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UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA

DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO - CAMPUS II


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

MAURICIO VITOR SANTOS DE JESUS

TRABALHO, CLASSE E NAÇÃO: UM ESTUDO CENTRADO


NA ASSOCIAÇÃO DOS EMPREGADOS NO COMÉRCIO DA
BAHIA (1900-1930)

Alagoinhas, julho de 2018


MAURICIO VITOR SANTOS DE JESUS

TRABALHO, CLASSE E NAÇÃO: UM ESTUDO CENTRADO


NA ASSOCIAÇÃO DOS EMPREGADOS NO COMÉRCIO DA
BAHIA (1900-1930)

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-


Graduação em História da Universidade do Estado
da Bahia (UNEB) – Campus II como requisito
parcial para obtenção do grau de Mestre em
História.
Orientação: Prof. Dr. Aldrin Armstrong S.
Castellucci.

Banca examinadora:

____________________________________________________________
Prof. Dr. Aldrin Armstrong S. Castellucci – Orientador
UNEB – Universidade do Estado da Bahia/Campus II - Alagoinhas

____________________________________________________________
Prof. Dr. Antonio Luigi Negro – Examinador
UFBA – Universidade Federal da Bahia

____________________________________________________________
Prof. Dr. Philipe Murillo Santana de Carvalho – Examinador
IFBA – Instituto Federal da Bahia

Suplente:

Prof. Dr. Paulo Santos Silva


UNEB – Universidade do Estado da Bahia

Alagoinhas, julho de 2018


FICHA CATALOGRÁFICA

J58t Jesus, Mauricio Vitor Santos de.


Trabalho, Classe e Nação: um estudo centrado na associação dos
empregados no comércio da Bahia (1900-1930) / Mauricio Vitor Santos
de Jesus – Alagoinhas, 2018.
106f. il.

Dissertação (Mestrado) – Universidade do Estado da Bahia.


Departamento de Educação. Mestrado em História.
Orientador: Prof. Dr. Aldrin Armstrong Silva Castellucci.

1. Trabalhadores – Atividades políticas (1900-1930). 2.


Trabalhadores do comércio – Bahia (1900-1930). I. Castellucci, Aldrin
Armstrong Silva. II. Universidade do Estado da Bahia. Departamento de
Educação. III. Título.

CDD 331.888142

Biblioteca do Campus II / Uneb


Bibliotecária: Iza Christina P. de A. Costa - CRB: 5/1042
AGRADECIMENTOS

As viagens foram muitas, literalmente milhares de quilômetros percorridos para


conseguir alcançar um objetivo que não era só meu. Por isso, o agradecimento deixou de ser
uma cortesia para se tornar um tributo a cada pessoa que contribuiu direta ou indiretamente com
a conclusão desta pesquisa.
Agradeço a Deus pela concessão de saúde, força, pelos livramentos diários nas estradas
e, principalmente, por me permitir conviver com pessoas que me abençoaram grandemente
nessa trajetória. A minha pequena Laura. Filha, no momento em que você puder ter a exata
noção do que representa a conclusão desta dissertação na vida do seu pai, espero que possa
identificar em cada parágrafo a expressão do meu amor por ti. A Mariana, por dividir comigo
essa benção que é ser pai e acima de tudo pela compreensão e apoio em todos os momentos.
Aos meus familiares e amigos pelas orações e palavras de apoio, a minha mãe, pelo
amor incondicional, e por não deixar de me incentivar mesmo quando a fé esmorecia. Aos meus
segundos pais Oliveira e Sirla, a minha tia Pedrina, as minhas irmãs Deise e Bartira, essa
conquista pertence a vocês também.
Sei que não praticarei a justiça ao deixar de declinar todos os nomes que merecem
constar nesses parágrafos, mas, infelizmente, somente numa tese poderia contemplar a todos.
Com isso, quero deixar o meu muito obrigado a Adriana Moreno, que insistiu tanto para que eu
fizesse a minha inscrição na seleção do mestrado, por me incentivar e ajudar a superar alguns
medos que me impediam de progredir profissionalmente. Não foi diferente em relação a Fábio
e Midian Garcia, vocês não imaginam o quanto suas palavras e gestos fazem diferença na minha
vida.
Nessa trajetória tive a honra de conviver com pessoas extraordinárias, dentre elas o prof.
Dr. Aldrin Castellucci, meu estimado orientador, o prof. Dr. Paulo Santos Silva e a prof. Dra.
Maria Elisa Lemos, genuínos educadores, suas lições foram muito além da academia, e o
convívio com vocês me fez amar ainda mais a docência. Agradeço também ao prof. Dr. Robério
Souza pela presença na banca de qualificação. Não poderia deixar de mencionar os meus
queridos colegas de turma, ao longo desses anos alguns laços foram estabelecidos e sem dúvida
alguma irão perdurar por toda a vida, afinal, nossa amizade foi forjada nas alegrias e tensões do
mestrado, bem como na mesa do restaurante do Bode em Alagoinhas.
Os meus sinceros agradecimentos a Maria de Lourdes, por compreender a importância
da pesquisa para a preservação do patrimônio histórico da Associação dos Empregados no
Comércio da Bahia, sem o acesso às fontes seria impossível concluir esse trabalho. A Mabel,
pela valiosíssima ajuda na coleta das fontes, a Eliana Batista pelas colaborações realizadas na
elaboração do trabalho. Minhas reverências a Universidade do Estado da Bahia – UNEB –
Campus II, pelo acolhimento.
O meu muito obrigado a todos!
RESUMO

Esta dissertação analisa o associativismo mutualista no Brasil com foco na organização dos
caixeiros, suas relações com outros grupos e classes sociais e suas práticas políticas em
Salvador, durante as primeiras décadas do século XX. À luz da História Social, a análise
compreende tanto as estratégias para garantir auxílios dos mais diversos aos trabalhadores sem
proteção social estatal, como a construção de uma identidade sócio- profissional e suas relações
com as identidades nacional e de classe. Para tanto tomou-se como objeto de pesquisa a
Associação dos Empregados no Comércio da Bahia (AECB), instituída a 21 de janeiro de 1900,
entidade que se destacou entre as mutualistas, entre outras razões, por manter laços mais
estreitos com a Associação Comercial da Bahia (ACB). A AECB acolheu em suas fileiras os
mais variados tipos de membros, inclusive comerciantes. Com base na análise dos Relatórios
anuais da Associação e dos Livros de registros de sócios, principais fontes de investigação dessa
pesquisa, analisam-se o perfil desses membros e a ação securitária da AECB, revelando as suas
estratégias de crescimento e consolidação interna e externa a partir das ligações com as diversas
esferas do poder político e econômico da Bahia.

Palavras-chave: Caixeiro. Mutualismo. Associação dos Empregados do Comércio da Bahia.


ABSTRACT

This dissertation analyzes the mutualistic associativism in Brazil, focusing on the organization of the
cashiers, their relations with other groups and social classes, and their political practices in Salvador
during the early decades of the twentieth century. In the light of Social History, the analysis includes
both the strategies to guarantee many types of aids to workers without the social protection of the State,
such as the construction of a socio-professional identity and its relations with national and class
identities. To this end, the Associação dos Empregados no Comércio da Bahia (AECB), instituted on
January 21, 1900, was chosen as an object of research, among other reasons, because it maintained
closer ties with the Associação Comercial da Bahia (ACB). The AECB welcomed in its ranks the most
varied types of members, including merchants. Based on the analysis of the Annual Reports of the
Association and the Books of Members' Registries, the main sources of investigation for this research
are the profile of these members and the AECB's safety action, revealing its strategies of internal and
external growth and consolidation based on the links with the various spheres of the political and
economic power of Bahia.

Key-words: Caixeiro. Mutualismo. Associação dos Empregados do Comércio da Bahia.


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO............................................................................................................. 12

A ASSOCIAÇÃO DOS EMPREGADOS NO COMÉRCIO DA BAHIA - AECB: PERFIS

E TRAJETÓRIAS......................................................................................................... 21

A Fundação da AECB................................................................................................................... 21

A dinâmica Associativa................................................................................................................ 31

Uma Associação Pluriclassista..................................................................................................... 39

Trabalhadores e Patrões de muitas nações.................................................................................... 43

Um mundo masculino................................................................................................................... 47

Hierarquias.................................................................................................................................... 51

A UNIÃO FAZ A FORÇA: A AECB E SUA ATUAÇÃO SECURITÁRIA........... 56

As bases financeiras da AECB..................................................................................................... 57

Lutas por direitos........................................................................................................... .................62

A AECB e a sociedade.................................................................................................................. 72

A formação do caixeiro: aulas e biblioteca................................................................................... 83

Assistência à saúde....................................................................................................................... 88

Auxiliando os vivos e os mortos........................................................................................ 94

CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................................... 97

ARQUIVOS E FONTES............................................................................................ 100

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA........................................................................... 102


LISTA DE FIGURAS

Figura 1: Episódio sangrento em 13 de novembro de 1899……………………………………23

Figura 2: Palacete da Associação dos Empregados do Comércio da Bahia.............................. 27

Figura 3: Edifício da Sede Social – VESTIBULO.................................................................... 28

Figura 4: Alberto Moraes Martins- sócio benemérito da AECB............................................. 53

Figura 5: Synézio Gottschalk - sócio benemérito da AECB.................................................... 53

Figura 6: Placa em homenagem ao caixeiro Jesuíno Caetano de Martins................................ 73

Figura 7: Monumento ao Barão do Rio Branco....................................................................... 76

Figura 8: Mantimentos arrecadados em comemoração do centenário da Independência para

distribuição aos carentes............................................................................................... 82

Figura 9: Registro da Sessão Cívica de 5.7.1923...................................................................... 83

Figura 10: Posto Médico da AECB........................................................................................... 91


LISTA DE TABELAS

Tabela 1: Profissão dos membros da AECB (1900-1930).............................................. 41

Tabela 2: Nacionalidade dos membros da AECB (1900-1930)..................................... 44

Tabela 3: Sexo dos membros da AECB (1900-1930).................................................... 48

Tabela 4: Estado civil dos membros da AECB (1900-1930)......................................... 49

Tabela 5: Faixa etária dos membros da AECB (1900-1930)......................................... 50

Tabela 6: Tipos de Sócios da AECB (1900-1930)......................................................... 52

Tabela 7: Atendimentos odontológicos realizados pela AECB (1907-1930)................. 89

Tabela 8: Atendimentos médicos realizados pela AECB (1915-1930)...........................93


LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1: Registro de entrada de sócios na AECB 1900-1930……………………………… 32

Gráfico 2: Registro de Sócios eliminados da AECB entre 1900 e 1930……………………... 35

Gráfico 3: Arrecadação da AECB entre 1904 e 1931……………………………………….. 58

Gráfico 4: Fontes de arrecadação da AECB…………………………………………………. 59

Gráfico 5: Remissões da AECB (1904 e 1930)....................................................................... .60

Gráfico 6: Evolução patrimonial da AECB (1904-1930)……………………………………. 61

Gráfico 7: Despesas da AECB com Securitização (1904-1930)....................……………….. 95


SIGLAS

AECB- Associação dos Empregados do Comércio da Bahia


AAECB- Arquivo da Associação dos Empregados do Comércio da Bahia
SBC- Sociedade Beneficência Caixeiral
UCB- União Caixeiral da Bahia
ACB- Associação Comercial da Bahia
APEB- Arquivo Público do Estado da Bahia
BPEB- Biblioteca Pública do Estado da Bahia
12

INTRODUÇÃO

O associativismo mutualista, em geral, e entre os trabalhadores, em particular, foi um


fenômeno internacional. A bibliografia específica sobre o assunto demonstrou que esse
processo de organização dos trabalhadores em sociedades de auxílio-mútuo ganhou força no
Brasil desde a primeira metade do século XIX. Além disso, essa produção também explorou os
pontos de contato e os traços de continuidade e descontinuidade entre corporações de ofício,
irmandades religiosas e associações de auxílio-mútuo.1
Em levantamento pioneiro, Aldrin Castellucci identificou aproximadamente 165
sociedades de auxílios-mútuos, cooperativas e de beneficência fundadas na Bahia entre 1832 e
1930.2 Especificamente em Salvador, recorte espacial da presente dissertação, as primeiras
sociedades mutualistas de artesãos surgiram a partir de 1832. Entre meados do oitocentos e o
fim da Primeira República, surgiram ao menos oito entidades de trabalhadores do comércio, os
chamados caixeiros: a Sociedade Montepio dos Caixeiros Nacionais, fundado em 22 de
novembro de 1857, depois convertida no Montepio Geral da Bahia; o Club Caixeiral, fundado
em 21 de maio de 1876; a Sociedade Beneficência Caixeiral, criada em 19 de abril de 1885; a
Associação dos Empregados no Comércio da Bahia, instituída em 21 de janeiro de 1900; e a
Sociedade União dos Empregados no Comércio Varejista, de 15 de novembro de 1915; a União
Caixeiral da Bahia, de 1 de junho de 1919; o Clube Caixeiral “Afrânio Peixoto”, surgido em
data incerta dos anos 1920; e a Associação dos Caixeiros Viajantes da Bahia, fundada em 17
de novembro de 1925.3
Em sua tese de doutorado sobre os trabalhadores do Sul da Bahia, Philipe Murillo
Santana de Carvalho fez um amplo mapeamento sobre o associativismo em Ilhéus e Itabuna e
suas relações com a política entre 1918 e 1934. Seu estudo incluiu não apenas a atuação das
associações dos artesãos e operários, mas também a dos caixeiros. Entre as entidades que

1
BATALHA, Claudio H. M. “Relançando o debate sobre o mutualismo no Brasil: as relações entre corporações,
irmandades, sociedades mutualistas de trabalhadores e sindicatos à luz da produção recente”. Revista Mundos do
Trabalho, Florianópolis, v. 2, n. 4, p. 12-22, 2010. Disponível em:
https://periodicos.ufsc.br/index.php/mundosdotrabalho/article/view/1984-9222.2010v2n4p12; CORD, Marcelo
Mac; BATALHA, Claudio H. M. (Org.). Organizar e proteger: trabalhadores, associações e mutualismo no Brasil
(séculos XIX e XX). Campinas: Editora da Unicamp, 2014; SILVA JUNIOR, Adhemar Lourenço da. “Etnia e
classe no mutualismo do Rio Grande do Sul (1854 - 1889)”. Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre: PUCRS, v.
XXV, n. 2, p. 147-174, dez. 1999; SILVA JUNIOR, Adhemar Lourenço da. “O mutualismo de fechamento étnico
no Rio Grande do Sul (1854-1940)”. Métis: história e cultura. Caxias do Sul: Edusc, v. 4, n. 8, p. 99-126, jul. / dez.
2005.
2
CASTELLUCCI, Aldrin A. S. “A luta contra a adversidade: notas sobre o mutualismo na Bahia (1832-1930)”.
Revista Mundos do Trabalho, Florianópolis, v. 2, n. 4, 2010, p. 41-42.
3
CASTELLUCCI. “A luta contra a adversidade”, p. 65.
13

merecem destaque, vale a pena mencionar o Grêmio Lítero-beneficente dos Caixeiros de


Itabuna, fundado em 1916, a Associação dos Empregados no Comércio de Ilhéus, criada em
1920 e a Associação dos Empregados no Comércio de Itabuna, instituída em 1929. Como se
verá em minha dissertação sobre os caixeiros de Salvador, seus companheiros de Ilhéus e
Itabuna enfrentaram problemas semelhantes aos da capital baiana quanto a várias questões.
Uma dessas questões era comum aos empregados no comércio em todo o Brasil à época: as
longas e péssimas condições de trabalho e os baixíssimos salários. Tanto a tese de Carvalho
quanto as obras de outros autores que serão mencionados em minha dissertação assinalam essa
marca do trabalho no comércio. A segunda semelhança é quanto às dificuldades dos caixeiros
para criarem associações independentes dos comerciantes, seus patrões. A terceira guarda
relação direta com a segunda, pois diz respeito ao envolvimento das associações e de suas
lideranças com a política. Há ainda outros pontos de contato entre a pesquisa de Philipe
Carvalho e a minha: em 1928, os caixeiros de Ilhéus conseguiram conquistar a aprovação da lei
357, por meio da qual impuseram a regulamentava a chamada semana inglesa, isto é, a jornada
de trabalho semanal de 44 horas no comércio, algo muito significativo dado o longo histórico
de lutas pelo fechamento das portas em Salvador, no Rio de Janeiro e em outras cidades
brasileiras da época. Por fim, nos anos 1920 as associações de caixeiros de Ilhéus e Itabuna
tentaram agir em sintonia com as coirmãs de Salvador e do Rio de Janeiro na luta pela
implementação da lei de férias.4
No caso de Salvador, guardadas as diferenças, em muitos casos e momentos, as
associações de caixeiros foram contemporâneas umas das outras, compartilharam dezenas, as
vezes centenas de membros e tinham alguns objetivos comuns. Isso justificaria um estudo sobre
o conjunto dessas organizações e as pessoas que as integraram. Contudo, dada a complexidade
do fenômeno e a exiguidade de tempo para pesquisa de tamanha dimensão e integralizar o curso
de mestrado, tomei como objeto de pesquisa a Associação dos Empregados no Comércio da
Bahia (AECB). Ela teve milhares de sócios, funcionou por todo o período entre 1900 e 1930
sem interrupção, cumpriu um papel importante na securitização de seus membros e nos legou
um vasto corpo documental, fatos mais que suficientes para justificar um estudo focado nessa
sociedade.
O surgimento e a expansão do associativismo de tipo mutualista estão associados tanto
à insegurança social e às difíceis condições de vida e trabalho (marca de uma época sem
previdência social), quanto ao estreitamento da identidade de ofício e classe, especialmente

4
CARVALHO, Philipe Murillo Santana de. “Trabalhadores, associativismo e política no sul da Bahia (Ilhéus e
Itabuna, 1918-1934) (Tese de Doutorado em História, Universidade Federal da Bahia, 2015).
14

(mas não exclusivamente) entre os trabalhadores.5 Minha pesquisa sobre a AECB tem em conta
essas duas dimensões. Ela investe tanto no exame do grau de eficácia da ação securitária dessa
associação, quanto na análise do processo de construção de uma identidade caixeiral e suas
relações com a identidade de classe e nacional, aspecto importante no estudo dessa categoria,
dada a grande quantidade de estrangeiros (principalmente portugueses e espanhóis) misturados
aos brasileiros. Como demonstrarei na primeira parte da dissertação, o cruzamento da variável
nacional com a de classe teve uma importância quase tão grande em meu trabalho quanto a
dimensão de cor em suas relações com a classe na pesquisa que Castellucci empreendeu sobre
o Centro Operário da Bahia.6
Além de ser uma contribuição ao estudo do fenômeno do associativismo dos
trabalhadores, o tema do mutualismo entre os caixeiros ganha ainda mais relevância em função
de Salvador ser uma das mais importantes praças comerciais do Brasil no oitocentos, posição
mantida nas primeiras décadas do século XX. Os comerciantes, fossem eles brasileiros ou
portugueses, varejistas ou grossistas, tinham grande peso social e influência política na
sociedade baiana do período, superior ao dos industriais, muitas vezes negociantes enriquecidos
que investiam na montagem de fábricas como forma de diversificar e expandir seus ganhos.7
Os muitos estabelecimentos comerciais de Salvador empregavam grande número de caixeiros.
De acordo com o Recenseamento de 1920, comércio e finanças reuniam 15.780 pessoas, 5,6%
dos 283.422 habitantes da cidade naquele ano.8
Mário Augusto da Silva Santos definiu os caixeiros como uma “categoria profissional
ligada às atividades comerciais, no nível de empregado”. Para o autor, o termo veio caindo e
gradativamente entrou em desuso, sendo substituído por expressões equivalentes como
“vendedor” ou “balconista”, quando se trata do profissional que lida diretamente com os
clientes em operações de venda. Para o grupo em geral, nas suas diversas funções, costuma-se
falar em “empregados do comércio” ou apenas “comerciários”, conforme definição adotada a

5
BATALHA, Claudio H. M. “Sociedades de trabalhadores no Rio de Janeiro no século XIX: algumas reflexões
em torno da formação da classe operária”. Cadernos AEL. Campinas (SP): IFCH/UNICAMP, v. 6, nº 10/11, p.
41-66, 1999. Disponível em: http://www.ifch.unicamp.br/ael/website-ael_publicacoes/cad-10/Artigo-2-p41.pdf;
LUCA, Tania Regina de. O Sonho do Futuro Assegurado: O Mutualismo em São Paulo. São Paulo: Contexto;
Brasília: /CNPq, 1990; VISCARDI, Cláudia. M. R. “O estudo do mutualismo: algumas considerações
historiográficas e metodológicas”. Revista Mundos do Trabalho, Florianópolis, v. 2, n. 4, p. 23-39, 2010.
Disponível em:< https://periodicos.ufsc.br/index.php/mundosdotrabalho.
6
CASTELLUCCI, Aldrin A. S. “Classe e cor na formação do Centro Operário da Bahia (1890-1930)”. Afro-Ásia
(UFBA), n. 41, p. 85-131, 2010.
7
MATTOSO, Kátia M. de Queirós. Bahia, Século XIX: uma província no Império. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1992, p. 487-523.
8
CASTELLUCCI, Aldrin A. S. Industriais e operários baianos numa conjuntura de crise (1914-1921). Salvador:
Fieb, 2004, p. 46.
15

partir da instituição da Legislação da Previdência Social que, pelo Decreto 24.273, de 1934,
criou o Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários.9
É sobre a AECB, uma das mais importantes entidades criadas pelos caixeiros, que me
deterei em minha dissertação. Essa investigação será feita à luz de estudos que trazem em seu
cerne a temática do mutualismo. No artigo intitulado Relançando o debate sobre o mutualismo
no Brasil: as relações entre corporações, irmandades, sociedades mutualistas de trabalhadores
e sindicatos à luz da produção recente, Claudio Batalha faz um levantamento de leituras acerca
do tema. Esse estudo tem contribuído para aprofundar o conhecimento sobre as organizações
de classe e suas práticas no Brasil e de algum modo iluminam questões que serão trazidas nesta
pesquisa.10
Conforme o autor, a produção acadêmica nos últimos anos tem tratado das sociedades
de auxílios mútuos sob dois enfoques. O primeiro privilegia a dimensão propriamente
mutualista/previdenciária dessas associações, concebendo o mutualismo como um fenômeno
mais amplo e pluriclassista; o segundo, que interpreta o mutualismo como uma das formas de
organização dos trabalhadores atenta-se mais para os “aspectos que transcendem o mutualismo
e que estão presentes nas intenções e nas práticas das associações”.11
Não é nosso objetivo nesta dissertação fazer um balanço exaustivo desses trabalhos,
nem escolher uma ou outra perspectiva, mas ressaltar a importância de determinados aspectos
acerca do mutualismo abordados por um ou por outro, para a proposta aqui empreendida.
Outros trabalhos que abordam a temática mutualistas serão tomados como nossos
interlocutores. Na tese de doutoramento intitulada As sociedades de socorros mútuos:
estratégias privadas e públicas (estudo centro no Rio Grande do Sul – Brasil, 1854-1940),
Adhemar Lourenço da Silva Junior abordou as estratégias públicas e privadas implementadas
pelas sociedades de socorros mútuos, considerando aquelas de fechamentos étnicos e de classe,
no Rio Grande do Sul, no período compreendido entre 1854 e 1940. O autor lançou mão de
comparações nacionais e internacionais para generalizar algumas afirmações, bem como de
fontes qualitativas e/ou discursivas objetivando descrever a distribuição, a classificação e os

9
SANTOS, Mário Augusto da Silva. Casa e Balcão: os caixeiros de Salvador (1890-1930). Salvador: EDUFBA,
2009, p. 25.
10
BATALHA, Claudio H. M. “Relançando o debate sobre o mutualismo no Brasil: as relações entre corporações,
irmandades, sociedades mutualistas de trabalhadores e sindicatos à luz da produção recente”. Revista Mundos do
Trabalho, Florianópolis, vol. 2, n. 4, 2010. p. 12-22. Disponível em:<
https://periodicos.ufsc.br/index.php/mundosdotrabalho>. Acessado em: 25 out. 2015.
11
BATALHA, “Relançando o debate sobre o mutualismo no Brasil”, p. 12-22.
16

socorros oferecidos e comparar os fechamentos étnicos e de classe e o controle de


comportamentos entre os membros.12
Na dissertação de mestrado O Lábaro protetor da classe operária. As Associações
voluntárias de socorros-mútuos dos trabalhadores em Florianópolis – Santa Catarina (1886-
1932), Rafaela Leuchtenberger identificou e analisou o funcionamento das associações de
socorro mútuo organizadas pelos trabalhadores de Florianópolis entre os anos de 1886 e 1932.13
Para isso, priorizou a análise dos sujeitos sociais envolvidos com tais instituições e os interesses
e as necessidades que motivaram a formação de associações. Trata-se de um estudo que buscou
ir além de elencar os benefícios previdenciários a que tais instituições se propunham fornecer,
possibilitando a “verificação de evidências que atestam sobre as condições sociais dos
trabalhadores na cidade, a existência de uma forte cultura associativa e o desenvolvimento de
relações de identidade de classe”.14
A tese A perseverança dos caixeiros: o mutualismo dos trabalhadores do comércio em
Maceió (1879-1917), defendida por Osvaldo Batista Acioly Maciel, se destaca entre os
trabalhos que abordam o mutualismo, pois tem como foco a experiência mutualista dos
caixeiros em Maceió, no período compreendido entre 1879 e 1917.15 Para investigar a formação
das sociedades mutuais e configurar os embates erigidos pelos empregados do comércio foram
selecionadas as entidades Sociedade Perseverança e Auxilio dos Caixeiros de Maceió, e
Sociedade Instrução e Amparo dos Caixeiros de Maceió. A partir do estudo da trajetória das
duas entidades, o autor destacou a composição de suas diretorias, os entraves existentes entre
ambas e as relações estabelecidas com grupos oligárquicos de Alagoas. O autor salientou, ainda,
dentre os serviços prestados por estas instituições, a educação, relacionando-a às formulações
ideológicas propostas pelas suas lideranças e à cultura literária da época.
O estudo de caso sobre o mutualismo caixeiral caracteriza a posição controversa dos
caixeiros ou auxiliares do comércio nas abordagens acerca do mundo do trabalho no Brasil. O
debate proposto por Maciel é importante para este empreendimento, porque reforça a
necessidade de demarcação de limites específicos para a abordagem do tema, bem como um
posicionamento, ainda que flexível, que toma como objeto tanto os caixeiros quanto o próprio
mutualismo, cujo estatuto também é controverso na historiografia brasileira.

12
SILVA JR., Adhemar L. “As sociedades de socorros mútuos: estratégias privadas e públicas. Estudo centrado
no Rio Grande do Sul – Brasil, 1854-1940”. (Tese de Doutorado em História. PUC, 2005).
13
LEUCHTENBERGER, Rafaela. “O Lábaro protetor da classe operária. As associações voluntárias de socorros
mútuos dos trabalhadores em Florianópolis - Santa Catarina (1886-1932”). (Dissertação de Mestrado em História.
UNICAMP, 2009).
14
LEUCHTENBERGER, “O Lábaro protetor da classe operária”, p. XI.
15
MACIEL. A perseverança dos caixeiros, p.
17

Acerca das produções que discorrem especificamente sobre a experiência associativa


dos caixeiros e/ou sobre o mutualismo na Bahia, destaca-se o já citado trabalho de Aldrin
Castellucci. Conforme apontei, o autor identificou várias associações de caixeiros fundadas nos
séculos XIX e XX como decorrência do estreitamento de laços de solidariedade entre os
trabalhadores do comércio e da inexistência de uma legislação trabalhista e previdenciária. Ao
mesmo tempo, destacou as dificuldades enfrentadas por esses trabalhadores para afirmar uma
identidade de classe e garantir entidades autônomas. Entre os problemas mais importantes
estavam os laços nacionais e consanguíneos que ligavam patrões e empregados no comércio.16
A obra Casa e Balcão: os caixeiros de Salvador (1890-1930), de Mário Augusto da
Silva Santos situa a atuação dos caixeiros no âmbito da sociedade, da economia, das relações
de trabalho e da política baiana no final do século XIX e início do século XX. 17 O autor
caracterizou a posição ocupada pelos caixeiros na Salvador da época, ressaltando o
relacionamento entre os patrões e empregados, a construção das primeiras associações de
trabalhadores do comércio e o comportamento destas na política da Primeira República.
Reforçou a importância dos caixeiros numa economia essencialmente agromercantil, para
posteriormente delinear o comportamento da categoria em face de vários aspectos da sociedade.
Este trabalho interessa, principalmente, pela leitura do envolvimento dos caixeiros com
a política local no período abordado. Mário Santos identificou as dificuldades de autonomia
dos empregados do comércio e a carência da independência do grupo caixeiral diante do
patronato, principalmente, ao examinar o comportamento político de ambos.18
Assim, demonstra-se que, também na política, a categoria dos caixeiros não estava
imune às influências dos patrões, que em muitas associações figuram como diretores. Tal fala
encontra eco em Aldrin Castellucci. Para o autor, as organizações dos caixeiros se mostravam,
por vezes, alinhadas com certos setores oligárquicos, a exemplo da ocasião em se deu a eleição
de 1919, quando as entidades patronais e de empregados do comércio apoiaram a candidatura
de Ruy Barbosa à presidência.19
Esse apoio, provavelmente deve ter ocorrido em função do apelo que Ruy Barbosa fazia
às “classes conservadoras” da época. Para Silvia Noronha Sarmento, a definição de “classes
conservadoras” para Ruy Barbosa abrangia não somente a lavoura, a indústria e o comércio,
como o funcionalismo público, os militares e os operários, ou seja, todos que produzissem algo

16
CASTELLUCCI, “A luta contra a adversidade”, p. 62-64.
17
SANTOS, Mário Augusto da Silva. Casa e Balcão: os caixeiros de Salvador (1890-1930). Salvador: EDUFBA,
2009.
18
SANTOS, Casa e Balcão, p. 91.
19
CASTELLUCCI, “A luta contra a adversidade”, p. 25.
18

em benefício da sociedade. Segundo Sarmento, essa definição elástica que servia mais como
elemento retórico que conceito real, marcava a inserção da “questão social” no discurso de Ruy
Barbosa, demonstrando o seu afastamento “do liberalismo individualista clássico para admitir
‘medidas tutelares’ em relação ao operário, nos moldes de uma ‘democracia cristã’”.20
Evidentemente essa abertura às questões sociais era decorrente dos temores das greves
vivenciadas no estado naquele período, reflexo, também, da organização dos trabalhadores no
estado.
O movimento de reivindicações por parte do proletariado durante o final da década de
1910 provoca um cenário de mudanças políticas, as greves deflagradas pelos operários a partir
de 1917 se estendem durante a Primeira República. Para Rui Barbosa a modificação do cenário
político brasileiro seria possível apenas com uma revisão constitucional, sendo esta uma das
suas principais bandeiras na campanha de 1919. Nesse projeto de revisão da constituição estava
presente o voto secreto, o que não era bem visto pelas oligarquias, embora tivesse aceitação
pela população, principalmente a que vivia nos centros urbanos.
Em que pese as tensões que ocorriam na cidade de Salvador durante a Primeira
República, o comércio sempre figurou como umas das principais atividades laborativas da
época, principalmente pela sua capacidade de absorção de mão de obra. O comércio era fonte
de trabalho e renda de boa parte da população de Salvador, esse cenário incluía a categoria dos
caixeiros numa parcela significativa da sociedade, dada a sua importância.
Lutas por melhores condições de trabalho, particularmente no que concerne à redução
da jornada de trabalho, à proibição da abertura do comércio aos domingos e dias santificados,
bem como à regulamentação das férias foram bandeiras hasteadas pela associação tomada como
objeto dessa pesquisa. Todavia, a multiplicidade de instituições que buscavam representar os
caixeiros no período pesquisado pode indicar uma falta de coesão desse grupo social, assim
como suas fortes ligações com o patronato.
O estudo sobre a trajetória da Associação dos Empregados do Comércio da Bahia,
conforme visto nos capítulos que compõem esta dissertação, demonstra a diversidade do
universo associativo dos trabalhadores do comércio baiano na virada do século XIX para o XX.
Dentre as associações caixeirais existentes em Salvador na Primeira República, a AECB
foi a que mais se destacou, também foi a que nutriu laços mais estreitos com a Associação
Comercial da Bahia. Percebe-se, ainda, que a ACB manteve ligações fraternas com a AECB,
em razão da abertura nos estatutos dessas entidades, que possibilitavam o ingresso em suas

20
SARMENTO. Silvia Noronha. A raposa e a águia: J. J. Seabra e Rui Barbosa na política baiana da Primeira
República. Salvador: EDUFBA, 2011, p. 172-173.
19

fileiras aos mais variados tipos de membros, mostrando o interesse e possível influência dos
patrões sobre as entidades pesquisadas.
Além da importância da entidade no cenário social e das relações políticas e amistosas
entre empregados e patrões, os relatórios da mutual comprovam as dificuldades financeiras
decorrentes da manutenção dos serviços prestados e, principalmente, da inadimplência de seus
associados. Problemas comuns àqueles existentes em outras mutuais da referida categoria, mas
que, certamente, produziram tensões e conflitos no interior da AECB.
Esta pesquisa, portanto, será dividida em duas partes. Na parte I, intitulada A
Associação dos Empregados no Comércio da Bahia: perfis e trajetórias, falarei sobre o
processo de fundação da Associação dos Empregados do Comércio da Bahia, os objetivos aos
quais ela se propunha e darei ênfase à reconstituição do perfil de seus membros. Para tanto, usei
as seguintes fontes: relatórios anuais elaborados por suas diretorias; notícias publicadas na
imprensa e os livros de entrada e saída de sócios da entidade, o mais importante acervo
documental de minha pesquisa. Esses livros de sócios reúnem informações sobre milhares de
membros da AECB no período de 1900 a 1930 e foram consultados no Arquivo da Associação
dos Empregados do Comércio da Bahia. Já os relatórios da diretoria e a imprensa foram
pesquisados no Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB) e na Biblioteca Pública do Estado
da Bahia (BPEB).
Com base no livro de Registro de Sócio, nos Relatórios da Diretoria e na imprensa,
buscou-se traçar o perfil social dos membros da Associação dos Empregados no Comércio da
Bahia. Dei atenção especial ao exame das ocupações, nacionalidades, faixa etária, entre outras.
Esses dados permitiram traçar o perfil social e a trajetória de alguns dos associados, buscando
identificar aqueles que mais se destacavam internamente, a mobilidade dos membros na
hierarquia interna da associação, bem como as redes de relações e articulações políticas
estabelecidas com outras sociedades de trabalhadores e com a Associação Comercial da Bahia
e o Estado.
A parte II faz uso das mesmas fontes e é intitulada A união faz a força: A AECB e sua
atuação securitária e política. Dedica-se à análise das atividades securitárias desenvolvidas
pela AECB. A Associação dos Empregados no Comércio da Bahia buscou colocar os sócios
desempregados no mercado de trabalho através de um “Bureau de Empregos”, criou uma
biblioteca e escolas nas quais eram oferecidos cursos de escrituração mercantil, datilografia,
matemática, português, inglês, francês, dentre outros. Além disso, disponibilizava serviços
advocatícios gratuitos e tratamento médico e odontológico para os sócios. Por fim, a AECB
propôs a construção de uma Casa de Saúde e de um Asilo de Caixeiros. Além da ação
20

mutualista, os documentos arrolados nesse capítulo permitem, também, o estudo das relações
mantidas pelos trabalhadores com os políticos e os patrões.
21

PARTE I
A ASSOCIAÇÃO DOS EMPREGADOS NO COMÉRCIO DA BAHIA:
PERFIS E TRAJETÓRIAS

Fundação da AECB

Desde a era colonial, Salvador era uma importante praça comercial. Ao longo do século
XIX e nas primeiras décadas do século XX, o porto de Salvador, os negócios de importação e
exportação e o comércio varejista constituíram importantes atividades econômicas e base da
grande influência que o comércio exercia sobre a sociedade e a políticas baianas no período.21
Na passagem do século XIX ao XX, em que pese as mudanças que ocorreram na cidade
de Salvador, o comércio continuou sendo uma das principais atividades da época em termos de
capacidade de absorção de mão de obra. De acordo com Mário Augusto da Silva Santos, “o
comércio e os serviços privados e públicos em geral ocupavam boa parte da população de
Salvador”.22 Tal cenário incluía a categoria dos caixeiros numa parcela significativa da
sociedade, dada a sua importância.
Essa importância ficou evidenciada no episódio ocorrido em 13 de novembro 1899, que
ficou conhecido como o “Dia em que o governador Luiz Vianna respondeu com força policial
militar às manifestações de protesto na Cidade Baixa”. O conflito teve como estopim a possível
fraude no resultado das eleições para o cargo de Intendente (prefeito) da capital da Bahia, pleito
ao qual concorreram pela situação José Eduardo Freire de Carvalho Filho, do Partido
Republicano da Bahia, e pela oposição Domingos Guimarães, do Partido Constitucionalista,
que recebeu o apoio da categoria comercial.23
No início da tarde do dia 13 de novembro de 1899, um representante do governo estadual
teria tentado fixar na frente da Livraria Catilina um informativo confirmando a vitória de José
Eduardo, mesmo antes de concluída a apuração dos votos. Ao tentar impedir a ação do preposto
do governo, caixeiros e alguns apoiadores de Domingos Guimarães foram agredidos pela

21
MATTOSO, Bahia, Século XIX, p. 487-523.
22
SANTOS, Mário Augusto da Silva. A república do povo: sobrevivência e tensão. Salvador, EDUFBA, 2001, p.
25.
23
TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. São Paulo: Editora UNESP; Salvador: EDUFBa, 2008, p.
312-313.
22

polícia que, inclusive, pisoteou com os cavalos alguns caixeiros. De acordo com Luís Henrique
Dias Tavares:

A intervenção da Polícia Militar causou mortes e feridos em número jamais


estabelecido. Também ocorreram prisões, muitas prisões, de empregados do
comércio e populares. [...] Refletindo a insatisfação social e política das
camadas sociais médias da capital (os empregados do comércio não foram os
únicos manifestantes), o 13 de novembro revelou também velhos e novos
conflitos entre as oligarquias, sendo os mais recentes os que participavam do
processo sucessório em desdobramentos naqueles meses finais de 1899.
Haveria eleição para governador em janeiro de 1900. O 13 de novembro passou
a ser data política reverenciada em atos cívicos e religiosos patrocinados pela
Associação Comercial da Bahia.24

O ataque à categoria caixeiral repercutiu entre os comerciantes e caixeiros que


mantiveram os estabelecimentos fechados por alguns dias. Depois, em reunião realizada na
Associação Comercial da Bahia (ACB), nomearam uma comissão para requerer do governador
a soltura imediata dos caixeiros presos, a retirada das forças policiais do bairro do comércio,
além de manifestarem a indignação pela forma como os caixeiros foram reprimidos. Os mortos
durante os conflitos teriam sido Miguel dos Anjos Pereira de Azevedo e Albertino, identificado
como crioulo. As fontes indicam que após o fatídico episódio de repressão aos caixeiros e
comerciantes o secretário de polícia Pedro Vicente Vianna pediu exoneração do cargo.25

24
TAVARES, História da Bahia. p. 313.
25
“Leituras Religiosas”. Revista Católica Semanal, Salvador, dia mês ano, p. 13.
23

Figura 1:
"Episódio sangrento em 13 de novembro de 1899", de Rodolpho Frederico Francisco
Lindemann, 1905. Óleo sobre tela, 110 x 120 cm.

Fonte: Pinacoteca da Associação Comercial da Bahia.

É possível que essa mobilização política dos caixeiros, feita no rastro de outras do século
XIX, guarde relação com a criação da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia
(AECB), fundada na sede da Sociedade Euterpe, situada na Piedade, em Salvador, no dia 21 de
janeiro de 1900, pouco mais de dois meses depois dos conflitos de 13 de novembro de 1899. A
comissão fundadora da entidade foi formada por Ricardo da Silva Teixeira Machado, Dalmiro
Cayres, Deraldo Argollo, Antonio Julio Cezar Bouças e José Carneiro de Mello. Já a primeira
diretoria foi composta por Francisco Pereira de Miranda (presidente), Dalmiro Cayres (vice-
presidente), Ricardo da Silva Teixeira Machado (primeiro secretário), José Carneiro de Mello
(segundo secretário), Deraldo Argollo (tesoureiro) e Antonio Julio Cezar Bouças
(procurador).26
Suas primeiras reuniões ocorreram na Sociedade Euterpe, à época instalada no Largo da
Piedade. Pouco tempo depois, a AECB, através de Ricardo da Silva Teixeira Machado (um dos
três sócios agraciados com o título de “Grande Benemérito”), alugou um salão na Ladeira de

26
Diário Oficial do Estado da Bahia. Salvador: Imprensa Oficial do Estado da Bahia, 2 jul. 1923, p. 475.
24

São Bento, ficando aí instalada. Posteriormente, o associado Dalmiro Cayres sugeriu a compra
de um prédio na cidade baixa, localizado à Rua do Plano Gonçalves. Tal iniciativa teve como
opositor o associado Ricardo Machado, que julgava o lugar inadequado para a instalação da
AECB. Em busca de um local onde fosse possível instalar-se definitivamente, pensou-se ainda
num prédio localizado na Avenida Sete de Setembro. Este, por sua vez, também foi objetado
por Ricardo Machado, que em meio às discussões asseverou: “[...] a Associação só fica bem na
Rua Chile”.27
Apesar do interesse em instalar a Associação numa rua prestigiada pela população da
época, até aquele momento a AECB não dispunha de quantia suficiente para adquirir o imóvel
almejado. Assim, no ano de 1904, foi comprado um prédio localizado à Rua Carlos Gomes, nº
19, pela quantia de 24:737$400 (vinte e quatro contos, setecentos e trinta e sete mil e
quatrocentos réis). Para concretizar a referida compra, a AECB fez a venda de três letras do
Banco da Bahia, além de apólices federais. A inauguração da sede social e sua biblioteca
ocorreram a 14 de maio de 1905, tendo sido celebrada uma missa na Igreja de S. Pedro, às 9
horas da manhã daquele dia. O evento contou com a presença de diversas autoridades, membros
da Associação Comercial, associações congêneres e demais “representantes de todas as classes
sociais”. A AECB utilizou esse prédio até 1917, ano em que foi locado ao Governo do Estado,
que instalou ali o Arquivo Público Estadual e o Museu do Estado. Em 18 de novembro de 1922,
o Governo do Estado da Bahia comprou o edifício por 50:000$000 (cinquenta contos de réis).28
Tendo adquirido personalidade jurídica no ano de 1914, com o registro dos seus
estatutos, as atenções voltaram-se novamente pela edificação da sede social na Rua Chile.
Naquele momento a Rua Chile era o local de grande visibilidade e símbolo da prosperidade
comercial da cidade, objeto das reformulações urbanas ocorridas durante o primeiro mandato
do governador José Joaquim Seabra (1912-1916). A Companhia de Melhoramentos da Bahia,
proprietária de alguns terrenos na tão desejada área, colocou à venda alguns lotes, dentre os
quais foi comprado pela AECB por 88:000$000 (oitenta e oito contos de réis) o terreno situado
no “[...] ângulo formado pelas Ruas Chile, Assembleia e Thomé de Souza”, tendo a escritura
sido lavrada a 12 de janeiro de 1916, em nota do Tabelião Nemesio Diógenes. Somadas todas
as despesas, o custo final foi de 96:758$200 (noventa e seis contos, setecentos e cinquenta e

27
Biblioteca Pública do Estado da Bahia (BPEB). Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos
Empregados no Comércio da Bahia em Sessão de Assembleia Deliberativa, de 24 de fevereiro de 1918. Relativo
à administração de 1916 e 1917. Bahia: Estabelecimento dos Dois Mundos, 1918.
28
Arquivo da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia (AAECB). Relatório apresentado pela Diretoria
da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão de Assembleia Geral Ordinária, em 28 de maio
de 1905. Relativo à administração de 1904. Bahia: Typographia Bahiana de Cincinnato Melchiades, 1905.
25

oito mil e duzentos réis). A aquisição foi viabilizada através de empréstimo de 68:000$000
(sessenta e oito contos de réis), concedido pela firma Moraes & Companhia, com juros de 7%
ao ano.29
No ano seguinte, a AECB realizou “Concurso de Plantas”, conforme divulgado pela
Associação “[...] o primeiro certame deste gênero feito nesta capital”, visando escolher o projeto
arquitetônico que seria implementado na construção da nova sede social, com premiação aos
dois primeiros colocados. Em parecer elaborado pelos Engenheiros Manoel Tapajoz, chefe de
fiscalização das obras no porto de Salvador, Francisco de Souza e Júlio Conti, foram escolhidos
os projetos de Fructuoso Sampaio e Evandro Pinho, em primeiro lugar, que receberam a quantia
de 1:500$000 (um conto e quinhentos mil réis) como prêmio, e o projeto de Rossi Filho, em
segundo lugar.
Segundo se constatou no processo de pesquisa, o projeto implantado foi o do segundo
colocado, que recebeu um total de 500$000 (quinhentos mil réis), do qual abriu mão, revertendo
a quantia para AECB. A construção ficou a cargo da Companhia Serraria e Construções, de
propriedade do associado e “Grande Benemérito” Alberto Moraes Martins Catharino, tendo
sido contratado para fiscalizar a obra o Engenheiro Álvaro Portella Povoas. De acordo com os
relatórios da diretoria, durante dezessete meses de obra ele percebeu a quantia de 4:250$000
(quatro contos duzentos e cinquenta mil réis). A obra foi concluída em 11 de dezembro de 1917,
e após o término atingiu a soma de 386:420$800 (trezentos e oitenta e seis contos, quatrocentos
e vinte mil e oitocentos réis), um valor expressivo que revela a consolidação patrimonial da
AECB.30
Não se pode precisar quais os motivos que levaram à implantação do segundo projeto
em detrimento do primeiro colocado no certame realizado pela Associação. Embora os
relatórios revelem que o arquiteto Rossi Baptista reverteu o valor do prêmio para a AECB, é
possível inferir que a escolha do seu projeto tenha sido em virtude de laços estreitos entre o
concorrente e a diretoria da mutual. Sua chegada à Bahia em 1911 teria ocorrido com intuito de
prestar serviços à família Martins Catharino, comerciantes portugueses proprietários de fábricas
têxteis que exploravam a força de trabalho de milhares de operários. A atuação do arquiteto
Rossi Baptista estava ligada, primordialmente, às obras particulares, dentre as mais notórias

29
AAECB. Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia relativo à
administração de 1915. Bahia: Typographia Bahiana de Cincinnato Melchiades, 1916 (?).
30
AAECB. Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia relativo à
administração de 1915. Bahia: Typographia Bahiana de Cincinnato Melchiades, 1916.
26

estão o palacete da AECB, palacete do Comendador Bernardo Martins Catharino, localizado na


rua da Graça, e o prédio do British Bank of South América, situado no bairro do Comércio.31
O projeto adotado atendia à necessidade de modernização da cidade, aliado a afirmação
do comércio local dominado por estrangeiros e seus descendentes, especialmente aqueles
oriundos de Portugal que, como se verá adiante, constituíam uma grande parcela dos membros
da entidade e detinham um grande poder econômico.
A inauguração do palacete da AECB ocorreu em 30 de dezembro de 1917. O pomposo
evento contou com as presenças do então governador Antonio Ferrão Moniz de Aragão, do
general Botafogo, do senador federal José Joaquim Seabra, dos presidentes do Senado do
Estado, da Câmara Estadual, da Associação Comercial, de representantes do Instituto
Geográfico e Histórico da Bahia, do intendente municipal e de outras autoridades e associados.
O estandarte da Associação foi conduzido da antiga sede, na Rua Carlos Gomes, para o salão
de reuniões do novo prédio. A condução foi feita pelo sócio fundador Francisco Pereira de
Miranda, acompanhado de dezenas de outros sócios, e a benção à nova sede foi feita pelo
cônego Cristiano Muller, que na ocasião representou o Arcebispo Primaz.

31
PUPPI, Suely de Oliveira. “A arquitetura dos italianos em Salvador, 1912-1924. Monumentos de traços europeus
e modernização urbana no início do século XX”. (Dissertação de Mestrado em Estruturas Ambientais Urbanas,
Universidade de São Paulo, 1997).
27

Figura 2:
Palacete da Associação dos Empregados no
Comércio da Bahia inaugurado em 1917

Fonte: BPEB. Relatório apresentado pela Diretoria da AECB em Sessão de Assembleia


Deliberativa de 7 de mar. 1920. Relativo à Administração de 1918-1919. Bahia:
Oficinas da Livraria “Duas Américas”, 1920, p. 3.
28

Figura 3:
Edifício da Sede Social da AECB – Vestíbulo

Fonte: BPEB. Relatório apresentado pela Diretoria da AECB em Sessão de


Assembleia Deliberativa de 7 de março de 1920. Relativo à Administração de
1918-1919. Bahia: Oficinas da Livraria “Duas Américas”, 1920.

As Figuras 2 e 3 apresentam a sede da AECB inaugurada em 1917. Percebe-se que para


o curto espaço de tempo, entre a eleição do projeto e a conclusão do prédio, a diretoria da mutual
fez questão de transformar o edifício em uma obra de arte que causou grande impacto durante
a Primeira República. Aliado à imponência do edifício, a localização estratégica na glamorosa
rua Chile era mais um adereço importante na construção da imagem de progresso e ascensão
da entidade e de seus membros.
Os relatórios das Diretorias revelam que a Associação passou a ser ponto preferido para
a realização de conferências, concertos, exposições e banquetes, eventos que se constituíam em
fonte de receitas para os cofres da mutual. Além disso, os demais pavimentos também
abrigavam outros inquilinos, a exemplo de lojas, clubes e escola de piano. A parte térrea do
prédio, ocupada pela Farmácia Chile, tinha Celso Valverde Martins como proprietário. A
rescisão do contrato estabelecido entre as partes ocorreu em 18 de novembro de 1928, após
29

desentendimentos entre os diretores da AECB e o referido comerciante, que resolveu vendê-la


e sublocar o estabelecimento sem comunicar a Associação. Em seguida estabeleceu-se no local
a Firma Cabral & Rego.32
Situação inusitada ocorreu durante a gestão da diretoria de 1922 a 1923, quando foram
espalhados boatos pela cidade de que o Palacete da AECB corria risco de desabamento devido
à suposta fragilidade em suas estruturas. A diretoria apressou-se em desfazer os boatos: “A
maledicência, incansável na sua ação deletéria, lembrou-se, não sabemos se obedecendo a
intuitos reservados, de apregoar que o edifício social, por suas más condições de estabilidade,
estava na iminência de um desastre...”.33 Apesar do desmentido por parte da diretoria, muitos
dos eventos que estavam agendados para aquele local foram desmarcados, em virtude do que
se chamou de “atmosfera de receios”. Os dirigentes da mutual chegaram, inclusive, a ser
intimados pelo Diretor das Obras Municipais para prestar esclarecimentos.
Em decorrência desse fato foi convocada uma comissão composta pelos engenheiros
Carlos Souza e Alípio Vianna, pelo construtor italiano Júlio Conti e pelo mestre de obras
Manoel Maia, que ficaram responsáveis pela análise e levantamento de possíveis falhas na
construção. Toda a diretoria responsável pela construção do prédio foi convocada a prestar
esclarecimentos. A comissão técnica encarregada da inspeção, por sua vez, declarou que as
rachaduras identificadas na edificação “[...] provinham do sedimento natural no alicerce, que
se dá em toda obra nova, não constituindo isso ameaças à sua estabilidade”. 34 Álvaro Povoas,
contratado para fiscalizar a obra, publicou uma carta asseverando a segurança do palacete nos
jornais Diário da Bahia e Diário de Notícias, respectivamente nos dias 10 e 14 de outubro de
1922, nos termos abaixo transcritos:

Ilmo. Sr. Alberto Martins Catharino. – Nesta.


Atendendo ao pedido de vossa senhoria, examinei, cuidadosamente, o edifício da
Associação dos empregados no comércio, em presença do seu digno e atual
presidente, nada encontrando, além das fendas que já existiam a cinco anos passados
e que naquela época julguei serem devidas a recalque dos alicerces, o que agora posso
confirmar por tê-las encontrado no mesmo estado e sem nenhuma alteração.
Pelo que vi e observei, posso vos garantir que o edifício não corre o menor perigo em
sua segurança e estabilidade, visto como, pelo tempo decorrido, isto é, cerca de cinco
anos, o recalque já chegou ao seu limite máximo, e, portanto, ficará estacionado.

32
AECB. Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão
de Assembleia Deliberativa de 27 de abril de 1930. Relativo à administração de 1928 e 1929. Bahia: Livraria e
Typographia do Commercio, 1930.
33
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão da
Assembleia Deliberativa de 29 de fevereiro de 1924. Relativo à administração de 1922 e 1923. Bahia: Livraria e
Typographia do Commercio, 1924.
34
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão da
Assembleia Deliberativa de 29 de fevereiro de 1924. Relativo à administração de 1922 e 1923. Bahia: Livraria e
Typographia do Commercio, 1924.
30

À primeira vista parece ter havido desaprumo da fachada em certos pontos, mas tal
absolutamente não se deu, porque, verificados os prumos pela face externa nestes
pontos, não acusam diferença, o que prova ser ele somente no reboco ou revestimento.
Quanto à fenda no grande arco da parte central, vem ela em auxílio do que já afirmei,
pois, por sua natureza e posição, só pode ser devida a um movimento de recalque,
produzindo seus efeitos neste ponto, pode ser uma das demais frágil ligação entre os
dois grandes corpos laterais do edifício, por isto, que sentiu-se ele deste movimento
sem que uma só soleira, ou sacamento, apresentasse o menor vestígio, por serem, por
sua natureza, mais reforçados.
Se bem que eu sabia que um telhado sobre tesouras não pode produzir empuxo sobre
as paredes, por exercer uma pressão exclusivamente vertical, a não ser que rompam
por distensão os tirantes das tesouras, únicos pontos de contato entre ele e as paredes,
ainda assim, não deixei de examiná-lo, nada encontrando que possa afetar a segurança
do edifício, visto como não notei em nenhuma de suas peças a menor deformação ou
menor flexão, o que já seria para notar depois de cinco anos de trabalho, se todas as
suas peças não tivessem a resistência necessária.
Vos posso também afirmar que, de acordo com o projeto, o edifício tem, não só vigas
de ferro nas vergas dos grandes arcos como em todo o seu contorno na altura das
vergas do primeiro andar e na parte superior, que de modo algum poderão permitir o
desaprumo parcial desta ou daquela parte da parede, como poderia supor qualquer,
mesmo técnico que seja, que tais particularidades não tenha conhecimento ou não haja
feito o exame devido.
Assim, pois, nada mais vos posso dizer para afirmar, sem receio de uma contestação
séria, a estabilidade e perfeita segurança do edifício, que aliás, já tem sido submetido
a provas de grandes cargas adventícias, por ocasião das reuniões que lá tem havido e
que tem enchido de centenas de pessoas os seus diversos compartimentos.
Pelo que digo, verá vossa senhoria que nada mais é preciso fazer no dito edifício, além
de serem reparadas as fendas existentes, que somente poderão causar mau efeito à
vista.
De vossa senhoria amigo, criado, obrigado.
Álvaro Portela Povoas.35

A carta de Álvaro Povoas, além de assegurar a estabilidade do prédio constitui-se


também em testemunho da importância assumida pela AECB na organização de eventos e
aluguel do espaço para o que ele adjetivou de “grandes cargas adventícias”, que reunia centenas
de pessoas.
Em relação ao prédio, os relatórios do período ainda dão conta de uma vistoria realizada
pelo Dr. Aurélio de Menezes, diretor da seção de Engenharia Municipal. A conclusão do
engenheiro não divergiu das anteriores. Segundo registrou, o prédio atendia às normas de
estabilidade e segurança. Entre os anos de 1926 e 1927, a sede social foi avaliada pela gestão
em 443:486$100 (quatrocentos e quarenta e três contos, quatrocentos e oitenta e seis mil e cem
réis).

35
Diário de Notícias, Salvador, 14 de out. 1922.
31

A dinâmica associativa

Consistia numa prática comum das associações mutualistas a definição dos critérios para
admissão de novos sócios. No decurso da pesquisa não localizei o Estatuto anterior ao ano de
1930, o que comprometeu o acesso a informações mais precisas sobre as formas de ingresso de
novos membros na AECB ou os valores das joias pagas pelos novos sócios, por exemplo. Essa
lacuna, no entanto, foi preenchida pelo Livro de Registro de Atas da Assembleia Geral de 1900
até 1910, bem como pelos Relatórios das Diretorias que retratam o período, datados entre os
anos de 1904 e 1930, dos quais foi possível extrair informações dessa natureza.
A documentação da entidade deixa claro que, para ingressar na AECB, o candidato,
necessariamente, deveria ser indicado por um componente do quadro social e apresentar
atestado médico comprovando que não sofria de nenhuma doença grave, incurável, contagiosa
ou qualquer defeito que o incapacitasse para o trabalho. Após o preenchimento desses primeiros
requisitos, o processo era submetido à comissão de sindicância que depois de realizar minuciosa
investigação e, se aprovada esta primeira etapa, encaminhava a documentação para o
presidente. Este, por sua vez, incumbia o 1º secretário da tarefa de convidar o proponente a
comparecer na sede da Associação com vistas a se comprometer com o que dispunha o seu
Estatuto. Como obrigações estatutárias, o sócio ingressante deveria realizar o pagamento da
joia e da contribuição do mês em que fosse admitido. Além disso, comprometia-se a aceitar e
desempenhar com diligência e zelo os cargos para os quais eventualmente fosse eleito ou
nomeado, buscando sempre o engrandecimento da associação.36
Para traçar o perfil dos associados da AECB recorri às informações colhidas nos dois
livros de registros de sócios que estão depositadas na sede da Associação, além dos relatórios
anuais da entidade e do estatuto do final da década de 1920. Também fiz uso da imprensa
coetânea. Essas fontes estão dispersas e foram consultadas na AECB, nas seções de obras raras
e de periódicos raros da Biblioteca Pública do Estado da Bahia e no Arquivo Público do Estado
da Bahia. Os livros de registros de sócios, material que se perdeu na maioria das sociedades de
trabalhadores surgidas no século XIX, documentam as entradas de caixeiros na AECB desde
sua fundação, no ano de 1900, até 1930, totalizando o registro de 6.765 membros, dos quais
5.320 foram identificados e analisados nesta pesquisa.
Além do nome do associado e da data de ingresso, essas ocorrências registram a idade,
o estado civil, a nacionalidade, a profissão e a categoria de membro dos filiados. Do cruzamento

36
Livro de Atas da Assembleia Geral da AECB-1900.
32

de dados extraídos dessas fontes foi possível elaborar dois gráficos que permitem visualizar
melhor o registro de entrada e exclusão dos membros da AECB durante a Primeira República.

Gráfico 1:
Registro de entrada de sócios na AECB 1900-1930

Entrada de Sócios AECB


700

600

500

400

300

200

100

Fonte: AECB. Livros de Registro de Sócios da Associação dos Empregados no Comércio


da Bahia (1900-1930).

O Gráfico 1 demonstra a forte adesão dos caixeiros durante o primeiro ano de existência
da mutual, revelando-se, inclusive, como marco de maior entrada de sócios. Através do Livro
de Atas da Assembleia Geral percebe-se que houve uma convocação da categoria a unir-se.
Ricardo Machado, em seu discurso de inauguração da associação, ressaltou que todas as
“classes” estavam buscando se proteger, todavia, apenas o empregado do comércio portava-se,
até aquele momento, como uma “máquina de trabalho”, tão mal recompensada na maioria das
vezes. O sócio pregou união e ânimo entre os membros, para acompanhar de perto os sucessores
dos “Iscariotes”. Provavelmente, a fala de Ricardo Machado fazia referência ao acontecimento
de 13 de novembro de 1899, narrado por Mário Augusto da Silva Santos da seguinte maneira:

[...] quando a polícia do Estado dispensou a pata de cavalo, as manifestações


contrárias ao resultado das eleições para o Conselho Municipal no Bairro Comercial,
em frente à Livraria Catiling. Comerciantes e caixeiros fizeram oposição ao candidato
governista, e empregados de casas comerciais envolveram-se nos tumultos de rua.
Houve lutas corporais e tiroteio. Seguiram-se processos policiais, prisões de caixeiros,
dentre os quais alguns foram feridos.
Morreram duas pessoas. O bairro comercial foi interditado e o comércio da Cidade
Baixa manteve-se fechados por 5 dias [...].37

37
SANTOS, Casa e Balcão, p. 86.
33

Retomando as informações dispostas no Gráfico 1, percebem-se os períodos que


registraram maior número de adesões à AECB. São, respectivamente, os seguintes em ordem
decrescente: 1900, com 638 ingressos; 1928, com 504 ingressos; 1918, com 445 ingressos;
1926, com 399 ingressos; 1927, com 388 ingressos; 1917, com 338 ingressos e 1929 com 305
ingressos. Nos demais anos, o gráfico se mantém numa média entre 100 e 200 membros
ingressando por ano na mutual.
Da mesma forma que a diretoria da época utilizava o relatório anual para festejar a
grande quantidade de sócios que aderiam à associação, as fontes revelam um insistente apelo
para que os sócios se mobilizassem buscando atrair novos membros, fator que também elevaria
a arrecadação da entidade. Nesse sentido, enviaram-se cartas acompanhadas de proposta em
branco para que os sócios pudessem fazer indicações de novos membros.
Em 1907, por exemplo, foi franqueado o uso do salão de reunião para os negociantes de
padaria que vislumbravam a criação de uma “sociedade de negociantes de padaria”. Após a
realização de diversas reuniões conseguiram aglutinar, no máximo, 50 negociantes, dos quais
alguns já eram sócios da AECB. Percebendo o número diminuto de participantes, Ricardo
Machado convidou os referidos comerciantes a aderirem a AECB e na oportunidade firmaram
convênio para realização das reuniões daquele grupo na sede da própria instituição. O convênio
firmado previa pagamento de multa em caso de infrações, o que ocorreu ainda em 1907, tendo
sido recolhido aos cofres da AECB a quantia de 400$000 (quatrocentos mil réis).38
Por ocasião da extinção da Associação dos Empregados Viajantes do Comércio da
Bahia, no ano de 1917, a diretoria da AECB recebeu ofício dos representantes dessa instituição
solicitando a incorporação de seus membros “como sócios remidos”, mediante o respectivo
pagamento.39 A solicitação foi atendida após parecer da comissão de sindicância, tendo sido
transferidos da extinta associação aos cofres da AECB as quantias de 2:825$579 (dois contos,
oitocentos e vinte e cinco mil, quinhentos e setenta e nove réis), depositados numa caderneta
de poupança da Caixa Econômica do Estado e 341$000 (trezentos e quarenta e um mil réis) em
dinheiro, o que garantiu a remissão dos novos sócios.40

38
AECB. Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão
de Assembleia Geral Ordinária, de 12 de abril de 1908. Relativo à administração de 1907. Bahia: Typographia
Bahiana de Cincinnato Melchiades, 1908.
39
Sócio Remido era aquele que se tornava isento de mensalidades, essa condição era alcançada pelos membros
que quitassem um determinado número de mensalidades em um único ato, ou aqueles que adquirissem 20 anos
ininterruptos de contribuição.
40
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão de
Assembleia Deliberativa, de 24 de fevereiro de 1918. Relativo à administração de 1916 e 1917. Bahia:
Estabelecimento dos Dois Mundos, 1918.
34

Em 1923, conforme demonstra o Gráfico 1, houve o ingresso de apenas 150 sócios na


AECB. Certamente, a queda no número de novos associados motivou a diretoria da entidade à
elaboração e divulgação de um manifesto intitulado “Os tristes recuos”. Segundo o texto do
documento:

É ainda bem pequena a falange de moços que se alistam em nossas fileiras se


atendermos ao número de caixeiros que trabalhavam na praça da Bahia. A Associação
conta presentemente com 1853 sócios conforme se lê no anexo nº 6, quando esse
número podia estar decuplicado [...]. Infelizmente a má compreensão dos nossos
Auxiliares do Comércio os faz afastados em grande maioria desta Associação, ao
tempo em que pressurosos se alistam nas Associações esportivas, onde gastam muito
mais a troco de noites perdidas e gozos passageiros [...]. A Associação dos
Empregados no Comércio da Bahia, lidima e inconfundível representante da Classe
dos caixeiros, não dever ser preterida pelo clube esportivo que cobra 10$ e 15$ por
mês dos seus sócios e ainda exige deles a contribuição semanal de 1$, 3$ e 4$, toda
vez que esses sócios pretendem assistir a qualquer entretenimento nos campos de jogo.
Enquanto isso, a Associação fornece por 5$000 (exclusivamente), as aulas de
português, francês, inglês, escrituração, matemáticas, datilografia, assistência
dentária, médica, clínica especial de ouvido, nariz, garganta e olhos, assistência
jurídica, pecúlios e ajudas, pensões e enterramentos, curso primário aos filhos dos
sócios, entretenimentos musicais, bureau de empregos e em perspectiva o hospital e
asilo, dispondo os sócios da bela sede com salões, biblioteca e o mais que de futuro
se pensa anexar.
A diretoria espera que aqueles que não são sócios da Associação o façam no mais
curto prazo.41

Em que pese a crítica feita pelos dirigentes da Associação aos caixeiros de Salvador,
que a preteriam em detrimento de outras entidades esportivas, cabe refletir sobre as diferentes
interpretações que havia e ainda há em torno do mundo associativo. Conforme destacou Claudio
Batalha, o universo associativo desse período “se expressa através de uma rede extremamente
diversificada e rica de associações”. Para este autor, “sociedades recreativas, carnavalescas,
dançantes, esportivas, conviviam lado a lado com sociedades mutualistas, culturais e educativas
e, também, com sociedades profissionais, classistas e políticas”.42
Claudio Batalha lembra ainda que existem controvérsias entre os historiadores em
identificar em que medida cada uma dessas instituições expressa a identidade de uma classe.
Conforme ele mesmo defende, somente formas de ações coletivas e associações que
reivindicam o seu caráter de classe estariam associadas a uma identidade operária. Por outro
lado, há quem considere toda e qualquer sociedade composta por trabalhadores, inclusive

41
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão da
Assembleia Deliberativa de 21 de março de 1926. Relativo à administração de 1924 e 1925. Bahia: Officinas
Graphicas D’ “A Luva”, 1926. Grifos meus.
42
BATALHA, Cláudio H. M. “Formação da classe operária e projetos de identidade coletiva”. In: FERREIRA,
Jorge; DELGADO, Lucila de Almeida Neves. O Brasil Republicano: o tempo do liberalismo excludente. Da
proclamação da República à Revolução de 1930. 7.ª ed. Rio de Janeiro: Civilização, 2014.p. 180.
35

clubes de futebol, uma forma de identidade classista.43 Pelo relatório da AECB é possível datar
a existência deste conflito ainda nos primeiros anos da República. Não é por acaso que a
diretoria da mutual adotou uma postura crítica quando afirmou que os caixeiros soteropolitanos
“gastam muito mais a troco de noites perdidas e gozos passageiros”.
Voltando aos objetivos do manifesto, aparentemente o apelo da diretoria surtiu algum
efeito. Nos anos seguintes, até 1930, o limite temporal desta pesquisa, verificou-se que a AECB
experimentou o maior número de adesões de novos sócios. Evidentemente novas adesões não
eliminavam as exclusões verificadas também na documentação. No Gráfico 2 é possível
perceber esse movimento. Se a AECB apresentava numerosas razões para atrair novos
membros, cabe, também, analisar os possíveis motivos e circunstâncias que levavam às
desfiliações do quadro societário.

Gráfico 2:
Sócios eliminados da AECB entre 1900 e 1930
450
400
350
300
250
200
150
100
50
0
1922-1923
1900
1901
1902
1903
1904
1905
1906
1907
1908
1909
1910
1911
1912
1913
1914
1915
1916-1917
1918-1919
1920-1921

1924-1925
1926-1927
1928-1929
1930-1931

Fonte: AECB, Relatórios da Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da


Bahia (1904-1930).

Cumpre destacar que não encontramos relatórios para o período de 1900 a 1903 e que o
relatório do biênio 1918-1919 não faz referência aos sócios excluídos. Com base nos demais
relatórios, foi possível verificar que a maior parte das eliminações de sócios ocorreu por falta
de pagamento. Em que pese toda articulação realizada pela mutual, que “com bastante mágoa”,
fazia as cobranças das mensalidades em atraso, muitos membros eram desligados da Associação
pois, por determinação estatutária, deveriam ser eliminados todos os membros que devessem

43
BATALHA, “Formação da classe operária”, p. 180.
36

24$000 (vinte e quatro mil réis). Em 1906, circulares foram enviadas aos devedores propondo
o pagamento de ¼ das mensalidades atrasadas para evitar a eliminação.
Constatamos ser prática comum na AECB, nas páginas iniciais dos relatórios da
diretoria, conclamar aos inadimplentes para quitarem as suas dívidas e passarem a usufruir dos
benefícios ofertados, além de fortalecerem a entidade caixeiral. Uma das providências adotadas
pela diretoria no intuito de limitar o acesso daqueles membros em atraso com suas
responsabilidades estatutárias foi a criação de cartões de ingresso, onde apenas os consortes
adimplentes poderiam dispor dos serviços oferecidos.
Em um desses relatórios a diretoria lamentou a inadimplência dos caixeiros: “[...] este
criminoso descaso que os nossos colegas atiram-se”, e reforçam a importância da união dos
membros da “[...] classe a que pertencemos”, para que seja possível “[...] combatermos em
favor de nossas necessidades públicas e particulares”. Aos eliminados foi deixada a
demonstração de pesar, por não cumprir “[...] o dever que o amor e interesse da classe lhes
impunha”.44
Postura semelhante adotou a diretoria do biênio 1920-1921, período em que foi
registrado o maior número de eliminações na mutual, dentro do recorte pesquisado, totalizando
409 membros desligados. No relatório a diretoria alegou que “essa falta de cumprimento de
dever precisa ser banida do nosso meio [...]”. No biênio seguinte, 1922-1923, o alto índice de
eliminações voltou a ocorrer, situação que “[...] evidencia a sua imprevidência”, exclamou a
diretoria, pelos 329 sócios eliminados.45
A segunda maior eliminação de sócios alcançada pela mutual foi registrada no biênio
1924-1925, totalizando 357 membros afastados da AECB. A diretoria justificou a elevada
quantidade de eliminados como forma de protesto pelo aumento das mensalidades que
passaram de 3$000 (três mil réis) para 5$000 (cinco mil réis). Como justificativa do reajuste,
alegaram que houve um “[...] aumento de favores e regalias aos associados”. A despeito da
saída dos sócios, ao final do biênio, a Associação ainda auferiu lucros. Os dirigentes da AECB
creditavam os resultados positivos, em parte, ao “segredo da nossa atual e crescente
prosperidade”.46

44
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão da
Assembleia Deliberativa de 21 de março de 1926. Relativo à administração de 1924 e 1925. Bahia: Officinas
Graphicas D’ “A Luva”, 1926.
45
AECB. Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão
da Assembleia Deliberativa de 05 de março de 1922. Relativo à administração de 1920 e 1921. Bahia: Livraria e
Typographia do Commercio, 1922; Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no
Comércio da Bahia em Sessão da Assembleia Deliberativa de 29 de fevereiro de 1924. Relativo à administração
de 1922 e 1923. Bahia: Livraria e Typographia do Commercio, 1924.
46
AECB. Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão
37

Ainda com base nas informações trazidas pelo Gráfico 2, pode-se constatar que nos
cinco anos seguintes houve uma considerável redução no número de sócios eliminados, muito
embora, no ano de 1929 tenha-se registrado o atraso nas mensalidades de 650 consortes. Ainda
naquele ano, foi lançado um apelo aos eliminados e inadimplentes, “[...] que cessados os
motivos que determinaram a suspensão no cumprimento das obrigações [...]”, todos “[...]
voltem pela porta larga da reabilitação, pois serão tão bem acolhidos como o foram da primeira
vez”.47
Ao que parece a maioria das exclusões se fazia em função da inadimplência. Uma
eliminação que fugiu ao padrão das demais foi a de Alberto Alves Fernandes, brasileiro,
negociante, sócio remido, tendo ingressado nas fileiras da mutual em 1901, com 47 anos de
idade. Sua eliminação ocorreu em 1910. De acordo com o Livro de Registro de sócios, o
afastamento decorreu do enquadramento de Alberto Alves Fernandes no §2º do artigo 23 dos
estatutos da associação. O relatório da diretoria daquele ano informou que o sócio estava
recolhido à Penitenciaria do Estado, fato que foi confirmado pelo diretor da casa de detenção,
através de oficio. As fontes não revelam o crime cometido pelo associado, que naqueles dias já
contava com aproximadamente 56 anos de idade. Causa estranheza ainda o fato de a AECB não
ter mencionado sequer a prestação de assessoria jurídica ao seu membro, serviço que era
disponibilizado pela entidade. A eliminação deve ter sido motivada por algo que maculava a
imagem da instituição, até porque, conforme previa o estatuto da mutual, a exclusão apenas
ocorreria com o trânsito em julgado da sentença condenatória.48
Dentre os motivos já mencionados, podemos citar ainda como causas de exclusões dos
membros da AECB o recebimento indevido de auxílio pecuniário e a recusa na devolução do
mesmo, o desemprego por motivo vergonhoso ou desonesto desde que devidamente
comprovados e a autoria de publicações injuriosas contra a associação.
Outra questão que pode ser iluminada a partir da documentação da AECB refere-se aos
conflitos em torno da atualização de seus estatutos, motivo de constante tensão entre os
dirigentes da instituição, conforme pudemos constatar pela leitura da ata de fundação e das
assembleias que tiveram lugar na mutual, especificamente a sessão de 4 de março de 1900, na

da Assembleia Deliberativa de 21 de março de 1926. Relativo à administração de 1924 e 1925. Bahia: Officinas
Graphicas D’ “A Luva”, 1926.
47
AECB. Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão
da Assembleia Deliberativa de 27 de abril de 1930. Relativo à administração de 1928 a 1929. Bahia: Livraria e
Typographia do Commercio, 1930.
48
AECB. Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão
da Assembleia Geral Ordinária de 29 de junho de 1911. Relativo ao exercício de 1910. Bahia: Estabelecimento
dos Dois Mundos, 1911.
38

qual foi entregue à diretoria, pelo Dr. Thomaz Guerreiro de Castro, cópias dos estatutos das
Associações dos Empregados no Comércio do Rio de Janeiro e de Porto Alegre, que
provavelmente serviram como texto base para AECB. A primeira revisão deste documento foi
realizada em 1902.
Os Relatórios da Diretoria de 1906 já estampavam a necessidade de reforma dos
estatutos, condição que refletia “[...] a opinião de muitos” dos consócios. No ano seguinte foi
reiterada a “[...] grande necessidade” de rever o documento, notada diariamente no exercício
das atividades ordinárias da associação. A diretoria que assumiu na sequência também fez coro
ao pleito e teceu críticas à comissão eleita em Assembleia Geral, realizada em 12 de abril de
1908, justamente com esse objetivo de reformular o estatuto, e que, até aquele momento não
havia cumprido sua missão.
Decorridos quatro anos da formação da comissão responsável pela reforma dos
estatutos, nenhuma providência havia sido tomada, o que provocou o pedido de nomeação pela
Assembleia Geral de uma nova comissão para apresentar a reforma desejada. Somente em 29
de agosto de 1914, com a nomeação de uma nova comissão, composta por Ricardo da Silva
Teixeira Machado, relator, Raul Figueiredo Lima, José Abreu e José da Costa Lopes, é que a
reforma foi concretizada, tendo sido aprovada em fevereiro de 1915. Essa situação aponta para
um período conturbado entre a Diretoria executiva e a Assembleia Geral.49
Os estatutos voltariam a ser reformados novamente a partir dos anos 1919, quando
foram reajustadas as mensalidades de 2$000 (dois mil réis) para 3$000 (três mil réis). E
novamente em 13 de abril de 1924, quando a mensalidade passou de 3$000 (três mil réis) para
5$000 (cinco mil réis), o que culminou em grande quantidade de sócios eliminados, conforme
analisado anteriormente. Na última reforma o valor para remissão foi estipulado em 400$000
(quatrocentos mil réis), pagos numa única parcela do valor total ou em dez parcelas
consecutivas no valor de 40$000 (quarenta mil réis) cada. Essa alteração não atingiu o direito
adquirido dos que já eram sócios. Na oportunidade, também foram reajustados o auxílio funeral
prestado pela entidade, que passou a ser 200$000 (duzentos mil réis), e a pensão, que chegou a
monta de 40$000 (quarenta mil réis).50

49
AECB. Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão
da Assembleia Geral Ordinária de 12 de abril de 1908. Relativo à administração de 1907. Bahia: Typographia
Bahiana de Cincinnato Melchiades, 1908; Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no
Comércio da Bahia em sessão da Assembleia Geral Ordinária de 16 de maio de 1909. Relativo à administração de
1908. Bahia: Typographia Bahiana de Cincinnato Melchiades, 1909; Relatório apresentado pela Diretoria da
Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão da Assembleia Geral Ordinária de 28 de julho de
1912. Relativo ao exercício de 1911. Bahia: Typographia Brazil, 1912.
50
AECB. Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em sessão
da Assembleia Deliberativa de 29 de fevereiro de 1924. Relativo à administração de 1922 e 1923. Bahia: Livraria
39

Uma Associação Pluriclassista

As Atas da Assembleia Geral demonstram que apenas seriam admitidos como “[...]
sócios efetivos os membros da classe comercial.” A ideia de uma “classe comercial” em si já
carrega ambiguidades. A primeira, claro, é a que confunde classe social com categoria
profissional, algo comum à época. A segunda é mais problemática, pois deixa antever a
convivência de caixeiros, isto é, trabalhadores do comércio, e comerciantes, ou seja, seus
patrões, na mesma associação. De fato, desde o discurso proferido por Ricardo Machado no dia
da fundação da AECB, projetou-se a multiplicidade de profissões, grupos e classes sociais que
seriam abarcadas pela Associação. Conforme consignado na ata da assembleia de fundação da
entidade poderiam fazer parte da AECB “[...] negociantes, caixeiros, guarda-livros, ajudantes,
empregados de banco, companhias e trapiches, empregados despachantes que não sejam
nomeados pelo governo, corretores e seus prepostos [...]”.51 Ou seja, em nenhum momento
cogitou-se restringir o ingresso de não caixeiros nos quadros da AECB.
O estatuto que vigorou no final da década de 1920 e início dos anos 1930 estabelecia
que poderiam ser admitidos como sócios aqueles que em todo o território nacional exercessem
as profissões de comerciários, comerciantes, industriais, industriários, bancários, banqueiros,
corretores, leiloeiros, despachantes de mercadorias, profissionais liberais, dentre outros que
seriam admitidos a critério da diretoria.
Essa característica da AECB assemelha-se ao que afirmou Osvaldo Maciel em relação
aos caixeiros em Maceió, onde trabalhadores com diversas ocupações poderiam compor os
quadros da Perseverança e Auxílio, desde que fossem “auxiliares do comércio”. No entanto, no
processo daquela pesquisa destacaram-se cinco ocupações, a saber, “[...] corretores, leiloeiros,
feitores, guarda-livros e caixeiros”.52
Em seu estudo sobre o caso do Rio de Janeiro, a praça comercial mais importante do
país e a que havia possibilitado a fundação de inúmeras associações de trabalhadores do
comércio, Fabiane Popinigis sustentou que, independente da nomenclatura usada -
“empregados do comércio”, “auxiliares do comércio” ou “caixeiros”, esses trabalhadores

e Typographia do Commercio, 1924; Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no
Comércio da Bahia em sessão da Assembleia Deliberativa de 21 de março de 1926. Relativo à administração de
1924 e 1925. Bahia: Officinas Graphicas D’ “A Luva”, 1926.
51
Livro de Atas da Assembleia Geral da AECB-1900.
52
MACIEL. A perseverança dos caixeiros, p. 72.
40

“construíram sua luta política em torno de uma identidade de classe, mas subdivididos em
categorias especificas, porque muito diferentes na função, na hierarquia [...]”.53
No caso de Salvador, essa dimensão classista parece ter tido dificuldades para se
consolidar, pois a abertura nos estatutos da AECB possibilitou a integração no mesmo ambiente
mutualista de patrões e empregados, fato que nem sempre foi bem visto por lideranças de outras
categorias. Foi possível encontrar comerciantes e industriais na apenas na condição de sócios,
mas até mesmo na diretoria da Associação dos Empregados no Comércio. Sobre o assunto,
Castellucci destacou que desde o início, os caixeiros enfrentaram dificuldades para construir
organizações independentes de seus patrões, “[...] com os quais compartilhavam, na maior parte
das vezes, origens nacionais comuns e até laços de consanguinidade”.54
Essa influência do patronato marcou a trajetória da Associação dos Empregados do
Comércio da Bahia desde a sua fundação. Dela faziam parte figuras como Bento Berilo de
Oliveira, capitalista que se destacou pelos investimentos realizados na região de Ilhéus. Além
dele, também faziam parte da AECB Augusto Pinho, Antônio Manso, Manuel Gonçalves da
Costa Drummond e Alberto Morais Martins Catharino, comerciantes que tinham integrado a
diretoria da Associação Comercial da Bahia.
É possível que a permissão para a entrada de comerciantes, industriais, profissionais
liberais, funcionários públicos e autoridades nos quadros (inclusive diretivos) da AECB fosse
uma estratégia da liderança dos empregados para garantir maior visibilidade e prestígio à
entidade e acesso a subvenções estatais (municipais, estaduais e federais), isenções de impostos
e prestação de serviços médicos, odontológicos, jurídicos e educacionais aos trabalhadores
filiados. Até mesmo a intermediação de empréstimos poderia ser garantida pelos que estavam
no andar superior, como demonstrei páginas atrás. Darei detalhes sobre esses aspectos mais à
frente. Por enquanto cabe examinar detidamente o perfil dos sócios da AECB.

53
POPINIGIS, Fabiane. Proletários de Casaca: trabalhadores do comércio carioca (1850-1911). Campinas:
Editora da Unicamp, 2007.
54
CASTELLUCCI, “A luta contra a adversidade”, p. 63.
41

Tabela 1
Ocupação dos membros da AECB (1900-1930)
Ocupação Número Percentual
Caixeiros 3.588 67,37%
Caixeiros Escritores, Caixeiros 7 0.13%
Executores e Caixeiros
Despachantes
Empregados 65 1,22%
Agentes Comerciais 12 0,23%
Guarda-Livros 76 1,43%
Ajudantes de Guarda-Livros e 5 0,09%
Aprendizes de Guarda-Livros
Bancários 19 0,36%
Negociantes 1.113 20,90%
Capitalistas 7 0,13%
Industriais 5 0,09%
Engenheiros 7 0,13%
Advogados 6 0,11%
Médicos 6 0,11%
Farmacêuticos 5 0,09%
Dentistas 3 0,06%
Outros* 94 1,76%
Não identificados 308 5,78%
Total 5.326 100%
Fonte: AECB. Livros de Registro de Sócios da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia (1900-
1930).
*. Despachantes, corretores, datilógrafos, leiloeiros, ajudantes de despachantes, auxiliares de escritório,
cobradores, comissionistas, administradores do mercado do ouro e da guarda costeira, agentes de seguros,
gerentes e trapicheiros.

O primeiro dado que se destaca na Tabela 1 é que a Associação dos Empregados no


Comércio do Estado da Bahia era uma organização pluriclassista, agrupando tanto empregados
quanto empregadores no comércio e em outros setores econômicos, além de profissionais
liberais. Contudo, chama a atenção o fato de os caixeiros serem em número de 3.595 e
constituírem aproximadamente 70% dos 5.326 sócios da AECB. Some-se a eles os 65 filiados
que foram classificados simplesmente como empregados, provavelmente empregados no
comércio. O quadro fica diferente quando são analisados apenas os dados dos 313 sócios
fundadores, matriculados com data de 30 de março de 1900. Nesse caso, eram 123 caixeiros,
39,30% dos que tomaram parte da AECB desde seus primeiros de dias de existência. Mas esse
número deve estar subestimado, pois não foi possível identificar a ocupação de 105, isto é,
33,55% dos 313 fundadores. Grande parte deles certamente era formada por caixeiros. Antonio
Julio Cezar Bouças e Deraldo Argollo são bons exemplos de caixeiros brasileiros que
cumpriram papel importante na organização da AECB. Ambos estavam na comissão fundadora
42

em 1900 e ocuparam postos na primeira diretoria: Deraldo Argollo foi tesoureiro e Antonio
Julio Cezar Bouças foi procurador.
O grupo geralmente pensado como intermediário entre caixeiros e comerciantes,
formado pelos guarda-livros, ajudantes de guarda-livros, aprendizes de guarda-livros e agentes
comerciais, somava 93 indivíduos, menos de 2% do quadro de associados. Aqui também a
situação é bem diferente quando são levados em conta apenas o grupo formado pelos 313 sócios
fundadores de 1900. Nesse caso o número de guarda-livros era de 24, correspondendo a 7,67%
do total. Dalmiro Cayres, registrado no livro de sócios como “oriental”, Ricardo da Silva
Teixeira Machado, brasileiro, e José Carneiro de Mello são três dos guarda-livros que jogaram
papel relevante na AECB. Eles integraram a comissão fundadora em 1900 e foram,
respectivamente, vice-presidente, primeiro secretário e segundo secretário na diretoria inicial
da Associação.
Já os negociantes integrantes da AECB eram em número de 1.113, correspondendo a
20,90% do total de 5.326 associados listados em meu banco de dados para o período de 1900 a
1930. Mais uma vez o quadro encontrado foi diferente ao se levar em conta apenas os 313
fundadores. Nesse caso, os negociantes eram em número de 48, perfazendo 15,34% dos que
iniciaram a AECB em 1900. É mais que significativo o fato de o negociante brasileiro Francisco
Pereira de Miranda ter ocupado a posição de presidente da primeira diretoria da Associação dos
Empregados no Comércio. O andar de cima era formado ainda por 7 capitalistas e 5 industriais.
Os livros de sócios registram a existência de 28 profissionais liberais ao longo de 1900 a 1930,
mas o número de engenheiros, advogados, médicos, farmacêuticos e dentistas da Associação
era maior, pois parte desses membros era formada por sócios honorários, beneméritos,
benfeitores e protetores. Eles não estavam listados nos livros de sócios pois não eram
contribuintes, isto é, não pagavam mensalidades. Como disse páginas atrás, sua contribuição
era dada na forma de serviços médicos, odontológicos, jurídicos e educacionais, além da
intermediação na consecução de donativos, subvenções, isenções e empréstimos.
Um bom exemplo de sócio pertencente ao grupo dos profissionais liberais é Álvaro
Pimenta da Cunha. Ele ingressou na AECB em 1904, à época com 21 anos de idade. Era
farmacêutico, branco e solteiro. A certa altura de sua vida, ele se tornou gerente do Banco
Mercantil Sergipense. Álvaro Pimenta da Cunha nunca se casou ou teve filhos. Portanto,
quando ele morreu, sua mãe (Honorina Amália de Pinho) se tornou a herdeira de um patrimônio
43

avaliado em 600:000$000 (seiscentos contos de réis), composto, entre outros, por 5 casas, 2
sobrados e dinheiro depositado em conta bancária.55
A AECB também agregou indivíduos de outras ocupações, a exemplo de Frederico
Chenaud, branco, corretor que atuava no mercado cambial, casado com Lydia Carneiro da
Rocha. Chenaud deixou como herança a casa onde residia na rua Euricles de Matos no bairro
do Rio Vermelho, e conforme revelou o inventario ao qual tive acesso, apesar de ser um imóvel
antigo, sua avaliação chegou a 800:000$000 (oitocentos mil réis), além de 15 apólices da dívida
pública.56 Outro exemplo é o de Arnaldo Augusto Dória da Silva, brasileiro, despachante de
alfândega, casado com Zulina Almeida Dória da Silva. Ele ingressou na mutual em 1917 e
quando faleceu deixou como herança 6 apólices federais que haviam sido dadas como caução
para o exercício da sua atividade.
Parte significativa dos membros da AECB parece ter morrido na pobreza. O pequeno
número de inventários e/ou testamentos que encontrei para os sócios do andar de baixo é
evidência disso. Nesse sentido, os caixeiros e outros trabalhadores da entidade tinham uma
condição social inferior à desfrutada pelos artesãos e mestres de ofício vinculados ao Centro
Operário da Bahia estudados por Aldrin Castellucci.57 Esse foi o caso do operário Ariosto Jorge
da Costa, falecido em decorrência de tuberculose sem bens dignos de nota quando veio a óbito.

Trabalhadores e patrões de muitas nações

Além de possibilitar a identificação precisa das diversas ocupações exercidas pelos


membros da AECB, a riqueza de informações dos livros de registro de sócios da Associação
também tornou possível identificar a nacionalidade dos membros da mutual, que ao todo
somaram 19.

55
APEB, Seção Judiciária, 06/2383/09 (Autos Cíveis – Inventários e Testamentos).
56
APEB, Seção Judiciária, 03/3668/02 (Autos Cíveis – Inventários e Testamentos).
57
CASTELLUCCI. “Classe e cor na formação do Centro Operário da Bahia (1890-1930)”.
44

Tabela 2
Nacionalidade dos membros da AECB (1900-1930)
Nacionalidade Número Percentual
Brasil 4.266 80.10%
Portugal 574 10,78%
Espanha 168 3,15%
Itália 30 0,56%
Oriente Médio 29 0,54%
Rússia 26 0,49%
Alemanha 22 0,41%
Inglaterra 14 0,26%
França 12 0,23%
Suíça 9 0,17%
EUA 8 0,15%
Argentina 4 0,08%
Romênia 3 0,06%
Áustria 3 0,06%
Bélgica 2 0,04%
Iugoslávia 1 0,02%
Armênia 1 0,02%
Chile 1 0,02%
Canada 1 0,02%
Não identificados 152 2,85%
Total 5.326 100%
Fonte: AECB. Livros de Registro de Sócios da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia (1900-
1930)

A AECB era uma entidade pluriclassista e multinacional. Dos 5.326 nomes arrolados
como sócios da Associação entre 1900 e 1930, 4.266, isto é, 80% eram brasileiros.
Examinando-se apenas o grupo dos 313 fundadores a participação dos brasileiros foi de 185
indivíduos, caindo em termos percentuais para 59,11% dos membros iniciadores da AECB.
Muitos desses brasileiros podem ser caixeiros ou comerciantes nascidos no Brasil, mas serem
filhos de pais portugueses, mantendo laços estreitos com o mundo luso. Há indícios de que as
associações de caixeiros fundadas em Salvador no século XIX tinham um percentual maior de
estrangeiros em sua composição do que o encontrado na AECB. Esse dado também é indicador
da fragilidade da imigração estrangeira para a Bahia. Em 1920 eles eram apenas 10.600
indivíduos numa população de 3.334.465 habitantes em todo o estado. Salvador concentrava a
maior parte desses estrangeiros: 7.763, apenas 2,7% das 283.422 pessoas que moravam na
capital baiana.58 Portanto, apesar de a grande maioria dos sócios da AECB ter sido de

58
CASTELLUCCI. Industriais e operários baianos numa conjuntura de crise (1914-1921), p. 74 e 78.
45

brasileiros, o percentual de 20% de membros estrangeiros é altíssimo, dado que os não


brasileiros eram apenas 2,7% da população soteropolitana em 1920.
De todos os 19 grupos nacionais encontrados nos livros de sócios da AECB, os
portugueses foram os mais numerosos, com 574 filiados, quase 11% do total de membros da
entidade, mais da metade do total de 20% de estrangeiros que integravam a associação. Esse
peso se manteve quando foram analisados apenas os fundadores: do grupo dos 313 iniciadores,
33, isto é, 10,54% eram lusitanos. Destaque-se que, dos 574 filiados de origem portuguesa
existentes na Associação entre 1900 e 1930, 373 (65%) desempenhavam a atividade de
caixeiros, 173 eram negociantes, 9 guarda-livros, além de outras profissões. Os números
levantados em minha pesquisa apontam para uma presença portuguesa bem superior à achada
por Mário Augusto da Silva Santos na obra Comércio Português na Bahia: Centenário de
Manoel Joaquim de Carvalho & Cia. Ltda (1870-1930). Nesse trabalho, Mário Santos
identificou apenas 30 negociantes de origem portuguesa na AECB, contra os 173 que contei
nos livros de sócios.59
Em minha pesquisa, consegui localizar inventários e/ou testamentos para parte dos
filiados da AECB listados nos livros de sócios da entidade. Um deles foi o caixeiro português
Antônio Ribeiro de Azevedo, sócio fundador, solteiro, residente em Salvador, mas falecido aos
46 anos de idade quando estava em viagem na cidade de Vila Nova de Gaia, em Portugal, a 2
de fevereiro de 1927. Como ele não havia deixado ascendentes nem descentes, seu patrimônio,
que estava depositado no Bank of London and South América e somava 14:420$000 (quatorze
contos, quatrocentos e vinte mil réis), foi herdado por seu irmão, Lino Ribeiro Azevedo,
também caixeiro, todavia, residente na cidade do Rio de Janeiro.60
Um segundo exemplo entre aqueles portugueses identificados como caixeiros é Antonio
Joaquim Pereira, casado com Maria Batista de Jesus Pereira, pai de cinco filhos, aos quais legou
uma modesta herança de 283:746$000 (duzentos e oitenta e três mil, setecentos e quarenta e
seis mil réis), bem como uma casa na cidade de Pojuca, avaliada em 18:000$000 (dezoito mil
réis).61
Entre os sócios comerciantes portugueses que integraram a associação é possível
mencionar Antônio Dias Alves, que ingressou quando da fundação da AECB na condição de
sócio protetor. Ele faleceu em virtude de uma aterosclerose cardiorrenal no dia 28 de janeiro de

59
SANTOS, Mario Augusto Silva. Comércio Português na Bahia, 1870/1930. Centenário de Manoel Joaquim de
Carvalho & Cia. Ltda. s.n.t.
60
APEB, Seção Judiciária, 03/1336/12 (Autos Cíveis – Inventários e Testamentos).
61
APEB, Seção Judiciária, 06/2410/10 (Autos Cíveis – Inventários e Testamentos).
46

1931, também sem deixar ascendentes ou descendentes. Antônio Dias Alves era viúvo,
residente na Rua Humberto de Savoia, nº 23, atual Princesa Leopoldina, e foi sepultado no
cemitério do Campo Santo. Seu testamenteiro foi seu sobrinho, Manoel Dias dos Santos, para
quem deixou a casa onde residia e a quantia de 177:000$000 (cento e setenta e sete mil réis),
que foi repartida entre duas sobrinhas, a Santa Casa de Misericórdia de Salvador, o Asilo de
Mendicidade, o Liceu Salesiano, a Sociedade de Beneficência 16 de Setembro e o Asilo que
estava sendo construído em Alverca da Beira, Portugal.62
O segundo maior grupo nacional encontrado nos livros de sócios da AECB foi o dos
espanhóis, com 168 registros de sócios, pouco mais de 3% do total de membros da entidade.
Dos 168 sócios de origem espanhola, 100 eram negociantes, figurando como caixeiros apenas
60 indivíduos da referida nacionalidade.
Pelas características dos membros da AECB, nota-se que não existia um fechamento
étnico-nacional na agremiação, isto é, não apenas havia diversidade sócio ocupacional, como
não existiam barreiras nacionais ou de cor na entidade, fator que contribuiu para o alcance do
expressivo número de estrangeiros em suas fileiras. Até mesmo o cônsul do Uruguai figurou
como vice-presidente da entidade em 1905. Porém, mais importante é dar relevo ao fato de que
os brasileiros eram 80% dos associados, e sendo Salvador uma cidade de maioria negra e
mestiça, é razoável supor que parte desses caixeiros da capital baiana fosse composta por essa
comunidade, ainda que não se possa ignorar o fato de que muitos filiados classificados como
brasileiro eram filhos de portugueses e espanhóis, portanto, em tese, brancos. Infelizmente, a
variável cor não é registrada nas nos livros de sócios ou em quaisquer outros documentos da
AECB.
A grande presença de estrangeiros pode ser explicada também pela importância de
Salvador para o comércio nacional, devido ao grande volume de mercadorias que passavam
pelo porto da capital do estado, porta de entrada e saída dos produtos oriundos das transações
de importação, vindas principalmente da Europa, e exportação dos bens produzidos no estado,
o que ensejava a atração de pessoas de várias partes do mundo, com interesse na exploração da
atividade comercial.
O comerciante francês Adolpho Ballalai, proprietário da Adolpho Ballalai & Cia., era
um desses indivíduos. Representativo dessas relações entre trabalhadores e patrões, em 1901,
aos 30 anos, Adolpho Ballalai ingressou como sócio protetor da Associação dos Empregados
no Comércio da Bahia ao mesmo tempo em que integrava os quadros da Associação Comercial

62
APEB, Seção Judiciária, 06/2727/08 (Autos Cíveis – Inventários e Testamentos).
47

da Bahia. Em 6 de abril de 1936 ele faleceu de esclerose cárdio-hepato-renal, legando a sua


esposa, Maria Cerqueira Ballalai, uma herança estimada em 1.798:000$000 (mil setecentos e
noventa e oito contos de réis). A fortuna estava aplicada em ações do Moinho da Bahia S/A,
ações da Adolpho Ballalai & Cia, móveis, obras de arte, casa de veraneio em Itaparica e conta
bancária no British Bank of South América.63

Um Mundo Masculino

A inserção da mulher no mundo do trabalho não foi das tarefas mais simples. Nos
moldes do sistema patriarcal, o trabalho feminino estava restrito ao âmbito familiar, cabendo
ao homem a figura de provedor do lar. A própria legislação brasileira ao regulamentar as
atividades comerciais em 1850, através do Código Comercial, estabeleceu em seu artigo 1º, §4º,
os critérios para os exercentes da atividade mercantil. Em tal prescrição já deixava clara a
condição da mulher que podia ser acolhida no comércio, senão vejamos:

Art. 1º - Podem comerciar no Brasil:


§ 4º: As mulheres casadas maiores de 18 (dezoito) anos, com autorização de seus
maridos para poderem comerciar em seu próprio nome, provada por escritura pública.
As que se acharem separadas da coabitação dos maridos por sentença de divórcio
perpétuo, não precisam da sua autorização.

Com base na legislação esposada não é difícil constatar as limitações impostas às


mulheres que pretendiam se lançar nas atividades comerciais, pois o Código Comercial
ratificava o poder marital, com a exigência de prova por meio de escritura pública quando se
tratava de mulher casada no exercício do comércio. Frisa-se ainda, que a legislação em comento
só foi revogada pela Lei 10.406 de 2002, ou seja, 152 anos após sua entrada em vigor, em pleno
século XXI.
Na dissertação de mestrado No lar e no balcão: as mulheres na praça comercial de
Salvador (1850-1888), Silmaria Brandão abordou o papel ocupado pelas mulheres no comércio
e prestação de serviços a partir da segunda metade do século XIX, revelando o seguinte
ambiente:
homens estabelecidos como grandes comerciantes, no ramo de importação
de charque, bacalhau, farinha de trigo e azeite de oliva e na exportação de produtos
primários, as mulheres, de maneira geral, ocupavam a fatia do mercado destinada aos

63
APEB, Seção Judiciária, 06/2317/11 (Autos Cíveis – Inventários e Testamentos).
48

pequenos negócios como tavernas, armarinhos, lojas de louças, serviços de costura e


venda de alimentos diretamente aos consumidores. 64

Em comparação ao quadro de operários do sul e sudeste do país, percebe-se que a


condição de trabalho da mulher baiana não era isolada. Naquela região havia também uma
prevalência entre os homens no trabalho manufatureiro e industrial, com uma participação mais
efetiva da mão de obra feminina em indústria têxtil e de vestuário. Verifica-se também que o
peso do trabalho feminino foi mal traduzido nas instituições que representavam os
trabalhadores, inclusive naquelas que refletiam setores ocupados predominantemente por
mulheres. Segundo Claudio Batalha, as Uniões das Costureiras, fundada no ano de 1919 no Rio
de Janeiro e São Paulo, “estão entre as poucas exceções de organizações sindicais compostas e
dirigidas por trabalhadoras, e assim mesmo por se tratar de um setor exclusivamente
feminino.”65
Assim, do ponto de vista de gênero, vale salientar que a AECB era constituída
majoritariamente por homens, como aponta a Tabela 3, ainda que seja significativa a
localização de mulheres caixeiras nesse período. O livro de atas da assembleia geral revela que
o primeiro estatuto proibia a associação de mulheres, todavia, em 1903, foram propostas
mudanças no referido documento que possibilitariam a presença feminina, desde que fossem
esposas de membros da instituição. Mas como discutido acima, a reforma do estatuo da mutual
levou vários anos para ser concretizada.

Tabela 3
Sexo dos membros da AECB (1900-1930)
Sexo Número Percentual
Masculino 5.233 98,25%
Feminino 93 1,75%
Total 5.326 100%
Fonte: AECB, Livros de Registro de Sócios da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia (1900-
1930)

Ainda no que diz respeito à filiação de mulheres como membros da AECB, os livros de
registros de sócios apresentam a inscrição de Elisa de Freitas, brasileira, solteira, caixeira, tendo
como data de ingresso o dia 1º de setembro de 1902, portanto, antes das alterações estatutárias.
A diminuta presença de mulheres nas atividades do comércio consistia num quadro peculiar da

64
BRANDÃO, Silmaria Souza. No lar e no balcão. as mulheres na praça comercial de Salvador (1850-1888).
(Dissertação de Mestrado em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo, Universidade
Federal da Bahia, 2008).
65
BATALHA. “A formação da classe operária”, p. 165.
49

época. O resultado da pesquisa de Popinigis apresenta apenas o registro de uma “caixeira” no


período, a portuguesa Maria da Conceição, caixeira de uma casa de chope no Rio de Janeiro.66
Em 1924, a diretoria da Associação dava mostras de que era preciso adaptar os estatutos,
pois acreditava que alguns costumes haviam mudado, e assim, se referiram à possibilidade de
engajamento das mulheres na mutual. O fragmento do relatório apresentado pela diretoria da
AECB no ano de 1926 assegurava que:

[...] No comércio atual há tantas senhorinhas que honestamente (e porque não dizê-
lo) vantajosamente, se apresentam, concorrendo em vários misteres da carreira
comercial que não se compreende mais o draconismo de lhes vedarmos acesso em
nosso grêmio, elas que hoje concorrem heroicamente ao lado do sexo forte, no fórum,
no jornalismo, na burocracia, e nas mais respeitáveis profissões do homem. 67

Se por um lado o uso de termos como “honestamente, sexo forte...” explicita o


machismo e forte apelo moral que vigorava naqueles dias, por outro, o documento revela a
inserção das mulheres não apenas no comércio como em outras profissões até então reservadas
aos homens.
A despeito da postura esboçada pela diretoria, as fontes documentais apontam que até
1930, ou seja, após a manifesta intenção de ampliação na aceitação das mulheres no comércio,
ocorreram apenas 22 ingressos do sexo feminino no quadro societário da AECB, sendo todas
casadas com sócios da mutual. No mais, ao longo de todo o período estudado foram encontrados
registros de 93 mulheres, dentre as quais 5 foram registradas como solteiras e uma como viúva,
fatos que também apontam para uma flexibilização da norma na prática.

Tabela 4
Estado civil dos membros da AECB (1900-1930)
Estado Civil Número Percentual
Solteiro 3.548 66,62%
Casado 1.423 26,72%
Viúvo 35 0,66%
Não identificados 320 6,01%
Total 5.326 100%
Fonte: AECB, Livros de Registro de Sócios da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia (1900-
1930)

Conforme se pode constatar através da Tabela 4, que apresenta o estado civil dos
associados da AECB, a maioria absoluta entre os sócios era de solteiros, 3.548, perfazendo

66
POPINIGIS. Proletários de Casaca, p. xx.
67
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão da
Assembleia Deliberativa de 21 de março de 1926. Relativo à administração de 1924 e 1925. Bahia: Officinas
Graphicas D’ “A Luva”, 1926.
50

66,62% dos filiados. No universo dos 3.548 sócios solteiros, 2.909 eram caixeiros. Já os
negociantes solteiros somavam 429. Os casados eram em número de 1.423, apenas 26,72% dos
associados, dos quais 612 eram caixeiros e 639 eram negociantes, indicando um relativo
equilíbrio entre os dois grupos.
A condição de solteiro dos caixeiros se encaixa no perfil em que normalmente eles são
descritos pela historiografia brasileira. Na maior parte das vezes, o casamento com a filha do
patrão lhe possibilitaria a ascensão social. Ao mesmo tempo, ser solteiro indicava a
disponibilidade de tempo e o forte entusiasmo e dedicação com que servia a seu chefe. Não por
acaso, a AECB previu em sua fundação a criação de “[...] regras de como os associados deverão
se portar no emprego e suas responsabilidades para com os seus chefes”.68
Tabela 5
Faixa etária dos membros da AECB (1900-1930)
Faixa Etária Número Percentual
14-20 1.438 27,00%
21-30 2.105 39,52%
31-40 999 18,76%
41-50 255 4,79%
51-60 1 0,02%
Acima de 60 1 0,02%
Não identificados 527 9,89%
Total 5.326 100%
Fonte: AECB, Livros de Registro de Sócios da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia (1900-
1930)

Outra informação que pode ser elencada com base na documentação da mutual é quanto
à faixa etária dos sócios. Sobre essa variável, Mário Augusto da Silva Santos, no já citado Casa
e balcão: os caixeiros de Salvador (1890–1930), sustentou que os caixeiros eram, em geral,
trabalhadores entre 12 e 18 anos. A Tabela 5, feita com base em minha pesquisa, revela uma
realidade um pouco diferente para os membros da AECB. Como se pode observar, a maior parte
dos membros se enquadra na faixa etária dos 21 aos 30 anos, seguida da faixa dos 14 aos 20
anos. Do total de associados com faixa etária identificada, os caixeiros se destacam em ambas
as faixas, com 1.540 membros registrados na primeira e 1.357 na segunda.
A previsão estatutária era de admissão dos maiores de 14 anos e menores de 50 anos
completos. Aqueles maiores de 50 anos só poderiam ser admitidos como sócios beneméritos,
benfeitores, ou como contribuintes pagando joia em valor quatro vezes maior que o sócio com
idade entre 14 e 50 anos, além de cinquenta por cento de acréscimo da mensalidade ordinária.

68
AECB. Livro de Atas da Assembleia Geral (1900-1910).
51

A respeito do expressivo número de jovens empregados no comércio, sabe-se que


durante a Primeira República era comum a iniciação na vida laboral entre 12 e 15 anos. Isso
ocorria em virtude da necessidade de acréscimo na renda familiar. Ao completar a idade entre
11 e 14 anos, os filhos do sexo masculino eram inseridos nas atividades comerciais. O “balcão”
era uma das poucas oportunidades para aqueles nascidos sem “berço”. A pouca idade exigida
para entrada na atividade de caixeiro constituía-se em grande vantagem para os comerciantes
que dispunham de mão-de-obra muito barata.
Para esses jovens, além de qualquer tostão virar motivos de festejos, a “oportunidade”
de emprego era encarada como uma forma de evitar que eles fossem dados à “vadiagem”. Ao
mesmo tempo, vislumbrava-se uma perspectiva de futuro próspero, como retratado por
Popinigis em relação ao comércio carioca entre a metade do século XIX e início do século XX.
Outra analogia comum era realizada com a relação entre os aprendizes e o mestre
artesão. O “patrão, que por sua vez também havia sido caixeiro, passava a ensinar o oficio ao
jovem empregado”.69 Essa discussão será retomada no segundo capítulo, quando tratarmos da
postura municipal de Salvador que tentou impedir o trabalho de alguns menores.
Popinigis destaca ainda que a faixa etária era um indicativo da possível ascensão social
do caixeiro e justifica: “Os caixeiros são indiscutivelmente mais jovens do que os guarda-livros,
que são na sua proporção, mais jovens que os negociantes...”.70 No período recortado por sua
tese, a média de idade do guarda-livros era de 28,6 anos. Situação semelhante à encontrada por
mim entre os membros da AECB que desempenhavam a mesma função. Dos 76 guarda-livros
identificados, apenas 8 indivíduos possuíam idade inferior à média carioca.

Hierarquias

A Tabela 6 elenca os tipos de sócios previstos nos estatutos da AECB e seus


quantitativos. Os sócios contribuintes constituem a grande maioria, com 78,02%, seguidos dos
membros remidos. Outra classificação peculiar é a de grande benemérito, que pelo número de
agraciados, apenas três, demonstra ser uma honraria muito especial. Foram classificados como
sócios fundadores os que se associaram no ato da instalação da mutual, os sócios contribuintes
aqueles que passavam pelo processo de admissão anteriormente exposto, e que
obrigatoriamente deveriam pagar a joia, o diploma e as mensalidades em favor da entidade.

69
POPINIGIS. Proletários de Casaca, p. 63.
70
POPINIGIS. Proletários de Casaca, p. 35
52

Tabela 6
Tipos de Sócios da AECB (1900-1930)
Tipos de Sócios Número Percentual
Fundador 267 4,49%
Protetor Fundador 43 0,72%
Benemérito Fundador 2 0,03%
Benfeitor Fundador 1 0,02%
Grande Benemérito 3 0,05%
Honorário 1 0,02%
Benemérito 20 0,34%
Benfeitor 35 0,59%
Protetor 56 0,94%
Remido 879 14,79
Contribuinte 4.638 78,02%
Total 5.945 100%
Fonte: AECB, Relatórios da Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia (1904-
1930)

Considerava-se remido aquele sócio que realizasse o pagamento de um determinado


número de contribuições em um só ato, passando a ficar isento dos pagamentos mensais. Era
uma forma da associação conseguir manter o equilíbrio financeiro, já que o remido de forma
alguma passaria a ser inadimplente. Pela observação da Tabela 6, é possível constatar que os
sócios remidos representavam aproximadamente 15% dos membros durante a Primeira
República, um número muito expressivo.
Por sua vez, os sócios beneméritos, honorários e protetores eram títulos concedidos à
personagens que tivessem prestado serviços de grande relevância para associação, essa
condição, via de regra, assegurava-lhes a isenção de joias e diplomas. Nesses títulos
enquadravam-se políticos e profissionais liberais. O acolhimento desses homens servia como
atrativo para novos associados e para o engrandecimento da entidade e, por conseguinte,
garantia aos agraciados com as titulações maior prestígio na sociedade.71
A documentação permitiu identificar os três sócios agraciados com os títulos de “grande
benemérito”, são eles Ricardo da Silva Teixeira Machado, sócio fundador, guarda-livros,
membro com atuação destacada na mutual no período estudado, responsável pelos discursos de
fundação em 1900 e pela inauguração do prédio social em 1917. Também foi membro da
Sociedade de Beneficência Caixeiral e do Club Caixeiral.

71
CASTELLUCCI. “A luta contra a adversidade”, p. 58-59.
53

Figura 4:
Alberto Moraes Martins - sócio benemérito
da AECB

Fonte: Gazeta de Notícias, Salvador, 6 abr.


1914.

Figura 5
Synézio Gottschalk - sócio
benemérito da AECB

Fonte: Relatório apresentado pela


Diretoria da AECB em sessão da
Assembleia Deliberativa de 01 de abril
de 1928. Relativo à administração de
1926 a 1927. Bahia: Livraria e
Typographia do Commercio, 1928.
54

O segundo benemérito identificado em nossa pesquisa foi Alberto Moraes Martins


Catharino, que foi presidente da Associação entre 1913 e 1917, tendo recebido a distinção em
1919, sendo, inclusive, homenageado com uma foto no salão nobre da Associação. O terceiro
sócio “grande benemérito” localizado foi Synezio Gottschalk. O Livro de registros de sócios
aponta a sua inscrição em 6 de outubro de 1910, qualificado como caixeiro, solteiro e a época
com 23 anos. Natural de Rio de Contas, ao que extraímos das fontes, teve participação destacada
como proponente de novos sócios, num total de 584 entre contribuintes e remidos.
Dentro das hierarquias é imprescindível registrar as diretorias da AECB. Pelo que
constatamos, a concentração de poder mantinha-se quase que sem alterações nas mãos de alguns
poucos membros. Foram diminutas as alternâncias verificadas durante todo o período
pesquisado. Conforme asseguraram Cláudia Viscardi e Ronaldo Pereira de Jesus, “ser
presidente de uma associação de socorro mútuo era sinal de inequívoco prestígio. Muitos
diretores, por esta razão se mantinham indefinidamente no controle das mesmas.” Para os
autores essa manutenção nem sempre obedecia aos desejos desses diretores, por vezes, a mutual
não contava com sócios “interessados em usufruir um cargo sem remuneração e com muita
pressão por desempenho.”72 A ausência quase que total dos estatutos da AECB não permitiu
verificar variáveis como limite de reeleições, condições para ser candidato, dentre outras.
Uma constatação evidente durante as pesquisas foi a ocupação dos principais cargos da
diretoria por figuras de boas condições financeiras e representatividade na alta sociedade da
época. Conforme já mencionado acima, muitos membros da diretoria da Associação dos
Empregados também compunham a Associação Comercial da Bahia, inclusive, assumindo
naquela instituição cargos de diretores.
Um caso que ilustra bem a realidade dos diretores da AECB foi o de Alberto Moraes
Martins Catharino, capitalista que ocupou o cargo de presidente durante os anos de 1913 até
1917, tendo sido também diretor da ACB, além de presidente do Esporte Clube Vitória, clube
conhecido por ser composto por jovens da alta sociedade baiana, em grande maioria estudantes
de medicina, direito e odontologia. Os dirigentes dos clubes de futebol eram conhecidos como
“coronéis”, pois tinham dinheiro para investir na modalidade.73
Outra realidade dentre os membros e/ou diretores da entidade era a participação em
outras mutuais, como Alfredo da Silva Brim, que foi vice-presidente da AECB em 1904, vindo

72
VISCARDI, Claudia Maria Ribeiro; DE JESUS, Ronaldo Pereira. “A experiência mutualista e a formação da
classe trabalhadora no Brasil”. In: FERREIRA, Jorge; REIS, Daniel Aarão. A formação das tradições (1889-1945).
Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2007. p. 29.
73
LEANDRO, Paulo. “Ba-Vi: da assistência à torcida. A metamorfose nas páginas esportivas”. (Tese de
Doutorado em Cultura e Identidade, Universidade Federal da Bahia, 2011), p. 91.
55

a ocupar a mesma colocação na Sociedade de Beneficência Caixeiral (SBC) entre 1911 e


1925.74
Assim, diante do quadro traçado acerca da composição da Associação dos Empregados
no Comércio da Bahia percebe-se que ela se destacou entre as demais associações caixeirais
existentes em Salvador durante a Primeira República por manter laços mais estreitos com a
Associação Comercial da Bahia (ACB) e por acolher em suas fileiras os mais variados tipos de
membros, inclusive comerciantes. Se esta abertura foi muito criticada por outras associações
que eram restritas aos caixeiros, à AECB esta característica possibilitou a aquisição de
estabilidade financeira e projeção social na comunidade baiana. Da primeira condição resultou
a ampliação da assistência que a mutual oferecia aos seus sócios; da segunda, o estreitamento
com personalidades da terra e o fortalecimento de uma rede de contatos com as diversas esferas
do poder político e econômico da Bahia, conforme veremos na segunda parte deste trabalho.

74
SBC. Relatórios apresentados pela Diretoria da Sociedade de Beneficência Caixeiral. Relativos aos exercícios
de 1911 e 1925.
56

PARTE II

A UNIÃO FAZ A FORÇA:


A AECB E SUA ATUAÇÃO SECURITÁRIA E POLÍTICA
Na primeira parte desta dissertação privilegiei o estudo sobre a dinâmica associativa da
AECB bem como analisei o perfil social dos seus membros. Este capítulo tem por objetivo a
investigação das atividades desenvolvidas pela AECB no âmbito securitário e beneficente, com
a implementação de pensões, auxílios funerais, a prática de atendimentos médico-
odontológicos, além de aulas de nível técnico e de idiomas. No campo da política, meu olhar
recai sobre o posicionamento da entidade em relação à luta dos empregados do comércio ao
longo da Primeira República, sobretudo os episódios que dizem respeito às reivindicações pela
regulamentação da jornada de trabalho. Discutem-se ainda as formas pelas quais a AECB
buscou estabelecer alianças com as autoridades políticas do estado e com outras associações
representativas dos trabalhadores em diferentes unidades da federação buscando compreender
as motivações que levaram a essas alianças e de que modo os membros associados ou a diretoria
da AECB se beneficiaram com elas.
Antes disso, porém, é preciso que se defina o campo de atuação de uma mutual.
Conforme destacaram Claudia Viscardi e Ronaldo Pereira, a mutualista apresenta certas
particularidades e precisa ser diferenciada de outras instituições que existiam à época, a
exemplo de irmandades leigas, corporações de ofícios, entidades filantrópicas e seguradoras.
Para os autores enquanto as irmandades leigas, instituições fundadas em período anterior às
mutuais, visavam atuar no fortalecimento da fé católica, não se pode afirmar que as mutuais
foram desdobramentos dessas irmandades. Por sua vez, ainda que certas mutuais reunissem
trabalhadores de um mesmo ofício, não se deve confundi-las com corporações de ofícios que
tinham por objetivo a transmissão de um saber específico.75
Mais uma particularidade do mutualismo diz respeito às ações filantrópicas. A AECB,
como veremos, dedicou-se também à filantropia. Isso não significa dizer que a instituição
mutual era filantrópica, uma vez que a filantropia tem por objetivo oferecer socorros aos
necessitados sem que para isso haja contrapartida financeira obrigatória. As mutuais, por sua
vez, ao dedicarem-se à filantropia faziam-no “em benefício não dos associados, mas de
indivíduos que delas estivessem excluídos”. Cabe ainda estabelecer uma diferença entre as
mutuais e as seguradoras. Estas, embora oferecessem “serviços” semelhantes aos das mutuais,

75
VISCARDI; PEREIRA, “A experiência mutualista”, p. 24-25.
57

se diferenciavam delas porque objetivavam o lucro. As seguradoras tiveram uma vida breve no
Brasil da Primeira República, principalmente porque os seus clientes e patrões, em várias
ocasiões migraram para as mutuais.76
Por último, Claúdia Viscardi e Ronaldo Pereira destacam a necessidade de separar as
mutuais dos sindicatos. Para os autores, essa aproximação entre as duas instituições pode ser
confundida por um “processo de desdobramento das primeiras nos últimos”, e isso somente em
situações raríssimas é que pode ser verificado.77

As bases financeiras da AECB

A bibliografia especializada sobre o mutualismo no Brasil demonstra que uma das


maiores dificuldades enfrentadas pelas mutuais no início do século XX era a manutenção das
atividades às quais elas se propunham a fazer. De parte do governo, embora fosse regra, os
subsídios destinados a algumas instituições eram quase insignificantes e sem esse auxílio as
mutuais viam-se na obrigação de diversificar as suas fontes de receitas. Essa arrecadação se
dava de diferentes maneiras como se pôde constatar no decurso de minhas pesquisas. A AECB,
ao longo do período pesquisado, diversificou bastante as suas receitas no que corresponde às
suas fontes de arrecadação, ampliando-a por meio de operações financeiras, alugueis, doações,
recebimento das joias, diplomas e das mensalidades pagas pelos seus associados.
A dependência, em maior ou menor grau, das subvenções estatais, em que pese ser
prática comum entre as mutuais do período estudado, não parece ter sido uma característica da
AECB. Constatei que as únicas benesses advindas a título de subvenções do poder público
municipal para a entidade foram as isenções de décimas sobre o edifício onde funcionou a sede,
na Rua Carlos Gomes, nº 19, instituída pela lei municipal 744, de 16 de março de 1905, além
daquelas que recaiam sobre a nova sede, isentas através de portaria do Intendente municipal de
Salvador, José da Rocha Leal, assinada em 21 de março de 1919, o que lhe garantiu o título de
sócio benemérito.
Isso não significa dizer que a AECB não tenha investido esforços para conseguir estes
recursos. No ano de 1926 foi realizado pedido de subvenções federais visando ampliar o ensino
comercial e a assistência médica ao rol de associados. Contando com o apoio dos senadores
Pedro Lago e Miguel Calmon, os dirigentes da AECB conseguiram para o orçamento de 1927

76
VISCARDI; PEREIRA. “A experiência mutualista”, p. 25-26.
77
VISCARDI; PEREIRA. “A experiência mutualista”, p. 26.
58

a monta de 15:000$000 (quinze contos de réis), que passou a 20:000$000 (vinte contos de réis)
depois de emenda proposta pelo senador Pedro Lago. Embora tenha sido festejada, devido à
grande burocracia que as instituições enfrentavam para adquirir recursos desta natureza, a
subvenção nunca chegou aos cofres da entidade, ao menos até o final de 1930, marco
cronológico final de minha pesquisa.
Ainda assim, a aprovação desse recurso não pode ser desconsiderada. Sabe-se que as
relações políticas entre a AECB e os grupos que assumiram a direção política do estado da
Bahia entre os anos de 1924 e 1930 foram duradouras. Assim, pode-se supor que o não repasse
dos recursos do erário para a Associação tenha sido em decorrência da crise financeira do estado
a partir daquele ano.
Conforme registrou Consuelo Sampaio, Góes Calmon ficou conhecido como um
governo de mentalidade empresarial. Para a autora, além da construção de rodovias e do
interesse em resolver o problema sanitário na Bahia, a reforma da educação recebeu atenção
especial. Além de regulamentar a obrigatoriedade da presença de crianças em escolas, obrigar
estabelecimentos industriais a manter escolas para a alfabetização dos operários e seus filhos e
obrigar os municípios a destinar 6% de suas arrecadações para a educação, Calmon destinou, a
partir de 1926, 17,44% da dotação orçamentária do estado para a educação.78 O interesse em
repassar recursos à AECB, ainda que a transferência não tenha sido efetivada, pode ser lido sob
esta perspectiva.

Gráfico 3: Arrecadação da AECB entre 1904 e 1931


180.000.000
160.000.000
140.000.000
120.000.000
100.000.000
80.000.000
60.000.000 Série1
40.000.000
20.000.000
-
1926-1927
1904
1905
1906
1907
1908
1909
1910
1911
1912
1913
1914
1915
1916-1917
1918-1919
1920-1921
1922-1923
1924-1925

1928-1929
1930-1931

Fonte: AECB, Relatórios da Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da


Bahia (1904-1930).

78
SAMPAIO, Consuelo Novais. Os partidos políticos da Bahia na Primeira República: uma política de
acomodação. Salvador, Editora da Universidade Federal da Bahia, 1998. p. 208.
59

O Gráfico 3, que demonstra a arrecadação das contribuições realizadas pelos membros


da AECB ao longo de 30 anos, permite verificar que a partir do biênio de 1916-1917 houve um
aumento crescente na arrecadação, tendo como ápice o biênio 1928-1929, no qual se arrecadou
aproximadamente 157:000$000 (cento e cinquenta e sete contos de réis). Cruzando com o
gráfico que corresponde ao ingresso de sócios na mutual, trazido na primeira parte desta
dissertação, pode-se constatar que a elevação na arrecadação se explica pelas novas adesões.
A inauguração da nova sede social, no ano de 1917, figura como um dos principais
desdobramentos desse aumento na arrecadação, pois se tratava de um símbolo de grandeza e
prosperidade da entidade. Conforme pontuei anteriormente, essas arrecadações eram de
natureza variada e entre elas podem ser destacadas a doação de joias e o pagamentos de
diplomas, conforme pode ser visto no Gráfico 4.

Gráfico 4:
Arrecadação da AECB mediante doações de joias e pagamento de
diplomas (1904-1931)
25.000.000

20.000.000

15.000.000

10.000.000 Série1

5.000.000

Fonte: AECB, Relatórios da Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio


da Bahia (1904-1930).

O Gráfico 4 permite identificar a grande arrecadação através das joias e diplomas pagos
pelos membros admitidos no período compreendido entre os anos de 1904 e 1930, ainda que
com oscilações em vários momentos. Há grandes picos arrecadatórios com essa fonte nos
biênios de 1916-1917, 1918-1919, ainda que se estivesse vivendo os efeitos da Primeira Guerra
Mundial (1914-1918). Também foram registradas altas significativas nos biênios 1926-1927 e
1928-1929. Cabe destacar que somente a título de joias foram arrecadados 143:000$000 (cento
e quarenta e três contos de réis) entre 1904 e 1931.
60

Gráfico 5: AECB - Remissões entre 1904 e 1930


25.000.000

20.000.000

15.000.000

10.000.000

5.000.000

1920-1921
1904
1905
1906
1907
1908
1909
1910
1911
1912
1913
1914
1915
1916-1917
1918-1919

1922-1923
1924-1925
1926-1927
1928-1929
1930-1931
Fonte: AECB, Relatórios da Diretoria da Associação dos Empregados no
Comércio da Bahia (1904-1930).

O Gráfico 5 demonstra o pagamento dos valores que garantiam ao associado o título de


remido e a consequente isenção das contribuições daquele momento em diante. Há cinco
grandes picos arrecadatórios com essa fonte em 1907, 1916-1917, 1918-1919, 1924-1925 e
1926-1927. O biênio 1918-1919 destacou-se frente aos demais períodos, com arrecadação de
aproximadamente 20:000$000 (vinte contos de réis), divergindo em relação ao crescimento da
arrecadação geral e das joias, conforme os gráficos anteriores demonstraram.
O Gráfico 6 demonstra que a AECB também apresenta números expressivos quando se
verifica a evolução patrimonial da entidade. De fato, ela teve crescimento patrimonial contínuo
em todo o período de estudo. Entre os anos de 1904 e 1930, ou seja, em apenas 26 anos o
patrimônio da mutual cresceu de 87:000$000 (oitenta e sete contos de réis) para a vultosa
quantia de 734:000$000 (setecentos e trinta e quatro contos de réis). Esse patrimônio era
composto do prédio social, apólices de seguro, aluguéis, móveis, cadernetas de poupança,
crédito de empréstimos, além de outras aplicações financeiras. Todos os gráficos apontam para
um elemento essencial: a AECB foi uma entidade autossuficiente, isto é, suas fontes de
arrecadação próprias geravam receita mais que suficientes para cobrir todas as despesas
advindas dos benefícios oferecidos aos seus sócios.
61

Gráfico 6:
Evolução patrimonial da AECB (1904 e 1930)
800.000.000
700.000.000
600.000.000
500.000.000
400.000.000
300.000.000
200.000.000
100.000.000
-
1904
1905
1906
1907
1908
1909
1910
1911
1912
1913
1914
1915
1916-1917
1918-1919
1920-1921
1922-1923
1924-1925
1926-1927
1928-1929
1930-1931
Fonte: AECB, Relatórios da Diretoria da Associação dos Empregados no
Comércio da Bahia (1904-1930).

A utilização dos recursos da mutual contemplava uma série de ações em benefício dos
sócios e seus dependentes, mas não se limitava a elas. Algumas causas beneficentes também
foram abraçadas pela AECB, e através delas outras instituições puderam ser agraciadas com
ajuda financeira da mutual, a exemplo da quantia de 3:800$000 (três contos e oitocentos mil
réis), arrecadados durante o ano de 1904 e destinada ao estado do Rio Grande do Norte, em
atendimento ao auxílio requerido pela Comissão Socorros Mossoró-RN, devido à grave seca
que assolava aquela cidade do estado do Rio Grande do Norte.79
Os laços de solidariedade não ficavam restritos à ajuda financeira. Em 1906, quando um
terremoto devastou Valparaíso, no Chile, a Associação participou ativamente das manifestações
em prol do povo chileno e registrou a sua solidariedade através de manifestos, cujo fragmento
segue transcrito:

[...] tomamos parte em todas as manifestações de pesar que a Bahia


promoveu, telegrafamos à nossa coirmã do Rio de Janeiro para transmitir ao ministro
representante do Chile os nossos pêsames, fizemos parte do bando precatório aqui
organizado em benefício das vítimas do terremoto, fizemos a entrega ao Consul na
Bahia de vários objetos que oferecemos para a quermesse que se realizou.” 80

79
Arquivo da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia (AAECB). Relatório apresentado pela Diretoria
da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão de Assembleia Geral Ordinária, em 28 de maio
de 1905. Relativo à administração de 1904. Bahia: Typographia Bahiana de Cincinnato Melchiades, 1905.
80
AECB. Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão
de Assembleia Geral Ordinária, de 12 de abril de 1908. Relativo à administração de 1907. Bahia: Typographia
Bahiana de Cincinnato Melchiades, 1908.
62

Deste modo, malgrado os apelos realizados pela diretoria da entidade conclamando os


associados a quitarem as suas dívidas com a mutual e a trazerem novos membros para as fileiras
da AECB, a Associação sempre manteve o equilíbrio financeiro, mormente a partir de 1915,
quando o crescimento patrimonial se aproximou dos 300:000$000 (trezentos contos de réis),
apresentando uma evolução de quase cento e trinta e cinco por cento durante os quinzes anos
seguintes.

Lutas por direitos


A historiografia brasileira aponta para uma sensível diminuição no número e na
importância das associações mutualistas depois de 1930. Isso está relacionado à presença cada
vez mais forte do Estado após a chamada Revolução de 1930 e do governo dela surgido, que
paulatinamente implantou medidas protetivas de caráter trabalhistas e previdenciário. Ao longo
do século XIX e por toda a Primeira República, coube às sociedades mutualistas, ao lado das
associações sindicais, encaparem as lutas pela redução de jornada de trabalho, pelo descanso
semanal e por tantos outros direitos negados aos trabalhadores da época. Como se sabe, na
passagem para um estado previdenciário no Brasil, as mutuais não foram convocadas a
colaborar, tampouco se opuseram à novidade. Apesar disso, acredita-se que as mutuais
contribuíram significativamente para que esse estado previdenciário fosse implementado. De
outra forma, qual teria sido a sua real importância para a expansão da cidadania? Credita-se às
mutuais a tarefa de, no início do século XX, contribuir para amenizar as desigualdades sociais
“por meio da implementação das políticas sociais de cunho distributivista”.81 As bandeiras de
lutas hasteadas pela AECB e por suas congêneres da Bahia devem ser analisadas sob este
aspecto.
A discussão sobre os limites do direito de tributar do poder público foi uma pauta
constante na AECB, o que aponta para a existência de interesses dos negociantes, vale dizer,
patronais, na definição da pauta de uma organização que se propunha a defender os caixeiros.
Apontam-se aqui, os debates sobre os impostos de selos, da indústria e profissão, de renda, e
até de lucro comerciais e o imposto varejista. Os dois últimos, nitidamente tributos de interesse
da classe patronal. Em 1904, o decreto estadual de nº 229 estabeleceu a cobrança de imposto
de selos sobre as bebidas alcoólicas, disciplinando em seu art. 25

81
VISCARDI; PEREIRA, “A experiência mutualista”, p. 46.
63

Que as bebidas destinadas a venda em frações de meia garrafa deverão ser encerradas
em garrafa de vidro claro ou transparente, colocando-se toda vez que extraída
qualquer quantidade do líquido, o selo de modo que a orla superior deste corresponda
ao nível do líquido que restar no casco.82

A referida exigência e outras mais trazidas no decreto, provocaram uma série de


manifestações dos estabelecimentos comerciais contra o governador Severino Vieira, inclusive
com a possibilidade de fechamento das portas. Na oportunidade, a AECB, como forma de
manifestar-se publicamente, enviou telegrama à Associação dos Empregados do Rio de Janeiro,
solidarizando-se com as atitudes tomadas pelo comércio em geral, e desejando um fim pacífico
àquela situação. As fontes indicam que a diretoria da mutual baiana não se fez presente na posse
do governador José Marcelino como forma de protesto à situação vigente em torno das
tributações.83
Grande alvoroço ocorreu ainda em 1905, já durante o mandato do governador José
Marcelino. O Estado sofria com uma grande crise financeira, em consequência disso o governo
promoveu uma série de medidas econômicas buscando o aumento na arrecadação estadual.
Essas medidas se mostraram impopulares e provocaram reações de diversas categorias
profissionais, entre elas funcionários públicos e os trabalhadores do comércio.
A reação da AECB foi motivada pela realização de sessão extraordinária da Assembleia
Legislativa do Estado. A sessão intentava a criação do imposto de renda com alíquota de 3%.
Na oportunidade uma representação escrita foi elaborada pelo advogado Thomaz Guerreiro de
Castro e entregue ao deputado Antônio Alexandre Borges dos Reis84, que era contrário ao
projeto. Entre as críticas ao tributo, alegou-se que o imposto não atendia à regra formulada pelo
economista britânico Adam Smith, no qual o imposto deve ser decretado na ocasião mais
conveniente, de forma que seja menos prejudicial ao contribuinte. Destaca-se da representação
o fragmento de texto a seguir:

A renda ou rendimento é o fruto do capital empregado, que se aufere sem mais


necessidade de trabalho ou esforços contínuos, diários, para alcançá-lo; quem
perguntará a um caixeiro, que passa das 6 da manhã às 6 da tarde no escritório
dos seus patrões a vender mercadorias, para receber em troca deste seu trabalho
o salário ajustado, qual é a renda que tem ao aufere por tal serviço? 85

82
BRASIL, Decreto Estadual n.º 299.
83
Arquivo da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia (AAECB). Relatório apresentado pela Diretoria
da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão de Assembleia Geral Ordinária, em 28 de maio
de 1905. Relativo à administração de 1904. Bahia. Typographia Bahiana de Cincinnato Melchiades, 1905.
84
Antônio Alexandre Borges dos Reis foi educado pelo tio Manoel Borges dos Reis, dono de uma loja de calçados
na Rua dos Algibebes em Salvador. Ao concluir dos estudos primários, começou a trabalhar como caixeiro na loja
do tio. Foi sócio fundador do Club Caixeiral, e diretor da Associação Comercial da Bahia.
85
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão de
Assembleia Geral Ordinária, em 11 de março de 1906. Relativo à administração de 1905. Bahia. Typographia
Bahiana de Cincinnato Melchiades.
64

Após a veemente defesa patrocinada pela AECB, o imposto não foi aprovado, fato que
foi motivo de muita celebração pela diretoria da mutual, inclusive com votos de agradecimentos
ao advogado Thomaz Guerreiro de Castro e ao deputado Antônio Alexandre Borges dos Reis.
A entidade se posicionou também contra a cobrança do imposto criado pelo município, a saber
o imposto sobre indústria e profissões, que incidiria sobre os empregados das casas comerciais.
A associação, através do advogado Ubaldino Gonzaga, conseguiu por meio de uma
representação à intendência da capital, demonstrar que o imposto não poderia ser cobrado com
base apenas no orçamento municipal. No exercício seguinte, a associação foi convidada pelo
intendente municipal e secretário da fazenda, no intuito de buscar apoio para cobrança do
imposto em baila. Diante da negativa da diretoria, que classificou o tributo como “vexatório e
injusto”, a cobrança não foi realizada.86
Outro imposto em que a AECB foi acionada a se manifestar diz respeito ao de lucros
comerciais. A diretoria da associação recebeu telegrama consignado pelos diretores da
Associação dos Empregados no Comércio e da Associação Comercial do Recife, pedindo que
encapasse a luta contra o imposto em questão, em nome do prestígio comercial da Bahia. Como
resposta, foi enviado telegrama da diretoria informando que essa era luta “tenazmente”
realizada pela ACB, cabendo àquela entidade o acompanhamento do tema. A representante
comercial do Recife estava infringindo as disposições que autorizavam a cobrança do tributo,
não apresentando balanço na alfândega e nem se submetendo ao pagamento do imposto. Pelo
teor do telegrama enviado, tudo leva a crer que na mutual do Recife, também deviam fazer parte
patrões.87 Além desses tributos mencionados, defendeu-se ainda a causa varejista que estava
sendo atacada com cobrança de novo imposto de consumo estadual: o imposto sobre o varejo.
A entidade levantou a bandeira em prol do comércio varejista e defendeu a causa alegando que
a categoria já era assolada pela cobrança de um imposto, que segundo a própria associação, era
considerado insensato e desastroso.
Alguns pontos específicos da pauta de reivindicações dos empregados no comércio
foram diuturnamente encampados pela AECB. A bandeira mais significativa no período de
minha pesquisa foi, sem sombra de dúvidas, a luta pela regulamentação da jornada de trabalho,
certamente por serem comuns e de domínio público os abusos dos patrões no que tange ao
excesso de horas de trabalho impostas aos caixeiros.

86
AECB. Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia relativo à
administração de 1915. Bahia: Typographia Bahiana de Cincinnato Melchiades, 1926.
87
AECB. Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia relativo à
administração de 1920-1921. Bahia: Typographia Bahiana de Cincinnato Melchiades, 1922.
65

Em sessão do Conselho Municipal realizada em 1906, foi lida uma representação da


AECB, elaborada pelo jornalista e advogado Virgílio de Lemos, que denunciava o desrespeito
aos direitos dos empregados no comércio diante do descumprimento da regulação municipal,
quanto aos dias de descanso e fixação de horário de abertura e fechamento dos estabelecimentos
comerciais. Dentre outras questões, alegava-se não ser apenas motivação humanitária, mas
interesse da sociedade e dos empregadores possuírem “serventuários válidos e sadios”. Além
disso, entre os motivos para a proteção de tais direitos, outra justificativa foi apontada, a
formação intelectual dos caixeiros. Afirmava-se que:

A própria profissão do comércio exige da parte daqueles que a exercem um certo


preparo, uma certa educação profissional de caráter científico, que só se pode adquirir
com os estudos de gabinete e com a frequência de estabelecimento técnicos, como
existem em todas as nações cultas e como se organizou entre nós a Escola do
Comércio.88

A necessidade de se possuir saúde e disposição mental para frequentar a escola do


Comércio era indispensável. Assim, o principal pedido exposto na representação foi de uma
legislação que combatesse a ação dos patrões que forçavam seus empregados a laborarem, de
forma ininterrupta, até 16 horas diárias. Além disso, são evidenciadas questões sobre
remuneração e bem-estar do corpo, sendo necessárias horas de descanso. As horas demasiadas
de trabalho são adjetivadas no relatório como “exaustivas e mortificantes”. Restou cristalino a
busca pela proteção da saúde do trabalhador.
Era recorrente o pleito para redução das horas de trabalho nas casas comerciais de
Salvador. Já em 1911 a AECB convocou os seus membros, através do jornal Diário de Notícias
para deliberarem sobre a redução da jornada de trabalho, em encontro que seria realizado no
dia 2 de abril daquele ano. Durante a reunião, Ricardo Teixeira Machado, sócio fundador,
reconhecido pelos calorosos discursos que proferia desde o início das atividades da associação,
conclamou seus pares a realizarem a defesa da categoria dos caixeiros.89
Ficou decidido pela assembleia, na qual compareceram mais de 200 membros, que
novamente seria enviada representação ao Conselho Municipal reivindicando o fechamento dos
estabelecimentos comerciais às 7 horas da noite. A representação denunciava que muitos
estabelecimentos submetiam os caixeiros a jornadas de trabalho extenuantes, que com
frequência ultrapassavam as 12 horas por dia.

88
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em sessão de
Assembleia Geral Ordinária, em 12 de maio de 1907. Relativo à administração de 1906. Bahia: Typographia
Bahiana de Cincinnato Melchiades, 1907.
89
Diário de Notícias, Salvador, 1 abr. 1911.
66

A leitura do manifesto elaborado pela AECB coube ao edil Guilherme Conceição


Foeppel durante discurso proferido em sessão do Conselho Municipal. Na oportunidade
destacou que “... a acumulação de bens sem aumento de conforto, de descanso, de distrações e
sem uma melhor vida ideal é o que os economistas chamam de sisifismo”, em alusão ao mito
grego de Sísifo que foi condenado por Hades a rolar montanha acima e no final do dia vê-la
cair novamente. Nesse sentido, continuou advertindo aos demais edis:

[...] ainda que todos os engenhosos maquinismos que o espírito fecundo da


humanidade inventa, todas as vitórias que conseguimos sobre as forças da natureza
escravizando-as, valeriam muito pouco, seriam outras tantas vitórias de Pirro, se não
tivessem feito aumentar um pouco a remuneração de todo aquele que trabalha,
permitindo um pouco mais de alimento para a boca, um melhor agasalho para o corpo,
um pouco mais de conforto no lar.

Argumentava também que além das necessidades básicas da vida humana seria
indispensável o tempo disponível para as atividades “morais e intelectuais”. Reiterou que não
era contra o trabalho, mas que uma sociedade onde a produção fosse “enorme”, todavia, “sem
descanso, seria uma sociedade barbarizada”.90
Concluiu o discurso dizendo que se sentia honrado em ter feito parte da categoria dos
caixeiros em sua juventude, tendo passado pelas mesmas dificuldades enfrentadas naquele
período. Em seguida passou a apresentar o projeto de lei assinado por Manoel Gonçalves
Drummond, do qual destacarei os seguintes artigos:

Art. 1º Toda a casa comercial, da cidade baixa e da alta, todo vendedor


ambulante denominado mascate, só poderá funcionar das oito horas da manhã
às seis da tarde, com uma hora de descanso para refeições.
§1º. As vendas ou tavernas, as padarias e pastelarias, os açougues, as tulhas e
quitandas poderão funcionar das sete horas da manhã às oito da noite.
§2º. Os hotéis, restaurantes e bilhares poderão funcionar das sete horas da
manhã às dez horas da noite.
Art. 2º Todos aqueles que forem encontrados com as casas comerciais, acima
designadas, abertas fora das horas estabelecidas na presente lei incorrerão na
multa de 30$000 (trinta mil réis), ou quatro dias de prisão e o dobro nas
reincidências.
Art. 3º fica proibido aceitar-se em qualquer casa comercial, seja de que
natureza for, como empregados, caixeiros, agregados, menores de 14 anos de
idade, nacionais ou estrangeiros, sob pena de multa de 20$000 (vinte mil réis)
ou três dias de prisão, e o dobro nas reincidências.
§1º. Nenhuma casa comercial poderá admitir empregados e auxiliares que
sejam analfabetos, incorrendo os infratores na multa de 20$000 (vinte mil réis)
ou três dias de prisão, e o dobro nas reincidências.

90
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão da
Assembleia Geral Ordinária de 29 de junho de 1911. Relativo ao exercício de 1910. Bahia: Estabelecimento dos
Dois Mundos, 1911.
67

Art.6º aos mascates fica proibido mercadejarem nos dias de domingo, feriados
e dias santos, sob pena de 20$000 (vinte mil réis) ou três dias de prisão, e o
dobro nas reincidências.
Art.7º às lojas e oficinas de cabelereiros é permitido funcionar nos dias de
sábado até as 10 horas da noite, permanecendo fechadas nos dias de domingo,
santificados e feriados, sob pena de incorrerem os infratores na multa de
20$000 (vinte mil réis) ou três dias de prisão, e o dobro nas reincidências.

O projeto de lei determinava também que em casos de reincidências o poder municipal


poderia revogar a licença concedida para a abertura da casa comercial, fábrica ou usina, bem
como elevar os impostos municipais para esses estabelecimentos. Apesar de todos os esforços
empreendidos pela AECB, o projeto não foi aprovado nos termos acima expostos.
Ainda no mesmo ano, outro projeto foi apresentado pela Associação ao Conselho
Municipal. Elaborado por Azevedo Fernandes, membro da comissão dos empregados do
comércio, o projeto também tratava da abertura das casas comerciais. Depois de numerosos
debates foi aprovado o texto a seguir, que embora seja longo demonstra em quais termos
ficaram estabelecidos o funcionamento dos estabelecimentos que mercadejavam na cidade de
Salvador:

Art. 1º Toda a casa comercial da parte da cidade baixa denominada ‘Comércio’


só poderá funcionar das 7 da manhã às 7 da noite; as demais e as da cidade alta
das 7 da manhã às 8 da noite, com uma hora de descanso para refeições, exceto
aos domingos e dias de festas nacionais, em que conservar-se-ão fechadas.
§ 1º. As vendas ou tavernas, as padarias e as pastelarias, as tulhas e açougues
e as quitandas poderão funcionar das 6 da manhã às 8 da noite, nos dias úteis,
e até 2 horas da tarde nos domingos.
§ 2º. Os hotéis, restaurantes e os bilhares poderão funcionar das 7 horas da
manhã até 1 hora da madrugada, sendo seus donos obrigados a ter duas turmas
de empregados, que se revezem.
Art. 2º Todos aqueles que forem encontrados com as casas comerciais, acima
designadas, abertas, fora das horas estabelecidas na presente lei, incorrerão na
multa de 30$000 e 4 dias prisão e o dobro nas reincidências.
Art. 3º Fica proibido de hoje em diante, aceitar-se em qualquer casa comercial,
seja de que natureza for, como empregado, caixeiro ou agregado menores de
14 anos de idade, nacionais ou estrangeiros, sob pena de 20$000 de multa ou
30 dias de prisão e o dobro nas reincidências.
Art. 4º É livre o trabalho noturno nas fábricas e usinas. Nestas e nas casas
comerciais em que trabalharem mulheres deve haver sempre assentos, onde
possam descansar, quando permitirem nas ocupações, sob pena de 15$000 de
multa ou 3 dias de prisão e o dobro nas reincidências.
Art. 5º Nos casos de reincidências constante o poder municipal poderá cassar
a licença concedida para a abertura da casa comercial, fábrica ou usina.
Art. 6º Os vendedores ambulantes, denominados mascastes, só poderão
funcionar das 7 horas da manhã às 6 da tarde, ficando-lhes proibido
mercadejarem nos dias de domingos e feriados sob pena de multa de 30$000 e
8 dias de prisão, e o dobro nas reincidências.
Art. 7º As farmácias funcionarão das 6 da manhã às 8 horas da noite, e até meio
dia dos domingos, sendo obrigada a ficar de plantão, pelo menos, uma
farmácia, por semana, em cada distrito, e a abrir a qualquer hora do dia e da
noite para aviar fórmulas ou vender medicamentos pelo preço comum, sob
pena de 30$000 de multa ou 3 dias de prisão, e o dobro nas reincidências.
68

§ único. Pelo executivo municipal serão indicadas, mensalmente, as farmácias


que deverão ficar de plantão e os seus nomes e lugares onde funcionam,
publicados na gazeta oficial.
Art. 8º As lojas e oficinas de cabeleireiro é permitido, nos dias de sábado,
funcionarem até as 10 horas da noite, permanecendo fechadas aos domingos,
sob pena de 20$000 de multa ou 3 dias de prisão e o dobro nas reincidências.
Art. 9º Os agentes fiscais terão 30% das multas realizadas.
Art. 10º Revogam-se as disposições em contrário.” 91

O período imediato à aprovação da lei foi marcado pelo registro de diversos casos de
descumprimentos daquilo que ela estabelecia. Essa conduta dos comerciantes provocou um
grande protesto dos caixeiros que reunidos percorreram diversas ruas, reivindicando que os
estabelecimentos baixassem as portas. Dentre os comerciantes abordados pelos caixeiros,
alguns se recusaram a fechar as lojas, foi o que ocorreu com José Gil Ferreira, membro da
Associação União Varejista, que após se negar a baixar as portas teve seu estabelecimento
atingido por diversas pedras, ao que reagiu disparando tiros contra os manifestantes. Levado à
delegacia teve lavrada a sua prisão em flagrante delito.92
Pelo que pude constatar, mesmo com a fiscalização dos caixeiros e a aplicação de multas
pelo poder municipal, muitos estabelecimentos continuavam a desrespeitar a lei em vigor.
Diante da contenda ocorrida com um dos seus membros, a Associação União Varejista passou
a reunir-se buscando alternativas para combater a lei que regulamentava a jornada de trabalho
dos empregados no comércio, alegando que ela feria o direito de livre comércio.
Os relatórios da diretoria dos anos de 1920 e 1921 da AECB ainda apresentam
reivindicações de sócios da mutual pela regulamentação das horas de trabalho no comércio.
Exemplo disso foi uma petição assinada por 105 membros que pleiteavam o encerramento das
atividades às 6 horas da tarde, com exceção dos armazéns, farmácias, padarias e pastelarias. No
mesmo relatório a comissão fiscal comenta as reclamações da diretoria sobre a redução dos
caixeiros nas aulas oferecidas pela entidade, e contrapõe com a afirmação de que eles estavam
“cansados” de ouvir dos membros da categoria que é necessário a redução das horas de
trabalho.93
A temática vem à tona novamente durante a gestão da diretoria de 1924 e 1925, quando
houve no Conselho Municipal a tentativa de aprovar outra lei que versava sobre a redução das

91
Diário de Notícias, Salvador, 11 ago. 1911.
92
Jornal de Notícias, Salvador, 12 out. 1911.
93
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão da
Assembleia Deliberativa de 05 de março de 1922. Relativo à administração de 1920 e 1921. Bahia: Livraria e
Typographia do Commercio, 1922.
69

horas de trabalho no comércio. Mais uma vez a AECB encaminhou ofício manifestando apoio
ao projeto, mas não se registrou a aprovação do mesmo pelos edis.94
A partir de 1917 uma série de greves foi deflagrada no Brasil. Os movimentos
organizados pelos trabalhadores traziam em suas pautas de reivindicações, entre outros direitos,
o aumento salarial e a redução da jornada de trabalho. Na Bahia, a greve geral ocorrida em 1919
trouxe à tona a insatisfação da população com a grave crise de abastecimento e carestia que
assolava o estado. A Câmara Federal, pressionada por diversas associações de trabalhadores
buscava, através da sua comissão de legislação social, elaborar projetos que pudessem atender
às pautas da classe trabalhadora.
Em 17 de julho de 1920, o jornal A Manhã circulou com o seguinte destaque:

Pela classe caixeiral!


Um projeto que desperta entusiasmo.
As regalias de empregado do comércio
Continua a agitar a vida caixeiral o projeto, ora na câmara, relativo às regalias de que
vão gozar os caixeiros.
Os jornais discutem o parecer Augusto de Lima, sobre as garantias dispensadas aos
empregados do comércio, que, além do título de nomeação, firmado pelos patrões e
registrado na Junta Comercial, terão caderneta de identidade e notas do serviço.
As municipalidades fixarão as oito horas de trabalho. No caso de despedida sem justa
causa o pagamento será de tantos meses de ordenado quantos anos tenha de serviço.
Haverá proibição de trabalho noturno para mulheres e crianças, indenização por
acidentes de trabalho.
Em sociedades anônimas os caixeiros terão uma porcentagem sobre lucros brutos
anuais. No caso de falência há garantia de pagamento dos ordenados.
O projeto estipula penalidades para os empregados que abandonarem o serviço sem
motivo justo. Trata ainda o projeto da garantia de dois terços do ordenado durante o
serviço militar. Todas essas prerrogativas serão fiscalizadas por uma seção de
inspeção de trabalho, que será criada no Ministério da Agricultura.
O projeto tem despertado entusiasmo aqui e é muito discutido nos jornais. A maioria
dos comerciantes acha um absurdo impraticável. 95

O anúncio já demonstrava que a aprovação de lei com os interesses dos trabalhadores


não seria facilmente aceita pelo patronato, mormente em Salvador, onde historicamente existia
entre os patrões a prática de não se obedecer às leis que lhes eram impostas. Os ânimos estavam
acirrados até mesmo entre as mutuais, que disputavam a representação da categoria dos
empregados no comércio. A recém-criada União Caixeiral da Bahia divulgou no jornal A
Manhã a seguinte nota:

A Associação dos Empregados no Comércio e a União Caixeiral.

94
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão da
Assembleia Deliberativa de 21 de março de 1926. Relativo à administração de 1924 e 1925. Bahia: Officinas
Graphicas D’ “A Luva”, 1926.
95
A Manhã. Salvador, 17 jul. 1920.
70

A mensagem da classe caixeiral ao Congresso Federal sobre o projeto Augusto Lima.


Na defesa dos legítimos interesses da classe caixeiral a União Caixeiral da Bahia tem
na realidade agido com muito mais desenvoltura do que a Associação dos Empregados
no Comércio.
Isto, aliás, se explica pelo fato da Associação ter grandioso número de sócios já
comerciantes, o que torna um pouco difícil a ação direta dos caixeiros, quando a
questão que eles tenham a defender colida com os interesses dos patrões.
Nem se veja nessa nossa afirmação intuito de desmerecer da brilhante corporação que
tem justos títulos de benemerência.
A Associação dos Empregados no Comércio é na realidade uma instituição de mérito
indiscutível.
Mas, pontos há em que ela não pode exercer, com a devida eficiência, ação em defesa
dos caixeiros.
O mesmo não acontece com a União Caixeiral que se compõe unicamente de caixeiros
e que trata única e exclusivamente dos interesses destes.
Se é bem verdade que deve existir união de vistas entre patrões e caixeiros, também
mentira não é que há momentos em que o caixeiro precisa defender o seu direito contra
o patrão.
Agora mesmo está a se discutir na Câmara Federal um projeto que concede regalias
aos caixeiros e que não agrada aos patrões em sua maioria.
Resultado: A Associação dos Empregados no Comércio não se movimentou a
respeito, enquanto a União Caixeiral trabalhou ativamente... 96

O texto acima é representativo das disputas que ocorriam entre as mutuais e os sindicatos
da época. Segundo afirmaram Claúdia Viscardi e Ronaldo Pereira, pode-se pensar que um
indivíduo buscasse associar-se a uma mutual em função de duas possibilidades. A primeira
refere-se às relações de reciprocidade. Neste caso, para os trabalhadores pobres o ingresso na
mutual representaria uma estratégia para evitar o “descenso social na ausência do Estado
provedor de políticas de proteção ao emprego e renda”; para os associados de bom poder
aquisitivo, o retorno “do investimento se dava em forma de reforço de seu status ou do poder
político diante dos pares. Para os autores, em ambos os casos, o investimento resultava na
“proteção e reforço do poder. 97
Sob esta perspectiva podemos concluir que a União Caixeiral da Bahia acusava a AECB
de manter entre seus sócios pessoas que não apresentava as mesmas necessidades dos caixeiros
e com isso dificultavam a luta política que estes teriam de travar para melhorar as suas
condições de vida. Para reafirmar o lugar que reivindicava de legítima representante dos
trabalhadores do comércio da Bahia, a UCB encaminhou uma mensagem ao Congresso Federal
destacando que:

Exmos. Srs. Congressistas:


Na atualidade, em que todas as classes sociais se emprenham em lutas titânicas para
evidenciar os ideais que se inspiram nos ditames do direito e da justiça, neste momento
em que, de todos os recantos do mundo se agita, pela palavra e pela imprensa, tão
relevante assunto. A classe caixeiral no Brasil cometeria o crime de um silêncio

96
A Manhã. Salvador, 4 ago. 1920.
97
Em segundo lugar os autores destacaram a valoração que as Associações tinham entre seus contemporâneos.
VISCARDI; PEREIRA. “A experiência mutualista”, p. 38.
71

reprovável e injustificável se não desse um brado cheio de fé, se não lançasse aos
quatro ventos um gesto que traduzisse uma aspiração nobre e elevada, qual a das
prerrogativas que esta mesma classe se sente com o dever inadiável de manter, a bem
dos seus créditos e, digamos mesmo da sua própria honra.
A classe caixeiral na Bahia, licitamente representada pela União Caixeiral da Bahia,
que muito se ufana de ser parcela, diminuta embora, no seio dos seus companheiros
de todo este grande país, pensa que, em face das condições sociais que muito de perto
lhes interessam, não pode permanecer por mais tempo, reduzida a tão profunda quão
censurável inércia.
Srs. Legisladores: A mocidade do comércio sente-se confortada diante do parecer ora
fundamentado na Câmara Federal pelo ilustre deputado mineiro dr. Augusto de Lima.
Esta mocidade confia, amplamente, nos resultados da campanha nobilitante que se
iniciou em prol dos caixeiros brasileiros, ela crê firmemente na vitória, cujos clarões
já se vão tornando alvorada de luz promissora de um futuro sonhado...
Amphilophio Britto, da Comissão.”.98

Não encontrei durante a pesquisa nenhuma edição de jornal ou qualquer nota da AECB
revidando as palavras emanadas da União Caixeiral. As fontes revelaram apenas que em 1930
houve intensa troca de farpas entres as entidades, quando se registrou outra publicação oriunda
da União Caixeiral em termos combativos à AECB.
Retomando o debate acerca da legislação social, em setembro de 1920 o deputado
Otávio Mangabeira enviou carta à AECB solicitando a opinião da entidade sobre o projeto que
tramitava na Câmara Federal. O projeto de interesse de toda categoria também foi objeto de
correspondência enviada pela Associação dos Empregados no Comércio do Rio de Janeiro, que
pedia à mutual da Bahia para intervir junto ao governador do estado e da bancada de deputados
na Câmara Federal em favor do projeto em trâmite.
Atendendo ao apelo da coirmã, o governador J. J. Seabra foi indagado pela AECB se ele
era a favor do projeto de legislação social e se as entidades caixeirais do estado poderiam contar
com o apoio da bancada baiana. Receberam do governador a mensagem que este teria escrito
ao líder da bancada, solicitando o amparo à “justa causa” caixeiral. A conquista desses direitos
ocorreu após muitos anos de reivindicações.99
Durante a gestão de 1925, a Associação comemorou a aprovação da lei nº 4.982, que
estabeleceu férias de 15 dias, marco de aquisição dos direitos sociais dos trabalhadores no
Brasil. A regulamentação da lei ocorreu apenas em 1926, através do decreto 17.496 e vigorou
até 1931, quando foi substituída pela lei 19.808, sob a alegação de erros na interpretação por
parte dos patrões e dos empregados.100

98
A Manhã, Salvador, 4 ago. 1920.
99
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão da
Assembleia Deliberativa de 05 de março de 1922. Relativo à administração de 1920 e 1921. Bahia: Livraria e
Typographia do Commercio, 1922.
100
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão da
Assembleia Deliberativa de 21 de março de 1926. Relativo à administração de 1924 e 1925. Bahia: Officinas
Graphicas D’ “A Luva”, 1926.
72

Também esteve em pauta na Associação a discussão acerca da prestação de serviço


militar. Em 1906 a AECB se posicionou contrária ao serviço militar obrigatório, que era feito
principalmente pela “mocidade” dos caixeiros, categoria diretamente atingida pela lei. Embora
não tenha conseguido êxito naquele momento, em 1921, por meio de campanha em conjunto
com a Associação dos Empregados do Comércio no Rio de Janeiro, levaram requerimento à
diretoria da ACB, que ficou de negociar junto aos seus associados o apoio no sentido de garantir
os lugares de seus empregados, com metade de seus ordenados durante a vigência do serviço
militar do país.101
Para atuar com tanta desenvoltura na seara jurídica, a AECB contou com renomados
causídicos, em sua maioria, agraciados com o título de sócios benfeitores, em razão dos serviços
prestados, muitos dos quais gratuitamente. Identifiquei alguns desses advogados na
documentação relativa à AECB. O primeiro refere-se a Thomas Guerreiro de Castro, filho do
juiz Catão Guerreiro de Castro, da comarca de Carinhanha, formado pela Faculdade de Direito
do Recife, além de professor de Direito Público e Constitucional da Faculdade Livre de Direito
da Bahia. A defesa que fez em relação ao imposto de 3% conferiu-lhe grande respeito e
admiração dentro da entidade mutual.
Outro reconhecido advogado que pertenceu ao corpo jurídico da mutual foi Leovigildo
Ipiranga do Amorim Filgueiras, formado também pela Faculdade de Direito do Recife. Detinha
grande notoriedade na Bahia por ter ocupado cargos como delegado, promotor, deputado e
professor da Faculdade Livre de Direito da Bahia. Outras figuras do meio jurídico também
compuseram a assessoria da AECB, a exemplo do governador Antonio Ferrão Moniz de
Aragão, Virgílio Tito de Lemos, Ubaldino Costa e Carlos José de Mattos Filho.

A AECB e a sociedade

A Associação dos Empregados no Comércio da Bahia envidou grandes esforços para


ampliar sua visibilidade e prestígio na sociedade. Tomar parte nas celebrações do dia do ofício
foi um dos artifícios usados para alcançar tais objetivos. O dia do caixeiro foi comemorado em
Salvador pela primeira vez em 30 de outubro de 1924. A festividade foi marcada pela
participação ativa da cidade, que parou para ver passar o “cortejo alegre de moços”, da classe

101
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão da
Assembleia Deliberativa de 05 de março de 1922. Relativo à administração de 1920 e 1921. Bahia: Livraria e
Typographia do Commercio, 1922.
73

“humilhada” e “destratada”. Coube à AECB e às outras mutuais instaladas na capital organizar


o evento, que contou com missa celebrada na basílica de Salvador, passeata cívica e inauguração
de placa comemorativa da passagem de data tão importante para categoria. Inicialmente boa
parte do comércio permaneceu aberto mesmo diante dos protestos das entidades
representativas. O governador do estado, Góes Calmon, proferiu discurso na ocasião,
ressaltando a importância daquele segmento da classe trabalhadora.

Figura 6:
Placa em homenagem ao caixeiro Jesuíno Caetano de
Martins

Fonte: Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos


Empregados no Comércio da Bahia em sessão da Assembleia
Deliberativa de 21 de março de 1926. Relativo à administração de 1924
e 1925. Bahia: Officinas Graphicas D’ “A Luva”, 1926.

Por ocasião dos festejos, Jesuíno Caetano de Martins, caixeiro com 62 de idade foi
homenageado como decano dos caixeiros. Uma comissão foi nomeada para conversar com os
responsáveis pela casa F. Stevenson & Cia. Ltda, empregadores do homenageado, que lhe
concederam um cheque de 5:000$000 (cinco contos de réis) e a categoria lhe ofertou uma
medalha que foi entregue pelo governador.
Durante a comemoração de 1925, a Sociedade de Beneficência Caixeiral mandou rezar
missa onde se fizeram presentes todas as mutuais da categoria. Foi celebrado o “pacto de união”
74

entre as entidades, por meio do qual se objetivou uma aliança em prol das boas ideias para
engrandecimento da categoria. Nos anos seguintes manteve-se a comemoração na mesma data,
permanecendo o pleito dos caixeiros no tocante ao fechamento do comércio para que todos
pudessem participar das comemorações.
Como forma de homenagear os caixeiros, a Associação dos Empregados no Comércio
do Rio de Janeiro realizou concurso para escolha do hino da categoria. Dentre os 39 inscritos,
sagrou-se vencedor a letra de Manuel Bastos Tigre, poeta nascido em Recife. A letra buscou
traduzir o perfil do caixeiro e sua luta por uma vida melhor.

Hino dos Empregados no Comércio


Força e glória ao comércio fecundo
Que progresso e concórdia produz;
A ligar os mil povos do mundo,
Elos de ouro são elos de luz!
Permutando as riquezas do solo,
Vai por terra, por mares, pelo ar,
Do Equador às geleiras do Polo,
O conforto da vida levar.

Irmanados na ação progressista,


Vencerá nosso tenaz:
E o comércio legião à conquista
Das incruentas vitórias da paz.
Se é seu fito buscar a riqueza,
A ambição não se curva, servil:
Visa a nossa labuta a grandeza,
A opulência, o esplendor do Brasil!

Se por mal de costumes iníquos


Foi o nosso mister – servidão,
Dão-nos hoje trabalhos profícuos
- Liberdade, conforto, instrução. –
Não nos fica nas faces impresso
O sinal de fadiga e de dor;
O trabalho conduz ao progresso,
Redobremos de estrênuo labor!
(Refrão)
Pela união fraterna e forte,
Dez dentre nós valerão mil!
Aponte a paz o nosso norte
Para a grandeza do Brasil!

O 10 de fevereiro de 1912 foi uma data que marcou a trajetória da AECB. Na


documentação consultada é possível verificar o registro de uma série de atos por iniciativa da
entidade. Naquele dia morreu José Maria da Silva Paranhos Jr., o Barão de Rio Branco. Assim
que a notícia se propagou em Salvador, a mutual decretou luto de oito dias, em reverência ao
75

estadista brasileiro. Ato contínuo, realizou-se assembleia onde se manifestou o desejo de


“perpetuar” a memória do barão em “mármore ou bronze”.102
Listas para angariar donativos e prestar a homenagem foram distribuídas entre os sócios.
O município doou 5:000$000 (cinco contos de réis), embora só tenha feito o pagamento em
1917, e o Estado contribuiu com 10:000$000 (dez contos de réis). Ao longo do primeiro ano de
campanha a quantia arrecadada foi de aproximadamente 30:000$000 (trinta contos de réis).
Com a garantia de parte dos valores necessários para dar seguimento ao projeto, uma comissão
que dentre outros era composta por Teodoro Sampaio e Otávio Mangabeira, escolheu a proposta
do artista Paschoale De Chirico,103 orçada em 48:700$000 (quarenta e oito contos e setecentos
mil réis), com prazo de entrega da obra em 18 meses.
Segundo os avaliadores, a proposta de Paschoale De Chirico, tratava-se de um estudo
harmônico e bem-acabado, em alto relevo de bronze:

A alegoria, que ele representa, por figuras humanas em movimento, simbolizando a


agitação fecunda em progresso na paz, fica bem a caráter na base do monumento, cujo
ideal superior foi a grandeza da sua pátria identificada com a ordem, a justiça e a paz
[...]104

Em 7 de setembro de 1915, data em que foram inaugurados os melhoramentos


realizados na avenida de mesmo nome, foi colocada a pedra inaugural da estátua. A Guerra na
Europa atrapalhou diretamente as relações entre o Brasil e Alemanha e, indiretamente, a
colocação do monumento em homenagem ao Barão do Rio Branco, porque parte da estátua foi
fabricada na Itália, com a decretação da guerra, ficou inviabilizado o transporte para o Brasil.
Para que os objetivos da AECB fossem concretizados foi necessário obter o apoio do Cônsul

102
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão da
Assembleia Geral Ordinária de 06 de abril de 1913. Relativo ao exercício de 1912. Bahia: Typographia Brazil,
1913.
103
Escultor, artista e professor, Pasquale De Chirico nasceu em Venosa, cidade ao sul da Itália, em 14/04/1873.
Era filho de Miguel Ângelo De Chirico e Donata Maria Rosina De Chirico. Descendente de uma família de artistas
aprendeu desde cedo o ofício da escultura tendo ganho uma “bolza de studio” para cursar o Reale Instituto de
Bellle Arti, em Nápoles, onde estudou com o mestre escultor Achille D’Orsi. Vem ao Brasil em 1893, com 20
anos, morando por dez anos em São Paulo até vir para Salvador, onde viveu até o fim de sua vida.
O conjunto de sua obra mostra inúmeros trabalhos realizados, de desenhos, esculturas, bustos e monumentos até
arte cemiterial. Pasquale possui esculturas em vários logradouros públicos de Salvador. Encontramos trabalhos
seus também em outras cidades como Ilhéus, Itabuna e São Paulo, assim como no exterior, em Venosa, cidade em
que nasceu, onde confirmamos um monumento seu pelo sistema de busca do Google e por informações
transmitidas pelo seu neto, que possui uma foto do referido trabalho. A maioria das praças de Salvador possui uma
obra sua, como a Praça Castro Alves, o monumento ao Rio Branco, Conde dos Arcos, General Labatut (na
Lapinha), Misael Tavares, Manoel da Nóbrega e a Índia, Tomé de Souza, entre outros. http://www.cultura-
arte.com/pasquale-chirico.htm; https://blogdoriovermelho.blogspot.com/2015/11/pasquale-de-chirico-escultor-
dos.html consultei nesses sites
104
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia relativo à
administração de 1914. Bahia: Typographia Bahiana de Cincinnato Melchiades, 1914.
76

do Brasil em Nápoles, Filomeno Padula, que atuou no despacho da estátua para o Brasil. Por
sua atuação a associação resolveu torná-lo sócio honorário, ofertando-lhe diploma de gratidão
pelo apoio.
A inauguração do monumento foi foco de destaque no jornal O Imparcial, que divulgou
a comemoração com a publicação da manchete “O Resgate de uma dívida”, na qual destacava:

A estátua de Rio Branco


A Bahia resgatou, ontem, uma dívida de honra, inaugurando o bronze de Rio
Branco. Iniciativa de uma geração de moços encontrou o grande apoio do povo e se
efetivou, embora demoradamente, pelo momento de dificuldades que atravessou o
mundo. A inauguração realizada ontem, num dos maiores dias da pátria, foi uma
afirmativa do quanto pode a iniciativa particular. Teve grande imponência pela
presença do mundo oficial e pela representação de todas as classes da Bahia. 105

Abaixo reproduzimos a imagem captada a partir de registro fotográfico especialmente


para esta pesquisa:

Figura 7:
O monumento ao Barão do Rio Branco.

Fonte: Arquivo pessoal. 2018

A estátua possui 3 metros de altura e pousa sobre um pedaço de grande rosco, tendo aos
lados figuras de bronze representando as forças vivas do Brasil, encimadas pelos nomes que
representam as 4 grandes vitórias diplomáticas: Amapá, Acre, Missões, Lagoa Mirim. Nas

105
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em sessão de
Assembleia Deliberativa, de 24 de fevereiro de 1918. Relativo à administração de 1916 e 1917. Bahia:
Estabelecimento dos Dois Mundos, 1918.
77

palavras proferidas no discurso de Lemos Brito, no dia da inauguração da estátua do barão,


trata-se de uma estátua no padrão do “prestígio de um povo”.
Era setembro de 1916, quando retornou do Rio de Janeiro e revelou conversas com
Olavo Bilac sobre a Liga de Defesa Nacional, o professor Lemos Brito propôs a AECB uma
conferência para expor suas ideias com o intuito de avivar o “civismo e amor pátrio”. Ele
propunha que os caixeiros despertassem o amor à Pátria, o gosto pelo “esporte das armas” e
exercícios militares, pois deveriam estar preparados para a defesa do Brasil caso fosse
necessário.
Em seu discurso Lemos Brito afirmou que “[...] nações fracas estão destinadas a
perecer e que o dever dos povos dignos e capazes é preparar-se no manejo das armas para o
futuro”. Diante da solicitação e considerando que o apelo era para a “classe caixeiral”, a AECB
propôs que se instalasse o Tiro Caixeiral e não o Tiro do Comércio. Assim, as pessoas que
desejassem participar do Tiro Caixeiral se inscreveriam por meio das listas que seriam
espalhadas em vários pontos da cidade. No total 232 sócios da mutual fizeram a inscrição,
inclusive membros da diretoria. Contudo, ainda em 1916, tendo sido eleita a diretoria para o
Tiro Caixeiral, o movimento mudou de nome e passou a ser chamado de Tiro 284.106
A representatividade da entidade junto a grupos políticos da Bahia, imprensa,
associações mutualistas e outras instituições de representação classista formaram os pilares para
as articulações desenvolvidas pela AECB, possibilitando a sua inserção nas mais variadas
esferas de poder no estado e fora dele.
No que diz respeito à imprensa percebe-se, com base na consulta às fontes, o interesse
por parte da AECB, durante toda a Primeira República, em estreitar as relações com os órgãos
de comunicação da época. A associação demonstrava em seus relatórios de diretoria que sempre
gozou de grande prestígio perante a imprensa da capital, algumas vezes tratada como “solícita”
e “carinhosa”. Entre os agradecimentos recorrentes nesses relatórios estão os empenhados para
o jornal Gazeta do Povo, pela publicação do artigo “O Norte”. Destacam-se ainda a cobertura
da homenagem ao Barão de Rio Branco e as comemorações ao dia do caixeiro.107
Para participar dos eventos sociais fora das suas sedes, era comum as mutuais lançarem
mão de correspondentes. Nas fontes a que tive acesso, identifiquei o registro de atividades dessa

106
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão de
Assembleia Deliberativa, de 24 de fevereiro de 1918. Relativo à administração de 1916 e 1917. Bahia:
Estabelecimento dos Dois Mundos, 1918.
107
Arquivo da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia (AECB). Relatório apresentado pela Diretoria
da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão de Assembleia Geral Ordinária, em 28 de maio
de 1905. Relativo à administração de 1904. Bahia: Typographia Bahiana de Cincinnato Melchiades, 1905.
78

natureza envolvendo os correspondentes Coronel Plínio Moscozo, em São Felix e na cidade de


Amargosa, e Elyseu de Assis Baptista. Chamou a atenção um fato ocorrido com o
correspondente de Cachoeira, Genésio de Souza Pitanga, eliminado pela falta de pagamento
bem como pelo prejuízo de 78$000 (setenta e oito mil-réis) que deu aos cofres da entidade,
relativos a recibos que lhes foram confiados e que ele não repassou à associação.108
As relações de amizades com diversas associações mutualistas também fizeram parte
do quotidiano da AECB. O Quadro 1 lista algumas dessas entidades identificadas nas fontes de
pesquisa.

Quadro 1:
Lista de entidades que mantinham relações com a AECB
Associação dos Empregados no Comércio do Club Caixeiral Bahia
Rio de Janeiro
Associação Beneficente Caixa dos Club Caixeiral Pelotas
Empregados no Comércio de Florianópolis
Associação Beneficente do Comércio de Club Caixeiral Juazeiro
Estivas de Recife
Associação Beneficente das Costureiras Club Sindical de Empregados de Bueos Aires
Associação Beneficente dos Oficiais Coligação B. dos Auxiliares do comércio de
Aduaneiros da Bahia Recife
Associação Beneficente do Pessoal Marítimo Federação dos Empregados do comércio de
da Alfandega da Bahia Montevideo
Associação Beneficente do Centro Operário Grêmio dos Empregados no Comércio de
da Capital do Estado da Bahia Alagoinhas
Associação Beneficente dos Cirurgiões Phoenix Caixeiral Ceará
Dentistas da Bahia
Associação Cooperativa Centro Operário da Sociedade de Artistas Operários Mecânicos
Capital do Estado da Bahia Liberais da Paraíba
Associação Curitibana dos Empregados do Sociedade Beneficente Bolsa dos Patriotas
Comércio
Associação dos Empregados no Comércio do Sociedade Beneficente dos Empregados no
Amazonas Comércio de Santa Catarina
Associação dos Empregados no Comércio de Sociedade Beneficente Pedro II
Campos
Associação dos Empregados no Comércio de Sociedade Beneficente Rio Branco
Gravatá
Associação dos Empregados no Comércio de Sociedade Beneficente de Santana
Itacoatiara
Associação dos Empregados no Comércio de Sociedade Beneficente União dos
Natal Açougueiros
Associação dos Empregados no Comércio do Sociedade Defensora e Beneficente dos
Pará Maquinistas
Associação dos Empregados no Comércio da Sociedade Estímulo Caixeiral de Teresina
Paraíba do Norte

108
Arquivo da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia (AECB). Relatório apresentado pela Diretoria
da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão de Assembleia Geral Ordinária, em 28 de maio
de 1905. Relativo à administração de 1904. Bahia: Typographia Bahiana de Cincinnato Melchiades, 1905.
79

Associação dos Empregados no Comércio de Sociedade Humanitária dos Empregados no


Pernambuco Comércio de São Paulo
Associação dos Empregados no Comércio de Sociedade Humanitária dos Empregados no
Porto Alegre Comércio de Santos
Associação dos Empregados no Comércio do Sociedade Patriótica de Instrução
Rio Grande do Norte
Associação dos Empregados no Comércio de Sociedade Perseverança e Auxilio dos
São Paulo Empregados no Comércio de Maceió
Associação dos Funcionários Públicos do Sociedade União Uruguaiana
Estado da Bahia
Associação dos oficiais da Guarda Nacional Sociedade dos Calafates
da Bahia
Associação Tipográfica Baiana Sociedade União dos Empregados no
Comércio de Ribeirão Preto
Beneficência Caixeiral Sociedade União dos Empregados no
Comércio Varejista da Bahia
Caixa Econômica e Monte de Socorro da União Caixeiral da Bahia
Bahia
Casa Pia e Colégio dos Órfãos de S. Joaquim União Caixeiral da Paraíba
Club Caixeiral Bahia Sociedade Perseverança e Auxilio dos
Empregados no Comércio de Maceió
Club Caixeiral Pelotas Sociedade União Uruguaiana
Club Caixeiral Juazeiro Sociedade dos Calafates
Club Sindical de Empregados de Buenos Sociedade União dos Empregados no
Aires Comércio de Ribeirão Preto
Coligação B. dos Auxiliares do comércio de Sociedade União dos Empregados no
Recife Comércio Varejista da Bahia
Federação dos Empregados do comércio de União Caixeiral da Bahia
Montevideo
Grêmio dos Empregados no Comércio de União Caixeiral da Paraíba
Alagoinhas
Phoenix Caixeiral Ceará União dos Empregados no Comércio do Rio
de Janeiro
Fonte: Atas, relatórios e correspondências da AECB; imprensa.

A realização de campanhas entre estas instituições em favor de outras foi uma prática
registrada no período. Em 1927, por exemplo, atendendo ao apelo da Phoenix Caixeiral, foram
arrecadados 504$000 (quinhentos e quatro mil réis), revertidos em favor do leprosário de
responsabilidade daquela mutual.
Por se tratar de uma entidade composta também por patrões, e sendo os comerciantes
figuras com grande influência na política da Primeira República, essas relações foram
evidenciadas com a presença de governadores e outras personalidades nas reuniões e eventos
realizados pela entidade. Embora as relações com os políticos fossem uma constante dentro da
mutual, o partidarismos e apoio expresso a qualquer candidatura era vedado pelas normas
estatutárias:
cumpre deixar bem patente que a nossa associação é completa,
absolutamente alheia e contrária a quaisquer manifestações ou ingerência em
80

assumptos políticos partidários, estando este ponto claramente exposto na letra do


Estatuto.109

Claudio Batalha lembra que a capacidade e mesmo a vontade dessas associações de


“buscar espaço na política formal eram relativamente limitadas”. Esse papel eminentemente
político cabia aos sindicatos e partidos, historicamente responsáveis pela defesa dos direitos
políticos da classe trabalhadora. Todavia, o mundo associativo “possibilitava um espaço de
participação política, que em grande medida não dependia das normas legais que regiam a
política formal.110 Isso explica, em parte, o interesse da AECB em manter relações estreitas com
os dirigentes baianos.
Dentre os governadores do estado foram registradas as visitas de J.J. Seabra em 1912,
recebido com muitas honrarias e tratado como aquele que elevaria a Bahia ao patamar de
grandeza perante os demais estados da Federação. O então governador retribuiu as
congratulações reconhecendo a AECB como “legítima” representante dos empregados no
comércio. Registrou-se ainda a presença de Antonio Ferrão Moniz de Aragão, no ano de
1916.111
Outro político que manteve estreita relação com a AECB foi Miguel Calmon. Desde
1906 são encontrados registros de troca de correspondências entre este e a Associação com
solicitações de diferentes naturezas, sobretudo em momentos de tramitação de projetos
importantes para categoria. O referido político visitou a sede da associação em 1921 e 1925.
No ano 1926, quando o presidente Washington Luiz visitou a Bahia, as mutuais que
representavam os caixeiros – a AECB, o Club Caixeiral, a Sociedade de Beneficência Caixeiral,
a União Caixeiral e a Associação dos Caixeiros Viajantes, promoveram uma recepção ao
presidente da república. O evento foi realizado no palacete da AECB. Como parte dessa rede
de sociabilidade entre a instituição e as autoridades políticas consta ainda confabulações
entabuladas com Antônio Carneiro da Rocha, Ruy Barbosa, Oscar Freire, Arthur da Silva
Bernardes, dentre outros.
A relação das mutuais com os políticos normalmente eram fundadas no clientelismo, o
que implicava em troca de favores. Embora não se encontre no curso dessa pesquisa grandes

109
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em sessão da
Assembleia Geral Ordinária de 26 de junho de 1910. Relativo à administração de 1909. Bahia: Typographia
Bahiana de Cincinnato Melchiades, 1910.
110
BATALHA. “Formação da classe operária”, p. 180.
111
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão da
Assembleia Geral Ordinária de 28 de julho de 1912. Relativo ao exercício de 1911. Bahia: Typographia Brazil,
1912.
81

ajudas financeiras vindas do poder público para AECB, essas relações lhe conferiam prestígio
dentro e fora do estado, e servia também como forma de atrair novos membros para seus
quadros.
Cláudia Viscardi e Ronaldo Pereira asseguram que esta relação entre poder público e as
mutuais, no que diz respeito à liberação de auxílios pelo primeiro, eram marcadas por certa
confusão. Comparando as mutuais de Minas Gerais e Rio de Janeiro, os autores constatam que
havia sociedades que recebiam apoio do Estado e, em geral, esse apoio vinha em demanda de
cunho social ou para obtenção de reconhecimento da sociedade como um todo. Neste sentido,
as mutuais
[...] Requeriam subvenções, pediam permissão para a realização de
festividades, solicitavam serviços públicos dos mais diversos matizes e almejavam
isenção de impostos. Portanto, seria difícil caracterizá-las como instituições de caráter
público ou privado tão somente, pois, em suas ações, essas instâncias se diferenciavam
com pouca nitidez.112

Para Viscardi e Pereira, o próprio poder público tinha dificuldade em reconhecer estas
diferenças. Aquelas associações entendidas como filantrópicas recebiam subvenções públicas,
às demais era negada qualquer tipo de recurso financeiro.
Em relação à AECB, momentos como a inauguração do palacete e participações em
festas cívicas se mostravam férteis para estabelecimento e fortalecimento de laços de amizades
entre a instituição e os políticos daquele período. Pode-se citar as comemorações pela
Independência do Brasil na Bahia, sempre realizadas a 2 de julho e com forte tradição no estado.
Na festa do centenário daquela comemoração, no ano de 1923, a AECB realizou uma grande
programação que durou três dias. Uma comissão foi formada com intuito de angariar donativos
que seriam distribuídos pela entidade em favor das famílias carentes.
No dia 1 de julho foram distribuídos alimentos e um conto de réis entre duzentas
famílias, indicadas pelo Abrigo dos Filhos do Povo, Convento de São Francisco, São Vicente
de Paulo e Claudemira Pita. As cestas básicas continham charque, farinha, feijão, toucinho,
arroz e bombons, além dos mantimentos acompanhavam envelopes com cinco mil-réis, e as
crianças ainda receberam livros com figuras coloridas. Durante o evento os convidados foram
recepcionados por parentes de associados e participaram de baile conduzido pela banda da
polícia militar.113

112
VISCARDI; PEREIRA. “A experiência mutualista”, p. 30.
113
AECB. Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão
da Assembleia Deliberativa de 29 de fevereiro de 1924. Relativo à administração de 1922 e 1923. Bahia: Livraria
e Typographia do Commercio, 1924.
82

Figura 8:
Mantimentos arrecadados para distribuição no centenário da
independência da Bahia.

Fonte: Histórico da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia (1922 1923).


Bahia: Livraria e Typographia do Comércio, 1924.

A participação da mutual ocorreu também no dia 2 de julho, com o tradicional desfile


que saiu da Lapinha, onde cerca de 300 caixeiros foram prestar homenagens ao monumento da
Independência. No dia 5 foi realizada uma solenidade onde estiveram presentes várias
autoridades, além de representantes de outras entidades da capital. As Figuras 8 e 9
documentam também o glamour do prédio da AECB pela beleza não apenas da arquitetura, mas
também dos móveis que ornamentavam o espaço.
83

Figura 9:
Sessão cívica de 5.7.1923 no salão das assembleias, presidida
pelo então governador do Estado J. J. Seabra.

Fonte: Histórico da Associação dos Empregados no Comércio da


Bahia (1922 1923) Bahia: Livraria e Typographia do Comércio, 1924.

A formação do caixeiro: aulas e biblioteca

A educação formal sempre foi uma das preocupações da Associação dos Empregados
no Comércio da Bahia. Ao longo de sua história, a AECB sempre buscou incentivar a formação
intelectual dos sócios, inclusive, com a criação e manutenção de uma biblioteca na entidade.
Também eram ministradas aulas de formação técnica e de idiomas.
A biblioteca da associação foi inaugurada em 1904 e foi motivo de grande comemoração
por ser “animadamente frequentada” pelos associados. Dentre as primeiras obras ofertadas
estavam Os mendigos de Paris, de Louis Paulian, e O Doutor Rameau, de Georges Ohnet. Com
o fito de aumentar o número de obras do acervo foi arrecadado um conto de réis ainda no
primeiro ano de funcionamento da biblioteca, que somado às doações posteriores totalizaram
84

1.098 obras. Também por doação realizada pelo Dr. Thomaz Guerreiro foi incorporado à
biblioteca um busto do filósofo alemão Friedrich Schiller (1759-1805).
Na parte de anexo dos relatórios da diretoria era comum registrar-se o nome daqueles
que contribuíam para o aumento do acervo da biblioteca, seja através de doações em dinheiro,
ou até mesmo com livros ou revistas. O associado Tranquilino Silva, tendo ofertado algumas
obras no exercício de 1905, não viu constar o seu nome naquele relatório e manifestou o seu
protesto por oficio, alegando que teria doado “trinta e tantas obras” sem que tenha sido
mencionado. Como resposta ao suplicante, no relatório do exercício seguinte verifica-se a
mensagem, “... nas estantes da biblioteca existem várias obras com a dedicatória desse nosso
consórcio, cujo número ele também não se lembra”. Ao que parece, os relatórios constituíam
uma forma de promoção não apenas da entidade, mas também dos seus membros mais vaidosos.
Com o aumento do acervo se fez necessária a escolha de um bibliotecário, coube o
encargo ao associado Coriolano Eloy dos Reis. Ao transferir o cargo para o membro João
Espinheira, foi acusado de ter levado consigo um “importante” livro do acervo, tendo
respondido por ofício que em seu poder “não existia uma folha de papel ou envelope
pertencente a associação”. O assunto chegou a ser levado ao conhecimento da assembleia, sob
a justificativa que a nova diretoria não poderia assumir o ônus do desparecimento do livro.
Da mesma maneira Osvaldo Maciel destacou a importância das bibliotecas para as
associações mutualistas, chamando a atenção para o cargo de bibliotecário, que comumente
figurava na diretoria, fato que ocorreu na AECB. Verificou-se que a atenção concedida às
bibliotecas ocorria por se constituir num serviço a mais ofertado pela entidade, o que poderia
atrair potenciais associados e também por se constituírem em locais de entretenimento,
possibilitando o acesso a notícias recentes e a obras de alto valor cultural, o que era sinônimo
de refinamento intelectual e ascensão social. Outra convergência entre o modus operandi da
AECB e outras mutuais com relação à sua biblioteca era a construção do acervo, que ocorria na
sua grande maioria por doações de sócios ou benfeitores.114
Dentre as diversas obras da biblioteca destacavam-se o Estatuto da Associação,
encadernado em marroquim e com folhas douradas, obra oferecida pelo associado Francisco
Pereira de Miranda, um dos negociantes que estavam na fundação da entidade. No entanto, em
1918, as fontes apontam para desorganização em que se encontrava a biblioteca, com as obras
incompletas e inutilizadas. Os relatórios indicavam a necessidade de reorganização de forma
completa para “zelo e proficiência”, tendo em vista que associados retinham obras em seu poder

114
MACIEL. A perseverança dos caixeiros.
85

ou as extraviavam do acervo. Embora tenha sido alvo de reforma em 1919, nos exercícios
seguintes os relatórios continuam mencionando o abandono da biblioteca da Associação.
Variável comum às associações mutualistas era a formação intelectual dos associados.
Para a AECB essa era também uma questão de relevância. A manutenção de aulas “[…] de
grande valor para os nossos associados” era relembrado a todo instante pelos dirigentes da
mutual, que apelavam aos “[…] que necessitem preparar-se nas citadas matérias, matricularem-
se, para que assim vejamos de futuros coroados de bom êxito, os esforços empregados por esta
e outras diretorias”.115
Desde a sua fundação, a associação buscava meios de disponibilizar aulas para os seus
associados. Em 1904, mesmo sem dispor de espaço físico que pudesse acomodar as escolas, já
anunciava a disponibilidade do professor Antônio Bahia da Silva Araújo, reconhecido como
“educador da mocidade”. As primeiras aulas iniciadas foram as de português e escrituração
mercantil, no ano de 1907. Coube ao professor Juvêncio Freitas as aulas de português, que
recebia salário mensal de 60$000 (sessenta mil réis) e ministrava aulas nas segundas, quartas e
sextas-feiras. As aulas de escrituração mercantil ocorriam às terças e quintas-feiras, sob a tutela
do professor João Álvaro Cunha, que recebia mensalmente 80$000 (oitenta mil réis) para
ministrá-las.116
Com menos de um ano de inauguração, as aulas de português foram encerradas devido
ao baixo quórum de alunos, o que provocou na diretoria um apelo para que os sócios buscassem
o aprimoramento intelectual em nome do “progresso” da categoria, tendo sido formada nova
turma em 1909. Em seguida, foram abertas matrículas para os cursos de inglês e francês, apenas
as aulas de inglês se mantiveram, devido à baixa procura.
Ao que parece, a busca pela qualificação através das aulas disponibilizadas pela
associação não despertava o interesse dos “moços do comércio”. Em diversos momentos as
fontes apontam para as queixas de baixa frequência, sendo cogitado, inclusive, o encerramento
das aulas ofertadas para os adultos e a criação de uma escola de “primeiras letras” para os filhos
dos associados.117

115
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão de
Assembleia Geral Ordinária, em 28 de maio de 1905. Relativo à administração de 1904. Bahia: Typographia
Bahiana de Cincinnato Melchiades, 1905.
116
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão da
Assembleia Geral Ordinária de 12 de abril de 1908. Relativo à administração de 1907. Bahia: Typographia Bahiana
de Cincinnato Melchiades, 1908.
117
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão da
Assembleia Geral Ordinária de 06 de abril de 1913. Relativo ao exercício de 1912. Bahia: Typographia Brazil,
1913.
86

A qualificação através da educação era uma das formas que os caixeiros encontravam
para a almejada ascensão social. Contudo, conforme observou Osvaldo Maciel em relação aos
caixeiros de Maceió, a hora noturna, momento que deveria ser reservado para o descanso e
lazer, aliados à precária iluminação e a indisposição para se submeterem àqueles que lhes
trariam os conhecimentos, não se mostrava atrativa para quem acabara de enfrentar um dia
inteiro de trabalho pesado. Assim, em Maceió, a mutual Instrução e Amparo também enfrentava
dificuldades para a manutenção dos cursos ofertados aos caixeiros, que além do baixo número
de matrículas, frequência aquém do esperado e rendimento insatisfatório, culminou com o
encerramento das aulas.
Maciel ressaltou ainda que os cursos de português, aritmética e escrituração mercantil
eram indispensáveis ao desenvolvimento da atividade comercial, o que explica a oferta deles
pelas mutuais da categoria caixeiral. Ganhando destaque a escrituração mercantil que constituía
o aprendizado de conhecimentos e atividades corriqueiras como aprofundamento da
matemática, técnicas comerciais e habilidades daqueles que detinham postos mais destacados
na hierarquia comercial. O domínio dessas ferramentas constituía grande chance de ascensão
no ofício.118
Durante a administração de Alberto Catharino, nos exercícios de 1916 e 1917, a mutual,
sob a alegação da baixa frequência e dos altos custos de manutenção das aulas, firmou contrato
com a Escola Comercial, por meio do qual os associados poderiam frequentar outros cursos
sem despender nenhum valor. Todavia, a parceria durou pouco e a diretoria rescindiu o contrato
ao final de 1918, restabelecendo as aulas na AECB em 1919.119
Mesmo com o retorno das aulas para a sede da associação, permanecia a baixa adesão
dos caixeiros aos cursos ofertados, o que gerou o descontentamento dos professores. Tomando
por base o ano de outubro de 1921, chegou-se à seguinte conclusão: nas aulas de língua
portuguesa foram 70 matriculados e somente 10 frequentavam; dos 68 alunos matriculados em
língua francesas, apenas 8 mantinham a regularidade nas aulas; no curso de língua inglesa não
era diferente, apenas 13 alunos frequentes, dos 69 matriculados; por fim, as aulas de
escrituração contavam com 70 matriculados e apenas 8 alunos frequentavam tais aulas. Em
média a frequência era de apenas 10% dos alunos matriculados em cada curso.

118
MACIEL. A perseverança dos caixeiros, p.
119
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão de
Assembleia Deliberativa, de 24 de fevereiro de 1918. Relativo à administração de 1916 e 1917. Bahia:
Estabelecimento dos Dois Mundos, 1918.
87

Diante dos esforços realizados e a constante falta de assiduidade dos alunos aos cursos
oferecidos, a diretoria da AECB lamentou que a “pouca vontade de uns” poderia “prejudicar a
aspiração dos estudiosos”, afirmando que a manutenção dos serviços quando eles não
apresentavam resultados era “laborar em erro”.120
Em 1925, ao analisar o funcionamento das aulas, a diretoria optou por avaliar o critério
qualitativo: “a maioria senão a totalidade dos alunos tem demonstrado aproveitamento, o que
leva esta diretoria a pensar que esses cursos devem ser mantidos, a despeito da frequência
relativamente pequena”. No mesmo período, cumprindo promessa feita em anos pretéritos, foi
criado o curso infantil primário com objetivo de atender exclusivamente os filhos dos
associados. Contudo, seguindo o mesmo fim daqueles oferecidos aos adultos, sequer foram
obtidas matrículas para o funcionamento das aulas.121
Durante o biênio de 1926-1927 foi criado na AECB o curso de datilografia, através de
parceria com a Organização Royal, e tinha como objetivo preparar auxiliares correspondentes
para o manejo de escrever à máquina. Foram disponibilizadas 12 máquinas para as aulas que
ocorreriam das 18:30 às 21:30. Como forma de diminuir os impactos pela baixa adesão dos
associados, o curso foi aberto para não associados que estivessem dispostos a pagar
mensalidades. O curso funcionou até 1930, não se explicitando o motivo pela não renovação
do contrato com a Organização Royal.122
Ao longo do período pesquisado restaram evidentes os esforços da diretoria para
implementar e manter funcionando cursos de aperfeiçoamento profissional que pudessem
capacitar os associados e torná-los uma categoria “intelectualmente” desenvolvida e apta para
o “progresso”. Contudo, mostrou-se tarefa hercúlea conseguir fazer com que os “moços do
comércio”, após longas jornadas de trabalho, conseguissem forças para enfrentar salas de aulas,
ainda que fossem gratuitas.
Preocupada com o grande número de associados que buscava na diretoria a recolocação
no mercado de trabalho, o grupo à frente da gestão 1924-1925 considerava-se incapaz de
atender a todos os pedidos que lhes chegavam. No entanto, era comum considerar o candidato
“inepto, sem instruções nem disposição de a tomar, limitando-se a pedir um emprego sem que

120
AECB. Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão
da Assembleia Deliberativa de 29 de fevereiro de 1924. Relativo à administração de 1922 e 1923. Bahia: Livraria
e Typographia do Commercio, 1924.
121
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão da
Assembleia Deliberativa de 21 de março de 1926. Relativo à administração de 1924 e 1925. Bahia: Officinas
Graphicas D’ “A Luva”, 1926.
122
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão da
Assembleia Deliberativa de 01 de abril de 1928. Relativo à administração de 1926 a 1927. Bahia: Livraria e
Typographia do Commercio, 1928.
88

para ele muitas vezes tivesse a menor aptidão”. Faziam-se referências à falta de adesão às aulas
oferecidas pela associação.
Após a realização de alguns estudos a AECB criou o Bureau de Emprego, um
departamento a cargo de um dos diretores, que seria o responsável por selecionar os candidatos
e encaminhá-los para as vagas disponíveis no mercado da capital. Aqueles que não fossem
selecionados seriam indicados para as aulas de capacitação oferecidas pela mutual, enquanto
aguardariam novas oportunidades.
Com algum tempo de funcionamento, a diretoria mostrava-se frustrada pela baixa
procura dos “moços do comércio” ao Bureau de Empregos, enquanto ressaltavam a grande
procura dos patrões, que lhe pediam indicações de “...dois, três, quatro moços, para os
cargos...” que se encontravam disponíveis, e que essa iniciativa poderia “preencher uma grande
lacuna no seio da classe”. As fontes encontradas não permitiram identificar quais associados
participaram desse programa nem o prosseguimento dele nos exercícios seguintes.

Assistência à saúde

Desde a fundação da AECB, a diretoria objetivou a prestação de atendimento médico


aos seus consortes. Os primeiros relatos acerca dessa preocupação surgiram em 1904, quando
o médico João Cândido da Silva Lopes se ofereceu para prestar serviços à entidade.
Em 1906 a diretoria começou a preparar salas para que atendimentos médicos e
odontológicos fossem realizados. Recebeu a oferta de serviços gratuitos do médico Alfredo
Ferreira de Magalhães, considerado um dos grandes expoentes da medicina em Salvador. O
referido profissional manifestou seu interesse por ver “constituírem-se as obras de solidariedade
social e de previdência a moléstia e a morte” através de oficio encaminhado à AECB. Segundo
consta, ao tomar conhecimento da “louvável tentativa de estabelecerdes um posto de consultas
para os agremiados”, colocava-se à disposição da associação para este fim. Assim procedeu
também o cirurgião dentista Clodoaldo de Assis Coelho, que “sabendo que a futurosa
Associação deseja montar um consultório médico-dentário para uso dos seus associados”,
oferecia gratuitamente os seus serviços.123
A inauguração do posto médico ocorreu em 1907. Os atendimentos eram realizados pelo
Dr. Alfredo Magalhães às terças e quintas-feiras e aos sábados e pelo dentista Clodoaldo Borges

123
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em sessão da
Assembleia Geral Ordinária de 12 de maio de 1907. Relativo à administração de 1906. Bahia: Typographia
Bahiana de Cincinnato Melchiades, 1907.
89

aos domingos. Após seis meses de funcionamento foram computados 25 sócios atendidos, com
a realização de 142 obturações, 59 avulsões, dentre outros procedimentos. Na Tabela 7 pode-
se ver o detalhamento da movimentação no posto odontológico entre 1907 e 1930.

Tabela 7:
Atendimentos odontológicos realizados pela AECB (1907-1930)
Serviços Odontológicos Realizados na AECB
Período Extrações Restaurações Obturações Limpezas Diversos Total
1907 59 11 146 10 0 226
1908 40 11 113 13 0 177
1909 31 6 136 17 0 190
1910 70 16 113 26 139 364
1911 42 16 178 27 211 474
1912 42 4 202 11 81 340
1913 16 3 111 28 86 244
1914 37 21 142 65 120 385
1915 71 29 151 39 259 549
1916/17 290 400 613 595 875 2773
1918/19 450 469 921 1665 4095 7600
1922/23 962 514 1496 10747 1129 14848
1924/25 1074 618 1800 14719 4371 22582
1928/29 984 1120 2056 10490 8289 22939
1930 769 808 1526 5750 4825 13678
Total Geral 4937 4046 9704 44202 24480 87369

Fonte: Relatórios da AECB (1907-1931).

Foram encontrados registros dos seguintes dentistas prestando atendimento à


Associação ao longo da Primeira República: Clodoaldo de Assis Coelho Borges, Antônio de
Azevedo Borba, Augusto Weyll Júnior, Bráulio de Menezes Faria e Oswaldo Teixeira
Machado.
Os atendimentos médicos iniciados por João Cândido da Silva Lopes e Alfredo Ferreira
de Magalhães deram origem a um conjunto de corpo médico que muito contribuiu para o
cuidado dos sócios da AECB. Passados onze anos dos primeiros associados atendidos, foram
incorporados à equipe da instituição os médicos Eduardo Vidal da Cunha, Fernando Salazar da
Veiga Pessoa e Perolina Lisa, que era obstetra, o que indica o atendimento das associadas
mulheres e, provavelmente, das dependentes dos associados.124

Nem todas as consultas eram realizadas no posto da AECB, como ocorria no caso de
João Lopes. As consultas feitas pelo médico Fernando Salazar ocorriam em seu consultório,

124
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em sessão de
Assembleia Deliberativa, de 24 de fevereiro de 1918. Relativo à administração de 1916 e 1917. Bahia:
Estabelecimento dos Dois Mundos, 1918.
90

instalado à Rua dos Ourives, nº 10. Do mesmo modo eram realizadas as consultas com o médico
Eugênio David, que franqueou o seu consultório aos membros da mutual às terças e quintas-
feiras e aos sábados.
Com o aumento da procura pelos atendimentos médicos, a diretoria de 1918 manifestou
a intenção de construir o posto médico na sede inaugurada no ano anterior. Ao que parece,
existia uma quota de atendimentos no consultório do médico Fernando Salazar, que continuava
a exercer a medicina particular. Na ocasião foi proposto o atendimento médico em domicílio, o
que poderia trazer um “benefício moral e material para associação”.
As primeiras medidas para a instalação do posto médico no palacete da Associação
foram executadas em outubro de 1920, sob a supervisão profissional de Fernando Salazar, que
à época já havia se tornado sócio benfeitor. O custo inicial para implantação do posto foi orçado
pela firma Freitas & Costa em 12:204$000 (doze contos e quatrocentos mil-réis), que seriam
pagos por meio de subscrições dos associados. Com a expectativa de grande procura pelos
serviços oferecidos no posto médico, optou-se por contratar um profissional da área, Vidal da
Cunha, pagando-lhe um salário mensal de 200$000 (duzentos mil-réis).125
A inauguração do posto médico foi realizada em 13 de março de 1921, momento que
contou com a presença de vários associados e seus familiares. O funcionamento seria diário,
com atendimentos prestados das 11:30 às 12:30, feito por Vidal da Cunha, “especialista em
moléstias nervosas e mentais e do aparelho digestivo”, e das 16:30 às 17:30, sob a
responsabilidade de Fernando Salazar, “especialista em moléstias sifilíticas e das vias
urinárias, inclusive partos e moléstias das senhoras”. Apesar da estrutura montada pela
Associação, alguns procedimentos precisavam ser executados em hospitais, o que ocorria
aparentemente sem maiores percalços por indicação dos médicos da AECB aos seus colegas
designados naqueles estabelecimentos.

125
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em sessão da
Assembleia Deliberativa de 05 de março de 1922. Relativo à administração de 1920 e 1921. Bahia: Livraria e
Typographia do Commercio, 1922.
91

Figura 10:
Posto médico da AECB. Inaugurado em 13.03.1921

Fonte: Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio


da Bahia em sessão da Assembleia Deliberativa de 05 de março de 1922. Relativo à
administração de 1920 e 1921. Bahia: Livraria e Typographia do Commercio, 1922.

Tendo sido planejada e equipada num curto espaço de tempo, a estrutura física do posto
médico gerou algumas reclamações do corpo clínico, como aquelas feitas por Vidal da Cunha,
que chamava a atenção da diretoria “no sentido de mudar a posição do posto, que não obedece
absolutamente às exigências requeridas para um consultório”, isso porque, o posto estava
instalado no 2º andar do prédio, sendo necessário subir um grande número de escadas para
chegar ao consultório. Em suas queixas aduziu ainda o citado médico: “no meu consultório
particular tenho doentes que pertencem a esta associação e se consultam lá, porque seria um
crime da minha parte e até desumanidade se obrigasse a sua vinda ao posto”.126
Somente em fevereiro de 1927 a entidade conseguiu atender ao pedido do médico Vidal
da Cunha, transferindo o posto para o andar térreo da Associação, instalando-o numa sala que
estava alugada para um bilhar e foi desocupada pelo inquilino. Após as devidas reformas, os

126
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em sessão da
Assembleia Deliberativa de 05 de março de 1922. Relativo à administração de 1920 e 1921. Bahia: Livraria e
Typographia do Commercio, 1922.
92

médicos que ali atendiam reputaram o local como o “melhor aparelhado e melhor instalado na
Capital”.127
A atuação da AECB em relação à assistência à saúde certamente contribuiu para
amenizar os numerosos casos de doenças que assolavam a população do período. Durante a
década de 1920 as fontes apontam para os muitos casos de sífilis tratados pelos médicos da
Associação. Outros relatos de casos médicos também chamaram a atenção ao longo da
pesquisa, a exemplo de A. M., que tinha vergonha do volume que seus órgãos genitais
apresentavam sob as roupas, e por onde passava era logo percebido. Acreditava que
provavelmente esse era o motivo pelo qual sempre era recusado nos salões de dança. Diante do
sofrimento apresentado foi submetido à punção, e após algum tempo de tratamento apresentou
diminuição significativa em seu problema, sendo considerado um “individuo são”.
Foram acrescentadas em 1925 as especialidades de otorrinolaringologia e oftalmologia,
sob a responsabilidade do médico Colombo Spínola, que viria a se tornar o fundador do hospital
Santa Luzia. Os associados eram atendidos gratuitamente e seus dependentes eram atendidos
pagando a metade do preço estipulado para os procedimentos. A disponibilização dos serviços
foi justificada pela dificuldade em se conseguir tratamento gratuito naquela especialidade, que
no período apenas era acessível no hospital Santa Isabel, não dispondo os empregados do
comércio de recursos para pagar os tratamentos em clínicas particulares.
A oferta de especialidades médicas aos associados se constituiu num importante
diferencial na prestação de serviços da AECB, que ainda em 1930 passou a disponibilizar aos
seus filhos o atendimento pediátrico com o médico Bráulio Xavier Filho, que possuía
consultório na Rua Chile. Com base nos relatórios que começaram a ser elaborados em 1915
pelo médico Fernando Salazar, sendo seguidos por seus colegas de profissão desde então, é
possível identificar e quantificar os principais serviços médicos realizados pela associação até
1930.

127
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em sessão da
Assembleia Deliberativa de 01 de abril de 1928. Relativo à administração de 1926 a 1927. Bahia: Livraria e
Typographia do Commercio, 1928.
93

Tabela 8:
Atendimentos médicos realizados pela AECB (1915-1930)
Atendimento / procedimento Número
Consultas 27.259
Injeções Diversas 16.281
Vacinas 31
Injeções de 914 58
Massagem da próstata, uretra e gerais 564
Lavagem vesicais e uretrais 13.104
Instilações vesicais e uretrais de nitrato de prata e gomenol 669
Dilatações de abcessos 935
Termo cauterizações 67
Curativos 10.454
Vacina anti-gonococeica 7
Injeção de Hetina, Enesol e Paratoxina 129
Dilatação uretral 69
Exame de urina e sangue 83
Pequenas cirurgias 1056
Aplicações elétricas 105
Cauterização de garganta 9
Fonte: Relatórios da AECB (1915-1931).

Os números alcançados pela assistência médica e odontológica prestados pela mutual


são muito expressivos e ajudam a dimensionar a força da entidade perante a sociedade daquela
época, bem como a proteção àqueles associados menos favorecidos financeiramente. Sendo
importante destacar ainda que todos esses serviços foram prestados sem subvenções estatais,
como ocorria com outras associações mutualistas.
A crescente demanda dos associados quantos aos serviços médicos e odontológicos a
partir da década de 1920 levou a diretoria da mutual, principalmente Josias Joaquim de Oliveira,
a vislumbrar a construção de um hospital ou asilo dedicado à categoria dos caixeiros.
Principalmente por ser a beneficência um dos principais fins da associação, que “exerce a
caridade em todas as suas modalidades”, a diretoria buscou conclamar a categoria para levar
a ideia da fundação de um hospital e abrigo que pudesse amparar os caixeiros na velhice. Apesar
das dificuldades, a concretização das “nobres ideias” daria o desenvolvimento necessário para
que se pudesse afirmar “já ser a Associação dos Empregados no Comércio da Bahia a mais
poderosa agremiação do norte do país”.128

128
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em sessão da
Assembleia Deliberativa de 05 de março de 1922. Relativo à administração de 1920 e 1921. Bahia: Livraria e
Typographia do Commercio, 1922.
94

Chegaram a ser arrecadados até 1929 aproximadamente dezesseis contos de réis, com o
intuito da construção do hospital dos caixeiros, foram mantidos contatos com o então
governador Francisco Góis Calmon, que manifestou o interesse em disponibilizar o edifício
Pacifico Pereira, localizado no Campo Grande, para implantação da casa de saúde, não podendo
fazer naquele momento em virtude de se encontrar o congresso fechado, se fazia presente na
reunião o seu sucessor, Vital Soares, que também firmou compromisso nesse proposito. Após
a sua posse, foi procurado pelos representantes da associação, quando teria dito que a “aspiração
da associação era muito grande” e que no prédio em questão seria instalado o palácio da justiça.
Como forma de compensação a diretoria tentou pleitear a aquisição de um terreno, o
que já teria sido cogitado pelo seu antecessor, Góis Calmon, todavia, Vital Soares não consentiu
ao pedido, fato que trouxe muita indignação à diretoria da mutual, que asseverou que “esse
auxílio do governo do estado longe de ser um favor seria a mais honesta das contribuições
para uma sublime finalidade além de uma homenagem ao meio que representa o fator da
receita dos governos”.

Auxiliando os vivos e os mortos

A securitização consistia num dos principais atrativos e finalidades das associações


mutualistas, pois, garantiam aos associados ou a seus familiares pecúlios em casos de invalidez
ou morte. No caso da AECB, além dos serviços médicos, odontológicos, jurídicos e
educacionais, pude encontrar a previsão de pagamento dos seguintes benefícios: Auxilio,
Pensão e Auxilio Enterramento.
Durante a pesquisa não tive acesso a fontes que pudessem detalhar os membros ou
familiares que receberam os benefícios ofertados pela AECB, o único relatório da diretoria que
faz menção a isso trouxe o pagamento de pensão e funeral, ocorrido em 1905, no valor de
180$000 (cento e oitenta mil réis), revertidos para filha do associado José Antonio Coutinho,
falecido em 27 de maio de 1904.
Outra obrigação contraída pela AECB era os pagamentos dos auxílios e pensões, que
segundo os estatutos deveriam se realizar sempre no primeiro domingo de cada mês, embora,
pelo que pude extrair das fontes, não ocorresse por causa da desídia dos tesoureiros que
terminavam delegando a tarefa ao guarda-livros da Associação. Tudo indica que isso ocorria
em virtude da grande agitação que tomava conta da mutual nos dias designados para os
pagamentos, tendo sido necessário a criação de um sistema de fichas de metal numeradas, que
95

após serem distribuídas aos beneficiários, aguardavam a sua chamada no salão do palacete dos
caixeiros, o que trouxe “contentamento geral pela ordem estabelecida”. 129

Apesar da escassez de fontes alusivas aos destinatários dos auxílios, a movimentação


financeira da mutual possibilitou identificar o volume financeiro que era destinado para esse
fim.

Gráfico 7:
Despesas da AECB com Securitização (1904-1930)
90.000.000
80.000.000 1904
70.000.000 1905
60.000.000
1906
50.000.000
40.000.000 1907
30.000.000 1908
20.000.000 1909
10.000.000
1910
-
1911
1912

Fonte: AECB. Relatórios da Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio


da Bahia (1904-1931).

O Gráfico 7 mostra um crescente investimento da AECB com a securitização de seus


membros ao longo do período coberto pelos relatórios da entidade (1904-1931) e revela que os
encargos com essa rubrica começaram a se elevar significativamente a partir de 1914, quando
as despesas anuais beiravam os dez contos de réis. A partir de então, o crescimento foi
progressivo, atingindo seu ápice em 1930, com quase oitenta contos de réis sendo aplicados no
pagamento dos três benefícios ofertados. Para uma entidade mutualista são valores expressivos,
todavia, se compararmos com o Gráfico 3, que aponta o valor de arrecadações apenas com as
contribuições mensais, veremos que a mutual sempre foi superavitária.
Tomemos por base o biênio 1928-1929, cuja quantia arrecadada com as contribuições
foi de aproximadamente cento e sessenta contos de réis, isso sem levarmos em consideração as
joias e diplomas que somaram quase vinte contos de réis. Já o valor despendido com os
benefícios não chegou a setenta contos de réis, gerando um saldo positivo médio de cento e dez

129
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em sessão da
Assembleia Deliberativa de 27 de abril de 1930. Relativo à administração de 1928 a 1929. Bahia: Livraria e
Typographia do Commercio, 1930.
96

contos de réis. Esse equilíbrio financeiro e atuarial era fundamental para que houvesse recursos
financeiros disponíveis para a aplicação em áreas como educação e saúde, que também
compunham a gama de atividades desenvolvidas pela AECB.
Outro fator que contribuía para a manutenção do equilíbrio entre arrecadação e despesas
com assistência securitária era justamente a idade dos membros que faziam parte da associação.
Conforme já demonstrei ao analisar a faixa etária dos caixeiros que integravam a AECB, os
jovens constituíam a maioria dos membros da mutual. Não foi sem propósito que existia uma
barreira para o ingresso de membros com mais de cinquenta anos de idade nas fileiras da
entidade.
Assim, concordando com Claudio Batalha, conclui-se que a resposta encontrada pelas
classes trabalhadoras durante a Primeira República para amenizar as condições oriundas de um
sistema que levava à exclusão social e política estava, em parte, no mundo do associativismo.130
A Associação dos Empregados do Comércio da Bahia não fugiu a essa função e se colocou
como alternativa a um sistema excludente e pouco permeável às demandas dos caixeiros e
demais trabalhadores da época.

130
BATALHA. “Formação da classe operária”, p. 176.
97

CONSIDERAÇÕES FINAIS

“Quando fundaram este instituto de trabalho, de ensino e de caridade? Qual tem sido
a sua vida, a sua influência e a sua cooperação nos grandes momentos? Quem arcou sobre os
ombros tamanha responsabilidade em ato de sua fundação, que gente foi essa e como se
conduziu depois?” Ricardo Teixeira Machado ao elaborar essas indagações 17 anos após
fundada a Associação dos Empregados no Comércio da Bahia ainda não poderia vislumbrar a
proporção do crescimento que alcançaria a entidade até 1930.
De certo modo aqueles questionamentos realizados por Ricardo Machado ecoaram por
mais de 100 anos, e ao seguir as indicações trazidas por Castellucci131, que apresentou um
mapeamento de 165 sociedades de auxílio mútuo e de beneficência fundadas na Bahia entre
1832 e 1930, centramos a nossa pesquisa naquelas organizadas pelos caixeiros – como eram
denominados os trabalhadores do comércio. Ciente da complexidade da cultura associativa
existente no período final do século XIX e início do XX, mesmo diante da escassez de fontes
para certos aspectos, entendemos que seria possível enfrentar os desafios e, conforme assinala
Ginzburg132, “se a realidade é opaca, existem zonas privilegiadas – sinais, indícios – que
permitem decifrá-la”. A docência das disciplinas de Direito do Trabalho e Direito
Previdenciário aguçaram a curiosidade do pesquisador para conhecer como os caixeiros de
Salvador agiram diante das lutas para efetivação destes direitos, em parte praticados pelas
mutuais desde o século XIX, ainda que de forma privada e restrita à determinadas categorias.
Os primeiros indícios seguidos foram no sentido de descobrir não apenas quando, mas
porque “...fundaram este instituto de trabalho, de ensino e de caridade?”. Sua origem,
conforme já dissertado, ocorreu em virtude de dissensões políticas. A derrota de Domingos
Rodrigues Guimarães e a truculência utilizada por Luiz Viana para debelar os protestos em que
se envolveram os “moços do comércio” foi o alicerce sobre os quais os idealizadores da AECB
fincaram seus pilares de sustentação. Descontentes em reunir-se na praça Castro Alves ou na
confeitaria Recreio Comercial, queriam fundar uma entidade que expressasse “um duradouro
protesto às cenas de selvageria” a que foram submetidos os caixeiros no fatídico 13 de
novembro de 1899.
“Quem arcou sobre os ombros tamanha responsabilidade em ato de sua fundação, que
gente foi essa e como se conduziu depois?” Além de conhecer os seus principais fundadores,
os caixeiros Antônio Júlio César Bouças e Deraldo Argolo, os guarda-livros Ricardo Machado

131
Castellucci. “A luta contra a adversidade”, p. 41-42.
132
Ginzburg, 1989.
98

e Dalmiro Cayres, busquei identificar que “gente” frequentou as fileiras dessa entidade, para
que pudesse perpetuar os protestos de uma categoria oprimida pelo poder público, não apenas
pelas patas dos cavalos da polícia, mas também pela ausência de proteção legal ao trabalho e
as dificuldades enfrentadas quando não era possível laborar.
A investigação me permitiu constatar que uma das formas de se mostrar combativos
frente ao poder político foi agregar em seu meio um número considerável de comerciantes,
categoria de prestígio social no século XIX e no início do século XX, o que garantiu aos
“miúdos” conviverem nos mesmos espaços que os “graúdos”, e o implemento mínimo
necessário para manterem o propósito de ascenderem socialmente. Identifiquei também que o
fato de aglutinar patrões e empregados não tornou a mutual indiferente às condições de trabalho
impostas pelos últimos, a exemplo do que se viu nas campanhas pela diminuição da jornada de
trabalho e pelo cumprimento da lei das férias, ainda que se reconheça que a presença dos
negociantes na entidade dificultava a plena independência e cidadania dos empregados.
Qual tem sido a sua vida, a sua influência e a sua cooperação nos grandes momentos?
A resposta à terceira pergunta levantada por Ricardo Machado soou de forma mais genérica.
Qual teria sido o papel da AECB na cooperação e influência dos seus sócios? Além disso, qual
a sua inserção na sociedade de Salvador e nas demais mutuais com as quais mantinha relações
de amizade? Os sinais apontam para uma entidade preocupada em qualificar seus agremiados
para ocuparem postos de maior destaque dentro da hierarquia caixeiral, seja por meio da
instrução formal ou até da criação do bureau de empregos. Contudo, a mutual não se limitou a
assessorar o trabalho, a cooperação com o bem-estar físico e mental da categoria tornou-se
visível através dos serviços médicos e odontológicos dispensados, ainda nas tentativas de
criação do hospital e do asilo caixeiral e até nos momentos de imprevidência, garantindo
auxílios aos membros ou familiares.
Ao buscar nas fontes a influência e cooperação da AECB na vida daqueles de fora da
entidade, identifiquei uma rede de relacionamento extensa, que incluiu até mesmo associações
estrangeiras, bem como uma marcante presença nas festividades cívicas onde o nome da
agremiação ocupava lugar de destaque, o que mantinha o ideal de perpetuar a participação dos
caixeiros na história.
Os governadores que outrora repeliam as manifestações públicas dos de baixo com
truculência passaram a participar dos eventos promovidos pela Associação. À primeira vista,
isso poderia ser apenas mais uma evidência do clientelismo presente em parte das associações
mutualistas, mas essa não é toda a verdade sobre a AECB que, conforme demonstrei, durante a
Primeira República praticamente não se utilizou de subvenções estatais, modus operandi que
99

lhe garantia certa independência política, sendo, inclusive, vedado por seus estatutos o
partidarismo político.
A autonomia financeira alcançada pela Associação dos Empregados no Comércio da
Bahia conferiu-lhe crescimento não apenas financeiro, mas também a pujança necessária para
oferecer aos caixeiros de Salvador a condição de pertencer à maior associação mutualista
composta por caixeiros do Nordeste.
Espero com essa pesquisa ter contribuído, ainda que modestamente, para o avanço da
História Social do Trabalho, mesmo tendo o olhar sobre as fontes partido de um advogado, que
muito se identificou com o seu objeto de estudo por ter sido um “moço do comércio”. Além
disso, a experiência perante a Justiça do Trabalho, aliada aos estudos realizados durante o
mestrado, levantam-me a perceber a importância do ideal trazido no estandarte da AECB, que
“A UNIÃO FAZ A FORÇA”.133

133
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em Sessão de
Assembleia Deliberativa, de 24 de fevereiro de 1918. Relativo à administração de 1916 e 1917. Bahia:
Estabelecimento dos Dois Mundos, 1918.
100

ARQUIVOS E FONTES

Arquivo da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia (AECB)


APEB, Seção Judiciária, 03/3668/02 (Autos Cíveis – Inventários e Testamentos).
APEB, Seção Judiciária, 06/2727/08 (Autos Cíveis – Inventários e Testamentos).
APEB, Seção Judiciária, 06/2383/09 (Autos Cíveis – Inventários e Testamentos).
APEB, Seção Judiciária, 06/2410/10 (Autos Cíveis – Inventários e Testamentos).
APEB, Seção Judiciária, 06/2317/11 (Autos Cíveis – Inventários e Testamentos).
APEB, Seção Judiciária, 03/1336/12 (Autos Cíveis – Inventários e Testamentos).
APEB, Seção Judiciária, 07/2940/12 (Autos Cíveis – Inventários e Testamentos).

Anuário estatístico de 1924 e 1925. Diretoria de Serviços de Estatística. Salvador: Imprensa


Oficial do Estado, 1926.
BRASIL, Decreto Estadual n.º 299.

DOCUMENTOS DA AECB:
Livro de Atas da Assembleia Geral (1900-1910).
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em
Sessão de Assembleia Geral Ordinária, em 28 de maio de 1905. Relativo à administração de
1904. Bahia. Typographia Bahiana de Cincinnato Melchiades.
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em
Sessão de Assembleia Geral Ordinária, em 11 de março de 1906. Relativo à administração de
1905. Bahia. Typographia Bahiana de Cincinnato Melchiades.
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em
sessão de Assembleia Geral Ordinária, em 12 de maio de 1907. Relativo à administração de
1906. Bahia. Typographia Bahiana de Cincinnato Melchiades.
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em
Sessão de Assembleia Geral Ordinária, de 12 de abril de 1908. Relativo à administração de
1907. Bahia. TypographiaBahiana de Cincinnato Melchiades.
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em
sessão da Assembleia Geral Ordinária de 16 de maio de 1909. Relativo à administração de
1908. Bahia. Typographia Bahiana de Cincinnato Melchiades.
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em
sessão da Assembleia Geral Ordinária de 26 de junho de 1910. Relativo à administração de
1909. Bahia. Typographia Bahiana de Cincinnato Melchiades.
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em
Sessão da Assembleia Geral Ordinária de 29 de junho de 1911. Relativo ao exercício de 1910.
Bahia. Estabelecimento dos Dois Mundos.
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em
Sessão da Assembleia Geral Ordinária de 28 de julho de 1912. Relativo ao exercício de 1911.
101

Bahia. Typographia Brazil.


Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em
Sessão da Assembleia Geral Ordinária de 06 de abril de 1913. Relativo ao exercício de 1912.
Bahia. Typographia Brazil.
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia
relativo à administração de 1914. Bahia. Typographia Bahiana de Cincinnato Melchiades.
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia
relativo à administração de 1915. Bahia. Typographia Bahiana de Cincinnato Melchiades.
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em
Sessão de Assembleia Deliberativa, de 24 de fevereiro de 1918. Relativo à administração de
1916 e 1917. Bahia. Estabelecimento dos Dois Mundos.
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia
relativo à administração de 1920-1921. Bahia. Typographia Bahiana de Cincinnato Melchiades.
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em
Sessão da Assembleia Deliberativa de 05 de março de 1922. Relativo à administração de 1920
e 1921. Bahia. Livraria e Typographia do Commercio.
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em
Sessão da Assembleia Deliberativa de 29 de fevereiro de 1924. Relativo à administração de
1922 e 1923. Bahia. Livraria e Typographia do Commercio.
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em
Sessão da Assembleia Deliberativa de 21 de março de 1926. Relativo à administração de 1924
e 1925. Bahia. Officinas Graphicas D’ “A Luva”. Grifos nossos.
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em
Sessão da Assembleia Deliberativa de 01 de abril de 1928. Relativo à administração de 1926 a
1927. Bahia. Livraria e Typographia do Commercio.
Relatório apresentado pela Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia em
Sessão de Assembleia Deliberativa, de 27 de abril de 1930. Relativo à administração de 1928 e
1929. Bahia. Livraria e Typographia do Commercio.
Relatórios apresentados pela Diretoria da Sociedade de Beneficência Caixeiral. Relativos aos
exercícios de 1911 e 1925.

JORNAIS
Diário de Notícias, Salvador, 11 ago. 1911.
Jornal de Notícias, Salvador, 12 out. 1911
A Manhã. Salvador, 17 de jul. de 1920.
A Manhã. Salvador, 4 de ago. de 1920.
A Manhã, Salvador, 4 de ago. de 1920.

SITES
http://www.cultura-arte.com/pasquale-chirico.htm.
102

https://blogdoriovermelho.blogspot.com/2015/11/pasquale-de-chirico-escultor-dos.html
consultei nesses sites.
103

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