ouvimos o rádio, sintonizamos outra estação. Da mesm a
form a, os estudantes perdem o interesse se a sala estiver muito quente ou
muito fria, se o ventilador estiver muito alto ou se a professora apresentar
llle neiris mos que distraiam ou um sotaque muito forte. Da mesma forma , as
P e sso as po dem distrair-se ao ouvir o evangelho por causa do vestuário e do
�eocmp ortamento de um missionário estrangeiro, pela aparente magia de sua
nolo gia ou pela sua pouca fluência no idioma local.
A inc oe rência é um ruído de outro tipo. Quando um pregador fala sob re o
�e rn cio e a simplicidade da vida cristã, mas dirige um carro de luxo e veste
a c rifi
_ o s fe itos sob medida - ou um missionário fala sobre amar as pessoas, ma s
nao a s de ix a entrar em sua casa - a paramensagem não apresenta coerê ncia
166
g e lli.
As Difere nças Culturais e a Me ns a

F1GURA 23
A Boa Comunicação Ocorre nos Dois Sentidos

Mensagem

Para mensagens

,. ,. · ( Feedback) •

- - ... ""
, ..
..
t
Emissor/Receptor Emissor/R ec ptor

\
.. " .. • • ( Feedback) . ,. • • •

Mensagem

Paramensagens

com a mensagem. Em tais casos, as pessoas geralmente acre ditam na


paramensa gem.
Ser estrangeiro é um tipo de incoerência part icular em situações transcul­
turais. Nossas mensagens podem ser entendidas, mas nossas maneiras são
estranhas e dispersantes. Por exemplo, uma missionária na Índia usava saias
na altura do joelho, sem perceber que naquelas aldeias deixar a barriga da
perna à mostra é considerado indecente. E na Nova Guiné, alguns missioná­
rios não repartiam liberalmente suas propriedades pessoais como alimento ,
lâmpadas, máquinas de escrever e armas com as pessoas da mesma maneira
que elas compartilhavam as suas, umas com as outras.
Comunicação Bidirecional
Raramente a comunicação pessoal é um processo unidirecional. E m uma
conversa, logo que alguém começa a falar, começamos a pensar sob re o que
diremos. E quando falamos, a outra pessoa está aguardando para nos inter­
romper. Isso é bom porque, além da transmissão de informação, a comunic ação
deve ser um diálogo no qual as duas partes ouvem e aprendem (Figura 23).
Mas há também o perigo de que nenhum dos lados realmente ouça o ou tro.
Numa boa comunicação devemos dar muita atenção e ouvir quem fala .
A comunicação bidirecional é particularmente importante em miss õe s. Te ­
mos o evangelho a ser compartilhado, mas também temos muito a apre nder . E
é nesse aprendizado que passamos a nos identificar com as pessoas e s u a s :ma·
neiras, e a construir e desenvolver confiança.
ft5 J) iferenças Cu lt urais e a Mensagem 1 67

retação e Reação
einterp
f1 O re sulta do do dar-e-receber da comunicação é, de alguma forma, uma
o . O s recep tores interpretam as mensagens dentro de seus contextos cul­
re a ç ã e p ess oais. Eles descartam o que não gostam ou não entende m, ger al-
tu r a is. . atentamente. Acrescentam o que 1az senti'do ao seu conhe ci-
m ouvir �
!llente se
!ll: nto, muda ndo m
o significado para ajustá-lo a suas crenças. No processo, geral­
a mensagem para ouvirem o que desejam ouvir. Estima- se
te dis torce
�q ennu ma comunicação normal dentro da mesma cultura, as pessoas ente ndam
me nte cerca de 70% do que é dito. Em situações transculturais, o nível prova­
�oewente não passe de 50%. Assim, precisamos de feedback e devemos ser cla­
ros, explícito s, concretos e até mesmo redundantes se quisermos ser entendidos.
Informações novas geralmente levam a decisões. Se as pessoas obtive rem
informações precisas sobre o evangelho, estarão aptas a reagir significativa­
me nte a ele. Mas a informação não •,é o único fator envolvido na tomada de
decisões . Os sentimentos desempenham um papel igualmente importante para
a maioria das pessoas. Como a maioria das pessoas instruídas, os missionários
são ensinados a tomar decisões com base na informação e na razão. No entan­
to, na sua vida diária ,''como comprar roupas novas ou um carro, eles são alta­
mente influenciados por seus gostos e preferências de estilo e cores. O mesmo
é verdade sobre aqueles que ouvem o evangelho. Seus sentimentos desempe­
nham um papel tão importante em sua resposta ao evangelho como o seu
conhecimento do conteúdo.
O s sentimentos que as pessoas têm em relação ao evangelho geralmente são
influenciados pela maneira e pelo contexto dentro do qual a mensagem é trans­
mitida. Pessoas recentemente alfabetizadas, por exemplo, sempre dão um alto
valor ao texto impresso. Por outro lado, espectadores inveterados de televisão
tê m a tendência de desenvolver ceticismo em relação a esse meio de comunica­
ção mesmo que continuem a usá-lo para adquirir informações.
O s sentimentos das pessoas também são influenciados por seu grau de con­
fia nça no comunicador. Se o mensageiro não tiver credibilidade em seus olhos,
a mensagem em si geralmente é rejeitada. Por outro lado, se elas sentem que o
llliss io nário realmente as ama, ficam mais abertas ao evangelho.
As decisões mais profundas que as pessoas tomam são aquelas que mu­
dam s uas vidas. São determinações de avaliação e formam o núcleo da con­
ve rs ão . As mudanças no conhecimento e nos sentimentos não são suficientes.
Só quando levam a mudanças na obediência e no comportamento podemos
fala r do senhorio de Cristo e do discipulado cristão.
N
, o entanto, depois de tomadas as decisões, geralmente elas são reavalia das
a lu z de acontecimentos posteriores. As pessoas que decidem tornar-se cr istã s
Po dem achar muito grande a pressão de suas comunidades. Ou podem ava liar
su.a re sposta à luz de novas informações. Isso é particularmente verdade nos
168 As Difere nças Culturais e a M e n s a
getll.

novos convertidos que recebem pouco apoio para sua fé, por parte da corn .
dade cristã local. Eles, como nós, constantemente reavaliam suas cre nç a s :lti·
tro da estrutura de crenças daqueles mais próximos a eles; se ho uver p o e n.
. llc
re fiorço d e seus pares, sua fie, se en fraquece. p ortanto, e, import ante que e nte o
dam a comunicação e a tomada da decisão não só de um ponto de vist a p n..
soal, mas também com a dinâmica social em mente . es
Nós nos comunicamos por muitas razões. Por exemplo, numa clas se, nos
objetivo principal é transmitir e avaliar informações. Contamos pia das p a; º
tornar o trabalho mais agradável, mas elas não são fundamentais aos no ss oª
propósitos. Por outro lado, os concertos ocorrem para entreter e exp rimir se n�
timentos. As igrejas são, para a adoração e a comunhão, os trib unais pa ra
imposição das normas sociais (veja Tabela 5) .
É importante lembrar que meios específicos são utilizados para cert a � fün.
ções e eles diferem de cultura para cultura. Por exemplo, nas sociedades ti:ibais
a adoração religiosa e a instrução são comunicadas principalme nte p or me i�
de rituais. Aos cultos de adoração, os camponeses africanos acrescentam dan­
ças e os camponeses indianos acrescentam o teatro e as trovas. A p re ga ç ão ,
como a conhecemos, é rara nessas sociedades e as pessoas ficam sempre c o nfu­
sas e cansadas com os sermões evangelísticos. Por outro lado, quando na Ín­
dia o evangelho é apresentado de form11 dramatizada, a maioria dos camp o ·
neses aparece e permanece até o final da história. Portanto, é importante
utilizar meios apropriados para os objetivos de nossa comunicação nessa cul·
tura.

TABELA 5
A Comunicação Serve a Diferentes Fu nções
Função Comunicação

Cognitiva -para pedir e receber informações


-para coordenar atividades
-para transmitir uma herança cultural
Afetiva -para divertir
-para expressar sentimentos e humores
-para adorar
A valiadora -para fazer e impor regras sociais
-para mostrar posição e prestígio
-para determinar posições sociais e recursos
ftS D ife1·enças Cu l tura is e a 1.ltlen sagem 1 64

con texto
Um elem ento final da comunicação que precisa ser mencionado é o con tex
.
A co m unicação sempre oco rre dentro de um ambiente e uma ocasi ão, 0 ,
to ais formam a natureza e a mterpretação
. da mensagem. As mesmas pala
qu·as dita s nu m teatro apresentam significados diferentes quando são ditas rn
"�
real, assi m como os gestos que utilizamos na igreja podem ser fe itos en
:oda
m de zo mbaria por um come d iante. As palavras proferidas por um juiz rn

trib unal ca rregam um peso diferente daquelas ditas e m conversas com un


n mesma maneira, o que os missionários dizem em particular se n
ai tigo. Dado de forma diferente ao falarem no púlpito.
en e ndi
Um a parte importante de muitos contextos é a platéia . Até agora vimos 1

c� municaç ão entre dois indivíduos. No entanto, na vida real, há outras parte :


d ire ta ou indiretamente envolvidas n o processo. Isso pode ser observa do me
lho r por meio de uma ilustração. D9is universitários podem estar envolvido:
num a conversa informal, quando uma professora passa por perto, e eles ime
d ia ta rnente levantam o nível da discussão para impressioná-la. Embora su
perficia lmente os dois continuem a conversar, na verdade estão direcionancl<
sua conversa p ara ufua platéia.
As platéias desempenham um papel importante, particularmente nas co
municações públicas. Os missionários no exterior devem ter em mente os con
selhos .e as igrejas que o enviam, ao falarem com as pessoas. E quando apre
sentarem seus relatórios a suas igrejas devem ser sensíveis a como seus rela
tos podem parecer às pessoas entre as q�ais trabalham. As primeiras igrejai
no exterior não tinham muita ciência do que os missionários diziam sobre ela:
quando estavam gozando de licença em seu país. Hoje, com as viagens e 1
v a s ta disseminação de material impresso, isto não mais se dá.

A Com u n i cação e o M i ssionário

Quais são as implicações disso tudo para os missionários e seu trabalho'


Prime iro, precisamos reconhecer que a nossa tarefa principal é uma comuni
c a ção eficaz. Há pouca importância em darmos nossa vida ou viajar milhare:
d e quilômetros se não pudermos completar os últimos dois metros. A comu ni
cação é um processo complexo e precisamos continuamente estudar sua eficá
eia. U ma reflexão cuidadosa na maneira que nos saímos ao comunicar o evan
gelho pode nos ajudar muito em nossa tarefa.
Se gundo, precisamos estar mais alertas aos elementos implícitos da comu
nic ação. Estudamos o idioma, e talvez a cultuva, mas raramente somos en s i
na dos sobre as dimensões mais implícitas da comunicação. Geralmente ne n
lll e s mo refletimos sobre os meios estranhos à nossa própria cultura e trein a
llle nto, ou à questão de que meios são mais apropriados para a comunica çã <
170 As Difer�mças Culturais e a M e n s a
ge :

do evangelho em outra cultura. Conseqüentemente também desprez amos co .


freqüência as maneiras mais eficazes de alcançar as pessoas.
Em terceiro l!-1 gar, devemos nos tornar orientados para o recepto r, e m no
so pensamento. E :r:iatural pensarmos em comunicação em termos do que fal
mos. Precisamos aprender a avaliar pelo que as pessoas ouve m. Se elas n ;
ouvem ou se nos entendem mal, somos nós que devemos mudar nos sos mé �
dos. O evangelho é a mensagem da salvação de Deus, mas as pesso as deve
ent� ndê-lo dentro de seus próprios contextos culturais e pesso ais p ara q\
rea1am.
Finalmente, quando comunicamos o evangelho, nunca devemo s despr
zar o fato de que Deus está trabalhando por meio de seu Espírito no coraçi
dos que ouvem, preparando-os para as boas novas. Sem isso, a conversi
verdadeira é impossível. Deus utiliza os meios imperfeitos da comunicaçi
humana para tornar sua mensagem conhecida a nós, e então, por nosso inte
médio, para os outros. E mesmo quando não estamos habilitados a trans mit
a mensagem, ele sempre a utiliza para transformar a vida das pessoas. fa
não tem o objetivo de justificar nossa negligência na boa comunicação, m as e
dizer que, no final, a comunicação do evangelho depende do trabalho de Dei
no coração das pessoas preparadas por ele, e que a comunicação cristã de 1
sempre ser acompanhada por oração e obed��ncia à direção do Espírito Sant
7
•,.

Contextualiiação Crítica

o QUE AS PESSOAS DEVEM FAZER COM SEUS VELHOS HÁBITOS CULTURAIS QUANDO SE
tornam cristãs, e como os missionários devem reagir a essas crenças e práticas
tradicionais?
Q uando os missionários chegam a uma região nova, não entram num vá­
cuo religioso e cultural. Eles encontram sociedades com culturas bem desen­
volvidas que atendem às necessidades essenciais e tornam a vida humana
possível. Também encontram crenças religiosas e filosóficas que fornecem às
pessoas as respostas a muitas de suas questões mais profundas. Então, como
eles devem-se relacionar com as crenças e práticas culturais existentes? Todas
elas são pecado? Ou são boas?

Cu ltu ras Trad icionais

Como vimos, as culturas são constituídas de sistemas de crenças e práticas


o n st
c ruídas sobre pressupostos implícitos que as pessoas têm sobre elas mes­
lll a s, sobre o mundo ao redor delas e sobre as principa is realidades. Qua is são
algum as dessas crenças e práticas a que os cristãos devem reagir?
Cultura material
As pessoas criam objetos para seu uso e entretenimento. Constroem ca sas
de oncos, barro, pedras ou cimento. Fazem canoas, barcos a vapor, iate s e
tr
b ote s; trenós de cães, carros de boi, liteiras, pás, enxadas, arados, gradea dores ;
1 72 As Difere nças Culturais e a Men s
a ge lll.

bolsas de couro, cestas, potes e caixotes. Domesticam cães, cria m porcos .


nhas, búfalos, lhamas, elefantes e macacos; cultivam trigo, arro z, tubé rcu ' gali.
. l
pimentas, c h icona,
' , .ameixas, cai.e, a li:1a1a, espora, ervas, capim e milh ar s os '
. I:' J:

outras plantas; e ainda pescam peixes, lagostas e carangu ejos e c aç a m p :a s de


ros. ·
sa.
pessoas manipulam remédios para os doentes. Os campo nese s do sul
, As misturam
India folhas de índigo, cerejas secas e ferro em pó co m 0 suco d ª
raízes de uma árvore e urina de ovelha e colocam no cabelo par a tingi-!de
mudando de grisalho para preto . A cura para resfriados inclui co mer alime º'.
tos quentes, salgados e apimentados, cuspir sempre, fazer mas sage ns, cheir
rapé e abster-se de sono.

As pessoas também utilizam mágicas como cura e simpatias de p rote ç ã o
Os birmaneses curam os doentes enterrando pequenas imagens de les em cai­.
xões de miniatura. Os magos siameses fazem esfinges das pesso as que estão
muito doentes e recitam cantos sobre elas em lugares ermos. Os muç ulmanos
fazem miniaturas do Corão, que penduram no pescoço. E os camponese s hindus
cantam mantras sagrados ou inscrevem desenhos mágicos em folhas de cobre '
que amarram nos pulsos ou quadris (Figura 24) .
Outros objetos são utilizados para fins religiosos. Entre os iorubas no oeste
da África, quando um gêmeo morre, as pessoas fazeµi uma escultura tosca em
forma humana, que a mãe carrega consigo .. isso não só impede a criança viva
de sentir saudade de seu irmão como também dá ao espírito da criança morta
algo para tomar posse a fim de não perturbar a criança viva. Os haidas da
costa noroeste da América do Norte esculpiam totens em e�tacas, em memória
de seus ancestrais. Outros povos fazem fetiches, ícones, ídolos, constroem tem·
plos, mesquitas, erigem altares e outros santuários sagrados.
Esses e muitos outros são objetos materiais de uma cultura aos quais o s
cristãos devem reagir. E o que devem fazem com todos eles?
Cultura Expressiva
Todas as culturas oferecem meios para as pessoas expressarem seus s enti­
mentos, sejam estes de prazer, de entusiasmo na diversão, de dor pela partid a
e pela morte de parentes, de apresentações criativas de artistas ou filó so fos
tribais, ou de medo e temor aos deuses e espíritos.
Uma das expressões humanas mais comuns é a música. Na África ce ntr al
ela se focaliza em torno de rituais e diversões e está intimamente ass ociad a
aos tambores e à dança. No Tibete as pessoas usam trompas enormes p ara
anunciar o início dos cultos. As mulheres do sul da Índia cantam mús icas d e
trabalho enquanto transplantam o arroz. Os índios norte-americanos cant aJll
para seus espíritos protetores enquanto esperam pela morte . Os americ.anos
ouvem música clássica, country, jazz ou rock.
F1GURA 24

Amu letos do Sul da Índia


\J)

(;- (\ (\ j (\0
rv; fV) 0 X
9 ;:;__ ( f\Y
/ (\ í) [_ )

A
B

r ...

J
e

Os amuletos, quando utilizados adequadamente em uma aldeia no sul da Índia,


trarão automaticamente os resultados desejados. Esses amuletos combinam figu ras
poderosas, sons e palavras. A: Yantra para dor de cabeça, inclui gravá-lo num prato de
latão, acender uma vela diante dele depois de ser enrolado num fio, cobri-lo com pó
ver melho e amarelo e amarrá-lo na cabeça. B: Yantra para garantir a gravidez, implica
desenhá-lo numa folha de papel ou cobre e amarrá-lo no braço da mulher estéril . C:
U tilizado para a malária. D: Ao deus Narasimha, para poder e proteção geral . E: (Para
uso de jovens do sexo masculino) Quando escrito em papel e amarrado no braço fará
co m que a mulher escolhida por um homem se apaixone por ele (não há outro amuleto
p ara proteger as mulheres de homens lascivos que usam essa mágica).

De Konduru por Paul G . H iebert. Reimpresso com permissão da Editora, University of


Minnesota Press. Copyright © University of Minnesota.
1 74 As Difere nças Culturais e a Men s
a gelli.

Os povos cantam sobre muitos temas. As mães balengis da África e


cantam canções de ninar para seus filhos, como estas (adaptada s de �nta r�l
d1n
1 9 5 7 : 140 ) :

Por que choras, meu filho?


O céu está claro; o sol brilha.
Por que choras?
Vai a teu pai: ele te ama,
Vai. Conta-lhe por que chora s .
Q u ê ! Ainda chora s ?
T e u pai t e ama, eu t e afago:
E ainda és triste?
Diga-me, então, filho : por que choras?

As mães indianas cantam para suas filhas:


Abençoada és, filha do rei da montanha,
Escravas cantarão tua beleza e m berço de ouro .
Dorme, olhos cor-de-lilás, dorme em paz,
És a escolhida de Xiva , alegra-te com teus brinquedo s .
'
1 .

Também recitam provérbios e adivinhaÇões. Eis um provérbio de uma al­


deia no sul da Índia: "Moscas, vento, prostitutas, mendigos, ratos, chefes, co­
letores de impostos; estes sete sempre aos outros importunam".
Outro diz:
A esposa que não comer os restos do pra to de seu m a rido reencarnará
num búfalo,
A esposa que s e enfeita quando o marido está fora reencarnará
num p orco,
A esposa que comer antes que seu marido volte reencarnará
num cachorro,
A esposa que dorme e m cama e fa z seu marido dormir no chão reencar nará
numa cobra .

E outro:
O santo que diz o som om

Se tornará um contigo,
Oh! Grande deus Rama.

Em todas as culturas as pessoas também oram. Os camponeses de G a n a


oram a seus ancestrais na cerimônia de sepultamento (Taylor 1977: 153) :
con tex tualização Crítica 1 75

Hoje você nos deixou; fizemos seu funeral. Não permita que nenhum de
n ó s a doe ç a . Ajude-nos a ganhar dinheiro p a ra pagar as despesas de seu fune­
r a l. Co nced a que a s mulheres conceba m filhos . Conceda vida para todos .
Vi da p ara o chefe .

p or outro lado, os índios pawnee, da América do Norte, oravam aos céus, mas
nã o c o nheciam a Deus (Radin 1957: 3 6 1) :

Pai, diante d e t i clamamos!


Pai, de deuses e homens;
Pai, de todos os que ouve m ;
P a i , de todos os q u e vêem
Pai, diante de ti clamamos!

Poetas e filósofos populares também refletem sobre a realidade da vida e


do destino dos homens. Em geral dão respostas sensatas, com fundamentos
claros na realidade . Um sábio hindu antigo captou a avareza humana no
se guinte dito (Ryder 19 �6: 3 74) :
Um mendigo correu p a ra o túmulo,
E lá gritou: "Amigo defunto, levanta-te" ;
"Por um momento, levanta meu grande peso de pobreza ;
Porque ultimame nte
Vivo cansado e desej o , em vez disso,
Teu conforto : és bom e morto" .
O defunto ficou quieto. Tinha certeza de que era melhor
Estar m orto do que ser pobre .

Uma das formas mais difundidas de literatura popular é o conto. As pessoas


em to das as culturas contam histórias sobre as incoerências da vida e os hábitos
e stranhos dos outros. Contam histórias para crianças e histórias para homens e
mulheres. Também contam fáb u las sobre as origens do mundo e de suas tribos.
Tais contos, geralmente conhecidos como mitos, expressam suas crenças funda­
me ntais sobre a natureza das coisas, especialmente sobre a natureza dos seres
hu ma nos e suas relações com seus ancestrais, espíritos e deuses.

O Demônio que Destru iu a Si Mesmo


C e rta vez Basma, o demônio, estava aprendendo a rte e c i ê n cias com o
de u s l s hvara. Parvat i , a esposa de l s hvara, ficou i m p ressionada com o a l u n o
e i m p l o ro u q u e l shvara l h e desse u ma bê nção especial. Finalmente, p o r cau s a
da i ntercessão d e Pa rvat i , l s hvara deu ao demônio u m mantra sec reto c o n h e­
c i do como a "es s ê n c i a mágica do fogo" , q u e l h e dava o pod e r de t ran sfo rmar
tu d o o que tocas s e e m fogo e cinzas .
As Difere nças Cultur a i s e a Meus"
• • g e l'tt
176

Com o tempo, Basma se apaixonou por Pa rvati e s e c retame nte p e n s o


em s e d u z i - l a . D e c i d i u tocar l shvara e q u e i má-lo, mas q u ando l s hvara 0 v i u s u
e
a p roximando, f u g i u .
M aha V i s h n u , o g rande deus, viu isso e decidiu pôr fim no demônio. To m o u a
fo rma de u ma m u l h e r ainda mais bela e c riou u m balanço de o u ro. Q uand o
Basma viu a m u l h e r balança n do-se e cantando canções de amor, fic ou i m e­
diatamente apaixonado por "ela" e lhe perg untou quem era. "Não vê que so u u ma
m u l her?", Vis h n u disse.
- Você é casada? - Perg u ntou Bas ma.
- N ão. - Disse Vis h n u .
- Você s e cas a rá comigo? - I mploro u o demônio.
- S i m , mas não ac redito n os home n s . Coloq u e sua mão s o b re a cab eç a
e p rometa q u e s e rá fi el a mim e n u nca me deixará . - D i s s e Vis h n u .
B a s m a , q u e estava t ã o apaixo n ado, s e e s q u e c e u q u e s u a m ã o er a
e n feitiçada. Toc o u a cabeça, j u ro u fidelidade à l i n d a m u l h e r e e ntão foi cons u ­
m i d o até as c i nzas.

Adaptado de Gananath Obeyesekere, The cult of the goddess Pattini (Chicago: University
of Chicago Press, 1 984), p. 1 1 3- 1 1 4. © 1 984 University o! Chicago P ress.

'

No caso das religiões universalistas, como o budismo, o islamismo e o hin-


duísmo, esses contos e as teologias religiosas a eles relacionadas são codific a­
dos em escrituras sagradas como, por exemplo, o Tripitalw (budismo), o Corão
(islamismo) e os Vedas e Puranas (hinduísmo) .
Cultura Ritualística
Os missionários acham particularmente dificil lidar com os rituais da nova
cultura, uma vez que, geralmente, tratam das experiências mais p rofu nd a s
da vida humana e refletem as crenças mais íntimas das pessoas. Como o s
cristãos devem reagir a eles?
Todos os povos enfrentam a questão do significa ­
Ritos d o ciclo d a vid a .
do da vida. E todos eles o fazem, em parte, marcando as transições imp ortan­
tes da vida com rituais, tais como os de nascimento, iniciação à vid a adulta,
casamento e morte. Esses ritos geralmente nos mostram os pressupo sto s ma is
significativos dos povos sobre a natureza e o destino dos seres humanos e seu
lugar no mundo.
Uma criança não se torna um ser humano simplesmente pelo nas cimento
biológico. Ela deve ser transformada num ser social, um membro da so cie d�­
de . Isso em geral acontece por meio de ritos místicamente criativos nos qu ais
um bebê se torna um ser humano. Entre os chaggas, da África, por ex e mp lo ,
o bebê é formalmente apresentado aos parentes ela mãe no quarto dia ap ó s 0
nascimento . Uma semana depois ele se torna um membro do clã patern o atra ·
con tex t ua lização Crític a 1 77

v ' s de uma cerimônia complexa. Depois de mais um mês, é levado para fora e
;guido em direção ao topo nevado do Kilimanjaro com uma oração: "Deus e
� uia , leva 77essa criança, guarda-a e deixa-a crescer e subir como fumaça!"
(Ta ylo r 1 9 :9 4- 95) . ,
D ep ois de um nascimento, os gikuyus do leste da Africa enterra m a pla ­
ce n t a num campo não-cultivado e a cobrem com grãos e capim para gara nti­
relll a fo rça da criança e a fertilidàde contínua da mãe . O pai corta quatro
ca n as se a criança for uma menina, e cinco, se for um menino. Dá o caldo para
a m ã e e para a criança, enterra o bagaço no lado direito da casa, se for um
me n ino, e no lado esquerdo, se for menina. Sacrifica uma cabra para celebrar,
e 0 c ura ndeiro é c_h amado para purificar a casa. A mãe e a criança são man tidas
e lll reclusão por quatro ou cinco dias, e o marido sacrifica uma ovelha em
agr a de cimento a Deus e ao morto-vivo.
Omodo

Walter A. Trobisch
Em u ma d e m i n h as'viagens f u i até u m a i g reja af ricana onde n i n g u é m me
con hecia. Depois d,o c u lto, co nversei com dois rapazes q u e também estavam
lá.
- Q u antos i rmãos você têm? - Pe rg u ntei ao p ri m e i ro.
- Três .
- E l e s s ã o d a mesma mãe?
- S i m , meu pai é c ristão.
- E você? - Perg u ntei ao outro rapaz.
E l e hesito u . Estava somando mentalmente, e logo vi que e l e vinha d e uma
fam í l i a p o l igâmica.
- Somos nove. - E l e disse f i n a l m e nte.
- Seu pai é c ristão?
- N ão , ele é p o l ígamo. - Foi a resposta t ípica.
- Voc ê é batizado?
- S i m , e meus i rmãos e i rmãs tamb é m . - Ac rescentou o rg u l h o s a m e nte.
- E as mães?
- Todas as t rês são batizadas, mas s ó a p r i m e i ra esposa toma a C e i a .
- Leve- me a t é s e u pai.
O rapaz m e levou até u m complexo c o m m u itas casas . Exalava uma
atm osfe ra d e limpeza, o rdem e riqueza. Cada esposa t i n h a s u a p ró p ria casa e
s u a p rópria cozi n h a . O pai, u m s e n h o r de meia-idade, de boa aparê n c i a , alto,
g o rdo, q u e i m p ressio nava , m e recebeu sem con stran g i m e nto e com aparente
alegria. Achei O rnado, como o c hamaremos, uma pessoa b e m - e d u cada, a n i ­
mada e i nte l i g e nte, com u m s e n s o de h u m o r sagaz e ra ro. A p r i n c íp i o e l e n ã o
s e d e s c u l p o u p o r s e r pol ígamo, t i n h a o rg u l h o daq u i lo. Perm itam- m e t e n t a r ex­
p l icar aq u i a essência d o conte údo de nossa convers a daq u e l e d i a , q u e d u ro u
m u itas h o ras .
1 78 As Difere nças Culturais e a M e n s
a geltl

- Seja bem-vindo à casa de um pobre pecador! - As palavras foram ac


o rn -
pan hadas por uma generosa risada.
- Parece um rico pecador. - Retruquei.
- Os santos raramente aparecem neste lugar, - ele disse - , não qu erern
ser contaminados pelo pecado.
- Mas eles não têm medo de receber suas esposas e seus filho s. E u 08
encontrei na ig reja.
- Eu sei. Dou a cada u m uma moeda para o gazofi lácio. Acho qu e fin anc io
metade da renda da ig reja. Estão felizes em receber meu d i n h e i ro, mas n ão rn e
querem.
Sentei-me pensando silenciosamente. Depois d e u m instante ele continuou .
- Tenho pena do pastor. Recusando a aceitar todos os homens pol íga m os
da cidade como membros da ig reja, deixou seu rebanho pobre e estará sempre
dependendo dos subsídios da América. Ele criou uma ig reja de m u l heres, a
q u e m todos os domi ngos ele diz q u e a poligamia é e rrada.
- Sua m u l h e r não ficou t riste q u ando você tomou uma segunda esposa?
O rnado olhou�me q u ase com pena.
- Foi o seu dia mais feliz. - Ele d isse finalme nte.
- Conte-me como acontece u .
- Bem, u m dia d epois de chegar a casa, vindo do jardim e de co rtar lenha
e buscar água, ela estava p reparando o jantar._enquantií> eu sentava em frente da
m i n h a casa e a observava. De repente ela se virou e zombou de mim. Me cha­
mou de "homem pobre" porque tinha uma m u l h e r só.' Ela mostro u a esposa de
nosso vizinho q u e pod ia c u idar dos filhos enquanto a outra esposa p reparav a a
comida.
- Homem pobre. - Repetiu O rnado. - Posso agüentar mu ita coisa, mas
não isso. Tive de admitir q u e ela estava ce rta e q u e precisava de aj uda. Ela
h avia escolhido u ma segunda esposa para mim, e estavam-se dando bem.
Olhei ao red o r e vi u ma mulher jovem e bon ita, com u n s 19 ou 20 anos,
v i n d o d e u m a das cabanas.
- Foi um sac rifíc io para mim. - O rnado comento u . - Seu pai me exi gi u
u m p reço m u ito alto por u m a noiva.
- Você quer d izer que a esposa que o fez se tornar um pol ígamo é a única
da s u a família q u e toma a Ceia?
- S i m , e l a contou ao missionário a dificuldade que tinha de compa rtil ha r
o a m o r do marido com outra m u l h e r. Segundo a i g reja, m i n has esposas n ão
são consideradas pecad o ras po rq u e cada uma delas só tem u m marido . Eu , o
p a i , sou o ú n ico pecad o r de nossa fam ília. Como a Ceia do S e n h o r não é
ofe recida a pecadores, sou exc l u ído dela. O s e n h o r entende isso, pastor?
Eu estava total mente confuso.
- E veja só, - conti n u o u O rnado -, todos estão o rando p o r mim p a ra
q u e eu possa s e r salvo do pecado porq u e não concordam s o b re q u a l pe cad o
·

d evo s e r salvo.
- O q u e q u e r dizer?
- Bem, o pastor ora para que eu não conti n u e com o pecado da poliga m ia .
co n t
ex tua lizaç ão Crí tica 1 79

q u e eu não com eta o pecado do d ivórcio. Fico


M i n h as espos as o ram para
sa ndo qual o ração é ouvida primeiro .
p en
_ E ntão s u as esposas têm medo de q u e você se torne c ristão?
_ Têm medo d e que e u me torne um m e m b ro da ig reja. D e ixemos isso de
mim há uma d ife re nça . Veja só, elas s ó podem ter relações íntimas
lado . Pa ra
m
c o igo en quanto e u não pertencer à ig reja. N o momento e m que e u me to rnar
m e m b ro da ig reja , s u as relações mat rimon ias comigo se tornarão pecamino-
s as .
- N ão gostaria de se tornar membro da i g reja?
- Pastor, não me l eve à te ntação! Como posso me tornar um m e m b ro da
ig reja se isso s i g n ifica desobedecer a Cristo? C ri sto p ro íbe o d ivó rcio, mas não
a p olig am ia. A ig reja p ro íbe a poligamia, mas aceita o d ivórcio. Como posso
m e to rnar m e m b ro d a i g reja se desejo ser c r i s tão? Para mim só há um cami­
nho, s e r c ristão s e m ig reja.
- O s e n h o r a l g u m a vez falou corrrs e u p astor sobre isso?
- Ele não ousa falar comigo porq u e sabe tão bem q u anto e u que a l g u n s
de seus diáconos t ê m u m a s e g u nda esposa às s;iscond idas . A ú n ica d iferença
é que eu sou h o nesto, e eles, hipócritas .
- A l g u m missio nálio já conversou com o s e n h o r?
- S i m , u m a v13z. Eu l h e disse q u e com os altos índices de d ivórcio n a
E u ropa, eles apenas têm u m a forma s u cessiva d e poligamia e n q u anto n ó s
temos u m a poligamia s i m u ltânea. O res u ltado ? E l e n u nca m a i s vo lto u .
Fiquei estarrecido. O rnado me aco m p a n ho u até a aldeia. Evidenteme nte
ele ficou fel i z por ter sido vis itado por um past o r.
- Mas me d i g a , p o r q u e você tomou u ma t e rc e i ra esposa? - Perg u ntei­
lhe.
- E u não a tom e i . H e rdei-a de meu ú ltimo i rmão, i n c l u i n d o seus f i l h o s . Na
ve rdad e , meu i rmão mais velho teria sido o p róximo na l i n h a g e m . Mas e l e é u m
ancião. N ão l h e é permitido pecar dando s e g u rança a u m a vi úva.
O l h e i nos seus o l h o s . - O s e n ho r q u e r se tornar c ristão ?
- Eu sou c ristão. - O rnado disse s e m so rri r.
E n q u anto eu a n d ava l e ntame nte pelo c a m i n h o veio - m e à m e nte este
ve rs ícu l o : "G u ias cegos! que coais o mos q u ito e e n go lis o camelo".
O q u e s i g n ifica s e r res ponsáve l por u m a con g regação como a de O rnado?
Lame nto não ter- m e e ncontrado com Ornado novamente p o rq u e o conheci
nu ma viag e m . Apenas contei a essência d e n ossa co nversa p o rq u e e l a con­
t ém res u midamente as princi pais atitudes dos pol ígamos para com a i g reja.
Sempre é m u ito saudável nos vermos com os o l h os dos outro s .
Perg u ntei-me: O q u e t e r i a feito se fosse o pasto r na c idade de O rn a d o ?

De Walter A. Trobisch, "Congregational responsibility for t h e Christian individual", in Readings


in Missionary Anthropo/ogy li, org . William A. Smalley (South Pasadena: William Carey Library,
1 978) p. 233-235. Utilizado com permissão.
180 As Diferenças Culturais e a M e n s a
ge lll

Na maioria das sociedades, o casamento é o ritual central da vida. E le �eor.


ganiza a ordem social tirando um ou os dois cônjuges da casa paterna. O a
menta estabelece uma família e trata de fertilidade e filhos e sem p re ss a:
associado com significados religiosos profundos. Entre os bhotiyas do Tib e � t a
processo dura pelo menos três anos! Alguns dos passos importantes p a ra c:' 0
prir são: (1) os astrólogos determinam se o casamento será favorável; (2) to.­
tios da moça e do rapaz agem como intermediários e trazem pre se ntes P a 1�s
um e p ara o outro à medida que são feitas as promes15as; (3) os interme diado r ªs
oferecem uma festa e invocam as bênçãos dos deuses sobre o casal; (4) um a �
depois, todos os parentes dos dois lados participam de uma grand e fe sta, e �
preço da noiva é p ago; (5) um ano mais tarde o astrólogo determina o temp o
adequado para a noiva se upir a seu marido, os lamas, ou sacerdotes, vê m
para celebrar, dois "ladrões"' tentam roubar a moça e são expulso s, os convid.a.
dos dão presentes P ª1i� a noiva, e ela volta para casa; e (6) depois de m ais um
ano os pais dão à noiva seu dote, e ela é escoltada até a casa do rapaz. A
cerimônia de casamento então está finalizada.
Entre os rituais mais temidos estão os funerais. Acredita-se que o espírito
do morto se une aos ancestrais ou permanece ao redor da casa por alguns
anos, influenciando as coisa s dos vivos. Os funerais também podem atrair
espíritos maus que lançam pragas nos parentes níais próximos.
Esses tipos de crença são encontrados entre os kols da Índia (Van Gennep
1960 : 1 5 1) . O corpo é colocado no chão logo depois da morte para que a alma
possa encontrar seu caminho até a casa dos mortos, sob a terra. O corpo é
lavado e pintado de amarelo para afugentar os espíritos maus que tentam
impedir a alma de sua jornada. Em seguida é colocado sobre uma pira, junta·
mente com arroz e as ferramentas do faleci do. Bolos de arroz e moeda s de
prata para a viagem até o mundo inferior são colocados na boca do defu nto.
Depois da cremação, os homens juntam os ossos e os reúnem num pote que é
pendurado na casa do morto. O arroz é jogado ao longo da estrada para que,
se o falecido voltar, a despeito de todas as precauções, tenha alguma cois a
para comer e não machuque ninguém. Depois de um tempo, "casa-se" o fale ci·
do com os espíritos do mundo inferior através de cantos, danças e fe stas. Fi·
nalmente, os ossos são enterrados em um campo.
O ritual do ciclo da vida menos entendido pelos missionários ocide ntais é 0
da iniciação. Na maioria dos lugares do mundo, a s crianças são trans forma ·
das em adultos através de um ritual que sempre implica testes de sofrimen to,
separação dos pais e da comunidade e a iniciação nos papéis dos adulto s . Aque les
que não passam por esses rituais são,considerados crianças ou homens inco:rn·
pletos, não importa a idade.
Os chaggas do leste da África, por exemplo, possuem diversos rituais que
marcam a entrada na idade adulta. Quando as crianças chegam à p ub e r� a ­
de, suas orelhas são furadas. De um lado essa cerimônia as une de mane ira
especial a seus avós paternos e de outro, aos tios maternos. Em segui da sã o
contex tualização Cr ítica 181

rimo nialmente introduzidas no trabalho doméstico e na lavoura e, como


�eeconhe cime nto de sua nova posição, pela primeira vez podem provar cerveja
1 arne de caça. Desse momento em diante, os jovens adultos são ensin ados a
;ecsp eitar seus ancestrais por meio de recitaç �o de hist?ri� s . e ca�çõe � . E ntão,
qua nd o est ão com cerca de doze anos, seus dois dentes mc1s1vos mfenores são
lllovidos e oferecidos ao primeiro ancestral. Finalmente, são circuncidados
: ulll ritual que transforma
ília.
meninos e meninas em homens e mulheres ple­
nos de ntr o da fam
Nes ses rituais, os iniciantes geralmente são considerados mortos para o
!llundo infantil e renascidos para o mundo adulto. Por exemplo, os kores do
oe ste da África levam os meninos para a floresta durante quinze dias. O bos­
que da iniciação fica situado no lado oeste da aldeia, símbolo da morte que
devem e xperimentar. Ali, os mais velhos os chicoteiam com galhos espinhen­
tos e tochas incandescentes. Os prim".jros significam a dor de deixar a vida
anterior e as dificuldades de adquirir novo conhecimento. As últimas repre­
sentam a iluminação divina.
O s iniciantes agora são considerados "mortos", enterrados no bosque e ro­
deados por cercas de es]:1inho. Mas também são embriões prontos para renas­
cer como adultos. A� mães trazem comida para o bosque, mas não vêem seus
filhos, que permanecem completamente passivos e sozinhos e devem ser ali­
mentados pelos mais velhos.
Finalmente, os noviços são cobertos com um coberta grande de pele de
animal e um líder canta uma prece de ressurreição e fertilidade: "Se o céu é
curvo, então choverá. Que o milho seja abundante, os nascimentos se multi­
pliquem, a doença se vá, os 'mortos' [os iniciantes] revivam para sempre, sem­
pre e sempre" (Ray 1976:93}. Quando a coberta é removida, os noviços renas­
cem como adultos.
Alguns ritos de iniciação implicam uma introdução à vida sexual. Sobre os
rit uais elaborados de iniciação das mulheres de Banaro na Nova Guiné,
Rich ard Thurnwald escreve:

[Durante nove meses] as meninas são confinadas num cubículo na casa


da família, recebendo sopa de sagu no lugar de água . . . . . Depois, o cubículo é
des montado pelas mulhere s , as me ninas são soltas, permitindo-se que aban­
do nem a casa. As mulheres pegam cocos deixados à mão e os atiram contra
as garotas, que finalme nte são jogadas na água, novamente surradas com os
co co s . As meninas se arrastam p ara fora da água até o barranco, recebem
p orç ões de sagu e carne de p orco e são vestidas e enfeitadas com brinco s ,
P endentes d e nariz, colares, braceletes e ervas aromáticas. Depois disso, ocorre
um a dança das mulheres .
N e s s a m e s m a noite . . . o s homens s e reúnem n a s r u a s da aldeia. O s
an ciãos s e aconselham mutuamente combinando a distribuição d a s meninas
s e gundo o costume. Esse costume me foi explicado da seguinte maneira . O
Pai do noivo escolhido é quem realmente deveria possuir a garota, m a s fica
182 As Diferenças Culturais e a Me n s
a ge iq

"e nvergo nhado" e pede a seu irmão, seu nmndu, que a inicie nos mis té r o
vida de casada e m seu luga r . Este homem concorda e m fazê -lo. A mã 8 a
i d
m e nina a leva p ara o p a i do noivo, e diz à filha que ele a leva rá p a r a en
e d a
co n.
trar o d uen d e . . . .
N ã o é permitido que o noivo a toque até que ela tenha u m filho. A c r ia n
é chamada de criança-duende . Qua ndo a criança-duende nasce , a m ã e d?�
"Onde está o teu pai? Quem se envolveu comigo?" . O noivo respond e: "Eu n�z.
sou o pai; ela é uma criança-duende" ; e ela retruca: "Eu n ã o sabia que tiv0

r e l a ç õ e s c o m u m due nde" . [Re i m p r e s s o da A m e r i c a n A nthrop o lo gi ca
Association M e moir Nº. 3, "Bánaro Society: social organization a nd ki ns hip
sys tem of a tribe in the interior of New Guinea ", 260-262, 1 9 1 6. Não é p
er­
mitida reprodução sem permissão do editor.]

O noivo banaro, por sua vez, é iniciado sexualmente pela espos a do amigo, ·

de seu avô.
Rituais de cura e prosperida d e . Todas as sociedades buscam a prosp eri­
dade, seja na forma de filhos, de boas colheitas, de sucesso no amor ou de poder
especial. E todas enfrentam crises de doença, morte, secas, enchentes, terremo­
tos etc. Toda sociedade também possui conhecimento popular comum p ara lidar
com esses problemas. Mas o que acontece qJJ.ando olconhecimento humano fa.
lha? Nesse momento, muitas pessoas se voltam para seus rituais religiosos ou
mágicos buscando obter respostas.
Por exemplo, na Guiné, no oeste da África, as moças oferecem para um
curandeiro bonecas esculpidas representando mulheres amamentando crian­
ças com o fim de garantirem a grav idez, enquanto os moços atiram com armas
e brandem espadas para expulsar os demônios. Entre os chukchees, o xamã
fica possuído por um espírito de cura, fala em línguas estranhas e vai p a ra o
espírito do mundo trazer de v olta a alma do paciente que se desviou. O s gre·
gos no Nov o Testamento buscav am oráculos que previam o futuro e ajuda·
vam seus clientes a e v itar o perigo.
Muitos povos têm medo de espíritos maus e possuem meios de e xorcizar
demônios de indiv íduos ou de cidades inteiras. Em Bali as pess oas faze m
uma festa para os demônios, dispondo-os numa encruzilhada fora da aldeia .
Eles então le v am os espíritos para fora, à festa, acenando com tochas aces as
no templo sagrado e fazem bastante barulho. Então, de repente , tu do fic a
em silêncio enquanto as pessoas roubam a casa, deixando os espíritos fe s t e­
jar. O silêncio continua durante todo o dia seguinte e ninguém trab alh � ·
Depois da festa, os demônios querem v oltar para casa. Não ouvindo Illª 15
nenhum barulho, acreditam que a aldeia é unia ilha deserta e fo ge m.
Ciclos An uais
Muitos ri tuais são corporativos em sua natureza e celebrados pela s o cie da·
de como um todo. Entre eles estão os ciclos anuais que marcam transiç õe s 110
co
n tex tua l izaçã o Crít ica 1 83

s como o início do ano, os ciclos da semana ou da lua, a plantação e


teillp o� ttaai da safra e outros ritos de fertilidade e de mudança das estaçõ es.
8
colh i x plo, os chineses costumavam fechar o portão entre
por e em as partes
gol e chinesa da cidade de Pequim por meia hora, à meia-noite da pas sa­
Jllge�n do Ano Novo. Pedaços de papel vermelho e coisas semelhantes eram amar­
� dos nas portas das casas e dos armários. Depois disso, eram oferecidos sacri­
s aos ancestrais e às divindades, e todos os parentes comiam juntos para
:Iioebrar o Ano Novo. Muitos chineses ainda observam a Festa dos Espíritos da
�ome, e m que os espíritos de ancestrais que vagueiam são alimentados a fim
de serem satisfeitos e evitar que perturbem os vivos.
D e maneira semelhante, os hindus, os muçulmanos e os budistas têm mui­
tos rituais anuais que marcam importantes momentos em seus calendá rios
religios os. A estes devemos acrescentar muitos ritos nacionais e seculares como
dias de indepe ndência, dias de finados �, datas de nascimento de grandes he-
róis .
Fes tas, Festivais, Feiras e Peregrinações
As pessoas gostam de"celebrações. Portanto, não devemos nos surpreender
se aproveitam qualqlJ,er ocasião para cantar, dançar, brincar e comer juntas.
Há festas de todos os tipos: seculares e religiosas, de alegria e de tristeza,
locais e nacionais. Por exemplo, todos os muçulmanos celebram o Ramadan e
o Jd Al-Kabir e muitos observam as festas dos wali ou santos. Os chineses
budistas separam onze dias depois do Ano Novo para uma festa de súplica e
honra a vários Bodhisattvas, ou deuses inferiores, durante o ano. Os hindus
celebram o Holi, Divali, Ugadi, Shivaratri e muitas outras festas. Um estudo
em um vilarejo indiano revelou que havia ali festas hindus, muçulmanas,
cristãs, celebração de castas, em mais de trezentos dias do ano!
O s cristãos também têm suas festas religiosas, incluindo o Dia de São To­
m ás à B ecket (29 de dezembro), a Epifania (6 de janeiro), a Quarta-feira de
Cinz as (primeiro dia da Quaresma), Páscoa, Dia de Ascensão, Pentecostes, e
claro, o Natal.
A maioria das culturas possui muitos outros ritua i s, como festas religiosas
co m fe iras e shows, apresentações teatrais e musicais e procissões religiosas;
fe stas p úblicas e celebrações, acontecimentos esportivos e peregrinações a san­
tu ários dist antes.

Lidando com a Tradi ção

Como os cristãos devem reagir a tudo isso? Como os novos convertidos se


r� lacio na m com seu passado cultural - com a comida, o vestuário, os remé­
dto s , as canções, as danças, os mitos, os rituais e todas as outras coisas que
c o nstituíam uma grande parte de suas vidas antes de ouvirem o evangelho ?
Q ual a responsabilidade que os missionários têm com as igrejas jovens com
184 A s Diferenç a s Culturais e a M e n s a
g e llt

respeito a tudo isso? Até onde o evangelho pode ser adaptado a uma cult
sem perder a essência de sua mensagem? E quem deve tomar as decisõe s 8 �a
a velha cultura? Estas são questões cruciais que enfrentamos consta ntem�n�e
em nosso trabalho. e

Negação do Velho: Rejeição da Contextualização


Os primeiros missionários geralmente tomavam as decisões e ti nharn
tendência de rejeitar a maioria dos velhos costumes conside rados "p a gã os'�
Tambores, canções, teatros, danças, ornamentos para o corpo, certo s tip os d�
roupa e comida, costumes matrimoniais e ritos funerários eram freqüe nte mente
condenados porque se pensava que estavam direta ou indiretame nte relacio­
nados com as religiões tradicionais, inaceitáveis para os cristãos.
Às vezes, essa rejeição estava enraizada no etnocentrismo dos m issio nário�,,
que tinham a tendência de comparar o evangelho com sua própria cultura e
conseqüentemente, julgavam outros costumes culturais ruins. No entanto, al�
guma vezes, os missionários até mesmo percebiam que nas culturas tradicio­
nais é dificil traçar uma linha clara entre práticas religiosas e não-religiosas.
Em muitas sociedades, a religiã o é o cerne da cultura e permeia toda a vida -
não há divisão entre crenças sagradas e seculares, comportamentos e institui­
ções, como há nas sociedades modernas. Ainda, esses missionários achavam
que a maioria dos costumes, porque tinham conotações religiosas, deviam ser
indiscriminadamente rejeitados.
Toda essa rejeição aos velhos hábitos culturais criou muitos problemas.
Primeiro, deixou um vácuo cultural que precisava ser preenchido, e com fre ­
qüência isso era feito importando os costumes dos missionários. Tambores,
címbalos e outros instrumentos tradicionais eram substituídos por órgã os e
pianos. Em vez de se escreverem novas letras que se adequassem à música
daquele povo, os hinos e melodias ocidentais eram traduzidos para o idioma
local. Colchões substituíram tatames no chão, e foram construídas igreja s e m
estilo i�lês e americano embora parecessem dissonantes ao lado de wichiups*
e casas de barro. Ternos ocidentais eram exigidos dos pastores que pre gavam
em altas temperaturas para platéias pouco vestidas. Não é de surp ree nder
então que o cristianismo sempre fosse visto como uma religião estra nha, e os
cristãos convertidos, como estranhos em sua própria terra.
Também não é de surpreender que o cristianismo fosse sempre mal- e nte n·
dido. Por exemplo, os missionários na Índia rejeitavam sáris vermelhos para as
noivas porque essa cor era usada pelos hindus. Em seu lugar introduzir am os
sáris brancos para simbolizar a pureza, não percebendo que na Índia o ve rme·
lho significa fertilidade e o branco, esterilidade e morte.

• Wickiups : També m wikiup . Uma estrutura cm forma de cabana recoberta com casca s de árvores
e galho s , usada pelos índios nômades da América do Norte (N. do T . ) .
contex tua l ização Crítica 1 85

Um segundo problema com a supressão dos velhos hábitos culturais é que


sim ple smente continuam às escondidas. Por exemplo, não é incomum que
elae sÁfrica as pessoas realizem um casamento cristão formal na igreja e depois
n
"ão até a aldeia para as celebrações tradicionais. A longo prazo, quando os
s tumes p agãos são p raticados em segredo, eles se combinam com os
�onsinamentos cristãos públicos para formarem o cristopaganismo - uma mis­
tura sincré tica de crenças cristãs e não-cristãs. Por exemplo, os escravos afri­
canos n as c asas da América Latina ensinavam as crianças de seus senho res a
ador ar esp íritos africanos. Quando as crianças cresciam e se filiavam. à igreja
católica romana, combinavam a veneração católica dos santos e a religião tribal
afric ana em novas formas de adoração aos espíritos, praticadas por u m
adora dor cristão.
Um terceiro problema com a condenação total das culturas tradicionais é
que ela não só transforma os missioná �!os e líderes da igreja em policiais, mas
impe de que os convertidos cresçam, negando-lhes o direito de tomar suas pró­
prias decisões. Uma igreja só cresce espiritualmente se seus membros aprendem
a aplicar os ensinamentos do evangelh o a suas próprias vidas.
,,
Aceitação do Velh'! : Contextualização A crítica
Uma segunda resposta às práticas tradicionais tem sido aceitá-las acrítica­
me nte na igreja. Nela, os velh os hábitos culturais são vistos como basicamente
bons, e poucas ou nenhuma mudança é considerada necessária quando as pes­
soas se tornam cristãs.
Aqueles que defendem essa abordagem geralmente têm um profundo res­
peito por outros homens e suas culturas e reconhecem o alto valor que as pes­
soas dão às suas próprias heranças culturais. Eles também reconhecem que a
"estranheza" do evangelho tem sido uma das maiores barreiras a sua aceitação
em muitas partes do mundo. Conseqüentemente, buscam uma contextualização
acrítica que minimize a mudança na vida dos convertidos.
E sta abordagem também tem sérias deficiências. Primeiro, ela despreza o
fato de que h á pecados corporativos e culturais bem como transgressões pes­
soa is. O pecado pode ser encontrado e m instituições e práticas de uma socieda ­
de na forma de escravidão, estruturas opressivas e secularismo. Ele é encon­
trado nas crenças culturais das pessoas e apresentado como orgulho do gru po,
se gregação das pessoas e idolatria. O evangelho chama não só os indivídu os,
ina s as culturas e sociedades, a mudarem. A contextualização deve significa r
a co m unicação do evangelho de maneira que as pessoas entendam, mas tam­
bé m as desafie individual e corporativamente ·a deixarem seus costumes peca­
ntinosos.
Te ndo em vista que a primeira geração de convertidos sempre sente com
lll a is p ro fundidade este chamado à mudança, os que dela participam são m ais
fh·mes ao rejeitarem costumes específicos de seu passado. Também sabem muito
be m os significados desses velhos hábitos e agora que são cristãos não querem
1 86 As Diferenças Culturai s e a M e n s a
ge lll.

mais nada com eles. No entanto, essa rejeição pelas pessoas é ra dicab:ne
diferente das mudanças impostas de fora sobre elas. nte
Uma segunda deficiência na contextualização acrítica é que ela ah re
porta para o sincretismo de todos os tipos. Se os cristãos permane ce m a
práticas e crenças que se colocam em oposição ao evangelho, com o temp o ��lll.
irão se misturar à fé recentemente instaurada e produzir várias fo rmas �s
neopaganismo. Obviamente os novos convertidos trazem com eles a m aior · e
de seus costumes do passado e não podem mudar imediatamente toda s aqu1�
las coisas que precisam ser mudadas. Até mesmo os cristãos maduros tê m muit:s
áreas de suas vidas que precisam ser examinadas à luz da verdade bíblica
Mas todos eles devem crescer na vida cristã e isso implica continuarem a t es :
tar suas ações e crenças em relação às normas das Esc r i t u ras . N u m a
contextualização ingênua, é exatamente essa crítica que se perde.
Lidando com o Velho: Contextualização Crítica
Se tanto a rejeição como a aceitação acrítica dos velhos costumes abalam a
tarefa missionária, o que nós e os cristãos convertidos devemos fazer com a
herança cultural deles? Uma terceira abordagem pode ser chamada de
contextualização crítica, pela qual as velhas crenças e costumes não são rejei­
tados nem aceitos sem exame. Eles são estudados primeiramente com respeito
aos significados e lugares que têm dentro de seu ambiente cultural e ent ão
avaliados à luz das normas bíblicas (Figura 25) .
Como isso ocorre? Primeiro, um indivíduo ou a igreja deve reconhecer a
necessidade de lidar biblicamente com todas as áreas da vida. Essa compreen­
são pode surgir quando uma nova igreja está diante de nascimentos, cas a­
mentos ou mortes e de ve decidir como devem ser os rituais cristãos, casamen­
tos ou funerais. Ou pode emergir quando as pessoas da igreja reconhecem a
necessidade de examinar certos costumes fundamentados culturalmente.
Discernir as áreas da vida que precisam ser criticadas é uma das funções
importantes da liderança da igreja, porque o fracasso de uma igreja ao lida r
com essa cultura que a cerca abre as portas para práticas não-cris tã s que
penetram numa comunidade cristã desavisada. Isso pode ser obse rva do na
maneira que nós, nas igrejas ocidentais, temos sempre adotado in discrimi­
nadamente a prática de datas, casamentos, funerais, música, entretenime n­
to, estruturas econômicas e tradições políticas ao nosso redor. Nunca devemos
esquecer que nossa fé nos chama a novas crenças e a uma mudança de vida .
Segundo, os líderes da igreja local e o missionário devem condu zir a con­
gregação a uma reunião não crítica e analisar os costumes tradicionais as so­
ciados com a questão. Por exemplo, ao lidar com rituais funerários, as p e s so as
devem analisar seus ritos tradicionais - primeiro, descrevendo cada canç ão ,
dança, recitação e rituais que enfeitam a cerimônia - depois, discutin do s e u
significado e funções dentro de todo o ritual. O objetivo aqui é enten de r �s
velhos hábitos, não avaliá-los. Se neste ponto mostrarmos qualquer crítica as
contextua lizaç ão Crítica 1 87

feesnçeraesme condenadas e assim estaríamos apenas incentivando a prática secre­


práticas, as pessoas não falarão abertamente sobre elas com medo

ta d os velhos cost umes.


Nu m te rceiro passo, o pastor ou missionário deve dirigir a igreja num estu­
do b íblico relacionado com a questão em consideração. Por exemplo, o líder
o de us ar a ocasião de um casamento ou de um funeral para ensinar as cren­
� a s cris tãs sobre casamento ou morte.
E ste é um passo crucial, porque se as pessoas não entenderem e não aceita­
rem com clareza os ensinamentos bíblicos, não serão capazes de lidar com seu
p a ssado cultural. E é aqui também o momento em que o pastor e o missio nário
tê m mais a oferecer - a exegese da verdade bíblica. No entanto, é import ante
que a con gregação seja ativamente envolvida no estudo e na interpretação das
Escritu ras para que cresça em sua própria capacidade de discernir a verdade.
O quarto passo é a congregação ayaliar criticamente seus próprios cpstu­
mes do passado à luz do novo entendifuento bíblico e tomar uma decisão com
respeito a suas práticas. É importante que as pessoas tomem decisões por elas
mesmas, porque devem ter a certeza do resultado antes de mudarem. Não é
suficiente que os lídere'S fiquem convencidos das mudanças que possam ser
necessárias. Os líderes podem compartilhar suas convicções pessoais e apontar
as conseqüências dé' várias decisões, mas devem permitir que as pessoas tomem
a decisão final, se não quiserem se tornar policiais. No final, as pessoas por si
mesmas irão reforçar idéias recebidas corporativamente, e haverá pouca pro­
babilidade de que os costumes que rejeitam ocorram de maneira escondida.
Envolver as pessoas na avaliação de sua própria cultura revigora sua for­
ça. Elas conhecem sua cultura melhor que o missionário e estão numa posição
privilegiada para criticá-la uma vez que tenham a instrução bíblica. Além do
mais, elas crescerão espiritualmente aprendendo a aplicar os ensinamentos
das Escrituras em suas próprias vidas.
Uma congregação pode reagir a velhas crenças e práticas de diversas ma­
neiras. Muitas serão mantidas porque não são antibíblicas. Os cristãos oci­
d e ntais por exemplo, não vêem problema em comer hambúrguer, cantar mú­
sicas seculares, vestir ternos ou dirigir carros. Em muitas áreas de suas vidas
s ua cultura não é diferente da de seus vizinhos não-cristãos e muito foi trazido
de se u passado pré-cristão.
Outros costumes serão explicitamente rejeitados pela congregação por se­
rem considerados impróprios para os cristãos. As razões para tal rejeição ge­
ralme nte não são aparentes ao missionário ou àquele que está de fora, q ue
P ode ver pouca diferença entre as canções e os ritos que as pessoas rejeita m e
aque le s que mantêm. Mas as pessoas conhecem os significados ocultos mais
P rofundos de seus velhos hábitos e o significado deles na cultura. Por outro
lado, e m alguns momentos, é preciso que o missionário faça questiona mentos
qu e as pessoas desprezaram porque elas geralmente não consegue m en xer­
gar co m clareza seus próprios pressupostos culturais.
FIGURA 25

Lidando com os Velhos Costumes

Negaçã o do Velho
-e: O Evangelho é E strange iro� É Reje ita do

(Rejeição da O Velho Permanece Oculto � Sincretismo


Contextualização)

Velhas
Crenças,
R ituais, (1) (2) (3) (4)
i
H istórias, Lidando com Reúne estuda A valia Cria
Canções, o Velho informação ensinamentos o velho uma nova
Costumes, (Contextualização acerca do velho b1blicos sobre à luz dos prática
� c o n textual iza ç ão
Arte, Crítica) os acontecimentos ensinamentos cristã
M úsica , etc. b1blicos contextua-
lizada

Aceitação Acrítica � Sincretismo


d o Velho
(Contextualização
Acrítica)
contex t u a lizaçã o Críti ca 1 89

Afgumas vezes as pessoas modificarão velhas práticas para lhes dar signifi-
do cristão explícito. Por exemplo, Charles Wesley utilizava as melodias de
cll õe s pop ulares de bar, mas deu a elas letras cristãs. Da mesma maneira , os
c��ç e iros cristãos utilizavam o estilo do louvor presente nas sinagogas judaicas
� Ill
P ap tadas para sua crença. Eles também se encontravam em dias de festas
11 gãs p ara celebrar acontecimentos cristãos, tal como o nascimento de Cristo.
b�Ill 0 te mpo, os significados pagãos foram esquecidos. Os cristãos ocide ntais
onte mp orâneos utilizam damas de honra como símbolos de amizade e apoio.
�Ill nosso pas sado pré-cristão elas serviam de iscas, indo à frente da noiva p ara
11tr air a ate nção daqueles na platéia que poderiam ter "olho gordo" e eliminar
118 s im se u poder. As pessoas acreditavam que, sendo casadas, as damas ficavam
illlunes a tal poder. Pensavam que as noivas eram susceptíveis ao mau-olhado
e ficaria m doentes ou até mesmo morreriam se ele as atingissem. Em certas

épocas , os c ristãos podem conservar obj� tos religiosos pagãos, mas os seculari­
zam a exe mplo do que a igreja européia fez com a arte grega.
A igreja local algumas vezes rejeita símbolos ou rituais da sua própria
cultu ra substituindo-os pelos de culturas diferentes. Por exemplo, as pessoas
podem escolher adotar 1ts práticas de funerais dos missionários em vez de
conservar as suas Pl'Óprias. Tais substituições funcionais geralmente são efi­
cazes porque minimizam o deslocamento cultural criado pela simples remoção
de um velho costume.
Às vezes, a igreja local pode acrescentar rituais para afirmar sua herança
esp iritual. Todos os cristãos vivem com duas tradições, a cultural e a cristã.
Acrescentar rituais como o batismo e a Ceia do Senhor não só oferecem aos
convertidos os meios de expressar sua nova fé, mas também simbolizam suas
ligações com a igreja histórica e internacional. Outro exemplo disso é uma
decisão de um casal de noivos americanos de utilizar a prática bíblica de lavar
os p és como um símbolo de mútua submissão.
As pessoas também podem criar novos símbolos e rituais para comunicarem
as cre nças cristãs em maneiras autóctones. Por exemplo, em uma tribo os cris­
tã o � de cidiram levantar seus bebês recém-nascidos para dedicá-los a Cristo.
Na India, quando um seminário quis inaugurar um centro de estudos missio­
nário s, o s professores, a administração e os alunos p rocuraram um meio apro­
priado de expressar seu compromisso com o ministério. Decidiram plantar al­
guns brotos de grãos maduros numa porção de terra, e os representantes de
cad a grupo - professores, administração e alunos - cortaram feixes com o
símbo lo de sua mútua dedicação a missões.
b. �o levar as pessoas a analisar seus velhos costumes à luz dos ensinamento s
ib lico s , o pastor ou o missionário deve ajudá-las a organizar as práticas esc o ­
l�ida s e m novo ritual que expresse o significado cristão do acontecimento. Ta l
bri�ual será cristão porque busca explicitamente exprimir os ensinamento s bí­
lico s. Ta mbém será autóctone porque a igreja o criou, utilizando formas com­
P re e n didas dentro da própria cultura.
190 As Diferenças Culturai s e a M e n s a
ge lll.

É importante que ensinemos o significado explícito de nosso s ritua is c .


- a nossos filh os e aos novos convert'd os, para que nao
i - se torne m fo r1s .
vazias e não se confundam com os costumes não-cristãos dos quais foramrrma.s
t aos
rados. Estamos sempre enfrentando a erosão do significado de nos sos símb �ti­
e rituais. A resposta ao simbolismo morto e sem significado é não elimin a0r o s
' b o los, mas preservar os sm1
sim
·
- constantem ente re novad o s
' b ol os vivos que sao
. -
por me10 d a auto-ava l'iaçao. os
Aqui se torna necessária uma palavra final de cautela. O miss ionário n e m
sempre vai concordar com as escolhas que as pessoa fazem, mas, até onde
consciência permitir, é importante aceitar as decisões dos cristãos loc ais e reco�
nhecer que eles também são conduzidos pelo Espírito de Deus. Os líde re s de ­
vem garantir aos outros o direito mais importante que reservam para si mes­
mos, o direito de errar. A igreja cresce mais forte quando toma decisõ es cone.
cientes à luz das Escrit uras, ainda que não sejam as mais acertad as, do que
quando simplesmente obedece às ordens que os outros dão.

U m Caso de Co ntext u a l i zação

O processo de contextualização crítica pode ser observado melhor por meio


de uma ilustração. Por exemplo, olhando o caso dos casamentos dos bhotiyas
no Tibete descrito anteriormente, poderíamos tentar entender como os cris­
tãos bhotiyas devem reagir a suas práticas culturais, à luz dos ensinamentos
bíblicos. No entanto, vamos examinar um caso de contextualização crítica nos
Estados Unidos. Estamos sempre conscientes da necessidade de avaliar as
práticas de outras culturas assim que o evangelho lhes é apresentado, mas
também facilmente pressupomos que a nossa cultura, com sua longa história
de cristianismo, já foi moldada pelos valores bíblicos. Geralmente, o resultado
é uma acomodação confortável entre o cristianismo e a cultura ocidental, in­
cluindo uma aceitação acrítica dos hábitos culturais ocidentais. Isso vale para
muitas áreas da vida, e uma delas é a música.
Este caso tem que ver com os jovens de uma igreja da cidade de Los An ge les
que enfrentavam a questão se os cristãos deveriam ouvir hard rock . A m aio­
ria deles era formada de recém-convertidos oriundos das gangues e das d ro­
gas e conhecia as mensagens e o poder das canções contemporâneas.
A resposta de muitos pais cristãos é rejeitar o rock totalmente. Qua ndo is � o
acontece, seus filhos acabam ouvindo rock na casa dos amigos, e os p ais
atuam como policiais. Outros pais desistem sem lutar e permitem qu e se us
filhos ouçam rock indiscriminadamente. Seus filhos não aprendem a ter dis cer­
nimento e aceitam sem crítica os costumes do mundo.
O líder dos jovens nessa igreja de Los Angeles utilizou a contextualiz a ção
crítica para lidar com a questão. Ele pediu que os jovens trouxess e1n s e us
discos de rock para um estudo bíblico. Lá ele discutiu com eles o signific a d o do
contex t ua lização Crítica 191

cristão e o lugar da música em sua vidas. Então, os jovens colo­


estrailomde vidatocar
pa ra cada disco e fizeram uma avaliação. Destruíram aq'u eles
cqtate de cidiram que os cristãos não deveriam. ouvir, guardando o res tante e os
• A • N� d ommgo segumte trouxeram trm nfan-
vindo se m cu 1p a na consc1encia. . .

�eulllente os d �scos q�e havia m destruído per �nte o Senhor e o� apres� ntara m
à i greja . Da h por diante nao_ houve necessidade de seus pais momtora re m
se us hábitos musicais. Aprenderam a discernir por si mesmos.
ea s e s Teo lóg icas

Q uais são as bases teológicas para a contextualização? Primeiro ela afir­


ma 0 sac erdócio de todos os crentes. Com a contextualização crítica, as deci­
e s
sõe ntes.
são tomadas não pelos líderes no lugar das pessoas, mas por todos os
·

cr •.·

Líderes e missionários através da h istória geralmente têm-se sentido


a meaçados por essa abordagem da hermenêutica bíblica. Uma vez que se
consideram mais bem treinados, defendem para si mesmos o direito exclusivo
de tomar decisões teológicas. Têm medo das coisas que podem sair de seu con­
trole se os leigos se.envolv erem na interpretação da Bíblia e na aplicação de
sua mensagem ao dia-a-dia.
Como evitar desvios quando todos estão comprometidos na aplicação das
Escrituras aos problemas da vida? O processo não abre a porta para interpre­
taç ões extravagantes da Bíb lia e das práticas cristãs? Há três maneiras de
verificar esses excessos.
Primeira, a Bíblia é tomada como a autoridade final e definitiv a para as
cre nças e práticas cristãs. Portanto, todos devem partir do mesmo lugar.
Segunda, o sacerdócio dos crentes implica que todos creiam no Espírito
Santo para guiá-los no entendimento e aplicação das Escrituras em suas vi­
d as . É muito fácil para os líderes aceitar essa crença na teoria, mas se esqui ­
v a m de sua prática. Negar aos jo vens crentes o direito de se envolverem na
inte rp retação e na decisão bíblica é negar-lhes que o mesmo Espírito Santo
qu e conhecemos e nos guia na verdade também esteja com eles.
Terceira, há a constante avaliação da igreja. C. Normam Kraus (1979) diz
qtie a co ntextualização do e v angelho é fundamentalmente tarefa não de indi­
víduos e líderes, mas da igreja como "uma comunidade que raciocina". Dent ro
d a quela comunidade, os indivíduos contribuem segundo suas possibilidades e
capacid ades. O pastor e o missionário têm um conhecimento maior da Bíbli a
e, P o rta nto, devem oferecer a exegese dos textos apropriados dentro de seu
co ntexto bíblico . No entanto, as pessoas entendem su a própria cultura e seus
P rob lem as e devem desempenhar um papel importante na determinação da
ªP licaç ão hermenêutica das Escrituras a sua vidas. Mas elas de vem-se sujei ­
t ar à igreja como um todo.
192 As Diferença s Culturai s e a M e 11 s a
ge ll\
sua

A igreja não é um amontoado de indivíduos, cada um busca ndo .

pria interpretação da Bíblia. Ela tem de ser uma comunid ade de p e s s oaP ­
verdade que buscam seguir a Cristo e servirem um ao outro. Só en tão s e � :
narão o que Kraus chama de "comunidade cristã autêntica", uma co muni�t ­
de hermenêutica que luta para entende� ª. i_nensage � �e D eus p ara e la :
para dar testemunho ao mundo do que s1gmfica ser cristao, não só e m cre .

ças, mas também em vida. A igreja como um corpo é uma "nova orde m�· . n
8
• .·

A Autoteologia

K os coMo As DIFERENÇAS CULTURAIS AFETAM os MISSIONÁRIOS À MEDIDA QUE ESTES


se identificam com as pessoas e influenciam a mensagem quando ela é
traduzida nas formas de uma nova cultura. Mas e quanto à teologia? O que
acontece quando a Bíblia é vista pelos olhos de um povo de outra cultura?
Como podemos reagir quando discordarem de nossas interpretações das Es·
crituras?
Atrás desses questionamentos está uma das questões mais fundamentais
formuladas pelos missionários modernos - a autonomia dos novos crentes e
das igrejas. Até que ponto eles são ou devem ser dependentes dos missioná­
rios ? Co m que rapidez e quanto os missionários devem encorajá-los a tomar
sua s p róprias decisões? Poderiam governar a si mesmos? Se o fizessem, teriam
eles o direito de mudar os padrões de funcionamento da igreja trazidos pelos
missionários? Devem ser encorajados a desenvolver suas próprias teologias? E
0 que os missionários devem fazer caso essas teologias pareçam desviar-se?
Este s são dilemas que missionários e agências de missões modernas enfren­
tam.

A ut
o multipl i cação, Auto-sustento e Autogerenci amento

D ur ante os primeiros anos do movimento moderno de missões, as pess oas


�e co nve rteram e foram implantadas congregações. Surgiu então a questão
e co m o as agências missionárias e as igrejas que enviam missionários de v e-
1 94
a gelll.
As Diferenças Culturais e a M e n s

riam relacionar-se com as novas igrejas. Logo ficou claro que as at ' t
missionárias paternalistas, comuns naqueles dias, estavam sufo cand o 1 U de s
durecimento e o desenvolvimento das novas igrejas. A liderança pe rm : ª 111ª·
nas mãos dos missionários. Líderes locais eram reprimido s e fr ustradons e�e u
muitos casos, eles se desligaram e fundaram igrejas indepe nde nte s d as .g lll •

cias missionárias, mas essa atitude não· resolveu o problema por c au s a d: en.
· que .
·
1 es que queriam '
vmcu 1 os com as igreJaS ·
que h aviam 1 eva d o o ev a n g e lh
oa
eles . .
P �r volta de 186 1 , dois grandes líderes missionários, Rufus And erson
Henry Venn, propuseram um plano por meio do qual as igrejas joven s g anh �
riam sua independência com base em três princípios: a autoprop agação ª
auto-sustento e o autogerenciamento. Isso fo i profundamente deb atido e 'fi�
nalmente adotado pelas agências missionárias como diretrizes p ara o est abr.. . ·

lecimento de igrejas autônomas.


O primeiro princípio, a automultiplicação, apontou uma das fraquezas d o s
primeiros movimentos de missionários . Os missionários implantavam i grej as,
mas em geral elas não possuíam a visão de evangelizar seu povo ou de enviar
missionários a outras culturas. Os líderes locais viam essas tarefas como tra­
balho do primeiro missionário. Estava claro que as igrejas jovens não ficam
automaticamente propensas à evangelizaç�o. Essa v:isão deve ser tão c o ns­
cientemente ensinada e moldada qu�nto o restante da vida cristã.
Em defesa dos primeiros missio:Qários, deve-se dizer que muitos deles ensi­
naram as novas igrejas sobre a necessidade da evangelização. No entanto , a
primeira geração de convertidos ainda estava aprendendo o significado de ser
cristão. Além disso, a história mostrará que eles evangelizaram muito mais do
que lhes creditamos. Os missionários escreveram muito sobre o trabalho deles ,
mas os evangelistas locais deixaram poucos registros, ainda que evangelizassem
muito e suportassem a maioria das perseguições que geralmente sobrevêm
aos primeiros crentes de uma comunidade.
Anderson e Venn lembraram ao mundo missionário que não só os mis sio·
nários, mas também as igrejas locais, devem estar envolvidas com a eva n·
gelização e missões. Isso levantou pouca discussão. As igrejas jove ns norma l·
mente estavam muito preocupadas com a questão da evangelizaçã o. Embor a
fossem muito pobres para sustentar os caros programas iniciados pelos mis si­
onários, tiveram seus próprios meios de evangelizar seu povo.
O segundo princípio, o auto-sustento , gerou mais debate. O s miss io n ár ios
argumentaram que as igrejas deveriam aprender a se sustentar e qu e a co n ·
tínua confiança no sustento de fo ra criava uma dependência que impe dia s n a
maturidade e seu crescimento . O s missionários também enfatizaram que a s
igrejas jovens ganhariam um sentido de autonomia e igualdade se p u de s s eIIl
auto-sustentar-se. De certo modo, os missionários estavam certos. .
As igrejas jovens argumentavam que os programas de fundos inte rn aci�­
nais dirigidos por missionários - campanhas evangelísticas, escola s, hospi·
fl, Jiu to teologia 1 95

· s e at é mesmo igrejas com pregadores remunerados - não se ajustavam


ta i
belll à s s uas cu 1turas e eram mmto car� s p � ra serem ma:i ti'd os. El es pod eriam
.

.
fin anciar pro gramas que eles mesmo � m1ciaram, mas. nao aqueles que o,s mis ­
' 5 io n ários agora estavam tentando deixar aos seus cmdados. Eles tambem es ­
ta va m cor
retos.
No fin al, as agências missionárias pressionaram em favor do auto -sus ­
te nto , e as igrejas locais, algumas vezes relutantes, se encarregaram das ins ­
tituições que os missionários haviam estabelecido com dinheiro de fora. Algu ­
mas delas foram fechadas e outras continuaram a funcionar em níveis mais
compatíveis com sua própria capacidade financeira.
O te rceiro princípio, o autogerenciamento, provocou os maiores desente n­
dimentos. Ironicamente, aqui os papéis se inverteram. As igrejas jovens que­
riam tomar suas próprias decisões, argumentando que jamais chegaria m à
maturidade sem uma administração própria. Os missionários estavam relu­
tantes em renunciar seus poderes com 'r eceio de que a inexperiência e a políti­
c a local pudessem arruinar a igreja.
Como veremos no Capítulo 9, não há uma solução simples para a transfe­
rência de poder. Como :rfiissionários, devemos reconhecer que surgem líderes
n aturais mesmo na� comunidades eclesiásticas mais simples, e que eles são
c apazes de liderá-las. Podem não ser instruídos na acepção ocidental do ter­
mo, mas são sábios e experientes em seus próprios meios culturais.
Também devemos permitir aos líderes locais o maior privilégio que permi­
timos a nós mesmos - a saber, o direito de cometer erros e aprender com eles.
Conta-se uma história de um jovem missionári� que perguntou a um famoso
missionário como ele obtivera tantos sucessos.
- Tomando boas decisões. - O velho líder respondeu.
- Sim, mas como o senhor aprendeu a tomar boas decisões? - O jovem
perguntou.
- Tomando decisões ruins. - Respondeu.
Por sua vez, os líderes de igrejas jovens precisam ser sensíveis às preocu­
p a ções dos missionários que amam a igreja e investiram muito nelas, e reco�
nhecer que eles são humanos.
Os três autoprincípios continuam a orientar grande parte do planejamento
� lis sio nário. Eles concordam num ponto: que as igrejas jovens são membros
iguais e independentes em toda a comunidade mundial de igrejas. No entanto,
atualmente muitos estão questionando se devemos mudar da autonomia para a
Parce ria. Em nome do auto-sustento, as agências missionárias também têm
ne ga do fundos que ajudariam as igreja jovens a conduzir uma evangelizaçã o
efic a z. Nosso objetivo não é estabelecer igrejas isoladas que trabalhem sozi­
nhas , m as sustentar igrejas que compartilhem uma unidade de companheirismo
e Um a missão comum para com o mundo.
A Autoteo l o g i a

Depois de muita discussão sobre autornultiplicaç ão, au to- su s te n t


autogerenciamento, surgiu um consenso geral de que se deve permiti r que0 e
igrejas jovens amadureçam e se responsabilizem pelo trabalho de D eus e m s as
, "do poss1ve 1. p ouco se dºiz, no entanto, sobre a auto teologia uas
reg10es o mais rap1
igrejas jovens têm o direito de ler e interpretar por si mesmas as Esc ri tura� A? 8
_ · - . ,

Quando uma igreja nova é implantada, os primeiros anos são caracteri� .


dos por uma união calorosa, expressões emocionais de fé e uma p re ocupaç :
com evangelização de parentes e vizinhos. A maioria dos convertido s tem teolo�
gias ingênuas e aceitam sem questionar muito os ensinos teológicos do mis sio­
nário. Há exceções, é claro, particularmente entre os convertidos be m instruí­
dos, anteriormente líderes em outras religiões.
Depois de duas ou três gerações, surgem líderes que foram cria dos no �
ensinamentos cristãos e treinados na exegese bíblica. São esses líderes que ge­
ralmente levantam questões teológicas dificeis. Como o evangelho pode falar a
sua cultura? Qual a relação do cristianismo com as religiões não-cristãs em sua
terra? E como o cristianismo responde às questões básicas levantadas pelas pes­
soas? Por exemplo, na África, o que o evangelho tem para dizer sobre os ances­
trais ou a poligamia? E na Índia, como os crist�os dev�m.reagir às crenças sobre
reencarnação, ao sistema de castas ou à meditação como um meio de salva ção?
A maioria dos movimentos missionários tem provocado crises teológicas.
Depois de três ou quatro gerações de uma igreja implantada numa nova cul­
tura, surgem os teólogos locais que lutam com a questão de como o evangelho
se relaciona com suas tradições culturais. Como eles podem expressar a s bo as
novas de maneira que as pessoas entendam e ainda conservem sua mensa­
gem profética? Em resposta a essas questões eles desenvolvem novas teolo­
gias. Hoje, por exemplo, ouvimos falar sobre as teologias latino-americana,
africana e indiana.
Como devemos reagir quando os líderes das igrejas locais desenvolve m
teologias que alegam ser mais relevantes para sua cultura? Se os en coraj ar·
mos, não estaremos abrindo a porta para o pluralismo teológico e, fin alme nte ,
ao relativismo? Se nos opusermos a eles, não seremos culpados da pior fo rm a
de etnocentrismo e de impedimento de seu crescimento? Essas são que stões
centrais que nos forçam a examinar a natureza de nossa tarefa, e n ão ousa ·
mos fazê-lo com facilidade. Essa proliferação de teologias em diferente s a m·
bientes históricos e culturais levanta questões importantes sobre a n ature za
da teologia.
O Choque Teológico
A maioria de nós cresceu dentro de uma igreja e foi ensinada sob re su a�
confissões teológicas. Éramos monoteológicos e considerávamos que h a vi a so
uma maneira de interpretar as Escrituras, e que todos os desvios dess a a b ol'·
Jl .A.uto teologia 1 97

da.gero são falsos. Portanto, é um choque quando encontramos cristãos hones­


tos, r
p ofu ndamente comprometidos, interpretando a Bíblia de diferentes ma-
ne irSas.
e ain da não enfrentamos esse pluralismo de teologias, certame nte o fare-
ino s quan dostãs nos tornarmos missionários. Na maior parte do mundo, as com u­
nida de s cri são pequenas, e a necessidade de comunhão e auxílio mútuo é
gra n d e; sen do assim, os missionários . de diferentes origens eclesiásticas se re­
a.
I cionam com muito mais intimidade do que o fariam nos seus países de ori­
ge m . Além do mais, os líderes de igrejas locais de todo o mundo sempre lev an­
a.
t m questões teológicas difíceis, que surgem do evangelho em um ambiente
cultural novo e começam a formular novas respostas teológicas.
A p rimeira vez que nos confrontamos verdadeiramente com o pluralismo
te gico, vivemos um choque . Como no caso do choque cultural, nossos ve­
o ló
lho s absolutos são desafiados, e as certezas ainda não questionadas são colo­
ca das em cheque. Enfrentamos o fato d� que há diferentes maneiras de inter­
p re tar as Escrituras e somos forçados a perguntar por que pensamos que a
n o ssa interpretação está correta.
Nossa reação inicial-So pluralismo teológico geralmente é rejeitá-lo. Sim­
plesmente reafirma!t1os nossas convicções teológicas sem examinar sua natu­
re za e rejeitamos todas as outras interpretações como se fossem falsas. Guar­
damos a certeza de que temos toda a verdade. No entanto, o preço dessa certe­
za é grande . Não ousamos examinar nossas bases teológicas a menos que elas
es tejam enfraquecidas. Além do mais, não ousamos nos relacionar intima­
mente com outros cristãos com medo de que nossas crenças sejam desafiadas ..
Em conseqüência, nos afastamos para uma comunidade isolada de crentes
com pensamento semelhante.
No entanto, com o tempo, a maioria de nós enfrenta a questão do pluralismo
te ológico e busca lidar com ele. Inicialmente, como no choque cultural, somos
confr ontados por um sentimento de relativismo. Uma vez que todos parecem
ter sua própria teologia, como saber se a nossa está correta? Então, percebe­
mos que o relativismo arruína o conceito de verdade e de significado . Mas
co mo podemos aceitar o pluralismo na teologia e permanecer comprometidos
co m a verdade bíblica?
Blbiia, Teologia e Cultura
Como evangélicos, defendemos a veracidade da Bíblia. Também temos
forte s convicções teológicas. Como essas coisas se relacionam?
Primeiro, somos tentados a igualar as duas. Afinal de contas, nossa teol o­
gia e stá enraizada em nosso estudo da Bíb lia. Entretanto, um exame mais
aten to nos força a distinguir entre a Bíblia e a teologia. A Bíblia é um doc u­
llle n to histórico da revelação de Deus aos homens. A teologia é a explicaç ão
sis t em ática e histórica das verdades contidas na Bíblia.
198 As Diferença s Culturais e a Men
s a ge lll

F1GURA 26
A Teologia e a Revelação Divina Entendidas em Contextos Hu m an o s

, _ __,
Um Contexto Cultural e
Histórico Específico

Neste momento, é importante que façamos uma distinção entre du as de fi..


nições diferentes do termo teo logia. Algumas vezes, utilizamos o te rmo qu an­
do falamos sobre a verdade absoluta. A teologia é uma descriç ão e exp licaç ão
sistemática da maneira como as coisas realmente são, a maneira como D eu s as
vê, e iremos nos referir a isso como "Teologia'', com T maiúsculo. Em outras
ocasiões, utilizamos o termo quando falamos de descrições e explic ações hu­
manas da realidade, que surgem a partir de nosso estudo bíblico. Iremos nos
referir a isso como "teologia" com um t minúsculo.
Freqüentemente, confundimos as duas _teologias. -P ensamos que todos os
nossos estudos da Bíblia não têm desvios, que nossas interpretações das Escri­
turas são as únicas verdadeiras. Entretanto, ficamos perturbados quando co­
meçamos a descobrir que as teologias também são influenciadas pela cultura .
O fato de estruturarmos nossa teologia na nossa língua pode prejudicar nosso
entendimento da Bíblia. Não h á língua teologicamente imparcial (veja Figu­
ra 26) !
O fato é que todas as teologias desenvolvidas pelos seres humanos são
moldadas por seus contextos culturais e históricos específicos - pelas línguas
que utilizam e pelas questões que levantam. Todas as teologias humanas são
apenas entendimentos parciais da Teologia como Deus a vê . Vemos atravé s de
um vidro embaçado.
Além do mais, todas as teologias são invalidadas pelo pecado do homero .
Assim como o jovem rico que veio a Jesus não queria ouvir o que ele dizia,
muitas vezes nos distanciamos das mensagens duras da Bíblia.
Porém, o fato de sermos humanos e vermos através de um vidro e mb aç a do
não significa que não vemos nada. Podemos ler as Escrituras e ente ndê- las . A
mensagem central do evangelho é clara: criação, pecado e redenção. D is s o
podemos estar certos. São os de talhes que vemos com menor clareza.
pwto teologia 1 99

Kalonda de Kangate

pau/ B. L ong
o sol africano s e d e rramava sobre nós à medida q u e s u b íamos o cam i n ho
d a m on tan h a até a aldeia entre as árvores. As pessoas de Kangate, no lado
s el va gem d e Bab i n d l , no Congo Central, raramente haviam visto u m home m
bran c o. G ritos entusiasmados me cumprimentavam a mim e a meus t rês ami­
g os con goleses, à medida que entrávamos naquele país empoei rado para aten­
d er u m estranho pedido de u m velho cacique entre este povo isolado.
A l g u n s dias antes, um mensag e i ro apare c e u em nossa base d a missão.
- Contad o r da Palavra, - o mensag e i ro disse - C h efe Kalonda q u e r
fala r c o m você .
- P o r q u e esse velho tratante q u e r me ver? Pensei e a q uestão permane­
ceu em minha mente enquanto nos dirig íamos com dificu ldade através da região
g
m ont anhosa em estradas perigosas . A 6 ra finalmente saberíamo s .
À sombra da cabana do cacique, rod eada por cabanas menores de m u itas
esposas, um homem mu ito idoso, magro, estava assentado, envolto n u m cober­
tor velho. Esse chefe idoso, doente e enfraq u ecido, entron izado em seu assento
enfeitado com pele de leopardo, levantou u ma mão fraca e nos c u m p rimentou
com as saudações costumeiras da te rra:
- Muoyo wenu, vida para você .
- Wuoyo webe, - respo ndemos -, v i d a para você .
Lembrei-me d a s h istórias q u e o u v i s o b re e s s e c h efe, q u e j á havia s i d o
poderoso. H á vinte a n o s , Kalonda e ra temido e respeitado n u m a extensão d e
c ento e sessenta q u i lô m et ros o u mais ao red o r d e s e u d o m ínio. Como j u iz ,
c orajoso e selvagem, ele exe rcia l ivreme nte o pod e r da v i d a e da m o rte sobre
seu povo, e de morte ou de esc ravidão sobre s e u s cativos. S e u recon h e c i ­
mento como c hefe e ra s u p lantado s ó p o r s e u g rande poder como c u ra n d e i ro.
Os l íd e res vinham d e aldeias distantes para compra r s u as s i m patias e maldi­
ç ões .
U m d i a , o c h efe d e u m d o m ínio vizinho, Kas enda, d o povo d e B a l u b a l ,
c he g o u na aldeia d e Kangate. O c h efe vis itante estava p reocu pado e p recisa­
va d e aj u d a .
- M atei o mensageiro do d i n h e i ro da M issão e t o m e i o d i n h e i ro q u e e l e
e stav a trazendo para s e u s p regadores e p rofess o res. - E l e conto u . - Agora
o m o rto voltou à vida e reto rnou aos homens b rancos e l h e s contou o q u e fiz.
M e d ê um remédio para e u m e torna r i nvis ível q u ando os soldados viere m !
- Volte para s e u país. - Replicou Kalonda. Peg u e d o z e cabras, s e i s
mu l h e res jove ns e fo rtes, dez lanças e dez facas e volte para c o m p ra r m e u
re m édio. Esse é o meu p reço para u m re médio pod e roso o s uficiente para
to rn á-lo invisível .
R e c l amando d o alto c u sto dessa p roteção, c h efe Kas e n d a voltou para
Balubal para reu n i r cabras, m u l h e res e armas.
200 As Diferenças Culturais e a Me n s
age lll.

O c h efe Kalo n d a nesse meio-tempo começou a compor s e u re m é d i o


f.���0·
metido. Enviando s u a g uarda, e l e d i ri g i u a captu ra de u ma jove m de u rn a
vizi n h a . E l a foi t razida diante do c h efe. Com u m ritual complexo, os g u e rre
0�
do c h efe c o rtaram a cabeça da cativa, necessária para a "s i mp atia i nv is ív
de Kalonda. Rituais canibais estavam e nvolvidos nos p roced i me n to s . N o �
marcado, o re médio estava p resente, as cabras; as m u l h e res e as ar m as f��
ram ofe recidas, e o negócio, fec h ado, para s atisfação dos dois l íd e re s .
Q u a n d o os soldados chegaram, várias semanas depois , para captu rar 0 ju iz
de Balubal, Kasenda entrou s ilenciosamente em sua cabana, pegou sua cab eç a
q u e o tornaria i nvis ível e saiu em seu q u i ntal para ri r das t ropas que , p erp le xas
não seriam capazes de vê-lo. Para sua s u rpresa, ódio e conseqüe nte pes ar, ele �
o rodeara m , ama rraram-no seg u ramente e levaram-no até a pris ão do ho me m
b ranco. Ainda s e g u rando seu remédio caríss i mo, Kasenda ficou revoltado com
s e u ex-am igo, Kalonda, cuja simpatia .falhara . Ele jogou uma p raga em Kalond a
e d e u seu nome como o assassino da m u l h e r cuja cabeça ele tinha em su a s
mãos . Kalonda também foi p reso.
Q u i nze estações s e passara m , e todas as pessoas d e Babinda e Balub a l
s e e s q u e c e ra m d e s e u s ex-chefes . Condenados, a p r i n c ípio, a mo rre r na pri­
são, ambos foram s alvos q uando s u as execuções foram postergadas três
vezes ; finalmente as s entenças foram m u dadas para q u i nze anos de prisão
e m trabal h o fo rçado. Para os c h efes , essej u l gamehto foi tão d u ro quanto a
m o rte.
Ago ra , so lto depois d e q u i nze anos d e cative i ro, o vel h o Kalonda teve afin a l
de vi r para casa para mo rre r. Por entre o conselho, olhei aqu e l e homem velho,
lembrando-me do que conhecia sobre o seu passado. Depois de um silêncio
cost u m e i ro de respeito, comecei a conve rsa:
- Nfumu, chefe, seu mensageiro diz que você deseja falar comigo. Eu vim.
O que q u e r?
A resposta de Kalonda espantou-me.
- Fale-me sobre o Deus do homem b ranco.
- O Deus que e u sigo não é Deus de um homem b ranco. Ele é o Pai da
N ova Tribo, Seu povo. Jesus Cristo é o g rande Chefe da N ova Tribo e Ele aceita
q u a l q u e r um q u e q u is e r segu i-lo. Meus amigos aq u i também são membros da
N ova Tribo. Eles l h e falarão sobre isso. Voltei-me para meus colegas congoleses
q u e realmente entendiam a batalha que o velho Kalonda estava enfrentando. Um
d e m e u s compan heiros e ra u m velho médico c u randeiro que se tornara cristão e
agora e ra u m pasto r eficiente entre s u a gente. Acompanhei com p rofu n da p reo­
c u p ação a batal h a que ocorria entre os poderes, q u e são reais, e a lib ert aç ão ,
q u e é pos s íve l . .
B raceletes de s i mpatias de latão adornavam o b raço fraco, u m a vez fo rte ,
do velho c h efe.
- Você ainda acredita em seu remédio. - Observou o Pastor M uto mb o. -
Porque.você perg u nta sobre outro Deus?
Com g rande rel utância, o velho homem t i ro u os b raceletes .do b raç o, co lo­
c o u-os n o chão e disse:
teo logia 20 1
j. Ji rt to
- Ag o ra me fal e , "Contad o r da Palavra", sobre o Deus poderoso.
Co m aq u elas bandas de l atão aos nossos pés, comecei a cal c u l ar u m
do p reço q u e ele estava tendo de pagar pelo que pedia. Ele h avia ren u n­
p o uc o
cia do s e u pod e r, e eu o ouvi mu rmu rar:
- Costu mava ter o ito es posas boas e fo rte s , mas todas, exceto t rês
ve lh as , f u g i ram e n q u anto e u estava na p risão. Tudo o que me resto u são m u ­
lh eres ve l h as q u e estão mu ito fracas para traba l h a r.
M e u s o l h o s s eg u i ram s e u o l h a r em d i reção às t rês m u l h e res v e l h as
aga adas pe rto de u m a cabana p róxima. Elas estavam res m u ngando ag ita­
ch
da me nte u mas com as outras e evidentemente infel izes com os acontecimen ­
to s .
- Seu remédio não pôde manter suas mulheres enquanto estava fora? - 0
pasto r perg u nto u , e ele respondeu com u m grun hido.
- Agora, - o pasto r continuou - o remédio da guerra no seu ci nto mostra
ond e você busca pod e r. ._.

Depois de uma pausa longa, pensativa, o velho guerrei ro cortou a pequena


sacola d e pele de seu ci nto e jogou-a no chão.
- Agora, o patuá do pescoço. - O velho homem colocou uma mão trêmu l a
n a tira ao redo r do pe�coço. E s s e pequeno amu l eto l h e dava p roteção contra
seus inimigos e ti r9va o poder de suas magias. Silenciosamente ele esperou até
que, finalmente, q u e b ro u a tira e deixou sua "segu rança" cai r aos nossos pés.
Exclamações de respeito por sua corage m ecoaram ao redor do conselho de
homens q u e assistia a tudo.
- S u a Buanga bua Bunfumu, - o pastor lembrou -, seu remédio de chefe.
Exausto, Kalond a s e l evanto u , entro u em sua cabana e reto rnou com u m
g rande c h ifre d e antílope cheio da ce rteza de s e u poder sobre s u a gente ( n u n ­
c a soube ao c e rto o q u e fo rma tais poderes, m a s f u i i nfo rmado de q u e o s
chifres g u a rdam porções d e cabelo, o l h o s d e sapo, u m d e nte d e l eão e as
g arras de um pássaro) . Poções mágicas s e seg u i ram e uma hoste de outras
simpatias p rotetoras q u e dão às pessoas da floresta algum a l ívio do constante
medo de vive r.
- Essa é toda p roteção q u e tenho, d i s s e Kalonda. - Mas o pasto r evi­
den temente estava esperando por outra e ntrega mais cara.
- Agora dê sua "si mpatia da vida" , Kalonda, e e u l h e falarei sobre o Deus
d a N ova Tribo.
O vel h o homem tremeu , desabou a t ra n s p i ra r, balançou a cabeça e e n ro­
lo u o cobertor esfarrapado no tó rax magro. As t rês esposas velhas p rotesta­
ra m por sua re n ú ncia a seus remédios e com esta ú ltima o rd e m elas começa­
ra m o lame nto d e morte e jogaram te rra n o a r sobre suas cabeças. Com e s s e
aviso s o b re s u a morte i m i n e nte, Kalonda se l evanto u de s u as refl exões t e m e ­
ro sa s , entrou novamente em s u a cabana e voltou c o m u m peq u e n o pacote d e
p eles . Com t o d a a d i g n idade de um g rande l íd e r, e l e s i l enciou o lamento d a s
m u l h e res e observou ate nciosamente s e u s consel hei ros.
___.: Contador d a Palavra - disse ele, seg u rando o peq u e n o e m b r u l h o e m
s u as m ã o s mag ras , - v o c ê ped i u a vid a d e Kalonda! E s t e re médio p rotegeu
202 As Diferenças Culturais e a Me n s
a ge lll.

m i n h a vida de todos os meus i n i m igos por m u itos anos . M u itos q u e m e o d .


a i n d a vivem e têm p ragas sobre m i n h a vida. Quando eu jogar fo ra es se r

: 1!1
d ia, todas as p ragas caírão sobre m i m , meus esp íritos i rão rem ov e r s u a p r
e
e-
­�
ção e eu morrerei. Mas Kalonda n ão tem medo de morrer.
Q u an d o o e m b r u l h o caiu no chão, o vel h o chefe se l evant o u e reto, e rg u
eu
s e u s o l h o s para os montes d istantes e espero u pela mo rte. Se ntam os e
m
s i l êncio à medida q u e os segundos se t ra nsfo rmavam em m i n utos e a te n sã
c rescia n o c í rc u l o dos espectado res que aguardavam a m o rte d e s eu c h efe
Depois de u m longo pe ríodo, o vel h o c h efe o l h o u e m nós e s eu láb ios

p a rti ram n u m s o rriso a l iviado.
- E u a i n d a estou vivo ! Kalonda não caiu m o rto!
Levei m u ito tempo para responder às pergu ntas do velho Kalonda e de seu
povo. Pergu ntas s c;i b re o Deus, q u e e l e disse q u e s e m p re t i n h a tem ido, mas
n u nca c o n h ecido. A medida q u e as s o m b ras da tarde c resciam, o velho c h efe
se l evantou com d i g n idade diante de s e u povo. N u ma voz calma e confiante
ele a n u nciou :
- Kalonda tem um novo chefe. Eu sigo "Yesu Kil isto", e e l e me ajudará a
atravessar o rio, me guiará através da flo resta escu ra e me l evará para sua
aldeia onde e u posso sentar com seu povo. Pertenço à N ova Tribo. Kalonda quer
q u e todo o seu povo siga Nfumu Yesu [Chefe J esus] e vá com ele para a Aldeia
de Deus. ·-

Não mu itos dias depois de m i n h a visita a Kan gate, u m mensageiro chegou


com um b reve recado: - Kalonda foi para s u a jornada para encontrar seu novo
Chefe.

A ponte teológ ! ca. Tendo em vista que por um lado as teologias hum a­
nas estão enraizadas na Bíb lia, e por outro estão em culturas específicas , e la s
são pontes pelas quais o evangelho nos fala hoje. Para ter certe za de que
nossas teologias são sadias, precisamos de três coisas. Primeiro, precisamos de
uma exegese cuidadosa da Bíblia. Isso deve implicar não só o estudo do texto
bíblico, mas também do contexto histórico e cultural dentro dos quais eles são
oferecidos. Deus revelou a si mesmo e o seu trabalho a nós, mas o fez dentro
da história e da cultura de um povo específico. Quanto mais enraiza m os no s­
sas teologias com profundidade nas Escrituras, mais certos podemos es tar de
suas verdades.
Em segundo lugar, precisamos de uma exegese cuidadosa de noss os c o ntex­
tos cultural e histórico. Por meio dela, ficamos sabendo como nossa cultura e s ua
visão de mundo influenciam nossa teologia. Também ficamos cientes das n e ce s ·
sidades que o evangelho deve atender em nossa cultura.
pirito teologia 203

fin alme nte, precisamos de uma boa hermenêutica para que as mensagens
íb l ia entregues em outras épocas e culturas se tornem relevantes para os
de. B .
b ie ntes cu1tura1s d e hOJe.
.

aJll

Te stan do a verdade. Mas como testar a veracidade de nossas teologias e


IJlO lidar co m o pluralismo teológico? Obviamente há discordâncias sobre a
�ºterp retação das Escrituras. A resposta é não aceitar todas a teologias huma­
�n s como igualmente corretas, mas trazer todas elas o mais próximo da verdade
ªbso luta, da Teologia como Deus a conhece. Todas as teologias são incomp letas
to das tê m desvios que colorem seu entendimento. Além do mais, todo o enten­
�irnento humano é falho e precisa ser examinado e testado.
o p rimeiro teste é a Bíblia em si, porque através dela Deus nos revelou o
con ecimento das realidades fundamentais que não podemos obter depen­
h
den do só da experiência humana. Sã? as Escrituras, e não as teologias, o
nosso p onto de partida. Logo, nossas teologias devem ser moldadas para se
ajustarem às Escrituras, e não o contrário. Isso significa que a exegese bíblica
sólid a é essencial em cada estágio de formulação de nossa teologia . Além disso,
se outros nos convencerem de que nossa interpretação das Escri turas está
errada, nosso desejo deve ser querer mudar nossa teologia.
Um segundo teste é o trabalho permanente do Espírito Santo, instruindo os
crentes na verdade. Precisamos de um espírito humilde e aberto à direção de
Deus em nosso estudo das Escrituras. Como um escritor declarou, devemos
fazer teologia de joelhos. Precisamos também reconhecer que o mesmo Espíri­
to Santo em atuação em nós também está atuando na vida de outros crentes .
Se agirmos assim, não ficaremos prontos para um confronto combativo contra
aqueles que discordam de nós. Buscaremos, sim, examinar com eles nossas
diferenças à luz das Escrituras .
Um terceiro teste é a comunidade cristã. Como sacerdotes do Reino de Deus,
te mos o direito de interpretar seu mundo. Como membros do corpo de Cristo,
somos responsáveis por nos ouvirmos mutuamente . Como Kraus diz (1979:7 1), a
interp retação do evangelho é fundamentahnente tarefa não de indivíduos nem
de líderes, mas da igreja como uma "comunidade que pensa":

Logo, a s Escrituras podem encqntrar seu significado adequado como tes­


te mu nha somente dentro de uma comunidade interpretativa. Os princípios
da interpretação são importantes, mas secundários . Numa comunidade há a
n ec essidade de u m a correspondência autê ntica e ntre o anúncio do evangelho
e u m a "nova ordem" personificada para que as Escrituras desempenhem seu
pa pel como uma p arte do testemunho original. A comunidade autêntica é a
co munidade hermenêutica. Ela determina o significado aculturado real das
Escri t u ra s .
204
ge lll.
As Difere nças Culturai s e a M e n s a

Nós do Ocidente, com nossas formas extremas de individualism o p re .


mos redescobrir essa natureza corporativa da igreja enquanto o corp � ve r a ­�
os erros do indivíduo, e a comunidade de igrejas verifica os erros de um a cong c a
gaçao · como os ou t ros enxergam nossos peca d os com maio
- . Assim . r clare re-
, . tamb em o f:azem com nossas heresias.. za que
nos, assim ,

Testar nossas convicções com outros cristãos não as enfraquece; fortalece.


Ficamos mais certos das crenças que se colocam sob exame cuidado so . Te m� ·
menos certeza daquelas que receamos pôr à prova com medo de que sucum�
bam . Depois de colocar nossas crenças em teste, podemos ter m eno s certe za
sobre alguns detalhes, mas estaremos mais certos de verdades ce ntrais do
evangelho que ficam mais claras .
No final, mesmo esses passos nem sempre nos levam à unidade teoló gic a .
E então? Temos o direito de nos manter firmes em nossas próprias co nvicçõe�
e compartilhá-las com os outros. No entanto, devemos falar a verdade em
amor, buscando não conquistar aqueles que discordam, mas ganhá-los . Tam­
bém temos a responsabilidade de examinar nossas crenças com intimidade.
Por que teologia? Afinal de contas, por que devemos nos preocupar com a
teologia? Ela pode provocar guerras entre cristãos e um questionamento da
verdade . Muitos alegam que é pura perda de tempo, que tudo o que precisa­
mos é ler a Bíb lia e aplicá-la diretamente às nossas1vidas.
Há uma medida de verdade nesse ponto. _de vista porque sempre estamos
em perigo de construir teologias para nós mesmos, como um exercício pura­
mente acadêmico . T ais teologias podem abater nossa vida espiritual e nos dis­
trair do chamado essencial do evangelho ao arrependimento e ao discipulado .
Afinal, o cristianismo é um modo integral de vida, não só um padrão de pensa­
mento.
Além do mais, aprender a aplicar as verdades bíblicas à nossa vida é es­
sencial para o crescimento cristão . Wayne Dye (1982) verificou que os missio­
nários mais bem-sucedidos no desenvolvimento de igrejas maduras são aque­
les que ensinam as igrejas jovens a levar seus problemas para as Escrituras e
ali encontrar uma resposta . Para eles, a Bíb lia se torna uma realidade viva na
vida diária, não algo que simplesmente estudam em sala de aula .
Todavia, em outro sentido, não podemos evitar o desenvolvimento de teo­
logias. À medida que lemos as Escrituras, automaticamente j\.l.ntamos pass a­
gens diferentes e formamos idéias básicas sobre a natureza de Deus, da Bí­
b lia, dos homens, do pecado, do perdão, da graça e da redenção . T ecemo s es s es
conceitos em um tapete único onde seus significados não são formados só p or
definições formais, mas por suas relações umas com as outras e com todo 0
cenário . Em grande parte, fazemos isso implicitamente . Quase sempre est amos
inconscientes de nossas teologias até que elas sejam desafiadas . Ao des envol­
vermos uma teologia, examinamos conscientemente nossas crenças reli gios a s.
Além disso, são necessários fundamentos teológicos sólidos p ara, a lon g.o
prazo, manter uma igreja fiel à fé cristã . Com freqüência pensamos no c re s c i-
fl. A. uto t e ologia 205

Jlle nto imediato da igreja e desprezamos o alvo a longo prazo para onde ela
t á indo. Preocupados em levar as pessoas a Cristo, negligencia mos o . dis­
�ispulado necessário para mantê-las fiéis até a morte. Podemos estar preocupa­
dos co m a evangelização, mas desprezamos os fundamentos teológicos neces­
para manter uma igreja fiel ao evangelho, particularmente em tempo
s áriosrs eguição. Estamos correndo o risco de implantar igrejas grandes que ses
de p e
de sviam. Os missionários e líderes eclesiásticos devem pensar em evange lização
·e impla ntação de igrejas não só por um período de cinco ou dez anos, mas
nuroa estrutura temporal de cinqüenta a cem anos ou mais, porque estão
estabele cendo as fundações da igreja.
Tip os de Teologia
Há dois tipos de teologia, cada um prestando-se a um objetivo diferente.
Uro tipo examina as estruturas básicas-1mbjacentes à realidade. Levanta ques­
tões sobre a natureza de Deus, do mundo, dos homens, do pecado, da salva­
çã o, entre outras. Essas teologias, como a maioria das teorias científicas, estão
preocupadas com a ordem imutável subjacente ao universo. Ambas são
"paradigmas sincrônicol'.
Um segundo tipG de teologia está interessado na "história" da realidade.
As teologias desse tipo questionam as origens fundamentais, o objetivo e o
destino do universo, das sociedades humanas e dos indivíduos. Elas encon­
tram significado na história cósmica e humana. Tais teologias são "paradigmas
diacrônicos".
Uma maneira de comparar estudos sincrônicos e diacrônicos é examinar
um automóvel. Se o estudamos sincronicamente, nós o veremos da maneira
como é montado e como funciona. Examinaremos o sistema elétrico, o sistema
de combustível, o motor, a caixa de direção, etc. Observe que, nesse nível,
estamos interessados em carros de uma maneira geral, e não em um especifi­
camente. Estamos interessados em como eles funcionam, não o que acontece
com eles. Em outras palavras, estamos interessados na sua estrutura e em
su as funções.
Uma segunda maneira de analisar o carro é investigar sua história. Veri­
fic amos que ele foi comprado por um casal rico, que fez viagens para lugares
dis tantes, que sofreu um acidente no qual o casal se feriu, que foi consertado
e, finalmente, foi vendido a um estudante universitário. Traçamos sua histó­
ria até ele ser refugado. Nesse estudo diacrônico, o significado está na história
des se automóvel em particular.
Quais desses tipos de explicação devemos utilizar? Precisamos de ambos.
S e quisermos entender como os carros funcionam, a fim de consertá-los, preci­
s am os de uma teoria sincrônica. Se quisermos saber por que e como eles são
Us ados, precisamos de uma análise diacrônica. Semelhantemente, quand o
estudamos a natureza de Deus e do universo, precisamos de uma teolo gia
206 As Diferenças Culturais e a M e n
s a get11
sistemática (sincrônica). Mas quando quisermos saber o que está acon t
do, pr�cisamos de uma teologia bíblica (diacrônica). ecen.
Enquanto as duas abordagens são necessárias, o significa do fu n da e
A •
.
p o demos exammar como os seres hum a no s lll
nt l
,
esta nos estud os d'1acromcos. fu . a
nam - o sangue, os pulmões, os músculos, a mente e a alm a. Co ntudo n o
queremos saber a história de suas vidas. '
�10•
al,
A Bíblia é basicamente uma reunião giacrônica, uma história do trab lh
de Deus no universo e na humanidade. E claro que, nele, progressivam :nt�
Deus nos revela sua natureza e a natureza da realidade fundame ntal. No en.
tanto, a história é o drama da criação humana, do pecado e da re de nç ão.
Funções da Teologia
Clifford Geertz (1972 : 1 69) disse que os sistemas de explicaç ão, tais co mo as
teologias, prestam-se a duas funções importantes. Em primeiro lugar eles s ão
mapas da realidade. Nós os utilizamos para organizar e explicar noss as expe­
riências. Em segundo lugar, são mapas para guiar nosso comportamento. Nós
os utilizamos na escolha de um percurso de ação.
Mapas "da" realidade. Todos nós precisamos de sistemas de explicaç ão.
Sem eles vemos o mundo não como mau, mas como caóticq e incompreensível. Ele
fica sem significado. Geertz diz que não há temor humano maior que a perda do
entendimento. Ele é maior que o medo da morte em si. Os mártires morrem es­
pontaneamente porque sua morte tem significado e sentido.
Acima de tudo, necessitamos de um sistema de explicação fundamental que
nos ofereça uma estrutura básica dentro da qual ajustamos nossos outros mode­
los e teorias. Como cristãos, essa é a nossa teologia.
Como mapas das realidades fundamentais, nossas teologias servem para
diversos objetivos importantes. Primeiro, elas nos oferecem uma visão amp la
do que está acontecendo. Isso inclui tanto uma visão sincrônica da natureza
das coisas como uma visão diacrônica do que está acontecendo. A última nos
dá um sentido de objetivo e destino e da providência de Deus em noss a vida
diária. Infelizmente, com freqüência, nos concentramos em detalhes da Bí­
b lia e perdemos de vista a história maior. Na escola dominical, estu da mo s
várias passagens, mas raramente gastamos tempo dando aos alunos uma �­
são da história redentora. Em missões, nos concentramos em doutrinas esp ec�­
ficas e pressupomos que as pessoas conhecem a visão maior, uma pres sup osi­
ção que não deveríamos jamais ter. Conseqüentemente, é por essa raz ão que
muitas teologias são feitas de porções e de pedaços de informações des conex as .
Uma segunda utilização da teologia é tornar explícitas as idéias teoló gicas
implícitas que temos, e colocá-las em teste. Uma teologia pobre geralme nte
está enraizada em pressupostos ainda não examinados. Por exemplo , e m ge­
ral não estamos cientes da medida com que nossas visões de mundo tinge m ª
nossa teologia. Só quando as tornamos explícitas podemos examiná-la s e · c or·
rigi-las.
,4 J1u to teologia 207

Uma terceira utilização da teologia é a apologética, que sustenta nossa fé


nos aj uda a tornar o evangelho claro aos não-cristãos. Além do mais, ela
e de nos ajudar a defender o cristianismo dos ataques do secularismo e de
po
utr as re lig10es.
· -

0 U ma quarta utilização da teologia como um modelo d e realidade é a de

� olllb at er a heresia. A igreja, em todos os tempos e em todas as cultura s, deve


roc urar a verdade e discernir os erros críticos que podem desviá-la do evan­
ge lho. É nesse momento q�� precisamos de uma g�ande dose de h:U mildade,
p o rque não podemos permitir que nossa preocupaçao com as heresias nos ce­
guem para o fato de que nosso entendimento pessoal das Escrituras é incom­
ple to e geralmente errado. Nem devemos utilizá-lo como um jogo para ga­
nharmos posição na igreja. Nossa preocupação deve ser a glória de Deus, o
alllor pela verdade e um amor redentor que busque ganhar aqueles que estão
distantes.
Nesse momento é importante fazer uma distinção entre imaturidade e he­
resia. As pessoas vêm para a fé como são: bêbados, adúlteros, divorciados e
fariseus autojustificados. A igreja deve começar com eles onde estão, não onde
deveriam estar. O mesmo é verdade teologicamente. Os novos na fé chegam
com suas cosmovisões hinduístas, muçulmanas ou seculares e suas categorias
conceituais não mudam da noite para o dia quando se convertem. Até mesmo
seu conceito de Deus é limitado e distorcido. A despeito disso, eles podem ser
salvos. A transformação da teologia e da visão de mundo de um indivíduo
para que se ajuste aos ensinamentos bíblicos é um processo que dura toda a
vida.
Uma igreja jovem também começa com uma teologia simples, profunda­
mente influenciada pela cultura local. Mas deve ficar madura em sua teologia
p ara que permaneça fiel a seu chamado divino. Essa foi a experiência da
igreja primitiva, que começou em um ambiente judeu. Quando o cristianismo
se espalhou até os gregos, os pais da igreja primitiva tiveram de lutar com
formas legítimas de expressão do evangelho no pensamento grego e lidar com
heresias que surgiram do processo. Como R. H. Boyd {1974:47-52) diz, essa
foi uma das principais razões para o surgimento de uma teologia sistemática
na igreja ocidental. A igreja precisa de uma teologia viva para ser uma teste­
munha cristã verdadeira no mundo. Tal teologia deve ser constantemente
formulada para dar significado ao evangelho em ambientes novos ê. se guar­
dar das novas heresias emergentes. Uma igreja com uma teologia estática ou
imatura se desvia. Em missões, devemos sempre ter em mente essa visão am­
p la de igreja.
M apas "para" ação. Os mapas não nos dão só a visão de um lugar; eles
tamb ém nos ajudam a escolher um curso de ação. Por exemplo, podemos usar
Um m apa para chegar ao aeroporto, uma vez que planejemos nosso modo de
transporte e fixemos um horário de maneira adequada.
208 As Diferenças Culturais e a M e n
sagern.
Charles Nyamiti, um teólogo africano, diz que a teologia não deve
como um exercício abstrato divorciado da vida real. Ela semp re deve :e r feita
.
preocupação pastoral que busque o bem-estar das pessoas (Tab er 19;��nia
Ela deve ser uma ferramenta para ajudar a igreja a ser um a igrej a ·63).
ajudar os cristãos a crescer e ajudar os não-cristãos a vir a Cristo. E l� �ara
tanto resolver os verdadeiros problemas teológicos como lidar com 08 Pr beve
0 le-
· tem pouco v a lo
' que as pessoas en fr ent am. U ma teo 1ogia
mas pra' t icos l' se nao
- d as pessoas a e r1sto e na sua edifica ç ão -1
provar que e, u' til na conversao . �

n
A natureza pastoral da teologia deve ser expressa primeiro na vida �oe.s
teólogos e missionários. A nossa deve ser uma teologia viva que transforme
nossas vidas e nos exija grande santidade. Só então ela terá cré dito para �ss
.
nossos ouvmtes.
É fácil separar nossa teologia de nossa vida e colocar sobre os outros or.,
encargos que nós mesmos não queremos assumir. Devemos lutar constante­
mente para tornar nossa fé explícita em nossa vida diária. Só então estare mos
aptos para entender a luta dos outros e ajudá-los à medida que buscam preen­
cher sua vida cristã.

A Teologia no Contex� o
·-

A história da igreja não pode ser entendida fora de seu ambiente cultural
e histórico. A igreja primitiva buscava tornar o evangelho entendido e preser­
var sua mensagem autêntica no contexto da cultura grega que, de muitas
maneiras, era estranha à Bíblia. No processo, ela precisou combater as here­
sias que emanavam da cosmovisão dualista grega que tornou Cristo homem
ou Deus, mas não ambos� A ortodoxia protestante dos séculos XVII e XVIII se
opôs à natureza degenerada da igreja de seus dias e formulou uma teolo gia
com significado para as pessoas do Iluminismo. Desde então, o pietismo, o
evangelicalismo, o liberalismo, a neo-ortodoxia e outras teologias surgiram
como tentativas de tornar a mensagem cristã relevante e significante p ara os
homens seculares modernos. No entanfo, nem todas essas tent ativas de
contextualizar a teologia foram igualmente · bem-sucedidas em prese rvar 11
mensagem autêntica das Escrit u ras.
As igrejas de outras culturas têm o mesmo direito de entender e aplicar 0
evangelho em seus próprios ambientes? Não há perigo de que elas se de svie m
teologicamente? A resposta para essas duas questões é afirmativa. P ara cre�­
cer, as igrejas jovens espiritualmente devem estudar por si mesmas as Esc ri·
t u ras . Se pelo medo de que abandonem a verdade não permitirmos que e las
procedam assim, estaremos condenando-as à infância espiritual e à morte p r�­
matura. Por outro lado, permitir que as pessoas estudem as Escrit uras sozi·
nhas sempre implica algum risco.
Jiu to teologia 209
J

fJÍl/eis de Contextualização
C omo as teolo gias dos africanos, dos asiáticos oudos latino-america nos
dife rem d e outras? Certamente o centro da mensagem bíblica a história da -

· a ç ã o, pec ado e redenção - permanece o mesmo. No entanto, as muda nças


cri .
ocorre r o em difierentes n1ve1s.
,
ã

Religião, Impu lsos e o Lugar O n d e Dói

Jacob A. Loewen

U m grupo de índios lenguas estava sentado ao redor da fogueira, do lado de


to ra de u m dos abrigos temporários recentemente constru ídos numa vila recém­
in sta lada no Paraguai. O grupo estava no processo de mudar seu modo de vida de
caça nômade para uma agricultu ra fixa.
O autor, sentado com eles, estava táz endo uma i nvestigação antropológica
da situação, esperando encontrar camin hos e meios de facilitar essa transição
difícil para a tribo. Ele estava entretendo o grupo com considerações de sua expe­
riência missionária i n ici� entre os índios c hocos da Colômbia. Entre outras coi­
sas, ele lhes havia contado sobre alguns erros c Ú ltu rais que cometeu q uando
tentou pela primeira vez alcançar aquela tribo com o evangelho . Depois de expor
seus p róprios erros por algu m tempo, de repente, ele parou e perg u ntou :
- Os missionários q u e trouxeram a mensagem d e J e s u s C risto também
cometeram e rros como esses?
U m s i lêncio doloroso s e s eg u i u . E foi finalmente q u e b rado p e l o anfitrião
que s e s e ntiu obrigado a responder:
- É m u ito difíc i l para os índios lenguas dizer se os missionários comete­
ram o u não e rros . - O antropólogo vis itante entendeu bem a verdade dessa
asse rtiva porq u e o conceito l e n g u a da "bondade i n ata" tornava mu ito d ifíc i l
criticar os o utros. N o entanto, não q u e rendo perd e r e s s a exc e lente ocasião
para descobrir algu mas das atitudes dos l e n g u as com relação ao p ro g rama
miss ionário existente, e l e conti n u o u a p ressionar:
- Talvez voc ê pudesse mencionar pelo menos u m a das áreas n a q u a l
t e n h a havido e rros . - D e p o i s d e u m outro período d e s i l êncio, o anfitrião res­
pondeu n o vernác u l o d o ale mão vulgar altamente i nfl u e nciado p e l a s i ntaxe
le n g u a , " Es kra utze woa nich es yeich" , que t rad uzido l ivremente q u e r d i z e r
" E l es estão mexendo o n d e não dói . . . "

A fim de ente n d e r p o r q u e a mensagem missionária nem s e m p re i n como­


dav a onde o missionário p retendia q u e o fizes s e , d evemos c o n s i d e ra r vários
·

fato res d e p red isposição.

Fé e rel igião

Com m u ita freq üência, o miss ionário eyangélico americano tre i n ad o abor­
da o c ristianismo do ponto de vista da crença c e rta. A tarefa do missionário é
210 A s Diferenças Culturais e a M e n s a
ge lll.

então vista como a troca de u m a c rença errada por uma c rença certa . A cre n
ça
certa é a resposta para os problemas do homem. O termo '1é" em suas con otaçõ
es .
no rte-ame ricanas atuais tem passado por algu mas mudanças s utis des de
os
tempos do N ovo Testamento . Para mu itas pessoas real mente evang élic as e
la
i m p l ica essencialmente a aceitação mental de u m conju nto de p re miss as o u
doutrinas como verdade , e normalmente não tem os i n g redientes conco mita nte s
de compromisso e obediência . Isso s i g n ifica q u e em larg a escala a fé te m s ido
vista separada da vida.
Tal atitude é refletida com mu ita freq üência na trad ução . Em várias l íng u as
tribais s u l-americanas as palavras "cre r'' e "obedecer'' origi nam-se da mes m a
raiz. Ao tentar d isti n g u i r e ntre esses dois conceitos , os missionários têm então
trad uzido "crer'' como "aceitar como verdade" . N o entanto, isso trad uz somente 0
componente "estático" da fé e deixa fora o componente d i nâmico mais importan­
te do comp romisso pessoal q u e o emprego b íb l ico da palavra enfatiza.

R e l i g ião e total idade d e vida

Freq ü e ntemente, e possive l m e nte como conseq ü ência d e a fé ser inter­


p retada como c rença correta, a experiência rel i g iosa tem sido tão complet a ­
m e nte s e p a rada da total idade da vida q u e as pessoas têm desenvolvido u m
t i p o d e i nterp retação "espi ritual'' remota d e como D eu s . t rabalha na vida dos
h o m e n s . O D r. E u g e n e A . N ida apontou a falácia dessa visão:

Alguns cristãos tendem a pensar sobre crescimento da igrej a quase


totalmente à p arte dos contextos culturais nos quais ele ocorreu, como
s e fosse algum fenômeno sobrenatural especial referindo-se só à bata­
lha e ntre as forças de Deus e a astúcia do Diab o . Não há dúvidas de que
o crescime nto da igrej a está diretamente relacionado ao plano total e
aos objetivos de Deus; mas ao mesmo temp o , é igualmente ve rdade que
Deus evidentemente se determinou a trab alhar dentro das estruturas e
p a drões da sociedade humana mesmo quando realiza seus propósitos
p ara a vida de um indivíduo em concordâ ncia com os princípios fí.sico e
p s icológico que ele criou p ara governá-la.

Conversão e m u dança de c u l t u ra

U ma vez q u e a re ligião é vista pelos nossos missionários a b rang en do s ó a


alma do h o m e m , a conversão e s u a m u dança concomitante de vid a é vi sta
m e ra m e nte como man ifestação espi ritual sem se p e rceber q u e tal m ud a nç a
m
de c o m p o rtamento de u m a só vez i m p l ica u m a mudança de c u ltu ra . " Esteja
os m i s s i o nários i n c l i nados a admit i r isso ou não, eles são agentes p rofi s si� ­
nais da m u dança de cu ltu ra porq u e não há outro meio de estabe l ec e r, co n s o li­
d a r e perpet u a r a I g reja n u ma sociedad e , a não s e r p o r meio d e sua c u lt u ra".
fl..A. uto teologia 21 1

N o e ntanto, não é m e ramente u ma mudança de fo rma externa q u e o m i s ­


si on ário busca estabe lecer, m a s u ma m u d a n ç a b á s i c a de coração e va l o res
fu nd am e ntais . O homem s e torna u ma nova c riatu ra . [Lo u is] Luzbetak [diz] :

Princip almente nas questões espirituais, a busca pela transforma­


ção significa mais que a mera adoção de p a drões externos que podem
ser aceitos num dia e descarta dos no outro . A busca pela tra nsformação
significa mais que a recita ção de um credo e um conhecimento teórico
de certos dogmas de fé ou da mera adoção de um ritual. "Conversão"
significa uma "mudança" de velhos costumes p ara novos costumes, u m a
reorientação básica nas premis s a s e nos objetivos, uma aceitação com­
pleta de um novo conjunto de valores que afetam o "convertido" bem
como seu grupo social, dia após dia, vinte e quatro horas por dia, e em
praticamente toda esfera de atividades - econô mica, social e religiosa. As
mudanças afetadas devem-se tornar l'lirtes vivas do "organismo" cultural.

A m udança exige u m a "razão"


,,

A vontade de m u d a r de re ligião s e m p re dependerá de q u ão bem essa


rel i gião ate nde às n ecess i d ades do dia-a-dia. Te ndo em vista que a re l i g ião é
total mente i ntegrada ao c u rso total da vida, have rá motivação para a mudança
somente q uando um s i stema frustra u m i n d iv íd u o o u toda uma sociedade e m
alg u m ponto razoavelmente c r u c i a l . Toda c u lt u ra tenta alcançar h a r m o n i a entre
suas partes, mas tal harmonia n u nca é completa. N ovamente, todas as c u l t u ras
estão mudando e , com m u ita f req üência, até as m udanças menores podem
levar a m udanças na maneira pela qual a necessidade de cada homem é atendi­
da pelos s i stemas rel i g iosos de s u a cultu ra.
S e e q u ando as f ru strações , os deseq Ú i l íbrios o u confl itos g raves s u rg i ­
rem , o h o m e m n ã o só desejará p e n s a r na m u dança - e l e n a verdade i rá
buscar a l ívio. Essas áreas de frustração n u m a c u l t u ra podem-se tornar po rtas
abe rtas para o evangel ho, porq u e elas rep resentam "os l u gares o n d e dói". Po r­
ta nto, a f i m de ave rig u a r aq u e l es l u gares q u e p rontamente p redispõem o ho­
mem a ouvir as boas novas, é d e suma i m po rtância i nvestigar as necessida­
des f u ndamentais do homem e verificar como essas necessidades estão s e n ­
d o ate n d idas pelo s istema ofe recido.

De Jacob A. Loewen, Cultura and human val ues: christian intervention in anthropological
p ersp ectiva (South Pasadena: William Carey Library, 1975), p. 3-7. Utilizado com permissão.

Q ue stões novas. Como vimos, as pessoas vivem em culturas diferentes.


Por conseguinte, levantam questões diferentes. Por exemplo, os africanos e os
asiátic os perguntam: "O que devemos fazer com nossos ancestrais?". A teolo-
212 As Diferenças Culturais e a M e n s
a g e ll>.

gia ocidental dá pouca atenção aos ancestrais, embora muito se fale sobre e 1es
na Bíblia. Jeová é chamado o Deus {ie Abraão, !saque e Jacó. O quint o
damento, o primeiro com promessa, llos exorta a respeitar nossos p ais. lll a n.
O que devemos dizer quando as pessoas perguntam sobre seus a nc es trai. s?
Eles estão salvos? As pessoas devem alimentá-los ou oferece r-lhe s flores ern
seus túmulos? Não nos atrevemos a colocar tais questões de lado, porque 08
ancestrais são importantes na vida das pessoas.
Há outros dilemas como esse. As igrejas da África devem ;esponder a que .
tões sobre poligamia, bruxarias, espíritos e mágicas; as da India são qu esti� ­
nadas sobre sistemas de castas, dotes e mau-olhado; e as da China de ve m
lidar com a autoridade p atriarcal, responsabilidades do clã e a étic a do
confucionismo. As igrejas ocidentais também precisam olhar as questões le­
vantadas por sua própria cultura tais como, secularismo, divers ão mo de rna e·
consumismo num mundo afetado pela pobreza.
Segundo Charles Taber (1978: 69), encontrar respostas cristãs para os
problemas humanos é a primeira tarefa do teólogo: "O teólogo é chamado
muito antes de fazer qualquer tipo de teologia sistemática, a avaliar a vida �
o testemunho da igreja, e dirigir-se a si mesmo na comunhão dos crentes quanto
às questões e problemas que a igreja enfrenta e as oportunidades e desafios
que tentará atender".
Novas categorias culturais. Os teólogos devem fazer muito mais que
responder a questões novas. Eles devem tornar a mensagem do evangelho
clara nas categorias culturais que não correspondem nem mesmo remotamen­
te àquelas utilizadas na Bíblia. Por exemplo, na África, eles devem perguntar
se os conceitos de sacrifício utilizados nas sociedades tradicionais africanas
podem ser utilizados como- referência à morte de Cristo na cruz. Na Índia, ele s
devem decidir se o termo avatar pode ser usado para a encarnação de Cristo .
Como vimos, a mundividência indiana não faz uma distinção categórica e ntre
Deus e homens . Conseqüentemente, quando um deus hindu se tor na um
avatar ou homem, é como uma pessoa rica ajudando um mendigo. No s ude ste
da Ásia, os teólogos devem contrastar a idéia budista do nirvana com o co ncei­
to cristão de céu.
Um dos conceitos mais importantes na teologia cristã é Deus. Os teólogo s
devem de cidir qual dos termos da cultura local pode ser utilizado para se re fe ­
rir a Deus e o que precisa ser mudado para tornar os conceitos tradiciona is
mais bíblicos. As pessoas de muitas partes do mundo se referem a um D e us
superior que é o criador e juiz de todos. Taber (1978:60) escreve:

Quando os missionários chegaram pela primeira vez na região de B ao ule ,


na Costa do Marfim, e começaram a falar sobre o criador, eles imediatam en­
te encontraram reco nhecimento : "É claro que o conhece m o s ; seu nome é
Nya mien" . E quando os missionários começaram a descrever os atributos d o
Jift utoteologia 213

D e us que conheciam, eles novamente quase que concordaram com impaciên­


ci a: "É claro, Nyamien é o todo-poderoso, é claro que ele é b enevolente, é claro
que ele é eterno, etc. Quando vocês dizem Nyamien, vocês dizem tudo . Só as
crianças não s abem disso" .

Richardson (198 1) afirma que os missionários podem utilizar conceito s


ge alizados de Deus Supremo, particularmente se eles tiverem pouco con­
ner
teúdo e specífico, uma vez que geralmente podem preenchê-los com referên­
cias cristãs significativas. Isto é o que aconteceu na Coréia, onde as pess oas
tinh am um Deus Supremo a quem chamavam de Hananim, e os protestantes
pude ram utilizar esse termo para o Deus da Bíblia. Richardson argume nta
que e ssa talvez seja uma das razões importantes para o rápido crescimento do
cristianismo naquela terra - as pessoas já sabiam do Deus sobre o qual os
cristãos pregavam. • .

As questões se tornam mais dificeis quando os conceitos de Deus estão


intimamente relacionados às religiões não-cristãs. Nos países muçulmanos, os
missionários adotaram o termo Alá porque ele está próximo o suficiente do
conceito bíblico utilizado11.e Deus. Mas devem deixar claro que um "Alá" cris­
tão é amor, uma noção estranha ao pensamento islâmico. Os teólogos hindus
devem escolher entre vários termos, nenhum dos quais completamente. Há
uma realidade fundamental, Brahman, mas ela é uma força, não uma pes­
soa. Há o deva, um deus pessoal que faz parte deste mundo ilusório. E há
Isvara, um termo associado principalmente com o deus hindu Xiva.

Nova cosmovisão. Os problemas teológicos mais dificeis se relacionam


com as cosmovisões. Elas são o centro de uma cultura e se não as criticarmos
teologicamente, estamos em perigo de terminar num sincretismo ou no
cristopaganismo (Tippett 1979) . Por outro lado, tendo em vista que elas são as
bases nas quais a cultura é construída, é- difícil mudá-las.
Muitas das visões de mundo não-ocidentais estão mais próximas da
cos movisão da Bíblia do que da nossa visão de mundo secular, moderna. Elas
ente ndem as ligações e rituais tribais do Antigo Testamento e estão mais cien­
tes do mundo espiritual. Por exemplo , os japoneses têm uma forte consciência
de grupo e a pessoa que decepciona o grupo experimenta uma sensação pro­
fu n da de vergonha. No entanto, nós no Ocidente, com a nossa forte ênfase no
individualismo, sempre sentimos culpa quando fazemos alguma coisa errada.
Ess es dois sentimentos se colocam em contraste um com o outro.
A vergonha é uma reação à crítica de outras pessoas, uma humilhação
e
P ssoal aguda do nosso fracasso em cumprir com nossas obrigações e com as
expectativas que os outros têm sobre nós. Na verdade, nas culturas realmente
orientadas para a vergonha, cada pessoa tem um lugar e uma tarefa na so­
cie dade. O auto-respeito é mantido não por se escolher o que é bom, em vez do
qu e é mau, mas por se escolher o que os outros esperam que se escolha. Os
A s Diferenças Culturais e a Men
s a ge tn.
214

desejos pessoais devem ser colocados diante da expectativa coletiv a. Aqu 1


que falham sempre voltarão sua agressão contra si mesmos em vez de utfu ae s
a violência contra os outros. Punindo a si mesmos eles mantêm o auto -re sp e� t r
perant e os ou t ros porque a vergouha nao _ po de ser alivia. d a, como a culi o
pode, através da confissão e expiação. A vergonha é removida, e a hon;aª
restaurada, somente quando uma pessoa faz o que a socied ade esp era d el '
naquela situação, incluindo o suicídio, se necessário. ª
Por outro lado, a culpa é um sentimento que surge quando violamos 0
padrões absolutos de moralidade dentro de nós, quando violamos noss a cons�
ciência. Uma pessoa pode sofrer de culpa mesmo quando ninguém sab e de seu
delito; esse sentimento de culpa é aliviado confessando o delito e obten d o a
restauração. Culturas realmente orientadas para a culpa confiam na convic­
ção interna de pecado como o reforçador do bom comportamento, ao contrário
das culturas orientadas para a vergonha, que confiam em sanções externas.
As culturas orientadas para a culpa enfatizam a punição e o perdão como
meios de restaurar a ordem moral; as culturas orientadas p ara a vergonha
reforçam a auto-negação e a humildade como meios de restaurar a orde m
social.
Na Bíb lia., o pecado está ligado à vergonha e à culpa. A vergonha é
enfatizada no Antigo Testamento, onde o pecado é visto principalmente como
uma quebra nas relações que ocorre quando as pessoas violam seus compro­
missos com Deus e uns com os outros, como filhos de Deus. Portanto, o pecado
tem uma dimensão corporativa com ela, e o pecado de uma pessoa pode trazer
punição sobre todo o grupo. A resposta para o pecado é shalom ou a ligação de
relações rompidas e a restauração da paz e da harmonia. Esta é uma mensa­
gem bem entendida pelos japoneses que vivem em uma cultura orientada
para a vergonha.
A Bíblia, particularmente o Novo Testamento, também fala do pecado éomo
uma violação da retidão de Deus, e da necessidade de punição e restauração .
Esta mensagem faz sentido às pessoas do Ocidente que vivem em culturas
orientadas para a culpa. Na verdade, precisamos dos dois conceitos, culp a e
vergonha, p ara entendermos plenamente a mensagem bíblica do peca do e da
salvação.
Enquanto alguns pressupostos de visão de mundo podem servir co mo p on·
tes para as pessoas entenderem as boas novas, outros se colocam de mane ira
contrária às Escrituras e distorcem a mensagem biblica. Por exemplo, mu itas
pessoas têm uma visão cíclica de tempo que enfraquece a mensagem cristã da
criação e da escatologia. Outras acreditam que o mundo realmente não existe.
Ele é uma ilusão. Não há história real. Isso contradiz as doutrinas bíb licas de
criação e envolvimento divino em um mundo real. Em tais casos, devemos
deixar claros os pressupostos da cosmovisão bíblica. Se não, as pessoas e nten·
derão mal o evangelho.
..4 Áutoteologia 215

pa ss os n a Contextualização
O desenvolvimento de uma teologia para um novo contexto cultural não
rre da noite p ara o dia. Como vimos, a atenção de uma igreja jovem é
o con aliza da em seu crescimento e sua reação imediata às velhas crenças e p rá­
ca
tic as. Os problemas mais profundos sobre a contextualização e a manute nção
da s i grejas fiéis à fé cristã em novos ambientes geralmente só surgem com os
lideres da segunda e te:rceira geração na igreja.
Os primeiros esforços na contextualização em geral são feitos pelos missio­
nários quando tentam tornar a mensagem inteligível e relevante p ara as pes­
so as. O perigo aqui é que os missionários quase sempre não conhecem os pre­
co nceitos culturais de suas próprias teologias. Além disso, eles tendem a im­
portar meios ocidentais de fazer teologia, que foram influenciados pela visão
de mundo grega, que reforça sistemas altamente racionais e sincrônicos de
pensamento. Mas essa ênfase nas teçlogias sistemáticas detalhadas é estra­
nha para muitas sociedades. Holth (1968: 18) disse:

Há certos aspect9s da teologia ocidental tradicional que muitos asiáticos


acham censuráveis. Falando de maneira geral, os asiáticos não dão a mesma
importância às doutrinas formuladas. Nossa ânsia pela análise e p elo siste­
ma é algo que acham incompreensível. . . . Nossa exigência por formulações
definidas e precisas da fé é fonte de irritação. A rigidez de muitos dogmas
teológicos ocidentais torna desinteressado o religioso asíático .

Nessas sociedades, a igreja muitas vezes desenvolve teologias bíblicas que


se centralizam nos atos de Deus na história, particularmente na vida de seu
povo.
No entanto, com o tempo, é importante para uma igreja lutar com a ques­
tão da contextualização do evangelho em seu próprio ambiente cultural. Toda
i greja deve fazer da teologia sua própria preocupação, porque deve enfrentar
os desafios da fé levantados por essas culturas. Quando isso acontece, os re­
sultados serão mais profundos e duradouros.
As igrejas jovens podem aprender muito com os debates teológicos porque
esses são parte de sua herança cristã. Mas a teologia ocidental não é o padrão
final pelo qual devem medir a dela. Tal padrão é a revelação bíblica. Widjaja
(1973:42) escreve:

Mas pode-se dizer que as Escrituras são a fonte básica da qual advém o
conhecimento teológico . S ão também a única autoridade pela qual a teologia
deve ser j ulgada. Assim, as Escrituras devem ser s e mpre examinadas . A
conceitualização ocidental da teologia bíblica deve ser revisada criticamente
e, se necessário, colocada de lado . . . . Fazendo isso, podemos ter um e ntendi­
mento mais profundo da mensagem de Deus à medida que ponderamos dire ­
tamente sobre todo o material original da Bíb l ia.
216 As Diferenças Culturais e a M en s a
gelll
Não há limites então para a contextualização? Provavelme nte, es sa s .
maneira errada de formular a pergunta. A questão não é sobre até o n de el� a
mos ir com a contextualização do cristianismo e ainda permanec ermospocr .e .
- Nassa preocupaçao, sim, e, so b re como po d emas nos tornar mais v rd1s .
t aos. - ·
e
deiramente cristãos enquanto tornamos o chamado do evangelho ma is cla a.
atraente àqueles em nosso contexto cultural. Visser't Hoo ft (1967: 6) acres:� e
ta uma palavra de cautela: n ·

Agora na história da igreja, encontramos mais exemplos de ide ntificação


excessiva que de subidentificação. A mensagem cristã tem sido tanta s ve ze s
adaptada acríticamente às culturas locais que a sua verdadeira distinç ã o se
p e rdeu durante o processo. Procuramos uma identificação radical do evange­
lho durante o movimento cristão germânico dos dias de Hitler . . . . Penso na
análise lúcida de Will Herberg sobre a religião na América . . . Na verdade
são p oucas nações cristãs antigas que em unia ocasião ou outra não produzi '.
ram sincretismos curiosos dos conceitos cristãos e dos conceitos locais e cul­
turai s .

A mensagem do evangelho deve não só ser expressa nas categorias e visão


de mundo da cultura local, também deve preencher
-- e;, por conseqüência, revo-
lucionar tudo isso com substância bíblica.
Ensinando os Novos Cristãos
No início de um trabalho, o missionário é o responsável por tornar o evan­
gelho conhecido e entendido na nova cultura, não somente por dar testemu­
nho das boas novas da salvação, mas também por moldar uma vida cristã. Ele
é o único exemplo que as pessoas têm do que significa ser um seguidor de
Cristo. Além disso, nesse estágio, o missionário deve assumir a liderança na
contextualização da mensagem bíblica dentro da cultura local. Da mesma
maneira, é de vital importância que o missionário entenda e estime ver dadei­
ramente a cultura local.
Os novos crentes têm pouco conhecimento das Escrituras e geralme nte
não conseguem lê-las. São dependentes do missionário p ara entender o que
as Escrituras significam e quanto à orientação para lidarem com as questõe s
que enfrentam. É responsabilidade do missionário não só ensinar às pe s so �s
as Escrituras, mas também como estudá-las sozinhas e aplicá-las a s uas pro ·
prias vidas. Á medida que ficam maduras, ele deve deixar claro que deve m ser
obedientes à voz divina conforme ela chega a eles, por meio da Palavra de
Deus, não conforme chega ao missionário ou à igreja que o enviou. Os novo s
crentes aprendem a ser cristãos fortes praticando a vida cristã, assim como as
pessoas aprendem uma nova língua falando-a.
Ji. A. uto teologi a 217

ais
rreinan do Teólogo s Nacion
D ep ois que uma igreja foi implantada, é importante que o miss ionário
rnule o surgimento de líderes naturais dentro da nova congregaçã o e que
e sti mp are e treine. Quanto for possível o grupo local de crentes deve- se res-
0sonsa abilizar pela igreja desde o início. E� essencial que treinemos líderes que
pa
ssam lutar com as questões teológicas que emergem dentro do contexto cultu­
�al (2 Tm 2.2) . É mais fácil treinar seguidores que simplesmente acreditem no
que dizemos e nos imitem. Uma vez que temos posições de honra, há pouca
discord ância. Mas os seguidores são espiritualmente imaturos e quando vamos
são facilmente desviados por qualquer falsa doutrina que apareça.
e mb ora uito
Ém mais difícil treinar líderes porque devemos ensiná-los a pensar
por si mesm a discordar de nós e a defender suas próprias convicções. Deve­
os,
mo s ap render a aceitar debates e discordâncias honestas sobre questõe s teoló­
gicas difíceis sem cortar relações com ttm irmão ou uma irmã local. De vemos
aprender a humildade de admitir que estamos errados e que devemos querer
ve r os jovens líderes receber mais honra que nós.
As Escrituras vão mais além. Elas falam do sacerdócio de todos os crentes.
,,
Precisamos ensinar todos os cristãos a estudar e interpretar a Bíblia, por si
mesmos, e aplicar sua mensagem a suas vidas. Negar-lhes isso é mantê-los
espiritualmente imaturos.
É particularmente urgente que os evangélicos encorajem os líderes locais
a ser teólogos. No passado, muitas vezes controlávamos a teologia de uma
igreja jovem por medo de perder a verdade. Nesse meio tempo, as igrejas libe­
rais treinavam líderes nacionais que hoje dominam o cenário teológico em
muitas partes do mundo.
Não há maneiras de garantir a preservação de nossas convicções teológi­
c as Podemos escrevê-las em credos e constituições e podemos policiar igrejas e
..

es colas. Mas aqueles que vão-nos suceder terão suas convicções. Cada gera­
ção na igreja deve ter sua própria fé viva. Crenças de segunda mão não terão
e feito.
Finalmente, deve ser observado que "permitindo" ou não que os líderes
locais desenvolvam suas próprias teologias, eles o farão. A história missionária
está cheia de casos em que os líderes oprimidos pelos missionários saíram para
começ ar suas próprias igrejas independentes. Muitos teriam permanecido em
co munhão com os missionários se tivessem sido ouvidos.

T
eol o g i a Transcultu ral

A autoteologia reconhece que os cristãos precisam desenvolver teologias


que tornem o evangelho claro em suas diferentes culturas. Ao mesmo tempo,
ela levanta questões difíceis sobre pluralismo. Como podemos aceitar a dive r­
sidade teológica e evitar um relativismo que enfraqueça a verdade, ou um
s ubj etivismo que reduza teologias a criações humanas, ou um particul aris mo
218 As Dife r e n ças Cu lturais e a Mens
n gelll

que p ermi ta que os cris tãos e m cada cultura desenvolvam s u a p róp r t



g i a , mas ne gue que o eva ngelho transcende diferenças cultu rais e qu e
. , a igr·e
� o la.
J n e um corp o ?.
·

Op roble ma não é dife re nte daquele que e nfrentamos na igrej a lo ca l


Esc r itu ra s Po nr �1
d
se ace ita que os ind ivídu os tenham o direito de i n terpre tar as
.. o s
m e smos . e onsequentemente, h a' d'i scor d anc i· as . lV'i.r as a h er m e nê uti ca r: t
a re fª
'
d e uma comunidade de crentes à
medida que comp artilham e se vi gi a m
tuame nte . Assim tamb é m as igrej as e m difere ntes culturas s ã o p art e de 1�u­
comunid ade mundial de crentes. Elas também precisam desenvolve r s u as te
:�
e �­
gias na discussão com a quele corp o maior. E mbora te nham o dir e ito de i nt
p retar a .Bíb lia e m seus contextos p articulare s , elas têm a respo nsabili da de �e
ouvir a
igrej a maior da qua l fazem p arte .
D e s s e di álogo, p o d e emergir uma teologia transcultural que tra ns ce n d a ,
diferenças cul turais - uma. metateologia que comp are teologias, explore 0.,
de svios cul turais de cada uma e busque e ncontrar elementos universais bíbli­
cos (Figu ra 27) .

Características de uma Teologia Transcultural


0
Q uais são as cara cte rísticas de u m a teologia tra nscultural - o consens 0
'
teológico que surge quando pessoas de difere ntes ambientes culturais com-
p a rtilha m seu e nte ndimento da reve lação bíblica? Todos os detalhes não e stão
claros p o rque o diálogo e ntre os teólogos e m diferentes cul turas começou só
recente m e n te . No e n tanto, vários p rincíp ios devem ser levados em considera·
ção.

Biblicame nte fundamentada. A exemp lo das teologias contextualizadas,


uma te ologia transcultural deve ser fundame nta d a bíblicame nte . Isto pode
p arecer óbvio , mas semp re devemos nos lembrar de que o p a drão com que
todas as teolo gias deve m ser medidas é a revelação bíblic a .

FIGURA 27

Uma Teologia Transcultura l Transcende Diferenças Culturais

Bi'blia

\ I
..... _ / ..... ....
Con texto Con texto Con texto
A frican o In diano Chinês
Ji .A.uto teologia 219

A mensagem bíblica deve ser entendida dentro de seus ambientes cultu­


·a is e ta mbém deve ser observada em sua progressão histórica. O Antigo Tes ­
�alll e nto é um registro de Deus tomando as pessoas e � � lineando sua visão de
JJJ.undo e crenças para que fossem capazes de transmitir sua mensagem divi­
n a a os ho mens. Por exemplo, começando pelos conceitos de Abraão sobre Deus,
· stiç a, pecado, sacrifício, perdão e tempo, Deus então os moldou e os enrique­
�ue u p or meio de suas revelações a Moisés, Davi e os profetas. Ele ensinou às
p e s s oa s esses novos significados usando o tabernáculo, o templo, os sacrifícios,
as festa s e as ordens sacerdotais. Em decorrência, a cosmovisão judaica no
te lllP O de Cristo foi o veículo adequado para a comunicação da auto-revelaç ão
s up re ma de Deus aos homens.
A teologia também deve ser bíblica em outro sentido. Enquanto reagimos
s
ao p lan os dos homens para Deus, sua preocupação principal é o plano de
D e us para os homens. A teologia deve.Jevantar as principais perguntas que
asap ess oas talvez não façam. Suas preocupações mais profundas são o pecado
e salvação, e o mandamento de Deus na vida de seu povo.
Supracultural. Aq�i enfrentamos um paradoxo. Uma teologia trans ­
cultural deve buscar.transcender os limites e preconceitos das culturas huma­
nas, mas deve ser expressa em línguas talhadas por ambientes culturais espe­
cíficos. Se negarmos que a teologia pode transcender seu ambiente cultural,
ne gamos que Deus pode ultrapassar os homens. Então nos deixamos como
igrejas culturalmente atadas que não se podem entender.
Como a teologia pode superar os desvios de culturas diferentes? Primeiro,
precisamos ter em mente que as culturas não são totalmente diferentes umas
da s outras. Há semelhanças fundamentais subjacentes a todas as culturas
porque estão enraizadas na humanidade comum e nas experiências comparti­
lhadas de todas as pessoas. Todos têm corpos que funcionam da mesma ma­
neira. Todos experimentam o nascimento, a vida e a morte; alegria, tristeza e
d or; impulsos, medos e necessidades. Todos criam categorias, línguas e cultu­
ras . E todos pecaram e precisam da salvação. Sem subestimar as diferenças
que existem entre as culturas, precisamos reconhecer as semelhanças básicas
n a exis tência humana. Uma vez que esses fatores unificantes tornam possí­
vel às pessoas de uma cultura entender as de outra, eles também nos permi­
te m desenvolver estruturas metaculturais que transcendem diferenças cultu­
ra is.
Segundo, aqueles que estão de fora sempre vêem coisas que os que estão
dentro não vêem. Por exemplo, os outros vêem nossos pecados com mais clare­
za que nós porque temos a tendência de escondê-los de nós mesmos. Da mes­
llla maneira, as pessoas de outras culturas geralmente vêem com mais clare za
que nós os desvios culturais de nossas teologias. Não conhecemos muito bem
o s pressupostos profundos, implícitos de nossa cultura e de sua influência em
220 As Diferenças Culturais e a M e n s a
ge ll\

nossas teologias. As cosmovisões de fora podem nos ajudar a evit ar que n


sistemas de conhecimento se tornem totalmente subjetivos e m su a n atuors so s
. . - d e outras cu1turas e
P ortanto, precisamos ouvir. os cristaos porque ele s za ·

dem apontar os desvios culturais de nossas teologias. Por sua vez, p re cis P o ­
apontar os desvios culturais deles. Fazendo assim, podem os co nstruir � 0 o s
gias que sejam mais verdadeiramente bíblicas.

0•

Histórica e cristológica. Uma teologia transcultural deve cent ra lizar. s


nos atos de Deus na história. No centro destes está Cristo. Sua encarnação é �
centro do evangelho. Sua morte e ressurreição são o âmago da redençã o. É ao
redor da pessoa de Cristo que todas as teologias devem-se unir porque ele é 0
Senhor de todas as culturas e de todas as pessoas.
Como cristãos, afirmamos uma história real que é a mesma para todas P.::s
pessoas. Nosso conhecimento dos acontecimentos pode ser incompleto e nossas
interpretações deles podem variar, mas os fatos da história são univerªalmente
verdadeiros. Por exemplo, podemos discordar sobre as causas, mas a realidade é
que os europeus lutaram em duas grandes guerras mundiais neste século. E sse
fato é verdadeiro para todas as culturas, tornou-se parte delas. De maneira
semelhante, a Bíblia nos dá um registro de fatos históricos que transcendem
culturas humanas, e qualquer teologia transcultural deve lidar com esses
fatos.
Guiada pelo Espírito. Finalmente, a unidade de uma teologia trans­
cultural deve depender do trabalho do Espírito Santo. É ele que nos deve
levar a um entendimento da verdade. Portanto, a teologia deve ser feita num
espírito de humildade, não de farisaísmo; de amor redentor, não de condena­
ção; de comunhão, não de imposição. Novamente, precisamos fazer teolo gia
de joelhos.
Funções da Teologia Transcultural
.
Por que devemos buscar uma teologia transcultural? As teolog ias
contextualizadas não são suficientes? Uma razão é construir uma co munhão
mundial dos crentes . Pertencemos a um corpo. Cristo orou para que fôs se mo s
um, como um testemunho ao mundo do amor de Deus, que quebra as barrei­
ras que dividem os seres humanos.
Uma segunda razão é compartilhar a missão da igreja. A tarefa de
evangelização do mundo é tão grande que as igrejas em diferentes pontos do
mundo devem trabalhar juntas para realizá-la. Não podemos deixar que dife ­
renças culturais e nacionais nos levem a um isolacionismo cristão que no s
cegue p ara as necessidades do mundo. Somos chamados a dar teste mu nho
das boas novas a todas as pessoas.
Finalmente, o processo de formulação de uma teologia transcultural p o de­
nos ajudar a ver com mais clareza os preconceitos culturais em nossa s te olo -
fl. Jlii tote ologia 22 1

gias · e fa zer-n� s evit� � os sincretismos que surg: m q1:1 ando conte � tualiza mos
ss as teolo gias acriticamente. Embora todos nos veJamos atraves de um vi­
�roo e mb aça do, por meio do estudo comum das Escrituras chegamos a um en ­
te n dime nto melhor da Teologia como Deus a conhece. Ao dialoga rmos com os
te ólogos de todas as partes do mundo, devemos ter cuidado de não impor nossas
teolo gias ocidentais. A Bíblia é o critério pelo qual medimos todas as teolo gias.
cr i sti an i s m o e Rel i g i ões Não-Cri stãs

E xperimentamos um segundo choque teológico quando, pela primeira vez,


d ep aramos com outras religiões. Quando nos preparamos para o serviço missio­
nário, podemos ter estudado o islamismo, o hinduísmo e o budismo e obvia men­
te concluído que eles são falsos. Temos a certeza de que não será dificil conven­
cer as pessoas dos erros de suas cre�as e persuadi-las a se tornar cristãs. É
um a surpresa então quando encontramos pessoas boas e zelosas, profunda­
mente convencidas de que sua própria religião é verdadeira e falhamos em
no ssas abordagens bem preparadas para refutar aquela religião.
Dentro de nós surg'é uma questão: Por que essas pessoas continuam muçul­
manas ou hindus?.. Depois outra questão: Por que nós somos cristãos? Como
sabemos que o cristianismo é verdadeiro? Pode ser que já tenhamos enfrenta­
d o essas questões antes, mas elas voltam com maior intensidade quando pes­
soalmente conhecemos fiéis de outras religiões que alegam que elas satisfa­
zem todas as suas necessidades.
Um jovem candidato a missionário viveu esse choque quando viajava em
u m navio. Vendo um senhor muçulmano no convés, decidiu testemunhar para
ele. O candidato, assentado no convés, passou a se dirigir àquele senhor, es­
perando ganhá-lo para Cristo. Depois de um tempo, o rapaz começou a falar
sobre a Bíblia. E o senhor começou a falar sobre o Corão. Então o rapaz come­
çou a falar de Cristo, e o senhor, de Maomé. O candidato a missionário, de
rep e nte, percebeu que enquanto ele estava tentando converter o muçulmano
ao cristianismo, este tentava torná-lo muçulmano. Sua reação imediata foi
"Ele não pode fazer isso. Ele nunca me tornará muçulmano". E então a ques­
tão central apareceu: "Por que então eu devo esperar que ele se torne cris­
tão?".
Nossa primeira reação a esse choque é sempre rejeitar outras religiões e
s eus seguidores - evitar relações com os muçulmanos, hindus e budista s.
D es sa maneira podemos evitar as questões levantadas pelo pluralismo das
religiões. Mas isso também fecha as portas para um testemunho cristão a ele s.
P od emos amar as pessoas e ainda rejeitarmos suas crenças religiosas? A ma­
ne ira que reagimos a essa questão afetará profundamente nossas relaç ões
c om os não-cristãos ao redor de nós e a nossa eficácia como missionários.
222 As Diferença s Culturai s e a Men sa
ge lll
Cristianismo e Outras Grandes Religiões
Quando pensamos em "outras religiões", normalmente nos refe rimos
islamismo, ao budismo, ao hinduísmo, ao xintoísmo, entre outras. Com o 0 cri�s.o
tianismo, essas "grandes religiões" lidam com questões fundame ntais sobre a
origem, o objetivo e o destino de todas as coisas.
Como deve o cristianismo se relacionar com elas? A questão não é nova A
igreja primitiva precisou lidar com as religiões gregas. Paulo denu ncio u s �us
ídolos (At 19 .26), e Pedro, o uso das mágicas (At 8.20-2 1) . Por outro lado
Paulo apela para o "deus desconhecido" dos gregos (At 1 7.23) e João utiliza �
palavra Logos, o termo estóico para aquilo que consideravam a expres são mais
·

alta da natureza, isto é, a ,razão.


Desde então, a igreja tem lutado com a questão. Alguns líde res têm defen­
dido uma condenação total às outras religiões. Outros vêem coisas boas e má::;
em outros sistemas de crença, mas chamam as pessoas para escolher entre: 0
cristianismo e as velhas religiões. Alguns vêem temas comuns ou analogias
redentoras em outras religiões que podem ser utilizadas para comunicar 0
evangelho às pessoas. Outros vêem as religiões não-cristãs como uma prepa­
ração para o evangelho e buscam nelas sementes de verdade com as quais
possam construir. Outros, porém, vêem o cristianismo como o preenchimento
evolutivo de todas as religiões. ;
Não temos espaço aqui para explorar as implicações dessas posições para a
tarefa missionária. No entanto, os jovens missionários devem estar prepara­
dos para enfrentar a questão. Nós examinaremos somente uma ou duas que s ­
tões principais que devem ser mantidas em mente.
A singularidade do evangelho. Uma coisa está clara - as Escrituras
declaram que só há um caminho para a salvação - Jesus Cristo (Jo 14.6, At
4 . 1 2). Isso declara a singularidade que há no cerne do evangelho e da relação
do cristianismo com as outras religiões. Alguns acham essa declaraç ão arro­
gante, e ela seria se o cristianismo fosse uma religião criada por homens . Ma s
o cristianismo está enraizado na revelação divina. Negar essa revelação e
ignorar a singularidade de Cristo que está no centro dessa revelação de strói 0
fundamento da fé cristã. Alegar que o cristianismo é apenas uma d as mu ita s
maneiras de chegar até Deus é confirmar os fundamentos do hind uísmo , qu e
defende que todas as religiões levam a Deus.
A singularidade do cristianismo não está em nenhuma forma partic ular
ou expressão de adoração, mas no evangelho como um todo. Na oraçã o , � s
hindus se ajoelham e os muçulmanos levantam suas mãos. Os xamãs c hukch is
e místicos hindus falam em línguas. E as pessoas de todas as re li giõe s defen·
dem que seus deuses podem curá-las e ressuscitá-las da mort� . Nem as i dé ias
de pecado, sacrifício, perdão e salvação são exc!usivamente cristãs. A s i ngula ·
ridade do cristianismo é encontrada na mensagem bíblica da redenção div ina
dos pecadores por meio de Jesus Cristo.
ft .A utoteo logia 223

A verd ade do evangelho. Todas as grandes religiões reivindicam a ver­


da de e t odas devem ser testadas com a realidade. Ao afirmar a veracidade do
cristia nis mo, não nos declaramos superiores. A super�oridade não está em nós,
Jllas no e vangelho. Stephen Neill (196 1 : 17- 18) escreve:
Naturalmente, para o ouvinte não-cristão [essas declarações do cristia­
nismo] devem soar como megalomania louca e imperialismo religioso do pior
tipo. Deve mos reconhecer os perigos; em muitas ocasiões, os cristãos têm
ca ído nos dois. Mas somos dirigidos principalmente pela questão da verdade .
N ão é megalomania louca p ara a ciência d a química afirmar que o universo
tisico foi construído de uma maneira e não de outra . . . . A alegação cristã está
muito próxima da alegação do químico. Ela afirma bem simplesmente que o
universo em todos os seus aspectos foi criado de uma maneira e não de outra,
e que essa maneira foi definitivamente declarada em Jesus Cristo. Quando
Jesus afirmou que ele é a verdade tJo 14.6), não estava afirmando várias
idéias boas e verdadeiras; ele queria dizer que nele toda estrutura do univer­
so foi revelada pela primeira vez e para sempre .

,,

Quando declaramos a veracidade da mensagem cristã, devemos fazê-lo


m
co humildade e afnor (Ef 4. 1 5). Devemos reconhecer as principais idéias de
outras religiões, e não metralhá-las comparando o que há de pior nelas com o
melhor do cristianismo. Devemos exaltar tudo que elas têm de beleza e de
aspiração mais alta. Devemos ouvir com respeitosa paciência às críticas que
têm do pensamento e da prática cristã. De suas noções humanas podemos
obter novas perspectivas. Mas no final, temos o direito de declarar que Jesus
Cristo, e só ele, é o Caminho, a Verdade e a Vida.
Cristianismo e Religiões Populares
Como missionários, nos preparamos para testemunhar às pessoas que
estão amarradas ao budismo, a hinduísmo e ao islamismo e outras grandes
religiões que lidam com tais práticas.
As religiões populares lidam com os problemas do dia-a-dia, não com reali­
dades fundamentais. Por meio de adivinhos, oráculos, xamãs e profetas, elas
ofe recem direção às pessoas que enfrentam um futuro incerto. Com a ajuda
de rituais e- remédios, elas enfrentam crises como secas, terremotos, enchentes
e P ragas bem como ajudam a trazer suc.esso no casamento, com os filhos, nos
negócios, etc. (Figura 28).
A s pessoas também têm sua própria ciência popular que desenvolvem com
base em suas observações diárias. Os habitantes das Ilhas dos Mares do S ul
sabe m fazer canoas de troncos e navegar com elas através de vastos canais do
O cea no Pacífico. Os bosquímanos africanos sabem envenenar suas flecha s e
a tac ar uma girafa, ferindo-a até a morte. Todas as sociedades têm ciência s
224 As D iferenças Culturais e a Men
s agelll

F1GURA 28
Religiões Elevadas, Religiões Menores e Ciência
--­
As religiões cósmicas tratam de seres e forças de outros mundos e de
questões fundamentais sobre a origem, o objetivo e o destino do univer­ Gra nde s Re l ig õ
i es
so, das sociedades e dos indivíduos.
---

As religiões populares tratam de seres e forças deste mundo e de


questões de importância imediata, bem-estar e instrução para grupos e Reg iões Po p ul are
s
indivíduos.

Ciências que tratam deste mundo util izando explicações naturais, de


Ciên cias Pop ul are s
questões do relacionamento humano com a natu reza e entre os ho­
e Ciência s Socia is
mens.
Populares
....______ j

sociais populares que lhes dizem como criar filhos e como viver com pessoas
perversas.
Considerando nossa visão ocidental das coisas, não levamos as religiõe s
populares muito a sério. Por isso, não oferecemos respostas bíblicas para as
questões do dia-a-dia que as pessoas enfrentam. Bor . exemplo, geralmente
não temos resposta quando um novo cristão africano quer saber se ele dev e
caçar para o norte ou para o leste e se deve ir hoje ou amanhã. Portanto, não
deve nos surpreender que muitos novos cristãos continuem a consultar xamãs
e curandeiros para lidar com tais questões (Figura 29) .
Os cristãos têm oferecido muitas respostas para os problemas do dia-a-dia .
Os católicos romanos em geral têm-se voltado para a doutrina dos santos como

F1GURA 29

Os Novos Cristãos Podem Voltar-se Para as Religiões


Populares Tradicionais se não lhes Forem Oferecidas Respostas
Cristãs Para os seus Problemas Diários
-

Suas Antigas Grandes Religiões � Eles encontram u� Sua Nova G rande Reli gi ã o
caminho melhor
-
(Hinduísmo, Islamismo, etc.) (Cristianismo)
-

Suas Antigas Religiões Populares


Nenhuma resposta
Suas Antigas Religiões Populaf'eS
(magia, astrologia e 4 � (magia, astrologia e
cristã é oferecida _
adoração de espíritos) adoração de espíritos)

1 Sua Antiga Ciência Popular


14
'"'""·
A c!�ncia mo�erna � S ua N ova Ciência M o d e rna
.....
. -------------
e mtroduz1da
;i ,A.u to teologia 225

tºteutrrmeinasdi da oração e da providência de Deus - o fato de que todos os acon -


. ários entre Deus e os homens. Os protestantes têm enfatiza do as

t:cime ntos de nossa vida estão sob seu controle e que podemos levar a ele
oração. Os carismáticos têm enfatizado o trabalho do Espí­
ssa s p etições em
\0 S anto na vida diária do povo de Deus. Não é coincidência que muitas das
� is sõe s m ais be m-sucedidas tenham oferecido alguma forma de resposta cris­
tã a es ses tipos de quest ões.
Co ntudo , ao lidarmos com respostas cristãs aos problemas da vida diária,
deve mos nos guardar do sincretismo. O perigo está em tornar o cristia nismo
um novo tipo de mágica na qual buscamos utilizar fórmulas para manip ular
D eu s na realização de nossa vontade. A Bíblia sempre nos chama à adora ção,
e ne la nos subordinamos à sua vontade e aprendemos das experiências que
ele coloca em nosso caminho. A diferença entre mágica e adoração não está na
form a, mas na atitude. • .

Um segundo perigo está na ausência de discernimento. Nem tudo o que


fazemos como cristãos vem do Espírito Santo. Em Israel havia profetas verda­
deiros e falsos, juízes retos e corruptos. Portanto, não é de surpreender encon­
trarmos muitas formas dê expressão cristã duplicadas em outras religiões. Os
xamãs e oráculos fall}m em línguas, os sadhus hindus e os faquires muçulma­
nos dizem realizar milagres, e todas os grupos religiosos atestam fazer curas e
ressurreições. As Escrituras repetidamente nos alertam para que nos últimos
dias fiquemos de prontidão, pois Satanás irá imitar o trabalho de Deus.
Um terceiro perigo está na determinação de prioridades erradas. O evan­
gelho fala do cuidado e da provisão de Deus na vida das pessoas, mas seu
centro está na sua salvação e no destino eterno. Nós também devemos ter
cuidado de tornar a nossa mensagem central a reconciliação entre Deus e os
homens, e depois entre os homens.
As maiores questões em missões hoje têm que ver com o pluralismo teológi­
co e religioso. E nenhuma resposta que dermos terá maiores conseqüências a
lon go prazo para a igreja que as respostas que dermos a essas questões. O
caminho mais fácil é rejeitar todas as teologias que não sejam as nossas e
co ndenar todas as religiões não-cristãs. Mas essa abordagem fecha as portas
P ara a evangelização e o amadurecimento da igreja. Se colocarmos nossa con-
fianç a em Cristo, poderemos ouvir os outros sem medo de perder nossa fé. E
P oderemos compartilhar com eles a nova vida que encontramos no Senhor.
PARTE 4
•, .

A s Diferenças Culturais e a
Comunida de Bicultura l
9
•.·

A Ponte Bicultural

E STIVE M O S TRATAN D O DO MENSAGEIRO E D A MENSAGEM À M E D I D A QUE SE


movimentam de uma cultura para outra. Mas e aqueles que ouvem o evange­
lho? Como o evangelho cria raízes em outra cultura?
Em nossos dias, com a comunicação de massa e a tecnologia moderna,
somos tentados a pensar em comunicação como sinônimo de encontros públi­
cos, rádio e teledifusão, e imprensa. O fato é que a transm.issão do evangelho
transpondo os abismos que separam uma cultura da outra depende principal­
mente da comunicação pessoal entre os homens. Especialmente entre o mis­
sio nário e o povo a quem ele serve. Ela é afetada por duas coisas: (1) a habili­
d ade dos missionários e líderes locais de tradu�g ª-.!I.1_@§..ª g!l_!!l._d_q_�.Yll_�_g�füo
__

de uma cultura para outrª e (2) a_quªJ!ª.?_de qo rfilªciona:ip.�_p.j;p ent��-�-�_inªi­


víduos envolvidos. Nos capítulos anteriores, examinamos a primeira delas.
Agora, mudaremos nossa atenção das culturas como sistemas de idéias para
a s estruturas sociais como sistemas de relações humanas organizadas e vere­
mos como elas afetam a comunicação do evangelho.

Constru i n do Relac i o n a mentos Transculturais

A comunicação entre as pessoas em culturas diferentes não ocorre no vácuo,


mas sempre dentro do contexto dos relacionamentos sociais. A princípio, ela
P ode ser casual, tal como quando um missionário passa pela aldeia e marca
e ncontros ou visitas com alguém na barraca de chá.
230 A s Diferenças Culturais e a Comunidade Bicul
tu r a 1

No entanto, a comunicação transcultural mais eficaz ocorre entre as


- envo 1v1'd�s nums�--1ªç19nª P e s.
�oas que es tao . Il1;en�o ���1i'l::r!. d 1-!!�d�-�!_�i_e !!_trõCfo
-:
context? �e �IE� c�mumd_���_so cial. Um �lSS �onano s� encontra co m os nov
. uma igrern. Dep01s, ele os
convertidos e os aJuda a organizar os
visita re gul r­
mente. Ou um missionário organiza um hospital ou escola em que os re lac�
namentos e papéis ficam claramente definidos. Em qualque r u �s,­
temos o início de uma comunidade bicultural.
A Comunidade Bicultural -
Uma comunidade bicultural é uma sociedade localizada, na qual as pes ­
soas de diferentes culturas se relacionam mutuamente com base em papéis
sociais bem definidos. Ela se inicia quando as pessoas se mudam de uma cul­
tura para outra, estabelecem suas casas e começam a interagir com as pessoas ,
do local. Com o tempo, surgem os padrões sociais e é forpiado um novo tipo d&
comunidade, constituída de pessoas de duas culturas. A medida que a comu­
nidade se desenvolve, cria uma nova cultura que extrai idéias, sentimentos e
valores de ambas, uma cultura que não é nem "nativa" nem "estrangeira",
mas é constituída de nativos e estrangeiros.
Quando os missionários saem para o exterior, carregam consigo seus ma­
pas culturais. Eles têm uma idéia de como é a -Gomida � como cozinhá-la, quem
deve criar as crianças e que valores devem ser ensinados a elas, como cultuar
adequadamente, e muitas outras coisas. Não importa quanto tentem, jamais
poderão ser completamente "nativos" uma vez que a cultura anterior, de sua
infância, nunca pode ser totalmente apagada. Por outro lado, é impossível para
os missionários importar toda a sua cultura, embora alguns tentem fazê-lo. Em
grande parte são influenciados pelo ambiente em que entram - sua segunda
cultura.
Enquanto as pessoas locais interagirem com os missionários, elas tamb ém
se tornarão parte da bicultura. Elas têm suas próprias idéias de comida, e du­
cação de filhos, valores e adoração. Mesmo que não possam deixar seu país,
são expostas a novas idéias e crenças. Mas como membros da sociedade dentro
da qual a dupla cultura emerge, sua cultura e elas próprias contrib uem muito
para a formação desta condição.
Para se relacionarem, os missionários e os líderes locais devem criar novo s
p adrões de vida, trabalho, diversão e louvor - em resumo, uma nova estrutu­
ra cultural. Tendo em vista que a nova estrutura é criada por pes so as de
diferentes origens, é também constituída por elementos de ambas as parte s.
Enquanto a bicultura fizer empréstimos das diferentes culturas de se us
participantes, ela é mais que a soma ou síntese dessas culturas. Na interação ,
sempre surgem novos padrões. No final, se a comunicação do evangelho oc�r�e
entre pessoas de diferentes culturas, uma comunidade bicultural satisfatol'l�
deve ser trabalhada para que os dois lados encontrem uma medida de e ntendi-
,.! Po n te Bicu l tura l 23 1

l'.llento, confiança e satisfação mútuos. O sucesso do trabalho missionário de­


p ende em grande parte da qualidade dessa ponte bicultural.
in termediários Culturais
A ponte bicultural é apenas um estágio, entre muitos, na comunic ação do
a
ev ngelho de uma cultura p ara outra. O missionário foi treinado pelos p ais,
p astores e professores antes de ir para uma nova sociedade. Lá ele trab alha
em estreita ligação com os líderes cristãos locais que fazem parte da mesma
bicultura. Por sua vez, esses líderes irão comunicar o evangelho para outras
pess oas daquele lugar. A maior parte da evangelização e da implantação da
igreja na aldeia será feita então pelos trabalhadores locais.
Todavia, construir a ponte entre as culturas é a principal tarefa de mis­
s õe , e é isso que veremos em mais detalhes. Ela é crucial ao tra,zer _E> ev�ng,e­
s _

JliÕpela primeira vez a áreas onêfe nãfl. hâ nenhuma igreja.


· --A comumdade bicultural está ond e d ois mundos se en_c ontraID.. É consti­
tuída de pessoas que conservam ligações com suas cul�uras originais, mas q1:1e
Seêíicontram e trocam idéias. Tais pessoas são os ''intermedÍáriÓs-culturaifi'.
-,
- - - - - · - - - ·- - · - · -- - · - -- · - - - ·- . . -

Como cambistas que comercializam dólares por yens ou rúpias, eles são essen-
ciais p ara a comunicação entre os dois mundos culturais. Os missionários são
esses agentes. Embora não troquem dinheiro nem poder político, trazem o
evangelho de uma cultura para outra. Além disso, negociam entre suas igre­
jas no país de origem e as novas igrejas às quais servem.
Os intermediários culturais geralmente são solitários porque se encontram
entre dois mundos. Geralmente, as pessoas de cada mundo têm apenas uma
noção vaga e estranha sobre os outros. Além disso, cada grupo espera que o
intermediário cultural seja fiel aos s e us interesses e desconfia quando o mis­
sionário fica do lado de alguém. Por exemplo, muitos missionários foram inca­
pazes de convencer os americanos de que muitas coisas das outras culturas do
mundo são boas, ou de persuadir as pessoas entre as quais trabalhavam que
nem todos no Ocidente são fantasticamente ricos.
Finalmente. as pessoas de ambos os lados quase sempre �ão c�fiam_l!_o .
inte rmediário cultural. Nenhum dos lados sabe realment!'l o que está aconte::-·
"cendo, e ambos suspeitam_g,ue o intermediário não-;p�� se rrt� mais seus inie­
l;esses. As igrejas que enviam o missionádo-·sabem apenas -o crue- este lhes
êõiitã"e ficam preocupadas porque ele não parece ser a mesma pessoa de quando
o enviaram. A igreja local vê os missionários irem para casa em licença e fica
Pensando quais seriam os acertos secretos que estão fazendo lá.
Os missionários e líderes locais são pessoas marginalizadas. Eles são
simultaneamente membros de duas ou mais culturas diferentes e não se iden­
tificam totalmente com nenhuma delas. Vivem na fronteira entre uma e ou­
tra. Porém, "marginalizado" não significa sem importância, sem influência,
subordinado ou inferior. Os profetas do Antigo Testamento eram pessoas mar­
ginalizadas. Seu chamado divino os colocava numa relação especial com seu
232 As Diferenças Culturais e a C omunidade Bi cult
u r a1

povo, caracterizada
. que olhavapela tensão e pelo conflito. Um exemplo claro d '
Jeremias, para o seu povo com os olhos de Deus. Qu an do fiss1
oe ·

era considerado um perturbador e traidor. ª av a,


Jesus também foi uma pessoa marginalizada, fora de sinto nia com 0
os líderes judeus queriam ou esperavam dele. Ele se relacio nava co m os p á��uaes
da sociedade - leprosos, coletores de impostos, samaritanos e pec adores (Ku �
1983:4) . Ele foi crucificado fora da cidade com dois ladrões. Paulo també n: ;�
uma . pessoa marginalizada, que viveu sua vida entre as igrejas ju daic as e 01
gentias.
Num certo sentido, todos os cristãos serão pessoas marginalizad as p o r qu
vivem no mundo, embora sejam cidadãos do Reino de Deus. Não ficam ma ies
totalmente à vontade na terra porque conhecem uma vida melhor. Mas aind a
não estão participando totalmente da cultura celestial.
As pessoas margin!llizadas têm uma contribuição significativa a fazer a
qualquer grupo. Em certo sentido, elas são profetas que falam de fora. Por
exemplo, os missionários representam a comunhão mundial da igreja. E les
estabelecem ligações visíveis da igreja local com a igreja em outras partes do
mundo. Também oferecem perspectiva ampla e crítica que pode ajud ar uma
igreja a lutar com sua identidade dentro de um ambiente não-cristão.
Geracionalismo Entre os Missionários
Todas as pessoas devem aprender a viver numa cultura. O mesmo é ver­
dade quando se trata de uma bicultura. Os jovens missionários e líderes lo ca is

F1GURA 30
A Comunidade Bicu ltural

A A
P ri meira Pri m e i ra
Cultura do A Bicultura Cultura do Líder
Missionário Nacional

__ ____:...,_
: __ _ o:t

------\,..--- o:t
----+-- o:t

De Paul G. Hiebert, 'The bicultural bridge '', Mission Focus 6 (1982): 5.


,4. Po nte Bicultural 233

d eve m aprender as crenças, os valores e o comportamento social que se espera


d aqueles que dela participam. Se não, são postos no ostracismo.
Há uma diwi:ença fundamental entre o aprendizado de uma cultura pri­
Jll á fia e o a rendizado de uma bicultura. Fomos criados na prim eira ;
acu tura dos em suas maneiras, à medida que crescemos. Então, apren demos
õlJs'éi'vando e imitando. Fomos ensinados, formal e informalmente, a pensar e
� Posteriormente, como adultos, somos aculturados na bicultura. Já tem��
emnossa essência social e cultural
- meios pelos quais acrescentarmos a parcela
ciã6iêultur;, J�9111oj á _vi�os� õr"êãliitacfOéülliB:PeãSOa"blêiilffilafQ.üe-aeve
�mente com as tensões dos dois mundos culturais.
Assim como passamos pelos estágios de ap�endiiado de nossa primeira
cultura, também o fazemos na aculturação da bicultura. John e Ruth Useem
e John Donoghue (1963) traçaram os estágios para as pessoas entrarem numa
bicultura, referindo-se a eles como "g�rações". Há os novatos - os missioná­
rios e os nacionais que entraram recéntemente na bicultura. E há os vetera­
nos - aqueles que gastaram muito tempo de suas vidas ali (Figura 30) .
Os missionários "da primeira geração. Os missionários do primeiro
período pertence� à primeira geração da bicultura. Em geral, nessa ocasião,
s omos idealistas e temos um compromisso por causa de um tremendo zelo e de
uma grande visão do trabalho. Conseqüentemente, os objetivos que determi­
namos para nós mesmos são altos - algumas vezes irreais. Estamos prontos
para evangelizar toda uma cidade ou um estado, ou con� truir um _grànCfe
hospital ou uma escola bíblica. Nessa ocasião, também estamos prep-á.rados
p ara sacrificar uma CQmunidade estabelecida ue tentará nos actilturar a�o
Íno o como J;Jen��m gue as relações missionário� líder local dev� m s� r
estruturadas. Na verdade, esse é um dos maiores-dilemas dos �ovos missioná­
rios que e ntram em comunidades biculturais iniciadas-durãnte{)perfod6 colo­
nial. Se tentarmos mudar as maneiras estabelecidas-de-fazer-as coisas e nos
identificar mais intimamente com a cultura local e as pessoas, os gueest ãoii9
poder dentro da comunidade se sentem ameaçados e podem-nos enviar de
"Võtta p ara casa. Mudar as culturas existentes - até.mesmo as biculturas que
são relativamente instáveis - é algo difícil de ser feito.
Nosso sucesso ou fracasso como missionários do primeiro período em g:i;an­
de parte depende do nosso lugar dentro da estrutura social da comunidad�
l:iicultural. Se nos encontrarmos no topo de um novo empreendimento, tal
co mo abrir um novo campo, começar um hospital, ou construir uma escola
°bíblica, podemos ter grande sucesso. Afinal de contas, começamos com nada.. e
qeixamos alguma coisa - uma igreja ou uma instituição. Uma vez--que- nã o
temos precedentes, temos o poder de construir um programa em grande parte
estruturado segundo os nossos planos. Por exemplo, quando o primeiro missi­
onário médico se muda para a área, há quase sempre só um campo vazio.
Quando ele vai embora, há um hospital com quartos em funcionamento,
234 As Diferenças Culturais e a Comunidade B icu lt r
u al

a�end� ntes e vigi� s. Também po�emos t� r g�an�es fracassos e_�����- � m ge ra


.nªº ha companhe rros ne?1 pres �. nst.!��lS pa��-��11 Il1� �� n os sas-mas l
. .
ãec1soes. Uma c01sa esta clara: os fundadores estabelece m a direç . ão p
ar�s
a: ·­
novos programas e inst_it_11i.çõ� dif_g:Jli$__d.e_mudai:.d..JH!Q_is.
· -�� co1:11o missi;;-ári�s da primeira geração somos colocado s no
topo de P ro.
gramas velhos, já estabelecidos, temos um potencial de suces so -mê:iâ.erà. do
Temos o poder de instituir nossas próprias_����as, ��� herªamos_ tra diçõe s d�
passadq. Quando tentamos mudar os procedimentos _
·- - existentes, somos lein..
brados de que "este não é o caminho que o fundador adotou!" ou avis ados:
"Nós sempre fazemos assim". Nem podemos nos igualar à imagem guardada
do fundador, cuja foto geralmente está pendurada na parede do hall central.
O que o fundador estabeleceu como um procedimento ad hoc se torna lei p ara
o segundo líder e um rito sagrado para o terceiro.
Embora no primeiro período possamos ter sucesso apenas moderado na
iniciação de programas, podemos também ter apenas pequenos fracassos. A
instituição que começou a ter vida por si mesma nos isenta de cometer gran­
des erros. Uma vez estabelecida, uma organização tem meios de se manter
viva e de amenizar os fracassos de seus líderes. A essa altura, muitas pessoas
já investiram muito na instituição e não a deixarão morrer facilmente.
Se como novatos somos colocados em último lugar em progr_l!_mas já exis­
tentes, há pouca possibilidade de sucesso ou de fracasso. PeJo _i,p�50�--ele_s �-ª_o
medidos em termos de comunidade. Temos pouco poder de começar programas
ou mudar os já estabelecidos. Já que isso, considerando nossa visão e zelo,
leva à frustração, é necessário um tipo especial de pessoa para servir com
alegria e senso de realização em situações como essa.
Finalmente, como já vimos, uma das principais características do missio·
nário do primeiro período é o choque cultural. As atitudes e relacionamentos
nos quais somos aculturados durante esse período geralmente caracteriza nosso
ministério para o resto de nossa vida na bicultura.
Os missionários da segunda geração. Somos a segunda ge raçã o de
missionários quando estamos em nosso segundo, terceiro ou quarto perío do de
serviço. Agora já estamos aculturados à nova cultura e nos sentimos à vonta·
de com ela. Adquirimos também experiências valiosas em nossos minis térios .
Os missionários da segunda geração compartilham certas caracte rístic as .
Uma delas é termos a tendência de ser mais realistas em nossa ava lia çã o do
trabalho. Agora já entendemos e aceitamos o fato de que não p od emos
evangelizar todo o Japão, e nem mesmo Osaka, em cinco anos. Mas ve rific �­
mos que é válido para nossas vidas construir uma escola bíblica, treinar va­
rias líderes bons e/ou implantar quatro ou cinco igrejas fortes. Começ amos ª
pensar em estratégias de longo alcance para enfrentarmos os proble m as nã o
só da implantação das igrejas, mas também de ajudá-las a crescer em ind e­
pendência e maturidade.
,4. Ponte Bicultural 235

No meio de nossa carreira também somos mais realistas sobre o nosso esti­
lo vida pessoal. Nós nos tornamos cada vez mais cientes de ci,ue temos só
de
uilla vida. Se vamos dedicar tempo aos nossos filhos, temos de tê-lo agora,
a nte s que cresçam. Se temos de descansar e relaxar, devemos fazê-lo à custa
de algumas outras atividades. Não estamos menos comprometidos com a tare­
fa. Na verdade, nosso comprometimento se tornou um comprometimento a
longo prazo. No final de nossa primeira licença, tivemos de tomar uma decisão
crucial quanto a voltar e agora vemos o trabalho missionário como nossa vo­
c ação de vida. No entanto, não queremos mais pagar um preço ilimitado para
e star em reuniões, aulas e vigílias. Começamos a perceber que nossos filhos e
nó s mesmos fazemos parte do trabalho maior de Deus. Então, tiramos tempo
p ara piqueniques e férias em família e trabalhamos para tornar nossas casas
uill pouco mais habitáveis.
Os missionários da segunda geraçã9 e colaboradores locais experientes fa­
zem juntos a maior parte do trabalho. missionário. Agora, em grande parte,
resolvemos a logística de nos mantermos vivos. Sabemos a língua e os costumes
da bicultura. Conseqüentemente, somos capazes de nos doar a um trabalho
longo e árduo, necessári6 para a implantação e o desenvolvimento de igrejas.
Uma das tarefa§ importantes dos missionários experientes é ajudar os do
primeiro período a se ajustarem ao campo. Quando um novato está vivendo o
choque cultural e escreve uma carta de demissão, precisamos ouvir o jovem
missionário e encorajá-lo a aguardar uma semana antes de postá-la. Precisa­
mos tirar algum tempo para orientar o recém-chegado na cultura e no trabalho.
Os missionários da terceira geração. Este grupo algumas vezes é cha­
mado de "veterano" . No estudo de Useems e Donoghue (1963), que foi o pri­
meiro a apresentar o conceito de geracionalismo bicultural, os veteranos eram
aqueles que serviram fora durante a era colonial. Muitos deles, com algumas
exceções notáveis, aceitavam as noções de superioridade ocidental e a regra
colo nial. Consideravam que os missionários deveriam ser encarregados do tra­
ba lho e de viver como estrangeiros dentro de seus núcleos de estrangeiros e
b angalôs.
Precisamos ser cuidadosos ao julgar os missionários de gerações anteriores
porque raramente entendemos o mundo no qual viveram. Naquela época,
"colonial" e "imperiaf' eram palavras das quais se poderia ter orgulho. Além
diss o, as condições de vida na maior parte do mundo eram muito mais difíceis
que as de hoje. Em meados de 1800, levava três ou quatro meses para chegar
de navio até a Índia, e várias semanas a cavalo ou charrete para se desloca r
algumas centenas de milhas país adentro. Os períodos de serviço geralmente
duravam sete anos ou mais sem nenhuma licença. E sem os remédios de hoje,
a doença e a morte faziam muitas vítimas. Por exemplo, entre 1880 e 189 1 ,
de z casais luteranos foram para o sul da Índia. No final desse período, sete
homens, nove mulheres e trinta e duas crianças morreram.
236 As D ife renças Culturai s e a Comuni dade B icul
tu r aI

Um médico missionário luterano naquela região fez um caix ão e ab .


, . a sua casa, na ald eia,
uma cova prox1mo . para que pudesse ter p elo riu
men s
funeral adequado. Quando gotejava muito pelo telhado da casa , ele d� u�
· -
, . · - .e r m1a
'
no caixao. Ao d eixar a area, "e le queimou o caixao, .Lechou a cova e e m ,
sobre ela, exclamou triunfantemente: 'Onde está, ó morte, a tua yitóri� ? O n�e
está, ó morte, o teu aguilhão?"' (Drach e Kuder 19 14:81). e
A maioria dos veteranos se sacrificou muito mais que a maioria do s mis s · _

nários modernos. Muitos dispenderam trinta, quarenta ou até me smo c :�­


qüenta anos de trabalho. A maioria deles enterrou seus cônjuges e filhos no
lugar onde serviam. Raramente podiam tirar férias em estâncias climáticas
porque uma viagem de carro, trem ou barco seria muito longa e dificil.
Mas os tempos mudaram, e assim também devem mudar os missionário s.
Não vivemos mais num mundo em que a regra colonial e a sup eriorida�e
estrangeira são aceitos. Jfoje devemos nos identificar com as p essoas e su as
. aspirações. Porém, a mudança resultou numa l�cuna de gerações entreãqüe:­
les que olham para trás com nostalgia,_para a era colçn:1,!al, quaiidõ- os - miss iO ­
nários desempenhavam um papel fundamental na vida da igreja, e aque les
que vêem a tarefa missionária como um ministério identificado e de parceria
- - -
- ·

:iia implantação de novasigrejas.


Geracionalismo Entre os Líderes Nacionais
Na bicultura, o geracionalismo também é encontrado entre os líderes nacio­
nais. A primeira geração normalmente tem grande visão e zelo pelo trabalho.
Em nossos dias, de crescente nacionalismo, o geracionalismo geralmente está
ligado a fortes convicções de que a igreja local deve assumir total responsabi­
lidade por suas próprias questões.
À semelhança dos missionários, os líderes locais jovens geralmente que­
rem pagar qualquer :::i reço pelo trabalho. Em muitos casos, eles têm de sacrifi­
car o sustento da família e dos parentes, que podem ter planejado carreiras
mais tradicionais para eles. E, como os missionários da primeira geração, quan­
do lhes é dada a responsabilidade por tarefas importantes, podem tanto obter
um grande sucesso como um grande fracasso. Se colocados em posições de
pouca autoridade e não lhes for permitido liderar, alguns dos melhore s ele­
mentos saem frustrados para se unir a outras igrejas, geralmente igrej as lo­
cais independentes, ou começam movimentos por sua própria conta. Is so é
particularmente triste porque uma igreja ou missão não possui riqueza maior
do que os líderes jovens locais.
Os iíderes locais da segunda geração são aqueles que se comprometeram
com o trabalho a longo prazo na igreja ou na missão . Aprenderam a op e ra r
dentro da bicultura e a encontrar tempo para si e suas famílias. Junta m ente
com os missionários experientes, conduzem a maior parte do trabalho, e sã o
eles que devem, no final das contas, assumir a responsabilidade pela s i grej a s .
J1 po nte Bicultural 237

O s líderes locais da terceira geração sãQ aqueles que cresceram durante a


ép o ca colonial. Para muitos deles, o rápido movimento em direção ao naciona­
lismo é assu stador e inquietante. Lembram-se com nostalgia da época qua ndo
a mis são estava no controle e havia uma grande segurança. Como os missio­

nários m ais velhos eles geralmente entram em conflito com os líderes jovens
que es tão emergindo dentro das igrejas em tbdo o mundo.
con struindo Relacionamentos
Até agora falamos dos missionários e líderes locais como grupos separados.
S e pe rmanecerem assim, a ponte está incompleta. No final, a comunicação
trans cultural mais eficaz ocorre quando os missionários e líderes locais for­
mam relacionamentos íntimos e trabalham como equipe. Essa união de esfor­
ços p roduz os maiores resultados na tarefa missionária.
•.·

Po ntos de Tensão na B i c u ltura

A
. s biculturas surgem onde houver pessoas de duas culturas diferentes
inte ragindo por longo§ períodos de tempo e desenvolvendo padrões estáveis
ae relac1onament9 mútuo. Elas são culturas em · d eséi:rvõívimentõ:ExíSfeni Ká:.
p ouco tempo e são criadas por pessoas de diferentes origens que têm pouca ou
nenhuma idéia de como serão novas culturas. Não é de surpreender então
que as biculturas sejam lugares criativos dentro dos quais uma grande quan­
tidade de inovação pode ocorrer, particularmente se os padrões culturais não
foram definidos rigidamente. Nem é de surpreender que as biculturas pos­
suam problemas singulares que surgem da tensão da mudança.
A tensão fará parte da maioria das biculturas por um tempo, porque pou­
cas áreas da vida no mundo mudaram tão rapidamente como as relações in­
ternacionais . A troca do colonialismo pelo nacionalismo - e agora pelo
internacionalismo - e a mudança nos poderes mundiais, quando uma nação
ap ós outra se levanta e cai, influenciam muito as biculturas. Além do mais, a
natureza de uma bicultura e as tensões dentro dela irão variar marcadamente
de país para país.
A Criação da Bicultura
Uma área de tensão tem que ver com a criação da bicultura em si. Que
�arma ela deve ter? Que tipo de roupas os missionários e os nacionais devem
usar? Eles devem usar cada um seu próprio tipo de roupa? Devem usar rou·
pas ocidentais, d a cultura local ou ambas, dependendo do ambiente? Que tipc
de comida d evem com er? Que tipo de casa devem construir? Os missionári.m
d evem ter carros2..Sa.t_iYfil:em, os líderes locais também devem ter? Que esc�
as crianças dos dois ru os devem freqüentar, e qual deve ser o método de
el nsino? Como os missionários e os nacionais evem-se relacionar? Estas e ou ·
ras milhares de perguntas devem ser respondidas na construção Cfeúiíii
238 A s D i ferenças Culturais e a Comunidade B icultu
r aI

bicultura estável que permita que os estrangeiros e os nacionais se comuni..


quem e trabalhem juntos.
Algumas das questões mais dificeis têm que ver com as atitudes e re la
namentos básicos entre os missionários e os nacionais. Os missio nários deveeio.
·

tratar os líderes locais como pais, como parceiros contratu ais, como iguais :in
como o quê? Os líderes locais nos países em desenvolvimento deve m recebe r �u
mesmos salários que os missionários? Se assim for, não ficarão alie na dos d s
seu povo? E muitos não ficarão atraídos para o ministério mera me nte po:
causa do estilo de vida abastado? Por outro lado, se há difere nças, não nos
sentimos culpados de perpetuar a distância e a segregação social?
Identificação. Até esse ponto de noss os estudos considera mos q ue 0 mo­
delo ideal para as �lações transculturais é a identificação. Se assim for,� ,
diretrizes para criar a bicultura são a identificação. Como missionários, preci­
samos nos identificar o mais que udermos com as pessoas entre as quaIS
servimos, pois assim podemos levar o evangelho muito além da ponte bicultura .
A distância entre as culturas geralmente é g�ande . Quantomãliiõnge -ieV.i{;_
mos o evangelho, mais eficaz será sua aceitação e menor a distância com a
qual os líderes locais deverão lidar para torná-lo nativo em sua cultura.
Stephen Neill, um missionário veterano, gos exor..ta a tornarmo-nos mem­
bros adotados da sociedade à qual servimos. Não seríamos então "missioná­
rios", mas membros da igreja local e irmãos e irmãs dos cristãos locais. Sería­
mos "missionários" somente quando voltássemos para os países que deixamos.
Lá serviríamos como advogados da nossa igreja adotada.
Já vimos que a identificação pode ocorrer em diversos níveis. Superficial­
mente, é uma questão de estilo de vida. Podemos aprender a gostar da ali­
mentação local, viajar pelos meios de transporte locais e vestir a indument�ria
local. Podemos adaptar nossos horários e ritmo de vida ao daqueles com os
quais convivemos e tirar algum tempo para ouvi-los e aprender sobre eles.
Tudo isso é importante, mas no final devemos re�onhecer nossas limita­
ções humanas. Pode ser psicológica e fisicamente impossível adotarmos total­
mente o estilo de vida local, embora possamos fazê-lo além do que norma l­
mente esperamos. Além do mais, viver como as pessoas não é o centro de noss a
identificação. Podemos adotar os modelos locais e ainda mantermos atitude s
de autoridade e superioridade. Se considerarmos que os missionários deve m
ser a cabeça das instituições, podemos não querer servir subordinados a ad mi­
nistradores, médicos ou líderes da igreja.
Em nível mais profundo, podemos nos identificar com as pessoas em se us
diversos papéis. Podemos ter nosso espaço dentro da organização so cial da
igreja local como professores, médicos, enfermeiros e pregadores em po siçõe s
designadas para nós pela igreja local e trabalhar sob o comando dos líde re s
nacionais. Essa identificação também é importante uma vez que ajud_a a de s -
Ji Ponte Bicultural 23 9

faz e r a segregação entre missionários e líderes nacionais que tem caracte riza ­
do grande parte das missões norte-americanas.
Contudo, essa não é a resposta completa. Em igrejas institucio nalizada s
JIJ.ais antigas, os missionários podem ser designados para tarefas de rotina
que têm pouco ou nada que ver com a abrangência da igreja, e isso efetiva­
JIJ.e nte mata seu ministério. Se os missionários assumem papéis dentro d as
instituições locais, têm os mesmos direitos que os nacionais locais de decidir
suas atribuições. Também podem-se tornar rivais deles por causa de posições
iro.p ortantes dentro da igreja.
Mesmo quando assumimos papéis locais na sociedade, ainda podemos car­
re gar sentimentos inconscientes de superioridade .. .!'fo nível mais profundo, a
id entificação deve começar com atitudes: com sentimento de amor e unidade
p ara com as essoas e estima por suãCürfura e história. Se esses sentiment� s
estiverem presentes, a identificação qo. mve os papeis e do estilo de vida é
muito mais fácil. Se não, as pessoas ló go saberão disso, não importa quanto
nos identifiquemos com elas em outros níveis. Nossas paramensagens comu­
nicarão com clareza qualquer atitude de distância ou superioridade que refli­
ta um desprezo oculto p<>r elas e sua cultura.
1

Mudança. Na maioria das sociedades há pessoas que buscam e esperam


a mudan a. Não nos deve surpreender ue elas geralíiíente sejam as primei­
ras a se relacionar com um missionário. A princípio ficam curiosas so re .a
novas tecnologias que trazemos, como machados, serrotes, armas, rádios e
carros. Dep01s, quando nos conhecem melhor, fazem perguntas sobre nossa
cultura e crenças. Na verdade, os missionários apresentaram às pessoas de
outras culturas não só o evan elho mas também muitos utensílios e idéias.
Não fomos chamados a introduzir inovações culturais, exceto qu.�_.Q�llls
ajudam as pessoas e a igreja. Por outro lado, não devemos im edir as muda:o.­
ças cu ura1s quan o as próprias pessoas as escolhem. Devemos nos identifi­
car com as pessoas tanto na cultura existente como nas suas aspirações pQr
u'Ilia vida melhor. Nossos valores par a com elas, em parte, são como uma fonte
de novas idéias e como uma ponte para o mundo lá fora.
As culturas tribais e sociedades agrícolas em todo o mundo estão sen d o
ab sorvidas no sistema de mercado e de política nacional e internacional. Com
freqüência, as pessoas perdem porque não sabem como defender suas terras e
culturas da exploração externa. Em muitos casos são os missionários, sistemas
externos, que podem melhor defender da opressão as pessoas e a sociedade.
Busca de Identidade
Nós que vivemos na comunidade bicultural geralmente somos pessoas à
p arte, que em muitas maneiras não se ajustam a lugar nenhum. Uma vez
que vivemos na linha de fronteira entre dois mundos, achamos que, não im­
p orta onde estivermos, não estaremos mesmo em casa. Nunca nos adaptamos
240 As Diferenças Culturais e a Comunidade Bic u lt
u r a}

totalmente à nossa segunda cultura, mas depois de um tempo també m n ­


nos ajustamos mais à nossa primeira cultura, porque muda mos e fom os lll ·ªº-
fluenciados por nossas experiências.
U ma q�est �o importante que os membros da bicultura enfrentam te m que
ver com a identidade. Em grande parte, as pessoas sabem quem são por c ausa
da sua condição dentro de uma sociedade. Quando os missionário s e lídere s
locais entram na bicultura, adquirem uma nova posição e uma nova identifi­
cação, pois interagem com outros e adquirem uma cosmovisão bicultural. Na
bicultura, buscam adquirir honra e reconhecimento de seus colegas.
Como já vimos, os missionários em geral não conhecem as profun das mu­
danças que ocorrem dentro d,eles por meio de sua participação em uma se gun­
da cultura. Em geral, pensamos em nós mesmos meramente como americanos
ou canadenses, vivendo fora por um tempo, com a expectativa de retornar à
nossa primeira cultura com um mínimo de ajuste. Ficamos chocados ao verifi­
car que as relações com nossos parentes e amigos da primeira cultura ficam
forçadas e distantes. Temos a esperança de que fiquem animados em ouvir
sobre as nossas muitas experiências, mas depois de uma hora ou menos, a
conversa muda para assuntos locais sobre os quais sabemos pouco - esportes,
questões da igreja ou assuntos de família. As pessoas de casa têm a sua pró­
pria ordem social e começamos a perceber qu� não te(m<;>s mais lugar dentro
dela. Velhos colaboradores não sabem mais o que fazer com os "missionários
em licença" depois que apresentamos um ou dois relatórios à igreja. Nesse
desajuste de como se relacionar conosco, começam a perguntar quando volta­
remos para o "campo".
Essa perda de identidade com nossa primeira cultura não é só social. É
também cultural. Quando voltamos, não conseguimos mais nos identificar
acríticamente com a nossa cultura materha, nação ou até mesmo denomina­
ção. Conseqüentemente, quando as criticamos, levantamos suspeitas dos nos­
sos parentes e amigos que nos acusam de deslealdade e até mesmo de heresia.
Distanciados de nossos próprios parentes, geralmente encontramos amigos
mais próximos entre outros "biculturais" - pessoas que são vistas por sua
sociedade original como culturalmente alienadas e marginalizadas.
Em geral esquecemos que os líderes locais que participam da bicultura
enfrentam uma crise de identificação semelhante. Em suas relações com os
missionários, eles adotam idéias e práticas estrangeiras. Podem até me smo
sofrer a acusação de serem agentes estrangeiros! Alguns viajam para o exte­
rior e se .tornam parte de uma comunidade mundial de líderes, mas ao fa z er
isso deixam suas culturas tradicionais e se sentem mais em casa com via ge ns
aéreas, hotéis modernos e culinária internacional do que com charretes, cab a ·
nas e alimentos simples. Quando esses líderes voltam, geralmente são trata·
dos com desconfiança e indiferença. No final, eles também se sentem mais e m
casa com outras pessoas biculturais.
,4. Ponte Bicultural 24 1

Tanto os missio nários como os líderes �clesiásticos locais sempre enco ntram
sua ide ntidade principal com a bicultura. E nela que têm p osição social e pap éis
esp e cíficos a desempenhar. Nela eles podem-se relacionar com outras pessoas
que ente ndem os pre