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SUPLEMENTO DE "A
Domingo, 17-9- i 950 MANHA" Ano 4.° — N.° 178

AS quintas-feiras, Quando eu me embaraçava


Paul Valery penetra- diante de qualquer problema
TODAS va, quase sempre cora relativo à medicina c à biolo-
atraso, na pequena sala agrada- gia, gostava sempre de cônsul-
vel e mal Iluminada em que se tá-lo. Em sua resposta quase ¦%

reunia na Academia, a comis- sempre instantânea. Vatary pu- V

são do dicionário, Não tampo nha muita sabedoria, muito da- ¦


.

os ouvidos às críticas amargas quilo que Pascal chama espírito


que se dirigem, cora freqüência, de finura, bem mais do que o
à Academia, e algumas dentre que Bergson denomina intui-
elas não me parecem injustas; ção.
mas devo a essa instituição ter Acabo de citar Pascal c, entre-
podido espreitar amizades que tanto, Valery não viveu no trata
em outras condições permanece- de Pascal. O tormento de Pas-
riam episódicas e incertas. En- cal espantava-o, irrilava-o,
rVÍ
tre 1919 e 1935, eu encontrava' mesmo, sem jamais fazê-lo cur-
Valery umas vinte .vezes por' var-sé. Bem sei que há uma. ¦ ¦-. •-sãs
ano. apenas, e era sempre; no metafísica "valeryana": •'•••> ela'
sussurro dos almoeos, dos jau- Intermitente, negativa, tranqui-.
tares ou dos comitês. Durante' lamente desesperada e não bas • ..*
.p «Itlmo decênio encontrei-me tan te expressa para ser do •o*
com Valery, pelas in junções das peradora.
disciplinas acadêmicas mais de Focalizemos, pelo menos eu
sessenta vezes per ano. Passei algumas palavras, esse pode
inúmeras horas sentado ao seu esclarecedor do gênio valeryam
lado, conversando em voz baixa. Em 1938, os cirurgiões franci
v" * - *-
e mesmo desfrutando com ele ses ofereceram a Valery a pn
de um silêncio em que nos com- sidência de honra de seu coi
prazlamos. Eis o que pode, na; gresso anual. Va!ery que náo
verdade, merecer uma ação de possuía nenhuma experiência
graças. cirúrgica, compôs sobre a "arte
Valery chegava, pois, cem pe- da mão" uma arenga marc.vi-
queno atraso. Excusava-se era' lhosa, capaz de servir de mode-»
toes palavras, pois era ele * lo às gerações futuras. No «Kl-
mo Inverno, quando ne celebrou
própria cortezla e entrava para a glória de Voltaire, na França
o "entretier" na ponta. dos.
livre, Valery nos fez ouvir um
pés.'.. não direi antes na ponta discurso em tudo digno dos
das azas. .^7.77 ¦ -
¦ • seus melhores dias.
— Valery- — declarei-lhe um
dia — falou-se muito de você . "Caro Valery — disse-lhe en-í. ¦•'l:ptyé
esta tarde, entre pessoas com tão — você dá coragem a nós
as quais eu me encontrava e que o seguimos de perto; ven- ....

naturalmente disse a seu res- do-o perdemos o medo de en-


velhecer".
m
peito o que penso. Como não. Aceitava êle os louvores com
quero que os meus propósitos um desprendimento enean tar-
sejam alterados vou reproduzi-
los, com exatidão, enquanto es- dor. Conhecia-lhes bem o va-
tao ainda quentes no meu cora- lor, já os recebera muitos. Da-
oão e nos meus lábios. va a impressão de ouvi-los por
Valery encarou-me, como fa- alto, não tomando jamais a atl*
zla por vezes e inclinando um tude do homem que espera ou-
tros. Distribuia-os também com
pouco a cabeça, pediu-me para muita parcimônia e quando
explicar.
.,-,.-—Alguém — retornei — de-, elogiava nunca o fazia sem
clarava a pessoas, já conquis- circunloquios. Encarava-me, por
vezes, com afeição e dizia-me o
tadas com antecedência, que
você é um grande poeta. " Gran- que era o seu modo de manl-
festar estima:
de poeta, respondi, de certo,
mas maior escritor que poeta ei — "Você, meu amigo, voco
maior espírito do que escritor". não é um romancista".
Valery refletiu um segundo e Chegando á culminância da
esboçou um sorriso. glória, julgava-se a si mesmo e
Vou — disse êle — guar- isso sem a menor afetação, com
dar isso na memória, ao lado extraordinário desprendimento.
do que disse Bergson; ¦ PIER-RE-PAUL PRUD' HON — R»»rato de Consrance Maver ( Museu do Louvre) Nenhum traço de romantismo
Que disse Bergson? nesse espírito admiravelmente
equilibrado. Acontecia-me dl- m
PAUL VALERY,
Compôs um alexandrino.
Disse: "Ce qu'a fait Valery de- zer-lhe: "Você conduziu o bar-*
valt être tente". co de Mallarmé para o meio da
E logo seu devaneio aartiu correnteza. Reconciliou o sim-
bolismo com Racine. E' um
pelo espaço afora- Tinha ele
uma maneira perquiridòra de
seguir sua própria idéia,
abandoná-la, retomá-la, mudar
de pista, esgueirar-se Falava
de MEU AMIGO benfeltor das letras francesas"
Refletia ele um segundo, hesl-
tava e acabava por sorrir.
Estava ele presente na Aca-
demia no dia em que com uma
sempre muito baixo; falava no
bigode — dir-se-ia. Tinha uma. ¦GEORGES DUHAMEL indiscrição nos manifestamos
rica memória e longa prática sobre o espírito de Montoire e a
companhia manifestou uma for-
da sociedade, mas gostava . de
interrogar, mais ainda do «ue o onde viajávamos juntos, condu- que ninguém as virtudes, Vale- doutrinários quaisquer que fos* mal recusa de adesão. Valery
vasto universo, sua surpreen- ziram-nos ao alto de uma co- ry se preservava de fazer um sem, tinha um afavel desdém. vivia, geralmente, desligado de
dente inteligência. Eu lhe di- Una ilustre, de onde se descor- uso intemj>erante. Não era um Mas podíamos nos dirigir sem- questões políticas. Mas durante
zla por vezes: "Cinco minutos tinava o vale do Danúbio. Va- construtor de sistemas e sinto- pre a ele, quando se tratava de essa longa e horrível aventura,
do mundo e você terá o bastan- lery não teve senão um breve me tentado a dizer: felizmente! um assunto misterioso e confu- manteve-se firmemente na su*
te porá refletir e inventar du- olhar para esse panorariia fa- Dispunha de um facho lumino- so, para obtermos rápidas cia- rota e soube evitar. aS.armadl-
rante toda a eternidade". N,i moso. Voltou-se, de repente, e so muito poderoso, que sabia, ridades, fulgurantes esclareci- lhas que nos estenderam. Quan-
verdade, ele contemplava pouco disse, tomando-me pelo braço: no minuto propício, dirigir para mentos. Com tais dons era um do os alemães, depois de have-
a natureza. O espetáculo que — "Meu caro, não adianta certos pontos, ou melhor, sobre ótimo elemento para os traba- rem proscrito alguns dos meus
descobria em si mesmo interej- viajar, mostram-nos por toda certos problemas. Preservava- lhos do dicionário. Eu lhe suh- livros, decidiram-se a fulminar
sava-o muito mais do que todos se, mais freqüentemente ainda, metia sempre as definições que com um interdicto a totalidade
parte a mesma paisagem". da minha obra, Valery me dis-
os que a 'Via "he apresentava. Dessa inteligência prodigiosa de dar a esses exames o que se contava apresentar aos sufrá-
.y
Certo dia, na Hungria, por de que ele conhecia melhor do chama uma conclusão. Pelos glos dos companheiros* .- (Conclui na 10.» página). ;

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2 LBTR-ASB rARTES Domingo, 17-V-1V1>0
Página
Mestre Gonçalo é de pouco
RIO. a par do sua lamo-
sá beleza, natural, c hcus
O arranha-céus, suus pinças
MESTRE GONÇALO falar, mas eu puxo por êle.
Por quanto ferra um anl.
mal, mestre Gonçalo?
seus jardins, suas desafogadas Trinta mil reis, senhoire
avenidas por onde escoa suao na- riu- XAVIER PLACER dutolre. (O bom velho não se
le"o nervoso, e à noite cons.
ajeita a essa inovação de cru-
nvnaçfio de conto oriental, o
zeiros. centavos. Para êle são
titui um espetáculo » para vela de capa-e-espada — preci- E' de vê-lo no trabalho. LI. ração. Observo-o. Noto então em os mil reis.)
olhar mais exigente. samente no capitulo em que o gelro, expedito, ao chegar um seu rosto uma ingênua alegria, E é grande a freguesia?
freguês póe-se logo em ação, uma satisfação que jamais sur-
Orgulhosa de si, a São Se-a herói se detém um instante na —¦ Cada vez menor, senhoire
bcsfciao de Estácio de Sa,e ca- estrada para ferrar o "corcel avivando com velho íole as preendi nas fisionomias cansa- dutoire. São poucos os que por
de patas mais ligeiras que brasas do fogão de tijolos. Vai das, revoltadas ou melancól'-
Oôrte de vielas tortuosas de aos espetos, dispostos ao longo cas, dos operários de fábrica, cá aparecem. E na mór parte
sai Io baixo das estampas asas". burros, que os cavalos estão de-
Dobrei, traveste-se cm Capital Olá, Mestre Gonçalo, como da parede do fundo, onde tem sentimento que se poderia en-
arrumadas as ferraduras. Esco- contrar pela Ultima vez, ha saparecendo c'os automóveis.
Federal, Cidade Maravilhoso, vai essa força? Deram cabo d'ofício de ferra-
fcmininnmentc sintonizar Por cá, como Deus quelrc, lhe algumas e com solida tenaz muitos séculos, nos trabalhado-
para coloca-as no fogo. Enquanto es- res manuais — entre artezãos dor, as máquinas. Bom oficio,
com o momento — esta hora senhoire dutolre.
da Idade Média. Sim, Mestre bom ofício, em tempos que lá
vertiginosa da televisão, do ra- Calça de brlm remendada, pera, depois de acender pela váo.
dar,, dos aviões do velocidade camisa de saco, tenho diante vlgéssima vez o cigarro que traz Gonçalo está contente de seu
supersônica, era apocalíptica da de mim um homem de peito colado ao lábio inferior, pre- trabalho. Como não ser assim? Mestre Gonçalo, alonga os
bomba atômica... largo, rudes braços afeitos ao para os cascos do animal. Tor- Vejam, vejam o cavalo afastan- olhos para a perspectiva da Su-
trabalho, rijo como rebento de na ao fogão; agora as íerradu- do-se e afastando-se cada vez burbana, onde os automóveis pas.
delicioso contraste, velha cepa, malgrado os se- ras estão encandecidas. Na bl- mais. Reparem só com que apru- sam cada qual mais veloz, um
. recantos da Sebastia- tenta invernos. Será preciso gorna, a seguros golpes de mar- mo, ouçam só a música picada após outro, um após outro, co.
nópolis que por sortilé- acrescentar que Mestre Gònçft- telo, bate aqui, bate ali, dá-lhes de suas ferraduras novas no as. mentário vivo ao que acaba de
glo váo escapando ao surto fci- Io é português? De nascimenio, os últimos retoques. Achega-se falto da Suburbana — plaque- dizer.
viiizador. Um momento ainda, naturalmente; pois tem mais ao animal, cuidadoso como se plaque! plaque-pláque! plaque- Estendo-lhe a mão cordial-
e ôsses vestígios apagar-se-ão anos de Brasil que qualquer de se tratasse de uma criança, num plaque! mente:
definitivamente... nós Sua história parece-se a de carinho que o animal parece Então, Mestre Gonçalo, o
ofício é rendoso? Adeus, Mestre Gonçalo.
Não, nem é preciso ter muita todos os de sua raça: rapazola compreender, pois abandona a Até mais ver, senhoire du-
pata docemente, coníiantemen- Co'a ajuda de Deus, vai
imaginação para na Ferraria para aqui emigrou, aqui se en- toire.
do meu amigo Mestre Oonçalo, ralzou, casando com patrícia, te. Questão de minutos, está dando pr'a comer, senhoire du-
no seu barracão em meio ao de quem tem filhos e filhas que calçado, pisando com segurança, toire. Parto, Mas a frase castiça do
descampado, à Avenida Subur. moram pelo subúrbio. Há ses- visivelmente satisfeito. Sempre sobra qualquer Mestre Gonçalo, quiçá o último
baia. lego à margem do asfal- senta anos que ganha o pão de Mestre Gonçalo guarda o dl- coisa para o "martelo" do car- ferrador do Rio de Janeiro, fica
to, sentir a atmosfera do passa- cada dia neste mesmo lugar, nheiro quase com Indiferença, rascão, hein? a soar-me ao ouvido: Bom ofl-
do or? ali vive, apreender-lhe neste duro e honesto mister de substitui o cigarro e, mãos no Qual senhoire dutoire, lá cio, bom ofício, em tempos que
o romanesco, reportar-se à no- ferrador de animais. bolsos, vem até a porta do bar- Isso só pelas Festas. lá vão!

queiro apreciar uma produção


NESTE que
ano de 1950, em
passa o primeiro
centenário do nasci-
O AMILO E JUNQUEIRO de Camilo, apreciação que veio
nas "Novidades" de 20 de abril
de 1888, e encontrámos trans-
mmlo de Guerra Junqueiro, crita nesta mesma nota de
completa-se também mais um DOIS ALTOS ESPÍRITOS QUE NÃO SE ENTENDERAM Freitas Fortuna. Diz Junquei-
quarto de século sobre o nas- ro, referindo-se a Camilo: "O
cimento de Camilo. Passou soneto que ele dedicou a Teó-
a;ore. em 16 do corrente, o a que me atirei é o términus e o velho Castilho; troça de queiro, em obras seguintes, já
1'.'.»." aniversário do nascimen- da vereda viciosa por onde as muitos outros, mas a maior do período da maturidade, se filo Braga, na ocasião em que
to dq romancista, que o Círculo fatalidades me encaminharam. contundência é para a poesia afirmara um poeta de alto va- morreram os dois filhos deste
C;„m' iianò de Lisboa não se es- Seja bom e virtuoso quem o pu- de Junqueiro. lor, sem carecer de nada pe- poeta, é uma verdadeira obra
qusceu de recordar. der ser". Assim se exprimia Logo no prefácio, depois de dir à obra alheia, embora in- prima! Na poesia portuguesa
A coincidência destas datas numa carta do seu punho, es- explicar que a idéia do "Can- fluências a que não têm esca- devem ficar três sonetos: o de
Camões: "Alma minha gentil
q.:?. recordam o aparecimento crita em S. Miguel de Seide, cioneiro Alegre" lhe havia sido pado muitos homens superio-
rn imundo de duas grandes fi- datada de 22 de novembro de sugerida por um formoso Uvro res. que te partiste"; o de João de
g;.ia.; •, nacionais, fez-me pensar 1886, às 10 horas da noite, nu- escossês, intitulado: "The book Na apreciação que Camilo Deus: "Foi-se-me pouco a pou-
n.rjs dois espíritos que não ma das vezes em que pensara of humorous poetry", come- fez de "A Morte de D. João", co amortecendo"; e o soneto
so ex..:nderam. Não estranha- suicidar-se. çam suas referências jocosas o facciosismo é manifesto; a de Camilo Castelo Branco".
rhos, porque a emulação e o de- * * * aos poetas, implicando de pas- sua injustiça mais avulta quan- Gunerra Junqueiro foi bem
s::rtc.\riimento entre homens Não surpreende, afinal, que sagem com Junqueiro e Teó- do lemos nesses mesmos co- mais generoso nesta apreciação
ilusti :;•; são de todos os tempos Camilo não admirasse Guerra filo Braga; e acerca dos ver- mentários apreciações onde acerca de Camilo, do que este
e laf-tudes. Mas é de lamentar Junqueiro. No íntimo, bem sos compilados explica: "Nes- condescende com poetas que havia sido para ele no "Can-
qu-3 a inteligência que se ai- poucos homens de letras deve- tes ramilhetes de poesias não nunca chegaram à altura de cioneiro Alegre". Foi gênero-
bsrga cm cérebros portentosos ria admirar. Não admirava há flores para jarras de alta- Junqueiro. so... mas não inteiramente
se ri2ixe obscurecer com tais quem os outros queriam, e só res nem de jazigos. Umas são Tem comentários como este: justo porque, embora esse so-
iri;e:' ovldades mais próprias do exteriorizava elogios quando a facécia antiga portuguesa, "A morte de D. João" é uma neto de Camilo seja magnífico,
homem comum. No fundo, tudo isso lhe apetecia ou convinha. sinceramente lorpa e boa; ou- desova de toda a sua originali- sobretudo na elevação do pen-
h. :n. •"!<;... da mesma pobre ar- Não tomava partido por "con- trás, são a ironia moderna, o dade francesa. Tem coisas de samento, muitos outros sonetos
g: n .. ta alheia", a não ser em caso riso amargo da decadência que tanto chiste que bem se está deveriam ficar na poesia por-
Qualquer deles, apesar das de sinceras simpatias... ou de espuma fel pelos lábios lívi- revendo nelas uma graça es- tuguesa, ao lado dos citados.
cíTit. hãs geniais que fulgiam extresias conveniências, sendo dos". E conclui nestes termos: trangeira. O que mais realça Junqueiro, no seu exagero, até
n: s tuas obras, eram perigosos todavia fiel às suas raras afei- "Quando se reformar o Curso se esqueceu dalguns maravilho-
neste livro é o que nos faz rir
qv.ohüO antipatizavam com o ções. Bateu-se dedicadamente Superior de Letras com todas à custa das desgraças sociais, sos sonetos de Bocage e de
sVd rsmelhante. Mas Camilo a favor do infeliz Vieira de as disciplinas indicadas urgen- à custa da lepra do vício..." Antero de Quental.
tc.vi.j pior, indo até à impie- Castro. Mas só a muito custo, temente pelas necessidades da E depois de outros comentários
ò#.lc e" à injustiça. No "Can- e friamente, entrou na "Quês- ciência moderna, e se criar uma onde sempre revela sua má dis-
Por que motivo teria sido o
c';.;•.'.:.':-o Alegre", quando se re- tão Coimbra", embora a insis- cadeira de Poesia Patusca, este. grande Camilo tão severo para
feriu a Junqueiro, foi primei- téncia do velho Castilho. "Cancioneiro" será a selecta posição, conclui contando
"Um
a se- Junqueiro, poeta de plano su-
ramente severo, e depois injus- guinte anedota: grande perior?! Nunca se conhecem,
E' certo que em Camilo se do curso. E o aluno então, a poeta cômico de Atenas, cha-
te diminuindo o ssu valor poé- refletiu a desorientação men- impar de antologia e antropo- mado Menandro, sabendo que perfeitamente, estas razões dos
tico e não tendo previsto o fu- tal da sua época. Mas se los- logia, como se comesse o indi- o público aplaudira delirante- grandes homens, nem eles as
turo que viria a dar-lhe glória confessam abertamente. Cami-
• -- enquanto transigia com poe- sem melhores as suas condi- gesto sr. Teofilo e mais dois mente uma comédia muito or- Io, que até à morte conservou
ções econômicas, com o extra- marmelos crus, irá à aula dos dinária e obscena de um ver-
tas ti" menor categoria. ordinário talento que possuía, saudáveis risos tonizar a arca o seu prestígio de grande es-
sista chamado Philemon, pro- critor, prestígio mais engran-
Junqueiro, ao menos, soube teriam sido assombrosas a sua do peito de ar bem oxigenado curou o versista aplaudido e decido com a sua tragédia e
aparentar que se esquecia do independência e audácia de
crítico. Numa carta que dirl-
de chaiaças luso-brasileiras".
O primeiro capitulo é dedi- perguntou-lhe: "Não te enver- que ainda hoje -^ e com ra-
agravo, e mais tarde foi gene- gonhas dos teus triunfos?" zão — é considerado um dos
roso até ao exagero, talvez para giu ao editor Chardron teve a cado a Junqueiro, reproduzin- * * * maiores romancistas da lingua
o humilhar, ou para o obrigar, franqueza de afirmar que "ad- do trechos de "A morte de
docemente, a desdizer-se; quem mirava pouco Camões". Se com D. João" e comentários de evi- Ignoro se Guerra Junqueiro portuguesa, demonstrava sem-
sa.oe se para amansar o velho sinceridade o disse, eis o que dente má vontade, começando reagiu, ou como reagiu. E não pre um certo azedume pelos es-
lc-;~iO do romantismo, que mes- nao sei. Nunca se sabe, ao cer- com a reprodução de duas com- tenho agora tempo para invés- eritores e poetas de idéias mo-
ir. 3 decrépito, ainda rugia com to, o que estes homens pensam posições"Nopoéticas, uma intitu- tigar. Decorreram os anos, e a! dernas, que vieram e brilha-
Intimamente de si... e dos ou- Bussaco", firmada ram depois dele. Não só con-
. eloqüência e espirito, só dei- lada por 1889 apareceu um livro de
atando de ser temido desde a tros... por Luis Carlos, em 1862; e ou- Camilo, intitulado "Delitos da tra Junqueiro o manifestava,
mas também acerca de Teófilo
derradeira noite trágica de São As suas famosas apreciações tra " intitulada "Na Cruz alta Mocidade", organizado por
acerca de Guerra Junqueiro, do Bussaco", incluída Freitas Fortuna, íntimo amigo Braga, Oliveira Martins, Ra-
Miguel de Seide... por malho, Eça e outros mais. Pos-
Eram duas águias, mas voa-
'diferentes... que deram brado, vêm, como é Guerra Junqueiro no seu livro do romancista, que autorizou a
ram com rumos sabido, no "Cancioneiro Ale- "Vozes sem eco", publicado em publicação — livro onde se sivelmente, quem sabe se esses
Ambos tiveram de que se ar- gre de Poetas Portugueses e 1867. Do confronto destas duas compilaram os seus primeiros mais modernos, com as suas
repender, como eles próprios Brasileiros" (Editor Ernesto composições, duma semelhança escritos, e que foi completado idéias e atitudes, provocariam
confessaram algumas vezes. E, Chardron — Porto e Braga — flagrante, concluiu Camilo que com "notas" do punho de esse azedume!...
possivelmente, esses momentos 1879). Tenho neste momento Junqueiro plagiou ;é temos de Freitas Fortuna, que nelas faz . Camilo e Junqueiro, tempe-
de sinceridade em que se pe- sob os meus olhos a primeira reconhecer que o poeta não fi' curiosa resenha bibliográfica ramentos diversos, dois gran-
nitenciaram de injustas cole- edição desse "Cancioneiro Ale- cou bem colocado. do escritor. Numa dessas "no- des vultos das letras pátrias,
ras e sarcasmos, deveriam ter gre", que muito me divertiu... Todavia — sem deixarmos de tas" se transcreve o célebre so- foram julgados diferentemen-
si<"'o dos mais sublimes. e elucidou, quando agora o vol- condenar todos os plagiadores neto de Camilo, "A maior dor te pela posteridade. Enquanto
Camilo, tão vitorioso no tei a reler. E' um oitavo fran- —( temos de levar em conta humana", que, como é sabido, Guerra Junqueiro foi dormir o
seu talento literário como des- cês de 436 páginas, com trans- que Junqueiro tinha dezassete o escreveu, a pedido de João sono eterno no "pantheon" na-
graçado na sua vida, faltou- crições de composiões poéticas anos quando publicou aquele de Deus, para um livro de con- cional do Mosteiro dos Jero-
lhe muita coisa, desde a ternu- de várias épocas, comentadas livro. Devia ser uma criança, forto espiritual, em que outros nimos. os restos mortais de Ca-
ra familiar em redor do berço com maior ou menor ironia, apenas de quinze ou dezasseis vultos colaboraram, dedicado a milo continuaram no mausoléu
e infância, até ao equilíbrio nos quase sempre com espirito, por anos, quando escreveu essa Teófilo Braga, quando este so- emprestado do cemitério, da
mais simples atos da sua con- Camilo. Percebe-se que foi pre- "imitação"; por conseqüência freu a profunda dor de per- Lapa, no Porto.
dição humana. "Faltou-lhe um meditado diabolicamente, com com frágil consciência sobre a der os dois únicos filhos que De qualquer modo, Camilo
ideal sublime" — disse Teófilo sua ponta de escândalo riso- responsabilidade em que incor- tinha. Esse , soneto fez rea- resulta muito grande. E se isso
Braga. E o conceituado crítico nho, onde não falta a espe- ria, Camilo, ao escrever estes tar as relações entre Teófilo de ser sepultado no Mosteiro
Moniz e Barreto afirmou que culação. Brinca com os versos amargos comentários, estava Braga e Camilo; e só é de enal- dos Jeronimos pode significar,
tinha "talento de carpir e in- de Tomás Ribeiro, Fernando em plena glória, ia nos cin- tecer o generoso impulso com realmente, uma honra póstu-
sultar, mas incapacidade de ex- Caldeira, João Penha e Gon- quenta e quatro anos — idade que Camilo logo acedeu a co- ma, Camilo também a mere-
plicar ou instruir". çalves Crespo; embora suave- madura, mais do que suficiente laborar nessa piedosa homena- cia. E outros lá deviam estar
O próprio Camilo, julgando- mente, não poupa referências para não lançar à cara do poe- gem, esquecendo agravos mü- — como Antero e Eça de Quei-
se a si próprio, disse muito irônicas a Camões e Bocage: ta uma leviandade da sua in- tuos- rós,
mais do que eles: "este abismo é uKluigente.com João de Deus fância, tanto mais que Jun- Coube, então, a vez de Jun- Juliáo Quinürma
FifpSP* *,*.,.. ¦¦¦•¦ ¦ .
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Domingo, 17-9-1950 LETRAS E ARTES Página - 3

uma vez que o primeiro piano


/ > <kü, cm geral, os franceses
^*4 quem torna conhecidos
^J fora dos países de lin-
GRAHAM GREENE, GRANDE d<» cs romances é inteiramen-
te preenchido, num, com o di-
/„» inglesa os grandes escrito- namistno do pequeno fiangs-
res britânicos. E, fato singu-
lar, é não só através das suas
ROMANCISTA CONTEMPORÂNEO ter, e, no outro, com n ação
Investigadora do herói que pro-
cura o "terceiro homem", já
traduções que a maior parte não é de admitir que não ou-
dos puisc» latinos toma conta- çam o "timbre do Imtrumrn-
to com Poe, Wllde. com Mel- JOÃO GASPAR SIMÕES to" quando os livros qve se
villc, com Whltman, com Con- lhe oferecem são The Power
rad, com Lawrcncc, com Mor- and the, Glory, ou The Heart
gan, com Huxley ou com Gra-
— autores ingleses gleses, Graham Greene é um Bretanha, onde se consagra- há snobismo na sua obra, é o of the Matter. Nestes o pro-
liam Greene —, mas autor de thrillers, e os seus li- vam ao estudo de uma arma snobismo da salvação do ho- blema religioso c metafísico é
,. norte-americanos vros mais reputados em Ingla- secreta. E, no melo deles, uma mem. E' Paul Rostenne, um dc tal modo Inerente à ação
também através da critica
terra são, ao que parece, os a senhora da mais pura casta dos seus críticos, quem escre- que só um cego o não vê E'
francesa que estes autores s© que dá o subtítulo de "enter- aristocrática britânica, llndis- ve: "Greene possui, num grau certo que — e nisso Grabam
impõem fora da Inglaterra ou tainment". A esse número sima, chiqulssima, introduzia muito pouco vulgar, a arte de Greene patenteia bem a Mia
dos Estados Unidos. A primeira pertence, por exemplo, um o rastilho que permitiria ao apresentar a existência huma- estirpe de romancista brilânl-
vista o caso parece perfeita- Brighton Rock ou um Thlrd autor c as suas na como um instrumento to- co — nunra os romances deste
mente compreensível, uma vez prr.prias per.
Man. livros, aparentemente cado em dois registos ao mes-- escritor cedem â linha abstra-
oue os países latinos, quer da pelo menos, simples "entrete- mo tempo, tal qual como acon- ta da demonstração, por exem-
Europa quer da América do nimentos" de amadores de tece com o piano cujo movi- püficação concreta em perco-
Sul, sempre viveram, mais ou histórias mais ou menos poli- mento visível das teclas pro- nagens, as suas teses ou os
menos, na fascinação da cultu-
ra francesa, sendo por Isso ciais. Teria sido preciso, po-
rém, que a critica
V SI voca o movimento invisível dos seus problemas fundamentais,
como é nrónrio do romance
francesa martelos, verdadeiros agentes
mesmo, naturalíssimo que aos consagrasse ao estudo da obra do timbre do instrumento". francês da linhagem da Prin-
franceses venha a caber o pre- de Graham Greene grossos e cesse de Cléves: o romance
centorado cultural que cs orl- — substanciais volumes, como o de Com efeito é este um dos as- de um Rodrigues ou de
cnta nas suas leituras não Jacques Madaulc ou o de Paul pectos da obra do autor de um Maurlac. Ainda mesmo,
francesas. A verdade, porém, é Rostenne — Graham Greene. The Power and the Glory ouando a consciência dos seus
que este preceptorado nãolatinos tem que pode passar despercebido
os témoin des temps tragiques heróis se encontra frente a
permitido que países — para que a mesma crítica ao leitor corrente. Não me ad- frente com o que têm a peito
na sua maior parte, prestem britânica descobrisse as irapli- mira que a própria critica bri- — a sua salvação, a salvação
justiça à cultura britânica no cações metafísicas da obra tânica se deixa iludir pela ce- d», sua alma —, o certo é que
oue nessa cultura se considera deste autor tão flagrantemen- lebridade que fez de Greene não afrouxa o complicado me-
mais genuinamente inglês. A te da raça dos Dostoievski e Graham Greene um autor de thrillers, entre- canismo da vida exterior, es-
persnsetiva aberta pela crítica dos Franz Kafka? Não sei. vendo nas suas obras apenas o ses mil acidentes do dia a
da Fvanca sobre o panorama sonagens preencher algumas movimento das figuras que se dia. traduzidos nas responsa-
das letras da Grã-Bretanha Suponho que a crítica inglesa agradáveis horas, entre o aperi- representa no plano dn accão bilidades da profissão aue de-
tem criado náo poucos enuívo- continua a considerar o autor tivo e o jantar, vestidos, eles, — no plano das («elas do pia- sempenham ou das relações oue
cos em matéria de apreciação de The Heart of the Matter com as suas fardas de gala, no — e esmiecendo-se de re- mantém na sociedade. Prestes
c valorização dos autores de um despreocupado manipulador ela, com o seu trajo dc noite, parar oue os seus romances a dar um desfecho trágico aos
Ihvraá inglesa, quer ingleses dc thrillers, um simples autor discutindo, em elegância, tre- patenteiam um dunlo regis- seus dias. o herói de The Heart
prònriamentc ditos quer norte- de êxito comercial — nada mendas situações morais e me- to — o registo da vida aparcn- of the Matter continua a ter
ame-?canos. mais. tafísicas. Claro que não ouso te. dos conflitos ei«e se de- de encarar a dunlicidarte do si-
Sim, não sei o que se passa Desta vez a crítica inglesa sustentar que problemas de tal batem no plano dcação, rio que se ançderou de uma
no Brasil, nelo menos no nue engana-se rotundamente, creio, transcendência não possam ser ação intensa -e vulgar, co- carta comprometedora, tornan-
qual é embora principie a acreditar discutidos em trajos de noite. mo seja a do padre foragido, do-o seu cúmnlice numa passa-
toca ao ângulo pelo autoridades gem de diamantes à fiscaliza-
vista a literatura dos Estados que noutros casos, por exemplo, O que se me afigura chocan- perseguido pelas
TTíiidos; o que se passa em no de Charles Morgan, a quem te é o fato de Charles Mor- do México, ou a do funcio- ção. caso por assim dizer "fnn- com-
Portugal, isso seio por vota visível desdém. alguma gan considerar ponto de hon- nárlo da policia, espiado pelo pletamente ostranhos ao
Frauçáe secreto, e o registo da do do problema", o qual é o
conhecimento direto. Os autores razão lhe assiste. Na minha ra dos seus romances c peças asrente
de Hngua imrlcsa fase entusiasta pelo autor de de teatro, desta especialmente, vida real. profunda, ou seja, o problema do necado mortal em
e as obras se debatem oue êle. herói, se encontra, pelo
considerados em Franca e Por- Sparkenbroke não me era dado o fato de certos problemas dos conflitos que fato de ter de confessar-se sem
trpal renresentativos da cultu- ver o que um dia se me tor- só poderem ser debatidos e vi- entre o homem e a sua eons- contrição, incapaz de renegar o
ra britânica e norte-americana nou patente durante a repre- vidos entre " gen te de bem ", co- ciência, entre o homem e Deus. amor nue o liga a uma mulher
nem semnre têm nrovado ser sentação a que assisti em Paris mo se diz entre nós. Há seja E' aí o«ft ressoam as vibrações oue não é a sua mulher legíti-
nq autores e as obras oue os da sua peca The Flashing o que.for de espírito de Petit onve o ver-
do teclado. Aí se "instrumen- ma.
ir'rJeses e norte-americanos Stream — Le Fleuve Etince- Trianon, com princesas vesti- dadeiro timbre do
humano", "instrumento Serão, porém, os conflitos re-
renutam mais característica- lant. Lida, a peça não me per- das de pastoras, nas obras do to ligiosos e metafísicos das obras
menti seus. E o equívoco — mitira dar-me conta do que ha- autor de The Fontain. que humano", no mais alto e com- mais representativas de Gra-
so há realmente eauívoco — via de snob, convencional, de lhes retira a seriedade intrin. pleto sentido da expressão, que ham Greene da ordem dos con-
iá vem de bastante longe: re- brilhante, no mau sentido da seca dos problemas neles de- é cada uma das suas persona- flitos que os ingleses compreen-
monta ao temno em oue Char- lavra, na maneira como o batidos. Um misto dc George gens. Seja como for. o certo dem e apreciam? E' neste pon-
les Raudelaire descobriu o es- problema central do drama era Onhct c de Oscar Wilde — é que se num Brigghton Rock to oue se desenham as prefe-
tranho autor de O Corvo, ver- tratado pelos seus protagonis- eis o que se me afigurou a ou num Third Man. confes- rências dos continentais, em
"grande" sados "entertainments", pode
tendo para francês as suas tas. Em cena, concretizado o personalidade do oposição às dos insulares da
obras eomnletas e aproveitan- quadro, uma penosa impressão Charles Morgan. admitir-se aue o leitor e a Grã-Bretanha, no que respeita
rio. incisivamente, as suas me assaltou. Os altos proble- Que é que se passara com crítica britânicos não vejam a certos escritores ingleses. Se
jdéífs sobre pcesia. Meias aue mas metafísicos que o confli- Graham Greene? Qualquer senãr o movimento das teclas, um Aldous Huxley goza, na
rlen©5s vieram a constituir o su- to pressupunha — a tal uni- coisa do mesmo estilo? Não. pois que a vibração dos mar- Europa continental, de uma
"verdadeiros agentes do
bstràto ideológico^ em que se dade de espírito — haviam O autor de The Heart of the telos, reputação que não usufrui na
baseo" a orientação da estéti- sido entregues a um grupo de Matter pertence a uma linha- timbre do instrumento", como Inglaterra, é nisso mesmo que
ra moderna. Com efeito, Fdgar oficiais de marinha retidos nu- gem intelectual de outra na- diz Rostenne, se mantém qua- está a explicação do fato: é
Albín Poe, o feérico do Poetic ma ilha das costas da Grã- tureza. Neste o snobismo, se se permanentemente oculta, que os ingleses preferem os pro-
Principie, aín^a hoje, em Fran- blcmas sentimentais dos proble-
ca. considerado nm dos maio- mas metafísicos, são muito
res noetas do mundo, de bem mais pelas obras que os põem
ri;i!v»;«vt.a reputação goza nuer em contacto com os as-
nos Fstados Unidos quer ria <é** <Z pectos temporais da reli-
Grã-Bretanha. gião do que com os seus asnec-
tos teológicos. Uma Jane Aus-
Em que se fundamenta este ten ou um Thackerav, um Tre'_
pn?'ívoco? Quem é oue em ver- lope ou um Dickens proporcio-
cinde está eauivoeado — o in- nam-lhes o espetáculo do ho-
?l£s ou o francês? o norte-amef- mem em conflito com a socie-
ricano ou o europeu? Eis um dade ou vítima do xadrez em
'«'"rioso
nreblema tanto mais que o destino o joga como se
fiiianto é certo sem viabilidade êle fosse uma pedra do tabu-
de solução satisfatória para Iciro da vida. Eis os seus auto-
ambas as partes. Se o evoco res preferidos; Graham Gre-
hr>"c, é porque me quer pare- ene, não. Conquanto o não re-
cer estarmos neste momento a tire do seu enquadramento so-
assistir à formação de um ciai, o certo é que o homem aue
"mito literário" — chamemos- interessa ao autor de The He-
lhe assim para responder à in- art of the Matter é o homem a
certeza da solução do problé- contas com a sua própria sal-
ma — r*e origem continental a vacão, o homem que se não
pode furtar ao cerco em que
oue a Inglaterra parece não
dar o seu nleno assentimento Deus o envolve. Crédulo ou in-
crítico. Trata-se, evi^entemen- crédulo, o inglês, pelo menos o
te. do caso de Graham Gre- inglês médio, não é homem pa-
cru» • ra se entregar a uma casuistf-
Católico, Graham Greene, ca capaz de conduzir um cato-
escritor inglês, tem contra si, lico praticante, como o herói do
claro está. o desfavor" de ser romance de Greene, ao limiar
católico. Num nais ' de maioria do próprio pecado mortal —.
anglicana matando-se para não persi \r
muito bem pode
acontecer oue um autor tão pecador. O bom senso britar-co
caracterizadamon&e católico- não se compadece com esías
r"mano como o romancista da írioleiras teológicas. Isso é bom
para nós, continentais, que
po\ver and the Glory encontre criámos o jansenismo e dêmos
uma certa reserva não só da vida a Pascal.
íarte do núblieo, mas da crítica
também. Suponho, contudo, que ^~=>-s& # *#jâfe Não me parece difícil den-ee--
der destas palavras a razão do
* razão da sua reduzida nota* X . sortilégio que um Graham Gre-
^'fiade adentro das ilhas bri-
tangas se não deve atribnir
a»enas a este fato. Para os in- Desenho de Os waldo Coeldi (Conclui na 10.a página)
Página LETRAS E rA RTES Domingo. 17-9-1950

Britando, de- rlolano ficava sorrindo, batendo


i">u, ue o b^cuclirim peioa
Chamaram.no
omoro.i e cuinurrnrpm os
po.tas. Nada üe Corlclano
UMA JANELA
palmas.
Prejuízo era coisa secundária
Queria, Um, conservar Arliuwi
reiocnuir, oc uriibütr sequer álea- num amplo mundo destituído rln
recalques, na mesma amplidão cio
çfto' a ioaa aquela Rente, (,u* 'ACCIOLY, seu passado de animal bravlo
berrando lhe petilu remédios co» 10
se se ccrtiíjCüBflü da inuillldirie íonto de BRENO E pcdla-lbe sorrindo, «brindo*
lhe oe braços.
ei" seu Juízo. — Quebre mais uma
Era Cor.Olauo dois ouvido.* sur- minha querida. «arrafn,
*•«••».
doa, recllnaúo fòore as tábuas cs* De pé, os braços soltos, Corlola- gueiros deixaram do sangrar um as coxos, pentear os longos cabo- Elo próprio entregava-lhe mais
curas do baicáo í> mi.nc;ra de um no insiste cm olhar os ijltroe, cm boi, de estrlpar um porco e um loe do Arlinda. um provete. 8
lardo. cMiur a cór alva dos vidros de cabrito melo esfolado ficou a pen- Esquecia o tempo, a lembrança E abraçavam-se beljavom-ae após
banfAna do Ipanema comenta, Arsenlo, der de um íorqullhfto. dos dias da semana abandonou. ílcar espatifado no cimento
va aquela nova loucura o quem E como ec se cansasse daquela Todos queriam umedecer os Dormindo sonhava Arlinda abriu- "Wr- do
íói".c ou ec detivesse á calçada ua posição, dirige-se pesadamente, olhos na umidade de Corlolano, do-lhe os braços, betjando-o Tr?humí06HÍUnd108 da **""<""*
Nenhuma daquelas depredações
lnimacia, encontra-la-ln a babar- caminhando até ás portas quo ver aquela Inexplicável loucura naraente. Era sonhando Arlinda
6?. a perder os olhos do forma- continuavam abaladas pelos o- lavrar um corpo que parecia se que Corlolano queria dormir. for-E tornor-lhe-iam a cabeça.
ccutlco no Invisível de imagens cos, cada vez mais sacudidos na dissolver de tanto suor. quando mirava as soluções, a
distantes. íúrla de Impacientes braços. O Suor de Coriolano abalava a ma redonda dos frascos lembra- Arlinda podia continuar
Babando, sempre babando, como O espanto silenciara n todos; o cidade que fremla de uma curlo- vain-no o corpo de Arlinda. quo indo tudo. podia continua- desTn
um novilho portador Ue febre aí- na sensibilidade do farmacêutico do roseiras com 5'
eles desceram a calçada emude- ¦idade sem limites. ácido süfiS
tesa, Corlolano alagava as tábuas cldos c atônitos como se nfio sou- E como ne um cansaço o aba- era a essência do perfume mais
co balcão, exalando aquela sua bessom o que fazer; apesar ue tesse, Corlolano procurou ura puro.
baba de pingos ltosbgg uma íetl- calado Corlolano expunha a toda banco para roclinar a cabeça, unir Todos os manhas Corlolano ta
ce?. usmente encontrada nos ro- aquela gente o seu sofrimento. o ouvido as tábuas do balcão. espiá-la.
cessos ele traplchcs. Eram de quem multo sofrerá os E a boca do farmacêutico come- Agachava-se, o coração aos pu-
Exceto as mulheres grávidas olhos do farmacêutico. Lembra- çou a soltar uma gosma, depois los, aquela espera umedecendo- 8Uas bentas fúriasi
ninguém deixou de ver aquela no- aquela baba, cada vez mais espes- lhe as mãos, percorrendo-lhe um nA^f
va loucura, respeitada c temida
pela cidade.
Dir-se-ia Corlolano babasss uma
gòtn do saliva para cada pessoa,
lecse-lhe a boca uma íonle de
vam aqueles olhos dois espôlnos
que somente tristes imagene suu-
bessem refletir.
Sem olhar a ninguém, Coriolano
bobamente dlstendla ps lábios
sa e abundante.
As vezes aquelas lemoranças
abatiam-no;
olhos e
carregavam-lhe
Corlolono via-se afastado
os
estranho frio nas costas.
Sustlnha a respiração, encolhia-
se por detrás dos velames e indlg-
nado ficava vendo o sol subir.
fã,55S
num leve sorriso. Era-lhe a lace do mundo, dos funis, das drogas Nesses instantes pensava em do-
inesgotável velo. lavada por um suor que lhe che- que os frascos rotulavam venenos. ença, nalguma súbita viagem dis- xá-ia viver sem freios
Pedira Pe. Bulhões em paz o Via-se andando pela beira do rio, tanciando Arlinda . Mas quando viu
deixassem e nlngucm do Jarm.i- gava aos punhos. o oup «-
ecutico gc aproximou, ficando Ca- E como a blusa mostrasse a des- revendo aquela manha em que Ar- do
üm repentino ódio espremia-lhe seus olhos insistem
em retrS8
r.olano a babar, livremente a ha- coberto uma parte do seu peito, linda se penteava debaixo os olhos, encravava-lhe as unhas tar, reconstruindo aquela
tril"
poder-se-ia vêr o coração do far- uma árvore, refrescando o rosto nas mãos. se. estivesse relS:
bar durante dois dias e duas uol- macêutlco sacudindo 03 banhas com os afagos do vento, repartln- O! Como Corlolano se transfor- fc5omo
orando o maior de todo*
fs, as portas escancaradas a ,»
mostrar aquele gratuito Impresslo- numas fortes pancadas, num In- do os cabelos para frente. mava ao Arlinda aparecer I CT138
-„ auando viu
o 02
tenso pulsar. E essa visão trazia-lhe aqueles Corlolano esquecla-se, relaxava teria negado se lh'o contassSm
nnntò de uma inesperada .ragódja. Ainda atônita toda aquela gen- os músculos, abria os lábios numi afastou dos lábios
Continuaria Corlolano babando te média Coriolando de cima a olhos como duas lanternas ver- ximos e Possíveis todos o? S'
des ardendo nos rosto de Arlluda, longo e amoroso sorriso ouvindo sorrisos-
no tererira dia, cn:rcianto ss lhe baixo, como se quisessem ossq- trazia-lhe aquela bárbara beleza a aqueles passos que tanto êle sabia sentiu o coração doer fülmiÃ
apresentavam amortecidos t:s oinos nhorar-6e daquela súbita trans- distinguir. nado por um impacto
c.mo se o tempo a pouco c p:m- formação, penetrar no segredo da- recompor um penteado, ainda de re- inespel
cc 1òd:c envolvendo o farmacc.ui- corpo úmido, envolta numa levo Amigos aconselharam-no,
co numa pesada sonolência. quele horrível sofrimento. combinação que lhe modelava cs dargulram-no, não, nfto estavam «cPhÍT.Í2sos* crisparam-se-lhes
No espaço da porta o farmacêu- selos, delineando-lhe as coxas de acordo. °,s .^acos e .outros frascos
Imóvel, ainda debruçado só'or? Arlüida devia quebrar, Oorio- que
o balcão, Corlolano parecia dor- tico suava, era Coriolano um au- com firmeza. Coriolano nada escutava, nada
têntico poço de suor; suor que Essa visão sempre os seus olhos via a não ser Arlinda. Surdo e lano os quebrou mas, os mie-
mir, como s.? çà verdade a baba lhe grudava a roupa A pele, desf brou como Arlinda
o houvesse aniquilado, pois ã oic- retlveram e Coriolano via-se por cego para o mundo estava o far- ria. sempre sorrindoos quebrai
tíida que aumentavam as pegas do arte realçando-lhe a gordura mal trás de uma moita de velame, cie macêutlco que noites acordou naquela
distribuída do corpo. cócoras, a espiar urna Arlluda que abraçado ao travesseiro, pensando estranha satisfação de destríur
gosmas, invadia-lhe o rosto urna Ninguém sabia a causa daquele em abraçar Arlinda, pois todos os Era uma antecipação de tra-'
naccraçâo cadavérica. suspendia os braços, repousava as
Era o principio do fim. Supu- suor, o motivo de Coriolano suar mãos nos cabelos, descia-as acoin- seus sonhos traziam-na, entrega- qUC CorioIano wpresen-
táo brutalmente. vam-na. fa?á
nham. E todas ás vezes que Pe. Davam palpites, falavam, fala- panhando os fios longos, táo "E* um crime que veeè vai Não queria se convencer, ne-
Bulhões tentou saber a causa de longos como cordas de harpa. gava, mais intimamente con-
tamanha desagregação, Caríolano vam. Sempre-de cócoras por detrás da cometer".
o repeliu abrindo os braços, sem- Alguém exigiu a presença de Pe. moita de velame Coriolano cou- "No mundo existem mulhe- sentia, via-se traido.
Bulhões e como no meio dêias venceu-se que Arlinda era uma res mais bonitas, Corlolano!" Por que Arlinda não destrui-
pre nessas ocasiões lembrando houvesse um espirita, lembra- "Repare a família, olhe que a ra totalmente a farmácia?
duas presas de um monstruoso perfeição.
caranguejo. ram-no. E chegou a esquecer-se que não mãe de Arlinda é uma â-toa". Perita, des-
Coriolano continuava auando "Deve ser paixão, Corlolano, de- tr,EirSQaii^tima
truira-lhe as ultimas energias
sabia nadar, mas que devia atra-
Des funis caem pingos. São sem tomar conhecimento que a vessar o rio, aproximar-se daque- pois passa". de uma razão mutilada.
pingos de xarope, de vermelhas cidade se alvoroçava por sua Corlolano uma rocha; firme. Coriolano, esmurrou a
causa. les olhos verdes, possuir aquele
Êle queria Arlinda, aqueles de- da frente. Queria também porta
infusões que os funis estão a íil-
trar. .Continuam os pingos mde- Perto do Monumento, um telha- corpo numa demorada posse, ou-
zolto anos cheios de lnfantilida- truir o mostruário, espatifardes- as
do deixou de ficar concluído. vir mais de perto aquela cantiga. vitrines, aumentar as queima-
íinidamenté caindo, e às vezes Sentada sobre uma pedra Arlin- de, aquele corpo desabrochando
ê!:s tombam tão cadenciados che- E a náo ser as mulheres grá- Corlolano queria, e imaginava-se duras que os ácidos lhe ha-
grndo a sugerir notas de música. vidas, todos se abalaram, todos da começara a cantar.
adormecendo naqueles braços, ca- viam feito às mãos. já
queriam constata» o suor do far- Era uma cantiga de infância, Exausto, sentou-se ao meio
Evola-se de um frasco desrolhaJo conhecida pelas crianças insones, indo num tranqüilo sono, sem-
um ch&íro de açafrão. Dentro de macêutlco. pre embalado por aquela cantiga dos próprios destroços.
Era o suor de Coriolano que a uma cantiga cheia de sono, pró-
lüna caixa de vidro uma balança prla para fazer dormir a cantiga de ninar: para a angustia de sua As imagens tomavam corpo.
do ponteiro sensível acusa um. cidade queria ver, eram aquelas paixão dolorida. apresentavam-se-lhe mais for-
máximo de desequilíbrio. Toda a soturnas pulsações que o povo que Arlinda cantava de olhes
caídos. tes. pensou em muitas coisas.
íí rmácía de pernas para o ar, às queria escutar. A voz maternalmente dizendo: A baba engosmava-lhe as fei- mas tudo se lhe afigurava irre-
avessas. Tarde de nuvens sangüíneas, de ções enquanto o povo se lnter- mediavel. Em vingar-se desis-
Cariolano levanta-se. olha uma vento morno aquecendo os fru- "Dorme, dorme filhinho rogava, longe de supor que da tiu, mas começou a vingar-se
prateleira, dirige o rosto na dire- tos, levantando das estradas uma figura de Arlinda partissem os quebrando à maneira de Ar-
ç.".o dos pacotes de alvaiade. poeira vermelha. que mamãe tem que fazer ventos de tamanha tempestade. linda, destruindo durante a ma-
Despreza a cór azul dos vidros. rouplnha pra lavar Sempre a suar Corlolano via-se
Tarde agonizando o sol nas bõ- camisinha pra coser." drugada como Arlinda gostava
Voita a olhar os filtros dos enor- cas dos morros, sacrificando a mu- possuindo Arlinda, mamando de destruir.
n:?s funis e andando sem rumo, Arvores quietas, uma pesada aqueles seios quase dois botões,
slca dos sinos num enterro as- calma ressaltando o marulho do Por que tamanho capricho
dn esquerda para a direita, enfia sexuado. penteando aqueles cabelos numa da natureza? Que espécie de
furiosamente as mãos nos bolsos. rio, tudo ã maneira de um enor- noite clara, cheia de nuvens, que
Tarde profunda, própria para se me ouvido a escutar a cantiga que amor seria o daquele surdo-
Uns passos decisivos levam-no enlouquecer, para se suar desper- a voz aveludada repetia. se distanciavam, sugerindo enor- mudo?
aíé à mesa. tando no meio de um intenso mes pássaros brancos. Coriolano não descobria a
As gavetas acham-se abertas, Lá em baixo uma fileira de bur- Depois, Arlinda fugindo-lhe dos
suor antigas paixões, remotas ros era uma paisagem de carava- razão daquele amor, nem podia
rn-.s Corlolano torna a fechá-las, lembranças de pecaminoso desf»?- braços correndo de campina a fo- imaginá-lo sem palavras amo-
prva nbrí-las em seguida. sim na silenciosa. ra, enquanto êle a perseguia rosas.
sn*>er o que procura, abrlndo-as, cho. Desde aquela manhã Coriolano transpondo rochedos, vales,
Tristeza, solidão, eram 03 únicos su- Se ele não tivesse visto Arlin-
ír^-ondo-as com fortes baques. começou a errar velhas- fórmulas. blndo difíceis montanhas, pos- da pular a janela, jamais acre-
E este breve silêncio realça no- elementos que sem eles a tarde a esquecer-se de aviar receitas suindo-a outra vez, exausto, der-
vãmente a queda dos pingos, rpié- não podia sobreviver. urgentes. ditaria naquela fuga. Negaria.
Arados revolviam os campos e xubando-a sobre uma planície de Juraria por três vezes-
dn r.lstemática. alternada, mesmo Os seus olhos viam somente Ar- ervas rasteiras. Mas os seus olhos ficaram
nvisícal. machadadas eram respondidas por linda, aquela face de olhos verdes
outros • lenhadores, por outro3 A' principio uma Arlinda cheia cheios daquela visão; bem
De um funil uma solução esbor- somente Coriolano sabia dlstln- de beleza, uma Arlinda de lábios cheios como se estivessem so-
ra. originando um filete que lhe ecos. guir dentro de sua desnorteada
Castigadas pelo vento ás -olhas doces, prometéndo-lhe tudo, mas, brecarregados e a todo instan-
empapa os chinelos, começando a de quase todas as árvores eram ; imaginação. em seguida delineam-se aque^s te expulsassem os segredos da-
tingir-lhe os pés de vermelho; en- nervuras de galhos ressequidos, es- E muitas foram as vezes que 6e terríveis dias, enegrecidos por quela noite.
tretanto Coriolando de nada se turricadas pela seca. Sobre o lei- encontrou querendo dissolver sais tristes lembranças de aspectos Chico Barriga, devia ser o
apercebe. to as últimas águas do rio tem- insoluveis, pesando três, sórdidos. homem mais disforme do mun-
Todos os seus sentidos acham- quatro
se presos a uma única imagem, porárlo Já haviam passado e ape- vezes a mesma coisa; acompa- Uma outra Arlinda quebrando do. Todo o seu corpo uma bar-
nas n'alguns poços o íôdo esver- nhando erradamente as oscilações prateleiras, rasgando páginas do riga, os seus membros quatro
positivamente a uma forte e Ont- da balança, debitando contas lne- arquivo, destruindo botijões, rom- cambitos.
ca imagem que o tortura. deava pedras.
Vezes sem conta, punhos marte- A loucura dominava o crepús- xlstentes, manipulando drogas de pendo um mapa silencioso de duas Como Arlinda podia se unir
larani as portas, da farmácia cha- culo. i efeito contrário. Compreendia pêndulas atrasadas. àquelas banhas, abraçar aque-
mr-ndo-o impertinentemente. E os homens quase a correr, porque errava, mas gostava da- Seria criancice, estariam-lhe os Ia batata inglesa, amar tama-
Corlolano nada ouvia, deixando vencendo ruas, transpondo pontes, quele seu erro, achava mesmo nervos abalados? nho surdo-mudo?
as portas como estavam, violenta- assemelhavam-se naquela pressa'a bom refazer tudo. Coriolano afastava todas essa9 Ele se escondeu por trás do
mantos sacudidos pelos socos, aba- um apressado êxodo. E deixava a Imaginação acarl- suposições. - peitoril e deixou os olhos acom-
Ia das pelos gritos de fortes mur- Lojas foram fechadas. E ;.çou- ciar os seios, correr as mãos sobre De pé, recostado na porta Co- panharem aquela fuga, segui-
ros. rem todos os gestos de quem o
4- Seu Coriolano, pu quero óleo traia.
de cravo p'ro meu dente. Coriolano mal podia escutar
os pés de Arlinda fugindo, lem-
E as portas rangiam nas do-
bradiças sacudidrw, mais
mente os fregueses gritavam, es-
murravam as tábuas.
forte-

Pelo amor de Deus, seu Co-


POEMA brava um- sonho aquela
ção. - .
De cabelos soltos Arlinda as-
semelhava-se à uma louca per-
dendo-se na noite.
trai-

rlolano, eu não posso mais. Abra Antes eram aquelas quadras


a porta pela alma de sua mãe. que enciumavam o sensível, e
È castigavam a calçada como se
a culpa fosse do cimento, «5 ba-
HÉLIO BARBOSA MARTINS apaixonado coração do farma-
tendo com os calcanhares num, - ceutico. .
De baixo do sabugueiro. Ar-
sinal de revolta. Esperneavam. v- ioí morrendo sobre as cosas, nessa luta que armamos para que se enlacem linda soltava as trancas, rima-
Seu Coriolano, abra essa por- va de propósito, com intenção
ta. abra. a indefihlvél mágoa da melancolia. o sonho e vida, o ausência e amor.
E as dores também expulsavam Á onda fugitiva que acalentando chega, de magoa-lo. ,
Coriolano suplicava-lhe, lem-
p-ngas. palavrões que os í.regue- a hgihVi onda que ferindo passa, X No afã de se ejejraj^e.q sonho brava-lhe nomes de fados, oe
ses misturavam aos nomes de a vaga do amor, que é crueldade e encanto. e de olvidar a ausência, cantigas, de rancheiras, ae
sa 'i *os. sambas, de valsas.
Não foi devido aos critos nuí1 juntamos, nossas mãos E certa vez ajoelhou-se, para
C~rio1rno pp nós >le pé nem len- Vê-se a rosa que freme, e em desespero "--.-< com uma voz mon-
tar#'rn'té movimentou os pés. sus- o perfume que esquece, notamos que volta sangue no silêncio unda. vencida:
Sedir-lhe .
n-n^nvjrjn j, cabeça, além do pou-
e a manhã que anuncia. dos dedos que se erguem ao carinho .— Cante outra coisa, mmna
j?.-- os olhes nos frascos de pas.fci;- querida Arlinda, cante aauela
Uns riç-c-^-inc oos sais de vobre, Ma» t, ííiw,o leva sempre um pouco de tormento. cantiga aue eu gosto, tuao e
amarelos botíjõc.-. E no coração que amamos sempre abrimos No | coração que amamos sempre abrimos
Todos esses seus gestos if-eme- fontes de láarimas e de desencanto. fontes de láarimas, de desencanto. (Conclui na 8.a pág.)
lham-se a uma despedida.
Domingo, 17-9-1950 LUT R'A S U ARTES Página
--• ¦-—

Pode-se mesmo não estar do

CONF£»SO
que prefiro
Alberto Camus nessa
simples prosa de jornal,
UM MORALISTA: ALBERT CAMUS .-.•.indo com èle, o eu direi quo
ssü não tem quase a m-ior
Importância. O que cotita è a
escrita no decorrer dos acon- qualidade do que êle diz. como
tcclmentos, começada quando de ningucm saberia dizê-io, mas
dos clarões da insurreição mais aca- I AC QUÊS MADAULE nem sempre é impossível Ucs-
Paris, que nas"Les obras ¦cobrir quais foram seu* mos-
bailas, como Justes", mas
vida. Nessa altura, o moralista slmistas quase que têm razão, três. Uma compararão entra
onde me parece que a surda ou Gide e Camus seria, a tal res*
fiama não é tão ardente, quo a não pedia deslnteressar-so da pelo menos os que sabem
julgam saber, que tudo quo
ik * -
atualidade» sobretudo se desva- política, pois quo Camus é ho- peito muito instrutiva, Gide,
nece um pouco. Não é que as
obras de um grande escritor
bretudo isso: um moralista.
Não no sentido que se lhe da-
M
MM K
muda é só em aparência. Mas
Camus pergunta se os próprios
como Camus, também quis alis-
tar-se num partido, seguir uma
va tradicionalmente em França, fracassos não serão também direção política, mas míuea o
valhain sobreiudo pelo seu per- ainda há vinte anos: um obser- cm aparência. A vis- conseguiu. Não direi que cie
fume de atualidade. Os real*o vador lúcido, às vezes cruel, ta do homem c tão curta co. fosse filho de uma época feliz,
mente grandes escrevem para outras divertido, dos costumes mo a sua vida, e como lhe pa- mas de uma época, ao menos,
eterno. E foi também com essa de seu século e de todos os sé- rece girar sempre no mesmo cir- que se julgava segura, e min
largucza de vistas"Lesque Albcrt culos. Camus não c um obser- culo de minorias e injustiças, era. pelo menos, plácida. Ca-
Camus escreveu Justes",
êsse drama da pré-revoluçao vador, e eu nada conheço tão persuade-se com demasiada fa- mus cresceu entre as duas guer-
distante de uma observação rea- cllidade de que o esforço * inu- ras e sofreu duramente da que
russa, tão sobrepassado nojo lista e um tanto desabusada, tll. Mas Camus é também dos mal acabamos de sair. Não po-
pelo procedo de Budapcst. Mas
estamos ainda multo impres- eomo a sua. Mas é um mora- JÊLlQiaÈÊIÊSÉR ' 'a ^wJ^ÜIIK' que julgam que o homem tem de, pois, deixar de seguir um
desse lista, no sentido em que a mo- uma direção, como se diz de um caminho, quando começou : es-
sionados pela figura ral é, para êle, a última regra rio que vai em uma direção- crever. Esse alistamento ê uma
acusado que não somente con-
seus crimes; das coisas, mesmo e sobretudo Não sabe qual, pois que não é segunda natureza. Não lhe "ou-
fessa pretensos da política. um crente, mas adere com tõ- be escolher, nem querer: bas*
mas ainda lhes junta mais ai- Êle tem pelo realismo de cer- das as suas forças a essa dirc- teu-lhe não se ter recusado.
guns, e se desonra para o Par- tos politiqueiros o mesmo hor- mmmkswk ¦ trL $%mm ção desconhecida, pensando que Era impossível que tvto s*5
tido antes de ser enforcado por ror que Cisorges Iternanos. -en- nisso c profundamente francês, suscitasse a Camus o probloma
êle, para nos interessar pelo sa que se impõem certos impe ffl?9MMK$ÊiMm BB* .'<'<-¦<;***
visto o pessimismo dos france- de suas relações com o cria tia-
destino de homens que ainda rativos, quaisquer que sejam as Albert Camus tes ser também apenas uma nismo que é precisamente o
falavam a mesma linguagem circunstancias e o desfecho da aparência. que êle recusa. Mas csea pró-
que seus carrascos. ação empreendida. O que há a que Camus é dos que não con- Não se pode ser mais francês pria recusa é testemunho de
Com efeito, um dos aspectos salvar é a honra: a de Paris sentem que se desespere do ho- que Camus mas, no entanto, é tal nobreza, de tal vontade n»
mais pungentes do drama de a da França, a da imprensa, .1 mem. E tanto mais que, para um francês de uma outra terra, compreensão que se ;vns:\. fcpe-
nosso tempo é que os homens da cátedra. Não opõe, como 011- êle, o homem é a primeira e a pois que é originária da África sar dele. na frase de Polvouoln
já não falam uma linguagem trora Peguy, a honra à felicida- última realidade. Se o homem do Norte, e parece que é a luz sobre Paulina: "E* demasiado
comum. Ningucm tem sofridr. de, pois que entende que a uma se perde, tudo se perde com êle; quente e dura do Mediterrâneo virtuosa para não ser cr?3tá".
tanto disso como Camus, e se é a condição da outra, e tam- quando se desespera do homem, que ilumina seu estilo. Sóbrio E' pelo menvs assim o\\i 03 eris-
alguém se esforçou por manter bém se recusa, apesar de Goe- desespera-se de tudo e o com- clássico, não sacrificando nada tãos o julgam, mas devem te- a
a todo o custo essa linguagem the, a impor a injustiça à de- bate já não tem nenhuma sig- ao efeito fácil ou ao sentimen- humildade, de reconhecer rue
comum, foi êle, nesses artigos sordem ou a justiça à liberdade. nificação. Escrevia num jornal talismo, mas carregado de um pouco dêlcs sabem levar a '"'-.se
de jornais, cujes primeiros fo- Essas coisas ou se mantêm jun- se intitulava surdo fremir, cheio de esperan- grau » preocupação d» hv-
ram escritos à noite, após um fas ou se perdem juntas. Al- "Combat" e que eraprecisamente
que
o órgão do ças. Dir-se-la uma dessas águas manidade, essa caridade do
dia de batalha, quando Paris guns o tratam, com certeza, de movimento de resistência — transparentes e sombrias, onde gênero humano, que fez .*. ^-a?:-
ainda não sabia o quanto lhe idealista, pois que se resigna- "Combat". Nisso consistia to- tudo se reflete com perfeita deza do esíoiclsmo dos <«»mpns
custaria a sua Libertação. ram há muito a perder muitas do o seu programa. v,ainus nào exatidão, mas onde quase nada antigos. E já que acabo »?e ei-
Esse jornalismo intermitente coisas para salvar apenas algu- crê nas virtudes da guerra, mas transparece do fundo, a não sei crever essa palavra, rc5^ «ne
não é ura"La acidente na obra"Ga- do mas. No entanto, talvez seja nas do combate, c sabe que não a certeza de que êle existe em não será inexato ver em fJ^niiis
autor de Peste" e de êle o único verdadeiro realista, há batalha mais dura do que a qualquer parte, e que é quem o mais recente desses c-íeros
ligula". Certo é que nunca se pois que se recusa a desespe- que nós temos que empreender vê essa tonalidade sombria. Se que a França tem proáuzldo
filiou a nenhum Partido, mas rar. dia a dia contra nós mesmos. Insiste no estilo é porque, ali- em todas as épocas trá?iras d»
não era possível que um homem Vimo-lo descrever outrora Ainda do ponto de vista moralis. nal de contas o valor dos pen- sua História e que são uai de
como êle não fizesse ouvir sua com crueldade, o mito do ab- ta, como se vê. Que resta des- samentos de Camus vem so- suas mais autênticas glórias, o
voz, quando o que estava em surdo, e podia-se tê-lo confun- ses ardores, dessas esperanças bretudo de sua expressão, que
dido com os nossos espíritos ao cabo de alguns anos? Pouca é a que lhe confere a sua In- também, talvez, a maii igno-
jogo, não era esta ou aquela re- coisa, aparentemente, e os pes- comparável nobreza. rada. (SFI)
forma mas o próprio sentido da mais negativos. Sabemos hoje
Considero, sim, Foi'-
jornalista e escritor
português Álvaro Bor-
O dalo conseguiu avis-
Fernando Pessoa não é poeta — afirma nando Pessoa um grande ta-
lento, mais ainda: àarnio
que, como critico e como ivo-
tar-se, há pouco, com o poe-
ta e escritor Teixeira de Pas- dogmaticamente Teixeira de Pascoais nista não houve outro que ú
igualasse...
coais, que velho e doente,
vive inteiramente retirado 'ODE E mais adiante:
dos ambientes literários. Foi UM JULGAMENTO ESTRANHO SOBRE O AUTOR DE MARINHA" No meu entender, po-
bem curiosa a pergunta es- de intervém, concordando no primeira grandeza e possul< rém, não foi poeta. Repare:
sencial que Bordalo dirigiu Respondi que aqueles
do episódio, mas dor de um talento extraor- não digo que foi mau poeta.
ao poeta e mais estranha quem toda gente fala e nin- interesse Digo que não foi poeta, isto
ainda a resposta deste. guem lê, e"E'Fernando Pessoa acentuando sua pergunta: dinário? é, nem bom nem mau poeta,
rematou: também a mi- — Entrando a fundo na «««.n-i» nrprisa bem
Gostava de saber o que precisa oem seu foi-o só com exclucão cie to-
nha opinião". questão: não considera Fer- Pascoais
pensa de Fernando Pessoa. Neste ponto, o jornalista nando Pessoa uma figura de ponto de vista: dos os outros, desde Homero
Suas alusões irônicas ao até aos nossos dias... Veja
"Supra Camões" e ao "Sumo
a "Tabacaria": não passa de
poeta da atualidade" parece uma brincadeira. Que poe-
não deixaram.lugar a duvi- sia há ali? Não há nsnhu-
das de que Fernando Pessoa ma, como não há nada, nem
não lhe merece muita con- sequer cigarros!... Fernan-
sideração como poeta. do Pessoa tentou intelectua-
Evidentemente — res- lizar a poesia e Jsso é a mor-
ponde Teixeira de Pascoais e te dela. E' roubar o espòri-
o advérbio merece ser grifa- ¦1^2 SLA Cj^?m ^B^ ^H Ba^H Zmmmm IQnH H ¦^^^^mbWitB taneo à alma humana, isto
do. é o que ela tem de Alma
E como o jornalista lhe Universal ou de poder repre-
peça os fundamentos dessa senta ti vo da realidade. Veja
opinião, Teixeira de Pascoais BflB^^^M ^B Wtti fl WS HMT*^"fl^fl*^B mmmMâ^mmmmm^SUmmmi^ÊmrWmm wUlEi • o poema (poema?) que co-
com toda franqueza, com wê vfl Iü» WAV iENk^MJr ^mm ^JíbIbbj FbmtjRjbbv meça: "O que nós vemos
uma franqueza mesmo des- Hl BmLvJUl.^^1
D*W tbI BH***-- BBflflflBVi
be^*~* hh áwj VAYÍBfl
B&^^H BH^^Z
BuIfb^I B9I ^YJBj^V ^.Bb
Bm
iS^H
das coisas são as coisas..."
concertante, se espande: Isto não é poesia nem filo-
Conheci pessoalmente sofia, nem nada. Não é poe-
Fernando Pessoa, mas con- sia, porque nessa visão das
vivi pouco ou antes, não coisas elas mostram apenas
convivi com êle. Tinha um flBJfl ^r j| P^tnPffLW flM PjBBjfflcs^rBifl BB BB a sua superfície, criada peio
aspecto misterioso... Olhe: seu primeiro contato com a
era quase só nos elétricos nossa sensibilidade, e por-
|P^ahA.I^^É| vV JP*^^ bb bb\^^b^ bb^"bbv WJ BE^B bjIbm*1*7^^^^^ Cg
que o encontrava (exceto tanto, sua mais falsa apa-
uma vez em que conversei rência. Não é filosofia, por-
Ifl "ní II
VJi BBi IH Ba IbI k BB Br/t bk. I BUbI 7^9 rSÈp^^^TW
com êle no Martinho da Ar-
cada). E a propósito, ocor-
Sil wíÁwà wIII que sobre e?sa aparência
não podemos construir ne-
re-me que, numa ocasião, nhum sistema interprefcati-
entrando eu num elétrico vo da existência, cujos ulti-
W^^ik yfl ^ftjl BB^DF ^Tnll* •^SBff^B wr Á^m\ BkvA ES^^^^av^bI ^^^^^mJÊmmwB
(recordo-me bem era da mos limites se estendem,
carreira da Estrela) deparo talvez, inspiradamente, pa-
com Fernando Pessoa que fl wp w gBftfc^M^oSPB Pa flflJCj ZT^?z^ft**m KiH ra além de sua constituição
me pergunta de chofre: "já atômico-elétrica, Fernando
notou uma coisa, ó Pascoais? Pessoa quando era lógico
Há escritores de quem toda BB BB B^P" ^^BW B^BJujmflRjBj Hl^fl vAw Bi?
na prosa era ilógico no ver-
gente fala e ninguém lê e co.
outros de quem ninguém fa-
Ia e toda gente lê. E destas E depois de esplanar ain-
duas espécies, quais, em seu (Conclui na 10.a página)
entender, tem mais valor?" Xilogravura de \ AIN MACNAB .

«MWkNMM - -~ -1 i».™*««*—r«4»^..,,,,:¦¦: --¦¦¦¦


Página LETRAS E rART ES Domingo, 17-9-1950 Domingo, 17-9-1950 L li T R A S B A l< T E S Página — 7

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"Comédia Ausonia Salvador Dali e Lorca "Onda Selvagem", de Conde


Novo volume da José
Humana"
Acaba de aparecer o sexto volume cia
Da Itália nos chogn mala um número, "Ausonia",
revista intcrnnclonnl de nrte e litoratura,
o 45. da excelente
que ae
edita um Sicna, sob a dircçfto do poeta Lulgi Florentino.
O centenário JLefcadio Heam Nas grandes llvrarlns do Barcelona acabam de aparecer,
atualmente, duas obra» que estão despertando grande uten-
çAo do publico espanhol: "Salvador Dali visto por au her-
Outorgando ao presente ano literária
uma alta expressão de vitalidade e di
cunho artístico, José Contlé acaba de PU-
"Comedia Humana", de Balzac. un edição Trazendo, como sempre, colaborações de grandes nomes das mana", de autoria de Ana Maria Dali, e apresentado pela '^ÍW? blioar, pelas Edições Cruzeiro, o seu ro>
o "Ausonia" "niponixou", Editorial Juvcntud e um interessantíssimo "Bpistolarlo do mance do estréia, "Onda Selvagom", qui
brãBllelra organizada por ritulo Ronnl letras italianas dc hoje e de autores estraugoiroc,
O escritor que se revelan npão ao munoo
apresentada pela L.lvrurln Uo Globu. Esse ó revista que se recomenda pelo seu elevado padr&o cultural Garcia Lorca", cem prólogo de Sobastian Gash, apresentado Já obtlvera, cm disputado concurso, a qui
voíumo, que vem Impresso em papel mui- e pelo farto noticiário sobre o movimento literário no mun- por Edicloncs Cobalto. Tb*i' iTíg.i yy concorreram mais du .r>ü(l originais, o am.
.o superior no dos anteriores, possuindo do, que estampa. este ano o Em 1891, mudou-se para o Ja- blclonado "Prcmlo Malheiros Dias".
material; encerra
ns3lm llsonjoiro aspecto "UnuH centenário dc nascimento do encontrar verda-
pâo, onde veio a "habitat". Corieio de Portugal Nesse romance, que de inicio o inclui
Mlronct" o COMEMORA-SE seu Como entre os mais .singulares Hedonistas brasi-
dois grandes romances
"Eugenia Grandet" e alguns contos c uo- O romance de Jorge de Lima Lafcadlo Hcarn, curiosa fi- deiramente o
loiros José Conde exibo, plenamente ama*
Wcnceslau de
velas de primeira crtlem, como o admirável o guru da literatura inglesa. o escritor português Acaba de aparecer o segundo volume dc poemas dc Leo- durecida e configurada, a mais firmo di«
"Cura do Tours". Enriqueço Um dos próximos lançamentos da Editora "A Noite" vai Nasceu êle numa ilha jonica, onde Morais — o homem que trocou :i nor üe Almeida, Intitulado "Crispações". reçfio de sua vocação literária, quo tac
emocionante ser "Guerra dentro do Beco", o romance de Jorge dc Lima na frase dc Fidelino Fl-
o volume um estudo de Salnte-Bcuve sobre o pai era médico militar dc uma sua alma, expressivamente se espelha no Jornalismo,
que será, sem dúvida, um dos mais importantes aconte- e gueiredo — Lafcadio Hcarn adap- Com um prtííiclo de Vitorino Ncmcslo e editada pela om novelas e contos, « em outras atlvlda-
Balzac. além das Introduções e notas do cimentes literários do ano dc 1950. O grande poeta brasi- guarnicão inglesa dc ocupação "Inquérito" teremos, dentro de alguns dias o novo volume
Paulo Ronal. teve o nome de Lafcadlo unicamen- tou-se dc tal maneira à vida ja- de poemas du Antcnlo du Sousa "Livro du bordo", que é,
des intelectuais. lio!ornando a tradleiU
lclro apresenta, nessa obra dc ficção, um desenvolvimento brasileira do romance urbano, e fonallznn*
romanesco* de muitas dc suas preocupações líricas e meta- te porque a pronuncia inglesa do ponesa que se niponiuou completa- na dclinlçuo do autor, uma visfio panorâmica de todos os
mente. Pós-se, então, a revelar os do um conflito de caractero s dentro de um
Um que desprezou o sucesso fisleas. nome da ilha c Laícadia. Orfâo de gêneros por ele cultivados ate agora. quadro social pouco explorado, como é o da nossa burguesia,
pai e mãe, desde muito cedo,
foi aspectos, as paisagens, a psicologia, o Jovem escritor pernambucano se firma caitro os bons cul-
Hrrvcy Allen, o escritor americano falecido em ílns do acolhido por uma tia materna, ini- o folclore do país cm livros curió- A açAo da novela "Porta Aberta", que Jofio da Silva tores do nosso romance. Trata-se. sem dúvida, de uma es-
an 3 passado, tornou-se famoso com a publicação do sen e a misantropia síssimos, dc leitura sempre ameno Corroa publicará, ainda este ano, passa-se numa aldeia da
Stendhal ciando, então, uma vida incerta e médico
tréla definitiva no gfinero, e que enriquece, fundamental-
rorsrmce "Anthony Adverse", obra de gênero popular que ni- irregular, na qual não foram pou- e interessante. Foi cie quem cha- serra, onde vão procurar saúde aqueles a quem o mente, o nosuo presente no editorial.
cr. ceu extraordinário suceeso, sendo vendidos um milhar, o aconselha mudança de ares.
Em "Luclen Leuwen", um dos romances mais profunaos cas as aventuras. mou a atenção da Europa para o Vendida em leilão a biblioteca de Evaristo
quinhentos mil exemplares só nos Estados Unidos. Apesar
de Stendhal o também dos menos vulgarizados, encontramos Aos 19 anos ia para os Estado» Japão nos fins do século passado, Ferreira de Castro recebeu uma expressiva homenagem,
d/ o, o nutor nfto qids continuar a explorar o gênero, pre- um diálogo que, segundo a oplnl&o de André Rousseaux, em de Morais .
ít: ndò escrever obras sérln3 de c:nrntcr blo-critlco, como "Le Monde Classique" Unidos c ali se punha a tentar a quando aquele país era desconheci- há pouco, em Paris. O Pen-Clube da França ofereceu-lhe
revela, de forma admirável, o que há do no Ocidente. Casando-se com um banquete com o compareclmento de mais de tento e A biblioteca de Evaristo de Morais foi vendida, há pou«
^Israel", importante estudo aôbre Edgard Poe. de mais especifico no espirito do autor. sorte no jornalismo. Depois de ai- cos dias, em leilão. Compunha-se ela de três mil livros o
uma filha do país, passou a leeio- cinqüenta escritores, tendo sido o homenageado saudado,
"O senhor é miBantropo?" — diz um personagem para guns anos de luta inglória, casando- num expressivo discurso, pelo presidente da referida enti- arrematou-a o conhecido livreiro SanfAna pela quantia de
Livro sobre Ruy em segunda edição se com uma mulher de cor, viu-se nar inglês na Universidade de To- 20 mil cruzeiros.
outro. E o outro responde: dade, Jean Schlumbcrger.
a8im, aou misantropo por amar demasiado a hu- forcado a emigrar c ei-lo, agora, na quio, acabando por naturalizar-se Nada mais melancólico, de certo, do que o leilão dc
Lançado pela Livraria Martins Editora, circulara em"Ruy
ae- manidade". Guiana Francesa, de onde continua japonês, êle também. Circucstan- Também em Portugal, como no Brasil, se publica mais uma biblioteca.
gu da edição o livro de Humberto Bastos, intitulado no entanto, a colaborar nos jornais cia que lhe trouxe, no entanto, cer- título de três livros de poc-
verso do que prosa. Eis aqui o"Além Esporte e literatura
Barbosa, Ministro da Independência Econômica do Brasil". Uma revista de Bauru americanos. LafcAarn tos embaraços, pois se como sudi- sia. recentemente aparecidos: da noite", de Antônio
A c3gunda cdiç&o desse livro vem revista e aumentada de "Poemas sem musica", por Maria dos Anjos Pa-
Em 1882 já havia manifestada to inglês podia lecionar na Univer- Quadros; "Retrato Num inquérito sobre "Esporte e Literatura" assinalamos
novas anotações bibliográficas. "Brasllltas", Inte- sidade independente de concurso, radelas; de mulher", de Armindo Rodrigues. algumas respostas curiosas: De Paul Vlalar: "Escrever um
Está circulando mais um número de seu pendor para a literatura, tra- distantes setflko e quanuo
ressante revista cultural que se edita em Bauru, no Interior duzindo um volume de contos de como japonês viu-se obrigado a cur- livro é uma "performance" esportiva". De Thlerry Maunier:
Literatura contemporânea publica o priBuo de contos O escritor Joáo de Barros, tâo conhecido no Brasil, pro- "Eu
paulista, sob a direçáo do poeta Tolentino Miraglia. O pre- Theophile Gautíer. O feérico orien- é já nesse am que se desen- var-se a exigências das quais lhe queria escrever uma peça esportiva". De Henry Plchet-
nunciou, há pouco, no Porto, uma importante conferência te: "Tenho a poesia como um ato esportivo". Do critico Ro-
sente número, com 64 páginas, trazendo colaborações de resultaram sérias contrariedades. centenário se comemora
Genolino Amado está ministrando, nn Faculdade Nacional conhecidos nomes das letras nacionais, reflete bem o pano-
tal, o pitoresco exótico das terras rolam as nisto sobre Guerra Junqueiro, cujo berfc Kemp: "Eu desejaria que o teatro e o esporte fossem
de Filosofia, um curso de extensão universitária sobre litera- rama intelectual da importante cidade da hinterl&ndla ban-
este ano. irmãos". E finalmente a de Julien Benda: "Gide faz da ideal
t\'-- i. lorânèa. deirante. Peguy, Mauriac e Bergson consi' um pretexto para esporte literário".
José César Borba e o teatro Medalha do centenário de Ruy Barbosa
derados maus católicos
jacques Maritain e a conversão o acontecimento artístico mais importante do mès é 0 nosso companheiro Brito Broca foi contemplado, pelo
*p****f**r|***f de Sartre aparição de José César Borba como diretor de uma comi: Inlstro da Educação, com a medalha comemorativa dc O padre Ducand-Bourget, que há poj-
B*-'aM
nhia teatral ora em exibição no Teatro Fenix. O jovem eflfcntenárlo de Ruy Barbosa. co .atacou vivamente, sob o aspecto reli-
desembarcou, há saista brasileiro de há muito renunciara ao brilho dos s gloso, a obra de Paul Claudel, estendeu
Jacques Maritain "Santiago" esses ataques a outros osorltores tidos como
pouco, no Havre, vindo de Nova York, plementos domingueiros, numa conversão à arte dramatlci católicos: Charles Peguy, Mauriac e
para uma permanência de dois meses na Agora, em companhia de sua esposa, Sarah, êle confirma

O
"acadêmico" desconhecido
França, onde pretende realizar um curso
e terminar dois livros, um dos quais es-
tuda as relações do homem com o Estado.
E que pensa de Sartre? — pergun-
sua paixão pela vida teatral. "Caminhantes sem Lua", bem iei.
Encontra-se em circulação mais uin numero da"Santiago",
peça do casal, e que ora se exibe, merece ser vista e sauda^ revista de informação cultural espanhola,
como feliz resultado de uma incursão pelo mundo dos ba^d* se edita nesta capital sob a direçáo de J-Carlos Gon
J7T!
*T\ Jflü.
Bergson, que nos últimos anos de vida
se converteu ao catolicismo. Corroborando
ia com essas críticas, outro padre, Luc Le-
fèvre, declarou: O livro de um aviador
Para a vaidade dos grandes escritores, de certo náo
dores de escritor dos mais bem dotados de sua geração. ilves Fidalgo, tendo como redator-chefe Manoel Garcia. — "LI setenta e sete vezes "Les deux
será muito agradável este fato, há pouco divulgado ¦¦ ^^Rfl2***H^nÍÍMfll
tou-lhe um repórter. sources de Ia morale et de Ia rellgion" Pierre Borel, que por volta de 1911 fez seu6 pri-
"Les Nouvelles Litternires". Um dos colaboradores Estou certo — respondeu Maritain nelros vôos com os aviadores Leganew e Martlnet,
por — de que Sartre converter-se-á às dou-
Viajantes Um belo romance inglês e afirmo que Bergson é o Inspirador de
um livro intitulado "Ecrlt sans le vont". todo pre.
ele
do referido jornal, foi procurar Jules Romains, no pré- todos os erros desses escritores". para
dio de apartamentos, cm que este reside, na rua Sol- trinas de São Tomás de Aqulno. Os escritores são, como ficou expllci- jomposto de Impressões de viagens aéreas.
De regresso da Europa, passou pelo Rio, onde se dem Em "No Man Pursues", um dos mais recentes lança- to: Claudel, Mauriac, Peguy.
ferino, cm Paris. Mas. como se esqueceu do número, rou apenas dois dias, o sr. Henrique Bertasso, sócio da eutos de "The Bodley Head London", o escritor Hugh Sy-
perguntou á encarregada do edifício se sabia onde Últimos livro** vrarla do Globo, e uma das figuras de destaque do nosi Davies fixa a história de um desertor que vive fora dt A vida de Mallarmé
morava .Tules Romains.
Quem? — inqueriu a mulher.
mundo editorial. listência habitual da comunidade, temendo Ber descoberto Um livro sobre Craciliano Ramos
"suspense" é focalizada de uma Indiscutivelmente um dos livros mais completos
Um acadêmico, da Academia Francesa... BOTÂNICA DIVERTIDA, que Anísio Godinho escreveu e preso. Essa atmosfera de
Procure no número 6, parece que há vários de- as EdiçõeB Melhoramentos publicaram, com multas gravuras, aaneira que testemunha um alto e vibrante tratamento O ensaista H. Pereira da Silva, que vem de publicar um que já se escreveram sobre"Viea notável e estranha per-
les por aqui... conta vários segredos da vida vegetal. Obra curiosa e Iterario. Ao mesmo tempo que relata esse drama interior, ensaio sobre "A Megalomania de Machado de Assis" preten- jonalldade de Mallarmé é de Mallarmé", de Henrl
Encontra-se nesta Capital o escritor Edgard Cavai hr íugh Sykes Davies abre ao sef. personagem as portas da re- de lançar, ainda este ano, um ensaio critico e psicannlítlco 38.a edição e da qual disse
Wondor, que já vai na sua"Relerei
Precisamente, no 7, ao lado de Jules Romains, instrutiva. to, diretor da sucursal da Editora Globo em Sáo Paulo pençáo. E' 'realmente um belo romance, de enredo catl- Jovem es- d crítico Robert Kemp: sempre este extraor-
I mora Maurlce Bedel, que já escapou de ser acadêmico.
Um mau sonho Moacir Werneck de Castro verteu "Major Bárbara", uma
r"<» tem sido multo visitado pelos seus amigos. *¦ante e de nnp"^ 'es artisticas inesquecíveis.
\
sobre o romancista Graclliano Ramos. O livro do
crltor brasileiro
Simões".
Já foi programado pela editora "Organização ainário livro".

Napoléão escritor1
Acabo de ter um mau sonho — disse o agente das mais atrevidas peças de Bernardo Shaw. O volume traz a ' "La Cazette des Lertres"
chancela das Edições Melhoramentos. **!*J!""^,'irw^wk ****">ti***"r
editorial de Bernard Shaw a este último. Sonhei que m /r^^^*^^*ml*wf ir^^ MW^fJjmÊ^ **fiifii ^KSSSg
o senhor vendia sua nova comédia à Metro Goldwyn, A sra. Nada Toniche defendeu tese na Sorbonne,
que a comprava pelo preço recorde de cem mil libras. xemos recebido com regularidade, pelo que multo agra- escolhendo para assunto da mesma o seguinte: ••Na-
E chama a isso um mau sonho? — volveu Shaw. - Obra que ensina, sob a forma de- agradável história, i decemos, "La Gazette des Lettres". excelente hebdomadário poleáo escritor". Convém lembrar, a propósito. que
Sim, é que acordei antes de haver recebido meus de literatura" e arte que se edita em Paris. Sainte Beuve, Stendhal, Barbey d'Aurevllly, Lcnson,
- ^^Ké^CP'
"Maja, aventuras
Wf ¦ i^ *%r//í A
duma abelha", das Edições Melhoramentos,
des por cento. Original de Waldemar Bonsels e tradução de Huberto Rohden. I li/ Vi jBmflF B» Livros de escritores paulistas
Ferdinand Brunol e outros consideraram
grande escritor e mesmo escritor de gênio.
Napoleâo
O espírito de (ohn dos Passos
A um jovem amigo, que acabava de apresentar-lhe Uma revista de Alagoas Apesar das restrições editoriais, os escritores paulistas
na A França e os gênios
a noiva, o escritor americano John dos Passos fez esta continuam ativos como sempre. Assim, são anunciados, "Banco
safra literária do corrente ano, os seguintes volumes:
corajosa e espirituesa observação: Organizada por três jovens escritores provincianos, Fran. "MfciBiítfc"" *"r ^^^Jl ^^^^"P^*""""*fcra*&n^""àv5B^^^""B**^^^^B "SiSBülflmÍM ",— "Mulheres, freqüentemente", de duas mu- "mots a tu-
Ag mulheres seriam a coisa mais encantadora cisco Vaiais, Edson Zambrano e Arnaldo Jambo, está"Caetè", sentio %T KBS ; 1 c ¦ de Três Lugares" e Acaba de divulgar-se um dos últimos
do mundo' se pudéssemos cair-lhes nos braços sem recebida em nossos círculos intelectuais a revista fí ^^PHMH jf*W "fc *TB mNk ^^ ^^ B\l\\i^^0 -Awr B ^QmfTMKm WBêBm,rw!m\ ' VVMk***Bji rÉS^BB i lheres, respectivamente Maria de Lourdes Teixeira e Helena prlt", de Sartre. Como uma senhora sua amiga lhe re-
lhes cair nas mãos. de Alagoas, terra que possui uma firme tradição literária, r 1 í mTii n^CTMiliftr^n^
-THi mm r fl
'# mE- i^¥ LJy Silveira; "Boa noite, Rosa", livro de "O
está há vários anos;
contos de Fernando Góls
Patriarca e o Bacha-
cordasse os tempos difíceis, em que o escritor andava"
com trajes surrados, em quartos de hotel de terceira
pelo contingente de escritores que forneceu á metrópole. *fc. i^^SBa^B ^lilT>*,>j::if
\ ^T„ ¦ A Ml Jti \0 0 L^ i vl^à que Já pronto
Geraldo Vieira, íe- — "E agora, a gloria; el-lo
Os clubes do livro nos Estados Unidos rei", ensaio de Fernando Gois. E José categoria, para concluir.
I

Existem nos Estados Unidos sessenta e dois clubes


Esse primeiro número dessa publicação contem colabora-
ções do Padre Teofanes de Barros, Hercilio Fonseca, José de M^^ykmmi^w^^^^ m. L nÍ m Uf frlfeHIN r?> cundo como sempre, anuncia dois romances e um livro de
poemas.
homem de gênio", a resposta de Sartre nfio se fez tar-
dar: —"E'... a França anda mesmo multo pobre de
de livros, cuja atividade se manifesta de diversas ma- Gois Andrade, Theo Brandão, Silvio de Macedo, Jorge (Joo- gênios, que se atira logo a qualquer um quo aparece".
mm vieiras. Recentemente, Carl Brandt fundou o 63.°, o
Clube dos Clubes, que confere um prêmio simbólico
per. Carlos Maliterno; Paulo Géis, Floriano Ivo' Júnior, Wan-
derley de Gusmão, José Augusto Guerra, Oscar Silva é de
"Novos mundos em Vila-Teresa", no cinema
í.u., ao melhor livro aparecido no mês. Mas,'a verdadeira seus diretores. Escritores alagoanos radicados no Rio, como O livro de Dirceu Quintanilha, recentemente premiado Nova edição das obras completas de Balzac
mãos de
José Auto c Ledo Ivo, também colaboram, e há colaborações pela Academia Brasileira de Letras, encontra-se nar.estudos de
recompensa é reservada aos leitores. Aquele que com-
pra na livraria do Clube suas obras pelo menos, rece- de poetas de outras terras, como Fernando Ferreira de Loan- KMWm^m^^^míí^BKÊKW^
*to^r***"***| ***f M il\ m11
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*HI M t?^
*¦ ^1 (*p Watson Macedo, diretor da Atlantida Filmes, para Uma edição das obras completas de Balzac, orde-
berá em casa o autor do "livro do mês", que irá lê-lo da, Mauro Motta e Edson Regis. argumento. Relembre-se, a propósito, que Watson Macedo foi

JPT^^rylll
nadas pela nova classificação adotada por Albert Be-

IIJmP
de
\i. ¦ a domicilio. "Caeté", pelo seu espírito de valorização da província e des- quem transportou recentemente para a tela o romance guin acha-se em curso de publicação. O prefácio do
Imaginem Faulkner ou John dos Passos, lendo coberta de novas vocações, inclui Alagoas na maré de renova- Gastão Cruls "Elsa e Helena". segundo volume, que acaba de aparecer, é um mag-
seus romances num palacete da Quinta Avenida!... ção intelectual de outros Estados da Federação. níflco estudo de Alaln, que já escreveu um livro sobre
"Ccsar BI-
Ás previsões de Wells ^flr* I m i^^lf^^ 3mvJ^^m\ t I li Lk 'i 1 111 Fl flM. «I ¦ O romancista José Geraldo Balzac e compreende os romances e contos: "La
As letras brasileiras na Sorbonne routeau", apresentado por André Maurois; Bal de
Criticado, severamente sobre o absurdo de certas Sceaux" e "La Bourse" por Gaetan Picon; "Factno
teira Cano", por Albert Beguin e "Ferragnes", por Blalse
previsões que fizera no seu livro "A História do Futu- O prof. Robert Ricard, catedrátlco de
ro". Wells limitou-se a dizer: CentrarB.
"Não respondo aos meus críticos agora. Como íngua e civilização luso-braslleira na Sor- A obra de ficção de José Geraldo Vi-
poderia justificar-lhes o acerto das minhas previsões. oonne, organizou o seguinte programa para eira vai ser toda traduzida para o castelha-
Eles me esperem até o ano 2000 e veremos então no, tendo sido seus direitos adquirido por Um dicionário premiado
a seu curso: Autores: Magalhães Gonçalves
quem está cem a razão". uma editora argentina. Vem a propósito
(História da Província de Santa Cruz); lembrar que o último romance desse es- A Academia Francesa pela primeira vez concede
Como é difícil escrever. . . Vieira. Brasileiro (Antologia Brasileira); critor, "A ladeira da memória", publicado verificou
um prêmio a um dicionário. Foi o que se "Diccion-
Gonzaga (Marilia de Dirceu); há uns seis meses, não teve a repercussão agora: o prêmio Salntour de 1950 coube ao
Gilberto
Sabe-se como tem sido penoso o trabalho de ai- que merecia em nosso ambiente literário. naire generale des mots et des assoclations d'idées", de
guns escritores e citam-se, a propósito, entre os iran- Freyre (Casa Grande e Senzala). Temas: Mas onde andam os nossos cr^icos que
ceses, Roger Martin du G,ard, passando 15 anos a es- Paul Robert. .
Os Jesuítas no Brasil; Açúcar e caíô emudeceram todos?
crever "Les Thibault" e Colette, que consome, ás ve- no
sés, vários illis para escrever uma página, opondo-se
essa lentidão à fecundidade dos escritores americanos.
Mas estes vão revelando, por sua vez, como a arte
c difícil.. Hemingway trabalha, há dez anos, num ro-
mance que ainda não terminou e Erskine Caldwell de-
clarou, recentemente-
— Começo a sentir quanto é difícil escrever; acon-
Brasil; Ruy Barbosa, vida e obra. $ã

Mais um "sebo" que desaparece


Mais um dos populares- "sebos'\f dá rua São José que

ãíí§HKite*ifPÍKl
; *Mtf*0^^Su^m^mt*m~m*m*mw^m'^m\ itiflfllr^TfÉ ' ff I /LI & 1' I I I â. m*^*^P^"1*
Uma revista de poesia
A circulação de "Poetry", uma revista londrina cujo nu-
mero 18, de maio deste ano, traz colaborações de George Bar-
ker James Reeves, Gavin Ewart, Vernon Watlcins. lain Brean Flet-
r
Uma frase de Charles Boyer

No álbum de uma'jovem admlradora que lhe pe-


dia um autógrafo, Charles Boyer escreveu este pensa-
mento*, sem duvida esplrituso, mas que se duvida que
desaparece: a chamada Livraria Educadora; cujo estoque
^^^mm mmMM^ÊM^^mmm^^^^m9l^^^^^ ^^flh .^¦i^rflflflflfflflflF^irlIflflfl^Sr *T*¦* ¦ Jfl^^jÉ * v m 0 B ^2^t ? ^ ^¦"'•¦^^SEfe'-. cher, Basll Tomlinson, Edwing Morgan, Louls Johnson, seja mesmo dele.
tece-me. às vezes, passar três dias sem poder traçar "Revista Brasileira — Flertar é correr atrás de uma mulher até que
está sendo liquidado. Ainda há pouco outra conhecida casa e outros, vem lembrar á
Douglas Newton"Orfeu"
uma linha, e, quando a escrevo, risco-a logo... de livros usados da referida rua 'também liquidou «eu esto- de Poesia" e a a necessidade de reaparecerem, prosse- ela nos apanhe.
que, transformando-se em estabelecimento de venda de discos. 'Os ' guindo assim numa tarefa de estudo da poesia que não pod*
Xilogravura de IVAN LÉBÉDEFF.tfJ Vagabundos". d* L.n^í ser desentranhada da apreciação do nosso movimento literário. gg ggg
kf^.mmm

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Página — 8 LETRAS E ARTES Domingo, 17-9-1950

estereotipada, um cem nútnaw


suscitada er.i do sedimentações da rotina
tomo da arte não-fJ- sua aceitação exige umu réu
AQUARELA gurativa, tem prescindi- são o uma atitude diante j,
cio de argumentos qua vinham coisas que a burocracia intekc
fundamentar opiniões omiti- tual por preguiça ou má
das.
Nenhuma dlacuaaão
cará sem quo funcione
frutífi-
c pen-
CRÔNICA FIGURATIVA naturalmente, repele.
Reagir contra o insirasmol
academlci8ta a que se quer ip.l
sanicnto lógico, c assim, se pos- duzir a juventude é ato de <sá.
sa ter do assunto o dos seus nídade artistica.
elementos, uma idéia precisa. DJANIRA E BURLE-MAX
Opõe-se ao não-flgurotivis- SANTA ROSA NO "FOYER" DO FENIX
mo, a arte reprcsentativi. Mas. A temporada que o casal os
qual delas? sar Borba está realizando no
A simples idéia de que toda temer em nossa era. o desen- tes — linhas e ritmos — que as volta a cenas iormas e, quan- Teatro Fenlx. Inclui entre as
arte válida tem que ser repre- volvimento do uma curva de associa integralmente. do. tortos esses elementos sem- atividades artísticas, exposições
sentativai envclve uma curva evolução ainda náo concluída. O recente desenvolvimento pre que são retomados estôo de pintura, desenhos, cenários
muito ampla, na qual também Iniciada no Cubismo, que ti- da Gestalt, também, por sua enriquecidos das novas expe- e livros.
se inclui toda arte acadêmica. nha como funçáo lírica, liber* vez, amplia o sentido da arte. riencias depurados no tempo, No "Foyer" do teatro, estão
E* preciso, pois, definir qual o tar o quadro da natureza, alargando-lhe os horizontes. de sua ganga espessa. expostas atualmente, desenhos
conceito exato, para não se res- isto é considerar-se o quadro Seria, pois, estranho que o O Abstracionismo representa da Burle-Marx e pinturas de
tabelecerem formas falidas e como objeto autônomo, a re- artista, ser criador, demiurgo para a perplexidade em que se Djanira além de livros sòbrc
inartisticas. Com essa idéia criação dos objetos através das formas, não fosse tentado encontra a arte atual, o coro- teatro da Livraria Pierre Be-
simplória de que a arte deve dessa libertação, tenderia na- pelas aventuras do espirito, e. lário lógico, a conseqüência da res.
ser figurativa, imediatamente turalmente, á aspiração de se limitasse ao rês-do-chão da cadeia do pensamento plástico No ambiente do "Foyer", in-
e3tão a cia incorporados or. uma liberdade total aspirando imaginativa. do nosso tempo. corporando obras de arto. se
já relegado» á musicalidade. O aprofunda- E' ingenuidade, também, realiza um trabalho louvável
piores pintores, a consideração da* O Abstracionismo esíá para em prol do espírito.
pela evolução plástica do nos- mento dos estudos estéticon. pensar que certo néo-academismo atual,
so tempo. Qual será pois o ti- geralmente ignorados, leva a formas puras entravara o fu- . Associando as artes, num es-
crer ingenuamente aos co- tu ro artístico da humanidade. como o Cubismo para o acade- forço cada vez mais admirúvn),
po de figurativterao fix?do? O mismo dos princípios do sé-
Realismo o Impre.'>3!onísmo ou mentaristas limitados uma or- Só uma idéia fixa. convencio-
culo. pois nessa obra de divulgação
o Surrealismo? todoxia sem nexo, que essa as- nal e arbitrária, faz esquecer artística se incluem os nomes
Partindo dessas premissas, piração não passa de um jogo as etapas da História* da Arte. A prova de sua vitalidade de artistas Indiscutíveis o ca-
em nomo de que poder-se-A exterior. na qual, se pede estudar o pro- está na recusa de certos espl- sal César Borba mereço o apoio
estabelecer a estética do novo A correspondência das artes, blema dos ciclos artísticos, da ritos. O Novo desagrega as de todos os que procuram' no
academismo eclético? em sua essência, estabelece en- criação dos estilos da internai- convicções armazenadas, o há- calor do quotidiano, um oasia
Náo vejo em que se possa tre elas uma série de constan- tcnpia de certos elementos da bito condicionado, a formula de arte e espírito.

sinho de fonte e a cabeça pen-

FINDOtempo
o jantar aquele»
convincente repasto
amainado por digestivo
PAGINA DE ANTEONTEM dente de pétala com que apren-
dia a se ves-ir e despir. Acmcias
seis moças eram a fartura da-
oaldo lusitano, minha tia e ma- quela casa e foram a riqueza da
drinha, a viuva d. Carlota der- 'ATTILIO minha meninice. No Io. andar
ramava a sua gordura sobre a MI LA NO do prédio, à rua do Hospício,
cadeira de balanço, enquanto habitava a família -e no 2o ins-
minhas primas no azáfama da enovelavam rodas, rodas num deitavam, enrolanao as trancas vilho e de vara de marmelo, eu. talara meu falecido padrinho, o
juventude despiam a comprida sonho indireto, bolas, circulos a ou desnudando as madeixas em repito, lá tornava a imprecar, probo retratista português sr.
mesa dos sobejos da comida, do- cachos de um castanho vivido, turbulento de inflexões metáli- Manuel Santos Moreira, meu
brando uma a toalha, outra de- que só faltavam dois pingos e
dois traços vertical e horizontal belas entoando o langor de uma cas: "O de nós que tombar ge- tio por afinidade, a sua oficina
volvendo o vinho à cristaleira. modinha ou ajoelhando-se aos lará a lâmina da espada, pois de fotográfica, célebre na cidade e
outra varrendo a poeira de pão para sugerirem os olhos e o nariz onde muita vez retoquei c per-
e a boca, tudo redondo de mo- pés da cama na vez de dormir, nenhum o sangue é digno de
entre os pés dos móveis. Eram cidade, de certo rapaz da loja belas desse pundonor arcaico, correr por amor dela!" "Lindo! fil de gente ilustre. Mas isto são
seis moças ao todo: Hermengar- defronte. E eu tinha ciúmes, herança católica da honra bur- Lindo! Não é, maninha?" Stella reminiscências. O de que ainda
da, Stella, Jandyra, Nair, Car- sussurou "psiu!" para a irmã. me lembro em meu padrinho é
lota e Maria, prendadas pela enquanto as oito horas nos avl- guesa, onde o pão é amassado
exímia educação daqueles dias, savam da sua chegada ao grande com o suor da labuta. "Repete Das seis três eram mais idosas, ca- dos seus óculos escuros sob ou-
relógio de pé a um canto da pa- aquela fala do duelo, meu filho". bendo-lhes lecionar, acudir, re- tros vidros de aumento quando
corroborando a austeridade da Rogava tia Dodoca e eu, in- escrevia ou lia, o que lhe dupli-
existência materna nos tra- rede e pela janela entrava a preender, até mesmo batizar as
quietude patriarcal da noite an- centivado em adular a matrona, outras, espécie de sub-mães, no cava a austereza do aspecto.
balhos do retratista e nos "Já está ficando tarde, vão pre-
misteres do lar. "Carlotinha! tiga. Minhas primas foram be- minha tia e madrinha, que Deus embrião de esposas. Mariazinha
Vá buscar o jornal". E aqui en- Ias, minhas primas eram belas haja com a sua bondade severa ainda tinha direito a bonecas: parar ps lençóis. E o chá?" Er-
trava eu em cena, com a jatân- desde que acordavam até que se entremeada de biscoitos de pol- vestia-as, despia-as com o ri- guia-se tia Dodoca, com a cos-
tumeira bata ampliando o fastí-
cia do declamador, sentava-me da sua figura. "Amanhã 11-
rodeado de circundante silêncio gio
e encetava a leitura do roman- ção de piano, ouviu d. Carlcti-
ce só interrompido na véspera • nha?" Carlotinha foi a única do
porque era em folhetins. Não UMA JANELA minhas primas que não quis en-
velhecer... As outras vivem, car-
sei em que precursor anéJito ia regando rugas e netos. Como po-
eu molhar as letras da minha (Conclusão da 4.a pág.) Mas por que tamanha trai- naquele rosto, apesar da mu- e
recitação, que assim aos doze ção? Se não pudesse viver sem dês de seu marido. de uma pessoa estar presente "Jan-
anos cumulava de angústia os seu, Arlinda, mas não cante trair por que escolhera Chico A maneira de uma bailarina termos saudades dela?...
ouvidos em torno suspensos da isso não. Barriga? atravessou o quarto, e com uma dyra! Vá apanhar os meus chi-
punhalada dos meus gestos, do A sentença da cantiga impe- Isso o revoltava. Adoecia-o. rapidez de ladrão fugiu pela nelos". Jandyra porém não en-
luto do meu olhar: "Conde! Não dia Arlinda de ouvi-lo: prolon- Se Arlinda tivesse se entre- janela. trava no quarto sozinha, tinha
o matareis e se o fizsrdes, oh! gava-se cruel, sádica e matrel- gando a um outro, ele seria um Ainda reclinando o ouvido medo da escuridão que àquela
ra: : despojado, simplesmente um sobre o bacão Coriolano revê hora se expandia pelo casarão
que se me turba a mente ao di- "O barco está no mar corno no meio de tantos. tudo isso musicado pela canti- alto e longo. Até um cabide de
zê-lo, a vossa mortalha será ne-
gra como a espessura da treva!" O meu marido p'ra morrer Mas ele ser traido por Chico
Barriga, por um surdo-mudo?
ga do barco, ele de flor na la- pá como o relógio da sala de
As lunetas da tia Dodoca salta- antes morra meu marido pela cásantío-se ao escurecer,, jantar lhe surgia diante do sus-
Que amor encontraria Arlin- um coro do órgão enternecendo to como um fantasma de muitos
vam nesse ínterim do nariz se "Se oo barco
que barco se perder."
muitas pétalas de rosas, punha-
entumecendo para que o muco se perder da se entregando àquele sana-
dos de arroz, corolas de bran- braços enfiando muitas roupas!
não tenho dinheiro p'ra pagar teiro, que espécie de caricia "Qual! Ou muito me engano ou
não se transformasse em choro:. meu marido se morrer Chico Barriga podia lhe dar? cos lirios repousando um ra-
"Estou que o tal conde é o filho eu boto outro no lugar." Seria diferente, por demais malhete nos braços de Arlinda, o conde é filho do ferreiro..."
singular o amor daquele surdo- vozes infantis vibrando de fé, "Não é, mamãe, o conde é gen-
do ferreiro... Teria enriquecido mudo? de conforto. ro do morgado". "F? Vocês
As quadras assumiam o valor
nas viagens e agora se vem vin- de uma sentença inapelavel. Arlinda encontrara Coriola- Depois revê Chico Barriga, vão saber amanhã, quando o At-
gar das aviltações da madras- Coriolano baixava a cabeça, no sentado no meio dos destro- destruindo tudo. roubando-lhe tílio ler o outro folhetim". Re-
ta". "Não, mamãe, o conde é o muito depois a suspendia para ços, vendo tudo a distancia, aauele beijo que ele tão cari- trucava dando-me um tabefe dfl
genro do morgado..." Inter- novamente baixá-la. torcendo qual estivesse a distinguir um nhosamente depositara na tes- carinhoso agradecimento. Tam-
rompia Hermengarda, a mais os dedos. outro mundo povoado por fan- ta da noiva. E uma outra ter- pava uma a cestinha da costura:
velha das irmãs, já sisuda para Arlinda indiferente aos pedi- tasmas. rivel imagem mostra, continua "A benção?" "Deus te abençêe
Levanta-te, Coriolano. mostrando, a janela por onde
as tramas romanescas, "Quem? tirando dos de Coriolano prosseguia: Arlinda saltou, sem omitir com Guardava"Aoutra os cadernos de
a vista do bordado. "O barco está no mar Os olhos a brilhar estranha- nitidez o vermelho das pérsia- música: benção?" Outra le-
Genro do morgado o conde?" mente. Coriolano a observou nas abertas nem a largura do vava o bule de chá e outra cor-
Atalhava Jandyra e o meu espi- o meu, marido pra morrer"
— O pentefino escorrendo-
como se a desconhecesse. peitoril transporta numa fuga ria as cortinas da sala como se
rito folgava com a intromissão 'tindo.Q Coriolano?
que é que você está sen- cautelosa, rapidíssima, de pas- finda a comedia.
faz no teatro, "Deus
de Jandyra no diálogo, pois só lhe as trancas, mansamente às Fale, meu fi- saro, porem áspera p*ara a sua "A benção?" te abençoe .
assim os seus pés deixavam de escondendo como se naquela lho, diga o que é que você têm? sensibilidade sempre retesa.
mansidão ritmasse a cantiga Rezava tia Dodoca a caminho
acelerar a máquina, de costura. aue o vento levava para longe. A voz de Arlinda brota E imagina-se Coriolano um do virtuoso sono que a esperava.
Aquele chiado, arquejo longe, O sabugueiro arqueava, on- mansa, nem sugeria a de uma jardineiro aguando uma rosa Eu dobrava por fim o discutido
que não chegava a partir o fio dulavam os galhos e a brisa pessoa que pudesse trair. Lem- que flutua ao transpor o vão pé de página, com o zelo de nao
taciturno que costurava as ai- brando uma criança travessa, de uma enorme janela.
nao deixava nenhuma folha cercado por cacos de vidro, ro- apagar nas riscas do jornal ne-
mas, refrão da monotonia, antes quietar deado de almanaques rotos, de Depois de aguada a rosa des- nhum daqueles caracteres de ca-
adormentando o ritmo da sala, A pentear-se Arlinda esque- frascos a verter flor de enxo- petala-se e Chico Barriga surge miliana feitura, nédiõs de grayi;
quando cessava dava-me a im- cia a tarde, além dos pedidos fre, Coriolano continuava a mangando como se já estives- dade e vernaculismò. Lá de den-
pressão de carpideiras ofegan- de Coriolano. ver Chico Barriga, reconstituin- se a mangar de dentro das pé- tro vinham-me as vozes de sem;
tes, ofegantes... Limpei o suor talas.
Cheio de ciúme Coriolano in- do os mínimos detalhes daquela
Coriolano, então vê-se pre, oh poesia do pretérito! so
na testa fria e prossegui no en- terpretava a cantiga, vendo-se traição. aos quero assistir à cena da excumu*0
calço do instante em que a hon- como aquele marido da cantiga E um breve instante de lucl- pulos, de novo querendo aguar nhão. Frei Antão não perdoa
do barco, sentindo-se morrer no uma outra enorme rosa, que
ra da esvaída donzela seria pun- dez levou-o até às gavetas, fê- antes de desaparecer pela ja- rapto de Mathilde". Oh poesi»
gentemente vingada. E então esquecimento de um amor In- lo espezinhar os brinquinhos de nela. ondula tal qual os pés de do pretérito! Oh sabor de querl-
oueimava-se a camisa do gás. diferente, frio. ouro, romper nos dentes fitas das lágrimas! Então que abas-
••Nairi" Lá ia a minha prima à de seda, partir voltas que per- Arlinda; semnre aquela Arlinda
Por momentos temia ser en- deram o valor se transforman- sempre aquela sórdida Arlinda tança de filhas, que messe ae
gaveta do aparador onde as deli- ganado. Arlinda defronte da do em pérolas esmagadas- a cantar com uns lábios de bênçãos! Agora o teto desce so-«
cadas mangas de defender a mãe sugeria-lhe a reneticão da prostituta aquela ouadra, cer-
mesma vida desregrada, da pro- Tudo isto num instante. tamente rimada bre mim, apertando a sombra
luz eram arrumadamente guar- o difundida na sombra a cadeira de balanço
genitora. E voltou a sèntar-se entre os por algum cancioneiro que des-
dadas como a roupa branca, e Mas logo Coriolano as sepa- destroços. conhecia o nome real de sua de tia Dodoca ringe, ringe nas
outra vez aclarando-se a ampla rava, submergia todas as sus- Arlinda compreendeu tudo, mãe... tábuas do assoalho, tric, trio,...
sala de refeições, Nair retoma- "Vai-te deitar, menino!" Pareci
peitas e como adivinhasse todos vendo nos olhos de Coriolano a Em levar o farmacêutico pa-
va os lápis de côr, sócios da sua os Rostos de Arlinda propunha- imagem de Chico Barriga, per- ra Recife, decidira-se Padre que de noite os espíritos se séw
imaginação no desenho onde se lhe destruir qualquer coisa cebendo o seu crime estampado Bulhões. tam nas cadeiras de balanço.
Domingo. 17-9-1950 1ETR'AS B "ARTES Página — 9

Haja visto o inicio de sum

NAO arte,
ne dúvida que a poe.
gla, como manifestação
é sempre uma
de
"cons- OS VALORES ESTILÍSTICOS DA "Sugestões do silêncio":
-As idéias todas,
que andaram como aves em re*
trucfto". Nfto basto apenasE' to»'
plraçáo e eeponUneldade.
ÍUsário tombem unir a essae
ne- POESIA DE PAULA ACHILLES convertendo minha vida
em procissão sonora,
[voada

duas virtudes tatrinsecas,«»*¦ele-•


mentos exteriores, nfto pofc
milagre d» forma, há arte
em eu» legitima plenitude. e
JOAQUIM RIBEIRO E' que o poeto tem plena con.
ficção de que a antítese, o con.
Esse encontro de substancia "SUên. traste represento, sem favor, um
em
forma está presente o sugesti.
cio do meu destino", dos grupos consonantais (cr, ei, Imltotlvas. Ele sabe perfeito- fal" o poeto ao dar a Imagem dos elementos mais ricos para
to livro de poesias de Pauta tr, pr) exercem uma função mente invadir o Insondável do da lua, usa, inicialmente, uma a "construção" estética. E por
onomatopaica bem expressiva; subjetlvismo e, nos seus versos, imagem concreto e até mesmo isso deseja para si:
Achilles. "Um pensamento cheio de
O poeto aglutinou, sem aspe- de quando em quando, apela vulgar (sudário albente) para
reza, numa olímpica harmonia, "Zunzuneia, para esse mundo interior até logo em seguida nos apresentar harmonias e contrastes.
essas duas forças poéticas. Não Delira, uma imagem inédito, nova, ori- Que seja a ardênela do sol e
lhe falto inspiração criadora e Alteia, ginalíssima, de sentido emlnen. a brandura dos luares".
¦ náo lhe minguam os conheci- Expira temente subjetivo (clarão de E tem razão, pois, é desse con-
»s| mentos secretos da arte. O canto modulado... uma idéia vaga e remota). Nao flito de Imagens que deriva a
fl fcsse equilíbrio garante aos Refusionada, regia rindo, quero, porém, roubar ao leitor força da verdadeira poesia.
c I seus poemas admirável unidade Contorce, cromatiza, dama. o texto poético a que aludo: ... Achilles, como se vê,
Paula"construir"
estética. Como um trenó de trovas tritu. sabe a sua arte,
"E a iua, branca, esgotada, co. sem perder a inspiração e sem
Nesse livro de poesias, a subs- [rado,
táncia lírica é de tal elasticida. A cigarra, zinindo [mo um sudário albente, atenuar a espontaneidade.
e I de que ocupa todos os versos O estribilho que ao sol tremeluz Olha de cima o quadro e con- "Silêncio do meu destino" é
¦ sem transbordamentos c sem ex. [e proclama! [tlnua espargindo nm livro de ricas sugestões emo-
cessas. Sobre tudo a ilusão merencória tlvas. Agrada a todos como obra
Por outro tado, os valores es- Não é difícil encontrar em [e aguçada de tédio, de poeta, que é, e interessa tom-
tilisticos, que nele aparecem, se seus versos essas sugestões so. Como o imenso clarão de uma bém aos que amam as pesquisas
associam harmonicamente ao noras. Ninguém que conheça os [idéia vaga e remoto. de estética da língua, tão pouco
sentido das sugestões poéticas. •valores estilísticos dos fonemas cultivadas no Brasil, mas que
A caracterização dessa unida, do idioma, ignora o papel das Não resto dúvida que a suges- constituem hoje um dos ramos
"o
I lu / * Jmk |L
de estética atrai, inevitàvelmcn- líquidas para sugerir coisas flui- tão subjetiva do luar como mais apreciados da filologia.
le, a atenção do crítico que das e evanescentes. A "Noite", imenso clarão de uma idéia va- Nesse livro, o estudioso encon-
aprecia a pesquisa interpretati- de Paula Achilles principia as- ^mmr^^^^r ga e remoto" é uma solução trará preciosos materiais para
va. E confesso que a ela não sim: ^LrW^tmmW V^ Aatm mmr
poética ainda não lembrada por esplêndidas digressões Interpre-
posso fugir ao analisar tão for- "Vejo-a, silente, ao longe, en- nossos vates. totivas e o leitor comum, for-
moso livro de poesias. mosos poemas que nos convidam
A poética de Paula Achilles [sombrada na imensa
\W r mm\\ \\\\\ ^m^m\\r^m^m\\\r-
Esse apelo para o subjetivo a sonhar nas coisas belas da vi.
é um convite sutil para essa Solidão do planalto, algemada acompanha a criação do autor da, ainda mesmo quando falam
hermenêutica estilística. [na terra, de "Silêncio do meu destino". de inquietudes e de desespero.
Toda poesia, por sua própria Sentinela do poente, a paisa. No poema "Quando o outono E* uma "catharsis" para todos
Paula Achilles chegou", o último verso filia-se
natureza sonora, lembra um [gem suspensa os espíritos.
cristal que vibra a qualquer to- Do ocaso, ressurgindo o esplen- a essa tendência: E justamente por essa razão
[dor lhe descerra. mesmo quando deseja fixar a
que e que também decompõe o impressão das coisas materiais. MA montanha é como um grito o livro de Paula Achilles tem
espectro numa ciranda de cô- E' essa tendência para o subje- o dom privilegiado de dar a ca-
res. [de saudade" da leitor um pouco da felicida-
tivo um dos seus mais preciosos
Paula Achilles brinca com recursos de originalidade, pois, de desejada.
esses valores auditivos que, em Não podia ser mais sutil a For sua vez, o poeto não se "Silêncio do meu destino" es-
não raro as imagens ligadas a enclauzura nessa orientação, o
todos os tempos, foram motivos sugestão noturna, com a sua uma impressão subjetiva dão ao ta fadado a romper todos os
prediletos de todos os grandes fluidez úmida e ensombrada. leitor de "Silêncio do meu des- que seria empobrecer os seus silêncios, pois, será sempre lem-
E* o segredo do poeta, sempre recursos estéticos. brado pelos que amam a beleza
rapsodos. tino" o contentamento de uma
O seu poema sobre a "Cigar- Identificado a esses mistérios ex- emoção inédita, ainda não ex. Usa também de imagens con. e o secreto mistério das emo-
ra" não esconde essa riqueza pressivos da paisagem. cretas para traduzir impressões ções.
Mas, não há, na poesia de perimentada. subjetivas. É justamente o opôs- E' um livro bom e, só por isso,
de harmonia. Basta citar apenas Logo na sua primeira poesia
esta passagem em que as sili- Paula Achilles, apenas recepti- to do que acima apontamos. vale um comentário.
vidade para essas harmonias intitulada "Ressurreição triun-
Jantes, as líquidas e os efeitos
"Tua beleza, que sabes ve-
SANTA TEREZINHA
do Menino
DEcerca de meia centena de
Jesus ficou POESIA DE SANTA TEREZINHA tar,
Descobre-me todo seu mis-
tério",
poemas, compostos de 1893 a diz éla no "Cântico á Santa
Face". E estes dois versos, de
1897, ou seja, dos vinte aos vin-
te e quatro anos, idade esta
TASSO DA SILVEIRA f,ão simples contextura, nasão mais su-
em que morreu, — idade em ficientes a lançar-nos
¦
que nasceu para a glória éter- le em exclamações sentimentolis- perdida meditação do mistério
.mm na. nha que retornar. Desde a poema La Rosée divine Eou ne- tas aos pés da imagem da do Homem-Deus e de sua di-
vivera sob Lait virginal de Marie.
Situam-se esses poemas em mais verde infância
Ser- le a cantora glorifica, ao lado Virgem, confiantes em que ela vina missão no mundo.
plano muito diferente da tem- poe- o signo da fé profunda. não descuidará nenhum de A Santa Face de Jesus —
lhe-ia difícil, por isto, se hou- do Redentor, a figura da Vir- e miseráveis
sia de grande arte de seu
gem Mãe, Co-redentora. A Jc-
nossos mínimos tenho diante de mim a repro-
po. Terezinha pulsou a lira vera entrado em contato com interesses, é culto que nao dução em gravura de um qua-
na França e no mundo a poesia simbolista de sua ho- sus pede que lhe revele o mis- corresponde á dignidade In- dro pintado no Carmelo de
quando dos toda a amarga tério que o exilou da celeste ontologi-
era sobretudo o canto ra, entender na trinseca, ou melhor, Llsieux, interpretando-a segun-
poetas simbolistas que ressoa- exasperação e toda a estranha pátria. Mas, imaginando-ocomo ca, da que deu sua carne pu- do o santo sudário de Turin,
era ela fei- Cruz, só consegue vê-lo — a Santa Face de Jesus, em
va. E este canto se vazava em embriaguez de que
uma flor aberta que ainda ra para que se tornase posi-
versos e estrofes de extremo ta, toda a obscura ansiedade
conserva o matinal frescor de vel a Redenção. Em face de verdade é um enigma proposto,
requinte artístico. A sensibili- de que as vozes dela se entre- a Maria Santíssima, nossa pos- não á nossa pobre sagacidade
dade, fatigada das velhas fór- teciam. quando, ainda botão, recebia — o tura de alma e de espírito de- intelectual, mas ás mais puras
mas e dos velhos ritmos, e a contudo, vida do divino orvalho ve ser, sem dúvida, de ternu- forças de penetração do divino
Se não conheceu, leite de Maria.
inteligência, desconsolada das essa aflita procura de beleza "Mon Bien-Aimé, mon divln ra infinita, pois que Ela é, em que dentro de nós residam. Ex-
feições que assumia a vida tns- diferente, foi-lhe familiar a verdade, nossa Mãe. Mas sobre- prime ela todo um mundo de
te dos homens quintessência- clássica e romântica. petit Frére, tudo, deve ser de uma infinita transcendente beleza, de abso-
musa
vam o sonho de beleza, trans- Aprendeu a talhar versos e a En ton regard je vois tout compreensão do papel, que ela luta sabedoria e de misericór-
ferindo-se para um universo moldar estrofes de equilíbrio 1'avenir; desempenhou, de Co-Redento- dia infinito, mas sob traços hu-
de puras vivências transcenden- antigo com mestria notável. E Bientôt pour mol tu quitte- ra, — a criatura humana, de maníssimos, que o sofrimento
tes, de símbolos e sonhos lumi- estes lhe bastaram á expres- ras ta Mére; destino único entre as demais ainda deformou. Atravessar
nosos, que só uma música ver- são de sua comoção perpétua criaturas, da qual o Verbo nao esse véu de carne, de contigên-
bal riquíssima poderia traduzir. de Deus. Como já haviam Dejá 1'amour te presse de se pôde disuensar no seu de-a cia, de matéria, para atingir o
Daí, todo o çanto,_ por vezes bastado a "CânticoSão João da Cruz, souffrir! sígnio de dar aos homens sentido interior, o núcleo subs-
hermético e essencial, por ve- em cujo Espiritual", Mais sur Ia croix, ô Fleur plenitude da Salvação. tâncial de realidade divina, é
tes protofônico, de um Rim- não obstante sua cerrada sim- épanouie! No poema inaugural de Te- tarefa para eleitos. Terezinha
baud, de um Mallarmé, de um atravessa-o. Reparai que cia
bologia, outro material não se Je reconnais ton parfum ma- rezinha do Menino Jesus se "tua beleza me revela",
Verlaine, mais tarde de um emprega senão o que ao tem- tinal; contem, como vimos, essa com- não diz:
Rodenbach, de um Maeterlinck, po fornecia ò arsenal do Cias- preensão total. E' claro que Mas, todo sim "tua beleza des-
de um Veraheren, de um Ste- Je reconnais les perles de forma de argumen- cobre-me toda e seu mistério".
siclsmo. Marie: não sob a
fan George, de um Eugênio de — em rit- tacão teológica, Inacessível, ao Essa beleza, Jesus sabe velá-la,
Castro, de um Cruz e Souza... Que pôde fazer, a ne- Ton sang divin c'est le lait tempo â extrema juventude da mas Terezinha lucidamente a
Dir-se-ia que, irmã gêmea da mos gastos, sem recursos
transcendente musica virginal!
que seria depois elevada aos percebe. E, tendo-a percebido,
música e da dança, mas ten- nhuma
em matéria de Considerai que é uma meni- altares. Mas sob a fôrma de interpreta-a, atingMhe a signl-
do-se desprendido, no trrvscnr- de vocábulos, na de vinte anos incompletos vivência pura, de profundo e ficacão oculta, decifra o cnig-
so dos séculos, das duas irmãs poesia, essa criatura angélica, que escreve esses versosdee aten- intuitivo sentimento da glorio- ma.' Por isto canta em segui-
gloriosas, a poesia procurava inexperiente de todas as coisas visão da:
em sua do mundo, experiente apenas tai na profundidade
neles se sa realidade. O que significa: "Ta Face est ma seule ri-
então reintegrar-se teológica-mística que sob a forma de conhecimento
realidade primitiva, recriando do convívio indescontinuo com revela.
a doçura do Cristo c a Tnnda- místico e poético. chesse; •
música e danç aem sua pro- De fato, a menina compre- Je ne demande nen de
pria substância. de Perfeita? Em todos os quarenta e pou-
Pôde — não obstante — co- endia o problema da Virgem cos poemas que Terezinha nos plus. sans
A Terezinha do Menino Je- municar aos que tenham para Mãe, e os motivos do culto de En elle, me cachant
deixou é este fenômeno slngu-
sus passou despercebido esse sua linguagem ouvidos, exa- hiperdúlia que lhe devemos, de lar que sempre se verifica. Cor-
cesse
tumulto de ansiedade da poe- tamente as vivências de éter- maneira muito diversa da ma- Je' te resscmblerai, Jesus!
rendo-os com os olhos, um a
sia nova de seu tempo. Viu-se, nidade e perfeição de lhe que tal neira de cnlender de muitos uni, surpreendemo-nos da den- Laissc en moi Ia divine cm-
depois, que a vertigem simbo- convívio en- devotos de Maria em nossos i)r?intn
indescontinuo "sensib'erie" sidade, da permanência e da
lista significava, sob aparência chia o ser inteiro. dias. A rornânll-
do constância dessa vivência mis- .¦ De tes traits remplis de dou-
muita vez de negação e fuga, ca que constitui a essência
Já no primeiro poemam£an- que lica, que semnre transborda em
exatamente uma sede do ab-
lhe saiu dá pena quase amor à Mãe de Deiis em cen-
expressão ad-oqua da, embora Et bientôt je deviendrai sa^
soluto e do eterno. Viu-se, de- tena«*c. de almas c de frafil alheia a qualquer pesquisa de
pois, que a poesia simbolista tü, acertava ela com os acen- consistência e não satisfaz as
ir''".
••'¦'-—, toi
j'attirerais les co-
prognosticava ò retorno do es- tos definitivos de um conto pu-
teológica- razões suneriores da mental?d-- ritmos virgens e formas excep-
tuxs-"
pirito à crença do transecn- ramente, altamente, de cristã. Desdobrarmo-nos cionais
«lente. Terezinha porém, não ti- mente cristão. Chamava-se o
í

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Domingo, 17-91950
Págin:. — 10 LETRAS E ARTES
Qikuuti MÀwiO Um
\i EDIÇÕES DO MUSEU
DE ARTE
GRAHAM GREENE, GRANDE Atififl!, 0 AUTOR DO CO
O "Museu de Arte" de Suo
Paulo, compreendendo a neces*
ROMANCISTA CONTEMPORÂNEO LOMBO", FOI VISÍADOR
HO BIO
sidade de dar unia maior dl- muito pelo contrário, para os que
vulgacáo às iniciativas de ar- (Conclusão da 3/ pagina) crente, porque é católico. Mas, Araújo Porto
te que vem desenvolvendo em tendo certezas, nem por isso até ao último momento se julga-
exclue da sua obra os que ás ram indignos, para os que, até â Alegre, essa figura do
vários setores, deu inicio ago- ene exerce sobre o leitor não- MANOEL romantismo brasileiro,
ra à publicação de uma serie britânico. Aliando, na su» não têm. Acreditando, nem por derradeira hora, amaram mais
obra, aos dons do mais típico isso ousa vangloriar-se da sua a Deus do que a si mesmos, is- o autor de "Colombo", náo foi
de livros de arte cuja prepara- somente poeta e pintor; desen-
ção confiou à nova casa edito- romancista britânico — o senti- fé e das suas certezas. O des- to é, amaram mais o que os
tino dos seus heróis mais re- transcende do que o que se en- volveu sua atividade nos mais
ra "Haoitat" de São Paulo. do do que é concreto e parti- diversos setores profissionais e
Ainda há pouco saiu do pre- cuiar na expressão da vida —, presentatlvos — o padre de The contra ao alcance da sua fia- artísticos, o que levou Max Fleu-
Io um volume sobre a obra du âa virtudes do mais refinado Power and the Glory e o fun- ca razão.
Sam- casuísmo moral da escola de cionário do The Heart of the Desta vez creio que os conti- iss a chamá-lo de "homem-
pintor italiano Roberto tudo".
bonet, " Massaguassú", com JanscnJos, ci-lo em condições Matter — nâo é o sereno nentnis se náo enganam. Gra-
destino dos bemaventu- Assim ó que Porto Alegre,
pinturas a desenhos realizados excepcionais para dar no goto ham Grcene não é um cquívo-
antes de desempenhar cargos
ao lur.tjj do iitoral paulista do ao leitor eurr.peu ávido de so- rados, que, ainda na Terra, já co, como, segundo os ingleses,
lurões tcolótjicas. para os seus sabem qual, o seu lugar o são um Poe, um Wildc, um diplomáticos na Europa, foi ve-
mesmo nor.ie. O livio que con- reador da Câmara Municipal da
têm 8 reproduções em quedri- conflitos psicológicos. no Céu. Pelo contrário, mi- Morgan, um Huxley ou uma
comia e cerca de 100 em prelo, O desespero é um mal latino, scráveis pecadores, c no meio Rosamond Lchraann. O ro- corte, cargo em que manifes»
dos seus consci- mancista de The Power and the tou extraordinária operoso-
joi prefaciado pelo diretor do c a literatura de hoje não faz pecados,
Museu que o ilustrou com /o- senão exasperar no homem — entes, a todo o momento, da Giory e The Heart of the Mat- dade. Eis aqui alguns dos seus
sua indignidade, humilissimos ter, seja qual for o juízo que múltiplos empreendimentos nes-
tografias tiradas no próprio lu-
mereceu a me- quer latir o quer não — õsse no seu amor de Deus, que a sua sobre êle pese na Grã-Breta- sas fuções: Propôs a criação
gar. O livro já sentimento latente nas almas-
lhor acolhida por parte da cri- vida se nos apresenta como nha, á luz itos valores literá- de escolas industriais para a
que nada de estável e n c o n uma esperança, a nós, que nem rios universais, é, sem dúvida educação de operários, obten-
tica. Já foi lançada também tram à soa roda: o sentimento
uma monografia sobre as "Re- de que quer nesie. aucr no ou- sequer temos a consolação da alguma, um grande rcraanris- do professores gratuitos, sendo
sidéncias" do arquiteto ameri- tro mundok já não há salvação fé — a esperança de que os ta, um dos maiores romancis- ele próprio o prhneiro deles;
Como melhores lugares do Céu náo tas que o mundo tem conhe- e preparou um código de pos-
cano Richard Neutra. possível. Dá-lhe a obra de estão reservados para os que cido depois de Dcstoíevski. teras, sendo de notar que no
próxima publicação está sen- Granam Geeene as certezas
do anunciado um volume só- orgulhosamente ve julgam esco- Caca do Dragão então vigente não se encon-
que ele nâo tem-? Evidentemcn- Ihiclos e orgulhosamente se jul- Cascais travam sequer as palavras ar»
v bre as esculturas de Ernesto te av.c nS'ô'. Só ontem eeçtèáas
de Fiori. falecido em 1945 em os que já acreditarm Granam gam perfeitos no cumprimento 17 de Agosto de 1950. quitetera e arquiteto. Não ha-
São Paulo. Para realização dei- <;to<-iii> icm certezas porque é dos seus deveres religiosos, mas, JOÃO GASPAR SIMÕES via igualmerite uma carta ge-
ta monografia completa sobre a rol da cidade; Poro Alegre
obra do conhecido escultor io- mandou levanta-la. Obrigou
igualmente os proprietários a
ram entregues pela família do
artista numerosas obras reali-
zadas no Brasil bem como do-
UMA CARTA INÉDITA apresentarem desenhos das ca-
sas que deviam construir, pa-
cumentos inéditos a seu resiei- ra se poder constatar se as
to. Está também em prepara-
ção uma documentação critica
DE MAUPASSANT edificações satisfariam os pre-
ceitos higiênicos e arquiteto-
dos quarenta anos de pintura nicos necessários; insistiu mui'
de Lasar Segall. Constará este to para que se abandonasse o
volume d". 200 páginas com HEBDOMADÁRIO fran- ... ' / " ções que modificam um pouco sistema das antigas calçadas;
quarenta ilustrações em cores cês "Les Nouvelles Lit- meu pensamento sobre Balzac. lançou o projeto do aformosea-
e 100 cm preto, avreseniav.ão O teraires", em seu nume- Pois sei, Flaubert o julga intei- mento do Campo de Santana,
a obra pietórica de Segall de ro de 3 de agosto último publi- ramente como eu; admirando- com alas, edifícios e um jor-
1909 a 1949. Serão editados cou uma carta inédita de Guy lhe sob todos os aspectos o ge- dim mourisco, que donominou
vinte e cinco exemplares em de Maupassant nio incontestável, considera-o, Alhambra.
edição especial com encaderna- que aqui re-
contendo cada produzimos em tradução por- não unicamente como escritor Membro de todas as comis-
ção de luxo. imperfeito, mas alguém que soes importantes, foi sempre
exemplar um desenho original tuguesa. Chamamos a atenção ouvido com a maior atenção
do pintor. Haverá também uma dos leitores para as preocupa- não é de todo um escritor. Por
por seus colegas e em tal har-
edição de 100 exemplares nu- ções de Maupassant com as outro lado, dessa maneira o que monia viveu — diz Hélio Lobo
merados. com encadernação de questões de íorma, na qual se digo em seguida de Flaubert, — que, havenão-se despedido
Unho, contendo cada, uma revela o discípulo de Flaubert, não corresponde exatamente ao
litografia original. Está em pre- por moléstia grave, recebeu
um volume cioso de não desgostar o mes- que precede. uma visita pessoal de toda a
paração também Mas o que ele de certo mais Câmara que lhe foi levar um
sobre a obra âo arquiteto Gre- tre. A carta, dirigida a Catille
me censuraria seria a repeti- voto de agradecimento.
gori Warsr.havchik a cargo do Mendes, foi escrita em papel
sr. Geraldo Ferraz que.. Uns- do Ministério da Marinha, on- ção da palavra imense com -#-
trará vinte anos de trabalho de o autor de "Boule de Suif" duas linhas de intervalo. O em-
em arquitetura de vanguarda. foi, durante muito tempo, fun. prego da palavra filie no senti-
Ilustrando as obras em ex- cionário. do de meretriz e sobretudo o FERNANDO PESSOA
posição na pinacoteca do Mu- "Meu caro amigo. último hiato (¦ son ami Ivan'),
seu, estão sendo preparados por causa do nome de Turgue-
opúsculos em formato pequeno, Previno-lhe de que não reee- nef, pois Flaubert é impiedoso (Concíusão da 5.a pág.)
com ilustrações, e documenta- bi nenhum numero de "La Re- nessas coesas e eu já fui muito
ção sobre algumas das telas Lettres". Com repreendido por ele por aigu- da mais seu ponto de vista
main importantes. Assim é que publique des
deverão sair muito cm breve ás prei um que envio a Flaubert: mas repetições e um abuso de conclui Teixeira de Pascoais.
duas primeiras publicações ãa mas como não quero receber a frases incidentes que o pouco _ Em suma, Fernando
série, dedtíwdas re.wectivam.en- reprimenda que ele me dirigi- tempo do que eu dispunha não
te à "Arlesiava" de Van Gorjh ria, infalivelmenbe, estou ansio- me permitiu evitar... Pessoa não foi poeta, porque
e ao "Retrato em Vermelho'* so- para dizer-lhe que vocâ fez, MAUPASSANT i. íoi dotado de um raciocínio
ãe Çêzánne. ãúe fazem parte ão a ultima hora, algumas altera- GUY DE MAUPASSANT"'
"têrvo do Museu. matemático. Ora, a materna-
tica estiliza a poesia e a poe-
&-
sia não pode ser estilizada,

PAUL VAUS», MEU AM1S0 OS MORROS IRMÃOS porque a estilização


mata.
Resumindo essa entrevis-
(Conclusão da 1L° pág:.> ta e respeitando o juízo cri-
GABRIEL DE LU CENA tico de Teixeira de Pascoais
se simplesmente: "Eles estão — cujo grande mérito, como
lhe tornando a glória fácil. Sc A noite pincela de sombras escuras O grito do negro medroso, descrente,
fossem diabólicos, como se SwK O lombo barrento da encosta do morro.., Ordena o.despacho-, a morte, o feitiço... prosador e poeta ninguém
poderiam cobrir-nos .e süspcí- Caminhos mal feitos, em váiios sentidos O "Santo" ronqueja/j corcova, blasfema,
São fios restantes da antiga costurai No morro maldito do fundo do inferno, põe em duvida — não pode-
ções e não saberíamos onde nos
abrigar. Felizmente, .âo eslfl- Que uniam pedaços de tela rasgada, No morro feliz das port¦=•¦«» do céu... mos deixar de ressalvar »
pidos. tintura esquisita, de manchas, burrões, nossa opinião: vemos um la-
Dó morro qiré dorme, que geme, que canta. E quando a madrugada
Por ocasião de uma das ?erl- Do morro-nifsériir. que sofre, qne ama, Recolhe a toalha do festival da noite mentavel exagero nas pala-
mônias que procederam â liber- Do mono maldito do fundo tio inferi* E esconde no mistério do infinito
tação de Paris, encontramo-nos Do morro fettz das portas do céu... As lavandas de prata das estrelas, vras de Teixeira de Pascoais.
de pé, lado a lado, enquanto O negro cansai o da noite, âo samba, Parece-nos que pouca gente
A negra mastiga tabaco melado Descrente da vida, descrente" de tudo,
uma orquestra tocava o hiwo Subindo a ladeira, gemendo, sorrindo... Tem medo de Ogum, do "santo", da morte, há de concordar com essa
das Nações Unidas. Valéry éu-5? De um lado, eía traz a sua filhinha, Mas, desce os caminhos em busca da vida...
vou-sc riara mim. de repente, o O sonho feliz, o crime, o pecado! Ésquec'e da ne.rra, mas gosta do morro, negação dogmática e total
olhar brilhante e disse-me â Do outro, ela olha as sombras da ncite... Do morro maldito do fundo do inferno, de Fernando Pessoa como
meia voz: A vida, c.>sa noite de sombras <3fii: 'as. .„ Do morro feliz das portas do céu. .
—¦ Veja; meu caro, .'mio acon- No alto do morro termina o caminliòi poeta. Se tem havido fana-
*;oT ali A vida do morro c a vida somente,
Qxism dera íindar-se também — A vida pintada de sonoras diversas... tismo na admiração de cer-
tece ! A viria que leva., a vida que £03 {•$;.!
— Sim, tudo acontece .íes- SoiT"udo, sofrendo, cantando toadas; O morro de cá não sobe ladeiras, tos críticos, a verdade é que
No morro maldito do fundo do inferno, Não tem os caminhos pcr-tros. mal feitos...
mo a morte. Podemos meditar No morro feliz das portas do èíu... Tem gente que caoía. tem gente que chora, a poesia desse extraordiná-
sobre esse velho tema. pois Tem çehte rme crê no "aito'', «o Oáuur... rio artista — embora por ve-
continuamos a durar neste O sem do zabumba desperta c s'3v.ncio. O mcr.ro de lá. pintado de sembrasj
Sacc Ir os casebres, acaba erm o ir.antiò .. O morro de cá, piníadó, fsa^Mnr.v. zes desigual — possui um
mundo miserável, .<ue com o de- üô isàgcos se agTupanij começa o )\at"f^uai O icrro d!5£cre sômensé na rri::...
sapareeimenío de Valéry se em- 3'èus oílir-s faisrám csiri medo ds «"Viv.m.. o ]v.t-,co acredita ^m tudo do ivtq. .titulo de mérito inconfun-
v^-.-ern. n a'ma rêr»~;~à; -"TJi2 o púç c-~«!^ n nrcl-o, também, div?l na literatura portugue-
Tá vem a F
~" - — í-1-'- .' > --T--- r*o •¦nferno,
pobreceu 3, ainda aiais, enlenc-
Cvixi'?ao.yj es&uisilo, a, dança o.iiiúa... l.j akin-v.it ieü"ü dp.s ivii*--.-.*»s do cou... ca contemporânea.
breceu.
Pagino - II
Domingo, 17-9-1950 LETRAS E ARTES
'•¦ "-¦ "~ " f
taeão grafica, o discurso que o
NAS CO- Prof. Aloíslo de Castro fe» na
OLEGARIO MARIANO
Academia sobre o Papa Pio II,
RIO DE JOSÉ MARIANO no 50." aniversário da sagração
episcopal. Modelo de eloquen-
comemorações do cen- cia c de pureza vernácula, esse
DIOGENES LAERCIO discurso é uma bela página li-
tenário de José Mariano, terária que honra as letras bra-
ASen» Kecife, singularizaram e como. siletras.
«. por um fato doraro abo. cão, a figura de Domingos sa brasileira, que já teve na Jítllo Dantas. A tarefa de falar
i; o elogio sua obra, grande aqui, na Acsiúemla, coube a
;•; nsta e de no Olímpio, cujo centenário correu Casa de Machado de Assis a!- HOMENAGEM A PEDRO
- «nirlo no dia 15. Cearense como o au- gunias cias suas mais ilustres Carneiro Leão, grande conhe-
STroSaíta tobe. sua heróica e o- tor de "Luiza Homem", o sr. figurars, como Felix Pacheco, ceder da obra e da personalida- CALMON
5c sua ardente, — Gustavo Barroso soube fixar de Constàncio Alves, Vitor Viana. dê de Güsrra Junqueiro, c a
foi
nuenola social e política filho do ex- modo feliz o ambiente em que Fazendo o elogio de Rodolfo cujo elogio deu um brilho admi- No dia da inauguração da no-
& pêlo próprio nasceu c se formou o grande Garcia, o novo acadêmico terá ravel, com a sua nobre e alta va Biblioteca dft Reitoria, no
Vordlnário tribuno da Aboli- escritor, traçando dele um per. oportunidade de demonstrar eloqüência. Imperial Palácio da Unlversidu-
ão Olegario Mariano. E' ia. fll nítido c exalo. suas qualidades tão admiradas de, o ministro Pedro Calmon
emoção com que
!li imaginar a "Cigarras" falou de gosto, lucidez, penetração e OSWALDO ORICO NO RIO será alvo de uma grande c sic-
fníeto dM sobre seu Pai, POSSE DE ELMANO CARDIM equilíbrio, situando.se entre ob nificativa homenagem. Todos
Im Pernambuco ea sua estudiosos mais argutos da nos. A fim de assistir ao pleito de cs servidores da Univeisidadc
dando sobre a sua c vida num sincero sa história política. O discur- 3 de outubro, no qual disputa —• membros dn Conselho Uni.
obra
™ o mais belo, No pro?;imo dia 29 deverá to. so de saudação, em nome da sua eleição a deputado federal versitário, diretores de unida.
Saia fiel dos depoimentos mar posse da cadeira n. 39, na
disto, Olegario Academia, será feito pelo sr. pelo Pará, vem ao Rio o aca- des universitárias, professores,
pessoais. Além ali, ao lado da Academia, o sr. Elmano Cardim Levi Carneiro. dêmico Oswaldo Oríco. que ser- alunos, c funcionários admlnls-
Mariano, reviu que sucede à Rodolfo Garcia. ve na Embaixada do Brasil em trativos, tendo à frente o atual
iuiisapcm cívica da Abolição -- A cadeira n. 39, fundada por
de CENTENÁRIO DE GUERRA Bruxelas. Reitor, professor Deolindo Cou-
tenário da atuação política familiar
Oliveira Lima, tem como patro- Na Bélgica, como na Espa. to, numa demonstração unâni-
Vèu Pai, — a paisagem no Varnaghcn e foi ocupada JUNQUEIRO
nba, Oswaldo Oríco tem pres.
a me de afetuosa gratidão pe-
de sua infância e juventude: as ve-
sucessivamente por Alberto tado altos serviços à cultura los serviços que à Universidade
casa do Pôco da Panela, Recife, os
Faria, Rocha Pombo e Rodol- Celebrando o centenário de brasileira, fazendo conferências prestou o novo Ministro da
lhas ruas amigas dade cidade an-
fo Garcia. Guerra Junquciro, em conso- c publicando livros sobre ho. Educação, se reunirão cm tor.
rios e as pontes O sr. Elmano Cardim, dire. nância com a Academia das Ci.
lugares idi- tor do "Jornal do Comércio"
mens e coisas do Brasil. no do sr. Pedro Calmon, num
tjja todos aqueles tantas
éncias de Lisboa, a Academia
grande almoço. Ess«? almoço s«
jjcos que o poeta soube de tão
e figura de grande projeção nos Brasileira dedicou ao poeta, do
"Os Simples" uma sessão pu. DISCURSO DE ALOISIO DE realizará no Palácio Universi.
tezes evocar em poemas nossos círculos jornalísticos, so.
e envolvente lirismo. Re- ciais e políticos, restaura na blica, no dia 17. Esse mesmo CASTRO tário, c o sr. Pedro Calmon se.
puro rá saudado em nome da Uni-
rendo a sua terra c a sua gente Academia uma singular tradl. dia foi dedicado às comemora, versidade, por designação do
Olegario Mariano recebeu dela ção: a de representação acadê- ções portuguesas de Freixo-de- Acaba de aparecer numa cdl-
Reitor, pelo sr. Peregrino Ju-
jis maiores provas de afetuosa de
mica do velho órgão da impren- Espada à Cinta, falando o sr. ção de elegantíssima apresen- niote
ladmiração, A permanência em Pernam.
Olegario Mariano
buco foi assim pretexto
homenagens as mais
de amizade, de devoção lite-
para
tocantes O CENTENÁRIO DE VISITA DO PREFEITO

O Prefeito, general Ângelo


rária, de apreço pessoal, resul- Mendes de Morais, que tantas
laudo todas elas numa entusi-
ástica e nnànime consagração.
GUERRA JUNQUEIRO provas de apreço c simpatia
tem dado à Academia, visitou
De volta de Recife, demorou- tr:. .r--xmaaK.v. gr- «mi ¦ ¦ ¦ i ¦ —wmmmmmnmmmmm—**"——' tmmmmmmtmmtmmmmmmmmmmmramwmsvmuemmm
quinta-feira última o Pctil
se Olegario Mariano em Salva- "SIMPLES" SOBREPÕE-SE NA POSTERIDADE Trianon, tomando chá com os
ilor. onde recebeu também as 0 LÍRICO DOS AO AUTOR DA acadêmicos. Recebido com a
mais vivas manifestações ^ de «marte DE D. JOÃO* mais cordial deferencia. o ge-
simpatia e admiração dos inte- ncral Mendes de Morais, a
feU^tuais e da sociedade baia- exemplo do que já sucedera com
na. Enfim, uma viagem triun— CENTENÁRIO de Guer- que como satírico na "Musa o General Eurico Dutra, tomou
fal, a de Olegario Mariano ao em ferias" por exemplo, Jun~ chá com os Acadêmicos na sala
Noríe. E dessa viagem deu ele ra Junqueiro, que on- da Biblioteca, conversando de
O tem registrou-se, teria, queiro revela, por vezes, gran-
contas à Academia, com a sua moradamente com os membros
maneira fluente e lírica de nar- decerto, uma comemoração de. talento, embora seu elemen- da Academia.
rar as coisas, na última sessão to mais rico seja o lirismo.
tob o aplauso unânime de seus bem mais efusiva, entre nós,
outros aspectos do T&IS PAPAS NUMA EVOCA-
ronfrades, que o festejaram com se o poeta português continuas- Haveria
ÇÂO ACADÊMICA
grande efusão. É possível que se a desfrutar o mesmo presti- poeta e do artista a focaH-
Olegario Mariano repita na cazar. como suas tendências fi-
Academia a conferência que fez gio que teve até uns quarenta O embaixador Carlos Maga-
em Recife sobre José Mariano. anos atrás. Então ainda exer- losóficas c a repercussão de sua lhães de Azeredo vai fazer uma
cia êle certa influência e seus obra na história política de conferência na Academia. Nes-
sa conferência o antigo embai-
CENTENÁRIO DE DOMINGOS versos viviam na boca de cen- Portugal. Mas esta nota visa xador do Brasil no Vaticano
OLÍMPIO tenas de admiradores. apenas assinalar uma datar que evocaria as figuras dos três úi-
naturalmente, timos Papas, com os Quais con-
Hoje, é preciso reconhecer,, não poderia, viveu no desempenho de sua
Na última sessão da Acade- missão diplomática
Imia o sr. Gustavo Barroso es- já está êle um pouco esqueci- passar despercebida.
Itudou com lucidez e penetra- do, como esquecidos estão os

Ultimas Edições Inglesas Guerra Junqueiro


Letras eAries
DIREÇÃO
"A VOICE THROÜGH A CLOUD" - (Lehmann) - No-
vela póstuma de Denton Weich, a respeito do desastre rodovia-a poetas brasileiros que chegaram DB
rio que sofreu aos 18 anos de idade e que, aos 34, lhe causoumo- a influenciar no começo ão sé-
leitura
morte. O tonus, francamente subjetivo, torna-se dede vigoi: da his- culo. Livros como a "Morte JORGE LACERDA
aotona mas, mesmo assim, é a principal fonte de sensibili- áe â. João", tão lidos outrora,
tória. Ò autor, embora consciente da deformação mo- causando tanto escândalo aqui, COLABORADORES:
dX provocada por sua desdita, demonstra penetração dos
tivos humanos. como em Portugal, atualmente Amoroso
Adonias Filho, Afrànio Coutinho, Alcântara Silveira, Alceu Filho, Álvaro
já pouco nos impressionam- Lima Almeida Fiseher, Almeida Sales.AlphonsusGuimarács Antônio Ban-
Toáa a poesia social ãe Guerra Gonçalves? Anibal Machado, Anor Butler Maciel, .Rangel
«THE GREEK PHILOPHERRS, FROM THAL^S ARISTO- deira Ascendino Leite, AtiUo Milano, Augusto Frederico Schmidt,
anti- Junqueiro passou, como um gê- Auíísto Mever. Batista da Costa, Breno Acioli, Brito Broca, Carlos
TIF» — íMethuen) — Serve esta introdução a filosofia nero falso e luhrido. Ficou o SSmonPde Andrade, Cassiano Ricardo, Cecilia, Mc reles Cbris-
ftgy «ano Martins, Ciro dos Anjos, Clarisse Lispector Claumo T Barbo-
nenhum conhecimento possuem da «"^a-^gre^^t grande artista do verso que La Dalton Trevisan, Damaso Rocha, Dantas Mota, Dinah s. de
titulo com muita clareza e consegue, com êxito, ij^ra
impor
nele prevalecia e, sobretudo, o Euryalo Canabrava, Fernando Ferreira de
Queboz Eugênio Gomes, Ferraz, Gabriel Munhoz da
íancia do pensamento grego cm relação ao ggW LOandl Franklin de Oliveira, Geraldo
na Europa. As teorias da ig™g£g^ lirico. Seu livro mais dura- AocSa^Gueríciro Ramos, Gustavo Barroso, Gilberto Freyre iicrberi
posterior dí filosofia douro é 'Os Simples", onde Paremos Fortes, Ilerman Lima, Jaymeda Adoui da Câmara, João Con-
mais apto, do contraste social, da relatividade efcea, do aíorms J. V Moreira Fonseca, José Lins do Rego,
raízes dé Joaouim Ribeiro,
mo e da dialética hegeliana podem todos encontrar suas encontramos o poeta melo- Jorgede Sna José F. Miranda, Coelho, José Geraldo Vieira José Simeâo
na filosofia antiga. de Josué de Castro, Josué Monteilo
âioso e doce que influenciou Leal José Tavares Ivo, Ligia Fagundes Teles, Louis
Antônio Nobre e no qual. se li- ^onv de Oliveira Machado, Ledo Cardoso, Luiz Jardim, Manuel.
WiznLer, Lopes de Andrade, Lúcio
"FIRST VIEW' — (Faber) — G. F. Grecn, nessa antologia to de Ornelas, Manuel Bandeira, Marcos Konder Reis, Mano dabma
gam, sob certos aspectos, um Murilo Mendes, Novelli Ju-
de contos sobre e para crianças acentua, com 13 g^-s^^|I Teixeira áe Pascoais, um Cor- Brito MMio Qulntana, Marques Rebelo,
de Faria, Olímpio Mou-
cidos, a graduação de experiências que constituem--ao desenvo^
cuja me
Síor Neí Dutrí Newton deOtto Freitas, Octavio
Carpeaux, Paulo Mendes Cam-
vimento da infância. O conto de Denton Welch rêa de Oliveira, um José Re- rão Filho Oliveira e Silva, Maria
Pericles da Silva
mória o üvro é dedicado - tem por fema a crueidad^ Os de nos Paulo Ronai, Peregrino Junior,
o crime, a ren gio, ^aSSÍi. Ronso Massaranl, Corçao, Ribeiro Couto Rodrigo, MgÇ»W,?5«g: F de Ag
*us
mais focalizam o medo, as frustrações, a morte, Roland Corbisiçr, Rosarto
gião e as incertezas adolescentes O autor âa "Morte áe D. drade Rogér Bastide, Rogério
í? 1RÚbem Biaíora, Santa Rosa, Sérgio Milliet, Servulo de S^jáoi
João" resulta ãe uma mescla viô Elia, Svlvio da Cunha, Sônia Regina, Tasso da Silveira, *cm,st0
c es Sha?es, Thiers Martins Moreira, Umberto P^"»°'inVanx^ J
âa ênfase bugoana com o cien- Silva, Wilson Figueiredo.
"HAYDN" - (Del) - Livro que vem *^™gj£M Vicente Ferreira da ??»"*"£""• Sassi £*™ie «.
«ma da série «Master Musicians", pois nao ha naJ^JfJ*.
tificismo revolucoinário ão fim
"Sim- Placer, Haidée Nicolussi, Mietta Santiago, Guido Wilmar
literatura musical inglesa, salvo o livro de 9^m^S^-& do século; o autor ãos Jorge Barroso Filho. j
sum £ôbre Haydn Essa excelente biografia, escrita P0*™***, pies", porém, é bem uma ex- ILÜSTRADORES»
semary Hugues, esboça., de forma viva, porem !imP™' °,.£a2_ pressão tipica ão sentimento,-
ter e a vida do compositor. Ciaro que o espaço nao co.njpo.ta es Alfredo Ceschiatti, Armando Pacheco,_ Athos Bulcão, Marcelo ç
taflo minucioso de tudo que foi escrito some Haydn, mas ocomo se lismo português, reçumando Grassmann Marcier, Fayga Ostrower Iberê
JaWfJ^g* vJL"^nt« Çffl ;
O. Flores, PauJ°
Mosart, bemi uma poesia espontânea c natu- Noemia, Oswaldo Goeldl, Paulo 'kllcn
I dtQOtf relativo à reação recíproca entre ele e em s?, a marca Katzí Percy Deane, Santa Rosa, Van Rogger e
Kcrr.
i;i distinção entre suas obras primas, trazem fal:
«evada tradição da arte de fazer boa enfoca.
Convém ressalvar, no entanto,

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Página — 12 LETR'AS E "ARTES Domingo. 10-9-195

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ilustração ae Santa Rosa

RECOLHI M E N TO (TRADUÇÃO DE GUILHERMI


ALMEIDA)

CUIDADO Ó MINHA DOR, NÃO SEJAS TÃO HOSTIL.


RECLAMAVAS A TARDE; EI-LA QUE VEM DESCENDO:
COBRE A CIDADE TODA UMA TREVA SUTIL,
'A UNS TRAZENDO A INQUIETUDE,
A OUTROS A PAZ TRAZENDO.

ENQUANTO DOS MORTAIS A TURBAMULTA VIL,


QUE O PRAZER, DURO ALGOZ, VERGASTA, VAI COLHENDO
REMORSOS, NADA MAIS, NESSA FESTA SERVIL,
DÁ-ME, Ó DOR, TUA MÃO; VAMO-NOS ESCON DENDO
»

DELES. VEM VER AS VELHAS ERAS DEBRUÇADAS


DAS VARANDAS DO CÉU, EM VESTES ANTIQUADAS;
A SAUDADE A EMERGIR DAS ONDAS, SORRIDENTE;

0 SOL QUE TOMBA E SOB UMA ARCADA SE ANINHA,


E, COMO AMPLA MORTALHA ARRASTADA NO ORlHNTE
OUVE, QUERIDA, A DOCE NOITE QUE CAMINHA.

CHARLES BAUDELAIKK