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LIVRO: A CRIATIVIDADE COMO DESTINO TRANSDISCIPLINARIDADE,

CULTURA E EDUCAÇÃO – TERESA VERGANI

CAPÍTULO 1 - PENSAMENTO RACIONAL

RAZÃO E COGNIÇÃO

As ciências aqui consideradas são as que procedem do estudo sistemático da natureza


ou do ser vivo, e as ciências lógico-matemáticas.

A compreensão do mundo envolve representações do real extremamente diversificadas:


ideológicas, simbólicas, poéticas, racionais, mágicas... Tem-se alicerçado em sistemas
filosóficos, religiosos, culturais ou simplesmente em determinadas atitudes de espírito que
traçam os diferentes itinerários da dinâmica cognitiva. Cada um exprime numa linguagem
própria, mais ou menos flexível, o que o seu entendimento vai iluminando: “nossa linguagem é
uma poeira de representações igualmente mutáveis”.
Os sistemas de referência movem-se uns em relação aos outros, de modo que os
atributos conceituais devem ser olhados em termos de mudança ou de variação constante:
No seu todo, o movimento do conhecimento científico confirma e cumpre, na sua
própria esfera, uma lei estrutural universal do espírito humano. Quanto mais se concentra em
si próprio, mais se torna evidente o fator pelo qual difere de todas as outras formas de
compreensão do mundo e a significação que as liga a todas.
As ciências da natureza ou da vida inscrevem os seus conhecimentos em quadros
abstratos e codificados, simultaneamente validados pela experiência e pelo pensamento racional.
Podemo-nos perguntar se a sua caracterização repousa:
 Nos conceitos que derivam da experiência?
 Nas leis que decorrem da sua visão do mundo?
 Ou no rigor do seu raciocínio, na impecabilidade da sua lógica?

Em geral, entende-se por:


 Regra empírica: constatada a propósito de uma dada categoria de fenômenos, mas da
qual se ignora a explicação em termos de leis;
 Lei empírica: uma consequência lógica dos princípios que é justificada pela
experiência;
 Princípio: uma proposição de caráter (supostamente) universal que rege a realidade
considerada.

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As ciências experimentais encadeiam diferentes etapas processuais:
Estado de experimentação
do qual emergem regras ou leis empíricas

estado de verificação
das regras ou das leis empíricas

elaboração das hipóteses


que permitem deduzir os princípios

asserção da universalidade dos princípios

A CRIATIVIDADE COMO DESTINO


No caso das ciências mais estritamente ligadas ao pensamento matemático, intervém
ainda a etapa da expressão dos princípios em estruturas formais.
Quando uma lei empírica não se apresenta relacionada com um princípio, o cientista
considera ser necessário rever esse princípio a fim de superar a sua parcialidade. Pode acontecer
que o substitua por outro mais completo ou que o reduza simplesmente à forma de lei. Estas
mutações permitem alcançar níveis de universalidade cada vez mais abrangentes.
A partir da tese de T. Kuhn (1962), tem-se vindo a preferir a designação de “paradigma”
à “princípio”. O termo paradigma designa um modelo ou uma referência básica de apoio.
Surge no vocabulário gramatical com o sentido de exemplo/eixo que permite gerar (modelar)
outras formas.
A importância concedida por T. Kuhn à mudança de paradigma aproxima-o de M.
Foucault (1996). Para o primeiro, uma ciência é, em cada época, um inventário de paradigmas e
de analogias marcadas por uma inspiração comum. Para o segundo, é um conjunto de obras
intelectuais aparentadas que constituem a epistéme do século considerado. Qualquer que seja a
designação, tanto o conceito organizador da epistéme das mentalidades, embora nada tenha em
comum com a “realidade” específica que preocupa cada tipo de ciência.
Podemos dizer que a principal característica das ciências é a sua coerência
universalizante. É esta coerência que constantemente é questionada, quer em termos de limites
do conhecimento que produz, quer em termos de eventuais contradições que surjam no seu seio.
É em nome da permanente atenção à coerência que a reflexão epistemológica se
debruça sobre o conhecimento científico. O conflito entre a ciência e a epistemologia, quando
existe, revela-se a partir de dois enfoques divergentes: enquanto a ciência privilegia o “real” que
estuda, a epistemologia dá prioridade à sociedade humana em relação à qual o conhecimento
científico se deve tornar significativo.

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Os grandes problemas que concernem o conhecimento científico prendem-se com as
relações que se estabelecem entre experiência e inteligibilidade, isto é, entre o Real e o Logos.
Deles derivam os grandes fossos que separam o empirismo do racionalismo, a dedução da
indução, a representatividade da objetividade. Convirá abordá-los mais de perto, pois nem
sempre os seus domínios se apresentam disjuntos ao logo da evolução histórica das teorias
cognitivas.

TEORIAS CLÁSSICAS DO CONHECIMENTO


Empirismo e racionalismo
O empirismo designa a tendência que enraíza o conhecimento diretamente na
experiência sensível. Ao contrário, o racionalismo alicerça os fundamentos do conhecimento no
próprio sujeito cognitivo e não no objeto da cognição. (FOTO LEIBNIZ)
Daqui nasce a oposição entre experiências sensível e análise intelectual, a primeira
centrada no mundo exterior e a segunda nas faculdades do observador. Este debate remonta ao
século XVII. Em torno dele teceu-se a polêmica entre Locke e Leibniz. Para Locke, “não existe
nada no intelecto que não passe antes pelos sentidos”: o indivíduo nasce desprovido de
quaisquer ideias, sendo os próprios objetos exteriores que as vão “imprimido” no espírito
humano à medida que o indivíduo experiência o mundo. Para Leibniz, a experiência só pode
suscitar – provocando e estimulando – as leis gerais do espírito, que são de natureza racional;
corrige assim a proposição de Locke, dizendo “não existe nada no intelecto que não passe antes
pelos sentidos, nem mesmo o próprio intelecto “.
O racionalismo de Leibniz distingue-se do de Descartes. Menos confinado aos corpos
físicos e à imagem de massas extensivas, Leibniz sustentava que a “última apreensão da
realidade” tenderia a ser “uma pura verdade inteligível” (FOTO DESCARTES)

TENDÊNCIA DEDUTIVA E TENDÊNCIA INDUTIVA


Se uma teoria do conhecimento não se reduz a uma lógica, também não se pode reduzir
a um método. Não sendo o método uma doutrina cognitiva, mas uma tendência processual,
basta fazer notar que a indução se liga ao empirismo e a dedução ao racionalismo.
A primeira explora os terrenos experimentais particulares buscando estabelecer leis
generalizáveis, a segunda aplica premissas consideradas gerais e “indiscutíveis” ao campo
concreto do “real que a elas se deve subordinar.
O triunfo das ciências matemáticas sobre as ciências físicas, em um dado momento
histórico, deveu-se justamente ao maior peso dado à abstração e à razão, em detrimento do valor
atribuído à qualquer do concreto e à experimentação.

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IDEALISMO
Também chamado realismo platônico, admitia a existência de um mundo das ideias, tão
ou mais real do que o mundo exterior. Inicialmente identificado com a doutrina de Platão, que
localizava a verdade no domínio das Formas ou das Idéias, supunha um Logos existente em si
mesmo e de natureza diferente da do real sensível.
As ideias, consideradas como realidades universais, dão ao sujeito plenos poderes para
“informar” o mundo sensível por meio de diferentes categorias de conhecimento. Assim, no
idealismo absoluto, o sujeito é o produtor do próprio mundo, no sentido em que detém (a priori)
as formas que cognitivamente o elaboram.
A contemplação do mundo das ideias chamava-se em grego “theoria”, esta palavra
deriva etimologicamente de “theorein” que significa “ver”.
O idealismo opõe-se ao realismo/materialismo. Mas aproxima-se do ineismo: posição
filosófica que considera o homem dotado de um conhecimento inato ( previamente impresso no
seu espírito) e que rejeita a idéia de que o indivíduo possa ser um produto do seu meio.

(Rodapé: ”Meio” Podem considerar se ineista, por exemplo, Chomsky ou Wilson: o primeiro
admite que o homem possui uma capacidade inata de utilizar a linguagem, o segundo que o homem
nasce com a capacidade de se organizar socialmente)

REALISMO
A ciência tem acreditado quase espontaneamente na sua capacidade de conhecer a
“realidade” dos fenômenos, de aprender “autenticamente” o mundo.
Hoje sabe-se incapaz de atingir a natureza íntima das coisas e que o caráter preditivo
das suas leis apenas salva, momentaneamente, as aparências da “verdade” que enuncia. Ao seu
alcance está apenas a constatação de uma impermanência de relações mútuas.
Estas relações induzem representações mais ou menos estruturadas que – através da
mediação da lógica e da matemática ( a ciência das relações abstratas por excelência) – facultam
imagens necessariamente distantes do real.
O realismo sustenta que a ciência nos ensina o que é realmente o mundo, cuja natureza
não depende nem das capacidades cognitivas do homem nem da ação por ele exercida quando
experimentada, observou ou mede. O choque do realismo com a problemática é inevitável. A
objetividade e a representatividade defrontam-se neste terreno, pois o conhecimento não se
pode confundir com “ um espelho da natureza” nem com uma coleção de representações mais
ou menos adequadas.

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B. d´Espagnat, numa tentativa de delimitar o lado cognitivo do real, introduziu a noção
de “real velado”. P. Duhem, por sua vez, lançou a idéia particular de “explicação”: consistia em
“figurar, pela imaginação, as coisas tais quais são”.
No realismo clássico não se evocava a “explicação”: a realidade era compreensível
“porque visível aos olhos da imaginação e da razão”
Aplicação às matemáticas, o realismo supõe a existência de entidades que os
matemáticos não inventam, só exploram. (Perguntar: A Matemática foi inventada ou
descoberta?)

NOMINALISMO
O nominalismo opõe-se ao idealismo e ao realismo. Na sua fase inicial, assumia
que os conceitos gerais não são mais do que palavras, sons que descrevem mais ou menos
arbitrariamente aquilo que se observa.
Para Poincaré, “ tudo o que o sábio cria num fato é a linguagem na qual ele o enuncia.
(...) o fato científico não é mais do que o fato bruto traduzindo numa linguagem cômoda”.
Analogamente, M. Le Roy afirma que “o sábio cria o fato”.
No limite – tal como em matemáticas – uma teoria não pode ser julgada nem verdadeira
nem falsa, porque as proposições que definem e postulam são simples convenções. E se às
“receitas” científicas se pode atribuir algum valor, este reside unicamente no êxito que as suas
regras de ação venham a obter na prática. (INTERVALO DE PÁGINAS)
A posição dos nominalistas está intimamente ligada à noção de objetividade científica e
à linguagem de Hume, Kant e Popper. As teorias mais recentes – que encaram o conhecimento
como “computação, como “conexão” e como “emergência da unidade” (enacção) – são
abordadas a propósito da evolução da cibernética e integrada na perspectiva holística.
Mas o breve enfoque feito já permitirá que o conhecimento dificilmente se poderá
considerar independente tanto da racionalidade como da experiência sensível

O MÉTODO E A REPRESENTAÇÃO
Tanto Descartes como Bacon consideravam o método como a base da construção
científica. Um método capaz de gerar uma ciência terá necessariamente de postular, à princípio
superior capaz de justificar o seus processos. Descartes identifica este princípio com a razão, a
face à qual tudo se pode absorver em “evidências”. Bacon acredita que bastava interrogar a
experiência: a experiência fala por si mesma e a indução permite uma regulação progressiva dos
processos que partem do particular para o geral. Nesta perspectiva a ciência colheria, na árvore
da experiência, os princípios filosóficos que presidem à sua própria metodologia.

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O método costuma caracterizar-se por quatro tempos distintos:
 O da exploração, que fornece as informações sobre as quais o pensamento irá
se debruçar;
 O da concepção, que consiste em confrontar as predições acumuladas com a
faculdade de imaginar hipóteses plausíveis;
 O da verificação, que irá decidir da aceitação ou da refutação da representação,
ela elaborada.

Estes quatro tempos concernem à construção de modelos, enquanto as quatro etapas


mencionadas a propósito das ciências experimentais visavam à obtenção de princípios gerais a
partir de regras empíricas.
Notemos que a configuração com o real intervém duas vezes, no princípio e no fim do
processo metodológico. A última confrontação com o real tem sido olhada com um “arquétipo”
do método científico. O peso didático atribuído à verificação foi confirmado pela insistência de
Popper sobre a necessidade da prova de “refutabilidade” com garantia da validade do
conhecimento.
O método permite compreender onde se situa a representação científica e as relações
que tece com o real. A ciência é uma representação da realidade; a representação é a linguagem
pela qual a ciência traduz o mundo. (INTERVALO DE PÁGINAS)
Se a representação se situa entre a exploração dos dados e a verificação dos modelos,
encontra-se ligada simultaneamente ao construtivista afirmam que a atividade do sujeito que
observa não necessita supor a existência de um mundo exterior independente: as operações da
inteligência racional constroem as representações do mundo nas quais traduzem os
conhecimentos.
O mito da objetividade é hoje seriamente interrogado,
Quer ao nível da epistemologia do sistema observado
(enfoque tradicional das ciências) que ao nível
da epistemologia do sistema observante
(enfoque adotado pelos construtivistas)

Identificar a sensação com a fonte do pensamento científico é por em causa a


possibilidade de distinguir objetividade e subjetividade, os esforços de conceitualização e a
própria linguagem da representação.
Sócrates reage contra essa tendência e antecipa as teses racionalistas ao definir a ciência
“a faculdade de julgar produtora de opinião verdadeira”. Platão reflete sobre a definição do que
se admite ser o “real” e diz que toda a concepção do conhecimento supõe um “compromisso
ontológico”.

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Para os empiristas, a experiência é uniforme na sua essência porque vem da sensação.
Para os idealistas, a experiência é uniforme porque vem da impermeável à razão: “O ser
pensante pensa um pensamento que conhece. Ele não pensa uma existência”.
A ruptura entre conhecimento racional e conhecimento sensível esboça-se desde o
momento em que o cientista se orienta para um determinado objeto. De saída, esse primeiro
movimento não é “objetivo”.
A primeira forma de objetividade nasce sob a forma de uma estimulação. Para o
psicólogo J. Baldwin, “é a estimulação, não a resposta, que permanece como fator de controle
na construção dos objetos dos sentidos”. Assumida como valor puro, a estimulação torna-se-ia
embriaguez.
Para Bachelard, a objetividade desmente o primeiro contrato como o objetivo, no
sentido em que esse produz uma satisfação intima, mas não uma evidência racional. O cientista
deve começar por criticar, inicialmente, tanto a sensação como o senso comum, a prática
habitual, a epistemologia e até a palavra (porque “o verbo, feito para cantar e seduzir, raramente
desposa o pensamento”).
Se o objetivo reconhecido e nomeado esconde o objetivo a reconhecer, o inacabamento
do conhecimento repousa na inesgotabildade das formas de interrogar/nomear o objeto. Emerge
aqui a problemática do nominalismo, nas suas relações com a obrigatoriedade e a linguagem.
O nominalismo relaciona-se com a noção de “invariante universal”: as leis invariantes
são relações entre “ fatos brutos”, enquanto que “fatos científicos” dependem de certas
convenções. A possibilidade de tradução cognitiva implica a existência de invariantes. Os
próprios objetos (para os quais a palavra “objeto” foi inventada” são justamente “objetos” – e
não aparências fugazes dependentes de grupos de sensações – porque se encontram cimentados
por um laço constante. É esse laço, e só ele, que constitui o objeto; ele é uma relação.
A partir da experiência que têm de um objeto, os recém-nascidos não são capazes de
computar sua invariância e imutabilidade, assim com a classe de equivalência a que pertence.
Os trabalhos de Piaget orientam-se justamente para a cognição entendida como atividade
estruturante do sujeito, a partir de registros de observações progressivamente experienciadas.
Para os autores que privilegiam mais radicalmente a atividade do sujeito, tudo o que
nasce da sensação é “qualidade puta” (irremediavelmente in-com-penetrável) e tudo o que é
objeto é “relação pura” O problemas da contingência e do determinismo se coloca aqui: “é
livremente que se é determinista. Toda a classificação supõe a intervenção ativa do
classificador.
Interrogarmos o valor objetivo da ciência não é perguntar se ela nos permite conhecer a
verdadeira natureza das coisas. É perguntar se a ciência nos faz conhecer relações entre as
coisas, o que nos faz pressentir a vastidão do campo epistemológico.
Diferentes sentidos da noção de objetividade costumam ser distinguidos atualmente.

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 Absoluta, tal como foi entendida por Descartes ou Bacon (nesta perspectiva, ao
tornar o conhecimento impessoal, a quantificação torna-o objetivo);
 disciplinar, definida no interior de cada ciência particular (“padrões de
comunidade”);
 dialética, que atribui um valor positivo à subjetividade na constituição do
objeto de estudo;
 processual, que se desvia da noção de “verdade” para se firmar no decorrer da
ação (“processualmente correto”).

Hoje, o foco epistemológico deslocou-se da produção do conhecimento para a


representação do conhecimento. O modelo da “observação” é substituído pelo modelo da
“confrontação”, dialética e performativo. Poder-se-á dizer que a “objetividade absoluta” é um
caso particular da “objetividade dialética”, e que, tanto o caráter interativo do conhecimento
como a verificação intersubjetiva fazem regressar a ontologia de conceitos-chave como símbolo,
autoria, estilo: “antes que haja a representação deve existir a presença”.
A significação humana da ciência está sendo interrogada em novos moldes. Fala-se em
significação “empírica”, “sistêmica” e “operativa”. Surge a “lógica intencional”, dependente de
contextos e referências múltiplas, como a expansão mais significativa da lógica standardizada.
A holoepistemologia debruça-se de uma maneira nova sobre a racionalidade, a
subjetividade/objetividade, a linguagem e o sentido. A propósito da “epistemologia do espanto”,
é expressiva a frase de Fritz Perls: “ uma rosa é uma rosa. Mas uma rosa que eu vi já não é mais
uma rosa, é uma rosa vista por mim”.
Antes de abordarmos aspectos epistemológicos mais gerais, convirá tratar da
singularidade das ciências matemáticas e da formalização lógica correspondente: uma
objetividade insustentável ou um delírio intolerável? Bem amada ou excomungada, a
racionalidade pura tende exponencialmente para este tormento tautológico e feliz.

A EPISTEMOLOGIA DE UMA SINGULARIDADE AS CIÊNCIAS LÓGICO-


MATEMÁTICAS
O pensamento/conhecimento lógico-matemático distingue-se de outros tipos de ciência
por ser um processo mental que não resulta da indução feita a partir da observação
experimental. (INTERVALO DE PÁGINAS) induziram, para serem olhados como estranhas
funções da função que os põe em relação – Bachelard assinala a ocorrência de um fenômeno
matemático na fusão espaço-tempo.
Esta união te tudo contra ela: a nossa imaginação, a nossa vida
sensorial, as nossas representações. Nós só vivemos o tempo
esquecendo o espaço, nos só compreendemos o espaço ao

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surpreendermos o curso do tempo. Mas o tempo-espaço tem por si a
sai álgebra. É uma relação total e pura. É, pois, fenômeno matemático
essencial. A relatividade só pode conceber o seu desenvolvimento na
atmosfera de uma matemática aperfeiçoada.

Nem realista nem idealista, a matemática coloca o problema da co-essencialidade e da


quantidade, no qual se inscrevem a temporalidade e a espacialidade. Para Descartes, a matéria
definia-se pelo espaço (extensão): sendo a extensão inerente à matéria, o modelo fundamental
da física mecanicista é quantitativo. Para São Tomás de Aquino, ao contrário: sugere que o
número constitui base substancial do mundo e só ele deve ser considerado como quantidade
pura. O caráter basco do número harmoniza-se com a doutrina pitagórica na qual o número era
símbolo dos princípios essenciais das coisas.
Em sânscrito, a palavra mâtrâ é o equivalente etimológico de matéria, ekshêtra é o
campo (espacial) onde se manifesta a matéria (corporal), tomada como símbolo da criação
universal. Em hebeu o termo equivalente a middah, relacionado com o simbolismo gerométrico
do centro e as direções do espaço (os middoth, associados aos atributos criativos divinos). Em
árabe, a palavra hindesah designa a medida, mas também o conjunto das construções
geométricas e arquitetônicas. (INTERVALO DE PÁGINAS) é uma “simbolização”, mas um
dispositivo estruturado de elementos ideogramáticos.
A escrita sintemática reúne arbitrariamente um significado e um significante através de
um sinal convencional ao qual atribui um sentido constante e unívoco, previamente
determinado. Quando muito, poder-ser-à falar de simbolismo sintemático.

O mundo formal das abstrações lógico-matemáticas não comporta


Desmentidos de ordem física nem ontológica porque,
Sendo puramente tautológico, funda-se num princípio único:
O “ mesmo” (tautos) do qual se postula idealmente
a igualdade absoluta com o “um” em todas as
relações consideradas racionalmente coerentes.

A obsessão da lógica da identidade pode criar um universo de regras maquinais, alheias


ao questionamento do real, às inquietações sociais, à interpretação das diferentes manifestações
do mundo. No limite endeusará uma noção de “absoluto” patológica, sem significação concreta
ou existencial.
No caso das ciências lógico-matemáticas, o construtivismo atinge o seu expoente mais
radicalmente absoluto. Se os construtivistas alicerçaram o conhecimento na atividade mental e
na linguagem simbólica, ainda se referem ao “mundo real” (quanto mais não seja para lhe

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negarem uma pré-existência autônoma”: o que chamamos mundo é um produto de algumas
mentes cujos processos simbólicos constroem o mundo. Ao passo que a abstração que
caracteriza os processos e a expressão lógico matemáticos pode tornar não só diferente, mas
vazia, a confrontação com o “mundo” exterior: gravita num universo próprio e, ao fechar os
“símbolos” sobre as leis que o regem e as linguagens que as exprimem, cria também a seleção
dos habitantes que pisam o seu solo.
(Rodapé: Sintema deriva do grego suntema (“ligar conjuntamente”). Os “sistemas” lógico-
matemáticos inspiram-se dois alfabetos gregos e latinos, dos caracteres itálicos e góticos, da
mumeração árabe, de sistemas de escrita hebraicos, japoneses e mesmo assírios. Reúnem-se mediante
dispositivos lineares codificados)

QUE LINGUAGEM LÓGICA?


Limito-me, aqui, a referir a posição de L. Wittgenstein relativamente à estrutura lógica
das proposições e a à natureza da inferência lógica na teoria do conhecimento.
Se a função da linguagem é ser significativa, só se realiza na medida em que nos
aproximamos das condições requeridas para o seu uso logicamente perfeito.
O reconhecimento de uma identidade não se pode apoiar confusamente em
indiscerníveis que são tomados como princípios lógicos necessários. Dizer, por exemplo, que “x
é um objeto” não significa nada. Porque “x é idêntico a y se cada propriedade de x for uma
propriedade de y”. Se isto não se verificar, não estamos tratando de uma identidade, mas de uma
característica acidental do mundo e as características acidentais do mundo não devem,
evidentemente, ser admitidas na estrutura lógica.
O mundo é a totalidade dos fatos. “O mundo é tudo o que acontece”. E os fatos não
podem ser estritamente definidos, só explicados a partir do que entendemos ser a verdade ou a
falsidade de uma proposição. A limitação da lógica às coisas do interior do mundo não permite
explicar o mundo como um todos. “Só poderíamos nos pronunciar sobre as coisas do mundo se
nos encontrássemos fora dele, isto é, se o mundo cessasse de ser para nós o mundo inteiro. A
lógica enche o mundo. Os limites do mundo são os seus limites”. A proposição produz-se
enquanto fato. É o fato que torna a proposição verdadeira ou falsa, é pois o fato que deve ser
explicado.
A parte psicológica da significação não concerne à lógica. No entanto, “um símbolo não
significa o que é simbolizado só em virtude de uma relação lógica, mas igualmente em virtude
de uma relação psicológica, de uma intenção, de uma associação ou ainda de outras coisas”. A
significação interessas-se pelo problema da crença em termos de esquema lógico.

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O que é logicamente fundamental no fato de crer, de desejar etc.; é a relação entre uma
proposição considerada como um fato, e o fato que a torna verdadeira ou falsa. (...) A crença no laço
causal é uma superstição.

Assim, não será correto ler a R b como “ a encontra-se na relação R com b”; deve-se
ler “ o fato de que a se encontra numa certa relação R com b”.
Entre a linguagem e o mundo existe uma relação interna de representação. Para
Wittgenstein, a expressão linguística compara-se a uma projeção geométrica; a figura
permanece invariante qualquer que seja a forma de projetá-la as diferentes linguagens
correspondem às diferentes projeções/representações).
Contrariamente ao hábito de considerarmos as matemáticas perfeitamente
isoladas/alheias na sua torre de marfim, damo-nos conta de quão profundamente a lógica que
tece a sua expressão formal se liga à filosofia (entendida como uma atividade de elucidação), à
crença, à linguagem humana e ao mundo em geral.
De fato, por mais abstrato que seja o domínio onde se aplica a nossa atenção cognitiva,
“permanecemos possuídos pelas ideias e crenças que nos possuem”.
Ao traçar a distinção entre aquilo que pode ser dito e aquilo que só pode ser mostrado
(porque se manifesta a si mesmo), Wittgenstein nos permite entender os outros – povos,
culturas, períodos históricos – para além das palavras que pronunciam.
A significação/verdade invisível atinge-se para além dos enunciados relativistas:
esconde-se na essência daquilo que, possuído em comum, é partilhável. “Não pense, observe!”
será o caminho mais saudável para atingir a compreensão da significação.

(Rodapé: Quando uma pessoa acredita numa proposição, não é a pessoa (enquanto sujeito
metafísico) que explica o que acontece. É o fato de a proposição ser considerada verdadeira ou falsa
que precisa ser explicado. Sobre fato, crença, verdade e conhecimento. [a crença estática consiste
numa idéia ou imagem que contém um sentimento positivo]

AXIOMATIZAÇÃO, COERÊNCIA FECUNDA E LIBERDADE ESTÉTICA.


Não creio que seja particularmente formativo, no contexto dos objetivos desta parte
curricular, entrar em detalhes sobre a cumplicidade histórica entre lógica e matemáticas. A
possibilidade de reduzir as matemáticas à lógica foi longamente debatida, nomeadamente por
Russel e Whitehead. Importa talvez saber que os trabalhos de Boole forjaram um simbolismo
capaz de reger (de forma mais segura e completa) as operações da lógica e esclareceram a
estreita relação que existe entre a lógica e a teoria dos conjuntos. Boole fê-lo introduzindo
dois conjuntos de referência essenciais.

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 O conjunto vazio (representado por 0)
 O conjunto universal (representado pelo 1 e que funciona à maneira de
“universo de discurso” no qual se situam todos os raciocínios lógicos possíveis
no domínio do universo considerado).
Mais tade Bourbaki viria a fundamentar as matemáticas na teoria dos conjuntos
deixando a lógica para segundo plano. Os matemáticos que mais recente e significativamente
intervieram neste debate são mencionados em nota.
Outrora, as matemáticas definiam um axioma com uma proposição que aparecia como
uma evidência. Hoje, um axioma é uma proposição que pertence à linguagem formal e que só
se considera verdadeira por hipótese. O estatuto lógico dos postulados
(INTERVALOS DE PÁGINAS)

Olhadas convenientemente, as matemáticas não possuem


Apenas a verdade, mas também a beleza suprema;
Uma beleza fria e austera como a da escultura.
que não busca de modo nenhum seduzir as nossas franquezas;
sem os encantos magníficos e enganadores da pintura
ou da música, e, no entanto, sublimemente pura e capaz
de uma perfeição superior que só as grandes obras de arte sabem
oferecer. A verdadeira bem-aventurança, a exaltação.
o sentido de ser mais do que humano, tudo o que é a
pedra de toque da mais alta essência se encontra
nas matemáticas tão seguramente como na poesia.

A axiomatização garante a consistência de um sistema, mas não amputa a sua liberdade.


A coerência de um sistema não é uma propriedade intríseca do sistema: reside na forma de
interpretar os símbolos e na tomada de decisões relativas à correção/verdade ou incorreção/erro
das provas que constrói e do significado das proposições que formula.

O INTUICIONISMO E O SOCIOLOGISMO MATEMÁTICOS


A história das matemáticas testemunhou a passagem da geometria empírica à geometria
dedutiva, das formas euclidianas às formas axiomáticas, das axiomatizações clássicas às
axiomatizações simbólicas. Em cada etapa parece ter-se perdido em intuição o que se ganhou
em lógica. Os formalistas não aceitam flexivelmente o “princípio da tolerância sintática”: a
teoria da demonstração opõe-se à

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(Rodapé: As matemáticas, que começaram por ser consideradas por Platão como”projeções
do mundo divino da luz perfeita”, caracterizam-se por uma psicologia marcada pelo rigor lógico, a
distanciação simbólica de toda a espécie de realidade concreta (“abstrair” significa precisamente
arrancar, desenraizar), a proximidade com todas as outras ciências racionais/naturais
(particularmente com a física atual), a beleza (harmonia), a interpenetração das atividades cerebrais e
sociais. Sobre as sinestesias matemáticas/arte (forma, cor, som) (INTERVALO DE PÁGINAS)

Desenvolvimentos demonstrativos. Atribuem-se, pois, o direito de não se submeterem a


todos os princípios lógicos, criticando certos axiomas e restringindo opções. Libertam-se em
particular do “princípio do terceiro excluído”, cuja aceitação equivaleria a ver na matemática
unicamente um sistema operativo de leis/elementos não contraditórios:
O intuicionismo recusa assimilar as matemáticas à lógica,
isto é, concebê-las à imagem de um edifício simbólico
axiomatizado, no qual a existência matemática seria
identificada a uma não contradição. Se estima que a
não contradição permanece uma condição necessária
à existência matemática, não a julga uma condição
suficiente e indissociável as sua construção.

A este propósito estabeleceram uma distinção entre a falsidade (que exprime a não
existência) e a absurdidade (que manifesta a impossibilidade de existência).
O intuicionismo situa-se no quadro do realismo, mas de um modo surpreendente:
“existe uma realidade matemática acessível à intuição, mas não é imanente (isto é, definida uma
vez por todas e existente em si mesmo); ao contrário, ela é constituída pouco a pouco pelos
matemáticos. (...) A realidade primeira é o universo e este dá nascimento a seres, alguns dos
quais são matemáticos, cuja obra faz aumentar o conteúdo intelectual do universo.
O intuicionismo restaurou a noção de relação e pôs em evidência o reconhecimento
holístico da sua missão universal. Se “a maravilha matemática conduz a outra maravilha, a do
cérebro”, os seus conteúdos emergem do mundo sensorial. Mas as construções matemáticas não
podem ser consideradas empíricas, embora o seu sucesso prático possa ser avaliado em
frequentes aplicações.
Para Bower, o homem é essencialmente um ser espiritual que embora dotado de alma ou
consciência, se encontra aprisionado num corpo alienado e numa sociedade em que a ciência
serve a indústria ou é praticada de modo absurdo para seu próprio interesse.
Para que a comunicação entre as pessoas se possa estabelecer com autenticidade, há que
reagir contra as deficiências da linguagem viciada pelo pensamento causal. A exatidão
matemática clássica é incapaz de produzir significação verdadeira. Há que pressupor uma

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”harmonia do querer”: as entidades matemáticas devem basear-se na “livre escolha” e a
aquisição de novos conceitos deve ser legitmitada pelo ato “intuicionista.
O intuicionismo de Bower deu uma nova dimensão à história e à filosofia das
matemáticas: “Sua filosofia do intuicionismo é a fonte de inspiração de novos
desenvolvimentos, assim como seus novos conceitos (o set de Bower e a sequência da escolha)
podem dar origem a uma filosofia que conceda lugar central à mente individual, criando e
sustentando uma realidade matemática em desenvolvimento.
O sociologismo matemático é uma corrente recente que, embora

(Rodapé: A matemática sustenta que toda a extensão do domínio objetivo pode ser diretamente
referido ao seu esquema original fundamental, e formado segundo o seu modelo. Para Leibniz, a
esfera do conhecimento intuitivo separava-se da esfera do conhecimento simbólico, no sentido em que
as ideias diferem dos sinais que a representam. Com Kant a intuição ganhou legitimidade. A linha
divisória não passa entre o pensamento intuitivo e o pensamento simbólico, mas entre o conceito
discursivo e “ a intuição pura”. As matemáticas modernas seguiram mais a linha de Leibniz do que a
de Kant, Boole acetua a validade do processo analítico, que não depende da interpretação dos símbolos
que usa, mas a combinação dos mesmo.
Godel levanta objeções a todas as formas de platonismo, quer ontológicas quer
epistomológicas. Se as entidades matemáticas realmente existem, não são conhecíveis (por exemplo, os
números são independentes de todas as cadeias casuais, situam-se fora do espaço-tempo são in-
escrutáveis) Assim, os axiomas ou não são verdadeiros ou não são conhecíveis. Por outras palavras: é
necessário que aquilo que é conhecido cause o conhecimento. Propõe uma teoria causal do
conhecimento onde a intuição da verdade repousa sobre a intuição dos objetos)

OCIDENTE/ORIENTE: O NOVO ENCONTRO CIÊNCIA/TRADIÇÃO


A ciência ocidental encontra-se hoje confrontada com a abertura categoria dos possíveis
e dos imagináveis. Terminou a luta lógica estatística contra o acontecível e procura-se o juízo
certo sobre um estado de coisas objetivamente incerto. O real e o imaginário entretecem-se
mutuamente e o relativismo e epistemológico nega a validade do fosso que tem separado a
racionalidade das outras formas do saber. As fronteiras entre objeto/ciência e sujeito/símbolo
apagaram-se para dar origem a uma filosofia da compreensão (no sentido de “entendimento” e
de “inclusão”) que abrange a ciências, letras e artes. Autores como E. Gellner sustentam
legitimidade da crença. A aparente descontinuidade da natureza parece desaguar na afirmação
de uma continuidade na qual o pluralismo se unifica.
Se até hoje o conhecimento procurava manter-se imperturbavelmente ao abrigo de
situações suscetíveis de despertar reações emotivas, atualmente a ação humana é validada por
aquilo que sabemos e por aquilo que sentimos. A velha hostilidade austística que endurecida o

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isolamento entre ciências(s) e vida deixou de ter sentido sóciocognitivo ou sócio-cultural.
Admite-se a contigência da história, lugar de vontades humanas e, mais profundamente, de
desejos humanos. O imaginário social acompanha não só a evolução de ordem tecnológica,
inclui uma “escatologia” do destino humano. E a modularidade do pensamento não se opõe à
plasticidade das diferenças culturais.
Devemos grande parte da revolução científica contemporânea à obra dos físicos. São
eles ainda que, transcendendo os seus domínios específicos de pesquisa, tecem as grandes
pontes interculturais do saber nos nossos dias. Dir-se-ia que o fato de lidarem com estranhas
surpresas do possível a escalas astrais e ínfimas, lhes deu capacidade de religarem o homem (no
sentido religioso do termo) a uma consciência cósmica superior. E esse “olhar que faz o mundo”
leva-os a redescobrir as grandes tradições do conhecimento oriental: tornam-se poetas, sábios e
profetas. Percebem que uma realidade despida de significado é uma inconsistência; e que a co-
realização dinâmica da significação de tudo que existe poderia ser chamada de “totalidade da
realidade”.
Para H. Weyl, “ o mundo não acontece, ele simplesmente existe”, tal como os budistas o
enuciam. Os campos de energia são “entrelaçados” e “nodosos” e lembram a dança cósmica da
divindade hindu Shiva. A fluidez transformante dos fenômenos naturais é reconhecida como
dinâmica fundamental da grande fornalha ying-yang: a unicidade íntima e interativa entre
natureza, acontecimentos e vidas, traduz o pensamento taoista.
Não é de admirar que Albert Einstein tenha realizado um longo contrato com o poeta e
filósofo indiano R. Tagore, ou que Francisco Varela tenha mantido no final do século XX um
diálogo sobre a ciência com o (FOTO: ALBERT EINSTEIN)

(Rodapé:Apesar dos construtivistas não terem simpatia pela “descoberta” os cientistas usam
este termo para designar um avanço teórico significativo. Lembremos a “descoberta de que os
acontecimentos” começam no futuro para mais cedo ou mais tarde, se tornarem presente e finalmente
passado”: ou de que os “buracos negros” não são negros, mais irradiam calor, ou que entidades
fugazes como os instantos têm propriedade de onda embora mantenham uma identidade matemática
discreta. Este tipo de acontecimento não pode deixar de ter um forte impacto no nível da consciência
pessoal dos cientistas.) (INTERVALO DE PÁGINAS)

Sujeita a controvérsia, na medida em que o homem é indissociável do mundo natural. Já


a distância que separa as ciências formais (que constroem o seu próprio domínio de existência)
das ciências ditas “com conteúdo”, parece dificilmente contestável.

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A hermenêutica comporta três níveis ou graus de profundidade crescente:
 Epistemológico - reflexão sobre os métodos visando obter num fundamento
justificativo dos mesmo (incide nos princípios da metodologia da
decodificação);
 Filosófico – debruça-se sobre a reflexão epistemológica e procura a sua
significação a partir de determinados conceitos (tais como a existência, a razão,
a consciência).

Em sentido lato, epistemologia “é uma disciplina que visa elucidar a natureza e os


modos do processo cognitivo esclarecendo os princípios que orientam as práticas cognitivas
efetivas, encaradas na sua diversidade”. Em sentido restrito, a epistemologia “identifica-se com
uma prática cognitiva particular, prática científica”.
As disciplinas reconhecidas como científicas recorrem a métodos que se alicerçam na
idéia geral de hermenêutica. Nessa perspectiva, a hermenêutica faz parte da reflexão
epistemológica, na medida em que a epistemologia é uma hermenêutica do segundo grau,
A epistemologia se assenta em duas linhas de força primordiais. A primeira diz respeito
ao sentido da ciência enquanto prática disciplinar: toda ciência possui um significado que
necessita ser explicitado por meio de um processo de decodificação. A epistemologia não pode
se limitar ao “grau zero” da linguagem descritiva das ciências. Preocupa-se com o “porque” dos
métodos a fim de atingir

(Rodapé: Hermes era o deus da arte de interpretar (hermenêutica))

A ação é aqui entendida como iniciativa potencialmente transformadora. A


originalidade profunda da ação reside justamente na sua capacidade de inaugurar um novo curso
de coisas. No ato concreto, o “termo ação específica e instaura uma relação com as
objetividades sobre as quais a iniciativa vai incidir a fim de elaborar a sua própria objetivação”.
Nas metodologias da ação, a estratégia consiste em “refazer, em sentido inverso, o
processo de objetivação”. Nas ciências econômicas, por exemplo, parte-se do determinismo
econômico ara se chegar às vontades nacionais que conjecturam decisões e ao jogo de intenções
que lhes é subjacente. O que permite elaborar hipóteses e fazer emergir o sentido do “objeto
enigmático” inicial (espécie de “sinal errático”, do qual só conhecemos os traços que imprime
na sociedade). Esse encadeamento só pode ser apreendido por meio de uma narrativa cuja
estrutura torna conexos conjuntos de situações/acontecimentos ligados entre si pela intervenção
dos atores.

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O mesmo processo é seguido pela história, por exemplo. A narrativa esclarece ao
facultar uma reconstituição plausível da trajetória que une determinadas situações e
determinadas iniciativas. Ao efetivarmos uma ação, experimentamos “o estranho poder que a
ação possui de projetar no real aquilo que, inicialmente, nele não se encontrava”. Os processos
da metodologia de ação são indutores: apresentam-nos mais uma espécie de ficção sobre o agir
humano do que uma esquematização da ação concreta. Para Ladrière, “a eficácia da ação
consiste na transposição do real ao irreal e o seu poder é o da imaginação”.
O que não significa que as ciências sociais ou humanas se percam no domínio da
imaginação pura: mas que – por meio dos testemunhos que chegam até elas – se tornam autoras
da narrativa cujos atores são fictícios, mas reais. Enquanto que estas ciências permanecem à
escuta dos fenômenos para os re-criarem, as ciências formais são criadoras das próprias
situações que consideram: a autoria formal não se prende ao condicionalismo imposto.

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