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ORAÇÃO CENTRANTE (CONTEMPLATIVE OUTREACH)

A BASE TEOLÓGICA DA ORAÇÃO CENTRANTE

De onde vem a Oração Centralizadora? Sua fonte é a Trindade que habita dentro de nós. Está enraizada
na vida de Deus dentro de nós. Não creio que reflitamos o bastante sobre essa verdade. Com o batismo,
vem toda a presença eterna da Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. Como seres humanos,
participamos da vida divina apenas por estarmos vivos, mas muito mais pela graça. Participamos do
movimento entre o Pai, que se entrega totalmente ao Filho, e o Filho, que se dá totalmente ao Pai. Eles
se esvaziam um no outro. O Espírito de amor os reconstitui, por assim dizer, para que possam continuar
a se entregar para sempre. Esta corrente de amor divino, constantemente renovada na vida da
Trindade, é infundida em nós pela graça. Sabemos isso por nosso desejo de Deus. Por mais golpeado
que seja pelas forças da vida cotidiana, esse desejo manifesta-se no esforço que fazemos para levar uma
vida de oração e uma vida de ação que seja profundamente influenciada pela oração. A vida trinitária
manifesta-se em nós primordialmente por nossa ânsia de Deus. A Oração Centralizadora procede da
vida de Deus movendo-se dentro de nós. Por isso é trinitária em sua origem. Seu foco é cristológico.
Estabelece-nos em um relacionamento profundo com Cristo. Iniciado na Lectio Divina (a leitura piedosa
das Escrituras) e outras devoções e, especialmente, nos sacramentos, nosso realcionamento com Cristo
move-se a novas profundezas e a novos níveis de intimidade, à medida que nos fortalecemos na prática
da oração Centralizadora.Por último, a Oração Centralizadora é eclesial em seus efeitos; isto é, une-nos
com todos os outros no Corpo Místico de Cristo e, na verdade, com toda a família humana. De fato, não
existe essa coisa de oração particular. Não podemos rezar nesse nível profundo sem incluir todos da
família humana, especialmente os muito necessitados. Também sentimos a necessidade de expressar
esse sentimento de ligação e unidade com os outros, em alguma forma de comunidade. Vamos
examinar cada um desses pontos em detalhe. A Oração Centralizadora origina-se de um relacionamento
existencial com Cristo como nosso caminho para as profundezas dos relacionamentos trinitários.
Quando participamos da Oração Centralizadora, ligamo-nos à vida divina dentro de nós. A palavra
sagrada é um gesto de consentimento à presença e à ação divinas dentro de nós. É como se nossa
vontade espiritual ligasse a tomada e a corrente (a vida divina) que está presente em nosso organismo,
por assim dizer, fosse adiante e a energia divina fluísse. Ela já está lá esperando ser ativada. Então,
enquanto comparecemos à presença da Trindade dentro de nós, nossa oração se manifesta em
relacionamento com Cristo. Sabemos que a Lectio Divina e nossas outras práticas piedosas nos
preparam para nos relacionarmos com Cristo. Passamos por certo processo evolucionário de
convivência, afabilidade e amizade. Esta última subentende um compromisso com o relacionamento.
Todos conhecem muito bem a experiência nas quais nos relacionamos com um conhecido, cultivamos
sua amizade, passamos a conhecê-lo melhor e, aos poucos, chegamos à posição de compromisso com
ele. O compromisso é o que caracteriza a amizade. Podemos nos afastar de conhecidos casuais, mas não
da amizade depois de demonstrada, sem partir o coração de alguém, até o nosso. A amizade com Cristo
chega ao compromisso quando decidimos iniciar uma vida de oração e um programa de vida cotidiana,
talhados para nos fazer chegar mais perto de Cristo e nos aprofundar na vida trinitária de amor.
Pe. Thomas Keating, OCSO Este é um ponto importante. Quando rezamos, não estamos apenas diante
de Cristo. O movimento para dentro da Morada Interior Divina sugere que nosso relacionamento com
Cristo é interior, especialmente por meio de seu Espírito Santo, que habita em nós e derrama o amor de
Deus em nosso coração. Identificamo-nos realmente com o mistério pascal. Sem passar toda a vez por
uma reflexão teológica, torna-se uma espécie de contexto para nossa oração, de modo que, quando nos
sentamos na cadeira ou no chão, relacionamo-nos com o mistério da paixão, morte e ressurreição de
Cristo, não como algo fora de nós, mas como algo dentro de nós. É por isso que logo experimentamos
uma identificação com Cristo no Getsêmani e, por fim, nossa identificação com Cristo na cruz. Em nossa
perspectiva cristã, Jesus assumiu todas as consequências de nossos pecados e nossa pecaminosidade,
em outras palavras, o falso eu com o acúmulo de mágoas que trazemos conosco desde a primeira
infância e nossos jeitos imaturos de tentar sobreviver. Enquanto estamos ali, talvez recebamos a
consolação do Espírito. Mas depois de vários anos desta oração, sempre nos achamos no deserto,
porque esse é o caminho da união divina. Não há outro meio de sarar das feridas de nossa primeira
infância, a não ser pela cruz. A cruz que Deus nos convida a aceitar é, primordialmente, a dor que
trazemos conosco desde a mais tenra idade. Nossas feridas, nossas limitações, nossos defeitos de
personalidade, todos os danos que as pessoas nos causaram desde o início da vida até agora e nossa
experiência pessoal da dor da condição humana como a experimentamos individualmente - essa é nossa
verdadeira cruz! É isso que Cristo nos pede para aceitar e deixá-lo compartilhar. Na verdade, em sua
paixão, ele já experimentou nossa dor e a fez sua. Em outras palavras, simplesmente entramos em algo
que já aconteceu, a saber, nossa união com Cristo e tudo o que isso significa, o fato de tomar sobre si
toda a nossa dor, nossa ansiedade, nossos temores, o ódio de nós mesmos e nosso desânimo. Tudo está
incluído implicitamente em seu grito na cruz: "Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?" Essa é a
grande pergunta. Eis o filho de Deus, o amado que devemos ouvir - Cristo, que baseou toda a sua missão
e todo o seu ministério em seu relacionamento com o Pai - e tudo desapareceu. Seus discípulos fugiram.
Sua mensagem foi esfrangalhada. Ele foi condenado pelas autoridades religiosas e romanas.
Humanamente falando, nada restou de sua mensagem. Contudo, este é o momento de nossa redenção.
Por que? Porque seu grito na cruz é nosso grito de uma desesperada alienação de Deus, erguido no dele
e transformado em ressurreição. Enquanto estamos ali, aguentamos até o fim e deixamos a dor brotar,
percebemos que Cristo está sofrendo em nós e nos redimindo. A Oração Centralizadora converge para o
centro do mistério cristão, que é a paixão, morte e ressurreição de Cristo. Toda a vez que aceitamos
uma nova luz em nossa fraqueza e impotência, estamos em um lugar mais íntimo com Cristo. Ter o lugar
mais baixo é estar no lugar mais alto na visão de Deus. Não sei dizer por que é assim. Talvez seja apenas
o jeito que Deus é. Em sua paixão, Cristo é o maior mestre de quem Deus é. Humildade pura. Altruísmo
total. Serviço absoluto. Amor incondicional. O significado essencial da Encarnação é que este amor é
totalmente disponível. A Oração Centralizadora é simplesmente um método humilde de tentar ter
acesso a essa infinita bondade, renunciando a nós mesmos. O consentimento à presença e ação de Deus
nada mais é que submissão e confiança.Note como cada uma das virtudes teologais corresponde a cada
um dos contextos sagrados. Pomos nossa fé na Morada Interior Divina da Trindade. Pomos nossa
esperança na paixão, morte e ressurreição de Cristo e confiamos completamente nossa vida a ele.
Suportanto o despertar gradual do autoconhecimento, pela paciência, expressamos nosso amor de Deus
em grau eminente.Há outro aspecto do contexto no qual rezamos. Quando estamos aos pés da cruz,
identificando-nos com o homem na cruz que suportou todas as consequências de nossa alienação
pessoal de Deus, somos curados de nossas feridas emocionais e das mágoas que possamos ter infligido
em nossa consciência. Por intermédio de momentos de ressurreição interior, pode surgir um avanço
para a ressurreição permanente, quando o falso eu finalmente desaparece, dando-nos a liberdade
habitual dos filhos de Deus. A união com os outros acontece quando o amor do Espírito derrama-se em
nosso coração. Sentimos que fazemos parte de nossa comunidade, da família humana, do cosmo.
Sentimo-nos em casa no universo. Sentimos que nossa oração não é apenas uma viagem particular, mas
tem efeito significativo no mundo. Derramamos no mundo o amor que o Espírito nos dá na oração.
Pleiteamos a misericórdia divina para aquelas partes do mundo que estão sendo arrasadas pela guerra e
pela violência. Compartilhamos os sentimentos de Deus, que sofre onde quer que haja sofrimento. O
que é tão terrível sobre guerra e violência é Deus estar sendo arrasado. Deus identifica-se tanto com
nossa vida e com nossa sorte que Jesus pôde dizer: "o que fizestes a cada um desses meus irmãos mais
pequeninos, a mim mesmo o fizestes". Essa violência tem de ser reparada. É um desequilíbrio que
precisa do tipo de amor que nasce no silêncio interior à medida que renunciamos a nós mesmos e
deixamos que Deus seja Deus em nós. O grande privilégio dos contemplativos é sermos convidados
primeiro a partilhar de nossa redenção, aceitando nossa alienação pessoal de Deus e suas
consequências em toda a nossa vida e, então, a nos identificarmos com a compaixão divina na cura do
mundo por meio dos gemidos do Espírito dentro de nós. Os "gemidos inefáveis" do Espírito, como Paulo
os chama, são nossos desejos de trazer a paz e o conhecimento do amor de Deus ao mundo. O amor
que é a fonte desses desejos está de fato, sendo projetado no mundo e está, secretamente, curando
suas feridas. Não conheceremos os resultados de nossa participação na obra redentora de Cristo nesta
vida. Uma coisa é certa: unindo-nos ao Crucificado, unimo-nos a todas as outras pessoas, passadas
presentes e futuras. Na Oração Centralizadora, então, a humanidade de Cristo não é ignorada, como
alegam alguns críticos, mas sim afirmada da maneira mais positiva e profunda possível. A Oração
Centralizadora pressupõe uma fé viva que a humanidade sagrada de Jesus contém a plenitude do Ente
Supremo. Cristo nos conduz ao Pai, mas ao Pai como Ele o conhece. Em virtude da morte sacrificial e da
ressurreição de Cristo, pela graça, participamos da divindade de Cristo. Somos convidados a cultuar o
Pai em espírito e verdade, o que é seguir Cristo ao seio do Pai, onde, como Eterno Filho de Deus, ele se
entrega à fonte divina da qual ele emerge - e à qual retorna - eternamente, no amor do Espírito Santo.
(trecho extraído do livro "Intimidade com Deus", Pe. Thomas Keating, OCSO, ed. Paulus, 1999. - cap. 3, p
38ss:)
"A ORAÇÃO E A TRANSFORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA"
D. Basil Pennington

Jesus certamente foi um homem de oração. O Evangelho nos conta que ele ficou quarenta dias
no deserto, rezando e se preparando para o seu ministério. Durante todo o período de seus
ensinamentos, simplesmente passava noites inteiras rezando. Sabemos que os discípulos lhe
pediram para ensiná-los a rezar. Contudo, encontramos na Bíblia muito poucas lições a esse
respeito: o que lá vemos é a oração que todos conhecemos bem, O Pai Nosso, e algumas
outras menores. No fim do seu Evangelho, João nos conta que, se escrevesse tudo o que Jesus
ensinou, as palavras ocupariam todos os livros do mundo. Grande parte dos ensinamentos do
Senhor chegou a nós pela tradição oral. Tenho ceteza de que Jesus ensinou aos seus discípulos
bem mais a respeito da oração: como acabamos de ver, ele passava noites inteiras rezando e
certamente não era só repetindo o Pai Nosso.
Um pouco de história - Os primeiros autores que escreveram sobre esse tema - os padres
gregos - já ensinavam outro tipo de oração. Há quem diga que eles provavelmente retornaram
aos ensinamentos de Jesus e aos da tradição judaica, de onde extraíram esse modo de rezar.
os padres gregos chamavam esse tipo de prece de Monologian, que significa "a oração de uma
palavra". No século IV, encontramos muitos homens e mulheres saindo em busca de mestres
espirituais nos desertos, para aprender mais sobre a oração, sobre os caminhos de Deus. Entre
esses buscadores havia um jovem que estudava em Roma, cujo nome era João Cassiano. Era
realmente um buscador. Primeiro, ele foi para onde hoje estão a Síria e o Egito. Depois ficou
algum tempo em um monastério em Belém. Passou sete anos procurando entre os padres e
monges, na área onde hoje estão a Arábia e a Península do Sinai. Por fim, localizou-se no Egito,
na região mais remota do deserto. Lá encontrou um homem cuja reputação era a de ser o mais
puro, o mais velho e o mais sábio padre do deserto - o Abade Isaac. Quando fez essa jornada,
João tinha um companheiro cujo nome era Pequeno Herman. Juntos, foram ao Abade e
disseram: "Padre, dê-nos uma palavra de oração". Isaac fez uma linda e reconfortante prece
naquela tarde, e os dois monges foram para suas celas sentindo-se mais completos. No dia
seguinte, quando acordaram e se puseram novamente a caminho, o Pequeno Herman voltou-
se para João e disse: "Foi lindo. Mas como poderemos nos sintonizar nesse tipo de oração?"
Como em resposta, os dois monges pegaram suas coisas, voltaram ao Abade e disseram:
"Padre, ensine-nos essa maneira de rezar". E Isaac lhes disse" "Ah! Vejo que vocês são
verdadeiros buscadores. Vou ensinar-lhes o que aprendi, quando era jovem, com o mais puro,
o mais velho e o mais sábio padre do deserto". Assim entramos nessa tradição oral e, como eu
disse, voltamos ao primeiro século e ao Mestre. O Abade Isaac ensinou a João e a Herman esse
modo de orar. Era o que João procurava. Feliz e satisfeito ele voltou para o oeste - para onde
está hoje a França - e estabeleceu duas comunidades, uma para homens e outra para
mulheres. Começou então a anotar tudo aquilo de que podia lembrar-se - tudo o que ele havia
aprendido com os padres. Na segunda conferência do Abade Isaac, conforme o registro de
João Cassiano, há referência a esse tipo de oração, transcrita pela primeira vez em latim. No
ano de 525, São Bento escreveu regras para os monastérios. Era um homem humilde e, no
último capítulo de suas prescrições, disse: "Minhas regras são para iniciantes. Se você quiser o
verdadeiro ensinamento, procure João Cassiano". Por isso, os filhos e filhas de São Bento
sempre foram à procura de Cassiano, para lá obter os ensinamentos da prece e da vida em
oração. No ano 800, Carlos Magno foi nomeado imperador de Roma. Escreveu uma orientação
para a Europa Ocidental, na qual ordenou a todos os monges e freiras que seguissem as
normas de São Bento. Essa prática se difundiu por toda a Europa daquele tempo. Nos
mosteiros da Idade Média, havia com frequência 60, 70, 80, 90 monges, e 200, 300 ou 400
noviços. Estes saíam para trabalhar com o povo. Durante a lida cotidiana, ensinavam esse tipo
de prece. Esse jeito simples de rezar era muito comum entre os povos cristãos, até o tempo da
Reforma protestante e da Revolução Francesa, quando muitos monastérios caíram e todos os
ensinamentos se perderam.
Meditar e compartilhar - O papa Paulo VI foi o verdadeiro arquiteto da reforma da Igreja
Católica. Em 1971, ele chamou alguns monges ao Vaticano e expressou sua profunda
apreciação pela vida contemplativa. E recordou o que havia sido dito no Concílio Vaticano II:
nenhuma diocese será completa sem uma comunidade de contemplação. Mas disse também
que sabia que isso não aconteceria até que a Igreja reencontrasse essa dimensão
contemplativa. Perguntou então a alguns de nós, monges, se seria possível sair e partilhar esse
tipo de prece, essa parte de nossa tradição, com as pessoas. Foi um desafio para nós. Como
poderíamos partilhar essa vivência tradicional de modo simples e prático, para que os cristãos
pudessem incorporá-la facilmente às suas vidas? Entre os primeiros escritos em língua inglesa,
há um tratado muito interessante e popular chamado A Nuvem do não-saber. Foi escrito por
um mestre beneditino para um discípulo seu, um jovem de 24 anos. O monge ensinou ao
jovem esse tipo de oração e, a pedido dele, escreveu esse tratado para ajudá-lo em sua
prática. Hoje, usamos essa obra primitiva como base para transmitir a tradição. Tentarei
formular a oração, o modo de rezar, em alguns pontos simples. Quero dividi-lo com vocês.
Podemos rezar um pouco desse modo, depois teremos tempo para perguntas e discussão.
Conversaremos então sobre outros frutos da oração, como a trasformação da consciência.
Primeiro, deixem-me dizer algo sobre a postura a adotar na oração ou meditação. Tenho vivido
na China nos últimos oito anos. Também fiquei algum tempo na Índia e na Tailândia,
ensinando a prece e, é claro, descobri que existem irmãos orientais. Para eles, a postura tem
uma relação muito importante com o processo meditativo. No Ocidente, entretanto, nunca lhe
dedicamos muito tempo. O autor de A nuvem do não-saber diz ao jovem para simplesmente
sentar, relaxado e quieto. O Senhor nos disse: "Venham a mim os aflitos e eu os aliviarei". Ele
era um bom judeu e, quando se referiu a "você", quis dizer "você inteiro": corpo, mente e
espírito. Para nós, a oração deveria ser um alívio não apenas para o espírito ou a mente, mas
também para o corpo. E assim será, se conseguirmos uma maneira de deixar o corpo bem
acomodado. Dessa forma, ele poderá relaxar mais profundamente e descansaremos no
Senhor. Nossos irmãos orientais têm posturas maravilhosas: lótus, semilótus e outras. Para a
maioria de nós, contudo, é tarde demais para adotá-las. Além de não termos começado mais
cedo, nossos jeans irão apertar. Assim, para os ocidentais a melhor postura para rezar é
sentar-se numa boa cadeira onde as costas fiquem bem apoiadas. Quando meditamos, as
costas bem apoiadas permitem que a energia flua livremente, para que possamos nos
revitalizar. Em outras posições, é possível que nos sentemos relaxados, com os músculos
soltos. Entretanto, nesses casos poderíamos estar pondo muita pressão sobre a coluna,
aumentando assim as tensões no resto do corpo. Por isso, é melhor que fiquemos sentados
em uma boa cadeira, com as costas bem apoiadas e os pés no chão. Então fechemos os olhos
suavemente. Isso é necessário, porque usamos mais de 25% de nossa energia psíquica para
enxergar. Eis tudo o que eu tinha a dizer sobre postura.
Há pontos importantes em relação a essa meditação ou método de oração. O primeiro é:
permaneça com fé e amor em Deus, que habita o centro do seu ser. A palavra em inglês é "be"
(seja/esteja). Portanto, apenas esteja com Deus. Não se trata de uma oração de pensamento,
sentimento, visão, imaginação, audição: trata-se de uma prece de estar-com. Nela, não
entregamos a Deus nossos bons pensamentos e nossas boas idéias: damos-Lhe o nosso ser
completo. Estamos, com fé e amor. A fé é aquele presente maravilhoso de Deus, por meio do
qual sabemos que Ele nos diz a Sua verdade. E Ele nos disse que virá e nos habitará. Sabemos
que Deus habita em nós, no centro de nosso ser. Assim, em fé e amor voltamo-nos a Ele e nos
entregamos por completo. Essa é realmente a pura essência da oração: simplesmente estar
com Deus em amor. Para estar quietamente com o Senhor, para que Ele possa nos renovar,
precisamos de alguma ajuda. Foi o que o Abade Isaac ensinou a João Cassiano. usamos, então,
uma pequena palavra de amor para estar com o Senhor. Mas que palavra é essa? Entre os
irmãos bizantinos, ela é o nome de Jesus. Por isso, eles a chamam de "a oração de Jesus". É a
mais antiga e a mais pura forma de orar e corresponde exatamente à Oração Centrante. João
Cassiano a trouxe do Abade Isaac direto para o Ocidente, mas deu-lhe alguma flexibilidade.
Assim, cada um poderia escolher sua própria palavra de amor. Disse o mestre que escreveu A
nuvem do não-saber: "Escolha uma palavra, uma palavra simples". Uma palavra como "Deus",
ou "amor", é melhor. Mas escolha uma que signifique algo para você. E o significado, claro, é"
"Eu apenas me entrego ao Senhor em amor". Dessa maneira nos pomos em oração, colocando
o corpo confortavelmente e voltando-nos para Deus dentro de nós. Temos essa pequena
palavra que, mansamente, nos permite ficar em paz com o Senhor. Mas acontece que de
repente começamos a pensar em outras coisas: "Será que tranquei o carro?" Pensamos no que
temos de fazer amanhã, ouvimos alguém falar lá fora - muitos outros pensamentos afloram.
Assim, sempre que algo diferente nos vier à consciência, devemos retornar suavemente ao
Senhor com o auxílio de nossa palavra de oração: suave e docilmente, apenas voltemos ao
Senhor cada vez que nos percebermos dispersos. Deus é muito bom para nós . Ele nos deu um
computador magnífico para ligar a outros computadores. Mas há um defeito nessa máquina:
ela não tem o botão de desligar. Por isso é que chegam constantemente aos nossos
pensamentos memórias idéias ou o que seja. Quando vamos meditar ou rezar, não podemos
desligá-las. Precisamos simplesmente deixá-las de lado enquanto descansamos no centro de
Deus. É mais ou menos isso: suponha que você está sentado na sala assistindo a seu programa
de TV favorito e ouve uma batida na porta. Vai atender e lá está um amigo. Os dois conversam.
Seus ouvidos continuam a ouvir a televisão e você também pode vê-la com o canto dos olhos.
Mas está por inteiro com seu amigo, apenas deixa de prestar atenção à TV. Na oração ou
meditação, orientamos nossa atenção para estar completamente com Deus. Se algo começar a
produzir sons estranhos na TV, deixamos o nosso amigo e nos voltamos para ver o que está
acontecendo. Na oração também: alguns pensamentos, idéias, memórias, chamam a nossa
atenção e nos afastam desse estar com Deus. Assim que nos tornarmos conscientes disso,
muito suavemente, muito amorosamente, com nossa pequena palavra, retornemos ao Senhor.
Eis o modo de meditação e oração ensinado pelo Abade a João Cassiano.
Gostaria agora de sugerir que nos levantemos por um momento e nos movimentemos. Depois
vamos nos sentar e meditar por alguns minutos. Quando oramos juntos, o líder geralmente
começa com um pequeno ato de fé e amor. No fim da prece, ele reza o Pai Nosso. Mas
qualquer um pode continuar em silêncio e em seu próprio tempo. Essa parte não vem do
Abade Isaac, vem do Abade Basil. No fim da meditação sugiro que, em vez de terminar
abruptamente, deixemos que nossa palavra de oração se vá - propondo que, muito
suavemente, deixemos que o Pai Nosso brote dentro de nós. Deixemos, enfim, que a oração
flua e que o Senhor nos ensine, por meio dela, o que quiser nos ensinar. Vamos nos acomodar
o mais confortavelmente possível nas cadeiras que temos. Relaxemos o melhor que pudermos,
com as costas bem apoiadas, os pés no chão, os olhos fechados. Voltemo-nos para o Senhor,
que está verdadeiramente presente e, com nossa pequena palavra de amor, apenas
descansemos n'Ele. Senhor, agradecemos pela sua maravilhosa presença conosco. Nesses
minutos, apenas queremos estar Contigo em amor. Glória a Ti em Cristo. (segue-se um período
de meditação). Agora quero convidá-los a usar três ou quatro minutos para compartilhar com
as pessoas próximas de cada um, suas experiências na meditação. Para isso, formem pares.
Quatro minutos. É espantoso o quanto as pessoas têm a dizer sobre uma oração silenciosa.
(Passa-se o tempo proposto) Gostaria de chamar a atenção sobre esse ponto. Agora mesmo,
enquanto você estava partilhando com seu parceiro, podia ouvir as pessoas à sua volta
conversando. Também podia vê-las. Mas queria estar com seu parceiro. Então só ouvia a ele e,
automaticamente, deixava todas essas outras coisas de lado. Não precisou dizer: "Não quero
ouvir isso, não quero ver aquilo". O fato de querer estar com seu parceiro fez com que você,
de modo automático, deixasse o resto de lado. Na meditação ocorre o mesmo. Você não tenta
parar de ter pensamentos ou idéias ou não ouvir nada: simplesmente deseja estar com Deus.
Estando com Ele, abandona os outros pensamentos. Contudo, enquanto está ouvindo o seu
parceiro pode ouvir alguém mencionar o seu nome. Volta-se de imediato e se pergunta: "O
que estarão falando de mim agora?" Dessa maneira, você tem que fazer um esforço para
voltar a ouvir seu parceiro e deixar a outra conversa seguir. Também na meditação em oração,
quando alguns pensamentos, memórias ou sentimentos o "pegarem", o distraírem, assim que
se tornar consciente deles, use sua palavra de oração e, suavemente, retorne ao Senhor.
O significado da Lectio - Falemos um pouco de Maria. Eu poderia falar o dia todo sobre ela. A
Oração Centrante, ou oração contemplativa, faz parte do conjunto da Lectio Divina, prática
que começa com a leitura do texto sagrado. Na verdade, São Bento nunca fala da Oração
Contemplativa, ou contemplação, quando se refere ao tempo necessário para a Lectio - e ele
dedica muito tempo a isso. Quando o faz, usa tudo que poderíamos chamar de processo de
Lectio: Meditatio (meditação), Oratio (oração), Contemplatio (contemplação). Lectio se traduz
literalmente por "leitura". Mas não precisamos fazer isso, porque hoje nossa noção de leitura
corresponde a algo que vemos numa página e que produz alguma idéia em nossa mente.
Entretanto, não era esse o significado do termo "leitura" antes dos primeiros 1000 anos da era
cristã. E assim aquele autor escreveu para o vislumbre dos outros, porque na época a maioria
das pessoa não era capaz de ler livros. Ele recebeu a palavra e aprendeu com ela a formar
nossa mente e nosso coração. E aqui Maria foi um bom exemplo para todos nós. São Lucas nos
conta das muitas vezes que ela cuidou de todas essas coisas em seu coração. Em vez de tomar
uma idéia e tentar amoldá-la ao nosso modo de pensar, trazê-la para o "nosso tamanho", a
Lectio e o modo de Maria abrem-na: deixam vir a palavra de Deus, deixar-na expandir nossas
mentes e formar nossos corações. Nossa Oração Centrante precisa estar no contexto dessa
abertura para a atividade divina, receber a palavra num nível conceitual, abrir-nos para a fé e
capacitar-nos a responder em contemplação. Gostaria muito de continuar falando de Maria,
mas o tempo é curto. Apenas queria dizer, concluindo, que suas últimas palavras para nós, nas
Escrituras, foram: "Faça tudo o que Jesus disser".
Viajando por outros domínios - No último ano, quase todas as semanas tenho recebido
convites para conferências nacionais e internacionais, com o objetivo de discutir a meditação
nas áreas da Medicina e da Psicologia. Como se sabe, somos atingidos pelas tensões o tempo
inteiro. Se não as descarregarmos, se não as expirarmos, iremos construí-las dentro de nós.
Isso nos causará problemas físicos e mentais. Aliviamos parte das tensões no sono. Podemos
também atenuá-las com a prática de exercícios. No entanto, todos os que estudam o assunto
concordam que o melhor meio de ficar livre delas é a meditação. Jesus disse: "Venha a mim e
eu o reconfortarei". Gosto dessa palavra "reconfortar". É como um dia de primavera, cheio da
energia da vida. Mas há outros temas a abordar em relação ao nosso assunto principal. O
diálogo ecumênico, por exemplo. Por meio de minha experiência e da de muitos outros,
concluí que o melhor meio de estar junto com outros cristãos e outras religiões do mundo é
sentarmos reunidos em silêncio. É extraordinário perceber como um profundo entendimento
acontece rapidamente entre pessoas de diferentes tradições. O Dalai Lama me disse que
ninguém que ele conheceu, no Ocidente, o entendeu tão bem como Thomas Merton. E
Merton não era academicamente profundo no budismo e em sua teoria. No entanto,
encontrou-se com o Dalai Lama e, partindo do fundo de sua tradição, foi capaz de encontrar o
budista na profundidade da tradição dele. Sinto que nós, da comunidade cristã, ainda não
fizemos nossa parte no diálogo inter-religioso. Muitos cristãos têm procurado os indianos e
budistas, mas trata-se de um caminho de mão única, não de um verdadeiro diálogo. A morte
do grande patriarca do budismo na Tailândia foi um grande acontecimento, porque ele era o
verdadeiro lider espiritual de todo o povo tailandês. Na época, o papa João Paulo II enviou um
cardeal para expressar as condolências da Santa Sé e visitar os principais monastérios budistas
da Tailândia. Fui chamado para acompanhar esse cardeal, que costumava dizer que os budistas
tentavam ensinar-lhe seus modos e costumes, enquanto que ele nunca tivera nada para
ensinar-lhes. Acabei partilhando a Oração Centrante com todos os principais monatérios
budistas na Tailândia. Em todos eles, perguntaram-me se eu poderia permanecer lá por um
ano, ou no mínimo por um mês. Naquela parte do Oriente, existe uma grande necessidade de
contato com a riqueza espiritual que eles sabem que há no Ocidente, e que produziu santos
como São Francisco de Assis, Madre Teresa de Calcutá e outros. No ano passado, em julho,
tivemos um encontro de quatro dias em Getsêmani (abadia onde Thomas Merton viveu).
Convidamos o Dalai Lama para vir e pedimos a ele para trazer 25 líderes e mestres espirituais
budistas de todas as partes do mundo. Quanto a nós, levamos 25 mestres cristãos para
dialogar. Foi um compartilhamento muito rico. Ao fim daquele período, uma das coisas que
me surpreendeu foi o modo como os budistas relataram o encontro. Em suas narrativas, a
coisa a que deram mais atenção foi a Lectio. Referiram-se a ela como algo que os havia aberto
para toda uma nova maneira de chegar ao entendimento do Divino. Costumam perguntar-me
sobre as semelhanças entre a meditação transcendental e a cristã. As pessoas querem saber se
elas são idênticas, ou se devem mudar de abordagem, esquecer os mantras e passar a usar a
palavra de amor. Tive oportunidade de conversar com Maharishi, professor de Meditação
Transcendental, e membros de seu movimento. Maharishi tem uma universidade nacional. Em
meu livro, Deus ao Alcance das Mãos, já publicado em português, (Paulinas, esgotado), há dois
capítulos referentes à Meditação Transcendental. Em um deles, tento mostrar as diferenças
entre ela e a Oração Centrante. Existem semelhanças, é claro. Em todas as tradições, há dois
caminhos básicos de meditação: a de muito esforço e a de pouco esforço. Na primeira,
trabalhamos para quebrar a linearidade da consciência. Vejamos um exemplo. Na escola Rinzai
Zen, o indivíduo se senta durante horas em um pequeno banco e trabalha com seu mantra,
com o seu koan, até atingir a experiência transcendental. Em muitos dos modernos métodos
cristãos de meditação, tomamos uma palavra do Evangelho e trabalhamos com ela, pensamos
a seu respeito e tudo o mais. Enfim, tentamos usá-la para quebrar barreiras e transcender. Por
outro lado, há a Soto Zen, em que o indivíduo apenas se senta e simplesmente deixa as coisas
acontecerem. A meditação transcendental é um método de menor esforço. Usa-se um simples
mantra sonoro, relaxa-se e assim nasce um novo estado de consciência. A Oração Centrante é
também um método sem esforço: apenas nos sentamos, ficamos em Deus e usamos uma
pequena palavra de amor para descansar mansamente com Ele. Contudo, os dois métodos
meditativos são na verdade diferentes. Na meditação transcendental, o mantra é um som sem
significado: sua constante repetição leva a pessoa a um estado alterado de consciência. Na
Oração Centrante escolhemos uma palavra significativa, e esta expressa a intenção de estar
realmente em amor com Deus, de ser completamente "um" com Ele. Disse Santo Tomás de
Aquino: "Quando a mente pára, o coração prossegue". Na meditação transcendental não há
conceito ou idéia de relação interpessoal. Na Oração Centrante estamos respondendo, por isso
a Lectio vem antes. Deus fala conosco primeiro. Trata-se de um ato de fé. Estamos
respondendo a uma pessoa que sabemos que amamos ou que sabemos que nos ama, que se
relaciona conosco. Existem outros pequenos detalhes que eu poderia citar, mas não creio
serem úteis agora. O que costumo dizer é que as pessoas podem usar a meditação
transcendental como um caminho cristão. É assim que fazem os indianos: quando eles se
sentam para meditar, visam abrir-se para a atividade divina em suas vidas.
A consciência transformada - Falemos agora da transformação da consciência. A expressão
"Oração Centrante" é inspirada em Thomas Merton. É um nome novo para um antiga e
tradicional forma de oração que tem sido chamada de outras formas, em especial e mais
comumente, Oração do Coração ou Oração no Coração. Nos EUA as pessoas são muito
pragmáticas. Quando se fala em coração, elas logo pensam no órgão cardíaco, onde se gera a
pressão sanguínea. Querem saber como as coisas funcionam e assim por diante. Entretanto,
nas Escrituras, nos Salmos, quando se fala de coração, não se trata desse órgão. O sentido é o
de lugar mais profundo, ao qual Deus nos conduz em seu imenso amor. Foi por isso que
Merton começou a falar sobre centro ou raiz do Ser. A primeira vez em que compartilhei essa
oração fora do monastério - e a seguir em inúmeras outras vezes -, usei citações de Merton,
como esta: "A maneira mais fácil de dirigir-se a Deus é ir para o nosso próprio centro e passar,
por meio dele, para o centro do divino". Por causa dessa citação, um dos participantes
começou a chamar esse processo de Oração Centrante. O nome pegou e logo foi usado em
todos os lugares. Esse era o modo como Thomas Merton sempre rezou. Ele nunca usou os
métodos orientais. Essa era a sua maneira de rezar. Quando falava dos frutos da oração, uma
das coisas de que ele mais gostava de mencionar era a transformção da consciência.
Consciência é o modo como nos colocamos em relação às coisas, ou como permitimos que elas
cheguem até nós. É uma maneira de "ouvir" o que somos. A formação da nossa consciência
começa no útero materno. Em nossas primeiras experiências pessoais, é como se fôssemos um
pequeno "pacote" de necessidades básicas. Precisamos de muitas coisas e gritamos e
choramos para consegui-las. À medida que nossa consicência se expande, começamos a
prestar muito mais atenção às pessoas que nos proporcionam as coisas, e assim nos
relacionamos profundamente com elas, de quem dependemos. Por esse meio, tornamo-nos
consciêntes do que fazemos - de nossas ações. Aqui há algo ao qual principalmente os jovens
pais deveriam estar atentos: o amor dos pais é a coisa mais parecida com o amor de Deus que
existe na Criação. Com Deus, os pais trazem as crianças ao mundo. Apenas derramam amor
sobre elas, que não precisam fazer nada para ganhar ou merecer esse amor. Recentemente,
um casal de sobrinhos teve o seu primeiro filho, uma garotinha. É maravilhoso ver um homem
grande e maduro segurando o seu pequeno "pacote" e ver todo esse amor se derramando. Se
os pais derramassem sempre esse amor, seriam, as pessoas mais lindas do mundo. Mas o que
acontece, infelizmente, é que eles, conscientes de sua responsabilidade de educar e formar a
criança, começam a enviar-lhe certas mensagens. Falam como se dissessem: "Assim, mamãe
não vai mais amar você. Você deveria se comportar, guardar seus brinquedos, ir bem na escola
e outras coisas. O papai não vai mais amá-lo, se você não for bem na escola, nos esportes,
etc." Dessa maneira, a mensagem que a criança recebe informa-lhe que os pais não a amam
por si mesma, mas porque ela age de determinados modos, faz certas coisas. Essa mensagem
é reforçada pelas experiências que a criança tem com seus companheiros, colegas de
brincadeiras, de escola. Os bons parceiros são aqueles que têm coisas, antes de tudo: piscina,
jogos de TV, bola e assim por diate. Assim, o mais popular é aquele que faz mais coisas: o bom
jogador de futebol, de tênis, o bom dançarino, etc. Desse modo, todos os retornos que
obtemos nos levam a crer que nosso valor está no que fazemos, no que temos, no que os
outros pensam de nós. Essa é a espécie de conceito que começamos a formar sobre nós
mesmos. Não esqueçamos que Jesus disse que devemos deixar morrer esse falso eu para
conhecer nosso eu verdadeiro. Os homens se apegam principalmente ao que fazem. Quando
uma pessoa se apresenta, quase sempre informa o que faz: "Eu sou Joe Green, professor no
Seminário". É por isso que muitas vezes a aposentadoria é difícil para os homens: durante 40
anos tenho sido Joe Green, professor do colégio, e agora subitamente eu sou só Joe Green.
Quanto às mulheres, elas costumavam cuidar da casa, tinham filhos, e por isso não eram tão
ligadas ao que eram, mas muito mais ao que tinham: roupas, jóias e até seus corpos. É claro
que os tempos mudaram, e hoje Mary Green é presidente da Universidade enquanto Joe
Green está usando brincos. Essa preoucupação também existe na religião. Para muitas
pessoas, Deus é algum personagem que vive em algum lugar, e nós fazemos certas coisas para
obter as bênçãos eternas: é tudo uma troca. Todos nós vivemos, em alguma medida, nesse
domínio do falso eu. Todas as vezes em que se sentir triste, pergunte a si mesmo qual das três
coisas está acontecendo: a) não posso fazer o que quero; b) não tenho o que quero; c) estou
preocupado com o que pensam a meu respeito. Com que frequência deixamos de fazer o que
realmente queremos por causa do que os outros irão pensar? Este não é um lugar muito feliz
para se viver. Estamos cientes da possibilidade de perder o que temos ou o que fazemos.
Estamos sempre em perigo ou sentimos sempre um certo medo. Lá no fundo, persiste o
sentimento de que ainda somos aquele pequeno "pacote" de necessidades básicas. E então
deixamos de lado essa grande fachada de fazer tudo, de possuir tudo, e mantemos todos
afastados de nossa vida. Este é um lugar muito solitário para se viver. O Senhor nos disse que
devemos morrer para esse falso eu. E é o que realmente fazemos, na Oração Centrante. O que
fazemos? Nada: apenas sentamos com Deus. O que as pessoas pensam de nós? A maioria
pensa que somos loucos. E o que temos? Não temos nada: abandonamos inclusive os nossos
pensamentos. Na Europa ocidental, a filosofia mais influente nos tempos modernos tem sido a
de Descartes. Sua proposição fundamental é: "Penso, logo existo". Eis o limite do falso eu. É
claro que a relidade é outra: eu sou, logo penso - danço, canto, brinco, rezo. Na Oração
Centrante abandonamos até o que pensamos. Abandonamos tudo. Morremos para esse falso
eu. A experiência de nós mesmos como um "pacote" de necessidades básicas é o que
tradicionalmente chamamos de pecado original. Mas na realidade Deus está no nosso coração,
no centro do nosso ser e, em todos os momentos nos transfere o melhor de Seu amor.
Lembremos uma passagem do Evangelho, em que um jovem rico corre para Nosso Senhor e
diz: "Bom Mestre, o que eu devo fazer para ter a vida eterna?" E Jesus, como bom professor e
bom rabino, não dá uma resposta. Retruca com outra pergunta: "Por que você me chama de
bom? Bom é Deus". Ele pensou que o rapaz fosse dar mais um passo e dizer: "Você é Deus!"
Mas o jovem rapaz não estava pronto para aquilo. Entretanto, Jesus fez uma afirmação
fundamental e antológica: "Um é bom: Deus". Não sei se no Brasil vocês foram treinados com
um pequeno catecismo, como nós nos EUA. Era uma coisa terrível. Uma das perguntas era:
"Como Deus me fez?" Eis a resposta: "Deus me fez do nada". Não é uma coisa terrível para se
dizer a uma criança? Se somos feitos de nada, o que valemos? Deus não nos fez do nada.
Também não nos fez de alguma coisa. Mas Ele sempre nos põe diante de Seu puro amor,
partilha conosco alguma coisa de Seu maravilhoso ser, Sua benevolência e beleza. Essa é a
realidade: Deus está sempre em nosso centro, trazendo-nos para a maravilhosa realidade da
Sua imagem. Quando nos ligamos a essa circunstância, certamente não nos preocupamos com
o que os outros pensam: se vocês não gostam de mim estão "por fora", porque Deus gosta. É
com isso que tomamos contato na Oração Centrante: não apenas morremos para essas coisas,
mas abrimo-nos para tornar real a experiência de Deus em nós, e assim nos encontrarmos
repletos da beleza divina. Na verdade, Deus não está lá para nos deixar ver a nós mesmos fora
dele, porque somos a Sua imagem. E quando de fato nos encontramos em Deus, e
descobrimos que Ele é esse caminho de amor em nós, então ficamos sabendo que podemos
fazer tudo o que queremos e ter o que quisermos, porque Ele disse: "Peça e receberá". Essa é
a transformação da consciência: começo a ver tudo de uma forma completamente diferente.
Não mais tento me formar fazendo muitas coisas: trabalho, trabalho, trabalho. Não mais quero
tornar-me indispensável. Não mais tento me aprimorar adquirindo coisas. Sei que sou esse
lindo presente de Deus. É um sentimento de tremenda liberdade e alegria. Essa
transformação, obviamente, não acontece na primeira vez que você se centra e talvez nem na
quinquagésima. Contudo, pouco a pouco ela acontece. E então chega para você esta tremenda
alegria: paz, liberdade e amor - todos os presentes ou frutos do espírito que são possíveis em
sua vida. Tenho praticado a Oração Centrante por muitas décadas, e a tenho partilhado com
centenas de milhares de pessoas por todo o mundo. Ainda assim, continua a me surpreender
que esse simples ato de sentar por vinte minutos, duas vezes por dia, ficando apenas com
Deus, pode nos transformar de uma forma tão completa. Quando eu era um jovem monge,
comecei a ler um dos maravilhosos escritos espirituais de São Bernardo, que dizia: aqueles que
experimentaram, sabiam do que ele estava falando. Os que não tiveram a experiência
deveriam experimentar - e então ficariam sabendo. Há coisas que só podem ser conhecidas
pela experiência. Eu costumava me irritar com São Bernardo, mas um dia o compreendi.
Lembro-me de que quando estava na escola me apaixonei por uma garota. Fui para casa e falei
para o meu irmão a respeito dela. Ele não conseguia ver o que eu via. Certas coisas você só
consegue ver com a intuição do amor. E Deus é amor, e a única maneira de vê-Lo é amando.
Esse é um dos frutos da Oração Centrante: essa transformação da consciência por meio da
qual chegamos verdadeiramente a descobrir o quanto Deus nos ama, o quanto Ele está
conosco, e saber como somos magníficos e o quanto somos amados, e que dádiva somos para
todos os outros. A experiência inicial que temos é como se Deus estivesse ausente de nós. É
uma coisa terrível, porque apenas Ele pode nos preencher. Mas é pelo fato de existir o pecado
original que se dá a mudança. Essa é uma culpa feliz, porque nos trouxe a salvação."
Basil Pennington - D. Basil veio ao Basil em 1998, por iniciativa da Sociedade dos Amigos de
Thomas Merton. Trabalhou com Merton em 1968. Seu mosteiro era até bem pouco o de S.
José, no estado de Massachussetts. Foi sagrado Abade do Mosteiro de N. Sra. do Espírito Santo
em 2000. O seu antigo mosteiro de S. José, trapista, cisterciense, foi encarregado, pelo
episcopado americano, na década de 60, de começar o trabalho de diálogo interreligioso. A
partir daí, o padre Basil começou suas viagens pelo mundo. Esteve na Índia, de onde trouxe
para os EUA mestres de oração e ioga, para contatos e aprendizagem. Em 1971, o papa Paulo
VI pediu-lhe que se dedicasse a ensinar a meditação. Desde então ele tem viajado,
principalmente pelos países de língua inglesa. Com um grupo de outros monges, entre os quais
Thomas Keating, chegou a uma síntese atual de toda a tradição orante da Igreja, que na
tradição ortodoxa se conhece como a Hesychia, a Oração do Coração. Essa nova síntese - que
foi o tema da palestra - recebeu o nome de Oração Centrante. O padre Basil residiu por oito
anos em um mosteiro em Hong Kong até recentemente.
(Essa matéria corresponde à edição de uma palestra dada por D. Basil, no auditório do Hospital Santa
Catarina, em S. Paulo, a 22 de agosto de 1998, organizada pela Associação Palas Athena.)

RESTRIÇÕES À PRÁTICA MEDITATIVA

A Oração Centrante, a Meditação Cristã, bem como outras formas de meditação,


principalmente se forem conjugadas com a respiração "Pranayama" ou outras modalidades,
liberam muita energia psíquica e por conseguinte não devem ser praticadas por pessoas
portadoras de distúrbio bipolar, (psicose maníaco-depressiva) e outros problemas
semelhantes, sem antes se aconselhar com seu psicólogo, pois o estado mental da pessoa
pode piorar, (embora também possa melhorar). Essas pessoas, devidamente acompanhadas
pelo médico especialista (psiquiatra, psicólogo) e também por um bom e experiente diretor
espiritual, que conheça meditação e seus efeitos na pessoa, poderão praticar, desde que
medicados e acompanhados de perto.
Talvez seja melhor para essas pessoas praticarem a Oração de Jesus em algum momento do
dia, pois a repetição de uma frase inteira tem outro tipo de efeito na pessoa e fica mais difícil
ocasionar um "estado alterado de consciência", que definitivamente não é o objetivo da
meditação proposta nesse site, (Oração Centrante). Que essas pessoas busquem tanto quanto
possível o equilíbrio entre ação/atividade física e oração. E não dediquem mais que dois
períodos de 20 minutos à prática da OC/MC, isto no caso de ter sido aprovado pelo seu
médico, não dispensando de modo algum a medicação prescrita. O padre Thomas Keating,
OCSO, em seu livro "Intimidade com Deus" (ed. Paulus) e em outros escritos seus, sem
tradução em português, ainda, aborda o assunto. Pessoas com tendência à depressão e/ou
problemas mentais não devem, portanto, fazer uso dessas modalidades de oração/meditação,
embora seu objetivo seja a união com Deus, buscando viver em sua Presença e não sejam em
absoluto "técnicas" que busquem estados alterados de consciência.

Saúde Mental, Direção Espiritual e Oração Contemplativa

Por William Ryan, M.A.


Tradução do inglês: Jandira S. Pimentel

Origem, Desenvolvimento e Orientação.

"Durante anos trabalhando no ministério da oração contemplativa e como diretor espiritual,


recebi um grande número de consultas sobre a relação entre doença mental e a prática da
oração contemplativa e a experiência transformativa decorrente da última. Além de ser um
professor de oração contemplativa e diretor espiritual, sou conselheiro clínico e trabalhei no
campo da saúde mental por trinta anos, (nos EUA) muito desse tempo em clínicas mentais
comunitárias. Passei também grande parte desse tempo trabalhando tanto com desordens
mentais de maior complexidade, como as de caráter transitório ou distúrbios emocionais.
Doença Mental

Até recentemente, os seres humanos não haviam compreendido as causas da doença mental.
Agora se sabe que muitas formas das principais doenças mentais são distúrbios cerebrais. Isto
inclui o Transtorno Bipolar, Depressões Profundas, Desordens Esquizofrênicas, Distúrbio do
Pânico e outros. As principais desordens mentais são causadas por desequilíbrio na química
cerebral. Em tempos mais antigos, porque essas doenças não eram compreendidas e eram
atribuídas a possessões demoníacas, doenças espirituais ou de algum outro tipo. Isto se deu
com grande dano às pessoas mentalmente doentes, que eram vítimas do medo e da
incompreensão. Em nosso tempo muitas pessoas, não todas, já descartaram a teoria de forças
demoníacas como causa de doença mental ou emocional. Contudo, há outras noções causais
mais sutis e igualmente perigosas, que permanecem em nosso sistema de crenças, sugerindo
que a doença mental, na verdade, qualquer doença, pode ser um sintoma de desarmonia
espiritual em nosso relacionamento com Deus ou com nosso próprio ser mais profundo.

Causas da Doença Mental

Essas idéias que a doença tem uma relação causal com a saúde espiritual ou harmonia, causam
um grande desserviço a pessoas com doença mental ou outra doença física. (Por favor, notem
que eu digo *outra* porque as principais doenças mentais *são* doença física no cérebro.) Em
toda minha vida conheci entre meus amigos, em meu círculo de professores e companheiros
espirituais, e em minha própria família, excelentes praticantes de oração e meditação, muitas
pessoas boas e amáveis, que eram afligidas por formas variadas de distúrbios mentais ou
emocionais. Estes distúrbios aconteceram através de fatores desvinculados do
amadurecimento espiritual ou a resistência da pessoa. Na maior parte dos casos era por
herança ou predisposição genética. Acrescentemos que pesquisas recentes com o cérebro
(imagem PET) revelam mais ainda sobre as áreas do cérebro afetadas por uma forma particular
de doença mental e o correspondente desequilíbrio químico que ocorre.

Atitudes em Relação à Doença

Muitos de nós, sem uma reflexão profunda, adotamos uma forma de pensar inconsciente,
mágica, otimista, de que podemos de alguma forma ser menos vulneráveis às doenças e
aflições, se formos espiritualmente maduros ou espiritualmente sintonizados, ou se de alguma
forma estamos em maior harmonia com Deus. No tempo de Jesus, aqueles que eram leprosos,
ou que tinham aflições ou doenças mentais eram marginalizados e acreditavam estarem sendo
punidos por Deus. As curas realizadas por Jesus, além da cura física em si, eram mais no
sentido de tirar aquelas pessoas do isolamento e envolvê-las no abraço da comunidade
humana.
No mais profundo de cada um de nós há um medo da doença, da perda do controle e da
morte. Entre as nossas mais profundas e arraigadas motivações, que estão ligadas aos nossos
desejos de segurança, é a crença errônea de que podemos estar seguros, salvos, invulneráveis,
(num sentido físico e psicológico) se de alguma forma, estivermos bem com Deus. Essas
crenças ilusórias, geralmente aparecem de modo destrutivo. Relembro com tristeza amigos
meus, pais de uma criança morrendo de câncer, que começaram a ser evitados pelos vizinhos
cristãos e seus filhos. Eles ouviam afirmações insinuando, que, por exemplo, eles não deviam
estar agindo corretamente com Deus, para uma situação tão aflitiva estar acontecendo em sua
família. Lembro-me dos comentários ferinos ouvidos por minha esposa, tanto ditos pelo
capelão fundamentalista, e por um terapeuta da 'Nova Era', de que devia haver alguma coisa
errada em nossa família, para que nosso filhinho de um ano estivesse morrendo de leucemia.
Numa hora em que famílias e pessoas mais precisam de apoio da comunidade eles geralmente
enfrentam esquivamento, isolamento, e culpa da parte daqueles que atribuem causas
espirituais para aflições naturais da humanidade.

Vulnerabilidade e Força

Em nossa cultura somos viciados por uma quase obrigatoriedade em sermos saudáveis e
estarmos no controle. Frequentemente ainda tentamos colocar nossas práticas espirituais a
serviço dessa ilusão tão destrutiva. Se refletirmos sobre os Evangelhos, na mensagem de Jesus
nas Bem-Aventuranças, torna-se claro que é através da nossa aceitação da vulnerabilidade e
nossa radical entrega a Deus, que nos abrimos a um relacionamento íntimo com o Bem-
Amado. Tentativas fúteis de proteger nosso 'eu' e estratégias de invulnerabilidade são
claramente destinadas ao fracasso. Esta afirmação e aceitação de nossa humanidade e
fragilidade é o meio pelo qual nos abrimos a uma maior confiança e dependência de Deus. É
pela nossa humanidade e consequente fragilidade que chegamos à Comunhão com Deus, não
pela negação ou escapando para a ilusão. Somos vasos de barro contendo a Água Viva, somos
lâmpadas acesas que brilham com a Vida de Cristo, se nos entregarmos sem reservas ao
Divino. As feridas psicológicas inconscientes e não curadas de toda uma vida afetam sim, nossa
capacidade de sermos esse vaso aberto à Vida Divina dentro de nós. Mas é através de nossa
prática de auto-entrega, desejo, e compromisso, que estas feridas são oferecidas ao Amor de
Cristo e à cura. Desse modo nossa confiança na ação de Deus dentro de nós, se aprofunda, e
nossa capacidade de ser um instrumento do amor de Deus a serviço dos outros se expande.
Isto não significa necessariamente que nossas aflições são tiradas de nós. Isto pode significar
que aprendemos a usar nossas aflições humanas e vulnerabilidades para aprofundar nosso
enraizamento em Deus e nossa busca de refúgio nele apenas, mais do que em nossas ilusões,
invulnerabilidade e bem-estar.

Prática Contemplativa e Aflições Humanas

A prática da Oração Centrante, da Oração do Coração, em silêncio e quietude na vida diária, é


um meio pelo qual aprendemos a nos ancorar no Coração de Cristo, em nosso próprio coração.
Desse modo, aprendemos a viver a vida na completude e inteireza do Amor Divino em nosso
coração ou espírito verdadeiro, enquando abrimos nossa alma, nosso inconsciente humano
ferido ao poder curador de Cristo. Mais do que algo que se alcance num determinado
momento, isto é um processo para toda a vida e enquanto seres humanos, sempre estaremos
necessitados de cura. Precisaremos de apoio contínuo e confiança na graça de Deus para viver
com o problema, encontrar forças para estar com aquela pessoa querida que sofre as aflições
que a vida coloca no nosso caminho. Nossos sofrimentos não são punições, mas são a matéria
prima para nossa caminhada para Deus. Eles podem se tornar o meio pelo qual nos abriremos
a uma maior capacidade de amar e sermos gentis conosco mesmo e com os outros, e para
servirmos com compaixão ao mundo em que vivemos. (Meu pai sempre disse que o
alcoolismo, que em sua essência é uma doença do cérebro, foi o seu meio pessoal de salvação
e transformação.) Transformação e cura através da oração contemplativa não irá remover
nossos dirtúrbios do cérebro, ou do resto de nossos corpos. Porém irá nos firmar na prática da
comunhão íntima com Deus a tal ponto que seremos capazes de suportar nossos transtornos e
nosso sofrimento e com eles, aprenderemos a amar e a servir mais profundamente, não
apesar deles, mas por causa deles.

Contra-indicações para a Prática da Oração Contemplativa

As principais desordens mentais são distúrbios do pensamento e das emoções. A origem


desses distúrbios é o desequilíbrio ou disfunção de certos neuro-transmissores do cérebro.
Esses neuro-transmissores mediam as sinapses no cérebro que regulam o funcionamento da
mente, corpo e das emoções. A medicação psiquiátrica em graus variados é uma tentativa de
corrigir esses desequilíbrios. Nos últimos trinta anos, a eficácia dessa medicação aumentou de
tal maneira, que muitos dos sintomas dessas desordens já podem ser controladas,
particularmente as desordens do humor, tais como Transtorno Bipolar e Depressões
Profundas. Os resultados podem variar mais com desordens do pensamento, tais como
Esquizofrenia ou outras formas de psicoses. Geralmente se pensa que pessoas com distúrbios
mentais podem praticar formas de oração contemplativa sem efeito colateral, quando os
sintomas estão controlados. Nos casos em que os sintomas não podem ser controlados,
particularmente quando há evidência dos mesmos, tais como psicoses (delírios ou
alucinações), ou distúrbios de humor extremos (mania ou depressão profunda), formas de
oração contemplativa apofáticas (sem palavras, silenciosa), podem ser contra-indicadas e se
tornar difíceis ou impossíveis, por causa da interferência do sintoma com o processo da
oração. Nesses casos, outras formas de oração e devoção devem ser recomendadas.

Psicoterapia e Prática Contemplativa

Deve-se notar que entre os distúrbios psicológicos que causam transtornos e prejuízo na
qualidade de vida, estão frequentemente também aqueles causados pelos condicionamentos
da vida, ou as "feridas existenciais". Isto pode incluir algumas das desordens da ansiedade, tais
como Distúrbio do Stres Pós-Traumático, Distúrbios de Ajustamento e alguns Distúrbios da
Ansiedade. Tais condições geralmente respondem à psicoterapia ou medicação ou a
combinação dos dois. Contudo, novamente eles não são atribuídos a um pequeno
desenvolvimento espiritual e devem ser encaminhados a aconselhamento profissional para
tratamento. A transformação contemplativa pode ser complementada por formas adequadas
de psicoterapia.

"Noite Escura"

Como diretor espiritual e praticante da oração contemplativa, defrontei-me tanto com a


terminologia quanto com a experiência, referidas na linguagem da tradição Cristã como "noite
escura", ou outras metáforas para a transição ou transformação. A "noite dos sentidos" e a
"noite do espírito", foram muitas vezes confundidas com sintomas de distúrbios psicológicos
ou psiquiátricos. Muitos tornaram popular a confusão entre algum tipo de transição dolorosa
na vida, que podem envolver depressão ou piora no humor, desafio existencial, perdas, etc,
com as mudanças que ocorrem na terminologia da "noite escura". Como clínico posso afirmar
com segurança que há distinções específicas entre essas experiências, sintomas ou doenças
mentais, distúrbios, e passagens espirituais, referidas na literatura como "noite escura".
Diretores espirituais com larga experiência com a prática contemplativa e a transformação e
algum conhecimento de aconselhamento clínico, devem estar capacitados a avaliar e articular
essas distinções. Faltando-lhes a especialização clínica, devem procurar aconselhamento de
saúde mental quando necessário.

Resumindo

Deve-se afirmar claramente e inequivocamente que não há relação causal entre doença
mental e desenvolvimento espiritual ou por falta dele. Estas doenças ocorrem
independentemente de nossa prática e desenvolvimento espiritual. A vida espiritual pode
ajudar uma pessoa a enfrentar ou suportar com mais coragem e liberdade um distúrbio
mental, tanto quanto ajudaria em qualquer outra forma de doença física, mas a aparência do
transtorno tem sua etiologia em nossa disposição genética, nossa bioquímica, e não nossa vida
espiritual. Isto é verdade quanto a distúrbios do cérebro e também quanto a outras desordens
física, como Diabetes, Mal de Parkinson, Lupus ou qualquer outra doença crônica ou aguda.
Se uma pessoa que pratica Oração Contemplativa, Oração Centrante, Oração do Coração,
como sua principal prática, tiver também uma doença mental tal como o Transtorno Bipolar ou
Depressão Profunda, a coisa mais importante a fazer é seguir fielmente a prescrição médica
psiquiátrica e outras intervenções psicoterapêuticas, para controlar os sintomas da desordem,
do mesmo modo que um diabético faz uso da insulina e outros medicamentos para tratar sua
desordem física. No campo espiritual uma disciplina de uma prática de oração intensa irá
ajudar essa pessoa a refugiar-se na Comunhão íntima com Deus, estejam os sintomas
presentes ou ausentes. A uma pessoa que busca a Deus seriamente, deve ser dito que ela
pode ter um distúrbio mas ela não é um distúrbio (em sua identidade) e ela deve refugiar-se
no Coração de Cristo apenas, como a origem de sua identidade verdadeira e sua essência
como Filho/Filha de Deus. Nossa caminhada para a transformação e crescimento no amor e
compaixão, é aprender a usar as aflições humanas como passagens para a prática de um
profundo refúgio no santuário interior do Reino de Deus, dentro de nossos corações, no centro
de nosso ser. Não temos escolha quanto ao sofrimento que a vida nos traz. Mas, temos uma
escolha quanto a responder com desespero e aflição, ou se vemos nossas aflições e
vulnerabilidades como meios para uma busca de maior refúgio no amor indestrutível e infalível
da vida de Cristo em nós."

ESTENDENDO OS EFEITOS DA ORAÇÃO CONTEMPLATIVA NA VIDA DIÁRIA.

A Oração Centrante é a pedra fundamental de um compromisso maior visando a dimensão


contemplativa do Evangelho. Dois períodos diários de vinte ou trinta minutos - um pela manhã e o outro
pela tarde ou ao anoitecer - ajudam a manter sempre num nível alto o reservatório de silêncio interior .
Aqueles que dispõem de mais tempo poderiam começar com uma leitura breve do Evangelho, por dez
ou quinze minutos. Para aquela pessoa que deseja e pode dispender uma hora inteira de silêncio
interior pela manhã, comece com dez minutos de leitura do Evangelho e a seguir faça a Oração
Centrante por vinte minutos. Em seguida, faça uma lenta meditação andando, dentro do próprio
ambiente em que estiver, por cinco a sete minutos; sente-se e faça o segundo período de OC. Você
ainda tem dez minutos para planejar seu dia, rezar pelos outros ou conversar com o Senhor.
Encontrar tempo para um segundo período mais tarde no corre-corre do dia, talvez seja mais difícil. Se
você tem que estar disponível para sua família assim que entra pela porta a dentro, talvez você possa
meditar durante sua hora de almoço. Ou talvez parar no caminho do trabalho e meditar numa igreja,
quem sabe? Se realmente for impossível fazer o segundo período de oração, então é importante que
você aumente o tempo do primeiro. Há um número de práticas que ajudam a manter seu reservatório
interior de silêncio durante o dia e assim estender seus efeitos nas atividades do seu dia.
MEIOS DE ESTENDER OS EFEITOS DA ORAÇÃO CENTRANTE NA VIDA DIÁRIA
1. CULTIVE UMA ACEITAÇÃO BÁSICA SI MESMO(A). Tenha uma compaixão verdadeira por si mesmo(a),
incluindo todo seu passado, falhas, limitações e pecados. Espere cometer erros. E, aprenda com eles.
Aprender com a experiência é o caminho para a sabedoria. (A partir daí, reconhecendo-nos limitados e
falhos, teremos também mais compaixão com o outro, não é?)
2. TENHA UMA ORAÇÃO PARA A AÇÃO. Uma frase de cinco a nove sílabas tirada da Escritura que você
gradualmente vai colocando no seu subconsciente, repetindo-a mentalmente quando estiver com a
mente relativamente desocupada, tal como quando está lavando a louça, fazendo trabalhos caseiros,
caminhando, dirigindo, aguardando numa sala de espera, na fila do banco, etc. Sincronize-a com seu
batimento cardíaco, sua respiração. Eventualmente ela começa a se repetir por si mesma e mantém
uma ligação com seu reservatório interior de silêncio ao longo do dia. Entretanto, se você tem uma
tendência à escrupulosidade e sentir uma compulsão para repeti-la seguidamente, ou a repetição
frequente te trouxer uma dor de cabeça ou dor nas costas, essa prática não é para você!
3. SEPARE UM TEMPO DIARIAMENTE PARA OUVIR A PALAVRA DE DEUS NA LECTIO DIVINA. Separe uns
quinze minutos ou mais, todos os dias, para a leitura do Novo Testamento ou um livro de espiritualidade
que falar ao seu coração. (Veja nesse site sobre Lectio Divina!)
4. CARREGUE UM "LIVRO MINUTO". Tipo aqueles livrinhos com mensagens curtas e inspiradoras - uma
frase ou duas no máximo - de seus autores espirituais favoritos or de seu próprio diário espiritual que te
lembre seu compromisso com Cristo e com a oração contemplativa. Carregue-o no seu bolso ou bolsa e
quando você dispuser de alguns minutinhos, leia umas poucas linhas. Talvez um pequeno Evangelho de
bolso.
5. DELIBERADAMENTE, DESMONTE A PROGRAMAÇÃO DO SEU FALSO EU. Observe as emoções que mais
o aborrecem e os acontecimentos que os desencadeiam, porém, sem analizar, racionalizar ou justificar
suas reações. Identifique, dê nome à emoção principal que você está sentindo e o evento particular que
a desencadeou e libere a energia que está surgindo por um ato forte de sua vontade tal como "Abro
mão de meu desejo por (segurança, estima, controle)! O esforço para desmontar o 'falso Eu' e a prática
diária da oração contemplativa são os dois motores de sua nave espiritual que te dão o impulso para sair
do chão. A razão pela qual a Oração Centrante não é tão eficaz como poderia, é que quando você sai
dela para suas ações rotineiras na vida diária, seus programas emocionais começam a decolar
novamente. Emoções negativas imediatamente começam a drenar o reservatório de silêncio interior
que você armazenou durante a oração. Por outro lado, se você trabalha no desmanche dos centros de
energia que causam as emoções negativas, seus esforços estenderão os bons efeitos de sua
centralização em cada aspecto de sua vida diária.
6. PRATIQUE A GUARDA DO CORAÇÃO. Esta é a prática de liberar as emoções negativas no momento
presente. Isto pode ser feito de um desses três modos: 'fazendo o que realmente você está fazendo';
'voltando sua atenção para alguma outra ocupação', ou 'oferecendo o sentimento/emoção a Cristo'. A
"guarda do coração' requer o desapego imediato de atrações e repulsas pessoais - (gostar, não gostar,
desapegar-se do mesmo jeito). Quando algo acontece independentemente de nossos planos, nós
espontaneamente tentamos modificar isto. Nossa primeira reação, contudo, deveria ser abertura para o
que está realmente acontecendo de modo que se nossos planos dão errado, não nos aborrecemos por
isto. O fruto da 'guarda do coração' é uma boa-vontade habitual para mudar nossos planos assim que
for preciso. Isto nos dispõe a aceitar situações dolorosas quando elas surgem. Então, podemos decidir o
que fazer com elas, modificando, corrigindo ou melhorando-as. Em outras palavras, os eventos
rotineiros da vida diária se tornam nossa prática. Não posso enfatizar isso o suficiente. Uma estrutura
monástica não é o caminho para a santidade para leigos. A rotina da vida diária é. A oração
contemplativa tem o objetivo de transformar a vida diária com sua sucessão infindável de atividades
rotineiras.
7. PRATIQUE UMA ACEITAÇÃO INCONDICIONAL DOS OUTROS. Esta prática é especialmente poderosa
em aquietar as emoções do 'serviço do Apetite': medo, raiva, coragem, esperança e desespero.
Aceitando as outras pessoas incondicionalmente, você disciplina suas emoções que desejam se vingar
dos outros ou fugir deles. Você permite que as pessoas sejam quem são, com todas as suas
peculiaridades e com seu comportamento particular que tanto te perturba. A situação se complica ainda
mais quando você se sente na obrigação de corrigir alguém. Se você corrige alguém quando está
aborrecido, provavelmente você não conseguirá nada. Isto desperta as defesas dos outros e lhes dá
motivos para jogar a culpa em você. Espere até se acalmar e então aconselhe, corrija, a partir de uma
preocupação verdadeira com a pessoa.
8. DELIBERADAMENTE DESMONTE A EXCESSIVA IDENTIFICAÇÃO GRUPAL. Esta é a prática do desapego
de nossos condicionamentos culturais, idéias pré-concebidas, e super-identificação com os valores de
nosso grupo particular. Isto também significa abertura à mudança em nós mesmos, abertura ao
desenvolvimento espiritual além da fidelidade a grupos, abertura ao que o futuro nos trouxer.
9. CELEBRE A EUCARISTIA REGULARMENTE. Participe regularmente no mistério da Paixão, Morte e
Ressurreição de Cristo, a fonte da transformação cristã.
10. PARTICIPE DE UM GRUPO DE ORAÇÃO CONTEMPLATIVA. Participe de um grupo de apoio que se
reúna semanalmente para praticarem juntos a Oração Centrante e a "Lectio Divina" e para se
encorajarem mutuamente, no compromisso de viver a dimensão contemplativa do Evangelho.
FERRAMENTAS BÁSICAS PARA TEMPOS DE TENTAÇÃO:
1. Determinação de perseverar na jornada espiritual.
2. Confiar na infinita misericórdia de Deus.
3. Prática contínua da Presença de Deus através da oração e abertura à Sua inspiração.
(Traduzido por Jandira de texto da "Jornada Espiritual" do padre Thomas Keating, OCSO)
*****
Quando se tenta manipular Deus
Em um determinado momento de nossa jornada espiritual, podemos talvez tentar manipular a Deus de
uma maneira muito sutil. E então, Deus deliberadamente nos desafia, ensinando-nos amorosamente
que uma atitude não possessiva, no nível espiritual, vai nos possibilitar transcender o sistema do falso
eu e alcançar a união divina. Temos que permitir que se desenvolva em nós essa atitude não-possessiva.
E então, há abundância de Deus, como há abundância de energia no universo, como há abundância de
luz do sol. Está tudo preparado, se você sabe como plugar-se e encaixar seus circuitos no lugar certo.
Tudo está aí, esperando. Mas, temos esse barulho em nosso circuito e o barulho maior é nosso desejo
de possuir para nós mesmos. E o amor divino é a entrega de si mesmo. Se pudermos dar esse passo e
novamente, a Oração Centrante é a disciplina que gradualmente nos ensina a desapegar-nos de cada
atitude possessiva, que é bem diferente de fazer uso das boas coisas desse mundo. A atitude não-
possessiva é simplesmente o uso correto de tudo - é apreciar tudo o que está presente e desapegar-se
daquilo que não está. E isto é liberdade, esse desapego que significa não apenas desprender-se das
coisas que passam, mas também aceitar o que está acontecendo em nossas vidas - isso também é
desapego: a aceitação de cada momento e cada coisa, cada alegria como ela vem, sem tentar segurá-la
e fazê-la nossa, apossando-se dela mesmo contra todas as pessoas no universo. E então é como o ar. Há
abundância dele, você pode ter todo o ar que quiser. Mas você não pode pegar um pedaço dele e
colocá-lo no sua gaveta. Então, a possessividade é o tipo errado de resposta à jornada espiritual e ao
tipo de amor divino que estamos tentando desenvolver. Então esse processo nos habilita a nos
desvincularmos de nossos velhos hábitos e nosso modo rotineiro de responder às nossas preferências e
aversões, transcendendo-os na confiança e crendo no amor de Deus, seja o que for que recebermos,
notando os frutos em nossas vidas, modestamente, não esperando mudar repentinamente, ou sermos
transformados de uma vez, mas desejando nos engajar nesse processo. Pois toda a vida é processo."
(Thomas Keating, Jornada Espiritual)

“A ORAÇÃO CENTRANTE E O DESPERTAR INTERIOR”

Palestra por Reverenda Cynthia Bourgeault, da Igreja Episcopal dos EUA, autora de
“Centering Prayer and Inner Awakening”- 24/01/05, aos monges trapistas do Mosteiro
“Our Lady of the Holy Spirit” (Conyers, Georgia, USA)

O DESAFIO DA LINGUAGEM - O resgate da oração contemplativa, que virou sinônimo


de meditação, tornou-se uma estrada difícil de se trilhar no Cristianismo Ocidental. As
categorias onde se pode situá-la - após os séculos 16 e 17, após Teresa de Ávila e João
da Cruz e toda a experiência interpretada, são de difícil tradução e classificação.
Muitos mestres, e penso que Thomas Keating é o exemplo clássico aqui -
compreenderam de maneira muito clara e perspicaz, que esse processo de apenas nos
sentarmos e meditarmos, contém algo crucial e essencial ao coração da prática
espiritual cristã, presente desde o seu início. Mas nunca houve muitas expressões
adequadas para expressar esse “algo”.
Muito frequentemente, acontece tomarmos emprestado de linguagens metafísicas do
Oriente ou de outras experiências, categorias que fazem com que a Oração Centrante
se pareça com uma oração que vise esvaziar a mente ou cultivar a quietude. Muitas
pessoas nos movimentos carismáticos - tanto Católicos como no Protestantismo
Fundamentalista - criticam muito isso. Dizem eles, “Isso não é Cristão, absolutamente!
Nada tem a ver com as raízes de nossa experiência. Onde vocês encontraram isso na
Escritura ou na Tradição?”
Acredito que muitos problemas que essas pessoas tem com a meditação, como prática
Cristã , está no âmbito da linguagem - a nomenclatura. Sempre que se começa a falar
sobre oração de esvaziamento e quietude, ou então de se iniciar a prática da
meditação (sem passar antes pelos passos da oração mental ou ‘oratio’), vamos ter
pessoas enlouquecidas dizendo, “Isto não se parece com nada que tenhamos
aprendido!”. E toda sorte de problemas.
Queria muito saber se haveria pontos de partida mais amigáveis, compatíveis com o
Cristianismo, realmente sérios e inegociáveis, para a compreensão da meditação
dentro de um contexto teológico Cristão.
Penso que a Oração Centrante se presta muito bem a essa abordagem teológica,
provavelmente melhor do que qualquer outra forma meditativa disponível hoje em
dia, dentro da esfera das práticas Cristãs.
Intenção e Disponibilidade. Na Oração Centrante, como nos ensinam as instruções,
não se fica tentando concentrar a mente, como na repetição de um mantra,
continuamente. Também não é um processo de auto-consciência, como na prática
Budista - como quando se fica consciente de um pensamento ou emoção emergindo, e
se observa o processo inteiro e algumas vezes se rotula o mesmo: “pensamento
enraivecido”, ou “pensamento sensual”. A Oração Centrante não faz isso.
Na Oração Centrante iniciamos com a “intenção”, mais do que “atenção”. Thomas
Keating enfatiza isto sempre. A nossa intenção é estarmos completamente abertos a
Deus - completamente disponíveis. Tão profundamente como se pode ser aberto
interiormente: mais profundo do que o nosso pensar, mais profundo do que nossas
emoções, mais do que sua própria estória, seus sonhos, suas visões.
As palavras “disponível” e “vazio”não são sinônimas. Quando se diz, “Meu objetivo é
esvaziar-me”, você está num jogo da linguagem - e numa impossibilidade. Mas, estar
“disponível”, é realmente abrir nosso coração ao amor. Penso que nos colocamos a
caminho com o pé direito na Oração Centrante, se falarmos do objetivo como sendo
uma profunda disponibilidade. Mais profunda do que as coisas que determinam nosso
senso usual de ser.
Mas, naturalmente, “a estrada que leva ao inferno está cheia de boas intenções.” Na
Oração Centrante, pode-se ter a intenção maravilhosa de estarmos profundamente
disponíveis, mas, e daí? Sentamo-nos em oração e dizemos, “Vou estar
profundamente disponível a Deus. Vou me abrir a Deus. Aqui estou Senhor. Preencha-
me. Esvazie-me. Faça o que quiseres comigo.” Então você se senta. Antes que se
passem trinta segundos você já está pensando: “Será que guardei as chaves?” Ou, “Isto
já é contemplação?” A mente começa a viajar. Apenas isto. Esta é a natureza da mente
humana.
O ACORDO. Na Oração Centrante, a maneira como se coloca a intenção é o modo
como gosto de chamar, um pequeno “acordo”. E o acordo é este: “Quando
percebemos que estamos pensando, simplesmente deixamos que o pensamento se
vá.” Não porque pensar seja algo ruim, mas porque dentro dessa oração, o deixar que
os pensamentos passem é o símbolo do ‘deixar nossas próprias coisas’ e retornar
àquela aberta e imediata disponibilidade.
Digo que o objetivo não é sentarmo-nos munidos com arma e munição e tentarmos
abater todos os pensamentos assim que surgem. E encare isto: Na Oração Centrante
passamos algum tempo sonhando acordado. Faz parte dela. Mas quando se tem um
pensamento e algo nos recorda isso (e misteriosamente isso acontece!), deixamos que
ele se vá. Para mim, esse “deixar ir” é a essência absoluta do método da Oração
Centrante.
GANHAR OU GANHAR. Isto faz da Oração Centrante uma situação de ganhar ou
ganhar. A natureza sagrada desta oração - o lugar sacramental nela - não é alcançado
através da tentativa de manter sua mente num estado único de consciência, em
nenhum estado alterado de consciência. O objetivo não é tentar e atingir a alegria.
Não é buscar atingir coisa alguma. Os momentos de sacralidade nesta oração vêm
quando algo em nós compreende - e isto se dá de um modo engraçado - “Ó, estou
pensando...” e desejamos que isto se vá, como símbolo de “Não a minha, mas a Vossa
Vontade seja feita, Ó Senhor.”
Vejo a oração operando completamente sob o emblema da Kenose. Quando praticada
desse modo, as perguntas se dissolvem: “Isto é Cristão?”, Pode apostar que é Cristã! É
segura e pode ser praticada até por iniciantes. Quem disse que é necessário ser
“avançado”, para entregar nosso coração a Deus?
Sempre digo às pessoas que esta oração é uma situação de ganhar ou ganhar, porque
quando nos sentamos para meditar e a mente se aquieta imediatamente, ótimo. Já
tivemos essa experiência, seguramente. Se nos sentamos e nossa mente se assemelha
a uma dessas máquinas de fazer pipoca, “pop, pop, pop, pop” - um pensamento após o
outro - e ainda estamos fazendo o melhor que podemos para deixar os pensamentos
irem, então estaremos praticando a Oração Centrante. Se nos sentamos e estamos
com uma terrível dor de cabeça e quase não podemos nos concentrar em nada, e
pensamos, “Meu Senhor amado, hoje estou um farrapo diante de Vós”, e ainda assim
tentamos deixar esse pensamento passar, então estamos praticando a Oração
Centrante. É uma situação de ganhar sempre. Quando a luta com os pensamentos
ocorre de maneira acidentada, então se obtém um bom exercício aeróbico para os
'músculos da entrega'. O gesto de ‘deixar ir’. Há umas duas vantagens nessa
abordagem. Uma é prática e a outra é teológica. A prática é que há cem por cento de
chances de se levar a prática dessa meditação para nossa vida diária. Tento mostrar às
pessoas que esse gesto de ‘deixar ir’, praticado por algum tempo na Oração Centrante,
é apenas isto - um gesto interior. Não é uma atitude. Quando se deixa que um
pensamento se vá, algo realmente acontece dentro da estrutura física de nosso corpo;
algo vai sendo liberado. Com o tempo e perseverança na prática, começamos a
perceber gradualmente que podemos enfrentar as situações da vida com o mesmo
gesto interior com o qual praticamos a Oração Centrante. Antes de ficarmos irados e
reagir, ou ficarmos magoados ou feridos, podemos apenas ‘deixar ir’. Algumas vezes a
“palavra sagrada” pode simplesmente surgir e nos ajudar. Como parte do método, a
Oração Centrante ensina as pessoas a usar o que chamamos de “palavra sagrada” ou
“palavra de oração”, como meio de nos ajudar a deixar que os pensamentos passem.
Pode ser uma palavra como “Abba”, “Jesus”, “Luz”, etc... (Uma pequena palavra de
uma sílaba ou duas, no máximo). Ou uma palavra que seja próxima de uma atitude que
gostaríamos de trazer para nossa oração, como “Paz”, “desapego”, “aqui”, etc...
Trabalhamos com essa palavra. Não é um mantra como no sentido clássico do termo,
porque não a repetimos seguidamente, como ponto focal de nossa atenção. Ela
apenas é usada quando algo em nós se torna consciente de que estamos pensando,
para nos ajudar a deixarmos esse pensamento passar e a realmente nos lembrar o que
pretendemos, estando assentados aqui. O que começa a acontecer é que a ‘palavra’
aparece borbulhando em você, também no meio dos seus afazeres diários. Lembro-me
de uma vez em que eu me apressava para pegar um vôo. Estava atrasada, no meio de
um congestionamento. Pude compreender que não haveria meio de eu pegar aquele
avião. Eu estava ficando mais e mais irritada. De repente, não sei de onde, surge esta
palavra: “coração”. Minha palavra sagrada: “coração”. Era, “ok, deixe que passe. Meu
aborrecimento não vai fazer com que o tráfego se mova mais rapidamente. Tudo o que
vai fazer é tirar-me para fora da lembrança de Deus.” Modelar o gesto e a palavra
ajuda-nos a fazer esta fiel conexão entre o que fazemos no tempo da oração e o que
fazemos no tempo da vida. Penso que esse é o aspecto prático. Não acontece
automaticamente, mas ele fornece uma base sólida para ajudar as pessoas a
compreenderem que a atitude de “auto-entrega” é na verdade, oração na ação. A
teologia do ‘deixar ir’ e ‘deixar ser’. Teologicamente, considerar a Oração Centrante
essencialmente como a prática da kenose em forma de meditação, também nos liga a
uma das mais profundas ajudas energéticas - e eu diria ainda, profundamente Cristã e
Judaico-Cristã - que existem. Se olharmos de certa maneira, nossa compreensão Cristã
é baseada nessa idéia do “deixe ser, deixe ir”. Penso que “deixe ser”, e “deixe ir”, são
de maneira profunda, sinônimos. Sabemos que foi aquele “deixe ser”, que Jesus foi
capaz de dizer no Jardim do Getsemani, que tornou possível a manifestação da
redenção da humanidade. Sabemos - voltando um pouco na história - que foi o “deixe
ser” de Maria que tornou possível a manifestação na carne, de nosso Salvador e
Redentor. Retrocedendo ainda mais, foi o “deixe ser” de Deus que trouxe à existência
essa linda Criação. Eu diria que nossa tradição, Judaico-Cristã, e particularmente, nossa
herança Cristã, está profundamente baseada nesse “Deixe ser, deixe ir, deixe ser”. Isto
é lugar e o modo onde a criatividade do amor pode vir à tona. Isto é o segredo, esta é a
maneira pela qual a luz se faz: “deixe ser”.
Penso que é onde devemos trazer as pessoas para meditar, na tradição cristã -
deixemos que comecem praticando sobre a bandeira da ‘kenose’, compreendendo que
o que estão fazendo ao meditar na Oração Centante é aprender o gesto sagrado,
aquela atitude sagrada do “Deixe ser, deixe ir, deixe que Deus permaneça”. Então
vamos poder levar este mesmo gesto para a vida e praticá-lo na vida, e iremos permitir
que o mesmo gesto nos conduza à Presença. A grande dança da criatividade divina
inicia seu bailado dentro de nós, quando podemos relaxar nessa atitude de ‘deixar ir’,
deixar que tudo passe.
Porque meditação? Pratico a Oração Centrante porque ela foi a primeira prática que
realmente quebrou a minha ‘casca’ e me permitiu iniciar a imitação de Cristo a partir
de dentro, e não mais de fora. Se ela pertence ou não, à história real de nossa tradição
meditativa Cristã - e eu acho que não - penso que ela é tão profundamente teológica e
são tão verdadeiros os seus frutos, que ela pode ser recebida com alegria dentro do
conjunto das práticas transformacionais mais genuinamente cristãs.
Quando as pessoas me perguntam, “Por que você medita?” Não respondo que é “Bem,
porque ela controla minha pressão alta”, ou “Porque ela me deixa mais calma e
tranquila.” Nem mesmo digo que é porque o silêncio é mais agradável a Deus, porque
eu realmente não penso que isso seja verdade. O que a meditação faz é que ela muda
a nossa maneira de pensar. Geralmente, dentro do Cristianismo, quando se fala em
mudar nossa mente ou revestirmo-nos uma nova mentalidade, falamos na verdade de
mudar o conteúdo daquilo que pensamos. Então, passamos de pensamentos
retorcidos, egoístas, para pensamentos bons e piedosos. Mas o que quero dizer é que
a meditação muda nossa maneira de pensar - o filtro real, as lentes pelas quais
percebemos a realidade. Ela muda no sentido de ficarmos mais capazes de viver o
extraordinário paradoxo, o paradoxo salvador da vida Cristã. Para mim, meditação é
basicamente o pensamento místico cristão fundacional.
Expectativas na Meditação. Há uma tendência inerente em nós de ir para a meditação
com expectativas. E geralmente pensamos que sabemos o que é uma boa meditação e
o que é uma meditação ruim. E admitamos isso ou não, dizemos que um bom período
meditativo seja aquele em que possamos atingir uma prolongada e profunda quietude.
Isso realmente coloca a ênfase no resultado, e então sentimos toda aquela ansiedade
da performance ao redor, e desejamos então organizar tudo para que tenhamos uma
melhor meditação (por exemplo, mais calma, mais quieta). Algumas das melhores
meditações são aquelas em que nos sentamos, ainda que contorcendo-nos em nossa
própria pele e praticamos o ‘deixar ir, deixar ir, deixar ir’. Algumas vezes,
deliberadamente, vou para a meditação quando sei que estou absolutamente
péssima! Quando mudamos a atitude, de modo que não seja uma oração na qual
estamos buscando algo, mas uma oração onde nós nos ofertamos, pelo fato de
simplesmente estarmos presentes e de deixar que os pensamentos passem, então
qualquer tipo de controle do ambiente externo ao redor, se torna menos importante.
Quero evitar que a meditação se torne mais um ato de piedade ou uma outra idolatria.
Ela é apenas um processo através do qual encontramos a Deus, não um lugar no qual
O encontramos.
Tradução por Jandira Soares Pimentel, autorizada pela autora, a quem agradecemos.

ORAÇAO CENTRANTE - por Thomas Keating

Origem, Desenvolvimento e Orientação.

A Oração Centrante é um nome contemporâneo para a prática daquilo que Jesus, no Sermão
da Montanha, descreve como "rezar em segredo". Quando fores orar, ensina Ele, "entra no teu
quarto (interior), fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai que vê em segredo, lhe
recompensará." (Mt 6,6). No decorrer do tempo, essa oração ganhou outros nomes como
"oração pura", "oração da fé", "oração da simplicidade", "oração do coração", etc. O
ensinamento de Jesus tem suas raízes no Antigo Testamento. Por exemplo, a experiência de
Deus no Monte Horeb, como "pura experiência"; a coluna de nuvem pela qual Javé conduziu
seu povo por quarenta anos através do deserto; a nuvem no templo construído por Salomão
no tempo de sua consagração; e a exortação do Salmo 46:10, que diz, "Aquietai-vos e conhecei
que eu sou Deus". No Novo Testamento ouvimos que Maria foi coberta por uma sombra, no
momento da Encarnação; a nuvem que cobriu os discípulos no Monte da Transfiguração; o
silêncio atento de Maria de Betânia aos pés de Jesus na casa de Maria, Marta e Lázaro; e a
escuridão que cobriu a terra no momento da Crucificação de Jesus. A Tradição Cristã,
especialmente dos Padres e Madres do Deserto no quarto século, interpretou este conselho
sábio de Jesus como referindo-se ao movimento para além da consciência psicológica
ordinária, ao silêncio interior no nível espiritual de nosso ser e para além dele, ao mistério da
união que acontece na Habitação Divina, dentro de nós. Esta tradição continuou com os
hesicastas da tradição ortodoxa oriental, em particular pelo monge sírio do século sexto,
conhecido como Pseudo-Dionísio; Mestre Eckhart, Ruuysbroek e os místicos da região do Reno
(Alemanha); o autor anônimo de "A Nuvem do Não-Saber", do quarto século; a tradição
Carmelita com Teresa de Ávila, João da Cruz, Teresa de Lisieux e mais recentemente, o monge
trapista Thomas Merton. Esta tradição se tornou conhecida como contemplação Apofática.
Esta não é uma oposição à chamada contemplação Catafática, que recorre ao exercício de
nossas faculdades racionais para atingir a união divina. De fato, a contemplação catafática é
normalmente necessária como preparação para a experiência apofática que passa além do
exercício das faculdades humanas para descansar em Deus. O Sábatico do Antigo Testamento
é uma figura desse descanso. Jesus convidou seus discípulos ao mesmo descanso quando
disse: "Aprendei de mim pois sou manso e humilde de coração e vocês encontrarão descanso
para suas almas." Descansar em Deus é o termo usado por Gregório o Grande, no século sexto,
para descrever a oração contemplativa como compreendida no seu tempo. A tradição cristã
tem excelentes orientações e guias para os iniciantes na jornada espiritual, preservadas
especialmente na prática antiga da Lectio Divina, que se tornou a prática central dos monges e
monjas Beneditinos através dos tempos. A leitura orante dos textos do Antigo e Novo
Testamentos levam à reflexão sobre os mistérios de Cristo; respondendo com atos de fé,
esperança e amor; e finalmente, ao descanso em Deus, como fruto da meditação discursiva e
sua simplificação gradual. As três Virtudes Teologais acima mencionadas tornaram-se as
principais inspirações transformadoras do Espírito Santo, conduzindo à união divina. A Oração
Centrante coloca em prática as duas primeiras recomendações da fórmula de Jesus em Mateus
6,6, deixando para trás todas as preocupações externas e por descontinuar, pelo menos na
intenção, o diálogo interior que usualmente acompanha a consciência psicológica. A última
consiste de comentários e emoções racionais a eventos, pessoas e percepções sensoriais
entrando ou deixando nossa vida cotidiana. A Terceira recomendação de Jesus - orar em
segredo - parece ser a prática que mais tarde se tornou conhecida na tradição cristã como
oração contemplativa. Embora ainda haja muitas interpretações legítimas da palavra
"contemplação", o estágio da oração que S. João da Cruz descreve como "contemplação
infusa", tornou-se geralmente aceito na teologia espiritual subsequente, como o sentido
definitivo. Há na verdade, nos escritos dos místicos cristãos, excelentes descrições do pleno
desenvolvimento da jornada espiritual. Porém esse processo, desde o seu início até o final,
quando em geral desemboca na união transformativa, não é tão claro assim. Há muitas formas
de espiritualidade cristã, algumas das quais organizadas em estágios. Mas até essa abundância
de variedades e recomendações torna difícil para o 'buscador' comum, encontrar um mapa ou
guia com que possa se orientar e 'negociar'. Esses estágios vieram a ser chamados
respectivamente, o caminho purgativo, iluminativo e unitivo. O purgativo e o unitivo são bem
diferenciados, mas a abordagem de um e de outro não parece considerar adequadamente os
obstáculos físicos, psicológicos e espirituais que dificultam o processo, especialmente as
motivações inconscientes e os hábitos do comportamento negativo. A Oração Centrante foi
concebida como um caminho para se mover do início até o final da união transformadora.
Sugere um método prático de entrar naquilo que Jesus designou de "aposento interior" e por
deliberadamente desapegar-se de preocupações externas, simbolizadas pelo sentar
confortavelmente, fechar os olhos e consentir na presença e ação de Deus dentro de nós. À
medida que essa disposição de receptividade consciente se estabiliza através da prática por
duas vezes, diariamente, somos gradualmente preparados para a graça do Espírito Santo, de
orarmos, ou mais exatamente, de nos relacionarmos com o Pai em segredo. Isto foi
interpretado pelos Padres e Madres do deserto, (também a tradição Apofática), como
significando o desapego de nossos projetos pessoais, expectativas por consolações divinas,
nossas descobertas psicológicas e auto-reflexões de qualquer tipo. Na Oração Centrante, o
símbolo sagrado, tal como a palavra de oração, ou 'palavra sagrada', ou apenas um 'olhar'
interior dirigido a Deus, ou notar a própria respiração, ajuda a manter a intenção e o
consentimento de nossa vontade direcionados à presença de Deus e sua ação dentro de nós. A
Oração Centrante é o primeiro de dois estágios que levam à orar em segredo". O último
pressupõe o relacionamento com Deus além de pensamentos, sentimentos e atos particulares.
A única iniciativa que nos cabe durante o período de Oração Centrante é manter nossa
intenção original de consentir na presença e ação de Deus em nós. A Oração Centrante conduz
diretamente à experiência "apofática" ou "contemplação infusa", que é puro dom de Deus. Há
outras maneiras de nos encaminharmos ou nos dispormos para a oração apofática ou oração
em segredo. A Oração Centrante atende a uma necessidade crescente por tempo e espaços de
silêncio em nossas vidas, devido ao barulho incessante, à invasão da media por todo lado, e o
passo acelerado com que caminhamos hoje. A base teológica da Oração Centrante é abordada
no capítulo três do livro "Invitation do Love", ('Convite a Amar', ainda sem tradução em
Português). O processo da Lectio Divina é descrito no capítulo cinco e a base teológica da
Oração Centrante é melhor discutida no capítulo final do capítulo entitulado: "Toward
Intimacy with God" (Em direção à Intimidade com Deus")
Traduzido por Jandira Soares Pimentel, de texto do site "Contemplative Outreach", por
Thomas Keating, OCSO, entitulado "Centering Prayer" (Oração Centrante).