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UNIVERSIDADE CEUMA

CURSO DE DIREITO
DIREITO PROCESSUAL PENAL I
PROF. DR. THIAGO ALLISSON CARDOSO DE JESUS
UNIDADE III- INQUÉRITO POLICIAL

1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Os institutos da persecução penal são sistematizados em duas fases delineadas: a
primeira, investigação preliminar, com natureza administrativa; a segunda, submissa ao
contraditório e à ampla defesa. Para Frederico Marques, “a persecutio criminis apresenta dois
momentos distintos: o da investigação e o da ação penal. Esta consiste no pedido de
julgamento da pretensão punitiva, enquanto a primeira é atividade preparatória da ação penal,
de caráter preliminar e informativo” (2010, p. 138).
A Constituição de 1988, em seu artigo 144, bifurcou o papel da polícia em: a)
Administrativa ou ostensiva, polícia preventiva, de “prevenção” ou “antecipação”; b) e a
Judiciária ou Civil que atua após a ocorrência das infrações penais.
A Polícia Civil é presidida por delegados de carreira, obrigatoriamente concursados.
Estruturada em polícia civil federal e estadual, as duas principais funções são auxiliar o
Judiciário e elaborar o inquérito policial. Vide art. 3º da Lei 12.830/2013.
A questão terminológica: Inquérito Policial e Investigação Criminal (Brasil);
Sumario ou instrucción complementaria na Espanha; Inquérito Preliminar em Portugal. A
construção da nomenclatura “Instrução preliminar” na literatura de Aury Lopes Jr.
Os sistemas de investigação preliminar no Direito Comparado: Os modelos da
Investigação Policial, Investigação pelo Juiz e Promotor Investigador.

2 DELIMITAÇÕES CONCEITUAIS, NATUREZA JURÍDICA E FUNÇÕES


Doutrinariamente, o inquérito policial é um procedimento administrativo
preliminar presidido pela autoridade policial, que objetiva apurar a autoria e a
materialidade da infração tendo por finalidade contribuir na formação da opinião delitiva
do titular da ação penal.

2.1 Conceito e natureza jurídica


Especificamente, Aury Lopes Jr (2013, p. 256) chama investigação/instrução
preliminar “o conjunto de atividades desenvolvidas concatenadamente por órgãos do Estado, a
partir de uma notícia-crime com caráter prévio e de natureza preparatória com relação ao
processo penal, que pretende averiguar a autoria e as circunstâncias de um fato aparentemente
delituoso, com o fim de justificar o processo ou não processo”.
A natureza jurídica do inquérito policial é, portanto, de procedimento administrativo
e preliminar, regido pela disciplina dos atos administrativos. Já o processo é, segundo
Carnelutti (2000), uma relação jurídica animada em contraditório.
O Inquérito Policial caracteriza-se pela autonomia e pela instrumentalidade
qualificada.
A função da Verificação de Procedência das Informações (VPI) ou Verificação
Preliminar de Inquérito: artigo 5º, §3º, do CPP.

2.2 Funções e destinatários do Inquérito Policial:


O inquérito permite ao Ministério Público denunciar, solicitar novas diligências ou
pedir o arquivamento do Inquérito Policial. O Inquérito Policial é, portanto, um lastro para
convencimento.
O inquérito policial deve assegurar a genuidade do material probatório e evitar que
um imputado inocente seja submetido a atividade de processamento, prevenindo acusações
infundadas por meio do chamado filtro do Sistema de Justiça Criminal.

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O inquérito policial serve, ainda, para viabilizar ao magistrado a tomada de medida
cautelar durante a persecução penal como a produção antecipada de provas.
Destinatários imediatos: Ministério Público ou ofendido. Destinatário Mediato: O
Poder Judiciário.

3 CARACTERÍSTICAS (E MITIGAÇÕES) EM SEDE DE INQUÉRITO POLICIAL

3.1 Inquisitivo
Pela teoria clássica, na fase de inquérito policial não há observância do contraditório
e da ampla defesa com o fito de agilizar as investigações e pela natureza do instituto. Não há
partes; não há lide; há uma autoridade investigante e um suspeito feito investigado.
Vide Súmula Vinculante nº 5: a falta de defesa técnica no processo administrativo
disciplinar não ofende a Constituição.
Todavia, no Brasil, existe uma corrente doutrinária em conformidade com o
Ordenamento Jurídico Constitucional defendendo que o princípio da ampla defesa incide na
fase preliminar. Defende-se a ampla defesa, para preservação dos direitos e garantias
fundamentais do investigado. Nesse sentido, vide Súmula Vinculante nº 14.
Obs.1: Existem investigações passíveis de contraditório e ampla defesa. Alguns
inquéritos extrapoliciais contemplam contraditório e ampla defesa tais como o para extradição
ou expulsão de estrangeiro.
Obs.2: Alguns projetos de lei que tramitam no Congresso Nacional versam sobre a
incidência do contraditório na fase de investigação criminal.

3.2 Presidido pela autoridade policial (art.4º, CPP)


O inquérito policial é conduzido pela polícia judiciária: opção mantida pelo legislador
de 1941 e fundamentada na Exposição de Motivos do CPP. Superação do modelo do juiz
instrutor. Vide art. 2º da Lei 12.830/2013.
Obs.1: É possível investigação criminal por outros órgãos, como por exemplo, as
Comissões Parlamentares de Inquérito. O relatório da CPI é entregue ao Ministério Público
para que, sendo o caso, deflagre o processo, disciplinado pela Lei 10.001/2000 que dispõe
sobre a remessa do inquérito parlamentar ao MP; há também investigação criminal prevista no
CPPM, sob a responsabilidade da polícia judiciária militar, composta por integrantes da
carreira; e outros órgãos com poderes investigativos.
Obs.2: O Judiciário também pode presidir investigação pois o presidente do TJ é o
responsável por investigar um juiz (LOMAN). Da mesma forma o Ministério Público, pois a
investigação de um integrante do MP é presidida pelo Procurador Geral de Justiça (LONMP).
Obs.3: O MP pode investigar? No contexto pós-1988, as investigações ministeriais são
implicitamente extraídas da CR/88, segundo o art. 129, inciso VI e inciso VIII. Vide Súmula
234, STJ. O Ministério Público Federal já disciplinou o procedimento para investigação do
MP. Julgado permissivo: HC 89837, de 20/10/2009, STF. A problemática em torno do Projeto
de Emenda à Constituição (PEC 37) e a Nota Técnica do CNJ contra a aprovação da Emenda.
Obs.4: A problemática investigação criminal defensiva com iniciativa dos particulares
(PL nº 156/2009), a atuação dos detetives particulares (Lei nº 3099/1957) e as (dis)funções no
Ordenamento.

3.3 Discricionário
O delegado atua, nos limites impostos pela lei, com margem de conveniência e
oportunidade: a discricionariedade regrada em sede de inquérito policial.
Tourinho Filho (2012) diz que o delegado conduz as investigações da forma que
entender mais conveniente. Cada delegado constrói, in casu, seu sistema investigatório.

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Obs.1: O CPP criou um leque de diligências que devem ser seguidas e outras que
podem ser cumpridas. Os artigos 6º e 7º do CPP indicam o rol de diligências que podem ou
devem ser seguidas pelo Delegado. Vide o artigo 13, 13-A, 13-B e 14, CPP.
Obs. 2: Se juiz e promotor entendem por alguma diligência, expedirão requisições, que
o delegado é obrigado funcionalmente a cumprir, em virtude da LONMP e LOMAN, sob pena
de responsabilização.

3.4 Sigiloso (art. 20, CPP)


Objetiva garantir a eficiência das investigações e resguardar direitos fundamentais do
indiciado.
O sigilo deve ser extensivo aos terceiros desinteressados, pois os investigados são
presumidamente inocentes e o prejuízo da publicidade é manifesto.
Não estão adstritos ao sigilo: o MP, pois um dos destinatários do inquérito; o juiz e o
advogado do suspeito. Esse não acompanhará as diligências, mas tem direito de consultar os
autos do inquérito policial, segundo o Estatuto da OAB.
Análise da Súmula Vinculante nº 14.
Ampliação do acesso aos autos da investigação preliminar pelo advogado: a Lei
13.245/2016 e suas repercussões.
Obs.1: Se o delegado, arbitrariamente, impede que o advogado consulte os autos do
inquérito, terá cabimento o Mandado de Segurança.
Obs.2: Na operação Navalha, o STJ, Relatoria da Ministra Eliana Calmon, ofereceu
aos advogados fotocópias do inquérito policial com tarjas pretas, naquilo que entendeu ser
necessária a sigilosidade absoluta, com base no princípio da proporcionalidade.

3.5 Escrito (art. 9º, CPP)


A forma documental prevalece no inquérito policial. Os atos produzidos oralmente
serão reduzidos a termo ou gravados em sistema audiovisual.

3.6 Indisponível (art. 17 e 18, CPP)


Não se admite que, por ato discricionário, o delegado paralise a investigação criminal
ou arquive o inquérito policial. É necessário concluir e remeter ao Poder Judiciário.
Vide art. 19, CPP.

3.7 Dispensável
Nada impede que a fase de processamento criminal seja iniciada sem inquérito
policial. A “medida” da indispensabilidade: art. 12, CPP.

3.8 Oficialidade e autoritariedade


A autoridade policial é órgão oficial do Estado (Art. 144, §4º, da CR/88 e Lei
12.830/2013).

3.9 Oficiosidade
Em casos de ação penal pública incondicionada, a autoridade policial deve atuar de
ofício. Tratando-se de ação penal pública condicionada ou ação penal pública de iniciativa
privada, a atuação encontra-se condicionada à manifestação da vítima e à provocação do
querelante.

4 ATRIBUIÇÃO DA AUTORIDADE POLICIAL


O CPP menciona atecnicamente o termo competência (instituto processual).
Há três critérios para a fixação da autoridade policial com atribuição para atuar no
caso:

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4.1 Territorial: o delegado com atribuição é aquele que atua na circunscrição
(delimitação territorial da atuação do delegado) da consumação do delito.
4.2 Material ou da especialidade.
4.3 Pessoal: Segundo Luiz Flávio Gomes, definido pela vítima do crime (critério
obsoleto)
A atuação da Polícia Federal nos crimes de repercussão interestadual ou
internacional: a Lei 10.446/2002 e a atuação conjunta entre as polícias, autorizada ou
determinada pelo Ministro da Justiça.
A violação destes critérios não implica em repercussão de nulidades na fase
processual; todavia pode ser impetrado Habeas Corpus para trancamento do Inquérito Policial
irregular. Vide art. 22, CPP.

5 VALOR PROBATÓRIO
A base do inquérito policial não basta para justificar uma condenação pois o a)
inquérito não produz prova; b) produz elementos indiciários; c) não é passível de
contraditório; d) os elementos lastreados devem ser analisados em conjunto com as provas
carreadas nos autos. Possibilidades no Inquérito: Vide art.2º, §2º da Lei 12.830/2013.
Para Aury, “o inquérito gera atos de investigação, com uma função
endoprocedimental, no sentido de que sua eficácia probatória é limitada, interna à fase.
Servem para fundamentar as decisões interlocutórias tomadas no seu curso e para
fundamentar a probabilidade do fumus comissis delicti que justificará o processo ou o não
processo” (2001, p. 190).
Obs.1: Excepcionalmente, alguns elementos produzidos no inquérito podem servir
como meio de prova na fase processual. Considerados irrepetíveis, são reaproveitados como o
meio de prova pericial. A imparcialidade dos peritos dá crédito às perícias para alcançarem,
oficialmente, o status de prova na fase processual. O contraditório e a ampla defesa serão
diferidos (contraditório diferido ou postergado, na fase processual, durante a instrução).
Obs. 2: Ainda na fase preliminar, se alguma prova está para perecer, as futuras partes
de um processo podem requerer ao juiz um incidente cautelar de produção antecipada de
prova, com trâmite no Poder Judiciário.

6 VÍCIOS
O Supremo Tribunal Federal consagrou que o inquérito policial viciado não contamina
o processo, pois o inquérito é um procedimento dispensável e suas irregularidades não se
irradiariam para a fase processual. Nesse sentido, o STJ também: HC 353.232, DJe
01/08/2016; RHC 65977, DJe 17/03/2016; Ag Rg no Resp 1406481, Dje 06/05/2015.
Contrária ao STF, a posição de Amilton Bueno de Carvalho (2010) e Aury Lopes Jr
(2016) que entende que inquérito policial viciado contamina o processo, tornando nulo,
quando valorado e utilizado na atividade de processamento criminal, construídas com base em
julgados diversos (STF, HC 106566, DJ 16/12/2014; STJ, HC 137349, DJ 05/04/2011; STJ
149250, DJ 07/06/2011).

7 INDICIAMENTO (art.2º, §6º da Lei 12.830/2013)


É ato privativo da autoridade policial (afastada a problemática requisição judiciária ou
ministerial pela HC 115015/2013); pode ser direto ou indireto, a depender da presença do
investigado; o investigado pode ser desindiciado, inclusive via Habeas Corpus; não podem
ser indiciadas sem autorização do Chefe da respectiva instituição as autoridades com
prerrogativa de função; concretiza-se por ato fundamentado e análise técnico-jurídica do fato.
O momento para indiciar, segundo Aury Lopes Junior, é logo após o interrogatório do
suspeito. Se houve prisão na fase do inquérito, o indiciamento deve ser logo após a lavratura
do auto de prisão.

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8 INCOMUNICABILIDADE DO INQUÉRITO POLICIAL
O CPP Brasileiro foi aprovado em 1941, importado do CPP Italiano de Rocco, com
nítida mentalidade inquisitória, conforme apregoa Jacinto Miranda Coutinho. Prevê o art. 21
que, durante o inquérito policial, o indiciado preso poderia ficar incomunicável em até 03
dias. O juiz, como fiscal, autorizaria a incomunicabilidade. Essa incomunicabilidade não
impedia que o advogado do preso tivesse acesso àquele.
Na CR/88, durante o Estado de Defesa ninguém ficará incomunicável. Assim, nos
períodos de normalidade não pode haver incomunicabilidade. O art. 21 não foi recepcionado
pela CR/88. Com a Lei 10.792/2003 instituiu-se o RDD (Regime Disciplinar Diferenciado) e
este não disciplinou a incomunicabilidade do preso. Os presos têm restrição às visitas, mas
estas existem e devem ser agendadas.
Posição contrária: Damásio de Jesus (2010) entende que o art. 21 foi recepcionado
pela CR/88.

9 NOTÍCIA-CRIME
Notícia crime é a comunicação da ocorrência da infração à autoridade que tenha
atribuição para atuar. Os destinatários da notícia crime são os delegados de polícia, em regra;
os membros do MP; e os juízes (os dois últimos devem requisitar, funcionalmente, ao
delegado a instauração do inquérito).

9.1 Classificação doutrinária da notícia crime:


9.1.1 Direta ou de cognição imediata:
Modalidade creditada a atuação da polícia (conhecimento direto) ou a provocação
informal (delação apócrifa), pode ocorrer também pela imprensa.
Notícia crime apócrifa é a vulgarmente chamada de denúncia anônima considerada
válida para a provocação.

9.1.2 Indireta ou de cognição mediata:


a) Requerimento:
A vítima ou seu representante legal noticiam o crime. Trata-se de uma súplica,
podendo ser denegada, cabendo a apresentação de recurso administrativo endereçado ao
Delegado Geral ou Delegado Chefe.
b) Requisição:
Prestada pelo MP ou juiz. Trata-se de um ofício requisitório, pelo qual o delegado
obriga-se, funcionalmente, a instaurar o inquérito.
c) Delação:
É a notícia crime feita por terceiro nos crimes de ação penal pública incondicionada;
d) Representação da vítima:
Se dá nos crimes de ação penal pública condicionada à representação, caracterizando-
se pela manifestação do desejo de que a infração penal seja investigada e/ou processada.
e) Requisição do Ministro da Justiça:
Apresentada nos crimes de ação penal pública condicionada à requisição.

Obs.1: Delatio Crime com força coercitiva é a prisão em flagrante delito, pois além de
comunicar o crime, apresenta o preso. É uma modalidade de notícia crime direta ou indireta,
depende de quem faz a prisão em flagrante (art. 301 do CPP).
Obs. 2: O emancipado não pode apresentar notícia-crime sem a devida assistência pois
a emancipação civil não produz efeitos penais.

10 ENCERRAMENTO E RELATÓRIO
O prazo para conclusão do Inquérito Policial como regra geral é de 10 dias para
indiciado preso e de 30 dias para indiciado solto (art. 10, CPP). No âmbito da Polícia Federal,

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estando o investigado preso é de 15 dias, prorrogáveis por igual período; e 30 dias, se solto
(Lei 5010/1996).
O início do inquérito policial se dá por uma Portaria (feita pela autoridade policial pós
VPI ou requisição ou requerimento que se transformam em tal) ou Auto de Prisão em
Flagrante Delito e encerra-se com a elaboração de um Relatório.
O relatório é uma síntese do movimento do inquérito policial: É descrição das
diligências realizadas; é síntese histórica, não é opinativo; deve o delegado capitular a
infração penal que investigou, sem juízo de valor. Finalizado, os autos são remetidos ao Poder
Judiciário ou às Centrais de Inquérito, vinculadas ao Ministério Público, para os
encaminhamentos devidos.
A economia administrativa e o envio direto ao Ministério Público: realidade
necessária.
Obs.1: A Lei nº 11.343/06 determinou que o delegado de polícia deve justificar no
relatório as razões que o levaram para a classificação delitiva. Luiz Flávio Gomes (2010) diz
que trata-se de uma mitigação ao caráter meramente descritivo.

QUESTÕES COMPLEMENTARES:
01. Quais são os prazos previstos em outras normas processuais penais para conclusão do
Inquérito Policial? (art. 10, §1º, da Lei 1.521/1951- crimes contra a economia popular; art. 51
da Lei 11.343/2006- Lei antidrogas; art. 20, caput, §1º, CPPM).
02. Sobre o arquivamento: quais são as hipóteses que autorizam o pedido? Faz coisa julgada
material? E se houver divergência entre o Magistrado e o MP? O que é desarquivamento?
Quais são as modalidades de arquivamento e em que consistem?
03. Em que consiste o Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO)? A quem cabe o controle
externo da atividade policial?

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